IGREJA LUTERANA Revista Semestral de Teologia Revista Agosto.indd 1 3/9/2009 23:46:48 SEMINÁRIO CONCÓRDIA Diretor Gerson Luis Linden Professores Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luis Linden, Leopoldo Heimann, Paulo Gerhard Pietzsch, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum, Vilson Scholz Professores Eméritos Donaldo Schüler, Paulo F. Flor Pastor Emérito Norberto Ernesto Heine IGREJA LUTERANA ISSN 0103-779X Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil. Conselho Editorial Paulo Proske Weirich (Editor), Acir Raymann, Gerson Luis Linden. Assistência Administrativa Nara Coelho e Cárin Fester A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana e Old Testament Abstracts. Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope com endereço e selado. Solicita-se permuta We request exchange Wir erbitten Austausch Correspondência Revista Igreja Luterana Seminário Concórdia Caixa Postal 202 93001-970 – São Leopoldo/RS Telefone: (0xx)51 3592 9035 e-mail: [email protected] www.seminarioconcordia.com.br Revista Agosto.indd 2 3/9/2009 23:46:49 Índice 5 NOTA AO LEITOR ARTIGOS A PRÁTICA DA SANTA CEIA NA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL NA TENSÃO ENTRE A “TEOLOGIA OFICIAL” E A “TEOLOGIA POPULAR” 07 Paulo Gerhard Pietzsch a importância do catecismo na identidade luterana: aspectos teológicos e práticos depois de 480 anos 103 Clóvis Jair Prunzel AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 119 DEVOCIONAIS NEM VARIAÇÃO, NEM SOMBRA DE MUDANÇA 195 Gerson L. Linden o AGRICULTOR é deus! 199 Fernando E. Garske Igreja Luterana Volume 68 – Junho de 2009 – Número 1 Revista Agosto.indd 3 3/9/2009 23:46:49 Revista Agosto.indd 4 3/9/2009 23:46:49 Nota Ao leitor Este número da Igreja Luterana agradece a Deus e aos autores que tornaram possível esta publicação. Os Auxílios Homiléticos refletem o esforço permanente de somar diferentes experiências de autores e para que na diversidade se amplie e aprofunde o padrão da palavra fiel. Os artigos de fundo deste número buscam o diálogo imediato com a realidade e a experiência das comunidades. O Prof. Dr. Paulo G. Pietzsch acedeu ao pedido da revista de oferecer ao seu público um relato condensado da sua tese de doutoramento. Baseada em grande parte numa pesquisa de campo entre membros da Igreja Evangélica Luterana do Brasil de uma determinada região, a pesquisa traz interessantes e desafiadoras constatações sobre a relação entre o ensino oficial da igreja e aquilo que pessoas dizem crer. O Prof. Clovis J. Prunzel compartilha com os leitores parte do material que tem pesquisado sobre os Catecismos de Martinho Lutero e a sua atualidade e valor na vida cotidiana do povo de Deus. Os Catecismos, Maior e Menor, que passam a impressão de, pela simplicidade de linguagem e abordagem direta do cotidiano, se tornarem página virada na vida das pessoas após o período do ensino confirmatório, neste estudo passam a se vestir de contornos novos e inesperados nas pesquisas recentes que o Prof. Prunzel tem acompanhado e do que, neste artigo, oferece uma abordagem que obriga à reflexão sobre o uso adequado desse instrumento na vida da família e comunidade cristã. Com isto, a revista espera vir ao encontro da reflexão que vem sendo feita por todos que esperam qualificar sempre mais o ensino e a prática nas comunidades cristãs. Paulo Proske Weirich Editor 5 Revista Agosto.indd 5 3/9/2009 23:46:49 Revista Agosto.indd 6 3/9/2009 23:46:49 ARTIGOS A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil na tensão entre a “teologia oficial” e a “teologia popular” Paulo Gerhard Pietzsch1 INTRODUÇÃO GERAL A presente pesquisa faz uma comparação entre a teologia aceita e professada oficialmente na Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) acerca da Santa Ceia e as concepções do povo dessa igreja sobre este assunto. Realiza-se um levantamento das principais concepções sobre a Ceia no âmbito da “teologia oficial”2 e da “teologia popular”3 da IELB e, depois de comparar e interpretar os dados levantados, tiram-se as consequências para a prática litúrgica e pastoral à luz das origens do culto cristão4. Diversas abreviaturas* são utilizadas no texto para indicar as fontes pesquisadas. Paulo Gerhard Pietzsch é professor convidado do Seminário Concórdia, na área de Teologia Prática. O trabalho retrata as linhas básicas de sua tese de doutoramento. 1 Por “teologia oficial” o autor compreende o conjunto de conteúdos teológicos reconhecidos e ensinados pela IELB. 2 Por “teologia popular” o autor apresenta o conjunto de concepções teológicas de homens e mulheres da IELB, pessoas sem instrução teológica formal. 3 Por “origens do culto cristão” entende-se o conjunto das heranças judaicas que tiveram importância para a prática eucarística da igreja antiga, os principais textos do Novo Testamento e escritos dos Pais Apostólicos até o início do terceiro século A.D. Mais detalhes serão expostos no capítulo 4. * AE – Artigos de Esmalcalde Apol – Apologia da Confissão de Augsburgo CA – Confissão de Augsburgo CMai – Catecismo Maior CMen – Catecismo Menor CTCR - Commission on Theology and Church Relations of the Lutheran Church - Missouri Synod (Comissão de Teologia e Relações Eclesiásticas da Igreja Luterana Sínodo de Missouri) CTRE – Comissão de Teologia e Relações Eclesiais FC – Fórmula de Concórdia FC-DS – Fórmula de Concórdia – Declaração Sólida FC-Ep – Fórmula de Concórdia – Epítome ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil IELB – Igreja Evangélica Luterana do Brasil LCMS – Lutheran Church Missouri Synod (Igreja Luterana Sínodo de Missouri) U.I. – Unidade de informação 4 7 Revista Agosto.indd 7 3/9/2009 23:46:49 Igreja Luterana Objetivou-se com esta pesquisa aprofundar os conhecimentos sobre a Santa Ceia, conhecer as concepções das pessoas sobre este assunto e reconhecer tais concepções como manifestações legítimas e relevantes para a vida da igreja. Igualmente, procurou-se identificar semelhanças e diferenças entre a “teologia oficial” e a “teologia popular” no âmbito da IELB e, a partir de um estudo sobre a Eucaristia nas origens do culto cristão, procurou-se enumerar critérios e elementos imprescindíveis para a prática da Santa Ceia. 1 A SANTA CEIA NA “TEOLOGIA OFICIAL” DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL A Santa Ceia ou o sacramentum sacramentorum5, também denominada de “Palavra visível”6, é considerada pela IELB elemento essencial do culto dominical por ser um sacramento instituído e ordenado por Cristo, da mesma forma que o Batismo e a pregação do Evangelho7. Para a “teologia oficial”8 da IELB, a Santa Ceia é uma das grandes dádivas de Deus para a sua igreja. 1.1 A SANTA CEIA: UM SACRAMENTO 1.1.1 Sacramento O termo sacramento não se encontra nas Escrituras e não foi cunhado por Jesus. Significava, originalmente, para os romanos, o juramento que um soldado fazia ao assumir o seu solene compromisso de defender o Império e de ser fiel ao Imperador. Os cristãos, na Igreja Primitiva, ao renunciarem à idolatria e ao prometerem inteira fidelidade a Cristo por ocasião do seu Batismo, faziam desse ato o seu sacramentum, termo que passou a ser aplicado ao próprio Batismo e, mais tarde, também à Santa Ceia9. SASSE, Hermann. Isto é o meu corpo. 2. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003, p. 28,29; SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Porto Alegre / Canoas: Concórdia / Editora da ULBRA, 2002, p. 408: palavra de origem latina que significa “Sacramento dos sacramentos”. 5 SCHÜLER, 2002, p. 476: do latim, verbum visibile. Na Santa Ceia, as palavras de promessa de Cristo ligam seu corpo ao pão e seu sangue ao vinho, por isso ela é chamada de “Palavra visível”. 6 7 MUELLER, John Theodore. Dogmática Cristã. Porto Alegre: Concórdia, 2004, p. 475. IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. O que cremos. Disponível em: <http:// www.ielb.org.br/cremos.htm>. 8 KOEHLER, Edward W.A. Sumário da doutrina cristã. Porto Alegre: Concórdia, 2002, p. 146. 9 8 Revista Agosto.indd 8 3/9/2009 23:46:49 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Na Apologia da Confissão de Augsburgo, os sacramentos são apresentados como “sinais e testemunhos da vontade de Deus para conosco (...) são ritos que têm mandamento de Deus e a que se adicionou a promessa da graça”10. Nessa compreensão, torna-se muito importante a distinção entre sacramento e sacrifício. Por sacramento entende-se um rito instituído por Deus, que oferece graça, fortalecimento, perdão e comunhão11. Neste, a palavra de Deus está ligada a um ato concreto e a meios visíveis, a água no Batismo e o pão e o vinho na Santa Ceia12. No sacramento, a iniciativa sempre será de Deus. Os sacramentos não são simples sinais externos para promover comunhão entre os irmãos ou simplesmente para simbolizar algo que Deus tenha realizado pelas pessoas, mas são meios pelos quais Deus oferece e garante a sua graça ao ser humano13. Os sacramentos, conforme a “teologia oficial” da IELB, são o Batismo e a Santa Ceia, pois, além da instituição divina e do fato de oferecer a graça de Deus ao ser humano, vêm acompanhados de elementos visíveis e ações concretas14. O cristianismo centraliza-se na iniciativa de Deus em salvar a humanidade. Este é o testemunho claro, que Deus em Cristo veio salvar os pecadores. O culto da igreja, por isso, certamente também pode ser caracterizado da mesma maneira15. A iniciativa sempre será de Deus16, pois, conforme as palavras de Lutero, “creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele, mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho”17. A própria Igreja é criação de Deus, pois quando o evangelho é comunicado ou os sacramentos administrados, Deus faz coisas milagrosas. Pelo poder do Espírito Santo, ele opera através desses instrumentos, fazendo santos dentre os pecadores ao criar e manter neles a fé em Jesus Cristo. Essa Igreja é chamada e reconhecida pelo uso do evangelho e dos sacramentos18. No culto e, de forma especial, na Santa Ceia, Deus vem às pessoas Apol 13, 1 [LC 223] 10 SCHÜLER , 2002, p. 408. 11 MUELLER , 2004, p. 475-476. 12 Apol 13, 1 [LC 223] 13 MUELLER , 2004, p. 476. 14 COMISSION ON WORSHIP. Reflections on contemporary / alternative worship. St. Louis: The Lutheran Church Mnod, 1996, p. 2,3. 15 COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 3. 16 CMen, 2 [LC 371] 17 BOHLMANN, Ralph. CTCR. In: Theologians’ Convocation – Formula of Concord. St. Louis: Concordia Publishing House, 1977, p. 60. 18 9 Revista Agosto.indd 9 3/9/2009 23:46:50 Igreja Luterana com seus dons de perdão, vida e salvação. A fé recebe estes dons com agradecimento e louva e exalta o Doador por sua graciosa bondade19. Na liturgia, os dons de Deus são distribuídos ao seu povo20 através da leitura e exposição da palavra e através da celebração da Santa Ceia21. A Santa Ceia não é um sacrifício22 realizado pelas pessoas a fim de obter méritos diante de Deus, mas é, antes de tudo, iniciativa e ação perfeita de Deus em Cristo. Hermann Sasse, na sua teologia dos sacramentos, refuta a idéia da missa como sacrifício ao dizer que “devíamos prestar atenção cuidadosa a esta palavra ‘sacrifício’, a fim de não presumirmos que damos algo a Deus no sacramento, quando é ele quem nos dá todas as coisas”23. Se há sacrifícios da parte do crente, esses são denominados sacrifícios espirituais, de louvor e gratidão a Deus por seus grandes feitos, pois, segundo o autor, o crente aprende que não é ele quem oferece Cristo como sacrifício, mas Cristo se lhe oferece. É lícito e proveitoso denominar a missa um sacrifício, não por sua própria causa, mas porque o crente se oferece a si próprio como sacrifício juntamente com Cristo; isto é, ele apega-se firmemente a Cristo pela fé em seu testamento e aparece diante de Deus com sua oração, louvor, serviço e sacrifício pessoal só mediante Cristo e através de sua mediação24. A “teologia oficial” da IELB (e de igrejas com quem esta mantém “comunhão de altar e púlpito”25) insiste que não são os comungantes, nem mesmo o ministro, que prepara a refeição: Cristo arrumou a mesa e preparou o alimento. O comungante precisa apenas receber, comer e beber em fé26. No Novo Testamento, a Igreja como povo sacerdotal de Deus oferece seus sacrifícios. Essas oferendas, segundo Sasse, são os próprios corpos dos cristãos, isto é, suas vidas inteiras, orações e confissão de fé e as dádivas do amor fraternal, que sempre estiveram intimamente ligadas à Santa Ceia27. COMISSION ON WORSHIP, 1996, p.3. 19 COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 7. 20 COMISSION ON WORSHIP, 1996, p. 11. 21 SASSE, 2003, p. 75. 22 SASSE, 2003, p. 74. 23 SASSE, 2003, p. 75,76. 24 São igrejas luteranas espalhadas pelo mundo e que mantêm unidade doutrinária com a IELB. 25 KOEHLER, 2002, p. 165. 26 SASSE, 2003, p. 30-32. 27 10 Revista Agosto.indd 10 3/9/2009 23:46:50 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... 1.1.2 Verdadeiro corpo e sangue de Cristo Mesmo que a doutrina da presença real possa ser encontrada nas Escrituras e nos pais apostólicos28, a verdade é que a discussão em torno do assunto vem à tona no sínodo de 787. Este, ao reconhecer a veneração de imagens (ícones), incidentalmente rejeitou a resolução do sínodo de 754 que declara que, na igreja, não deveria haver qualquer outra imagem, além dos elementos da Eucaristia. A decisão de 787 pressupunha a doutrina, e assim se entendeu a questão em toda a parte, que o pão e o vinho não são imagens, figuras ou símbolos, mas são o verdadeiro corpo e sangue de Cristo29. O dogma da presença real, no entanto, só foi formal e firmemente estabelecido em 107930. Parece que nenhum outro mistério da fé ocupou, tão completamente, não apenas os cérebros dos teólogos, mas também a imaginação dos leigos31. Para Lutero e seus colaboradores, a doutrina da presença real de Cristo na Santa Ceia, baseada apenas nas palavras da instituição, ia ainda mais longe: era desde sempre um artigo da Cristologia32. Na Santa Ceia, pão e vinho são o corpo e sangue de Cristo33 e, conforme os confessores, em, com e sob o pão e o vinho o corpo e o sangue de Cristo são oferecidos e oralmente recebidos34. Portanto, a Santa Ceia é o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, sob o pão e o vinho35 e, porque o corpo e sangue do Senhor são dados no e sob o pão e o vinho, é que os cristãos atendem à ordem de comer e beber36. A base da “teologia oficial” da IELB para a sua concepção da Santa Ceia são as palavras da instituição. Essas palavras têm a autoridade da Palavra de Deus no sacramento. E quando esta Palavra de Deus é unida aos elementos pão e vinho, ali há um sacramento. Diante desta ênfase é que se afirma que as palavras da instituição devem ser entendidas em seu sentido pleno e literal, e não de forma simbólica ou sentido metafórico37. Segundo o HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 1981, p. 131-132. 28 SASSE, 2003, p. 26,27. 29 SASSE, 2003, p. 28. 30 SASSE, 2003, p. 32. 31 SASSE, 2003, p. 83,84. 32 SCHLINK, E. Theology of the Lutheran Confessions. Philadelphia: Muhlenberg Press, 1961, p. 169. 33 FC 7 [LC 613,614] 34 AE 6 [LC 333,334] 35 FC-DS 7 [LC 617] 36 FC-Ep 7 [LC 519]; FC-DS 6 [LC 617] 37 11 Revista Agosto.indd 11 3/9/2009 23:46:50 Igreja Luterana dogmático John Theodor Mueller, a afirmação da presença real de Cristo na Santa Ceia “não é propriamente uma ‘interpretação’ das palavras da instituição, mas apenas a simples e sincera apresentação da doutrina bíblica exposta nessas palavras”38. O pão consagrado e recebido pelo comungante é o corpo de Cristo e o vinho consagrado e bebido é o seu sangue39. Na concepção da IELB, na presença real é afirmada a presença de Cristo com as duas naturezas, especialmente a humana, pois a divina não estava em discussão. Afirma-se, por isso, que não se trata meramente de uma representação, ou seja, a Santa Ceia não é simplesmente um símbolo40. O sacramento foi instituído para ser usado. A presença de Cristo não se dá no altar para ser apreciada ou adorada pelos fiéis, mas para ser comida e bebida. A Ceia é um ato completo que inicia com as palavras da instituição e estende-se até o momento da recepção oral dos elementos41. É importante ressaltar que nenhuma palavra ou conceituação humana podem dar poder ao sacramento42. O poder também não está nos elementos em si próprios43. O poder é de Cristo e está nas suas palavras, pois o central na celebração da Santa Ceia é a palavra e promessa do Senhor que a instituiu, assim que tudo é feito com base em sua palavra. O poder e a finalidade da Ceia não dependem da fé ou piedade de quem a administra nem da opinião ou fé de quem a recebe44. Na “teologia oficial” da IELB insiste-se, pelos motivos supramencionados, no emprego das palavras da instituição da Santa Ceia, as quais “devem ser faladas ou cantadas publicamente, de maneira distinta e clara, diante da congregação, não se devendo omiti-las de forma nenhuma”45. A insistência nas palavras da instituição46 decorre da afirmação de Cristo “isto é o meu corpo e isto é o meu sangue”47. MUELLER, 2004, p.487,488. 38 SASSE, 2003, p. 87. 39 SEIBERT, Erni. Introdução às Confissões Luteranas. Porto Alegre: Concórdia, 2000, p. 78. 40 SEIBERT, 2000, p. 79. 41 MUELLER, 2004, p. 494,495. 42 FC-DS 7 [LC 621] 43 KOEHLER, 2002, p. 147. 44 FC-DS 7 [LC 620]; MUELLER, 2004, p. 496. 45 PIETZSCH , Paulo Gerhard. A Eucaristia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil à luz das origens do culto cristão. São Leopoldo: IEPG, 2002, p. 175, 180, 189, 193 e 200 (Dissertação de mestrado). 46 MUELLER, 2004, p. 496. 47 12 Revista Agosto.indd 12 3/9/2009 23:46:50 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... A verdadeira presença real do corpo e sangue de Cristo na Santa Ceia não é efetuada pela palavra ou obra de nenhuma pessoa, quer seja o mérito ou a recitação do ministro, quer o comer e o beber ou mesmo a fé dos comungantes48. Tudo isso, ao contrário, deve ser atribuído unicamente à virtude do onipotente Deus e à palavra, instituição e ordenação de nosso Senhor Jesus Cristo49. Nem a fé das pessoas, nem o poder do sacerdócio, nem qualquer influência mágica das palavras pronunciadas, nem gestos realizados fazem do comer e beber uma Santa Ceia ou sacramento, mas unicamente a instituição e ordem de Cristo: “Fazei isto”50. A ênfase na presença real pode ainda ser atestada na própria liturgia. Além do uso imprescindível das palavras da instituição, a Liturgia Luterana51 inclui uma fórmula de distribuição dos elementos aos comungantes, como segue: Tomai, comei; isto é o verdadeiro corpo de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que é dado à morte pelos vossos pecados. (...) Tomai, bebei; isto é o verdadeiro sangue de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que é derramado para remissão dos vossos pecados.52 As palavras dessa fórmula de distribuição ecoam as palavras do Catecismo Menor, de Lutero53 e, ao mesmo tempo, são uma reação à doutrina reformada da representação54. O assunto também recebe ênfase na seguinte oração geral da Igreja: “Concede o teu Espírito Santo a todos os que participam da Santa Ceia hoje para que recebam o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Jesus Cristo em sincero arrependimento e fé confiante”55. Finalizando a explanação acerca da presença real, vale destacar que esta também foi destacada no “Diálogo Interluterano – IELB e IECLB56 – sobre a celebração da Santa Ceia”57. Ambas as igrejas concordam que CMai [LC 488] 48 MUELLER, 2004, p. 494. 49 SCHLINK, 1961, p. 159-162. 50 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Liturgia Luterana. Porto Alegre: Concórdia, 1961. 51 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, 1961, p. 19. 52 CMen 6 [LC 378]. 53 SASSE, 2003, p. 184. 54 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 113 55 Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. 56 IELB e IECLB. Diálogo Interluterano sobre a celebração da Santa Ceia. Porto Ale- 57 13 Revista Agosto.indd 13 3/9/2009 23:46:50 Igreja Luterana a presença real do corpo e sangue de Cristo se dá em, com e sob os elementos do pão e do vinho, e que são recebidos pelo comungante ao comer e beber58. Como acontece essa presença real de Cristo na Santa Ceia é assunto a ser exposto a seguir. 1.1.3 União sacramental Várias têm sido as tentativas humanas de explicar como se dá a presença real de Cristo na Santa Ceia59. Para a Igreja Católica Apostólica Romana60 isto acontece através da transubstanciação61, quando na consagração do pão pelo sacerdote toda a substância do pão é transformada em corpo de Cristo, e na consagração do vinho toda a substância do vinho é transformada em sangue de Cristo: No Sacramento da Eucaristia não permanece a substância do pão e do vinho juntamente com o Corpo e o Sangue do Senhor Jesus, mas se efetua uma admirável e singular conversão de toda a substância do pão no Corpo e de toda a substância do vinho no Sangue, permanecendo apenas as espécies do pão e do vinho, conversão que a Igreja com suma propriedade chama de transubstanciação. 62 Neste caso, para os católicos, apenas as aparências do pão e do vinho permanecem. Tal dogma, aprovado no Concílio Lateranense (1215), foi novamente afirmado no Concílio de Trento (1546-1563)63. Até 1519, Lutero entendia a presença real da mesma maneira que a doutrina oficialmente reconhecida na época, ou seja, a transubstanciação. Mais tarde, no entanto, após profundos estudos e reflexão à base das Escrituras, percebeu que tal concepção não poderia ser aceita por alguém que defendia o Sola Scriptura, Sola Gratia e Sola Fide64. Nos Artigos de Esmalcalde, Lutero assim se pronuncia sobre a transubstanciação: gre / São Leopoldo, 2001. IELB e IECLB, 2001. 58 MUELLER, 2004, p. 487,488. 59 A abreviatura é ICAR. 60 SCHÜLER, 2002, p. 461,462. 61 KLOPPENBURG, Boaventura. A Eucaristia no Concílio de Trento. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, ano 54, fasc. 257, p. 135-143, 2005. 62 KOEHLER, 2002, p. 157. 63 SASSE, 2003, p. 85-87. 64 14 Revista Agosto.indd 14 3/9/2009 23:46:50 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... No que concerne à transubstanciação, temos em nada a sutil sofistaria de ensinarem que pão e vinho abandonam ou perdem sua substância natural, ficando apenas a aparência e cor do pão, não pão verdadeiro. Pois harmoniza-se perfeitamente com a Escritura que o pão esteja e permaneça presente. O próprio São Paulo assim lhe chama: ‘O pão que partimos’ [1 Co 10.16], e: ‘Assim coma do pão’ [1 Co 11.28].65 Na Fórmula de Concórdia, os confessores apresentam o que no seu entender deveria ser refutado na doutrina da ICAR concernente ao sacramento: (...) rejeitamos e condenamos (...) a transubstanciação papista, quando se ensina no papado que o pão e o vinho na Santa Ceia perdem a sua substância e essência natural, sendo reduzidos a nada de modo tal, que são transmutados para o corpo de Cristo, permanecendo apenas a espécie externa.66 A transubstanciação, segundo o reformador Lutero, era uma tentativa filosófica de explicar o milagre da presença real; no entanto, nunca esse erro foi colocado no mesmo nível da retenção do cálice aos leigos67 ou do sacrifício da missa. Enquanto esses erros, para Lutero, destroem o sacramento, a transubstanciação seria apenas uma tentativa equivocada de explicar o milagre da presença real68. Muitos entendiam que ao sacerdote cabia o poder para transformar os elementos visíveis em corpo e sangue de Cristo69. A objeção da parte dos reformadores era que “quanto à consagração, se crê, confessa e se ensina que obra nenhuma de homem nem a recitação efetuam essa presença do corpo e sangue de Cristo na Santa Ceia; isso, ao contrário, deve ser atribuído única e exclusivamente à virtude onipotente de nosso Senhor Jesus Cristo”70. Enquanto a ICAR permanece com o dogma da transubstanciação, as AE 6 [LC 334,335]: Lutero chama a transubstanciação de “fantasia de São Tomás e do Papa”. 65 FC-Ep 7 [LC 521] 66 SASSE, 2003, p. 87. 67 AE 3, 6 [LC 334] 68 MUELLER, 2004, p. 487. 69 FC-Ep 7 [LC 519,520] 70 15 Revista Agosto.indd 15 3/9/2009 23:46:50 Igreja Luterana igrejas zwinglio-calvinistas71 aceitam que pão e vinho naturais estão presentes no sacramento72. Mas quanto às expressões de Cristo “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue”, interpretam-nas em sentido figurado. Para os zwinglianos e para os calvinistas, “pão” significa o corpo. A forma com que se interpretam as palavras de Cristo “isto é o meu corpo e isto é o meu sangue” também determinará a posição doutrinária frente ao sacramento. Lutero as interpretou de forma literal, ou seja, “cremos que pão e vinho na Ceia são o verdadeiro corpo e sangue de Cristo”73. O mesmo posicionamento é mantido pelos confessores na Fórmula de Concórdia: “Cremos, ensinamos e confessamos que na Santa Ceia o corpo e sangue de Cristo estão verdadeira e essencialmente presentes e são verdadeiramente distribuídos e recebidos com o pão e o vinho”. A afirmação seguinte é ainda mais direta ao afirmar: Cremos, ensinamos e confessamos que as palavras do testamento de Cristo não devem ser entendidas de nenhuma outra maneira senão em seu sentido literal, de tal forma que o pão não significa o corpo ausente e o vinho o sangue ausente de Cristo, mas em virtude da união sacramental são verdadeiro corpo e sangue de Cristo74. Outra tentativa de explicar a presença real de Cristo é conhecida por consubstanciação: O corpo e o sangue de Cristo unem-se aos elementos comuns sem que estes deixem de ser pão e vinho. Embora esta teoria seja menos passível de objeção, a idéia de substância ainda está presente, ocultando a presença ativa de Cristo. A teoria da consubstanciação tornou-se parte da teologia luterana nos séculos posteriores à Reforma. É de notar-se, contudo, que a palavra não é encontrada nos escritos de Lutero. Sua constante ênfase na presença real de Cristo vivo e ativo era incompatível com o conceito de substância75. A IELB não ensina a consubstanciação, teoria segundo a qual o pão e SCHÜLER, 2002, p. 245. 71 KOEHLER, 2002, p. 157. 72 AE 3, 6 [LC 333] e CMai [LC 487] . 73 FC-Ep 7 [LC 518,519]. 74 SCHÜLER, 2002, p. 130: “No fim da Idade Média, em oposição à teoria da transubstanciação, foi proposta a da consubstanciação.” 75 16 Revista Agosto.indd 16 3/9/2009 23:46:50 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... o corpo formam uma só substância. Ou que o corpo está presente como o pão, de maneira natural. Também não ensina a impanação, que significa estar o corpo de Cristo localmente incluso no pão76. Rejeita-se, portanto, a afirmação de que a presença real implicaria uma inclusão local ou consubstanciação77, pois essa ordem “comei e bebei” não pode ser entendida senão como relativa ao comer e beber orais. Não, todavia, de modo grosseiro, carnal, senão que de maneira sobrenatural, incompreensível78. Se Cristo está presente no sacramento, que tipo de presença é essa? Esse assunto já foi problema para teólogos da Idade Média, conforme supracitado. As Confissões Luteranas, como se viu, definem de forma mais ampla o modo da presença do Senhor em termos negativos. Negam a teoria da transubstanciação. Negam a mudança de essência, tanto dos elementos terrenos quanto dos celestes. Condenam o confinamento local para o corpo e sangue de Cristo nos elementos terrenos. Elas condenam qualquer tipo de interpretação que sugira uma ausência real do corpo e do sangue do Senhor. Afirma-se a presença real. A pergunta, então, passa a ser: como essa presença é possível? Defende-se, com base em Paulo79, e nos relatos da instituição, que quatro coisas estão real e verdadeiramente presentes na Santa Ceia: pão e vinho, corpo e sangue de Cristo. Tal fenômeno é denominado de “união sacramental”80. Não se trata de uma união natural física ou local dos elementos, mas “supernatural”. Esta só acontece durante o ato sacramental81. Na “teologia oficial” da IELB, considera-se a união sacramental entre o pão e o corpo e entre o vinho e o sangue tão real e íntima que, no ato sacramental, o comungante recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, em, com e sob o pão e o vinho. O pão e o vinho, na verdade, de modo natural, contudo o corpo e o sangue, de modo sobrenatural, incompreensível82. KOEHLER, 2002, p. 161. 76 MUELLER, 2004, p. 494. 77 FC-DS 7, 64 [LC 622] 78 1 Co 10.16: “Porventura o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?” 79 FC-Ep 7, 15 [LC 520]. 80 KOEHLER, 2002, p. 160. 81 MUELLER, 2004, p. 494. 82 17 Revista Agosto.indd 17 3/9/2009 23:46:51 Igreja Luterana Quando essa presença real ou união sacramental acontece? Os livros simbólicos do luteranismo não discutem o momento em que essa união sacramental inicia ou termina, com exceção da afirmação que se encontra na Fórmula de Concórdia, de que ela não acontece à parte do uso instituído do sacramento, ou seja, a consagração, com a autoridade das palavras da instituição, a distribuição e a recepção oral83. Na Santa Ceia, o pão e o vinho são o corpo e o sangue de Cristo. Para que haja a união sacramental é necessário que os elementos naturais sejam realmente distribuídos e recebidos efetivamente pelos comungantes, “pois que a união sacramental se dá somente no ato sacramental e não fora dele”84. Por isso não se aprovam as procissões da hóstia (corpus Christi) por considerar tal ato idolatria. A união sacramental não é realizada pelo ato de o pastor consagrar o pão e o vinho, mas verifica-se apenas no pão e no vinho que se come e se bebe e enquanto são comidos e bebidos. A união sacramental, por isso, cessa com o ato sacramental; ela não continua para além do comer e beber. 1.1.4 Os elementos da Santa Ceia A importância atribuída aos elementos da Santa Ceia na “teologia oficial” da IELB ecoa a ênfase que Lutero conferiu ao uso das duas espécies85 no sacramento. Ao escrever “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”, Lutero relaciona diversos “cativeiros” aos quais o sacramento foi submetido. Justamente o “primeiro cativeiro desse sacramento”86 refere-se à prática da ICAR, que por volta dos séculos XII e XIII passou a administrar o sacramento aos leigos apenas sob a espécie do pão87. O luteranismo, desde o século XVI, tem-se manifestado na defesa do direito dos leigos também ao cálice: Aos leigos são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento, porque é clara a ordem e mandamento de Cristo em Mt 26. [27]: ‘Bebei dele todos’: Cristo aí ordena com palavras claras, a respeito do cálice, que todos bebam dele.88 FC-Ep 7 [LC 520, 523] 83 MUELLER, 2004, p. 492. 84 CMai [LC 432]. 85 LUTERO, Martim. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. São Leopoldo: Sinodal, 1982, p. 23-24. 86 SCHÜLER, 2002, p. 124. 87 CA 22 [LC 41] 88 18 Revista Agosto.indd 18 3/9/2009 23:46:51 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Lutero desejava uma reforma também na Santa Ceia, pois considerava a comunhão sub una specie pecaminosa, pois contradizia a ordem de Cristo. Argumentava-se em favor da comunhão sob as duas espécies, pois, além das palavras da instituição e ordem expressa de Cristo, a prática registrada nas Escrituras foi observada na igreja durante séculos89. O artigo não indica exatamente quando a mudança foi feita. Aparentemente esta já vem desde o séc. XII, pois em uma carta dirigida aos boêmios o cardeal Cusano90 afirma que a suspensão aos leigos vem desde o Quarto Concílio de Latrão (1215)91. Na Apologia da Confissão se afirma que as duas espécies na Santa Ceia pertencem a toda a Igreja92. Por isso, o cálice jamais deveria ser negado aos leigos. Sendo os elementos terrenos no sacramento pão e vinho, espera-se que todos os comungantes recebam ambos93. As confissões não especificam o tipo de pão ou vinho. Historicamente, todavia, os luteranos desejaram depreciar a simbólica associação do pão ao corpo de Cristo e, especialmente, do vinho tinto ao seu sangue, a qual poderia dar a impressão que o corpo e sangue de Cristo estavam sendo meramente simbolizados com pão e vinho. Por esta razão se manteve a hóstia e se deu preferência ao vinho branco ou âmbar, ao invés do vinho sacramental vermelho94. A Santa Ceia tem elementos visíveis que lhe são próprios. De acordo com a CTRE, uma analogia com o Batismo pode ser feita. Assim como a igreja não tem o direito de mudar o elemento usado por Cristo – a água – no Batismo, também não pode fazer em relação aos elementos: Manter o pão e o vinho na Santa Ceia não é fundamentalismo, mas simplesmente fidelidade à instituição do Senhor. Quanto aos elementos, Mt 26.26, Mc 14.22, Lc 22.19, 1 Co 10.17,17; 11.23 falam que Jesus tomou ‘pão’ (artos). Mt 26.29, Mc 14.25 falam em fruto da videira (genematos tes ampelou), referente ao cálice (poterion) – Mt 26.27, Mc 14.23; cf. Lc 22.20; 1 Co 10.16; 11.25.95 SEIBERT, Erni. Introdução às Confissões Luteranas. Porto Alegre: Concórdia, 2000, p. 77,78. 89 90 SCHÜLER, 2002, 163. SEIBERT, 2000, p. 78. 91 AC [LC 250,251] 92 FC-Ep [LC 523]; FC-DS 7 [LC 633] 93 LEHENBAUER, Oscar. O culto principal. Igreja Luterana, São Leopoldo, vol. 51, n. 2, p. 89-92, 1992. 94 LINDEN, Gerson L. Aspectos quanto à administração da Santa Ceia. Igreja Luterana, vol. 60, n. 1, p. 10-11, 2001. 95 19 Revista Agosto.indd 19 3/9/2009 23:46:51 Igreja Luterana Vale destacar que a expressão cálice refere-se ao vinho e que Jesus utilizou-se do vinho por ser essa exatamente a bebida usada na celebração da páscoa. “Vinho é, pois, legitimamente, o referente para a expressão ‘fruto da videira’, no relato da instituição da Santa Ceia”96. Os adversários da Reforma luterana, segundo a Apologia da Confissão de Augsburgo97, eram incapazes de apresentar qualquer argumento com base nas Escrituras para abandonar a ordem e prática do uso dos dois elementos. A opinião dos reformadores era que a única base para o abandono ou negação de uma das espécies aos leigos era a preferência humana e a ambição dos sacerdotes98. Ainda sobre a questão dos elementos externos da Santa Ceia, surge a discussão a respeito da forma de distribuição de ambas as espécies. Uma prática antiga99 é a da intinção, que é o ato em que o ministro, na Santa Ceia, molha ou coloca o pão ou a hóstia, ou fração deles no vinho para então dá-lo ao comungante100. A CTRE, após referir-se à Fórmula de Concórdia101, declara que não existe sacramento fora do uso divinamente instituído102. Diz ainda que, para se ter verdadeiramente a Santa Ceia, é necessária a presença dos elementos usados por Jesus: o pão103 e o vinho104. A intinção, como alteração do comer e do beber105, foge do padrão do uso instituído. Mesmo que possam ser listados vários motivos, tais como a impossibilidade de tomar vinho, racionamento de vinho ou, o que é mais problemático, a crença de que, derramando o vinho, estar-se-ia derramando o sangue de Cristo que teria surgido de uma transubstanciação, tal prática não se justifica106. LINDEN, 2001, p. 11. 96 AC [LC 250] 97 AC [LC 250-253]. 98 SCHÜLER, 2002, p. 253. 99 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 13. 100 FC-DS 7 [LC 622-625] 101 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 13. 102 Não importando o tipo de pão, pois Jesus não o especificou, conforme relatos dos evangelhos e de Paulo. 103 Não importa, igualmente, o tipo de vinho, pois Jesus também não o especificou, conforme relato dos evangelhos e de Paulo. 104 Vejam-se os relatos da instituição da Ceia nos evangelhos e em 1 Co 11. 105 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 13. 106 20 Revista Agosto.indd 20 3/9/2009 23:46:51 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... O parecer da CTRE, aprovado pela 53ª Convenção da IELB107, é de que nenhum dos motivos supracitados justifica a prática da intinção, pois a Santa Ceia não é o único meio da graça. Não é a sua falta que condena, mas o seu desprezo, o que seria o mesmo que desprezar o evangelho. Onde não há vinho, ou mesmo onde se entende que não se deva tomar vinho por motivos clínicos, não haverá Santa Ceia. A pessoa será consolada, perdoada e crescerá na fé pelo anúncio do evangelho108. A intinção, portanto, pelo fato de não corresponder à instituição do comer e beber, não é recomendada pela “teologia oficial” da IELB109. 1.2 A SANTA CEIA: SEUS BENEFÍCIOS Quando se afirma que os sacramentos são “sinais e testemunhos da vontade divina para conosco”110, está-se dizendo que estes são meios pelos quais Deus está transmitindo, comunicando e concedendo à pessoa batizada e ao comungante as bênçãos espirituais prometidas nas palavras da instituição: perdão, vida e salvação111. Os sacramentos são necessários à Igreja, pois não são meros sinais, cerimônias ou ritos vazios, mas agem nas pessoas que deles participam, conforme as palavras e promessas de Deus112. Aquele que crê nestas palavras, mediante a fé tem o perdão de todos os seus pecados, é um filho da vida e já triunfou sobre o inferno e a morte113. Por isso, a Santa Ceia foi instituída com a ordem de ser celebrada sempre. Através de sua nova refeição de libertação, instituída para ser celebrada frequentemente, o Senhor Jesus liberta a humanidade da escravidão espiritual do pecado. É ele quem liberta as pessoas da maldição dos seus pecados e da condenação eterna que elas merecem114. Lutero, ao tratar das finalidades e dos benefícios da Santa Ceia, pergunta e, ao mesmo tempo, indica a resposta: São Leopoldo, 1996. 107 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 14. 108 Não se discute se o corpo e sangue de Cristo podem ou não estar presentes numa intinção. O que se argumenta é que tal prática foge ao uso instituído. 109 KOEHLER, 2002, p. 147. 110 BECK, Nestor L. et al. Confissão da esperança. Porto Alegre: Concórdia, 1980, p. 93. 111 MUELLER, 2004, p. 495. 112 SASSE, 2003, p. 90. 113 MUELLER, 2004, p. 477. 114 21 Revista Agosto.indd 21 3/9/2009 23:46:51 Igreja Luterana Que proveito há nesse comer e beber? – Resposta: Isso nos indicam as palavras: ‘Dado em favor de vós’ e ‘derramado para remissão dos pecados’, a saber, que por essas palavras nos são dados no sacramento remissão dos pecados, vida e salvação. Pois onde há remissão dos pecados, há também vida e salvação115. O dom peculiar da Santa Ceia é, por conseguinte, na exposição de Lutero e também na “teologia oficial” da IELB, perdão dos pecados, vida plena e salvação, ou seja, precisamente a mesma bênção que o evangelho transmite em geral, e o Batismo em particular. O Batismo oferece o perdão dos pecados pela aplicação da água. A Santa Ceia pela recepção, por parte do comungante, do corpo e sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho116. Edward Koehler ressalta, porém, que o perdão e a graça não são oferecidos em porções, ou seja, uma parte na palavra do evangelho, outra no Batismo e outra, por fim, na Santa Ceia: O perdão dos pecados nos é dado no sacramento, não no sentido de que antes não hajamos tido perdão. O crente tem perdão enquanto crê. Também não recebemos novo suprimento de perdão toda vez que nos aproximamos da mesa do Senhor. (...) Ou temos perdão de todos os pecados, ou não temos perdão algum. Ou estamos na graça de Deus, ou não estamos. Também não há diferença no dom, seja ele oferecido no Batismo, na Ceia do Senhor ou no evangelho. Mas há diferença na maneira em que se nos assegura e confirma esse dom da graça. Na Santa Ceia, Cristo trata com o comungante individual e pessoalmente e lhe sela sua promessa de graça e perdão117. A Santa Ceia tem o poder de conferir graça e perdão, conforto e consolo, vida e fortalecimento para a fé, porque são esses os dons conquistados por Cristo, que a instituiu, com sua morte na cruz118. Com o “está consumado” (Jo 19.30), todos esses benefícios foram conquistados por Cristo para toda a humanidade e estão à disposição desta, mas são conferidos através da palavra da salvação e, de forma especial, através da Santa Ceia aos que crêem na palavra de Cristo119. Isto é atribuído CMen [LC 379]. Na CA 13 [LC 34] 115 MUELLER, 2004, p. 499. 116 KOEHLER, 2002, p. 165. 117 KOEHLER, 2002, p. 165. 118 CMai [LC 489]. 119 22 Revista Agosto.indd 22 3/9/2009 23:46:51 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... unicamente ao grande poder de Deus e à palavra, instituição e ordenança do Senhor Jesus Cristo. Pois as verdadeiras e poderosas palavras de Cristo que ele falou na primeira instituição não foram eficazes apenas na primeira Ceia. Elas conservam sua validade, poder e eficácia em todos os lugares em que a Ceia é observada de acordo com a instituição de Cristo e onde suas palavras são usadas 120. A Santa Ceia não apenas traz benefícios à vida dos comungantes, mas também, e especialmente, produz consequências na vida das pessoas. Essas consequências serão destacadas na secção seguinte deste capítulo. 1.3 A SANTA CEIA: SUAS CONSEQUÊNCIAS 1.3.1 Crescimento no amor a Deus e ao próximo Diferentemente da seção anterior, que tratou dos benefícios da Santa Ceia ao próprio comungante, aqui tratar-se-á das consequências do Sacramento na vida cristã santificada. Aqui não se pergunta: “O que eu ganho com isso?”, mas “O que eu posso fazer ou como vou agir a partir da participação na Ceia?” Se a participação da Santa Ceia apenas trouxesse benefícios ao próprio comungante, o motivo de sua participação poderia ser considerado egoísta. Quando o pecador está seguro da graça de Deus para consigo, sua atitude muda. Mueller, fazendo referência a 1 Jo 4.19, enfatiza que se os cristãos podem amar, é porque Deus os amou primeiro. Isso expressa a sua atitude, a sua resposta a Deus121. No sacramento, Deus manifesta seu amor incondicional e imutável às pessoas, apesar das ofensas e repetidos erros que elas cometem. Mesmo onde o pecado acontece reiteradamente, incansavelmente Deus assegura a sua graça perdoadora. Como o pecado esfria o amor, mesmo na vida dos cristãos, a participação da Santa Ceia serve para aquecer o coração no amor divino122, pois na Ceia Deus abre às pessoas seu coração amoroso. Este amor de Deus, na verdade, faz com que o cristão se disponha a viver uma vida piedosa123, pois a fé atua pelo amor124. No sentido vertical, Mueller menciona, como SCHLINCK, 1961, p. 156-157. 120 MUELLER, 2004, p. 501. 121 KOEHLER, 2002, p. 170. 122 MUELLER, 2004, p. 500. 123 Gl 5.16. 124 23 Revista Agosto.indd 23 3/9/2009 23:46:51 Igreja Luterana conseqüência da Santa Ceia, o fortalecimento da fé, o aumento do amor a Deus e a união com Cristo125. Até aqui, as consequências apontadas acontecem mais no sentido vertical, fortalecendo a relação da pessoa com Deus, na piedade, na gratidão e no amor para com a sua palavra e a sua obra. Há, no entanto, também, consequências horizontais da participação na Santa Ceia. Quando, em fé, se participa da Santa Ceia, há um fortalecimento do amor fraternal126. Na vida, há diferenças sociais também entre os cristãos. Mas sempre que as pessoas se aproximam da Mesa do Senhor, cessam essas diferenças. Diante do altar, ninguém pode exaltar-se acima do outro e ninguém pode pensar que é melhor do que o próximo127. O fato de serem todos igualmente culpados128 diante de Deus e igualmente carentes da sua graça, induz o cristão a esquecer as diferenças e a se aproximar mais do seu semelhante. À falta do sacramento é atribuída à timidez no demonstrar maior clemência, bondade e caridade de uns para com os outros. Pela frequência à Santa Ceia, o cristão também é lembrado129 que “mesmo sendo muitos, todos comemos do mesmo pão, que é um só; e por isso somos um só corpo”130. Com grande humildade e gratidão o crente aproxima-se da mesa cujo anfitrião é o Supremo Perdoador e partilha de seu corpo e sangue, purificadores de pecado. Uma vez preenchido com ele, o comungante deve, por sua vez, ser como ele. Seguindo o exemplo de Cristo, o crente também perdoará àqueles que pecam contra ele131. O amor a Deus e ao próximo é consequência da comunhão com Cristo na Santa Ceia. Através da comunhão com Cristo pode-se crescer na vida diária, crescer no amor a Deus, na gratidão e na compreensão de tudo o que Deus oferece ao crente cada vez que este participa da Santa Ceia132. No amor ao próximo, a pessoa cresce quando está consciente do que significa participar da Santa Ceia. A pessoa cristã, ao participar da Ceia, não se contenta simplesmente em conhecer o que é certo e o que é MUELLER, 2004, p. 501. 125 CMai, 4 [LC 488] 126 KOEHLER, 2002, p. 170. 127 Rm 3.23. 128 KOEHLER, 2002, p. 169. 129 1Co 10.17. 130 KOEHLER, 2002, p. 166. 131 MUELLER, 2004, p. 501. 132 24 Revista Agosto.indd 24 3/9/2009 23:46:51 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... errado133. Ela compromete-se a viver e agir correta e coerentemente em toda a sua vida diária134. A seguir, mostrar-se-á que, tanto a participação quanto as consequências desta devem perpetuar-se por toda a vida dos cristãos e em toda a vida da Igreja. 1.3.2 Em memória de Cristo até que ele venha Até o seu retorno visível, a presença invisível de Cristo na Santa Ceia quer lembrar e capacitar os crentes a irem ao encontro daqueles que ainda não fazem parte do seu corpo. Assim como os primeiros cristãos referiam-se à Ceia como alimento dos peregrinos durante a jornada em direção ao seu verdadeiro lar e como alimento da imortalidade, Jesus Cristo vem ao crente em cada Santa Ceia para fortalecer a fé para a jornada e para dar esperança de uma vida que é eterna135. No final da sua última Ceia, Jesus disse aos apóstolos: “Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira até aquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus”136. A promessa dos mensageiros de Deus no dia da ascensão de Cristo ao céu lembrava que “esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir”137. No entanto, o mesmo Cristo, antes de se despedir dos seus, declarou: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”138. A ordem de Cristo “fazei isto” se refere ao que ele acabara de ordenar aos seus discípulos, a saber: “tomai, comei [...] bebei dele todos”. Parece ser isso que os cristãos dos primórdios entenderam com estas palavras, pois Paulo diz: “Porque todas as vezes que comerdes [...] e beberdes [...], anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Lutero entende que a própria palavra “culto” assume o caráter de celebrar a Ceia em memória de Cristo, pois é o próprio Cristo que o ordena, quando diz: fazei isto em memória de mim. Se você quer, então, realizar um culto grande e maravilhoso a Deus e honrar condignamente o sofrimento de Cristo, então reflita e vá LINDEN, 2001, p. 10. 133 KOEHLER, 2002, p. 169. 134 KOEHLER, 2002, p. 161-163. 135 Mc 14.25. 136 At 1.11. 137 Mt 28.20. 138 25 Revista Agosto.indd 25 3/9/2009 23:46:51 Igreja Luterana ao sacramento em que se encontra sua memória, isto é, seu louvor e glória139. 1.4 A SANTA CEIA: O PREPARO PARA A PARTICIPAÇÃO Na “teologia oficial” da IELB dá-se grande ênfase no preparo para a participação da Santa Ceia. Basta verificar nas liturgias e no hinário as exortações e as orações preparatórias para os comungantes140. Já na primeira publicação em português de um hinário e uma liturgia141 havia tais exortações e orações preparatórias para os que desejavam ir à Ceia. Há, também, uma variedade de hinos que abordam a questão da dignidade e do preparo, como o exemplo que segue: Concede eu digno me apresente à tua mesa celestial e guarde sempre a ti na mente, Jesus, meu Fiador leal.[...] As nossas transgressões aqui confessaremos, ó Senhor, e prometemos ante ti servirte fiéis em santo amor. [...] Quando vens à sua mesa, guarda em mente, com certeza: Digno é quem na fé chegar, vida e paz ele há de encontrar.142 Segundo Lutero, Jejuar e preparar-se corporalmente é boa disciplina externa. Mas verdadeiramente digno e bem preparado é aquele que tem fé nestas palavras: Dado em favor de vós e derramado para remissão dos pecados. Ao contrário, quem não crê nessas palavras ou delas duvida, é indigno e não está preparado. É que as palavras ‘por vós’ exigem corações verdadeiramente crentes143. LUTERO, Martinho. Exortação ao sacramento do corpo e sangue de nosso Senhor. In: Obras Selecionadas, v. 7. Porto Alegre / São Leopoldo: Concórdia / Sinodal, 1999, p. 229-231. 139 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 13, 119, 109-111. 140 COMMISSÃO EM PROL DA MISSÃO EV.- LUTHERANA LUSO BRASILEIRA. Hymnos e Orações. Porto Alegre: Agência Concórdia, 1920; IGREJA EVANGÉLICA LUTHERANA DO BRASIL. LITURGIA DA IGREJA EVANGÉLICA LUTHERANA. Porto Alegre: Casa Publicadora Concórdia, (data posterior a 1923, pois antes a Concórdia chamava-se apenas Agência Concórdia), p. 8. 141 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, hinos: 260, 2; 261, 2 e 258, 3. 142 CMen 4 [LC 379] 143 26 Revista Agosto.indd 26 3/9/2009 23:46:52 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... No Catecismo Maior, Lutero enfatiza que “os que querem ser cristãos deveriam preparar-se para receber frequentes vezes o mui venerável sacramento. Pois vemos que é de fato relaxada e negligente a atitude nesse respeito”144. Eis o que se entende por preparar-se dignamente. A fim de participar de maneira digna e abençoada do sacramento, cumpre que a pessoa possa examinar-se para saber: se entende e crê as palavras da instituição, pois deve discernir, distinguir e reconhecer o corpo e sangue do Senhor em, com e sob o pão e o vinho; se reconhece a si mesmo como pecador diante de Deus e está sinceramente entristecido por causa de seus pecados; se sabe o que Cristo fez por ele, se deseja verdadeiramente o perdão e se aplica a si mesmo a promessa de Cristo, crendo que todos os seus pecados estão perdoados; se está disposto a melhorar sua vida e trazer frutos dignos do arrependimento145. Pode-se, portanto, resumir o preparo para a participação da Santa Ceia em verdadeira fé na obra redentora de Cristo e sua presença real no sacramento e crer nos seus benefícios, reconhecimento e verdadeiro arrependimento dos pecados e sincero desejo de viver uma vida de amor e obediência a Deus146. Todo aquele que participa indignamente da Santa Ceia, ou seja, sem crer nas palavras e promessas de Cristo e sem arrependimento sincero dos seus pecados, torna-se réu do corpo e do sangue do Senhor, ou seja, é culpado de profanação do nome de Cristo e de seu corpo e sangue147. Em outras palavras, aquele que participa sem o devido preparo, come e bebe não para a sua justificação e fortificação na fé, mas come e bebe para a sua própria ruína e condenação148. Lutero, porém, ressalta que todo aquele que está fraco na fé e que não se considera digno de participar, justamente para este é que a Ceia foi instituída, pois “nosso Sacramento não se fundamenta em nossa dignidade, pois não nos batizamos como tais que sejam dignos e santos; nem nos confessamos puros e sem pecado; mas, ao contrário, como po- CMai 4 [LC 490] 144 KOEHLER, 2002, p. 166, 167. 145 FC-DS 7 [LC 613] 146 KOEHLER, 2002, p. 167. 147 CMen 7 [LC 379] 148 27 Revista Agosto.indd 27 3/9/2009 23:46:52 Igreja Luterana bres e míseros homens, e precisamente por sermos indignos”149. Até aqui, verificou-se como deve acontecer o preparo para a participação da Ceia e em que isso implica. Na sequência, apresentar-se-á a posição oficial da IELB quanto aos participantes da Santa Ceia, quem são eles e quais as condições ideais para uma participação proveitosa. 1.5 A SANTA CEIA: QUEM PARTICIPA 1.5.1 Os batizados Quando se pergunta quem está habilitado a participar da Santa Ceia, a prática da IELB traz várias recomendações e restrições. Os fundamentos para essas recomendações e restrições são as Escrituras, a praxe normativa da Igreja desde a antiguidade, além dos escritos confessionais da Reforma luterana. A primeira destas recomendações é que os participantes sejam batizados. O Batismo, como um dos sacramentos reconhecidos pela IELB, é o lavar da regeneração cujo efeito é o perdão dos pecados, libertação da morte e do inferno e garantia da vida eterna150. Por causa disso, esse rito não é mero sinal vazio, pois transmite e comunica poder de Deus para a salvação. Lutero, no Catecismo Maior, afirma que “devemos ser batizados sob pena de não sermos salvos”151, e que o efeito do Batismo é para toda a vida152. A referência ao Batismo deve-se ao fato de que “dos cristãos, só se admitirão à mesa do Senhor os que já forem batizados, costume este que remonta à Igreja Antiga”153. Tal requisito deve-se ao fato de ser o Batismo sacramentum initiationis154, pelo qual a fé é gerada155 e mediante o qual se é recebido na família da fé e declarado um filho de Deus156. Como o Batismo opera a fé e a remissão de pecados, livra da morte e do diabo e dá a salvação eterna a quantos crêem157, e por ser uma ação do próprio CMai 4 [LC 492, 493] 149 SCHLINK, 1961, p. 148. 150 CMai 4 [LC 475] 151 CMai 4 [LC 485] 152 MUELLER, 2004, p. 503. 153 Sacramento de iniciação ou de ingresso. 154 MUELLER, 2004, p. 475. 155 KOEHLER, 2002, p. 152-154. 156 CMen 4 [LC 375] 157 28 Revista Agosto.indd 28 3/9/2009 23:46:52 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Deus no ser humano158, a “teologia oficial” da IELB, em consonância com as afirmações supra, declara ser imprescindível à participação da Santa Ceia ser batizado e crer em Cristo como seu Salvador pessoal159. 