IGREJA LUTERANA
Revista Semestral de Teologia
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SEMINÁRIO
CONCÓRDIA
Diretor
Gerson Luis Linden
Professores
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luis Linden,
Leopoldo Heimann, Paulo Gerhard Pietzsch, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille
Buss, Raul Blum, Vilson Scholz
Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Paulo F. Flor
Pastor Emérito
Norberto Ernesto Heine
IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de
Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB),
São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Paulo Proske Weirich (Editor), Acir Raymann, Gerson Luis Linden.
Assistência Administrativa
Nara Coelho e Cárin Fester
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana
e Old Testament Abstracts.
Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope com
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Correspondência
Revista Igreja Luterana
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Índice
5
NOTA AO LEITOR
ARTIGOS
A PRÁTICA DA SANTA CEIA NA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL NA TENSÃO ENTRE A
“TEOLOGIA OFICIAL” E A “TEOLOGIA POPULAR”
07
Paulo Gerhard Pietzsch
a importância do catecismo na identidade luterana: aspectos teológicos
e práticos depois de 480 anos
103
Clóvis Jair Prunzel
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 119
DEVOCIONAIS NEM VARIAÇÃO, NEM SOMBRA DE MUDANÇA 195
Gerson L. Linden
o AGRICULTOR é deus! 199
Fernando E. Garske
Igreja Luterana
Volume 68 – Junho de 2009 – Número 1
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Nota Ao leitor
Este número da Igreja Luterana agradece a Deus e aos autores que
tornaram possível esta publicação. Os Auxílios Homiléticos refletem o
esforço permanente de somar diferentes experiências de autores e para
que na diversidade se amplie e aprofunde o padrão da palavra fiel.
Os artigos de fundo deste número buscam o diálogo imediato com a
realidade e a experiência das comunidades. O Prof. Dr. Paulo G. Pietzsch
acedeu ao pedido da revista de oferecer ao seu público um relato condensado da sua tese de doutoramento. Baseada em grande parte numa
pesquisa de campo entre membros da Igreja Evangélica Luterana do
Brasil de uma determinada região, a pesquisa traz interessantes e desafiadoras constatações sobre a relação entre o ensino oficial da igreja e
aquilo que pessoas dizem crer.
O Prof. Clovis J. Prunzel compartilha com os leitores parte do material
que tem pesquisado sobre os Catecismos de Martinho Lutero e a sua atualidade e valor na vida cotidiana do povo de Deus. Os Catecismos, Maior
e Menor, que passam a impressão de, pela simplicidade de linguagem e
abordagem direta do cotidiano, se tornarem página virada na vida das
pessoas após o período do ensino confirmatório, neste estudo passam a
se vestir de contornos novos e inesperados nas pesquisas recentes que
o Prof. Prunzel tem acompanhado e do que, neste artigo, oferece uma
abordagem que obriga à reflexão sobre o uso adequado desse instrumento na vida da família e comunidade cristã.
Com isto, a revista espera vir ao encontro da reflexão que vem sendo
feita por todos que esperam qualificar sempre mais o ensino e a prática
nas comunidades cristãs.
Paulo Proske Weirich
Editor
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ARTIGOS
A
prática da Santa Ceia na Igreja
Evangélica Luterana do Brasil na
tensão entre a “teologia oficial”
e a “teologia popular”
Paulo Gerhard Pietzsch1
INTRODUÇÃO GERAL
A presente pesquisa faz uma comparação entre a teologia aceita e professada oficialmente na Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) acerca
da Santa Ceia e as concepções do povo dessa igreja sobre este assunto. Realiza-se um levantamento das principais concepções sobre a Ceia no âmbito
da “teologia oficial”2 e da “teologia popular”3 da IELB e, depois de comparar
e interpretar os dados levantados, tiram-se as consequências para a prática
litúrgica e pastoral à luz das origens do culto cristão4. Diversas abreviaturas*
são utilizadas no texto para indicar as fontes pesquisadas.
Paulo Gerhard Pietzsch é professor convidado do Seminário Concórdia, na área de Teologia Prática. O trabalho retrata as linhas básicas de sua tese de doutoramento.
1
Por “teologia oficial” o autor compreende o conjunto de conteúdos teológicos reconhecidos e ensinados pela IELB.
2
Por “teologia popular” o autor apresenta o conjunto de concepções teológicas de homens
e mulheres da IELB, pessoas sem instrução teológica formal.
3
Por “origens do culto cristão” entende-se o conjunto das heranças judaicas que tiveram
importância para a prática eucarística da igreja antiga, os principais textos do Novo Testamento e escritos dos Pais Apostólicos até o início do terceiro século A.D. Mais detalhes serão
expostos no capítulo 4.
*
AE – Artigos de Esmalcalde
Apol – Apologia da Confissão de Augsburgo
CA – Confissão de Augsburgo
CMai – Catecismo Maior
CMen – Catecismo Menor
CTCR - Commission on Theology and Church Relations of the Lutheran Church - Missouri
Synod (Comissão de Teologia e Relações Eclesiásticas da Igreja Luterana Sínodo de Missouri)
CTRE – Comissão de Teologia e Relações Eclesiais
FC – Fórmula de Concórdia
FC-DS – Fórmula de Concórdia – Declaração Sólida
FC-Ep – Fórmula de Concórdia – Epítome
ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana
IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
IELB – Igreja Evangélica Luterana do Brasil
LCMS – Lutheran Church Missouri Synod (Igreja Luterana Sínodo de Missouri)
U.I. – Unidade de informação
4
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Igreja Luterana
Objetivou-se com esta pesquisa aprofundar os conhecimentos sobre
a Santa Ceia, conhecer as concepções das pessoas sobre este assunto e
reconhecer tais concepções como manifestações legítimas e relevantes
para a vida da igreja. Igualmente, procurou-se identificar semelhanças
e diferenças entre a “teologia oficial” e a “teologia popular” no âmbito
da IELB e, a partir de um estudo sobre a Eucaristia nas origens do culto
cristão, procurou-se enumerar critérios e elementos imprescindíveis para
a prática da Santa Ceia.
1 A SANTA CEIA NA “TEOLOGIA OFICIAL”
DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL
A Santa Ceia ou o sacramentum sacramentorum5, também denominada de “Palavra visível”6, é considerada pela IELB elemento essencial do
culto dominical por ser um sacramento instituído e ordenado por Cristo,
da mesma forma que o Batismo e a pregação do Evangelho7. Para a “teologia oficial”8 da IELB, a Santa Ceia é uma das grandes dádivas de Deus
para a sua igreja.
1.1 A SANTA CEIA: UM SACRAMENTO
1.1.1 Sacramento
O termo sacramento não se encontra nas Escrituras e não foi cunhado
por Jesus. Significava, originalmente, para os romanos, o juramento que
um soldado fazia ao assumir o seu solene compromisso de defender o Império e de ser fiel ao Imperador. Os cristãos, na Igreja Primitiva, ao renunciarem à idolatria e ao prometerem inteira fidelidade a Cristo por ocasião
do seu Batismo, faziam desse ato o seu sacramentum, termo que passou a
ser aplicado ao próprio Batismo e, mais tarde, também à Santa Ceia9.
SASSE, Hermann. Isto é o meu corpo. 2. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003, p. 28,29;
SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Porto Alegre / Canoas: Concórdia / Editora da ULBRA, 2002, p. 408: palavra de origem latina que significa “Sacramento
dos sacramentos”.
5
SCHÜLER, 2002, p. 476: do latim, verbum visibile. Na Santa Ceia, as palavras de promessa de Cristo ligam seu corpo ao pão e seu sangue ao vinho, por isso ela é chamada de
“Palavra visível”.
6
7
MUELLER, John Theodore. Dogmática Cristã. Porto Alegre: Concórdia, 2004, p. 475.
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. O que cremos. Disponível em: <http://
www.ielb.org.br/cremos.htm>.
8
KOEHLER, Edward W.A. Sumário da doutrina cristã. Porto Alegre: Concórdia, 2002,
p. 146.
9
8
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
Na Apologia da Confissão de Augsburgo, os sacramentos são apresentados como “sinais e testemunhos da vontade de Deus para conosco
(...) são ritos que têm mandamento de Deus e a que se adicionou a
promessa da graça”10. Nessa compreensão, torna-se muito importante a
distinção entre sacramento e sacrifício. Por sacramento entende-se um
rito instituído por Deus, que oferece graça, fortalecimento, perdão e comunhão11. Neste, a palavra de Deus está ligada a um ato concreto e a
meios visíveis, a água no Batismo e o pão e o vinho na Santa Ceia12. No
sacramento, a iniciativa sempre será de Deus.
Os sacramentos não são simples sinais externos para promover comunhão entre os irmãos ou simplesmente para simbolizar algo que Deus
tenha realizado pelas pessoas, mas são meios pelos quais Deus oferece
e garante a sua graça ao ser humano13. Os sacramentos, conforme a
“teologia oficial” da IELB, são o Batismo e a Santa Ceia, pois, além da
instituição divina e do fato de oferecer a graça de Deus ao ser humano,
vêm acompanhados de elementos visíveis e ações concretas14.
O cristianismo centraliza-se na iniciativa de Deus em salvar a humanidade. Este é o testemunho claro, que Deus em Cristo veio salvar
os pecadores. O culto da igreja, por isso, certamente também pode ser
caracterizado da mesma maneira15. A iniciativa sempre será de Deus16,
pois, conforme as palavras de Lutero, “creio que por minha própria razão
ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele, mas
o Espírito Santo me chamou pelo evangelho”17. A própria Igreja é criação
de Deus, pois quando o evangelho é comunicado ou os sacramentos administrados, Deus faz coisas milagrosas. Pelo poder do Espírito Santo, ele
opera através desses instrumentos, fazendo santos dentre os pecadores
ao criar e manter neles a fé em Jesus Cristo. Essa Igreja é chamada e
reconhecida pelo uso do evangelho e dos sacramentos18.
No culto e, de forma especial, na Santa Ceia, Deus vem às pessoas
Apol 13, 1 [LC 223]
10
SCHÜLER , 2002, p. 408.
11
MUELLER , 2004, p. 475-476.
12
Apol 13, 1 [LC 223]
13
MUELLER , 2004, p. 476.
14
COMISSION ON WORSHIP. Reflections on contemporary / alternative worship. St.
Louis: The Lutheran Church Mnod, 1996, p. 2,3.
15
COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 3.
16
CMen, 2 [LC 371]
17
BOHLMANN, Ralph. CTCR. In: Theologians’ Convocation – Formula of Concord. St.
Louis: Concordia Publishing House, 1977, p. 60.
18
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com seus dons de perdão, vida e salvação. A fé recebe estes dons com
agradecimento e louva e exalta o Doador por sua graciosa bondade19. Na
liturgia, os dons de Deus são distribuídos ao seu povo20 através da leitura
e exposição da palavra e através da celebração da Santa Ceia21.
A Santa Ceia não é um sacrifício22 realizado pelas pessoas a fim de
obter méritos diante de Deus, mas é, antes de tudo, iniciativa e ação
perfeita de Deus em Cristo. Hermann Sasse, na sua teologia dos sacramentos, refuta a idéia da missa como sacrifício ao dizer que “devíamos
prestar atenção cuidadosa a esta palavra ‘sacrifício’, a fim de não presumirmos que damos algo a Deus no sacramento, quando é ele quem
nos dá todas as coisas”23. Se há sacrifícios da parte do crente, esses são
denominados sacrifícios espirituais, de louvor e gratidão a Deus por seus
grandes feitos, pois, segundo o autor, o crente aprende que não é ele
quem oferece Cristo como sacrifício, mas Cristo se lhe oferece. É lícito e
proveitoso denominar a missa um sacrifício, não por sua própria causa,
mas porque o crente se oferece a si próprio como sacrifício juntamente com Cristo; isto é, ele apega-se firmemente a Cristo pela fé em seu
testamento e aparece diante de Deus com sua oração, louvor, serviço e
sacrifício pessoal só mediante Cristo e através de sua mediação24.
A “teologia oficial” da IELB (e de igrejas com quem esta mantém “comunhão de altar e púlpito”25) insiste que não são os comungantes, nem
mesmo o ministro, que prepara a refeição: Cristo arrumou a mesa e preparou o alimento. O comungante precisa apenas receber, comer e beber
em fé26. No Novo Testamento, a Igreja como povo sacerdotal de Deus
oferece seus sacrifícios. Essas oferendas, segundo Sasse, são os próprios
corpos dos cristãos, isto é, suas vidas inteiras, orações e confissão de fé e
as dádivas do amor fraternal, que sempre estiveram intimamente ligadas
à Santa Ceia27.
COMISSION ON WORSHIP, 1996, p.3.
19
COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 7.
20
COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 11.
21
SASSE, 2003, p. 75.
22
SASSE, 2003, p. 74.
23
SASSE, 2003, p. 75,76.
24
São igrejas luteranas espalhadas pelo mundo e que mantêm unidade doutrinária com a
IELB.
25
KOEHLER, 2002, p. 165.
26
SASSE, 2003, p. 30-32.
27
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
1.1.2 Verdadeiro corpo e sangue de Cristo
Mesmo que a doutrina da presença real possa ser encontrada nas Escrituras e nos pais apostólicos28, a verdade é que a discussão em torno do
assunto vem à tona no sínodo de 787. Este, ao reconhecer a veneração
de imagens (ícones), incidentalmente rejeitou a resolução do sínodo de
754 que declara que, na igreja, não deveria haver qualquer outra imagem, além dos elementos da Eucaristia. A decisão de 787 pressupunha a
doutrina, e assim se entendeu a questão em toda a parte, que o pão e o
vinho não são imagens, figuras ou símbolos, mas são o verdadeiro corpo
e sangue de Cristo29. O dogma da presença real, no entanto, só foi formal
e firmemente estabelecido em 107930. Parece que nenhum outro mistério
da fé ocupou, tão completamente, não apenas os cérebros dos teólogos,
mas também a imaginação dos leigos31. Para Lutero e seus colaboradores, a doutrina da presença real de Cristo na Santa Ceia, baseada apenas
nas palavras da instituição, ia ainda mais longe: era desde sempre um
artigo da Cristologia32.
Na Santa Ceia, pão e vinho são o corpo e sangue de Cristo33 e, conforme os confessores, em, com e sob o pão e o vinho o corpo e o sangue
de Cristo são oferecidos e oralmente recebidos34. Portanto, a Santa Ceia
é o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, sob o pão e o vinho35 e, porque o corpo e sangue do Senhor são dados no e sob o pão e o
vinho, é que os cristãos atendem à ordem de comer e beber36. A base da
“teologia oficial” da IELB para a sua concepção da Santa Ceia são as palavras da instituição. Essas palavras têm a autoridade da Palavra de Deus
no sacramento. E quando esta Palavra de Deus é unida aos elementos
pão e vinho, ali há um sacramento. Diante desta ênfase é que se afirma
que as palavras da instituição devem ser entendidas em seu sentido pleno e literal, e não de forma simbólica ou sentido metafórico37. Segundo o
HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 1981, p. 131-132.
28
SASSE, 2003, p. 26,27.
29
SASSE, 2003, p. 28.
30
SASSE, 2003, p. 32.
31
SASSE, 2003, p. 83,84.
32
SCHLINK, E. Theology of the Lutheran Confessions. Philadelphia: Muhlenberg Press,
1961, p. 169.
33
FC 7 [LC 613,614]
34
AE 6 [LC 333,334]
35
FC-DS 7 [LC 617]
36
FC-Ep 7 [LC 519]; FC-DS 6 [LC 617]
37
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dogmático John Theodor Mueller, a afirmação da presença real de Cristo na
Santa Ceia “não é propriamente uma ‘interpretação’ das palavras da instituição, mas apenas a simples e sincera apresentação da doutrina bíblica
exposta nessas palavras”38. O pão consagrado e recebido pelo comungante
é o corpo de Cristo e o vinho consagrado e bebido é o seu sangue39.
Na concepção da IELB, na presença real é afirmada a presença de
Cristo com as duas naturezas, especialmente a humana, pois a divina
não estava em discussão. Afirma-se, por isso, que não se trata meramente de uma representação, ou seja, a Santa Ceia não é simplesmente
um símbolo40. O sacramento foi instituído para ser usado. A presença de
Cristo não se dá no altar para ser apreciada ou adorada pelos fiéis, mas
para ser comida e bebida. A Ceia é um ato completo que inicia com as
palavras da instituição e estende-se até o momento da recepção oral dos
elementos41. É importante ressaltar que nenhuma palavra ou conceituação humana podem dar poder ao sacramento42. O poder também não
está nos elementos em si próprios43.
O poder é de Cristo e está nas suas palavras, pois o central na celebração da Santa Ceia é a palavra e promessa do Senhor que a instituiu,
assim que tudo é feito com base em sua palavra. O poder e a finalidade
da Ceia não dependem da fé ou piedade de quem a administra nem da
opinião ou fé de quem a recebe44.
Na “teologia oficial” da IELB insiste-se, pelos motivos supramencionados, no emprego das palavras da instituição da Santa Ceia, as quais “devem ser faladas ou cantadas publicamente, de maneira distinta e clara,
diante da congregação, não se devendo omiti-las de forma nenhuma”45.
A insistência nas palavras da instituição46 decorre da afirmação de Cristo
“isto é o meu corpo e isto é o meu sangue”47.
MUELLER, 2004, p.487,488.
38
SASSE, 2003, p. 87.
39
SEIBERT, Erni. Introdução às Confissões Luteranas. Porto Alegre: Concórdia, 2000,
p. 78.
40
SEIBERT, 2000, p. 79.
41
MUELLER, 2004, p. 494,495.
42
FC-DS 7 [LC 621]
43
KOEHLER, 2002, p. 147.
44
FC-DS 7 [LC 620]; MUELLER, 2004, p. 496.
45
PIETZSCH , Paulo Gerhard. A Eucaristia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil à
luz das origens do culto cristão. São Leopoldo: IEPG, 2002, p. 175, 180, 189, 193 e 200
(Dissertação de mestrado).
46
MUELLER, 2004, p. 496.
47
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
A verdadeira presença real do corpo e sangue de Cristo na Santa Ceia
não é efetuada pela palavra ou obra de nenhuma pessoa, quer seja o
mérito ou a recitação do ministro, quer o comer e o beber ou mesmo a
fé dos comungantes48. Tudo isso, ao contrário, deve ser atribuído unicamente à virtude do onipotente Deus e à palavra, instituição e ordenação
de nosso Senhor Jesus Cristo49. Nem a fé das pessoas, nem o poder do
sacerdócio, nem qualquer influência mágica das palavras pronunciadas,
nem gestos realizados fazem do comer e beber uma Santa Ceia ou sacramento, mas unicamente a instituição e ordem de Cristo: “Fazei isto”50.
A ênfase na presença real pode ainda ser atestada na própria liturgia.
Além do uso imprescindível das palavras da instituição, a Liturgia Luterana51 inclui uma fórmula de distribuição dos elementos aos comungantes,
como segue:
Tomai, comei; isto é o verdadeiro corpo de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo, que é dado à morte pelos vossos pecados. (...) Tomai,
bebei; isto é o verdadeiro sangue de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo, que é derramado para remissão dos vossos pecados.52
As palavras dessa fórmula de distribuição ecoam as palavras do Catecismo Menor, de Lutero53 e, ao mesmo tempo, são uma reação à doutrina reformada da representação54. O assunto também recebe ênfase na seguinte
oração geral da Igreja: “Concede o teu Espírito Santo a todos os que participam da Santa Ceia hoje para que recebam o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Jesus Cristo em sincero arrependimento e fé confiante”55.
Finalizando a explanação acerca da presença real, vale destacar que
esta também foi destacada no “Diálogo Interluterano – IELB e IECLB56
– sobre a celebração da Santa Ceia”57. Ambas as igrejas concordam que
CMai [LC 488]
48
MUELLER, 2004, p. 494.
49
SCHLINK, 1961, p. 159-162.
50
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Liturgia Luterana. Porto Alegre: Concórdia, 1961.
51
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, 1961, p. 19.
52
CMen 6 [LC 378].
53
SASSE, 2003, p. 184.
54
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 113
55
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
56
IELB e IECLB. Diálogo Interluterano sobre a celebração da Santa Ceia. Porto Ale-
57
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a presença real do corpo e sangue de Cristo se dá em, com e sob os
elementos do pão e do vinho, e que são recebidos pelo comungante ao
comer e beber58. Como acontece essa presença real de Cristo na Santa
Ceia é assunto a ser exposto a seguir.
1.1.3 União sacramental
Várias têm sido as tentativas humanas de explicar como se dá a
presença real de Cristo na Santa Ceia59. Para a Igreja Católica Apostólica
Romana60 isto acontece através da transubstanciação61, quando na consagração do pão pelo sacerdote toda a substância do pão é transformada
em corpo de Cristo, e na consagração do vinho toda a substância do vinho é transformada em sangue de Cristo:
No Sacramento da Eucaristia não permanece a substância do pão e
do vinho juntamente com o Corpo e o Sangue do Senhor Jesus, mas
se efetua uma admirável e singular conversão de toda a substância
do pão no Corpo e de toda a substância do vinho no Sangue, permanecendo apenas as espécies do pão e do vinho, conversão que a
Igreja com suma propriedade chama de transubstanciação. 62
Neste caso, para os católicos, apenas as aparências do pão e do vinho permanecem. Tal dogma, aprovado no Concílio Lateranense (1215),
foi novamente afirmado no Concílio de Trento (1546-1563)63.
Até 1519, Lutero entendia a presença real da mesma maneira que a
doutrina oficialmente reconhecida na época, ou seja, a transubstanciação.
Mais tarde, no entanto, após profundos estudos e reflexão à base das Escrituras, percebeu que tal concepção não poderia ser aceita por alguém
que defendia o Sola Scriptura, Sola Gratia e Sola Fide64. Nos Artigos de
Esmalcalde, Lutero assim se pronuncia sobre a transubstanciação:
gre / São Leopoldo, 2001.
IELB e IECLB, 2001.
58
MUELLER, 2004, p. 487,488.
59
A abreviatura é ICAR.
60
SCHÜLER, 2002, p. 461,462.
61
KLOPPENBURG, Boaventura. A Eucaristia no Concílio de Trento. Revista Eclesiástica
Brasileira, Petrópolis, ano 54, fasc. 257, p. 135-143, 2005.
62
KOEHLER, 2002, p. 157.
63
SASSE, 2003, p. 85-87.
64
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
No que concerne à transubstanciação, temos em nada a sutil sofistaria de ensinarem que pão e vinho abandonam ou perdem sua
substância natural, ficando apenas a aparência e cor do pão, não
pão verdadeiro. Pois harmoniza-se perfeitamente com a Escritura
que o pão esteja e permaneça presente. O próprio São Paulo assim
lhe chama: ‘O pão que partimos’ [1 Co 10.16], e: ‘Assim coma do
pão’ [1 Co 11.28].65
Na Fórmula de Concórdia, os confessores apresentam o que no seu
entender deveria ser refutado na doutrina da ICAR concernente ao sacramento:
(...) rejeitamos e condenamos (...) a transubstanciação papista,
quando se ensina no papado que o pão e o vinho na Santa Ceia
perdem a sua substância e essência natural, sendo reduzidos a nada
de modo tal, que são transmutados para o corpo de Cristo, permanecendo apenas a espécie externa.66
A transubstanciação, segundo o reformador Lutero, era uma tentativa
filosófica de explicar o milagre da presença real; no entanto, nunca esse
erro foi colocado no mesmo nível da retenção do cálice aos leigos67 ou do
sacrifício da missa. Enquanto esses erros, para Lutero, destroem o sacramento, a transubstanciação seria apenas uma tentativa equivocada de
explicar o milagre da presença real68. Muitos entendiam que ao sacerdote
cabia o poder para transformar os elementos visíveis em corpo e sangue de Cristo69. A objeção da parte dos reformadores era que “quanto à
consagração, se crê, confessa e se ensina que obra nenhuma de homem
nem a recitação efetuam essa presença do corpo e sangue de Cristo na
Santa Ceia; isso, ao contrário, deve ser atribuído única e exclusivamente
à virtude onipotente de nosso Senhor Jesus Cristo”70.
Enquanto a ICAR permanece com o dogma da transubstanciação, as
AE 6 [LC 334,335]: Lutero chama a transubstanciação de “fantasia de São Tomás e do
Papa”.
65
FC-Ep 7 [LC 521]
66
SASSE, 2003, p. 87.
67
AE 3, 6 [LC 334]
68
MUELLER, 2004, p. 487.
69
FC-Ep 7 [LC 519,520]
70
15
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igrejas zwinglio-calvinistas71 aceitam que pão e vinho naturais estão presentes no sacramento72. Mas quanto às expressões de Cristo “isto é o
meu corpo” e “isto é o meu sangue”, interpretam-nas em sentido figurado. Para os zwinglianos e para os calvinistas, “pão” significa o corpo.
A forma com que se interpretam as palavras de Cristo “isto é o meu
corpo e isto é o meu sangue” também determinará a posição doutrinária
frente ao sacramento. Lutero as interpretou de forma literal, ou seja,
“cremos que pão e vinho na Ceia são o verdadeiro corpo e sangue de
Cristo”73. O mesmo posicionamento é mantido pelos confessores na Fórmula de Concórdia: “Cremos, ensinamos e confessamos que na Santa Ceia
o corpo e sangue de Cristo estão verdadeira e essencialmente presentes e
são verdadeiramente distribuídos e recebidos com o pão e o vinho”.
A afirmação seguinte é ainda mais direta ao afirmar:
Cremos, ensinamos e confessamos que as palavras do testamento de Cristo não devem ser entendidas de nenhuma outra maneira
senão em seu sentido literal, de tal forma que o pão não significa o
corpo ausente e o vinho o sangue ausente de Cristo, mas em virtude
da união sacramental são verdadeiro corpo e sangue de Cristo74.
Outra tentativa de explicar a presença real de Cristo é conhecida por
consubstanciação:
O corpo e o sangue de Cristo unem-se aos elementos comuns sem
que estes deixem de ser pão e vinho. Embora esta teoria seja menos passível de objeção, a idéia de substância ainda está presente,
ocultando a presença ativa de Cristo. A teoria da consubstanciação
tornou-se parte da teologia luterana nos séculos posteriores à Reforma. É de notar-se, contudo, que a palavra não é encontrada nos
escritos de Lutero. Sua constante ênfase na presença real de Cristo
vivo e ativo era incompatível com o conceito de substância75.
A IELB não ensina a consubstanciação, teoria segundo a qual o pão e
SCHÜLER, 2002, p. 245.
71
KOEHLER, 2002, p. 157.
72
AE 3, 6 [LC 333] e CMai [LC 487] .
73
FC-Ep 7 [LC 518,519].
74
SCHÜLER, 2002, p. 130: “No fim da Idade Média, em oposição à teoria da transubstanciação, foi proposta a da consubstanciação.”
75
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o corpo formam uma só substância. Ou que o corpo está presente como o
pão, de maneira natural. Também não ensina a impanação, que significa
estar o corpo de Cristo localmente incluso no pão76. Rejeita-se, portanto,
a afirmação de que a presença real implicaria uma inclusão local ou consubstanciação77, pois
essa ordem “comei e bebei” não pode ser entendida senão como
relativa ao comer e beber orais. Não, todavia, de modo grosseiro,
carnal, senão que de maneira sobrenatural, incompreensível78.
Se Cristo está presente no sacramento, que tipo de presença é essa?
Esse assunto já foi problema para teólogos da Idade Média, conforme
supracitado. As Confissões Luteranas, como se viu, definem de forma
mais ampla o modo da presença do Senhor em termos negativos. Negam
a teoria da transubstanciação. Negam a mudança de essência, tanto dos
elementos terrenos quanto dos celestes. Condenam o confinamento local
para o corpo e sangue de Cristo nos elementos terrenos. Elas condenam
qualquer tipo de interpretação que sugira uma ausência real do corpo e
do sangue do Senhor. Afirma-se a presença real. A pergunta, então, passa a ser: como essa presença é possível?
Defende-se, com base em Paulo79, e nos relatos da instituição, que quatro coisas estão real e verdadeiramente presentes na Santa Ceia: pão e
vinho, corpo e sangue de Cristo. Tal fenômeno é denominado de “união
sacramental”80. Não se trata de uma união natural física ou local dos elementos, mas “supernatural”. Esta só acontece durante o ato sacramental81.
Na “teologia oficial” da IELB, considera-se a união sacramental entre
o pão e o corpo e entre o vinho e o sangue tão real e íntima que, no ato
sacramental, o comungante recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro
sangue de Cristo, em, com e sob o pão e o vinho. O pão e o vinho, na
verdade, de modo natural, contudo o corpo e o sangue, de modo sobrenatural, incompreensível82.
KOEHLER, 2002, p. 161.
76
MUELLER, 2004, p. 494.
77
FC-DS 7, 64 [LC 622]
78
1 Co 10.16: “Porventura o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do
sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?”
79
FC-Ep 7, 15 [LC 520].
80
KOEHLER, 2002, p. 160.
81
MUELLER, 2004, p. 494.
82
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Quando essa presença real ou união sacramental acontece? Os livros
simbólicos do luteranismo não discutem o momento em que essa união
sacramental inicia ou termina, com exceção da afirmação que se encontra na Fórmula de Concórdia, de que ela não acontece à parte do uso
instituído do sacramento, ou seja, a consagração, com a autoridade das
palavras da instituição, a distribuição e a recepção oral83. Na Santa Ceia,
o pão e o vinho são o corpo e o sangue de Cristo. Para que haja a união
sacramental é necessário que os elementos naturais sejam realmente
distribuídos e recebidos efetivamente pelos comungantes, “pois que a
união sacramental se dá somente no ato sacramental e não fora dele”84.
Por isso não se aprovam as procissões da hóstia (corpus Christi) por considerar tal ato idolatria.
A união sacramental não é realizada pelo ato de o pastor consagrar
o pão e o vinho, mas verifica-se apenas no pão e no vinho que se come
e se bebe e enquanto são comidos e bebidos. A união sacramental, por
isso, cessa com o ato sacramental; ela não continua para além do comer
e beber.
1.1.4 Os elementos da Santa Ceia
A importância atribuída aos elementos da Santa Ceia na “teologia oficial”
da IELB ecoa a ênfase que Lutero conferiu ao uso das duas espécies85 no sacramento. Ao escrever “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”, Lutero relaciona
diversos “cativeiros” aos quais o sacramento foi submetido. Justamente o
“primeiro cativeiro desse sacramento”86 refere-se à prática da ICAR, que por
volta dos séculos XII e XIII passou a administrar o sacramento aos leigos
apenas sob a espécie do pão87. O luteranismo, desde o século XVI, tem-se
manifestado na defesa do direito dos leigos também ao cálice:
Aos leigos são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento,
porque é clara a ordem e mandamento de Cristo em Mt 26. [27]:
‘Bebei dele todos’: Cristo aí ordena com palavras claras, a respeito
do cálice, que todos bebam dele.88
FC-Ep 7 [LC 520, 523]
83
MUELLER, 2004, p. 492.
84
CMai [LC 432].
85
LUTERO, Martim. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. São Leopoldo: Sinodal, 1982, p.
23-24.
86
SCHÜLER, 2002, p. 124.
87
CA 22 [LC 41]
88
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Lutero desejava uma reforma também na Santa Ceia, pois considerava a comunhão sub una specie pecaminosa, pois contradizia a ordem de
Cristo. Argumentava-se em favor da comunhão sob as duas espécies, pois,
além das palavras da instituição e ordem expressa de Cristo, a prática registrada nas Escrituras foi observada na igreja durante séculos89. O artigo
não indica exatamente quando a mudança foi feita. Aparentemente esta
já vem desde o séc. XII, pois em uma carta dirigida aos boêmios o cardeal
Cusano90 afirma que a suspensão aos leigos vem desde o Quarto Concílio
de Latrão (1215)91. Na Apologia da Confissão se afirma que as duas espécies na Santa Ceia pertencem a toda a Igreja92. Por isso, o cálice jamais
deveria ser negado aos leigos. Sendo os elementos terrenos no sacramento pão e vinho, espera-se que todos os comungantes recebam ambos93.
As confissões não especificam o tipo de pão ou vinho. Historicamente,
todavia, os luteranos desejaram depreciar a simbólica associação do pão
ao corpo de Cristo e, especialmente, do vinho tinto ao seu sangue, a qual
poderia dar a impressão que o corpo e sangue de Cristo estavam sendo
meramente simbolizados com pão e vinho. Por esta razão se manteve a
hóstia e se deu preferência ao vinho branco ou âmbar, ao invés do vinho
sacramental vermelho94.
A Santa Ceia tem elementos visíveis que lhe são próprios. De acordo
com a CTRE, uma analogia com o Batismo pode ser feita. Assim como a
igreja não tem o direito de mudar o elemento usado por Cristo – a água
– no Batismo, também não pode fazer em relação aos elementos:
Manter o pão e o vinho na Santa Ceia não é fundamentalismo, mas
simplesmente fidelidade à instituição do Senhor. Quanto aos elementos, Mt 26.26, Mc 14.22, Lc 22.19, 1 Co 10.17,17; 11.23 falam
que Jesus tomou ‘pão’ (artos). Mt 26.29, Mc 14.25 falam em fruto
da videira (genematos tes ampelou), referente ao cálice (poterion)
– Mt 26.27, Mc 14.23; cf. Lc 22.20; 1 Co 10.16; 11.25.95
SEIBERT, Erni. Introdução às Confissões Luteranas. Porto Alegre: Concórdia, 2000,
p. 77,78.
89
90
SCHÜLER, 2002, 163.
SEIBERT, 2000, p. 78.
91
AC [LC 250,251]
92
FC-Ep [LC 523]; FC-DS 7 [LC 633]
93
LEHENBAUER, Oscar. O culto principal. Igreja Luterana, São Leopoldo, vol. 51, n. 2, p.
89-92, 1992.
94
LINDEN, Gerson L. Aspectos quanto à administração da Santa Ceia. Igreja Luterana,
vol. 60, n. 1, p. 10-11, 2001.
95
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Vale destacar que a expressão cálice refere-se ao vinho e que Jesus
utilizou-se do vinho por ser essa exatamente a bebida usada na celebração da páscoa. “Vinho é, pois, legitimamente, o referente para a expressão ‘fruto da videira’, no relato da instituição da Santa Ceia”96.
Os adversários da Reforma luterana, segundo a Apologia da Confissão de Augsburgo97, eram incapazes de apresentar qualquer argumento
com base nas Escrituras para abandonar a ordem e prática do uso dos
dois elementos. A opinião dos reformadores era que a única base para o
abandono ou negação de uma das espécies aos leigos era a preferência
humana e a ambição dos sacerdotes98.
Ainda sobre a questão dos elementos externos da Santa Ceia, surge
a discussão a respeito da forma de distribuição de ambas as espécies.
Uma prática antiga99 é a da intinção, que é o ato em que o ministro, na
Santa Ceia, molha ou coloca o pão ou a hóstia, ou fração deles no vinho
para então dá-lo ao comungante100. A CTRE, após referir-se à Fórmula de
Concórdia101, declara que não existe sacramento fora do uso divinamente
instituído102. Diz ainda que, para se ter verdadeiramente a Santa Ceia, é
necessária a presença dos elementos usados por Jesus: o pão103 e o vinho104. A intinção, como alteração do comer e do beber105, foge do padrão
do uso instituído. Mesmo que possam ser listados vários motivos, tais
como a impossibilidade de tomar vinho, racionamento de vinho ou, o que
é mais problemático, a crença de que, derramando o vinho, estar-se-ia
derramando o sangue de Cristo que teria surgido de uma transubstanciação, tal prática não se justifica106.
LINDEN, 2001, p. 11.
96
AC [LC 250]
97
AC [LC 250-253].
98
SCHÜLER, 2002, p. 253.
99
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 13.
100
FC-DS 7 [LC 622-625]
101
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 13.
102
Não importando o tipo de pão, pois Jesus não o especificou, conforme relatos dos evangelhos e de Paulo.
103
Não importa, igualmente, o tipo de vinho, pois Jesus também não o especificou, conforme relato dos evangelhos e de Paulo.
104
Vejam-se os relatos da instituição da Ceia nos evangelhos e em 1 Co 11.
105
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 13.
106
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O parecer da CTRE, aprovado pela 53ª Convenção da IELB107, é de
que nenhum dos motivos supracitados justifica a prática da intinção, pois
a Santa Ceia não é o único meio da graça. Não é a sua falta que condena,
mas o seu desprezo, o que seria o mesmo que desprezar o evangelho.
Onde não há vinho, ou mesmo onde se entende que não se deva tomar
vinho por motivos clínicos, não haverá Santa Ceia. A pessoa será consolada, perdoada e crescerá na fé pelo anúncio do evangelho108. A intinção,
portanto, pelo fato de não corresponder à instituição do comer e beber,
não é recomendada pela “teologia oficial” da IELB109.
1.2 A SANTA CEIA: SEUS BENEFÍCIOS
Quando se afirma que os sacramentos são “sinais e testemunhos da
vontade divina para conosco”110, está-se dizendo que estes são meios
pelos quais Deus está transmitindo, comunicando e concedendo à pessoa batizada e ao comungante as bênçãos espirituais prometidas nas
palavras da instituição: perdão, vida e salvação111. Os sacramentos são
necessários à Igreja, pois não são meros sinais, cerimônias ou ritos vazios, mas agem nas pessoas que deles participam, conforme as palavras
e promessas de Deus112. Aquele que crê nestas palavras, mediante a fé
tem o perdão de todos os seus pecados, é um filho da vida e já triunfou
sobre o inferno e a morte113. Por isso, a Santa Ceia foi instituída com a
ordem de ser celebrada sempre. Através de sua nova refeição de libertação, instituída para ser celebrada frequentemente, o Senhor Jesus liberta
a humanidade da escravidão espiritual do pecado. É ele quem liberta as
pessoas da maldição dos seus pecados e da condenação eterna que elas
merecem114. Lutero, ao tratar das finalidades e dos benefícios da Santa
Ceia, pergunta e, ao mesmo tempo, indica a resposta:
São Leopoldo, 1996.
107
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 14.
108
Não se discute se o corpo e sangue de Cristo podem ou não estar presentes numa intinção. O que se argumenta é que tal prática foge ao uso instituído.
109
KOEHLER, 2002, p. 147.
110
BECK, Nestor L. et al. Confissão da esperança. Porto Alegre: Concórdia, 1980, p. 93.
111
MUELLER, 2004, p. 495.
112
SASSE, 2003, p. 90.
113
MUELLER, 2004, p. 477.
114
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Que proveito há nesse comer e beber? – Resposta: Isso nos indicam
as palavras: ‘Dado em favor de vós’ e ‘derramado para remissão
dos pecados’, a saber, que por essas palavras nos são dados no
sacramento remissão dos pecados, vida e salvação. Pois onde há
remissão dos pecados, há também vida e salvação115.
O dom peculiar da Santa Ceia é, por conseguinte, na exposição de
Lutero e também na “teologia oficial” da IELB, perdão dos pecados, vida
plena e salvação, ou seja, precisamente a mesma bênção que o evangelho transmite em geral, e o Batismo em particular. O Batismo oferece o
perdão dos pecados pela aplicação da água. A Santa Ceia pela recepção,
por parte do comungante, do corpo e sangue de Cristo em, com e sob o
pão e o vinho116. Edward Koehler ressalta, porém, que o perdão e a graça
não são oferecidos em porções, ou seja, uma parte na palavra do evangelho, outra no Batismo e outra, por fim, na Santa Ceia:
O perdão dos pecados nos é dado no sacramento, não no sentido de
que antes não hajamos tido perdão. O crente tem perdão enquanto
crê. Também não recebemos novo suprimento de perdão toda vez
que nos aproximamos da mesa do Senhor. (...) Ou temos perdão de
todos os pecados, ou não temos perdão algum. Ou estamos na graça
de Deus, ou não estamos. Também não há diferença no dom, seja
ele oferecido no Batismo, na Ceia do Senhor ou no evangelho. Mas
há diferença na maneira em que se nos assegura e confirma esse
dom da graça. Na Santa Ceia, Cristo trata com o comungante individual e pessoalmente e lhe sela sua promessa de graça e perdão117.
A Santa Ceia tem o poder de conferir graça e perdão, conforto e
consolo, vida e fortalecimento para a fé, porque são esses os dons conquistados por Cristo, que a instituiu, com sua morte na cruz118. Com o
“está consumado” (Jo 19.30), todos esses benefícios foram conquistados
por Cristo para toda a humanidade e estão à disposição desta, mas são
conferidos através da palavra da salvação e, de forma especial, através
da Santa Ceia aos que crêem na palavra de Cristo119. Isto é atribuído
CMen [LC 379]. Na CA 13 [LC 34]
115
MUELLER, 2004, p. 499.
116
KOEHLER, 2002, p. 165.
117
KOEHLER, 2002, p. 165.
118
CMai [LC 489].
119
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unicamente ao grande poder de Deus e à palavra, instituição e ordenança do Senhor Jesus Cristo. Pois as verdadeiras e poderosas palavras de
Cristo que ele falou na primeira instituição não foram eficazes apenas na
primeira Ceia. Elas conservam sua validade, poder e eficácia em todos os
lugares em que a Ceia é observada de acordo com a instituição de Cristo
e onde suas palavras são usadas 120.
A Santa Ceia não apenas traz benefícios à vida dos comungantes,
mas também, e especialmente, produz consequências na vida das pessoas. Essas consequências serão destacadas na secção seguinte deste
capítulo.
1.3 A SANTA CEIA: SUAS CONSEQUÊNCIAS
1.3.1 Crescimento no amor a Deus e ao próximo
Diferentemente da seção anterior, que tratou dos benefícios da Santa Ceia ao próprio comungante, aqui tratar-se-á das consequências do
Sacramento na vida cristã santificada. Aqui não se pergunta: “O que eu
ganho com isso?”, mas “O que eu posso fazer ou como vou agir a partir
da participação na Ceia?”
Se a participação da Santa Ceia apenas trouxesse benefícios ao próprio comungante, o motivo de sua participação poderia ser considerado
egoísta.
Quando o pecador está seguro da graça de Deus para consigo, sua
atitude muda. Mueller, fazendo referência a 1 Jo 4.19, enfatiza que se
os cristãos podem amar, é porque Deus os amou primeiro. Isso expressa
a sua atitude, a sua resposta a Deus121. No sacramento, Deus manifesta seu amor incondicional e imutável às pessoas, apesar das ofensas e
repetidos erros que elas cometem. Mesmo onde o pecado acontece reiteradamente, incansavelmente Deus assegura a sua graça perdoadora.
Como o pecado esfria o amor, mesmo na vida dos cristãos, a participação
da Santa Ceia serve para aquecer o coração no amor divino122, pois na
Ceia Deus abre às pessoas seu coração amoroso. Este amor de Deus, na
verdade, faz com que o cristão se disponha a viver uma vida piedosa123,
pois a fé atua pelo amor124. No sentido vertical, Mueller menciona, como
SCHLINCK, 1961, p. 156-157.
120
MUELLER, 2004, p. 501.
121
KOEHLER, 2002, p. 170.
122
MUELLER, 2004, p. 500.
123
Gl 5.16.
124
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conseqüência da Santa Ceia, o fortalecimento da fé, o aumento do amor
a Deus e a união com Cristo125.
Até aqui, as consequências apontadas acontecem mais no sentido
vertical, fortalecendo a relação da pessoa com Deus, na piedade, na
gratidão e no amor para com a sua palavra e a sua obra. Há, no entanto, também, consequências horizontais da participação na Santa Ceia.
Quando, em fé, se participa da Santa Ceia, há um fortalecimento do amor
fraternal126. Na vida, há diferenças sociais também entre os cristãos. Mas
sempre que as pessoas se aproximam da Mesa do Senhor, cessam essas
diferenças. Diante do altar, ninguém pode exaltar-se acima do outro e
ninguém pode pensar que é melhor do que o próximo127. O fato de serem todos igualmente culpados128 diante de Deus e igualmente carentes
da sua graça, induz o cristão a esquecer as diferenças e a se aproximar
mais do seu semelhante. À falta do sacramento é atribuída à timidez no
demonstrar maior clemência, bondade e caridade de uns para com os
outros. Pela frequência à Santa Ceia, o cristão também é lembrado129 que
“mesmo sendo muitos, todos comemos do mesmo pão, que é um só; e
por isso somos um só corpo”130.
Com grande humildade e gratidão o crente aproxima-se da mesa cujo
anfitrião é o Supremo Perdoador e partilha de seu corpo e sangue, purificadores de pecado. Uma vez preenchido com ele, o comungante deve,
por sua vez, ser como ele. Seguindo o exemplo de Cristo, o crente também perdoará àqueles que pecam contra ele131.
O amor a Deus e ao próximo é consequência da comunhão com Cristo na Santa Ceia. Através da comunhão com Cristo pode-se crescer na
vida diária, crescer no amor a Deus, na gratidão e na compreensão de
tudo o que Deus oferece ao crente cada vez que este participa da Santa
Ceia132. No amor ao próximo, a pessoa cresce quando está consciente do
que significa participar da Santa Ceia. A pessoa cristã, ao participar da
Ceia, não se contenta simplesmente em conhecer o que é certo e o que é
MUELLER, 2004, p. 501.
125
CMai, 4 [LC 488]
126
KOEHLER, 2002, p. 170.
127
Rm 3.23.
128
KOEHLER, 2002, p. 169.
129
1Co 10.17.
130
KOEHLER, 2002, p. 166.
131
MUELLER, 2004, p. 501.
132
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errado133. Ela compromete-se a viver e agir correta e coerentemente em
toda a sua vida diária134.
A seguir, mostrar-se-á que, tanto a participação quanto as consequências desta devem perpetuar-se por toda a vida dos cristãos e em
toda a vida da Igreja.
1.3.2 Em memória de Cristo até que ele venha
Até o seu retorno visível, a presença invisível de Cristo na Santa
Ceia quer lembrar e capacitar os crentes a irem ao encontro daqueles
que ainda não fazem parte do seu corpo. Assim como os primeiros
cristãos referiam-se à Ceia como alimento dos peregrinos durante a
jornada em direção ao seu verdadeiro lar e como alimento da imortalidade, Jesus Cristo vem ao crente em cada Santa Ceia para fortalecer
a fé para a jornada e para dar esperança de uma vida que é eterna135.
No final da sua última Ceia, Jesus disse aos apóstolos: “Em verdade
vos digo que jamais beberei do fruto da videira até aquele dia em que
o hei de beber, novo, no reino de Deus”136. A promessa dos mensageiros de Deus no dia da ascensão de Cristo ao céu lembrava que “esse
Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes
subir”137. No entanto, o mesmo Cristo, antes de se despedir dos seus,
declarou: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do
século”138.
A ordem de Cristo “fazei isto” se refere ao que ele acabara de ordenar
aos seus discípulos, a saber: “tomai, comei [...] bebei dele todos”. Parece
ser isso que os cristãos dos primórdios entenderam com estas palavras,
pois Paulo diz: “Porque todas as vezes que comerdes [...] e beberdes
[...], anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Lutero entende
que a própria palavra “culto” assume o caráter de celebrar a Ceia em memória de Cristo, pois é o próprio Cristo que o ordena, quando diz: fazei
isto em memória de mim.
Se você quer, então, realizar um culto grande e maravilhoso a Deus
e honrar condignamente o sofrimento de Cristo, então reflita e vá
LINDEN, 2001, p. 10.
133
KOEHLER, 2002, p. 169.
134
KOEHLER, 2002, p. 161-163.
135
Mc 14.25.
136
At 1.11.
137
Mt 28.20.
138
25
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ao sacramento em que se encontra sua memória, isto é, seu louvor
e glória139.
1.4 A SANTA CEIA: O PREPARO PARA A PARTICIPAÇÃO
Na “teologia oficial” da IELB dá-se grande ênfase no preparo para a
participação da Santa Ceia. Basta verificar nas liturgias e no hinário as
exortações e as orações preparatórias para os comungantes140. Já na primeira publicação em português de um hinário e uma liturgia141 havia tais
exortações e orações preparatórias para os que desejavam ir à Ceia.
Há, também, uma variedade de hinos que abordam a questão da dignidade e do preparo, como o exemplo que segue:
Concede eu digno me apresente à tua mesa celestial e guarde sempre a ti na mente, Jesus, meu Fiador leal.[...] As nossas transgressões aqui confessaremos, ó Senhor, e prometemos ante ti servirte fiéis em santo amor. [...] Quando vens à sua mesa, guarda em
mente, com certeza: Digno é quem na fé chegar, vida e paz ele há
de encontrar.142
Segundo Lutero,
Jejuar e preparar-se corporalmente é boa disciplina externa. Mas
verdadeiramente digno e bem preparado é aquele que tem fé nestas
palavras: Dado em favor de vós e derramado para remissão dos pecados. Ao contrário, quem não crê nessas palavras ou delas duvida,
é indigno e não está preparado. É que as palavras ‘por vós’ exigem
corações verdadeiramente crentes143.
LUTERO, Martinho. Exortação ao sacramento do corpo e sangue de nosso Senhor. In:
Obras Selecionadas, v. 7. Porto Alegre / São Leopoldo: Concórdia / Sinodal, 1999, p.
229-231.
139
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 13, 119, 109-111.
140
COMMISSÃO EM PROL DA MISSÃO EV.- LUTHERANA LUSO BRASILEIRA. Hymnos e
Orações. Porto Alegre: Agência Concórdia, 1920; IGREJA EVANGÉLICA LUTHERANA DO
BRASIL. LITURGIA DA IGREJA EVANGÉLICA LUTHERANA. Porto Alegre: Casa Publicadora Concórdia, (data posterior a 1923, pois antes a Concórdia chamava-se apenas Agência
Concórdia), p. 8.
141
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, hinos: 260, 2; 261, 2 e 258, 3.
142
CMen 4 [LC 379]
143
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No Catecismo Maior, Lutero enfatiza que “os que querem ser cristãos
deveriam preparar-se para receber frequentes vezes o mui venerável
sacramento. Pois vemos que é de fato relaxada e negligente a atitude
nesse respeito”144.
Eis o que se entende por preparar-se dignamente. A fim de participar
de maneira digna e abençoada do sacramento, cumpre que a pessoa
possa examinar-se para saber:
se entende e crê as palavras da instituição, pois deve discernir, distinguir e reconhecer o corpo e sangue do Senhor em, com e sob o
pão e o vinho; se reconhece a si mesmo como pecador diante de
Deus e está sinceramente entristecido por causa de seus pecados;
se sabe o que Cristo fez por ele, se deseja verdadeiramente o perdão
e se aplica a si mesmo a promessa de Cristo, crendo que todos os
seus pecados estão perdoados; se está disposto a melhorar sua vida
e trazer frutos dignos do arrependimento145.
Pode-se, portanto, resumir o preparo para a participação da Santa
Ceia em verdadeira fé na obra redentora de Cristo e sua presença real
no sacramento e crer nos seus benefícios, reconhecimento e verdadeiro
arrependimento dos pecados e sincero desejo de viver uma vida de amor
e obediência a Deus146.
Todo aquele que participa indignamente da Santa Ceia, ou seja, sem
crer nas palavras e promessas de Cristo e sem arrependimento sincero
dos seus pecados, torna-se réu do corpo e do sangue do Senhor, ou seja,
é culpado de profanação do nome de Cristo e de seu corpo e sangue147.
Em outras palavras, aquele que participa sem o devido preparo, come e
bebe não para a sua justificação e fortificação na fé, mas come e bebe
para a sua própria ruína e condenação148.
Lutero, porém, ressalta que todo aquele que está fraco na fé e que
não se considera digno de participar, justamente para este é que a Ceia
foi instituída, pois “nosso Sacramento não se fundamenta em nossa dignidade, pois não nos batizamos como tais que sejam dignos e santos;
nem nos confessamos puros e sem pecado; mas, ao contrário, como po-
CMai 4 [LC 490]
144
KOEHLER, 2002, p. 166, 167.
145
FC-DS 7 [LC 613]
146
KOEHLER, 2002, p. 167.
147
CMen 7 [LC 379]
148
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Igreja Luterana
bres e míseros homens, e precisamente por sermos indignos”149.
Até aqui, verificou-se como deve acontecer o preparo para a participação da Ceia e em que isso implica. Na sequência, apresentar-se-á a
posição oficial da IELB quanto aos participantes da Santa Ceia, quem são
eles e quais as condições ideais para uma participação proveitosa.
1.5 A SANTA CEIA: QUEM PARTICIPA
1.5.1 Os batizados
Quando se pergunta quem está habilitado a participar da Santa Ceia,
a prática da IELB traz várias recomendações e restrições. Os fundamentos para essas recomendações e restrições são as Escrituras, a praxe
normativa da Igreja desde a antiguidade, além dos escritos confessionais
da Reforma luterana. A primeira destas recomendações é que os participantes sejam batizados.
O Batismo, como um dos sacramentos reconhecidos pela IELB, é o
lavar da regeneração cujo efeito é o perdão dos pecados, libertação da
morte e do inferno e garantia da vida eterna150. Por causa disso, esse rito
não é mero sinal vazio, pois transmite e comunica poder de Deus para a
salvação. Lutero, no Catecismo Maior, afirma que “devemos ser batizados
sob pena de não sermos salvos”151, e que o efeito do Batismo é para toda
a vida152.
A referência ao Batismo deve-se ao fato de que “dos cristãos, só se
admitirão à mesa do Senhor os que já forem batizados, costume este que
remonta à Igreja Antiga”153. Tal requisito deve-se ao fato de ser o Batismo sacramentum initiationis154, pelo qual a fé é gerada155 e mediante o
qual se é recebido na família da fé e declarado um filho de Deus156. Como
o Batismo opera a fé e a remissão de pecados, livra da morte e do diabo
e dá a salvação eterna a quantos crêem157, e por ser uma ação do próprio
CMai 4 [LC 492, 493]
149
SCHLINK, 1961, p. 148.
