5025 A PRESENÇA DA PSICOLOGIA EM PROCESSOS DE SELEÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL ENTRE OS ANOS 1930 E 1940. Maria Ângela Borges Salvadori Universidade São Francisco RESUMO Nas décadas de 1930 e 1940, diferentes companhias ferroviárias se dedicaram à criação de escolas profissionais destinadas à formação do futuro trabalhador ferroviário num processo que, historiograficamente, vem sendo analisado como um esforço dos empresários do setor para combater e minimizar os movimentos de contestação promovidos por esta categoria profissional, considerados sempre extremamente ameaçadores dada a importância do transporte ferroviário no período citado. Tais escolas, que a partir de 1934, passaram a ser subsidiadas pelo governo estadual, se caracterizaram pela introdução de processos de racionalização do trabalho nos moldes tayloristas e, neste sentido, visavam despolitizar o espaço da oficina e diluir os vínculos pessoais de solidariedade e identificação entre os trabalhadores. Nos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional – cerca de nove no Estado de São Paulo -, estes processos de despolitização e isolamento também foram implantados, feitos a partir da separação entre os espaços do trabalho e da formação, da introdução do uso de séries metódicas em substituição ao convívio com o mestre de ofício e, principalmente, pela inclusão de instrumentos “científicos” e “racionais” enquanto garantias de neutralidade e exatidão na escolha dos futuros alunos. Dentre esses instrumentos estavam a psicologia, a psicometria e a medicina. Antes da implantação desses Centros, ensaios já tinham sido feitos com a criação, em 1924, da Escola de Mecânica anexa ao Liceu de Artes e Ofícios do Estado de São Paulo. Este trabalho trata, especificamente, do uso de uma certa psicologia de matriz mais experimental e tendência quantitativa na seleção do futuro ferroviário, jovem aluno do Centro, e na definição de um “perfil” adequado ao ofício. Para tanto, utiliza como fontes principais artigos que, publicados na Revista do IDORT (Instituto de Organização Racional do Trabalho), relacionam psicologia, educação e trabalho. A escolha desta fonte se dá pelo fato de que, no Estado de São Paulo, estes Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional foram organizados e administrados por profissionais – engenheiros, médicos, professores, dentre outros – que pertenciam aos quadros do IDORT. A análise de tais artigos indica que, tal como assegura Foucault, esta psicologia procurava amparar-se nas ciências da natureza e, por isso, analisava o jovem aluno, futuro ferroviário, antes por seus atributos biológicos, entendidos como mensuráveis, previsíveis e controláveis, desconsiderando eventuais escolhas, opções, vontades e convivências sociais. Trata-se, portanto, de pensar o papel deste conhecimento psicológico num processo de “sujeição do sujeito” a critérios que lhe são exteriores e que procuram desprover-lhe de vontade no mesmo tempo em que visam estabelecer parâmetros mais estáticos e descontextualizados para a definição das etapas da vida. Além disso, esta pesquisa pretende reiterar a hipótese da inexistência de um conflito entre grupos empresariais que defendiam o ensino técnico e os chamados “profissionais da educação” pois a aposta na eficiência desse tipo de conhecimento está presente em ambos os discursos. Por fim, amparada por uma produção teórica mais diretamente ligada à história social, pretende ainda sinalizar para os limites e “ineficiências” desses processos mostrando que, para alguns dos jovens que freqüentaram os Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional, foi possível construir e compartilhar uma identidade profissional que o fazia, acima de tudo, parte de um grupo cujo orgulho do ofício e o respeito da categoria foram e continuam sendo sempre ressaltados nos trabalhos com a memória de alunos e professores destas escolas. 