1.5.2 Os que podem examinar-se sobre sua fé “Examine-se, pois o homem”160 são palavras enfáticas na explanação de Paulo sobre a Ceia do Senhor. O apóstolo diz que se alguém não reconhece o tesouro sagrado que o Senhor oferece aqui, essa pessoa o estará usando de forma inadequada e desagradando ao Senhor. Se uma pessoa crê em coisas contrárias aos ensinamentos de Cristo161, ou está pecando conscientemente ou vivendo um estilo de vida que entra em conflito com os ensinamentos de Cristo162, a participação na Santa Ceia traz o julgamento de Deus163. O auto-exame a fim de participar dignamente do sacramento e receber as suas bênçãos consiste em que todo comungante seja capaz de avaliar-se, conforme supramencionado, quando se falou da importância do preparo para a participação. E quem, segundo a “teologia oficial” da IELB, seriam as pessoas não capazes de se examinarem? Mueller responde: as crianças, as pessoas inconscientes, os doentes em estado de coma e todas as pessoas em estado de insanidade164. Ainda sobre a necessidade da fé para uma participação proveitosa da Santa Ceia, pode-se afirmar que “os que crêem que na Santa Comunhão recebem verdadeiramente o corpo e sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho, recebem-nos para graciosa remissão dos seus pecados”165. Insiste-se que os que não crêem que na Santa Ceia recebem o verdadeiro corpo e sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho para perdão de seus pecados, não deveriam ser admitidos, pois negam a presença real166. CMai 4 [LC 475] 158 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 11. 159 1 Co 11.28,29. 160 MUELLER, 2004, p. 504. 161 MUELLER, 2004, p. 503. 162 MUELLER, 2004, p. 504. 163 MUELLER, 2004, p. 503. 164 MUELLER, 2004, p. 503. 165 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 11. 166 29 Revista Agosto.indd 29 3/9/2009 23:46:52 Igreja Luterana São, ainda, considerados indignos de participar da Ceia aqueles que vão a esse sacramento sem verdadeiro pesar e contrição por seus pecados, e sem verdadeira fé e bom propósito de melhorarem a sua vida. Com seu indigno comer oral do corpo de Cristo, eles põem sobre os seus próprios ombros o juízo, isto é, castigos temporais e eternos, e se tornam réus do corpo e sangue de Cristo167. Finalmente, poderão participar da Santa Ceia todos os que querem viver a sua fé em amor, fato que exclui a todos que vivem em pecados grosseiros, os quais não querem abandonar e dos quais não se arrependem. Também é vedada a participação da Santa Ceia aos que se recusam a perdoar e a reconciliar-se e aos que são culpados de unionismo e sincretismo religioso168. Há que se destacar, porém, que cristãos de fé frágil, cristãos tímidos e perturbados, que estão intimamente assombrados por causa da magnitude e multidão de seus pecados e pensam que nesta sua grande impureza são indignos desse nobre tesouro e dos benefícios de Cristo, percebem sua debilidade em fé, e deploram, e cordialmente anseiam poder servir a Deus com fé mais vigorosa e mais alegre e em obediência pura, esses são os convivas verdadeiramente dignos. Especialmente para eles é que esse venerabilíssimo sacramento foi instituído e ordenado169. Por isso, enquanto que o pastor não deve admitir à Santa Ceia nenhum comensal indigno, precisa cuidar para não impedir os que têm direito a ela170. FC-DS [LC 523]; MUELLER, 2004, p. 503. 167 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais, v. 1, p. 11: “O sacramento deve ser vedado a todos quantos se acham ligados a igrejas em erro e cultos não-cristãos ou anticristãos, cf. Ef 4.1-6; 5.7-11, 2 Co 6.14-18. 168 FC-DS 7 [LC 623]. 169 MUELLER, 2004, p. 503. 170 30 Revista Agosto.indd 30 3/9/2009 23:46:52 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... 1.5.3 Comunhão aberta171 e comunhão fechada172 A participação na Santa Ceia está, de algum modo, ligada à profissão de fé. A IELB não admite a participação de pessoas de outras denominações da Santa Ceia, prática essa denominada de “comunhão fechada”. Em defesa da comunhão fechada, Mueller argumenta: Assim fez Cristo: deixou que a pregação fosse multidão adentro sobre cada um, bem como depois também os apóstolos, de sorte que todos a escutaram, crentes e incrédulos; quem a apanhava, apanhava-a. Assim também devemos nós fazer. Todavia não se deve atirar o sacramento multidão adentro. Ao pregar o evangelho, não sei a quem atinge; aqui, porém, devo ter para mim que atingiu aquele que vem ao sacramento; aí não devo ficar em dúvida, mas ter certeza de que aquele, a quem dou o sacramento, aprendeu e crê corretamente o evangelho173. Linden enfatiza que a Ceia é do Senhor, não é um direito dos homens, mas é uma dádiva de Deus. A instrução na doutrina cristã é importante para que a pessoa que pretende participar do sacramento esteja em efetiva união confessional com o povo de Deus reunido. Divisão na confissão estabelece divisão no sacramento. Além disso, a comunhão fechada traz consigo um aspecto de proteção ao “visitante”. O participar indignamente, a falta do “examinar-se” e de “discernir o corpo”, que estão ligados à instrução na fé, trazem ao participante juízo, ao invés de bênção174. A própria liturgia publicada pela IELB contempla a preocupação com respeito à fé dos participantes ao prever a “exortação”175 ou “alocução confessional”176. Mesmo que estas enfoquem mais aspectos penitenciais e SCHÜLER, 2002, p. 121: Comunhão aberta refere-se à admissão à Santa Ceia de pessoas de outras igrejas presentes no culto. 171 SCHÜLER, 2002, p. 121: Comunhão fechada refere-se à não admissão à Santa Ceia de pessoas pertencentes a outras denominações [também denominada de comunhão reservada]. 172 MUELLER, 2004, p. 502. 173 LINDEN, 2001, p. 7-8. 174 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Hinário Luterano, p. 13. 175 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Liturgia Luterana, p. 9. 176 31 Revista Agosto.indd 31 3/9/2009 23:46:52 Igreja Luterana conduzam à “confissão e absolvição”177, a verdade é que as mesmas procuram levar os participantes do culto à auto-análise e ao exame de consciência, a fim de que todos possam dignamente178 participar do sacramento. 1.6 CONCLUSÃO Na explanação sobre a Santa Ceia na “teologia oficial” no âmbito da IELB, verificou-se que se trata de um sacramento instituído e ordenado por Cristo. Através dele são concedidos benefícios especiais, tais como perdão, paz, aumento e fortalecimento para a fé e esperança nas promessas de Deus. A ênfase nos benefícios parte do princípio de que o sacramento é um ato de Deus em favor da humanidade. É o contrário do conceito de sacrifício ou ação humana para alcançar méritos da parte de Deus. Para tanto, em primeiro lugar, cabe reconhecer no sacramento a iniciativa de Deus por um lado, e a fé que acolhe essa iniciativa de Deus por outro. Um dos grandes desafios do reformador Martinho Lutero foi exatamente o de demonstrar com base nas Escrituras que a Ceia do Senhor é beneficium, é testamentum e não oficium ou sacrificium. A ação graciosa é obra única e exclusivamente de Deus. Por isso, central na Santa Ceia não são a ação ou palavras humanas, mas somente a palavra de Deus. Dentre os benefícios concedidos pela graça de Deus, destaca-se o perdão dos pecados, mediante a fé nas palavras de Cristo “dado por vós e derramado para remissão de pecados”. A fé, portanto, é condição básica para que a pessoa receba os benefícios. Alguns benefícios da participação da Santa Ceia podem ser enumerados, tais como o aumento e fortalecimento da fé, a paz, a esperança escatológica, a comunhão com Deus e a comunhão com o próximo. A pesquisa apontou algumas das consequências da participação da Santa Ceia, tais como o fortalecimento do amor e a prática de boas obras. Uma vez beneficiado pela ação de Deus através do sacramento, o crente passa a viver correta e amorosamente em relação ao próximo e ter uma vida de comprometimento em relação a Deus. Neste sentido, como resposta em gratidão ao amor de Deus, até pode-se usar o termo IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano, p. 13; p. 34; Liturgia Luterana, p. 9. 177 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano, p. 109-111, o “Questionário Cristão” – Compilado pelo Doutor Martinho Lutero para aqueles que tencionam participar da Santa Ceia – é uma opção para o momento da exortação aos possíveis comungantes. 178 32 Revista Agosto.indd 32 3/9/2009 23:46:52 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... sacrifício vinculado à Santa Ceia, mas com o significado de ações de graças, sacrifícios de louvor e como oferta de si próprio como sacrifício juntamente com Cristo. Vale destacar que a autoridade é conferida ao sacramento a partir da instituição divina. Por isso o recitar das palavras da instituição, na “teologia oficial” da IELB, é considerado elemento indispensável quando da celebração da Santa Ceia. A expressão “dado por vós” aponta para uma finalidade individual, ou seja, para os benefícios que cada crente recebe. Por isso, com as bênçãos individuais (perdão, vida, salvação e fortalecimento da fé...) pressupõese uma ação horizontal em direção do próximo. Tudo isso como consequência necessária da ação primeira de Deus em favor da pessoa individualmente. A comunhão fraterna é, pois, também um dos grandes motivos da participação na Santa Ceia. Destaca-se ainda que a Ceia é celebrada em memória de Cristo, não como mera lembrança, mas como algo que tem valor e benefícios para o presente. Além de reafirmar a cada celebração a obra salvadora de Cristo de maneira bem concreta, a Santa Ceia também projeta os pensamentos do participante em direção ao futuro e à certeza do cumprimento das promessas escatológicas de Cristo. Uma das questões que mais rendeu páginas de tratados teológicos refere-se aos elementos visíveis presentes na Santa Ceia. Lutero combateu, com base nas palavras da instituição e em argumentações do apóstolo Paulo, a prática da comunhão sob apenas uma das espécies. Enfatizou que, para a correta administração da Santa Ceia, exigem-se quatro elementos: dois visíveis (o pão e o vinho) e dois invisíveis (corpo e sangue de Cristo). Tal ênfase continua presente na “teologia oficial” da IELB. Também se enfatiza que não há uma transformação dos elementos terrenos em corpo e sangue de Cristo (transubstanciação) por um lado, nem mera representação por outro. Insiste-se na presença real do corpo e sangue em, com e sob as espécies do pão e do vinho. Vale destacar que esta presença real acontece independente da fé do oficiante ou mesmo do comungante. O que se diz é que, mediante a união sacramental, juntamente com os elementos visíveis e sob eles, o comungante recebe o corpo e sangue de Cristo com a boca: os elementos visíveis (pão e vinho) de forma natural e os elementos celestes (corpo e sangue de Cristo) de forma sobrenatural ou supernatural. Quanto aos participantes da Ceia, destaca-se que somente os batizados podem participar. Isto, porque se entende que a Santa Ceia só deve ser dada aos crentes, aos que têm verdadeira fé em Cristo (sacramentum con- 33 Revista Agosto.indd 33 3/9/2009 23:46:52 Igreja Luterana firmationis). Ora, sendo o Batismo, mediante a palavra de Deus e a ação do Espírito Santo, meio que opera a fé e introduz a pessoa no reino e família de Deus (sacramentum initiationis), entende-se o mesmo como imprescindível para a participação na Santa Ceia. A pessoa deve ter condições de examinar-se a si própria a fim de verificar se tem fé verdadeira, arrependimento sincero dos seus pecados, se não vive em escândalo e se está disposta a exercitar a sua vida em amor e serviço a Deus e ao próximo. Finalmente, por entender que a participação do sacramento implica uma confissão de fé em Cristo de uma forma geral e a confissão de fé na Santa Ceia conforme instituída por Cristo de forma particular, mantém-se no âmbito da IELB a prática da comunhão fechada, por se entender que esta tem fundamento nas Escrituras e na praxe normativa dos apóstolos. Resumidamente, pois, se diz que a Santa Ceia deve ser dada aos crentes, que nela se recebe, sim, o corpo e sangue de Cristo e que ela fortalece e estreita ainda mais a comunhão dos santos entre si e destes com seu Senhor. Até aqui a pesquisa trouxe um resumo dos principais conceitos acerca da Santa Ceia na “teologia oficial” da IELB. Na sequência serão apresentados os resultados de uma pesquisa social realizada no âmbito de duas comunidades da IELB. Nessa pesquisa procurou-se descobrir como a “teologia popular” no âmbito da IELB define a Santa Ceia e como as pessoas entrevistadas sentem e experimentam esse sacramento. 2 A SANTA CEIA NA “TEOLOGIA POPULAR” NO ÂMBITO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL (IELB) 2.1 INTRODUÇÃO O presente capítulo é o relatório de uma pesquisa social, que procurou descobrir quais são as principais concepções da “teologia popular” da IELB concernentes à Santa Ceia. Conforme André Droogers, “religiosidade pode ser definida como a vivência da fé que os adeptos de uma religião elaboram”179. As atitudes, comportamento e maneira de pensar são determinados pela sua religião. “Religiosidade popular é a vivência religiosa elaborada, no decorrer da história, por leigos, orientados por sua posição social e atuando fora do DROOGERS, André. Religiosidade popular luterana. São Leopoldo: Sinodal, 1987, p. 179 7. 34 Revista Agosto.indd 34 3/9/2009 23:46:52 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... controle do clero e da instituição igreja”180. Para a presente pesquisa, o que interessa é a distinção entre o que é pregado pela instituição igreja e o que é refletido e vivido no âmbito popular. Substitui-se, aqui, o termo “religiosidade popular” por “teologia popular”, aplicando a este o significado daquele. Algumas características da “teologia popular” podem ser listadas: não é refletida e sistematizada da mesma forma que a “teologia oficial”; são pessoas sem formação específica que produzem uma teologia ou uma reflexão teológica que não é reconhecida pela igreja (instituição) nem pela “teologia oficial”181. O capítulo dois, pois, é resultado da pesquisa social realizada por meio de entrevistas com vinte pessoas, dez do sexo masculino e dez do sexo feminino, de duas comunidades da IELB. O perfil dos entrevistados e das respectivas comunidades, assim como a metodologia empregada, serão descritos abaixo. Procedimentos Metodológicos Na etapa que compreendia a pesquisa social, haveria um grande número de possibilidades de se desenvolver um estudo sobre a Santa Ceia na “teologia popular” no âmbito da IELB. Optou-se, no entanto, por investigá-la no âmbito de duas comunidades do Sul do Brasil, uma do centro de uma cidade da região metropolitana e outra da periferia, seguindo a metodologia de uma pesquisa social qualitativa, a fim de verificar qual a rede de significados presente na “teologia popular”. Nas entrevistas, inicialmente foram sugeridas perguntas suficientemente abertas sobre o assunto em questão, a fim de não induzir as pessoas entrevistadas a determinadas respostas. Todos os depoimentos e respostas foram minuciosamente registrados (gravados e transcritos) e, posteriormente, verificaram-se quais os conceitos e concepções que se destacavam. O propósito foi descobrir o que as pessoas dizem que é, como definem e como experimentam a Santa Ceia. Na presente pesquisa, responderam-se 26 perguntas, as quais foram agrupadas dentro de cinco grandes ênfases: I - Sentido e importância da Santa Ceia; II – O transcorrer da Santa Ceia; III - O lugar em que a Santa Ceia é celebrada; IV – Quem participa da Santa Ceia; V - A atitude dos participantes da Santa Ceia. Dentro de cada uma das cinco ênfases, ao responder as vinte e seis perguntas, houve respostas que se repetiram várias vezes ou que esboçavam conotação semelhante. Estas DROOGERS, 1987, p. 7. 180 DROOGERS, 1987, p. 7, 8. 181 35 Revista Agosto.indd 35 3/9/2009 23:46:53 Igreja Luterana foram denominadas de códigos. Na sequência da pesquisa, poder-se-á perceber que, a cada nova ênfase, surgem novos códigos. No entanto, há certo número de códigos que perpassa todas as cinco ênfases, como por exemplo, “Traz perdão dos pecados” e “É importante preparar-se para participar”. Cada vez que um código é referido, ter-se-á uma unidade de informação (u.i.). As vinte e seis perguntas do questionário, organizadas por ênfases, são as que seguem abaixo: I - Sentido e importância da Santa Ceia 1- Para você, o que é o mais importante na Santa Ceia? 2- Por que essas coisas que você mencionou são importantes? 3- O que você sente ou experimenta ao participar da Santa Ceia? 4- Como você explicaria o significado da Santa Ceia a um não cristão? 5- Como você descreveria a importância da Santa Ceia em sua vida? 6- Em que momentos de sua vida a Santa Ceia é mais presente? 7- Que diferença faz participar da Santa Ceia? 8- O que você crê que recebe na Santa Ceia? 9- A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as outras pessoas? II - O transcorrer da Santa Ceia: tudo o que lembra 10- Com que frequência você vai à Santa Ceia? 11- Como você explicaria o transcorrer da Santa Ceia a um não cristão? 12- Descreva tudo o que você puder lembrar sobre a Santa Ceia. 13- Mencione tudo o que você lembra da última celebração que você participou. 14- Que partes você acha mais importantes na celebração da Ceia do Senhor? Por quê? III - O lugar em que a Santa Ceia é celebrada 15- O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada? 16- Você se sente bem no lugar em que a Santa Ceia é celebrada? 17- O que você acha que poderia ser melhorado no lugar? IV - Quem participa da Santa Ceia 18- Em sua opinião, quem são as pessoas que podem participar da Santa Ceia? 36 Revista Agosto.indd 36 3/9/2009 23:46:53 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... 19- Há, em sua opinião, pessoas que não podem participar da Santa Ceia? 20- Há, em sua opinião, alguma exigência ou requisito para participar na Santa Ceia? V - A atitude dos participantes da Santa Ceia 21- Em sua opinião, quando e com que freqüência se deve ir à Santa Ceia? 22- Em sua opinião, com que atitude as pessoas devem participar da Santa Ceia? 23- O que você gosta nas celebrações da Ceia em sua comunidade? 24- O que você não gosta? 25- O que você acha que poderia ser melhorado? 26- Mencione experiências marcantes que você teve, participando na Santa Ceia. As pessoas entrevistadas O universo pesquisado foi o dos membros de duas comunidades da IELB, uma situada no centro de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre, aqui denominada de “Eucaristolândia” e outra da periferia, denominada de Vila “Partir do Pão”. Entrevistaram-se vinte pessoas no total; dez pessoas de cada uma das comunidades: cinco homens (um com mais de 50 anos; um entre 30 e 49 anos; um entre 20 e 29 anos; um entre 15 e 19 anos; um recém confirmado) e cinco mulheres (uma com mais de 50 anos; 1 entre 30 e 49 anos; 1 entre 20 e 29 anos; 1 entre 15 e 19 anos; 1 entre 12 e 14 anos). Este número não tem pretensão de representatividade. Como é de praxe e de direito, nenhum nome de qualquer pessoa envolvida foi ou será revelado. Os lugares e as pessoas são reais, porém, os nomes, fictícios. Eucaristolândia é uma cidade de porte médio, contando cerca de 180 mil habitantes. Há muitas indústrias e o comércio também é forte. O serviço de saúde é composto de hospital e de vários postos de saúde, além de diversas clínicas particulares. O número de escolas, tanto da rede pública quanto da particular parece ser suficiente para a demanda do município. A população tem à sua disposição desde a Educação Infantil até o nível Superior. As pessoas das comunidades escolhidas para a pesquisa são essencialmente trabalhadores assalariados, sejam eles funcionários de empresas ou de escolas. O perfil das pessoas entrevistadas, tanto as do centro quanto as da periferia, é descrito abaixo (assíduo = 1 vez por semana, frequente = 2 vezes por mês, regular = 1 vez por mês, esporá- 37 Revista Agosto.indd 37 3/9/2009 23:46:53 Igreja Luterana dico = até 6 vezes ao ano, raro = menos de 4 vezes ao ano): Fernando, sexo masculino, 13 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, cursando a 7º série, solteiro, filiado a esta comunidade desde o seu Batismo, é participante frequente. Caetano, sexo masculino, 17 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, com 2° grau completo, solteiro, filiado a esta comunidade desde o Batismo (desde criança), é participante assíduo. Edison, sexo masculino, 26 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é secretário de colégio, universitário cursando pedagogia, filiado a esta comunidade há 4 anos, participante assíduo. Ricardo, sexo masculino, 37 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é bancário, tem 2° grau completo e está iniciando faculdade, casado, filiado a esta comunidade desde criança, participante frequente. Ilmo, sexo masculino, 55 anos, morador do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é comerciante (manutenção predial industrial), tem o 2º grau completo, casado, filiado a esta comunidade desde o seu Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em 04/03/2006. Leomir, sexo masculino, 14 anos, morador da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, está no 1º ano do Ensino Médio (cursando), solteiro, filiado a esta comunidade desde o seu Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em 16/05/2006. João, sexo masculino, 19 anos, morador da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, marceneiro (fabrica móveis), tem o 2° grau completo, solteiro, filiado a esta Comunidade desde o Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em 12/03/2006. Elano, sexo masculino, 27 anos, morador da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em serviços gerais, tem o 2° grau completo (iniciando faculdade), casado, filiado à IELB desde criança pelo batismo e desta comunidade há 2 anos (veio do interior para a cidade), é participante regular, concedeu a entrevista em 12/03/2006. Gerson, sexo masculino, 40 anos, morador da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, é auxiliar de manutenção, tem o 1º Grau completo, casado, filiado à IELB desde criança e desta comunidade há 5 anos, é participante assíduo, concedeu a entrevista em 27/03/2006. Ademir, sexo masculino, 58 anos, morador da periferia, participante 38 Revista Agosto.indd 38 3/9/2009 23:46:53 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... da Comunidade “Da Comunhão”, é conferente – aposentado por invalidez (tem sérios problemas cardíacos), cursou até a 7ª série do 1° grau, casado, é filiado à IELB há 1 ano, era católico e teve uma passagem pela Igreja Adventista, é participante assíduo, concedeu a entrevista em 21/03/2006. Noemi, sexo feminino, 13 anos, moradora do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é estudante, está na 7ª Série do Ensino Fundamental (cursando), solteira, filiada à IELB e a esta comunidade desde o Batismo, é participante frequente, concedeu a entrevista em 02/06/06. Juliana, sexo feminino, 19 anos, moradora do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é auxiliar de secretaria de escola, está cursando a faculdade, solteira, filiada à IELB desde o Batismo e desta comunidade há 6 anos, é participante frequente, concedeu a entrevista em 08/05/2006. Neuza, sexo feminino, 29 anos, moradora do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é contadora (desempregada), tem o 2º Grau Completo, casada, é filiada à IELB desde os 5 anos de idade e desta comunidade há 12 anos, é participante assídua, concedeu a entrevista em 18/03/2006. Ilga, sexo feminino, 42 anos, moradora do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é secretária de escola, cursou o ensino superior, casada, é filiada à IELB desde os 10 anos de idade e desta comunidade há pouco mais de 6 anos, é participante frequente, concedeu a entrevista em 18/05/2006. Carla, sexo feminino, 51 anos, moradora do centro, participante da Comunidade “Do Sacramento”, é contadora, tem ensino superior, divorciada, é filiada à IELB desde os 20 anos de idade (era católica antes) e desta congregação há 18 anos, é participante frequente, concedeu a entrevista em 07/06/2006. Luciana, sexo feminino, 14 anos, moradora da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, 1º ano do Ensino Médio, solteira, é filiada à IELB e a esta Comunidade desde criança (pelo Batismo), é participante assídua, concedeu entrevista em 12/05/2006. Bianca, sexo feminino, 16 anos, moradora da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, é estudante, 1º ano do Ensino Médio, solteira, filiada à IELB e a esta Comunidade desde os 9 anos (veio da Igreja Católica), é participante esporádica, mas tem vontade de participar mais, concedeu a entrevista em 05/06/2006. Maria, sexo feminino, 26 anos, moradora da periferia, participante da 39 Revista Agosto.indd 39 3/9/2009 23:46:53 Igreja Luterana Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em serviços gerais, tem o 1º grau completo, casada, é filiada à IELB e a esta Comunidade há 4 anos (veio da IECLB quando do seu casamento), é participante regular, concedeu entrevista em 19/04/2006. Guilhermina, sexo feminino, 41 anos, moradora da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, trabalha em lavanderia, tem 1º grau completo, casada e mãe de três filhos, é filiada à IELB desde o Batismo e desta Comunidade há 6 anos (veio do interior para a cidade), é participante assídua, concedeu entrevista em 16/05/2006. Clarice, sexo feminino, 54 anos, moradora da periferia, participante da Comunidade “Da Comunhão”, cozinheira, não completou a 5ª série, casada, filiada à IELB há menos de 1 ano, era católica, é participante assídua, concedeu a entrevista em 21/03/2006. Códigos Uma vez transcritas as respostas às 26 perguntas do questionário supramencionado, percebeu-se que vários temas apareciam em quase todas as ênfases da pesquisa. O pesquisador, guiado pelo conteúdo desses temas, aqui denominados de códigos, agrupou-os pela ordem de importância, ou seja, pelo número geral de suas referências ao longo da pesquisa sobre o que é mais importante para as pessoas quando se trata da Santa Ceia. Na ênfase I - Sentido e importância da Santa Ceia (perguntas 1 a 9 do questionário) destacaram-se oito códigos: 1 - Traz perdão dos pecados (119 u.i.); 2 - Traz alívio e paz ao coração (84 u.i.); 3 - É importante preparar-se para participar (62 u.i.); 4 - Ajuda na mudança de atitudes (53 u.i.); 5 - Fortalece e renova a fé (50 u.i.); 6 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (48 u.i.); 7 - Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (34 u.i.); 8 - Receber a Santa Ceia traz salvação (26 u.i.). Na ênfase II - O transcorrer da Santa Ceia: tudo o que lembra (perguntas 11 a 14) destacaram-se também oito códigos: 1 - Lembra dos hinos e da liturgia (47 u.i.); 2 - Traz perdão dos pecados (33 u.i.); 3 - Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (31 u.i.); 4 - É importante consagrar os elementos (29 u.i.); 5 - É importante preparar-se para participar (26 u.i.); 6 - Traz alívio e paz ao coração (23 u.i.); 7 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (21 u.i.); 8 - Lembra da instrução e primeira comunhão (12 u.i.). Na ênfase III - O lugar em que a Santa Ceia é celebrada (perguntas 15 a 17) destacaram-se seis códigos: 40 Revista Agosto.indd 40 3/9/2009 23:46:53 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... 1 - É importante sentir-se bem no lugar da celebração (73 u.i.); 2 - Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (22 u.i.); 3 - É importante preparar-se para participar (12 u.i.); 4 - Traz alívio e paz ao coração (11 u.i.); 5 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (9 u.i.); 6 - Traz perdão dos pecados (9 u.i.). Na ênfase IV - Quem participa da Santa Ceia (perguntas 18 a 20) destacaram-se os seguintes códigos: 1 - É importante preparar-se para participar (42 u.i.); 2 - É importante ser batizado e confirmado (38 u.i.); 3 - É importante andar no caminho certo (25 u.i.); 4 - É importante ser da igreja ou crer no que a nossa igreja ensina (23 u.i.); 5 - Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo (22 u.i.); 6 - Traz perdão dos pecados (11 u.i.); 7 - Todos podem participar (6 u.i.); 8 - Traz alívio e paz ao coração (6 u.i.). Na ênfase V - A atitude dos participantes da Santa Ceia (perguntas 21 a 26) verificaram-se os códigos abaixo: 1 - É importante andar no caminho certo (49 u.i.); 2 - Lembra da instrução e primeira comunhão (43 u.i.); 3 - Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos (38 u.i.); 4 - É importante participar sempre (34 u.i.); 5 - Lembra dos hinos e da liturgia (33 u.i.); 6 - Traz alívio e paz ao coração (31 u.i.); 7 - É importante preparar-se para participar (29 u.i.); 8 - Traz perdão dos pecados (24 u.i.). Hierarquia dos códigos levantados na pesquisa social A hierarquia dos códigos levantados na pesquisa sobre a Santa Ceia na “teologia popular” no âmbito da IELB pode ser evidenciada na tabela abaixo: HIERARQUIA DOS CÓDIGOS LEVANTADOS NA PESQUISA SOCIAL Ordem Unidades de informação Códigos 1 196 Traz perdão dos pecados 2 171 É importante preparar-se para participar 3 164 Traz alívio e paz ao coração 4 142 Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos 5 105 Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo 41 Revista Agosto.indd 41 3/9/2009 23:46:53 Igreja Luterana 6 80 É importante andar no caminho certo 7 78 Lembra dos hinos e da liturgia 8 78 É importante sentir-se bem no lugar da celebração 9 59 Ajuda na mudança de atitudes 10 55 Lembra da instrução e primeira comunhão 11 55 Fortalece e renova a fé 12 38 É importante ser batizado e confirmado 13 33 É importante participar sempre 14 29 É importante consagrar os elementos 15 26 Traz salvação 16 23 É importante ser da igreja ou crer no que a nossa igreja ensina 17 23 Lembra-se de pessoas queridas 18 6 Todos podem participar Outros 166 RESPOSTAS DIVERSAS Total Geral 1527 Passemos à descrição de cada um dos códigos levantados na pesquisa social. 2.2 QUEM PARTICIPA DA SANTA CEIA 2.2.1 É importante preparar-se para participar da Santa Ceia O presente código apresenta uma das condições mais mencionadas para a participação na Santa Ceia ao longo de toda a pesquisa. “É importante preparar-se para participar” é o segundo código mais mencionado no cômputo geral, com 171 u.i. do total de 1527, superado apenas pelo código “Traz perdão dos pecados”, com 196 u.i. As vinte pessoas entrevistadas manifestam explicita e enfaticamente que preparar-se é importante para participar da Santa Ceia. 42 Revista Agosto.indd 42 3/9/2009 23:46:53 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... “É importante preparar-se para participar”, além de ser o segundo código mais referido em toda a pesquisa182, tem uma relação muito próxima com outros códigos. “Preparar-se” consiste em atitudes internas, tais como conhecer os pecados, pensar e pedir perdão em pensamento, e também atitudes concretas externas, tais como buscar por absolvição, confessar pecados, pedir perdão, chegar antes na igreja e fazer oração. “Preparar-se” é, segundo as afirmações supramencionadas, condição básica para participar da Santa Ceia e para que esta traga salvação. É, também, condição para que a pessoa tenha alívio e paz no coração, fortalecimento da fé e comunhão com Deus. Diz-se que participar é importante, mas que é necessário preparar-se para tal. Reforça-se ainda mais que, para receber o perdão dos pecados é necessário fazer algo: preparar-se, arrepender-se, pensar nos pecados, pedir perdão, entregar-se para Deus. Percebe-se um forte componente penitencial e um grande receio de participar sem “estar devidamente preparado”, o que tornaria a participação indigna. É algo concreto e real sobre o qual se pensa, no qual a pessoa se concentra. Articula-se como a busca por renovação e o ato de “pedir perdão pra Jesus”183. Através do código “é importante prepararse para participar” demonstra-se certo temor diante da Santa Ceia, pois participar dela sem esse preparo pode trazer consequências negativas. A preocupação com este assunto é tão grande que, mesmo no caso de perguntas como “Que diferença faz participar da Santa Ceia”184 ou perguntas acerca do local da celebração, uma das respostas foi “é importante preparar-se para participar”185. A ênfase nessa condição é muito mais negativa do que positiva, “pois, se você não estiver arrependido, você recebe a Santa Ceia para sua condenação”186. Fica evidente que, em última análise, o que as pessoas esperam receber na Santa Ceia é o perdão dos seus pecados e livrar-se da condenação. Fazer algo para poder participar aparece como elemento de fundamental importância. 2.2.2 É importante andar no caminho certo (condição) O presente código ocupa o sexto lugar na hierarquia geral das u.i., com oitenta referências do total de 1527, mesmo aparecendo somente na ênfase “quem participa na Santa Ceia”. Nesta ênfase o presente có- Anexo IV, p. 5. 182 Anexo I, p. 10, linhas 31, 32. 183 Anexo II, p. 61. 184 Anexo II, p. 133. 185 Anexo I, p. 1, linhas 22, 23. 186 43 Revista Agosto.indd 43 3/9/2009 23:46:53 Igreja Luterana digo aparece em terceiro lugar187. Percebe-se, assim, a relevância dessa atitude como uma condição para participar da Santa Ceia. As mulheres mostram-se um pouco mais preocupadas com isso do que os homens188. A variável mais significativa é a faixa etária dos 50 anos ou mais, com praticamente o dobro de referências do que a que está em segundo lugar. Os adolescentes ainda não se preocupam tanto com o assunto. Percebe-se, pois, que a vivência e a experiência ajudam a fortalecer a consciência do caminho certo. Não se define propriamente o que é “andar no caminho certo”, mas, valendo-se de situações da vida, as pessoas entrevistadas tentam explicar em que consiste e por que é importante andar no caminho certo. Naturalmente, o presente código tem uma relação próxima com os códigos “é importante preparar-se para participar” e “a Santa Ceia ajuda na mudança de atitudes”. A diferença é que o primeiro fala de condições ou exigências para uma participação proveitosa na Ceia, enquanto que o segundo fala das consequências da participação. Ressalta-se que, para participar da Santa Ceia, deve-se “ir de coração”189, não ir “por obrigação”190 e estar “consciente se pode ou não participar”191. Qualquer pessoa pode participar da Santa Ceia, desde que esteja limpa, aja corretamente e ande no caminho certo. Existem questões de comportamento que impediriam a participação na Santa Ceia, tais como manter uma conduta errada, contrária ao evangelho, e uma persistência na maldade, roubo, crime e prostituição. Mas não seriam as pessoas da congregação que as impediriam de participar. É uma questão íntima entre a pessoa e Deus! À igreja, neste caso, cabe falar que os que estão em situação assim, que se abstenham da participação na Santa Ceia, mas a decisão de participar ou não é delas. Para poder participar tem que ter uma postura correta, uma vida de constante crescimento e de não permanência no erro. Fica claro, portanto, que, mesmo que a grande maioria das pessoas entrevistadas admita que nenhuma pessoa deva ser impedida de participar na Santa Ceia, há, no entanto, uma grande preocupação com as atitudes. Nesse caso, andar no caminho certo se torna, sim, uma das condições para a participação. Mas não são as pessoas da congregação Anexo II, p. 146. 187 Anexo IV, p. 7. 188 Anexo I, p. 62, linha 14. 189 Anexo I, p. 62, linhas 33, 34. 190 Anexo I, p. 59, linhas 20-24. 191 44 Revista Agosto.indd 44 3/9/2009 23:46:54 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... que impedirão alguém de participar, pois se trata de uma questão entre o comungante e Deus. 2.2.3 É importante ser batizado e confirmado O código “é importante ser batizado e confirmado” aparece somente nas respostas às perguntas dezoito a vinte192. Verifica-se, na hierarquia das unidades de informação193, que o presente código aparece apenas em duodécimo lugar194, parecendo ser irrelevante. No entanto, na ênfase “quem participa da Santa Ceia”, ele aparece em segundo lugar195. De acordo com as pessoas entrevistadas, pois, ser batizado e confirmado é condição importante para a participação na Santa Ceia. De acordo com as entrevistas, os habilitados a participar da Santa Ceia devem ser batizados e confirmados. A preocupação com o Batismo e a confirmação parece ter alguma relação com a confessionalidade: dificuldade em admitir pessoas que não sejam luteranas e não tenham sido confirmadas à Ceia196. De maneira geral, porém, as respostas indicam uma maior preocupação com a instrução197, a fim de que os comungantes tenham algum entendimento e conhecimento da palavra, para saber por que estão ali198. Das pessoas entrevistadas, todas, com maior ou menor insistência, manifestam que o Batismo e a confirmação são condições básicas para que se possa participar da Santa Ceia. Ser da igreja, para estas, é secundário. Não há limitação aos que são da igreja (IELB), mas todos os que foram batizados e confirmados têm direito à participação. Aqui não se faz restrição à denominação religiosa da pessoa. Somente duas das vinte pessoas entrevistadas entendem que, para participar da Santa Ceia, tem que ser luterana (IELB). O que, de maneira geral, elas acham é que o Batismo e a Confirmação, ou melhor, a falta destes, seria impeditiva à participação em qualquer igreja. 18 - Em sua opinião, quem são as pessoas que podem participar da Santa Ceia?; 19 - Há, em sua opinião, pessoas que não podem participar da Santa Ceia?; 20 - Há, em sua opinião, alguma exigência ou requisito para participar da Santa Ceia? . 192 Anexo IV, p. 6. 193 Anexo IV, p. 7. 194 Anexo IV, p. 4. 195 Anexo I., p. 56, linhas 1-4. 196 Anexo I., p. 55, linhas 1, 17. 197 Anexo I., p. 56, linhas 15-34. 198 45 Revista Agosto.indd 45 3/9/2009 23:46:54 Igreja Luterana 2.2.4 É importante ser da igreja ou crer no que a igreja ensina199 Ao formular a pergunta: “Em sua opinião, quem são as pessoas que podem participar da Santa Ceia”, procurou-se, em última análise, saber das pessoas entrevistadas se elas defendem uma comunhão aberta200, semiaberta201, semifechada202 ou fechada203. Verificou-se na pesquisa uma variedade de opiniões, uma vez que as perguntas sobre os participantes foram suficientemente abertas para não induzirem as pessoas a determinadas respostas. Nas três perguntas sobre “quem participa da Santa Ceia”, destacaram-se vinte e três respostas relacionadas ao código acima: “É importante ser da igreja ou crer no que a nossa igreja ensina”204. Este código aparece em décimo-sexto lugar na hierarquia das u.i. A sua relevância está no fato de que nove pessoas do total de vinte entrevistadas o mencionaram ao longo da pesquisa. A variável mais expressiva é a da faixa etária que vai dos 30 aos 49 anos. Tem praticamente o dobro de u.i. em relação à soma das demais faixas etárias. Verifica-se, pois, que o adulto maduro está mais preocupado com questões confessionais do que as demais faixas etárias. Os adolescentes sequer fazem referência ao assunto e, dos adultos com mais de 50 anos, apenas uma mulher mencionou esse código. Apenas três pessoas afirmaram categoricamente que ser da mesma igreja é requisito para a participação na Santa Ceia. A partir das respostas das pessoas entrevistadas, verificou-se que 15% delas defendem que a igreja deve manter um regime de comunhão fechada. De maneira geral, aponta-se para a confessionalidade como ingrediente importante para a participação da Santa Ceia. Não esperam necessariamente que todos sejam da sua igreja, mas que aceitem e creiam nas mesmas verdades fundamentais. Participar indica “um testemunho, é um artigo de fé, confessionalidade, porque a Santa Ceia é um “Igreja” aqui corresponde à IELB. 199 Entende-se por “comunhão aberta” aquela em que pessoas de qualquer religião ou até mesmo sem religião nenhuma possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor]. 200 Entende-se por “comunhão semiaberta” aquela em que pessoas das mais diversas denominações cristãs possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor]. 201 Entende-se por “comunhão semifechada” aquela em que pessoas de denominações cristãs doutrinariamente semelhantes possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor]. 202 Por “comunhão fechada” entende-se que somente pessoas da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e/ou Igrejas Luteranas com quem ela mantém protocolo de comunhão de altar e púlpito possam ter acesso à Santa Ceia. [Definição do próprio autor]. 203 Anexo II, p. 146, 147. 204 46 Revista Agosto.indd 46 3/9/2009 23:46:54 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... artigo de fé”205. Esse código também tem relação com o preparo, andar no caminho certo e com a certeza de que na Santa Ceia se recebe o corpo e o sangue de Cristo, que é um artigo de fé. O requisito apresentado para que as pessoas possam participar da Ceia é que tenham a mesma concepção do sacramento e/ou que sejam de fato filiadas à instituição, visto que a Santa Ceia implica uma confissão de fé. 2.2.5 Todos podem participar O presente código aparece apenas seis vezes nas respostas à pergunta número vinte: “Há, em sua opinião, alguma exigência ou requisito para participar na Santa Ceia?”206 Na hierarquia dos códigos, ele aparece em décimo-oitavo lugar (último lugar). Se fosse considerado apenas o total das unidades de informação (1527), este código não teria razão de existir. Mas, considerando-se que a IELB é uma igreja que oficialmente mantém um regime de comunhão fechada e que, do total de vinte pessoas entrevistadas, seis manifestaram-se favoráveis à participação de todos da Santa Ceia, por si só, isto justifica a apreciação deste código na presente pesquisa. Para as pessoas que responderam com esse código, qualquer pessoa pode participar, desde que tenha vontade, queira ir de coração e não seja obrigada a nada. Estas podem ser caracterizadas como defensoras de uma “comunhão aberta”, em que não há impedimento algum para a participação de qualquer pessoa na Santa Ceia, independente de denominação religiosa. 2.3 BENEFÍCIOS DA PARTICIPAÇÃO DA SANTA CEIA 2.3.1 Traz perdão dos pecados 2.3.1.1 Introdução A partir da pesquisa social, descobriu-se que o assunto mais lembrado quando se fala em Santa Ceia é “traz perdão dos pecados”, com 196 u.i.207 Este código é referido nas respostas às vinte e seis perguntas do questionário. Anexo I, p. 56, linha 9. 205 Anexo II, p. 162, 163. 206 Cf. Capítulo 2: Hierarquia dos códigos levantados na pesquisa social. 207 47 Revista Agosto.indd 47 3/9/2009 23:46:54 Igreja Luterana Os homens manifestam mais intensamente do que as mulheres sua preocupação com os pecados. Pode-se afirmar, a partir destes dados, que os homens das comunidades pesquisadas têm uma visão mais penitencial da Santa Ceia do que as mulheres ou têm maior sentimento de culpa do que as mulheres. A mesma situação ocorre entre as mulheres do centro em relação às da periferia. Quanto às faixas etárias, a mais penitencial situa-se entre 20-29 anos, seguida pelos de 15-19 anos, depois 30-49 anos e mais de 50 anos (empatados) e, por último, a faixa que vai dos 12-14 anos (os recém-confirmados). Um último dado também é significativo: as pessoas da periferia têm uma tendência a uma visão mais penitencial da Santa Ceia do que as pessoas do centro. 2.3.1.2 O que são “pecados” Não se define “pecado” como o faz a “teologia oficial”, mas expressam-se algumas idéias do que significa “pecados”208 a partir de situações concretas da vida. “Pecados” são descritos como coisas bem reais e concretas, que provocam tristeza e acabam deprimindo. Além disso, ofensa contra as pessoas, ira, raiva, são coisas que atrapalham, perturbam e que fazem mal209. Provocam preocupação, sentimento de culpa e julgamento210, especialmente se a pessoa participar da Santa Ceia “sob aqueles pecados”211. Usando-se de experiências da vida, de situações concretas, de sentimentos e de fórmulas que aprendem na igreja, as pessoas evidenciam que “pecados” são coisas graves. Fica claro, através de toda a pesquisa, que pecados, falhas, “pobleminhas”212, são coisas que preocupam e que ocupam as mentes das pessoas entrevistadas no seu dia-a-dia, especialmente quando o assunto é a participação da Santa Ceia. 2.3.1.3 O que é “perdão dos pecados” A partir das respostas ao questionário da pesquisa social, pode-se entender “perdão dos pecados” como algo real (“livrar-se, pensa muito, você sente”), mas que se consegue articular principalmente em fórmulas O uso do plural evidencia que não há uma preocupação filosófica de definir o conceito teológico “pecado”, mas simplesmente falar de coisas práticas, de acontecimentos. 208 Anexo I, p. 45, linhas 12-19. 209 Anexo I, p. 49, linhas 23-27. 210 Anexo I, p. 17, linhas 7,8. 211 Anexo I, p. 26, linha 34. 212 48 Revista Agosto.indd 48 3/9/2009 23:46:54 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... que se aprende na igreja213. O que chama a atenção é que para receber o perdão dos pecados há, segundo os entrevistados, necessidade de se fazer algo, ou seja, preparar-se, arrepender-se, confessar pecados, reconciliarse com Deus e com as pessoas. Não havendo estas condições, a Ceia é recebida “para sua condenação”214. Outro dado relevante é que a maioria manifesta que está preocupada com os seus próprios pecados e, estando isso resolvido, está tudo bem215. Referências ao aspecto comunitário da Santa Ceia são quase inexpressivas, há uma preocupação muito mais individualista do que comunitária. Perdão dos pecados é, portanto, descrito como algo concreto, que se busca, que se recebe e que vem da parte de Deus. Traz conseqüências práticas para a vida, tais como renovação e alegria, provoca sensações de bem-estar e leva a ações concretas, tais como fazer o que é correto, andar no caminho certo e a mudar de atitudes. Perdão dos pecados é algo necessário para que as pessoas possam sentir-se bem, livres das cargas e pesos, das manchas e angústias. É algo que vem de Deus, mas que é exercitado e articulado pelas pessoas. Fica claro que as pessoas, ao sentirem-se perdoadas por Deus, por sua vez, também se sentem motivadas a perdoar as falhas e ofensas do próximo. A pesquisa torna evidente que a busca pela Santa Ceia se dá especialmente diante da angústia pelos pecados cometidos, o sentimento de culpa e a tristeza. Há, no entanto, algumas condições para receber o perdão desses pecados: sentir, pensar, reconhecer o erro, estar triste, preocupar-se e arrepender-se desses pecados. Isto fica evidenciado através das seguintes referências: “é necessário estar ciente de que fez coisas erradas e examinar-se”216, estar triste e deprimido pelos pecados cometidos, estar arrependido daquilo que fez217; é preciso sentir218, pensar e se preocupar219; é necessário “não negar isso que Cristo está te dando”220. Sair da Santa Ceia sem a certeza do perdão “faz muito mal, é pior do que se não tivesse recebido, parece que Deus estava ali com o dedo na minha cabeça”221. Anexo I, p. 1, linhas 4, 5,10, 16,26, 27 e p. 2, linha 6, 23. 213 Anexo I, p. 1, linhas 21-24. 214 Anexo I, p. 1, linhas 10-15. 215 Anexo I, p. 15, linhas 6, 7. 216 Anexo I, p. 15, linhas 29-33 e p. 16, linhas 1-7. 217 Anexo I, p. 16, linha 8. 218 Anexo I, p. 17, linha 7. 219 Anexo I, p. 19, linha 25. 220 Anexo I, p. 45, linhas 15-24. 221 49 Revista Agosto.indd 49 3/9/2009 23:46:54 Igreja Luterana A partir das manifestações supramencionadas, fica evidenciada a cooperação222 ou o mérito das pessoas na obtenção do perdão de Deus. Também que é algo implícito no ser humano, ou seja, que “se regenerar, se arrepender”223 é o motivo para Deus perdoar os seus pecados. 2.3.2 Recebe-se o corpo e o sangue de Cristo O presente código é referido ao longo de toda a pesquisa e, hierarquicamente, ocupa o quinto lugar no cômputo geral das unidades de informação. Observando-se o quadro acima, percebe-se que a variável gênero não tem maior importância neste caso específico. As faixas etárias dos 15-19 anos e 50 anos ou mais e as pessoas da periferia é que fazem a diferença no cômputo geral. As pessoas que fizeram referência ao “corpo e sangue de Cristo” não dizem claramente o que entendem pela expressão. É interessante que elas tentam responder à pergunta com a repetição de fórmulas que aprendem na igreja, e a menção ao corpo e sangue de Cristo é seguida da recomendação de que tem que acreditar. Não há maior reflexão ou definição do que isto significa, nem a preocupação de tentar explicar como isso acontece ou como é possível. Evidencia-se, no entanto, que é algo para sentir e experimentar e crer, não para definir. Corpo e sangue de Cristo é mais do que somente pão e vinho; as pessoas dizem que é algo verdadeiro, mas há a necessidade de acreditar, portanto, um artigo de fé. As pessoas parecem entender que é no corpo e sangue de Cristo que se manifesta a presença de Deus, ou seja, é uma das maneiras como Deus se manifesta às pessoas. E para receber o corpo e o sangue de Cristo, deve-se fazer algo, especialmente abrir mão de muita coisa. Há uma relação muito próxima deste código com “traz perdão dos pecados”, “traz alívio e paz ao coração” e “é importante preparar-se para participar”224. As respostas indicam que se recebe o corpo e sangue de Cristo para o perdão dos pecados e para ter alívio e, vale destacar que, para isso ser possível, é importante preparar-se. A questão dos elementos que são distribuídos na Santa Ceia também foi assunto de depoimentos das pessoas entrevistadas. Há uma vinculação direta do “pão” com o corpo e do “vinho” com o sangue. Não receber SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002, p. 430: “Sinergismo – do grego ‘sunergeo’ – eu coopero”. 222 Anexo I, p. 31, linha 14. 223 Conferir no Anexo I, p. 1, 2, os depoimentos dos entrevistados 1, 7 e 20. 224 50 Revista Agosto.indd 50 3/9/2009 23:46:54 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... um deles é receber a Ceia pela metade, incompleta. “Corpo e sangue de Cristo” é descrito como real, apesar de se ver só o pão e o vinho. As pessoas entrevistadas não parecem estar tão preocupadas com os elementos recebidos na Santa Ceia, mas com os benefícios e com o que é preciso fazer para obter esses benefícios. Falando ainda dos elementos visíveis, há uma menção ao vinho branco225. Parece mais a lembrança de um detalhe litúrgico, hóstia e vinho branco, do que a preocupação se o vinho deveria ser tinto ou de outra cor qualquer. Não há unanimidade sobre como é possível receber o corpo e o sangue de Cristo juntamente com o pão e o vinho. O que parece unânime nas respostas é que a partir da consagração se tem o corpo e o sangue de Cristo. A valorização ou o sentir-se bem no local da celebração dá-se pela certeza de que lá se recebe o corpo e sangue de Cristo. O lugar sempre será bom desde que se tenha a certeza de estar recebendo o verdadeiro corpo e sangue de Cristo226. As pessoas entrevistadas entendem que para poder participar é importante acreditar que na Santa Ceia se recebe o verdadeiro corpo e sangue de Cristo juntamente com o pão e o vinho, e que isso não é simplesmente uma representação. É uma questão de acreditar227 e a preocupação em não tomar para o próprio juízo228. Crer que na Santa Ceia se recebe o corpo e sangue de Cristo torna a pessoa apta a participar da Santa Ceia, independente de denominação religiosa. 2.3.3 Traz salvação Por ter uma vinculação muito próxima com o código anterior, “traz perdão dos pecados”, o código “traz salvação” é aqui exposto como uma consequência daquele. Hierarquicamente, este código está apenas em décimo-quinto lugar no quadro geral, com vinte e seis u.i. do total de 1527. Não há propriamente uma explicação sobre o que se entende por “salvação”. Parece, no entanto, que participando da Santa Ceia se tem assegurada a salvação. “Salvação” é algo que se busca229, no qual se pensa e que se pede230, é Anexo I, p. 40, linha 29. 225 Anexo II, p. 126-132. 226 Anexo I, p. 58, linhas 7-10. 227 Anexo I, p. 59, linhas 14-16. 228 Anexo I, p. 10, linhas 31, 32. 229 Anexo I, p. 11, linhas 7. 230 51 Revista Agosto.indd 51 3/9/2009 23:46:54 Igreja Luterana aquilo que Cristo fez pelas pessoas e ao qual se deve retribuir231. O que fica evidenciado é que se trata de uma busca individual (“pra minha salvação”232) e algo que se espera. Para recebê-la, é preciso que se faça algo, como participar, “permanecer cristã”233 e “estar preparada”234. Salvação é articulada como algo que se recebe através do corpo e sangue de Cristo. Pensa-se não só em benefícios presentes, mas também futuros: “salvação eterna” e “mais tarde”235, “é a vida, a esperança, a vida eterna”236. É evidente a articulação do código através da fórmula que se aprende na igreja. No entanto, evidencia-se que, além de pensar no aspecto transcendental da vida, também se pensa naquelas coisas que perturbam, sufocam e causam mal-estar no dia-a-dia. Isto é motivo para “gritar” por socorro e salvação e, na Santa Ceia, se encontra resposta para os clamores. “Salvação” é referida em termos concretos como “um lugar”237 no “céu”238. É conferida por Deus239 e é entendida como posse ou propriedade que se adquire240. Há certa ênfase nas palavras “Deus dá”241 e “poder de Jesus”242. Como um desdobramento do código “traz perdão dos pecados”, verificou-se que as pessoas pensam na salvação de forma individualista, querendo antes de tudo resolver o seu problema particular (“minha salvação”), sem considerar o aspecto comunitário da Santa Ceia. Por dedução, pode-se afirmar que, a partir do comportamento individualista dos comungantes (ênfase na salvação e perdão próprios) ter-se-á também uma igreja individualista. 