150
CMai 4 [LC 475]
151
CMai 4 [LC 485]
152
MUELLER, 2004, p. 503.
153
Sacramento de iniciação ou de ingresso.
154
MUELLER, 2004, p. 475.
155
KOEHLER, 2002, p. 152-154.
156
CMen 4 [LC 375]
157
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Deus no ser humano158, a “teologia oficial” da IELB, em consonância com
as afirmações supra, declara ser imprescindível à participação da Santa
Ceia ser batizado e crer em Cristo como seu Salvador pessoal159.
1.5.2 Os que podem examinar-se sobre sua fé
“Examine-se, pois o homem”160 são palavras enfáticas na explanação
de Paulo sobre a Ceia do Senhor. O apóstolo diz que se alguém não reconhece o tesouro sagrado que o Senhor oferece aqui, essa pessoa o estará
usando de forma inadequada e desagradando ao Senhor. Se uma pessoa
crê em coisas contrárias aos ensinamentos de Cristo161, ou está pecando conscientemente ou vivendo um estilo de vida que entra em conflito
com os ensinamentos de Cristo162, a participação na Santa Ceia traz o
julgamento de Deus163. O auto-exame a fim de participar dignamente do
sacramento e receber as suas bênçãos consiste em que todo comungante
seja capaz de avaliar-se, conforme supramencionado, quando se falou da
importância do preparo para a participação.
E quem, segundo a “teologia oficial” da IELB, seriam as pessoas não
capazes de se examinarem? Mueller responde: as crianças, as pessoas
inconscientes, os doentes em estado de coma e todas as pessoas em
estado de insanidade164.
Ainda sobre a necessidade da fé para uma participação proveitosa da
Santa Ceia, pode-se afirmar que “os que crêem que na Santa Comunhão
recebem verdadeiramente o corpo e sangue de Cristo em, com e sob o
pão e o vinho, recebem-nos para graciosa remissão dos seus pecados”165.
Insiste-se que os que não crêem que na Santa Ceia recebem o verdadeiro corpo e sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho para perdão
de seus pecados, não deveriam ser admitidos, pois negam a presença
real166.
CMai 4 [LC 475]
158
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 11.
159
1 Co 11.28,29.
160
MUELLER, 2004, p. 504.
161
MUELLER, 2004, p. 503.
162
MUELLER, 2004, p. 504.
163
MUELLER, 2004, p. 503.
164
MUELLER, 2004, p. 503.
165
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 11.
166
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Igreja Luterana
São, ainda, considerados indignos de participar da Ceia
aqueles que vão a esse sacramento sem verdadeiro pesar e contrição por seus pecados, e sem verdadeira fé e bom propósito de
melhorarem a sua vida. Com seu indigno comer oral do corpo de
Cristo, eles põem sobre os seus próprios ombros o juízo, isto é,
castigos temporais e eternos, e se tornam réus do corpo e sangue
de Cristo167.
Finalmente, poderão participar da Santa Ceia todos os que querem
viver a sua fé em amor, fato que exclui a todos que vivem em pecados
grosseiros, os quais não querem abandonar e dos quais não se arrependem. Também é vedada a participação da Santa Ceia aos que se recusam
a perdoar e a reconciliar-se e aos que são culpados de unionismo e sincretismo religioso168.
Há que se destacar, porém, que
cristãos de fé frágil, cristãos tímidos e perturbados, que estão intimamente assombrados por causa da magnitude e multidão de seus
pecados e pensam que nesta sua grande impureza são indignos desse nobre tesouro e dos benefícios de Cristo, percebem sua debilidade em fé, e deploram, e cordialmente anseiam poder servir a Deus
com fé mais vigorosa e mais alegre e em obediência pura, esses são
os convivas verdadeiramente dignos. Especialmente para eles é que
esse venerabilíssimo sacramento foi instituído e ordenado169.
Por isso, enquanto que o pastor não deve admitir à Santa Ceia nenhum comensal indigno, precisa cuidar para não impedir os que têm
direito a ela170.
FC-DS [LC 523]; MUELLER, 2004, p. 503.
167
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais, v. 1, p. 11: “O sacramento deve ser vedado a todos quantos se acham
ligados a igrejas em erro e cultos não-cristãos ou anticristãos, cf. Ef 4.1-6; 5.7-11, 2 Co
6.14-18.
168
FC-DS 7 [LC 623].
169
MUELLER, 2004, p. 503.
170
30
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
1.5.3 Comunhão aberta171 e comunhão fechada172
A participação na Santa Ceia está, de algum modo, ligada à profissão
de fé. A IELB não admite a participação de pessoas de outras denominações da Santa Ceia, prática essa denominada de “comunhão fechada”.
Em defesa da comunhão fechada, Mueller argumenta:
Assim fez Cristo: deixou que a pregação fosse multidão adentro sobre cada um, bem como depois também os apóstolos, de sorte que
todos a escutaram, crentes e incrédulos; quem a apanhava, apanhava-a. Assim também devemos nós fazer. Todavia não se deve atirar
o sacramento multidão adentro. Ao pregar o evangelho, não sei a
quem atinge; aqui, porém, devo ter para mim que atingiu aquele que vem ao sacramento; aí não devo ficar em dúvida, mas ter
certeza de que aquele, a quem dou o sacramento, aprendeu e crê
corretamente o evangelho173.
Linden enfatiza que a Ceia é do Senhor, não é um direito dos homens,
mas é uma dádiva de Deus.
A instrução na doutrina cristã é importante para que a pessoa que
pretende participar do sacramento esteja em efetiva união confessional com o povo de Deus reunido. Divisão na confissão estabelece
divisão no sacramento. Além disso, a comunhão fechada traz consigo
um aspecto de proteção ao “visitante”. O participar indignamente, a
falta do “examinar-se” e de “discernir o corpo”, que estão ligados à
instrução na fé, trazem ao participante juízo, ao invés de bênção174.
A própria liturgia publicada pela IELB contempla a preocupação com
respeito à fé dos participantes ao prever a “exortação”175 ou “alocução
confessional”176. Mesmo que estas enfoquem mais aspectos penitenciais e
SCHÜLER, 2002, p. 121: Comunhão aberta refere-se à admissão à Santa Ceia de pessoas de outras igrejas presentes no culto.
171
SCHÜLER, 2002, p. 121: Comunhão fechada refere-se à não admissão à Santa Ceia de
pessoas pertencentes a outras denominações [também denominada de comunhão reservada].
172
MUELLER, 2004, p. 502.
173
LINDEN, 2001, p. 7-8.
174
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Hinário Luterano, p. 13.
175
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Liturgia Luterana, p. 9.
176
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conduzam à “confissão e absolvição”177, a verdade é que as mesmas procuram levar os participantes do culto à auto-análise e ao exame de consciência, a fim de que todos possam dignamente178 participar do sacramento.
1.6 CONCLUSÃO
Na explanação sobre a Santa Ceia na “teologia oficial” no âmbito da
IELB, verificou-se que se trata de um sacramento instituído e ordenado
por Cristo. Através dele são concedidos benefícios especiais, tais como
perdão, paz, aumento e fortalecimento para a fé e esperança nas promessas de Deus. A ênfase nos benefícios parte do princípio de que o
sacramento é um ato de Deus em favor da humanidade. É o contrário do
conceito de sacrifício ou ação humana para alcançar méritos da parte de
Deus. Para tanto, em primeiro lugar, cabe reconhecer no sacramento a
iniciativa de Deus por um lado, e a fé que acolhe essa iniciativa de Deus
por outro.
Um dos grandes desafios do reformador Martinho Lutero foi exatamente o de demonstrar com base nas Escrituras que a Ceia do Senhor é
beneficium, é testamentum e não oficium ou sacrificium. A ação graciosa
é obra única e exclusivamente de Deus. Por isso, central na Santa Ceia
não são a ação ou palavras humanas, mas somente a palavra de Deus.
Dentre os benefícios concedidos pela graça de Deus, destaca-se o perdão dos pecados, mediante a fé nas palavras de Cristo “dado por vós e
derramado para remissão de pecados”. A fé, portanto, é condição básica
para que a pessoa receba os benefícios. Alguns benefícios da participação
da Santa Ceia podem ser enumerados, tais como o aumento e fortalecimento da fé, a paz, a esperança escatológica, a comunhão com Deus e a
comunhão com o próximo.
A pesquisa apontou algumas das consequências da participação da
Santa Ceia, tais como o fortalecimento do amor e a prática de boas
obras. Uma vez beneficiado pela ação de Deus através do sacramento,
o crente passa a viver correta e amorosamente em relação ao próximo
e ter uma vida de comprometimento em relação a Deus. Neste sentido,
como resposta em gratidão ao amor de Deus, até pode-se usar o termo
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano, p. 13; p. 34; Liturgia
Luterana, p. 9.
177
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano, p. 109-111, o “Questionário Cristão” – Compilado pelo Doutor Martinho Lutero para aqueles que tencionam participar da Santa Ceia – é uma opção para o momento da exortação aos possíveis comungantes.
178
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sacrifício vinculado à Santa Ceia, mas com o significado de ações de
graças, sacrifícios de louvor e como oferta de si próprio como sacrifício
juntamente com Cristo.
Vale destacar que a autoridade é conferida ao sacramento a partir da
instituição divina. Por isso o recitar das palavras da instituição, na “teologia oficial” da IELB, é considerado elemento indispensável quando da
celebração da Santa Ceia.
A expressão “dado por vós” aponta para uma finalidade individual, ou
seja, para os benefícios que cada crente recebe. Por isso, com as bênçãos
individuais (perdão, vida, salvação e fortalecimento da fé...) pressupõese uma ação horizontal em direção do próximo. Tudo isso como consequência necessária da ação primeira de Deus em favor da pessoa individualmente. A comunhão fraterna é, pois, também um dos grandes motivos
da participação na Santa Ceia.
Destaca-se ainda que a Ceia é celebrada em memória de Cristo, não
como mera lembrança, mas como algo que tem valor e benefícios para o
presente. Além de reafirmar a cada celebração a obra salvadora de Cristo
de maneira bem concreta, a Santa Ceia também projeta os pensamentos
do participante em direção ao futuro e à certeza do cumprimento das
promessas escatológicas de Cristo.
Uma das questões que mais rendeu páginas de tratados teológicos
refere-se aos elementos visíveis presentes na Santa Ceia. Lutero combateu, com base nas palavras da instituição e em argumentações do
apóstolo Paulo, a prática da comunhão sob apenas uma das espécies.
Enfatizou que, para a correta administração da Santa Ceia, exigem-se
quatro elementos: dois visíveis (o pão e o vinho) e dois invisíveis (corpo
e sangue de Cristo). Tal ênfase continua presente na “teologia oficial” da
IELB. Também se enfatiza que não há uma transformação dos elementos
terrenos em corpo e sangue de Cristo (transubstanciação) por um lado,
nem mera representação por outro. Insiste-se na presença real do corpo
e sangue em, com e sob as espécies do pão e do vinho. Vale destacar que
esta presença real acontece independente da fé do oficiante ou mesmo
do comungante. O que se diz é que, mediante a união sacramental, juntamente com os elementos visíveis e sob eles, o comungante recebe o
corpo e sangue de Cristo com a boca: os elementos visíveis (pão e vinho)
de forma natural e os elementos celestes (corpo e sangue de Cristo) de
forma sobrenatural ou supernatural.
Quanto aos participantes da Ceia, destaca-se que somente os batizados
podem participar. Isto, porque se entende que a Santa Ceia só deve ser
dada aos crentes, aos que têm verdadeira fé em Cristo (sacramentum con-
33
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firmationis). Ora, sendo o Batismo, mediante a palavra de Deus e a ação do
Espírito Santo, meio que opera a fé e introduz a pessoa no reino e família de
Deus (sacramentum initiationis), entende-se o mesmo como imprescindível
para a participação na Santa Ceia. A pessoa deve ter condições de examinar-se a si própria a fim de verificar se tem fé verdadeira, arrependimento
sincero dos seus pecados, se não vive em escândalo e se está disposta a
exercitar a sua vida em amor e serviço a Deus e ao próximo.
Finalmente, por entender que a participação do sacramento implica
uma confissão de fé em Cristo de uma forma geral e a confissão de fé na
Santa Ceia conforme instituída por Cristo de forma particular, mantém-se
no âmbito da IELB a prática da comunhão fechada, por se entender que
esta tem fundamento nas Escrituras e na praxe normativa dos apóstolos.
Resumidamente, pois, se diz que a Santa Ceia deve ser dada aos
crentes, que nela se recebe, sim, o corpo e sangue de Cristo e que ela
fortalece e estreita ainda mais a comunhão dos santos entre si e destes
com seu Senhor.
Até aqui a pesquisa trouxe um resumo dos principais conceitos acerca
da Santa Ceia na “teologia oficial” da IELB. Na sequência serão apresentados os resultados de uma pesquisa social realizada no âmbito de duas
comunidades da IELB. Nessa pesquisa procurou-se descobrir como a “teologia popular” no âmbito da IELB define a Santa Ceia e como as pessoas
entrevistadas sentem e experimentam esse sacramento.
2 A SANTA CEIA NA “TEOLOGIA POPULAR” NO ÂMBITO
DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL (IELB)
2.1 INTRODUÇÃO
O presente capítulo é o relatório de uma pesquisa social, que procurou descobrir quais são as principais concepções da “teologia popular” da
IELB concernentes à Santa Ceia.
Conforme André Droogers, “religiosidade pode ser definida como a
vivência da fé que os adeptos de uma religião elaboram”179. As atitudes,
comportamento e maneira de pensar são determinados pela sua religião.
“Religiosidade popular é a vivência religiosa elaborada, no decorrer da
história, por leigos, orientados por sua posição social e atuando fora do
DROOGERS, André. Religiosidade popular luterana. São Leopoldo: Sinodal, 1987, p.
179
7.
34
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controle do clero e da instituição igreja”180.
Para a presente pesquisa, o que interessa é a distinção entre o que
é pregado pela instituição igreja e o que é refletido e vivido no âmbito
popular. Substitui-se, aqui, o termo “religiosidade popular” por “teologia
popular”, aplicando a este o significado daquele.
Algumas características da “teologia popular” podem ser listadas: não
é refletida e sistematizada da mesma forma que a “teologia oficial”; são
pessoas sem formação específica que produzem uma teologia ou uma
reflexão teológica que não é reconhecida pela igreja (instituição) nem
pela “teologia oficial”181.
O capítulo dois, pois, é resultado da pesquisa social realizada por
meio de entrevistas com vinte pessoas, dez do sexo masculino e dez do
sexo feminino, de duas comunidades da IELB. O perfil dos entrevistados
e das respectivas comunidades, assim como a metodologia empregada,
serão descritos abaixo.
Procedimentos Metodológicos
Na etapa que compreendia a pesquisa social, haveria um grande número de possibilidades de se desenvolver um estudo sobre a Santa Ceia na
“teologia popular” no âmbito da IELB. Optou-se, no entanto, por investigá-la
no âmbito de duas comunidades do Sul do Brasil, uma do centro de uma
cidade da região metropolitana e outra da periferia, seguindo a metodologia
de uma pesquisa social qualitativa, a fim de verificar qual a rede de significados presente na “teologia popular”. Nas entrevistas, inicialmente foram
sugeridas perguntas suficientemente abertas sobre o assunto em questão,
a fim de não induzir as pessoas entrevistadas a determinadas respostas.
Todos os depoimentos e respostas foram minuciosamente registrados (gravados e transcritos) e, posteriormente, verificaram-se quais os conceitos e
concepções que se destacavam. O propósito foi descobrir o que as pessoas
dizem que é, como definem e como experimentam a Santa Ceia.
Na presente pesquisa, responderam-se 26 perguntas, as quais foram
agrupadas dentro de cinco grandes ênfases: I - Sentido e importância
da Santa Ceia; II – O transcorrer da Santa Ceia; III - O lugar em que
a Santa Ceia é celebrada; IV – Quem participa da Santa Ceia; V - A
atitude dos participantes da Santa Ceia. Dentro de cada uma das cinco
ênfases, ao responder as vinte e seis perguntas, houve respostas que se
repetiram várias vezes ou que esboçavam conotação semelhante. Estas
DROOGERS, 1987, p. 7.
180
DROOGERS, 1987, p. 7, 8.
181
35
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Igreja Luterana
foram denominadas de códigos. Na sequência da pesquisa, poder-se-á
perceber que, a cada nova ênfase, surgem novos códigos. No entanto, há
certo número de códigos que perpassa todas as cinco ênfases, como por
exemplo, “Traz perdão dos pecados” e “É importante preparar-se para
participar”. Cada vez que um código é referido, ter-se-á uma unidade de
informação (u.i.).
As vinte e seis perguntas do questionário, organizadas por ênfases,
são as que seguem abaixo:
I - Sentido e importância da Santa Ceia
1- Para você, o que é o mais importante na Santa Ceia?
2- Por que essas coisas que você mencionou são importantes?
3- O que você sente ou experimenta ao participar da Santa Ceia?
4- Como você explicaria o significado da Santa Ceia a um não cristão?
5- Como você descreveria a importância da Santa Ceia em sua vida?
6- Em que momentos de sua vida a Santa Ceia é mais presente?
7- Que diferença faz participar da Santa Ceia?
8- O que você crê que recebe na Santa Ceia?
9- A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as
outras pessoas?
II - O transcorrer da Santa Ceia: tudo o que lembra
10- Com que frequência você vai à Santa Ceia?
11- Como você explicaria o transcorrer da Santa Ceia a um não cristão?
12- Descreva tudo o que você puder lembrar sobre a Santa Ceia.
13- Mencione tudo o que você lembra da última celebração que você
participou.
14- Que partes você acha mais importantes na celebração da Ceia do
Senhor? Por quê?
III - O lugar em que a Santa Ceia é celebrada
15- O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada?
16- Você se sente bem no lugar em que a Santa Ceia é celebrada?
17- O que você acha que poderia ser melhorado no lugar?
IV - Quem participa da Santa Ceia
18- Em sua opinião, quem são as pessoas que podem participar da
Santa Ceia?
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19- Há, em sua opinião, pessoas que não podem participar da Santa
Ceia?
20- Há, em sua opinião, alguma exigência ou requisito para participar
na Santa Ceia?
V - A atitude dos participantes da Santa Ceia
21- Em sua opinião, quando e com que freqüência se deve ir à Santa
Ceia?
22- Em sua opinião, com que atitude as pessoas devem participar da
Santa Ceia?
23- O que você gosta nas celebrações da Ceia em sua comunidade?
24- O que você não gosta?
25- O que você acha que poderia ser melhorado?
26- Mencione experiências marcantes que você teve, participando na
Santa Ceia.
As pessoas entrevistadas
O universo pesquisado foi o dos membros de duas comunidades da
IELB, uma situada no centro de uma cidade da região metropolitana de
Porto Alegre, aqui denominada de “Eucaristolândia” e outra da periferia,
denominada de Vila “Partir do Pão”.
Entrevistaram-se vinte pessoas no total; dez pessoas de cada uma das
comunidades: cinco homens (um com mais de 50 anos; um entre 30 e 49
anos; um entre 20 e 29 anos; um entre 15 e 19 anos; um recém confirmado) e cinco mulheres (uma com mais de 50 anos; 1 entre 30 e 49 anos;
1 entre 20 e 29 anos; 1 entre 15 e 19 anos; 1 entre 12 e 14 anos). Este
número não tem pretensão de representatividade. Como é de praxe e de
direito, nenhum nome de qualquer pessoa envolvida foi ou será revelado.
Os lugares e as pessoas são reais, porém, os nomes, fictícios.
Eucaristolândia é uma cidade de porte médio, contando cerca de 180
mil habitantes. Há muitas indústrias e o comércio também é forte. O serviço de saúde é composto de hospital e de vários postos de saúde, além
de diversas clínicas particulares. O número de escolas, tanto da rede pública quanto da particular parece ser suficiente para a demanda do município. A população tem à sua disposição desde a Educação Infantil até o
nível Superior. As pessoas das comunidades escolhidas para a pesquisa
são essencialmente trabalhadores assalariados, sejam eles funcionários
de empresas ou de escolas. O perfil das pessoas entrevistadas, tanto as
do centro quanto as da periferia, é descrito abaixo (assíduo = 1 vez por
semana, frequente = 2 vezes por mês, regular = 1 vez por mês, esporá-
37
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Igreja Luterana
dico = até 6 vezes ao ano, raro = menos de 4 vezes ao ano):
Fernando, sexo masculino, 13 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, cursando a 7º série,
solteiro, filiado a esta comunidade desde o seu Batismo, é participante
frequente.
Caetano, sexo masculino, 17 anos, morador do centro, participante
da Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, com 2° grau completo,
solteiro, filiado a esta comunidade desde o Batismo (desde criança), é
participante assíduo.
Edison, sexo masculino, 26 anos, morador do centro, participante
da Comunidade “Do Sacramento”, é secretário de colégio, universitário
cursando pedagogia, filiado a esta comunidade há 4 anos, participante
assíduo.
Ricardo, sexo masculino, 37 anos, morador do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é bancário, tem 2° grau completo e está
iniciando faculdade, casado, filiado a esta comunidade desde criança,
participante frequente.
Ilmo, sexo masculino, 55 anos, morador do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é comerciante (manutenção predial industrial), tem o 2º grau completo, casado, filiado a esta comunidade
desde o seu Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em
04/03/2006.
Leomir, sexo masculino, 14 anos, morador da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, está no 1º ano do Ensino
Médio (cursando), solteiro, filiado a esta comunidade desde o seu Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em 16/05/2006.
João, sexo masculino, 19 anos, morador da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, marceneiro (fabrica móveis), tem o 2°
grau completo, solteiro, filiado a esta Comunidade desde o Batismo, é
participante frequente, concedeu a entrevista em 12/03/2006.
Elano, sexo masculino, 27 anos, morador da periferia, participante da
Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em serviços gerais, tem o 2° grau
completo (iniciando faculdade), casado, filiado à IELB desde criança pelo
batismo e desta comunidade há 2 anos (veio do interior para a cidade), é
participante regular, concedeu a entrevista em 12/03/2006.
Gerson, sexo masculino, 40 anos, morador da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, é auxiliar de manutenção, tem o 1º Grau
completo, casado, filiado à IELB desde criança e desta comunidade há 5
anos, é participante assíduo, concedeu a entrevista em 27/03/2006.
Ademir, sexo masculino, 58 anos, morador da periferia, participante
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
da Comunidade “Da Comunhão”, é conferente – aposentado por invalidez (tem sérios problemas cardíacos), cursou até a 7ª série do 1° grau,
casado, é filiado à IELB há 1 ano, era católico e teve uma passagem
pela Igreja Adventista, é participante assíduo, concedeu a entrevista em
21/03/2006.
Noemi, sexo feminino, 13 anos, moradora do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, está na 7ª Série do Ensino
Fundamental (cursando), solteira, filiada à IELB e a esta comunidade
desde o Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em
02/06/06.
Juliana, sexo feminino, 19 anos, moradora do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é auxiliar de secretaria de escola, está
cursando a faculdade, solteira, filiada à IELB desde o Batismo e desta
comunidade há 6 anos, é participante frequente, concedeu a entrevista
em 08/05/2006.
Neuza, sexo feminino, 29 anos, moradora do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é contadora (desempregada), tem o 2º
Grau Completo, casada, é filiada à IELB desde os 5 anos de idade e desta
comunidade há 12 anos, é participante assídua, concedeu a entrevista
em 18/03/2006.
Ilga, sexo feminino, 42 anos, moradora do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é secretária de escola, cursou o ensino
superior, casada, é filiada à IELB desde os 10 anos de idade e desta comunidade há pouco mais de 6 anos, é participante frequente, concedeu
a entrevista em 18/05/2006.
Carla, sexo feminino, 51 anos, moradora do centro, participante da
Comunidade “Do Sacramento”, é contadora, tem ensino superior, divorciada, é filiada à IELB desde os 20 anos de idade (era católica antes)
e desta congregação há 18 anos, é participante frequente, concedeu a
entrevista em 07/06/2006.
Luciana, sexo feminino, 14 anos, moradora da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, 1º ano do Ensino Médio,
solteira, é filiada à IELB e a esta Comunidade desde criança (pelo Batismo), é participante assídua, concedeu entrevista em 12/05/2006.
Bianca, sexo feminino, 16 anos, moradora da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, 1º ano do Ensino Médio,
solteira, filiada à IELB e a esta Comunidade desde os 9 anos (veio da
Igreja Católica), é participante esporádica, mas tem vontade de participar mais, concedeu a entrevista em 05/06/2006.
Maria, sexo feminino, 26 anos, moradora da periferia, participante da
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Igreja Luterana
Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em serviços gerais, tem o 1º grau
completo, casada, é filiada à IELB e a esta Comunidade há 4 anos (veio
da IECLB quando do seu casamento), é participante regular, concedeu
entrevista em 19/04/2006.
Guilhermina, sexo feminino, 41 anos, moradora da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em lavanderia, tem
1º grau completo, casada e mãe de três filhos, é filiada à IELB desde o
Batismo e desta Comunidade há 6 anos (veio do interior para a cidade),
é participante assídua, concedeu entrevista em 16/05/2006.
Clarice, sexo feminino, 54 anos, moradora da periferia, participante
da Comunidade “Da Comunhão”, cozinheira, não completou a 5ª série,
casada, filiada à IELB há menos de 1 ano, era católica, é participante
assídua, concedeu a entrevista em 21/03/2006.
Códigos
Uma vez transcritas as respostas às 26 perguntas do questionário
supramencionado, percebeu-se que vários temas apareciam em quase
todas as ênfases da pesquisa. O pesquisador, guiado pelo conteúdo desses temas, aqui denominados de códigos, agrupou-os pela ordem de
importância, ou seja, pelo número geral de suas referências ao longo da
pesquisa sobre o que é mais importante para as pessoas quando se trata
da Santa Ceia.
Na ênfase I - Sentido e importância da Santa Ceia (perguntas 1
a 9 do questionário) destacaram-se oito códigos:
1 - Traz perdão dos pecados (119 u.i.); 2 - Traz alívio e paz ao coração (84 u.i.); 3 - É importante preparar-se para participar (62 u.i.); 4
- Ajuda na mudança de atitudes (53 u.i.); 5 - Fortalece e renova a fé (50
u.i.); 6 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (48 u.i.); 7 - Oportuniza
a comunhão com Deus e com os irmãos (34 u.i.); 8 - Receber a Santa
Ceia traz salvação (26 u.i.).
Na ênfase II - O transcorrer da Santa Ceia: tudo o que lembra
(perguntas 11 a 14) destacaram-se também oito códigos:
1 - Lembra dos hinos e da liturgia (47 u.i.); 2 - Traz perdão dos pecados (33 u.i.); 3 - Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (31
u.i.); 4 - É importante consagrar os elementos (29 u.i.); 5 - É importante
preparar-se para participar (26 u.i.); 6 - Traz alívio e paz ao coração (23
u.i.); 7 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (21 u.i.); 8 - Lembra da
instrução e primeira comunhão (12 u.i.).
Na ênfase III - O lugar em que a Santa Ceia é celebrada (perguntas 15 a 17) destacaram-se seis códigos:
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1 - É importante sentir-se bem no lugar da celebração (73 u.i.); 2
- Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (22 u.i.); 3 - É
importante preparar-se para participar (12 u.i.); 4 - Traz alívio e paz ao
coração (11 u.i.); 5 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (9 u.i.);
6 - Traz perdão dos pecados (9 u.i.).
Na ênfase IV - Quem participa da Santa Ceia (perguntas 18 a 20)
destacaram-se os seguintes códigos:
1 - É importante preparar-se para participar (42 u.i.); 2 - É importante ser batizado e confirmado (38 u.i.); 3 - É importante andar no caminho
certo (25 u.i.); 4 - É importante ser da igreja ou crer no que a nossa
igreja ensina (23 u.i.); 5 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (22
u.i.); 6 - Traz perdão dos pecados (11 u.i.); 7 - Todos podem participar
(6 u.i.); 8 - Traz alívio e paz ao coração (6 u.i.).
Na ênfase V - A atitude dos participantes da Santa Ceia (perguntas 21 a 26) verificaram-se os códigos abaixo:
1 - É importante andar no caminho certo (49 u.i.); 2 - Lembra da
instrução e primeira comunhão (43 u.i.); 3 - Oportuniza a comunhão com
Deus e com os irmãos (38 u.i.); 4 - É importante participar sempre (34
u.i.); 5 - Lembra dos hinos e da liturgia (33 u.i.); 6 - Traz alívio e paz ao
coração (31 u.i.); 7 - É importante preparar-se para participar (29 u.i.);
8 - Traz perdão dos pecados (24 u.i.).
Hierarquia dos códigos levantados na pesquisa social
A hierarquia dos códigos levantados na pesquisa sobre a Santa Ceia
na “teologia popular” no âmbito da IELB pode ser evidenciada na tabela
abaixo:
HIERARQUIA DOS CÓDIGOS LEVANTADOS NA PESQUISA SOCIAL
Ordem
Unidades de
informação
Códigos
1
196
Traz perdão dos pecados
2
171
É importante preparar-se para participar
3
164
Traz alívio e paz ao coração
4
142
Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos
5
105
Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo
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Igreja Luterana
6
80
É importante andar no caminho certo
7
78
Lembra dos hinos e da liturgia
8
78
É importante sentir-se bem no lugar da celebração
9
59
Ajuda na mudança de atitudes
10
55
Lembra da instrução e primeira comunhão
11
55
Fortalece e renova a fé
12
38
É importante ser batizado e confirmado
13
33
É importante participar sempre
14
29
É importante consagrar os elementos
15
26
Traz salvação
16
23
É importante ser da igreja ou crer no que a nossa
igreja ensina
17
23
Lembra-se de pessoas queridas
18
6
Todos podem participar
Outros
166
RESPOSTAS DIVERSAS
Total Geral
1527
Passemos à descrição de cada um dos códigos levantados na pesquisa social.
2.2 QUEM PARTICIPA DA SANTA CEIA
2.2.1 É importante preparar-se para participar da Santa Ceia
O presente código apresenta uma das condições mais mencionadas
para a participação na Santa Ceia ao longo de toda a pesquisa. “É importante preparar-se para participar” é o segundo código mais mencionado
no cômputo geral, com 171 u.i. do total de 1527, superado apenas pelo
código “Traz perdão dos pecados”, com 196 u.i. As vinte pessoas entrevistadas manifestam explicita e enfaticamente que preparar-se é importante para participar da Santa Ceia.
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“É importante preparar-se para participar”, além de ser o segundo
código mais referido em toda a pesquisa182, tem uma relação muito próxima com outros códigos. “Preparar-se” consiste em atitudes internas,
tais como conhecer os pecados, pensar e pedir perdão em pensamento,
e também atitudes concretas externas, tais como buscar por absolvição,
confessar pecados, pedir perdão, chegar antes na igreja e fazer oração.
“Preparar-se” é, segundo as afirmações supramencionadas, condição
básica para participar da Santa Ceia e para que esta traga salvação. É,
também, condição para que a pessoa tenha alívio e paz no coração, fortalecimento da fé e comunhão com Deus. Diz-se que participar é importante,
mas que é necessário preparar-se para tal. Reforça-se ainda mais que,
para receber o perdão dos pecados é necessário fazer algo: preparar-se,
arrepender-se, pensar nos pecados, pedir perdão, entregar-se para Deus.
Percebe-se um forte componente penitencial e um grande receio de
participar sem “estar devidamente preparado”, o que tornaria a participação indigna. É algo concreto e real sobre o qual se pensa, no qual a
pessoa se concentra. Articula-se como a busca por renovação e o ato de
“pedir perdão pra Jesus”183. Através do código “é importante prepararse para participar” demonstra-se certo temor diante da Santa Ceia, pois
participar dela sem esse preparo pode trazer consequências negativas.
A preocupação com este assunto é tão grande que, mesmo no caso de
perguntas como “Que diferença faz participar da Santa Ceia”184 ou perguntas acerca do local da celebração, uma das respostas foi “é importante preparar-se para participar”185. A ênfase nessa condição é muito mais
negativa do que positiva, “pois, se você não estiver arrependido, você recebe a Santa Ceia para sua condenação”186. Fica evidente que, em última
análise, o que as pessoas esperam receber na Santa Ceia é o perdão dos
seus pecados e livrar-se da condenação. Fazer algo para poder participar
aparece como elemento de fundamental importância.
2.2.2 É importante andar no caminho certo (condição)
O presente código ocupa o sexto lugar na hierarquia geral das u.i.,
com oitenta referências do total de 1527, mesmo aparecendo somente
na ênfase “quem participa na Santa Ceia”. Nesta ênfase o presente có-
Anexo IV, p. 5.
182
Anexo I, p. 10, linhas 31, 32.
183
Anexo II, p. 61.
184
Anexo II, p. 133.
185
Anexo I, p. 1, linhas 22, 23.
186
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Igreja Luterana
digo aparece em terceiro lugar187. Percebe-se, assim, a relevância dessa
atitude como uma condição para participar da Santa Ceia.
As mulheres mostram-se um pouco mais preocupadas com isso do
que os homens188. A variável mais significativa é a faixa etária dos 50
anos ou mais, com praticamente o dobro de referências do que a que
está em segundo lugar. Os adolescentes ainda não se preocupam tanto
com o assunto. Percebe-se, pois, que a vivência e a experiência ajudam
a fortalecer a consciência do caminho certo.
Não se define propriamente o que é “andar no caminho certo”, mas,
valendo-se de situações da vida, as pessoas entrevistadas tentam explicar em que consiste e por que é importante andar no caminho certo.
Naturalmente, o presente código tem uma relação próxima com os
códigos “é importante preparar-se para participar” e “a Santa Ceia ajuda
na mudança de atitudes”. A diferença é que o primeiro fala de condições
ou exigências para uma participação proveitosa na Ceia, enquanto que o
segundo fala das consequências da participação.
Ressalta-se que, para participar da Santa Ceia, deve-se “ir de
coração”189, não ir “por obrigação”190 e estar “consciente se pode ou não
participar”191. Qualquer pessoa pode participar da Santa Ceia, desde que
esteja limpa, aja corretamente e ande no caminho certo. Existem questões de comportamento que impediriam a participação na Santa Ceia,
tais como manter uma conduta errada, contrária ao evangelho, e uma
persistência na maldade, roubo, crime e prostituição. Mas não seriam as
pessoas da congregação que as impediriam de participar. É uma questão
íntima entre a pessoa e Deus! À igreja, neste caso, cabe falar que os que
estão em situação assim, que se abstenham da participação na Santa
Ceia, mas a decisão de participar ou não é delas. Para poder participar
tem que ter uma postura correta, uma vida de constante crescimento e
de não permanência no erro.
Fica claro, portanto, que, mesmo que a grande maioria das pessoas
entrevistadas admita que nenhuma pessoa deva ser impedida de participar na Santa Ceia, há, no entanto, uma grande preocupação com as
atitudes. Nesse caso, andar no caminho certo se torna, sim, uma das
condições para a participação. Mas não são as pessoas da congregação
Anexo II, p. 146.
187
Anexo IV, p. 7.
188
Anexo I, p. 62, linha 14.
189
Anexo I, p. 62, linhas 33, 34.
190
Anexo I, p. 59, linhas 20-24.
191
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que impedirão alguém de participar, pois se trata de uma questão entre
o comungante e Deus.
2.2.3 É importante ser batizado e confirmado
O código “é importante ser batizado e confirmado” aparece somente
nas respostas às perguntas dezoito a vinte192. Verifica-se, na hierarquia
das unidades de informação193, que o presente código aparece apenas
em duodécimo lugar194, parecendo ser irrelevante. No entanto, na ênfase
“quem participa da Santa Ceia”, ele aparece em segundo lugar195. De
acordo com as pessoas entrevistadas, pois, ser batizado e confirmado é
condição importante para a participação na Santa Ceia.
De acordo com as entrevistas, os habilitados a participar da Santa
Ceia devem ser batizados e confirmados. A preocupação com o Batismo
e a confirmação parece ter alguma relação com a confessionalidade: dificuldade em admitir pessoas que não sejam luteranas e não tenham sido
confirmadas à Ceia196. De maneira geral, porém, as respostas indicam
uma maior preocupação com a instrução197, a fim de que os comungantes
tenham algum entendimento e conhecimento da palavra, para saber por
que estão ali198. Das pessoas entrevistadas, todas, com maior ou menor
insistência, manifestam que o Batismo e a confirmação são condições
básicas para que se possa participar da Santa Ceia. Ser da igreja, para
estas, é secundário. Não há limitação aos que são da igreja (IELB), mas
todos os que foram batizados e confirmados têm direito à participação.
Aqui não se faz restrição à denominação religiosa da pessoa. Somente
duas das vinte pessoas entrevistadas entendem que, para participar da
Santa Ceia, tem que ser luterana (IELB). O que, de maneira geral, elas
acham é que o Batismo e a Confirmação, ou melhor, a falta destes, seria
impeditiva à participação em qualquer igreja.
18 - Em sua opinião, quem são as pessoas que podem participar da Santa Ceia?; 19
- Há, em sua opinião, pessoas que não podem participar da Santa Ceia?; 20 - Há, em sua
opinião, alguma exigência ou requisito para participar da Santa Ceia? .
192
Anexo IV, p. 6.
193
Anexo IV, p. 7.
194
Anexo IV, p. 4.
195
Anexo I., p. 56, linhas 1-4.
196
Anexo I., p. 55, linhas 1, 17.
197
Anexo I., p. 56, linhas 15-34.
198
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2.2.4 É importante ser da igreja ou crer no que a igreja ensina199
Ao formular a pergunta: “Em sua opinião, quem são as pessoas que
podem participar da Santa Ceia”, procurou-se, em última análise, saber
das pessoas entrevistadas se elas defendem uma comunhão aberta200,
semiaberta201, semifechada202 ou fechada203. Verificou-se na pesquisa
uma variedade de opiniões, uma vez que as perguntas sobre os participantes foram suficientemente abertas para não induzirem as pessoas
a determinadas respostas. Nas três perguntas sobre “quem participa da
Santa Ceia”, destacaram-se vinte e três respostas relacionadas ao código acima: “É importante ser da igreja ou crer no que a nossa igreja
ensina”204. Este código aparece em décimo-sexto lugar na hierarquia das
u.i. A sua relevância está no fato de que nove pessoas do total de vinte
entrevistadas o mencionaram ao longo da pesquisa.
A variável mais expressiva é a da faixa etária que vai dos 30 aos 49
anos. Tem praticamente o dobro de u.i. em relação à soma das demais
faixas etárias. Verifica-se, pois, que o adulto maduro está mais preocupado com questões confessionais do que as demais faixas etárias. Os
adolescentes sequer fazem referência ao assunto e, dos adultos com
mais de 50 anos, apenas uma mulher mencionou esse código. Apenas
três pessoas afirmaram categoricamente que ser da mesma igreja é requisito para a participação na Santa Ceia.
A partir das respostas das pessoas entrevistadas, verificou-se que
15% delas defendem que a igreja deve manter um regime de comunhão
fechada. De maneira geral, aponta-se para a confessionalidade como
ingrediente importante para a participação da Santa Ceia. Não esperam necessariamente que todos sejam da sua igreja, mas que aceitem e
creiam nas mesmas verdades fundamentais. Participar indica “um testemunho, é um artigo de fé, confessionalidade, porque a Santa Ceia é um
“Igreja” aqui corresponde à IELB.
199
Entende-se por “comunhão aberta” aquela em que pessoas de qualquer religião ou até
mesmo sem religião nenhuma possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor].
200
Entende-se por “comunhão semiaberta” aquela em que pessoas das mais diversas denominações cristãs possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor].
201
Entende-se por “comunhão semifechada” aquela em que pessoas de denominações
cristãs doutrinariamente semelhantes possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio
autor].
202
Por “comunhão fechada” entende-se que somente pessoas da Igreja Evangélica Luterana
do Brasil e/ou Igrejas Luteranas com quem ela mantém protocolo de comunhão de altar e
púlpito possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor].
203
Anexo II, p. 146, 147.
204
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artigo de fé”205.
Esse código também tem relação com o preparo, andar no caminho
certo e com a certeza de que na Santa Ceia se recebe o corpo e o sangue
de Cristo, que é um artigo de fé.
O requisito apresentado para que as pessoas possam participar da
Ceia é que tenham a mesma concepção do sacramento e/ou que sejam
de fato filiadas à instituição, visto que a Santa Ceia implica uma confissão
de fé.
2.2.5 Todos podem participar
O presente código aparece apenas seis vezes nas respostas à pergunta número vinte: “Há, em sua opinião, alguma exigência ou requisito
para participar na Santa Ceia?”206 Na hierarquia dos códigos, ele aparece
em décimo-oitavo lugar (último lugar). Se fosse considerado apenas o
total das unidades de informação (1527), este código não teria razão de
existir. Mas, considerando-se que a IELB é uma igreja que oficialmente
mantém um regime de comunhão fechada e que, do total de vinte pessoas entrevistadas, seis manifestaram-se favoráveis à participação de
todos da Santa Ceia, por si só, isto justifica a apreciação deste código na
presente pesquisa.
Para as pessoas que responderam com esse código, qualquer pessoa
pode participar, desde que tenha vontade, queira ir de coração e não
seja obrigada a nada. Estas podem ser caracterizadas como defensoras
de uma “comunhão aberta”, em que não há impedimento algum para a
participação de qualquer pessoa na Santa Ceia, independente de denominação religiosa.
2.3 BENEFÍCIOS DA PARTICIPAÇÃO DA SANTA CEIA
2.3.1 Traz perdão dos pecados
2.3.1.1 Introdução
A partir da pesquisa social, descobriu-se que o assunto mais lembrado quando se fala em Santa Ceia é “traz perdão dos pecados”, com 196
u.i.207 Este código é referido nas respostas às vinte e seis perguntas do
questionário.
Anexo I, p. 56, linha 9.
205
Anexo II, p. 162, 163.
206
Cf. Capítulo 2: Hierarquia dos códigos levantados na pesquisa social.
207
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Igreja Luterana
Os homens manifestam mais intensamente do que as mulheres sua
preocupação com os pecados. Pode-se afirmar, a partir destes dados,
que os homens das comunidades pesquisadas têm uma visão mais penitencial da Santa Ceia do que as mulheres ou têm maior sentimento de
culpa do que as mulheres. A mesma situação ocorre entre as mulheres
do centro em relação às da periferia. Quanto às faixas etárias, a mais penitencial situa-se entre 20-29 anos, seguida pelos de 15-19 anos, depois
30-49 anos e mais de 50 anos (empatados) e, por último, a faixa que
vai dos 12-14 anos (os recém-confirmados). Um último dado também
é significativo: as pessoas da periferia têm uma tendência a uma visão
mais penitencial da Santa Ceia do que as pessoas do centro.
2.3.1.2 O que são “pecados”
Não se define “pecado” como o faz a “teologia oficial”, mas expressam-se algumas idéias do que significa “pecados”208 a partir de situações concretas da vida. “Pecados” são descritos como coisas bem reais
e concretas, que provocam tristeza e acabam deprimindo. Além disso,
ofensa contra as pessoas, ira, raiva, são coisas que atrapalham, perturbam e que fazem mal209. Provocam preocupação, sentimento de culpa e
julgamento210, especialmente se a pessoa participar da Santa Ceia “sob
aqueles pecados”211.
Usando-se de experiências da vida, de situações concretas, de sentimentos e de fórmulas que aprendem na igreja, as pessoas evidenciam
que “pecados” são coisas graves. Fica claro, através de toda a pesquisa,
que pecados, falhas, “pobleminhas”212, são coisas que preocupam e que
ocupam as mentes das pessoas entrevistadas no seu dia-a-dia, especialmente quando o assunto é a participação da Santa Ceia.
2.3.1.3 O que é “perdão dos pecados”
A partir das respostas ao questionário da pesquisa social, pode-se
entender “perdão dos pecados” como algo real (“livrar-se, pensa muito,
você sente”), mas que se consegue articular principalmente em fórmulas
O uso do plural evidencia que não há uma preocupação filosófica de definir o conceito
teológico “pecado”, mas simplesmente falar de coisas práticas, de acontecimentos.
208
Anexo I, p. 45, linhas 12-19.
209
Anexo I, p. 49, linhas 23-27.
210
Anexo I, p. 17, linhas 7,8.
211
Anexo I, p. 26, linha 34.
212
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que se aprende na igreja213. O que chama a atenção é que para receber o
perdão dos pecados há, segundo os entrevistados, necessidade de se fazer
algo, ou seja, preparar-se, arrepender-se, confessar pecados, reconciliarse com Deus e com as pessoas. Não havendo estas condições, a Ceia é
recebida “para sua condenação”214. Outro dado relevante é que a maioria
manifesta que está preocupada com os seus próprios pecados e, estando
isso resolvido, está tudo bem215. Referências ao aspecto comunitário da
Santa Ceia são quase inexpressivas, há uma preocupação muito mais individualista do que comunitária. Perdão dos pecados é, portanto, descrito
como algo concreto, que se busca, que se recebe e que vem da parte de
Deus. Traz conseqüências práticas para a vida, tais como renovação e alegria, provoca sensações de bem-estar e leva a ações concretas, tais como
fazer o que é correto, andar no caminho certo e a mudar de atitudes. Perdão dos pecados é algo necessário para que as pessoas possam sentir-se
bem, livres das cargas e pesos, das manchas e angústias. É algo que vem
de Deus, mas que é exercitado e articulado pelas pessoas. Fica claro que
as pessoas, ao sentirem-se perdoadas por Deus, por sua vez, também se
sentem motivadas a perdoar as falhas e ofensas do próximo.
A pesquisa torna evidente que a busca pela Santa Ceia se dá especialmente diante da angústia pelos pecados cometidos, o sentimento
de culpa e a tristeza. Há, no entanto, algumas condições para receber
o perdão desses pecados: sentir, pensar, reconhecer o erro, estar triste, preocupar-se e arrepender-se desses pecados. Isto fica evidenciado
através das seguintes referências: “é necessário estar ciente de que fez
coisas erradas e examinar-se”216, estar triste e deprimido pelos pecados
cometidos, estar arrependido daquilo que fez217; é preciso sentir218, pensar e se preocupar219; é necessário “não negar isso que Cristo está te
dando”220. Sair da Santa Ceia sem a certeza do perdão “faz muito mal,
é pior do que se não tivesse recebido, parece que Deus estava ali com o
dedo na minha cabeça”221.
Anexo I, p. 1, linhas 4, 5,10, 16,26, 27 e p. 2, linha 6, 23.
213
Anexo I, p. 1, linhas 21-24.
214
Anexo I, p. 1, linhas 10-15.
215
Anexo I, p. 15, linhas 6, 7.
216
Anexo I, p. 15, linhas 29-33 e p. 16, linhas 1-7.
217
Anexo I, p. 16, linha 8.
218
Anexo I, p. 17, linha 7.
219
Anexo I, p. 19, linha 25.
220
Anexo I, p. 45, linhas 15-24.
221
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A partir das manifestações supramencionadas, fica evidenciada a cooperação222 ou o mérito das pessoas na obtenção do perdão de Deus.
Também que é algo implícito no ser humano, ou seja, que “se regenerar,
se arrepender”223 é o motivo para Deus perdoar os seus pecados.
2.3.2 Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo
O presente código é referido ao longo de toda a pesquisa e, hierarquicamente, ocupa o quinto lugar no cômputo geral das unidades de
informação.
Observando-se o quadro acima, percebe-se que a variável gênero
não tem maior importância neste caso específico. As faixas etárias dos
15-19 anos e 50 anos ou mais e as pessoas da periferia é que fazem a
diferença no cômputo geral.
As pessoas que fizeram referência ao “corpo e sangue de Cristo”
não dizem claramente o que entendem pela expressão. É interessante
que elas tentam responder à pergunta com a repetição de fórmulas que
aprendem na igreja, e a menção ao corpo e sangue de Cristo é seguida
da recomendação de que tem que acreditar. Não há maior reflexão ou definição do que isto significa, nem a preocupação de tentar explicar como
isso acontece ou como é possível. Evidencia-se, no entanto, que é algo
para sentir e experimentar e crer, não para definir.
Corpo e sangue de Cristo é mais do que somente pão e vinho; as
pessoas dizem que é algo verdadeiro, mas há a necessidade de acreditar,
portanto, um artigo de fé. As pessoas parecem entender que é no corpo e sangue de Cristo que se manifesta a presença de Deus, ou seja, é
uma das maneiras como Deus se manifesta às pessoas. E para receber
o corpo e o sangue de Cristo, deve-se fazer algo, especialmente abrir
mão de muita coisa. Há uma relação muito próxima deste código com
“traz perdão dos pecados”, “traz alívio e paz ao coração” e “é importante
preparar-se para participar”224. As respostas indicam que se recebe o corpo e sangue de Cristo para o perdão dos pecados e para ter alívio e, vale
destacar que, para isso ser possível, é importante preparar-se.
A questão dos elementos que são distribuídos na Santa Ceia também
foi assunto de depoimentos das pessoas entrevistadas. Há uma vinculação direta do “pão” com o corpo e do “vinho” com o sangue. Não receber
SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002,
p. 430: “Sinergismo – do grego ‘sunergeo’ – eu coopero”.
222
Anexo I, p. 31, linha 14.
223
Conferir no Anexo I, p. 1, 2, os depoimentos dos entrevistados 1, 7 e 20.
224
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um deles é receber a Ceia pela metade, incompleta. “Corpo e sangue
de Cristo” é descrito como real, apesar de se ver só o pão e o vinho. As
pessoas entrevistadas não parecem estar tão preocupadas com os elementos recebidos na Santa Ceia, mas com os benefícios e com o que é
preciso fazer para obter esses benefícios. Falando ainda dos elementos
visíveis, há uma menção ao vinho branco225. Parece mais a lembrança de
um detalhe litúrgico, hóstia e vinho branco, do que a preocupação se o
vinho deveria ser tinto ou de outra cor qualquer.
Não há unanimidade sobre como é possível receber o corpo e o sangue de Cristo juntamente com o pão e o vinho. O que parece unânime
nas respostas é que a partir da consagração se tem o corpo e o sangue
de Cristo.
A valorização ou o sentir-se bem no local da celebração dá-se pela
certeza de que lá se recebe o corpo e sangue de Cristo. O lugar sempre
será bom desde que se tenha a certeza de estar recebendo o verdadeiro
corpo e sangue de Cristo226.
As pessoas entrevistadas entendem que para poder participar é importante acreditar que na Santa Ceia se recebe o verdadeiro corpo e
sangue de Cristo juntamente com o pão e o vinho, e que isso não é
simplesmente uma representação. É uma questão de acreditar227 e a preocupação em não tomar para o próprio juízo228. Crer que na Santa Ceia
se recebe o corpo e sangue de Cristo torna a pessoa apta a participar da
Santa Ceia, independente de denominação religiosa.
2.3.3 Traz salvação
Por ter uma vinculação muito próxima com o código anterior, “traz
perdão dos pecados”, o código “traz salvação” é aqui exposto como uma
consequência daquele. Hierarquicamente, este código está apenas em
décimo-quinto lugar no quadro geral, com vinte e seis u.i. do total de
1527. Não há propriamente uma explicação sobre o que se entende por
“salvação”. Parece, no entanto, que participando da Santa Ceia se tem
assegurada a salvação.
“Salvação” é algo que se busca229, no qual se pensa e que se pede230, é
Anexo I, p. 40, linha 29.
225
Anexo II, p. 126-132.
226
Anexo I, p. 58, linhas 7-10.
227
Anexo I, p. 59, linhas 14-16.
228
Anexo I, p. 10, linhas 31, 32.
229
Anexo I, p. 11, linhas 7.
230
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aquilo que Cristo fez pelas pessoas e ao qual se deve retribuir231. O que fica
evidenciado é que se trata de uma busca individual (“pra minha salvação”232)
e algo que se espera. Para recebê-la, é preciso que se faça algo, como participar, “permanecer cristã”233 e “estar preparada”234. Salvação é articulada
como algo que se recebe através do corpo e sangue de Cristo. Pensa-se
não só em benefícios presentes, mas também futuros: “salvação eterna” e
“mais tarde”235, “é a vida, a esperança, a vida eterna”236. É evidente a articulação do código através da fórmula que se aprende na igreja. No entanto,
evidencia-se que, além de pensar no aspecto transcendental da vida, também se pensa naquelas coisas que perturbam, sufocam e causam mal-estar
no dia-a-dia. Isto é motivo para “gritar” por socorro e salvação e, na Santa
Ceia, se encontra resposta para os clamores. “Salvação” é referida em termos concretos como “um lugar”237 no “céu”238. É conferida por Deus239 e é
entendida como posse ou propriedade que se adquire240. Há certa ênfase
nas palavras “Deus dá”241 e “poder de Jesus”242.
Como um desdobramento do código “traz perdão dos pecados”, verificou-se que as pessoas pensam na salvação de forma individualista,
querendo antes de tudo resolver o seu problema particular (“minha salvação”), sem considerar o aspecto comunitário da Santa Ceia. Por dedução, pode-se afirmar que, a partir do comportamento individualista dos
comungantes (ênfase na salvação e perdão próprios) ter-se-á também
uma igreja individualista.
2.3.4 Traz alívio e paz ao coração
O presente código é referido ao longo de toda a pesquisa social e
sua relevância está no fato de ocupar o terceiro lugar na hierarquia dos
códigos, com 164 u.i. Mesmo nas perguntas sobre o transcorrer da Santa
Anexo I, p. 9, linha 28.
231
Anexo I, p. 3, linha 24.
232
Anexo I, p. 3, linhas 14, 15.
233
Anexo I, p. 3, linha 13.
234
Anexo I, p. 3, linha 6.
235
Anexo I, p. 22, linha 23.