5026 TRABALHO COMPLETO A preocupação central que orienta este trabalho, a saber, o modo de inserção de conhecimentos do campo da psicologia na seleção e educação de jovens para o trabalho, nasceu no entrecruzamento de outros dois problemas de pesquisa: estudando a criação, no início dos anos 1930, dos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional - escolas técnicas implantadas por diferentes companhias ferroviárias de São Paulo, posteriormente subsidiadas pelo governo estadual e voltadas para a formação do trabalhador ferroviário -, foquei a atenção em duas questões que particularmente me chamavam a atenção: o crescente esforço, por parte dessas escolas, em isolar diferentes gerações de ferroviários e afastar os jovens uns dos outros, inclusive pela fixação de separações espaciais e, tangencialmente, os diferentes significados atribuídos à juventude, não necessariamente assim categorizada, por parte daqueles que dirigiam esses centros ou com eles dialogavam. Foi por conta da preocupação com a constituição histórica dessa categoria, a juventude, em especial por conta da preocupação com os jovens das classes populares nas décadas de 1930 e 1940, que passei a me interrogar também sobre as relações entre educação, pedagogia e psicologia naquele momento. Este texto traz parte deste percurso e procura refletir sobre os modos pelos quais uma dada ciência psicológica foi usada de forma recorrente como legitimação de processos de seleção de alunos e de formação profissional baseados na associação entre a juventude e os atributos físicos e na idéia de habilidades inatas. Assim, em sua construção, cruzam-se informações relativas aos próprios Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional, à história da psicologia no Brasil e à relação entre esses conhecimentos e a educação. Para tanto, além da bibliografia de referência, foram utilizadas como fontes privilegiadas de pesquisa as Revistas do IDORT – Instituto de Organização Racional do Trabalho –, alguns números da Revista de Educação publicada pela Diretoria de Instrução Pública do Estado de São Paulo, os boletins publicados pela Seção de Psicotécnica dos Centros e, ainda, alguns dos volumes da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos vinculada ao Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos do Rio de Janeiro. Artigos relativos à psicologia da educação foram buscados nesses periódicos, particularmente aqueles pelos quais se pode tentar reconstruir os significados atribuídos pela psicologia à juventude naquele período, bem como os que tratam da educação profissional dos jovens das classes populares. A história da criação dos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional remonta aos Liceus, em especial ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, e à experiência pioneira da empresa Sorocabana em enviar alguns alunos para o aprendizado na Oficina Mecânica que funcionava junto àquela instituição. Os resultados daquela experiência, considerados positivos por seus mentores, levaram a Companhia Sorocabana de Estradas de Ferro à criação do primeiro "Curso de Ferroviários", em 1930. Os centros se relacionam também aos projetos de uma geração de engenheiros da Escola Politécnica diretamente envolvidos com a questão da organização racional do trabalho e da “aplicação” do taylorismo no Brasil. Por fim, encontram respaldo por parte de empresários que adotam a taylorização como caminho extremamente eficiente para a luta contra a politização do espaço da fábrica. Em 1934, o governo do Estado de São Paulo oficializou tais escolas e, a partir de então, os Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional puderam contar com verba e apoio públicos (FEPASA, s/d.). Historiograficamente, a adesão aos pressupostos do taylorismo vem sendo analisada como um esforço dos empresários do setor para combater e minimizar os movimentos de contestação promovidos por esta categoria profissional, considerados sempre extremamente ameaçadores devido à importância do transporte ferroviário no período citado1. Para tanto, implantam-se nas escolas profissionais processos bastante semelhantes àqueles que caracterizam o trabalho na fábrica cujos objetivos principais eram despolitizar os espaços de aprendizado e da oficina e diluir os vínculos pessoais de solidariedade e identificação entre os trabalhadores. Nos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional, estes processos de despolitização e isolamento levaram à separação entre os espaços do trabalho e da formação, à introdução de séries metódicas em substituição ao convívio com o mestre de ofício e, principalmente, à inclusão de instrumentos “científicos” e “racionais” para a “garantia” de neutralidade e exatidão na escolha dos futuros alunos. Foi no campo da psicologia que algumas dessas garantias foram buscadas. 