2.3.4 Traz alívio e paz ao coração O presente código é referido ao longo de toda a pesquisa social e sua relevância está no fato de ocupar o terceiro lugar na hierarquia dos códigos, com 164 u.i. Mesmo nas perguntas sobre o transcorrer da Santa Anexo I, p. 9, linha 28. 231 Anexo I, p. 3, linha 24. 232 Anexo I, p. 3, linhas 14, 15. 233 Anexo I, p. 3, linha 13. 234 Anexo I, p. 3, linha 6. 235 Anexo I, p. 22, linha 23. 236 Anexo I, p. 3, linha 15. 237 Anexo I, p. 3, linha 15. 238 Anexo I, p. 12 , linha 12. 239 Anexo I, p. 13, linha 19. 240 Ibid. 241 Anexo I, p. 22, linha 18. 242 52 Revista Agosto.indd 52 3/9/2009 23:46:55 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Ceia, o lugar da celebração, os participantes e as atitudes destes, “traz alívio e paz ao coração” é um código sempre presente. A partir destes dados, pode-se inferir que as mulheres, de uma forma geral, são mais sensíveis e manifestam mais frequentemente o que elas sentem e experimentam concretamente ao participar na Santa Ceia. A variável posição geográfica é relevante na medida em que as pessoas da periferia falam mais de alívio e paz e, finalmente, a variável faixa etária mostra que pessoas com 50 anos ou mais se mostram muito mais sensíveis do que as demais. Não há uma definição exata sobre o que vem a ser “alívio e paz”. A partir de experiências e situações concretas da vida, diz-se que é importante “ir lá e naquele momento estar com o coração livre, sem receio, sem rancor e sem culpa”243, pois “a gente se renova através da Santa Ceia”244. Isto traz “tranquilidade”245. “Alívio e paz” são descritos pelas pessoas entrevistadas como “sensação muito boa”246, que traz “renovação”247, sentimento de “bem-estar”248, de “leveza”249. É sentimento de “paz” que provoca alegria250 e “emoção”251. As pessoas entrevistadas não estão pensando (somente) no perdão dos pecados ou no alívio causado pelo perdão quando pensam em “alívio e paz”. Manifesta-se a necessidade não só no âmbito espiritual, mas também no corporal252. Quando há problemas de saúde, a participação na Santa Ceia traz conforto253. Em situações de tristezas, a participação na Santa Ceia ajuda a “aliviar um pouco”254. Quando se pensa nas pressões do dia-a-dia, aí a Santa Ceia “dá uma sensação de paz ainda maior”255 e “a tranquilidade com que a gente vai para casa é indescritível”256. Mencionamse situações problemáticas, dramas, depressão, enfermidade e luto. É alí- Anexo I, p. 2, linhas 4, 5. 243 Anexo I, p. 2, linhas 2, 13 e 21. 244 Anexo I, p. 2, linha 7. 245 Anexo I, p. 5, linhas 6, 7. 246 Anexo I, p. 5, linhas e p. 6, linhas 3 e 33. 247 Anexo I, p. 5, linha 25 e p. 6, linha 6, p. 7, linhas 1, 7. 248 Anexo I, p. 6, linha 23. 249 Anexo I, p. 5, linha 20, p. 6, linha 23 e p. 7, linhas 2, 6. 250 Anexo I, p. 6, linha 4 e p. 7, linha 6. 251 Anexo I, p. 19, linha 16. 252 Anexo I, p. 20, linhas 10-12. 253 Anexo I, p.16, linha 17, 18. 254 Anexo I, p. 20, linhas 18, 19. 255 Anexo I, p. 20, linhas 20, 21. 256 53 Revista Agosto.indd 53 3/9/2009 23:46:55 Igreja Luterana vio quando se está triste e mais alegria ainda quando já se está alegre257. É conforto quando se está debilitado e fortalecimento na enfermidade258. Nos momentos de sofrimento é “presença”259, é conforto nos “problemas e tristezas”260, especialmente quando está tudo mal na vida261. A falta da Santa Ceia traz perturbação, tristeza e amargura262 enquanto que a participação faz com que se sinta outra pessoa, se sinta “porenchida” e tão aliviada por saber que estava diante de Deus263. Percebe-se uma forte ênfase nas questões da vida das pessoas. Há a necessidade de buscar aliviar ou amenizar seus problemas, suas tristezas, suas dores e suas enfermidades, e a Santa Ceia serve de alento. Destaca-se que é algo que se experimenta concretamente e sente-se como algo confortador. As palavras-chave são experimentar e sentir. A participação na Santa Ceia, portanto, para essas pessoas entrevistadas, é um momento de “terapia” de grupo. 2.3.5 Fortalece e renova a fé O código “fortalece e renova a fé” é referido cinquenta e cinco vezes e, na hierarquia dos códigos, figura em décimo-primeiro lugar. Este código é mencionado somente na primeira parte das entrevistas, quando se perguntou pelo “sentido e importância da Santa Ceia”. Não há propriamente uma definição de “fé”, mas há diversas referências a situações e ações concretas do dia-a-dia das pessoas. Fortalecimento da fé é algo de que se necessita, que se busca264 e que se encontra265. É uma coisa que pode ser revigorada e animada266. Renovar e fortalecer a fé é manter a chama acesa267, ter mais ânimo268, Anexo I, p. 16, linhas 17, 18. 257 Anexo I, p. 17, linhas 1, 2. 258 Anexo I, p. 17, linha 5. 259 Anexo I, p. 17, linha 6. 260 Anexo I, p. 17, linhas 13, 14. 261 Anexo I, p. 37, linha 22. 262 Anexo I, p. 38, linhas 13 a 17. 263 Anexo I, p. 15, linha 19. 264 Anexo I, p. 3, linhas 32, 33. 265 Anexo I, p. 21, linha 9. 266 Anexo I, p. 20, linhas 23, 24. 267 Anexo I, p. 21, linhas 1-3. 268 54 Revista Agosto.indd 54 3/9/2009 23:46:55 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... é algo que se pode sentir”269 e que se recebe270. É renovação espiritual e poder que vem de Deus271. As pessoas que responderam com esse código não falam de espiritualidade somente, mas de situações do dia-a-dia, as quais provocam desânimo, fraqueza, abatimento. Nessas circunstâncias, elas chegam a se perguntar se isso está acontecendo por causa da fé que está fraca272. Em tais situações a participação na Santa Ceia traz sentimentos de força, ânimo, vigor e renovação. A sensação que se tem é que as pessoas estão falando das suas dificuldades, tristezas, frustrações, sentimentos de apatia e debilidade. Na Santa Ceia, por isso, elas buscam, além do aspecto espiritual, um elemento terapêutico que as ajude a resolver os problemas que enfrentam na vida. Articula-se esse código no sentido de criar coragem para enfrentar as situações da vida. “Fortalece e renova a fé” refere-se à crença, mas também fala de coisas da vida, pois a Santa Ceia renova a vida e dá força. Além disso, usando de fórmulas que aprendem na igreja, as pessoas entrevistadas simplesmente afirmam que a Santa Ceia é para “o fortalecimento e renovação da fé”273. 2.4 CONSEQUÊNCIAS DA PARTICIPAÇÃO DA SANTA CEIA 2.4.1 Ajuda na mudança de atitudes O presente tópico é apontado na “teologia popular” como consequência importante da participação da Santa Ceia e é o décimo na hierarquia dos códigos274 ao longo de toda a pesquisa. Verificando-se a ênfase número cinco da pesquisa, ou seja, “a atitude dos participantes”275, o código que aparece em primeiro lugar diz que “é importante andar no caminho certo”276. Há uma relação entre aquele código e “ajuda na mudança de atitudes”, só que este aponta para consequências da participação na Santa Ceia277, enquanto que “é importante andar no caminho certo” indica Anexo I, p. 21, linha 4. 269 Anexo I, p. 21, linha 10. 270 Anexo I, p. 21, linha 16. 271 Anexo I, p. 15, linha 13. 272 Anexo I, p. 1, linhas 9, 16, 29 e p. 2, linha 23. 273 Anexo IV, p. 6. 274 Anexo II, p. 2. 275 Anexo II, p. 169. 276 Anexo I, p. 24, linhas 3-5: Pergunta Nº. 9: “A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as outras pessoas?” 277 55 Revista Agosto.indd 55 3/9/2009 23:46:55 Igreja Luterana uma das condições à participação278. Quando, na pergunta número nove, tratou-se especificamente sobre as atitudes, ou seja, “A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as outras pessoas?”279, houve respostas abundantes e concretas. O número de respostas positivas a essa pergunta é surpreendente. Equivale quase à soma das unidades de informação dos demais códigos. Há, portanto, a convicção de que a participação traz consequências visíveis, perceptíveis, mensuráveis. Todas as pessoas entrevistadas, com maior ou menor intensidade, consideram importante a participação na Santa Ceia porque esta ajuda na mudança de atitudes. Não se define propriamente o que é “mudança de atitudes”, mas são sugeridas algumas ações relacionadas a este código. Estas podem ser classificadas como mudança nas relações com o próximo, mudanças em relação a si próprio, mudança em relação a Deus e mudança em relação à própria Santa Ceia. De uma forma geral, as pessoas acreditam que quanto mais participam, melhor. Sentem-se mais fortalecidas na fé, sentem-se consoladas, sentem-se melhor. É uma atitude que deve ser constantemente mantida, uma vez que participar da Santa Ceia ajuda na mudança de atitudes, e participar sempre é uma destas atitudes. “Mudança de atitudes” é o mesmo que deixar as coisas erradas e fazer o que é certo. É deixar de lado o orgulho e o egoísmo e aprender a perdoar e a compreender a situação dos outros. Pressupõe recomeçar e fazer as coisas certas na relação com as pessoas em geral, mas especialmente com as da família e com os amigos. É algo bem concreto e nomeado em sentido negativo, como “não brigar”, “não fazer fofoca”, “não errar” e “não andar no caminho errado”. Estas mudanças acontecem, sim, nas relações horizontais, na relação vertical, na relação consigo mesmo e na própria atitude em relação à Santa Ceia. Relaciona-se esse código com a certeza do perdão dos pecados, pois é a chance que Deus dá para recomeçar, de tentar fazer as coisas certas e não andar pelo caminho errado ou fazer o contrário do que se aprende lá na igreja280. “Mudança nas atitudes” tem relação com o “estar preparado” Anexo II, p. 174-175: A pergunta número 22 questiona: “Em sua opinião, com que atitude as pessoas devem participar da Santa Ceia?” 278 Anexo II, p. 76. 279 Anexo I, p. 24, linhas 9-12. 280 56 Revista Agosto.indd 56 3/9/2009 23:46:55 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... e com o sentimento de “alívio e paz” pelo perdão dos pecados obtido da parte de Deus, da comunhão com Deus e do fato de ter recebido o corpo e sangue de Cristo na Santa Ceia281. 2.4.2 Oportuniza a comunhão com Deus e com os irmãos O presente subtítulo é relevante para a pesquisa por ser referido em quatro das cinco ênfases do questionário e por ser o quarto na hierarquia das unidades de informação, com 142 referências. As mulheres são mais sensíveis e percebem melhor a importância e ou necessidade de comunhão do que os homens, tanto que o número de referências por parte delas supera a casa dos 100% em relação ao número referido pelos homens. É importante destacar que nas respostas evidenciaram-se dois tipos de comunhão: comunhão com Deus ou vertical, e comunhão com os irmãos ou horizontal. Não há uma definição objetiva sobre o que é a comunhão com Deus, mas as pessoas a manifestam como sentimento e experiência subjetivos. Quanto à comunhão com os irmãos ou horizontal, é referida pela primeira vez somente na pergunta número nove da pesquisa social, “A sua participação tem algo a ver com sua maneira de ser em relação: à família, à escola, ao trabalho, ao lazer, ao jeito de lidar com as outras pessoas?”282. Não se define comunhão, mas descrevem-se situações. Comunhão com Deus é algo real, perceptível. É algo que a pessoa experimenta e crê. Fala-se nessa presença em termos bem concretos e reais, mas também que é experimentado de forma subjetiva, sentindo. É um sentimento de bem-estar em função do perdão dos pecados recebido da parte de Deus283. A referência a este código se torna ainda mais expressiva se for relacionada com o código “Traz alívio e paz ao coração”. A certeza da presença de Deus é que traz estas sensações. Considera-se importante a participação na Santa Ceia porque através dela se está em comunhão com Deus ou na presença de Deus. Comunhão com Deus é descrita como sentimento de bem-estar e com a certeza que ele ajuda e abençoa. Ao mesmo tempo, essa comunhão é relacionada com o perdão dos pecados e com uma nova chance de recomeçar e melhorar. É algo que se pode crer, sentir e reconhecer como real e verdadeiro. Parece que as pessoas estão retratando experiências da sua própria vida. Anexo II, p. 31-33. 281 Anexo II, p. 76. 282 Anexo I, p. 2, linhas 24-33. 283 57 Revista Agosto.indd 57 3/9/2009 23:46:55 Igreja Luterana Essa relação com Deus faz com que a relação com o próximo seja fortalecida e a comunhão restabelecida284. A maior referência é em relação às pessoas e o relacionamento com estas. Tais qualidades dependem da dádiva de Deus, pois “essa paz só Deus pode dar”285 e é, também, resultado de oração286. A relação com Deus é apontada como facilitadora das relações interpessoais. “Comunhão com os irmãos” é descrita como participação, como confraternização, é sentir-se bem entre as pessoas, é procurar o melhor, é a convivência uns com os outros287. Falando da forma da distribuição, prefere-se o semicírculo em frente do altar, por ser mais aconchegante288. Filas na Santa Ceia não ajudam na comunhão, enquanto que forma de mesa ajuda àqueles que querem ir com a família289. O semicírculo parece que “torna o ambiente mais caloroso”290. No contexto das perguntas acerca do lugar da celebração291, tornamse relevantes as referências à comunhão. Aqui se fala mais na comunhão horizontal como uma necessidade que as pessoas têm de sentirem-se aceitas, integradas e aconchegadas. Sentir-se bem no local, para as pessoas entrevistadas, é o mesmo que sentir-se bem com as pessoas que lá estão. As pessoas entendem que não há perfeição e que poderia ser melhor, mas todas consideram que a comunhão é importante. “Comunhão com Deus e com os irmãos” é visto como uma das grandes motivações quanto ao apreço pelo lugar da celebração. Estar com Deus e estar com os irmãos é o motivo da participação. Comunhão é envolvimento, integração e crescimento mútuo. É um momento em que todos se reúnem292 em uma comunidade de pessoas conhecidas, onde todo mundo é unido293. Finalmente, ao falar sobre a comunhão, há opiniões de que poderia ser melhorado o acolhimento eucarístico, ou seja, dever-se-ia dar Anexo I, p. 42, linhas 1-5. 284 Anexo I, p. 25, linhas 33, 34. 285 Anexo I, p. 27, linhas 14, 15. 286 Anexo I, p. 45, linhas 3-7. 287 Anexo I, p. 46, linhas 10, 11. 288 Anexo I, p. 52, linhas 32-34. 289 Anexo I, p. 53, linhas 5-7. 290 15 - O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada?; 16 - Você se sente bem no lugar em que a Santa Ceia é celebrada?; 17 - O que você acha que poderia ser melhorado no lugar? 291 Anexo I, p. 71, linha 5. 292 Anexo I, p. 71, linha 30. 293 58 Revista Agosto.indd 58 3/9/2009 23:46:55 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... uma oportunidade a todos. As pessoas que responderam com o código “oportuniza a comunhão” entendem que não deve haver distinção entre comungantes e que se deve dar oportunidade a todos. Como se verificou acima, grande parte das respostas aponta mais para a comunhão vertical, com Deus, podendo ser isso fruto de certo individualismo. As relações horizontais recebem mais importância quando se pergunta especificamente a respeito das atitudes, sobre o lugar da celebração e sobre coisas que poderiam ser melhoradas. Na “comunhão com Deus e com os irmãos”, percebe-se algo próprio das preocupações com as coisas da vida: as pessoas não gostam de estar sozinhas, precisam da companhia umas das outras e têm como certo que as coisas que acontecem em suas vidas estão dentro dos propósitos e da vontade de Deus. 2.4.3 Torna o local da celebração um lugar de bem-estar Quando se perguntou acerca do local da celebração, surgiu o código “É importante sentir-se bem no lugar da celebração”294. Mesmo que no cômputo geral este código apareça somente em oitavo lugar, com 73 u.i. do total de 1527 u.i., na ênfase “O lugar em que a Santa Ceia é celebrada” ele é referido em primeiro lugar. A maioria absoluta concorda que se sente bem no local do culto e nem sempre justifica. Não há uma explicação ou definição exata sobre o que significa sentir-se bem. Identifica-se o lugar da celebração da Santa Ceia como um lugar de emoção. Isso faz bem para as pessoas, pois elas afirmam que se sentem à vontade e gostam de estar diante do altar, porque ali é o lugar de Deus, é a casa de Deus. Ninguém fica onde não quer, onde não se sente bem. Igualmente sentem-se bem porque é o lugar onde a Santa Ceia é celebrada295. Mesmo que se admite que a Santa Ceia possa ser celebrada em qualquer lugar, a preferência é “que seja na igreja”. Há uma relação íntima com os demais códigos. As pessoas que responderam com esse código dizem que se sentem bem no lugar da celebração, não tanto pelo lugar em si, mas pelo que lá acontece ou pelas relações que se estabelecem. Destacam-se entre os motivos a certeza de que naquele lugar se recebe o corpo e o sangue de Cristo. Igualmente 15 - O que você acha do lugar em que a Ceia é celebrada?; 16 - Você se sente bem no lugar em que a Santa Ceia é celebrada?; 17 - O que você acha que poderia ser melhorado no lugar? 294 Anexo I, p. 49 e 50. 295 59 Revista Agosto.indd 59 3/9/2009 23:46:55 Igreja Luterana recebem destaque a comunhão com Deus296 e com o próximo297, o alívio e a paz que sentem298 e a convicção de que ali é o lugar em que seus pecados são sempre de novo perdoados299. O maior destaque está, no entanto, nas relações. Sentir-se bem no lugar da celebração é resultado da relação com Deus e da oportunidade de relação com o próximo. De maneira geral, as pessoas (17 das 20 entrevistadas) manifestam categoricamente que estão contentes com o seu local. Há pequenas manifestações de coisas que poderiam ser melhoradas, mas nada mais sério que possa comprometer a celebração da Santa Ceia. 2.5 OUTROS ASPECTOS RELEVANTES DA PESQUISA 2.5.1 É importante consagrar os elementos O presente tópico é o décimo-quarto na hierarquia dos códigos levantados na pesquisa, com vinte e nove unidades de informação do total de 1527. É relevante a referência à consagração pela ênfase de que ali acontece a “conversão” dos elementos visíveis. Sem a consagração não haveria corpo e sangue de Cristo? – e, consequentemente, não haveria comunhão, nem perdão dos pecados? – e outros tantos benefícios e consequências da participação da Santa Ceia? As pessoas entrevistadas não têm muita clareza sobre o que é “consagrar”. A consagração é referida como necessária para que haja Santa Ceia, para que as pessoas possam ter certeza de que vão receber o corpo e o sangue de Cristo. Consagração para elas é “transformação” ou um gesto simbólico. É, no entanto, instituído por Cristo300, é o que torna o culto e a Santa Ceia significativos301. Da consagração depende a certeza da presença de Cristo no pão e no vinho, condição básica para receber o perdão dos pecados, alívio e paz ao coração. A consagração do pão e do vinho, portanto, em hipótese alguma, pode faltar na celebração da Santa Ceia. Sua ausência colocaria em dúvida tanto o valor quanto a validade do sacramento, no entender das pessoas entrevistadas. Anexo I, p. 50, linhas 11, 21. 296 Anexo I, p. 47, linhas 15-29. 297 Anexo I, p. 52, linhas 1, 2. 298 Anexo I, p. 47, linhas 13, 14. 299 Anexo I, p. 35, linhas 6-15. 300 Anexo I, p. 36, linhas 5-8. 301 60 Revista Agosto.indd 60 3/9/2009 23:46:56 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... 2.5.2 Lembra-se dos hinos e da liturgia Hinos e liturgia são citados para tentar explicar o transcorrer do culto e da Santa Ceia e também quando se pergunta sobre a atitude dos participantes. No cômputo geral, esse código aparece em sétimo lugar, com setenta e oito unidades de informação, do total de 1527. Hinos e liturgia são elementos importantes no pensamento popular, pois é algo no qual podem ter participação, aprendem a cantar e a identificar-se com certos hinos. As pessoas reúnem-se para cantar, gostam muito dos hinos, tanto para ouvir quanto para cantar, pois lembram uma mensagem. São adoráveis, gostosos de cantar e bons para refletir e meditar. As pessoas se lembram das partes da liturgia, tais como a bênção ou consagração dos elementos, a distribuição propriamente dita e a ação de graças. Elas afirmam que a liturgia as ajuda no preparo e auxilia a melhor entender para que serve a Santa Ceia e por que participar. É também significativo o gestual, como o sinal da cruz sobre o pão e o vinho, as palavras usadas pelo pastor naquela hora e a própria distribuição dos elementos que as pessoas recebem302 . Várias pessoas que mencionaram hinos e liturgia também se referiram à comunhão. Seriam estes elementos que favorecem a comunhão das pessoas entre si e destas com Deus? Hinos e liturgia são muito apreciados pela maioria das pessoas. Poucas, porém, apontam detalhes. A concepção que se tem de liturgia é que esta “é coisa feita e executada pelo pastor, é coisa do pastor”. Aqui não são mencionados hinos, mas a liturgia como um todo, especialmente as partes dirigidas pelo pastor. Pouco se fala da liturgia como algo corporativo ou como serviço que se presta ou que se recebe. Há detalhes litúrgicos que poderiam ser melhorados: a forma da distribuição poderia ser melhorada, “se quiserem usar um copinho, tudo bem”, mas deveria oportunizar também o cálice comum, especialmente às pessoas idosas. Quanto à liturgia, poder-se-ia ter mais cuidado com os aspectos visuais, mais estudos sobre o significado da liturgia e uma atenção especial para a forma de distribuição. 2.5.3 Lembra-se da instrução e da primeira comunhão O presente código é referido 55 vezes ao longo da pesquisa social. Hierarquicamente, no cômputo geral, é o nono código em unidades de informação. É relevante mencionar que, nas respostas à pergunta 26 Anexo I, p. 43-45. 302 61 Revista Agosto.indd 61 3/9/2009 23:46:56 Igreja Luterana “Mencione experiências marcantes que você teve, participando na Santa Ceia”, houve 43 menções a esse código. Das 20 pessoas entrevistadas, apenas 3 não o mencionaram. É, pois, significativa para as pessoas de uma forma geral a experiência da instrução e da primeira comunhão. As pessoas lembram muito do período da catequese, em que aprenderam sobre a Santa Ceia e sobre a vida cristã em geral. Destacam que a primeira participação foi marcante. A primeira participação na Santa Ceia suscita um misto de expectativa, curiosidade, nervosismo e emoção. O sentimento, no entanto, é de que se tratou de uma experiência maravilhosa na ocasião da sua própria confirmação e, especialmente, na confirmação dos filhos. A experiência é marcante, e pode ter forte conexão com a questão do preparo e do perdão dos pecados, afinal, recebe-se algo misterioso: o corpo e o sangue de Cristo pela primeira vez. 2.5.4 Lembra-se de pessoas queridas O presente subtítulo figura hierarquicamente em décimo-sétimo lugar entre os códigos levantados na pesquisa social e, pelo forte componente emocional, é relevante a sua exposição no presente trabalho. Os depoimentos abaixo são manifestações típicas das pessoas entrevistadas na pesquisa: Ilmo, 55: “me lembro de amigos da infância e da escola dominical e do convívio com os leigos303. Guilhermina, 41: “datas especiais e o relacionamento de mães com seus filhos são muito marcantes.”304. Elano, 27: “estar com os irmãos e com a família” é bem legal305. Carla, 51: “lembro inclusive onde e com quem me sentei no culto.”306. Gerson, 40: “me lembrei de minha mãe quando de sua última participação antes da sua morte e, especialmente, da última vez que ela pôde participar.”307. Neuza, 29: “os familiares de forma bem especial, pois com eles se pode compartilhar desse momento tão significativo em que toda a família Anexo I, p. 39, linhas 26-33. 303 Anexo I, p. 40, linhas 8-10, p. 41, linhas 23, 24. 304 Anexo I, p. 40, linhas 22-24. 305 Anexo I, p. 41, linha 11. 306 Anexo I, p. 43, linhas 20-28. 307 62 Revista Agosto.indd 62 3/9/2009 23:46:56 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... participa junto na Santa Ceia”308. Edison, 26: “a lembrança de entes queridos que já partiram”309. Ademir, 58: “a minha situação de enfermidade e de pessoas queridas”310. Ricardo, 37: “lembro do número de participantes no culto e de pessoas em especial”311. Percebe-se o forte componente emocional presente na participação das pessoas na Santa Ceia e o quanto esta foi motivo de alento e de boas recordações. O número de referências não é grande, mas é expressivo pelo seu conteúdo, pela emoção que ele suscita e a relação estabelecida com a participação na Santa Ceia. 2.6 CONCLUSÕES Através da pesquisa social sobre a Santa Ceia, verificou-se que o assunto que mais preocupa as pessoas são os seus pecados. O uso frequente da expressão “pecados” demonstra que não há preocupação em definir termos ou trazer conceitos teológicos. Antes, procura-se falar daquelas coisas que se sente e que se experimenta no dia-a-dia com relação aos pecados cometidos. Por isso, a busca incessante pelo perdão destes. Criou-se em torno do assunto um esquema de regras bastante rígido que impõe condições para o recebimento do perdão e, por consequência, da salvação. A afirmação de que “se não estiver dignamente preparado”, repetidas vezes mencionada ao longo de toda a pesquisa social, aponta para um componente de extrema relevância: para que se tenha acesso ao perdão dos pecados, exige-se o cumprimento impecável de uma série de quesitos. Preparar-se resume esses quesitos, e implica sentir-se triste pelos pecados cometidos, confessá-los a Deus, arrepender-se deles e, como consequência, mudar a maneira de agir. Há condições impostas aos participantes para que estes tenham acesso à Santa Ceia e há consequências esperadas de sua participação. É marcante a ênfase nos aspectos punitivos, em caso de participação sem o “devido preparo”, e nem sempre há maior ênfase sobre os benefícios da participação. A própria referência ao corpo e sangue de Cristo, por vezes, parece ser mais motivo de preocupação do que satisfação. Há Anexo I, p. 72, linhas 9-19. 308 Anexo I, p. 80, linhas 21-30. 309 Anexo I, p. 83, linhas 1-29 310 Anexo I, p. 39, linhas 21-25. 311 63 Revista Agosto.indd 63 3/9/2009 23:46:56 Igreja Luterana maior preocupação com o que se deve fazer para tornar-se digno do que a ocupação com os benefícios e consequências positivas. Como condição para poder participar da Santa Ceia, as pessoas destacam os seguintes passos: preparar-se, crer que se recebe o corpo e sangue de Cristo (por isso a importância da consagração dos elementos), andar no caminho certo, ser instruído, batizado e confirmado, ser da igreja ou crer no que a igreja ensina. Entre os benefícios da participação (2.3), destacam-se: traz perdão dos pecados, recebe-se o corpo e o sangue de Cristo, traz salvação, traz alívio e paz ao coração, fortalece e renova a fé. As consequências da participação da Santa Ceia (2.4) são assim descritas: ajuda na mudança de atitudes e a participação frequente, o participante está em comunhão com Deus e com os irmãos, sente-se bem no lugar, lembra-se dos hinos e da liturgia e lembra-se de pessoas queridas. A pesquisa social buscou saber das pessoas leigas de duas comunidades da IELB qual o sentido e importância da Santa Ceia, como elas descrevem o seu transcorrer, que implicações têm o lugar da celebração, quem são os participantes e qual é atitude esperada destes ao participarem do sacramento. Verificou-se na pesquisa a grande importância que recebem as mais diversas situações da vida das pessoas e quanto a sua participação na Santa Ceia pode ser entendida como ajuda, solução, salvação, esperança e certeza de dias melhores. Descobriu-se também que elas não estão preocupadas em definir coisas, mas relatam aquilo que sentem e que experimentam ao participar da Santa Ceia. E, na maioria dos casos, gostariam que todas as pessoas, sem restrição, pudessem experimentar e sentir as mesmas coisas. Em conclusão a este capítulo, fez-se um apanhado sobre as tendências gerais dos homens e das mulheres no que diz respeito à sua visão de Santa Ceia e sobre a teologia de uma forma mais ampla. A tabela abaixo apresenta os seguintes dados: CONSTATAÇÕES POR GÊNERO Homens Mulheres - Mais teóricos - Mais práticas - Contentam-se em definir - São mais concretas 64 Revista Agosto.indd 64 3/9/2009 23:46:56 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... - Falam por fórmulas que aprendem na igreja. Quando falam em corpo e sangue de Cristo, tentam definir a partir das fórmulas que aprendem na igreja. - Expressam o que sentem ou experimentam. Quando falam a respeito do corpo e sangue de Cristo, contentam-se em relatar o que sentem ou experimentam na Santa Ceia. - São mais penitenciais e apresentam, aparentemente, maior sentimento de culpa em relação aos pecados. Preparar-se, para eles, tem a ver mais com reconhecimento de pecados, arrependimento, confissão e aceitação do perdão. Sem isso, a participação é mais para a condenação. Há, portanto, uma visão mais negativa. - Mais celebrativas, mais concentradas nos benefícios e, especialmente, nas consequências práticas para a vida. O preparo, por isso, envolve mais questões de atitudes externas, especialmente em relação ao próximo. Sua visão de participação é mais positiva do que a dos homens. - Alívio e paz têm relação com perdão dos pecados e certeza da salvação, sendo consequência destes. - Alívio e paz estão relacionados com questões concretas da vida, tais como conforto e consolo na angústia, força para vencer os revezes da vida, os sofrimentos, doenças, problemas em geral. - São mais “verticais” na relação com Deus. Das poucas vezes que falam em comunhão, entendem-na mais em sentido vertical. - Sua relação com Deus é referida mais de forma “horizontal”, através da relação com o próximo. Além de falarem muito mais sobre comunhão, entendem-na principalmente no sentido horizontal. - Falam mais de coisas “espirituais”. Para eles, fé é acreditar, crer no sobrenatural. - Falam mais de “coisas da vida”. Para elas, fé se refere mais a um sentimento, estado de espírito, mais ânimo. - Falam em “salvação” no tempo futuro, na vida eterna, e pensam em um lugar específico, o céu. - Articulam o código “salvação” no tempo presente, agora, e falam da solução dos seus problemas, aqui. Na sequência deste trabalho, far-se-á uma comparação das descobertas feitas na pesquisa social sobre a Santa Ceia na visão da “teologia popular” no âmbito da IELB com o resultado da pesquisa sobre a “teologia oficial”. A comparação quer elucidar as principais semelhanças e diferenças entre as referidas teologias e quais as implicações desses achados para a prática da Santa Ceia na IELB. 65 Revista Agosto.indd 65 3/9/2009 23:46:56 Igreja Luterana 3 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE A “TEOLOGIA OFICIAL” E A “TEOLOGIA POPULAR” 3.1 CONTEÚDOS TOTAL OU PARCIALMENTE AUSENTES NOS ENUNCIADOS DA “TEOLOGIA OFICIAL” Chama a atenção, primeiramente, que alguns importantes componentes do modo de pensar, interpretar e agir das pessoas entrevistadas, tanto no centro quanto na periferia de Eucaristolândia, estejam total ou parcialmente ausentes na “teologia oficial”. A surpresa reside no fato de tais elementos serem essenciais na vida das pessoas, na sua vida de culto e na sua relação com a Santa Ceia. Os seguintes componentes não encontram nenhuma referência nos enunciados da “teologia oficial”: sentimentos, sensações, experiências concretas, lembranças de pessoas queridas; situações marcantes da vida, tais como enfermidade, confirmação e período de instrução; hinos e liturgia. Os componentes “graça, conforto e consolo” estão quase totalmente ausentes: são referidos genérica e objetivamente. Não se especificam situações concretas da vida: alívio das cargas, paz no coração, tranquilidade, sentimento de bem-estar com Deus, ajuda na aflição, sentir-se “porenchida”, experimentar tudo de bom. Quando se referem às consequências da participação da Santa Ceia na relação com Deus, as pessoas revelam detalhes a partir de situações concretas da vida, sentimentos, sensações e experiências. A “teologia oficial” não deixa de referir estes aspectos, mas não leva em consideração que, para as pessoas, eles vêm acompanhados de sentimentos, certeza da ajuda de Deus, confiança, comunhão com Deus, gratidão, certeza e esperança: “sentir-se melhor, sabendo que Deus ajuda e abençoa” (Noemi, 13)312; “é presença de Deus em mim”(Clarice, 54)313;“é sentir-se bem com Deus”(Elano, 27)314;.“relação íntima com Deus, eu com meu Deus”(Neuza, 29)315; “Deus vai estar ali com a gente nos ajudando, dando força para melhorar mesmo”(Ilga, 42)316; “Deus também tá sempre com a gente”(Guilhermina, 41)317; “Eu sinto que cada vez que eu tomo, Anexo I, p. 3, linha 27. 312 Anexo I, p. 4, linhas 18-26. 313 Anexo I, p. 3, linha 23. 314 Anexo I, p. 10, linhas 10-12. 315 Anexo I, p. 4, linhas 3-4. 316 Anexo I, p. 11, linhas 2, 3. 317 66 Revista Agosto.indd 66 3/9/2009 23:46:56 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Jesus está mais perto comigo, mais perto de mim”(Luciana, 14)318. Nas relações horizontais evidencia-se um conjunto de elementos que para algumas pessoas é essencial na Santa Ceia e que são detalhados a partir de experiências concretas e uma lista de situações da vida com relação ao próximo. Há ênfase em ações específicas, tais como repensar atitudes, ser espontâneo, aceitar mais, resolver conflitos, ser mais acessível, fraterno, amigo, solidário e estar em paz com todos. Quantitativamente a referência a estes elementos não chega a ser impactante, mas as palavras com que as pessoas se referem a eles são significativas: “ajuda a entender e a viver melhor com as pessoas”(Ilga, 42)319; “nos torna mais próximos, irmãos”(Carla, 51); “torna-se mais acessível e ajuda as pessoas”(Bianca, 16)320;“é uma forma de confraternização que ajuda a se tornar mais fraterno, mais amigo e solidário”(Maria, 26)321; “é estar reunido com as pessoas de forma fraterna, amiga e solidária” (Maria, 26)322; “estar junto das pessoas, da família, dos filhos”323... “onde todos são iguais”(Guilhermina, 41)324. Na “teologia oficial”, estes elementos aparecem muito mais como princípios do que como ações concretas. É importante ser confirmado: esta afirmação da “teologia popular” não encontra nenhuma referência na “teologia oficial”. Vale destacar que, mesmo que as pessoas tenham feito referência ao Batismo como condição à participação da Santa Ceia, o peso maior recaiu sobre a confirmação e a instrução. 3.2 CONTEÚDOS EXCEDENTES NOS ENUNCIADOS DA “TEOLOGIA OFICIAL” Nos textos analisados, há conteúdos emitidos pela “teologia oficial” que não se fazem presentes no discurso das pessoas a respeito da Santa Ceia. São os seguintes tópicos: Sacrifício: Distinção entre sacramento e sacrifício, benefício e ofício. Duas naturezas de Cristo: a presença de Cristo na Santa Ceia ocorre mediante as suas duas naturezas: a divina e a humana. Tal assunto é Anexo I, p. 6, linhas 27, 28. 318 Anexo I, p. 26, linha 3. 319 Anexo I, p. 26, linha 18. 320 Anexo I, p. 32, linhas 21-23. 321 Anexo I, p. 21, linhas 1-3. 322 Anexo I, p. 21, linhas 4-6. 323 Anexo I, p. 32, linha 28. 324 67 Revista Agosto.indd 67 3/9/2009 23:46:56 Igreja Luterana um artigo da cristologia. União sacramental: Insiste-se que a união sacramental se dá durante o comer e o beber dos elementos visíveis, pão e vinho, nem antes e nem depois. O corpo e o sangue de Cristo não estão sobre o altar para serem adorados, mas para serem comidos e bebidos. Unionismo, sincretismo, união confessional, comunhão aberta e comunhão fechada não encontram paralelo na “teologia popular”. Intinção: Por não corresponder à instituição do comer e beber, não se recomenda a prática da intinção. Uso de qualquer outro elemento em lugar ou adicionado ao pão e ao vinho. Considerar-se indigno: “Vamos à Santa Ceia ... precisamente por sermos indignos”. “Em memória de Cristo até que venha”: “Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Há somente uma referência parcial deste tópico na “teologia popular”: “...que ele pediu para a gente fazer cada vez que tomasse em memória dele...”. Referência ao retorno visível de Cristo e lembrança aos crentes de irem ao encontro daqueles que ainda não fazem parte do corpo de Cristo. A própria palavra “culto” assume o caráter de celebrar a Santa Ceia em memória de Cristo. Referência ao jejum como boa disciplina externa. Discernir e reconhecer o corpo e o sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho Refutação de doutrinas contrárias às que são reconhecidas pela IELB: transubstanciação, representação e consubstanciação. Os incapazes de se examinar: as crianças, as pessoas inconscientes, os doentes em estado de coma e todas as pessoas em estado de insanidade. Na “teologia popular” há apenas uma referência a crianças: “a não ser aquelas bem criancinhas, que ainda não entendem” . 3.3 CONTEÚDOS COINCIDENTES Traz perdão dos pecados. a) Semelhanças: Este é, sem qualquer sombra de dúvida, o tópico mais referido na “teologia oficial” e na “teologia popular” quando o assunto é a Santa Ceia. Perdão dos pecados, tanto na “teologia oficial” quanto na “teologia popular”, é disparado o maior e mais importante benefício aos participantes da Santa Ceia. O aspecto penitencial é evidente em ambas as teologias e a insistência no “prepararse” e “ser penitente” são condições importantes para que o comungante receba os benefícios da Santa Ceia. Preparar-se e ser penitente 68 Revista Agosto.indd 68 3/9/2009 23:46:56 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... implicam reconhecimento e verdadeiro arrependimento dos pecados. b) Diferenças: A “teologia oficial” define pecado de forma objetiva e sistemática a partir de argumentos bíblicos e confessionais como condição humana, ou seja, pecado é o mesmo que pecaminosidade e corrupção325. Na “teologia popular” fala-se de pecados a partir de fatos concretos da vida e através de fórmulas que se aprende na igreja: “me livrar daquilo que pequei no período anterior” e “muitas coisas que eu já fiz... é, até mesmo, pensar o errado” (Ilmo, 55); “pecados são coisa que acontecem diariamente e que afastam a pessoa de Deus” (João 19). Verdadeiro corpo e sangue de Cristo. a) Semelhanças: é algo que se recebe. Em ambas as teologias há ênfase na presença real de Cristo na Santa Ceia. b) Diferenças: a “teologia oficial” enfatiza a presença real de Cristo de forma teórica, por meio de definições e teses. Há ênfase no sentido literal das palavras bíblicas “isto é o meu corpo e isto é o meu sangue”. A “teologia popular”, além da repetição das fórmulas que se aprende na igreja, manifesta essa crença através de sentimentos, experiências da vida e através dos sentidos tato, paladar e visão: “É algo que se toma e que se come”(Ilmo, 55)326; “Você recebe o verdadeiro corpo e sangue de Cristo, né”(Ademir, 58)327; “Que a gente vê que está recebendo o corpo e sangue de Cristo”(João, 19)328. Há na “teologia popular” opiniões diversas quanto ao que acontece com os elementos: para uns, os elementos são transformados em corpo e sangue de Cristo, para outros eles apenas os simbolizam, para outros, enfim, corpo e sangue estão localmente presentes no pão e no vinho. Os elementos da Santa Ceia. a) Semelhanças: Para a “teologia popular”, recebem-se o corpo e o sangue de Cristo mediante ambos os elementos, pão/hóstia e vinho. O vinho não depende da cor. Os mesmos elementos são considerados importantes na “teologia oficial”. b) Diferenças: Na “teologia oficial” há definições objetivas e detalhadas, com fundamentos bíblicos, teológicos e confessionais, enquanto que na “teologia popular” as explicações são dadas a partir de questões práticas: “lembro da hóstia e do vinho branco que o pastor usou na Santa Ceia” (Edison, 26); “quando era católica, só recebia a hóstia” (Clarice, 54); “quando era católico, só ganhava o corpo, o sangue não” (Ademir, 58). Sacramento. a) Semelhanças: a afirmação de que a Santa Ceia é MUELLER, 2004, p. 212,213. 325 Anexo I, p. 54, linhas 23, 24. 326 Anexo I, p. 6, linhas 23, 24. 327 Anexo I, p. 5, linhas 27, 28. 328 69 Revista Agosto.indd 69 3/9/2009 23:46:57 Igreja Luterana um sacramento, que é instituído por Cristo e que, como tal, oferece remissão dos pecados, fortalecimento da fé e salvação. b) Diferenças: Enquanto que a “teologia oficial” traz longas e minuciosas definições e muitos argumentos à base das Escrituras, dos Pais Apostólicos e das Confissões Luteranas, na “teologia popular” há pouquíssimas referências que repetem as fórmulas que se aprende na igreja, sem dar uma explicação clara e objetiva. Enquanto que para “a teologia oficial” este assunto é de máxima grandeza, na “teologia popular” ele não passa de uma referência ocasional. Poder e validade da Santa Ceia. a) Semelhanças: Em ambas as teologias, insiste-se no uso das palavras da instituição quando da consagração dos elementos. B) Diferenças: Para a “teologia oficial”, o poder e a validade da Santa Ceia dependem das palavras e promessas de Cristo e da correta administração do sacramento, conforme a instituição. Independem do poder ou da fé do pastor ou mesmo da fé da pessoa comungante. Na “teologia popular”, poder e validade da Santa Ceia dependem da consagração, do sinal da cruz, da ação do pastor, dos elementos visíveis e da fé da pessoa participante: “É o verdadeiro corpo e sangue de Cristo com a consagração”, “pastor fez a consagração depois de cantar; o pastor fez a instituição da Santa Ceia, consagrou eles” (João, 19); “o sinal da cruz que o pastor faz sobre o pão e o vinho” (Noemi, 13); “é o corpo de Cristo que o pastor dá”, “é aquela oração que o pastor faz” (Bianca, 16); “nesse momento ocorre [...] que tenha esses dois elementos: o pão e o corpo, o vinho e o sangue” (Edison, 26); “são as palavras que o pastor diz naquela hora” (Juliana, 19). Como se dá a presença real de Cristo na Santa Ceia. a) Semelhanças: Crítica a doutrinas ou práticas de outras denominações religiosas. Na “teologia oficial” nomeiam-se as doutrinas da transubstanciação, representação e consubstanciação como contrárias à compreensão da IELB sobre o assunto. Na “teologia popular” há duas referências à prática da ICAR: “Quando era católico, só ganhava o corpo, o sangue não”. b) Diferenças: Enquanto que na “teologia oficial” afirma-se a união sacramental, usando-se para tal argumentos bíblicos e confessionais, na “teologia popular” há uma variedade de explicações para o fenômeno da presença de Cristo na Santa Ceia, precisamente as que são refutadas pela “teologia oficial” (transubstanciação, representação e consubstanciação): “Também tem a questão do ‘nosso Senhor Jesus Cristo’... que nesse momento começa a existir o corpo e o sangue de Cristo” (Edison, 26); “é importante tomar a Santa Ceia, o pão significa o corpo de Cristo e o vinho o sangue” (Bianca, 16); “no pão tá o corpo e no vinho tá o sangue” (Elano, 27). 70 Revista Agosto.indd 70 3/9/2009 23:46:57 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Ser batizado e ter fé. a) Semelhanças: “teologia oficial” e “teologia popular” são unânimes em afirmar que ser batizado e ter fé são condições fundamentais para a participação da Santa Ceia. b) Diferenças: Enquanto que na “teologia oficial” há abundância de argumentos bíblicos e teológicos para justificar o Batismo como condição à participação da Santa Ceia e a fé é igual a crença, na “teologia popular” há apenas a afirmação de que se deve ser batizado para poder participar, dando maior ênfase à confirmação e à instrução. Fé, na “teologia popular”, é o mesmo que dar crédito, confiar e sentir. Ser fortalecido na fé é receber novo ânimo e novas forças para encarar as dificuldades da vida. Mudar de vida. a) Semelhanças: ambas as teologias consideram que mudança de vida é essencial para a participação da Santa Ceia. b) Diferenças: há diferença na forma de exprimir essa condição: a “teologia oficial” descreve essa condição de maneira genérica, na forma de pequenas teses, enquanto que na “teologia popular” descrevem-se fatos concretos da vida das pessoas, tais como, “não fazer as mesmas coisas”, “não viver uma vida errada”, “ser uma pessoa casada, não amigada”, entre outras. Examinar-se sobre a sua fé. a) Semelhanças: para ambas as teologias, é importante examinar-se antes de participar da Santa Ceia. Há uma ênfase penitencial, relacionada com o reconhecimento e arrependimento dos pecados. b) Diferenças: enquanto que na “teologia oficial” este tópico implica conhecimento e aceitação de doutrinas, não pecar conscientemente e viver conforme os ensinamentos de Cristo, na “teologia popular”, além da repetição de fórmulas que se aprende na igreja, fala-se de questões práticas: saber, entender, estar consciente, perceber que se está errado. Comunhão aberta ou comunhão fechada. a) Semelhanças: Três pessoas, das vinte entrevistadas, concordam com a posição da “teologia oficial” quanto à comunhão fechada, mesmo não fazendo referência ao termo: “os que são da igreja” (Ricardo); “quem for ... luterana, né” (Gerson, 40); “tenho um pouco de dificuldade de aceitar de repente outras pessoas que não são da igreja luterana, não são confirmados, na Santa Ceia ...” (Ilga, 42). b) Diferenças: Enquanto que a “teologia oficial” é categórica e exclusiva quanto aos participantes (comunhão fechada), na “teologia popular” há variedade de opiniões que tendem a ser mais inclusivas. Não se restringe aos membros da IELB e, por parte de seis pessoas, não se coloca qualquer condição religiosa. Traz vida e Traz salvação. a) Semelhanças: há referências à vida e à salvação como benefícios da participação da Santa Ceia em ambas 71 Revista Agosto.indd 71 3/9/2009 23:46:57 Igreja Luterana as teologias. b) Diferenças: estes tópicos na “teologia oficial” têm a ver mais com o aspecto transcendental, vida eterna e salvação, que são decorrentes do perdão dos pecados. Na “teologia popular”, além da repetição da fórmula que se aprende na igreja (vida eterna e salvação como consequências do perdão dos pecados), as pessoas referem-se às situações da sua vida, como pode ser evidenciado pelos depoimentos abaixo: “é tudo para mim...é tudo...para mim...é tudo...é o ar que respiro, é a vida, é a força...é aquela sensação, é aquela...como se diz, aquela esperança que amanhã sempre vai ser um novo dia, sempre eu tô esperando uma coisa melhor, sempre eu tô esperando uma notícia boa, alegre. É uma sensação muito boa...olha, é uma experiência que eu estou vivendo, que eu nunca vivi”(Clarice, 54); “entregar a tua vida para Deus...Deus segura a tua mão, tu começa a se reerguer” (Ademir, 58). Vida e salvação relacionam-se, na “teologia popular”, com consolo e conforto nos momentos difíceis da vida. Traz graça, conforto e consolo. a) Semelhanças: é um benefício da Santa Ceia e consequência do perdão dos pecados. b) Diferenças: a “teologia oficial” é mais teórica e objetiva, referindo-se especificamente a questões espirituais. A “teologia popular” é mais prática e subjetiva e refere-se às coisas da vida, tais como sentimentos, experiências, ajuda nas dificuldades e angústias; é alívio, tranquilidade e paz: “a gente se renova” (Ademir, 58); “traz alívio e paz ao coração” (Carla, 51), “se sente mais aliviado da carga” (Maria, 26), “eu acho que me sinto melhor, sabendo que Deus me ajuda, abençoa” (Bianca, 16) ; “me ‘porenche’ ... me dá uma alegria tão grande” (Clarice, 54); “eu experimento tudo de bom... aquela paz...” (Neuza, 29). Traz fortalecimento para a fé. a) Semelhanças: é um benefício da participação da Santa Ceia. b) Diferenças: o tópico “fortalecimento para a fé” é, na “teologia oficial”, fortalecimento na piedade, na certeza do perdão dos pecados e na crença nas coisas espirituais. A “teologia popular” repete a fórmula “traz fortalecimento para a fé”, mas acrescentamse ingredientes importantes, como sentimentos, sensações e situações concretas da vida: “Eu sinto, né, que eu me fortifico, saio de lá tranquilo ...” (Gerson, 40); “... tira aquele peso de ti e te fortalece pra continuação” (Maria, 26); “Acho que quando a gente está debilitado, está fraco na fé. Você está assim... Bah! Parece que tudo está dando errado, né, que nem a situação que a gente passou, né?! Parece que assim... a curva só desce... você está numa decrescente. E aí você acha... Bah, mas o que está acontecendo? Será que é a minha fé que está fraca? Então, aí você 72 Revista Agosto.indd 72 3/9/2009 23:46:57 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... precisa buscar o fortalecimento” (Ricardo, 37)329. 3.4 CONCLUSÕES Na “teologia oficial” há abundância de definições teóricas e riqueza de fundamentos bíblico-teológicos na exposição sobre a Santa Ceia. Há, por outro lado, escassez de questões práticas e ausência de situações concretas. Trabalha-se na “teologia oficial” com questões muito objetivas. Por isso, não há espaço para a subjetividade, para a sensibilidade e para a experiência pessoal. A “teologia oficial” é impessoal. Não se cogitam as palavras sentimento, experimentação, experiência pessoal. Há uma preocupação voltada muito mais para a pessoa individualmente do que para a comunidade e, assim como os benefícios são descritos de forma individualista, o preparo e a dignidade também o são. É evidente a preocupação exacerbada em definir o que a Santa Ceia é e em refutar posicionamentos contrários. Há maior preocupação em teorizar do que em estimular os fiéis a participarem motivados pelos benefícios e pelas consequências para a vida individual e comunitária. Fazendo-se uma retomada dos enunciados da “teologia oficial” acerca da Santa Ceia, podem-se verificar as seguintes ênfases: a Santa Ceia é um sacramento instituído por Cristo, um benefício para a sua igreja, no qual ele confere aos participantes seu verdadeiro corpo e sangue para perdão dos pecados, vida e salvação. Muitas páginas são dedicadas para definir doutrinas e refutar supostos erros de outras denominações. Pouco se diz a respeito dos benefícios e, dentre estes, todo o destaque recai sobre o perdão dos pecados. Muito pouco se diz a respeito das consequências práticas da participação da Santa Ceia na vida das pessoas. Fala-se muito de condições à participação, da necessidade de preparo, contrição e arrependimento, para uma participação digna da Santa Ceia. Ênfases são dadas aos alertas a que não se participe indignamente, para não sofrer o juízo de Deus. Por isso, mantém-se uma ênfase na comunhão fechada, a fim de evitar que pessoas tomem a Santa Ceia para o seu próprio juízo. Na “teologia popular”, há riqueza de detalhes práticos e abundância de situações concretas que são relevantes para a vida das pessoas. Há muito espaço para a subjetividade, para a experiência pessoal, o sentimento e a sensibilidade. Esses aspectos são amplamente valorizados, Anexo I, p. 15, linhas 13-19. 329 73 Revista Agosto.indd 73 3/9/2009 23:46:57 Igreja Luterana enquanto que definições teóricas não recebem maior atenção. Na “teologia popular” não se define teoricamente o que é a Santa Ceia, mas se tenta exprimir a partir daquilo que se sente e se experimenta. Só para citar alguns exemplos: a Santa Ceia “me ‘porenche’”, “eu experimento tudo de bom”, “saio de lá tranquilo”, “eu sinto cada vez que eu tomo, Jesus está mais perto comigo, mais perto de mim”, “nos torna mais próximos, mais irmãos”. Evidenciam-se por estas palavras todo o sentir e o ser humanos. Tudo isso as pessoas efetivamente vivem, experimentam e sentem quando participam da Santa Ceia. Fazendo-se um apanhado geral das principais ênfases da “teologia popular” no que concerne à Santa Ceia, verifica-se que “traz perdão dos pecados” é o assunto mais lembrado pelas pessoas. A própria referência ao “corpo e sangue de Cristo” parece evidenciar mais o aspecto penitencial (“para perdão dos pecados”) do que qualquer outro benefício. Aparentemente, as pessoas têm noção muito viva e real dos seus pecados. Para elas, perdão dos pecados não é teorização abstrata, mas algo concreto e que pode ser vivenciado. Assim também o é a Santa Ceia para perdão dos pecados. Motivados pela mesma preocupação penitencial, as pessoas revelam qual é, no seu entender, a mais importante condição à participação: “é importante preparar-se para participar”. Este foi o segundo assunto mais referido pelas pessoas. Como o sofrimento, a enfermidade, as frustrações e a ansiedade acompanham as pessoas no seu dia-a-dia, “traz alívio e paz ao coração” foi o terceiro assunto mais lembrado na pesquisa. As pessoas em geral afirmaram que a Santa Ceia ajuda a superar tais situações da vida. O que leva as pessoas ao culto e à Santa Ceia, além da certeza do perdão dos pecados, do alívio e paz ao coração, é a busca da comunhão com Deus, da sua proximidade, da sua ajuda e bênção e a busca da comunhão com o próximo. Essa constatação fica evidenciada nas seguintes observações: A importância que as pessoas dão ao lugar da celebração, destacando que “é importante sentir-se bem no lugar da celebração”; Maria, 26, com certeza, fala por muitos: “Deus vai estar ali com a gente nos ajudando, dando força para melhorar mesmo”. Com relação à comunhão com as pessoas, Juliana, 19, resume o que acontece na Santa Ceia: “em relação aos outros [a Santa Ceia] te torna mais fraterno, mais amigo, mais solidário”330. Anexo I, p. 26, linhas 23-28. 