236
Anexo I, p. 3, linha 15.
237
Anexo I, p. 3, linha 15.
238
Anexo I, p. 12 , linha 12.
239
Anexo I, p. 13, linha 19.
240
Ibid.
241
Anexo I, p. 22, linha 18.
242
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Ceia, o lugar da celebração, os participantes e as atitudes destes, “traz
alívio e paz ao coração” é um código sempre presente.
A partir destes dados, pode-se inferir que as mulheres, de uma forma geral, são mais sensíveis e manifestam mais frequentemente o que
elas sentem e experimentam concretamente ao participar na Santa Ceia.
A variável posição geográfica é relevante na medida em que as pessoas
da periferia falam mais de alívio e paz e, finalmente, a variável faixa
etária mostra que pessoas com 50 anos ou mais se mostram muito mais
sensíveis do que as demais. Não há uma definição exata sobre o que
vem a ser “alívio e paz”. A partir de experiências e situações concretas
da vida, diz-se que é importante “ir lá e naquele momento estar com o
coração livre, sem receio, sem rancor e sem culpa”243, pois “a gente se
renova através da Santa Ceia”244. Isto traz “tranquilidade”245.
“Alívio e paz” são descritos pelas pessoas entrevistadas como “sensação muito boa”246, que traz “renovação”247, sentimento de “bem-estar”248,
de “leveza”249. É sentimento de “paz” que provoca alegria250 e “emoção”251.
As pessoas entrevistadas não estão pensando (somente) no perdão dos
pecados ou no alívio causado pelo perdão quando pensam em “alívio e
paz”. Manifesta-se a necessidade não só no âmbito espiritual, mas também no corporal252. Quando há problemas de saúde, a participação na
Santa Ceia traz conforto253. Em situações de tristezas, a participação na
Santa Ceia ajuda a “aliviar um pouco”254. Quando se pensa nas pressões
do dia-a-dia, aí a Santa Ceia “dá uma sensação de paz ainda maior”255 e “a
tranquilidade com que a gente vai para casa é indescritível”256. Mencionamse situações problemáticas, dramas, depressão, enfermidade e luto. É alí-
Anexo I, p. 2, linhas 4, 5.
243
Anexo I, p. 2, linhas 2, 13 e 21.
244
Anexo I, p. 2, linha 7.
245
Anexo I, p. 5, linhas 6, 7.
246
Anexo I, p. 5, linhas e p. 6, linhas 3 e 33.
247
Anexo I, p. 5, linha 25 e p. 6, linha 6, p. 7, linhas 1, 7.
248
Anexo I, p. 6, linha 23.
249
Anexo I, p. 5, linha 20, p. 6, linha 23 e p. 7, linhas 2, 6.
250
Anexo I, p. 6, linha 4 e p. 7, linha 6.
251
Anexo I, p. 19, linha 16.
252
Anexo I, p. 20, linhas 10-12.
253
Anexo I, p.16, linha 17, 18.
254
Anexo I, p. 20, linhas 18, 19.
255
Anexo I, p. 20, linhas 20, 21.
256
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vio quando se está triste e mais alegria ainda quando já se está alegre257.
É conforto quando se está debilitado e fortalecimento na enfermidade258.
Nos momentos de sofrimento é “presença”259, é conforto nos “problemas e
tristezas”260, especialmente quando está tudo mal na vida261.
A falta da Santa Ceia traz perturbação, tristeza e amargura262 enquanto que a participação faz com que se sinta outra pessoa, se sinta
“porenchida” e tão aliviada por saber que estava diante de Deus263.
Percebe-se uma forte ênfase nas questões da vida das pessoas. Há
a necessidade de buscar aliviar ou amenizar seus problemas, suas tristezas, suas dores e suas enfermidades, e a Santa Ceia serve de alento.
Destaca-se que é algo que se experimenta concretamente e sente-se
como algo confortador. As palavras-chave são experimentar e sentir. A
participação na Santa Ceia, portanto, para essas pessoas entrevistadas,
é um momento de “terapia” de grupo.
2.3.5 Fortalece e renova a fé
O código “fortalece e renova a fé” é referido cinquenta e cinco vezes
e, na hierarquia dos códigos, figura em décimo-primeiro lugar. Este código é mencionado somente na primeira parte das entrevistas, quando
se perguntou pelo “sentido e importância da Santa Ceia”. Não há propriamente uma definição de “fé”, mas há diversas referências a situações e ações concretas do dia-a-dia das pessoas.
Fortalecimento da fé é algo de que se necessita, que se busca264 e
que se encontra265. É uma coisa que pode ser revigorada e animada266.
Renovar e fortalecer a fé é manter a chama acesa267, ter mais ânimo268,
Anexo I, p. 16, linhas 17, 18.
257
Anexo I, p. 17, linhas 1, 2.
258
Anexo I, p. 17, linha 5.
259
Anexo I, p. 17, linha 6.
260
Anexo I, p. 17, linhas 13, 14.
261
Anexo I, p. 37, linha 22.
262
Anexo I, p. 38, linhas 13 a 17.
263
Anexo I, p. 15, linha 19.
264
Anexo I, p. 3, linhas 32, 33.
265
Anexo I, p. 21, linha 9.
266
Anexo I, p. 20, linhas 23, 24.
267
Anexo I, p. 21, linhas 1-3.
268
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é algo que se pode sentir”269 e que se recebe270. É renovação espiritual e
poder que vem de Deus271.
As pessoas que responderam com esse código não falam de espiritualidade somente, mas de situações do dia-a-dia, as quais provocam
desânimo, fraqueza, abatimento. Nessas circunstâncias, elas chegam a
se perguntar se isso está acontecendo por causa da fé que está fraca272.
Em tais situações a participação na Santa Ceia traz sentimentos de força, ânimo, vigor e renovação. A sensação que se tem é que as pessoas
estão falando das suas dificuldades, tristezas, frustrações, sentimentos
de apatia e debilidade. Na Santa Ceia, por isso, elas buscam, além do
aspecto espiritual, um elemento terapêutico que as ajude a resolver os
problemas que enfrentam na vida. Articula-se esse código no sentido de
criar coragem para enfrentar as situações da vida. “Fortalece e renova a
fé” refere-se à crença, mas também fala de coisas da vida, pois a Santa Ceia renova a vida e dá força. Além disso, usando de fórmulas que
aprendem na igreja, as pessoas entrevistadas simplesmente afirmam
que a Santa Ceia é para “o fortalecimento e renovação da fé”273.
2.4 CONSEQUÊNCIAS DA PARTICIPAÇÃO DA SANTA CEIA
2.4.1 Ajuda na mudança de atitudes
O presente tópico é apontado na “teologia popular” como consequência importante da participação da Santa Ceia e é o décimo na hierarquia
dos códigos274 ao longo de toda a pesquisa. Verificando-se a ênfase número cinco da pesquisa, ou seja, “a atitude dos participantes”275, o código
que aparece em primeiro lugar diz que “é importante andar no caminho
certo”276. Há uma relação entre aquele código e “ajuda na mudança de
atitudes”, só que este aponta para consequências da participação na Santa Ceia277, enquanto que “é importante andar no caminho certo” indica
Anexo I, p. 21, linha 4.
269
Anexo I, p. 21, linha 10.
270
Anexo I, p. 21, linha 16.
271
Anexo I, p. 15, linha 13.
272
Anexo I, p. 1, linhas 9, 16, 29 e p. 2, linha 23.
273
Anexo IV, p. 6.
274
Anexo II, p. 2.
275
Anexo II, p. 169.
276
Anexo I, p. 24, linhas 3-5: Pergunta Nº. 9: “A sua participação tem algo a ver com sua
maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as
outras pessoas?”
277
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uma das condições à participação278.
Quando, na pergunta número nove, tratou-se especificamente sobre
as atitudes, ou seja, “A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao
jeito de lidar com as outras pessoas?”279, houve respostas abundantes
e concretas.
O número de respostas positivas a essa pergunta é surpreendente.
Equivale quase à soma das unidades de informação dos demais códigos.
Há, portanto, a convicção de que a participação traz consequências visíveis, perceptíveis, mensuráveis. Todas as pessoas entrevistadas, com
maior ou menor intensidade, consideram importante a participação na
Santa Ceia porque esta ajuda na mudança de atitudes.
Não se define propriamente o que é “mudança de atitudes”, mas são
sugeridas algumas ações relacionadas a este código. Estas podem ser
classificadas como mudança nas relações com o próximo, mudanças em
relação a si próprio, mudança em relação a Deus e mudança em relação
à própria Santa Ceia.
De uma forma geral, as pessoas acreditam que quanto mais participam, melhor. Sentem-se mais fortalecidas na fé, sentem-se consoladas,
sentem-se melhor. É uma atitude que deve ser constantemente mantida,
uma vez que participar da Santa Ceia ajuda na mudança de atitudes, e
participar sempre é uma destas atitudes.
“Mudança de atitudes” é o mesmo que deixar as coisas erradas e
fazer o que é certo. É deixar de lado o orgulho e o egoísmo e aprender a
perdoar e a compreender a situação dos outros. Pressupõe recomeçar e
fazer as coisas certas na relação com as pessoas em geral, mas especialmente com as da família e com os amigos. É algo bem concreto e nomeado em sentido negativo, como “não brigar”, “não fazer fofoca”, “não errar” e “não andar no caminho errado”. Estas mudanças acontecem, sim,
nas relações horizontais, na relação vertical, na relação consigo mesmo
e na própria atitude em relação à Santa Ceia.
Relaciona-se esse código com a certeza do perdão dos pecados, pois
é a chance que Deus dá para recomeçar, de tentar fazer as coisas certas e
não andar pelo caminho errado ou fazer o contrário do que se aprende lá
na igreja280. “Mudança nas atitudes” tem relação com o “estar preparado”
Anexo II, p. 174-175: A pergunta número 22 questiona: “Em sua opinião, com que
atitude as pessoas devem participar da Santa Ceia?”
278
Anexo II, p. 76.
279
Anexo I, p. 24, linhas 9-12.
280
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e com o sentimento de “alívio e paz” pelo perdão dos pecados obtido da
parte de Deus, da comunhão com Deus e do fato de ter recebido o corpo
e sangue de Cristo na Santa Ceia281.
2.4.2 Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos
O presente subtítulo é relevante para a pesquisa por ser referido em
quatro das cinco ênfases do questionário e por ser o quarto na hierarquia
das unidades de informação, com 142 referências.
As mulheres são mais sensíveis e percebem melhor a importância e
ou necessidade de comunhão do que os homens, tanto que o número de
referências por parte delas supera a casa dos 100% em relação ao número referido pelos homens.
É importante destacar que nas respostas evidenciaram-se dois tipos de comunhão: comunhão com Deus ou vertical, e comunhão com
os irmãos ou horizontal. Não há uma definição objetiva sobre o que é a
comunhão com Deus, mas as pessoas a manifestam como sentimento e
experiência subjetivos.
Quanto à comunhão com os irmãos ou horizontal, é referida pela
primeira vez somente na pergunta número nove da pesquisa social, “A
sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à
família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as outras
pessoas?”282. Não se define comunhão, mas descrevem-se situações.
Comunhão com Deus é algo real, perceptível. É algo que a pessoa
experimenta e crê. Fala-se nessa presença em termos bem concretos e
reais, mas também que é experimentado de forma subjetiva, sentindo.
É um sentimento de bem-estar em função do perdão dos pecados recebido da parte de Deus283. A referência a este código se torna ainda mais
expressiva se for relacionada com o código “Traz alívio e paz ao coração”.
A certeza da presença de Deus é que traz estas sensações. Considera-se
importante a participação na Santa Ceia porque através dela se está em
comunhão com Deus ou na presença de Deus. Comunhão com Deus é
descrita como sentimento de bem-estar e com a certeza que ele ajuda e
abençoa. Ao mesmo tempo, essa comunhão é relacionada com o perdão
dos pecados e com uma nova chance de recomeçar e melhorar. É algo
que se pode crer, sentir e reconhecer como real e verdadeiro. Parece que
as pessoas estão retratando experiências da sua própria vida.
Anexo II, p. 31-33.
281
Anexo II, p. 76.
282
Anexo I, p. 2, linhas 24-33.
283
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Essa relação com Deus faz com que a relação com o próximo seja fortalecida e a comunhão restabelecida284. A maior referência é em relação
às pessoas e o relacionamento com estas. Tais qualidades dependem da
dádiva de Deus, pois “essa paz só Deus pode dar”285 e é, também, resultado de oração286. A relação com Deus é apontada como facilitadora das
relações interpessoais.
“Comunhão com os irmãos” é descrita como participação, como confraternização, é sentir-se bem entre as pessoas, é procurar o melhor, é a
convivência uns com os outros287. Falando da forma da distribuição, prefere-se o semicírculo em frente do altar, por ser mais aconchegante288.
Filas na Santa Ceia não ajudam na comunhão, enquanto que forma de
mesa ajuda àqueles que querem ir com a família289. O semicírculo parece
que “torna o ambiente mais caloroso”290.
No contexto das perguntas acerca do lugar da celebração291, tornamse relevantes as referências à comunhão. Aqui se fala mais na comunhão
horizontal como uma necessidade que as pessoas têm de sentirem-se
aceitas, integradas e aconchegadas. Sentir-se bem no local, para as pessoas entrevistadas, é o mesmo que sentir-se bem com as pessoas que
lá estão. As pessoas entendem que não há perfeição e que poderia ser
melhor, mas todas consideram que a comunhão é importante. “Comunhão com Deus e com os irmãos” é visto como uma das grandes motivações quanto ao apreço pelo lugar da celebração. Estar com Deus e estar
com os irmãos é o motivo da participação. Comunhão é envolvimento,
integração e crescimento mútuo. É um momento em que todos se reúnem292 em uma comunidade de pessoas conhecidas, onde todo mundo é
unido293.
Finalmente, ao falar sobre a comunhão, há opiniões de que poderia ser melhorado o acolhimento eucarístico, ou seja, dever-se-ia dar
Anexo I, p. 42, linhas 1-5.
284
Anexo I, p. 25, linhas 33, 34.
285
Anexo I, p. 27, linhas 14, 15.
286
Anexo I, p. 45, linhas 3-7.
287
Anexo I, p. 46, linhas 10, 11.
288
Anexo I, p. 52, linhas 32-34.
289
Anexo I, p. 53, linhas 5-7.
290
15 - O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada?; 16 - Você se sente bem no
lugar em que a Santa Ceia é celebrada?; 17 - O que você acha que poderia ser melhorado
no lugar?
291
Anexo I, p. 71, linha 5.
292
Anexo I, p. 71, linha 30.
293
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uma oportunidade a todos. As pessoas que responderam com o código
“oportuniza a comunhão” entendem que não deve haver distinção entre
comungantes e que se deve dar oportunidade a todos.
Como se verificou acima, grande parte das respostas aponta mais
para a comunhão vertical, com Deus, podendo ser isso fruto de certo individualismo. As relações horizontais recebem mais importância quando se
pergunta especificamente a respeito das atitudes, sobre o lugar da celebração e sobre coisas que poderiam ser melhoradas. Na “comunhão com
Deus e com os irmãos”, percebe-se algo próprio das preocupações com
as coisas da vida: as pessoas não gostam de estar sozinhas, precisam da
companhia umas das outras e têm como certo que as coisas que acontecem em suas vidas estão dentro dos propósitos e da vontade de Deus.
2.4.3 Torna o local da celebração um lugar de bem-estar
Quando se perguntou acerca do local da celebração, surgiu o código
“É importante sentir-se bem no lugar da celebração”294. Mesmo que no
cômputo geral este código apareça somente em oitavo lugar, com 73 u.i.
do total de 1527 u.i., na ênfase “O lugar em que a Santa Ceia é celebrada” ele é referido em primeiro lugar.
A maioria absoluta concorda que se sente bem no local do culto e
nem sempre justifica. Não há uma explicação ou definição exata sobre o
que significa sentir-se bem.
Identifica-se o lugar da celebração da Santa Ceia como um lugar de
emoção. Isso faz bem para as pessoas, pois elas afirmam que se sentem
à vontade e gostam de estar diante do altar, porque ali é o lugar de Deus,
é a casa de Deus. Ninguém fica onde não quer, onde não se sente bem.
Igualmente sentem-se bem porque é o lugar onde a Santa Ceia é celebrada295. Mesmo que se admite que a Santa Ceia possa ser celebrada em
qualquer lugar, a preferência é “que seja na igreja”.
Há uma relação íntima com os demais códigos. As pessoas que responderam com esse código dizem que se sentem bem no lugar da celebração, não tanto pelo lugar em si, mas pelo que lá acontece ou pelas
relações que se estabelecem. Destacam-se entre os motivos a certeza de
que naquele lugar se recebe o corpo e o sangue de Cristo. Igualmente
15 - O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada?; 16 - Você se sente bem no
lugar em que a Santa Ceia é celebrada?; 17 - O que você acha que poderia ser melhorado
no lugar?
294
Anexo I, p. 49 e 50.
295
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recebem destaque a comunhão com Deus296 e com o próximo297, o alívio
e a paz que sentem298 e a convicção de que ali é o lugar em que seus
pecados são sempre de novo perdoados299. O maior destaque está, no
entanto, nas relações. Sentir-se bem no lugar da celebração é resultado
da relação com Deus e da oportunidade de relação com o próximo.
De maneira geral, as pessoas (17 das 20 entrevistadas) manifestam
categoricamente que estão contentes com o seu local. Há pequenas manifestações de coisas que poderiam ser melhoradas, mas nada mais sério
que possa comprometer a celebração da Santa Ceia.
2.5 OUTROS ASPECTOS RELEVANTES DA PESQUISA
2.5.1 É importante consagrar os elementos
O presente tópico é o décimo-quarto na hierarquia dos códigos levantados na pesquisa, com vinte e nove unidades de informação do total
de 1527. É relevante a referência à consagração pela ênfase de que ali
acontece a “conversão” dos elementos visíveis. Sem a consagração não
haveria corpo e sangue de Cristo? – e, consequentemente, não haveria
comunhão, nem perdão dos pecados? – e outros tantos benefícios e consequências da participação da Santa Ceia?
As pessoas entrevistadas não têm muita clareza sobre o que é “consagrar”. A consagração é referida como necessária para que haja Santa
Ceia, para que as pessoas possam ter certeza de que vão receber o corpo
e o sangue de Cristo. Consagração para elas é “transformação” ou um
gesto simbólico. É, no entanto, instituído por Cristo300, é o que torna o
culto e a Santa Ceia significativos301. Da consagração depende a certeza
da presença de Cristo no pão e no vinho, condição básica para receber o
perdão dos pecados, alívio e paz ao coração. A consagração do pão e do
vinho, portanto, em hipótese alguma, pode faltar na celebração da Santa
Ceia. Sua ausência colocaria em dúvida tanto o valor quanto a validade
do sacramento, no entender das pessoas entrevistadas.
Anexo I, p. 50, linhas 11, 21.
296
Anexo I, p. 47, linhas 15-29.
297
Anexo I, p. 52, linhas 1, 2.
298
Anexo I, p. 47, linhas 13, 14.
299
Anexo I, p. 35, linhas 6-15.
300
Anexo I, p. 36, linhas 5-8.
301
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2.5.2 Lembra-se dos hinos e da liturgia
Hinos e liturgia são citados para tentar explicar o transcorrer do culto
e da Santa Ceia e também quando se pergunta sobre a atitude dos participantes. No cômputo geral, esse código aparece em sétimo lugar, com
setenta e oito unidades de informação, do total de 1527.
Hinos e liturgia são elementos importantes no pensamento popular,
pois é algo no qual podem ter participação, aprendem a cantar e a identificar-se com certos hinos. As pessoas reúnem-se para cantar, gostam
muito dos hinos, tanto para ouvir quanto para cantar, pois lembram uma
mensagem. São adoráveis, gostosos de cantar e bons para refletir e meditar. As pessoas se lembram das partes da liturgia, tais como a bênção
ou consagração dos elementos, a distribuição propriamente dita e a ação
de graças. Elas afirmam que a liturgia as ajuda no preparo e auxilia a
melhor entender para que serve a Santa Ceia e por que participar. É também significativo o gestual, como o sinal da cruz sobre o pão e o vinho,
as palavras usadas pelo pastor naquela hora e a própria distribuição dos
elementos que as pessoas recebem302 .
Várias pessoas que mencionaram hinos e liturgia também se referiram à comunhão. Seriam estes elementos que favorecem a comunhão
das pessoas entre si e destas com Deus? Hinos e liturgia são muito
apreciados pela maioria das pessoas. Poucas, porém, apontam detalhes. A concepção que se tem de liturgia é que esta “é coisa feita e
executada pelo pastor, é coisa do pastor”. Aqui não são mencionados
hinos, mas a liturgia como um todo, especialmente as partes dirigidas
pelo pastor. Pouco se fala da liturgia como algo corporativo ou como
serviço que se presta ou que se recebe. Há detalhes litúrgicos que poderiam ser melhorados: a forma da distribuição poderia ser melhorada,
“se quiserem usar um copinho, tudo bem”, mas deveria oportunizar
também o cálice comum, especialmente às pessoas idosas. Quanto à
liturgia, poder-se-ia ter mais cuidado com os aspectos visuais, mais
estudos sobre o significado da liturgia e uma atenção especial para a
forma de distribuição.
2.5.3 Lembra-se da instrução e da primeira comunhão
O presente código é referido 55 vezes ao longo da pesquisa social.
Hierarquicamente, no cômputo geral, é o nono código em unidades de
informação. É relevante mencionar que, nas respostas à pergunta 26
Anexo I, p. 43-45.
302
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“Mencione experiências marcantes que você teve, participando na Santa
Ceia”, houve 43 menções a esse código. Das 20 pessoas entrevistadas,
apenas 3 não o mencionaram. É, pois, significativa para as pessoas de
uma forma geral a experiência da instrução e da primeira comunhão.
As pessoas lembram muito do período da catequese, em que aprenderam sobre a Santa Ceia e sobre a vida cristã em geral. Destacam que
a primeira participação foi marcante. A primeira participação na Santa
Ceia suscita um misto de expectativa, curiosidade, nervosismo e emoção. O sentimento, no entanto, é de que se tratou de uma experiência
maravilhosa na ocasião da sua própria confirmação e, especialmente, na
confirmação dos filhos.
A experiência é marcante, e pode ter forte conexão com a questão
do preparo e do perdão dos pecados, afinal, recebe-se algo misterioso: o
corpo e o sangue de Cristo pela primeira vez.
2.5.4 Lembra-se de pessoas queridas
O presente subtítulo figura hierarquicamente em décimo-sétimo lugar
entre os códigos levantados na pesquisa social e, pelo forte componente
emocional, é relevante a sua exposição no presente trabalho.
Os depoimentos abaixo são manifestações típicas das pessoas entrevistadas na pesquisa:
Ilmo, 55: “me lembro de amigos da infância e da escola dominical e
do convívio com os leigos303.
Guilhermina, 41: “datas especiais e o relacionamento de mães com
seus filhos são muito marcantes.”304.
Elano, 27: “estar com os irmãos e com a família” é bem legal305.
Carla, 51: “lembro inclusive onde e com quem me sentei no
culto.”306.
Gerson, 40: “me lembrei de minha mãe quando de sua última participação antes da sua morte e, especialmente, da última vez que ela pôde
participar.”307.
Neuza, 29: “os familiares de forma bem especial, pois com eles se
pode compartilhar desse momento tão significativo em que toda a família
Anexo I, p. 39, linhas 26-33.
303
Anexo I, p. 40, linhas 8-10, p. 41, linhas 23, 24.
304
Anexo I, p. 40, linhas 22-24.
305
Anexo I, p. 41, linha 11.
306
Anexo I, p. 43, linhas 20-28.
307
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participa junto na Santa Ceia”308.
Edison, 26: “a lembrança de entes queridos que já partiram”309.
Ademir, 58: “a minha situação de enfermidade e de pessoas
queridas”310.
Ricardo, 37: “lembro do número de participantes no culto e de pessoas em especial”311.
Percebe-se o forte componente emocional presente na participação
das pessoas na Santa Ceia e o quanto esta foi motivo de alento e de boas
recordações. O número de referências não é grande, mas é expressivo
pelo seu conteúdo, pela emoção que ele suscita e a relação estabelecida
com a participação na Santa Ceia.
2.6 CONCLUSÕES
Através da pesquisa social sobre a Santa Ceia, verificou-se que o assunto que mais preocupa as pessoas são os seus pecados. O uso frequente da expressão “pecados” demonstra que não há preocupação em definir
termos ou trazer conceitos teológicos. Antes, procura-se falar daquelas
coisas que se sente e que se experimenta no dia-a-dia com relação aos
pecados cometidos. Por isso, a busca incessante pelo perdão destes.
Criou-se em torno do assunto um esquema de regras bastante rígido
que impõe condições para o recebimento do perdão e, por consequência,
da salvação. A afirmação de que “se não estiver dignamente preparado”,
repetidas vezes mencionada ao longo de toda a pesquisa social, aponta
para um componente de extrema relevância: para que se tenha acesso
ao perdão dos pecados, exige-se o cumprimento impecável de uma série
de quesitos. Preparar-se resume esses quesitos, e implica sentir-se triste
pelos pecados cometidos, confessá-los a Deus, arrepender-se deles e,
como consequência, mudar a maneira de agir.
Há condições impostas aos participantes para que estes tenham
acesso à Santa Ceia e há consequências esperadas de sua participação.
É marcante a ênfase nos aspectos punitivos, em caso de participação
sem o “devido preparo”, e nem sempre há maior ênfase sobre os benefícios da participação. A própria referência ao corpo e sangue de Cristo,
por vezes, parece ser mais motivo de preocupação do que satisfação. Há
Anexo I, p. 72, linhas 9-19.
308
Anexo I, p. 80, linhas 21-30.
309
Anexo I, p. 83, linhas 1-29
310
Anexo I, p. 39, linhas 21-25.
311
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maior preocupação com o que se deve fazer para tornar-se digno do que
a ocupação com os benefícios e consequências positivas.
Como condição para poder participar da Santa Ceia, as pessoas destacam os seguintes passos: preparar-se, crer que se recebe o corpo e
sangue de Cristo (por isso a importância da consagração dos elementos),
andar no caminho certo, ser instruído, batizado e confirmado, ser da
igreja ou crer no que a igreja ensina.
Entre os benefícios da participação (2.3), destacam-se: traz perdão
dos pecados, recebe-se o corpo e o sangue de Cristo, traz salvação, traz
alívio e paz ao coração, fortalece e renova a fé.
As consequências da participação da Santa Ceia (2.4) são assim descritas: ajuda na mudança de atitudes e a participação frequente, o participante está em comunhão com Deus e com os irmãos, sente-se bem no
lugar, lembra-se dos hinos e da liturgia e lembra-se de pessoas queridas.
A pesquisa social buscou saber das pessoas leigas de duas comunidades da IELB qual o sentido e importância da Santa Ceia, como elas
descrevem o seu transcorrer, que implicações têm o lugar da celebração,
quem são os participantes e qual é atitude esperada destes ao participarem do sacramento.
Verificou-se na pesquisa a grande importância que recebem as mais
diversas situações da vida das pessoas e quanto a sua participação na
Santa Ceia pode ser entendida como ajuda, solução, salvação, esperança
e certeza de dias melhores. Descobriu-se também que elas não estão
preocupadas em definir coisas, mas relatam aquilo que sentem e que
experimentam ao participar da Santa Ceia. E, na maioria dos casos, gostariam que todas as pessoas, sem restrição, pudessem experimentar e
sentir as mesmas coisas.
Em conclusão a este capítulo, fez-se um apanhado sobre as tendências gerais dos homens e das mulheres no que diz respeito à sua visão de
Santa Ceia e sobre a teologia de uma forma mais ampla. A tabela abaixo
apresenta os seguintes dados:
CONSTATAÇÕES POR GÊNERO
Homens
Mulheres
- Mais teóricos
- Mais práticas
- Contentam-se em definir
- São mais concretas
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- Falam por fórmulas que aprendem na
igreja. Quando falam em corpo e sangue
de Cristo, tentam definir a partir das
fórmulas que aprendem na igreja.
- Expressam o que sentem ou experimentam.
Quando falam a respeito do corpo e sangue
de Cristo, contentam-se em relatar o que
sentem ou experimentam na Santa Ceia.
- São mais penitenciais e apresentam,
aparentemente,
maior
sentimento
de culpa em relação aos pecados.
Preparar-se, para eles, tem a ver mais
com
reconhecimento
de
pecados,
arrependimento, confissão e aceitação do
perdão. Sem isso, a participação é mais
para a condenação. Há, portanto, uma
visão mais negativa.
- Mais celebrativas, mais concentradas
nos benefícios e, especialmente, nas
consequências práticas para a vida. O
preparo, por isso, envolve mais questões de
atitudes externas, especialmente em relação
ao próximo. Sua visão de participação é mais
positiva do que a dos homens.
- Alívio e paz têm relação com perdão
dos pecados e certeza da salvação, sendo
consequência destes.
- Alívio e paz estão relacionados com questões
concretas da vida, tais como conforto e
consolo na angústia, força para vencer os
revezes da vida, os sofrimentos, doenças,
problemas em geral.
- São mais “verticais” na relação com
Deus. Das poucas vezes que falam em
comunhão, entendem-na mais em sentido
vertical.
- Sua relação com Deus é referida mais de
forma “horizontal”, através da relação com o
próximo. Além de falarem muito mais sobre
comunhão, entendem-na principalmente no
sentido horizontal.
- Falam mais de coisas “espirituais”. Para
eles, fé é acreditar, crer no sobrenatural.
- Falam mais de “coisas da vida”. Para elas,
fé se refere mais a um sentimento, estado de
espírito, mais ânimo.
- Falam em “salvação” no tempo futuro,
na vida eterna, e pensam em um lugar
específico, o céu.
- Articulam o código “salvação” no tempo
presente, agora, e falam da solução dos seus
problemas, aqui.
Na sequência deste trabalho, far-se-á uma comparação das descobertas feitas na pesquisa social sobre a Santa Ceia na visão da “teologia
popular” no âmbito da IELB com o resultado da pesquisa sobre a “teologia oficial”. A comparação quer elucidar as principais semelhanças e diferenças entre as referidas teologias e quais as implicações desses achados
para a prática da Santa Ceia na IELB.
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3 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE
A “TEOLOGIA OFICIAL” E A “TEOLOGIA POPULAR”
3.1 CONTEÚDOS TOTAL OU PARCIALMENTE AUSENTES NOS ENUNCIADOS DA “TEOLOGIA OFICIAL”
Chama a atenção, primeiramente, que alguns importantes componentes
do modo de pensar, interpretar e agir das pessoas entrevistadas, tanto no
centro quanto na periferia de Eucaristolândia, estejam total ou parcialmente
ausentes na “teologia oficial”. A surpresa reside no fato de tais elementos
serem essenciais na vida das pessoas, na sua vida de culto e na sua relação
com a Santa Ceia. Os seguintes componentes não encontram nenhuma
referência nos enunciados da “teologia oficial”: sentimentos, sensações, experiências concretas, lembranças de pessoas queridas; situações
marcantes da vida, tais como enfermidade, confirmação e período de instrução; hinos e liturgia. Os componentes “graça, conforto e consolo” estão
quase totalmente ausentes: são referidos genérica e objetivamente. Não
se especificam situações concretas da vida: alívio das cargas, paz no coração, tranquilidade, sentimento de bem-estar com Deus, ajuda na aflição,
sentir-se “porenchida”, experimentar tudo de bom.
Quando se referem às consequências da participação da Santa Ceia na
relação com Deus, as pessoas revelam detalhes a partir de situações concretas da vida, sentimentos, sensações e experiências. A “teologia oficial”
não deixa de referir estes aspectos, mas não leva em consideração que,
para as pessoas, eles vêm acompanhados de sentimentos, certeza da
ajuda de Deus, confiança, comunhão com Deus, gratidão, certeza
e esperança: “sentir-se melhor, sabendo que Deus ajuda e abençoa”
(Noemi, 13)312; “é presença de Deus em mim”(Clarice, 54)313;“é sentir-se
bem com Deus”(Elano, 27)314;.“relação íntima com Deus, eu com meu
Deus”(Neuza, 29)315; “Deus vai estar ali com a gente nos ajudando, dando força para melhorar mesmo”(Ilga, 42)316; “Deus também tá sempre
com a gente”(Guilhermina, 41)317; “Eu sinto que cada vez que eu tomo,
Anexo I, p. 3, linha 27.
312
Anexo I, p. 4, linhas 18-26.
313
Anexo I, p. 3, linha 23.
314
Anexo I, p. 10, linhas 10-12.
315
Anexo I, p. 4, linhas 3-4.
316
Anexo I, p. 11, linhas 2, 3.
317
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Jesus está mais perto comigo, mais perto de mim”(Luciana, 14)318.
Nas relações horizontais evidencia-se um conjunto de elementos que
para algumas pessoas é essencial na Santa Ceia e que são detalhados
a partir de experiências concretas e uma lista de situações da vida com
relação ao próximo. Há ênfase em ações específicas, tais como repensar atitudes, ser espontâneo, aceitar mais, resolver conflitos, ser mais
acessível, fraterno, amigo, solidário e estar em paz com todos. Quantitativamente a referência a estes elementos não chega a ser impactante,
mas as palavras com que as pessoas se referem a eles são significativas: “ajuda a entender e a viver melhor com as pessoas”(Ilga, 42)319;
“nos torna mais próximos, irmãos”(Carla, 51); “torna-se mais acessível e
ajuda as pessoas”(Bianca, 16)320;“é uma forma de confraternização que
ajuda a se tornar mais fraterno, mais amigo e solidário”(Maria, 26)321;
“é estar reunido com as pessoas de forma fraterna, amiga e solidária”
(Maria, 26)322; “estar junto das pessoas, da família, dos filhos”323... “onde
todos são iguais”(Guilhermina, 41)324. Na “teologia oficial”, estes elementos aparecem muito mais como princípios do que como ações concretas.
É importante ser confirmado: esta afirmação da “teologia popular” não encontra nenhuma referência na “teologia oficial”. Vale destacar
que, mesmo que as pessoas tenham feito referência ao Batismo como
condição à participação da Santa Ceia, o peso maior recaiu sobre a confirmação e a instrução.
3.2 CONTEÚDOS EXCEDENTES NOS ENUNCIADOS DA “TEOLOGIA
OFICIAL”
Nos textos analisados, há conteúdos emitidos pela “teologia oficial”
que não se fazem presentes no discurso das pessoas a respeito da Santa
Ceia. São os seguintes tópicos:
Sacrifício: Distinção entre sacramento e sacrifício, benefício e ofício.
Duas naturezas de Cristo: a presença de Cristo na Santa Ceia ocorre mediante as suas duas naturezas: a divina e a humana. Tal assunto é
Anexo I, p. 6, linhas 27, 28.
318
Anexo I, p. 26, linha 3.
319
Anexo I, p. 26, linha 18.
320
Anexo I, p. 32, linhas 21-23.
321
Anexo I, p. 21, linhas 1-3.
322
Anexo I, p. 21, linhas 4-6.
323
Anexo I, p. 32, linha 28.
324
67
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um artigo da cristologia.
União sacramental: Insiste-se que a união sacramental se dá durante o comer e o beber dos elementos visíveis, pão e vinho, nem antes
e nem depois. O corpo e o sangue de Cristo não estão sobre o altar para
serem adorados, mas para serem comidos e bebidos.
Unionismo, sincretismo, união confessional, comunhão aberta
e comunhão fechada não encontram paralelo na “teologia popular”.
Intinção: Por não corresponder à instituição do comer e beber, não
se recomenda a prática da intinção. Uso de qualquer outro elemento
em lugar ou adicionado ao pão e ao vinho.
Considerar-se indigno: “Vamos à Santa Ceia ... precisamente por
sermos indignos”.
“Em memória de Cristo até que venha”: “Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice anunciais a morte do Senhor,
até que ele venha”. Há somente uma referência parcial deste tópico na
“teologia popular”: “...que ele pediu para a gente fazer cada vez que tomasse em memória dele...”. Referência ao retorno visível de Cristo
e lembrança aos crentes de irem ao encontro daqueles que ainda não
fazem parte do corpo de Cristo. A própria palavra “culto” assume o
caráter de celebrar a Santa Ceia em memória de Cristo.
Referência ao jejum como boa disciplina externa.
Discernir e reconhecer o corpo e o sangue de Cristo em, com e
sob o pão e o vinho
Refutação de doutrinas contrárias às que são reconhecidas
pela IELB: transubstanciação, representação e consubstanciação.
Os incapazes de se examinar: as crianças, as pessoas inconscientes, os doentes em estado de coma e todas as pessoas em estado de
insanidade. Na “teologia popular” há apenas uma referência a crianças:
“a não ser aquelas bem criancinhas, que ainda não entendem” .
3.3 CONTEÚDOS COINCIDENTES
Traz perdão dos pecados. a) Semelhanças: Este é, sem qualquer
sombra de dúvida, o tópico mais referido na “teologia oficial” e na “teologia popular” quando o assunto é a Santa Ceia. Perdão dos pecados, tanto
na “teologia oficial” quanto na “teologia popular”, é disparado o maior e
mais importante benefício aos participantes da Santa Ceia. O aspecto penitencial é evidente em ambas as teologias e a insistência no “prepararse” e “ser penitente” são condições importantes para que o comungante receba os benefícios da Santa Ceia. Preparar-se e ser penitente
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implicam reconhecimento e verdadeiro arrependimento dos pecados. b)
Diferenças: A “teologia oficial” define pecado de forma objetiva e sistemática a partir de argumentos bíblicos e confessionais como condição
humana, ou seja, pecado é o mesmo que pecaminosidade e corrupção325.
Na “teologia popular” fala-se de pecados a partir de fatos concretos da
vida e através de fórmulas que se aprende na igreja: “me livrar daquilo
que pequei no período anterior” e “muitas coisas que eu já fiz... é, até
mesmo, pensar o errado” (Ilmo, 55); “pecados são coisa que acontecem
diariamente e que afastam a pessoa de Deus” (João 19).
Verdadeiro corpo e sangue de Cristo. a) Semelhanças: é algo que
se recebe. Em ambas as teologias há ênfase na presença real de Cristo
na Santa Ceia. b) Diferenças: a “teologia oficial” enfatiza a presença real
de Cristo de forma teórica, por meio de definições e teses. Há ênfase no
sentido literal das palavras bíblicas “isto é o meu corpo e isto é o meu
sangue”. A “teologia popular”, além da repetição das fórmulas que se
aprende na igreja, manifesta essa crença através de sentimentos, experiências da vida e através dos sentidos tato, paladar e visão: “É algo que
se toma e que se come”(Ilmo, 55)326; “Você recebe o verdadeiro corpo
e sangue de Cristo, né”(Ademir, 58)327; “Que a gente vê que está recebendo o corpo e sangue de Cristo”(João, 19)328. Há na “teologia popular”
opiniões diversas quanto ao que acontece com os elementos: para uns,
os elementos são transformados em corpo e sangue de Cristo, para outros eles apenas os simbolizam, para outros, enfim, corpo e sangue estão
localmente presentes no pão e no vinho.
Os elementos da Santa Ceia. a) Semelhanças: Para a “teologia
popular”, recebem-se o corpo e o sangue de Cristo mediante ambos os
elementos, pão/hóstia e vinho. O vinho não depende da cor. Os mesmos
elementos são considerados importantes na “teologia oficial”. b) Diferenças: Na “teologia oficial” há definições objetivas e detalhadas, com fundamentos bíblicos, teológicos e confessionais, enquanto que na “teologia
popular” as explicações são dadas a partir de questões práticas: “lembro
da hóstia e do vinho branco que o pastor usou na Santa Ceia” (Edison,
26); “quando era católica, só recebia a hóstia” (Clarice, 54); “quando era
católico, só ganhava o corpo, o sangue não” (Ademir, 58).
Sacramento. a) Semelhanças: a afirmação de que a Santa Ceia é
MUELLER, 2004, p. 212,213.
325
Anexo I, p. 54, linhas 23, 24.
326
Anexo I, p. 6, linhas 23, 24.
327
Anexo I, p. 5, linhas 27, 28.
328
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um sacramento, que é instituído por Cristo e que, como tal, oferece remissão dos pecados, fortalecimento da fé e salvação. b) Diferenças:
Enquanto que a “teologia oficial” traz longas e minuciosas definições e
muitos argumentos à base das Escrituras, dos Pais Apostólicos e das
Confissões Luteranas, na “teologia popular” há pouquíssimas referências que repetem as fórmulas que se aprende na igreja, sem dar uma
explicação clara e objetiva. Enquanto que para “a teologia oficial” este
assunto é de máxima grandeza, na “teologia popular” ele não passa de
uma referência ocasional.
Poder e validade da Santa Ceia. a) Semelhanças: Em ambas as teologias, insiste-se no uso das palavras da instituição quando da consagração
dos elementos. B) Diferenças: Para a “teologia oficial”, o poder e a validade
da Santa Ceia dependem das palavras e promessas de Cristo e da correta
administração do sacramento, conforme a instituição. Independem do poder ou da fé do pastor ou mesmo da fé da pessoa comungante. Na “teologia
popular”, poder e validade da Santa Ceia dependem da consagração, do
sinal da cruz, da ação do pastor, dos elementos visíveis e da fé da pessoa
participante: “É o verdadeiro corpo e sangue de Cristo com a consagração”,
“pastor fez a consagração depois de cantar; o pastor fez a instituição da
Santa Ceia, consagrou eles” (João, 19); “o sinal da cruz que o pastor faz
sobre o pão e o vinho” (Noemi, 13); “é o corpo de Cristo que o pastor dá”, “é
aquela oração que o pastor faz” (Bianca, 16); “nesse momento ocorre [...]
que tenha esses dois elementos: o pão e o corpo, o vinho e o sangue” (Edison, 26); “são as palavras que o pastor diz naquela hora” (Juliana, 19).
Como se dá a presença real de Cristo na Santa Ceia. a) Semelhanças: Crítica a doutrinas ou práticas de outras denominações religiosas. Na “teologia oficial” nomeiam-se as doutrinas da transubstanciação,
representação e consubstanciação como contrárias à compreensão da
IELB sobre o assunto. Na “teologia popular” há duas referências à prática da ICAR: “Quando era católico, só ganhava o corpo, o sangue não”.
b) Diferenças: Enquanto que na “teologia oficial” afirma-se a união sacramental, usando-se para tal argumentos bíblicos e confessionais, na
“teologia popular” há uma variedade de explicações para o fenômeno
da presença de Cristo na Santa Ceia, precisamente as que são refutadas
pela “teologia oficial” (transubstanciação, representação e consubstanciação): “Também tem a questão do ‘nosso Senhor Jesus Cristo’... que
nesse momento começa a existir o corpo e o sangue de Cristo” (Edison,
26); “é importante tomar a Santa Ceia, o pão significa o corpo de Cristo
e o vinho o sangue” (Bianca, 16); “no pão tá o corpo e no vinho tá o
sangue” (Elano, 27).
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Ser batizado e ter fé. a) Semelhanças: “teologia oficial” e “teologia
popular” são unânimes em afirmar que ser batizado e ter fé são condições fundamentais para a participação da Santa Ceia. b) Diferenças:
Enquanto que na “teologia oficial” há abundância de argumentos bíblicos
e teológicos para justificar o Batismo como condição à participação da
Santa Ceia e a fé é igual a crença, na “teologia popular” há apenas a
afirmação de que se deve ser batizado para poder participar, dando maior
ênfase à confirmação e à instrução. Fé, na “teologia popular”, é o mesmo
que dar crédito, confiar e sentir. Ser fortalecido na fé é receber novo
ânimo e novas forças para encarar as dificuldades da vida.
Mudar de vida. a) Semelhanças: ambas as teologias consideram
que mudança de vida é essencial para a participação da Santa Ceia. b)
Diferenças: há diferença na forma de exprimir essa condição: a “teologia oficial” descreve essa condição de maneira genérica, na forma de
pequenas teses, enquanto que na “teologia popular” descrevem-se fatos
concretos da vida das pessoas, tais como, “não fazer as mesmas coisas”,
“não viver uma vida errada”, “ser uma pessoa casada, não amigada”,
entre outras.
Examinar-se sobre a sua fé. a) Semelhanças: para ambas as teologias, é importante examinar-se antes de participar da Santa Ceia. Há
uma ênfase penitencial, relacionada com o reconhecimento e arrependimento dos pecados. b) Diferenças: enquanto que na “teologia oficial”
este tópico implica conhecimento e aceitação de doutrinas, não pecar
conscientemente e viver conforme os ensinamentos de Cristo, na “teologia popular”, além da repetição de fórmulas que se aprende na igreja,
fala-se de questões práticas: saber, entender, estar consciente, perceber
que se está errado.
Comunhão aberta ou comunhão fechada. a) Semelhanças: Três
pessoas, das vinte entrevistadas, concordam com a posição da “teologia
oficial” quanto à comunhão fechada, mesmo não fazendo referência ao
termo: “os que são da igreja” (Ricardo); “quem for ... luterana, né” (Gerson, 40); “tenho um pouco de dificuldade de aceitar de repente outras
pessoas que não são da igreja luterana, não são confirmados, na Santa Ceia ...” (Ilga, 42). b) Diferenças: Enquanto que a “teologia oficial”
é categórica e exclusiva quanto aos participantes (comunhão fechada),
na “teologia popular” há variedade de opiniões que tendem a ser mais
inclusivas. Não se restringe aos membros da IELB e, por parte de seis
pessoas, não se coloca qualquer condição religiosa.
Traz vida e Traz salvação. a) Semelhanças: há referências à vida
e à salvação como benefícios da participação da Santa Ceia em ambas
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as teologias. b) Diferenças: estes tópicos na “teologia oficial” têm a ver
mais com o aspecto transcendental, vida eterna e salvação, que são decorrentes do perdão dos pecados. Na “teologia popular”, além da repetição
da fórmula que se aprende na igreja (vida eterna e salvação como consequências do perdão dos pecados), as pessoas referem-se às situações da
sua vida, como pode ser evidenciado pelos depoimentos abaixo: “é tudo
para mim...é tudo...para mim...é tudo...é o ar que respiro, é a vida, é a
força...é aquela sensação, é aquela...como se diz, aquela esperança que
amanhã sempre vai ser um novo dia, sempre eu tô esperando uma coisa
melhor, sempre eu tô esperando uma notícia boa, alegre. É uma sensação
muito boa...olha, é uma experiência que eu estou vivendo, que eu nunca
vivi”(Clarice, 54); “entregar a tua vida para Deus...Deus segura a tua mão,
tu começa a se reerguer” (Ademir, 58). Vida e salvação relacionam-se, na
“teologia popular”, com consolo e conforto nos momentos difíceis da vida.
Traz graça, conforto e consolo. a) Semelhanças: é um benefício
da Santa Ceia e consequência do perdão dos pecados. b) Diferenças: a
“teologia oficial” é mais teórica e objetiva, referindo-se especificamente
a questões espirituais. A “teologia popular” é mais prática e subjetiva e
refere-se às coisas da vida, tais como sentimentos, experiências, ajuda
nas dificuldades e angústias; é alívio, tranquilidade e paz: “a gente se
renova” (Ademir, 58); “traz alívio e paz ao coração” (Carla, 51), “se sente mais aliviado da carga” (Maria, 26), “eu acho que me sinto melhor,
sabendo que Deus me ajuda, abençoa” (Bianca, 16) ; “me ‘porenche’ ...
me dá uma alegria tão grande” (Clarice, 54); “eu experimento tudo de
bom... aquela paz...” (Neuza, 29).
Traz fortalecimento para a fé. a) Semelhanças: é um benefício da
participação da Santa Ceia. b) Diferenças: o tópico “fortalecimento para
a fé” é, na “teologia oficial”, fortalecimento na piedade, na certeza do
perdão dos pecados e na crença nas coisas espirituais. A “teologia popular” repete a fórmula “traz fortalecimento para a fé”, mas acrescentamse ingredientes importantes, como sentimentos, sensações e situações
concretas da vida: “Eu sinto, né, que eu me fortifico, saio de lá tranquilo
...” (Gerson, 40); “... tira aquele peso de ti e te fortalece pra continuação” (Maria, 26); “Acho que quando a gente está debilitado, está fraco na
fé. Você está assim... Bah! Parece que tudo está dando errado, né, que
nem a situação que a gente passou, né?! Parece que assim... a curva só
desce... você está numa decrescente. E aí você acha... Bah, mas o que
está acontecendo? Será que é a minha fé que está fraca? Então, aí você
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precisa buscar o fortalecimento” (Ricardo, 37)329.
3.4 CONCLUSÕES
Na “teologia oficial” há abundância de definições teóricas e riqueza
de fundamentos bíblico-teológicos na exposição sobre a Santa Ceia. Há,
por outro lado, escassez de questões práticas e ausência de situações
concretas. Trabalha-se na “teologia oficial” com questões muito objetivas. Por isso, não há espaço para a subjetividade, para a sensibilidade
e para a experiência pessoal. A “teologia oficial” é impessoal. Não se
cogitam as palavras sentimento, experimentação, experiência pessoal.
Há uma preocupação voltada muito mais para a pessoa individualmente
do que para a comunidade e, assim como os benefícios são descritos de
forma individualista, o preparo e a dignidade também o são. É evidente
a preocupação exacerbada em definir o que a Santa Ceia é e em refutar
posicionamentos contrários. Há maior preocupação em teorizar do que
em estimular os fiéis a participarem motivados pelos benefícios e pelas
consequências para a vida individual e comunitária.
Fazendo-se uma retomada dos enunciados da “teologia oficial” acerca
da Santa Ceia, podem-se verificar as seguintes ênfases: a Santa Ceia é
um sacramento instituído por Cristo, um benefício para a sua igreja, no
qual ele confere aos participantes seu verdadeiro corpo e sangue para
perdão dos pecados, vida e salvação. Muitas páginas são dedicadas para
definir doutrinas e refutar supostos erros de outras denominações. Pouco
se diz a respeito dos benefícios e, dentre estes, todo o destaque recai
sobre o perdão dos pecados. Muito pouco se diz a respeito das consequências práticas da participação da Santa Ceia na vida das pessoas.
Fala-se muito de condições à participação, da necessidade de preparo,
contrição e arrependimento, para uma participação digna da Santa Ceia.
Ênfases são dadas aos alertas a que não se participe indignamente, para
não sofrer o juízo de Deus. Por isso, mantém-se uma ênfase na comunhão fechada, a fim de evitar que pessoas tomem a Santa Ceia para o
seu próprio juízo.
Na “teologia popular”, há riqueza de detalhes práticos e abundância
de situações concretas que são relevantes para a vida das pessoas. Há
muito espaço para a subjetividade, para a experiência pessoal, o sentimento e a sensibilidade. Esses aspectos são amplamente valorizados,
Anexo I, p. 15, linhas 13-19.
329
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enquanto que definições teóricas não recebem maior atenção. Na “teologia popular” não se define teoricamente o que é a Santa Ceia, mas se
tenta exprimir a partir daquilo que se sente e se experimenta. Só para
citar alguns exemplos: a Santa Ceia “me ‘porenche’”, “eu experimento
tudo de bom”, “saio de lá tranquilo”, “eu sinto cada vez que eu tomo,
Jesus está mais perto comigo, mais perto de mim”, “nos torna mais próximos, mais irmãos”. Evidenciam-se por estas palavras todo o sentir e o
ser humanos. Tudo isso as pessoas efetivamente vivem, experimentam e
sentem quando participam da Santa Ceia.
Fazendo-se um apanhado geral das principais ênfases da “teologia
popular” no que concerne à Santa Ceia, verifica-se que “traz perdão dos
pecados” é o assunto mais lembrado pelas pessoas. A própria referência
ao “corpo e sangue de Cristo” parece evidenciar mais o aspecto penitencial (“para perdão dos pecados”) do que qualquer outro benefício.
Aparentemente, as pessoas têm noção muito viva e real dos seus pecados. Para elas, perdão dos pecados não é teorização abstrata, mas algo
concreto e que pode ser vivenciado. Assim também o é a Santa Ceia para
perdão dos pecados. Motivados pela mesma preocupação penitencial,
as pessoas revelam qual é, no seu entender, a mais importante condição à participação: “é importante preparar-se para participar”. Este foi
o segundo assunto mais referido pelas pessoas. Como o sofrimento, a
enfermidade, as frustrações e a ansiedade acompanham as pessoas no
seu dia-a-dia, “traz alívio e paz ao coração” foi o terceiro assunto mais
lembrado na pesquisa. As pessoas em geral afirmaram que a Santa Ceia
ajuda a superar tais situações da vida.
O que leva as pessoas ao culto e à Santa Ceia, além da certeza do
perdão dos pecados, do alívio e paz ao coração, é a busca da comunhão
com Deus, da sua proximidade, da sua ajuda e bênção e a busca da comunhão com o próximo. Essa constatação fica evidenciada nas seguintes
observações:
A importância que as pessoas dão ao lugar da celebração, destacando
que “é importante sentir-se bem no lugar da celebração”; Maria, 26, com
certeza, fala por muitos: “Deus vai estar ali com a gente nos ajudando,
dando força para melhorar mesmo”. Com relação à comunhão com as
pessoas, Juliana, 19, resume o que acontece na Santa Ceia: “em relação aos outros [a Santa Ceia] te torna mais fraterno, mais amigo, mais
solidário”330.
Anexo I, p. 26, linhas 23-28.
330
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As ações referidas pelas pessoas merecem ser destacadas, especialmente quando se fala de condições à participação. Pouco é dito sobre a
necessidade de conhecimentos específicos (instrução) ou determinados
ritos (Batismo e confirmação) como pré-requisitos quando o assunto é
“quem pode participar da Santa Ceia”. As ações “andar no caminho certo”, “mudar de atitudes” e “participar sempre” demonstram claramente
que as pessoas se preocupam mais com questões concretas, visíveis e
mensuráveis do que com conhecimentos teóricos e doutrinas.