5027 Em trabalho relativo à história da psicologia no Brasil e suas relações com a educação nas primeiras décadas do século XX, Regina Helena de Freitas Campos (2005) aponta para o fortalecimento da psicologia enquanto um saber capaz de oferecer “respostas” aos problemas colocados pela modernidade capitalista relativos ao adensamento populacional nas cidades, ao acirramento das desigualdades, à aceleração dos ritmos do tempo, à intensificação dos conflitos sociais, entre outros. No Brasil, este fortalecimento pode ser perseguido em trabalhos de alguns dos educadores que se identificaram com o movimento da Escola Nova e na criação de laboratórios de psicologia experimental, lugar de convergência de discursos sobre a higiene mental e de aplicação de instrumentos de diagnóstico voltados à aferição de caracteres individuais variados. A própria introdução da psicologia, em particular em sua vertente experimental, nos cursos de formação de professores atesta a forte presença desse conhecimento no campo da educação. Enquanto fundamento da pedagogia, a psicologia experimental passou a orientar processos de formação de classes, seleção de conteúdos, avaliação e orientação profissional, entre tantos outros. Ciência dos tempos modernos, esta psicologia de caráter mais experimental tinha também como pressuposto um processo de individualização consagrado por instrumentos tais como os testes de inteligência, de personalidade e psicométricos. Esta psicologia “aplicada” ao campo da educação apostava na imparcialidade dos instrumentos de medição como critério científico capaz de garantir qualidade e eficiência ao trabalho pedagógico (CAMPOS, 2005). A valorização da psicologia e, principalmente, da psicotécnica como instrumentos para a boa seleção e preparo profissionais aparece já de modo explícito no primeiro boletim publicado pelo Centro Ferroviário que trazia um trabalho do engenheiro Roberto Mange datado de 1936. Neste trabalho, Mange, por muitos anos diretor da instituição, defendia a psicotécnica como conhecimento capaz de garantir o êxito da seleção e formação profissionais posto que tais processos, seguramente, seriam responsáveis por uma “seleção natural” dos mais qualificados para o trabalho na ferrovia (MANGE, 1936, p. 43). Ainda neste mesmo número, ao explicar o que eram os Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional, Mange ressaltava o “caráter” dessas instituições, “essencialmente técnicas”, e alguns dos princípios que as regiam: “rápida verificação estatística da eficiência dos métodos adotados”, “determinação de índices relativos às condições psicológicas e de aptidão profissional”, “controle e equilíbrio quantitativo dos elementos formados pelas Estradas” e, por fim, “seleção profissional baseada no estudo de todos os elementos capazes de proporcionar um conhecimento preciso das características individuais de ordem psicofísica e de aptidão funcional, integrados quanto possível pelos índices caraterológicos e de adaptabilidade ao meio” (MANGE, 1936, p.30). Os boletins trazem, ainda que de modo indireto, informações sobre como os organizadores desses centros pensavam a juventude. Assim, por exemplo, neste mesmo documento, Mange afirmava que os centros recebiam alunos em sua fase “pré-adolescente”. Ora, no início do século XX, a conceituação da adolescência era feita principalmente em termos das mudanças ocorridas no organismo e de seu amadurecimento biológico. A “adolescência”, portanto, aparece como conceito mais individualizante e biológico, contribuindo para o afastamento de uma perspectiva mais social e histórica de análise da experiência da juventude. Os processos de seleção de alunos nos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional indicam que a psicologia (ou uma certa psicologia experimental de forte influência nos meios educacionais naquele período) e a psicometria promoveram uma leitura da juventude - de modo especial da juventude operária, já que assim podemos chamar esses jovens que, logo após o término da escola primária, com cerca de 13 anos, precocemente ingressavam no mundo do trabalho, ainda que pela porta da escola - que buscava individualizar e desqualificar o sujeito a partir de sua sujeição a todo um sistema de classificação cujos critérios lhe eram exteriores ou alheios, porém impostos como verdadeiros já que oriundos de conhecimentos científicos. O que se observa é a valorização do diagnóstico do especialista - o médico, o psicólogo e o engenheiro - nos processos de recrutamento de futuros alunos em detrimento da vontade do sujeito, da sua escolha, o que significa pensar em estratégias de poder muito próprias à modernidade que, pautadas por um padrão iluminista de ciência e de racionalidade, justificam-se e ganham legitimidade. Assim, o princípio dessa nova formação era o apagamento da condição do trabalhador ferroviário em relação ao seu pertencimento a um grupo e um esforço por dar-lhe uma nova identidade que, construída a partir do ingresso nos CFESP, se vinculava mais a atributos e qualidades individuais