Confederação Nacional da Indústria – CNI Unidade de Competitividade Industrial – COMPI Participação da energia eólica no último leilão de fontes alternativas Brasília, 24 de setembro de 2010 Sumário I. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................2 II. EQUIPAMENTOS...........................................................................................................................2 III. CONTRATAÇÃO ............................................................................................................................4 IV. FINANCIAMENTO..........................................................................................................................5 V. REGISTRO DOS VENTOS ...........................................................................................................6 VI. EMPRESAS PARTICIPANTES....................................................................................................6 VII. O QUE RESTA FAZER .................................................................................................................8 VIII. O PREÇO DA ENERGIA ALCANÇADO NO LEILÃO .............................................................8 IX. O “DAY AFTER” ............................................................................................................................9 ANEXOS ...................................................................................................................................................11 ANEXO A: SITUAÇÃO ANTERIOR ...........................................................................................................11 ANEXO B: PERCALÇOS DO PROINFA ...................................................................................................12 ANEXO C: OUTROS ASPECTOS DO AVANÇO NO SETOR .......................................................................14 ANEXO D: O QUE O SETOR QUER .........................................................................................................15 1/15 I. Introdução Os leilões de fontes alternativas de energia elétrica de 2010, ditos A-3 e Reserva, realizados em agosto deste ano, resultaram na contratação de 2.048 MW de 70 centrais eólicas. O que explica a notável participação da energia eólica nesses leilões? O que mudou? Não houve um fator exclusivo nessa mudança. Foram fatores de ordem tecnológica, contratual e financeira que definiram o certame. A saber: • avanço tecnológico dos projetos; • aperfeiçoamento dos instrumentos de contratação; • melhores condições de financiamento. II. Equipamentos O avanço tecnológico dos projetos eólicos teve influência de monta nas decisões de investimento e nos resultados do leilão. Na primeira fase do Proinfa, os projetos previam torres de 50 m de altura e máquinas de 500 kW a 600 kW de potência. O fator de capacidade dessas unidades não ultrapassava 32%. Posteriormente, limitou-se a importação a máquinas acima de 1.500 kW. E como não há leilão para pequenas turbinas, os aerogeradores ganharam maior porte. As torres, por sua vez, estenderam-se a 85 m ou a 100 m, alturas em que os ventos são mais regulares. Com isso, o fator de capacidade das unidades elevou-se a 44%, vale dizer, a patamar superior ao de Belo Monte. Da ótica do investidor, com maior produção de energia cai o valor dos lances no leilão, de vez que o retorno das inversões tardará menos. A partir do Proinfa, desenvolveu-se no País a indústria nacional de aerogeradores com capacidade de produção próxima a 750 MW por ano e com índice de nacionalização da ordem de 70%. A Wobben, por exemplo, produz componentes e aerogeradores de 800 kW, 900 kW e 2.300 kW. Em 2008, a Impsa Energy instalou em Suape, Pernambuco, unidade industrial para a fabricação de aerogeradores de 1.500 kW. A Tecsis, empresa de capital nacional instalada em Sorocaba, já é a segunda maior fabricante mundial de pás para turbinas eólicas, exportadas principalmente para a Europa e para os Estados Unidos. Paralelamente, desenvolveu-se a capacitação técnica de empresas de consultoria em prospecção, projeto, produção e certificação, que têm feito o levantamento do potencial eólico de diversos Estados da Federação. Em entrevista à imprensa, o Secretário-Executivo da Abeeólica afirmou que o maior efeito da chegada ao País de grandes fabricantes foi o aumento da 2/15 competitividade no segmento. A variação dos modelos de aerogeradores permitiu melhor adaptação e, conseqüentemente, maior