Não menos importantes são as referências àquelas coisas que as pessoas lembram quando se referem à Santa Ceia: hinos e liturgia, pessoas
queridas e situações diversas da vida. Tais elementos demonstram que
Santa Ceia é para as pessoas vivências, experiências, sentimentos, elementos que a “teologia oficial” não consegue exprimir.
Pode-se perceber por esta pesquisa que a “teologia oficial” tem um
papel importante quando o assunto é definir doutrinas, normas e procedimentos. Não se pode, porém, prescindir do valioso conjunto de expressões, sentimentos e experiências que fazem parte ou que são a essência
da “teologia popular”. Sem esta, a igreja pode tornar-se meramente uma
“igreja do discurso” e não uma “igreja da ação”.
4 CONSEQUÊNCIAS DAS DESCOBERTAS DA PESQUISA
NA “TEOLOGIA OFICIAL” E NA “TEOLOGIA POPULAR”
PARA A PRÁTICA DA SANTA CEIA À LUZ DAS ORIGENS
DO CULTO CRISTÃO
4.1 INTRODUÇÃO
A partir das principais descobertas da pesquisa na “teologia oficial” e
na “teologia popular” acerca da Santa Ceia no âmbito da IELB, buscarse-á, à luz das origens do culto cristão, listar possíveis consequências
para a prática eucarística dessa igreja.
Estudos aprofundados a respeito das origens do culto cristão foram realizados nos últimos anos, inclusive pelo autor331 desta tese. Por isso, o capítulo quatro limitar-se-á a buscar apenas as informações relevantes para
a presente pesquisa. Vale destacar que, por ser “a Eucaristia a estrutura
mais distintiva do culto cristão”332 e por ser “o termo mais descritivo que
PIETZSCH, 2002.
331
WHITE, James F. Introdução ao culto cristão. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p.
175.
332
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temos”333, o autor desta pesquisa optou em usar este termo doravante.
4.2 A EUCARISTIA NAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO
A respeito da Eucaristia nas Origens do Culto Cristão, o autor desta
pesquisa remete o leitor ao texto de sua dissertação de Mestrado em
Teologia (disponível na biblioteca do Seminário Concórdia e também na
página do Seminário Concórdia na Internet) e no seu artigo publicado na
revista Igreja Luterana (PIETZSCH, Paulo Gerhard. Eucaristia nas origens
do culto cristão. Igreja Luterana, 2002, n. 2.).
4.3 SÍNTESE DAS PRINCIPAIS DESCOBERTAS ACERCA DA EUCARISTIA NA “TEOLOGIA OFICIAL”, NA “TEOLOGIA POPULAR” E NAS ORIGENS
DO CULTO CRISTÃO
4.3.1 Como se define a Eucaristia / Santa Ceia
4.3.1.1 Síntese das definições acerca da Santa Ceia na “teologia oficial”
Verificou-se, a partir de acurada investigação, que na “teologia oficial”
da IELB Eucaristia / Santa Ceia é um sacramento que confere graça ao
ser humano, um benefício cuja iniciativa é inteiramente de Deus. Qualquer sacrifício, iniciativa ou obras meritórias por parte das pessoas são
considerados na “teologia oficial” da IELB contrários aos ensinamentos
das Escrituras e das Confissões Luteranas, por isso devem ser refutados.
É inegável a forte ênfase penitencial já nas definições do que é a Santa
Ceia, ou seja, é para o perdão dos pecados.
A ênfase na presença real de Cristo, com seu verdadeiro corpo e
sangue, em, com e sob o pão e o vinho e mediante suas duas naturezas,
divina e humana, são minuciosamente explicados através do conceito
da “união sacramental”. Ao mesmo tempo em que se define o termo,
refutam-se insistentemente doutrinas que se consideram contrárias aos
princípios bíblicos e confessionais, tais como a transubstanciação, representação e consubstanciação.
Para que a Eucaristia / Santa Ceia tenha validade e poder é necessário que seja celebrada conforme a ordem e promessa de Cristo, quando de sua instituição. Enfatiza-se que a autoridade está na palavra de
WHITE, 2005, p. 175.
333
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Cristo e não em palavras, gestos ou mesmo a fé da pessoa oficiante ou
comungante. Insiste-se, por isso, no uso das palavras da instituição no
momento da consagração dos elementos. Em segundo lugar, para que a
Eucaristia / Santa Ceia tenha valor e, consequentemente, poder, é absolutamente necessário o uso dos elementos conforme a instituição. Insiste-se, por isso, que pão e vinho devem ser os elementos visíveis e que
juntamente com estes recebe-se o corpo e o sangue de Cristo. É verdade
que, apesar da insistência no uso do pão, a prática da IELB é o uso de
hóstias. O vinho é utilizado, independente da cor, desde que seja o “fruto
da videira” fermentado. Refuta-se o uso de qualquer outro elemento em
lugar do pão / hóstia e do vinho e qualquer prática que vá contra o princípio instituído do comer e beber, como, por exemplo, a intinção.
Percebe-se por parte da “teologia oficial” da IELB uma enorme preocupação em definir com muita exatidão o que é a Eucaristia / Santa Ceia
e, especialmente, afirmar o que ela não é, refutando qualquer ensinamento que, em sua compreensão, vá contra os princípios estabelecidos
nas Escrituras e nas Confissões Luteranas. Há, pois, abundância de definições teóricas e, por consequência, escassez de aspectos práticos e total
ausência de situações concretas da vida das pessoas.
4.3.1.2 Síntese das descobertas acerca da Santa Ceia na “teologia
popular”
Tenta-se, na “teologia popular”, através de fórmulas que se aprende
na igreja e de singelas manifestações, sentimentos e experiências pessoais, explicar o que é a Santa Ceia. Diz-se que “é o verdadeiro corpo e
sangue de Cristo”, sem, no entanto, entrar no mérito de como isso é possível. Percebe-se nas respostas das pessoas que se trata de algo muito
mais para ser crido, sentido e experimentado do que para ser definido ou
explicado. Percebe-se, tal qual na “teologia oficial”, uma forte conotação
penitencial nas manifestações das pessoas acerca da Santa Ceia.
Na tentativa de explicar o significado da Santa Ceia, um pequeníssimo número de pessoas afirmou tratar-se de um sacramento, sem, no
entanto, definir o que se entende por esta palavra. Em número bem mais
expressivo (105 u.i.), afirmou-se que a Santa Ceia é o verdadeiro corpo
e sangue de Cristo. Também não houve maior explicação ou definição
sobre esta fórmula. Enfatizou-se que é mais do que simples pão e vinho,
no entanto, não houve unanimidade quanto à maneira como o corpo e
o sangue de Cristo são recebidos pelos fiéis. Houve quem afirmasse que
pão e vinho são transformados em corpo e sangue. Um segundo grupo
afirmou que se trata de uma representação, que pão e vinho significam
77
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corpo e sangue de Cristo, enquanto que um terceiro grupo referiu-se ao
corpo e sangue como localmente presentes no pão e no vinho. Não há,
na “teologia popular”, qualquer refutação de doutrinas de outras denominações religiosas.
A consagração dos elementos é referida como necessária para que a
Santa Ceia tenha valor e para que se tenha a certeza de estar recebendo
o corpo e o sangue de Cristo. Além do uso das palavras da instituição,
menciona-se o sinal da cruz pelo pastor como algo fundamental e a fé
das pessoas como absolutamente necessária.
Sucintamente, pode-se dizer que as pessoas descrevem a Santa Ceia
muito mais pelo que elas acreditam, sentem e experimentam, e pelas
ações visíveis ligadas a ela, do que através de definições teóricas e bem
fundamentadas.
4.3.1.3 Como se descreve a Eucaristia nas origens do culto cristão
Nas origens do culto cristão a Eucaristia consiste em celebrar através
de uma refeição de louvor pelo todo da obra de Deus em Cristo a ressurreição do Senhor e as promessas das quais a ressurreição era a garantia.
Nesta refeição sagrada uniam-se passado (anamnese dos grandes feitos
de Deus), presente (comemoração) e futuro (esperança escatológica).
Tal refeição era celebrada com alegria e singeleza de coração, humildade, espírito de igualdade, unidade, sintonia, comprometimento, lealdade
a Deus e ao próximo. Celebrava-se a Eucaristia com ações de graça (a
redundância é proposital), espírito de confraternização, comemoração do
evento da salvação, sacrifício de gratidão e oferta a Deus e em favor do
próximo. Em suma, celebrava-se o mistério da presença do Senhor em
meio ao seu povo.
A Eucaristia nas origens do culto cristão é mais descrita concretamente do que definida, e sua principal ênfase não consiste na penitência,
mas na manifestação da graça de Deus e na celebração desta graça por
parte de seu povo.
Na Era Apostólica e Igreja Antiga não se discute poder ou validade
da Eucaristia. Relata-se simplesmente o que e como isto era feito. Por
exemplo: por ocasião da última ceia, os discípulos, ao verem as ações de
Jesus e ouvirem dele as palavras, não discutiram nem perguntaram como
isso era possível. A presença e o poder do Senhor lhes eram suficientes.
Quanto aos elementos da Ceia, os textos bíblicos mencionam simplesmente pão e cálice / fruto da videira, corpo e sangue de Cristo. Não
se discute o tipo de pão ou a essência do fruto da videira. Deduz-se, pelo
contexto da festa, que se tratava de pão ázimo e que o fruto da videira
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era vinho. Igualmente, não há nas origens maior preocupação em explicar como se dava a presença do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia. Simplesmente se participava da celebração na certeza da presença
do Senhor.
A Eucaristia, como celebração “em memória da ressurreição do Senhor”, como celebração da vida e vitória do Redentor, é elemento central
do culto cristão nas origens, tanto que, em dado momento da história,
culto e Eucaristia significam exatamente a mesma coisa.
4.3.2 A freqüência e o dia das celebrações
4.3.2.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca da frequência e do dia das celebrações
A IELB, em sua história de mais de cem anos, nem sempre tem celebrado a Santa Ceia a cada334 culto. Não se diz, oficialmente, quantas vezes se deve celebrar a Santa Ceia ou dela participar, apenas se diz, com
base nos benefícios, que é importante participar frequentemente. Há,
no entanto, na própria liturgia denominada “Ordem do culto principal”,
após a oração geral e recolhimento das ofertas, a seguinte observação:
“Não havendo celebração da Santa Ceia, segue: Pai-nosso, Hino, Oração,
Bênção”335, o que demonstra que, na prática da IELB, não se prevê a
celebração da Ceia a cada culto. O dia dedicado à celebração, na maioria
das comunidades da IELB, continua sendo o domingo. Muitas comunidades também realizam seus cultos em sábados.
4.3.2.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca da frequência e do dia das celebrações
Nas duas comunidades pesquisadas, a celebração da Santa Ceia
acontece a cada semana, conforme os depoimentos. As pessoas são unânimes em afirmar sobre a importância da participação e reconhecem que
quanto mais vezes puderem participar, melhor. Algumas falam de ir uma
vez por mês, outras duas vezes, outras dizem que se pudessem ir a cada
culto, seria melhor ainda.
Os motivos que levam as pessoas à Santa Ceia são diversos: “Todas
as vezes que tu te sentir triste e abatido, que percebe que está errado”
(Caetano, 17); “Tanto quando estiver fraco como quando estiver forte”
PIETZSCH, 2002, p. 92-99.
334
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 24.
335
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(Ricardo, 37); “Quando ‘tamo’ mal a gente deve ir mais; quando está
alegre também deve ir” (Leomir, 14). De uma forma geral, as pessoas
acreditam que, quanto mais puderem participar da Santa Ceia, melhor.
Elas se sentem melhor, mais fortalecidas na fé e consoladas.
4.3.2.3 O que dizem as origens acerca da frequência e do dia da Eucaristia
Há no Novo Testamento uma referência ao “partir do pão de casa
em casa”336, que poderia acontecer diariamente nos primeiros anos da
Era Apostólica. No entanto, ao que tudo indica, muito cedo o “primeiro
dia da semana”337 ou “o dia do Senhor”338 tornou-se a data do encontro
semanal da comunidade para celebrar a Eucaristia. A sua importância
pode ser atestada no fato de que “em toda a Igreja Primitiva não há o
menor indício da celebração do domingo sem a Ceia do Senhor”339 e a
”existência de um vínculo quase automático entre o dia do Senhor e o
partir do pão”340.
4.3.3 A estrutura da celebração eucarística
4.3.3.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca da estrutura da celebração
Duas ordens litúrgicas, que foram oficialmente publicadas pela IELB
e que constam no Hinário Luterano341, continuam sendo usadas nas comunidades desta igreja. A estrutura de ambas as liturgias é bastante
parecida, com pequenas diferenças na ordem de alguns pontos.
A “Ordem do culto principal I” foi publicada na IELB em 1986342 enquanto que a “Ordem do culto principal II” foi pela primeira vez publicada
nesta igreja em 1947343. As principais alterações, que podem ser visualizadas na sinopse da tabela anterior, são: o acréscimo da leitura do Antigo
At 2.46
336
At 20.7
337
1 Co 11.20
338
ALLMEN, 1968, p. 176.
339
ALLMEN, 1968, p. 175.
340
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986.
341
PIETZSCH, 2002, p. 102
342
PIETZSCH, 2002, p. 97
343
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Testamento, a inclusão do gradual entre a Epístola e o Evangelho, deslocamento do credo para depois do sermão, inversão da ordem da oração
geral e recolhimento das ofertas, deslocamento do ofertório para o início
da celebração da Santa Ceia e omissão da saudação e do benedicamus
após a distribuição.
Percebe-se em ambas as liturgias ênfase penitencial, pois, além da
confissão e absolvição de pecados, é prevista a exortação ou alocução
confessional. A própria redução do Kyrie (de uma litania pelas dores do
mundo para a simples repetição das frases “Senhor, tem piedade/misericórdia de nós, Cristo, tem piedade/misericórdia de nós, Senhor, tem
piedade/misericórdia de nós”) mais parece reforçar a idéia de uma nova
confissão de pecados. O ofertório, na ordem número dois, mais parece
uma conclusão do sermão e o conteúdo é também penitencial344. Na ordem número um, mesmo que (corretamente) tenha sido recolocado no
início da celebração da Santa Ceia, o conteúdo do ofertório é igualmente
penitencial345. Não se percebe qualquer ênfase na diaconia, no serviço de
amor ao próximo.
Ambas as liturgias concluem com a bênção e não há qualquer menção
ao envio para a prática do bem.
4.3.3.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca da estrutura da celebração
Não há por parte das pessoas entrevistadas maior preocupação com
uma estrutura do culto eucarístico. Fala-se, entretanto, que os encontros
da comunidade são momentos de comunhão (142 u.i.), ou seja, há a
preocupação de que o culto e a Santa Ceia contenham elementos que
apontem tanto para aspectos verticais quanto para horizontais. Tais manifestações das pessoas, especialmente das mulheres, estão completamente envolvidas por sentimentos, sensações e experiências subjetivas.
Quanto à liturgia propriamente dita, diz-se que ela “é do pastor” ou
“é algo que o pastor faz” (Caetano, 17). Tal afirmação parece mais
referir-se a uma apresentação, preleção ou “obra de um homem só” do
que um evento cuja participação ativa da comunidade é essencial. Dizse que “a liturgia é sempre cantada e está baseada sempre na mesma
ordem litúrgica” (Edison, 26). Menciona-se frequentemente o apreço pelos hinos e pela música em geral: “Há hinos e fundo musical” (Ricardo,
37); “Hinos que eu gosto muito” (Ademir, 58). Há referência à mensa-
Trata-se de parte do Sl 51: “Cria em mim, ó Deus, um puro coração ...”
344
Trata-se do mesmo salmo, com pequenas variantes na tradução para o português.
345
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gem (sermão): “uma melhor que a outra, que vai dando inteligência, vai
abrindo a tua mente” (Clarice, 54). A oração é outro ingrediente referido
ao se falar da liturgia.
Ao falar propriamente da celebração da Santa Ceia, as pessoas, maciçamente, apontam para a necessidade do preparo para a participação,
o qual acontece, especialmente, quando elas confessam os seus pecados a Deus e recebem a absolvição: “É buscar por renovação, buscar a absolvição, confessar pecados” (Maria, 26). A consagração dos
elementos e o uso das palavras da instituição foram lembrados por
quinze pessoas como parte importante e até necessária da celebração.
Nesse contexto, menciona-se o uso de pão / hóstia e vinho, fala-se de
alguns detalhes relacionados ao espaço e utensílios litúrgicos, tais como
a mesa mais próxima da comunidade e a referência à garrafa de vinho.
Menciona-se a forma da distribuição, em fila ou em semicírculo e o uso
de “copinhos” (cálice individual) ou de cálice coletivo. O espaço da celebração, especialmente, é referido como um lugar de bem-estar.
Vale destacar uma observação quanto à compreensão da liturgia:
“poderia ser feito um estudo periódico sobre a liturgia para que a celebração não fique mecânica, automática” (Ricardo, 37). Tal observação
parece refletir o pensamento de que a liturgia é repetitiva e que sempre
acontece a mesma coisa.
4.3.3.3 O que dizem as origens acerca da estrutura da Eucaristia
No Novo Testamento encontram-se referências à proclamação da
Palavra (doutrina dos apóstolos), à comunhão (que incluía ofertas para
os pobres), à Ceia do Senhor (partir do pão) e às orações (At 2.42-27).
Adicionam-se a estas referências o uso de “salmos, hinos e cânticos
espirituais” (Cl 3.16-17), as exortações, o “ósculo da paz” e a expressão “maranatha”. Supõe-se que as palavras da instituição , o “Painosso” e as ações de graça igualmente compunham a estrutura da celebração eucarística. Inicialmente, os locais de encontro da comunidade
eram as próprias casas dos cristãos, não mais o templo ou a sinagoga.
No período pós-apostólico, há referências a uma estrutura mais elaborada, mais detalhada e, possivelmente, padronizada da Eucaristia.
Vale destacar que se tratava, inicialmente, de uma celebração no contexto de uma refeição completa que, mais tarde, foi separada em duas: a
celebração eucarística matutina e a refeição comunitária vespertina. Aqui
serão apenas destacados o gesto da paz ou ósculo da paz como sinal de
reconciliação, muitas ações de graças e orações, grande ênfase diaconal através do ofertório, oração eucarística com ações de graças,
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anamnese, palavras da instituição, epiclese, doxologias, seguidos
do amém da comunidade, o uso da oração do Senhor e da expressão
“maranatha”, a distribuição e o envio com a ordem para que todos se
apressassem em fazer o bem. Após a assembléia eucarística, pão e fruto
da videira (além de outros alimentos e água) “eucaristizados” eram levados para os ausentes (pobres, viúvas, enfermos, encarcerados, etc).
4.3.4 Os participantes da celebração
4.3.4.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca dos participantes
No contexto da “teologia oficial” da IELB, são listados os seguintes
requisitos para que uma pessoa possa participar da Santa Ceia: “Os que
já são batizados e, portanto, receberam a fé cristã; os que são capazes
de se examinarem a si mesmos a respeito de sua fé e que se arrependem dos seus pecados; os que crêem que na Santa Ceia receberam o
verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo em, com e sob o pão
e o vinho para perdão dos seus pecados”346. Por outro lado, é vedada a
participação de pessoas “que negam a presença real do corpo e sangue
de Cristo” (na Santa Ceia), os que crêem na transubstanciação347, os que
ainda não foram instruídos nas doutrinas cristãs e confirmados348 e os
que não são capazes de se examinarem.
4.3.4.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca dos participantes
Na “teologia popular” foram listadas algumas condições à participação
da Santa Ceia. Em primeiro lugar, “é importante participar da Santa Ceia”
(171 u.i.), o que inclui: “estar consciente”, “pensar muito nos pecados”,
“conhecer o pecado”, “arrepender-se”, “demonstrar que não quer fazer novamente”, “confessar os pecados” e “pedir perdão”, reconciliar-se com Deus
e com o próximo. Em segundo lugar, “é importante andar no caminho certo”
(80 u.i.), seguido por “é importante ser batizado e confirmado” (38 u.i.).
Vale destacar que a ênfase maior está na confirmação e na instrução na
doutrina. “Ser da igreja ou crer no que a nossa igreja ensina” (23 u.i.) é a
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e
Relações Eclesiais. Porto Alegre: Concórdia, 1995, v. 1, p.11-12.
346
Ibid, p.11.
347
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Liturgia Luterana. Porto Alegre: Casa
Publicadora Concórdia, s/d, v. 2, p.6 e 7.
348
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quarta condição, dividida entre aqueles que defendem que só membros da
IELB deveriam participar (3 pessoas) e os que admitem a participação de
pessoas de outras denominações, desde que aceitem a mesma doutrina que
a IELB professa acerca da Santa Ceia (11 pessoas). Houve (para surpresa
deste pesquisador), finalmente, seis pessoas que defendem que “todas as
pessoas podem participar”, desde que tenham vontade.
4.3.4.3 O que dizem as origens acerca dos participantes
A respeito dos participantes da celebração eucarística na era apostólica, Paulo diz que eram “os irmãos meus”349, Lucas se refere a “todos
os que creram [...] no partir do pão”350; Marcos diz que o que Cristo fez
é “em favor de muitos”351 e Mateus acrescenta que é “para remissão de
pecados”352. Considerando que “todos pecaram e carecem da glória de
Deus”, exatamente esses pecadores que crêem em Cristo são justificados
por sua graça353. O primeiro ingrediente, portanto, para a participação na
Eucaristia, é crer que através de Cristo há redenção e justificação.
A segunda informação sobre os participantes da Ceia acha-se nos
pais apostólicos. Na Didaqué se diz: “Ninguém coma nem beba de vossa
Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor”354. Esta informação é confirmada por Justino Mártir355 e por Hipólito356. É importante
destacar que, na Igreja Antiga, a reconciliação com o próximo com quem
havia alguma divergência, era condição fundamental para a participação
da Eucaristia: “Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não
se ajunte a vós antes de ser reconciliado, a fim de que o vosso sacrifício
não seja profanado”357.
4.3.5 Os benefícios da Eucaristia
4.3.5.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca dos benefícios
1 Co 11.33.
349
At 2.42-44.
350
Mc 14.24.
351
Mt 26.28.
352
Rm 3.21-24.
353
DIDAQUÉ, IX, p. 32.
354
JUSTINO, Apologia 1.65, p.81.
355
HIPÓLITO, Tradição Apostólica, 44-46, p.51.
356
DIDAQUÉ XIV.2
357
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Os benefícios da Santa Ceia / Eucaristia, na “teologia oficial” da IELB,
podem ser assim resumidos: ao participar da Santa Ceia, a pessoa comungante recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo,
que traz perdão dos pecados, vida, salvação, graça, conforto, consolo e
fortalecimento para a fé.
Além do flagrante componente penitencial, pois é grande o destaque
ao perdão de pecados (e tudo o que isto implica), percebe-se a ênfase
em certas condições para que perdão e outros benefícios se tornem efetivos. Dentre as condições para que o comungante tenha proveito em sua
participação, destacam-se: a fé cristã e uma forma geral e, especificamente, a fé na presença real de Cristo na Santa Ceia, o preparo mediante
contrição, arrependimento, confissão dos pecados e o firme propósito de
corrigir a sua vida pecaminosa, todos estes ingredientes necessários para
uma participação digna da Santa Ceia. Vale destacar que os benefícios
são, aparentemente, descritos de forma individualista: “meu perdão”,
“minha salvação”, etc.
4.3.5.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca dos benefícios
De acordo com os depoimentos das pessoas entrevistadas, o benefício da Santa Ceia mais referido é o perdão dos pecados (196 u.i., cerca
de 13 % do total). No entanto, para receber esta benesse, é importante
preparar-se (172 u.i., cerca de 11 % do total), o que, tal como na “teologia oficial” implica arrependimento e confissão dos pecados e o firme
propósito de andar no caminho certo. Sem estas condições (ou seriam
méritos?), as pessoas participantes não recebem os benefícios, mas juízo
e condenação.
“Traz alívio e paz ao coração” (164 u.i., próximo a 11 % do total) é o
segundo benefício mais referido na “teologia popular”. Muito mais do que
um benefício puramente espiritual, alívio e paz referem-se a coisas e situações concretas da vida, tais como: “ser livre”, “sem receio”, “sem rancor”, “sem culpa”, “renovação”, “tranquilidade”, “reconstrução da vida”,
“liberta da ansiedade e depressão”, “sentir-se melhor”, “esperança de
dias melhores”, “vencer sofrimentos e angústias”, “sentir-se ‘porenchida’”, “alívio para as cargas”, “ajuda na enfermidade e luto”, “sentir-se
perdoado”. Além do flagrante aspecto penitencial, percebe uma visão
global da pessoa como ser bio-psico-social-espiritual. É na mesma perspectiva que as pessoas se referem ao fortalecimento e renovação da fé.
Entre os benefícios da Santa Ceia, é referido como uma fórmula pelas pessoas a expressão “recebe-se o corpo e o sangue de Cristo” (105
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u.i.). Junto com a fórmula supra, são referidos os benefícios “traz vida e
salvação”, que pode ser interpretados em dois sentidos: como sinônimo
de vida eterna e benefícios reservados para o futuro (referido principalmente por homens) ou como referência a situações concretas da vida e
benefícios para o presente (referidos mais por mulheres). “Salvação” tem
íntima relação com perdão dos pecados, e as condições para recebê-la
são semelhantes.
Mesmo com referência aos benefícios da Santa Ceia, percebe-se a
presença marcante da penitência, o que acentua tendências individualistas: “ao receber o corpo e o sangue de Cristo, tenho meus pecados perdoados, tenho alívio e paz, tenho vida e salvação”. Talvez isso explique
a inexpressiva referência aos aspectos comunitários da participação da
Santa Ceia.
4.3.5.3 O que dizem as origens acerca dos benefícios da Eucaristia
Dos quatro relatos da instituição da Santa Ceia no Novo Testamento,
apenas Mateus faz referência ao perdão dos pecados. Não se pode, pois,
argumentar com tanta ênfase à base do Novo Testamento uma visão penitencial da Eucaristia. O que se pode afirmar, tanto pelos componentes
da herança judaica quanto dos exemplos práticos da vida da comunidade
primitiva, é que a Eucaristia era uma refeição, que alimentava tanto o
corpo quanto a alma. O espírito com que se celebrava a Eucaristia demonstra que tal refeição era momento de comunhão com Deus e com os
irmãos, recebia-se o corpo e o sangue de Cristo como manifestação e garantia da graça divina e como a prova do cumprimento das suas promessas. Na Ceia, as pessoas tornavam a vivenciar a realidade da presença do
próprio Cristo, relembrando, revivendo e comemorando a salvação como
realidade presente, não apenas um benefício reservado para o futuro.
Fazer parte de “um só corpo, porque todos participam de um único pão”
é, sem dúvida, o benefício mais referido nos primórdios.
4.3.6 As consequências da Eucaristia / Santa Ceia
4.3.6.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca das consequências
O espaço dedicado às consequências da Santa Ceia / Eucaristia na
“teologia oficial” não é muito expressivo. Com definições sucintas se diz
que a Santa Ceia aumenta o amor a Deus e ao próximo, ajuda a levar
uma vida piedosa e agradável a Deus. Em relação ao próximo, a partir
de citações bíblicas, fala-se de amor fraternal, igualdade entre os parti-
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cipantes, clemência, bondade e caridade. Fala-se do ato de perdoar e de
ser um só corpo com os demais participantes.
4.3.6.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca das
consequências
A “teologia popular” é mais rica em descrições das consequências da
Santa Ceia na vida das pessoas. Com abundantes situações concretas da
vida, tais como sentimentos, problemas diversos, relações com Deus e
com o próximo, que são modificados e resolvidos a partir da recepção da
Santa Ceia, as pessoas descrevem as consequências dessa participação.
Nas relações horizontais, especialmente, destacam-se: a mútua reconciliação, estar em paz com todos, melhorar relacionamentos, tornar-se
mais fraterno, compreender mais, orar mais, ajudar mais as pessoas.
Comunhão com Deus e com o próximo, além de ser um grande benefício
da Santa Ceia, é fortalecida a partir da participação conjunta da Santa
Ceia. A falta de comunhão, especialmente a horizontal, é lamentada por
algumas pessoas.
4.3.6.3 O que dizem as origens acerca das consequências da Eucaristia
Além de promover a comunhão com Deus por meio de Cristo e a
comunhão dos irmãos entre si, as consequências da Eucaristia eram visíveis na vida da comunidade cristã. Pode-se resumir as consequências,
abundantemente referidas com exemplos concretos no Novo Testamento, em: alegria e singeleza de coração, humildade, unidade, sintonia,
comprometimento, comunidade, lealdade para com Deus e com o próximo. A prática da diaconia, da solidariedade e da partilha eram as consequências mais visíveis, eram a própria manifestação de serviço da vida
comunitária. Tais consequências, descritas sempre de forma corporativa
e comunitária, poderiam ser resumidas na expressão típica do envio:
“ide, irmãos, e apressai-vos em fazer o bem”.
4.3.7 Outras considerações relevantes
4.3.7.1 Na “teologia oficial”
Há na “teologia oficial” da IELB temas que sobrecarregam a celebração eucarística e temas importantes que estão total ou parcialmente
ausentes. Entre os temas que sobrecarregam a celebração, destacam-se
a penitência e, em consequência desta, o individualismo. Há excesso de
definições e poucas referências a situações concretas da vida.
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A carência do elemento comunitário e diaconal é a mais evidente
quando se fala do sacramento.
4.3.7.2 Na “teologia popular”
Há na “teologia popular”, tal qual na “teologia oficial”, uma ênfase
penitencial que sobrecarrega a celebração da Santa Ceia. Por falta de
ritos mais específicos, a lembrança de situações de saúde e enfermidade,
de luto e lembrança de pessoas queridas, de passagens diversas da vida,
estes conteúdos acabam sobrecarregando a celebração da Santa Ceia.
Igualmente à “teologia oficial”, a Santa Ceia está desprovida de uma visão comunitária e preocupação diaconal.
4.3.7.3 Nas origens do culto cristão
A Eucaristia não é essencialmente o espaço para a penitência e a reconciliação. Isto, ao que parece, já acontecia antes da celebração e era
selado com o “ósculo da paz”. Provavelmente, havia outros encontros
dedicados à oração, à saúde/enfermidade, à penitência e à reconciliação,
à catequese. Na celebração destacavam-se a comunhão, a prática da
diaconia, a solidariedade e a partilha.
4.4 CONCLUSÕES E ORIENTAÇÕES PARA A PRÁTICA DA EUCARISTIA
NA IELB À LUZ DAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO
Ao olhar-se para as origens do culto cristão, pode-se perceber uma
estrutura básica herdada da sinagoga e das refeições familiares judaicas.
A Eucaristia, pois, originalmente, era uma refeição de louvor pelo todo
da obra de Deus em Cristo. Estudiosos da liturgia cristã têm proposto
exatamente essa volta às origens como ponto de partida para o diálogo
ecumênico e para as ações litúrgicas comuns358.
À forma original do culto cristão pertencem a Palavra359 e o Sacramen360
to . Posteriormente perdeu-se parte desta estrutura original, quando a
ICAR medieval se tornou uma igreja quase só do sacramento; as igrejas
oriundas da Reforma acabaram caindo para outro extremo. Atualmente,
há a compreensão de que Palavra e sacramento não devem viver isoladamente 361, pois juntos constituem e constroem bem melhor a Igreja. A
BIERITZ, 1987, p. 52.
358
BRAND, 1983, p. 9.
359
Ibid., p. 9.
360
SARTORE e TRIACCA, 1992, p. 996.
361
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consequência dessa compreensão do culto é que as igrejas oriundas da
Reforma já estão dando mais atenção ao sacramento dominical e a ICAR
pós Vaticano II, voltou-se bem mais à Palavra362.
Para celebrar a Eucaristia como nas origens do culto cristão, é necessário sentir, experimentar e vivenciar a Ceia como refeição de ação
de graças por todos os benefícios que Deus tem proporcionado às suas
criaturas, tanto na criação quanto na redenção e santificação363. Muito
mais do que definições abstratas, a celebração da Ceia implicava ações
concretas, pois Cristo, ao instituí-la, tomou o pão e o cálice, deu graças
sobre ales, quebrou o pão e apresentou o cálice e os deu aos discípulos364
e, simplesmente, sem definir ou explicar, disse: “isto é o meu corpo e isto
é o meu sangue”365.
Destaca-se que, desde as origens, a Eucaristia é central no culto
cristão, tanto que ambas as palavras, em dado momento, significavam
a mesma coisa, e que, desde os tempos mais remotos, era celebrada
semanalmente. A partir desta constatação, recomenda-se a celebração
regular da Santa Ceia, a cada culto e todas as semanas.
O centro da Eucaristia é a celebração da vida; portanto, não é tristeza e agonia o que a caracterizam, mas a alegria de saber e crer que o Senhor venceu a morte e o pecado e está vivo e presente, como o anfitrião
que oferece o alimento que aponta para a nova aliança. Por isso, nela
se celebra o passado, no recordar a ação graciosa de Deus em Cristo; o
presente, quando o cristão participa do amor, da graça e da comunhão
com Cristo e com os irmãos; e o futuro, como expectativa de ser herdeiro
de um novo mundo.
Verificou-se a partir do estudo sobre a Santa Ceia na “teologia
oficial”366 e na “teologia popular”367 no âmbito da IELB uma profunda
ênfase penitencial, em detrimento de outros grandes benefícios ressaltados nas origens do culto cristão. Em documento publicado pela Igreja
Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB)368 sobre a Santa Ceia, houve consenso de que
BIERITZ, Karl-Heinrich e ULRICH, Michael. Gottesdienstgestaltung. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1987, p. 8.
362
DIDAQUÉ, IX e X.
363
DIX, 1960, p. 48-50.
364
Cf. 1 Co 11, Mt 26, Mc 14 e Lc 22.
365
Capítulo I da tese.
366
Capítulo II da tese.
367
IECLB e IELB. Diálogo interluterano sobre a celebração da Santa Ceia. Porto Ale-
368
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a mesma “é dádiva de Cristo para sua Igreja”, não é meramente uma
obra ou cerimônia baseada na piedade humana, pois tem a autoridade de
Cristo, “que se manifesta em poder, mas, sobretudo em graça e misericórdia para com o seu povo”369. O mesmo documento ressalta que Cristo
está presente na celebração não apenas de forma simbólica, mas de fato,
e que a “Santa Ceia dá expressão à comunhão criada por Deus e a fortalece”. Dá-se ênfase à comunhão que existe entre o comungante e Cristo
e com os irmãos. A Santa Ceia é, pois, o “meio pelo qual tal comunhão é
sustentada e fortalecida”370.
Muito mais do que uma preocupação individualista e interesseira na
busca por perdão e dignidade, na celebração eucarística precisa-se resgatar a reconciliação mútua371 como um elemento essencial do culto.
Por isso, convém que se fale um pouco sobre o gesto da paz e como
este era entendido nas origens. Este gesto era a afirmação de que, após
a oração dos fiéis, todos procurariam viver como verdadeiros irmãos e
irmãs de uma mesma família372. A Didaqué assim se refere à reconciliação: “Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a
vós antes de ter se reconciliado, a fim de que o vosso sacrifício não seja
profanado”.373 Como resposta à palavra do Senhor, saudavam-se com
o ósculo santo, como manifestação de amor e fraternidade, podendo,
então, realizar a união em Cristo e por Cristo na liturgia eucarística374. A
reconciliação, selada com o gesto da paz, remete o participante da Eucaristia ao texto de Mateus 5.23-24: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao
altar, e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa
ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com o teu
irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta”. Assim sendo, o gesto da
reconciliação, selado com o ósculo santo, era marca registrada de pessoas regeneradas e não podia ser exigido ainda dos catecúmenos375. O
referido gesto, que sela a reconciliação, poderia acontecer, no contexto
ocidental, na forma de um abraço fraterno, um aperto de mão ou outro
gre: 04 de outubro de 2001.
IECLB e IELB, 2001, ponto II. 1.
369
IECLB e IELB, 2001, ponto II. 2-3.
370
MARTINI, 1997, p. 104.
371
JUNGMANN, Josef A. The early liturgy. Indiana: Notre Dame Press, 1958, p. 41.
372
DIDAQUÉ, XIV.
373
JUSTINO, Apologia 1.65.
374
JUNGMANN, 1958, p. 41.
375
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sinal equivalente376. O gesto da paz jamais deveria ser esquecido, pois
nele “os fiéis imploram a paz e a unidade da igreja”, expressando “entre
si amor recíproco, antes de participarem do único Pão”377. Sem comunhão ou fraternidade, que nasce do aceitar o outro, do perdão mútuo, da
recepção do outro, não existe Eucaristia. Faz-se necessário, pois, olhar
com “outros olhos” para a explanação do apóstolo Paulo sobre a dignidade da celebração da Ceia do Senhor, que apontava especialmente para as
divisões causadas pelo egoísmo e falta de amor de uma participação destituída de solidariedade378. Martini destaca que o texto de Didaqué que
fala de confessar pecados está referindo-se a um “reconhecimento de
culpa que não pode prescindir da reconciliação com o irmão e a irmã”379.
Seria, portanto, muito mais oportuno, pensando-se nas origens do culto
cristão, omitir a tradicional confissão de pecados e, em seu lugar, incluir
um momento para a mútua reconciliação.
Quando o assunto é a ordem da Eucaristia, é importante destacar que
o núcleo original do culto cristão é composto de Liturgia da Palavra (leitura das Escrituras, interpretação e oração de intercessão) e Liturgia Eucarística (ofertório/ preparo da mesa, oração eucarística e distribuição)380.
Deste núcleo381, nenhuma comunidade cristã deveria abrir mão, pois estaria deixando de lado elementos que desde as origens foram imprescindíveis no culto dominical382. A IELB, ao longo de sua história, tem deixado
de lado pelo menos duas partes desse núcleo original do culto cristão: o
ofertório (no seu sentido original) e a oração eucarística.
O ofertório, como manifestação prática da diaconia, é um elemento
essencial no culto cristão, desde as origens, conforme testemunho de
Atos dos Apóstolos: “Permaneciam [...] na comunhão”,383 e “era um o
coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa
alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram
comuns”384. Escritos dos pais apostólicos ressaltam que todos, após a
SARTORE, Domenico. Dicionário de liturgia. São Paulo: Edições Paulinas, 1992, p.411.
376
SARTORE, 1992, p. 1277.
377
SCHNEIDER, 1999, p. 120-121.
378
MARTINI,1997, p.104.
379
BIERITZ, Karl-Heinrich. Gottesdienst : Theologische Informationen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1987, p. 52.
380
BRAND, Eugene. A liturgia entre os luteranos. Genebra: Federação Luterana Mundial,
1983, p. 7.
381
BRAND, 1983, p. 52-53.
382
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At 4.32
384
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cerimônia, devem ter pressa em “praticar o bem, a agradar a Deus,
a viver corretamente, pondo-se à disposição da igreja, fazendo o que
aprenderam e progredindo na piedade”385. Esta piedade manifestava-se
no socorro aos órfãos e viúvas, aos enfermos e abandonados, aos presos
e forasteiros de passagem e a todos que passavam por necessidades386.
Quanto à oração eucarística, há vários elementos desta que não figuram nas liturgias publicadas pela IELB. A oração eucarística também é
original do culto eucarístico387 e, antes mesmo que circulassem os primeiros textos do que hoje se chama Novo Testamento, era para os cristãos
daquela época uma síntese do evangelho e descrevia o que Jesus significava para os seus discípulos: o Messias, que com sua morte e ressurreição redimiu a todas as pessoas388. Por ser uma síntese do evangelho,
portanto, a oração eucarística é importante elemento a ser resgatado
no culto da IELB. O primeiro argumento a favor do resgate da oração
eucarística (da ação de graças) fundamenta-se nos próprios relatos da
instituição por Cristo, pois os quatro textos (Paulo, Mateus, Marcos e
Lucas) mencionam que Jesus, ao pegar os elementos, “deu graças”.389 O
conteúdo desta ação de graças não é descrito nos textos bíblicos, mas,
a partir do que era feito nas ações de graças judaicas, pode-se deduzir
o conteúdo390. O segundo argumento para a re-inclusão da oração eucarística na liturgia é o fato de que esta é mencionada em documentos
do segundo e terceiro séculos da era cristã como resumo do evangelho,
denotando assim a sua essencialidade e originalidade391.
Constatando-se que, além da Palavra e do comer em conjunto, são
elementos imprescindíveis do culto cristão as ações de graças (Eucaristia) e a diaconia (serviço, ofertório), é de vital importância que estes
elementos sejam devolvidos ao culto da IELB.
Na Liturgia da Palavra, verificou-se que na estrutura do culto eucarístico da IELB constam os elementos que desde as origens eram essenciais.
Dentre os elementos, destaca-se o resgate da Leitura do Antigo Testamento, que há séculos havia perdido o seu espaço na estrutura do culto cristão.
HIPÓLITO , Tradição Apostólica , 58.
385
JUSTINO, Apologia 1.67: a ação em favor dos pobres, de quantos padecem necessidades, é coordenada a partir do próprio culto público.
386
WHITE, 2005, p. 187.
387
DIX, 1960, p. 4.
388
1 Co11, Mt 26, Mc 14 e Lc 22.
389
WHITE, 2005, p. 177.
390
DIDAQUÉ, IX e X ; JUSTINO, Apologia 65.
391
92
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Quanto à interpretação da Palavra, que, em geral, acontece na forma de
um discurso (sermão), esta poderia acontecer de maneiras variadas, tais
como dramatizações, testemunhos e meditações em silêncio.
A discussão referente aos participantes, que se dá a partir da prática
da comunhão fechada estabelecida na IELB392, merece ser aqui considerada, na perspectiva de iluminar o assunto a partir das orientações e da
prática da Eucaristia nas origens do culto cristão. Argumenta-se na “teologia oficial” da IELB, que “o Sacramento deve ser vedado a todos que se
acham ligados a Igrejas em erro e cultos não cristãos ou anticristãos”393.
Argumenta-se, em resposta à declaração supra e às demais restrições à
participação da Santa Ceia, que Jesus não impôs condições prévias para
comungar com as pessoas e solidarizar-se com elas, mesmo que fossem
consideradas impuras e pecadoras394. Que argumentos, pois, poderiam
ser usados contra a participação de pessoas de outras denominações religiosas cristãs na Santa Ceia? Ao constatar que o Batismo realizado pelas mais diversas denominações cristãs é mutuamente aceito por estas,
poder-se-ia dizer que “no Santo Batismo nos aceitamos uns aos outros
como filhos e filhas do mesmo Pai e, portanto, como irmãos e irmãs. Mas
é lamentável e escandaloso o fato de que na Mesa do Senhor ainda estejamos divididos e não possamos ir juntos à mesma Santa Ceia. A mesa é
única e indivisível. Ela sempre está dada anteriormente à nossa construção da unidade e vai além das nossas diferenças doutrinárias”395.
Ao se olhar para as origens do culto cristão, pode-se constatar que a
restrição à participação dirigia-se aos não batizados396 e a “todo aquele
que vive em discórdia com o outro”; que este “não se junte a vós antes de se ter reconciliado”397. Portanto, se uma pessoa que é batizada e
que não vive em discórdia com ninguém deseja participar da Eucaristia,
deveria, segundo o costume da Igreja Antiga, ser também incluída na
celebração da Eucaristia.
O argumento em defesa da comunhão fechada aponta para a atitude
do apóstolo Paulo, quando este “alerta suas igrejas de que em alguns
casos” em que há pessoas em “situação de pecado manifesto, de um
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, 1995, p.12.
392
Id. Ibid, p.11.
393
MARTINI, 2001, p.6.
394
SEMINÁRIO BILATERAL MISTO CATÓLICO ROMANO – EVANGÉLICO LUTERANO. Hospitalidade eucarística. Porto Alegre: EdipucRS, 2000, p.10.
395
DIDAQUÉ, IX.
396
DIDAQUÉ, XIV.
397
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Igreja Luterana
viver desordenado e da desconsideração pela palavra do apóstolo”, tais
pessoas não deveriam ser consideradas bem-vindas, e os cristãos da
comunidade não deveriam “associar-se” a elas.398
Faz-se necessário clarear o assunto quanto à hospitalidade eucarística. Talvez a forma de fazê-lo é olhar para o exemplo do próprio Cristo
e a prática da Igreja Antiga. Com esta abordagem não fica resolvida a
questão da prática da comunhão fechada na IELB, mas, os argumentos
aqui listados servirão de luz para futuros diálogos sobre o assunto.
Como, nas origens, participavam da Eucaristia “os batizados” e, admitindo-se que isto incluía as crianças, há mais questões a resolver com
respeito aos participantes. Lothar Hoch, ao apresentar um conjunto de
teses sobre a celebração da Santa Ceia com crianças, admite ser este um
tema “controvertido”, que, no entanto, precisa ser debatido com profundidade teológica, cautela e coragem399. Gordon W. Lathrop, professor de
liturgia do Seminário Teológico Luterano de Filadélfia nos Estados Unidos,
argumenta à luz das origens do culto cristão que, como originalmente
“a Eucaristia era uma refeição comunitária, é claro que as crianças da
comunidade participavam dela”. Mesmo que muitas refeições formais da
região do Mediterrâneo a essa época tinham restrições à presença de
mulheres e crianças (cabendo a estas apenas as sobras), vale dizer que
Jesus jamais aprovou essa discriminação400, nem mesmo em relação às
pessoas denominadas de pecadoras, com as quais “Jesus, sem impor
condições prévias, comungou e se solidarizou”401. Lothar Hoch argumenta que “uma igreja que batiza infantes, mas exclui crianças da Santa
Ceia, está institucionalizando uma séria contradição”, isto porque “uma
distinção tão rígida no tocante aos destinatários de cada um dos sacramentos não tem base teológica”, pois “Batismo e Santa Ceia, como palavra visível, servem antes de mais nada à pregação de Jesus Cristo”402.
Eugene Brand aprofunda a argumentação teológica sobre a questão da
participação de crianças antes da confirmação, dizendo que “somente o
Batismo pode ser porta de entrada à mesa do Senhor” e, quer os lute-
LINDEN, Gerson L. Aspectos quanto à administração da Santa Ceia. Igreja Luterana,
São Leopoldo, n.1, p.8, 2001.
398
HOCH, Lothar. Celebração da Santa Ceia com crianças: 20 teses sobre um tema controvertido. Estudos Teológicos, São Leopoldo, ano 27, n. 2, p.164, 1987.
399
LATHROP, Gordon. Eucaristia com crianças. Tear: Liturgia em revista, São Leopoldo, n.
5, p. 14, 2001.
400
MARTINI, Romeu Ruben. Crianças e Ceia do Senhor. Tear: Liturgia em revista, São Leopoldo, n. 5, p. 6, 2001.
401
HOCH, 1987, p. 163-164.
402
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ranos estejam dispostos ou não a praticar a comunhão infantil, nossa
compreensão da plenitude do Batismo, da natureza da comunidade cristã
e de sua relação com a Koinonia eucarística deverá ao menos levar-nos a
admitir que nenhum ponto teológico impede que crianças batizadas possam comungar. Argumenta-se ainda que somente um questionamento
ao Batismo infantil poderia sustentar a prática da exclusão de crianças
na Santa Ceia403. Há ainda outros argumentos, mas os apontados acima
são suficientes para promover a reflexão na igreja quanto à inclusão de
crianças (sem especificação de idade) na Santa Ceia e rever todas as
implicações do rito de confirmação404.
Diante do que foi exposto acima, portanto, para a inclusão de pessoas na Eucaristia, dever-se-ia considerar que são bem-vindos os pecadores (“pois todos pecaram”) que foram batizados, que crêem em Jesus
Cristo e vivem esta sua fé no seu dia-a-dia na prática do amor a Deus e
ao semelhante.
Os benefícios da Eucaristia, a partir da prática da Igreja Primitiva,
podem ser assim resumidos: ao participar da Ceia recebe-se alimento
não somente para a alma, mas igualmente para o corpo; não é apenas
um benefício individual, mas é para toda a comunidade. Na Eucaristia
tem-se a garantia da presença do Senhor na vida dos crentes, a graça de
Deus, que ressuscitou a Cristo, e as promessas das quais a ressurreição é
a garantia. Merece destaque a comunhão com Deus e das pessoas entre
si, como um só corpo.
As consequências da participação, nas origens, podem ser resumidas
na comunhão, na diaconia e no envio para a prática do bem, conforme
já foi exposto acima.
4.5 SÍNTESE DOS RESULTADOS DA PESQUISA
Ao sintetizar os resultados desta pesquisa, quer-se demonstrar que
há na celebração do culto eucarístico da IELB elementos que estão em
conformidade com as origens do culto cristão, como se pode verificar
especialmente na Liturgia da Palavra. No entanto, no que se refere à
Eucaristia propriamente dita, ainda há problemas com a frequência da
celebração, pois não é celebrada dominicalmente em todas as comunidades. Quanto aos participantes, é necessário que se trabalhe pela
inclusão e participação ativa de todos, sem excluir ninguém. Urge que
HOCH, 1987, p.164.
403
SILVA, 1995, p.138.
404
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Igreja Luterana
se recupere o caráter do culto como serviço de Deus para a comunidade
e da comunidade para com Deus405, sem, no entanto, desconsiderar que
esse serviço não pode prescindir da ação amorosa e fraterna para com
o irmão necessitado, na consciência da partilha contínua de bens, e que
o envio como um compromisso com Deus e com o próximo possa ser
traduzido em ação.
Considerando-se que há elementos não essenciais no culto recebendo uma supervalorização (por exemplo, a confissão de pecados) e que
há outros essenciais ausentes na estrutura do culto da IELB, sugere-se
a partir de uma preocupação ecumênica, a seguinte estrutura litúrgica:
Liturgia de Entrada - hino de entrada, saudação406, oração preparatória de confissão de pecados (opcional) e anúncio da graça, litania do
kyrie e gloria, concluindo esta parte com a oração do dia; Liturgia da
Palavra - as leituras bíblicas irão variar em número de acordo com o
que for mais adequado para o momento. No caso de mais leituras, estas
poderiam ser intercaladas por cânticos, ilustrações ou até momentos de
silêncio para a reflexão407. O sermão desvendará o conteúdo do interior
das Escrituras e apontará para as situações concretas da vida da comunidade ao proclamar a palavra do Senhor para o ser humano de hoje408.
Acrescente-se após a exposição uma confissão de fé (que também pode
ser moldada de acordo com a época e com o tema do dia)409, utilizandose preferencialmente o credo Niceno, por ser este mais universalmente
aceito no mundo cristão410. A oração dos fiéis não deverá prescindir, como
resposta à palavra proclamada, de intercessão por todas as necessidades
do mundo e pela unidade da Igreja411; Liturgia Eucarística - esta, segundo a tradição antiga, iniciará com a mútua reconciliação, seguida do
gesto da paz412; o ofertório incluirá as ofertas de gratidão, pão e vinho
para a Ceia e donativos para os pobres. Nesse momento, procede-se o
BRUNNER, 1968, p. 11-12.
405
BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 20-21.
406
BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 20.
407
BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 81.
408
BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 260 ss.
409
BEST, Thomas F. e HELLER, Dagmar. Eucharistic Worship in ecumenical contexts.
Geneva: WWC Publications, 1998, p. 46.
410
BEST e HELLER, 1998, p. 46-47.
411
DIDAQUÉ, XIV.
412
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
preparo da mesa413. A oração eucarística414 deverá incluir o prefácio (com
o sursum corda, vere dignum e o sanctus), a anamnese (o memorial explícito da paixão, morte e ressurreição de Cristo), a epiclese (invocação
do Espírito Santo), a doxologia trinitária e o amém da comunidade415. O
Pai nosso é orado, seguido da fração e da distribuição. O uso de um só
pão e um só cálice deveria ser considerado como preferencial. Durante a
distribuição um ou mais hinos poderão ser cantados e o silêncio também
poderá ser uma opção. A liturgia eucarística será concluída com uma
Ação de Graças.416 A Liturgia de Encerramento poderia constar dos
avisos comunitários, das palavras de bênção (apostólica, aarônica ou outra adequada para o momento) e do envio (“ide na paz do Senhor e sede
agradecidos”)417; considere-se, também, a expressão da Igreja Antiga:
“Apressai-vos em praticar o bem”418.
Na busca pela unidade entre os cristãos, é importante (“para que todos sejam um” - Jo 17.21)419 que se leve em consideração a possibilidade
de se aprender muito com os outros e também ser útil para os outros420,
para que juntos possam cantar e orar, ler as Escrituras e ouvir as boas
novas de Jesus, reconhecendo-o e confessando-o como Senhor e Deus e
sendo abençoados por ele421. Ao mesmo tempo, urge que se verifique em
que implica a esfera total do culto na vida das pessoas e a esfera total do
serviço, e se vincule o litúrgico com o ético422; espera-se a participação
do ser humano em sua totalidade. A ação do culto deve provir da vida do
indivíduo e entrar na mesma. O cristão precisa identificar-se com a vida
da comunidade e deve ser sensível com as demais pessoas423.
Há outras questões que também merecem consideração: a relação
do culto com a celebração da vida familiar deverá acentuar o caráter de
simplicidade e informalidade, recordação de coisas importantes, espírito
de alegria, estímulo e força, aceitação de indivíduos com diferentes per-
BEST e HELLER, 1998, p. 46-47.
413
BRAND, 1983, p. 27.
414
BRAND, 1983, p. 47 e 54.
415
BRAND, 1983, p. 78.
416
BRAND, 1983, p. 78.
417
HIPÓLITO, Tradição Apostólica, 58.
418
BIERITZ e ULRICH,1987, p. 9.