dimensão do tórax, habilidades motoras, acuidade visual, rapidez de gestos, aspectos do 5028 desenvolvimento mental e emotivo, desenvoltura no tratamento com as séries metódicas - do que por uma experiência social compartilhada. Esta "sujeição do sujeito" buscava operar desde os processos de escolha dos futuros alunos até os cursos de aperfeiçoamento mantidos pela instituição. Esta perspectiva fica bastante clara nas falas daqueles que defendem a seleção e a orientação profissional como condições fundamentais para a felicidade do indivíduo, da família e da pátria, instrumento objetivo para a resolução dos problemas sociais. Num artigo publicado em 1934 na Revista de Educação, Juventina Santana discutia a importância dos exames psicológico e médico enquanto instrumentos capazes de impedir que os jovens se tornassem tanto "perigo social" quanto prejudiciais a si mesmos. Assim, os testes oriundos da psicologia experimental garantiriam a verificação objetiva de capacidades e aptidões, evitando que, no futuro, o adulto trocasse constantemente de profissão ou fosse "desencorajado por fracassos sucessivos" provocados pela escolha de um ofício cujas exigências estariam para além de suas capacidades. Os testes de inteligência, neste sentido, eram entendidos como instrumentos precisos para a determinação tanto da duração da vida escolar quanto da modalidade educacional para a qual o aluno devia ser encaminhado. Aliado ao exame psicológico encontrava-se o exame médico a partir do qual eram obtidas informações fundamentais para a orientação e escolha profissional relativas à adequação física e fisiológica do indivíduo à profissão pretendida. Por último, Juventina trata das questões relativas à "higiene mental": " Comumente, vemos indivíduos revoltados contra seu mister do qual se desgostam por não terem eles próprios, ou seus pais ou responsáveis pela sua educação ou orientação, obedecido às suas tendências naturais. Dado o choque entre as aptidões do indivíduo e o trabalho que exerce e que não pode abandonar, por não possuir outro meio de vida, o seu temperamento vai se tornando irascível. Isto faz com que a pessoa caminhe a passos largos para o esgotamento nervoso que, num crescendo, lhe acarretará a ruína orgânica e malefícios para a família, chegando mesmo a levá-lo à psicopatia declarada. É este um dos pontos em que a Orientação Profissional tem entrelaçamento íntimo com a Higiene Mental. A Orientação Profissional visa, portanto, robustecer as funções psíquicas antes que arruiná-las. Com a higidez psíquica vem a higidez corporal, uma na dependência da outra. Um erro na escolha da profissão pode, muitas vezes, conduzir o indivíduo ao crime, freqüentemente através da vadiagem" (SANTANA, 1934: 56). Assim, a psicologia, a medicina e a higiene aparecem como saberes capazes de explicar cientificamente, de modo neutro, imparcial e inquestionável, portanto, os conflitos sociais; elas transformam o sentido da vontade: a resistência, via rebeldia e recusa, deixa de ser expressão de uma escolha, deixa de ser possibilidade de conduzir-se como sujeito e passa a ser resultado, inadaptação. O problema social não era mais "caso de polícia" e sim de saúde pública. Era esse também o teor de outros textos publicados na Revista de Educação: Aristides Ricardo, em 1939, criticava o ingresso numa profissão feito a partir da "influência", sempre considerada perversa, de pais e/ou amigos movidos por fatores emotivos. Tal escolha deveria ser feita, antes, por medidas objetivas que considerassem as aptidões naturais demonstradas pelas crianças e adolescentes (RICARDO, 1939, p.37); Frontino Brasil, diretor de escola pública em Sorocaba, escrevia sobre uma "nova era, cheia de paz" que estaria à espera dos "nossos obreiros ora sacudidos por constantes agitações cujos prejuízos fácil é aquilatar" desde que obedecidos os critérios de organização racional do trabalho que começavam pela seleção racional do futuro operário (BRASIL, 1939, p.41). Estes conhecimentos e pressupostos foram amplamente utilizados nos Centros Ferroviários de Ensino e Seleção Profissional do Estado de São Paulo que possuíam seções e departamentos específicos de psicometria e medicina; por várias vezes, aparecem como temas de publicações endógenas e/ou partes integrantes de balanços e relatórios das diferentes companhias ferroviárias paulistas. Em 1942, por exemplo, o boletim n.