330 74 Revista Agosto.indd 74 3/9/2009 23:46:57 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... As ações referidas pelas pessoas merecem ser destacadas, especialmente quando se fala de condições à participação. Pouco é dito sobre a necessidade de conhecimentos específicos (instrução) ou determinados ritos (Batismo e confirmação) como pré-requisitos quando o assunto é “quem pode participar da Santa Ceia”. As ações “andar no caminho certo”, “mudar de atitudes” e “participar sempre” demonstram claramente que as pessoas se preocupam mais com questões concretas, visíveis e mensuráveis do que com conhecimentos teóricos e doutrinas. Não menos importantes são as referências àquelas coisas que as pessoas lembram quando se referem à Santa Ceia: hinos e liturgia, pessoas queridas e situações diversas da vida. Tais elementos demonstram que Santa Ceia é para as pessoas vivências, experiências, sentimentos, elementos que a “teologia oficial” não consegue exprimir. Pode-se perceber por esta pesquisa que a “teologia oficial” tem um papel importante quando o assunto é definir doutrinas, normas e procedimentos. Não se pode, porém, prescindir do valioso conjunto de expressões, sentimentos e experiências que fazem parte ou que são a essência da “teologia popular”. Sem esta, a igreja pode tornar-se meramente uma “igreja do discurso” e não uma “igreja da ação”. 4 CONSEQUÊNCIAS DAS DESCOBERTAS DA PESQUISA NA “TEOLOGIA OFICIAL” E NA “TEOLOGIA POPULAR” PARA A PRÁTICA DA SANTA CEIA À LUZ DAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO 4.1 INTRODUÇÃO A partir das principais descobertas da pesquisa na “teologia oficial” e na “teologia popular” acerca da Santa Ceia no âmbito da IELB, buscarse-á, à luz das origens do culto cristão, listar possíveis consequências para a prática eucarística dessa igreja. Estudos aprofundados a respeito das origens do culto cristão foram realizados nos últimos anos, inclusive pelo autor331 desta tese. Por isso, o capítulo quatro limitar-se-á a buscar apenas as informações relevantes para a presente pesquisa. Vale destacar que, por ser “a Eucaristia a estrutura mais distintiva do culto cristão”332 e por ser “o termo mais descritivo que PIETZSCH, 2002. 331 WHITE, James F. Introdução ao culto cristão. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p. 175. 332 75 Revista Agosto.indd 75 3/9/2009 23:46:57 Igreja Luterana temos”333, o autor desta pesquisa optou em usar este termo doravante. 4.2 A EUCARISTIA NAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO A respeito da Eucaristia nas Origens do Culto Cristão, o autor desta pesquisa remete o leitor ao texto de sua dissertação de Mestrado em Teologia (disponível na biblioteca do Seminário Concórdia e também na página do Seminário Concórdia na Internet) e no seu artigo publicado na revista Igreja Luterana (PIETZSCH, Paulo Gerhard. Eucaristia nas origens do culto cristão. Igreja Luterana, 2002, n. 2.). 4.3 SÍNTESE DAS PRINCIPAIS DESCOBERTAS ACERCA DA EUCARISTIA NA “TEOLOGIA OFICIAL”, NA “TEOLOGIA POPULAR” E NAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO 4.3.1 Como se define a Eucaristia / Santa Ceia 4.3.1.1 Síntese das definições acerca da Santa Ceia na “teologia oficial” Verificou-se, a partir de acurada investigação, que na “teologia oficial” da IELB Eucaristia / Santa Ceia é um sacramento que confere graça ao ser humano, um benefício cuja iniciativa é inteiramente de Deus. Qualquer sacrifício, iniciativa ou obras meritórias por parte das pessoas são considerados na “teologia oficial” da IELB contrários aos ensinamentos das Escrituras e das Confissões Luteranas, por isso devem ser refutados. É inegável a forte ênfase penitencial já nas definições do que é a Santa Ceia, ou seja, é para o perdão dos pecados. A ênfase na presença real de Cristo, com seu verdadeiro corpo e sangue, em, com e sob o pão e o vinho e mediante suas duas naturezas, divina e humana, são minuciosamente explicados através do conceito da “união sacramental”. Ao mesmo tempo em que se define o termo, refutam-se insistentemente doutrinas que se consideram contrárias aos princípios bíblicos e confessionais, tais como a transubstanciação, representação e consubstanciação. Para que a Eucaristia / Santa Ceia tenha validade e poder é necessário que seja celebrada conforme a ordem e promessa de Cristo, quando de sua instituição. Enfatiza-se que a autoridade está na palavra de WHITE, 2005, p. 175. 333 76 Revista Agosto.indd 76 3/9/2009 23:46:57 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Cristo e não em palavras, gestos ou mesmo a fé da pessoa oficiante ou comungante. Insiste-se, por isso, no uso das palavras da instituição no momento da consagração dos elementos. Em segundo lugar, para que a Eucaristia / Santa Ceia tenha valor e, consequentemente, poder, é absolutamente necessário o uso dos elementos conforme a instituição. Insiste-se, por isso, que pão e vinho devem ser os elementos visíveis e que juntamente com estes recebe-se o corpo e o sangue de Cristo. É verdade que, apesar da insistência no uso do pão, a prática da IELB é o uso de hóstias. O vinho é utilizado, independente da cor, desde que seja o “fruto da videira” fermentado. Refuta-se o uso de qualquer outro elemento em lugar do pão / hóstia e do vinho e qualquer prática que vá contra o princípio instituído do comer e beber, como, por exemplo, a intinção. Percebe-se por parte da “teologia oficial” da IELB uma enorme preocupação em definir com muita exatidão o que é a Eucaristia / Santa Ceia e, especialmente, afirmar o que ela não é, refutando qualquer ensinamento que, em sua compreensão, vá contra os princípios estabelecidos nas Escrituras e nas Confissões Luteranas. Há, pois, abundância de definições teóricas e, por consequência, escassez de aspectos práticos e total ausência de situações concretas da vida das pessoas. 4.3.1.2 Síntese das descobertas acerca da Santa Ceia na “teologia popular” Tenta-se, na “teologia popular”, através de fórmulas que se aprende na igreja e de singelas manifestações, sentimentos e experiências pessoais, explicar o que é a Santa Ceia. Diz-se que “é o verdadeiro corpo e sangue de Cristo”, sem, no entanto, entrar no mérito de como isso é possível. Percebe-se nas respostas das pessoas que se trata de algo muito mais para ser crido, sentido e experimentado do que para ser definido ou explicado. Percebe-se, tal qual na “teologia oficial”, uma forte conotação penitencial nas manifestações das pessoas acerca da Santa Ceia. Na tentativa de explicar o significado da Santa Ceia, um pequeníssimo número de pessoas afirmou tratar-se de um sacramento, sem, no entanto, definir o que se entende por esta palavra. Em número bem mais expressivo (105 u.i.), afirmou-se que a Santa Ceia é o verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Também não houve maior explicação ou definição sobre esta fórmula. Enfatizou-se que é mais do que simples pão e vinho, no entanto, não houve unanimidade quanto à maneira como o corpo e o sangue de Cristo são recebidos pelos fiéis. Houve quem afirmasse que pão e vinho são transformados em corpo e sangue. Um segundo grupo afirmou que se trata de uma representação, que pão e vinho significam 77 Revista Agosto.indd 77 3/9/2009 23:46:57 Igreja Luterana corpo e sangue de Cristo, enquanto que um terceiro grupo referiu-se ao corpo e sangue como localmente presentes no pão e no vinho. Não há, na “teologia popular”, qualquer refutação de doutrinas de outras denominações religiosas. A consagração dos elementos é referida como necessária para que a Santa Ceia tenha valor e para que se tenha a certeza de estar recebendo o corpo e o sangue de Cristo. Além do uso das palavras da instituição, menciona-se o sinal da cruz pelo pastor como algo fundamental e a fé das pessoas como absolutamente necessária. Sucintamente, pode-se dizer que as pessoas descrevem a Santa Ceia muito mais pelo que elas acreditam, sentem e experimentam, e pelas ações visíveis ligadas a ela, do que através de definições teóricas e bem fundamentadas. 4.3.1.3 Como se descreve a Eucaristia nas origens do culto cristão Nas origens do culto cristão a Eucaristia consiste em celebrar através de uma refeição de louvor pelo todo da obra de Deus em Cristo a ressurreição do Senhor e as promessas das quais a ressurreição era a garantia. Nesta refeição sagrada uniam-se passado (anamnese dos grandes feitos de Deus), presente (comemoração) e futuro (esperança escatológica). Tal refeição era celebrada com alegria e singeleza de coração, humildade, espírito de igualdade, unidade, sintonia, comprometimento, lealdade a Deus e ao próximo. Celebrava-se a Eucaristia com ações de graça (a redundância é proposital), espírito de confraternização, comemoração do evento da salvação, sacrifício de gratidão e oferta a Deus e em favor do próximo. Em suma, celebrava-se o mistério da presença do Senhor em meio ao seu povo. A Eucaristia nas origens do culto cristão é mais descrita concretamente do que definida, e sua principal ênfase não consiste na penitência, mas na manifestação da graça de Deus e na celebração desta graça por parte de seu povo. Na Era Apostólica e Igreja Antiga não se discute poder ou validade da Eucaristia. Relata-se simplesmente o que e como isto era feito. Por exemplo: por ocasião da última ceia, os discípulos, ao verem as ações de Jesus e ouvirem dele as palavras, não discutiram nem perguntaram como isso era possível. A presença e o poder do Senhor lhes eram suficientes. Quanto aos elementos da Ceia, os textos bíblicos mencionam simplesmente pão e cálice / fruto da videira, corpo e sangue de Cristo. Não se discute o tipo de pão ou a essência do fruto da videira. Deduz-se, pelo contexto da festa, que se tratava de pão ázimo e que o fruto da videira 78 Revista Agosto.indd 78 3/9/2009 23:46:57 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... era vinho. Igualmente, não há nas origens maior preocupação em explicar como se dava a presença do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia. Simplesmente se participava da celebração na certeza da presença do Senhor. A Eucaristia, como celebração “em memória da ressurreição do Senhor”, como celebração da vida e vitória do Redentor, é elemento central do culto cristão nas origens, tanto que, em dado momento da história, culto e Eucaristia significam exatamente a mesma coisa. 4.3.2 A freqüência e o dia das celebrações 4.3.2.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca da frequência e do dia das celebrações A IELB, em sua história de mais de cem anos, nem sempre tem celebrado a Santa Ceia a cada334 culto. Não se diz, oficialmente, quantas vezes se deve celebrar a Santa Ceia ou dela participar, apenas se diz, com base nos benefícios, que é importante participar frequentemente. Há, no entanto, na própria liturgia denominada “Ordem do culto principal”, após a oração geral e recolhimento das ofertas, a seguinte observação: “Não havendo celebração da Santa Ceia, segue: Pai-nosso, Hino, Oração, Bênção”335, o que demonstra que, na prática da IELB, não se prevê a celebração da Ceia a cada culto. O dia dedicado à celebração, na maioria das comunidades da IELB, continua sendo o domingo. Muitas comunidades também realizam seus cultos em sábados. 4.3.2.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca da frequência e do dia das celebrações Nas duas comunidades pesquisadas, a celebração da Santa Ceia acontece a cada semana, conforme os depoimentos. As pessoas são unânimes em afirmar sobre a importância da participação e reconhecem que quanto mais vezes puderem participar, melhor. Algumas falam de ir uma vez por mês, outras duas vezes, outras dizem que se pudessem ir a cada culto, seria melhor ainda. Os motivos que levam as pessoas à Santa Ceia são diversos: “Todas as vezes que tu te sentir triste e abatido, que percebe que está errado” (Caetano, 17); “Tanto quando estiver fraco como quando estiver forte” PIETZSCH, 2002, p. 92-99. 334 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986, p. 24. 335 79 Revista Agosto.indd 79 3/9/2009 23:46:58 Igreja Luterana (Ricardo, 37); “Quando ‘tamo’ mal a gente deve ir mais; quando está alegre também deve ir” (Leomir, 14). De uma forma geral, as pessoas acreditam que, quanto mais puderem participar da Santa Ceia, melhor. Elas se sentem melhor, mais fortalecidas na fé e consoladas. 4.3.2.3 O que dizem as origens acerca da frequência e do dia da Eucaristia Há no Novo Testamento uma referência ao “partir do pão de casa em casa”336, que poderia acontecer diariamente nos primeiros anos da Era Apostólica. No entanto, ao que tudo indica, muito cedo o “primeiro dia da semana”337 ou “o dia do Senhor”338 tornou-se a data do encontro semanal da comunidade para celebrar a Eucaristia. A sua importância pode ser atestada no fato de que “em toda a Igreja Primitiva não há o menor indício da celebração do domingo sem a Ceia do Senhor”339 e a ”existência de um vínculo quase automático entre o dia do Senhor e o partir do pão”340. 4.3.3 A estrutura da celebração eucarística 4.3.3.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca da estrutura da celebração Duas ordens litúrgicas, que foram oficialmente publicadas pela IELB e que constam no Hinário Luterano341, continuam sendo usadas nas comunidades desta igreja. A estrutura de ambas as liturgias é bastante parecida, com pequenas diferenças na ordem de alguns pontos. A “Ordem do culto principal I” foi publicada na IELB em 1986342 enquanto que a “Ordem do culto principal II” foi pela primeira vez publicada nesta igreja em 1947343. As principais alterações, que podem ser visualizadas na sinopse da tabela anterior, são: o acréscimo da leitura do Antigo At 2.46 336 At 20.7 337 1 Co 11.20 338 ALLMEN, 1968, p. 176. 339 ALLMEN, 1968, p. 175. 340 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Hinário Luterano. Porto Alegre: Concórdia, 1986. 341 PIETZSCH, 2002, p. 102 342 PIETZSCH, 2002, p. 97 343 80 Revista Agosto.indd 80 3/9/2009 23:46:58 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Testamento, a inclusão do gradual entre a Epístola e o Evangelho, deslocamento do credo para depois do sermão, inversão da ordem da oração geral e recolhimento das ofertas, deslocamento do ofertório para o início da celebração da Santa Ceia e omissão da saudação e do benedicamus após a distribuição. Percebe-se em ambas as liturgias ênfase penitencial, pois, além da confissão e absolvição de pecados, é prevista a exortação ou alocução confessional. A própria redução do Kyrie (de uma litania pelas dores do mundo para a simples repetição das frases “Senhor, tem piedade/misericórdia de nós, Cristo, tem piedade/misericórdia de nós, Senhor, tem piedade/misericórdia de nós”) mais parece reforçar a idéia de uma nova confissão de pecados. O ofertório, na ordem número dois, mais parece uma conclusão do sermão e o conteúdo é também penitencial344. Na ordem número um, mesmo que (corretamente) tenha sido recolocado no início da celebração da Santa Ceia, o conteúdo do ofertório é igualmente penitencial345. Não se percebe qualquer ênfase na diaconia, no serviço de amor ao próximo. Ambas as liturgias concluem com a bênção e não há qualquer menção ao envio para a prática do bem. 4.3.3.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca da estrutura da celebração Não há por parte das pessoas entrevistadas maior preocupação com uma estrutura do culto eucarístico. Fala-se, entretanto, que os encontros da comunidade são momentos de comunhão (142 u.i.), ou seja, há a preocupação de que o culto e a Santa Ceia contenham elementos que apontem tanto para aspectos verticais quanto para horizontais. Tais manifestações das pessoas, especialmente das mulheres, estão completamente envolvidas por sentimentos, sensações e experiências subjetivas. Quanto à liturgia propriamente dita, diz-se que ela “é do pastor” ou “é algo que o pastor faz” (Caetano, 17). Tal afirmação parece mais referir-se a uma apresentação, preleção ou “obra de um homem só” do que um evento cuja participação ativa da comunidade é essencial. Dizse que “a liturgia é sempre cantada e está baseada sempre na mesma ordem litúrgica” (Edison, 26). Menciona-se frequentemente o apreço pelos hinos e pela música em geral: “Há hinos e fundo musical” (Ricardo, 37); “Hinos que eu gosto muito” (Ademir, 58). Há referência à mensa- Trata-se de parte do Sl 51: “Cria em mim, ó Deus, um puro coração ...” 344 Trata-se do mesmo salmo, com pequenas variantes na tradução para o português. 345 81 Revista Agosto.indd 81 3/9/2009 23:46:58 Igreja Luterana gem (sermão): “uma melhor que a outra, que vai dando inteligência, vai abrindo a tua mente” (Clarice, 54). A oração é outro ingrediente referido ao se falar da liturgia. Ao falar propriamente da celebração da Santa Ceia, as pessoas, maciçamente, apontam para a necessidade do preparo para a participação, o qual acontece, especialmente, quando elas confessam os seus pecados a Deus e recebem a absolvição: “É buscar por renovação, buscar a absolvição, confessar pecados” (Maria, 26). A consagração dos elementos e o uso das palavras da instituição foram lembrados por quinze pessoas como parte importante e até necessária da celebração. Nesse contexto, menciona-se o uso de pão / hóstia e vinho, fala-se de alguns detalhes relacionados ao espaço e utensílios litúrgicos, tais como a mesa mais próxima da comunidade e a referência à garrafa de vinho. Menciona-se a forma da distribuição, em fila ou em semicírculo e o uso de “copinhos” (cálice individual) ou de cálice coletivo. O espaço da celebração, especialmente, é referido como um lugar de bem-estar. Vale destacar uma observação quanto à compreensão da liturgia: “poderia ser feito um estudo periódico sobre a liturgia para que a celebração não fique mecânica, automática” (Ricardo, 37). Tal observação parece refletir o pensamento de que a liturgia é repetitiva e que sempre acontece a mesma coisa. 4.3.3.3 O que dizem as origens acerca da estrutura da Eucaristia No Novo Testamento encontram-se referências à proclamação da Palavra (doutrina dos apóstolos), à comunhão (que incluía ofertas para os pobres), à Ceia do Senhor (partir do pão) e às orações (At 2.42-27). Adicionam-se a estas referências o uso de “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl 3.16-17), as exortações, o “ósculo da paz” e a expressão “maranatha”. Supõe-se que as palavras da instituição , o “Painosso” e as ações de graça igualmente compunham a estrutura da celebração eucarística. Inicialmente, os locais de encontro da comunidade eram as próprias casas dos cristãos, não mais o templo ou a sinagoga. No período pós-apostólico, há referências a uma estrutura mais elaborada, mais detalhada e, possivelmente, padronizada da Eucaristia. Vale destacar que se tratava, inicialmente, de uma celebração no contexto de uma refeição completa que, mais tarde, foi separada em duas: a celebração eucarística matutina e a refeição comunitária vespertina. Aqui serão apenas destacados o gesto da paz ou ósculo da paz como sinal de reconciliação, muitas ações de graças e orações, grande ênfase diaconal através do ofertório, oração eucarística com ações de graças, 82 Revista Agosto.indd 82 3/9/2009 23:46:58 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... anamnese, palavras da instituição, epiclese, doxologias, seguidos do amém da comunidade, o uso da oração do Senhor e da expressão “maranatha”, a distribuição e o envio com a ordem para que todos se apressassem em fazer o bem. Após a assembléia eucarística, pão e fruto da videira (além de outros alimentos e água) “eucaristizados” eram levados para os ausentes (pobres, viúvas, enfermos, encarcerados, etc). 4.3.4 Os participantes da celebração 4.3.4.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca dos participantes No contexto da “teologia oficial” da IELB, são listados os seguintes requisitos para que uma pessoa possa participar da Santa Ceia: “Os que já são batizados e, portanto, receberam a fé cristã; os que são capazes de se examinarem a si mesmos a respeito de sua fé e que se arrependem dos seus pecados; os que crêem que na Santa Ceia receberam o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo em, com e sob o pão e o vinho para perdão dos seus pecados”346. Por outro lado, é vedada a participação de pessoas “que negam a presença real do corpo e sangue de Cristo” (na Santa Ceia), os que crêem na transubstanciação347, os que ainda não foram instruídos nas doutrinas cristãs e confirmados348 e os que não são capazes de se examinarem. 4.3.4.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca dos participantes Na “teologia popular” foram listadas algumas condições à participação da Santa Ceia. Em primeiro lugar, “é importante participar da Santa Ceia” (171 u.i.), o que inclui: “estar consciente”, “pensar muito nos pecados”, “conhecer o pecado”, “arrepender-se”, “demonstrar que não quer fazer novamente”, “confessar os pecados” e “pedir perdão”, reconciliar-se com Deus e com o próximo. Em segundo lugar, “é importante andar no caminho certo” (80 u.i.), seguido por “é importante ser batizado e confirmado” (38 u.i.). Vale destacar que a ênfase maior está na confirmação e na instrução na doutrina. “Ser da igreja ou crer no que a nossa igreja ensina” (23 u.i.) é a IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Pareceres da Comissão de Teologia e Relações Eclesiais. Porto Alegre: Concórdia, 1995, v. 1, p.11-12. 346 Ibid, p.11. 347 IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Liturgia Luterana. Porto Alegre: Casa Publicadora Concórdia, s/d, v. 2, p.6 e 7. 348 83 Revista Agosto.indd 83 3/9/2009 23:46:58 Igreja Luterana quarta condição, dividida entre aqueles que defendem que só membros da IELB deveriam participar (3 pessoas) e os que admitem a participação de pessoas de outras denominações, desde que aceitem a mesma doutrina que a IELB professa acerca da Santa Ceia (11 pessoas). Houve (para surpresa deste pesquisador), finalmente, seis pessoas que defendem que “todas as pessoas podem participar”, desde que tenham vontade. 4.3.4.3 O que dizem as origens acerca dos participantes A respeito dos participantes da celebração eucarística na era apostólica, Paulo diz que eram “os irmãos meus”349, Lucas se refere a “todos os que creram [...] no partir do pão”350; Marcos diz que o que Cristo fez é “em favor de muitos”351 e Mateus acrescenta que é “para remissão de pecados”352. Considerando que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”, exatamente esses pecadores que crêem em Cristo são justificados por sua graça353. O primeiro ingrediente, portanto, para a participação na Eucaristia, é crer que através de Cristo há redenção e justificação. A segunda informação sobre os participantes da Ceia acha-se nos pais apostólicos. Na Didaqué se diz: “Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor”354. Esta informação é confirmada por Justino Mártir355 e por Hipólito356. É importante destacar que, na Igreja Antiga, a reconciliação com o próximo com quem havia alguma divergência, era condição fundamental para a participação da Eucaristia: “Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se ajunte a vós antes de ser reconciliado, a fim de que o vosso sacrifício não seja profanado”357. 4.3.5 Os benefícios da Eucaristia 4.3.5.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca dos benefícios 1 Co 11.33. 349 At 2.42-44. 350 Mc 14.24. 351 Mt 26.28. 352 Rm 3.21-24. 353 DIDAQUÉ, IX, p. 32. 354 JUSTINO, Apologia 1.65, p.81. 355 HIPÓLITO, Tradição Apostólica, 44-46, p.51. 356 DIDAQUÉ XIV.2 357 84 Revista Agosto.indd 84 3/9/2009 23:46:58 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Os benefícios da Santa Ceia / Eucaristia, na “teologia oficial” da IELB, podem ser assim resumidos: ao participar da Santa Ceia, a pessoa comungante recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, que traz perdão dos pecados, vida, salvação, graça, conforto, consolo e fortalecimento para a fé. Além do flagrante componente penitencial, pois é grande o destaque ao perdão de pecados (e tudo o que isto implica), percebe-se a ênfase em certas condições para que perdão e outros benefícios se tornem efetivos. Dentre as condições para que o comungante tenha proveito em sua participação, destacam-se: a fé cristã e uma forma geral e, especificamente, a fé na presença real de Cristo na Santa Ceia, o preparo mediante contrição, arrependimento, confissão dos pecados e o firme propósito de corrigir a sua vida pecaminosa, todos estes ingredientes necessários para uma participação digna da Santa Ceia. Vale destacar que os benefícios são, aparentemente, descritos de forma individualista: “meu perdão”, “minha salvação”, etc. 4.3.5.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca dos benefícios De acordo com os depoimentos das pessoas entrevistadas, o benefício da Santa Ceia mais referido é o perdão dos pecados (196 u.i., cerca de 13 % do total). No entanto, para receber esta benesse, é importante preparar-se (172 u.i., cerca de 11 % do total), o que, tal como na “teologia oficial” implica arrependimento e confissão dos pecados e o firme propósito de andar no caminho certo. Sem estas condições (ou seriam méritos?), as pessoas participantes não recebem os benefícios, mas juízo e condenação. “Traz alívio e paz ao coração” (164 u.i., próximo a 11 % do total) é o segundo benefício mais referido na “teologia popular”. Muito mais do que um benefício puramente espiritual, alívio e paz referem-se a coisas e situações concretas da vida, tais como: “ser livre”, “sem receio”, “sem rancor”, “sem culpa”, “renovação”, “tranquilidade”, “reconstrução da vida”, “liberta da ansiedade e depressão”, “sentir-se melhor”, “esperança de dias melhores”, “vencer sofrimentos e angústias”, “sentir-se ‘porenchida’”, “alívio para as cargas”, “ajuda na enfermidade e luto”, “sentir-se perdoado”. Além do flagrante aspecto penitencial, percebe uma visão global da pessoa como ser bio-psico-social-espiritual. É na mesma perspectiva que as pessoas se referem ao fortalecimento e renovação da fé. Entre os benefícios da Santa Ceia, é referido como uma fórmula pelas pessoas a expressão “recebe-se o corpo e o sangue de Cristo” (105 85 Revista Agosto.indd 85 3/9/2009 23:46:58 Igreja Luterana u.i.). Junto com a fórmula supra, são referidos os benefícios “traz vida e salvação”, que pode ser interpretados em dois sentidos: como sinônimo de vida eterna e benefícios reservados para o futuro (referido principalmente por homens) ou como referência a situações concretas da vida e benefícios para o presente (referidos mais por mulheres). “Salvação” tem íntima relação com perdão dos pecados, e as condições para recebê-la são semelhantes. Mesmo com referência aos benefícios da Santa Ceia, percebe-se a presença marcante da penitência, o que acentua tendências individualistas: “ao receber o corpo e o sangue de Cristo, tenho meus pecados perdoados, tenho alívio e paz, tenho vida e salvação”. Talvez isso explique a inexpressiva referência aos aspectos comunitários da participação da Santa Ceia. 4.3.5.3 O que dizem as origens acerca dos benefícios da Eucaristia Dos quatro relatos da instituição da Santa Ceia no Novo Testamento, apenas Mateus faz referência ao perdão dos pecados. Não se pode, pois, argumentar com tanta ênfase à base do Novo Testamento uma visão penitencial da Eucaristia. O que se pode afirmar, tanto pelos componentes da herança judaica quanto dos exemplos práticos da vida da comunidade primitiva, é que a Eucaristia era uma refeição, que alimentava tanto o corpo quanto a alma. O espírito com que se celebrava a Eucaristia demonstra que tal refeição era momento de comunhão com Deus e com os irmãos, recebia-se o corpo e o sangue de Cristo como manifestação e garantia da graça divina e como a prova do cumprimento das suas promessas. Na Ceia, as pessoas tornavam a vivenciar a realidade da presença do próprio Cristo, relembrando, revivendo e comemorando a salvação como realidade presente, não apenas um benefício reservado para o futuro. Fazer parte de “um só corpo, porque todos participam de um único pão” é, sem dúvida, o benefício mais referido nos primórdios. 4.3.6 As consequências da Eucaristia / Santa Ceia 4.3.6.1 Síntese das descobertas na “teologia oficial” acerca das consequências O espaço dedicado às consequências da Santa Ceia / Eucaristia na “teologia oficial” não é muito expressivo. Com definições sucintas se diz que a Santa Ceia aumenta o amor a Deus e ao próximo, ajuda a levar uma vida piedosa e agradável a Deus. Em relação ao próximo, a partir de citações bíblicas, fala-se de amor fraternal, igualdade entre os parti- 86 Revista Agosto.indd 86 3/9/2009 23:46:58 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... cipantes, clemência, bondade e caridade. Fala-se do ato de perdoar e de ser um só corpo com os demais participantes. 4.3.6.2 Síntese das descobertas na “teologia popular” acerca das consequências A “teologia popular” é mais rica em descrições das consequências da Santa Ceia na vida das pessoas. Com abundantes situações concretas da vida, tais como sentimentos, problemas diversos, relações com Deus e com o próximo, que são modificados e resolvidos a partir da recepção da Santa Ceia, as pessoas descrevem as consequências dessa participação. Nas relações horizontais, especialmente, destacam-se: a mútua reconciliação, estar em paz com todos, melhorar relacionamentos, tornar-se mais fraterno, compreender mais, orar mais, ajudar mais as pessoas. Comunhão com Deus e com o próximo, além de ser um grande benefício da Santa Ceia, é fortalecida a partir da participação conjunta da Santa Ceia. A falta de comunhão, especialmente a horizontal, é lamentada por algumas pessoas. 4.3.6.3 O que dizem as origens acerca das consequências da Eucaristia Além de promover a comunhão com Deus por meio de Cristo e a comunhão dos irmãos entre si, as consequências da Eucaristia eram visíveis na vida da comunidade cristã. Pode-se resumir as consequências, abundantemente referidas com exemplos concretos no Novo Testamento, em: alegria e singeleza de coração, humildade, unidade, sintonia, comprometimento, comunidade, lealdade para com Deus e com o próximo. A prática da diaconia, da solidariedade e da partilha eram as consequências mais visíveis, eram a própria manifestação de serviço da vida comunitária. Tais consequências, descritas sempre de forma corporativa e comunitária, poderiam ser resumidas na expressão típica do envio: “ide, irmãos, e apressai-vos em fazer o bem”. 4.3.7 Outras considerações relevantes 4.3.7.1 Na “teologia oficial” Há na “teologia oficial” da IELB temas que sobrecarregam a celebração eucarística e temas importantes que estão total ou parcialmente ausentes. Entre os temas que sobrecarregam a celebração, destacam-se a penitência e, em consequência desta, o individualismo. Há excesso de definições e poucas referências a situações concretas da vida. 87 Revista Agosto.indd 87 3/9/2009 23:46:58 Igreja Luterana A carência do elemento comunitário e diaconal é a mais evidente quando se fala do sacramento. 4.3.7.2 Na “teologia popular” Há na “teologia popular”, tal qual na “teologia oficial”, uma ênfase penitencial que sobrecarrega a celebração da Santa Ceia. Por falta de ritos mais específicos, a lembrança de situações de saúde e enfermidade, de luto e lembrança de pessoas queridas, de passagens diversas da vida, estes conteúdos acabam sobrecarregando a celebração da Santa Ceia. Igualmente à “teologia oficial”, a Santa Ceia está desprovida de uma visão comunitária e preocupação diaconal. 4.3.7.3 Nas origens do culto cristão A Eucaristia não é essencialmente o espaço para a penitência e a reconciliação. Isto, ao que parece, já acontecia antes da celebração e era selado com o “ósculo da paz”. Provavelmente, havia outros encontros dedicados à oração, à saúde/enfermidade, à penitência e à reconciliação, à catequese. Na celebração destacavam-se a comunhão, a prática da diaconia, a solidariedade e a partilha. 4.4 CONCLUSÕES E ORIENTAÇÕES PARA A PRÁTICA DA EUCARISTIA NA IELB À LUZ DAS ORIGENS DO CULTO CRISTÃO Ao olhar-se para as origens do culto cristão, pode-se perceber uma estrutura básica herdada da sinagoga e das refeições familiares judaicas. A Eucaristia, pois, originalmente, era uma refeição de louvor pelo todo da obra de Deus em Cristo. Estudiosos da liturgia cristã têm proposto exatamente essa volta às origens como ponto de partida para o diálogo ecumênico e para as ações litúrgicas comuns358. À forma original do culto cristão pertencem a Palavra359 e o Sacramen360 to . Posteriormente perdeu-se parte desta estrutura original, quando a ICAR medieval se tornou uma igreja quase só do sacramento; as igrejas oriundas da Reforma acabaram caindo para outro extremo. Atualmente, há a compreensão de que Palavra e sacramento não devem viver isoladamente 361, pois juntos constituem e constroem bem melhor a Igreja. A BIERITZ, 1987, p. 52. 358 BRAND, 1983, p. 9. 359 Ibid., p. 9. 360 SARTORE e TRIACCA, 1992, p. 996. 361 88 Revista Agosto.indd 88 3/9/2009 23:46:59 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... consequência dessa compreensão do culto é que as igrejas oriundas da Reforma já estão dando mais atenção ao sacramento dominical e a ICAR pós Vaticano II, voltou-se bem mais à Palavra362. Para celebrar a Eucaristia como nas origens do culto cristão, é necessário sentir, experimentar e vivenciar a Ceia como refeição de ação de graças por todos os benefícios que Deus tem proporcionado às suas criaturas, tanto na criação quanto na redenção e santificação363. Muito mais do que definições abstratas, a celebração da Ceia implicava ações concretas, pois Cristo, ao instituí-la, tomou o pão e o cálice, deu graças sobre ales, quebrou o pão e apresentou o cálice e os deu aos discípulos364 e, simplesmente, sem definir ou explicar, disse: “isto é o meu corpo e isto é o meu sangue”365. Destaca-se que, desde as origens, a Eucaristia é central no culto cristão, tanto que ambas as palavras, em dado momento, significavam a mesma coisa, e que, desde os tempos mais remotos, era celebrada semanalmente. A partir desta constatação, recomenda-se a celebração regular da Santa Ceia, a cada culto e todas as semanas. O centro da Eucaristia é a celebração da vida; portanto, não é tristeza e agonia o que a caracterizam, mas a alegria de saber e crer que o Senhor venceu a morte e o pecado e está vivo e presente, como o anfitrião que oferece o alimento que aponta para a nova aliança. Por isso, nela se celebra o passado, no recordar a ação graciosa de Deus em Cristo; o presente, quando o cristão participa do amor, da graça e da comunhão com Cristo e com os irmãos; e o futuro, como expectativa de ser herdeiro de um novo mundo. Verificou-se a partir do estudo sobre a Santa Ceia na “teologia oficial”366 e na “teologia popular”367 no âmbito da IELB uma profunda ênfase penitencial, em detrimento de outros grandes benefícios ressaltados nas origens do culto cristão. Em documento publicado pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB)368 sobre a Santa Ceia, houve consenso de que BIERITZ, Karl-Heinrich e ULRICH, Michael. Gottesdienstgestaltung. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1987, p. 8. 362 DIDAQUÉ, IX e X. 363 DIX, 1960, p. 48-50. 364 Cf. 1 Co 11, Mt 26, Mc 14 e Lc 22. 365 Capítulo I da tese. 366 Capítulo II da tese. 367 IECLB e IELB. Diálogo interluterano sobre a celebração da Santa Ceia. Porto Ale- 368 89 Revista Agosto.indd 89 3/9/2009 23:46:59 Igreja Luterana a mesma “é dádiva de Cristo para sua Igreja”, não é meramente uma obra ou cerimônia baseada na piedade humana, pois tem a autoridade de Cristo, “que se manifesta em poder, mas, sobretudo em graça e misericórdia para com o seu povo”369. O mesmo documento ressalta que Cristo está presente na celebração não apenas de forma simbólica, mas de fato, e que a “Santa Ceia dá expressão à comunhão criada por Deus e a fortalece”. Dá-se ênfase à comunhão que existe entre o comungante e Cristo e com os irmãos. A Santa Ceia é, pois, o “meio pelo qual tal comunhão é sustentada e fortalecida”370. Muito mais do que uma preocupação individualista e interesseira na busca por perdão e dignidade, na celebração eucarística precisa-se resgatar a reconciliação mútua371 como um elemento essencial do culto. Por isso, convém que se fale um pouco sobre o gesto da paz e como este era entendido nas origens. Este gesto era a afirmação de que, após a oração dos fiéis, todos procurariam viver como verdadeiros irmãos e irmãs de uma mesma família372. A Didaqué assim se refere à reconciliação: “Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de ter se reconciliado, a fim de que o vosso sacrifício não seja profanado”.373 Como resposta à palavra do Senhor, saudavam-se com o ósculo santo, como manifestação de amor e fraternidade, podendo, então, realizar a união em Cristo e por Cristo na liturgia eucarística374. A reconciliação, selada com o gesto da paz, remete o participante da Eucaristia ao texto de Mateus 5.23-24: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta”. Assim sendo, o gesto da reconciliação, selado com o ósculo santo, era marca registrada de pessoas regeneradas e não podia ser exigido ainda dos catecúmenos375. O referido gesto, que sela a reconciliação, poderia acontecer, no contexto ocidental, na forma de um abraço fraterno, um aperto de mão ou outro gre: 04 de outubro de 2001. IECLB e IELB, 2001, ponto II. 1. 369 IECLB e IELB, 2001, ponto II. 2-3. 370 MARTINI, 1997, p. 104. 371 JUNGMANN, Josef A. The early liturgy. Indiana: Notre Dame Press, 1958, p. 41. 372 DIDAQUÉ, XIV. 373 JUSTINO, Apologia 1.65. 374 JUNGMANN, 1958, p. 41. 375 90 Revista Agosto.indd 90 3/9/2009 23:46:59 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... sinal equivalente376. O gesto da paz jamais deveria ser esquecido, pois nele “os fiéis imploram a paz e a unidade da igreja”, expressando “entre si amor recíproco, antes de participarem do único Pão”377. Sem comunhão ou fraternidade, que nasce do aceitar o outro, do perdão mútuo, da recepção do outro, não existe Eucaristia. Faz-se necessário, pois, olhar com “outros olhos” para a explanação do apóstolo Paulo sobre a dignidade da celebração da Ceia do Senhor, que apontava especialmente para as divisões causadas pelo egoísmo e falta de amor de uma participação destituída de solidariedade378. Martini destaca que o texto de Didaqué que fala de confessar pecados está referindo-se a um “reconhecimento de culpa que não pode prescindir da reconciliação com o irmão e a irmã”379. Seria, portanto, muito mais oportuno, pensando-se nas origens do culto cristão, omitir a tradicional confissão de pecados e, em seu lugar, incluir um momento para a mútua reconciliação. Quando o assunto é a ordem da Eucaristia, é importante destacar que o núcleo original do culto cristão é composto de Liturgia da Palavra (leitura das Escrituras, interpretação e oração de intercessão) e Liturgia Eucarística (ofertório/ preparo da mesa, oração eucarística e distribuição)380. Deste núcleo381, nenhuma comunidade cristã deveria abrir mão, pois estaria deixando de lado elementos que desde as origens foram imprescindíveis no culto dominical382. A IELB, ao longo de sua história, tem deixado de lado pelo menos duas partes desse núcleo original do culto cristão: o ofertório (no seu sentido original) e a oração eucarística. O ofertório, como manifestação prática da diaconia, é um elemento essencial no culto cristão, desde as origens, conforme testemunho de Atos dos Apóstolos: “Permaneciam [...] na comunhão”,383 e “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns”384. Escritos dos pais apostólicos ressaltam que todos, após a SARTORE, Domenico. Dicionário de liturgia. São Paulo: Edições Paulinas, 1992, p.411. 376 SARTORE, 1992, p. 1277. 377 SCHNEIDER, 1999, p. 120-121. 378 MARTINI,1997, p.104. 379 BIERITZ, Karl-Heinrich. Gottesdienst : Theologische Informationen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1987, p. 52. 380 BRAND, Eugene. A liturgia entre os luteranos. Genebra: Federação Luterana Mundial, 1983, p. 7. 381 BRAND, 1983, p. 52-53. 382 At 2.42 383 At 4.32 384 91 Revista Agosto.indd 91 3/9/2009 23:46:59 Igreja Luterana cerimônia, devem ter pressa em “praticar o bem, a agradar a Deus, a viver corretamente, pondo-se à disposição da igreja, fazendo o que aprenderam e progredindo na piedade”385. Esta piedade manifestava-se no socorro aos órfãos e viúvas, aos enfermos e abandonados, aos presos e forasteiros de passagem e a todos que passavam por necessidades386. Quanto à oração eucarística, há vários elementos desta que não figuram nas liturgias publicadas pela IELB. A oração eucarística também é original do culto eucarístico387 e, antes mesmo que circulassem os primeiros textos do que hoje se chama Novo Testamento, era para os cristãos daquela época uma síntese do evangelho e descrevia o que Jesus significava para os seus discípulos: o Messias, que com sua morte e ressurreição redimiu a todas as pessoas388. Por ser uma síntese do evangelho, portanto, a oração eucarística é importante elemento a ser resgatado no culto da IELB. O primeiro argumento a favor do resgate da oração eucarística (da ação de graças) fundamenta-se nos próprios relatos da instituição por Cristo, pois os quatro textos (Paulo, Mateus, Marcos e Lucas) mencionam que Jesus, ao pegar os elementos, “deu graças”.389 O conteúdo desta ação de graças não é descrito nos textos bíblicos, mas, a partir do que era feito nas ações de graças judaicas, pode-se deduzir o conteúdo390. O segundo argumento para a re-inclusão da oração eucarística na liturgia é o fato de que esta é mencionada em documentos do segundo e terceiro séculos da era cristã como resumo do evangelho, denotando assim a sua essencialidade e originalidade391. Constatando-se que, além da Palavra e do comer em conjunto, são elementos imprescindíveis do culto cristão as ações de graças (Eucaristia) e a diaconia (serviço, ofertório), é de vital importância que estes elementos sejam devolvidos ao culto da IELB. Na Liturgia da Palavra, verificou-se que na estrutura do culto eucarístico da IELB constam os elementos que desde as origens eram essenciais. Dentre os elementos, destaca-se o resgate da Leitura do Antigo Testamento, que há séculos havia perdido o seu espaço na estrutura do culto cristão. HIPÓLITO , Tradição Apostólica , 58. 385 JUSTINO, Apologia 1.67: a ação em favor dos pobres, de quantos padecem necessidades, é coordenada a partir do próprio culto público. 386 WHITE, 2005, p. 187. 387 DIX, 1960, p. 4. 388 1 Co11, Mt 26, Mc 14 e Lc 22. 389 WHITE, 2005, p. 177. 390 DIDAQUÉ, IX e X ; JUSTINO, Apologia 65. 391 92 Revista Agosto.indd 92 3/9/2009 23:46:59 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... Quanto à interpretação da Palavra, que, em geral, acontece na forma de um discurso (sermão), esta poderia acontecer de maneiras variadas, tais como dramatizações, testemunhos e meditações em silêncio. A discussão referente aos participantes, que se dá a partir da prática da comunhão fechada estabelecida na IELB392, merece ser aqui considerada, na perspectiva de iluminar o assunto a partir das orientações e da prática da Eucaristia nas origens do culto cristão. Argumenta-se na “teologia oficial” da IELB, que “o Sacramento deve ser vedado a todos que se acham ligados a Igrejas em erro e cultos não cristãos ou anticristãos”393. Argumenta-se, em resposta à declaração supra e às demais restrições à participação da Santa Ceia, que Jesus não impôs condições prévias para comungar com as pessoas e solidarizar-se com elas, mesmo que fossem consideradas impuras e pecadoras394. Que argumentos, pois, poderiam ser usados contra a participação de pessoas de outras denominações religiosas cristãs na Santa Ceia? Ao constatar que o Batismo realizado pelas mais diversas denominações cristãs é mutuamente aceito por estas, poder-se-ia dizer que “no Santo Batismo nos aceitamos uns aos outros como filhos e filhas do mesmo Pai e, portanto, como irmãos e irmãs. Mas é lamentável e escandaloso o fato de que na Mesa do Senhor ainda estejamos divididos e não possamos ir juntos à mesma Santa Ceia. A mesa é única e indivisível. Ela sempre está dada anteriormente à nossa construção da unidade e vai além das nossas diferenças doutrinárias”395. Ao se olhar para as origens do culto cristão, pode-se constatar que a restrição à participação dirigia-se aos não batizados396 e a “todo aquele que vive em discórdia com o outro”; que este “não se junte a vós antes de se ter reconciliado”397. Portanto, se uma pessoa que é batizada e que não vive em discórdia com ninguém deseja participar da Eucaristia, deveria, segundo o costume da Igreja Antiga, ser também incluída na celebração da Eucaristia. O argumento em defesa da comunhão fechada aponta para a atitude do apóstolo Paulo, quando este “alerta suas igrejas de que em alguns casos” em que há pessoas em “situação de pecado manifesto, de um IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, 1995, p.12. 392 Id. Ibid, p.11. 393 MARTINI, 2001, p.6. 394 SEMINÁRIO BILATERAL MISTO CATÓLICO ROMANO – EVANGÉLICO LUTERANO. Hospitalidade eucarística. Porto Alegre: EdipucRS, 2000, p.10. 395 DIDAQUÉ, IX. 396 DIDAQUÉ, XIV. 397 93 Revista Agosto.indd 93 3/9/2009 23:46:59 Igreja Luterana viver desordenado e da desconsideração pela palavra do apóstolo”, tais pessoas não deveriam ser consideradas bem-vindas, e os cristãos da comunidade não deveriam “associar-se” a elas.398 Faz-se necessário clarear o assunto quanto à hospitalidade eucarística. Talvez a forma de fazê-lo é olhar para o exemplo do próprio Cristo e a prática da Igreja Antiga. Com esta abordagem não fica resolvida a questão da prática da comunhão fechada na IELB, mas, os argumentos aqui listados servirão de luz para futuros diálogos sobre o assunto. Como, nas origens, participavam da Eucaristia “os batizados” e, admitindo-se que isto incluía as crianças, há mais questões a resolver com respeito aos participantes. Lothar Hoch, ao apresentar um conjunto de teses sobre a celebração da Santa Ceia com crianças, admite ser este um tema “controvertido”, que, no entanto, precisa ser debatido com profundidade teológica, cautela e coragem399. Gordon W. Lathrop, professor de liturgia do Seminário Teológico Luterano de Filadélfia nos Estados Unidos, argumenta à luz das origens do culto cristão que, como originalmente “a Eucaristia era uma refeição comunitária, é claro que as crianças da comunidade participavam dela”. Mesmo que muitas refeições formais da região do Mediterrâneo a essa época tinham restrições à presença de mulheres e crianças (cabendo a estas apenas as sobras), vale dizer que Jesus jamais aprovou essa discriminação400, nem mesmo em relação às pessoas denominadas de pecadoras, com as quais “Jesus, sem impor condições prévias, comungou e se solidarizou”401. Lothar Hoch argumenta que “uma igreja que batiza infantes, mas exclui crianças da Santa Ceia, está institucionalizando uma séria contradição”, isto porque “uma distinção tão rígida no tocante aos destinatários de cada um dos sacramentos não tem base teológica”, pois “Batismo e Santa Ceia, como palavra visível, servem antes de mais nada à pregação de Jesus Cristo”402. Eugene Brand aprofunda a argumentação teológica sobre a questão da participação de crianças antes da confirmação, dizendo que “somente o Batismo pode ser porta de entrada à mesa do Senhor” e, quer os lute- LINDEN, Gerson L. Aspectos quanto à administração da Santa Ceia. Igreja Luterana, São Leopoldo, n.1, p.8, 2001. 398 HOCH, Lothar. Celebração da Santa Ceia com crianças: 20 teses sobre um tema controvertido. Estudos Teológicos, São Leopoldo, ano 27, n. 2, p.164, 1987. 399 LATHROP, Gordon. Eucaristia com crianças. Tear: Liturgia em revista, São Leopoldo, n. 5, p. 14, 2001. 400 MARTINI, Romeu Ruben. Crianças e Ceia do Senhor. Tear: Liturgia em revista, São Leopoldo, n. 5, p. 6, 2001. 401 HOCH, 1987, p. 163-164. 402 94 Revista Agosto.indd 94 3/9/2009 23:46:59 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... ranos estejam dispostos ou não a praticar a comunhão infantil, nossa compreensão da plenitude do Batismo, da natureza da comunidade cristã e de sua relação com a Koinonia eucarística deverá ao menos levar-nos a admitir que nenhum ponto teológico impede que crianças batizadas possam comungar. Argumenta-se ainda que somente um questionamento ao Batismo infantil poderia sustentar a prática da exclusão de crianças na Santa Ceia403. Há ainda outros argumentos, mas os apontados acima são suficientes para promover a reflexão na igreja quanto à inclusão de crianças (sem especificação de idade) na Santa Ceia e rever todas as implicações do rito de confirmação404. Diante do que foi exposto acima, portanto, para a inclusão de pessoas na Eucaristia, dever-se-ia considerar que são bem-vindos os pecadores (“pois todos pecaram”) que foram batizados, que crêem em Jesus Cristo e vivem esta sua fé no seu dia-a-dia na prática do amor a Deus e ao semelhante. Os benefícios da Eucaristia, a partir da prática da Igreja Primitiva, podem ser assim resumidos: ao participar da Ceia recebe-se alimento não somente para a alma, mas igualmente para o corpo; não é apenas um benefício individual, mas é para toda a comunidade. Na Eucaristia tem-se a garantia da presença do Senhor na vida dos crentes, a graça de Deus, que ressuscitou a Cristo, e as promessas das quais a ressurreição é a garantia. Merece destaque a comunhão com Deus e das pessoas entre si, como um só corpo. As consequências da participação, nas origens, podem ser resumidas na comunhão, na diaconia e no envio para a prática do bem, conforme já foi exposto acima. 4.5 SÍNTESE DOS RESULTADOS DA PESQUISA Ao sintetizar os resultados desta pesquisa, quer-se demonstrar que há na celebração do culto eucarístico da IELB elementos que estão em conformidade com as origens do culto cristão, como se pode verificar especialmente na Liturgia da Palavra. No entanto, no que se refere à Eucaristia propriamente dita, ainda há problemas com a frequência da celebração, pois não é celebrada dominicalmente em todas as comunidades. Quanto aos participantes, é necessário que se trabalhe pela inclusão e participação ativa de todos, sem excluir ninguém. Urge que HOCH, 1987, p.164. 403 SILVA, 1995, p.138. 404 95 Revista Agosto.indd 95 3/9/2009 23:46:59 Igreja Luterana se recupere o caráter do culto como serviço de Deus para a comunidade e da comunidade para com Deus405, sem, no entanto, desconsiderar que esse serviço não pode prescindir da ação amorosa e fraterna para com o irmão necessitado, na consciência da partilha contínua de bens, e que o envio como um compromisso com Deus e com o próximo possa ser traduzido em ação. Considerando-se que há elementos não essenciais no culto recebendo uma supervalorização (por exemplo, a confissão de pecados) e que há outros essenciais ausentes na estrutura do culto da IELB, sugere-se a partir de uma preocupação ecumênica, a seguinte estrutura litúrgica: Liturgia de Entrada - hino de entrada, saudação406, oração preparatória de confissão de pecados (opcional) e anúncio da graça, litania do kyrie e gloria, concluindo esta parte com a oração do dia; Liturgia da Palavra - as leituras bíblicas irão variar em número de acordo com o que for mais adequado para o momento. No caso de mais leituras, estas poderiam ser intercaladas por cânticos, ilustrações ou até momentos de silêncio para a reflexão407. O sermão desvendará o conteúdo do interior das Escrituras e apontará para as situações concretas da vida da comunidade ao proclamar a palavra do Senhor para o ser humano de hoje408. Acrescente-se após a exposição uma confissão de fé (que também pode ser moldada de acordo com a época e com o tema do dia)409, utilizandose preferencialmente o credo Niceno, por ser este mais universalmente aceito no mundo cristão410. A oração dos fiéis não deverá prescindir, como resposta à palavra proclamada, de intercessão por todas as necessidades do mundo e pela unidade da Igreja411; Liturgia Eucarística - esta, segundo a tradição antiga, iniciará com a mútua reconciliação, seguida do gesto da paz412; o ofertório incluirá as ofertas de gratidão, pão e vinho para a Ceia e donativos para os pobres. Nesse momento, procede-se o BRUNNER, 1968, p. 11-12. 405 BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 20-21. 406 BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 20. 407 BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 81. 