419
BRAND, 1970, p. 84.
420
BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 10.
421
BRAND, 1970, p. 18.
422
BRAND, 1970, p. 20-21.
423
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Igreja Luterana
sonalidades, talentos e êxitos, compartilhamento de alegrias e de tristezas; a participação de todos é o objetivo424. Além disso, “a renovação
do culto eucarístico entre os cristãos pode ser auxiliada por uma melhor
compreensão de como os temas de recordação e esperança, que prevalecem de modo tão marcante na celebração da Páscoa judaica, vieram
a predominar também na Eucaristia”425. Para que isto se torne possível,
não se pode descuidar do aspecto da indigenização426 do culto cristão.
Precisa-se para tanto valorizar os aspectos culturais, as tradições e a
música do povo com o qual se pretende trabalhar.
Além da restituição da celebração eucarística conforme as origens do
culto cristão, percebe-se a carência de outros momentos litúrgicos que
contemplem situações diversas da vida das pessoas que acabam sendo
“descarregadas” no culto eucarístico. A celebração da Santa Ceia tornase sobrecarregada exatamente pela ausência de momentos que contemplem as outras necessidades das pessoas. Há, portanto, a necessidade
de se ter outros momentos na vida comunitária. Citam-se, como exemplo, a necessidade de se estabelecer cultos com ênfase na reconciliação,
ênfase nos sentimentos, na saúde, passagens diversas da vida, etc. Tais
celebrações ajudariam a concentrar no culto eucarístico aqueles elementos que nas origens do culto cristão eram imprescindíveis, tais como as
ações de graça e a diaconia.
CONCLUSÃO GERAL
Na presente pesquisa procurou-se, primeiramente, expor de forma
sucinta e objetiva os principais enunciados da “teologia oficial” concernente à Santa Ceia no âmbito da IELB. Na sequência, através de uma
pesquisa social, procurou-se elucidar os principais enunciados da Santa
Ceia na “teologia popular” e, num terceiro momento, fez-se uma justaposição e comparação entre ambas as teologias na expectativa de encontrar semelhanças e diferenças. A racionalidade da primeira foi justaposta
à sensibilidade da segunda. Descobriu-se, a partir da “teologia popular”,
que culto e, de forma particular, a Santa Ceia, é vivência e sentimento e
não aulas de doutrina ou manifestação de conhecimentos. No último capítulo, procurou-se listar as consequências das descobertas da pesquisa
na “teologia oficial” e na “teologia popular” para a prática da Eucaristia à
BRAND, 1970, p. 19.
424
BRAND, 1983, p. 24.
425
KIWOVELE, Judah B. M. A indigenização do culto cristão, p. 77.
426
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A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil...
luz das origens do culto cristão. Fez-se uma síntese das principais descobertas acerca da Santa Ceia na IELB, tanto na “teologia oficial” quanto na
“teologia popular”, para, então, tecer algumas conclusões e orientações
práticas fundamentadas nas origens.
Vale destacar que cada capítulo foi encerrado com secções contendo
diversas conclusões intermediárias, as quais devem ser entendidas como
parte das conclusões deste trabalho.
Percebeu-se ao longo da pesquisa que as pessoas, de uma forma geral, apresentam certa dificuldade de assimilar os conteúdos da “teologia
oficial”. Há dificuldade para as entrevistadas de abstrair, de teorizar ou de
construir conceitos teológicos e, a partir destes, entender e viver culto e
Santa Ceia. O desafio, pois, para os representantes da “teologia oficial”
tem muito a ver com comunicação, de como fazer-se entender. O desafio
maior, no entanto, é perceber que culto e Santa Ceia não são questões
para serem teorizadas, mas vividas no dia-a-dia.
É curioso como as pessoas (assíduas participantes da Santa Ceia na
maioria das entrevistadas), apesar dessa dificuldade de teorização e assimilação dos conteúdos da “teologia oficial” ensinados no culto, sentem
necessidade de estarem presentes no culto e na Santa Ceia, pois estes
têm a ver com pertença e comunhão. Há uma intensa busca por identidade e compartilhamento de sentimentos e experiências. Há, da parte das
pessoas, uma intensa busca (comum) pela resolução de problemas mais
imediatos e constante referência a situações concretas da vida, para as
quais a Santa Ceia e o culto em geral serviram de alento, fortalecimento
e coragem para prosseguir. É igualmente curioso que as pessoas, mesmo
não conseguindo “digerir” os conteúdos da “teologia oficial”, não manifestem qualquer oposição a esta, antes se valem das suas fórmulas para dizer
o que sentem, experimentam e almejam ao participarem da Santa Ceia.
A partir da exposição teórico-doutrinária da “teologia oficial” e da
vivência prática elucidada pela “teologia popular”, pode-se chegar a algumas conclusões e sugestões: Urge que se aprenda das pessoas que
culto, relação com Deus, Santa Ceia, são mais para serem sentidos, vividos e experimentados do que para serem falados ou teorizados. Que a
igreja da Palavra entenda que ser igreja da Palavra não é o mesmo que
igreja do discurso, mas é “encarnar” a Palavra, uma vez que “o Verbo
(Palavra) se fez carne (gente) e habitou entre nós cheio de graça e de
verdade”427.
Jo 1.14.
427
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Igreja Luterana
É preciso entender, pois, que culto e Santa Ceia são vivência e não
aula, que é mais questão de vida e morte, sofrimentos e alegrias, do que
teorias e doutrinas; têm muito mais a ver com coração e sentimento do
que com cérebro e racionalização. O fato de as pessoas sentirem e viverem o culto e a Santa Ceia com todos os sentidos, mais do que a simples
abstração ou teorização, exige da parte dos representantes da “teologia
oficial” melhor percepção e sensibilidade mais profunda do que o mero
esforço de falar de modo mais inteligível às pessoas. Talvez essa percepção ajudaria a tornar o culto e a Santa Ceia menos do pastor e mais da
comunidade.
Percebeu-se na pesquisa realizada que há muitos componentes “sobrecarregando” a celebração da Santa Ceia, como, por exemplo, a supervalorização do perdão de pecados e referências a enfermidades, morte,
dificuldades familiares, etc. A ênfase exagerada na penitência tende a
levar a igreja ao individualismo no que tange à Santa Ceia e, por consequência, no que tange à sua própria atuação como igreja. Urge que se
providenciem espaços e ritos que facilitem a busca e o cultivo de uma comunhão com Deus e que facilitem o cultivo da pertença e comunhão entre os irmãos. Percebeu-se a necessidade de ritos de reconciliação, ritos
com ênfase na saúde e enfermidade, ritos que celebrem o nascimento e
a vida e outros em que a morte e o luto sejam contemplados; momentos
de maior integração e comunhão, só para citar alguns.
Se os representantes da “teologia oficial” não se derem conta de que
culto e Santa Ceia na vida das pessoas são profundamente permeados
de sentimentos (de alegria, satisfação, tristeza e angústias) e que há
necessidade de “traduzir” essa teologia de forma clara e prática para a
vida das pessoas, poderá se tornar uma mensagem jogada ao vento e as
pessoas irão buscar em outro lugar suprir suas carências ou manifestar
alegrias e realizações.
Exatamente na perspectiva de procurar ajuda para solucionar algumas das dificuldades supramencionadas é que se recorreu às origens do
culto cristão, por se entender que lá se pode encontrar balizas e critérios
para a celebração da Santa Ceia. Por exemplo, é nas origens que se
podem encontrar aqueles elementos imprescindíveis na celebração do
sacramento, tais como a frequência, o sentido de refeição de ação de
graças pelo todo da criação e da redenção, a vivência prática da caridade
e diaconia como integrantes da celebração. Celebrava-se num único e
mesmo rito o passado, o presente e o futuro. As pessoas da igreja antiga
não se preocupavam tanto em discutir e teorizar sobre o que é a Santa
Ceia, mas em vivê-la intensamente como elemento de comunhão com
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Deus em Cristo e aprofundar a comunhão com aqueles irmãos redimidos
por Cristo.
Das origens do culto cristão se aprende que a Santa Ceia é um evento comunitário, em que a comunidade reunida celebra com gratidão os
grandes feitos de Deus e recebe dele renovação para a caminhada e que
não é um ato individualista de busca por perdão de pecados e salvação
próprios (tanto na “teologia oficial” quanto na “teologia popular” ficou
evidenciada esta tendência). É também das origens do cristão que se
sabe que culto e Santa Ceia não pertencem a uma única pessoa (no caso,
o pastor) e não são realizados somente por esta, mas pertencem a toda
a comunidade, a qual tem participação intensa e permanente.
Uma volta às origens do culto cristão coloca em evidência princípios
da celebração eucarística, responde quem eram os participantes e ajuda
na reflexão sobre quem hoje pode participar. É, também, uma busca por
uma estrutura básica dos elementos imprescindíveis. Quando se trabalha com o princípio de que a liturgia pode ser moldada de acordo com o
contexto social e cultural, torna-se absolutamente necessário saber que
elementos não podem faltar e que elementos são apenas úteis e, portanto, variáveis. Voltar ao princípio é sair em busca de um norte, um caminho importante para o diálogo entre todas as denominações cristãs, pois
remete-se a um tempo em que não havia toda essa variedade doutrinária
e litúrgica, mas todos eram um só corpo.
Há outros elementos que foram evidenciados na pesquisa e que merecem consideração, mas que não foram aqui aprofundados por não estarem no foco das discussões. Citam-se, por exemplo, as diferenças de
gênero quanto ao modo de pensar, agir e sentir com relação a Deus, salvação, fé, espiritualidade. O conhecimento de tais diferenças de gênero
poderia trazer implicações à comunicação, à evangelização, à proclamação em geral, pois homens e mulheres articulam certos temas de maneiras diversas, exigindo formas diferenciadas de abordagens. Há certas
diferenças entre as pessoas de centros urbanos em relação às da periferia e, ao que parece, isso pouco tem sido levado em consideração. Há diferentes maneiras de pensar e agir nas diversas faixas etárias bem como
diferenças sócio-culturais que parecem ser simplesmente ignoradas. A
busca pelos referenciais das origens do culto cristão poderia ajudar inclusive a melhorar esses aspectos da vida comunitária e dos variados ritos
da igreja cristã, em especial da Santa Ceia.
101
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Igreja Luterana
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
As referências encontram-se nas notas de rodapé. Optou-se por não
repeti-las ao final deste trabalho.
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A Importância do Catecismo
na Identidade Luterana:
Aspectos Teológicos e Práticos
depois de 480 anos1
Clóvis Jair Prunzel
Introdução – “Meu Deus, quanta miséria não vi”
A Reflexão Teológica promovida pelo Seminário Concórdia é uma ponte entre a realidade do trabalho ministerial e a sala de aula da Faculdade
de Teologia. O que se faz na sala de aula e o que se necessita no campo
de trabalho ministerial conduz a reflexão. Portanto, o presente trabalho
traz à luz aspectos de sala de aula bem como desafios para a prática
ministerial, tendo como pano de fundo a perspectiva de conduzir o povo
de Deus na sua Palavra.
Nos 480 anos do lançamento dos Catecismos de Lutero, queremos
nos juntar a ele para refletir sobre nosso papel de pastores e de igreja,
destacando o que e o como estamos trabalhando o básico de nossa fé.
Assim como foi com Lutero, em seu tempo, levando-o a exclamar
“Meu Deus, quanta miséria em vi”2, assim também nós nos juntamos
a ele quando constatamos que nossos alunos, quando entram no programa do Seminário Concórdia, não memorizaram o texto do Catecismo, não conseguem relacionar o texto do mesmo com o texto bíblico, e
percebe-se que o processo confirmatório transformou-se em um fim em
si mesmo, uma mera aquisição de conteúdo, transformando a capacidade
teológica dos confirmandos em um intelectualismo distante do propósito
inicial da confirmação, que é de levar à confissão de fé. Percebe-se que
este doutrinamento é tão superficial que, dos atuais alunos que iniciaram
o programa no Seminário, um sequer trabalhou a Tábua dos Deveres no
seu processo confirmatório.
Ao lado dessas dificuldades, podemos constatar que estamos sendo
O presente trabalho foi apresentado no dia 24 de março de 2009 como Reflexão Teológica promovida pelo Seminário Concórdia para professores, pastores e alunos, comemorando
os 480 anos dos Catecismos de Lutero. O autor, Clóvis Jair Prunzel, é professor de Teologia
Sistemática no Seminário Concórdia e na Ulbra.
1
2
Catecismo Menor, Prefácio, 2.
103
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Igreja Luterana
desafiados pela cultura atual em relação à nossa identidade cristã, visto
que as opções religiosas não-cristãs são cada vez mais expressivas. O conhecimento bíblico e a capacidade de trabalhar com ele ao longo da vida
estão cada vez mais restritos. O ambiente familiar não mais proporciona
o culto e a oração. O que se conhece do texto e da teologia que acompanha os cristãos é parcial e muitas vezes distorcido. Pastores, quando
ensinam, estão muito preocupados mais com métodos e estratégias do
que com o conteúdo. E no momento em que o conteúdo ganha destaque,
os manuais produzidos se transformam em exposições dogmáticas, levando o processo de catequização a uma aquisição de informações e não
de formação teológica.
O estudioso de Lutero, James Nestingen, conclui: “O Catecismo claramente perdeu o lugar que manteve no luteranismo por séculos. Ele não
é mais o paradigma operante, abarcando o testemunho da Escritura na
linguagem da experiência diária no servir da pregação e da reflexão na
missão e fé da igreja”3.
Em meio a este marasmo teológico, há um clamor em se voltar aos
pontos de referência, não ao que é efêmero nem transitório, mas o básico que auxilia e dá respaldo para a atuação dos cristãos como povo de
Deus. E nesta perspectiva, colocar o Catecismo no centro das atenções
pode ser útil porque ele nos ajuda a nos fixar naquilo que é o mais importante e, assim, recuperarmos sua função em nos levar para dentro das
Escrituras e para dentro da realidade em que estamos inseridos.
Nosso trabalho está dividido em três partes. Primeiro, vamos refletir
sobre o “básico”, aquilo que faz do Catecismo de Lutero um Catecismo.
Depois, uma leitura história das propostas de Lutero. Concluímos com
uma proposta de aproximação entre o que Lutero fez com os Catecismos
e as exigências teológicas para nossos dias.
Primeira Parte – os elementos básicos do Catecismo
Além da pregação, a catequese, a atividade de usar os elementos
básicos para formar a fé nos catecúmenos foi essencial na história da
Igreja Cristã.
No momento em que o Cristianismo assumiu o papel de preparar a
sociedade, após a queda das assim chamadas civilizações clássicas, foi
determinante que a igreja assumisse um papel na construção sólida da fé
3
James Nastingen, “Preaching the Catechism”, Word and World 10 (1990): 33.
104
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A importância do catecismo na identidade luterana
e da vida cristãs. Como a igreja não era dirigida pelo marketing, ela não
facilitou a catequese para seus catecúmenos. Um exemplo disso está na
prática de que os não-crentes podiam assistir ao culto da pregação, mas
tinham que sair quando se celebrava a Santa Ceia.
Para combater as filosofias ateístas do fim do Império Romano e o
paganismo primitivo dos bárbaros, a Igreja Cristã desenvolve um método de educação chamado de artes liberais. Assim como para os gregos e
romanos a educação preparava o cidadão a ser livre, da mesma forma a
Igreja Cristã assumiu as ferramentas da proposta clássica e incorporouas na formação de seus membros, com uma visão cristã de mundo.
O trivium e o quadrivium foram utilizados pela igreja para preparar seus catecúmenos para a vida cristã. Veith testemunha que “historicamente, o processo em que a igreja treinou seus membros para que
co­nhecessem e compreendessem a doutrina cristã foi o da catequese.
As crianças e os novos membros tipicamente aprendiam os Dez Mandamentos, a Oração do Pai Nosso e o Credo Apostólico. Depois, o ministro
fazia perguntas sobre o significado desses textos fundamentais. E, assim
preparados, confessavam sua fé publicamente. Essa espécie de instrução
era baseada no trivium. É gramática memorizar credos e versículos bíblicos; e a dialética das perguntas e respostas é a metodologia da lógica; o
processo visava habilitar os jovens crentes para sua confirmação, quando
fariam sua própria profissão de fé (o estágio da retórica).”4
Quando Lutero se pronuncia no Catecismo Maior que o Catecismo é
“tudo o que o cristão necessariamente precisa conhecer. A quem o ignora
não se poderia contar entre os cristãos, nem admiti-lo ao sacramento”,
“pois os amados pais ou apóstolos sumariaram assim a doutrina, vida,
sabedoria e conhecimento dos cristãos”5. Numa conversa à mesa, ao afirmar que o Catecismo só pode ser “obra do Espírito Santo ao descrever,
em palavras eficazes e enfáticas, tão grande coisa com tanta brevidade”6,
ele se coloca na linhagem histórica dos grandes pais teológicos da igreja
cristã como Cirilo, Crisóstomo e Agostinho, que construíram e legaram a
teologia aos seus sucessores.
E é nesta “herança da cristandade dos tempos primitivos, embora
VEITH, Gene Edward. Catequese, pregação e vocação. In: BOICE, James (org.). Reforma
hoje: uma convocação feita pelos evangélicos confessionais. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999. 205p. Cap. 4, p. 75-96.
4
Catecismo Maior, Prefácio Curto, 2,19.
WATR 4, 4334.
5
6
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eles raramente fossem ensinados e tratados corretamente”7, que Lutero
quer tratar o básico da fé. Seguindo os pais da Igreja, aos três pilares
da instrução catequética [Dez Mandamentos, Credo e Pai Nosso], Lutero
acrescentou os
Sacramentos, “as cinco partes para a doutrina cristã inteira”8 , pois
através dessas partes os jovens serão levados à Escritura, também
acompanharão a vida litúrgica do crente tanto no dia-a-dia [Hausandacht] bem como na igreja e, por fim, estes conteúdos tratarão da vida nas
diversas situações. A cabeça e o coração estão unidos, aproximando a
teologia da vida.
Segundo Robert Rosin, o Catecismo nos ensina a olhar para a vida
e viver não a partir de nossa perspectiva [que é filosofia] mas a partir
da perspectiva de Deus [que é teologia]. Ele nos ajuda a ver as coisas a
partir de pecado e graça, em termos de lei e evangelho”.9
Segunda Parte – Concepção teológica
e pedagógica do Catecismo de Lutero
Segundo Arand, o papel principal do Catecismo é duplo: “enquanto
o Catecismo providencia o leite com relação à Palavra, ele ao mesmo
tempo prepara o sistema digestivo para o prato principal da Palavra. Ele
serve como uma introdução ao Cristianismo e ao mesmo tempo abre horizontes para o pensar, falar e viver mais aprofundado”10.
Isto é percebido na sequência em que o Catecismo é organizado:
cada estágio sucessivo constrói e se expande a partir do estágio prévio.
Como um paradigma para a vida cristã, o Catecismo providencia uma
orientação de como a vida é na comunidade cristã ao pintar o grande
quadro de forma que não se perca a vista da floresta ao se enveredar por
entre as árvores.
O tema ou melodia teológica do Catecismo está na explicação do
Segundo Artigo: “Para que eu lhe pertença e viva submisso a ele em
seu reino”. Aprendemos a viver dos benefícios de Cristo, isto é, o tema
principal do Catecismo é a fé; o Catecismo procura levantar e fortalecer
Catecismo Maior, Prefácio Curto, 5.
Catecismo Maior, Prefácio Curto, 14.
7
8
Robert Rosin, “Christians and Culture: Finding Place in Clio’s Mansions”, in Christ and
Culture: The Church in Post-Christian (?) America, Symposium Papers number 4 (St. Louis:
Concordia Seminary Monograph Series, 1996), p. 85
9
ARAND, Charles. Formation in the Faith: Catechesis for Tomorrow. Concordia Seminary
Publications, Symposium Papers, Number 7, 1997.
10
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uma confiança e comprometimento que se focaliza na bondade de Deus
e procura viver dos dons de Deus dia após dia.
Na primeira seção, o tema da fé forma uma inclusio em torno de cada
parte principal. Ele aparece tanto no início dos Dez Mandamentos – “devemos temer e amar a Deus e confiar” – e novamente no final – “Deus
promete graça e todo o bem... portanto devemos amá-lo, confiar nele...”.
O Primeiro Mandamento, embutido em cada um dos outros mandamentos, traz isto à baila. O tema da fé também redige os três artigos do
Credo. Cada um deles inicia com as palavras “creio”. E cada um, por sua
vez, conclui com a exclamação, “isto é certamente verdade!”. O pro me
da fé emerge no uso repetido do pronome pessoal na primeira pessoa do
singular no qual o crente confessa os dons recebidos de Deus.
O tema da fé continua com a introdução de Lutero quanto ao Pai
Nosso: “Deus quer nos atrair carinhosamente com estas palavras, para
crermos que ele é o nosso verdadeiro Pai e nós, seus verdadeiros filhos”.
Ele conclui o Pai Nosso na mesma tonalidade. “Amém” significa “que devo
estar certo que estas petições são agradáveis ao nosso Pai Celestial e
ouvidas por ele...” ‘Amém, amém’ quer dizer ‘sim, sim, assim seja’. Novamente o tema vem mediante o modo pelo qual Lutero organiza cada
petição. Por um lado, as coisas pelas quais oramos de fato vêm sem
nossa oração. Por outro lado, oramos de forma que elas também possam
vir a nós [pela oração].
O tema da fé continua no desenrolar da Segunda parte. No batismo,
“a água, em verdade, não as faz, mas a palavra de Deus que está unida
à água, e a fé que confia nesta palavra de Deus unida com a água”. Na
seção sobre a confissão, o pastor pergunta: “Tu crês que minhas palavras
são as palavras de Deus”? Então confessamos nossos pecados e recebemos perdão a partir do pastor como se fosse a partir do próprio Deus,
e “sem duvidar de forma alguma, mas firmemente crendo, que através
daquele ato nossos pecados estão perdoados perante Deus no céu”.
Finalmente, a Ceia do Senhor também traz a fé à tona. “Estão verdadeiramente dignos e bem preparados aqueles que têm fé nestas palavras,
‘dado e derramado em favor de vós para o perdão dos pecados’.... pois as
palavras “por vós” requerem corações verdadeiramente crentes”.
A terceira parte continua no tema. Nas orações de manhã e tarde,
Lutero encoraja a pessoa a fazer o sinal da cruz e então dizer, “sob o
cuidado do Pai, Filho e Espírito Santo”. Ambas as orações têm por abertura uma nota de agradecimento e concluem com as palavras, “nas tuas
mãos me entrego, de corpo e alma, bem como em todas as coisas”. Estas
orações também têm dois efeitos. A oração da manhã nos manda avante
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quanto a um trabalhar com alegria. A oração da noite nos envia à cama
em paz. Esta confiança foi também parte do próprio orar de Lutero.
Antes da refeição, o cabeça da família deveria recitar as palavras do
salmista a partir do Salmo 145.15-16 [15 Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. 16 Abres a mão e satisfazes
de benevolência a todo vivente], as quais nos dão a conhecer a amplidão
da provisão de Deus. Nas orações de alimentação, dá-se graça e pede-se
bênção. A Tábua dos Deveres não são comandos tão gerais para a vivência humana, mas muito mais como que descrições da intenção de Deus
para com a vida humana.
Como vimos, o tema melódico da fé perpassa o Catecismo, integrando as diversas áreas da vida cristã sob a mesma perspectiva.
Para Lutero, são três as áreas destacadas no Catecismo. Na primeira
parte, o Catecismo traça uma visão cristã de vida que é vivida a partir da
fé (Dez Mandamentos – Credo – Pai Nosso). Enquanto cada uma das três
primeiras partes principais se concentra no ponto central da fé, cada uma
delas expressa uma dimensão da fé à luz da natureza de seus textos de
modo que os Dez Mandamentos enfatizam “a demanda pela fé”, o Credo
“o dom da fé”, e o Pai Nosso “o clamor da fé”. Quando tomados pelo conjunto, estas três partes principais demonstram uma visão cristã de mundo que mostra que a vida cristã é aquela que é vivida de fé em fé. Sua
sequência nos dirige da vida diária para a via escatológica da fé. Inicia
com uma avaliação da vida diária que enfatiza a realidade das obrigações
(Dez Mandamentos) que nos confrontam, às quais a demanda pela fé
(Primeiro Mandamento) é a pressuposição para a vida abençoada.
Segue a proclamação do evangelho (Credo) com seus dons que faz surgir e sustenta a fé. Fala de todos os dons que estruturam toda a nossa vida,
começando com nosso nascimento e culminando no Pai Nosso. “Nada é tão
necessário quanto clamar a Deus incessantemente e fazer com que chegue
aos seus ouvidos as nossas orações de modo que ele possa dar, preservar e
aumentar em nós a fé e obediência aos Dez Mandamentos e remover tudo o
que permanece em nosso caminho e nos impede de cumpri-los (CM II, 2)”.
Na segunda parte, o Catecismo se focaliza na vida sacramental da
igreja que nutre a vida da fé (Batismo – Absolvição – Ceia do Senhor).
Enquanto as três primeiras partes principais da primeira seção nos dirigem à vida de fé, a segunda seção nos dirige à vida da igreja onde a fé
é nutrida e fortalecida. Ainda que uma ênfase seja no objetivo, o foco
é preparado à apropriação subjetiva. O dom é seguido pela apropriação
subjetiva. O batismo é uma miniatura e um quadro completo da vida cristã, seu nascimento, discipulado, morte e ressurreição. Nele, no batismo,
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temos conteúdo suficiente para estudar e praticar durante o restante de
nossas vidas.
A absolvição vincula o Batismo e a Ceia do Senhor, juntando ambos.
Na absolvição nós nos tornamos o que realmente somos – batizados.
Enquanto alimento diário, a Ceia do Senhor sustenta nossa fé na luta da
igreja militante e produz testemunho ao banquete escatológico da igreja.
Ao seguir com toda proximidade possível uma vida de fé, a catequese
procura elevar e fortalecer o desejo pelos meios da graça mediante os
quais o catecúmeno pessoalmente toma de Cristo. Tais eventos centrais
colhem, sustentam e unem a vida da igreja na fé.
Na seção final, o Catecismo provê uma disciplina diária por onde os
cristãos exercitam e vivenciam sua fé (orações diárias, e tábua dos deveres). As pessoas não só precisam ser instruídas, como também necessitam desenvolver os hábitos e disciplina dentro da qual a vida cristã
é vivida. O cultivo de uma disciplina externa pode, de fato, servir para
livrar uma pessoa em prol de um correto viver. Por exemplo, qualquer
um pode praticar esportes ou fazer música. Mas somente uma pessoa
disciplinada pode fazê-lo livremente. Disciplina é a base e pressuposição
de ambos: liberdade e poder. Esta seção fornece um “como”, “quando”, e
“onde” à oração. Neste contexto de oração diária, Lutero integra o texto
do Catecismo de forma que a oração não apenas implore o auxílio e a
bênção de Deus, mas também renda a Ele graças, bem como medite em
Sua Palavra – na forma de um sumário, o Catecismo. Tal disciplina formal cultiva um hábito de espírito que manterá nossas vidas voltadas para
Deus do romper ao anoitecer do dia, por todo o período de vida.
Para resumir: o tema do Catecismo – a arte de viver pela fé – é dado
como um guia que acompanha o cristão deste lado da eternidade.
Mas é uma arte. Não aprendemos tudo de uma vez só. Ao invés disto,
nós permanecemos do começo ao fim de nossas vidas – como Lutero o
colocou – pupilos do Primeiro Mandamento. Continuamente aprendemos
a ver a bondade de Deus nos eventos da vida diária e a viver na expectativa de sua contínua bondade amanhã. Isto se revela nas variações.
Terceira Parte – Uma proposta para tornar
o Catecismo parte da vida na atualidade11
Postulamos anteriormente que as pessoas estão indo à igreja com
Esta parte é um resumo das idéias de Charles Arand, citado anteriormente.
11
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pouca ou nenhuma noção da memória cristã. Elas precisam aprender e
saber não apenas o que a igreja crê, mas o que quer dizer ser um cristão,
como ler as Escrituras, como cultuar e orar, como articular sua fé e como
fazer com que a vida tenha sentido. Não temos muito tempo para isso e
voltar às bases – ao Catecismo de Lutero – é de suma importância.
Nós devemos reconhecer que os Catecismos e toda sua instrução
contêm em si mesmos uma disciplina distintiva. Instrução catequética
não é idêntica ou coexistente com a educação cristã em geral. A instrução catequética se situa entre o evangelismo e a assimilação. Ela se
projeta para onde a proclamação inicial do kerygma pára e prepara ao
aprofundamento subsequente na fé mediante mais aprendizagem extensiva. Ela foca a formação da mente de Cristo dentro da pessoa.
Tampouco o Catecismo se parece com uma minidogmática. Ela não
trata de cada tópico que poderia ser considerado. Ela trata das bases
e cria um fundamento para a aprendizagem subsequente. Agora, isto
pode significar que nós não podemos cobrir o mesmo tanto de material
quantitativamente. Eu desejo aprender dele, isto é, do Catecismo, poucas coisas, mas que constituem as bases que sustentam a vida, e quero
aprendê-las bem! Podemos continuar com outros assuntos depois (espero que eles estejam bem próximos no momento apropriado). Em outras
palavras, cada documento precisa ser ensinado distintamente de acordo
com suas peculiaridades distintivas. O posterior se refere muito mais a
um livro teológico ou manual para teologia, o que é extremamente proveitoso. Por isso, uma edição de luxo do Catecismo para que acompanhe
o crente ao longo de sua vida também é importante.
A fé cristã resume-se à Palavra e o que é mais importante para o
Catecismo são palavras. Para serem claras, as palavras significam coisas
e carregam significados, mas significado religioso não é unívoco. Quando
amadurecemos, o significado cresce e se aprofunda, moldando e mudando assim como nossas vidas se moldam e mudam. O significado é
efêmero, e os significados aprendidos aos doze anos não são a totalidade das palavras que se memoriza ... palavras permanecem, e caso
se tenha as palavras, o significado nunca é de todo perdido. Em outras
palavras, nossas explicações não podem exaurir as palavras. Temos uma
vida inteira para desembrulhar, esmiuçar as palavras. Mas, primeiro, precisamos das palavras gravadas em nossos corações e mentes. Através
disto, contudo, eu não quero dizer que se aprenda “numa sentada” como
estudantes se preparando para um teste: memorizando os fatos, então
executando uma espécie de desencargo cerebral com relação ao exame,
e na próxima semana não tenha idéia alguma sobre o que foi aprendido.
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Aprender de cor envolve aprender até o ponto onde se torna instintivo,
onde se torna segundo a natureza ... até que nós a tenhamos na ponta
dos dedos. Aprender a andar de bicicleta, tocar a escala no piano – isto
envolve repetição.
As pessoas precisam se tornar instintivamente luteranas. Somente
depois que uma pessoa tenha aprendido as escalas ou aprendido a andar
de bicicleta ela pode continuar sendo alguém que toque música ou ande
de bicicleta. Isto parece sugerir que não é de melhor proveito ter-se memorizado apenas uma vez. Tampouco quer dizer que deveríamos ceder
no trabalho de memória para adultos (você pode tentar!). Ao invés disso,
o catecúmeno precisa entrar em contato com o Catecismo continuamente através da vida da igreja. Você pode dizer que as pessoas mantêm-se
em contato com ela (tenha-o continuamente diante de seus olhos – Deuteronômio). Deste modo, talvez, elas eventualmente – e de forma não
intencional – buscarão e aprenderão suas porções simplesmente através
do uso contínuo delas. Talvez seja por isto que ele foi endereçado a pastores, pais e professores do gênero, posto que foi para ser utilizado no
lar, igreja, sala de aula. Destes três, o Catecismo em nossos dias tem
tido seu lugar quase que exclusivamente na sala de aula. Mas antes que
ele possa encontrar seu lugar novamente no lar, talvez ele precise primeiramente encontrar seu lugar na igreja novamente (em adição à sala
de aula).
Neste contexto, nós podemos compreender o que em primeiro lugar
parece ser uma hipérbole da parte de Lutero. Considerando que o prefácio do Catecismo Menor e o prefácio mais breve do Catecismo Maior
(1529) se dirigem às necessidades das crianças, Lutero adicionou um
prefácio mais comprido ao Catecismo Maior em 1531, no qual ele se
dirige aos adultos que consideravam o Catecismo como sendo algo de
ensino simples, facilmente dominado em uma hora ou em um único dia.
Lá Lutero fala da necessidade dele próprio quanto a estudar o Catecismo
diariamente também. “Eu ainda devo ler e estudar o Catecismo diariamente, ainda que eu não possa dominá-lo como eu desejasse, mas permaneço um filho e pupilo do Catecismo, e eu o faço com muita alegria”
(LC, Prefácio Maior, 7-8).
O Catecismo foi originalmente designado como um documento oral, isto
é, apesar de que fosse escrito, ele era para ser utilizado oralmente – escrito para ser falado em voz audível. De fato, se fosse para ser memorizado,
ele teria de ser memorável. E desta forma Lutero empregou muitos dispositivos mnemônicos para torná-lo memorável. Ele utilizava aliteração (“Tod
und Teufel” “verlornen und verdammten”). Utilizava também assonância,
111
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equilíbrio, elemento concreto, fórmulas, cadência e ritmo, repetição, a fim
de tornar o Catecismo um encanto aos ouvidos. Trazendo-o como um livro
texto para o olhar, nós perdemos alguma coisa de sua qualidade enquanto
conversa vivaz unindo pessoas na unidade da fé.
Como um documento escrito para o uso oral, ele foi escrito para abrir
conversação. Pode ser então que a mesa do jantar proveja nosso modelo,
em companhia de Hans Luther. (O que é isto? É uma mesa. O que é aquilo? É uma porta). Talvez (dependendo do tamanho da classe) o pastor
ou o catequista simplesmente junte a classe em um círculo de cadeiras
e diga: “vamos conversar sobre isto”. Tome o Primeiro Mandamento e a
palavra “nós” como em “nós devemos temer e amar a Deus”. A quem
se refere? Cristãos? Todas as pessoas? Por quê? Pense na discussão que
poderíamos fazer com relação à palavra temor? Medo? Respeito? Reverência? E os estudantes podem muito bem levantar questões que nós
poderíamos responder. Então nós podemos conectar tudo isto ao cultuar,
vida diária, às Escrituras, etc...
O que nós precisamos fazer hoje é desenvolver um curriculum para o
Catecismo que esteja baseado no conteúdo teológico e que tenha os contornos do próprio Catecismo de Lutero. Deve-se levar em conta o que ele
incluiu e o que ele não incluiu (termos técnicos; humilhação – exaltação;
atributos de Deus; ofícios de Cristo; etc.) e o porquê. Isto significa que
nossa tarefa de instrução é mais complexa do que uma simples transmissão de uma quantidade particular de informação e dados. Inclui a
formação de um habitus cristão dentro do indivíduo. Em outras palavras,
deve-se levar em conta a natureza singular e o gênio dos Catecismos de
Lutero e não somente se impor um sumário de teologia sistemática ao
se dirigir a ele. Onde o Catecismo carece de suplemento (assuntos não
discutidos), isto preciso ser realizado de um modo que se permaneça fiel
aos contornos do Catecismo. Deve também ser flexível o suficiente de
forma que se manuseie os assuntos especificamente morais e teológicos
que emergem em nosso contexto atual. Mas isto quer dizer que devemos
mergulhar-nos no mundo pensado do Catecismo.
Um curso de instrução que procura promover a tarefa catequética
nas linhas da natureza e proposta dos Catecismos de Lutero teria, em
especial, uma dupla meta. Primeiro, se focalizaria num processo de desembrulhar a amplitude das palavras dadas no Catecismo. Em segundo,
auxiliaria os catecúmenos a utilizarem o Catecismo nas várias áreas do
seu cotidiano. A analogia do Catecismo enquanto um mapa rodoviário à
fé e vida cristã poderia ajudar neste momento.
Primeiro, porque um mapa orienta um viajante ao demarcar as for-
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mas maiores de um território, a costa litorânea, montanhas, planaltos,
e onde há água. De uma forma similar, o Catecismo orienta o cristão ao
demarcar os principais textos, temas e eventos da vida cristã. Ao invés
de dar uma descrição de cada detalhe, ele nos mostra os contornos,
configurações e características maiores da vida cristã. Sua brevidade,
semelhante aos credos antigos, significa que ele deve assinalar as coisas
profundas e complexas com um “poste sinalizador altamente evocativo”.
E para usar as palavras de Ambrósio e Teodoro de Mopsuéstia: “a partir
de poucas palavras, muita instrução pode ser extraída; note quão rapidamente a coisa é dita e quanto realmente quer significar”. Estes mapeamentos maiores ou postes que sinalizam nos capacitam a encontrar
nosso caminho a fim de fazer com que tenham sentido muitos caprichos
de nossas vidas. Eles também assinalam onde alguns dos tesouros mais
ricos na Escritura são encontrados.
Segundo, como um mapa, o Catecismo situa nossa jornada de fé
dentro do contexto daqueles que estiveram antes de nós. Enquanto cada
nova geração de crentes deve levar adiante a sua própria jornada de fé,
o Catecismo providencia algumas demarcações claras para nos direcionar no caminho certo. Como um mapa, o Catecismo provê uma “imagem
compartilhada” ou “confissão comum” que acaba planejando as jornadas
tanto individualmente quanto numa visão comunitária. Nenhuma geração de crentes se inicia sem que haja algum conhecimento prévio dentro do qual se tenta expressar quem eles são mediante a comunidade,
liturgia, ensino e serviço. Uma compreensão amplamente defendida do
que cremos, como cultuamos, como nós agimos e como oramos concede
unidade às diversidades de jornadas da fé.
A partir daí, podemos criar um programa de catecumenato permanente a partir do Catecismo.
Arand sugere sete ciclos. Segundo ele, cada ciclo cobriria o Catecismo inteiro de forma que não se perca de vista a floresta por conta das
árvores. Cada ciclo poderia levar de seis a doze semanas ou ser tratada
durante um fim de semana em retiro. Uma semana deveria ser devotada ao Primeiro Mandamento. A segunda semana poderia ser destinada
para mostrar (ao se tomar exemplos) como os mandamentos são nove
interpretações do Primeiro Mandamento. A ausência de um tempo único
concentrado destinado a cada mandamento será compensado ao se ensinar um número de ciclos cobrindo o Catecismo inteiro. Neste percurso,
voltaríamos aos mandamentos várias vezes.
Ensinar o Catecismo em uma série de ciclos teria várias vantagens.
Primeiro, faria com que o Catecismo fosse tratado holística e integral-
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mente. Segundo, o uso repetido do Catecismo inteiro através de uma
série de ciclos poderia auxiliar no imprimir ou gravar o Catecismo nos
corações e mentes daqueles que o estão aprendendo. Em consequência
disto, tal forma pode inculcar um padrão luterano de pensar no catecúmeno. Terceiro, permitiria imensa variedade na instrução. Um ciclo
utilizará o Catecismo para explorar a Escritura. Um outro ciclo usará o
Catecismo para compreender a liturgia. Outro ainda fará com que se
aprenda a orar. Cada ciclo se deterá em uma diferente faceta da vida
cristã. Quarto, um pastor poderia utilizar vários dos ciclos ou todos eles,
ou ainda usá-los em diferentes sequências com relação à sequência que
eu enumero. Quinto, materiais para cada ciclo catequético poderiam ser
publicados como livros independentes que encerram o assunto em si.
Isto adicionaria em muito a flexibilidade que um pastor ou catequista
teria em cursos feitos sob medida para seus estudantes.
Primeiro ciclo: concentração no Catecismo – No primeiro ciclo, focalize no examinar das palavras dos componentes clássicos e então passe
para um exame minucioso na explicação e tratamento de Lutero quanto
àqueles textos (utilize o Catecismo Maior como recurso). Aqui novamente
nos concentraríamos no desembrulhar das palavras, observando o tema
das explicações de Lutero, vendo como elas se entrelaçam, e explorando
suas trajetórias.
Segundo ciclo: pórtico à Escritura – Lutero utiliza os textos básicos
para providenciar um portal a um mundo recheado de pensamento bíblico. Consequentemente, ele fala do Catecismo como sendo um compêndio da Escritura. As explicações no Catecismo Menor não apenas levam
alguém ao texto de componentes centrais, mas tão importante quanto
isto, elas abrem um portal para um mundo bíblico repleto de pensamento sobre aquele assunto particular. Elas não apenas resumem o pensamento, mas o expandem. Por comparação, as explanações no Catecismo
Maior ensinam e mostram a alguém como atualizar o testemunho bíblico
dentro das várias vocações do povo de Deus.
Precisamos explorar como o Catecismo de fato revela os temas primordiais da Escritura. Pode-se proceder indutivamente aqui (mais propriamente do que um texto – prova) e levantar-se as questões as quais
cobrem a várias porções da Escritura: “Onde isto se encaixa no Catecismo?” Por exemplo, poder-se-ia contemplar o Antigo Testamento e
examinar cada incidente onde o povo de Israel foi punido e enviado ao
cativeiro. Com relação a qual assunto eles foram punidos? Idolatria!
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Em outras palavras, o Primeiro Mandamento é o mais proeminente no
encaixe.
Então, o professor poderia proceder tanto indutiva quanto dedutivamente a fim de explorar a centralidade dos Dez Mandamentos em geral
e o Primeiro Mandamento em particular dentro das Escrituras. De forma
semelhante, poderíamos explorar como o Credo cobre os temas principais da Escritura com relação a Deus e sua obra. Em outras palavras,
se temos somente poucos minutos para falar sobre Deus, sobre o que
falaremos? Quando a Bíblia trata da criação, qual é seu foco? A Creatio
prima ou a creatio continua? Podemos ver como o Segundo Artigo capta
os três focos fundamentais (encarnação, paixão e ressurreição de Cristo)
dos Evangelhos assim como a teologia de Paulo. Quando a Escritura fala
do Espírito, ela assim o faz de modo cristocêntrico.
Terceiro ciclo: o Catecismo e o culto – No terceiro ciclo de seis semanas, poderíamos mostrar como o Catecismo nos leva à liturgia e ao
campo dos hinos na igreja. Podemos mostrar como segue tanto a fluência do culto como também os temas contidos na narrativa e instrução
doutrinária dos próprios hinos. Veja os hinos. Note como procedemos no
culto a partir da confissão (Dez Mandamentos) para a Liturgia da Palavra
(Credo), e então para as orações e ofertas (Pai Nosso). Podemos praticar usando o Catecismo em nossa própria preparação não apenas para
confissão – absolvição, mas para a Ceia do Senhor ou para relembrar o
Batismo. Eventualmente, utilize as quatro questões de Lutero quanto ao
Batismo e a Santa Ceia no serviço a tais sacramentos.
Quarto ciclo: o Catecismo e o evangelismo – O Catecismo pode também servir admiravelmente para dar assistência aos catecúmenos no
compartilhar de sua fé com outros ao dividir a fé da igreja. Onde começamos no evangelismo? O que poderia servir como sendo nosso ponto
de contato? O tratamento de Lutero quanto ao Primeiro Mandamento no
Catecismo Maior providencia um excelente ponto de partida. Ao iniciar
com a atribuição de que somos criaturas, assume-se que todos têm um
deus. Então, pelo que estás buscando na vida? Onde procuras significado, preenchimento ou felicidade? Este é o seu deus. Agora, vamos ver se
ele é forte o suficiente para suportar sua fé ou se eventualmente o desapontará. O que precisamos dizer sobre Deus ou Jesus Cristo? Novamente, o Segundo Artigo provê, de uma forma belíssima e sucinta, as facetas
mais importantes da vida de Cristo que nós precisamos conhecer. Cristo
tornou-se meu Senhor a fim de que eu pudesse ser mesmo seu!
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Quinto ciclo: o Catecismo e a interpretação da vida – No quinto ciclo,
poderíamos usar o catecismo para interpretar assuntos contemporâneos,
ou seja, atuais. Tópicos como avareza, idolatria, violência, aborto poderiam ser interpretados à luz dos vários mandamentos, mas com uma
visão que mostre como cada mandamento em última análise nos leva
ao Primeiro Mandamento. Desta forma, o Catecismo pode se tornar um
itinerário ao fazer com que a Escritura se aplique à vida atual do cristão.
Isto já emerge na ordenação existencial que perpassa no Catecismo de
Lutero como um todo bem como o ponto de partida existencial para as
explicações de suas partes individuais. Em cada instância, Lutero inicia
no ponto onde o povo encontra e experimenta a vida com suas demandas e dons, seus desapontamentos e alegrias. Lutero então explana ou
interpreta estas experiências teologicamente à luz do Evangelho e, desta
forma, mostra como tratar deles.
Sexto ciclo: o Catecismo e a piedade – Este ciclo focalizar-se-ia no
ensino e uso do catecismo como uma base para a vida devocional e de
oração. Aqui seria proveitoso checar o Livro de Oração Particular de Lutero bem como sua carta para Pedro, o Bárbaro. Nesta última, ele mostra
explicitamente como orar o Catecismo. O pastor ou pais poderiam forjar
o ritmo para a oração diária como posta no próprio Catecismo (manhã,
meio-dia, noite) e desta forma torná-la parte de nosso ritmo para o viver
diário (todos devem levantar, alimentar-se e ir para a cama). Então poderíamos também exclamar com Lutero: “Louvado seja Deus – vieste a
fazer com que homem e mulher, jovem e velho, conheçam o Catecismo;
eles sabem como crer, viver, orar, sofrer e morrer. As consciências são
bem instruídas sobre como ser cristãos e como reconhecer Cristo”.12 Lutero torna bem claro que, num sentido real, o Catecismo não é somente
aprendido até que a vida se definhe”. Isto significa que a vida toda do
cristão se torna um catecumenato.
Sétimo ciclo: o Catecismo e a teologia da igreja – Neste ciclo particular, poderíamos explorar em maior profundidade muitos dos materiais
que são contidos na explicação sinodal quanto ao Catecismo de Lutero.
Mas seria melhor que fosse feito de uma forma que se construa no próprio padrão bíblico de pensamento em Lutero, de maneira que siga a sua
trajetória. Por exemplo, note como ele ensina a respeito da Trindade. Isto
Martinho Lutero, “Warning to His Dear German People, 1531”, in Luther’s Works, vol. 47
(Philadelphia: Fortress Press, 1971), pp. 52-53
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A importância do catecismo na identidade luterana
significa que podemos proceder a partir da Trindade econômica para a
Trindade imanente. Outras expressões para a obra de Cristo em adição
ao Christus Victor poderiam ser exploradas.
Conclusão
Depois de ler estas páginas, a tarefa que se impõe parece ser árdua
e desanimadora. Lutero o sabia, por isso assim se pronunciou no prefácio
ao seu comentário sobre Zacarias, queixando-se sobre como pouquíssimos pregadores eram competentes em dar boa instrução catequética;
aqueles que podiam, ele os classificava como sendo os teólogos mais
perspicazes: “Deve-se, contudo, relacionar aqueles educadores como os
melhores e modelos de sua profissão, aqueles que ensinam muito bem o
Catecismo ... mas tais educadores são aves raras. Pois não há nem grande glória nem demonstração exterior em sua espécie de ensino; mas há
nisso um grande bem e também o melhor dos sermões, posto que neste
ensino, em poucas palavras, compreende-se toda a Escritura”.13
Bibliografia complementar
ARAND, Charles P. That I May Be His Own: An Overview of Luther’s Catechisms. Saint Louis: CPH, 2000.
ARAND, Charles. “The God behind the First Commandment”. In Lutheran
Quarterly 8, (Winter 1994): 397-424.
BAYER, Oswald. A Teologia de Martim Lutero: uma atualização. São Leopoldo: Sinodal, 2007.
FORMATION IN THE FAITH: CATECHESIS FOR TOMORROW. Concordia Seminary Publications, Symposium Papers, Number 7. Saint Louis,
1997.
KOLB, Robert. Martin Luther Confessor of the Faith. Oxford: Oxford University Press, 2009.
LATHROP, Gordon & WENGERT, Timothy. Christian Assembly. Marks of
the Church in a Pluralistic Age. Minneapolis: Fortress Press, 2004.
PETERS, Albrecht. Commentary on Luther’s Catechisms. Ten Commandments. Saint Louis: Concordia, 2009.
WENGERT, Timoty J. Martin Luther’s Catechisms. Forming the Faith. Minneapolis: Fortress Press, 2009.
Luther’s Works, vol. 20, pp. 155-57. Veja também D. Martin Luthers Werke, vol. 23
(Braunschweig: C.A. Schwetschke and Sons 1855) no 485-86.
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
SÉRIE ANUAL TRADICIONAL REFORMULADA
Sexto Domingo após Pentecostes
Quinto Domingo Após Trindade
Salmo 147.1-14, Lamentações 3.22-26 ou Êxodo 3.1-15, 1 Pedro 2.410, Lucas 5.1-11
Lucas 5.1-11
O mais excelente trabalho
Comentário sobre o texto
Jesus estava na cidade de Cafarnaum, à beira do Mar da Galiléia. Era
a terra natal dos profissionais da pesca Pedro, André, Tiago e João. Nesta
cidade Jesus era sempre acolhido com muito carinho. Multidões reuniamse para ouvir suas pregações. Nesta ocasião, Jesus usou o barco de Pedro
e, assentado nele, ensinava as multidões. Concluído o seu ensino, pediu
que Pedro navegasse para águas mais profundas para lançar as redes e
pescar. Apesar do cansaço após uma noite inteira de trabalho e mesmo
não sendo esta a hora mais apropriada para a pesca, Pedro obedeceu. E
o resultado foi impressionante. Nunca o seu trabalho havia rendido tanto,
a ponto de pedirem auxílio a companheiros de outro barco.
Diante do milagre, Pedro considerou-se indigno de ficar na presença
de Jesus, perante o qual sentia-se um indigno pecador. Neste momento Jesus fez o convite que mudou radicalmente a sua vida. Ao invés de
pescarem peixes com redes de pesca, teriam, a partir desse convite, a
missão de lançar as redes do evangelho. O chamado de Jesus foi imediatamente aceito. Os barcos foram arrastados para a praia e, “deixando
tudo, o seguiram”. Quando Cristo chama e mostra o caminho que conduz
ao seu trabalho, o pecador ouve a sua voz e curva-se humildemente
diante da sua vontade.
No Evangelho deste domingo, o Salvador Jesus incentiva o trabalho,
abençoa o trabalho e chama pessoas simples como Pedro e seus colegas
de profissão para o mais excelente trabalho: a missão de pescar gente.
Destaques dos outros textos
Sl 147.1-14 – No contexto agrícola, o bom tempo, com sol e chuva
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Igreja Luterana
regulares, faz com que o homem do campo veja o seu trabalho frutificar.
Esse é um dos motivos pelos quais o salmista louva o Deus todo-poderoso. No contexto da Igreja, o tempo de paz e liberdade é propício para
a pregação do Evangelho, pelo que também louvamos ao Deus e Pai de
toda graça.
Êx 3.1-15 – Quando Deus chamou Moisés para libertar o povo de Israel da escravidão egípcia, ele vacilou, apresentou desculpas apontando
suas deficiências (cf. Êx 3 e 4). Depois de muito relutar, foi persuadido
a aceitar o desafio. A promessa de que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó
estaria ao seu lado na dura missão e os sinais que Deus fez diante dele, o
convenceram. Também no Ministério Pastoral e no Sacerdócio Universal,
“a nossa suficiência vem de Deus”.
1 Pe 2.4-10 – Não somente os que foram habilitados para exercer
publicamente o Ministério Pastoral, após concluir um curso de Teologia,
mas todos os cristãos são chamados a “proclamar as virtudes daquele
que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”, como membros
do sacerdócio universal dos crentes em Cristo.
Moléstia: Ministros do evangelho e cristãos preguiçosos e acomodados (Jr 48.10). Jesus chamou pessoas que tinham vontade de trabalhar.
Tema: O mais excelente trabalho.
Introdução
Diz um ditado popular: “Tá nervoso? Vai pescar!”. Nesse contexto,
a pesca seria um santo remédio para acalmar os nervos. Para outros,
a pesca é esporte ou divertimento. Por isso não faz muita diferença se,
após uma longa pescaria, nada se pega.
Mas para Simão Pedro e seu colegas de profissão, a pesca era o seu
meio de vida. Por isso, quando Jesus disse, “doravante serás pescador de
homens”, não se referia a um mero passatempo de final de semana, mas
referia-se ao mais excelente trabalho que o ser humano tem o privilégio
de fazer.
O mais excelente trabalho não é um passatempo de final de semana
- Mas é a mais necessária, importante e urgente missão da Igreja
- No Salmo, o autor louva ao Senhor porque ele “congrega os dispersos de Israel” (Sl 147.1)
- Salvar pessoas que caminham para o inferno é a prioridade número
1 da Igreja
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Sexto domingo após pentecostes
- A Igreja realiza esta tarefa anunciando o Evangelho e administrando
os sacramentos
- Somente a Igreja é portadora da mensagem da salvação
- Infelizmente agimos como se isto não fosse algo importante
- Não está na nossa agenda de prioridades
- Pecado de não-missão? acomodação? preguiça?
- Também por esses pecados Jesus morreu e ressuscitou
- Dele recebemos vida, coragem e novo ânimo para servir na sua
Igreja
Salvar pessoas perdidas é o mais excelente trabalho
- Jesus chama pecadores para fazer esse trabalho
- Pedro disse: “Retira-te, sou pecador”
- O pecador Pedro foi confrontado com a majestade de Deus
- A majestade de Deus nos convence da nossa fraqueza e do nosso
pecado
- Jesus respondeu: “Não temas”!
- Ele veio para salvar os pecadores assim como Pedro, André, você
e eu
- Ele quer usar a estes pecadores em sua missão
- Pedro e seus companheiros de trabalho deixaram tudo e o seguiram
- Jesus tornou-se o primeiro em suas vidas
- Jesus é o primeiro em nossa vida?