º10 do CFESP traz o trabalho da professora Lourdes de Campos Viégas a respeito de medidas antropométricas e índices de robustez, elaborado na Seção de Psicotécnica juntamente com a inspetoria médica. A professora inicia seu estudo explicando que o ingresso de alunos estava condicionado à idade - entre 14 e 16 anos - e à aprovação nas quatro etapas do processo seletivo: prova de conhecimentos gerais (pois os aspirantes a alunos deveriam saber ler, escrever e realizar as quatro operações básicas), exame médico, provas psicotécnicas de aptidão e 5029 verificações "caracteriológicas e sociais". Seu objetivo específico, contudo, é determinar um padrão antropométrico e fixar um índice de robustez que seja adequado ao futuro trabalhador ferroviário e, para isso, a autora trabalha com as variáveis “idade”, “altura”, “peso” e “perímetro torácico”, tecendo comparações entre os padrões dos candidatos que se apresentam aos CFESP e jovens de outras partes do mundo, especificamente Bélgica, França, Suécia, América do Norte e "Lisboa" (sic), apontando a existência de condicionantes relativas ao clima, à raça e às "próprias diferenças de ordem social" no que se refere à constituição de padrões antropométricos que, todavia, não impediam, segundo a autora, a definição de um índice que pudesse ser usado como parâmetro para a inclusão ou recusa de um candidato. Para as medidas antropométricas, eram estabelecidas cinco categorias: normal ou média, de transição superior ou inferior e extremas (excepcionais superior ou inferior). No caso da definição do padrão de robustez, há uma discussão sobre o "índice de Pignet", calculado pela fórmula "altura - peso + perímetro torácico", e o "índice ponderal" para o qual é preciso "extrair a raiz cúbica do peso para transformá-la em valor comparável à altura". Em ambos os instrumentos de medida, altura e peso são determinantes; no índice ponderal, porém, o perímetro torácico é deixado de lado, razão pela qual a autora parece preferí-lo ao outro (VIÉGAS, 1942). Como se vê, parte do processo de seleção de seleção dos futuros alunos, depois trabalhadores, passava pela submissão a instrumentos de medição que incidiam sobre o corpo determinando-lhe padrões de normalidade a partir da ordenação de saberes técnicos que, evidentemente, eram estranhos aos próprios jovens. O Serviço de Psicotécnica do CFESP trabalhava com uma grande quantidade de testes de aptidão ligados à inteligência, memória, percepção de formas, senso técnico, acuidade dos sentidos, habilidades, coordenação e orientação dos movimentos, entre outros, a partir dos quais era estabelecido o perfil psicotécnico do aluno, com a atribuição de notas que variavam de zero a dez. As fichas gerais dos alunos continham ainda um "resumo da ficha médica", um "resumo da ficha social", inclusive com informações sobre os pais e espaços para outras observações. Ítalo Bologna, ao falar sobre o trabalho de seleção de jovens no CFESP ressaltava a importância daquela "investigação social" assimilando um vocabulário muito próximo àquele usado pela polícia e indicando uma criminalização das classes populares (BOLOGNA, 1942). Assim, os discursos médico, psicológico, biológico e jurídico se encontravam. Essa idéia de perigo associada aos jovens das classes trabalhadoras também aparece na fala de Raul Briquet durante a Quinta Conferência de Educação realizada em Niterói, em 1932. Briquet, um dos pioneiros da psicologia social no Brasil, médico por formação e signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, afirmava que o início da adolescência se dava aos doze anos e terminava aos dezoito, tratando esta etapa também pelo adjetivo "juvenil". Segundo ele, essa era a fase na qual surgiam "sentimentos e impulsos"; os jovens eram vistos por ele como sendo "superlativos", conduzidos pela lei do tudo ou nada; desprovidos do senso de medida, submetidos a "crises de antagonismo", "tudo é arrebatamento, sofreguidão, excesso de vigor físico e mental" ou, no outro extremo, "apatia". Cabia ao adulto, para Briquet, fazer esta idade da tormenta chegar ao equilíbrio que deveria reger a vida adulta saudável (BRIQUET, 1933, p. 47); tudo indica que a educação profissional foi um dos caminhos pelos quais se considerou ser possível conduzir o jovem a este estado de equilíbrio, tentando subtrair-lhe possibilidades de contestação e mudança. Assim, observa-se uma diferença bastante significativa entre os processos de conceituação que, por um lado, utilizam os termos “adolescência” e “puberdade”, e aqueles que, por outro, nomeiam esta fase da vida como período da “juventude”. Nos primeiros, prevalece a descrição das mudanças físicas, hormonais; no segundo, consideram-se vivências mais específicas, o tempo, o espaço e os conflitos nos quais essas vivências se dão. Exatamente por envolver conflitos