408 BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 260 ss. 409 BEST, Thomas F. e HELLER, Dagmar. Eucharistic Worship in ecumenical contexts. Geneva: WWC Publications, 1998, p. 46. 410 BEST e HELLER, 1998, p. 46-47. 411 DIDAQUÉ, XIV. 412 96 Revista Agosto.indd 96 3/9/2009 23:47:00 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... preparo da mesa413. A oração eucarística414 deverá incluir o prefácio (com o sursum corda, vere dignum e o sanctus), a anamnese (o memorial explícito da paixão, morte e ressurreição de Cristo), a epiclese (invocação do Espírito Santo), a doxologia trinitária e o amém da comunidade415. O Pai nosso é orado, seguido da fração e da distribuição. O uso de um só pão e um só cálice deveria ser considerado como preferencial. Durante a distribuição um ou mais hinos poderão ser cantados e o silêncio também poderá ser uma opção. A liturgia eucarística será concluída com uma Ação de Graças.416 A Liturgia de Encerramento poderia constar dos avisos comunitários, das palavras de bênção (apostólica, aarônica ou outra adequada para o momento) e do envio (“ide na paz do Senhor e sede agradecidos”)417; considere-se, também, a expressão da Igreja Antiga: “Apressai-vos em praticar o bem”418. Na busca pela unidade entre os cristãos, é importante (“para que todos sejam um” - Jo 17.21)419 que se leve em consideração a possibilidade de se aprender muito com os outros e também ser útil para os outros420, para que juntos possam cantar e orar, ler as Escrituras e ouvir as boas novas de Jesus, reconhecendo-o e confessando-o como Senhor e Deus e sendo abençoados por ele421. Ao mesmo tempo, urge que se verifique em que implica a esfera total do culto na vida das pessoas e a esfera total do serviço, e se vincule o litúrgico com o ético422; espera-se a participação do ser humano em sua totalidade. A ação do culto deve provir da vida do indivíduo e entrar na mesma. O cristão precisa identificar-se com a vida da comunidade e deve ser sensível com as demais pessoas423. Há outras questões que também merecem consideração: a relação do culto com a celebração da vida familiar deverá acentuar o caráter de simplicidade e informalidade, recordação de coisas importantes, espírito de alegria, estímulo e força, aceitação de indivíduos com diferentes per- BEST e HELLER, 1998, p. 46-47. 413 BRAND, 1983, p. 27. 414 BRAND, 1983, p. 47 e 54. 415 BRAND, 1983, p. 78. 416 BRAND, 1983, p. 78. 417 HIPÓLITO, Tradição Apostólica, 58. 418 BIERITZ e ULRICH,1987, p. 9. 419 BRAND, 1970, p. 84. 420 BIERITZ e ULRICH, 1987, p. 10. 421 BRAND, 1970, p. 18. 422 BRAND, 1970, p. 20-21. 423 97 Revista Agosto.indd 97 3/9/2009 23:47:00 Igreja Luterana sonalidades, talentos e êxitos, compartilhamento de alegrias e de tristezas; a participação de todos é o objetivo424. Além disso, “a renovação do culto eucarístico entre os cristãos pode ser auxiliada por uma melhor compreensão de como os temas de recordação e esperança, que prevalecem de modo tão marcante na celebração da Páscoa judaica, vieram a predominar também na Eucaristia”425. Para que isto se torne possível, não se pode descuidar do aspecto da indigenização426 do culto cristão. Precisa-se para tanto valorizar os aspectos culturais, as tradições e a música do povo com o qual se pretende trabalhar. Além da restituição da celebração eucarística conforme as origens do culto cristão, percebe-se a carência de outros momentos litúrgicos que contemplem situações diversas da vida das pessoas que acabam sendo “descarregadas” no culto eucarístico. A celebração da Santa Ceia tornase sobrecarregada exatamente pela ausência de momentos que contemplem as outras necessidades das pessoas. Há, portanto, a necessidade de se ter outros momentos na vida comunitária. Citam-se, como exemplo, a necessidade de se estabelecer cultos com ênfase na reconciliação, ênfase nos sentimentos, na saúde, passagens diversas da vida, etc. Tais celebrações ajudariam a concentrar no culto eucarístico aqueles elementos que nas origens do culto cristão eram imprescindíveis, tais como as ações de graça e a diaconia. CONCLUSÃO GERAL Na presente pesquisa procurou-se, primeiramente, expor de forma sucinta e objetiva os principais enunciados da “teologia oficial” concernente à Santa Ceia no âmbito da IELB. Na sequência, através de uma pesquisa social, procurou-se elucidar os principais enunciados da Santa Ceia na “teologia popular” e, num terceiro momento, fez-se uma justaposição e comparação entre ambas as teologias na expectativa de encontrar semelhanças e diferenças. A racionalidade da primeira foi justaposta à sensibilidade da segunda. Descobriu-se, a partir da “teologia popular”, que culto e, de forma particular, a Santa Ceia, é vivência e sentimento e não aulas de doutrina ou manifestação de conhecimentos. No último capítulo, procurou-se listar as consequências das descobertas da pesquisa na “teologia oficial” e na “teologia popular” para a prática da Eucaristia à BRAND, 1970, p. 19. 424 BRAND, 1983, p. 24. 425 KIWOVELE, Judah B. M. A indigenização do culto cristão, p. 77. 426 98 Revista Agosto.indd 98 3/9/2009 23:47:00 A prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica Luterana do Brasil... luz das origens do culto cristão. Fez-se uma síntese das principais descobertas acerca da Santa Ceia na IELB, tanto na “teologia oficial” quanto na “teologia popular”, para, então, tecer algumas conclusões e orientações práticas fundamentadas nas origens. Vale destacar que cada capítulo foi encerrado com secções contendo diversas conclusões intermediárias, as quais devem ser entendidas como parte das conclusões deste trabalho. Percebeu-se ao longo da pesquisa que as pessoas, de uma forma geral, apresentam certa dificuldade de assimilar os conteúdos da “teologia oficial”. Há dificuldade para as entrevistadas de abstrair, de teorizar ou de construir conceitos teológicos e, a partir destes, entender e viver culto e Santa Ceia. O desafio, pois, para os representantes da “teologia oficial” tem muito a ver com comunicação, de como fazer-se entender. O desafio maior, no entanto, é perceber que culto e Santa Ceia não são questões para serem teorizadas, mas vividas no dia-a-dia. É curioso como as pessoas (assíduas participantes da Santa Ceia na maioria das entrevistadas), apesar dessa dificuldade de teorização e assimilação dos conteúdos da “teologia oficial” ensinados no culto, sentem necessidade de estarem presentes no culto e na Santa Ceia, pois estes têm a ver com pertença e comunhão. Há uma intensa busca por identidade e compartilhamento de sentimentos e experiências. Há, da parte das pessoas, uma intensa busca (comum) pela resolução de problemas mais imediatos e constante referência a situações concretas da vida, para as quais a Santa Ceia e o culto em geral serviram de alento, fortalecimento e coragem para prosseguir. É igualmente curioso que as pessoas, mesmo não conseguindo “digerir” os conteúdos da “teologia oficial”, não manifestem qualquer oposição a esta, antes se valem das suas fórmulas para dizer o que sentem, experimentam e almejam ao participarem da Santa Ceia. A partir da exposição teórico-doutrinária da “teologia oficial” e da vivência prática elucidada pela “teologia popular”, pode-se chegar a algumas conclusões e sugestões: Urge que se aprenda das pessoas que culto, relação com Deus, Santa Ceia, são mais para serem sentidos, vividos e experimentados do que para serem falados ou teorizados. Que a igreja da Palavra entenda que ser igreja da Palavra não é o mesmo que igreja do discurso, mas é “encarnar” a Palavra, uma vez que “o Verbo (Palavra) se fez carne (gente) e habitou entre nós cheio de graça e de verdade”427. Jo 1.14. 427 99 Revista Agosto.indd 99 3/9/2009 23:47:00 Igreja Luterana É preciso entender, pois, que culto e Santa Ceia são vivência e não aula, que é mais questão de vida e morte, sofrimentos e alegrias, do que teorias e doutrinas; têm muito mais a ver com coração e sentimento do que com cérebro e racionalização. O fato de as pessoas sentirem e viverem o culto e a Santa Ceia com todos os sentidos, mais do que a simples abstração ou teorização, exige da parte dos representantes da “teologia oficial” melhor percepção e sensibilidade mais profunda do que o mero esforço de falar de modo mais inteligível às pessoas. Talvez essa percepção ajudaria a tornar o culto e a Santa Ceia menos do pastor e mais da comunidade. Percebeu-se na pesquisa realizada que há muitos componentes “sobrecarregando” a celebração da Santa Ceia, como, por exemplo, a supervalorização do perdão de pecados e referências a enfermidades, morte, dificuldades familiares, etc. A ênfase exagerada na penitência tende a levar a igreja ao individualismo no que tange à Santa Ceia e, por consequência, no que tange à sua própria atuação como igreja. Urge que se providenciem espaços e ritos que facilitem a busca e o cultivo de uma comunhão com Deus e que facilitem o cultivo da pertença e comunhão entre os irmãos. Percebeu-se a necessidade de ritos de reconciliação, ritos com ênfase na saúde e enfermidade, ritos que celebrem o nascimento e a vida e outros em que a morte e o luto sejam contemplados; momentos de maior integração e comunhão, só para citar alguns. Se os representantes da “teologia oficial” não se derem conta de que culto e Santa Ceia na vida das pessoas são profundamente permeados de sentimentos (de alegria, satisfação, tristeza e angústias) e que há necessidade de “traduzir” essa teologia de forma clara e prática para a vida das pessoas, poderá se tornar uma mensagem jogada ao vento e as pessoas irão buscar em outro lugar suprir suas carências ou manifestar alegrias e realizações. Exatamente na perspectiva de procurar ajuda para solucionar algumas das dificuldades supramencionadas é que se recorreu às origens do culto cristão, por se entender que lá se pode encontrar balizas e critérios para a celebração da Santa Ceia. Por exemplo, é nas origens que se podem encontrar aqueles elementos imprescindíveis na celebração do sacramento, tais como a frequência, o sentido de refeição de ação de graças pelo todo da criação e da redenção, a vivência prática da caridade e diaconia como integrantes da celebração. Celebrava-se num único e mesmo rito o passado, o presente e o futuro. As pessoas da igreja antiga não se preocupavam tanto em discutir e teorizar sobre o que é a Santa Ceia, mas em vivê-la intensamente como elemento de comunhão com 100 Revista Agosto.indd 100 3/9/2009 23:47:00 Deus em Cristo e aprofundar a comunhão com aqueles irmãos redimidos por Cristo. Das origens do culto cristão se aprende que a Santa Ceia é um evento comunitário, em que a comunidade reunida celebra com gratidão os grandes feitos de Deus e recebe dele renovação para a caminhada e que não é um ato individualista de busca por perdão de pecados e salvação próprios (tanto na “teologia oficial” quanto na “teologia popular” ficou evidenciada esta tendência). É também das origens do cristão que se sabe que culto e Santa Ceia não pertencem a uma única pessoa (no caso, o pastor) e não são realizados somente por esta, mas pertencem a toda a comunidade, a qual tem participação intensa e permanente. Uma volta às origens do culto cristão coloca em evidência princípios da celebração eucarística, responde quem eram os participantes e ajuda na reflexão sobre quem hoje pode participar. É, também, uma busca por uma estrutura básica dos elementos imprescindíveis. Quando se trabalha com o princípio de que a liturgia pode ser moldada de acordo com o contexto social e cultural, torna-se absolutamente necessário saber que elementos não podem faltar e que elementos são apenas úteis e, portanto, variáveis. Voltar ao princípio é sair em busca de um norte, um caminho importante para o diálogo entre todas as denominações cristãs, pois remete-se a um tempo em que não havia toda essa variedade doutrinária e litúrgica, mas todos eram um só corpo. Há outros elementos que foram evidenciados na pesquisa e que merecem consideração, mas que não foram aqui aprofundados por não estarem no foco das discussões. Citam-se, por exemplo, as diferenças de gênero quanto ao modo de pensar, agir e sentir com relação a Deus, salvação, fé, espiritualidade. O conhecimento de tais diferenças de gênero poderia trazer implicações à comunicação, à evangelização, à proclamação em geral, pois homens e mulheres articulam certos temas de maneiras diversas, exigindo formas diferenciadas de abordagens. Há certas diferenças entre as pessoas de centros urbanos em relação às da periferia e, ao que parece, isso pouco tem sido levado em consideração. Há diferentes maneiras de pensar e agir nas diversas faixas etárias bem como diferenças sócio-culturais que parecem ser simplesmente ignoradas. A busca pelos referenciais das origens do culto cristão poderia ajudar inclusive a melhorar esses aspectos da vida comunitária e dos variados ritos da igreja cristã, em especial da Santa Ceia. 101 Revista Agosto.indd 101 3/9/2009 23:47:00 Igreja Luterana REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS As referências encontram-se nas notas de rodapé. Optou-se por não repeti-las ao final deste trabalho. 102 Revista Agosto.indd 102 3/9/2009 23:47:00 A Importância do Catecismo na Identidade Luterana: Aspectos Teológicos e Práticos depois de 480 anos1 Clóvis Jair Prunzel Introdução – “Meu Deus, quanta miséria não vi” A Reflexão Teológica promovida pelo Seminário Concórdia é uma ponte entre a realidade do trabalho ministerial e a sala de aula da Faculdade de Teologia. O que se faz na sala de aula e o que se necessita no campo de trabalho ministerial conduz a reflexão. Portanto, o presente trabalho traz à luz aspectos de sala de aula bem como desafios para a prática ministerial, tendo como pano de fundo a perspectiva de conduzir o povo de Deus na sua Palavra. Nos 480 anos do lançamento dos Catecismos de Lutero, queremos nos juntar a ele para refletir sobre nosso papel de pastores e de igreja, destacando o que e o como estamos trabalhando o básico de nossa fé. Assim como foi com Lutero, em seu tempo, levando-o a exclamar “Meu Deus, quanta miséria em vi”2, assim também nós nos juntamos a ele quando constatamos que nossos alunos, quando entram no programa do Seminário Concórdia, não memorizaram o texto do Catecismo, não conseguem relacionar o texto do mesmo com o texto bíblico, e percebe-se que o processo confirmatório transformou-se em um fim em si mesmo, uma mera aquisição de conteúdo, transformando a capacidade teológica dos confirmandos em um intelectualismo distante do propósito inicial da confirmação, que é de levar à confissão de fé. Percebe-se que este doutrinamento é tão superficial que, dos atuais alunos que iniciaram o programa no Seminário, um sequer trabalhou a Tábua dos Deveres no seu processo confirmatório. Ao lado dessas dificuldades, podemos constatar que estamos sendo O presente trabalho foi apresentado no dia 24 de março de 2009 como Reflexão Teológica promovida pelo Seminário Concórdia para professores, pastores e alunos, comemorando os 480 anos dos Catecismos de Lutero. O autor, Clóvis Jair Prunzel, é professor de Teologia Sistemática no Seminário Concórdia e na Ulbra. 1 2 Catecismo Menor, Prefácio, 2. 103 Revista Agosto.indd 103 3/9/2009 23:47:00 Igreja Luterana desafiados pela cultura atual em relação à nossa identidade cristã, visto que as opções religiosas não-cristãs são cada vez mais expressivas. O conhecimento bíblico e a capacidade de trabalhar com ele ao longo da vida estão cada vez mais restritos. O ambiente familiar não mais proporciona o culto e a oração. O que se conhece do texto e da teologia que acompanha os cristãos é parcial e muitas vezes distorcido. Pastores, quando ensinam, estão muito preocupados mais com métodos e estratégias do que com o conteúdo. E no momento em que o conteúdo ganha destaque, os manuais produzidos se transformam em exposições dogmáticas, levando o processo de catequização a uma aquisição de informações e não de formação teológica. O estudioso de Lutero, James Nestingen, conclui: “O Catecismo claramente perdeu o lugar que manteve no luteranismo por séculos. Ele não é mais o paradigma operante, abarcando o testemunho da Escritura na linguagem da experiência diária no servir da pregação e da reflexão na missão e fé da igreja”3. Em meio a este marasmo teológico, há um clamor em se voltar aos pontos de referência, não ao que é efêmero nem transitório, mas o básico que auxilia e dá respaldo para a atuação dos cristãos como povo de Deus. E nesta perspectiva, colocar o Catecismo no centro das atenções pode ser útil porque ele nos ajuda a nos fixar naquilo que é o mais importante e, assim, recuperarmos sua função em nos levar para dentro das Escrituras e para dentro da realidade em que estamos inseridos. Nosso trabalho está dividido em três partes. Primeiro, vamos refletir sobre o “básico”, aquilo que faz do Catecismo de Lutero um Catecismo. Depois, uma leitura história das propostas de Lutero. Concluímos com uma proposta de aproximação entre o que Lutero fez com os Catecismos e as exigências teológicas para nossos dias. Primeira Parte – os elementos básicos do Catecismo Além da pregação, a catequese, a atividade de usar os elementos básicos para formar a fé nos catecúmenos foi essencial na história da Igreja Cristã. No momento em que o Cristianismo assumiu o papel de preparar a sociedade, após a queda das assim chamadas civilizações clássicas, foi determinante que a igreja assumisse um papel na construção sólida da fé 3 James Nastingen, “Preaching the Catechism”, Word and World 10 (1990): 33. 104 Revista Agosto.indd 104 3/9/2009 23:47:00 A importância do catecismo na identidade luterana e da vida cristãs. Como a igreja não era dirigida pelo marketing, ela não facilitou a catequese para seus catecúmenos. Um exemplo disso está na prática de que os não-crentes podiam assistir ao culto da pregação, mas tinham que sair quando se celebrava a Santa Ceia. Para combater as filosofias ateístas do fim do Império Romano e o paganismo primitivo dos bárbaros, a Igreja Cristã desenvolve um método de educação chamado de artes liberais. Assim como para os gregos e romanos a educação preparava o cidadão a ser livre, da mesma forma a Igreja Cristã assumiu as ferramentas da proposta clássica e incorporouas na formação de seus membros, com uma visão cristã de mundo. O trivium e o quadrivium foram utilizados pela igreja para preparar seus catecúmenos para a vida cristã. Veith testemunha que “historicamente, o processo em que a igreja treinou seus membros para que conhecessem e compreendessem a doutrina cristã foi o da catequese. As crianças e os novos membros tipicamente aprendiam os Dez Mandamentos, a Oração do Pai Nosso e o Credo Apostólico. Depois, o ministro fazia perguntas sobre o significado desses textos fundamentais. E, assim preparados, confessavam sua fé publicamente. Essa espécie de instrução era baseada no trivium. É gramática memorizar credos e versículos bíblicos; e a dialética das perguntas e respostas é a metodologia da lógica; o processo visava habilitar os jovens crentes para sua confirmação, quando fariam sua própria profissão de fé (o estágio da retórica).”4 Quando Lutero se pronuncia no Catecismo Maior que o Catecismo é “tudo o que o cristão necessariamente precisa conhecer. A quem o ignora não se poderia contar entre os cristãos, nem admiti-lo ao sacramento”, “pois os amados pais ou apóstolos sumariaram assim a doutrina, vida, sabedoria e conhecimento dos cristãos”5. Numa conversa à mesa, ao afirmar que o Catecismo só pode ser “obra do Espírito Santo ao descrever, em palavras eficazes e enfáticas, tão grande coisa com tanta brevidade”6, ele se coloca na linhagem histórica dos grandes pais teológicos da igreja cristã como Cirilo, Crisóstomo e Agostinho, que construíram e legaram a teologia aos seus sucessores. E é nesta “herança da cristandade dos tempos primitivos, embora VEITH, Gene Edward. Catequese, pregação e vocação. In: BOICE, James (org.). Reforma hoje: uma convocação feita pelos evangélicos confessionais. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999. 205p. Cap. 4, p. 75-96. 4 Catecismo Maior, Prefácio Curto, 2,19. WATR 4, 4334. 5 6 105 Revista Agosto.indd 105 3/9/2009 23:47:00 Igreja Luterana eles raramente fossem ensinados e tratados corretamente”7, que Lutero quer tratar o básico da fé. Seguindo os pais da Igreja, aos três pilares da instrução catequética [Dez Mandamentos, Credo e Pai Nosso], Lutero acrescentou os Sacramentos, “as cinco partes para a doutrina cristã inteira”8 , pois através dessas partes os jovens serão levados à Escritura, também acompanharão a vida litúrgica do crente tanto no dia-a-dia [Hausandacht] bem como na igreja e, por fim, estes conteúdos tratarão da vida nas diversas situações. A cabeça e o coração estão unidos, aproximando a teologia da vida. Segundo Robert Rosin, o Catecismo nos ensina a olhar para a vida e viver não a partir de nossa perspectiva [que é filosofia] mas a partir da perspectiva de Deus [que é teologia]. Ele nos ajuda a ver as coisas a partir de pecado e graça, em termos de lei e evangelho”.9 Segunda Parte – Concepção teológica e pedagógica do Catecismo de Lutero Segundo Arand, o papel principal do Catecismo é duplo: “enquanto o Catecismo providencia o leite com relação à Palavra, ele ao mesmo tempo prepara o sistema digestivo para o prato principal da Palavra. Ele serve como uma introdução ao Cristianismo e ao mesmo tempo abre horizontes para o pensar, falar e viver mais aprofundado”10. Isto é percebido na sequência em que o Catecismo é organizado: cada estágio sucessivo constrói e se expande a partir do estágio prévio. Como um paradigma para a vida cristã, o Catecismo providencia uma orientação de como a vida é na comunidade cristã ao pintar o grande quadro de forma que não se perca a vista da floresta ao se enveredar por entre as árvores. O tema ou melodia teológica do Catecismo está na explicação do Segundo Artigo: “Para que eu lhe pertença e viva submisso a ele em seu reino”. Aprendemos a viver dos benefícios de Cristo, isto é, o tema principal do Catecismo é a fé; o Catecismo procura levantar e fortalecer Catecismo Maior, Prefácio Curto, 5. Catecismo Maior, Prefácio Curto, 14. 7 8 Robert Rosin, “Christians and Culture: Finding Place in Clio’s Mansions”, in Christ and Culture: The Church in Post-Christian (?) America, Symposium Papers number 4 (St. Louis: Concordia Seminary Monograph Series, 1996), p. 85 9 ARAND, Charles. Formation in the Faith: Catechesis for Tomorrow. Concordia Seminary Publications, Symposium Papers, Number 7, 1997. 10 106 Revista Agosto.indd 106 3/9/2009 23:47:01 A importância do catecismo na identidade luterana uma confiança e comprometimento que se focaliza na bondade de Deus e procura viver dos dons de Deus dia após dia. Na primeira seção, o tema da fé forma uma inclusio em torno de cada parte principal. Ele aparece tanto no início dos Dez Mandamentos – “devemos temer e amar a Deus e confiar” – e novamente no final – “Deus promete graça e todo o bem... portanto devemos amá-lo, confiar nele...”. O Primeiro Mandamento, embutido em cada um dos outros mandamentos, traz isto à baila. O tema da fé também redige os três artigos do Credo. Cada um deles inicia com as palavras “creio”. E cada um, por sua vez, conclui com a exclamação, “isto é certamente verdade!”. O pro me da fé emerge no uso repetido do pronome pessoal na primeira pessoa do singular no qual o crente confessa os dons recebidos de Deus. O tema da fé continua com a introdução de Lutero quanto ao Pai Nosso: “Deus quer nos atrair carinhosamente com estas palavras, para crermos que ele é o nosso verdadeiro Pai e nós, seus verdadeiros filhos”. Ele conclui o Pai Nosso na mesma tonalidade. “Amém” significa “que devo estar certo que estas petições são agradáveis ao nosso Pai Celestial e ouvidas por ele...” ‘Amém, amém’ quer dizer ‘sim, sim, assim seja’. Novamente o tema vem mediante o modo pelo qual Lutero organiza cada petição. Por um lado, as coisas pelas quais oramos de fato vêm sem nossa oração. Por outro lado, oramos de forma que elas também possam vir a nós [pela oração]. O tema da fé continua no desenrolar da Segunda parte. No batismo, “a água, em verdade, não as faz, mas a palavra de Deus que está unida à água, e a fé que confia nesta palavra de Deus unida com a água”. Na seção sobre a confissão, o pastor pergunta: “Tu crês que minhas palavras são as palavras de Deus”? Então confessamos nossos pecados e recebemos perdão a partir do pastor como se fosse a partir do próprio Deus, e “sem duvidar de forma alguma, mas firmemente crendo, que através daquele ato nossos pecados estão perdoados perante Deus no céu”. Finalmente, a Ceia do Senhor também traz a fé à tona. “Estão verdadeiramente dignos e bem preparados aqueles que têm fé nestas palavras, ‘dado e derramado em favor de vós para o perdão dos pecados’.... pois as palavras “por vós” requerem corações verdadeiramente crentes”. A terceira parte continua no tema. Nas orações de manhã e tarde, Lutero encoraja a pessoa a fazer o sinal da cruz e então dizer, “sob o cuidado do Pai, Filho e Espírito Santo”. Ambas as orações têm por abertura uma nota de agradecimento e concluem com as palavras, “nas tuas mãos me entrego, de corpo e alma, bem como em todas as coisas”. Estas orações também têm dois efeitos. A oração da manhã nos manda avante 107 Revista Agosto.indd 107 3/9/2009 23:47:01 Igreja Luterana quanto a um trabalhar com alegria. A oração da noite nos envia à cama em paz. Esta confiança foi também parte do próprio orar de Lutero. Antes da refeição, o cabeça da família deveria recitar as palavras do salmista a partir do Salmo 145.15-16 [15 Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. 16 Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente], as quais nos dão a conhecer a amplidão da provisão de Deus. Nas orações de alimentação, dá-se graça e pede-se bênção. A Tábua dos Deveres não são comandos tão gerais para a vivência humana, mas muito mais como que descrições da intenção de Deus para com a vida humana. Como vimos, o tema melódico da fé perpassa o Catecismo, integrando as diversas áreas da vida cristã sob a mesma perspectiva. Para Lutero, são três as áreas destacadas no Catecismo. Na primeira parte, o Catecismo traça uma visão cristã de vida que é vivida a partir da fé (Dez Mandamentos – Credo – Pai Nosso). Enquanto cada uma das três primeiras partes principais se concentra no ponto central da fé, cada uma delas expressa uma dimensão da fé à luz da natureza de seus textos de modo que os Dez Mandamentos enfatizam “a demanda pela fé”, o Credo “o dom da fé”, e o Pai Nosso “o clamor da fé”. Quando tomados pelo conjunto, estas três partes principais demonstram uma visão cristã de mundo que mostra que a vida cristã é aquela que é vivida de fé em fé. Sua sequência nos dirige da vida diária para a via escatológica da fé. Inicia com uma avaliação da vida diária que enfatiza a realidade das obrigações (Dez Mandamentos) que nos confrontam, às quais a demanda pela fé (Primeiro Mandamento) é a pressuposição para a vida abençoada. Segue a proclamação do evangelho (Credo) com seus dons que faz surgir e sustenta a fé. Fala de todos os dons que estruturam toda a nossa vida, começando com nosso nascimento e culminando no Pai Nosso. “Nada é tão necessário quanto clamar a Deus incessantemente e fazer com que chegue aos seus ouvidos as nossas orações de modo que ele possa dar, preservar e aumentar em nós a fé e obediência aos Dez Mandamentos e remover tudo o que permanece em nosso caminho e nos impede de cumpri-los (CM II, 2)”. Na segunda parte, o Catecismo se focaliza na vida sacramental da igreja que nutre a vida da fé (Batismo – Absolvição – Ceia do Senhor). Enquanto as três primeiras partes principais da primeira seção nos dirigem à vida de fé, a segunda seção nos dirige à vida da igreja onde a fé é nutrida e fortalecida. Ainda que uma ênfase seja no objetivo, o foco é preparado à apropriação subjetiva. O dom é seguido pela apropriação subjetiva. O batismo é uma miniatura e um quadro completo da vida cristã, seu nascimento, discipulado, morte e ressurreição. Nele, no batismo, 108 Revista Agosto.indd 108 3/9/2009 23:47:01 A importância do catecismo na identidade luterana temos conteúdo suficiente para estudar e praticar durante o restante de nossas vidas. A absolvição vincula o Batismo e a Ceia do Senhor, juntando ambos. Na absolvição nós nos tornamos o que realmente somos – batizados. Enquanto alimento diário, a Ceia do Senhor sustenta nossa fé na luta da igreja militante e produz testemunho ao banquete escatológico da igreja. Ao seguir com toda proximidade possível uma vida de fé, a catequese procura elevar e fortalecer o desejo pelos meios da graça mediante os quais o catecúmeno pessoalmente toma de Cristo. Tais eventos centrais colhem, sustentam e unem a vida da igreja na fé. Na seção final, o Catecismo provê uma disciplina diária por onde os cristãos exercitam e vivenciam sua fé (orações diárias, e tábua dos deveres). As pessoas não só precisam ser instruídas, como também necessitam desenvolver os hábitos e disciplina dentro da qual a vida cristã é vivida. O cultivo de uma disciplina externa pode, de fato, servir para livrar uma pessoa em prol de um correto viver. Por exemplo, qualquer um pode praticar esportes ou fazer música. Mas somente uma pessoa disciplinada pode fazê-lo livremente. Disciplina é a base e pressuposição de ambos: liberdade e poder. Esta seção fornece um “como”, “quando”, e “onde” à oração. Neste contexto de oração diária, Lutero integra o texto do Catecismo de forma que a oração não apenas implore o auxílio e a bênção de Deus, mas também renda a Ele graças, bem como medite em Sua Palavra – na forma de um sumário, o Catecismo. Tal disciplina formal cultiva um hábito de espírito que manterá nossas vidas voltadas para Deus do romper ao anoitecer do dia, por todo o período de vida. Para resumir: o tema do Catecismo – a arte de viver pela fé – é dado como um guia que acompanha o cristão deste lado da eternidade. Mas é uma arte. Não aprendemos tudo de uma vez só. Ao invés disto, nós permanecemos do começo ao fim de nossas vidas – como Lutero o colocou – pupilos do Primeiro Mandamento. Continuamente aprendemos a ver a bondade de Deus nos eventos da vida diária e a viver na expectativa de sua contínua bondade amanhã. Isto se revela nas variações. Terceira Parte – Uma proposta para tornar o Catecismo parte da vida na atualidade11 Postulamos anteriormente que as pessoas estão indo à igreja com Esta parte é um resumo das idéias de Charles Arand, citado anteriormente. 11 109 Revista Agosto.indd 109 3/9/2009 23:47:01 Igreja Luterana pouca ou nenhuma noção da memória cristã. Elas precisam aprender e saber não apenas o que a igreja crê, mas o que quer dizer ser um cristão, como ler as Escrituras, como cultuar e orar, como articular sua fé e como fazer com que a vida tenha sentido. Não temos muito tempo para isso e voltar às bases – ao Catecismo de Lutero – é de suma importância. Nós devemos reconhecer que os Catecismos e toda sua instrução contêm em si mesmos uma disciplina distintiva. Instrução catequética não é idêntica ou coexistente com a educação cristã em geral. A instrução catequética se situa entre o evangelismo e a assimilação. Ela se projeta para onde a proclamação inicial do kerygma pára e prepara ao aprofundamento subsequente na fé mediante mais aprendizagem extensiva. Ela foca a formação da mente de Cristo dentro da pessoa. Tampouco o Catecismo se parece com uma minidogmática. Ela não trata de cada tópico que poderia ser considerado. Ela trata das bases e cria um fundamento para a aprendizagem subsequente. Agora, isto pode significar que nós não podemos cobrir o mesmo tanto de material quantitativamente. Eu desejo aprender dele, isto é, do Catecismo, poucas coisas, mas que constituem as bases que sustentam a vida, e quero aprendê-las bem! Podemos continuar com outros assuntos depois (espero que eles estejam bem próximos no momento apropriado). Em outras palavras, cada documento precisa ser ensinado distintamente de acordo com suas peculiaridades distintivas. O posterior se refere muito mais a um livro teológico ou manual para teologia, o que é extremamente proveitoso. Por isso, uma edição de luxo do Catecismo para que acompanhe o crente ao longo de sua vida também é importante. A fé cristã resume-se à Palavra e o que é mais importante para o Catecismo são palavras. Para serem claras, as palavras significam coisas e carregam significados, mas significado religioso não é unívoco. Quando amadurecemos, o significado cresce e se aprofunda, moldando e mudando assim como nossas vidas se moldam e mudam. O significado é efêmero, e os significados aprendidos aos doze anos não são a totalidade das palavras que se memoriza ... palavras permanecem, e caso se tenha as palavras, o significado nunca é de todo perdido. Em outras palavras, nossas explicações não podem exaurir as palavras. Temos uma vida inteira para desembrulhar, esmiuçar as palavras. Mas, primeiro, precisamos das palavras gravadas em nossos corações e mentes. Através disto, contudo, eu não quero dizer que se aprenda “numa sentada” como estudantes se preparando para um teste: memorizando os fatos, então executando uma espécie de desencargo cerebral com relação ao exame, e na próxima semana não tenha idéia alguma sobre o que foi aprendido. 110 Revista Agosto.indd 110 3/9/2009 23:47:01 A importância do catecismo na identidade luterana Aprender de cor envolve aprender até o ponto onde se torna instintivo, onde se torna segundo a natureza ... até que nós a tenhamos na ponta dos dedos. Aprender a andar de bicicleta, tocar a escala no piano – isto envolve repetição. As pessoas precisam se tornar instintivamente luteranas. Somente depois que uma pessoa tenha aprendido as escalas ou aprendido a andar de bicicleta ela pode continuar sendo alguém que toque música ou ande de bicicleta. Isto parece sugerir que não é de melhor proveito ter-se memorizado apenas uma vez. Tampouco quer dizer que deveríamos ceder no trabalho de memória para adultos (você pode tentar!). Ao invés disso, o catecúmeno precisa entrar em contato com o Catecismo continuamente através da vida da igreja. Você pode dizer que as pessoas mantêm-se em contato com ela (tenha-o continuamente diante de seus olhos – Deuteronômio). Deste modo, talvez, elas eventualmente – e de forma não intencional – buscarão e aprenderão suas porções simplesmente através do uso contínuo delas. Talvez seja por isto que ele foi endereçado a pastores, pais e professores do gênero, posto que foi para ser utilizado no lar, igreja, sala de aula. Destes três, o Catecismo em nossos dias tem tido seu lugar quase que exclusivamente na sala de aula. Mas antes que ele possa encontrar seu lugar novamente no lar, talvez ele precise primeiramente encontrar seu lugar na igreja novamente (em adição à sala de aula). Neste contexto, nós podemos compreender o que em primeiro lugar parece ser uma hipérbole da parte de Lutero. Considerando que o prefácio do Catecismo Menor e o prefácio mais breve do Catecismo Maior (1529) se dirigem às necessidades das crianças, Lutero adicionou um prefácio mais comprido ao Catecismo Maior em 1531, no qual ele se dirige aos adultos que consideravam o Catecismo como sendo algo de ensino simples, facilmente dominado em uma hora ou em um único dia. Lá Lutero fala da necessidade dele próprio quanto a estudar o Catecismo diariamente também. “Eu ainda devo ler e estudar o Catecismo diariamente, ainda que eu não possa dominá-lo como eu desejasse, mas permaneço um filho e pupilo do Catecismo, e eu o faço com muita alegria” (LC, Prefácio Maior, 7-8). O Catecismo foi originalmente designado como um documento oral, isto é, apesar de que fosse escrito, ele era para ser utilizado oralmente – escrito para ser falado em voz audível. De fato, se fosse para ser memorizado, ele teria de ser memorável. E desta forma Lutero empregou muitos dispositivos mnemônicos para torná-lo memorável. Ele utilizava aliteração (“Tod und Teufel” “verlornen und verdammten”). Utilizava também assonância, 111 Revista Agosto.indd 111 3/9/2009 23:47:01 Igreja Luterana equilíbrio, elemento concreto, fórmulas, cadência e ritmo, repetição, a fim de tornar o Catecismo um encanto aos ouvidos. Trazendo-o como um livro texto para o olhar, nós perdemos alguma coisa de sua qualidade enquanto conversa vivaz unindo pessoas na unidade da fé. Como um documento escrito para o uso oral, ele foi escrito para abrir conversação. Pode ser então que a mesa do jantar proveja nosso modelo, em companhia de Hans Luther. (O que é isto? É uma mesa. O que é aquilo? É uma porta). Talvez (dependendo do tamanho da classe) o pastor ou o catequista simplesmente junte a classe em um círculo de cadeiras e diga: “vamos conversar sobre isto”. Tome o Primeiro Mandamento e a palavra “nós” como em “nós devemos temer e amar a Deus”. A quem se refere? Cristãos? Todas as pessoas? Por quê? Pense na discussão que poderíamos fazer com relação à palavra temor? Medo? Respeito? Reverência? E os estudantes podem muito bem levantar questões que nós poderíamos responder. Então nós podemos conectar tudo isto ao cultuar, vida diária, às Escrituras, etc... O que nós precisamos fazer hoje é desenvolver um curriculum para o Catecismo que esteja baseado no conteúdo teológico e que tenha os contornos do próprio Catecismo de Lutero. Deve-se levar em conta o que ele incluiu e o que ele não incluiu (termos técnicos; humilhação – exaltação; atributos de Deus; ofícios de Cristo; etc.) e o porquê. Isto significa que nossa tarefa de instrução é mais complexa do que uma simples transmissão de uma quantidade particular de informação e dados. Inclui a formação de um habitus cristão dentro do indivíduo. Em outras palavras, deve-se levar em conta a natureza singular e o gênio dos Catecismos de Lutero e não somente se impor um sumário de teologia sistemática ao se dirigir a ele. Onde o Catecismo carece de suplemento (assuntos não discutidos), isto preciso ser realizado de um modo que se permaneça fiel aos contornos do Catecismo. Deve também ser flexível o suficiente de forma que se manuseie os assuntos especificamente morais e teológicos que emergem em nosso contexto atual. Mas isto quer dizer que devemos mergulhar-nos no mundo pensado do Catecismo. Um curso de instrução que procura promover a tarefa catequética nas linhas da natureza e proposta dos Catecismos de Lutero teria, em especial, uma dupla meta. Primeiro, se focalizaria num processo de desembrulhar a amplitude das palavras dadas no Catecismo. Em segundo, auxiliaria os catecúmenos a utilizarem o Catecismo nas várias áreas do seu cotidiano. A analogia do Catecismo enquanto um mapa rodoviário à fé e vida cristã poderia ajudar neste momento. Primeiro, porque um mapa orienta um viajante ao demarcar as for- 112 Revista Agosto.indd 112 3/9/2009 23:47:01 A importância do catecismo na identidade luterana mas maiores de um território, a costa litorânea, montanhas, planaltos, e onde há água. De uma forma similar, o Catecismo orienta o cristão ao demarcar os principais textos, temas e eventos da vida cristã. Ao invés de dar uma descrição de cada detalhe, ele nos mostra os contornos, configurações e características maiores da vida cristã. Sua brevidade, semelhante aos credos antigos, significa que ele deve assinalar as coisas profundas e complexas com um “poste sinalizador altamente evocativo”. E para usar as palavras de Ambrósio e Teodoro de Mopsuéstia: “a partir de poucas palavras, muita instrução pode ser extraída; note quão rapidamente a coisa é dita e quanto realmente quer significar”. Estes mapeamentos maiores ou postes que sinalizam nos capacitam a encontrar nosso caminho a fim de fazer com que tenham sentido muitos caprichos de nossas vidas. Eles também assinalam onde alguns dos tesouros mais ricos na Escritura são encontrados. Segundo, como um mapa, o Catecismo situa nossa jornada de fé dentro do contexto daqueles que estiveram antes de nós. Enquanto cada nova geração de crentes deve levar adiante a sua própria jornada de fé, o Catecismo providencia algumas demarcações claras para nos direcionar no caminho certo. Como um mapa, o Catecismo provê uma “imagem compartilhada” ou “confissão comum” que acaba planejando as jornadas tanto individualmente quanto numa visão comunitária. Nenhuma geração de crentes se inicia sem que haja algum conhecimento prévio dentro do qual se tenta expressar quem eles são mediante a comunidade, liturgia, ensino e serviço. Uma compreensão amplamente defendida do que cremos, como cultuamos, como nós agimos e como oramos concede unidade às diversidades de jornadas da fé. A partir daí, podemos criar um programa de catecumenato permanente a partir do Catecismo. Arand sugere sete ciclos. Segundo ele, cada ciclo cobriria o Catecismo inteiro de forma que não se perca de vista a floresta por conta das árvores. Cada ciclo poderia levar de seis a doze semanas ou ser tratada durante um fim de semana em retiro. Uma semana deveria ser devotada ao Primeiro Mandamento. A segunda semana poderia ser destinada para mostrar (ao se tomar exemplos) como os mandamentos são nove interpretações do Primeiro Mandamento. A ausência de um tempo único concentrado destinado a cada mandamento será compensado ao se ensinar um número de ciclos cobrindo o Catecismo inteiro. Neste percurso, voltaríamos aos mandamentos várias vezes. Ensinar o Catecismo em uma série de ciclos teria várias vantagens. Primeiro, faria com que o Catecismo fosse tratado holística e integral- 113 Revista Agosto.indd 113 3/9/2009 23:47:01 Igreja Luterana mente. Segundo, o uso repetido do Catecismo inteiro através de uma série de ciclos poderia auxiliar no imprimir ou gravar o Catecismo nos corações e mentes daqueles que o estão aprendendo. Em consequência disto, tal forma pode inculcar um padrão luterano de pensar no catecúmeno. Terceiro, permitiria imensa variedade na instrução. Um ciclo utilizará o Catecismo para explorar a Escritura. Um outro ciclo usará o Catecismo para compreender a liturgia. Outro ainda fará com que se aprenda a orar. Cada ciclo se deterá em uma diferente faceta da vida cristã. Quarto, um pastor poderia utilizar vários dos ciclos ou todos eles, ou ainda usá-los em diferentes sequências com relação à sequência que eu enumero. Quinto, materiais para cada ciclo catequético poderiam ser publicados como livros independentes que encerram o assunto em si. Isto adicionaria em muito a flexibilidade que um pastor ou catequista teria em cursos feitos sob medida para seus estudantes. Primeiro ciclo: concentração no Catecismo – No primeiro ciclo, focalize no examinar das palavras dos componentes clássicos e então passe para um exame minucioso na explicação e tratamento de Lutero quanto àqueles textos (utilize o Catecismo Maior como recurso). Aqui novamente nos concentraríamos no desembrulhar das palavras, observando o tema das explicações de Lutero, vendo como elas se entrelaçam, e explorando suas trajetórias. Segundo ciclo: pórtico à Escritura – Lutero utiliza os textos básicos para providenciar um portal a um mundo recheado de pensamento bíblico. Consequentemente, ele fala do Catecismo como sendo um compêndio da Escritura. As explicações no Catecismo Menor não apenas levam alguém ao texto de componentes centrais, mas tão importante quanto isto, elas abrem um portal para um mundo bíblico repleto de pensamento sobre aquele assunto particular. Elas não apenas resumem o pensamento, mas o expandem. Por comparação, as explanações no Catecismo Maior ensinam e mostram a alguém como atualizar o testemunho bíblico dentro das várias vocações do povo de Deus. Precisamos explorar como o Catecismo de fato revela os temas primordiais da Escritura. Pode-se proceder indutivamente aqui (mais propriamente do que um texto – prova) e levantar-se as questões as quais cobrem a várias porções da Escritura: “Onde isto se encaixa no Catecismo?” Por exemplo, poder-se-ia contemplar o Antigo Testamento e examinar cada incidente onde o povo de Israel foi punido e enviado ao cativeiro. Com relação a qual assunto eles foram punidos? Idolatria! 114 Revista Agosto.indd 114 3/9/2009 23:47:01 A importância do catecismo na identidade luterana Em outras palavras, o Primeiro Mandamento é o mais proeminente no encaixe. Então, o professor poderia proceder tanto indutiva quanto dedutivamente a fim de explorar a centralidade dos Dez Mandamentos em geral e o Primeiro Mandamento em particular dentro das Escrituras. De forma semelhante, poderíamos explorar como o Credo cobre os temas principais da Escritura com relação a Deus e sua obra. Em outras palavras, se temos somente poucos minutos para falar sobre Deus, sobre o que falaremos? Quando a Bíblia trata da criação, qual é seu foco? A Creatio prima ou a creatio continua? Podemos ver como o Segundo Artigo capta os três focos fundamentais (encarnação, paixão e ressurreição de Cristo) dos Evangelhos assim como a teologia de Paulo. Quando a Escritura fala do Espírito, ela assim o faz de modo cristocêntrico. Terceiro ciclo: o Catecismo e o culto – No terceiro ciclo de seis semanas, poderíamos mostrar como o Catecismo nos leva à liturgia e ao campo dos hinos na igreja. Podemos mostrar como segue tanto a fluência do culto como também os temas contidos na narrativa e instrução doutrinária dos próprios hinos. Veja os hinos. Note como procedemos no culto a partir da confissão (Dez Mandamentos) para a Liturgia da Palavra (Credo), e então para as orações e ofertas (Pai Nosso). Podemos praticar usando o Catecismo em nossa própria preparação não apenas para confissão – absolvição, mas para a Ceia do Senhor ou para relembrar o Batismo. Eventualmente, utilize as quatro questões de Lutero quanto ao Batismo e a Santa Ceia no serviço a tais sacramentos. Quarto ciclo: o Catecismo e o evangelismo – O Catecismo pode também servir admiravelmente para dar assistência aos catecúmenos no compartilhar de sua fé com outros ao dividir a fé da igreja. Onde começamos no evangelismo? O que poderia servir como sendo nosso ponto de contato? O tratamento de Lutero quanto ao Primeiro Mandamento no Catecismo Maior providencia um excelente ponto de partida. Ao iniciar com a atribuição de que somos criaturas, assume-se que todos têm um deus. Então, pelo que estás buscando na vida? Onde procuras significado, preenchimento ou felicidade? Este é o seu deus. Agora, vamos ver se ele é forte o suficiente para suportar sua fé ou se eventualmente o desapontará. O que precisamos dizer sobre Deus ou Jesus Cristo? Novamente, o Segundo Artigo provê, de uma forma belíssima e sucinta, as facetas mais importantes da vida de Cristo que nós precisamos conhecer. Cristo tornou-se meu Senhor a fim de que eu pudesse ser mesmo seu! 115 Revista Agosto.indd 115 3/9/2009 23:47:02 Igreja Luterana Quinto ciclo: o Catecismo e a interpretação da vida – No quinto ciclo, poderíamos usar o catecismo para interpretar assuntos contemporâneos, ou seja, atuais. Tópicos como avareza, idolatria, violência, aborto poderiam ser interpretados à luz dos vários mandamentos, mas com uma visão que mostre como cada mandamento em última análise nos leva ao Primeiro Mandamento. Desta forma, o Catecismo pode se tornar um itinerário ao fazer com que a Escritura se aplique à vida atual do cristão. Isto já emerge na ordenação existencial que perpassa no Catecismo de Lutero como um todo bem como o ponto de partida existencial para as explicações de suas partes individuais. Em cada instância, Lutero inicia no ponto onde o povo encontra e experimenta a vida com suas demandas e dons, seus desapontamentos e alegrias. Lutero então explana ou interpreta estas experiências teologicamente à luz do Evangelho e, desta forma, mostra como tratar deles. Sexto ciclo: o Catecismo e a piedade – Este ciclo focalizar-se-ia no ensino e uso do catecismo como uma base para a vida devocional e de oração. Aqui seria proveitoso checar o Livro de Oração Particular de Lutero bem como sua carta para Pedro, o Bárbaro. Nesta última, ele mostra explicitamente como orar o Catecismo. O pastor ou pais poderiam forjar o ritmo para a oração diária como posta no próprio Catecismo (manhã, meio-dia, noite) e desta forma torná-la parte de nosso ritmo para o viver diário (todos devem levantar, alimentar-se e ir para a cama). Então poderíamos também exclamar com Lutero: “Louvado seja Deus – vieste a fazer com que homem e mulher, jovem e velho, conheçam o Catecismo; eles sabem como crer, viver, orar, sofrer e morrer. As consciências são bem instruídas sobre como ser cristãos e como reconhecer Cristo”.12 Lutero torna bem claro que, num sentido real, o Catecismo não é somente aprendido até que a vida se definhe”. Isto significa que a vida toda do cristão se torna um catecumenato. Sétimo ciclo: o Catecismo e a teologia da igreja – Neste ciclo particular, poderíamos explorar em maior profundidade muitos dos materiais que são contidos na explicação sinodal quanto ao Catecismo de Lutero. Mas seria melhor que fosse feito de uma forma que se construa no próprio padrão bíblico de pensamento em Lutero, de maneira que siga a sua trajetória. Por exemplo, note como ele ensina a respeito da Trindade. Isto Martinho Lutero, “Warning to His Dear German People, 1531”, in Luther’s Works, vol. 47 (Philadelphia: Fortress Press, 1971), pp. 52-53 12 116 Revista Agosto.indd 116 3/9/2009 23:47:02 A importância do catecismo na identidade luterana significa que podemos proceder a partir da Trindade econômica para a Trindade imanente. Outras expressões para a obra de Cristo em adição ao Christus Victor poderiam ser exploradas. Conclusão Depois de ler estas páginas, a tarefa que se impõe parece ser árdua e desanimadora. Lutero o sabia, por isso assim se pronunciou no prefácio ao seu comentário sobre Zacarias, queixando-se sobre como pouquíssimos pregadores eram competentes em dar boa instrução catequética; aqueles que podiam, ele os classificava como sendo os teólogos mais perspicazes: “Deve-se, contudo, relacionar aqueles educadores como os melhores e modelos de sua profissão, aqueles que ensinam muito bem o Catecismo ... mas tais educadores são aves raras. Pois não há nem grande glória nem demonstração exterior em sua espécie de ensino; mas há nisso um grande bem e também o melhor dos sermões, posto que neste ensino, em poucas palavras, compreende-se toda a Escritura”.13 Bibliografia complementar ARAND, Charles P. That I May Be His Own: An Overview of Luther’s Catechisms. Saint Louis: CPH, 2000. ARAND, Charles. “The God behind the First Commandment”. In Lutheran Quarterly 8, (Winter 1994): 397-424. BAYER, Oswald. A Teologia de Martim Lutero: uma atualização. São Leopoldo: Sinodal, 2007. FORMATION IN THE FAITH: CATECHESIS FOR TOMORROW. Concordia Seminary Publications, Symposium Papers, Number 7. Saint Louis, 1997. KOLB, Robert. Martin Luther Confessor of the Faith. Oxford: Oxford University Press, 2009. LATHROP, Gordon & WENGERT, Timothy. Christian Assembly. Marks of the Church in a Pluralistic Age. Minneapolis: Fortress Press, 2004. PETERS, Albrecht. Commentary on Luther’s Catechisms. Ten Commandments. Saint Louis: Concordia, 2009. WENGERT, Timoty J. Martin Luther’s Catechisms. Forming the Faith. Minneapolis: Fortress Press, 2009. Luther’s Works, vol. 20, pp. 155-57. Veja também D. Martin Luthers Werke, vol. 23 (Braunschweig: C.A. Schwetschke and Sons 1855) no 485-86. 13 117 Revista Agosto.indd 117 3/9/2009 23:47:02 Revista Agosto.indd 118 3/9/2009 23:47:02 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS SÉRIE ANUAL TRADICIONAL REFORMULADA Sexto Domingo após Pentecostes Quinto Domingo Após Trindade Salmo 147.1-14, Lamentações 3.22-26 ou Êxodo 3.1-15, 1 Pedro 2.410, Lucas 5.1-11 Lucas 5.1-11 O mais excelente trabalho Comentário sobre o texto Jesus estava na cidade de Cafarnaum, à beira do Mar da Galiléia. Era a terra natal dos profissionais da pesca Pedro, André, Tiago e João. Nesta cidade Jesus era sempre acolhido com muito carinho. Multidões reuniamse para ouvir suas pregações. Nesta ocasião, Jesus usou o barco de Pedro e, assentado nele, ensinava as multidões. Concluído o seu ensino, pediu que Pedro navegasse para águas mais profundas para lançar as redes e pescar. Apesar do cansaço após uma noite inteira de trabalho e mesmo não sendo esta a hora mais apropriada para a pesca, Pedro obedeceu. E o resultado foi impressionante. Nunca o seu trabalho havia rendido tanto, a ponto de pedirem auxílio a companheiros de outro barco. Diante do milagre, Pedro considerou-se indigno de ficar na presença de Jesus, perante o qual sentia-se um indigno pecador. Neste momento Jesus fez o convite que mudou radicalmente a sua vida. Ao invés de pescarem peixes com redes de pesca, teriam, a partir desse convite, a missão de lançar as redes do evangelho. O chamado de Jesus foi imediatamente aceito. Os barcos foram arrastados para a praia e, “deixando tudo, o seguiram”. Quando Cristo chama e mostra o caminho que conduz ao seu trabalho, o pecador ouve a sua voz e curva-se humildemente diante da sua vontade. No Evangelho deste domingo, o Salvador Jesus incentiva o trabalho, abençoa o trabalho e chama pessoas simples como Pedro e seus colegas de profissão para o mais excelente trabalho: a missão de pescar gente. Destaques dos outros textos Sl 147.1-14 – No contexto agrícola, o bom tempo, com sol e chuva 119 Revista Agosto.indd 119 3/9/2009 23:47:02 Igreja Luterana regulares, faz com que o homem do campo veja o seu trabalho frutificar. Esse é um dos motivos pelos quais o salmista louva o Deus todo-poderoso. No contexto da Igreja, o tempo de paz e liberdade é propício para a pregação do Evangelho, pelo que também louvamos ao Deus e Pai de toda graça. Êx 3.1-15 – Quando Deus chamou Moisés para libertar o povo de Israel da escravidão egípcia, ele vacilou, apresentou desculpas apontando suas deficiências (cf. Êx 3 e 4). Depois de muito relutar, foi persuadido a aceitar o desafio. A promessa de que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó estaria ao seu lado na dura missão e os sinais que Deus fez diante dele, o convenceram. Também no Ministério Pastoral e no Sacerdócio Universal, “a nossa suficiência vem de Deus”. 