Para fazer esse mais excelente trabalho, Jesus usa o que nós temos
- Não pede coisas impossíveis para nós, ou fora do nosso alcance
- Pediu a Pedro que lhe desse um pouco do seu tempo e o seu barco
- Nossas desculpas para não participar assemelham-se às desculpas
dadas por Moisés (Êx 3 e 4)
- Jesus pede também o nosso tempo e as nossas ofertas
- Alguns são chamados para o Ministério Pastoral de tempo integral
ou parcial
- Outros são chamados a servir no Sacerdócio Universal dos Crentes
em Cristo (1 Pe 2.9,10)
- O grande desafio: “Sereis minhas testemunhas até os confins da
terra”.
- A ação missionária da Igreja é um ato de fé
- Porque Cristo falou, nós agimos, movidos pela sua graça
- Dele recebemos bênçãos para esta vida e para a vida eterna:
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Igreja Luterana
“...os que a muitos conduzirem à justiça, resplandecerão como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12.3)
“Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-
novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina”! (Is 52.7)
Fortalece a tua Igreja, ó bendito Salvador!
Dá-lhe tua plena graça, vem renova seu vigor.
Vivifica, vivifica nossas almas, ó Senhor. Amém
Arnildo Schneider
Porto Alegre, RS
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Sétimo Domingo Após Pentecostes
Sexto Domingo Após Trindade
Salmo 107.1-9, Isaías 43.1-7 ou Jeremias 17.9-13, Romanos 6.1-11,
João 4.5-15 (16-26)
João 4.5-15 (16-26)
Leituras do Dia
A temática que perpassa as leituras deste domingo é a dependência
de Deus para alcançar redenção, libertação, purificação. Salmo
107.1-9: Este salmo olha para um passado livramento de Israel
da escravidão exílica e convida para render graças a Deus que agiu
misericordiosamente. Jeremias 17.9-13: É preciso estar junto ao
Senhor para saciar as necessidades humanas; o Senhor é a fonte de
águas vivas (vida). Romanos 6.1-11: A “água redentora” do batismo
nos coloca numa situação diferente e nova: revestimo-nos de Cristo e
nos beneficiamos com as dádivas que advêm de sua morte e de sua
ressurreição. O pensamento do apóstolo liga-se ao rito da imersão - para
dentro da água (morte), debaixo da água (sepultamento) e fora da água
(ressurreição).
Contexto
A perícope situa-se dentro da sequência de João 2.13 e 3.22. Já na
primeira fase do seu ministério, Jesus foi para a festa da Páscoa em
Jerusalém e permaneceu na região da Judéia, levando a efeito um
ministério de batismo através de seus discípulos. (Além dos ministérios
batismais de João e de Jesus, havia outros ministérios batismais – ritos
legalistas de purificação). Diante da reação negativa dos fariseus e
para evitar contendas entre seus discípulos e os de João, Jesus decide
voltar para a Galiléia. Passar pela Samaria encurtava a distância a ser
percorrida.
Texto
V.5: O cenário natural do diálogo com a samaritana fazia parte da
paisagem geográfica e histórica da Antiga Aliança, pois ali Jacó tinha
andado e ali José foi sepultado. Agora, neste local, há um redirecionamento
da Aliança de Deus – se no passado a aliança era apenas para judeus,
agora se destina até mesmo para aqueles que pelos judeus eram
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Igreja Luterana
desqualificados – os samaritanos. Jesus veio para a salvação de todos. O
v. 4 traz que era necessário (dei) atravessar a região de Samaria; este
necessário implica que a vontade ou plano de Deus estava ali envolvido.
V. 6: Cansado da viagem / na hora sexta. – O cansaço e a sede de
Jesus evidenciam também sua humanidade. Jesus era verdadeiro Deus e
verdadeiro homem, porém sem pecado (Hb 4.15). Jesus foi verdadeiro
homem para experienciar a realidade humana e assim creditar ainda
mais a sua missão. Aqui, a humana sede de Jesus remete para a sede
humana de Deus, a sede espiritual que precisa ser saciada. A hora sexta,
de acordo com o cômputo judaico, corresponde ao meio dia – horário
natural de descanso enquanto o sol estava no seu ponto mais alto.
Vv. 7-9: [...] mulher samaritana. – Samaritanos e judeus,
historicamente, eram antagônicos. Os samaritanos, apesar de na sua
origem serem parte do mesmo povo, haviam se separado dos israelitas
política e religiosamente desde muito tempo. Da Bíblia Hebraica
só preservavam o Pentateuco (Lei). Os judeus consideravam-nos
praticamente como pagãos. Judeus criteriosos na observância da lei
criam contaminar-se comendo alimentos ou usando objetos que tinham
sido manuseados por samaritanos, quanto mais ainda por uma mulher
samaritana. A mulher samaritana era considerada em estado perpétuo
de impureza cerimonial.
Vv. 10-14: Água viva – é a água fresca e corrente, a melhor água
para beber.
– A comparação frequente da lei com água refrescante, encontrada
nas tradições rabínicas, sugere que aqui Jesus está oferecendo algo
superior não só à água do poço de Jacó, mas também algo superior à
religião legalista dos samaritanos e judeus conjuntamente.
– A metáfora da água é usada para mostrar a carência e a necessidade
espiritual do ser humano. Sem a água não há vida; sem a água da vida
(Jesus) há morte espiritual. Jesus usa a água viva como símbolo dos
dons que ele oferece, gratuitamente, a quem crê (João 6.35; 7.37-38,
Ap 21.6).
V. 15: Dá-me dessa água. – A mulher não compreendeu que se tratava
de algo espiritual; ficou no plano material. Porém, muito pertinente foi
o seu pedido, pois resta para o ser humano render-se: compreender
sua necessidade e demonstrar acolhimento do que lhe é oferecido. Não
podemos olhar para Jesus apenas na ótica materialista, pois Nele está o
mistério da vida. Jesus descortinou o que está além da aparência – além
da morte há vida.
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Sétimo domingo após pentecostes
Sugestão Homilética
Tema: Mate sua sede de Deus!
Introdução
– a necessidade e o valor da água, em especial da água potável.
Desenvolvimento
1. O ser humano tem sede de Deus
– o homem é um ser de materialidade e espiritualidade
– necessidade de satisfazer a espiritualidade
– a crise que o pecado trouxe
2. Há muitas fontes que não matam a sede
– a religiosidade judaica
– a religiosidade samaritana
– outras religiosidades
3. A água da vida
– é Cristo (Jo 6.35, 7.37-38 e Ap 21.6)
– recebemos já no “Batismo”
– é gratuita; é dádiva (Is 55.1)
– é oferecida a todos: judeus, samaritanos, gentios
– mata a sede para sempre
Conclusão
Assim como a água é vital para se matar a sede e ficar vivo, Jesus é
vital para matar a sede espiritual e proporcionar vida eterna.
Eliseu Teichmann
Porto Alegre, RS
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Oitavo Domingo após Pentecostes
Sétimo Domingo Após Trindade
Salmo 139.14-18, Êxodo 16.2-3, 11-18, Atos 2.41-47, João 6.1-15
João 6.1-15
Contexto Litúrgico
Este período do Ano Eclesiástico, com seus domingos chamados após
Pentecostes, ou após Trindade, ou ainda, Tempo Comum (Igreja Católica
Romana) reflete, no verde das cores litúrgicas, a idéia de crescimento. É
o período onde, sem grandes festas especiais, a Igreja Cristã semeia a
Palavra e segue sua tarefa de ensinar e, com isto, alimentar os que têm
fome e sede.
Leituras do dia
Salmo 139.14-18: O salmista se mostra maravilhado ante a sabedoria e o cuidado de Deus. Numa poesia contemplativa, ele derrama
palavras que denotam sua incapacidade em compreender os atos cuidadosos do Senhor, que está presente em todos os momentos. “Graças te
dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as
tuas obras são admiráveis...”. O salmo é uma declaração de confiança e
submissão a Deus, até mesmo quando apela ao juízo de Deus contra os
ímpios, numa atitude não de vingança, mas de zelo e cuidado por aquele
de quem depende e a quem entrega todo o seu ser.
Êxodo 16.2-3; 11-18: Frente à reclamação do povo, sua incredulidade e seus precipitados diagnósticos e prognósticos, Deus age através
de Moisés. Contrariando qualquer expectativa humana, ao amanhecer o
dia, existe comida. Ao verem o alimento, não sabem do que se trata (v.
15). E cada um recebeu o necessário para comer.
Atos 2.41-47: A firmeza dos primeiros cristãos, fundamentada no
ensinamento e na ação poderosa de Deus através dos apóstolos, se reflete na vida diária. Deus opera milagres, cujo maior deles é a fé plantada
no coração. Uma vez germinada, esta fé é o sinal da presença de Deus
no mundo.
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Oitavo domingo após pentecostes
Ênfases gerais
As leituras paralelas, indicadas para este domingo, se tocam quanto à
ênfase no Senhor doador de todas as coisas, mantenedor e condutor da
história. Deus dita o andar da carruagem. Ele é o Senhor do tempo e só
dele vem o que sacia a humanidade, desde suas carências mais triviais
até os anseios mais profundos da alma.
O evangelho do dia: João 6.1-15
O texto do evangelho mostra o Deus dos milagres. Mostra o Cristo
que faz milagres, mas não é milagreiro! Este milagre é o único que encontra paralelo nos sinóticos. João, no entanto, não se dispõe a marchar
no passo dos demais. Mateus, Marcos e Lucas pintam um cenário muito
parecido. Os três falam, no contexto anterior, sobre a morte de João Batista, dois deles lembram a missão dos doze, Mateus dá como introdução,
ou motivação da ida de Jesus ao local onde acontece o milagre, a notícia
sobre a morte de João Batista. Lucas é quem denomina o local do milagre, o povoado de Betsaida. O relato dos quatro evangelistas completa,
com detalhes significativos, este acontecimento. Naquele lugar, com a
grande multidão ao seu redor, Jesus ficou com muita pena e curou os
doentes (Mt 14.14); teve pena e ensinou muitas coisas (Mc 6.34); falou
a respeito do Reino e curou os que precisavam (Lc 9.11). E os quatro
contam a multiplicação dos pães e peixes.
Peculiaridades no relato de João
João dá destaque especial à autoridade de Jesus, ao testemunho que
João Batista deu a respeito daquele que tem um poder muito acima das
expectativas humanas; ao testemunho de Moisés, que era o grande ícone da crença do povo; ao testemunho do próprio Deus a favor de Cristo
(5.19-47). Para melhor visualizar o texto do evangelho, também não se
pode abrir mão do contexto posterior, onde João não poupa tinta para
mostrar o significado deste milagre de Jesus.
João faz questão de pontuar o intento que moveu o povo a estar com
Jesus naquele local. Eles tinham visto os milagres – shmei/on (v.2). Sinal
ou milagre pode significar algo que remete para o que vem pela frente,
algo que identifica uma pessoa ou coisa, uma “marca” ou “prova” confirmatória. No AT remete ao sinal dado por Deus que acompanha a Palavra;
sinais que reforçam e garantem a presença salvífica de Deus.
João especialmente mostra os milagres como sinais que indicam para
além de si mesmos, para aquele que os opera – Jesus Cristo. O sinal de
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Igreja Luterana
Moisés aponta para Cristo. João Batista aponta para Cristo. O milagre de
Jesus aponta para si mesmo. É o sinal da salvação que invade o mundo e
aponta para a eternidade, onde também as carências físicas não existirão
mais.
João é o único que menciona o período, a Páscoa – Pa,sca (v. 5),
quando os judeus lembravam da libertação do Egito e do maná no deserto. Era a época em que esperavam, com mais fervor, que o Messias se
manifestasse. João menciona três Páscoas (2.13; 6.4 e 11.55). O evangelista não menciona a morte do Batista, nem a missão da qual os doze
apóstolos tinham voltado. Não que ele não gostasse do seu xará, ou que
não tivesse dado importância ao ‘estágio’ feito por eles um pouco antes.
Mas o evangelista descreve a cena numa perspectiva, ao que parece, de
quem olha o macro, ou seja, Jesus não queria ser milagreiro, mas sinalizou um grande milagre.
E quando os outros evangelistas encerram seu relato, João continua:
“Os que viram este milagre de Jesus disseram: de fato, este era o profeta que devia vir ao mundo!” (v. 14). E Jesus, sabendo das intenções
do povo, de o levarem ao trono, sai de cena, sozinho. Jesus não é milagreiro!
No contexto posterior, João descreve o próximo encontro de Jesus
com aquela multidão. É hora de abrir o jogo. E isto acontece nos versículos 26 e 27. Então o povo reclama e exige as credenciais de um rei
(vv. 30,31), e recebe, então, na sequência dos versículos, até ao final do
capítulo, a clara exposição de que: Jesus não é milagreiro, mas faz grandes milagres! Ele é o próprio milagre de Deus. Jesus é o Grande Milagre
de Deus.
Para o povo, Jesus fez, ao alimentar a multidão faminta com um ato
milagroso, “a coisa certa no momento certo”. Hora certa no tempo do
povo judeu, Páscoa, então era preciso fazê-lo rei, libertador; hora certa
no tempo de Deus, Jesus Salvador – Pão da Vida. Esta contradição no
tempo acaba levando Cristo para a cruz, na Páscoa seguinte. No tempo
da humanidade Jesus não cumpriu com seu papel, por outro lado, no
tempo de Deus, Jesus cumpriu tudo o que era necessário, da maneira
necessária. Jesus não é milagreiro, mas faz grandes milagres!
O milagre/sinal não cria a fé. O milagre/sinal pressupõe fé. Portanto o
maior milagre é a fé dada ao coração. Neste sentido, quem espera o milagreiro fica somente no sinal e não chega àquilo para o que ele aponta. É a
grande dificuldade humana em relação aos milagres descritos na Bíblia.
Cristo é o grande sinal de Deus, predito no Antigo Testamento e cumprido nas palavras e sinais do próprio Cristo. O grande milagre é o da
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Oitavo domingo após pentecostes
Páscoa de Jesus, sua morte e ressurreição. Procurar um milagreiro é encontrar lei e condenação, ou o vazio da decepção. Procurar e agarrar-se
ao que faz grandes milagres, e é o Grande Milagre, traz consolo e a doce
esperança da fé no Evangelho.
Este texto nos remete ao questionamento sobre as buscas da humanidade. A quem busca? Que Jesus quer encontrar e ter à disposição? Que
tipo de pão está procurando? Que sinais espera de Deus?
A ênfase do domingo é estabelecida pela ação de Deus no mundo
onde, em poder e sabedoria incompreensíveis, se coloca ao nosso lado
(Sl 139); onde cumpre sua promessa sinalizada desde os tempos antigos, e onde continua agindo através da Igreja, fundamentada nesta
ação divina (At 2). Jesus é o cumprimento de todas as promessas e sinais
de Deus. O que Jesus nos deixou, sua Palavra e Sacramentos, são sinais
de seu cuidado e amor por cada um, e a tarefa da Igreja é ensinar e testemunhar a respeito do Grande Milagre de Deus.
Proposta Homilética
Desenvolver o tema sugerido na tensão e ao mesmo tempo relação
entre os milagres/sinais e o Grande Milagre – Jesus. Propor não uma ‘espiritualização’ dos milagres e da fé cristã, mas fundamentá-los no grande
milagre da encarnação do Messias.
Sugestão de Tema: Jesus não é milagreiro. Mas faz grandes milagres!
Arnildo Münchow
Canguçu, RS
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Nono Domingo Após Pentecostes
Oitavo Domingo Após Trindade
Salmo 1, Gênesis 12.1-4a (4b-7), Gálatas 5.16-25, Mateus 5.13-16
Mateus 5.13-16
Os textos bíblicos em análise são indicados para a segunda metade
do calendário eclesiástico, época em que pecado e graça são temas centrais. Também nesta época frequentemente são contemplados os temas
de vida. O Nono Domingo Após Pentecostes contempla essa passagem
do significado e valor da fé, para o campo da vida prática. Em meio às
batalhas que a vida oferece, estabelece-se uma dura luta para se permanecer fiel à verdade do Cristo que veio como ser humano (Natal), morreu
e ressuscitou em nosso favor (Páscoa) e que junto com o consolador
permanece do nosso lado (Pentecostes).
Ao mesmo tempo em que somos desafiados a lutar com todas as
forças à luz dos mandamentos para ter uma vida mais leve e menos
sofrimento neste mundo, somos também consolados com a promessa
do cuidado e da proteção de Deus. Nessa promessa encontramos forças
para a vida, e vivemos intensamente, produzindo frutos cheios de vigor
e vida. E esses frutos não são voltados para nós mesmos, mas para o
mundo. São luz e sal. Como a lua reflete a luz do sol, nós refletimos o
amor de Deus para o mundo. Algo tão intenso que não apenas abre os
olhos, mas é capaz de transformar completamente o ambiente em que
vivemos, assim como o sal que dá sabor, cicatriza e conserva.
Salmo 1 - Convoca todas as pessoas a andarem nos caminhos de
Deus. A viverem a sua vida de acordo com os santos mandamentos. Não
que este viver à luz da lei compre o favor de Deus em relação à vida eterna, mas é um sinal de confiança nas promessas de bênçãos de Deus, já
para esta vida; pois ciente das duras provações e dificuldades pelas quais
passamos, Deus oferece alívio e promete abençoar já neste mundo os
que vivem de acordo com a sua vontade, “pois o Senhor dirige e abençoa
a vida daqueles que lhe obedecem” (v.6a).
O Salmo 1 contrapõe todo vigor da vida daqueles que andam no
caminho do Senhor, representado pela árvore sempre verde e que produz muitos frutos, por estar enraizado junto à fonte de água (v.3), com
a decepção e o vazio daqueles que andam em seus próprios caminhos
(v.4). Estes estão completamente mortos, são como a palha que o vento
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Nono domingo após pentecostes
carrega. E então, todos são convocados a olhar para o resultado final em
que aqueles que andaram no caminho do Senhor são abençoados com
vida para sempre, enquanto que os maus experimentam o fim trágico do
sofrimento e da condenação eterna (v.5).
Gênesis 12.1-3 - O texto indicado do Antigo Testamento aponta
para a fé ligada à promessa de Deus como causa de toda boa ação. Fé e
obras sempre andam juntas. Fazendo referência a Hb 11.8-10, lembramos que foi pela fé que Abraão atendeu ao chamado de Deus e saiu de
sua terra e foi em busca da terra prometida. Abraão confiou cegamente
nas promessas de Deus e, por isso, foi considerado justo. Essa é uma
regra básica para a vida de todos nós: quem quer andar nos caminhos
do Senhor não pode confiar desconfiando, mas deve acreditar cegamente
que a palavra de Deus e suas promessas são verdadeiras! É através das
promessas que Deus cumpre a segunda aliança; aliança na qual promete
e dá paz, perdão e vida para sempre.
Gálatas 5.16-25 - O Apóstolo Paulo resume bem o que é confiar
cegamente nas promessas de Deus: “Deixem que o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da natureza humana”
(v.16).
O andar no caminho do Senhor à luz dos mandamentos e ao mesmo
tempo confiando na misericórdia de Deus é resultado do trabalho do Espírito Santo dentro de nós. E o Espírito do Senhor que nos conduz à luz
das promessas de Deus e nos consola, quando em nossas fraquezas não
conseguimos caminhar no caminho do Senhor.
Mateus 5.13-16 - Já no Sermão do Monte Jesus afirma aos seus discípulos que a fé se torna parte de nossa vida prática, no relacionamento
humano. Em Mt 10.34-39, Jesus instrui e ensina os seus discípulos de
que é preciso abrir mão de seus próprios interesses e que é preciso ir
em direção ao próximo. Mas Jesus também os adverte de que isto não
é fácil. Ir em direção das pessoas nem sempre será algo pacífico. Pode
trazer duros conflitos, crises no relacionamento e até levar a uns odiarem
os outros ao ponto de procurarem a morte do cristão.
Ser luz significa refletir ao mundo a boa notícia do grande amor de
Deus e desafiar as pessoas a andar no caminho do Senhor. Pequenos
gestos podem fazer grandes diferenças. Que tal abraçar o aflito, consolar
o desanimado, dar comida a quem tem fome, acolher o desprezado ou
simplesmente ouvir o desabafo de quem pouco consegue se relacionar?
Pequenos gestos de amor redirecionam as pessoas para o caminho do
Senhor, caminho em que existe esperança. Pequenos gestos transformam o ambiente, são como o sal que dá sabor, cicatriza e conserva.
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Igreja Luterana
Sugestão Homilética
Tema: Ande nos caminhos do Senhor!
Introdução: Existem dois diferentes caminhos a percorrer. O caminho da morte e o caminho da vida. Exemplifique as diferentes variantes
de caminho que levam e conduzem as pessoas no caminho da morte.
Desenvolvimento: aponte para a vontade de Deus de conduzir todas as pessoas no caminho da vida. Mostre como Deus é apaixonado
pelos seres humanos e de como Deus investe tempo, paciência e perdão
para chamar as pessoas da morte para a vida. Mostre também que o chamado de Deus é para todos. Deus chama e pelo Espírito Santo capacita
e conduz no caminho certo.
Lei: Apesar de todo investimento que Deus faz, muitas pessoas fazem
pouco caso da vontade de Deus. Aponte para o fim trágico e infeliz das
pessoas teimosas que insistem em andar em seus próprios caminhos.
Aponte para exemplos bíblicos do AT ou do NT, ou ainda de ambos.
Evangelho: Mostre que o Pai espera de braços abertos a volta do
filho. Mostre também que o único caminho, Jesus, é um caminho de fartura, de felicidade, onde os aflitos podem ser consolados e os cansados
são fortalecidos e reanimados para a jornada.
Conclusão: No contraste dos dois caminhos, vale a pena escolher
pela vida. Vale a pena escolher o caminho certo. Vale a pena “Deixar que
o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da
natureza humana” (Gl 5.16) e com toda certeza “o Senhor dirige e abençoa a vida daqueles que lhe obedecem” (Sl 1.6).
Arsildo Wendler
Guaíba, RS
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Décimo Domingo Após Pentecostes
Nono Domingo Após Trindade
Salmo 119.105-112, Êxodo 32.1-7 (8-14) 15-20 (30-34), Filipenses
3.7-11, Mateus 25.14-30
Mateus 25.14-30
Contexto
A parábola do empregado inútil faz parte do sermão profético (ou
“discurso escatológico”) de Jesus Cristo (Mateus 24 e 25). Ela se liga
diretamente à parábola das dez virgens (Mateus 25.1-13), e é seguida
pelo quadro do grande julgamento (Mateus 25.31-46). Assim, a parábola
de Jesus tem algo a dizer sobre a consumação futura do reino dos céus,
sobre o acerto de contas quando da vinda do Cristo Juiz.
A história apresenta traços característicos das parábolas de Jesus.
Vejamos: uma sequência de três personagens, repetição de palavras
(confira Mt 25.20,21 e Mt 25.22,23), clímax (a ênfase recai sobre o último empregado, sendo que os dois primeiros apenas entram para compor
a história), e contraste (dois empregados são bons e fiéis, mas o último
é mau, negligente e inútil) (SCHOLZ, Vilson. A Parábola do Empregado
Inútil, in: Mensageiro Luterano, julho/90, p.9).
Vale ressaltar que em sua intenção original, toda a atenção da parábola se concentra no servo inútil que recebeu um talento. A quem este
servo representa? A quem Jesus adverte e observa? É evidente que o
servo inútil, naquele momento, representava os escribas e fariseus, na
atitude deles diante da Lei e da vontade de Deus. O servo inútil tomou
um talento e o enterrou a fim de poder devolvê-lo ao seu senhor, tal
como o recebera. Todo o objetivo essencial dos escribas e fariseus era
obedecer a Lei como Deus a dera. Segundo as palavras deles, eles queriam “construir um tipo de aréola em torno da Lei”. Qualquer mudança,
desenvolvimento a partir de uma Lei, alteração, qualquer coisa nova que
alguém fizesse era um anátema. Tal como o homem do talento, queriam
manter tudo como estava, e é por isso que se condenava os escribas e
fariseus.
A parábola dos talentos tem um ensinamento imediato para aqueles
que a escutaram naquele momento quando Jesus a aplicou, como tem
uma série de ensinamentos eternos para nós, em nossos dias.
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Igreja Luterana
Quanto aos valores: Um talento representava uma quantia considerável de dinheiro naquele momento, quando um denário era o salário de
um dia.
Um talento era 6.000 denários ou, aproximadamente, mil dólares ou
240 libras. Dez vezes, isto é, aproximadamente dez ou doze mil dólares,
uma soma enorme para aquele período.
Texto
V. 14: O conectivo gar (pois) faz desta parábola uma exposição do v.
13. Ela indica o propósito da parábola: a vigilância do cristão pela vinda
de Jesus usando fielmente os seus talentos no seu serviço.
V. 29: “Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância;
mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.” Aqui aparecem claramente a lei, o rigor no julgamento “O pouco que tem tirarão dele” e o
evangelho, a riqueza do amor de Deus “receberá mais e assim terá ainda
mais”.
V. 30: Devemos ter em mente que: quem não investe, perde. Se a
igreja não estiver disposta a investir, a correr riscos na missão cristã,
acabará se tornando infiel aos olhos de seu Senhor. Pesa sobre ela o juízo
que se abateu sobre o terceiro empregado da parábola: “E o servo inútil,
lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”.
A parábola não tem a ver com finanças ou dons, e sim com fidelidade
e coragem com vistas à vinda gloriosa de Cristo. Dirigida a cristãos, ela
nos alerta contra a mentalidade do tipo “segurança acima de tudo”, que
caracteriza o terceiro empregado da parábola. Temos muito em comum
com aquele empregado que escondeu o dinheiro do patrão num buraco
feito na terra. Ficamos com medo e isto nos leva a sermos infiéis. Por
vezes ficamos tão preocupados com a importante tarefa de preservar o
evangelho que nos esquecemos da missão de proclamá-lo adiante.
Textos Paralelos
V. 14: Mc 13.34, Mt 21,33; V. 15: Rm 12.3,6; V. 19: Mt 18.23; V.
21: Mt 23.24, 45-47; Lc 16.10; Lc 12.44; Hb 12.2; V. 29: Mt 13.12; V.
30: Lc 17.10; Mt 8.12; Sl 112.10; Mt 13.41; 16.27.
Sugestão Homilética
Tema: Jesus nos quer encontrar fiéis
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Décimo domingo após pentecostes
1. Investindo em nossa fé (palavra e sacramento)
2. Sendo vigilantes (resistindo ao pecado)
3. Investindo no Reino (testemunhando)
Tendo o texto enfoque escatológico, devemos estar centrados em
mostrar que precisamos estar sempre firmados nos ensinos de Deus,
com fé verdadeira que resulta em vivência, pois não sabemos quando
ele voltará.
Importante mostrar que as ocupações do mundo moderno fazem com
que muitas vezes não sejamos fiéis ao nosso Senhor, fugimos, temos
medo. Desse modo, corremos o risco de que com nossas ocupações e
medos não tenhamos sido fiéis mordomos dos talentos recebidos do Senhor da vida.
Assim como os dois escravos (servos), com fé e prontidão, exerceram as responsabilidade do encargo do seu senhor, também aqueles que
receberam a graça perdoadora de Deus precisam usar a palavra para
alimentar sua própria fé e compartilhá-la com dedicação.
Nataniel César Knebel
Dourados, MS
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Décimo Primeiro Domingo
após Pentecostes
Décimo Domingo Após Trindade
Salmo 73.25-28; Daniel 9.15-18; Romanos 9.1-5; 10.1-4; Lucas
19.41-48
Lucas 19.41-48
Texto e Contexto
Jesus está no início de sua última semana. No dia anterior ele foi
recebido festivamente por uma multidão que o aclamava como Rei.
Agora, novamente na descida de Betânia, ele pára um momento
para contemplar a cidade do alto. O compassivo olhar o leva às lágrimas. O povo que ele amava, entre o qual ao menos por três anos
ele andara, ensinara e demonstrara a sua divindade, este povo,
apesar de todas as oportunidades que tivera, desconhecia o que
“é devido à paz”. Historicamente Jesus vê a destruição futura da
cidade e o sofrimento terrível de seu povo. Mas o seu choro é muito
mais profundo. A infidelidade deste povo se manifesta na rejeição
do Messias. Uma falsa justiça os impede de ver e aceitar a justiça
de Deus. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo
1.12). O desprezo e a infidelidade significavam a perdição eterna do
povo de Deus.
Após seu lamento quanto à infidelidade de seu povo, Jesus expressa
o seu juízo através de uma decisão e atitude tipológica que impressiona
seus seguidores. Ele condena uma figueira (Marcos 11), pois não lhe deu
os frutos que ele esperava.
A infidelidade leva o povo a uma forma hipócrita de adoração a Deus.
É o que o Mestre encontra no templo. Sua atitude de purificação do
templo, além de ser o cumprimento profético (Is 56.7; Jr 7.11), é uma
expressão de juízo contra um povo que de forma desprezível profanava
a casa de Deus.
Ênfases
“Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz!
Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (v.41). O choro de Jesus não
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Décimo primeiro domingo após pentecostes
tem igual. Não é o choro sentimental humano, mas o daquele que vê,
além da infidelidade do povo, a consequência terrível da mesma. Ao mesmo tempo em que ele expressa a decepção profunda por ter o povo da
aliança desprezado sua obra salvadora, por não querer aceitá-la, lembra
ele, e isto é terrível, que os seus olhos não mais o conseguirão ver. O
tempo da graça passou.
“Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de salteadores” (v.46). Atitudes hipócritas são utilizadas
para esconder a vida de infidelidade. Alguns rituais pareciam bastar à
religiosidade do “povo da aliança”. Escondiam a sua infidelidade entre as
paredes do templo. Não poderia haver testemunho mais ofensivo à santidade divina, e mais desprezível ao desejo salvador de Jesus.
Paralelos
Algumas idéias em destaque nos demais textos do dia:
O salmista, no Salmo 73, reconhece sua desolação com todos, e
confiante e fiel a Deus, confessa ele que o que vale é proclamar os feitos
do Senhor. O profeta Daniel (9.15-18) reconhece a infidelidade histórica do povo, pede por clemência divina, e pede a bênção, apesar do povo
ter sido opróbrio para todos. Paulo, em seu desejo de ver salvos os judeus, chora. Em seu amor por eles, reconhece que estaria disposto a se
condenar para salvá-los. Aponta para o erro deles: criaram sua própria
justiça em vez de se sujeitar à de Deus. Cabe ainda lembrar as palavras
carinhosas e cheias de amor de Jesus, conforme Lucas 13.34,35: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram
enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta
os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que
a vossa casa vos ficará deserta”.
Sugestão de uso homilético
Como a perdição é consequência inevitável da infidelidade, o objetivo
é levar à compreensão de que uma religiosidade de aparências, ou hipócrita, sempre é decisão de desprezo, infidelidade e, por consequência,
ofensa à obra salvadora de Jesus.
APROVEITAI O TEMPO DA OPORTUNIDADE...
1. para não ficardes cegados àquilo que é devido à paz. Ainda é tempo de conhecer.
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Igreja Luterana
2. para evitardes as lágrimas de “desespero” de Jesus. O tempo do
juízo ainda não veio.
3. para que o juízo de Deus não seja o futuro incerto de vossa vida.
Confiantes em Cristo, podeis ser salvos e perseverar fiéis.
Erni Krebs
Canela, RS
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Décimo Segundo Domingo
após Pentecostes
Décimo Primeiro Domingo Após Trindade
Salmo 138, 2 Crônicas 1.7-12, 1 Pedro 5.5b-11, Lucas 18.9-14
Lucas 18.9-14
Introdução
“Como posso estar em pé diante de um Deus perfeito sem ser consumido pela sua ira contra o meu pecado?” Esta foi a pergunta central na
Reforma Luterana, e continua sendo uma questão mal compreendida por
muita gente. Com a parábola do fariseu e do publicano, Jesus clarifica
a questão. Neste texto clássico o pastor pode contrastar claramente a
“justiça das obras” e a “justiça da fé”, mostrando que ninguém pode ser
justificado “diante de Deus (coram Deo) pela sua própria força, méritos,
obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e
nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé...” (C.A. IV).
Análise do texto
V. 9: “a alguns que confiavam em si mesmos”. Este texto é dirigido
precisamente contra o que as Confissões Luteranas chamam de opinio
legis – confiança na justiça própria, sem Cristo; “justiça” (dikaioi) é um
termo forense que atribui inocência legal perante Deus.
V. 10: O fariseu representa o tipo mais piedoso dos tempos de Jesus,
e o publicano representa o maior pecador da sociedade. Ambos vão ao
templo para orar. Ainda hoje, os “das obras” e os “da fé” vão juntos à
igreja – consideram-se todos cristãos, mas nem sempre são facilmente
identificáveis.
V. 11: “[...] de si para si” (pros eauton). O fariseu ora em pé, sozinho,
em lugar de destaque. Não se mistura. Em sua oração, nada pede. O orgulhoso jamais pede favor. Mas sempre tem algo a mostrar. Assim, sem
demora, exibe ficha limpa, apresenta suas certidões negativas: 1) “não
sou como os demais homens”, de segunda categoria; 2) como gente de
primeira, não pertenço aos “roubadores, injustos e adúlteros”; 3) muito
menos pertenço à escória da sociedade, “como este publicano”. Uma
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Igreja Luterana
maiúscula presunção! Ofuscado pelo seu próprio falso brilho, realmente
não sabia o que é pecado e onde este invariavelmente reside. Não sabia
que o pecado não é algo meramente externo, mas que começa no coração, como Jesus demonstrou no Sermão do Monte. O fariseu mede “de
cima para baixo”. Toma por paradigma o publicano, ao invés de medir-se
com Deus: “santos sereis, porque... sou santo” (Lv 19.2). Quem se mede
“para cima”, obriga-se a ser humilde; quem mede “para baixo” logo se
torna arrogante. Então, falar mal do próximo e apregoar suas próprias
supostas virtudes torna-se uma tentação constante. É bem sintomática a
frase: “Comigo tais coisas não acontecem!”
V. 12: Aqui o fariseu abre seu catálogo de boas obras: 1) “Jejuo
duas vezes por semana”. Moisés ordenara um jejum anual, para o dia
da expiação (Lv 25.29). Ele supera a lei: jejua duas vezes por semana –
cem vezes mais que o estabelecido! 2) “e dou o dízimo de tudo quanto
ganho.” O dízimo era “dos cereais, do vinho e do azeite” (Ne 13.12).
Mas ele, mais uma vez, supera, dando o dízimo de tudo, o que incluía,
certamente, “a hortelã, o endro e o cominho” (Mt 23.23). É possível que
o fariseu não tenha mentido neste particular, e que, de fato, praticava as
obras mencionadas. O problema é considerá-las mérito seu, ou ver nelas
sua justiça. Aliás, o seu catálogo de boas obras é diminuto. Quem jejua
duas vezes por semana, também poderia dar o dízimo dobrado, sem dificuldade, já que lhe sobram quase 30% da comida!
A lei é importante em nossas vidas. Deus nos proíbe furtar, cometer
injustiças e adultério. Ele também nos ordena dar liberalmente, orar e
ir à igreja. Mas Ele também deixa claro que estas obras somente têm
valor quando praticadas por aqueles que foram previamente justificados
pela graça salvadora de Cristo. Sem esquecer que, ainda assim, nossas
melhores obras serão apenas “trapo da imundícia” (Is 64.6), mas aceitas
por causa daquele que nos é “propício”.
V. 13: “[...] estando em pé, longe”. O publicano foi ao templo humildemente. Mede-se “para cima”. A santidade de Deus é seu paradigma:
“Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai Celeste” (Mt 5.48). Reconhece
a grande distância que o separa de Deus, não tendo do que se orgulhar.
Por isso, ora “em pé, longe”, talvez até meio camuflado na sombra de
uma coluna do templo. “Não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu”,
o que, contudo, não o impede de fixar seu olhar no altar do sacrifício.
Os publicanos eram uma classe odiada pelos judeus como traidores,
pois serviam aos romanos e abusavam nas taxas. Mas não há prova de
que os publicanos vivessem flagrantemente nos pecados dos quais o fariseu parece acusá-los. O maior pecado deles era serem incrédulos. Jesus
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interessou-se por eles e, vários deles, ouvindo o seu ensino, reconheceram nele o Messias.
“Ó Deus, sê propício a mim, pecador.” - Esta expressão, “sê propício”
(ilastêti), possui um profundo significado. Encerra a doutrina central da Bíblia, de que Deus está irado com o pecado e precisa ser pacificado por um
sacrifício oferecido em favor do pecador. O publicano revela, em sua oração,
ter compreendido que todo o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento
apontava para o sacrifício vicário de Cristo pelos pecadores. Ele esperava
nesta “propiciação” – aplacação da ira divina pelo sacrifício de Cristo.
“batia no peito” – Na oração, os judeus usualmente cruzavam as mãos
sobre o peito e fechavam os olhos. Mas o publicano descruza os braços e
bate no peito – como só se fazia em extrema angústia. Ele sabe que seu
problema é muito grave e reside exatamente ali, dentro do peito – no
coração. “O coração dos homens está cheio de maldade” (Ec 9.3; Cfe.: Mt
15.17-20; Lc 16.15; Pv 21.2). Mas ele também sabia que não era a sua
confissão ou o bater no peito que o tornavam merecedor da compaixão e
do perdão de Deus. A sua salvação estava num Deus “propício”.
V. 14: Que o publicano entendeu a doutrina da justificação pela fé,
evidencia-se também no veredicto do Salvador: “este desceu justificado
(dedikaiomenos) para sua casa”. O fariseu voltou para casa com os pecados aumentados e radiografados pela sua exibição à plena luz do templo;
o publicano, no mesmo templo, encontrou “descanso à sombra do Onipotente” (Sl 91.1). Isto está em acordo com o Salmo do dia: “O Senhor é
excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece
de longe” (Sl 138.6), e com a Epístola: “Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (1 Pe 5.5).
Observações
Como em outros textos que tratam da justificação pela fé, o pregador é tentado a desmerecer tanto as boas obras que poderá parecer ao
ouvinte que elas são realmente desnecessárias e desprezíveis. Não há
nada de errado com as boas obras, senão com a falsa segurança a que
elas podem conduzir quem compara as suas obras com as do próximo,
através de sua própria vidraça suja de orgulho e presunção. Um crítico
disse que tinha ido em muitas igrejas e tinha ouvido o pastor dizer: “não
tente impressionar a Deus com suas boas obras”, “não tente agradar a
Deus com os seus méritos”, ou ainda: “não tente ganhar o céu cumprindo
os Mandamentos”. Mas, dando uma olhada ao redor, e vendo uma assistência apática e quase dormente, perguntava-se: “Afinal, quem aqui está
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Igreja Luterana
tentando fazer isso?”1
Por outro lado, o pregador precisa manter claro que o mérito também
não está com aquele que “bate no peito e pede propiciação”, mas com
aquele que oferece a “propiciação” – Cristo. Sem essa oferta, nenhum
peito sangrento alcançaria coisa alguma. Em Cristo, a salvação está tão
aos nossos pés que somente os orgulhosos não conseguem vê-la, por
insistirem em olhar por cima dela.
Proposta Homilética
Dentro das diversas possibilidades, proponho uma espécie de paródia
do texto, que, usada com cuidado, pode ser muito interessante, especialmente para uma audiência mais jovem.
Como estar bem na foto de Deus?
Introdução
Nós, seres humanos, amamos os holofotes, os pedestais, o estar bem
na foto. Desde que ficamos “mal na fita” do Éden, muito investimos na
nossa “produção”, na aparência. Se isto camufla a realidade física sem
maiores prejuízos, desastrado, porém, é apresentar-se “produzido” diante do Senhor.
Dois homens foram chamados ao estúdio para integrarem uma foto
de grupo (v. 10)
I. O primeiro era fariseu.
A. Ele logo correu à frente
1) postou-se em primeiro plano, no centro da cena (v. 11: “posto em
pé”);
2) Empinou bem seu nariz (v. 11b: “de si para si mesmo”);
3) Abriu um largo sorriso, ainda que debochado (v. 11c: “graças te
dou”);
4) Com os cotovelos, tratou logo de afastar ao máximo os outros de
si (v. 9: “desprezava os outros”);
5) Com apenas dois dedos estendidos de cada mão, colocava chifres
nas pessoas próximas (v. 11: “roubadores, injustos e adúlteros”);
6) Vestia seu melhor terno e caprichou no nó da gravata (v. 12: “je-
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Martin Marty
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Décimo segundo domingo após pentecostes
juo... dou o dízimo”);
7) Ele estava radiante (v. 9: “confiava em si mesmo”)
8) O fotógrafo insistia: “Olha para a câmera!”
B. Então ouviu-se um “clic”.
C. Conferida a foto, o fotógrafo concluiu: “Assim não dá. Você não
olha pra mim. Estragou a foto. Vamos tentar com outro” (v. 14).
II. O segundo era publicano.
A. Muito tímido, relutava em vir à frente.
1) Envergonhado, logo sumia entre os outros (v. 13a: “longe”);
2) Olhava para o chão (V. 13.b: “não ousava levantar os olhos”);
3) Resistia, alegando não ser fotogênico nem estar adequadamente
vestido para uma foto (v. 13d: “sou pecador”);
B. Mas, rapidamente, a foto foi batida.
C. Conferindo, o fotógrafo constatou: “Você olha pra mim, mas está
muito mal. Também não dá”.
III. A solução
A. “Mas você pode me corrigir no Photoshop” – argumenta o publicano (v. 13c: “Sê propício a mim, pecador!”).
B. “É verdade” – diz o fotógrafo – “Vou fazer você ficar perfeito” (v.
14c: “este desceu justificado para sua casa”). (Cfe.: 1 Jo 1.7)
Conclusão
O Senhor tem ojeriza a “jóia de ouro em focinho de porco” (Pv 11.22).
Mas ele ama enfeitar-nos, ele próprio, dos pés à cabeça, depois de um
banho no sangue do Cordeiro. Então ele nos põe “um anel no dedo e sandálias nos pés” (Lc 15.22), nos “veste de roupas bordadas”, nos “calça
com couro da melhor qualidade”, e nos “cinge de linho fino, e cobre de
seda”... nos põe “braceletes nas mãos e colar à roda do pescoço”... “um
pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça” (Ez
16.10-12), “uma vestidura branca” – o manto da justiça (Ap 3.5; 6.11),
“diadema de graça e uma coroa de glória” (Pv 4.9).
Deus nos guarde do orgulho farisaico e da autojustiça. Que ele nos dê
real ciência de nossos pecados, mas, acima de tudo, sempre nos conceda
crer que, pelo sangue de Cristo, ele nos é propício.
Renato Leonardo Regauer
Sapiranga, RS
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Décimo Terceiro Domingo
Após Pentecostes
Décimo Segundo Domingo Após Trindade
Salmo 146, Isaías 29.18-21, 2 Coríntios 12.6-10, Marcos 7.31-37
Marcos 7.31-37
Textos do Domingo
Síntese das Leituras do Domingo - A leitura do Salmo 146 convida a
confiar exclusivamente em Deus, e não nos homens. Ressalta a fidelidade de Deus. A leitura do AT, Is 29.18-21, é uma profecia das bênçãos da
era messiânica, traduzindo isso na expressão: “que os surdos ouvirão
e os cegos verão” O texto da epístola, 2 Co 12.6-10, aponta para o
Senhor Deus que, como sua graça, sempre está presente ao lado dos que
nele confia, a despeito da enfermidade que podem enfrentar. A leitura do
evangelho, Mc 7.31-37, aponta para o milagre da cura do surdo e gago.
E a repercussão que teve esse sinal.
Contexto Anterior
No capítulo 6 de Marcos, o evangelista registra: Jesus prega em
Nazaré e é rejeitado ( 1-6 ), Jesus dá instruções aos doze ( 7-13 ), a
morte de João batista ( 14 - 29 ), a primeira multiplicação dos pães e
peixes ( 30-44 ), Jesus anda sobre o mar ( 45-52 ), Jesus em Genesaré
( 53-56 ). No capítulo 7, o evangelista registra: O diálogo de Jesus com
os escribas e fariseus sobre as tradições dos anciãos: “O que contamina o
homem é o que vem do coração!” ( 1-23 ), a cura da mulher siro-fenícia
(24-30).
Contexto Posterior
No capítulo 8 há o relato de Jesus realizando a segunda multiplicação dos pães e peixes (1-10), os fariseus pedem um sinal do céu (11-13),
o fermento dos fariseus (14-21), a cura de um cego em Betsaida (2226), a confissão de Pedro (27-30), Jesus prediz a sua morte e ressurreição (31-33), o discípulo de Jesus deve levar a sua cruz (34-9.1).
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Décimo terceiro domingo após pentecostes
Leitura no Vernáculo Destaques nas diferentes traduções
1. Bíblia de Jerusalém
V. 32 - Trouxeram-lhe um surdo que gaguejava, e rogaram que
impusesse as mãos sobre ele.
V. 34 - Depois, levantando os olhos para os céus, gemeu, e disse:
efatha, que quer dizer: abre-te!
V. 35 - Imediatamente abriram-se-lhe os ouvidos e a língua se lhe
desprendeu, e falava corretamente.
V. 36 - Jesus os proibiu de contar o que acontecera; quanto mais o
proibia, tanto mais eles o proclamavam.
V. 37 - Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: “ Ele tem feito tudo
bem...
2. Bíblia Sagrada – Edição Pastoral
V. 32 - Levaram, então, a Jesus um homem surdo e que falava
com dificuldade,...
V. 33 - Jesus se afastou com o homem para longe da multidão;
V. 34 - Depois olhou para o céu, suspirou e disse: efatá!
V. 35 - Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua
se soltou e ele começou a falar...
V. 36 - Jesus recomendou com insistência que não contassem nada
a ninguém.
3. Estudo do Texto no Original Grego - Tradução e Análise
V. 31 - E, de novo, tendo atravessado a região de Tiro, foi,
através de Sidom, para o Mar da Galiléia, passando pela região
de Decápolis.
V. 32 - E trazem (carregam) para ele um surdo e que fala com
dificuldade (com impedimento na fala), e rogaram (imploraram)
a ele para que colocasse sobre ele a mão.
fe,rousin - Verbo presente indicativo ativo de fe,rw − levar, carregar.
kwfo,n - embotado, mudo, surdo. Incapaz de articular, falar, mudo.
Significa também: surdo.
mogila,lon - falando com dificuldade, com impedimento na fala. (a
recuperação da audição pelos surdos era um sinal da era messiânica) - gago, mudo.
evpiqh/| - Verbo aoristo subjuntivo ativo de evpiti,qhmi - colocar sobre.
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V. 33 - E, tirando-o da multidão, à parte, (em particular), colocou (pôs) os dedos dele para os ouvidos dele e, cuspindo, tocou
a língua dele.
avpolabo,menoj - Particípio aoristo médio de avpolamba/nw - tirar, levar uma
pessoa para o lado em particular.
e;balen - Verbo aoristo indicativo ativo de ba,llw - lançar, colocar, pôr.
ptu,saj - Verbo particípio aoristo ativo de ptu,w - cuspir. (Marcos 8.23;
João 9.6)
h[yato - Verbo Aoristo indicativo médio de a[ptomai - tocar.
V. 34 - E, olhando para o céu, suspirou e diz para ele: efatá, o
que é : que tenha sido aberto!
avnable,yaj - Particípio aoristo ativo de avnable,pw - olhar para cima.
evste,naxen Verbo aoristo indicativo ativo de stena,zw gemer, suspirar.
dianoi,cqhti Imperativo aoristo passivo de dianoi,gw abrir.
V. 35 - E (logo) foram abertos dele os ouvidos e foi solto o
vínculo (a cadeia, a prisão, algemas de defeito físico) da língua
dele e falava perfeitamente.
hvnoi,ghsan Verbo aoristo passivo de avnoi,gw abrir.
evlu,qh Verbo aoristo passivo de lu,w soltar.
V. 36 - E ordenou-lhes para que a ninguém falem; mas, quanto
mais para eles ordenava, mais eles excessivamente proclamavam.
diestei,lato Verbo aoristo médio de diaste,llw ordenar, obrigar
dieste,lleto Verbo imperfeito médio de diaste,llw ordenar, obrigar.
perisso,teron além da medida, excessivamente.
evkh,russon Verbo imperfeito indicativo ativo de khru,ssw proclamar, anunciar, mencionar publicamente, pregar, mais frequentemente, a ação salvífica de Deus. Proclamar vitórias.
V. 37 - E Muito mais que excessivamente ficavam atônitos,
dizendo: corretamente todas as coisas fez, e os surdos faz ouvir
e os mudos falar.
~uperperissw/j além de todas as medidas; excessivamente.
evxeplh,ssonto Verbo Imperfeito indicativo passivo de evkplh,ssw ficar atônito.
pepoi,hken Verbo indicativo perfeito ativo de poie,w fazer.
Comentários
V. 31 – Jesus agora ele foi através de Sidom, que fica a cinco milhas
ao norte de Tiro. Mas Jesus está somente fazendo uma viagem, nós não
ouvimos nada de ensinamentos e milagres. Parece que ele passou des-
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percebido, e que ele mesmo quis que fosse assim, e que ele devotou o
seu tempo para instrução dos seus discípulos, que foi a principal ocupação de Jesus durante a última parte do seu ministério. Somente Marcos
narra a passagem de Jesus através de Sidom.
V. 32 - Eles trouxeram um homem surdo e gago a Jesus. Ainda que
mogila,loj significa uma fala pesada, repetida (gagueira) , falando com
dificuldade, a LXX usa isso no significado de mudo. Os sons que aquele
homem fazia eram inteligíveis.
V. 33-35 - Jesus não colocou as mãos sobre o homem, ele usou um
procedimento incomum neste caso. Este surdo-mudo é trazido a Jesus
no meio de uma grande multidão. Jesus está interessado nele porque
ele está nesse estado. Ele o toma inteiramente para fora da multidão;
o particípio aoristo médio significa que Jesus tomou o homem para si
mesmo. Esta ação preliminar (aqui expressa por um particípio) é sábia e
significativa para aquele homem. Ele está sozinho com Jesus, extraído
da excitação e da distração das multidões. Seus olhos espiam a Jesus, e
ele entende que Jesus está para fazer algo em benefício dele.
Jesus usa a linguagem de sinais que é simples e plena assim que o
surdo-mudo poderia entender. Ele lança seus dedos nos ouvidos daquele homem. Aqui estava localizada uma das suas deficiências - aqueles
ouvidos estavam deficientes. Nós agora temos um verbo finito, que é
uma das ações principais. Vamos apenas pensar no fato que os olhos de
Jesus indubitavelmente falaram aos olhos daquele homem.
Primeiro os ouvidos deficientes, agora a língua muda. A linguagem de
sinais continua. Primeiro uma ação menor, que é de novo expressa por
um particípio: Jesus “tendo cuspido”. A sua boca e a sua língua estão
sem fala, e Jesus tencionava fazer algo em relação a esse problema. Os
milagres eram feitos por causa da vontade do Senhor, algo pelo qual a
sua vontade somente, frequentemente pelo que a sua vontade expressou
na sua onipotente palavra mesmo nesta instância. Tocar com a mão é
apenas um gesto simbólico.
V. 34 - Mais linguagem de sinais seguem: de novo um particípio
expressa a ação subordinada: Jesus olha para o céu. O homem observa
Jesus fazendo isso. Ele dá a entender que a ajuda que ele vai dar ao
homem vem do céu, é divina, onipotente ajuda que é diferente de algo
meramente humano. Com essa olhada para os céus Jesus suspira. O
homem vê o suspiro, isso é parte da linguagem de sinais que Jesus está
usando. O homem entendeu a linguagem de sinal de Jesus. Nós podemos entender que esta linguagem de sinais de Jesus tencionou instaurar
a fé naquele homem. Seria injustificável dizer que o milagre dependeria
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da fé daquele homem. Ele depende completamente da boa e misericordiosa vontade de Jesus. Jesus algumas vezes tenta infundir a fé antes do
milagre; outras vezes ele deixa a fé seguir após o milagre.
Depois que o homem estava completamente preparado, Jesus falou
uma única palavra: EPHPHATHA, o imperativo aramaico. Marcos preserva a palavra original que Jesus usou, justamente como ele faz em 5.41.
Ele quer que seus leitores gentios tenham as sílabas originais e os sons
que vieram dos lábios de Jesus na operação desse milagre. Mas ele,
mais uma vez, traduz o dianoi,cqhti, o aoristo imperativo: “Seja aberto!”,
o dia, acrescenta a idéia de uma abertura completa, perfeita. O neutro o[
refere-se ao ephpatha como uma palavra. O mandamento expressa a
vontade de Jesus, e esta vontade faz o que ele quer. A idéia de abrir
refere-se não somente aos ouvidos, que tinham sido fechados pela deficiência; mas também à língua que tinha sido presa por uma cadeia de,smoj,
e requeria abertura da prisão para a liberdade de falar. Esta palavra de
Jesus penetrou os ouvidos do surdo-mudo - ele ouviu o som onipotente.
Nós não podemos dizer se algumas pessoas estavam próximas a ponto
de ouvir isso. A coisa principal é que o surdo-mudo ouviu.
V. 35 - Marcos reporta o efeito desta única palavra de Jesus absolutamente completa por dizer como os ouvidos do homem estavam completamente abertos, como sua língua perdeu aquilo que a embaraçava,
dois aoristos para expressar os fatos centrais. Um imperfeito segue a
respeito da língua: “e ele falava corretamente”. Enquanto antes ele só
era capaz de proferir sons ininteligíveis.