sociais e geracionais é que a conceituação “juventude” não se presta a definições estáticas ou absolutas; a juventude aparece definida e delimitada por critérios diferentes em diferentes documentos: o que é ser jovem para o Estatuto da Criança e do Adolescente hoje, por exemplo, não é o mesmo que a juventude representada por revistas destinadas a essa população, por exemplo. Do mesmo modo, as expectativas diante da juventude, suas possibilidades futuras, os perigos, a inserção no mundo do trabalho, variam entre grupos sociais, antecipando-se ou alongando-se no tempo. Algumas dessas preocupações constituíam o cerne do artigo publicado por Almeida Júnior em 1933 no qual o autor dizia sobre o perigo do hiato existente entre a infância e a adolescência. Usando a categoria “pré-púbere” para definir a fase entre os 11 e os 14 anos de idade, o autor discutia a ausência, inclusive em termos legais, de medidas de intervenção e proteção específicas para essa 5030 população. Segundo ele, a obrigatoriedade do ensino primário contribuía para a permanência das crianças de 7 a 11 anos na escola e, na outra ponta, o Código de Menores estabelecia a idade mínima de 14 anos para o ingresso formal no mundo do trabalho. Tal situação determinava um risco imediato para os que se encontravam na fase intermediária, entre os dois períodos: “Ei-los, pois, abandonados pela lei, proibidos de trabalhar, mas sem ter o que fazer; entregues a si mesmos durante três anos, num grande hiato semeado de insídias e dificuldades. No mapa demográfico de nossa Capital, representam eles a faixa escura da pobreza esquecida, do abandono, da vagabundagem...”(ALMEIDA JÚNIOR, 1933, p. 31). Também designados como “adolescentes”, Almeida Júnior os caracteriza do ponto de vista psicológico como “turbulentos, agressivos, viris e irascíveis”. Eles formam “zonas de concentração em terrenos vagos, ao lado de fábricas fechadas, nas travessas menos habitadas, onde possam dar livre expansão às inclinações para a turbulência e o ruído” (ALMEIDA JÚNIOR, 1933, p.34). Por fim, a guisa de síntese, ele sentencia: “Aí está, em pinceladas amplas, a identidade dos menores de 11 a 14 anos, dos menores que a lei abandona. No físico é ´idade frágil e perigosa`, a época que `mais atenção e mais cuidado merece`. No espírito, a fase da turbulência e da rebeldia, o período difícil da formação psíquica. Socialmente, notável propensão para a delinqüência” (ALMEIDA JÚNIOR, 1933, p. 36). A historiadora Michelle Perrot (1996) atentou para as diferenças presentes no processo de construção das categoriais com as quais se classificavam as etapas da vida no século XIX: a categoria “adolescência”, segundo ela, está fundamentada no campo da biologia e da moral, particularmente da moral sexual, tal como Rousseau estabeleceu em Emílio; a juventude, por outro lado, se associa ao estudo, numa definição que se embasa no intelectual. Mas, além de salientar essas diferenças, Perrot mostra a dificuldade em usar estas categorias quando se quer compreender a experiência de vida dos jovens das classes trabalhadoras, naquele período radicalmente diferente, e certa “ausência” de fontes mais diretas. De qualquer modo, ela considera, preliminarmente, que a condição do ser jovem, para as classes operárias, começa com a inserção no mundo do trabalho - quer na condição efetiva de trabalhador, quer na condição de aprendiz – e se encerra no momento do casamento. Este é o intervalo que, segundo a autora, delimita a juventude operária na França. De modo diferente, para os jovens da burguesia, os limites envolvem outros rituais e períodos, em geral associados à progressão nos estudos e à conquista de maior autonomia e liberdade (PERROT, 1996). Interessa, portanto, ressaltar a impossibilidade de definição de critérios universais para a definição e classificação desta e de outras etapas da vida, procedimento que estava exatamente na base da psicologia educacional anteriormente citada. No Brasil, essas associações e classificações também levaram em conta a construção de uma representação social dos pobres que os aproximava de modo quase determinista da criminalidade, numa associação que, em período posterior à abolição, justificou uma série de medidas de controle, “profiláticas” e de vigilância sobre as classes populares. Se a adolescência era vista como fase turbulenta, a adolescência pobre é vista como ainda mais ameaçadora. As Revistas do IDORT – Instituto de Organização Racional do Trabalho – constituem outra fonte privilegiada para a busca dos modos de inserção dos conhecimentos da psicologia experimental, de matriz