1 Pe 2.4-10 – Não somente os que foram habilitados para exercer publicamente o Ministério Pastoral, após concluir um curso de Teologia, mas todos os cristãos são chamados a “proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”, como membros do sacerdócio universal dos crentes em Cristo. Moléstia: Ministros do evangelho e cristãos preguiçosos e acomodados (Jr 48.10). Jesus chamou pessoas que tinham vontade de trabalhar. Tema: O mais excelente trabalho. Introdução Diz um ditado popular: “Tá nervoso? Vai pescar!”. Nesse contexto, a pesca seria um santo remédio para acalmar os nervos. Para outros, a pesca é esporte ou divertimento. Por isso não faz muita diferença se, após uma longa pescaria, nada se pega. Mas para Simão Pedro e seu colegas de profissão, a pesca era o seu meio de vida. Por isso, quando Jesus disse, “doravante serás pescador de homens”, não se referia a um mero passatempo de final de semana, mas referia-se ao mais excelente trabalho que o ser humano tem o privilégio de fazer. O mais excelente trabalho não é um passatempo de final de semana - Mas é a mais necessária, importante e urgente missão da Igreja - No Salmo, o autor louva ao Senhor porque ele “congrega os dispersos de Israel” (Sl 147.1) - Salvar pessoas que caminham para o inferno é a prioridade número 1 da Igreja 120 Revista Agosto.indd 120 3/9/2009 23:47:02 Sexto domingo após pentecostes - A Igreja realiza esta tarefa anunciando o Evangelho e administrando os sacramentos - Somente a Igreja é portadora da mensagem da salvação - Infelizmente agimos como se isto não fosse algo importante - Não está na nossa agenda de prioridades - Pecado de não-missão? acomodação? preguiça? - Também por esses pecados Jesus morreu e ressuscitou - Dele recebemos vida, coragem e novo ânimo para servir na sua Igreja Salvar pessoas perdidas é o mais excelente trabalho - Jesus chama pecadores para fazer esse trabalho - Pedro disse: “Retira-te, sou pecador” - O pecador Pedro foi confrontado com a majestade de Deus - A majestade de Deus nos convence da nossa fraqueza e do nosso pecado - Jesus respondeu: “Não temas”! - Ele veio para salvar os pecadores assim como Pedro, André, você e eu - Ele quer usar a estes pecadores em sua missão - Pedro e seus companheiros de trabalho deixaram tudo e o seguiram - Jesus tornou-se o primeiro em suas vidas - Jesus é o primeiro em nossa vida? Para fazer esse mais excelente trabalho, Jesus usa o que nós temos - Não pede coisas impossíveis para nós, ou fora do nosso alcance - Pediu a Pedro que lhe desse um pouco do seu tempo e o seu barco - Nossas desculpas para não participar assemelham-se às desculpas dadas por Moisés (Êx 3 e 4) - Jesus pede também o nosso tempo e as nossas ofertas - Alguns são chamados para o Ministério Pastoral de tempo integral ou parcial - Outros são chamados a servir no Sacerdócio Universal dos Crentes em Cristo (1 Pe 2.9,10) - O grande desafio: “Sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. - A ação missionária da Igreja é um ato de fé - Porque Cristo falou, nós agimos, movidos pela sua graça - Dele recebemos bênçãos para esta vida e para a vida eterna: 121 Revista Agosto.indd 121 3/9/2009 23:47:02 Igreja Luterana “...os que a muitos conduzirem à justiça, resplandecerão como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12.3) “Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas- novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina”! (Is 52.7) Fortalece a tua Igreja, ó bendito Salvador! Dá-lhe tua plena graça, vem renova seu vigor. Vivifica, vivifica nossas almas, ó Senhor. Amém Arnildo Schneider Porto Alegre, RS 122 Revista Agosto.indd 122 3/9/2009 23:47:02 Sétimo Domingo Após Pentecostes Sexto Domingo Após Trindade Salmo 107.1-9, Isaías 43.1-7 ou Jeremias 17.9-13, Romanos 6.1-11, João 4.5-15 (16-26) João 4.5-15 (16-26) Leituras do Dia A temática que perpassa as leituras deste domingo é a dependência de Deus para alcançar redenção, libertação, purificação. Salmo 107.1-9: Este salmo olha para um passado livramento de Israel da escravidão exílica e convida para render graças a Deus que agiu misericordiosamente. Jeremias 17.9-13: É preciso estar junto ao Senhor para saciar as necessidades humanas; o Senhor é a fonte de águas vivas (vida). Romanos 6.1-11: A “água redentora” do batismo nos coloca numa situação diferente e nova: revestimo-nos de Cristo e nos beneficiamos com as dádivas que advêm de sua morte e de sua ressurreição. O pensamento do apóstolo liga-se ao rito da imersão - para dentro da água (morte), debaixo da água (sepultamento) e fora da água (ressurreição). Contexto A perícope situa-se dentro da sequência de João 2.13 e 3.22. Já na primeira fase do seu ministério, Jesus foi para a festa da Páscoa em Jerusalém e permaneceu na região da Judéia, levando a efeito um ministério de batismo através de seus discípulos. (Além dos ministérios batismais de João e de Jesus, havia outros ministérios batismais – ritos legalistas de purificação). Diante da reação negativa dos fariseus e para evitar contendas entre seus discípulos e os de João, Jesus decide voltar para a Galiléia. Passar pela Samaria encurtava a distância a ser percorrida. Texto V.5: O cenário natural do diálogo com a samaritana fazia parte da paisagem geográfica e histórica da Antiga Aliança, pois ali Jacó tinha andado e ali José foi sepultado. Agora, neste local, há um redirecionamento da Aliança de Deus – se no passado a aliança era apenas para judeus, agora se destina até mesmo para aqueles que pelos judeus eram 123 Revista Agosto.indd 123 3/9/2009 23:47:02 Igreja Luterana desqualificados – os samaritanos. Jesus veio para a salvação de todos. O v. 4 traz que era necessário (dei) atravessar a região de Samaria; este necessário implica que a vontade ou plano de Deus estava ali envolvido. V. 6: Cansado da viagem / na hora sexta. – O cansaço e a sede de Jesus evidenciam também sua humanidade. Jesus era verdadeiro Deus e verdadeiro homem, porém sem pecado (Hb 4.15). Jesus foi verdadeiro homem para experienciar a realidade humana e assim creditar ainda mais a sua missão. Aqui, a humana sede de Jesus remete para a sede humana de Deus, a sede espiritual que precisa ser saciada. A hora sexta, de acordo com o cômputo judaico, corresponde ao meio dia – horário natural de descanso enquanto o sol estava no seu ponto mais alto. Vv. 7-9: [...] mulher samaritana. – Samaritanos e judeus, historicamente, eram antagônicos. Os samaritanos, apesar de na sua origem serem parte do mesmo povo, haviam se separado dos israelitas política e religiosamente desde muito tempo. Da Bíblia Hebraica só preservavam o Pentateuco (Lei). Os judeus consideravam-nos praticamente como pagãos. Judeus criteriosos na observância da lei criam contaminar-se comendo alimentos ou usando objetos que tinham sido manuseados por samaritanos, quanto mais ainda por uma mulher samaritana. A mulher samaritana era considerada em estado perpétuo de impureza cerimonial. Vv. 10-14: Água viva – é a água fresca e corrente, a melhor água para beber. – A comparação frequente da lei com água refrescante, encontrada nas tradições rabínicas, sugere que aqui Jesus está oferecendo algo superior não só à água do poço de Jacó, mas também algo superior à religião legalista dos samaritanos e judeus conjuntamente. – A metáfora da água é usada para mostrar a carência e a necessidade espiritual do ser humano. Sem a água não há vida; sem a água da vida (Jesus) há morte espiritual. Jesus usa a água viva como símbolo dos dons que ele oferece, gratuitamente, a quem crê (João 6.35; 7.37-38, Ap 21.6). V. 15: Dá-me dessa água. – A mulher não compreendeu que se tratava de algo espiritual; ficou no plano material. Porém, muito pertinente foi o seu pedido, pois resta para o ser humano render-se: compreender sua necessidade e demonstrar acolhimento do que lhe é oferecido. Não podemos olhar para Jesus apenas na ótica materialista, pois Nele está o mistério da vida. Jesus descortinou o que está além da aparência – além da morte há vida. 124 Revista Agosto.indd 124 3/9/2009 23:47:02 Sétimo domingo após pentecostes Sugestão Homilética Tema: Mate sua sede de Deus! Introdução – a necessidade e o valor da água, em especial da água potável. Desenvolvimento 1. O ser humano tem sede de Deus – o homem é um ser de materialidade e espiritualidade – necessidade de satisfazer a espiritualidade – a crise que o pecado trouxe 2. Há muitas fontes que não matam a sede – a religiosidade judaica – a religiosidade samaritana – outras religiosidades 3. A água da vida – é Cristo (Jo 6.35, 7.37-38 e Ap 21.6) – recebemos já no “Batismo” – é gratuita; é dádiva (Is 55.1) – é oferecida a todos: judeus, samaritanos, gentios – mata a sede para sempre Conclusão Assim como a água é vital para se matar a sede e ficar vivo, Jesus é vital para matar a sede espiritual e proporcionar vida eterna. Eliseu Teichmann Porto Alegre, RS 125 Revista Agosto.indd 125 3/9/2009 23:47:02 Oitavo Domingo após Pentecostes Sétimo Domingo Após Trindade Salmo 139.14-18, Êxodo 16.2-3, 11-18, Atos 2.41-47, João 6.1-15 João 6.1-15 Contexto Litúrgico Este período do Ano Eclesiástico, com seus domingos chamados após Pentecostes, ou após Trindade, ou ainda, Tempo Comum (Igreja Católica Romana) reflete, no verde das cores litúrgicas, a idéia de crescimento. É o período onde, sem grandes festas especiais, a Igreja Cristã semeia a Palavra e segue sua tarefa de ensinar e, com isto, alimentar os que têm fome e sede. Leituras do dia Salmo 139.14-18: O salmista se mostra maravilhado ante a sabedoria e o cuidado de Deus. Numa poesia contemplativa, ele derrama palavras que denotam sua incapacidade em compreender os atos cuidadosos do Senhor, que está presente em todos os momentos. “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis...”. O salmo é uma declaração de confiança e submissão a Deus, até mesmo quando apela ao juízo de Deus contra os ímpios, numa atitude não de vingança, mas de zelo e cuidado por aquele de quem depende e a quem entrega todo o seu ser. Êxodo 16.2-3; 11-18: Frente à reclamação do povo, sua incredulidade e seus precipitados diagnósticos e prognósticos, Deus age através de Moisés. Contrariando qualquer expectativa humana, ao amanhecer o dia, existe comida. Ao verem o alimento, não sabem do que se trata (v. 15). E cada um recebeu o necessário para comer. Atos 2.41-47: A firmeza dos primeiros cristãos, fundamentada no ensinamento e na ação poderosa de Deus através dos apóstolos, se reflete na vida diária. Deus opera milagres, cujo maior deles é a fé plantada no coração. Uma vez germinada, esta fé é o sinal da presença de Deus no mundo. 126 Revista Agosto.indd 126 3/9/2009 23:47:03 Oitavo domingo após pentecostes Ênfases gerais As leituras paralelas, indicadas para este domingo, se tocam quanto à ênfase no Senhor doador de todas as coisas, mantenedor e condutor da história. Deus dita o andar da carruagem. Ele é o Senhor do tempo e só dele vem o que sacia a humanidade, desde suas carências mais triviais até os anseios mais profundos da alma. O evangelho do dia: João 6.1-15 O texto do evangelho mostra o Deus dos milagres. Mostra o Cristo que faz milagres, mas não é milagreiro! Este milagre é o único que encontra paralelo nos sinóticos. João, no entanto, não se dispõe a marchar no passo dos demais. Mateus, Marcos e Lucas pintam um cenário muito parecido. Os três falam, no contexto anterior, sobre a morte de João Batista, dois deles lembram a missão dos doze, Mateus dá como introdução, ou motivação da ida de Jesus ao local onde acontece o milagre, a notícia sobre a morte de João Batista. Lucas é quem denomina o local do milagre, o povoado de Betsaida. O relato dos quatro evangelistas completa, com detalhes significativos, este acontecimento. Naquele lugar, com a grande multidão ao seu redor, Jesus ficou com muita pena e curou os doentes (Mt 14.14); teve pena e ensinou muitas coisas (Mc 6.34); falou a respeito do Reino e curou os que precisavam (Lc 9.11). E os quatro contam a multiplicação dos pães e peixes. Peculiaridades no relato de João João dá destaque especial à autoridade de Jesus, ao testemunho que João Batista deu a respeito daquele que tem um poder muito acima das expectativas humanas; ao testemunho de Moisés, que era o grande ícone da crença do povo; ao testemunho do próprio Deus a favor de Cristo (5.19-47). Para melhor visualizar o texto do evangelho, também não se pode abrir mão do contexto posterior, onde João não poupa tinta para mostrar o significado deste milagre de Jesus. João faz questão de pontuar o intento que moveu o povo a estar com Jesus naquele local. Eles tinham visto os milagres – shmei/on (v.2). Sinal ou milagre pode significar algo que remete para o que vem pela frente, algo que identifica uma pessoa ou coisa, uma “marca” ou “prova” confirmatória. No AT remete ao sinal dado por Deus que acompanha a Palavra; sinais que reforçam e garantem a presença salvífica de Deus. João especialmente mostra os milagres como sinais que indicam para além de si mesmos, para aquele que os opera – Jesus Cristo. O sinal de 127 Revista Agosto.indd 127 3/9/2009 23:47:03 Igreja Luterana Moisés aponta para Cristo. João Batista aponta para Cristo. O milagre de Jesus aponta para si mesmo. É o sinal da salvação que invade o mundo e aponta para a eternidade, onde também as carências físicas não existirão mais. João é o único que menciona o período, a Páscoa – Pa,sca (v. 5), quando os judeus lembravam da libertação do Egito e do maná no deserto. Era a época em que esperavam, com mais fervor, que o Messias se manifestasse. João menciona três Páscoas (2.13; 6.4 e 11.55). O evangelista não menciona a morte do Batista, nem a missão da qual os doze apóstolos tinham voltado. Não que ele não gostasse do seu xará, ou que não tivesse dado importância ao ‘estágio’ feito por eles um pouco antes. Mas o evangelista descreve a cena numa perspectiva, ao que parece, de quem olha o macro, ou seja, Jesus não queria ser milagreiro, mas sinalizou um grande milagre. E quando os outros evangelistas encerram seu relato, João continua: “Os que viram este milagre de Jesus disseram: de fato, este era o profeta que devia vir ao mundo!” (v. 14). E Jesus, sabendo das intenções do povo, de o levarem ao trono, sai de cena, sozinho. Jesus não é milagreiro! No contexto posterior, João descreve o próximo encontro de Jesus com aquela multidão. É hora de abrir o jogo. E isto acontece nos versículos 26 e 27. Então o povo reclama e exige as credenciais de um rei (vv. 30,31), e recebe, então, na sequência dos versículos, até ao final do capítulo, a clara exposição de que: Jesus não é milagreiro, mas faz grandes milagres! Ele é o próprio milagre de Deus. Jesus é o Grande Milagre de Deus. Para o povo, Jesus fez, ao alimentar a multidão faminta com um ato milagroso, “a coisa certa no momento certo”. Hora certa no tempo do povo judeu, Páscoa, então era preciso fazê-lo rei, libertador; hora certa no tempo de Deus, Jesus Salvador – Pão da Vida. Esta contradição no tempo acaba levando Cristo para a cruz, na Páscoa seguinte. No tempo da humanidade Jesus não cumpriu com seu papel, por outro lado, no tempo de Deus, Jesus cumpriu tudo o que era necessário, da maneira necessária. Jesus não é milagreiro, mas faz grandes milagres! O milagre/sinal não cria a fé. O milagre/sinal pressupõe fé. Portanto o maior milagre é a fé dada ao coração. Neste sentido, quem espera o milagreiro fica somente no sinal e não chega àquilo para o que ele aponta. É a grande dificuldade humana em relação aos milagres descritos na Bíblia. Cristo é o grande sinal de Deus, predito no Antigo Testamento e cumprido nas palavras e sinais do próprio Cristo. O grande milagre é o da 128 Revista Agosto.indd 128 3/9/2009 23:47:03 Oitavo domingo após pentecostes Páscoa de Jesus, sua morte e ressurreição. Procurar um milagreiro é encontrar lei e condenação, ou o vazio da decepção. Procurar e agarrar-se ao que faz grandes milagres, e é o Grande Milagre, traz consolo e a doce esperança da fé no Evangelho. Este texto nos remete ao questionamento sobre as buscas da humanidade. A quem busca? Que Jesus quer encontrar e ter à disposição? Que tipo de pão está procurando? Que sinais espera de Deus? A ênfase do domingo é estabelecida pela ação de Deus no mundo onde, em poder e sabedoria incompreensíveis, se coloca ao nosso lado (Sl 139); onde cumpre sua promessa sinalizada desde os tempos antigos, e onde continua agindo através da Igreja, fundamentada nesta ação divina (At 2). Jesus é o cumprimento de todas as promessas e sinais de Deus. O que Jesus nos deixou, sua Palavra e Sacramentos, são sinais de seu cuidado e amor por cada um, e a tarefa da Igreja é ensinar e testemunhar a respeito do Grande Milagre de Deus. Proposta Homilética Desenvolver o tema sugerido na tensão e ao mesmo tempo relação entre os milagres/sinais e o Grande Milagre – Jesus. Propor não uma ‘espiritualização’ dos milagres e da fé cristã, mas fundamentá-los no grande milagre da encarnação do Messias. Sugestão de Tema: Jesus não é milagreiro. Mas faz grandes milagres! Arnildo Münchow Canguçu, RS 129 Revista Agosto.indd 129 3/9/2009 23:47:03 Nono Domingo Após Pentecostes Oitavo Domingo Após Trindade Salmo 1, Gênesis 12.1-4a (4b-7), Gálatas 5.16-25, Mateus 5.13-16 Mateus 5.13-16 Os textos bíblicos em análise são indicados para a segunda metade do calendário eclesiástico, época em que pecado e graça são temas centrais. Também nesta época frequentemente são contemplados os temas de vida. O Nono Domingo Após Pentecostes contempla essa passagem do significado e valor da fé, para o campo da vida prática. Em meio às batalhas que a vida oferece, estabelece-se uma dura luta para se permanecer fiel à verdade do Cristo que veio como ser humano (Natal), morreu e ressuscitou em nosso favor (Páscoa) e que junto com o consolador permanece do nosso lado (Pentecostes). Ao mesmo tempo em que somos desafiados a lutar com todas as forças à luz dos mandamentos para ter uma vida mais leve e menos sofrimento neste mundo, somos também consolados com a promessa do cuidado e da proteção de Deus. Nessa promessa encontramos forças para a vida, e vivemos intensamente, produzindo frutos cheios de vigor e vida. E esses frutos não são voltados para nós mesmos, mas para o mundo. São luz e sal. Como a lua reflete a luz do sol, nós refletimos o amor de Deus para o mundo. Algo tão intenso que não apenas abre os olhos, mas é capaz de transformar completamente o ambiente em que vivemos, assim como o sal que dá sabor, cicatriza e conserva. Salmo 1 - Convoca todas as pessoas a andarem nos caminhos de Deus. A viverem a sua vida de acordo com os santos mandamentos. Não que este viver à luz da lei compre o favor de Deus em relação à vida eterna, mas é um sinal de confiança nas promessas de bênçãos de Deus, já para esta vida; pois ciente das duras provações e dificuldades pelas quais passamos, Deus oferece alívio e promete abençoar já neste mundo os que vivem de acordo com a sua vontade, “pois o Senhor dirige e abençoa a vida daqueles que lhe obedecem” (v.6a). O Salmo 1 contrapõe todo vigor da vida daqueles que andam no caminho do Senhor, representado pela árvore sempre verde e que produz muitos frutos, por estar enraizado junto à fonte de água (v.3), com a decepção e o vazio daqueles que andam em seus próprios caminhos (v.4). Estes estão completamente mortos, são como a palha que o vento 130 Revista Agosto.indd 130 3/9/2009 23:47:03 Nono domingo após pentecostes carrega. E então, todos são convocados a olhar para o resultado final em que aqueles que andaram no caminho do Senhor são abençoados com vida para sempre, enquanto que os maus experimentam o fim trágico do sofrimento e da condenação eterna (v.5). Gênesis 12.1-3 - O texto indicado do Antigo Testamento aponta para a fé ligada à promessa de Deus como causa de toda boa ação. Fé e obras sempre andam juntas. Fazendo referência a Hb 11.8-10, lembramos que foi pela fé que Abraão atendeu ao chamado de Deus e saiu de sua terra e foi em busca da terra prometida. Abraão confiou cegamente nas promessas de Deus e, por isso, foi considerado justo. Essa é uma regra básica para a vida de todos nós: quem quer andar nos caminhos do Senhor não pode confiar desconfiando, mas deve acreditar cegamente que a palavra de Deus e suas promessas são verdadeiras! É através das promessas que Deus cumpre a segunda aliança; aliança na qual promete e dá paz, perdão e vida para sempre. Gálatas 5.16-25 - O Apóstolo Paulo resume bem o que é confiar cegamente nas promessas de Deus: “Deixem que o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da natureza humana” (v.16). O andar no caminho do Senhor à luz dos mandamentos e ao mesmo tempo confiando na misericórdia de Deus é resultado do trabalho do Espírito Santo dentro de nós. E o Espírito do Senhor que nos conduz à luz das promessas de Deus e nos consola, quando em nossas fraquezas não conseguimos caminhar no caminho do Senhor. Mateus 5.13-16 - Já no Sermão do Monte Jesus afirma aos seus discípulos que a fé se torna parte de nossa vida prática, no relacionamento humano. Em Mt 10.34-39, Jesus instrui e ensina os seus discípulos de que é preciso abrir mão de seus próprios interesses e que é preciso ir em direção ao próximo. Mas Jesus também os adverte de que isto não é fácil. Ir em direção das pessoas nem sempre será algo pacífico. Pode trazer duros conflitos, crises no relacionamento e até levar a uns odiarem os outros ao ponto de procurarem a morte do cristão. Ser luz significa refletir ao mundo a boa notícia do grande amor de Deus e desafiar as pessoas a andar no caminho do Senhor. Pequenos gestos podem fazer grandes diferenças. Que tal abraçar o aflito, consolar o desanimado, dar comida a quem tem fome, acolher o desprezado ou simplesmente ouvir o desabafo de quem pouco consegue se relacionar? Pequenos gestos de amor redirecionam as pessoas para o caminho do Senhor, caminho em que existe esperança. Pequenos gestos transformam o ambiente, são como o sal que dá sabor, cicatriza e conserva. 131 Revista Agosto.indd 131 3/9/2009 23:47:03 Igreja Luterana Sugestão Homilética Tema: Ande nos caminhos do Senhor! Introdução: Existem dois diferentes caminhos a percorrer. O caminho da morte e o caminho da vida. Exemplifique as diferentes variantes de caminho que levam e conduzem as pessoas no caminho da morte. Desenvolvimento: aponte para a vontade de Deus de conduzir todas as pessoas no caminho da vida. Mostre como Deus é apaixonado pelos seres humanos e de como Deus investe tempo, paciência e perdão para chamar as pessoas da morte para a vida. Mostre também que o chamado de Deus é para todos. Deus chama e pelo Espírito Santo capacita e conduz no caminho certo. Lei: Apesar de todo investimento que Deus faz, muitas pessoas fazem pouco caso da vontade de Deus. Aponte para o fim trágico e infeliz das pessoas teimosas que insistem em andar em seus próprios caminhos. Aponte para exemplos bíblicos do AT ou do NT, ou ainda de ambos. Evangelho: Mostre que o Pai espera de braços abertos a volta do filho. Mostre também que o único caminho, Jesus, é um caminho de fartura, de felicidade, onde os aflitos podem ser consolados e os cansados são fortalecidos e reanimados para a jornada. Conclusão: No contraste dos dois caminhos, vale a pena escolher pela vida. Vale a pena escolher o caminho certo. Vale a pena “Deixar que o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da natureza humana” (Gl 5.16) e com toda certeza “o Senhor dirige e abençoa a vida daqueles que lhe obedecem” (Sl 1.6). Arsildo Wendler Guaíba, RS 132 Revista Agosto.indd 132 3/9/2009 23:47:03 Décimo Domingo Após Pentecostes Nono Domingo Após Trindade Salmo 119.105-112, Êxodo 32.1-7 (8-14) 15-20 (30-34), Filipenses 3.7-11, Mateus 25.14-30 Mateus 25.14-30 Contexto A parábola do empregado inútil faz parte do sermão profético (ou “discurso escatológico”) de Jesus Cristo (Mateus 24 e 25). Ela se liga diretamente à parábola das dez virgens (Mateus 25.1-13), e é seguida pelo quadro do grande julgamento (Mateus 25.31-46). Assim, a parábola de Jesus tem algo a dizer sobre a consumação futura do reino dos céus, sobre o acerto de contas quando da vinda do Cristo Juiz. A história apresenta traços característicos das parábolas de Jesus. Vejamos: uma sequência de três personagens, repetição de palavras (confira Mt 25.20,21 e Mt 25.22,23), clímax (a ênfase recai sobre o último empregado, sendo que os dois primeiros apenas entram para compor a história), e contraste (dois empregados são bons e fiéis, mas o último é mau, negligente e inútil) (SCHOLZ, Vilson. A Parábola do Empregado Inútil, in: Mensageiro Luterano, julho/90, p.9). Vale ressaltar que em sua intenção original, toda a atenção da parábola se concentra no servo inútil que recebeu um talento. A quem este servo representa? A quem Jesus adverte e observa? É evidente que o servo inútil, naquele momento, representava os escribas e fariseus, na atitude deles diante da Lei e da vontade de Deus. O servo inútil tomou um talento e o enterrou a fim de poder devolvê-lo ao seu senhor, tal como o recebera. Todo o objetivo essencial dos escribas e fariseus era obedecer a Lei como Deus a dera. Segundo as palavras deles, eles queriam “construir um tipo de aréola em torno da Lei”. Qualquer mudança, desenvolvimento a partir de uma Lei, alteração, qualquer coisa nova que alguém fizesse era um anátema. Tal como o homem do talento, queriam manter tudo como estava, e é por isso que se condenava os escribas e fariseus. A parábola dos talentos tem um ensinamento imediato para aqueles que a escutaram naquele momento quando Jesus a aplicou, como tem uma série de ensinamentos eternos para nós, em nossos dias. 133 Revista Agosto.indd 133 3/9/2009 23:47:03 Igreja Luterana Quanto aos valores: Um talento representava uma quantia considerável de dinheiro naquele momento, quando um denário era o salário de um dia. Um talento era 6.000 denários ou, aproximadamente, mil dólares ou 240 libras. Dez vezes, isto é, aproximadamente dez ou doze mil dólares, uma soma enorme para aquele período. Texto V. 14: O conectivo gar (pois) faz desta parábola uma exposição do v. 13. Ela indica o propósito da parábola: a vigilância do cristão pela vinda de Jesus usando fielmente os seus talentos no seu serviço. V. 29: “Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.” Aqui aparecem claramente a lei, o rigor no julgamento “O pouco que tem tirarão dele” e o evangelho, a riqueza do amor de Deus “receberá mais e assim terá ainda mais”. V. 30: Devemos ter em mente que: quem não investe, perde. Se a igreja não estiver disposta a investir, a correr riscos na missão cristã, acabará se tornando infiel aos olhos de seu Senhor. Pesa sobre ela o juízo que se abateu sobre o terceiro empregado da parábola: “E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”. A parábola não tem a ver com finanças ou dons, e sim com fidelidade e coragem com vistas à vinda gloriosa de Cristo. Dirigida a cristãos, ela nos alerta contra a mentalidade do tipo “segurança acima de tudo”, que caracteriza o terceiro empregado da parábola. Temos muito em comum com aquele empregado que escondeu o dinheiro do patrão num buraco feito na terra. Ficamos com medo e isto nos leva a sermos infiéis. Por vezes ficamos tão preocupados com a importante tarefa de preservar o evangelho que nos esquecemos da missão de proclamá-lo adiante. Textos Paralelos V. 14: Mc 13.34, Mt 21,33; V. 15: Rm 12.3,6; V. 19: Mt 18.23; V. 21: Mt 23.24, 45-47; Lc 16.10; Lc 12.44; Hb 12.2; V. 29: Mt 13.12; V. 30: Lc 17.10; Mt 8.12; Sl 112.10; Mt 13.41; 16.27. Sugestão Homilética Tema: Jesus nos quer encontrar fiéis 134 Revista Agosto.indd 134 3/9/2009 23:47:03 Décimo domingo após pentecostes 1. Investindo em nossa fé (palavra e sacramento) 2. Sendo vigilantes (resistindo ao pecado) 3. Investindo no Reino (testemunhando) Tendo o texto enfoque escatológico, devemos estar centrados em mostrar que precisamos estar sempre firmados nos ensinos de Deus, com fé verdadeira que resulta em vivência, pois não sabemos quando ele voltará. Importante mostrar que as ocupações do mundo moderno fazem com que muitas vezes não sejamos fiéis ao nosso Senhor, fugimos, temos medo. Desse modo, corremos o risco de que com nossas ocupações e medos não tenhamos sido fiéis mordomos dos talentos recebidos do Senhor da vida. Assim como os dois escravos (servos), com fé e prontidão, exerceram as responsabilidade do encargo do seu senhor, também aqueles que receberam a graça perdoadora de Deus precisam usar a palavra para alimentar sua própria fé e compartilhá-la com dedicação. Nataniel César Knebel Dourados, MS 135 Revista Agosto.indd 135 3/9/2009 23:47:03 Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes Décimo Domingo Após Trindade Salmo 73.25-28; Daniel 9.15-18; Romanos 9.1-5; 10.1-4; Lucas 19.41-48 Lucas 19.41-48 Texto e Contexto Jesus está no início de sua última semana. No dia anterior ele foi recebido festivamente por uma multidão que o aclamava como Rei. Agora, novamente na descida de Betânia, ele pára um momento para contemplar a cidade do alto. O compassivo olhar o leva às lágrimas. O povo que ele amava, entre o qual ao menos por três anos ele andara, ensinara e demonstrara a sua divindade, este povo, apesar de todas as oportunidades que tivera, desconhecia o que “é devido à paz”. Historicamente Jesus vê a destruição futura da cidade e o sofrimento terrível de seu povo. Mas o seu choro é muito mais profundo. A infidelidade deste povo se manifesta na rejeição do Messias. Uma falsa justiça os impede de ver e aceitar a justiça de Deus. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.12). O desprezo e a infidelidade significavam a perdição eterna do povo de Deus. Após seu lamento quanto à infidelidade de seu povo, Jesus expressa o seu juízo através de uma decisão e atitude tipológica que impressiona seus seguidores. Ele condena uma figueira (Marcos 11), pois não lhe deu os frutos que ele esperava. A infidelidade leva o povo a uma forma hipócrita de adoração a Deus. É o que o Mestre encontra no templo. Sua atitude de purificação do templo, além de ser o cumprimento profético (Is 56.7; Jr 7.11), é uma expressão de juízo contra um povo que de forma desprezível profanava a casa de Deus. Ênfases “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (v.41). O choro de Jesus não 136 Revista Agosto.indd 136 3/9/2009 23:47:04 Décimo primeiro domingo após pentecostes tem igual. Não é o choro sentimental humano, mas o daquele que vê, além da infidelidade do povo, a consequência terrível da mesma. Ao mesmo tempo em que ele expressa a decepção profunda por ter o povo da aliança desprezado sua obra salvadora, por não querer aceitá-la, lembra ele, e isto é terrível, que os seus olhos não mais o conseguirão ver. O tempo da graça passou. “Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de salteadores” (v.46). Atitudes hipócritas são utilizadas para esconder a vida de infidelidade. Alguns rituais pareciam bastar à religiosidade do “povo da aliança”. Escondiam a sua infidelidade entre as paredes do templo. Não poderia haver testemunho mais ofensivo à santidade divina, e mais desprezível ao desejo salvador de Jesus. Paralelos Algumas idéias em destaque nos demais textos do dia: O salmista, no Salmo 73, reconhece sua desolação com todos, e confiante e fiel a Deus, confessa ele que o que vale é proclamar os feitos do Senhor. O profeta Daniel (9.15-18) reconhece a infidelidade histórica do povo, pede por clemência divina, e pede a bênção, apesar do povo ter sido opróbrio para todos. Paulo, em seu desejo de ver salvos os judeus, chora. Em seu amor por eles, reconhece que estaria disposto a se condenar para salvá-los. Aponta para o erro deles: criaram sua própria justiça em vez de se sujeitar à de Deus. Cabe ainda lembrar as palavras carinhosas e cheias de amor de Jesus, conforme Lucas 13.34,35: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta”. Sugestão de uso homilético Como a perdição é consequência inevitável da infidelidade, o objetivo é levar à compreensão de que uma religiosidade de aparências, ou hipócrita, sempre é decisão de desprezo, infidelidade e, por consequência, ofensa à obra salvadora de Jesus. APROVEITAI O TEMPO DA OPORTUNIDADE... 1. para não ficardes cegados àquilo que é devido à paz. Ainda é tempo de conhecer. 137 Revista Agosto.indd 137 3/9/2009 23:47:04 Igreja Luterana 2. para evitardes as lágrimas de “desespero” de Jesus. O tempo do juízo ainda não veio. 3. para que o juízo de Deus não seja o futuro incerto de vossa vida. Confiantes em Cristo, podeis ser salvos e perseverar fiéis. Erni Krebs Canela, RS 138 Revista Agosto.indd 138 3/9/2009 23:47:04 Décimo Segundo Domingo após Pentecostes Décimo Primeiro Domingo Após Trindade Salmo 138, 2 Crônicas 1.7-12, 1 Pedro 5.5b-11, Lucas 18.9-14 Lucas 18.9-14 Introdução “Como posso estar em pé diante de um Deus perfeito sem ser consumido pela sua ira contra o meu pecado?” Esta foi a pergunta central na Reforma Luterana, e continua sendo uma questão mal compreendida por muita gente. Com a parábola do fariseu e do publicano, Jesus clarifica a questão. Neste texto clássico o pastor pode contrastar claramente a “justiça das obras” e a “justiça da fé”, mostrando que ninguém pode ser justificado “diante de Deus (coram Deo) pela sua própria força, méritos, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé...” (C.A. IV). Análise do texto V. 9: “a alguns que confiavam em si mesmos”. Este texto é dirigido precisamente contra o que as Confissões Luteranas chamam de opinio legis – confiança na justiça própria, sem Cristo; “justiça” (dikaioi) é um termo forense que atribui inocência legal perante Deus. V. 10: O fariseu representa o tipo mais piedoso dos tempos de Jesus, e o publicano representa o maior pecador da sociedade. Ambos vão ao templo para orar. Ainda hoje, os “das obras” e os “da fé” vão juntos à igreja – consideram-se todos cristãos, mas nem sempre são facilmente identificáveis. V. 11: “[...] de si para si” (pros eauton). O fariseu ora em pé, sozinho, em lugar de destaque. Não se mistura. Em sua oração, nada pede. O orgulhoso jamais pede favor. Mas sempre tem algo a mostrar. Assim, sem demora, exibe ficha limpa, apresenta suas certidões negativas: 1) “não sou como os demais homens”, de segunda categoria; 2) como gente de primeira, não pertenço aos “roubadores, injustos e adúlteros”; 3) muito menos pertenço à escória da sociedade, “como este publicano”. Uma 139 Revista Agosto.indd 139 3/9/2009 23:47:04 Igreja Luterana maiúscula presunção! Ofuscado pelo seu próprio falso brilho, realmente não sabia o que é pecado e onde este invariavelmente reside. Não sabia que o pecado não é algo meramente externo, mas que começa no coração, como Jesus demonstrou no Sermão do Monte. O fariseu mede “de cima para baixo”. Toma por paradigma o publicano, ao invés de medir-se com Deus: “santos sereis, porque... sou santo” (Lv 19.2). Quem se mede “para cima”, obriga-se a ser humilde; quem mede “para baixo” logo se torna arrogante. Então, falar mal do próximo e apregoar suas próprias supostas virtudes torna-se uma tentação constante. É bem sintomática a frase: “Comigo tais coisas não acontecem!” V. 12: Aqui o fariseu abre seu catálogo de boas obras: 1) “Jejuo duas vezes por semana”. Moisés ordenara um jejum anual, para o dia da expiação (Lv 25.29). Ele supera a lei: jejua duas vezes por semana – cem vezes mais que o estabelecido! 2) “e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” O dízimo era “dos cereais, do vinho e do azeite” (Ne 13.12). Mas ele, mais uma vez, supera, dando o dízimo de tudo, o que incluía, certamente, “a hortelã, o endro e o cominho” (Mt 23.23). É possível que o fariseu não tenha mentido neste particular, e que, de fato, praticava as obras mencionadas. O problema é considerá-las mérito seu, ou ver nelas sua justiça. Aliás, o seu catálogo de boas obras é diminuto. Quem jejua duas vezes por semana, também poderia dar o dízimo dobrado, sem dificuldade, já que lhe sobram quase 30% da comida! A lei é importante em nossas vidas. Deus nos proíbe furtar, cometer injustiças e adultério. Ele também nos ordena dar liberalmente, orar e ir à igreja. Mas Ele também deixa claro que estas obras somente têm valor quando praticadas por aqueles que foram previamente justificados pela graça salvadora de Cristo. Sem esquecer que, ainda assim, nossas melhores obras serão apenas “trapo da imundícia” (Is 64.6), mas aceitas por causa daquele que nos é “propício”. V. 13: “[...] estando em pé, longe”. O publicano foi ao templo humildemente. Mede-se “para cima”. A santidade de Deus é seu paradigma: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai Celeste” (Mt 5.48). Reconhece a grande distância que o separa de Deus, não tendo do que se orgulhar. Por isso, ora “em pé, longe”, talvez até meio camuflado na sombra de uma coluna do templo. “Não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu”, o que, contudo, não o impede de fixar seu olhar no altar do sacrifício. Os publicanos eram uma classe odiada pelos judeus como traidores, pois serviam aos romanos e abusavam nas taxas. Mas não há prova de que os publicanos vivessem flagrantemente nos pecados dos quais o fariseu parece acusá-los. O maior pecado deles era serem incrédulos. Jesus 140 Revista Agosto.indd 140 3/9/2009 23:47:04 Décimo segundo domingo após pentecostes interessou-se por eles e, vários deles, ouvindo o seu ensino, reconheceram nele o Messias. “Ó Deus, sê propício a mim, pecador.” - Esta expressão, “sê propício” (ilastêti), possui um profundo significado. Encerra a doutrina central da Bíblia, de que Deus está irado com o pecado e precisa ser pacificado por um sacrifício oferecido em favor do pecador. O publicano revela, em sua oração, ter compreendido que todo o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento apontava para o sacrifício vicário de Cristo pelos pecadores. Ele esperava nesta “propiciação” – aplacação da ira divina pelo sacrifício de Cristo. “batia no peito” – Na oração, os judeus usualmente cruzavam as mãos sobre o peito e fechavam os olhos. Mas o publicano descruza os braços e bate no peito – como só se fazia em extrema angústia. Ele sabe que seu problema é muito grave e reside exatamente ali, dentro do peito – no coração. “O coração dos homens está cheio de maldade” (Ec 9.3; Cfe.: Mt 15.17-20; Lc 16.15; Pv 21.2). Mas ele também sabia que não era a sua confissão ou o bater no peito que o tornavam merecedor da compaixão e do perdão de Deus. A sua salvação estava num Deus “propício”. V. 14: Que o publicano entendeu a doutrina da justificação pela fé, evidencia-se também no veredicto do Salvador: “este desceu justificado (dedikaiomenos) para sua casa”. O fariseu voltou para casa com os pecados aumentados e radiografados pela sua exibição à plena luz do templo; o publicano, no mesmo templo, encontrou “descanso à sombra do Onipotente” (Sl 91.1). Isto está em acordo com o Salmo do dia: “O Senhor é excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece de longe” (Sl 138.6), e com a Epístola: “Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (1 Pe 5.5). Observações Como em outros textos que tratam da justificação pela fé, o pregador é tentado a desmerecer tanto as boas obras que poderá parecer ao ouvinte que elas são realmente desnecessárias e desprezíveis. Não há nada de errado com as boas obras, senão com a falsa segurança a que elas podem conduzir quem compara as suas obras com as do próximo, através de sua própria vidraça suja de orgulho e presunção. Um crítico disse que tinha ido em muitas igrejas e tinha ouvido o pastor dizer: “não tente impressionar a Deus com suas boas obras”, “não tente agradar a Deus com os seus méritos”, ou ainda: “não tente ganhar o céu cumprindo os Mandamentos”. Mas, dando uma olhada ao redor, e vendo uma assistência apática e quase dormente, perguntava-se: “Afinal, quem aqui está 141 Revista Agosto.indd 141 3/9/2009 23:47:04 Igreja Luterana tentando fazer isso?”1 Por outro lado, o pregador precisa manter claro que o mérito também não está com aquele que “bate no peito e pede propiciação”, mas com aquele que oferece a “propiciação” – Cristo. Sem essa oferta, nenhum peito sangrento alcançaria coisa alguma. Em Cristo, a salvação está tão aos nossos pés que somente os orgulhosos não conseguem vê-la, por insistirem em olhar por cima dela. Proposta Homilética Dentro das diversas possibilidades, proponho uma espécie de paródia do texto, que, usada com cuidado, pode ser muito interessante, especialmente para uma audiência mais jovem. Como estar bem na foto de Deus? Introdução Nós, seres humanos, amamos os holofotes, os pedestais, o estar bem na foto. Desde que ficamos “mal na fita” do Éden, muito investimos na nossa “produção”, na aparência. Se isto camufla a realidade física sem maiores prejuízos, desastrado, porém, é apresentar-se “produzido” diante do Senhor. Dois homens foram chamados ao estúdio para integrarem uma foto de grupo (v. 10) I. O primeiro era fariseu. A. Ele logo correu à frente 1) postou-se em primeiro plano, no centro da cena (v. 11: “posto em pé”); 2) Empinou bem seu nariz (v. 11b: “de si para si mesmo”); 3) Abriu um largo sorriso, ainda que debochado (v. 11c: “graças te dou”); 4) Com os cotovelos, tratou logo de afastar ao máximo os outros de si (v. 9: “desprezava os outros”); 5) Com apenas dois dedos estendidos de cada mão, colocava chifres nas pessoas próximas (v. 11: “roubadores, injustos e adúlteros”); 6) Vestia seu melhor terno e caprichou no nó da gravata (v. 12: “je- 1 Martin Marty 142 Revista Agosto.indd 142 3/9/2009 23:47:04 Décimo segundo domingo após pentecostes juo... dou o dízimo”); 7) Ele estava radiante (v. 9: “confiava em si mesmo”) 8) O fotógrafo insistia: “Olha para a câmera!” B. Então ouviu-se um “clic”. C. Conferida a foto, o fotógrafo concluiu: “Assim não dá. Você não olha pra mim. Estragou a foto. Vamos tentar com outro” (v. 14). II. O segundo era publicano. A. Muito tímido, relutava em vir à frente. 1) Envergonhado, logo sumia entre os outros (v. 13a: “longe”); 2) Olhava para o chão (V. 13.b: “não ousava levantar os olhos”); 3) Resistia, alegando não ser fotogênico nem estar adequadamente vestido para uma foto (v. 13d: “sou pecador”); B. Mas, rapidamente, a foto foi batida. C. Conferindo, o fotógrafo constatou: “Você olha pra mim, mas está muito mal. Também não dá”. III. A solução A. “Mas você pode me corrigir no Photoshop” – argumenta o publicano (v. 13c: “Sê propício a mim, pecador!”). B. “É verdade” – diz o fotógrafo – “Vou fazer você ficar perfeito” (v. 14c: “este desceu justificado para sua casa”). (Cfe.: 1 Jo 1.7) Conclusão O Senhor tem ojeriza a “jóia de ouro em focinho de porco” (Pv 11.22). Mas ele ama enfeitar-nos, ele próprio, dos pés à cabeça, depois de um banho no sangue do Cordeiro. Então ele nos põe “um anel no dedo e sandálias nos pés” (Lc 15.22), nos “veste de roupas bordadas”, nos “calça com couro da melhor qualidade”, e nos “cinge de linho fino, e cobre de seda”... nos põe “braceletes nas mãos e colar à roda do pescoço”... “um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça” (Ez 16.10-12), “uma vestidura branca” – o manto da justiça (Ap 3.5; 6.11), “diadema de graça e uma coroa de glória” (Pv 4.9). Deus nos guarde do orgulho farisaico e da autojustiça. Que ele nos dê real ciência de nossos pecados, mas, acima de tudo, sempre nos conceda crer que, pelo sangue de Cristo, ele nos é propício. Renato Leonardo Regauer Sapiranga, RS 143 Revista Agosto.indd 143 3/9/2009 23:47:04 Décimo Terceiro Domingo Após Pentecostes Décimo Segundo Domingo Após Trindade Salmo 146, Isaías 29.18-21, 2 Coríntios 12.6-10, Marcos 7.31-37 Marcos 7.31-37 Textos do Domingo Síntese das Leituras do Domingo - A leitura do Salmo 146 convida a confiar exclusivamente em Deus, e não nos homens. Ressalta a fidelidade de Deus. A leitura do AT, Is 29.18-21, é uma profecia das bênçãos da era messiânica, traduzindo isso na expressão: “que os surdos ouvirão e os cegos verão” O texto da epístola, 2 Co 12.6-10, aponta para o Senhor Deus que, como sua graça, sempre está presente ao lado dos que nele confia, a despeito da enfermidade que podem enfrentar. A leitura do evangelho, Mc 7.31-37, aponta para o milagre da cura do surdo e gago. E a repercussão que teve esse sinal. Contexto Anterior No capítulo 6 de Marcos, o evangelista registra: Jesus prega em Nazaré e é rejeitado ( 1-6 ), Jesus dá instruções aos doze ( 7-13 ), a morte de João batista ( 14 - 29 ), a primeira multiplicação dos pães e peixes ( 30-44 ), Jesus anda sobre o mar ( 45-52 ), Jesus em Genesaré ( 53-56 ). No capítulo 7, o evangelista registra: O diálogo de Jesus com os escribas e fariseus sobre as tradições dos anciãos: “O que contamina o homem é o que vem do coração!” ( 1-23 ), a cura da mulher siro-fenícia (24-30). Contexto Posterior No capítulo 8 há o relato de Jesus realizando a segunda multiplicação dos pães e peixes (1-10), os fariseus pedem um sinal do céu (11-13), o fermento dos fariseus (14-21), a cura de um cego em Betsaida (2226), a confissão de Pedro (27-30), Jesus prediz a sua morte e ressurreição (31-33), o discípulo de Jesus deve levar a sua cruz (34-9.1). 144 Revista Agosto.indd 144 3/9/2009 23:47:04 Décimo terceiro domingo após pentecostes Leitura no Vernáculo Destaques nas diferentes traduções 1. Bíblia de Jerusalém V. 32 - Trouxeram-lhe um surdo que gaguejava, e rogaram que impusesse as mãos sobre ele. V. 34 - Depois, levantando os olhos para os céus, gemeu, e disse: efatha, que quer dizer: abre-te! V. 35 - Imediatamente abriram-se-lhe os ouvidos e a língua se lhe desprendeu, e falava corretamente. V. 36 - Jesus os proibiu de contar o que acontecera; quanto mais o proibia, tanto mais eles o proclamavam. V. 37 - Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: “ Ele tem feito tudo bem... 2. Bíblia Sagrada – Edição Pastoral V. 32 - Levaram, então, a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade,... V. 33 - Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; V. 34 - Depois olhou para o céu, suspirou e disse: efatá! V. 35 - Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar... V. 36 - Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. 3. Estudo do Texto no Original Grego - Tradução e Análise V. 31 - E, de novo, tendo atravessado a região de Tiro, foi, através de Sidom, para o Mar da Galiléia, passando pela região de Decápolis. V. 32 - E trazem (carregam) para ele um surdo e que fala com dificuldade (com impedimento na fala), e rogaram (imploraram) a ele para que colocasse sobre ele a mão. fe,rousin - Verbo presente indicativo ativo de fe,rw − levar, carregar. kwfo,n - embotado, mudo, surdo. Incapaz de articular, falar, mudo. Significa também: surdo. mogila,lon - falando com dificuldade, com impedimento na fala. (a recuperação da audição pelos surdos era um sinal da era messiânica) - gago, mudo. evpiqh/| - Verbo aoristo subjuntivo ativo de evpiti,qhmi - colocar sobre. 145 Revista Agosto.indd 145 3/9/2009 23:47:04 Igreja Luterana V. 33 - E, tirando-o da multidão, à parte, (em particular), colocou (pôs) os dedos dele para os ouvidos dele e, cuspindo, tocou a língua dele. avpolabo,menoj - Particípio aoristo médio de avpolamba/nw - tirar, levar uma pessoa para o lado em particular. e;balen - Verbo aoristo indicativo ativo de ba,llw - lançar, colocar, pôr. ptu,saj - Verbo particípio aoristo ativo de ptu,w - cuspir. (Marcos 8.23; João 9.6) h[yato - Verbo Aoristo indicativo médio de a[ptomai - tocar. V. 34 - E, olhando para o céu, suspirou e diz para ele: efatá, o que é : que tenha sido aberto! avnable,yaj - Particípio aoristo ativo de avnable,pw - olhar para cima. evste,naxen Verbo aoristo indicativo ativo de stena,zw gemer, suspirar. dianoi,cqhti Imperativo aoristo passivo de dianoi,gw abrir. V. 35 - E (logo) foram abertos dele os ouvidos e foi solto o vínculo (a cadeia, a prisão, algemas de defeito físico) da língua dele e falava perfeitamente. hvnoi,ghsan Verbo aoristo passivo de avnoi,gw abrir. evlu,qh Verbo aoristo passivo de lu,w soltar. V. 36 - E ordenou-lhes para que a ninguém falem; mas, quanto mais para eles ordenava, mais eles excessivamente proclamavam. diestei,lato Verbo aoristo médio de diaste,llw ordenar, obrigar dieste,lleto Verbo imperfeito médio de diaste,llw ordenar, obrigar. perisso,teron além da medida, excessivamente. evkh,russon Verbo imperfeito indicativo ativo de khru,ssw proclamar, anunciar, mencionar publicamente, pregar, mais frequentemente, a ação salvífica de Deus. Proclamar vitórias. V. 37 - E Muito mais que excessivamente ficavam atônitos, dizendo: corretamente todas as coisas fez, e os surdos faz ouvir e os mudos falar. ~uperperissw/j além de todas as medidas; excessivamente. evxeplh,ssonto Verbo Imperfeito indicativo passivo de evkplh,ssw ficar atônito. pepoi,hken Verbo indicativo perfeito ativo de poie,w fazer. Comentários V. 31 – Jesus agora ele foi através de Sidom, que fica a cinco milhas ao norte de Tiro. Mas Jesus está somente fazendo uma viagem, nós não ouvimos nada de ensinamentos e milagres. Parece que ele passou des- 146 Revista Agosto.indd 146 3/9/2009 23:47:05 Décimo terceiro domingo após pentecostes percebido, e que ele mesmo quis que fosse assim, e que ele devotou o seu tempo para instrução dos seus discípulos, que foi a principal ocupação de Jesus durante a última parte do seu ministério. Somente Marcos narra a passagem de Jesus através de Sidom. V. 32 - Eles trouxeram um homem surdo e gago a Jesus. Ainda que mogila,loj significa uma fala pesada, repetida (gagueira) , falando com dificuldade, a LXX usa isso no significado de mudo. Os sons que aquele homem fazia eram inteligíveis. V. 33-35 - Jesus não colocou as mãos sobre o homem, ele usou um procedimento incomum neste caso. Este surdo-mudo é trazido a Jesus no meio de uma grande multidão. Jesus está interessado nele porque ele está nesse estado. Ele o toma inteiramente para fora da multidão; o particípio aoristo médio significa que Jesus tomou o homem para si mesmo. Esta ação preliminar (aqui expressa por um particípio) é sábia e significativa para aquele homem. Ele está sozinho com Jesus, extraído da excitação e da distração das multidões. Seus olhos espiam a Jesus, e ele entende que Jesus está para fazer algo em benefício dele. Jesus usa a linguagem de sinais que é simples e plena assim que o surdo-mudo poderia entender. Ele lança seus dedos nos ouvidos daquele homem. Aqui estava localizada uma das suas deficiências - aqueles ouvidos estavam deficientes. Nós agora temos um verbo finito, que é uma das ações principais. Vamos apenas pensar no fato que os olhos de Jesus indubitavelmente falaram aos olhos daquele homem. Primeiro os ouvidos deficientes, agora a língua muda. A linguagem de sinais continua. Primeiro uma ação menor, que é de novo expressa por um particípio: Jesus “tendo cuspido”. A sua boca e a sua língua estão sem fala, e Jesus tencionava fazer algo em relação a esse problema. Os milagres eram feitos por causa da vontade do Senhor, algo pelo qual a sua vontade somente, frequentemente pelo que a sua vontade expressou na sua onipotente palavra mesmo nesta instância. Tocar com a mão é apenas um gesto simbólico. V. 34 - Mais linguagem de sinais seguem: de novo um particípio expressa a ação subordinada: Jesus olha para o céu. O homem observa Jesus fazendo isso. Ele dá a entender que a ajuda que ele vai dar ao homem vem do céu, é divina, onipotente ajuda que é diferente de algo meramente humano. Com essa olhada para os céus Jesus suspira. O homem vê o suspiro, isso é parte da linguagem de sinais que Jesus está usando. O homem entendeu a linguagem de sinal de Jesus. Nós podemos entender que esta linguagem de sinais de Jesus tencionou instaurar a fé naquele homem. Seria injustificável dizer que o milagre dependeria 147 Revista Agosto.indd 147 3/9/2009 23:47:05 Igreja Luterana da fé daquele homem. Ele depende completamente da boa e misericordiosa vontade de Jesus. Jesus algumas vezes tenta infundir a fé antes do milagre; outras vezes ele deixa a fé seguir após o milagre. Depois que o homem estava completamente preparado, Jesus falou uma única palavra: EPHPHATHA, o imperativo aramaico. Marcos preserva a palavra original que Jesus usou, justamente como ele faz em 5.41. Ele quer que seus leitores gentios tenham as sílabas originais e os sons que vieram dos lábios de Jesus na operação desse milagre. Mas ele, mais uma vez, traduz o dianoi,cqhti, o aoristo imperativo: “Seja aberto!”, o dia, acrescenta a idéia de uma abertura completa, perfeita. O neutro o[ refere-se ao ephpatha como uma palavra. O mandamento expressa a vontade de Jesus, e esta vontade faz o que ele quer. A idéia de abrir refere-se não somente aos ouvidos, que tinham sido fechados pela deficiência; mas também à língua que tinha sido presa por uma cadeia de,smoj, e requeria abertura da prisão para a liberdade de falar. Esta palavra de Jesus penetrou os ouvidos do surdo-mudo - ele ouviu o som onipotente. Nós não podemos dizer se algumas pessoas estavam próximas a ponto de ouvir isso. A coisa principal é que o surdo-mudo ouviu. V. 35 - Marcos reporta o efeito desta única palavra de Jesus absolutamente completa por dizer como os ouvidos do homem estavam completamente abertos, como sua língua perdeu aquilo que a embaraçava, dois aoristos para expressar os fatos centrais. Um imperfeito segue a respeito da língua: “e ele falava corretamente”. Enquanto antes ele só era capaz de proferir sons ininteligíveis. V. 36,37 - Várias opiniões são dadas sobre a ordem de não falar do milagre. A melhor que achamos é aquela que toma em consideração o tempo de ministério de Jesus. Ele tinha apenas alguns meses, e ele não queria espalhar uma excitação acerca do seu messianismo. As pessoas geralmente conectaram idéias políticas e terrenas com esse título, as quais Jesus combateu. Então, ele fez o que ele podia para deixar em silêncio os seus milagres nesse tempo. Mas, nestas alturas dos acontecimentos, isso não foi assim. Então, quanto mais ele ordenava, mais eles tornavam público o que ele tinha feito. V. 37 - Marcos explana esta ação ao povo. Ele usou um forte imperfeito passivo; eles foram conduzidos a uma situação de estar maravilhados e continuaram assim. Ele acrescenta o advérbio ~uperperissw/j, “além das medidas”, “excessivamente”. Estando num estado assim, eles tiveram a sensação que não poderiam controlar-se. Marcos conta-nos exatamente que o povo disse: “excelentemente ele tem feito todas as coisas!” O perfeito pepoi,hken refere-se a todos os atos passados e como 148 Revista Agosto.indd 148 3/9/2009 23:47:05 Décimo terceiro domingo após pentecostes eles continuam a se mostrar no presente. Notemos: “todas as coisas” e perceba que isso é louvor. Então esse povo generalizou com o tempo presente do verbo poie,w junto com os plurais: “faz ouvir os surdos e falar os mudos!” Aquele povo reconhece que Jesus, a qualquer tempo, pode fazer os surdos ouvir e os mudos falar. Persuasão 1 - Pensamento Central Jesus cura o surdo-mudo, capacitando-o a falar e ouvir muito bem. 2 - Objetivos A - Conhecimento: Que os meus ouvintes saibam que Jesus faz todas as coisas esplendidamente bem, como no caso da cura do surdo gago. Ele tem poder para fazer todas as coisas. B - Atitude: Que os meus ouvintes confiem no poder de Jesus, com o qual ele age em benefício de todos nós, fazendo todas as coisas esplendidamente bem. C - Habilidade: Que os meus ouvintes possam se dedicar a ouvir a palavra de Jesus e a falar das ações de Jesus na vida do surdo gago e na vida de todos nós - testemunhar os atos de salvação! 