V. 36,37 - Várias opiniões são dadas sobre a ordem de não falar do
milagre. A melhor que achamos é aquela que toma em consideração o
tempo de ministério de Jesus. Ele tinha apenas alguns meses, e ele não
queria espalhar uma excitação acerca do seu messianismo. As pessoas
geralmente conectaram idéias políticas e terrenas com esse título, as
quais Jesus combateu. Então, ele fez o que ele podia para deixar em
silêncio os seus milagres nesse tempo. Mas, nestas alturas dos acontecimentos, isso não foi assim. Então, quanto mais ele ordenava, mais eles
tornavam público o que ele tinha feito.
V. 37 - Marcos explana esta ação ao povo. Ele usou um forte imperfeito passivo; eles foram conduzidos a uma situação de estar maravilhados e continuaram assim. Ele acrescenta o advérbio ~uperperissw/j,
“além das medidas”, “excessivamente”. Estando num estado assim, eles
tiveram a sensação que não poderiam controlar-se. Marcos conta-nos
exatamente que o povo disse: “excelentemente ele tem feito todas as
coisas!” O perfeito pepoi,hken refere-se a todos os atos passados e como
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eles continuam a se mostrar no presente. Notemos: “todas as coisas”
e perceba que isso é louvor. Então esse povo generalizou com o tempo
presente do verbo poie,w junto com os plurais: “faz ouvir os surdos e falar
os mudos!” Aquele povo reconhece que Jesus, a qualquer tempo, pode
fazer os surdos ouvir e os mudos falar.
Persuasão
1 - Pensamento Central
Jesus cura o surdo-mudo, capacitando-o a falar e ouvir muito bem.
2 - Objetivos
A - Conhecimento: Que os meus ouvintes saibam que Jesus faz todas
as coisas esplendidamente bem, como no caso da cura do surdo gago.
Ele tem poder para fazer todas as coisas.
B - Atitude: Que os meus ouvintes confiem no poder de Jesus, com o
qual ele age em benefício de todos nós, fazendo todas as coisas esplendidamente bem.
C - Habilidade: Que os meus ouvintes possam se dedicar a ouvir a
palavra de Jesus e a falar das ações de Jesus na vida do surdo gago e na
vida de todos nós - testemunhar os atos de salvação!
3 - Moléstia - Lei - Pecado
A - As doenças, deficiências, problemas físicos e de saúde apontam
para a pecaminosidade inata do ser humano - pecado original.
B - A euforia popular, às vezes, impede que se concentre a atenção na
Palavra de Deus. O povo que trouxe o surdo gago queria ver Jesus impor
as mãos sobre ele. Queriam um espetáculo, mesmo como as pessoas
do nosso tempo procuram ver. Eles, na busca do espetáculo, expuseram
desnecessariamente aquele homem com necessidades especiais. Dá a
entender que eles não estavam querendo, em primeiro plano, a cura
dela, mas o espetáculo em si, uma vez que não foram discretos e não
o preservaram da exposição publica. Jesus não fez o que eles queriam.
Não deu um espetáculo. O povo queria ter alimentado em si o desejo de
ver coisas espetaculares, e isso pode ser um sinal de descrença quando
se concentra apenas no ver. Isso afasta as pessoas de Jesus e da sua
palavra salvadora.
C - Que uso fazemos da nossa língua e ouvidos? Temos nos dedicado a ouvir a palavra de deus? Temos nos dedicado a falar dela a outras
pessoas? Mau uso da língua: dar falso testemunho, estar cerrada para
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o louvor, a adoração, o testemunho, a oração. O ouvido está distante da
palavra de Deus.
4 - Meio - Evangelho - Graça
A - Jesus estava presente naquela localidade, cumprindo a profecia
de Isaías, que falou da presença do Messias de Deus junto ao povo para:
desimpedir os ouvidos aos surdos e fazer a língua dos mudos cantar. Jesus estava ali, como o Salvador, perdoador gracioso, a fim de beneficiar
o ser humano carente com a sua eterna bondade.
B - Jesus curou o surdo gago. Ele não o fez como eles quiseram;
mas, o fez de acordo com a sua vontade. Ele tirou aquele homem do
meio do povo e o restabeleceu perfeitamente: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem!” Aponta para a criação, quando Deus fez tudo “Muito Bom!” e, aponta para a Nova Criação em Cristo - a regeneração. O
principal trabalho de Jesus foi dar a sua vida para redimir e salvar toda a
humanidade. O texto alimenta a expectativa da eternidade perfeita com
Deus nos céus: “novos céus e nova terra!”
C - Jesus nos orienta, na Sua Palavra, a fazermos bom uso da nossa língua e ouvidos. Ele nos dá motivos para abrirmos a nossa boca e
louvar, orar, agradecer e testemunhar, pois ele “tem feito todas as coisas
esplendidamente bem” em nossa vida: o perdão, a salvação! E, ele tem
proporcionado que a sua Palavra seja pregada a nós, e nos convida a
“considera-la santa, gostar de a ouvir e estudar” com atenção, a confiarmos de coração e a testemunha-la a todas as pessoas que convivem
conosco.
Esboço
1. Tema: Jesus Faz Tudo Esplendidamente Bem!
2. Desenvolvimento
2.1 A multidão trouxe um surdo e gago. Queriam que Jesus impusesse as mãos.
2.2 O surdo Gago - as suas deficiências.
2.3 Jesus o retira da multidão - a linguagem de sinais: dedos no ouvido, tocou a língua, ergueu os olhos ao céu, suspirou.
2.4 Jesus disse: Efatá! - Abre-se! Abrir os ouvidos e desatar o empecilho da língua: cadeias.
2.5 O milagre: “Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o
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Décimo terceiro domingo após pentecostes
empecilho da língua, e falava desembaraçadamente.”
2.6 Por que Jesus não queria publicidade?
2.7 A exclamação do povo: “Tudo ele tem feito esplendidamente
bem!” - relembra a criação de Deus ( Gn 1.31 ).
2.8 Lei
2.9 Evangelho
Sílvio Ferreira da Silva Filho
Vila Velha, ES
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Décimo Quarto Domingo
após Pentecostes
Décimo Terceiro Domingo Após Trindade
Salmo 142, Gênesis 4.(1-7) 8-16a, 1 João 4.7-11, Lucas 10.25-37
Lucas 10.25-37
Leituras do Dia
O Salmo 142 transcreve a oração de Davi feita dentro da caverna
onde se refugiara do Rei Saul. Mesmo tendo o Rei Saul diante de si na
caverna (sem que o mesmo se desse conta da presença de seu inimigo)
e a possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos, Davi coloca sua
causa nas mãos do Senhor.
O relato de Gênesis 4.(1-7) 8-16a revela mais do que o primeiro
assassinato na história da humanidade. Revela a conseqüência de uma
separação entre Deus e seres humanos, e a responsabilidade do ser humano em resistir ao pecado que bate à porta.
A epístola de 1Jo 4.7-11 coloca a palavra “amor” como um sinônimo
de Deus. É de Deus que brota o verdadeiro amor concretizado no envio
de Jesus Cristo em favor da humanidade pecadora.
Contexto
Os domingos após Pentecostes caracterizam a vida consagrada da
igreja cristã, e especialmente o seu crescimento e consequente testemunho no mundo que a rodeia. Neste sentido, o texto do evangelista
Lucas traz uma ênfase especial na ação desta igreja através daqueles
que a constituem. Para tanto, a história relatada hoje mostra o Salvador
Jesus em seu terceiro ano de ministério, utilizando-se de uma parábola
para transmitir uma verdade fundamental para a vida cristã: a verdade
de que o viver cristão neste mundo não está restrito a meras palavras,
mas revela-se também no amor direcionado ao próximo. Em outras palavras, além do amor a Deus, o amor ao próximo também está presente
na vivência da fé cristã.
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Décimo quarto domingo após pentecostes
Comentários sobre o texto
com ênfases versículo a versículo
V. 25: A pergunta do mestre da lei já deixa transparecer o seu pensamento no que diz respeito à salvação: “que farei?” Seus ensinamentos
estavam ancorados mais no fazer do que no crer.
V. 26: Jesus tenta levá-lo a refletir por si mesmo. Nesta intenção lhe
devolve duas questões. Na primeira, questiona o que exatamente a lei
dizia e a segunda, sobre como ele, mestre da lei, entendia o que estava
escrito.
V. 27: A primeira pergunta foi facilmente respondida, pois o mestre da lei era versado nas Escrituras Sagradas. No entanto, a segunda
pergunta ficou sem resposta, pois sua compreensão resumia-se ao que
estava escrito, e nem tanto na vivência do que aprendera.
V. 28: Jesus concorda com a primeira resposta, e na segunda lhe
dá mais do que uma resposta, ele dá uma aplicação direta: “faze isto e
viverás”.
V. 29: Desconcertado, o mestre da lei tentou justificar sua falta de
compreensão com outra pergunta: quem seria o seu próximo?
V. 30: Jesus, então, conta a história de um homem que viajava de Jerusalém a Jericó. No caminho foi assaltado e ferido pelos ladrões, ficando
jogado na estrada semimorto.
V. 31: Um sacerdote, ao ver o homem ferido, passou reto, certamente
para não contaminar-se com o corpo de um possível cadáver (leis cerimoniais) ou mesmo por medo de ser assaltado.
v.32: Um levita também passou pelo homem, mas a exemplo de
como já fizera o sacerdote, seguiu em frente.
V. 33: Um samaritano passou e, compadecido, socorreu o homem,
ignorando leis cerimoniais ou o perigo de também ser atacado pelos ladrões.
V. 34: O samaritano tratou o homem, cuidando de seus ferimentos. A
seguir, levou-o a uma hospedaria para que se recuperasse.
V. 35: O samaritano recomendou ao dono da hospedaria que tratasse
bem o homem ferido e, após pagar adiantado os gastos feitos, pediu que
o homem fosse bem cuidado e, se houvessem gastos a mais com ele, o
samaritano pagaria quando regressasse.
V. 36: A pergunta de Jesus é fulminante: Qual dos três é o próximo
do homem ferido?
V. 37: O mestre da lei responde: o que o ajudou. Ele nem sequer
menciona o nome samaritano, mas é obrigado a admitir a bondade dele.
Jesus então aproveita e conclui: Vai e procede de igual modo. O ápice
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do texto encontra seu mais profundo significado no servir, no amar ao
próximo.
Comentários Homiléticos
Os judeus tinham bem claro para si que, para se chegar à vida eterna,
amar a Deus e ao próximo eram elementos fundamentais. Portanto, tanto o intérprete da lei como Jesus concordavam que o amor era o resumo
dos mandamentos. A grande discordância estava no direcionamento deste amor. Quem era o próximo, alvo deste amor? Neste ponto, percebe-se
que a universalidade da graça de Deus não era ainda um conceito comum
e muito menos dominante entre os judeus. Prova disso é a pergunta do
mestre da lei sobre quem era o seu próximo (Talvez somente os da nação de Israel?). Havia discussão entre os judeus acerca desta pergunta.
Jesus responde a questão ao incluir o samaritano na parábola. O próximo
é todo aquele que está em contato conosco, independente de sexo, cor,
nacionalidade ou cultura.
Concluindo, o texto do evangelho de Lucas 10.25-37 mostra uma
situação de confrontação da humanidade com a vontade de seu Deus expressa nos mandamentos, vontade esta que encontra sua concretude na
prática do dia-a-dia. Esta vontade divina é compreendida com dificuldade
pelo ser humano, pois este tem uma fé limitada e passível de falhas.
Outro detalhe importante: não basta ao ser humano simplesmente
saber quem é o seu próximo. Jesus é claro ao receber a resposta do
mestre da lei sobre quem era o próximo do homem ferido. Ele não o parabeniza pela resposta, mas indica o caminho: vai e procede tu de igual
modo.
Disposição Homilética
Assunto: O meu próximo também necessita do meu amor
Objetivo: Lembrar os ouvintes sobre a necessidade de viver o amor
de Deus também no sentido horizontal, ou seja, direcionado a toda a humanidade, pois o próximo não é aquele ou aquela a quem escolhemos,
mas todos aqueles que Deus colocou neste mundo ao nosso redor.
Tema: O meu próximo também necessita do meu amor
1. Porque também ele sofre com o pecado
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Décimo quarto domingo após pentecostes
- Que se revela na violência
- Que se revela na discriminação
- Que se revela na indiferença
2. Porque também ele foi resgatado em Cristo
- Quando o Salvador deu vida nova a toda humanidade através da
vitória na cruz
- Para que, justificado, também possa redirecionar seu amor a toda
humanidade
3. Para que assim rumemos à vida eterna
- Numa vida de amor e serviço
- Numa vida de fé e ação.
Valdir Lopes Junior
Nova Santa Rita, RS
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Décimo Quinto Domingo
Após Pentecostes
Décimo Quarto Domingo Após Trindade
Salmo 107. 17-22; Gênesis 28. 10-19a; Romanos 8. 12-17;
Lucas 17. 11-19
Lucas 17. 11-19
O primeiro versículo de nossa perícope (v.11) nos remete a 9.51 e
ao fato de Jesus ir em direção a Jerusalém. Grande importância tem
este versículo, pois ele deixa claro que Jesus não foi por acaso para Jerusalém, que ele foi pego de surpresa. Ele sabia a missão que precisava
cumprir. O nosso texto está no final da narrativa da viagem, que termina
com a entrada triunfal em Jerusalém (19.28).
Um fato interessante do autor Lucas é que muito do que ele narra,
senão a maioria, acontece durante viagens. No evangelho é Jesus quem
viaja, junto com seus discípulos, a partir do capítulo 9. Em Atos são os
apóstolos e alguns diáconos, mas sobretudo Paulo, cujas viagens ocupam do capítulo 13 ao 28. Intimamente atrelado a isto está o evangelho
que vai se alastrando, através do ministério de Jesus e dos discípulos,
pela Palestina e, depois, em Atos, através dos apóstolos (começando em
Jerusalém até os confins do mundo, i.e., Roma). Ponto central então é
Jerusalém: para um momento definido toda a história anterior converge
(Lucas) e toda a história posterior ganha seu sentido (Atos): a paixão,
morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ainda, Lucas é o evangelista com a
ênfase do evangelho para todos, que inclui crianças, mulheres, doentes
(como no caso do nosso texto) e demais.
No contexto imediato, podemos destacar o versículo 20, onde os fariseus querem saber como reconhecer o Reino dos Céus. A nossa perícope, de certa forma, serve como ilustração dessa inabilidade de Israel,
o povo de Deus, em reconhecer a vinda do Reino de Deus, que irrompe
na pessoa de Jesus e do qual um sinal claro é a cura de doenças, como
a lepra. Tão cegos que são, que perdem até para samaritanos, os quais
consideram pagãos e ignorantes da Lei de Deus. A vinda do Reino de
Deus não seria a glória política dos judeus, nem a libertação dos poderes
opressores estrangeiros, mas a libertação do pecado e da morte, realizada por Jesus, o Filho de Deus. Por isso Jesus diz que ele está “dentro em
vós”, ou seja, vem pela fé em Jesus, algo que estava “dentro” daquele
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Décimo quinto domingo após pentecostes
samaritano que voltou para agradecer. Ainda levando-se em conta o contexto anterior, onde os discípulos pedem a Jesus que aumente a fé deles,
vemos que a fé não é uma força em si mesma, algo que o ser humano
possui, forte ou fraca, mas é dom de Deus e depende do objeto ao qual
se apega, a saber, a Jesus Cristo. Não são as boas obras que nos justificam (v.10), nem devemos considerar a nossa fé como uma boa obra
nossa, mas ficarmos felizes em sermos servos do Senhor, agradecidos e
ativos no seu Reino.
A estrutura do texto é bem simples; ela é dividida em duas partes:
1) do v. 11 até 14a ; 2) do v. 14b até o 19. No primeiro trecho é Jesus e
os dez leprosos. No segundo, Jesus e o Samaritano. Isto fica evidente no
texto pelas expressões utilizadas no início de cada trecho: kai egevneto en
tw‘ + infinitivo. Claramente nos remete à maneira hebraica de construir
frases temporais (utilizando-se preposição + inf. construto) e, consequentemente, à Septuaginta.
Jesus, em sua viagem a Jerusalém, entra em uma aldeia, talvez na
divisa entre Galiléia e Samaria. Os leprosos ficam “de longe”, pois não
deveriam se aproximar de pessoas sãs. Deveriam viver fora do arraial (Lv
13. 45,46). Jesus os manda mostrarem-se aos sacerdotes. Tal ação servia para confirmar que o leproso estava curado e, de acordo com Levítico
14, deveria render graças a Deus, oferecendo sacrifícios em agradecimento pela cura. O ponto marcante do nosso texto é o fato de somente
o samaritano reconhecer o verdadeiro sacerdote que é responsável pela
sua cura. A ação do samaritano de dar glórias a Deus (doxavzwn tovn Qeovn),
rendendo graças a Jesus é muito significativa. Aqui é usado o verbo eucaristevw tendo Jesus como objeto. Quase sempre quando aparece no Novo
Testamento, este verbo tem Deus como objeto (At 28.15; Rm 7.25; 1Co
14.18; Fp 1.3; Cl 1.3,12; 3.17; Fm 4; 1Ts 5.18 e muitos outros). Assim
sendo, a ação de graças rendida pelo samaritano se reveste de maior
importância ainda, pois ele não está simplesmente agradecido, mas está
reconhecendo o Deus Conosco que o curou. É uma passagem altamente
Cristológica. Cristo é o (Sumo) Sacerdote da Nova Aliança (Hb 9.15),
segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4; Hb 5.6; 7.21). Através do
sacrifício do seu corpo, cena final de sua viagem a Jerusalém, ele se tornou o nosso Grande Sumo Sacerdote, por meio de quem temos acesso ao
Pai, através do qual temos libertação do pecado e de suas consequências
[como a lepra] (Hb 10. 10-14; 19-22).
No final temos o ponto alto, quando Jesus diz: “Levanta-te e vai; a
tua fé te salvou” (v.19). O verbo salvou está no perfeito, o que denota
uma ação que aconteceu no passado e que continua tendo seus efeitos
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válidos no presente. Traduzir o verbo como “curar” não parece ser uma
boa opção, como a NTLH faz (“Você está curado porque teve fé”). Em
Lucas esta frase é utilizada outras vezes, em contextos onde há várias
pessoas, mas somente uma consegue ver quem Jesus realmente é, pela
fé. Assim foi com a mulher que lavou os seus pés (7. 35-50), a mulher
que foi curada de uma hemorragia (8. 43-48) e com o mendigo que foi
curado da cegueira (18. 35-42). Na nossa perícope, todos os dez foram
curados. Se a fé é pré-requisito para a cura, os outros nove também tiveram, por isso foram curados. O que Jesus deveria destacar então seria a
gratidão do que foi curado. Mas ele faz questão de enfatizar a fé dele que
o salvou. Para o samaritano a cura foi um sinal do Reino de Deus, para
os outros nove foi só um acontecimento fora do comum, que poderia ser
atribuído a qualquer curandeiro, ou então à sorte. Ele foi salvo porque
teve fé, ou seja, ele reconheceu o Deus verdadeiro.
Quantos hoje em dia não conseguem reconhecer o Deus verdadeiro?
Inclusive cristãos, que colocam a sua confiança na intervenção de santos e padroeiros e não em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Esta perícope
é a mesma para o Dia de Ação de Graças. Convém que não a utilizemos
de forma errada, dando uma ênfase no “Devemos agradecer sempre”,
“Quem mais agradece é mais abençoado”, ou “Maior gratidão demonstrada é sinal de maior fé”. Nem precisamos nos delongar na péssima
teologia que impera hoje na mídia que enfatiza o “Se você tiver fé, você
consegue tudo o que quiser”. O ponto a enfatizarmos é Devemos saber a
quem devemos agradecer. E isso pressupõe fé – é preciso conhecer Jesus
realmente. O render ação de graças por parte do samaritano é fruto da
fé que ele tinha em Jesus como o Messias, o Deus Conosco, o Reino de
Deus entre os seres humanos.
Jacó soube a quem agradecer, ao erigir a coluna e chamar o lugar
onde teve o sonho de Betel, casa de Deus (Gn 28). Se fôssemos mais
longe no paralelo, poderíamos inclusive apontar Jesus como a “escada”
que liga os céus e a terra. Paulo em 1Tm 2.5 não fala em escada, mas
chama Jesus de “Mediador”. Enquanto estamos no tempo da graça, temos oportunidade de render graças à pessoa certa, a Jesus, o Salvador,
porque haverá o dia em que toda a criação, queira ou não, fará o que
o samaritano fez e se prostará diante de Jesus (Fp 2. 9-11). Enquanto
vivemos no tempo da graça, temos o auxílio do Espírito que nos torna
filhos e nos ensina a dizer “Aba, Pai” (Rm 8).
Jesus, sem dúvida, é uma figura popular hoje em dia também. Mas
será que as pessoas realmente o conhecem? Mesmo dentro de nossas
congregações, quantas opiniões diferentes ouvimos sobre Jesus? Deixar
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bem claro que Jesus é o Salvador, enfatizando que a sua morte e ressurreição (este seria o destino final da viagem dele) são a nossa vitória,
nunca é demais! A fé nele é que traz a salvação. Diante disso, viver a
nossa vida com Jesus passa a ser uma necessidade. Não importará mais
o quanto nós agradecemos, pois nunca pararemos de agradecer: por
estarmos vivos; por termos perdão, vida e salvação; por termos família
e saúde; por sermos parte de uma congregação; por termos emprego e
possibilidade de participação ativa na sociedade. Tudo isso e muito mais
são motivos para que vivamos a nossa vida inteira em fé, humildade e
gratidão diante de Deus, “dando sempre graças por tudo a nosso Deus e
Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5.20).
Título: Fé em Jesus faz a diferença
1. Quem é Jesus
a. Para os leprosos
b. Para o samaritano
2. Crer em Jesus faz a diferença
a. Fez para o samaritano – “A tua fé te salvou”
b. Faz para nós – “A tua fé te salvou”
3. Crer em Jesus faz a diferença para todos
a. Pela fé em Jesus, vivemos uma vida de gratidão a Deus
b. Pela fé em Jesus, nossa gratidão é testemunho da Salvação para
as pessoas.
Paulo Samuel Albrecht
Rio de Janeiro, RJ
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Décimo Sexto Domingo
Após Pentecostes
Décimo Quinto Domingo Após Trindade
Salmo 4, 1 Reis 17.8-16, 2 Coríntios 6.1-10, Mateus 6.25-33 ou João
11.17-27
Mateus 6.25-33
CONTEXTO
Salmo 4 - O Salmo 4 expressa a confiança do Rei Davi em Deus, em
meio a um momento de aflição e angústia que foi crucial para a sua vida,
quando seu filho Absalão queria lhe usurpar o trono. Como rei e pai, Davi
poderia ter dúvidas quanto ao seu julgamento e discernimento dos fatos.
Mas ele recorre à justiça de Deus para que seu coração permaneça no
amor e sua alma na paz. Onde está a verdadeira paz? Onde está a justiça? Onde está a alegria? No sacrifício de justiça (Cristo) e na confiança no
Senhor (graça do perdão). “Ofereçam sacrifícios como o SENHOR exige e
ponham a sua confiança nele” (Salmos 4.5 NTLH).
1Rs 17.8-16 - A viúva de Sarepta se torna um instrumento de Deus
para ajudar o profeta Elias. A confiança absoluta da viúva na palavra do
profeta se converte em uma bênção de salvação para ela e para o seu
filho em meio a um contexto de desolação e fome. “Pois o SENHOR, o
Deus de Israel, diz isto: Não acabará a farinha da sua tigela, nem faltará azeite no seu jarro até o dia em que eu, o SENHOR, fizer cair chuva”
(1Reis 17.14 NTLH).
2Co 6.1-10 - Deus mostra sua salvação a cada dia, e cada dia é
tempo especial para ser salvo. Nada deve atrapalhar essa certeza, pois
recebemos na palavra a graça de Deus pelo Espírito Santo, que através
das obras que realizamos em fé sincera e autêntica é quem mostra que
somos servos de Deus. Quem tem fé sincera e verdadeira no gracioso
perdão de Cristo não tem medo das dificuldades. “... em tudo mostramos
que somos servos de Deus, suportando com muita paciência as aflições,
os sofrimentos e as dificuldades” (2 Coríntios 6.4 NTLH).
Mt 6.25-33 - Deus nos ensina nesse texto a termos um estilo de vida
de confiança e abnegação. Confiança que busca em primeiro lugar o seu
reino e a sua justiça, tomando como exemplo os pássaros e a erva do
campo, que recebem por graça todo o necessário para as suas vidas. De
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abnegação por que a garantia do cuidado não depende do ser humano,
mas só de Deus.
TEXTO
V. 25: A preocupação ansiosa com as coisas que precisamos para viver não deve ter prioridade em nossos pensamentos. A comida, a bebida
e o vestuário numa escala de valores não devem ser a primeira coisa em
nossa vida, que vale muito mais que estes. É o pão nosso de cada dia que
Deus nos dá mesmo sem a nossa prece. Basta que o reconheçamos e o
recebamos com agradecimento.
Vv. 26, 27: O termo de comparação aqui é o valor do ser humano em
relação aos pássaros, que são alimentados pelo Pai do céu a cada dia, e
nada precisam fazer para merecer esse alimento, que lhes é concedido
por graça. Fica caracterizada aqui a providência do sustento cotidiano
que Deus provê para a sua criação e, obviamente, para o ser humano. O
ser humano tem a faculdade de pensar, de se preocupar e ficar ansioso,
mas este sentimento não lhe traz nenhum favor e acréscimo na vida.
Qual é o valor do ser humano? Jesus responde com a pergunta: Será
que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? O ser humano
vale mais que toda a outra criação de Deus (Mt 10.31; 12.12; Lc 12.7).
Somos o povo escolhido de Deus, os sacerdotes do Rei (1Pe 2.9).
Vv. 28-30: O termo de comparação aqui é o valor e a importância
do ser humano em relação às flores, aos lírios do campo, “que hoje dá
flor e amanhã desaparece, queimada no forno”. Comparados ao vestuário de Salomão, o superam em muito na beleza e na formosura.
As flores do campo não se cansam trabalhando e nem precisam fiar
qualquer vestuário. Deus é o provedor. O ser humano precisa examinar
com cuidado e confiança essa providência divina na sua criação para
reconhecer a dádiva, o cuidado e a proteção que lhes são dispensados.
A pequena fé do ser humano o leva a isolar-se de Deus e a colocar-se
a si mesmo como provedor. Assim acaba entrando pelo caminho da autossubsistência.
V. 31: Em razão de valermos muito mais do que toda a criação de
Deus, a dúvida quanto ao sustento (comida e bebida) e o vestuário não
devem deixar o ser humano ansioso, preocupando-se exageradamente
com tudo isso.
V. 32: A ansiedade, a preocupação exagerada com o sustento (comida e bebida) e o vestuário são característica dos pagãos, dos gentios,
daqueles que não são povo de Deus e, consequentemente, não reconhe-
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cem que Deus é o provedor de todas as coisas. O pagão, o ímpio deseja
e procura diligentemente pelo sustento e o vestuário, anelando tê-los por
sua única e exclusiva força e mérito. Os de pequena fé se entregam à
preocupação exagerada, vivendo a ansiedade pelo sustento e o vestuário. Existe uma linha muito tênue e perigosa entre aqueles que têm uma
fé pequena e os pagãos, que pode ser facilmente confundida.
V. 33: Colocar em primeiro lugar na vida a busca do reino de Deus
e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer, envolve dois aspectos importantíssimos: a) olhar para o primeiro mandamento de Deus, não ter
outro Deus diante dele; b) procurar por, e em fé, a fim de encontrar,
empenhando-se ao máximo pelo pensamento, meditação e raciocínio.
Fazer por, e em fé, uma investigação acurada na palavra de Deus que
proclama, ensina e revela o reino de Deus, o reino da graça e o reino da
glória e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer, como aprendemos na
segunda e terceira petição do Pai Nosso. Colocamos em primeiro lugar na
vida, buscamos o reino de Deus e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer
(segunda e terceira petição) porque o Pai celeste sabe que precisamos de
todas as coisas (sustento e vestuário) para viver.
PROPOSTA HOMILÉTICA
Pensamento Central: O Salvador Jesus diz para os seus filhos não
se preocuparem exageradamente ao ponto de viverem ansiosos por causa do sustento e do vestuário. Isto é algo próprio dos pagãos, dos gentios. O ser humano é incapaz de providenciar qualquer coisa em sua vida.
Assim como ele cuida de toda a sua criação, ele cuidará dos seus filhos,
que valem muito mais. Deus sabe e conhece todas as nossas necessidades, por isso podemos priorizar em nossa vida o reino de Deus e aquilo
que Deus quer, a sua justiça (o reino da graça e da glória – 2ª petição – a
vontade de Deus - 3ª petição - salvação).
Tema: Venha o Teu reino e seja feita a tua vontade assim na terra
como no céu.
1. A preocupação exagerada nos desconecta de Deus, deixando-nos
reféns de nós mesmos.
- Mt 6.25, 27, 31, 34; 10.19; Lc 10.41; 12.11, 22, 25; Fp 4.6.
- Somos mais valiosos que os alimentos, as aves e as flores do campo
(25 e 26)
- Não temos poder nenhum sobre nossas vidas (v. 27) Salmo 4.
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Décimo sexto domingo após pentecostes
2. Deus conhece todas as nossas necessidades. 1Rs 17.8-16 – Viúva
de Sarepta
- Rm 8.27; Lc 10.42; Mt 6.8
3. Deus nos dá todo o necessário para a nossa vida.
- podemos pedir a Deus (Fp 4.5-6)
Conclusão
Quando tomamos posse da salvação mediante a fé, poderemos usufruir com alegria de todas as bênçãos que Deus tem reservado para
nós.
Horst Siegfried Musskopf
Cuiabá, MT
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Décimo Sétimo Domingo
Após Pentecostes
Décimo Sexto Domingo Após Trindade
Salmo 116.1-9, 1 Reis 17.17-24, 1 Coríntios 15.1-11,
Lucas 7.11-16 ou João 11.17-27
João 11.17-27
Contexto
O evangelho de João traz como pano de fundo as constantes querelas
e discussões entre Jesus e os líderes judeus. Como lemos descrito no
final do capítulo 10, Jesus se retirou de Jerusalém, onde a sua cabeça
estava a prêmio, depois de longa e acalorada discussão com os incrédulos judeus. No decorrer deste encontro, uma vez pegaram em pedras
para eliminar aquele que julgavam estar blasfemando contra Deus, e na
segunda investida contra Jesus tentaram prendê-lo, para, num segundo
momento, tentar executá-lo.
Aí Jesus retirou-se para o outro lado do rio Jordão, onde ele estava
livre dos ataques daqueles por quem choraria angustiadamente quando
de sua última entrada em Jerusalém (Lc 19.41). Lá, no seu “esconderijo”,
Jesus recebe a informação da morte de seu querido amigo Lázaro, e ele
então volta para o meio do “ninho de cobras”, para Betânia, a poucos
quilômetros da capital, Jerusalém, onde ele então desenvolve este lindíssimo discurso sobre a ressurreição e a vida. E no auge deste encontro
com as irmãs do morto, Lázaro, opera a ressurreição de seu amigo.
Texto
V. 17: “Lázaro”, uma abreviatura de Eleazar, significa Deus é auxílio.
É um personagem mencionado só por João. Suas irmãs Maria e Marta são
mencionadas por Lucas, mas ele é omitido na ocasião (Lc 10.38-42). De
que enfermidade ele foi acometido que o levou a óbito, não nos é dito.
A enfermidade sempre causa apreensões de todo o tipo. Se a doença
avança, a angústia avança na mesma proporção, também no coração e
na mente do mais fiel discípulo de Cristo. A doença sempre traz algum ou
muito sofrimento. Diante do sofrimento, o próprio Jesus, no Getsêmani,
ficou muito angustiado, sabendo que o que o aguardava era a morte.
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Décimo sétimo domingo após pentecostes
A doença é sempre um aviso de que algo está errado. E o desfecho
deste “algo errado”, motivado pelo pecado, é a morte, como no caso
de Lázaro. Nos salmos podemos encontrar aquilo que podemos chamar
de “olhos arregalados”, provocados pela angústia diante das incertezas
do futuro, trazidas pela presença de alguma enfermidade (Sl 4.1; 18.6;
25.17, etc.). O fato de João apontar que já há quatro dias Lázaro estava
sepultado tem por alvo ressaltar ainda mais o poder da Palavra de Jesus
quando operou o milagre da ressurreição de seu amigo.
V. 18: Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém.
V. 19: Velório sempre mostra dois lados: luto, angústia, quem sabe
revoltas e até tentativas de suicídio, de um lado, e solidariedade do outro lado. Estatisticamente é constatado que em ambiente de velório os
corações estão mais receptivos à mensagem. Por isso velório e enterro
podem e devem ser oportunidades também de “fazer missão”, de semear
a Palavra. Qual o teor do consolo que os judeus vieram trazer a Marta e
Maria? Ofereceram seus ombros para as enlutadas chorarem? Certamente. Apontaram para o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus dos vivos e
dos mortos? Provavelmente sim.
A morte pode oferecer duas situações opostas: frieza e agnosticismo
total tanto de quem está morrendo como de quem vai levar os restos mortais do ente querido à morada provisória do cemitério, ou profunda confiança, esperança e resignação, até “desejo de partir e estar com Cristo, o
que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23).
Vv. 20-22: Marta, como sempre irrequieta e decidida, saiu ao encontro de Jesus, enquanto Maria, mais do tipo emocional e humana, permaneceu em casa, em silêncio, interrompido por soluços e choro (v. 33).
Quis Marta forçar Jesus a uma decisão? Pode ser. Sempre que a vontade
humana quer se impor a Deus e Deus não “cede”, pode haver decepções.
Foi no caso do profeta Elias. Ele, após ter mandado matar os profetas de
Baal, achou que a rainha e os idólatras se renderiam à vontade de Deus e
Israel seria um país temente a Deus outra vez após o milagre da descida
do fogo do céu. Nada disso aconteceu, pelo contrário, e ele, por temer
a perseguição e a morte, fugiu. Neste período de fuga, ele experimentou
profunda decepção com Deus (?) e entrou num estágio que hoje chamamos de depressão.
Marta queria apressar as coisas? Pelo jeito, sim. De alguma forma, ela
acreditava, Jesus daria um “jeito” de contornar a situação dolorosa. Mas
quis interferir em Deus ser Deus.
Vv. 23,24: A questão da ressurreição tem sempre os dois lados: Do
primeiro está Deus, o Criador todo-poderoso. Com sua palavra ele criou
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os céus e a terra. A palavra de Deus é a peça chave para entendermos o
universo como tendo saído das mãos do Senhor dos céus e da terra. É
de fundamental importância crer na criação do universo. E neste “processo” da criação Jesus tomou parte ativa. João declara no começo do seu
evangelho que “o Verbo (Jesus) era Deus... Todas as coisas foram feitas
por intermédio dele” (Jo 1.1-3).
E aqui encontramos o Verbo falando a Marta da segunda grande
criação: a ressurreição dos mortos. Jesus, para provar sua divindade,
operou algumas ressurreições, como esta de Lázaro, que aconteceria na
sequência. É desta ressurreição para uma vida física provisória que Jesus
aqui fala a Marta, mas ela entende a ressurreição como algo do fim dos
tempos. Entre os judeus, a doutrina da ressurreição não tinha aceitação
livre. Os saduceus não criam nela. E entre os demais povos ela era tida
como algo “do outro mundo”, algo para não ser crido. Por isso Paulo,
quando falou dela aos atenienses no areópago, foi largamente zombado,
e ele até “perdeu a linha”.
A doutrina da ressurreição, fundamental para a fé cristã, tendo Jesus
como “as primícias” dos ressuscitados, está ancorada e baseada sobre
o princípio criador de Deus. Quem crê na criação obrigatoriamente tem
que crer na ressurreição, que não deixa de ser uma segunda (pequena)
criação no fim dos tempos. Nesta Marta acreditava. Ela até podia crer
na ressurreição “lá na frente” (juízo final). Mas crer que Jesus poderia
trazer de volta à vida o seu irmão há quatro dias já sepultado? Bem, aí a
questão complica para ela.
É assim para nós. Hoje nós cremos tão facilmente nos milagres de
Jesus e cremos na ressurreição dos mortos. E se Jesus estivesse agora
presente entre nós, no momento de um velório, creríamos nós que Jesus
poderia levantar do caixão a pessoa morta? É a questão do racionalismo
sempre presente que tenta interferir na ação de Deus. Foi o que Marta
quis fazer. O jeito foi e é crer na palavra de Cristo (Deus). O resto se
sucede.
Vv. 25-27: Marta aceitou a declaração de Jesus sobre a ressurreição
como um lugar comum de consolação. Mas a sua incompreensão provocou um dos grandes “eu sou” de Jesus, no qual Marta finalmente creu,
antes mesmo do milagre.
Proposta Homilética
O Deus Criador, Salvador e Santificador é o eterno “EU SOU”
1. O “Eu sou” criou pela palavra “tudo do nada”.
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Décimo sétimo domingo após pentecostes
2. O “Eu sou” (re)criará tudo outra vez pela palavra no dia da
ressurreição dos mortos.
3. Abandonemos a razão cega e creiamos no Verbo que é a ressurreição e a vida.
4. Pela angústia da morte à vida no Ressuscitado.
Heldo E. Bredow
Curitiba, PR
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Décimo Oitavo Domingo
após Pentecostes
Décimo Sétimo Domingo Após Trindade
Salmo 116.12-19; Gênesis 8.18-22; Gálatas 3.26-28; Mateus 26.26-29
ou Marcos 14.22-25
Mateus 26.26-29
Contexto (cenário litúrgico, histórico)
A missão de Jesus está chegando ao seu ponto máximo: a sua morte
na cruz. Ele já havia instruído seus discípulos em como seria o juízo final.
Por isso, motiva a todos ao preparo constante e adequado para aquele
grande dia. O cenário, passo a passo, vai sendo construído: já havia um
plano para matar Jesus; em Betânia uma mulher derrama perfume sobre
Jesus (uma referência ao sepultamento dele); depois vem a traição de Judas (a revelação desse acontecimento se dá quando Jesus e os discípulos
estão reunidos comemorando a Páscoa; ali Jesus fala abertamente que um
deles vai traí-lo); durante a comemoração, Cristo institui a Santa Ceia (a
nova aliança); depois disso, Pedro é avisado da sua negação; Jesus conversa com o Pai no jardim do Getsêmani; ele é preso e levado ao conselho
superior; o aviso da negação de Pedro se cumpre; e já no capítulo 27 de
Mateus lemos o desfecho da obra de Jesus pelos seres humanos.
Importante notar que é durante a ceia pascal que Jesus institui a Santa
Ceia. Com isso, ele reafirma a importância da ceia no Antigo Testamento.
Agora, porém, os sofrimentos de Cristo, a sua morte e o seu sangue formariam a nova aliança. Ou seja, estava chegando o momento histórico,
prometido por Deus desde Adão e Eva, do sacrifício perfeito e definitivo.
Não haveria mais a necessidade de sacrifícios de animais. A morte do
Cordeiro é agora a garantia do perdão. Tanto a ceia pascal quanto a Santa
Ceia instituída por Jesus mostram a ação de Deus pelos seus filhos, em
momentos históricos distintos: o povo que vivia na esperança da vinda do
Salvador, e o povo que conviveu com Jesus, bem como aqueles que vivem
na certeza de que o Salvador já veio e que um dia voltará.
Ênfases, expressões que se destacam, análise
Instituindo a Santa Ceia, Jesus está dando aos seus discípulos os
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Décimo oitavo domingo após pentecostes
frutos do seu sofrimento. O seu corpo que foi dado e o seu sangue derramado eram o anúncio de muitas bênçãos para aqueles que confiaram
nele. Jesus abençoa o pão e o vinho, ou seja, consagra e separa esses
elementos externos e visíveis para um santo propósito. Esse propósito
está claro no versículo 28, “para remissão de pecados”. No entanto, as
grandes dúvidas levantadas sobre a instituição da Ceia do Senhor estão
nestas palavras: “[...] isto é o meu corpo [...]”, “ [...] isto é o meu sangue
[...]”. Algumas interpretações surgiram – é representação, é simbolismo,
é transformação – o que Jesus quis dizer? Ele quis dizer o que de fato
disse. Jesus falava com precisão. Ele sabia fazer clara distinção quando
falava simbolicamente e quando falava literalmente. Ele não tinha uma
comunicação confusa. Quando Jesus queria fazer comparações, usava
expressões como essa: “O Reino de Deus é como...”. E quando instituiu
a Santa Ceia, ele usou expressões claras, “isto é o meu corpo”, “isto é o
meu sangue”. Embora para a razão humana isso seja incompreensível,
para a fé não o é. Por isso, submetemos a razão à nossa fé. Pois acreditamos que a Palavra de Jesus é verdade. Logo, podemos confessar com
Martinho Lutero em seu Catecismo Menor: A Santa Ceia “é o verdadeiro
corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, para ser comido e bebido,
sob o pão e vinho, por nós cristãos”. E assim temos: o pão e vinho são os
elementos visíveis e terrenos, e o corpo e o sangue de Cristo são os elementos celestes. No versículo 29 do texto, Jesus já fala do futuro eterno
e feliz no Reino do Pai. Ele já está visualizando o banquete no céu. Este
banquete ele deseja repartir com todos nós: “[...] hei de beber, novo,
convosco [...]”. A instituição da Santa Ceia é uma expressão da suprema
certeza que o Senhor tinha da vitória, antes do seu conflito final. Também
o é de como o Senhor “transformou” o Antigo Testamento no Novo. É
uma mensagem de esperança e confiança na misericórdia, na graça e no
amor de Deus que a todos quer salvar.
Paralelos, pontes, pontos de contato
A Santa Ceia é o “novo testamento” que Jesus deixou para todos nós,
os pecadores, a sua igreja. Assim como deixamos um testamento para
que alguém seja beneficiado com a nossa atitude, Jesus também deseja
que todos aqueles que crêem nas palavras “Dado e derramando em favor
de vós para a remissão dos pecados” recebam todos os benefícios de seu
sacrifício, morte e ressurreição. Assim como os israelitas viveram fortalecidos com a Ceia Pascal e todo o seu significado, agora os cristãos vivem
na força que a Santa Ceia lhes dá. A Santa Ceia é uma refeição espe-
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cial. Através da história, Deus sustentou e abençoou o seu povo através
de refeições especiais. Refeições sustentam a vida. “Nós comemos para
viver”. E o nosso sustento vem unicamente de Deus. Portanto, tanto a
nossa vida física quanto a espiritual são sustentadas pela Rocha Eterna
que é Jesus Cristo. Por isso, o pecador precisa sentir fome e desejar
desfrutar sempre desta refeição celestial. Jesus é o verdadeiro cordeiro
pascal que tira os pecados do mundo (Jo 1.29, 1Jo 1.7). E é este cordeiro vitorioso que nos abraça pessoalmente com seu corpo e sangue, na
Ceia, para preservar nossa vida no corpo da igreja. Assim como o Senhor
Jesus esteve presente na primeira Ceia, está e estará presente em todas
as outras. Jesus é o único que pode fazer com que a Ceia tenha proveito para o crente. Por isso, a Santa Ceia é a grande festa da igreja, uma
festa verdadeira (para nutrimento da vida espiritual), uma festa sagrada
(separada de todo o prazer pecador), uma festa de pacto (autenticando
a redenção), uma festa de amor (unidade dos redimidos), um banquete
festivo (antecedendo a morte, o fim do mundo e a vinda de Cristo).
Sugestão de uso homilético (assunto,
objetivo, tema, desdobramentos)
É fundamental anunciar que a Santa Ceia é evangelho puro para o
pecador. O texto nos permite dizer que a Ceia que Jesus instituiu, a Ceia
que celebramos em nossos cultos, é uma grande Boa Nova. Pois através
dela o nosso Santo Salvador, que está realmente presente na Ceia, vem
se unir a nós, pessoas pecadoras que precisam da sua santidade. E isso
acontece não por méritos nossos, mas pela grande misericórdia do Filho
de Deus que nos amou ao ponto de doar sua vida por nós. Podemos também ensinar que quando vamos à Santa Ceia, estamos admitindo nossa
fraqueza, e diante da mesa do Senhor, pela fé Nele, nos entregamos e
confiamos na sua misericórdia para nos perdoar e nos salvar de todo o
castigo de Deus. Depositamos toda a nossa fé em Jesus, por sabermos
que Ele é o único a quem o nosso Deus Pai enviou para salvar os perdidos (Lc 19.10; Jo 3.16-17). Afirmamos ainda que a fé em Cristo não nos
confunde com ensinos humanos. Mas, nos dá clara certeza das palavras
de Jesus: “isto é meu corpo”, “isto é o meu sangue”. Pela fé deixamos a
razão de lado e nos concentramos no que a Ceia é, no que ela oferece,
no preparo correto para recebê-la (arrependimento e confiança). Também pela fé, na Santa Ceia somos lembrados das promessas de Deus.
Do texto queremos lembrar também a vitória que em Cristo alcançamos
já nesta vida, e definitivamente na eternidade. Na Santa Ceia somos
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Décimo oitavo domingo após pentecostes
vencedores através de Cristo, o grande vencedor. Por causa dele, a vitória também é nossa. Pregamos ainda que a Santa Ceia é o testemunho
incontestável do quanto Jesus ama os pecadores. Portanto, sempre que
participamos da Ceia, sentimos e nos lembramos desse amor por nós.
Através desse Sacramento, Jesus não quer nos dar apenas o seu amor,
mas também recebemos: perdão, fortalecimento da fé, vida (Jo 10.10),
salvação e vida eterna. E assim somos capacitados e motivados para
também mostrar o nosso amor a Deus, na vida do próximo ao nosso
redor (Mt 28.19; Jo 13.14-17, 17.21; 1Co 10.17; Ef 5.1,2). Ainda precisamos lembrar que o amor de Deus não o deixa, ao contrário dos seres
humanos, quebrar a sua aliança. O nosso Deus é gracioso. Ele conhece
bem as nossas sobrecargas e as nossas fraquezas. Por isso nos ajuda a
levarmos o fardo, que para ele é levíssimo, mas para nós é pesadíssimo.
A misericórdia de Deus não mudou. Assim como sempre ajudou seu povo
em tempos antigos (providenciando tudo o que precisavam), ele continua providenciando todas as coisas através de Cristo. E hoje, Deus nos
perdoa, alivia e fortalece todas as vezes que comemos o pão e bebemos
o vinho consagrados. Na Santa Ceia também encontramos a Palavra de
Deus que cria e renova a vida do cristão.
Tema e partes: Venham à grande festa da vida.
Instituída por Jesus Cristo. Enfatizando ...
- A Santa Ceia.
- Sombra da Ceia Pascal.
- “Isto é o meu corpo”. “Isto é o meu sangue”.
- Aliança de Deus com o seu povo – “Sangue da aliança” (Êx 24.8).
- Visão da vida eterna.
Sustentada pela vitória do Senhor. Enfatizando ...
- O único Cordeiro perfeito.
- Em favor de todos. Precisamos anunciar a todos.
- Testamento de vida.
- Perdão dos pecados. Fortalecimento da fé. Salvação. Vida Eterna.
(Vitórias!)
- Mérito exclusivo de Cristo.
- Por graça, misericórdia e amor, a vitória é nossa também.
Iderval Strelhow
Porto Alegre, RS
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Décimo Nono Domingo
Após Pentecostes
Décimo Oitavo Domingo Após Trindade
Salmo 103.1-14, Deuteronômio 6.4-15, Romanos 13.1-10, Marcos
12.28-34 ou Mateus 22.34-40
Mateus 22.34-40
Contexto
Os fariseus estão empenhados em encontrar algum motivo para incriminar Jesus. O conflito vai ficando cada vez mais intenso. Neste contexto, travam-se quatro discussões: (15-22) a pergunta sobre os impostos;
(23-33) a pergunta sobre a ressurreição; (34-40) o texto em foco, o
mandamento mais importante e, (41-46) a pergunta sobre o Messias.
Na discussão sobre impostos, haveria acusação independente da resposta de Jesus, pois se afirmasse que os judeus não deveriam pagar
impostos ao imperador romano, as autoridades o prenderiam, e dizendo
que deveriam pagar, o acusariam de traição. Já sobre a ressurreição, é
preciso lembrar que os saduceus não acreditavam em ressurreição, embora os fariseus acreditassem (At 4.1,2; 23.6-8). A sua relutância em
aceitar a autoridade de Jesus sempre os leva aos ensinos de Moisés. E
assim Jesus responde uma a uma as questões, sem realmente dar a eles
oportunidade de acusação fundada.
Texto
Quando Jesus resume a lei a uma só palavra – amor, embora separe
em dois focos, mostra um novo tempo e uma nova forma da relação com
Deus. Uma relação com Deus não a partir de obrigações e rituais, mas
com uma forma de resposta interior, com todo o ser. Embora aprendamos
sistematicamente que aqui está o resumo do Decálogo, e isso é inegável,
para mim a resposta de Jesus vai muito além. Não se trata de uma nova
apresentação da Lei, mas tem tudo a ver com a resposta dos discípulos
Pedro e João quando estavam diante do Conselho Superior: “Nós não
podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4.20).
Jesus está dizendo aos fariseus que não basta cumprir tarefas e rituais,
não bastam obras externas, mas a resposta aos mandamentos de Deus
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Décimo Nono domingo após pentecostes
deve brotar de uma vida transformada, de um coração cheio do Espírito
Santo, que movido pela graça de Deus não consegue agir de forma diferente, senão amando porque ele nos amou primeiro (1 João 4.19).
Ainda observando o ensino de Jesus, fica evidente que o amor a Deus
precede o amor ao próximo. E o amor a Deus é na intensidade total
(todo) do corpo, da alma e da mente (caso queira enfatizar este aspecto,
recomendo a exegese específica de cada um dos termos e seu significado). Na verdade, a forma de demonstrar amor a Deus passa a ter uma
face nova em Jesus. Não é por meio de obediência apenas, mas com a
expressão da vida espiritual, da vida emocional e da vida física – um
estilo de vida. Isto passa a ser apresentado de forma muito bonita pelo
apóstolo Paulo quando fala dos dons do Espírito Santo, de forma especial
em Rm 12.6-13. Neste texto percebemos a dádiva do Espírito para que o
cristão possa manifestar o seu amor a Deus das mais diferentes formas,
e diga-se, de formas muitos simples que por vezes são menosprezadas
entre nós cristãos (servir, animar, exercer misericórdia).
Já o segundo foco da expressão do amor a Deus tem como alvo a vida
humana. A minha vida e a vida do outro (próximo). Novamente chamam
atenção dois pontos. Este amor agora é manifesto em equidade. Amor
a si mesmo e na mesma medida ao próximo. Ele não é com a mesma
intensidade do amor a Deus que é de todo coração, alma, força e mente.
O amor a Deus é a força motriz para que aconteça o amor a mim mesmo
e o amor ao próximo.
Pontos de Contato
Os fariseus e os saduceus estavam vivendo uma religiosidade externa, com uma obediência à letra, sem uma renovação espiritual de suas
vidas. Sua “perseguição” a Jesus não os permitia ouvir e apreender os
ensinos, pois estavam sempre preocupados em encontrar erros, ao invés
de ouvir para fortalecer sua fé e convicção espiritual.
Esta realidade não é diferente na vida de algumas pessoas de nossos
tempos. Temos irmãos e irmãs que não faltam a cultos e estudos bíblicos,
mas sempre estão com a língua afiada para avaliar os outros, condenar
e até fazer comentários que não constroem o corpo de Cristo, nem edificam cristãos individuais. Precisamos estar atentos para deixar a Palavra
também falar aos nossos corações, e não apenas a endereçar a quem
julgamos que deva ouvir este ou aquele conteúdo da Palavra. A Palavra
sempre tem algo para mim, e não me autoriza expressões como: “Hoje
o sermão foi para A, este foi para B”, e, com isso, acaba nunca havendo
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Igreja Luterana
uma palavra para mim.
A ação recomendada por Jesus a partir da revelação da Lei (decálogo)
é a de servir de suporte e força para o crescimento espiritual do outro.
O amor como forma de crescimento diante do Senhor. O amor, não para
encobrir erros, mas para fortalecer e construir a vitória sobre o pecado.
Possibilidade Homilética
Tema: Ame ao Senhor e ao próximo
Introdução: A vida cristã relaciona-se com Deus e com o próximo
1. O egoísmo e a falta de amor
a. O pecado isola e explora
b. O reflexo da falta de amor na sociedade atual
2. O Mandamento do Senhor: Ame ao Senhor e ao próximo
a. Participamos da manifestação do amor de Deus às pessoas
b. Deus permanece vivo e eficaz na vida dos que crêem
c. A essência de Deus (amor) manifesta-se na essência da santificação do cristão (amor)
3. A ação do Espírito Santo através dos cristãos
a. O Espírito Santo capacita através de dons
b. Somos o povo da aliança que testemunha os atos de Deus a esta
geração
c. O amor de Deus chega ao próximo também através de nós.
Airton Schroeder
Natal, RN
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Dia da Reforma
Salmo 46, Isaías 55.1-11, Apocalipse 14.6-7, Mateus 11.12-15
Apocalipse 14.6-7
Destaques
Sl 46 – Deus se apresenta como esconderijo seguro banhado por
águas que, tranquilas, faz olhar o futuro com alegria.
Is 55. 1-11 – Aliança perpétua que consiste 1. nas fiéis misericórdias
de Deus ... 2. a palavra que não volta vazia.
Mt 11.12-15 – Deus levanta do nada aqueles que fazem a sua palavra ser ouvida. Não uma mensagem de poder, força e violência que os
homens exercem, mas aquele poder que Deus revela na sua misericórdia
trazendo a paz aos corações, removendo deles a culpa.