quantitativa, na educação brasileira na primeira metade do século XX. Parte significativa dos volumes da revista publicados nas décadas de 1930 e 1940 traz artigos sobre as relações entre conhecimento psicológico e conhecimento pedagógico. Os artigos tratam de aplicação de testes, homogeneização de classes escolares a partir da classificação dos alunos segundo seu desempenho em testes de maturidade mental, emocional e social, instrumentos para a medição objetiva do rendimento do trabalho escolar e orientação profissional; apresentam, ainda, muitas traduções de obras de psicologia experimental e educacional oriundas da Europa e dos Estados Unidos. Pode-se observar um intercâmbio bastante intenso entre o IDORT, os Centros Ferroviários de Ensino e Educação Profissional, o Departamento de Ensino do Estado de São Paulo e os laboratórios de psicologia 5031 instalados no país, particularmente o do Colégio Caetano de Campos. Este intercâmbio fica evidente pelos autores dos artigos e seu trânsito em meio a esses diferentes órgãos e instituições. Na análise da infância e da juventude os artigos, em boa parte escritos por médicos, tendem mais uma vez a “naturalizar” as etapas da vida. Assim, por exemplo, encontram-se artigos de médicos sobre a importância da alimentação no desenvolvimento físico e psíquico das crianças e jovens dos quais o texto de Mário Egydio de Souza Aranha é um exemplo. Aranha começava seu artigo ressaltando o papel das glândulas do corpo humano e do sistema nervoso nos processos de crescimento. Em seu texto, encontramos a puberdade como um dos parâmetros de diferenciação das etapas da vida: “(...) em seguida vem o período puberal, variável com raça e clima, e muito mais precoce entre nós, que se traduz também por um crescimento longitudinal até os quinze anos. Nos dois anos que se seguem, observa-se novo período em que se desenvolvem os diâmetros antero-posterior e horizontal, com o aumento de peso acentuado graças ao volume maior dos órgãos cujos tecidos de sustentação se hipertrofiam muito, mercê das secreções das glândulas genitais” (ARANHA, 1941, p. 59). Não se trata, certamente, de questionar a importância da boa alimentação no desenvolvimento físico e psíquico; trata-se, antes, de demonstrar com um exemplo o predomínio de matérias que pensavam a juventude a partir das categorias “puberdade” e “adolescência”, pelos saberes médico e psicológico, desvinculadas da análise social sobre as condições efetivas das diferentes experiências de infância e juventude no Brasil. Um outro artigo, também de um médico, mostra essa desqualificação da juventude enquanto experiência social e o desejo de submete-la ao interesse do adulto. E. de Aguiar Whitaker, médico assistente do hospital do Juquery, em artigo datado de 1935, defendia o uso do teste de Rorschach nos serviços de orientação profissional, um “test genial capaz de atingir a estrutura complexa da personalidade”. Tal teste consistia na apresentação de séries de dez figuras simétricas, de cores diferentes, que deveriam ser analisadas pelo “paciente”, avaliando-se “o quanto” ele pode ver nas figuras, “como” viu e “o que se viu”. As respostas a estas questões levariam ao reconhecimento de personalidades mais ou menos inteligentes, dotadas de mais iniciativa ou não; poderiam, ainda, garantir o reconhecimento de casos de esquizofrenia, epilepsia, deficiências mentais variadas, entre outros. Whitaker defendia o uso deste teste na orientação profissional como instrumento de segurança social e pessoal: “Todo aquele que venha a seguir uma carreira inadequada transforma-se em um perigo para a coletividade e, ao mesmo tempo, em inimigo de si próprio”. Esta ameaça era ainda maior quanto alinhada ao fato de que esta escolha se dá durante a juventude: “Ficou patentemente demonstrado que o interesse que manifeste um jovem por uma carreira determinada não constitui, de modo algum, critério certo de escolha; pode, por exemplo, o indivíduo mostrar-se muito inclinado para a medicina e, não obstante, carecer de inteligência suficiente para os vários estudos e exames necessários” (WHITAKER, 1935, p. 101). Comparando alguns esses artigos, fica evidente o predomínio de uma visão positiva da “puberdade” e da “adolescência” como momentos de construção de uma vida futura promissora desde que sob boa orientação e gestão; o uso do termo “juventude”, entretanto, remete, via de regra, a situações nas quais é preciso controle, domínio, submissão da vontade. Deste modo, parece que aqui também fazem sentido as análises da historiadora Michelle Perrot relativamente a um recorte mais político que