3 - Moléstia - Lei - Pecado A - As doenças, deficiências, problemas físicos e de saúde apontam para a pecaminosidade inata do ser humano - pecado original. B - A euforia popular, às vezes, impede que se concentre a atenção na Palavra de Deus. O povo que trouxe o surdo gago queria ver Jesus impor as mãos sobre ele. Queriam um espetáculo, mesmo como as pessoas do nosso tempo procuram ver. Eles, na busca do espetáculo, expuseram desnecessariamente aquele homem com necessidades especiais. Dá a entender que eles não estavam querendo, em primeiro plano, a cura dela, mas o espetáculo em si, uma vez que não foram discretos e não o preservaram da exposição publica. Jesus não fez o que eles queriam. Não deu um espetáculo. O povo queria ter alimentado em si o desejo de ver coisas espetaculares, e isso pode ser um sinal de descrença quando se concentra apenas no ver. Isso afasta as pessoas de Jesus e da sua palavra salvadora. C - Que uso fazemos da nossa língua e ouvidos? Temos nos dedicado a ouvir a palavra de deus? Temos nos dedicado a falar dela a outras pessoas? Mau uso da língua: dar falso testemunho, estar cerrada para 149 Revista Agosto.indd 149 3/9/2009 23:47:05 Igreja Luterana o louvor, a adoração, o testemunho, a oração. O ouvido está distante da palavra de Deus. 4 - Meio - Evangelho - Graça A - Jesus estava presente naquela localidade, cumprindo a profecia de Isaías, que falou da presença do Messias de Deus junto ao povo para: desimpedir os ouvidos aos surdos e fazer a língua dos mudos cantar. Jesus estava ali, como o Salvador, perdoador gracioso, a fim de beneficiar o ser humano carente com a sua eterna bondade. B - Jesus curou o surdo gago. Ele não o fez como eles quiseram; mas, o fez de acordo com a sua vontade. Ele tirou aquele homem do meio do povo e o restabeleceu perfeitamente: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem!” Aponta para a criação, quando Deus fez tudo “Muito Bom!” e, aponta para a Nova Criação em Cristo - a regeneração. O principal trabalho de Jesus foi dar a sua vida para redimir e salvar toda a humanidade. O texto alimenta a expectativa da eternidade perfeita com Deus nos céus: “novos céus e nova terra!” C - Jesus nos orienta, na Sua Palavra, a fazermos bom uso da nossa língua e ouvidos. Ele nos dá motivos para abrirmos a nossa boca e louvar, orar, agradecer e testemunhar, pois ele “tem feito todas as coisas esplendidamente bem” em nossa vida: o perdão, a salvação! E, ele tem proporcionado que a sua Palavra seja pregada a nós, e nos convida a “considera-la santa, gostar de a ouvir e estudar” com atenção, a confiarmos de coração e a testemunha-la a todas as pessoas que convivem conosco. Esboço 1. Tema: Jesus Faz Tudo Esplendidamente Bem! 2. Desenvolvimento 2.1 A multidão trouxe um surdo e gago. Queriam que Jesus impusesse as mãos. 2.2 O surdo Gago - as suas deficiências. 2.3 Jesus o retira da multidão - a linguagem de sinais: dedos no ouvido, tocou a língua, ergueu os olhos ao céu, suspirou. 2.4 Jesus disse: Efatá! - Abre-se! Abrir os ouvidos e desatar o empecilho da língua: cadeias. 2.5 O milagre: “Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o 150 Revista Agosto.indd 150 3/9/2009 23:47:05 Décimo terceiro domingo após pentecostes empecilho da língua, e falava desembaraçadamente.” 2.6 Por que Jesus não queria publicidade? 2.7 A exclamação do povo: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem!” - relembra a criação de Deus ( Gn 1.31 ). 2.8 Lei 2.9 Evangelho Sílvio Ferreira da Silva Filho Vila Velha, ES 151 Revista Agosto.indd 151 3/9/2009 23:47:05 Décimo Quarto Domingo após Pentecostes Décimo Terceiro Domingo Após Trindade Salmo 142, Gênesis 4.(1-7) 8-16a, 1 João 4.7-11, Lucas 10.25-37 Lucas 10.25-37 Leituras do Dia O Salmo 142 transcreve a oração de Davi feita dentro da caverna onde se refugiara do Rei Saul. Mesmo tendo o Rei Saul diante de si na caverna (sem que o mesmo se desse conta da presença de seu inimigo) e a possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos, Davi coloca sua causa nas mãos do Senhor. O relato de Gênesis 4.(1-7) 8-16a revela mais do que o primeiro assassinato na história da humanidade. Revela a conseqüência de uma separação entre Deus e seres humanos, e a responsabilidade do ser humano em resistir ao pecado que bate à porta. A epístola de 1Jo 4.7-11 coloca a palavra “amor” como um sinônimo de Deus. É de Deus que brota o verdadeiro amor concretizado no envio de Jesus Cristo em favor da humanidade pecadora. Contexto Os domingos após Pentecostes caracterizam a vida consagrada da igreja cristã, e especialmente o seu crescimento e consequente testemunho no mundo que a rodeia. Neste sentido, o texto do evangelista Lucas traz uma ênfase especial na ação desta igreja através daqueles que a constituem. Para tanto, a história relatada hoje mostra o Salvador Jesus em seu terceiro ano de ministério, utilizando-se de uma parábola para transmitir uma verdade fundamental para a vida cristã: a verdade de que o viver cristão neste mundo não está restrito a meras palavras, mas revela-se também no amor direcionado ao próximo. Em outras palavras, além do amor a Deus, o amor ao próximo também está presente na vivência da fé cristã. 152 Revista Agosto.indd 152 3/9/2009 23:47:05 Décimo quarto domingo após pentecostes Comentários sobre o texto com ênfases versículo a versículo V. 25: A pergunta do mestre da lei já deixa transparecer o seu pensamento no que diz respeito à salvação: “que farei?” Seus ensinamentos estavam ancorados mais no fazer do que no crer. V. 26: Jesus tenta levá-lo a refletir por si mesmo. Nesta intenção lhe devolve duas questões. Na primeira, questiona o que exatamente a lei dizia e a segunda, sobre como ele, mestre da lei, entendia o que estava escrito. V. 27: A primeira pergunta foi facilmente respondida, pois o mestre da lei era versado nas Escrituras Sagradas. No entanto, a segunda pergunta ficou sem resposta, pois sua compreensão resumia-se ao que estava escrito, e nem tanto na vivência do que aprendera. V. 28: Jesus concorda com a primeira resposta, e na segunda lhe dá mais do que uma resposta, ele dá uma aplicação direta: “faze isto e viverás”. V. 29: Desconcertado, o mestre da lei tentou justificar sua falta de compreensão com outra pergunta: quem seria o seu próximo? V. 30: Jesus, então, conta a história de um homem que viajava de Jerusalém a Jericó. No caminho foi assaltado e ferido pelos ladrões, ficando jogado na estrada semimorto. V. 31: Um sacerdote, ao ver o homem ferido, passou reto, certamente para não contaminar-se com o corpo de um possível cadáver (leis cerimoniais) ou mesmo por medo de ser assaltado. v.32: Um levita também passou pelo homem, mas a exemplo de como já fizera o sacerdote, seguiu em frente. V. 33: Um samaritano passou e, compadecido, socorreu o homem, ignorando leis cerimoniais ou o perigo de também ser atacado pelos ladrões. V. 34: O samaritano tratou o homem, cuidando de seus ferimentos. A seguir, levou-o a uma hospedaria para que se recuperasse. V. 35: O samaritano recomendou ao dono da hospedaria que tratasse bem o homem ferido e, após pagar adiantado os gastos feitos, pediu que o homem fosse bem cuidado e, se houvessem gastos a mais com ele, o samaritano pagaria quando regressasse. V. 36: A pergunta de Jesus é fulminante: Qual dos três é o próximo do homem ferido? V. 37: O mestre da lei responde: o que o ajudou. Ele nem sequer menciona o nome samaritano, mas é obrigado a admitir a bondade dele. Jesus então aproveita e conclui: Vai e procede de igual modo. O ápice 153 Revista Agosto.indd 153 3/9/2009 23:47:05 Igreja Luterana do texto encontra seu mais profundo significado no servir, no amar ao próximo. Comentários Homiléticos Os judeus tinham bem claro para si que, para se chegar à vida eterna, amar a Deus e ao próximo eram elementos fundamentais. Portanto, tanto o intérprete da lei como Jesus concordavam que o amor era o resumo dos mandamentos. A grande discordância estava no direcionamento deste amor. Quem era o próximo, alvo deste amor? Neste ponto, percebe-se que a universalidade da graça de Deus não era ainda um conceito comum e muito menos dominante entre os judeus. Prova disso é a pergunta do mestre da lei sobre quem era o seu próximo (Talvez somente os da nação de Israel?). Havia discussão entre os judeus acerca desta pergunta. Jesus responde a questão ao incluir o samaritano na parábola. O próximo é todo aquele que está em contato conosco, independente de sexo, cor, nacionalidade ou cultura. Concluindo, o texto do evangelho de Lucas 10.25-37 mostra uma situação de confrontação da humanidade com a vontade de seu Deus expressa nos mandamentos, vontade esta que encontra sua concretude na prática do dia-a-dia. Esta vontade divina é compreendida com dificuldade pelo ser humano, pois este tem uma fé limitada e passível de falhas. Outro detalhe importante: não basta ao ser humano simplesmente saber quem é o seu próximo. Jesus é claro ao receber a resposta do mestre da lei sobre quem era o próximo do homem ferido. Ele não o parabeniza pela resposta, mas indica o caminho: vai e procede tu de igual modo. Disposição Homilética Assunto: O meu próximo também necessita do meu amor Objetivo: Lembrar os ouvintes sobre a necessidade de viver o amor de Deus também no sentido horizontal, ou seja, direcionado a toda a humanidade, pois o próximo não é aquele ou aquela a quem escolhemos, mas todos aqueles que Deus colocou neste mundo ao nosso redor. Tema: O meu próximo também necessita do meu amor 1. Porque também ele sofre com o pecado 154 Revista Agosto.indd 154 3/9/2009 23:47:05 Décimo quarto domingo após pentecostes - Que se revela na violência - Que se revela na discriminação - Que se revela na indiferença 2. Porque também ele foi resgatado em Cristo - Quando o Salvador deu vida nova a toda humanidade através da vitória na cruz - Para que, justificado, também possa redirecionar seu amor a toda humanidade 3. Para que assim rumemos à vida eterna - Numa vida de amor e serviço - Numa vida de fé e ação. Valdir Lopes Junior Nova Santa Rita, RS 155 Revista Agosto.indd 155 3/9/2009 23:47:05 Décimo Quinto Domingo Após Pentecostes Décimo Quarto Domingo Após Trindade Salmo 107. 17-22; Gênesis 28. 10-19a; Romanos 8. 12-17; Lucas 17. 11-19 Lucas 17. 11-19 O primeiro versículo de nossa perícope (v.11) nos remete a 9.51 e ao fato de Jesus ir em direção a Jerusalém. Grande importância tem este versículo, pois ele deixa claro que Jesus não foi por acaso para Jerusalém, que ele foi pego de surpresa. Ele sabia a missão que precisava cumprir. O nosso texto está no final da narrativa da viagem, que termina com a entrada triunfal em Jerusalém (19.28). Um fato interessante do autor Lucas é que muito do que ele narra, senão a maioria, acontece durante viagens. No evangelho é Jesus quem viaja, junto com seus discípulos, a partir do capítulo 9. Em Atos são os apóstolos e alguns diáconos, mas sobretudo Paulo, cujas viagens ocupam do capítulo 13 ao 28. Intimamente atrelado a isto está o evangelho que vai se alastrando, através do ministério de Jesus e dos discípulos, pela Palestina e, depois, em Atos, através dos apóstolos (começando em Jerusalém até os confins do mundo, i.e., Roma). Ponto central então é Jerusalém: para um momento definido toda a história anterior converge (Lucas) e toda a história posterior ganha seu sentido (Atos): a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ainda, Lucas é o evangelista com a ênfase do evangelho para todos, que inclui crianças, mulheres, doentes (como no caso do nosso texto) e demais. No contexto imediato, podemos destacar o versículo 20, onde os fariseus querem saber como reconhecer o Reino dos Céus. A nossa perícope, de certa forma, serve como ilustração dessa inabilidade de Israel, o povo de Deus, em reconhecer a vinda do Reino de Deus, que irrompe na pessoa de Jesus e do qual um sinal claro é a cura de doenças, como a lepra. Tão cegos que são, que perdem até para samaritanos, os quais consideram pagãos e ignorantes da Lei de Deus. A vinda do Reino de Deus não seria a glória política dos judeus, nem a libertação dos poderes opressores estrangeiros, mas a libertação do pecado e da morte, realizada por Jesus, o Filho de Deus. Por isso Jesus diz que ele está “dentro em vós”, ou seja, vem pela fé em Jesus, algo que estava “dentro” daquele 156 Revista Agosto.indd 156 3/9/2009 23:47:05 Décimo quinto domingo após pentecostes samaritano que voltou para agradecer. Ainda levando-se em conta o contexto anterior, onde os discípulos pedem a Jesus que aumente a fé deles, vemos que a fé não é uma força em si mesma, algo que o ser humano possui, forte ou fraca, mas é dom de Deus e depende do objeto ao qual se apega, a saber, a Jesus Cristo. Não são as boas obras que nos justificam (v.10), nem devemos considerar a nossa fé como uma boa obra nossa, mas ficarmos felizes em sermos servos do Senhor, agradecidos e ativos no seu Reino. A estrutura do texto é bem simples; ela é dividida em duas partes: 1) do v. 11 até 14a ; 2) do v. 14b até o 19. No primeiro trecho é Jesus e os dez leprosos. No segundo, Jesus e o Samaritano. Isto fica evidente no texto pelas expressões utilizadas no início de cada trecho: kai egevneto en tw‘ + infinitivo. Claramente nos remete à maneira hebraica de construir frases temporais (utilizando-se preposição + inf. construto) e, consequentemente, à Septuaginta. Jesus, em sua viagem a Jerusalém, entra em uma aldeia, talvez na divisa entre Galiléia e Samaria. Os leprosos ficam “de longe”, pois não deveriam se aproximar de pessoas sãs. Deveriam viver fora do arraial (Lv 13. 45,46). Jesus os manda mostrarem-se aos sacerdotes. Tal ação servia para confirmar que o leproso estava curado e, de acordo com Levítico 14, deveria render graças a Deus, oferecendo sacrifícios em agradecimento pela cura. O ponto marcante do nosso texto é o fato de somente o samaritano reconhecer o verdadeiro sacerdote que é responsável pela sua cura. A ação do samaritano de dar glórias a Deus (doxavzwn tovn Qeovn), rendendo graças a Jesus é muito significativa. Aqui é usado o verbo eucaristevw tendo Jesus como objeto. Quase sempre quando aparece no Novo Testamento, este verbo tem Deus como objeto (At 28.15; Rm 7.25; 1Co 14.18; Fp 1.3; Cl 1.3,12; 3.17; Fm 4; 1Ts 5.18 e muitos outros). Assim sendo, a ação de graças rendida pelo samaritano se reveste de maior importância ainda, pois ele não está simplesmente agradecido, mas está reconhecendo o Deus Conosco que o curou. É uma passagem altamente Cristológica. Cristo é o (Sumo) Sacerdote da Nova Aliança (Hb 9.15), segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4; Hb 5.6; 7.21). Através do sacrifício do seu corpo, cena final de sua viagem a Jerusalém, ele se tornou o nosso Grande Sumo Sacerdote, por meio de quem temos acesso ao Pai, através do qual temos libertação do pecado e de suas consequências [como a lepra] (Hb 10. 10-14; 19-22). No final temos o ponto alto, quando Jesus diz: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou” (v.19). O verbo salvou está no perfeito, o que denota uma ação que aconteceu no passado e que continua tendo seus efeitos 157 Revista Agosto.indd 157 3/9/2009 23:47:06 Igreja Luterana válidos no presente. Traduzir o verbo como “curar” não parece ser uma boa opção, como a NTLH faz (“Você está curado porque teve fé”). Em Lucas esta frase é utilizada outras vezes, em contextos onde há várias pessoas, mas somente uma consegue ver quem Jesus realmente é, pela fé. Assim foi com a mulher que lavou os seus pés (7. 35-50), a mulher que foi curada de uma hemorragia (8. 43-48) e com o mendigo que foi curado da cegueira (18. 35-42). Na nossa perícope, todos os dez foram curados. Se a fé é pré-requisito para a cura, os outros nove também tiveram, por isso foram curados. O que Jesus deveria destacar então seria a gratidão do que foi curado. Mas ele faz questão de enfatizar a fé dele que o salvou. Para o samaritano a cura foi um sinal do Reino de Deus, para os outros nove foi só um acontecimento fora do comum, que poderia ser atribuído a qualquer curandeiro, ou então à sorte. Ele foi salvo porque teve fé, ou seja, ele reconheceu o Deus verdadeiro. Quantos hoje em dia não conseguem reconhecer o Deus verdadeiro? Inclusive cristãos, que colocam a sua confiança na intervenção de santos e padroeiros e não em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Esta perícope é a mesma para o Dia de Ação de Graças. Convém que não a utilizemos de forma errada, dando uma ênfase no “Devemos agradecer sempre”, “Quem mais agradece é mais abençoado”, ou “Maior gratidão demonstrada é sinal de maior fé”. Nem precisamos nos delongar na péssima teologia que impera hoje na mídia que enfatiza o “Se você tiver fé, você consegue tudo o que quiser”. O ponto a enfatizarmos é Devemos saber a quem devemos agradecer. E isso pressupõe fé – é preciso conhecer Jesus realmente. O render ação de graças por parte do samaritano é fruto da fé que ele tinha em Jesus como o Messias, o Deus Conosco, o Reino de Deus entre os seres humanos. Jacó soube a quem agradecer, ao erigir a coluna e chamar o lugar onde teve o sonho de Betel, casa de Deus (Gn 28). Se fôssemos mais longe no paralelo, poderíamos inclusive apontar Jesus como a “escada” que liga os céus e a terra. Paulo em 1Tm 2.5 não fala em escada, mas chama Jesus de “Mediador”. Enquanto estamos no tempo da graça, temos oportunidade de render graças à pessoa certa, a Jesus, o Salvador, porque haverá o dia em que toda a criação, queira ou não, fará o que o samaritano fez e se prostará diante de Jesus (Fp 2. 9-11). Enquanto vivemos no tempo da graça, temos o auxílio do Espírito que nos torna filhos e nos ensina a dizer “Aba, Pai” (Rm 8). Jesus, sem dúvida, é uma figura popular hoje em dia também. Mas será que as pessoas realmente o conhecem? Mesmo dentro de nossas congregações, quantas opiniões diferentes ouvimos sobre Jesus? Deixar 158 Revista Agosto.indd 158 3/9/2009 23:47:06 Décimo quinto domingo após pentecostes bem claro que Jesus é o Salvador, enfatizando que a sua morte e ressurreição (este seria o destino final da viagem dele) são a nossa vitória, nunca é demais! A fé nele é que traz a salvação. Diante disso, viver a nossa vida com Jesus passa a ser uma necessidade. Não importará mais o quanto nós agradecemos, pois nunca pararemos de agradecer: por estarmos vivos; por termos perdão, vida e salvação; por termos família e saúde; por sermos parte de uma congregação; por termos emprego e possibilidade de participação ativa na sociedade. Tudo isso e muito mais são motivos para que vivamos a nossa vida inteira em fé, humildade e gratidão diante de Deus, “dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5.20). Título: Fé em Jesus faz a diferença 1. Quem é Jesus a. Para os leprosos b. Para o samaritano 2. Crer em Jesus faz a diferença a. Fez para o samaritano – “A tua fé te salvou” b. Faz para nós – “A tua fé te salvou” 3. Crer em Jesus faz a diferença para todos a. Pela fé em Jesus, vivemos uma vida de gratidão a Deus b. Pela fé em Jesus, nossa gratidão é testemunho da Salvação para as pessoas. Paulo Samuel Albrecht Rio de Janeiro, RJ 159 Revista Agosto.indd 159 3/9/2009 23:47:06 Décimo Sexto Domingo Após Pentecostes Décimo Quinto Domingo Após Trindade Salmo 4, 1 Reis 17.8-16, 2 Coríntios 6.1-10, Mateus 6.25-33 ou João 11.17-27 Mateus 6.25-33 CONTEXTO Salmo 4 - O Salmo 4 expressa a confiança do Rei Davi em Deus, em meio a um momento de aflição e angústia que foi crucial para a sua vida, quando seu filho Absalão queria lhe usurpar o trono. Como rei e pai, Davi poderia ter dúvidas quanto ao seu julgamento e discernimento dos fatos. Mas ele recorre à justiça de Deus para que seu coração permaneça no amor e sua alma na paz. Onde está a verdadeira paz? Onde está a justiça? Onde está a alegria? No sacrifício de justiça (Cristo) e na confiança no Senhor (graça do perdão). “Ofereçam sacrifícios como o SENHOR exige e ponham a sua confiança nele” (Salmos 4.5 NTLH). 1Rs 17.8-16 - A viúva de Sarepta se torna um instrumento de Deus para ajudar o profeta Elias. A confiança absoluta da viúva na palavra do profeta se converte em uma bênção de salvação para ela e para o seu filho em meio a um contexto de desolação e fome. “Pois o SENHOR, o Deus de Israel, diz isto: Não acabará a farinha da sua tigela, nem faltará azeite no seu jarro até o dia em que eu, o SENHOR, fizer cair chuva” (1Reis 17.14 NTLH). 2Co 6.1-10 - Deus mostra sua salvação a cada dia, e cada dia é tempo especial para ser salvo. Nada deve atrapalhar essa certeza, pois recebemos na palavra a graça de Deus pelo Espírito Santo, que através das obras que realizamos em fé sincera e autêntica é quem mostra que somos servos de Deus. Quem tem fé sincera e verdadeira no gracioso perdão de Cristo não tem medo das dificuldades. “... em tudo mostramos que somos servos de Deus, suportando com muita paciência as aflições, os sofrimentos e as dificuldades” (2 Coríntios 6.4 NTLH). Mt 6.25-33 - Deus nos ensina nesse texto a termos um estilo de vida de confiança e abnegação. Confiança que busca em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, tomando como exemplo os pássaros e a erva do campo, que recebem por graça todo o necessário para as suas vidas. De 160 Revista Agosto.indd 160 3/9/2009 23:47:06 Décimo sexto domingo após pentecostes abnegação por que a garantia do cuidado não depende do ser humano, mas só de Deus. TEXTO V. 25: A preocupação ansiosa com as coisas que precisamos para viver não deve ter prioridade em nossos pensamentos. A comida, a bebida e o vestuário numa escala de valores não devem ser a primeira coisa em nossa vida, que vale muito mais que estes. É o pão nosso de cada dia que Deus nos dá mesmo sem a nossa prece. Basta que o reconheçamos e o recebamos com agradecimento. Vv. 26, 27: O termo de comparação aqui é o valor do ser humano em relação aos pássaros, que são alimentados pelo Pai do céu a cada dia, e nada precisam fazer para merecer esse alimento, que lhes é concedido por graça. Fica caracterizada aqui a providência do sustento cotidiano que Deus provê para a sua criação e, obviamente, para o ser humano. O ser humano tem a faculdade de pensar, de se preocupar e ficar ansioso, mas este sentimento não lhe traz nenhum favor e acréscimo na vida. Qual é o valor do ser humano? Jesus responde com a pergunta: Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? O ser humano vale mais que toda a outra criação de Deus (Mt 10.31; 12.12; Lc 12.7). Somos o povo escolhido de Deus, os sacerdotes do Rei (1Pe 2.9). Vv. 28-30: O termo de comparação aqui é o valor e a importância do ser humano em relação às flores, aos lírios do campo, “que hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno”. Comparados ao vestuário de Salomão, o superam em muito na beleza e na formosura. As flores do campo não se cansam trabalhando e nem precisam fiar qualquer vestuário. Deus é o provedor. O ser humano precisa examinar com cuidado e confiança essa providência divina na sua criação para reconhecer a dádiva, o cuidado e a proteção que lhes são dispensados. A pequena fé do ser humano o leva a isolar-se de Deus e a colocar-se a si mesmo como provedor. Assim acaba entrando pelo caminho da autossubsistência. V. 31: Em razão de valermos muito mais do que toda a criação de Deus, a dúvida quanto ao sustento (comida e bebida) e o vestuário não devem deixar o ser humano ansioso, preocupando-se exageradamente com tudo isso. V. 32: A ansiedade, a preocupação exagerada com o sustento (comida e bebida) e o vestuário são característica dos pagãos, dos gentios, daqueles que não são povo de Deus e, consequentemente, não reconhe- 161 Revista Agosto.indd 161 3/9/2009 23:47:06 Igreja Luterana cem que Deus é o provedor de todas as coisas. O pagão, o ímpio deseja e procura diligentemente pelo sustento e o vestuário, anelando tê-los por sua única e exclusiva força e mérito. Os de pequena fé se entregam à preocupação exagerada, vivendo a ansiedade pelo sustento e o vestuário. Existe uma linha muito tênue e perigosa entre aqueles que têm uma fé pequena e os pagãos, que pode ser facilmente confundida. V. 33: Colocar em primeiro lugar na vida a busca do reino de Deus e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer, envolve dois aspectos importantíssimos: a) olhar para o primeiro mandamento de Deus, não ter outro Deus diante dele; b) procurar por, e em fé, a fim de encontrar, empenhando-se ao máximo pelo pensamento, meditação e raciocínio. Fazer por, e em fé, uma investigação acurada na palavra de Deus que proclama, ensina e revela o reino de Deus, o reino da graça e o reino da glória e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer, como aprendemos na segunda e terceira petição do Pai Nosso. Colocamos em primeiro lugar na vida, buscamos o reino de Deus e a justiça de Deus, aquilo que Deus quer (segunda e terceira petição) porque o Pai celeste sabe que precisamos de todas as coisas (sustento e vestuário) para viver. PROPOSTA HOMILÉTICA Pensamento Central: O Salvador Jesus diz para os seus filhos não se preocuparem exageradamente ao ponto de viverem ansiosos por causa do sustento e do vestuário. Isto é algo próprio dos pagãos, dos gentios. O ser humano é incapaz de providenciar qualquer coisa em sua vida. Assim como ele cuida de toda a sua criação, ele cuidará dos seus filhos, que valem muito mais. Deus sabe e conhece todas as nossas necessidades, por isso podemos priorizar em nossa vida o reino de Deus e aquilo que Deus quer, a sua justiça (o reino da graça e da glória – 2ª petição – a vontade de Deus - 3ª petição - salvação). Tema: Venha o Teu reino e seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. 1. A preocupação exagerada nos desconecta de Deus, deixando-nos reféns de nós mesmos. - Mt 6.25, 27, 31, 34; 10.19; Lc 10.41; 12.11, 22, 25; Fp 4.6. - Somos mais valiosos que os alimentos, as aves e as flores do campo (25 e 26) - Não temos poder nenhum sobre nossas vidas (v. 27) Salmo 4. 162 Revista Agosto.indd 162 3/9/2009 23:47:06 Décimo sexto domingo após pentecostes 2. Deus conhece todas as nossas necessidades. 1Rs 17.8-16 – Viúva de Sarepta - Rm 8.27; Lc 10.42; Mt 6.8 3. Deus nos dá todo o necessário para a nossa vida. - podemos pedir a Deus (Fp 4.5-6) Conclusão Quando tomamos posse da salvação mediante a fé, poderemos usufruir com alegria de todas as bênçãos que Deus tem reservado para nós. Horst Siegfried Musskopf Cuiabá, MT 163 Revista Agosto.indd 163 3/9/2009 23:47:06 Décimo Sétimo Domingo Após Pentecostes Décimo Sexto Domingo Após Trindade Salmo 116.1-9, 1 Reis 17.17-24, 1 Coríntios 15.1-11, Lucas 7.11-16 ou João 11.17-27 João 11.17-27 Contexto O evangelho de João traz como pano de fundo as constantes querelas e discussões entre Jesus e os líderes judeus. Como lemos descrito no final do capítulo 10, Jesus se retirou de Jerusalém, onde a sua cabeça estava a prêmio, depois de longa e acalorada discussão com os incrédulos judeus. No decorrer deste encontro, uma vez pegaram em pedras para eliminar aquele que julgavam estar blasfemando contra Deus, e na segunda investida contra Jesus tentaram prendê-lo, para, num segundo momento, tentar executá-lo. Aí Jesus retirou-se para o outro lado do rio Jordão, onde ele estava livre dos ataques daqueles por quem choraria angustiadamente quando de sua última entrada em Jerusalém (Lc 19.41). Lá, no seu “esconderijo”, Jesus recebe a informação da morte de seu querido amigo Lázaro, e ele então volta para o meio do “ninho de cobras”, para Betânia, a poucos quilômetros da capital, Jerusalém, onde ele então desenvolve este lindíssimo discurso sobre a ressurreição e a vida. E no auge deste encontro com as irmãs do morto, Lázaro, opera a ressurreição de seu amigo. Texto V. 17: “Lázaro”, uma abreviatura de Eleazar, significa Deus é auxílio. É um personagem mencionado só por João. Suas irmãs Maria e Marta são mencionadas por Lucas, mas ele é omitido na ocasião (Lc 10.38-42). De que enfermidade ele foi acometido que o levou a óbito, não nos é dito. A enfermidade sempre causa apreensões de todo o tipo. Se a doença avança, a angústia avança na mesma proporção, também no coração e na mente do mais fiel discípulo de Cristo. A doença sempre traz algum ou muito sofrimento. Diante do sofrimento, o próprio Jesus, no Getsêmani, ficou muito angustiado, sabendo que o que o aguardava era a morte. 164 Revista Agosto.indd 164 3/9/2009 23:47:06 Décimo sétimo domingo após pentecostes A doença é sempre um aviso de que algo está errado. E o desfecho deste “algo errado”, motivado pelo pecado, é a morte, como no caso de Lázaro. Nos salmos podemos encontrar aquilo que podemos chamar de “olhos arregalados”, provocados pela angústia diante das incertezas do futuro, trazidas pela presença de alguma enfermidade (Sl 4.1; 18.6; 25.17, etc.). O fato de João apontar que já há quatro dias Lázaro estava sepultado tem por alvo ressaltar ainda mais o poder da Palavra de Jesus quando operou o milagre da ressurreição de seu amigo. V. 18: Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. V. 19: Velório sempre mostra dois lados: luto, angústia, quem sabe revoltas e até tentativas de suicídio, de um lado, e solidariedade do outro lado. Estatisticamente é constatado que em ambiente de velório os corações estão mais receptivos à mensagem. Por isso velório e enterro podem e devem ser oportunidades também de “fazer missão”, de semear a Palavra. Qual o teor do consolo que os judeus vieram trazer a Marta e Maria? Ofereceram seus ombros para as enlutadas chorarem? Certamente. Apontaram para o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus dos vivos e dos mortos? Provavelmente sim. A morte pode oferecer duas situações opostas: frieza e agnosticismo total tanto de quem está morrendo como de quem vai levar os restos mortais do ente querido à morada provisória do cemitério, ou profunda confiança, esperança e resignação, até “desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Vv. 20-22: Marta, como sempre irrequieta e decidida, saiu ao encontro de Jesus, enquanto Maria, mais do tipo emocional e humana, permaneceu em casa, em silêncio, interrompido por soluços e choro (v. 33). Quis Marta forçar Jesus a uma decisão? Pode ser. Sempre que a vontade humana quer se impor a Deus e Deus não “cede”, pode haver decepções. Foi no caso do profeta Elias. Ele, após ter mandado matar os profetas de Baal, achou que a rainha e os idólatras se renderiam à vontade de Deus e Israel seria um país temente a Deus outra vez após o milagre da descida do fogo do céu. Nada disso aconteceu, pelo contrário, e ele, por temer a perseguição e a morte, fugiu. Neste período de fuga, ele experimentou profunda decepção com Deus (?) e entrou num estágio que hoje chamamos de depressão. Marta queria apressar as coisas? Pelo jeito, sim. De alguma forma, ela acreditava, Jesus daria um “jeito” de contornar a situação dolorosa. Mas quis interferir em Deus ser Deus. Vv. 23,24: A questão da ressurreição tem sempre os dois lados: Do primeiro está Deus, o Criador todo-poderoso. Com sua palavra ele criou 165 Revista Agosto.indd 165 3/9/2009 23:47:06 Igreja Luterana os céus e a terra. A palavra de Deus é a peça chave para entendermos o universo como tendo saído das mãos do Senhor dos céus e da terra. É de fundamental importância crer na criação do universo. E neste “processo” da criação Jesus tomou parte ativa. João declara no começo do seu evangelho que “o Verbo (Jesus) era Deus... Todas as coisas foram feitas por intermédio dele” (Jo 1.1-3). E aqui encontramos o Verbo falando a Marta da segunda grande criação: a ressurreição dos mortos. Jesus, para provar sua divindade, operou algumas ressurreições, como esta de Lázaro, que aconteceria na sequência. É desta ressurreição para uma vida física provisória que Jesus aqui fala a Marta, mas ela entende a ressurreição como algo do fim dos tempos. Entre os judeus, a doutrina da ressurreição não tinha aceitação livre. Os saduceus não criam nela. E entre os demais povos ela era tida como algo “do outro mundo”, algo para não ser crido. Por isso Paulo, quando falou dela aos atenienses no areópago, foi largamente zombado, e ele até “perdeu a linha”. A doutrina da ressurreição, fundamental para a fé cristã, tendo Jesus como “as primícias” dos ressuscitados, está ancorada e baseada sobre o princípio criador de Deus. Quem crê na criação obrigatoriamente tem que crer na ressurreição, que não deixa de ser uma segunda (pequena) criação no fim dos tempos. Nesta Marta acreditava. Ela até podia crer na ressurreição “lá na frente” (juízo final). Mas crer que Jesus poderia trazer de volta à vida o seu irmão há quatro dias já sepultado? Bem, aí a questão complica para ela. É assim para nós. Hoje nós cremos tão facilmente nos milagres de Jesus e cremos na ressurreição dos mortos. E se Jesus estivesse agora presente entre nós, no momento de um velório, creríamos nós que Jesus poderia levantar do caixão a pessoa morta? É a questão do racionalismo sempre presente que tenta interferir na ação de Deus. Foi o que Marta quis fazer. O jeito foi e é crer na palavra de Cristo (Deus). O resto se sucede. Vv. 25-27: Marta aceitou a declaração de Jesus sobre a ressurreição como um lugar comum de consolação. Mas a sua incompreensão provocou um dos grandes “eu sou” de Jesus, no qual Marta finalmente creu, antes mesmo do milagre. Proposta Homilética O Deus Criador, Salvador e Santificador é o eterno “EU SOU” 1. O “Eu sou” criou pela palavra “tudo do nada”. 166 Revista Agosto.indd 166 3/9/2009 23:47:06 Décimo sétimo domingo após pentecostes 2. O “Eu sou” (re)criará tudo outra vez pela palavra no dia da ressurreição dos mortos. 3. Abandonemos a razão cega e creiamos no Verbo que é a ressurreição e a vida. 4. Pela angústia da morte à vida no Ressuscitado. Heldo E. Bredow Curitiba, PR 167 Revista Agosto.indd 167 3/9/2009 23:47:07 Décimo Oitavo Domingo após Pentecostes Décimo Sétimo Domingo Após Trindade Salmo 116.12-19; Gênesis 8.18-22; Gálatas 3.26-28; Mateus 26.26-29 ou Marcos 14.22-25 Mateus 26.26-29 Contexto (cenário litúrgico, histórico) A missão de Jesus está chegando ao seu ponto máximo: a sua morte na cruz. Ele já havia instruído seus discípulos em como seria o juízo final. Por isso, motiva a todos ao preparo constante e adequado para aquele grande dia. O cenário, passo a passo, vai sendo construído: já havia um plano para matar Jesus; em Betânia uma mulher derrama perfume sobre Jesus (uma referência ao sepultamento dele); depois vem a traição de Judas (a revelação desse acontecimento se dá quando Jesus e os discípulos estão reunidos comemorando a Páscoa; ali Jesus fala abertamente que um deles vai traí-lo); durante a comemoração, Cristo institui a Santa Ceia (a nova aliança); depois disso, Pedro é avisado da sua negação; Jesus conversa com o Pai no jardim do Getsêmani; ele é preso e levado ao conselho superior; o aviso da negação de Pedro se cumpre; e já no capítulo 27 de Mateus lemos o desfecho da obra de Jesus pelos seres humanos. Importante notar que é durante a ceia pascal que Jesus institui a Santa Ceia. Com isso, ele reafirma a importância da ceia no Antigo Testamento. Agora, porém, os sofrimentos de Cristo, a sua morte e o seu sangue formariam a nova aliança. Ou seja, estava chegando o momento histórico, prometido por Deus desde Adão e Eva, do sacrifício perfeito e definitivo. Não haveria mais a necessidade de sacrifícios de animais. A morte do Cordeiro é agora a garantia do perdão. Tanto a ceia pascal quanto a Santa Ceia instituída por Jesus mostram a ação de Deus pelos seus filhos, em momentos históricos distintos: o povo que vivia na esperança da vinda do Salvador, e o povo que conviveu com Jesus, bem como aqueles que vivem na certeza de que o Salvador já veio e que um dia voltará. Ênfases, expressões que se destacam, análise Instituindo a Santa Ceia, Jesus está dando aos seus discípulos os 168 Revista Agosto.indd 168 3/9/2009 23:47:07 Décimo oitavo domingo após pentecostes frutos do seu sofrimento. O seu corpo que foi dado e o seu sangue derramado eram o anúncio de muitas bênçãos para aqueles que confiaram nele. Jesus abençoa o pão e o vinho, ou seja, consagra e separa esses elementos externos e visíveis para um santo propósito. Esse propósito está claro no versículo 28, “para remissão de pecados”. No entanto, as grandes dúvidas levantadas sobre a instituição da Ceia do Senhor estão nestas palavras: “[...] isto é o meu corpo [...]”, “ [...] isto é o meu sangue [...]”. Algumas interpretações surgiram – é representação, é simbolismo, é transformação – o que Jesus quis dizer? Ele quis dizer o que de fato disse. Jesus falava com precisão. Ele sabia fazer clara distinção quando falava simbolicamente e quando falava literalmente. Ele não tinha uma comunicação confusa. Quando Jesus queria fazer comparações, usava expressões como essa: “O Reino de Deus é como...”. E quando instituiu a Santa Ceia, ele usou expressões claras, “isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue”. Embora para a razão humana isso seja incompreensível, para a fé não o é. Por isso, submetemos a razão à nossa fé. Pois acreditamos que a Palavra de Jesus é verdade. Logo, podemos confessar com Martinho Lutero em seu Catecismo Menor: A Santa Ceia “é o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, para ser comido e bebido, sob o pão e vinho, por nós cristãos”. E assim temos: o pão e vinho são os elementos visíveis e terrenos, e o corpo e o sangue de Cristo são os elementos celestes. No versículo 29 do texto, Jesus já fala do futuro eterno e feliz no Reino do Pai. Ele já está visualizando o banquete no céu. Este banquete ele deseja repartir com todos nós: “[...] hei de beber, novo, convosco [...]”. A instituição da Santa Ceia é uma expressão da suprema certeza que o Senhor tinha da vitória, antes do seu conflito final. Também o é de como o Senhor “transformou” o Antigo Testamento no Novo. É uma mensagem de esperança e confiança na misericórdia, na graça e no amor de Deus que a todos quer salvar. Paralelos, pontes, pontos de contato A Santa Ceia é o “novo testamento” que Jesus deixou para todos nós, os pecadores, a sua igreja. Assim como deixamos um testamento para que alguém seja beneficiado com a nossa atitude, Jesus também deseja que todos aqueles que crêem nas palavras “Dado e derramando em favor de vós para a remissão dos pecados” recebam todos os benefícios de seu sacrifício, morte e ressurreição. Assim como os israelitas viveram fortalecidos com a Ceia Pascal e todo o seu significado, agora os cristãos vivem na força que a Santa Ceia lhes dá. A Santa Ceia é uma refeição espe- 169 Revista Agosto.indd 169 3/9/2009 23:47:07 Igreja Luterana cial. Através da história, Deus sustentou e abençoou o seu povo através de refeições especiais. Refeições sustentam a vida. “Nós comemos para viver”. E o nosso sustento vem unicamente de Deus. Portanto, tanto a nossa vida física quanto a espiritual são sustentadas pela Rocha Eterna que é Jesus Cristo. Por isso, o pecador precisa sentir fome e desejar desfrutar sempre desta refeição celestial. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal que tira os pecados do mundo (Jo 1.29, 1Jo 1.7). E é este cordeiro vitorioso que nos abraça pessoalmente com seu corpo e sangue, na Ceia, para preservar nossa vida no corpo da igreja. Assim como o Senhor Jesus esteve presente na primeira Ceia, está e estará presente em todas as outras. Jesus é o único que pode fazer com que a Ceia tenha proveito para o crente. Por isso, a Santa Ceia é a grande festa da igreja, uma festa verdadeira (para nutrimento da vida espiritual), uma festa sagrada (separada de todo o prazer pecador), uma festa de pacto (autenticando a redenção), uma festa de amor (unidade dos redimidos), um banquete festivo (antecedendo a morte, o fim do mundo e a vinda de Cristo). Sugestão de uso homilético (assunto, objetivo, tema, desdobramentos) É fundamental anunciar que a Santa Ceia é evangelho puro para o pecador. O texto nos permite dizer que a Ceia que Jesus instituiu, a Ceia que celebramos em nossos cultos, é uma grande Boa Nova. Pois através dela o nosso Santo Salvador, que está realmente presente na Ceia, vem se unir a nós, pessoas pecadoras que precisam da sua santidade. E isso acontece não por méritos nossos, mas pela grande misericórdia do Filho de Deus que nos amou ao ponto de doar sua vida por nós. Podemos também ensinar que quando vamos à Santa Ceia, estamos admitindo nossa fraqueza, e diante da mesa do Senhor, pela fé Nele, nos entregamos e confiamos na sua misericórdia para nos perdoar e nos salvar de todo o castigo de Deus. Depositamos toda a nossa fé em Jesus, por sabermos que Ele é o único a quem o nosso Deus Pai enviou para salvar os perdidos (Lc 19.10; Jo 3.16-17). Afirmamos ainda que a fé em Cristo não nos confunde com ensinos humanos. Mas, nos dá clara certeza das palavras de Jesus: “isto é meu corpo”, “isto é o meu sangue”. Pela fé deixamos a razão de lado e nos concentramos no que a Ceia é, no que ela oferece, no preparo correto para recebê-la (arrependimento e confiança). Também pela fé, na Santa Ceia somos lembrados das promessas de Deus. Do texto queremos lembrar também a vitória que em Cristo alcançamos já nesta vida, e definitivamente na eternidade. Na Santa Ceia somos 170 Revista Agosto.indd 170 3/9/2009 23:47:07 Décimo oitavo domingo após pentecostes vencedores através de Cristo, o grande vencedor. Por causa dele, a vitória também é nossa. Pregamos ainda que a Santa Ceia é o testemunho incontestável do quanto Jesus ama os pecadores. Portanto, sempre que participamos da Ceia, sentimos e nos lembramos desse amor por nós. Através desse Sacramento, Jesus não quer nos dar apenas o seu amor, mas também recebemos: perdão, fortalecimento da fé, vida (Jo 10.10), salvação e vida eterna. E assim somos capacitados e motivados para também mostrar o nosso amor a Deus, na vida do próximo ao nosso redor (Mt 28.19; Jo 13.14-17, 17.21; 1Co 10.17; Ef 5.1,2). Ainda precisamos lembrar que o amor de Deus não o deixa, ao contrário dos seres humanos, quebrar a sua aliança. O nosso Deus é gracioso. Ele conhece bem as nossas sobrecargas e as nossas fraquezas. Por isso nos ajuda a levarmos o fardo, que para ele é levíssimo, mas para nós é pesadíssimo. A misericórdia de Deus não mudou. Assim como sempre ajudou seu povo em tempos antigos (providenciando tudo o que precisavam), ele continua providenciando todas as coisas através de Cristo. E hoje, Deus nos perdoa, alivia e fortalece todas as vezes que comemos o pão e bebemos o vinho consagrados. Na Santa Ceia também encontramos a Palavra de Deus que cria e renova a vida do cristão. Tema e partes: Venham à grande festa da vida. Instituída por Jesus Cristo. Enfatizando ... - A Santa Ceia. - Sombra da Ceia Pascal. - “Isto é o meu corpo”. “Isto é o meu sangue”. - Aliança de Deus com o seu povo – “Sangue da aliança” (Êx 24.8). - Visão da vida eterna. Sustentada pela vitória do Senhor. Enfatizando ... - O único Cordeiro perfeito. - Em favor de todos. Precisamos anunciar a todos. - Testamento de vida. - Perdão dos pecados. Fortalecimento da fé. Salvação. Vida Eterna. (Vitórias!) - Mérito exclusivo de Cristo. - Por graça, misericórdia e amor, a vitória é nossa também. Iderval Strelhow Porto Alegre, RS 171 Revista Agosto.indd 171 3/9/2009 23:47:07 Décimo Nono Domingo Após Pentecostes Décimo Oitavo Domingo Após Trindade Salmo 103.1-14, Deuteronômio 6.4-15, Romanos 13.1-10, Marcos 12.28-34 ou Mateus 22.34-40 Mateus 22.34-40 Contexto Os fariseus estão empenhados em encontrar algum motivo para incriminar Jesus. O conflito vai ficando cada vez mais intenso. Neste contexto, travam-se quatro discussões: (15-22) a pergunta sobre os impostos; (23-33) a pergunta sobre a ressurreição; (34-40) o texto em foco, o mandamento mais importante e, (41-46) a pergunta sobre o Messias. Na discussão sobre impostos, haveria acusação independente da resposta de Jesus, pois se afirmasse que os judeus não deveriam pagar impostos ao imperador romano, as autoridades o prenderiam, e dizendo que deveriam pagar, o acusariam de traição. Já sobre a ressurreição, é preciso lembrar que os saduceus não acreditavam em ressurreição, embora os fariseus acreditassem (At 4.1,2; 23.6-8). A sua relutância em aceitar a autoridade de Jesus sempre os leva aos ensinos de Moisés. E assim Jesus responde uma a uma as questões, sem realmente dar a eles oportunidade de acusação fundada. Texto Quando Jesus resume a lei a uma só palavra – amor, embora separe em dois focos, mostra um novo tempo e uma nova forma da relação com Deus. Uma relação com Deus não a partir de obrigações e rituais, mas com uma forma de resposta interior, com todo o ser. Embora aprendamos sistematicamente que aqui está o resumo do Decálogo, e isso é inegável, para mim a resposta de Jesus vai muito além. Não se trata de uma nova apresentação da Lei, mas tem tudo a ver com a resposta dos discípulos Pedro e João quando estavam diante do Conselho Superior: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4.20). Jesus está dizendo aos fariseus que não basta cumprir tarefas e rituais, não bastam obras externas, mas a resposta aos mandamentos de Deus 172 Revista Agosto.indd 172 3/9/2009 23:47:07 Décimo Nono domingo após pentecostes deve brotar de uma vida transformada, de um coração cheio do Espírito Santo, que movido pela graça de Deus não consegue agir de forma diferente, senão amando porque ele nos amou primeiro (1 João 4.19). Ainda observando o ensino de Jesus, fica evidente que o amor a Deus precede o amor ao próximo. E o amor a Deus é na intensidade total (todo) do corpo, da alma e da mente (caso queira enfatizar este aspecto, recomendo a exegese específica de cada um dos termos e seu significado). Na verdade, a forma de demonstrar amor a Deus passa a ter uma face nova em Jesus. Não é por meio de obediência apenas, mas com a expressão da vida espiritual, da vida emocional e da vida física – um estilo de vida. Isto passa a ser apresentado de forma muito bonita pelo apóstolo Paulo quando fala dos dons do Espírito Santo, de forma especial em Rm 12.6-13. Neste texto percebemos a dádiva do Espírito para que o cristão possa manifestar o seu amor a Deus das mais diferentes formas, e diga-se, de formas muitos simples que por vezes são menosprezadas entre nós cristãos (servir, animar, exercer misericórdia). Já o segundo foco da expressão do amor a Deus tem como alvo a vida humana. A minha vida e a vida do outro (próximo). Novamente chamam atenção dois pontos. Este amor agora é manifesto em equidade. Amor a si mesmo e na mesma medida ao próximo. Ele não é com a mesma intensidade do amor a Deus que é de todo coração, alma, força e mente. O amor a Deus é a força motriz para que aconteça o amor a mim mesmo e o amor ao próximo. Pontos de Contato Os fariseus e os saduceus estavam vivendo uma religiosidade externa, com uma obediência à letra, sem uma renovação espiritual de suas vidas. Sua “perseguição” a Jesus não os permitia ouvir e apreender os ensinos, pois estavam sempre preocupados em encontrar erros, ao invés de ouvir para fortalecer sua fé e convicção espiritual. Esta realidade não é diferente na vida de algumas pessoas de nossos tempos. Temos irmãos e irmãs que não faltam a cultos e estudos bíblicos, mas sempre estão com a língua afiada para avaliar os outros, condenar e até fazer comentários que não constroem o corpo de Cristo, nem edificam cristãos individuais. Precisamos estar atentos para deixar a Palavra também falar aos nossos corações, e não apenas a endereçar a quem julgamos que deva ouvir este ou aquele conteúdo da Palavra. A Palavra sempre tem algo para mim, e não me autoriza expressões como: “Hoje o sermão foi para A, este foi para B”, e, com isso, acaba nunca havendo 173 Revista Agosto.indd 173 3/9/2009 23:47:07 Igreja Luterana uma palavra para mim. A ação recomendada por Jesus a partir da revelação da Lei (decálogo) é a de servir de suporte e força para o crescimento espiritual do outro. O amor como forma de crescimento diante do Senhor. O amor, não para encobrir erros, mas para fortalecer e construir a vitória sobre o pecado. Possibilidade Homilética Tema: Ame ao Senhor e ao próximo Introdução: A vida cristã relaciona-se com Deus e com o próximo 1. O egoísmo e a falta de amor a. O pecado isola e explora b. O reflexo da falta de amor na sociedade atual 2. O Mandamento do Senhor: Ame ao Senhor e ao próximo a. Participamos da manifestação do amor de Deus às pessoas b. Deus permanece vivo e eficaz na vida dos que crêem c. A essência de Deus (amor) manifesta-se na essência da santificação do cristão (amor) 3. A ação do Espírito Santo através dos cristãos a. O Espírito Santo capacita através de dons b. Somos o povo da aliança que testemunha os atos de Deus a esta geração c. O amor de Deus chega ao próximo também através de nós. Airton Schroeder Natal, RN 174 Revista Agosto.indd 174 3/9/2009 23:47:07 Dia da Reforma Salmo 46, Isaías 55.1-11, Apocalipse 14.6-7, Mateus 11.12-15 Apocalipse 14.6-7 Destaques Sl 46 – Deus se apresenta como esconderijo seguro banhado por águas que, tranquilas, faz olhar o futuro com alegria. Is 55. 1-11 – Aliança perpétua que consiste 1. nas fiéis misericórdias de Deus ... 2. a palavra que não volta vazia. Mt 11.12-15 – Deus levanta do nada aqueles que fazem a sua palavra ser ouvida. Não uma mensagem de poder, força e violência que os homens exercem, mas aquele poder que Deus revela na sua misericórdia trazendo a paz aos corações, removendo deles a culpa. TEXTO (Ap 14. 