TEXTO (Ap 14. 6,7)
Os textos relacionados focam na ação de Deus. Em datas como a da
Reforma, tem-se a tendência de concentrar a atenção sobre pessoas,
suas fraquezas, as faltas e erros e, por outro lado, aqueles que foram
fiéis e que, ao final, restaram como testemunhas de Deus. Algo errado?
Aparentemente, não. A não ser pelo fato de que, para o ouvinte, fica a
impressão de que a história da igreja é feita de vilões e heróis. Ser ou
não ser da igreja é uma escolha de lados? Deste ou daquele? Certos e
errados?
O texto do Apocalipse é um texto de olhos fitos no céu, o céu que
está visível aos olhos dos que vivem neste mundo. O lado de cá do céu
mostra o mensageiro de Deus oferecendo um Evangelho eterno, uma boa
notícia que não tem limites de tempo, nem de espaço, incondicionado,
livre e libertador. Esta interface entre Deus e humanidade é a única visão
possível ao ser humano. Qualquer outra visão de Deus, qualquer outra
tentativa de ver Deus e os céus desencadeia sobre o ser humano a morte
da qual o mensageiro liberta.
Esse mensageiro é o mensageiro da vontade de Deus aos homens.
Vontade essa que, sem esse mensageiro, não existe na experiência do
ser humano. Sua experiência lhe fala de outra vontade do alto. Sua experiência lhe diz sempre e a cada instante que ele é um devedor. Ele vê
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Igreja Luterana
também todos ao seu redor como devedores. Olhar para o alto é um ato
que desperta medo e até terror.
Esse é o único modo como a natureza humana olha para o céu: com
medo e terror. Bem por isso toda e qualquer iniciativa religiosa do ser
humano vem impregnada e determinada em abafar esse medo e terror.
Como pode a natureza humana proteger-se?
Lutero ansiava que do céu lhe viesse um sinal de misericórdia, algo
em que pudesse agarrar-se. Mas do céu somente lhe vinha a noção de
ser um grande devedor diante do justo tribunal de Deus. Tudo nele lhe
confirmava essa certeza. E Lutero não estava errado nisto. E todos os
meios que a igreja lhe punha à disposição foram usados e esgotados no
esforço de livrar-se da culpa da qual se sentia responsável.
Essa é a palavra: responsável diante de Deus e do seu juízo. Não somente Lutero. Mas o publicano, no templo. O filho perdido ao lembrar-se
do pai. Pedro, ao chorar no pátio do palácio. Pessoas que se deram conta
de que sua natureza, sua tendência íntima e nada mais era responsável
pela cobiça, inveja, soberba e tantas maneiras mais pelas quais convivemos diante do próximo na família, no trabalho e na sociedade. Como
posso olhar para o céu se sou essa pessoa que eu conheço melhor do que
qualquer outro? Não podemos estar diante de Deus diferentemente de
Paulo: “O querer o bem está em mim. Não, porém, o efetuá-lo”.
A lei de Deus é dura. Ela nos arranca da zona de conforto na qual queremos nos refugiar: “Não matei, não roubei. Ninguém pode me acusar de
nada.” Lutero, Paulo, o publicano, o filho perdido e cada um de nós é chamado a sair da zona de conforto e da falsa imagem de pessoa correta. Mas
esta busca não se destina a aterrorizar. Pelo contrário. O evangelho eterno garante que, quanto maior o pecado que encontramos em nós, tanto
maior é a consciência da própria pecaminosidade, mais intensa e urgente
é a palavra da boa notícia que Deus interpõe entre ele e o pecador.
Essa boa notícia que o mensageiro de Deus tem para dar vai ainda
mais além. Deus anuncia por ele que, além de nos aceitar e perdoar,
Deus ainda nos dá a sua justiça como manto e cobertura. É por isso que
não devemos e não precisamos confiar na nossa capacidade de fazer o
bem. Nem precisamos e não devemos induzir as pessoas a olharem para
nós como se tivéssemos capacidades de fazer o bem que outros não têm.
O nosso desejo e esforço de fazer o bem seria totalmente, ou, melhor, é
totalmente perdido se Deus não completasse e tornasse reais as nossas
intenções de fazermos o bem. É Deus que realiza em nós tanto o querer
como o fazer coisas boas, completa o Apóstolo.
Nem nos damos conta suficientemente de quanto Deus é fiel no aten-
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Dia da Reforma
dimento das nossas orações, especialmente as duas petições finais do
Pai Nosso: “E não nos deixes cair em tentação. Mas livra-nos do mal.”
Ele, em sua misericórdia e amor, não permite que caiamos na tentação
que se abriga em nosso coração. Ele nos dá freios e os aciona para não
cairmos em vergonha e desgraça na dimensão da nossa capacidade de
pecar. A vergonha e todo o mal que permanentemente nos rondam com
apetite de fera esfomeada, segundo a imagem do leão que Pedro oferece,
deixam de ter poder de destruição e de morte que têm sobre a nossa
natureza humana.
Este é o céu para o qual Deus levanta os olhos do Apóstolo João. Ele
agora nos convida a olhar também e nos alegrarmos com a presença do
mensageiro que oferece essa nova vida ao pecador. Sempre é tempo
de olhar para os céus e confessar que nada somos por nós próprios, ao
mesmo tempo em que o coração abriga feliz a palavra fiel do evangelho
que nos cobre de justiça e dignidade. Sempre é tempo de olhar para os
afastados, os desiludidos da igreja, os perdidos da casa de Israel, os caídos, os que estão de luto e convencê-los de que não há mais motivo de
estarem afastados, temerosos, ou em angústia e dúvida. “Em Deus mais
graça temos”, diz o hino.
Ao mesmo tempo é importante descrever com coragem e clareza a natureza humana para que as pessoas não se iludam pensando que a justiça
que ostentam os torna melhores ou superiores a qualquer pessoa cujo erro
é notório. Pois o mensageiro com um evangelho eterno é de todos e de
cada um que abriga a mensagem de consolo no íntimo e nela confia.
Olhar para o céu e reconhecer o evangelho eterno escrito com o sangue do Cordeiro é um privilégio a partir do qual olhamos com novos olhos
para o mundo que nos cerca. Não é mais o mundo com esperanças e
projetos humanos, falíveis e passageiros. Não estamos mais sujeitos a
promessas que nunca se realizam e sempre se repetem. As promessas
agora são promessas de Deus. As garantias são as garantias de Deus. E
sobre o mundo que, no pecado, se encaminha para destruição, vemos o
mundo que vem ao nosso encontro pelas mãos do Cordeiro de Deus. A
paz e a harmonia que nos aguarda, e que já ocupa os nossos corações,
são a paz e harmonia que já tentamos viver e praticar entre nós e, especialmente, com aqueles que ainda queremos ajudar a olhar para o céu
assim como o evangelho eterno nos fez ver o céu.
Sugestão para organização do material
Tema: Reforma, um novo olhar para o céu
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Igreja Luterana
1. Numa realidade marcada pela culpa, veja o evangelho eterno
2. Numa realidade que se encaminha para o juízo, o céu vem ao
nosso encontro.
Paulo Weirich
São Leopoldo, RS
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Antepenúltimo Domingo
do Ano Eclesiástico
Salmo 114, Êxodo 32.1-6 (7-14) 15-20, Romanos 14.7-11, Mateus
24.15-28 ou Lucas 17.20-24 (25-30)
Lucas 17.20-30
Contexto
Lucas inicia seu evangelho dizendo: “[...] conforme nos transmitiram
os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares, e ministros
da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo
Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das
verdades em que foste instruído” (Lc 1.2-4). Como em toda Escritura,
em Lucas fica nítido que o evangelho é universal. Não há barreiras entre
judeus e gentios, entre escravos e libertos, entre homens e mulheres.
Os fatos do capítulo dezessete ocorrem no terceiro ano do ministério de
Jesus, no território da Judéia, onde Jesus passava por cidades e aldeias,
ensinando, e de caminho para Jerusalém (Lc 13.22). Muitas pessoas vinham a Jesus com perguntas, como a que ocorre no início do texto.
Texto
Vv. 20 e 21: Jesus tem à sua frente alguns fariseus. A pergunta
“quando ia chegar o Reino de Deus” os incomoda. Por isso fazem-na a
Jesus. Jesus responde que o Reino de Deus não pode ser identificado visivelmente, mas está “dentro das pessoas”. A palavra grega entós significa
“dentro” ou “entre”. Almeida e NTLH usam o primeiro sentido. O texto
de 1Co 3.16 nos ajuda a clarificar a resposta de Jesus. É importante que
relembremos o “conceito de Reino de Deus”. Algumas peculiaridades no
Antigo Testamento, Novo Testamento e quanto à vinda futura do Reino.
Conceito de Reino de Deus
A Igreja, que é a congregação de todos os crentes entre os quais o
Evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho, participa do reino de Deus. Há uma
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Igreja Luterana
relação pessoal entre Deus como Rei e o indivíduo como súdito. Este
reino de Deus no qual os cristãos participam, e que perpassa todo o Antigo Testamento, manifestou-se de forma toda especial em Jesus. Este
reino está presente nos cristãos hoje e será manifestado em esplendor,
glória e poder no retorno de Cristo. Scharlemann define reino de Deus
dizendo: “O reino de Deus pertence ao plano de nosso Pai Celeste que
ele designou por toda a eternidade como nosso caminho de salvação”.
Lutero, na Segunda Petição, no Catecismo Maior, fala sobre Reino de
Deus dizendo que Deus enviou seu Filho, nosso SENHOR, ao mundo,
para nos redimir e libertar do poder do diabo e nos levar a ele para que
nos governe como rei da justiça, da vida e da bem aventurança, contra
o pecado, a morte e a má consciência. Este reino é independente de
relações temporais e espaciais. Quando pelos meios da graça – Palavra
e Sacramento – a fé invade os corações, pelo poder do Espírito Santo,
o Reino torna-se uma realidade presente, havendo relação pessoal de
Deus com o indivíduo.
Reino de Deus no Antigo Testamento
No Antigo Testamento, Deus é visto, frequentemente, como um Rei
e é dito que ele governa ou governará como Rei. Em nenhuma parte do
Antigo Testamento se encontra a locução “Reino de Deus” como conceito corrente. No entanto, a presença do Reino de Deus está em todo
o Antigo Testamento ativamente na vida de seu povo. Dois textos do
Antigo Testamento são de suma importância para se conceituar “Reino
de Deus”. São os textos de Êxodo 19.5,6 e Daniel 7.22-27. A presença do Reino de Deus entre o seu povo do Antigo Testamento torna-se
evidente em inúmeros atos de livramento e na promessa do “Livramento Maior”. Duas características deste Reino são importantes lembrar:
Como primeira, o Reino de Deus é “graça”. Não vem em resposta aos
feitos dos homens. É inteiramente criação e poder de Deus. Deus escolheu Israel unicamente porque “Ele amou a Israel” (Dt 7.8), nenhum
mérito da parte de Israel havia na escolha. Como segunda característica
deste Reino, o fato de que Deus escolheu habitar com seu povo. O livro
de Êxodo começa com a história da libertação de Israel do Egito e vai
até a construção do Tabernáculo, a tenda do encontro. Ali foi o lugar
que Deus dignou-se a usar como lugar de sua graciosa presença. Pelos
profetas fica claro que o verdadeiro Reino de Deus, em sua plenitude,
viria nos últimos dias.
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Antepenúltimo domingo do ano eclesiástico
Reino de Deus no Novo Testamento
Não se pode falar da presença do Reino de Deus em Jesus sem mencionar João Batista e sua mensagem de “proximidade do reino dos céus”
(Mt 3.2; Mc 1.15). João Batista iniciou seu ministério profético em pleno deserto da Judéia. A temática da pregação era o arrependimento e
o anúncio da proximidade do Reino dos céus. O arrependimento como
transformação do coração e da mente pela pregação da Palavra de Deus,
e a proximidade do Reino dos céus, como concretização da vinda do
Messias. Ou seja, o início dos tempos do fim (Jo 18.36). A pregação de
João Batista era voltada para o Messias. João Batista veio como precursor, anunciando que o Reino de Deus estava próximo. Jesus veio para
proclamar que o Reino de Deus estava presente. Essa vinda presente é
“o mistério do Reino de Deus” (Mc 4.11). O Reino de Deus não vem de
maneira visível, mas absconditamente, através da ação humana de um
semeador. Não pode ser conquistado por obra humana, mas somente
ser encontrado. As parábolas de Jesus sobre o reino se dirigem a todos;
mas apenas os que o seguem compreendem a causa em questão. Jesus
veio como servo de Deus para levar sobre si os pecados da humanidade.
Jesus escolhe um novo povo para levar a mensagem da salvação adiante. Escolhe os discípulos aos moldes do povo do Antigo Testamento, os
escolhe em seu amor para seus propósitos. Eles eram remanescentes em
Israel. A graça de Deus tornou-se manifesta na expansão do Reino por
ocasião do Pentecostes (At 2.1-41). Scharlemann diz que essa comunidade de Pentecostes tornou-se a Igreja como último grande ato redentor
de Deus na história. Deus passou a habitar com seu povo não mais em
tabernáculo, como no Antigo Testamento, mas em “Palavra e Sacramento”. Deste modo, seu domínio tem vindo a nós pelo Evangelho que é
proclamado. A Igreja tem sido criada para vida e nova dimensão de uma
vida feita de amor, paz, paciência, perdão e sofrimento.
A vinda futura de Reino de Deus
O reino de Deus do qual os cristãos do Antigo Testamento participaram, do qual os cristãos do presente participam, não se restringe ao
“já agora”, mas ao “ainda não”, por ser também uma realidade futura.
Desde o Antigo Testamento temos claramente a perspectiva da vinda
futura do Reino de Deus relacionada com a segunda vinda de Jesus, “O
Dia do Senhor” (Dn 7.27) e a criação dos “Novos céus e nova terra” (Is
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65.17). O Antigo Testamento é rico em apontar para o futuro escatológico. O Novo Testamento confirma o Antigo Testamento nesta perspectiva
fazendo alusão desde os evangelhos onde Jesus conta várias parábolas
do reino, passando por várias alusões nas cartas e culminando de forma
especial com as referências do Apocalipse. Um dos textos de referência à
vinda futura do Reino de Deus é o que estamos abordando, com ênfase
para Lucas 17.24.
Vv. 22 a 24: Jesus passa, como diz o texto, a falar “aos discípulos”.
O Reino de Deus está presente na pessoa de Jesus. Têm eles a oportunidade de conviver com ele como discípulos para mais tarde serem designados como apóstolos. É preciso ter cuidado com os falsos profetas e
as falsas mensagens (2Pe 2.1,17). O Dia do Senhor vem repentinamente
como ladrão (2Pe 3.10). Há avisos num crescendo ao longo dos tempos
Mt 24.5-14,37-39; Lc 21.8,18,17; 2Ts 2.3,4). Um incrédulo disse certa
vez a um cristão que testemunhou sua fé falando sobre a segunda vinda
de Jesus: “Vou ficar de olho no que você me falou sobre a volta de Jesus.
Se realmente ele vier, assim que vê-lo vou acreditar”. O v.24 de nosso
texto descarta qualquer possibilidade para tal. Jesus virá repentinamente
e visível a todos. Hebreus 11.1 define bem o que é “fé”.
V. 25: A linha vermelha que perpassa toda a Escritura sobressai aqui,
enfatizando o ápice da “missão do Filho” (Jo 3.16), seu sofrimento “vicário” em favor de toda a humanidade pecadora. O amor de Deus em Cristo
Jesus fica evidente.
Vv. 26 a 29: Nos referidos versículos, Jesus traça um paralelo chamando a atenção para o “dilúvio” (Gn 7.6-24) e a destruição de “Sodoma” (Gn 18.20-19.25). A vida do povo transcorria em uma normalidade
em comer, beber, casar, comprar, vender, plantar, construir, não dando
ouvidos ao alerta de destruição. A oportunidade no dilúvio foi de 120
anos de tempo para arrependimento, até que veio o castigo.
V. 30: Apesar do registro no Antigo Testamento, tanto do “dilúvio”
como da “destruição de Sodoma”, e tendo a Escritura o propósito conforme diz em 2 Timóteo 3.16 “útil para o ensino, para a repreensão, para
a correção, para a educação na justiça”, Jesus deixa claro que muitas
pessoas continuarão em sua normalidade de vida não dando ouvidos ao
chamado ao arrependimento e confiança nele como Salvador e em sua
Palavra por ocasião de sua segunda vinda. Sofrerão o castigo eterno.
Aplicação
O povo de Deus prestes a partir desse mundo a qualquer hora, ou a
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Antepenúltimo domingo do ano eclesiástico
presenciar a volta de Jesus, jamais deve esquecer-se dos grandes feitos
do Senhor para com o seu povo (Sl 114). Cada um é convidado a olhar
para a sua vida e enxergar o que Deus fez em termos de família, Igreja e
sociedade. Reconhecer o que está escrito em Lamentações 3.22,23: “As
misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque
as suas misericórdias não têm fim, renovam-se cada manhã; grande é
a tua fidelidade”. Dias turbulentos o povo do Antigo Testamento passou.
Não é diferente hoje. Não o será no futuro. Por isso é confortador saber,
conforme Mateus 28.20b: “Eis que estou convosco todos os dias até à
consumação do século”. O mau exemplo do povo de Israel ao pé do
monte Sinai, conforme Êxodo 32.1-14, sirva de um exemplo a “não” ser
seguido. Que as palavras de Romanos 14.7-11 sejam o viver dos filhos
de Deus incluídos no “Reino” já desde o “batismo”. Agradecidos pelos
ensinamentos de Jesus de maneira tão clara e com exemplos marcantes,
possamos, em arrependimento e fé, continuar a caminhada de nossas
vidas “preparados”, testemunhando do que “vimos e ouvimos” (At 4.20),
cientes de que: “[...] aquele, porém que perseverar até ao fim, esse será
salvo” (Mc 13.13).
Tema: O Reino de Deus está dentro de vós.
Guilherme Rodolfo Hasse Becker
Cachoeirinha,RS
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Penúltimo Domingo
do Ano Eclesiástico
Salmo 143.1-10, Jeremias 8.4-7, Romanos 8.18-23 (24-25),
Mateus 25.31-46
Mateus 25.31-46
LEITURAS
Salmo 143. 1-10 – Destacamos o versículo 10: “Ensina-me a fazer
a tua vontade”. Temos aqui um apelo em direção à santificação”, que é
o tema doutrinário central do evangelho (Mt 25. 31-46). “Guie-me o teu
bom Espírito” nos remete aos frutos do Espírito (Gl 5. 22) que resultam
naquele tipo de vida que merece o “e-logio” de Jesus (eulogía).
Jeremias 8. 4-7 – O profeta lança um apelo de Deus ao seu povo
no sentido deste povo migrar para o Senhor. Assim como as migratórias
da Palestina, citadas no versículo 7, também o povo é chamado a voltarse para Deus. O motivo da volta vem da consciência que existirá um
julgamento fiel. As premissas do julgamento são clareadas pelo Senhor
em Mt 25.
Romanos 8. 18-23 (24,25) – O apóstolo aponta para o que resta no
final da caminhada da fé (v.17) – seremos glorificados com Cristo. Somos
filhos e herdeiros de Deus. A nossa herança já pode ser administrada
aqui e agora. Todo o benefício do sacrifício de Cristo na cruz já é nosso.
As virtudes esperadas dos filhos de Deus (cf. o evangelho Mt 25) já
podem ser administradas por eles aqui e agora enquanto aguardam o
recebimento da herança final.
Mateus 25. 31-46 – Estamos no contexto do grande discurso
escatológico de Jesus. Jesus está preparando seus seguidores para sua
segunda vinda. O capítulo 24 de Mateus já vem sendo uma preparação
que serve de transição profética para a segunda vinda de Cristo. Jesus
vem falando sobre alguns sinais característicos da sua segunda vinda.
Estes sinais têm um direcionamento proposital: Jesus parte do amplo e
generalizado para o particular. Há aí um convite a não sermos curiosos
apenas com o que acontecerá no universo, ou o que precisa acontecer
fora de nós, mas estarmos atentos ao que precisa acontecer e ao que
vai acontecer efetivamente conosco. A passagem pelo julgamento será
individualizada, os sinais mais extraordinários dos tempos do fim poderão
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Penúltimo domingo do ano eclesiástico
ser os sinais que cada filho de Deus e crente em Cristo poderá deixar em
suas ações.
Texto
V.32: Todos serão reunidos e separados. O conceito aplicado ao verbo
“separar” (chorizo) nos mostra uma separação a partir de diferenças que
possam ser observadas. A separação das pessoas será feita com base
naquilo que foi observado, pelos sinais deixados, pelas coisas feitas, pelo
tipo de vida que levaram. Ovelhas e cabritos serão separados.
Hoje nós andamos juntos e podemos até ser parecidos: misturam-se
cristãos, “meio-cristãos”, não-cristãos, caridosos, benfeitores, solidários e
outros que apresentam sinais externos semelhantes. O “Filho do homem”
conhece a diferença e sabe fazer a separação.
V. 34: Então dirá: “Vinde benditos do meu pai.” Benditos –
“eulogeménoi” – bem–falados, abençoados, de boa moral, e-logia –
elogiados.
Quando Abraão foi chamado para o acordo com Deus e representar
a Igreja, ele ouviu: “Sê tu uma bênção”. O povo de Deus que estará
diante do trono, é esse povo que foi chamado para fazer da sua vida algo
elogiável, que simbolize bênção para quem está no seu convívio. Temos
o convite para sermos uma bênção na vida do próximo, um Cristo na
vida do outro (Lutero). Dos dez mandamentos, sete recomendam um
tipo de vida “elogiável” em relação ao próximo. Serão trazidos para perto
de Jesus estes que podem ser chamados de “eulogeménoi” – benditos,
elogiáveis.
Vv. 35,36: “Pois tive [...] estive [...] era [...]”. Jesus elenca situações
em que se colocam diante de nós oportunidades para fazermos coisas
“elogiáveis”, situações para demonstrarmos amor ao próximo. Jesus está
enumerado as diferentes oportunidades de exercitar a santificação.
Podemos agregar aqui os textos de Romanos 1. 17: “ O justo viverá
da fé” e Tiago 2. 14: “Qual o proveito, irmãos meus, se alguém disser ter
fé mas obras não tiver?” (... a fé se consuma pelas obras... [v. 22]. Crer,
até os demônios crêem [v. 19]).
Jesus é enfático na santificação. Parece muito claro que o tipo de
vida que levamos na prática terá um peso decisivo na hora e no processo
de separação dos “benditos” e dos “malditos”. Jesus está falando das
recompensas, da fidelidade e da prática das obras cristãs. Há aqui um convite
a sermos protagonistas das nossas vidas de filhos de Deus, justificados e
potencializados pelo Espírito Santo. Percebemos também o eco da história
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Igreja Luterana
do Bom Samaritano: “Vai tu e procede de igual modo”.
Temos aqui duas dimensões dos juízos de Deus. O juiz das obras dos
cristãos (1Co 3. 10-17 e 2Co 5.9,10) e o juízo dos ímpios (Ap. 20. 1115). (Confira notas homiléticas da Bíblia Shedd – Vida Nova).
Alcione Eidam
Cachoeirinha, RS
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Último Domingo
do Ano Eclesiástico
Domingo do Cumprimento
Salmo 130; Isaías 65.17-25; 2 Pedro 3.3-4, 8-10ª, 13
ou Apocalipse 21.1-7, Mateus 25.1-13
Mateus 25.1-13
CONTEXTO (CENÁRIO LITÚRGICO, HISTÓRICO)
Uma parábola, contada pelo próprio Jesus, retratando os costumes
judaicos para o casamento.
ÊNFASES, EXPRESSÕES QUE SE DESTACAM, ANÁLISE
Fiquem vigiando...(v.13). Tem como propósito lembrar a importância
de estar preparado para a segunda vinda de Cristo, no juízo final.
PARALELOS, PONTES, PONTOS DE CONTATO
Esse texto aparece somente em Mateus, mas pode ser trabalhado em
paralelo com o texto de Lucas 12.35-37.
TEMA
Fiquem vigiando porque vocês não sabem qual será o dia e a hora
(v.13).
Nesses tempos modernos, uma das regras mais importantes da vida
humana é estar preparado. Estar preparado profissionalmente, psicologicamente, financeiramente, etc. Estar preparado pode ser o diferencial
entre o ter e o perder; entre a vitória e a derrota, entre a vida e a morte. Estar preparado, por exemplo, para um comerciante, pode significar:
estar atento às tendências do mercado. Para um vendedor pode significar: estar atualizado com técnicas de vendas e as necessidades dos
clientes. Estar preparado para um motorista pode significar: estar com a
documentação e o veículo em dia. E, para o cristão, o que significa estar
preparado?
O evangelista Mateus escreve: [...] fiquem vigiando porque vocês não
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Igreja Luterana
sabem qual será o dia e a hora (Mt 25.13). A palavra vigiando tem vários
significados, entre os quais: observar atentamente, espreitar, velar, cuidar, etc. (Minidicionário da Língua Portuguesa – Silveira Bueno). Essas
palavras aplicadas à vida do cristão mostram como deve ser o viver de
um filho de Deus.
A história contada por Jesus, que leva o título A parábola das 10
virgens, é um exemplo clássico do que faziam as moças convidadas, no
momento que antecedia o casamento.
Para que possamos compreender a mensagem do evangelho, precisamos conhecer, primeiro, um pouco da cultura e da tradição do povo judeu
da época de Jesus. Por isso, é importante lembrar que o casamento tinha
três estágios bem distintos:
Primeiro vinha o COMPROMISSO, quando era feito um contrato formal entre os respectivos pais da noiva e do noivo. A este seguia-se o
NOIVADO, cerimônia feita na casa dos pais da noiva, quando promessas
mútuas eram feitas pelas partes contratantes diante de testemunhas, e
o noivo dava presentes à sua prometida. O homem e a mulher ficavam
unidos um ao outro pela cerimônia de noivado, apesar de ainda não serem de fato marido e mulher; na verdade, tão obrigatório era o noivado
que, se o homem morresse durante o período de noivado, a mulher era
considerada viúva; o cancelamento de um noivado não era permitido; se,
porém, acontecesse tal coisa, era semelhante a um divórcio. E, finalmente, depois do transcurso de cerca de um ano, havia o casamento, quando
o noivo, acompanhado dos seus amigos, ia buscar a noiva na casa do seu
pai e a levava em cortejo de volta para sua casa, onde se fazia a festa
de casamento. É bem provável que seja este o cortejo das dez jovens da
história contada por Jesus. Provavelmente elas fossem as damas de honra oficiais da noiva, ou criadas do noivo, ou filhas de amigos e vizinhos
[...] TASKER, R.V.G. Mateus: Introdução e Comentário, p. 184).
Em destaque na parábola contada por Jesus está o fato de essas
jovens não saberem o momento que o noivo iria chegar ao local da festa. Isso exigia que elas ficassem atentas, velando, cuidando... Qualquer
descuido poderia significar um grande vexame e vergonha para elas e
para suas famílias.
É fácil perceber o ponto de ligação da parábola contada pelo Mestre
com a vida do cristão. O crente não só vive uma noite de espera pelo
noivo, mas vive toda a sua vida na espera do momento em que vai se
encontrar com Ele, o seu Salvador. E, assim, como o descuido de algumas
das moças representou um desastroso fim de festa, para nós, cristãos,
o descuido, o “não estar preparado” pode significar um triste, sofrido e
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ùltimo domingo do ano eclesiástico
eterno afastamento da grande festa preparada para os convidados de
Deus, ou seja, a vida eterna no céu.
O cristão, mesmo sabendo que foi chamado pelo Espírito Santo de
Deus a crer e que nada do que ele possa fazer lhe é atribuído como mérito para sua salvação, se preocupa e procura estar preparado. O cristão
leva a sério a advertência do apóstolo Pedro, que diz: Estejam alertas e
fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o Diabo, anda por aí como
um leão que ruge, procurando alguém para devorar (1 Pedro 5.8). Para
o cristão, perder a grande festa no céu é desperdiçar todo o sacrifício
de Jesus em seu favor e em favor de toda humanidade. É subestimar o
Diabo e suas armadilhas.
Estar preparado é, em primeiro lugar, estar ciente de que todos são
pecadores e que os erros e falhas impedem a todos de entrar na vida
eterna. Estar preparado é reconhecer que por esses pecados o ser humano merece nada mais do que o desprezo e a condenação de Deus.
Estar preparado é alimentar o coração e a mente com a palavra de Deus
através de leituras bíblicas, reflexões e a participação de cultos e estudos
bíblicos. Estar preparado é ser capaz de, pela fé e pelo poder do Espírito
Santo, confessar para as pessoas a sua confiança em Jesus. Estar preparado, acima de qualquer coisa, é um estado de confiança, confiança
em Deus.
Uma segunda coisa muito importante que essa parábola nos revela, é
que a salvação é individual, ou seja, eu, com a minha fé, não posso salvar outra pessoa. Isso nos é revelado na resposta à pergunta: Dêem um
pouco de óleo para nós, pois as nossas lamparinas estão se apagando,
que as moças sem juízo fizeram para as moças prudentes. E a resposta:
De jeito nenhum [...] O óleo que nós temos não dá para nós e para vocês
nos lembra de que ninguém vai entrar na vida eterna com o azeite, ou a
fé de outra pessoa.
Assim, por mais que amemos ou gostaríamos de poder salvar, com a
nossa fé, aquelas pessoas que amamos e que estão à nossa volta, mas
que, por um ou outro motivo estão afastadas de Cristo, não podemos. O
que podemos fazer é estimular, animar, motivar e criar oportunidades,
colocando-as em contato com a palavra de Deus, para que o Espírito
Santo possa agir nelas.
Prezados irmãos, as palavras: [...] fiquem vigiando porque vocês não
sabem qual será o dia e a hora (Mt 25.13), ao mesmo tempo que soam
como advertência, nos lembram que o Salvador virá. Isso é sinal de que
aquilo que a Bíblia nos diz é verdade e que as promessas de Deus vão
se cumprir.
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Igreja Luterana
Neste domingo, o último domingo do ano da Igreja – Domingo
do Cumprimento – lembramos também que no próximo final de semana
inicia o período do Advento o qual nos prepara para a primeira vinda de
Jesus, como criança prometida para cumprir a grande missão de Deus,
salvar a humanidade.
Que nós saibamos centrar nossos pensamentos e ações no que,
de fato, é o mais importante: o menino Jesus. E que este Menino encontre a todos preparados, afinal: [...] vocês não sabem qual será o dia e a
hora” (v.13) que o Salvador vai voltar.
Que estas palavras fortaleçam a vossa fé e os animem frente aos
desafios de vossa vida. Em Jesus Cristo, Amém.
Sergio Lauri Patzer
Capão da Canoa, RS
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Ação de Graças
Dia Especial
Salmo 65, Isaías 61.10-11, 1 Timóteo 2.1-8,
Lucas 17.11-19 ou Mateus 6.24-34
Mateus 6.24-34
Contexto
Mt 6.19-34 – Jesus convida seus seguidores para que ponham em
primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer (v.
33). Deus não tolera rivais. Nem riquezas ou dinheiro (vv. 19-24), nem
mesmo as preocupações (vv. 25-34) podem tomar o lugar de Deus e a
confiança nele (Bíblia de Estudo NTLH). A perícope faz parte do Sermão
do Monte, no qual Jesus destaca os privilégios e as responsabilidades
daqueles que são os cidadãos do Reino do Céu.
Texto
Almeida coloca dois títulos para a perícope: para o versículo 24 “os
dois senhores” e para os versículos 25-34 “a ansiosa solicitude pela vida”.
A NTLH coloca a perícope completa sob o título “Deus e as riquezas”.
Jesus nos coloca nesta perícope diante da decisão de servir a Deus
ou servir às riquezas. Para isto faz a comparação de um servo a serviço
de dois senhores. O resultado seria dedicar-se a um e desprezar o outro. A conclusão que Jesus faz a esta comparação é que não é possível
servirmos a Deus e às riquezas ao mesmo tempo. Não há como conciliar
ambas as coisas: se nosso ídolo é a riqueza, então não é possível servir
a Deus.
Segue-se o conselho de Jesus sobre as preocupações com o sustento
da vida. O avarento, apegado ao seu dinheiro, tem falta de confiança
em Deus e esta falta de confiança vai se mostrar numa ansiedade pelos
cuidados da vida. Comida e vestimenta, o necessário para o sustento da
vida, não deveriam nos causar ansiedade. Jesus argumenta do mais importante ao menos importante: “Não é a vida mais do que o alimento, e o
corpo, mais do que as vestes?” Deus, que criou as coisas mais importantes, vai deixar faltar as menos importantes? Preocupação excessiva com
comida e vestuário não somente esquece o Doador de todas as coisas
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Igreja Luterana
como também enfraquece os membros do corpo de maneira que eles não
podem mais cumprir o trabalho rotineiro diário.
Os pássaros fazem muito menos do que é esperado pelas pessoas em
providenciar para o futuro. Eles não têm celeiros onde armazenar alimentos para prevenir-se de uma fome vindoura. Pense, portanto, naquele
que lhes provê alimento e deles cuida. A mesa dos pássaros está, em
certos momentos, repleta de comida daquilo que mais gostam, noutras
vezes têm que se contentar com o que acham. No entanto, eles sempre
têm o suficiente para viverem. Se Deus cuida assim destas criaturas humildes, não há razão para que providencie também para as pessoas que
são seus filhos?
Quão inútil é a ansiedade! Por acaso, pode a ansiedade encompridar
a nossa vida? Por que, então, não deixar isto aos cuidados do nosso Criador? Assim como a ansiedade com a comida é desnecessária, o mesmo
acontece com a ansiedade pela vestimenta. Salomão, que vivia em luxo
incomparável, não teve o esplendor dos lírios do campo. Se Deus cuida
assim da erva do campo, quanto mais não vai cuidar de nossa vestimenta?
Jesus faz a aplicação de seu argumento contra a ansiosa preocupação.
Os lírios, cujas flores nos ensinam uma grande lição, pertencem às ervas
do campo; podem até ser classificados entre as ervas daninhas quando
se avolumam na terra cultivável. Portanto, são de pouco valor dentro da
ordem da criação. No entanto, Deus ornamentou os lírios com uma beleza
incomparável. Deveriam os filhos de Deus se atormentar e ficar ansiosos
por causa de vestuário que necessitam? Ficar atormentado pela preocupação de comida e vestuário é coisa de descrentes. Eles não têm outra
perspectiva de vida senão confiar nestas coisas passageiras, coisas que o
mundo oferece para aqui e agora.
Não há erro nenhum em providenciar comida e vestuário para si e
para a sua família. Também se deve lembrar que o cristão pode passar
por necessidades e, nem por isso, Deus o está desamparando. O erro
está numa preocupação ansiosa pelo sustento da vida sem confiar que
Deus, através do trabalho, vai nos providenciar o necessário para comer
e vestir. “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz,
e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17), diz o apóstolo Paulo. Possuir
a justiça de Deus e ser rico em boas obras, este é um alvo adequado à
ambição cristã.
Cada dia tem o seu próprio mal. Adicionar dificuldades para o dia, na
preocupação do que o amanhã trará, não vai ajudar a resolver os problemas de hoje. É o futuro que nos traz ansiedade. Saibamos colocar cada
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Ação de graças
dia diante de Deus, pois “as suas misericórdias não têm fim; renovam-se
cada manhã” (Lm 3.22-23).
Buscar hoje, em termos práticos, o reino de Deus e sua justiça, é
procurar no seu evangelho a orientação para a nossa vida e receber o
ser perdão no sacramento da Santa Ceia. Seguindo o seu evangelho
também vamos experimentar a companhia acolhedora dos irmãos na fé
que podem socorrer-se mutuamente, assim como a igreja primitiva já
fazia.
[Comentários do texto baseados em Popular Commentary, de Paul
E. Kretzmann, e em Concordia Commentary, de Jeffrey A. Gibbs]
Aplicações Homiléticas
O alvo para o qual aponta o texto é que busquemos em primeiro lugar
o reino de Deus e a sua justiça.
A moléstia que o texto apresenta é a preocupação ansiosa pela
preservação de nossa vida: comida e vestuário.
Os meios que o texto nos mostra é que Deus providencia o sustento
de sua criação.
Proposta Homilética
Busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça
I. A ansiedade pela preservação da vida é própria de descrentes
II. Deus é o Criador e Mantenedor de sua criação
III. A justiça de Deus se revela em ele ter tomado a iniciativa de nos
enviar o Salvador.
Raul Blum
São Leopoldo, RS
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DEVOCIONAIS
NEM VARIAÇÃO, NEM SOMBRA DE MUDANÇA
Tiago 1.12-18
Em nome de Jesus. Amém.
Estimados estudantes do Seminário, funcionários, colegas professores; direção nacional da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, pastores
e membros da IELB, senhoras amigas do Seminário. Estimados colegas
Fernando Garske, hoje oficialmente sendo instalado como capelão do Colégio Luterano Concórdia; e colega Norberto Heine, querido amigo e grande
companheiro de trabalho por vários anos no Seminário, hoje recebendo o
justo reconhecimento da Igreja e do Seminário, com a concessão do título
de pastor emérito do Seminário Concórdia. Queridos irmãos e irmãs.
Nesta abertura de ano letivo do Seminário, uma pergunta: o que
podemos esperar deste ano de 2009? Um ano que começou com inquietações em nível mundial, com reflexos também em nosso país. Um ano
em que a Igreja também tem sérias preocupações com seu ministério,
com a identidade confessional, com a perspectiva de num futuro próximo estar carente de muitos pastores. Que podemos esperar deste ano?
Talvez uma pergunta mais pertinente para o nosso contexto seja esta: o
que podemos – como Seminário Concórdia – esperar de Deus neste ano
letivo de 2009? O apóstolo Tiago, na epístola de hoje, nos dá indicações
para a resposta a esta pergunta.
Ao final do texto ouvido há pouco (nos versículos 17 e 18) somos
confrontados com uma linguagem que nos dirige para a criação. Deus é
o “Pai das luzes”, aquele que criou os luminares, conforme Gênesis 1. A
linguagem de Tiago no versículo 17 lembra fenômenos da astronomia. “Lá
do alto”! “Pai das luzes”! “Variação, sombra de mudança” eram termos
usados na astronomia para referirem-se ao movimento dos astros e a
sombra causada por alguns destes movimentos, particularmente no caso
de um eclipse. Então Tiago diz: ao contrário dos astros celestes, criados
por Deus, o Criador não apresenta mudanças e nele não há sombras.
Chama a atenção que imediatamente antes no texto Tiago fala das
tentações pelas quais nós passamos. Lá ele afirma que Deus não é o
tentador. Sem negar a participação do diabo, Tiago insiste que é a nossa
própria cobiça que nos leva à tentação. Somos mutáveis, volúveis, muito
facilmente levados por ventos da moda. Também no estudo da Teologia e
na vida da Igreja! Em nós há sombras, causadas por mudanças da nossa
inconstância. Tiago nos dá um recado sério: não jogue a culpa em Deus;
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Igreja Luterana
reconheça quem você é!
Então o apóstolo diz: O nosso Deus não muda. Se por um lado o texto
é uma crítica à nossa natureza inconstante, por outro, mais verdade ainda
é sua afirmação da segurança que temos em Deus. Pelo fato de Ele não
mudar, Suas promessas são firmes e seguras. Podemos colocar nele nossa
confiança, pois não seremos enganados, nem frustrados.
É a nossa vaidade e cobiça que trazem a tentação e o pecado. E o
pecado gera a morte, diz Tiago. Deus, em contraste, pela Sua imutável
palavra, gera vida! Ele nos “gerou pela Palavra da verdade”. Usando uma
linguagem típica da criação, Tiago se refere ao nosso novo nascimento,
pelo Batismo. Em Cristo somos novas criaturas, re-criados no batismo
para novidade de vida.
Tiago está nos convidando a, em meio às inúmeras mutações que
presenciamos no mundo e em nós mesmos e em meio à insegurança
causada por mudanças, que reconheçamos que em nosso Pai celestial, o
doador de dádivas boas e preciosas, encontramos a doação mais cara: a
nova vida, gerada pela Palavra.
O que podemos esperar para o ano letivo de 2009? Muita coisa vem
pela frente, com certeza. O texto bíblico de hoje nos orienta sobre duas
coisas muito certas que podemos ter a certeza nos acompanharão na
caminhada deste ano. Uma, as tentações. Segundo Lutero, a oração, a
meditação na palavra de Deus e a tentação fazem o teólogo. E a tentação
tem origem muita clara, uma tríplice origem: o diabo, o mundo, a nossa
carne. Tiago acentua o papel desta última, a nossa própria natureza pecaminosa. É preciso reconhecer isto. Mas ... não devemos olhar demais
para as tentações! Nosso foco deve estar em outro lugar!
A segunda realidade que nos espera com toda a certeza é aquela que
nos acompanha desde nosso batismo, nosso novo nascimento: receberemos dádivas, dons lá do alto. Bênçãos preciosas para a nossa fé e para o
bem-estar em nossa vida e para o desempenho de nossas tarefas. Deus
vai colocar pessoas a nossa volta que nos servirão de apoio, de ânimo e
de conselho na caminhada. Deus vai nos sustentar apesar da realidade
adversa que possa nos cercar. Ele nos dará oportunidades de crescimento
no estudo e no trabalho aqui nesta escola de profetas.
Algumas destas bênçãos podem ser aqui mencionadas, a título de
exemplo. Recebemos há poucos dias a informação de nosso provedor,
pastor Benjamim Jandt, que, a exemplo dos anos anteriores, também
neste 2009, 10 distritos da IELB estão comprometidos em enviar, um a
cada mês, uma oferta especial para a manutenção do Seminário. A Universidade Luterana do Brasil, que como é de conhecimento público, passa
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Nem variação, nem sombra de mudança
por dificuldades, ainda assim continua no seu propósito de oferecer aos
estudantes de Teologia ministeriais a bolsa de estudos total para o curso
na Universidade. Nossa biblioteca recebeu da parte da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil um auxílio especial para supri-la com literatura de que
ainda carecemos. A educação Teológica por Extensão se expande, com
a criação de um grupo de estudos na cidade de São Paulo, em convênio
com a “Hora Luterana – Cristo para Todas as Nações”; e no exterior, além
da continuidade da formação de pastores e diáconos em Angola, se apresenta a oportunidade de estendermos nossa educação teológica também
para Moçambique.
Aqui, bem no nosso meio, nosso querido colega pastor Norberto Heine, que interrompe sua atividade regular e semanal no Seminário, para
nossa alegria se dispõe a continuar prestando um importante serviço de
assessoria psicológica em diversos momentos, especialmente na recepção
de novos alunos. Nosso Colégio Luterano Concórdia, que, a exemplo de
tantas outras escolas particulares, tem diante de si o desafio ano a ano de
manter seus alunos e especialmente a qualidade de ensino, inicia o ano
com um bom número de matrículas e continua investindo num trabalho
pastoral na comunidade escolar, hoje marcado pela instalação do pastor
Fernando.
São bênçãos – e apenas algumas delas. Há muitas outras que já
estamos desfrutando e tantas mais que Deus está preparando para nós.
E ao recebermos tudo isto, no tempo e no modo de Deus, a coisa mais
importante será ... não olhar demais para estas bênçãos! Nosso foco deve
estar em outro lugar.
Neste tempo de quaresma, somos conduzidos a ter o foco não nas
tentações, que certamente virão e nos lembrarão de nossa fragilidade.
Somos conduzidos também a ter o foco não nas bênçãos, que tornarão
nossa caminhada mais agradável. Não, o nosso foco – nossa principal
atenção - estará no doador das bênçãos, no Senhor em quem não há
mudança e que não nos tenta, mas nos preserva, sustenta e dirige em
sua graça.
Nosso foco estará, não só na quaresma, mas em todo o ano letivo de
2009, no gracioso Salvador Jesus. Que foi tentado por nós, e é poderoso
e misericordioso para nos amparar quando nós somos tentados. Que sofreu amargamente o abandono do próprio Deus, por nós, para que nós
não sejamos jamais abandonados, mas vivamos cada dia na certeza de
que o Senhor nos acompanha, nos guarda, nos salva. Por isso, vamos
em frente! Vamos ao trabalho na certeza da graça de Deus, que está
conosco. Amém.
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Mensagem proferida pelo Diretor do Seminário Concórdia, prof. Gerson
L. Linden, no culto de abertura do ano letivo de 2009, no dia 1º de março
de 2009. O culto marcou também a instalação do Rev. Fernando E. Garske
como Capelão do Colégio Luterano Concórdia e a concessão do título de
Pastor Emérito ao Rev. Norberto E. Heine.
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O
AGRICULTOR É DEUS!
João 15.1-7
Vivemos em um mundo de muita cobrança. Um mundo que nos cobra
rapidez, agilidade e produtividade. É comum a empresários demitir algum
funcionário porque este não produziu conforme o esperado. Vivemos
uma epidemia de estresse que é muito maior e mais perigosa do que a
gripe suína ou a febre amarela. Pessoas ficam doentes porque a empresa
estipulou metas muito altas, quase impossíveis de serem atingidas. Um
pastor de certa religião acaba de fechar um templo, pois o lugar não deu
o “retorno” esperado após algum tempo de tentativas...
Neste modelo de mundo em que vivemos, baseado na ação, na cobrança, na produtividade, qual tem sido o papel da igreja de Cristo? Aliás,
quais têm sido os seus planos e expectativas, caros colegas, em relação
ao ministério que estão dispostos a assumir? Será que os seus livros de
cabeceira serão do tipo: “Coloque sua congregação para trabalhar em 30
dias” ou “Pessoas trabalhando como Jesus gosta”? Talvez você sonhe em
encontrar os colegas no futuro em algum Concílio, estufar o peito dizendo: “Minha congregação tem 138 comissões funcionando e as pessoas
não saem da igreja...” Quem sabe os colegas deverão ouvir isto e dizer:
“Esse é o cara!”
Muitos pensam que a igreja deve adaptar-se aos tempos modernos.
Mas será que é realmente correto entrarmos de cabeça neste ativismo
que o mundo nos impõe?
Não estou querendo com esta reflexão incentivar alguém à preguiça. Eu
sei que nós, estudantes, esposas, professores e pastores, sempre temos
muitas coisas para fazer. E eu não quero incentivá-los a ficar mais tempo
dormindo ou deixar os trabalhos acadêmicos de lado. Mas confesso que
me senti bem mais leve nestes últimos dias quando tive a oportunidade
de ler e estudar esta passagem do Evangelho de João. Em especial o primeiro versículo, onde Jesus diz: “Eu sou a Videira verdadeira e meu Pai é
o Agricultor”. Jesus traz uma mensagem de cuidado e tranquilidade para
dentro de um mundo de tanta cobrança.
Quando ele fala sobre videira, ramos e agricultor, eu logo imagino
uma daquelas imensas parreiras lá da Serra Gaúcha. E penso no trabalho do agricultor que plantou o parreiral. Ele colocou a muda na terra,
esperou com paciência, regou, adubou, colocou estacas, estendeu fios e
podou. Tudo isto com um grande objetivo: colher frutos. Seu desejo e
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seu pensamento não estão em outra coisa senão em se deliciar com o
saboroso fruto, ao chegar a época. Quando Jesus diz que ele é a Videira
verdadeira e que nós somos os ramos, ele quer ensinar que aquele que
está unido com ele produzirá muito fruto, fará muita coisa boa. Mas tudo
como consequência do trabalho do Agricultor. Deus é o Agricultor. E ele
trabalha na vinha, poda os ramos, aduba, limpa. Em outras palavras, ele
cuida de cada um de nós, trabalha em nós com sua Palavra, nos guia com
a sua lei, nos perdoa continuamente, relaciona-se conosco através da sua
Palavra e Sacramentos, providenciando tudo o que é necessário para que
possamos permanecer unidos com Cristo e nele produzindo frutos de amor,
fé, paciência, paz, perdão, bondade e misericórdia.
Jesus fala de uma videira produtiva. Mas não são os ramos os responsáveis pela produção. Quem trabalha é o Agricultor. Quem trabalha
é Deus.
Eu sou a Videira Verdadeira e meu Pai é o Agricultor, diz Jesus.
Certa vez Jesus contou uma parábola sobre homens que desejavam
roubar a vinha do agricultor e cultivá-la eles mesmos (Lc 20). Apedrejaram
a todos os enviados e não deram ouvidos nem mesmo ao próprio Filho
que foi mandado para cobrar os frutos. E acabaram sendo destruídos, pois
não entregaram o fruto requerido.
Não vale a pena querer dar uma de agricultor. O agricultor é Deus.
Quem trabalha é Deus. Deixem Deus ser Deus.
E Deus trabalha muito bem. Nas congregações é muito natural ficarmos
preocupados, achando que as coisas não estão andando como deveriam,
que os departamentos não estão funcionando como deveriam, que as
pessoas não estão ofertando, e a solução que muitos encontram é: Lei no
povo! (“Vamos colocar no Estatuto que aquele que não participar de pelo
menos duas assembléias por ano, será excluído!”). Que erro monstruoso
querer que o povo de Deus tome o lugar do Agricultor...
Por outro lado, é confortador saber que os frutos existem e serão
produzidos. Naturalmente serão produzidos. A não ser que alguém esteja
ligado a Jesus com aquela fé a qual Tiago diz que até os demônios têm.
Este, na verdade, nem está ligado. Não pode a árvore boa produzir maus
frutos. E a advertência sobre estas pessoas hipócritas é muito dura: serão
cortadas e lançadas no fogo.
Os frutos que naturalmente a árvore boa produz em seus ramos,
não são aqueles frutos os quais gostamos de enumerar e contar para os
outros dizendo: “Eu fiz isto, eu fiz aquilo, eu não fiz aquele outro”. Mas
aqueles sobre os quais Jesus no último dia dirá: “Tive fome e me destes
de comer, tive sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes, preso
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O agricultor é deus!
e me visitastes”. Ao que os justos responderão: “Quando, Senhor, isto
aconteceu”? (Mt 25) Dirão isto porque, vivendo suas vidas em união com
Cristo, sequer perceberam o bem que faziam.
Os frutos de que o texto fala não são aqueles do fariseu que bate no
peito dizendo: “Eu te agradeço, ó Deus, porque não sou como os demais
homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo
duas vezes por semana e te dou o dízimo de tudo o que ganho”... Mas
sim os do publicano que, arrependido, diz: “Sê propício a mim, pecador”
(Lc 18). E dependia de Deus, tudo esperava de Deus e colocava nele sua
confiança.
Queridos amigos: Não é outra coisa que Deus espera de nós que estamos em Cristo do que isto: um coração arrependido e apegado em sua
graça. Uma vida de dependência e de descanso nele. Como a do salmista
que diz: “Aguardo o SENHOR, a minha alma o aguarda; eu espero na sua
palavra”. (Sl 130). Por isto Jesus não grita: “Frutifiquem, produzam, alcancem as metas”. Como infelizmente hoje em dia muitos fazem, achando
que estão imitando a Cristo. Mas ele diz e, colegas, prestem atenção nisto,
onze vezes em dez versículos (Jo 15.1-10): “Permanecei”. “Permanecei
em mim”. Jesus quer imprimir em nosso coração, quer gravar em nossa
mente a coisa mais importante: “Permanecei em mim e eu permanecerei
em vós”: “Continuamente te alimentarei com minha seiva, com meus
nutrientes, com a minha obra por ti. Continuamente te alimentarei com
minha Palavra, com o meu perdão, com a minha Ceia”.
Quando Jesus diz “permanecei em mim e eu permanecerei em vós”,
ele não está usando figura de linguagem. A figura aqui é a videira e os
ramos. Mas quando Jesus diz que ele permanecerá em nós, ele está sendo extremamente concreto. E nós provaremos isto quando recebermos a
Santa Ceia, o corpo e sangue de Cristo que estará em nós, dentro de nós,
nos garantindo perdão, vida e salvação e fortalecendo nossa ligação, esta
nossa permanência com o Salvador.
Que promessa consoladora Cristo faz aos discípulos que, diante dos
acontecimentos da Semana Santa, estavam angustiados com a iminente
ausência do Mestre que entregaria sua vida. Que promessa consoladora a
nós que o amamos sem tê-lo visto. Ele morre, sim, mas volta a viver. Sobe
aos céus, sim, no glorioso dia da Ascensão (que celebraremos amanhã),
mas não vai embora, antes permanece com a sua Igreja, em sua Palavra
e Sacramentos. Permanece em você e em mim, filhos batizados, fazendo
com que nossas vidas transbordem de frutos verdadeiros.
Meus queridos irmãos, num mundo que continuamente grita: “Vá,
corra, mude, faça”, como é bom ouvir a doce voz de Jesus que diz: “Per-
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maneça! Descanse. Repouse. Eu lhe dou tudo o que você precisa”. E enquanto vivemos nossa vida nesta fé, ligados em Jesus, o Pai vai colhendo
os frutos que deseja e que já havia preparado desde a eternidade. E ele
faz isto de uma maneira silenciosa. Tantas vezes nem percebemos que
através de nós, instrumentos escolhidos, ele vai expandindo seu Reino
da Graça. E se, às vezes, é necessário uma poda ou limpeza, quando se
abate sobre nós o sofrimento e a perseguição, não precisamos temer, pois
estamos nas mãos do Senhor e somos dele.
Colegas, tenho tantas coisas para fazer e sei que vocês também têm.
Muitos nem vieram a este momento devocional atarefados que estão. Mas
que alegria poder parar um pouquinho para lembrar que existe um Agricultor divino que tem cuidado de cada detalhe da sua vinha e tem colhido
frutos grandiosos, mesmo enquanto nós dormimos. Amém!
Mensagem proferida pelo pastor Fernando E. Garske na capela do
Seminário Concórdia, São Leopoldo, em maio de 2009
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