atravessa a construção desta última categoria a partir do século XIX. Um último exemplo, neste sentido, aparece em artigo de Ana Rimoli de Faria Dória, membro do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, publicado no periódico daquele órgão. Embora o título do artigo seja “Problemas da Adolescência”, é com a palavra juventude que a professora Ana trabalha quando quer se referir à necessidade de controle e sujeição do indivíduo cujo traço principal é a rebeldia e a insubordinação: “O jovem nesta idade não constrói nada de positivo, de real, de concreto. Sua vontade não é firme nem o raciocínio seguro; os 5032 sentimentos não são equilibrados. Sonha dar volta ao mundo e regressa aos três dias, desiludido com sua primeira atividade fora de casa. Não podendo – pelas próprias condições da natureza – conseguir êxito nos seus planos de aventura, lança a culpa de seus fracassos ao meio onde ele viveu. Aborrece-se amargamente com os pais(...) Odeia o mundo e todos os que nele se encontram. Prefere isolar-se cada vez mais, enclausurando-se dentro de si próprio...” (DÓRIA, 1948, p. 49). Os artigos aqui citados indicam que é preciso considerar a hipótese de que os discursos da medicina e da psicologia - com as supostas garantias científicas que lhe eram então caras, com a defesa da homogeneização de critérios a serem adotados para a compreensão da experiência de ser jovem, com o uso constante de instrumentos de medição de capacidades físicas e intelectuais, com a argumentação a respeito da neutralidade de seus procedimentos - tenham contribuído para intensificar os processos de controle, vigilância e repressão que incidiram particularmente sobre as classes populares, em especial nas médias e grandes cidades brasileiras, no início do século XX2. Ou, em outras palavras, tenham sido utilizados nas escolas, nos institutos disciplinares que abrigavam menores delinqüentes, nos asilos de “desvalidos” e em outras instituições educativas como legitimadores de formas de intervenção social que tinham nas classes populares o seu lugar privilegiado de execução. A “patologização” da juventude, ao lado de sua “criminalização” foram as bases de um projeto de controle que procurava se impor a todos os momentos da existência. Referências bibliográficas: ALMEIDA JUNIOR, A. O hiato nocivo da vida legal dos menores. Revista de Educação, São Paulo, Departamento de Educação do Estado de São Paulo, março de 1933, p. 25-33. ARANHA, Mario Egydio de Souza. A alimentação no desenvolvimento físico e psíquico do escolar. Revista de Organização Científica, São Paulo, IDORT, 1941, vol. X, n.ºs 116-120, p. 59-61. BONFIM, Elisabeth de melo. História dos cursos de psicologia no Brasil. Psicologia e Sociedade, vol. 16, n.º 2, Porto Alegre, maio/agosto 2004, p. 32-36. BOLOGNA, Ítalo. O fator humano nas estradas de ferro. São Paulo: CFESP, 1942. BRASIL, Frontino. Em torno do Ensino Profissional. Revista de Educação, São Paulo, Departamento de Educação, 1939, vols. XXIII a XXVI, p. 38-41. BRIQUET, Raul. Psicologia educativa do adolescente. 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São Paulo: FEPASA, s/d. 5033 MANGE, Roberto. Formação e seleção profissional do pessoal ferroviário. São Paulo: CFESP, 1936. PERROT, Michelle. A juventude operária, da oficina à fábrica. In. LEVI, Giovanni, SCHMITT, JeanClaude (Orgs). História dos jovens. São Paulo: Cia. das Letras, 1996, p. 86-136. RICARDO, Aristides. Seleção Profissional. Revista de Educação, São Paulo, Departamento de Educação, 1939, vols. XXIII a XXVI, p. 25-37. SANTANA, Juventina. A orientação profissional e o que neste sentido tem feito o Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto Caetano de Campo, em São Paulo. Revista de Educação, São Paulo, Diretoria Geral do Ensino do Estado de São Paulo, vol. VI, junho 1934, p. 51-69. VIÉGAS, Lourdes de Campos. Medidas Antropométricas e Índices de Robustez. São Paulo: CFESP, 1942. WHITAKER. E. de Aguiar. O valor do ´test` Psychologico de Rorschach para a Orientação Profissional. Revista IDORT, ano IV, n.º 41, março 1935, p. 101-103. 1 Para a discussão sobre a despolitização do espaço do trabalho a partir da implantação de medidas tayloristas ver: DE DECCA, Edgar Salvadori. A ciência da produção: fábrica despolitizada. Revista Brasileira de História, São Paulo, n.º6, set. 1983, p. 47-79. Ver, ainda, ANTONACCI, Maria Antonieta Martinez. A vitória da razão(?) O Idort e a Sociedade Paulista. São Paulo: Marco Zero,1993. 2 Ver, por exemplo, CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim. 2.ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2005.