6,7) Os textos relacionados focam na ação de Deus. Em datas como a da Reforma, tem-se a tendência de concentrar a atenção sobre pessoas, suas fraquezas, as faltas e erros e, por outro lado, aqueles que foram fiéis e que, ao final, restaram como testemunhas de Deus. Algo errado? Aparentemente, não. A não ser pelo fato de que, para o ouvinte, fica a impressão de que a história da igreja é feita de vilões e heróis. Ser ou não ser da igreja é uma escolha de lados? Deste ou daquele? Certos e errados? O texto do Apocalipse é um texto de olhos fitos no céu, o céu que está visível aos olhos dos que vivem neste mundo. O lado de cá do céu mostra o mensageiro de Deus oferecendo um Evangelho eterno, uma boa notícia que não tem limites de tempo, nem de espaço, incondicionado, livre e libertador. Esta interface entre Deus e humanidade é a única visão possível ao ser humano. Qualquer outra visão de Deus, qualquer outra tentativa de ver Deus e os céus desencadeia sobre o ser humano a morte da qual o mensageiro liberta. Esse mensageiro é o mensageiro da vontade de Deus aos homens. Vontade essa que, sem esse mensageiro, não existe na experiência do ser humano. Sua experiência lhe fala de outra vontade do alto. Sua experiência lhe diz sempre e a cada instante que ele é um devedor. Ele vê 175 Revista Agosto.indd 175 3/9/2009 23:47:07 Igreja Luterana também todos ao seu redor como devedores. Olhar para o alto é um ato que desperta medo e até terror. Esse é o único modo como a natureza humana olha para o céu: com medo e terror. Bem por isso toda e qualquer iniciativa religiosa do ser humano vem impregnada e determinada em abafar esse medo e terror. Como pode a natureza humana proteger-se? Lutero ansiava que do céu lhe viesse um sinal de misericórdia, algo em que pudesse agarrar-se. Mas do céu somente lhe vinha a noção de ser um grande devedor diante do justo tribunal de Deus. Tudo nele lhe confirmava essa certeza. E Lutero não estava errado nisto. E todos os meios que a igreja lhe punha à disposição foram usados e esgotados no esforço de livrar-se da culpa da qual se sentia responsável. Essa é a palavra: responsável diante de Deus e do seu juízo. Não somente Lutero. Mas o publicano, no templo. O filho perdido ao lembrar-se do pai. Pedro, ao chorar no pátio do palácio. Pessoas que se deram conta de que sua natureza, sua tendência íntima e nada mais era responsável pela cobiça, inveja, soberba e tantas maneiras mais pelas quais convivemos diante do próximo na família, no trabalho e na sociedade. Como posso olhar para o céu se sou essa pessoa que eu conheço melhor do que qualquer outro? Não podemos estar diante de Deus diferentemente de Paulo: “O querer o bem está em mim. Não, porém, o efetuá-lo”. A lei de Deus é dura. Ela nos arranca da zona de conforto na qual queremos nos refugiar: “Não matei, não roubei. Ninguém pode me acusar de nada.” Lutero, Paulo, o publicano, o filho perdido e cada um de nós é chamado a sair da zona de conforto e da falsa imagem de pessoa correta. Mas esta busca não se destina a aterrorizar. Pelo contrário. O evangelho eterno garante que, quanto maior o pecado que encontramos em nós, tanto maior é a consciência da própria pecaminosidade, mais intensa e urgente é a palavra da boa notícia que Deus interpõe entre ele e o pecador. Essa boa notícia que o mensageiro de Deus tem para dar vai ainda mais além. Deus anuncia por ele que, além de nos aceitar e perdoar, Deus ainda nos dá a sua justiça como manto e cobertura. É por isso que não devemos e não precisamos confiar na nossa capacidade de fazer o bem. Nem precisamos e não devemos induzir as pessoas a olharem para nós como se tivéssemos capacidades de fazer o bem que outros não têm. O nosso desejo e esforço de fazer o bem seria totalmente, ou, melhor, é totalmente perdido se Deus não completasse e tornasse reais as nossas intenções de fazermos o bem. É Deus que realiza em nós tanto o querer como o fazer coisas boas, completa o Apóstolo. Nem nos damos conta suficientemente de quanto Deus é fiel no aten- 176 Revista Agosto.indd 176 3/9/2009 23:47:07 Dia da Reforma dimento das nossas orações, especialmente as duas petições finais do Pai Nosso: “E não nos deixes cair em tentação. Mas livra-nos do mal.” Ele, em sua misericórdia e amor, não permite que caiamos na tentação que se abriga em nosso coração. Ele nos dá freios e os aciona para não cairmos em vergonha e desgraça na dimensão da nossa capacidade de pecar. A vergonha e todo o mal que permanentemente nos rondam com apetite de fera esfomeada, segundo a imagem do leão que Pedro oferece, deixam de ter poder de destruição e de morte que têm sobre a nossa natureza humana. Este é o céu para o qual Deus levanta os olhos do Apóstolo João. Ele agora nos convida a olhar também e nos alegrarmos com a presença do mensageiro que oferece essa nova vida ao pecador. Sempre é tempo de olhar para os céus e confessar que nada somos por nós próprios, ao mesmo tempo em que o coração abriga feliz a palavra fiel do evangelho que nos cobre de justiça e dignidade. Sempre é tempo de olhar para os afastados, os desiludidos da igreja, os perdidos da casa de Israel, os caídos, os que estão de luto e convencê-los de que não há mais motivo de estarem afastados, temerosos, ou em angústia e dúvida. “Em Deus mais graça temos”, diz o hino. Ao mesmo tempo é importante descrever com coragem e clareza a natureza humana para que as pessoas não se iludam pensando que a justiça que ostentam os torna melhores ou superiores a qualquer pessoa cujo erro é notório. Pois o mensageiro com um evangelho eterno é de todos e de cada um que abriga a mensagem de consolo no íntimo e nela confia. Olhar para o céu e reconhecer o evangelho eterno escrito com o sangue do Cordeiro é um privilégio a partir do qual olhamos com novos olhos para o mundo que nos cerca. Não é mais o mundo com esperanças e projetos humanos, falíveis e passageiros. Não estamos mais sujeitos a promessas que nunca se realizam e sempre se repetem. As promessas agora são promessas de Deus. As garantias são as garantias de Deus. E sobre o mundo que, no pecado, se encaminha para destruição, vemos o mundo que vem ao nosso encontro pelas mãos do Cordeiro de Deus. A paz e a harmonia que nos aguarda, e que já ocupa os nossos corações, são a paz e harmonia que já tentamos viver e praticar entre nós e, especialmente, com aqueles que ainda queremos ajudar a olhar para o céu assim como o evangelho eterno nos fez ver o céu. Sugestão para organização do material Tema: Reforma, um novo olhar para o céu 177 Revista Agosto.indd 177 3/9/2009 23:47:07 Igreja Luterana 1. Numa realidade marcada pela culpa, veja o evangelho eterno 2. Numa realidade que se encaminha para o juízo, o céu vem ao nosso encontro. Paulo Weirich São Leopoldo, RS 178 Revista Agosto.indd 178 3/9/2009 23:47:08 Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico Salmo 114, Êxodo 32.1-6 (7-14) 15-20, Romanos 14.7-11, Mateus 24.15-28 ou Lucas 17.20-24 (25-30) Lucas 17.20-30 Contexto Lucas inicia seu evangelho dizendo: “[...] conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares, e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lc 1.2-4). Como em toda Escritura, em Lucas fica nítido que o evangelho é universal. Não há barreiras entre judeus e gentios, entre escravos e libertos, entre homens e mulheres. Os fatos do capítulo dezessete ocorrem no terceiro ano do ministério de Jesus, no território da Judéia, onde Jesus passava por cidades e aldeias, ensinando, e de caminho para Jerusalém (Lc 13.22). Muitas pessoas vinham a Jesus com perguntas, como a que ocorre no início do texto. Texto Vv. 20 e 21: Jesus tem à sua frente alguns fariseus. A pergunta “quando ia chegar o Reino de Deus” os incomoda. Por isso fazem-na a Jesus. Jesus responde que o Reino de Deus não pode ser identificado visivelmente, mas está “dentro das pessoas”. A palavra grega entós significa “dentro” ou “entre”. Almeida e NTLH usam o primeiro sentido. O texto de 1Co 3.16 nos ajuda a clarificar a resposta de Jesus. É importante que relembremos o “conceito de Reino de Deus”. Algumas peculiaridades no Antigo Testamento, Novo Testamento e quanto à vinda futura do Reino. Conceito de Reino de Deus A Igreja, que é a congregação de todos os crentes entre os quais o Evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho, participa do reino de Deus. Há uma 179 Revista Agosto.indd 179 3/9/2009 23:47:08 Igreja Luterana relação pessoal entre Deus como Rei e o indivíduo como súdito. Este reino de Deus no qual os cristãos participam, e que perpassa todo o Antigo Testamento, manifestou-se de forma toda especial em Jesus. Este reino está presente nos cristãos hoje e será manifestado em esplendor, glória e poder no retorno de Cristo. Scharlemann define reino de Deus dizendo: “O reino de Deus pertence ao plano de nosso Pai Celeste que ele designou por toda a eternidade como nosso caminho de salvação”. Lutero, na Segunda Petição, no Catecismo Maior, fala sobre Reino de Deus dizendo que Deus enviou seu Filho, nosso SENHOR, ao mundo, para nos redimir e libertar do poder do diabo e nos levar a ele para que nos governe como rei da justiça, da vida e da bem aventurança, contra o pecado, a morte e a má consciência. Este reino é independente de relações temporais e espaciais. Quando pelos meios da graça – Palavra e Sacramento – a fé invade os corações, pelo poder do Espírito Santo, o Reino torna-se uma realidade presente, havendo relação pessoal de Deus com o indivíduo. Reino de Deus no Antigo Testamento No Antigo Testamento, Deus é visto, frequentemente, como um Rei e é dito que ele governa ou governará como Rei. Em nenhuma parte do Antigo Testamento se encontra a locução “Reino de Deus” como conceito corrente. No entanto, a presença do Reino de Deus está em todo o Antigo Testamento ativamente na vida de seu povo. Dois textos do Antigo Testamento são de suma importância para se conceituar “Reino de Deus”. São os textos de Êxodo 19.5,6 e Daniel 7.22-27. A presença do Reino de Deus entre o seu povo do Antigo Testamento torna-se evidente em inúmeros atos de livramento e na promessa do “Livramento Maior”. Duas características deste Reino são importantes lembrar: Como primeira, o Reino de Deus é “graça”. Não vem em resposta aos feitos dos homens. É inteiramente criação e poder de Deus. Deus escolheu Israel unicamente porque “Ele amou a Israel” (Dt 7.8), nenhum mérito da parte de Israel havia na escolha. Como segunda característica deste Reino, o fato de que Deus escolheu habitar com seu povo. O livro de Êxodo começa com a história da libertação de Israel do Egito e vai até a construção do Tabernáculo, a tenda do encontro. Ali foi o lugar que Deus dignou-se a usar como lugar de sua graciosa presença. Pelos profetas fica claro que o verdadeiro Reino de Deus, em sua plenitude, viria nos últimos dias. 180 Revista Agosto.indd 180 3/9/2009 23:47:08 Antepenúltimo domingo do ano eclesiástico Reino de Deus no Novo Testamento Não se pode falar da presença do Reino de Deus em Jesus sem mencionar João Batista e sua mensagem de “proximidade do reino dos céus” (Mt 3.2; Mc 1.15). João Batista iniciou seu ministério profético em pleno deserto da Judéia. A temática da pregação era o arrependimento e o anúncio da proximidade do Reino dos céus. O arrependimento como transformação do coração e da mente pela pregação da Palavra de Deus, e a proximidade do Reino dos céus, como concretização da vinda do Messias. Ou seja, o início dos tempos do fim (Jo 18.36). A pregação de João Batista era voltada para o Messias. João Batista veio como precursor, anunciando que o Reino de Deus estava próximo. Jesus veio para proclamar que o Reino de Deus estava presente. Essa vinda presente é “o mistério do Reino de Deus” (Mc 4.11). O Reino de Deus não vem de maneira visível, mas absconditamente, através da ação humana de um semeador. Não pode ser conquistado por obra humana, mas somente ser encontrado. As parábolas de Jesus sobre o reino se dirigem a todos; mas apenas os que o seguem compreendem a causa em questão. Jesus veio como servo de Deus para levar sobre si os pecados da humanidade. Jesus escolhe um novo povo para levar a mensagem da salvação adiante. Escolhe os discípulos aos moldes do povo do Antigo Testamento, os escolhe em seu amor para seus propósitos. Eles eram remanescentes em Israel. A graça de Deus tornou-se manifesta na expansão do Reino por ocasião do Pentecostes (At 2.1-41). Scharlemann diz que essa comunidade de Pentecostes tornou-se a Igreja como último grande ato redentor de Deus na história. Deus passou a habitar com seu povo não mais em tabernáculo, como no Antigo Testamento, mas em “Palavra e Sacramento”. Deste modo, seu domínio tem vindo a nós pelo Evangelho que é proclamado. A Igreja tem sido criada para vida e nova dimensão de uma vida feita de amor, paz, paciência, perdão e sofrimento. A vinda futura de Reino de Deus O reino de Deus do qual os cristãos do Antigo Testamento participaram, do qual os cristãos do presente participam, não se restringe ao “já agora”, mas ao “ainda não”, por ser também uma realidade futura. Desde o Antigo Testamento temos claramente a perspectiva da vinda futura do Reino de Deus relacionada com a segunda vinda de Jesus, “O Dia do Senhor” (Dn 7.27) e a criação dos “Novos céus e nova terra” (Is 181 Revista Agosto.indd 181 3/9/2009 23:47:08 Igreja Luterana 65.17). O Antigo Testamento é rico em apontar para o futuro escatológico. O Novo Testamento confirma o Antigo Testamento nesta perspectiva fazendo alusão desde os evangelhos onde Jesus conta várias parábolas do reino, passando por várias alusões nas cartas e culminando de forma especial com as referências do Apocalipse. Um dos textos de referência à vinda futura do Reino de Deus é o que estamos abordando, com ênfase para Lucas 17.24. Vv. 22 a 24: Jesus passa, como diz o texto, a falar “aos discípulos”. O Reino de Deus está presente na pessoa de Jesus. Têm eles a oportunidade de conviver com ele como discípulos para mais tarde serem designados como apóstolos. É preciso ter cuidado com os falsos profetas e as falsas mensagens (2Pe 2.1,17). O Dia do Senhor vem repentinamente como ladrão (2Pe 3.10). Há avisos num crescendo ao longo dos tempos Mt 24.5-14,37-39; Lc 21.8,18,17; 2Ts 2.3,4). Um incrédulo disse certa vez a um cristão que testemunhou sua fé falando sobre a segunda vinda de Jesus: “Vou ficar de olho no que você me falou sobre a volta de Jesus. Se realmente ele vier, assim que vê-lo vou acreditar”. O v.24 de nosso texto descarta qualquer possibilidade para tal. Jesus virá repentinamente e visível a todos. Hebreus 11.1 define bem o que é “fé”. V. 25: A linha vermelha que perpassa toda a Escritura sobressai aqui, enfatizando o ápice da “missão do Filho” (Jo 3.16), seu sofrimento “vicário” em favor de toda a humanidade pecadora. O amor de Deus em Cristo Jesus fica evidente. Vv. 26 a 29: Nos referidos versículos, Jesus traça um paralelo chamando a atenção para o “dilúvio” (Gn 7.6-24) e a destruição de “Sodoma” (Gn 18.20-19.25). A vida do povo transcorria em uma normalidade em comer, beber, casar, comprar, vender, plantar, construir, não dando ouvidos ao alerta de destruição. A oportunidade no dilúvio foi de 120 anos de tempo para arrependimento, até que veio o castigo. V. 30: Apesar do registro no Antigo Testamento, tanto do “dilúvio” como da “destruição de Sodoma”, e tendo a Escritura o propósito conforme diz em 2 Timóteo 3.16 “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”, Jesus deixa claro que muitas pessoas continuarão em sua normalidade de vida não dando ouvidos ao chamado ao arrependimento e confiança nele como Salvador e em sua Palavra por ocasião de sua segunda vinda. Sofrerão o castigo eterno. Aplicação O povo de Deus prestes a partir desse mundo a qualquer hora, ou a 182 Revista Agosto.indd 182 3/9/2009 23:47:08 Antepenúltimo domingo do ano eclesiástico presenciar a volta de Jesus, jamais deve esquecer-se dos grandes feitos do Senhor para com o seu povo (Sl 114). Cada um é convidado a olhar para a sua vida e enxergar o que Deus fez em termos de família, Igreja e sociedade. Reconhecer o que está escrito em Lamentações 3.22,23: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim, renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade”. Dias turbulentos o povo do Antigo Testamento passou. Não é diferente hoje. Não o será no futuro. Por isso é confortador saber, conforme Mateus 28.20b: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”. O mau exemplo do povo de Israel ao pé do monte Sinai, conforme Êxodo 32.1-14, sirva de um exemplo a “não” ser seguido. Que as palavras de Romanos 14.7-11 sejam o viver dos filhos de Deus incluídos no “Reino” já desde o “batismo”. Agradecidos pelos ensinamentos de Jesus de maneira tão clara e com exemplos marcantes, possamos, em arrependimento e fé, continuar a caminhada de nossas vidas “preparados”, testemunhando do que “vimos e ouvimos” (At 4.20), cientes de que: “[...] aquele, porém que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mc 13.13). Tema: O Reino de Deus está dentro de vós. Guilherme Rodolfo Hasse Becker Cachoeirinha,RS 183 Revista Agosto.indd 183 3/9/2009 23:47:08 Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico Salmo 143.1-10, Jeremias 8.4-7, Romanos 8.18-23 (24-25), Mateus 25.31-46 Mateus 25.31-46 LEITURAS Salmo 143. 1-10 – Destacamos o versículo 10: “Ensina-me a fazer a tua vontade”. Temos aqui um apelo em direção à santificação”, que é o tema doutrinário central do evangelho (Mt 25. 31-46). “Guie-me o teu bom Espírito” nos remete aos frutos do Espírito (Gl 5. 22) que resultam naquele tipo de vida que merece o “e-logio” de Jesus (eulogía). Jeremias 8. 4-7 – O profeta lança um apelo de Deus ao seu povo no sentido deste povo migrar para o Senhor. Assim como as migratórias da Palestina, citadas no versículo 7, também o povo é chamado a voltarse para Deus. O motivo da volta vem da consciência que existirá um julgamento fiel. As premissas do julgamento são clareadas pelo Senhor em Mt 25. Romanos 8. 18-23 (24,25) – O apóstolo aponta para o que resta no final da caminhada da fé (v.17) – seremos glorificados com Cristo. Somos filhos e herdeiros de Deus. A nossa herança já pode ser administrada aqui e agora. Todo o benefício do sacrifício de Cristo na cruz já é nosso. As virtudes esperadas dos filhos de Deus (cf. o evangelho Mt 25) já podem ser administradas por eles aqui e agora enquanto aguardam o recebimento da herança final. Mateus 25. 31-46 – Estamos no contexto do grande discurso escatológico de Jesus. Jesus está preparando seus seguidores para sua segunda vinda. O capítulo 24 de Mateus já vem sendo uma preparação que serve de transição profética para a segunda vinda de Cristo. Jesus vem falando sobre alguns sinais característicos da sua segunda vinda. Estes sinais têm um direcionamento proposital: Jesus parte do amplo e generalizado para o particular. Há aí um convite a não sermos curiosos apenas com o que acontecerá no universo, ou o que precisa acontecer fora de nós, mas estarmos atentos ao que precisa acontecer e ao que vai acontecer efetivamente conosco. A passagem pelo julgamento será individualizada, os sinais mais extraordinários dos tempos do fim poderão 184 Revista Agosto.indd 184 3/9/2009 23:47:08 Penúltimo domingo do ano eclesiástico ser os sinais que cada filho de Deus e crente em Cristo poderá deixar em suas ações. Texto V.32: Todos serão reunidos e separados. O conceito aplicado ao verbo “separar” (chorizo) nos mostra uma separação a partir de diferenças que possam ser observadas. A separação das pessoas será feita com base naquilo que foi observado, pelos sinais deixados, pelas coisas feitas, pelo tipo de vida que levaram. Ovelhas e cabritos serão separados. Hoje nós andamos juntos e podemos até ser parecidos: misturam-se cristãos, “meio-cristãos”, não-cristãos, caridosos, benfeitores, solidários e outros que apresentam sinais externos semelhantes. O “Filho do homem” conhece a diferença e sabe fazer a separação. V. 34: Então dirá: “Vinde benditos do meu pai.” Benditos – “eulogeménoi” – bem–falados, abençoados, de boa moral, e-logia – elogiados. Quando Abraão foi chamado para o acordo com Deus e representar a Igreja, ele ouviu: “Sê tu uma bênção”. O povo de Deus que estará diante do trono, é esse povo que foi chamado para fazer da sua vida algo elogiável, que simbolize bênção para quem está no seu convívio. Temos o convite para sermos uma bênção na vida do próximo, um Cristo na vida do outro (Lutero). Dos dez mandamentos, sete recomendam um tipo de vida “elogiável” em relação ao próximo. Serão trazidos para perto de Jesus estes que podem ser chamados de “eulogeménoi” – benditos, elogiáveis. Vv. 35,36: “Pois tive [...] estive [...] era [...]”. Jesus elenca situações em que se colocam diante de nós oportunidades para fazermos coisas “elogiáveis”, situações para demonstrarmos amor ao próximo. Jesus está enumerado as diferentes oportunidades de exercitar a santificação. Podemos agregar aqui os textos de Romanos 1. 17: “ O justo viverá da fé” e Tiago 2. 14: “Qual o proveito, irmãos meus, se alguém disser ter fé mas obras não tiver?” (... a fé se consuma pelas obras... [v. 22]. Crer, até os demônios crêem [v. 19]). Jesus é enfático na santificação. Parece muito claro que o tipo de vida que levamos na prática terá um peso decisivo na hora e no processo de separação dos “benditos” e dos “malditos”. Jesus está falando das recompensas, da fidelidade e da prática das obras cristãs. Há aqui um convite a sermos protagonistas das nossas vidas de filhos de Deus, justificados e potencializados pelo Espírito Santo. Percebemos também o eco da história 185 Revista Agosto.indd 185 3/9/2009 23:47:08 Igreja Luterana do Bom Samaritano: “Vai tu e procede de igual modo”. Temos aqui duas dimensões dos juízos de Deus. O juiz das obras dos cristãos (1Co 3. 10-17 e 2Co 5.9,10) e o juízo dos ímpios (Ap. 20. 1115). (Confira notas homiléticas da Bíblia Shedd – Vida Nova). Alcione Eidam Cachoeirinha, RS 186 Revista Agosto.indd 186 3/9/2009 23:47:08 Último Domingo do Ano Eclesiástico Domingo do Cumprimento Salmo 130; Isaías 65.17-25; 2 Pedro 3.3-4, 8-10ª, 13 ou Apocalipse 21.1-7, Mateus 25.1-13 Mateus 25.1-13 CONTEXTO (CENÁRIO LITÚRGICO, HISTÓRICO) Uma parábola, contada pelo próprio Jesus, retratando os costumes judaicos para o casamento. ÊNFASES, EXPRESSÕES QUE SE DESTACAM, ANÁLISE Fiquem vigiando...(v.13). Tem como propósito lembrar a importância de estar preparado para a segunda vinda de Cristo, no juízo final. PARALELOS, PONTES, PONTOS DE CONTATO Esse texto aparece somente em Mateus, mas pode ser trabalhado em paralelo com o texto de Lucas 12.35-37. TEMA Fiquem vigiando porque vocês não sabem qual será o dia e a hora (v.13). Nesses tempos modernos, uma das regras mais importantes da vida humana é estar preparado. Estar preparado profissionalmente, psicologicamente, financeiramente, etc. Estar preparado pode ser o diferencial entre o ter e o perder; entre a vitória e a derrota, entre a vida e a morte. Estar preparado, por exemplo, para um comerciante, pode significar: estar atento às tendências do mercado. Para um vendedor pode significar: estar atualizado com técnicas de vendas e as necessidades dos clientes. Estar preparado para um motorista pode significar: estar com a documentação e o veículo em dia. E, para o cristão, o que significa estar preparado? O evangelista Mateus escreve: [...] fiquem vigiando porque vocês não 187 Revista Agosto.indd 187 3/9/2009 23:47:08 Igreja Luterana sabem qual será o dia e a hora (Mt 25.13). A palavra vigiando tem vários significados, entre os quais: observar atentamente, espreitar, velar, cuidar, etc. (Minidicionário da Língua Portuguesa – Silveira Bueno). Essas palavras aplicadas à vida do cristão mostram como deve ser o viver de um filho de Deus. A história contada por Jesus, que leva o título A parábola das 10 virgens, é um exemplo clássico do que faziam as moças convidadas, no momento que antecedia o casamento. Para que possamos compreender a mensagem do evangelho, precisamos conhecer, primeiro, um pouco da cultura e da tradição do povo judeu da época de Jesus. Por isso, é importante lembrar que o casamento tinha três estágios bem distintos: Primeiro vinha o COMPROMISSO, quando era feito um contrato formal entre os respectivos pais da noiva e do noivo. A este seguia-se o NOIVADO, cerimônia feita na casa dos pais da noiva, quando promessas mútuas eram feitas pelas partes contratantes diante de testemunhas, e o noivo dava presentes à sua prometida. O homem e a mulher ficavam unidos um ao outro pela cerimônia de noivado, apesar de ainda não serem de fato marido e mulher; na verdade, tão obrigatório era o noivado que, se o homem morresse durante o período de noivado, a mulher era considerada viúva; o cancelamento de um noivado não era permitido; se, porém, acontecesse tal coisa, era semelhante a um divórcio. E, finalmente, depois do transcurso de cerca de um ano, havia o casamento, quando o noivo, acompanhado dos seus amigos, ia buscar a noiva na casa do seu pai e a levava em cortejo de volta para sua casa, onde se fazia a festa de casamento. É bem provável que seja este o cortejo das dez jovens da história contada por Jesus. Provavelmente elas fossem as damas de honra oficiais da noiva, ou criadas do noivo, ou filhas de amigos e vizinhos [...] TASKER, R.V.G. Mateus: Introdução e Comentário, p. 184). Em destaque na parábola contada por Jesus está o fato de essas jovens não saberem o momento que o noivo iria chegar ao local da festa. Isso exigia que elas ficassem atentas, velando, cuidando... Qualquer descuido poderia significar um grande vexame e vergonha para elas e para suas famílias. É fácil perceber o ponto de ligação da parábola contada pelo Mestre com a vida do cristão. O crente não só vive uma noite de espera pelo noivo, mas vive toda a sua vida na espera do momento em que vai se encontrar com Ele, o seu Salvador. E, assim, como o descuido de algumas das moças representou um desastroso fim de festa, para nós, cristãos, o descuido, o “não estar preparado” pode significar um triste, sofrido e 188 Revista Agosto.indd 188 3/9/2009 23:47:08 ùltimo domingo do ano eclesiástico eterno afastamento da grande festa preparada para os convidados de Deus, ou seja, a vida eterna no céu. O cristão, mesmo sabendo que foi chamado pelo Espírito Santo de Deus a crer e que nada do que ele possa fazer lhe é atribuído como mérito para sua salvação, se preocupa e procura estar preparado. O cristão leva a sério a advertência do apóstolo Pedro, que diz: Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o Diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar (1 Pedro 5.8). Para o cristão, perder a grande festa no céu é desperdiçar todo o sacrifício de Jesus em seu favor e em favor de toda humanidade. É subestimar o Diabo e suas armadilhas. Estar preparado é, em primeiro lugar, estar ciente de que todos são pecadores e que os erros e falhas impedem a todos de entrar na vida eterna. Estar preparado é reconhecer que por esses pecados o ser humano merece nada mais do que o desprezo e a condenação de Deus. Estar preparado é alimentar o coração e a mente com a palavra de Deus através de leituras bíblicas, reflexões e a participação de cultos e estudos bíblicos. Estar preparado é ser capaz de, pela fé e pelo poder do Espírito Santo, confessar para as pessoas a sua confiança em Jesus. Estar preparado, acima de qualquer coisa, é um estado de confiança, confiança em Deus. Uma segunda coisa muito importante que essa parábola nos revela, é que a salvação é individual, ou seja, eu, com a minha fé, não posso salvar outra pessoa. Isso nos é revelado na resposta à pergunta: Dêem um pouco de óleo para nós, pois as nossas lamparinas estão se apagando, que as moças sem juízo fizeram para as moças prudentes. E a resposta: De jeito nenhum [...] O óleo que nós temos não dá para nós e para vocês nos lembra de que ninguém vai entrar na vida eterna com o azeite, ou a fé de outra pessoa. Assim, por mais que amemos ou gostaríamos de poder salvar, com a nossa fé, aquelas pessoas que amamos e que estão à nossa volta, mas que, por um ou outro motivo estão afastadas de Cristo, não podemos. O que podemos fazer é estimular, animar, motivar e criar oportunidades, colocando-as em contato com a palavra de Deus, para que o Espírito Santo possa agir nelas. Prezados irmãos, as palavras: [...] fiquem vigiando porque vocês não sabem qual será o dia e a hora (Mt 25.13), ao mesmo tempo que soam como advertência, nos lembram que o Salvador virá. Isso é sinal de que aquilo que a Bíblia nos diz é verdade e que as promessas de Deus vão se cumprir. 189 Revista Agosto.indd 189 3/9/2009 23:47:09 Igreja Luterana Neste domingo, o último domingo do ano da Igreja – Domingo do Cumprimento – lembramos também que no próximo final de semana inicia o período do Advento o qual nos prepara para a primeira vinda de Jesus, como criança prometida para cumprir a grande missão de Deus, salvar a humanidade. Que nós saibamos centrar nossos pensamentos e ações no que, de fato, é o mais importante: o menino Jesus. E que este Menino encontre a todos preparados, afinal: [...] vocês não sabem qual será o dia e a hora” (v.13) que o Salvador vai voltar. Que estas palavras fortaleçam a vossa fé e os animem frente aos desafios de vossa vida. Em Jesus Cristo, Amém. Sergio Lauri Patzer Capão da Canoa, RS 190 Revista Agosto.indd 190 3/9/2009 23:47:09 Ação de Graças Dia Especial Salmo 65, Isaías 61.10-11, 1 Timóteo 2.1-8, Lucas 17.11-19 ou Mateus 6.24-34 Mateus 6.24-34 Contexto Mt 6.19-34 – Jesus convida seus seguidores para que ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer (v. 33). Deus não tolera rivais. Nem riquezas ou dinheiro (vv. 19-24), nem mesmo as preocupações (vv. 25-34) podem tomar o lugar de Deus e a confiança nele (Bíblia de Estudo NTLH). A perícope faz parte do Sermão do Monte, no qual Jesus destaca os privilégios e as responsabilidades daqueles que são os cidadãos do Reino do Céu. Texto Almeida coloca dois títulos para a perícope: para o versículo 24 “os dois senhores” e para os versículos 25-34 “a ansiosa solicitude pela vida”. A NTLH coloca a perícope completa sob o título “Deus e as riquezas”. Jesus nos coloca nesta perícope diante da decisão de servir a Deus ou servir às riquezas. Para isto faz a comparação de um servo a serviço de dois senhores. O resultado seria dedicar-se a um e desprezar o outro. A conclusão que Jesus faz a esta comparação é que não é possível servirmos a Deus e às riquezas ao mesmo tempo. Não há como conciliar ambas as coisas: se nosso ídolo é a riqueza, então não é possível servir a Deus. Segue-se o conselho de Jesus sobre as preocupações com o sustento da vida. O avarento, apegado ao seu dinheiro, tem falta de confiança em Deus e esta falta de confiança vai se mostrar numa ansiedade pelos cuidados da vida. Comida e vestimenta, o necessário para o sustento da vida, não deveriam nos causar ansiedade. Jesus argumenta do mais importante ao menos importante: “Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” Deus, que criou as coisas mais importantes, vai deixar faltar as menos importantes? Preocupação excessiva com comida e vestuário não somente esquece o Doador de todas as coisas 191 Revista Agosto.indd 191 3/9/2009 23:47:09 Igreja Luterana como também enfraquece os membros do corpo de maneira que eles não podem mais cumprir o trabalho rotineiro diário. Os pássaros fazem muito menos do que é esperado pelas pessoas em providenciar para o futuro. Eles não têm celeiros onde armazenar alimentos para prevenir-se de uma fome vindoura. Pense, portanto, naquele que lhes provê alimento e deles cuida. A mesa dos pássaros está, em certos momentos, repleta de comida daquilo que mais gostam, noutras vezes têm que se contentar com o que acham. No entanto, eles sempre têm o suficiente para viverem. Se Deus cuida assim destas criaturas humildes, não há razão para que providencie também para as pessoas que são seus filhos? Quão inútil é a ansiedade! Por acaso, pode a ansiedade encompridar a nossa vida? Por que, então, não deixar isto aos cuidados do nosso Criador? Assim como a ansiedade com a comida é desnecessária, o mesmo acontece com a ansiedade pela vestimenta. Salomão, que vivia em luxo incomparável, não teve o esplendor dos lírios do campo. Se Deus cuida assim da erva do campo, quanto mais não vai cuidar de nossa vestimenta? Jesus faz a aplicação de seu argumento contra a ansiosa preocupação. Os lírios, cujas flores nos ensinam uma grande lição, pertencem às ervas do campo; podem até ser classificados entre as ervas daninhas quando se avolumam na terra cultivável. Portanto, são de pouco valor dentro da ordem da criação. No entanto, Deus ornamentou os lírios com uma beleza incomparável. Deveriam os filhos de Deus se atormentar e ficar ansiosos por causa de vestuário que necessitam? Ficar atormentado pela preocupação de comida e vestuário é coisa de descrentes. Eles não têm outra perspectiva de vida senão confiar nestas coisas passageiras, coisas que o mundo oferece para aqui e agora. Não há erro nenhum em providenciar comida e vestuário para si e para a sua família. Também se deve lembrar que o cristão pode passar por necessidades e, nem por isso, Deus o está desamparando. O erro está numa preocupação ansiosa pelo sustento da vida sem confiar que Deus, através do trabalho, vai nos providenciar o necessário para comer e vestir. “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17), diz o apóstolo Paulo. Possuir a justiça de Deus e ser rico em boas obras, este é um alvo adequado à ambição cristã. Cada dia tem o seu próprio mal. Adicionar dificuldades para o dia, na preocupação do que o amanhã trará, não vai ajudar a resolver os problemas de hoje. É o futuro que nos traz ansiedade. Saibamos colocar cada 192 Revista Agosto.indd 192 3/9/2009 23:47:09 Ação de graças dia diante de Deus, pois “as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lm 3.22-23). Buscar hoje, em termos práticos, o reino de Deus e sua justiça, é procurar no seu evangelho a orientação para a nossa vida e receber o ser perdão no sacramento da Santa Ceia. Seguindo o seu evangelho também vamos experimentar a companhia acolhedora dos irmãos na fé que podem socorrer-se mutuamente, assim como a igreja primitiva já fazia. [Comentários do texto baseados em Popular Commentary, de Paul E. Kretzmann, e em Concordia Commentary, de Jeffrey A. Gibbs] Aplicações Homiléticas O alvo para o qual aponta o texto é que busquemos em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça. A moléstia que o texto apresenta é a preocupação ansiosa pela preservação de nossa vida: comida e vestuário. Os meios que o texto nos mostra é que Deus providencia o sustento de sua criação. Proposta Homilética Busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça I. A ansiedade pela preservação da vida é própria de descrentes II. Deus é o Criador e Mantenedor de sua criação III. A justiça de Deus se revela em ele ter tomado a iniciativa de nos enviar o Salvador. Raul Blum São Leopoldo, RS 193 Revista Agosto.indd 193 3/9/2009 23:47:09 Revista Agosto.indd 194 3/9/2009 23:47:09 DEVOCIONAIS NEM VARIAÇÃO, NEM SOMBRA DE MUDANÇA Tiago 1.12-18 Em nome de Jesus. Amém. Estimados estudantes do Seminário, funcionários, colegas professores; direção nacional da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, pastores e membros da IELB, senhoras amigas do Seminário. Estimados colegas Fernando Garske, hoje oficialmente sendo instalado como capelão do Colégio Luterano Concórdia; e colega Norberto Heine, querido amigo e grande companheiro de trabalho por vários anos no Seminário, hoje recebendo o justo reconhecimento da Igreja e do Seminário, com a concessão do título de pastor emérito do Seminário Concórdia. Queridos irmãos e irmãs. Nesta abertura de ano letivo do Seminário, uma pergunta: o que podemos esperar deste ano de 2009? Um ano que começou com inquietações em nível mundial, com reflexos também em nosso país. Um ano em que a Igreja também tem sérias preocupações com seu ministério, com a identidade confessional, com a perspectiva de num futuro próximo estar carente de muitos pastores. Que podemos esperar deste ano? Talvez uma pergunta mais pertinente para o nosso contexto seja esta: o que podemos – como Seminário Concórdia – esperar de Deus neste ano letivo de 2009? O apóstolo Tiago, na epístola de hoje, nos dá indicações para a resposta a esta pergunta. Ao final do texto ouvido há pouco (nos versículos 17 e 18) somos confrontados com uma linguagem que nos dirige para a criação. Deus é o “Pai das luzes”, aquele que criou os luminares, conforme Gênesis 1. A linguagem de Tiago no versículo 17 lembra fenômenos da astronomia. “Lá do alto”! “Pai das luzes”! “Variação, sombra de mudança” eram termos usados na astronomia para referirem-se ao movimento dos astros e a sombra causada por alguns destes movimentos, particularmente no caso de um eclipse. Então Tiago diz: ao contrário dos astros celestes, criados por Deus, o Criador não apresenta mudanças e nele não há sombras. Chama a atenção que imediatamente antes no texto Tiago fala das tentações pelas quais nós passamos. Lá ele afirma que Deus não é o tentador. Sem negar a participação do diabo, Tiago insiste que é a nossa própria cobiça que nos leva à tentação. Somos mutáveis, volúveis, muito facilmente levados por ventos da moda. Também no estudo da Teologia e na vida da Igreja! Em nós há sombras, causadas por mudanças da nossa inconstância. Tiago nos dá um recado sério: não jogue a culpa em Deus; 195 Revista Agosto.indd 195 3/9/2009 23:47:09 Igreja Luterana reconheça quem você é! Então o apóstolo diz: O nosso Deus não muda. Se por um lado o texto é uma crítica à nossa natureza inconstante, por outro, mais verdade ainda é sua afirmação da segurança que temos em Deus. Pelo fato de Ele não mudar, Suas promessas são firmes e seguras. Podemos colocar nele nossa confiança, pois não seremos enganados, nem frustrados. É a nossa vaidade e cobiça que trazem a tentação e o pecado. E o pecado gera a morte, diz Tiago. Deus, em contraste, pela Sua imutável palavra, gera vida! Ele nos “gerou pela Palavra da verdade”. Usando uma linguagem típica da criação, Tiago se refere ao nosso novo nascimento, pelo Batismo. Em Cristo somos novas criaturas, re-criados no batismo para novidade de vida. Tiago está nos convidando a, em meio às inúmeras mutações que presenciamos no mundo e em nós mesmos e em meio à insegurança causada por mudanças, que reconheçamos que em nosso Pai celestial, o doador de dádivas boas e preciosas, encontramos a doação mais cara: a nova vida, gerada pela Palavra. O que podemos esperar para o ano letivo de 2009? Muita coisa vem pela frente, com certeza. O texto bíblico de hoje nos orienta sobre duas coisas muito certas que podemos ter a certeza nos acompanharão na caminhada deste ano. Uma, as tentações. Segundo Lutero, a oração, a meditação na palavra de Deus e a tentação fazem o teólogo. E a tentação tem origem muita clara, uma tríplice origem: o diabo, o mundo, a nossa carne. Tiago acentua o papel desta última, a nossa própria natureza pecaminosa. É preciso reconhecer isto. Mas ... não devemos olhar demais para as tentações! Nosso foco deve estar em outro lugar! A segunda realidade que nos espera com toda a certeza é aquela que nos acompanha desde nosso batismo, nosso novo nascimento: receberemos dádivas, dons lá do alto. Bênçãos preciosas para a nossa fé e para o bem-estar em nossa vida e para o desempenho de nossas tarefas. Deus vai colocar pessoas a nossa volta que nos servirão de apoio, de ânimo e de conselho na caminhada. Deus vai nos sustentar apesar da realidade adversa que possa nos cercar. Ele nos dará oportunidades de crescimento no estudo e no trabalho aqui nesta escola de profetas. Algumas destas bênçãos podem ser aqui mencionadas, a título de exemplo. Recebemos há poucos dias a informação de nosso provedor, pastor Benjamim Jandt, que, a exemplo dos anos anteriores, também neste 2009, 10 distritos da IELB estão comprometidos em enviar, um a cada mês, uma oferta especial para a manutenção do Seminário. A Universidade Luterana do Brasil, que como é de conhecimento público, passa 196 Revista Agosto.indd 196 3/9/2009 23:47:09 Nem variação, nem sombra de mudança por dificuldades, ainda assim continua no seu propósito de oferecer aos estudantes de Teologia ministeriais a bolsa de estudos total para o curso na Universidade. Nossa biblioteca recebeu da parte da Igreja Evangélica Luterana do Brasil um auxílio especial para supri-la com literatura de que ainda carecemos. A educação Teológica por Extensão se expande, com a criação de um grupo de estudos na cidade de São Paulo, em convênio com a “Hora Luterana – Cristo para Todas as Nações”; e no exterior, além da continuidade da formação de pastores e diáconos em Angola, se apresenta a oportunidade de estendermos nossa educação teológica também para Moçambique. Aqui, bem no nosso meio, nosso querido colega pastor Norberto Heine, que interrompe sua atividade regular e semanal no Seminário, para nossa alegria se dispõe a continuar prestando um importante serviço de assessoria psicológica em diversos momentos, especialmente na recepção de novos alunos. Nosso Colégio Luterano Concórdia, que, a exemplo de tantas outras escolas particulares, tem diante de si o desafio ano a ano de manter seus alunos e especialmente a qualidade de ensino, inicia o ano com um bom número de matrículas e continua investindo num trabalho pastoral na comunidade escolar, hoje marcado pela instalação do pastor Fernando. São bênçãos – e apenas algumas delas. Há muitas outras que já estamos desfrutando e tantas mais que Deus está preparando para nós. E ao recebermos tudo isto, no tempo e no modo de Deus, a coisa mais importante será ... não olhar demais para estas bênçãos! Nosso foco deve estar em outro lugar. Neste tempo de quaresma, somos conduzidos a ter o foco não nas tentações, que certamente virão e nos lembrarão de nossa fragilidade. Somos conduzidos também a ter o foco não nas bênçãos, que tornarão nossa caminhada mais agradável. Não, o nosso foco – nossa principal atenção - estará no doador das bênçãos, no Senhor em quem não há mudança e que não nos tenta, mas nos preserva, sustenta e dirige em sua graça. Nosso foco estará, não só na quaresma, mas em todo o ano letivo de 2009, no gracioso Salvador Jesus. Que foi tentado por nós, e é poderoso e misericordioso para nos amparar quando nós somos tentados. Que sofreu amargamente o abandono do próprio Deus, por nós, para que nós não sejamos jamais abandonados, mas vivamos cada dia na certeza de que o Senhor nos acompanha, nos guarda, nos salva. Por isso, vamos em frente! Vamos ao trabalho na certeza da graça de Deus, que está conosco. Amém. 197 Revista Agosto.indd 197 3/9/2009 23:47:09 Igreja Luterana Mensagem proferida pelo Diretor do Seminário Concórdia, prof. Gerson L. Linden, no culto de abertura do ano letivo de 2009, no dia 1º de março de 2009. O culto marcou também a instalação do Rev. Fernando E. Garske como Capelão do Colégio Luterano Concórdia e a concessão do título de Pastor Emérito ao Rev. Norberto E. Heine. 198 Revista Agosto.indd 198 3/9/2009 23:47:09 O AGRICULTOR É DEUS! João 15.1-7 Vivemos em um mundo de muita cobrança. Um mundo que nos cobra rapidez, agilidade e produtividade. É comum a empresários demitir algum funcionário porque este não produziu conforme o esperado. Vivemos uma epidemia de estresse que é muito maior e mais perigosa do que a gripe suína ou a febre amarela. Pessoas ficam doentes porque a empresa estipulou metas muito altas, quase impossíveis de serem atingidas. Um pastor de certa religião acaba de fechar um templo, pois o lugar não deu o “retorno” esperado após algum tempo de tentativas... Neste modelo de mundo em que vivemos, baseado na ação, na cobrança, na produtividade, qual tem sido o papel da igreja de Cristo? Aliás, quais têm sido os seus planos e expectativas, caros colegas, em relação ao ministério que estão dispostos a assumir? Será que os seus livros de cabeceira serão do tipo: “Coloque sua congregação para trabalhar em 30 dias” ou “Pessoas trabalhando como Jesus gosta”? Talvez você sonhe em encontrar os colegas no futuro em algum Concílio, estufar o peito dizendo: “Minha congregação tem 138 comissões funcionando e as pessoas não saem da igreja...” Quem sabe os colegas deverão ouvir isto e dizer: “Esse é o cara!” Muitos pensam que a igreja deve adaptar-se aos tempos modernos. Mas será que é realmente correto entrarmos de cabeça neste ativismo que o mundo nos impõe? Não estou querendo com esta reflexão incentivar alguém à preguiça. Eu sei que nós, estudantes, esposas, professores e pastores, sempre temos muitas coisas para fazer. E eu não quero incentivá-los a ficar mais tempo dormindo ou deixar os trabalhos acadêmicos de lado. Mas confesso que me senti bem mais leve nestes últimos dias quando tive a oportunidade de ler e estudar esta passagem do Evangelho de João. Em especial o primeiro versículo, onde Jesus diz: “Eu sou a Videira verdadeira e meu Pai é o Agricultor”. Jesus traz uma mensagem de cuidado e tranquilidade para dentro de um mundo de tanta cobrança. Quando ele fala sobre videira, ramos e agricultor, eu logo imagino uma daquelas imensas parreiras lá da Serra Gaúcha. E penso no trabalho do agricultor que plantou o parreiral. Ele colocou a muda na terra, esperou com paciência, regou, adubou, colocou estacas, estendeu fios e podou. Tudo isto com um grande objetivo: colher frutos. Seu desejo e 199 Revista Agosto.indd 199 3/9/2009 23:47:09 Igreja Luterana seu pensamento não estão em outra coisa senão em se deliciar com o saboroso fruto, ao chegar a época. Quando Jesus diz que ele é a Videira verdadeira e que nós somos os ramos, ele quer ensinar que aquele que está unido com ele produzirá muito fruto, fará muita coisa boa. Mas tudo como consequência do trabalho do Agricultor. Deus é o Agricultor. E ele trabalha na vinha, poda os ramos, aduba, limpa. Em outras palavras, ele cuida de cada um de nós, trabalha em nós com sua Palavra, nos guia com a sua lei, nos perdoa continuamente, relaciona-se conosco através da sua Palavra e Sacramentos, providenciando tudo o que é necessário para que possamos permanecer unidos com Cristo e nele produzindo frutos de amor, fé, paciência, paz, perdão, bondade e misericórdia. Jesus fala de uma videira produtiva. Mas não são os ramos os responsáveis pela produção. Quem trabalha é o Agricultor. Quem trabalha é Deus. Eu sou a Videira Verdadeira e meu Pai é o Agricultor, diz Jesus. Certa vez Jesus contou uma parábola sobre homens que desejavam roubar a vinha do agricultor e cultivá-la eles mesmos (Lc 20). Apedrejaram a todos os enviados e não deram ouvidos nem mesmo ao próprio Filho que foi mandado para cobrar os frutos. E acabaram sendo destruídos, pois não entregaram o fruto requerido. Não vale a pena querer dar uma de agricultor. O agricultor é Deus. Quem trabalha é Deus. Deixem Deus ser Deus. E Deus trabalha muito bem. Nas congregações é muito natural ficarmos preocupados, achando que as coisas não estão andando como deveriam, que os departamentos não estão funcionando como deveriam, que as pessoas não estão ofertando, e a solução que muitos encontram é: Lei no povo! (“Vamos colocar no Estatuto que aquele que não participar de pelo menos duas assembléias por ano, será excluído!”). Que erro monstruoso querer que o povo de Deus tome o lugar do Agricultor... Por outro lado, é confortador saber que os frutos existem e serão produzidos. Naturalmente serão produzidos. A não ser que alguém esteja ligado a Jesus com aquela fé a qual Tiago diz que até os demônios têm. Este, na verdade, nem está ligado. Não pode a árvore boa produzir maus frutos. E a advertência sobre estas pessoas hipócritas é muito dura: serão cortadas e lançadas no fogo. Os frutos que naturalmente a árvore boa produz em seus ramos, não são aqueles frutos os quais gostamos de enumerar e contar para os outros dizendo: “Eu fiz isto, eu fiz aquilo, eu não fiz aquele outro”. Mas aqueles sobre os quais Jesus no último dia dirá: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes, preso 200 Revista Agosto.indd 200 3/9/2009 23:47:09 O agricultor é deus! e me visitastes”. Ao que os justos responderão: “Quando, Senhor, isto aconteceu”? (Mt 25) Dirão isto porque, vivendo suas vidas em união com Cristo, sequer perceberam o bem que faziam. Os frutos de que o texto fala não são aqueles do fariseu que bate no peito dizendo: “Eu te agradeço, ó Deus, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e te dou o dízimo de tudo o que ganho”... Mas sim os do publicano que, arrependido, diz: “Sê propício a mim, pecador” (Lc 18). E dependia de Deus, tudo esperava de Deus e colocava nele sua confiança. Queridos amigos: Não é outra coisa que Deus espera de nós que estamos em Cristo do que isto: um coração arrependido e apegado em sua graça. Uma vida de dependência e de descanso nele. Como a do salmista que diz: “Aguardo o SENHOR, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra”. (Sl 130). Por isto Jesus não grita: “Frutifiquem, produzam, alcancem as metas”. Como infelizmente hoje em dia muitos fazem, achando que estão imitando a Cristo. Mas ele diz e, colegas, prestem atenção nisto, onze vezes em dez versículos (Jo 15.1-10): “Permanecei”. “Permanecei em mim”. Jesus quer imprimir em nosso coração, quer gravar em nossa mente a coisa mais importante: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”: “Continuamente te alimentarei com minha seiva, com meus nutrientes, com a minha obra por ti. Continuamente te alimentarei com minha Palavra, com o meu perdão, com a minha Ceia”. Quando Jesus diz “permanecei em mim e eu permanecerei em vós”, ele não está usando figura de linguagem. A figura aqui é a videira e os ramos. Mas quando Jesus diz que ele permanecerá em nós, ele está sendo extremamente concreto. E nós provaremos isto quando recebermos a Santa Ceia, o corpo e sangue de Cristo que estará em nós, dentro de nós, nos garantindo perdão, vida e salvação e fortalecendo nossa ligação, esta nossa permanência com o Salvador. Que promessa consoladora Cristo faz aos discípulos que, diante dos acontecimentos da Semana Santa, estavam angustiados com a iminente ausência do Mestre que entregaria sua vida. Que promessa consoladora a nós que o amamos sem tê-lo visto. Ele morre, sim, mas volta a viver. Sobe aos céus, sim, no glorioso dia da Ascensão (que celebraremos amanhã), mas não vai embora, antes permanece com a sua Igreja, em sua Palavra e Sacramentos. Permanece em você e em mim, filhos batizados, fazendo com que nossas vidas transbordem de frutos verdadeiros. Meus queridos irmãos, num mundo que continuamente grita: “Vá, corra, mude, faça”, como é bom ouvir a doce voz de Jesus que diz: “Per- 201 Revista Agosto.indd 201 3/9/2009 23:47:10 Igreja Luterana maneça! Descanse. Repouse. Eu lhe dou tudo o que você precisa”. E enquanto vivemos nossa vida nesta fé, ligados em Jesus, o Pai vai colhendo os frutos que deseja e que já havia preparado desde a eternidade. E ele faz isto de uma maneira silenciosa. Tantas vezes nem percebemos que através de nós, instrumentos escolhidos, ele vai expandindo seu Reino da Graça. E se, às vezes, é necessário uma poda ou limpeza, quando se abate sobre nós o sofrimento e a perseguição, não precisamos temer, pois estamos nas mãos do Senhor e somos dele. Colegas, tenho tantas coisas para fazer e sei que vocês também têm. Muitos nem vieram a este momento devocional atarefados que estão. Mas que alegria poder parar um pouquinho para lembrar que existe um Agricultor divino que tem cuidado de cada detalhe da sua vinha e tem colhido frutos grandiosos, mesmo enquanto nós dormimos. Amém! Mensagem proferida pelo pastor Fernando E. Garske na capela do Seminário Concórdia, São Leopoldo, em maio de 2009 202 Revista Agosto.indd 202 3/9/2009 23:47:10 CUPOM DE ASSINATURA SIM! Desejo fazer uma assinatura da revista semestral Igreja Luterana. Para isso, estou assinalando uma das seguintes opções: ( ) Uma assinatura de Igreja Luterana por um ano, por R$ 25,00 ( ) Uma assinatura de Igreja Luterana por dois anos, por R$ 45,00 NOME: RUA OU CAIXA POSTAL: CEP: CIDADE: ESTADO: Após preenchida, coloque em um envelope esta folha acompanhada de cheque nominal ao Seminário Concórdia no valor correspondente e remeta-o para: REVISTA IGREJA LUTERANA CAIXA POSTAL, 202 – 93 001-970 SÃO LEOPOLDO, RS ASSINATURA-PRESENTE SIM! Desejo presentear com uma assinatura da revista semestral Igreja Luterana a pessoa indicada no endereço abaixo. Para isso, estou assinalando uma das seguintes opções: ( ) Uma assinatura de Igreja Luterana por um ano, por R$ 25,00 ( ) Uma assinatura de Igreja Luterana por dois anos, por R$ 45,00 NOME: RUA OU CAIXA POSTAL: CEP: CIDADE: ESTADO: Após preenchida, coloque em um envelope esta folha acompanhada de cheque nominal ao Seminário Concórdia no valor correspondente e remeta-o para: REVISTA IGREJA LUTERANA CAIXA POSTAL, 202 – 93 001-970 SÃO LEOPOLDO, RS Revista Agosto.indd 203 3/9/2009 23:47:10 Revista Agosto.indd 204 3/9/2009 23:47:10 Revista Agosto.indd 205 3/9/2009 23:47:10 Revista Agosto.indd 206 3/9/2009 23:47:10 Anotações Revista Agosto.indd 207 3/9/2009 23:47:10 Anotações Revista Agosto.indd 208 3/9/2009 23:47:10