produção de energia em cada área, tornando os preços mais competitivos. Ademais, existem máquinas “mais inteligentes”, que proporcionam aumento da força tirada dos ventos e melhor perfil aerodinâmico das pás. Citou também o crescimento da altura das torres eólicas e do diâmetro dos rotores. Já no primeiro leilão de energia eólica, realizado em dezembro do ano passado, havia sobra de equipamentos na Europa e boa parte já era feito no Brasil. Dos 1.800 MW vendidos nesse leilão, pelo menos 500 MW eram da Wobben. O Estado da Bahia se destacou no leilão de fontes alternativas e no leilão de energia de reserva, com 16 centrais contratadas para gerar a partir de 2013. Os empreendedores que aproveitarão o potencial eólico na Bahia são Chesf, Brennand Energia, Renova Energia, Consórcio Pedra do Reino e Enel. A potência total consolidada, referente aos dois certames, monta a 587 MW. Noticiou a imprensa que os empreendedores receberam apoio do governo estadual através de incentivos, como construção de estradas vicinais e deferimento do ICMS na compra de equipamentos. Além disso, aquisição a preços subsidiados de terrenos públicos para a construção de parques eólicos. No primeiro leilão de energia de reserva para eólicas, realizado em 2009, o Estado viabilizou 18 parques com 390 MW de capacidade. Resultado desse certame, a Alstom celebrou contrato de € 100 milhões com a empresa brasileira de energia renovável Desenvix, da Engevix, para construção de um complexo eólico de 90 MW na Bahia. Trata-se do complexo de Brotas, que consistirá de três usinas eólicas com operação prevista para 2011. Na esteira dos investimentos nesse segmento, incluem-se R$ 50 milhões que serão empregados na construção de uma fábrica de aerogeradores da Alstom Wind, no Pólo de Camaçari, com capacidade de 300 MW por ano e que deverá iniciar operação em 2011. Esta será a primeira unidade industrial de turbinas eólicas da Alstom no País A GE decidiu fabricar aerogeradores no Brasil, com vistas aos contratos do primeiro leilão. A Tecsis, fabricante nacional de pás geradoras de energia eólica, anunciou há dois anos que receberia o financiamento de US$ 120 milhões liderado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID. A empresa, instalada em Sorocaba, tinha em mente novos investimentos em suas linhas de produção. O empréstimo anunciado assinalava a disposição do Banco para financiar projetos ligados a energia renováveis. À época, executivos do BID recebiam consultas de fabricantes estrangeiros de componentes para geração eólica com interesse em se instalar no Brasil. E estava o Banco disposto a financiar parques eólicos. A Wobben, por sua vez, tem duas fábricas de pás e de torres no Brasil. A Iberdrola, que refugou do primeiro leilão dado o preço de R$ 159/MWh, é agora a grande ganhadora, junto à Gamesa, que fabrica aerogeradores na 3/15 Espanha e estava com seus estoques lotados, por força da crise de 2008 na Europa. O Presidente da Abeeólica fez declarações interessantes. Acredita que há vários fatores que explicam a forte disputa verificada no último leilão, que contratou 2.892 MW de capacidade, sendo 70% desse montante de energia eólica. Um dos fatores é a desaceleração da economia européia, onde a construção de parques eólicos é tradicional. Com o PIB crescendo a menores taxas, o consumo de energia cai e os projetos de geração são adiados. Isso reduz a demanda por novos geradores eólicos e derruba os preços dos equipamentos, afirmou. Nesse cenário, prosseguiu, o Brasil se tornou uma nova fronteira eólica no Mundo, já que a demanda de energia elétrica no País continua em alta. A matriz, que até o ano passado era de 600 MW, deve pular para 4.454 MW de capacidade nos próximos três anos. Além das multinacionais que já instalaram fábricas no País, como Impsa, Alston e GE, outras empresas estão interessadas em construir novas unidades no Brasil, afirma o presidente da Abeeólica. Entre elas, estão a espanhola Gamesa, a dinamarquesa Vestas, a indiana Suzlon e investidores coreanos e chineses. A argentina Impsa não só inaugurou uma unidade em Pernambuco, como tem apostado em novas usinas. Vendeu 211 MW no leilão de dezembro do ano passado e 270 MW no de agosto deste ano. O Diretor-Geral da empresa explica que, além da crise européia, as condições de financiamento do BNDES melhoraram a competitividade dos projetos. O prazo dos empréstimos subiu de 14 anos para 16 anos. Outro grupo que teve presença importante no leilão de agosto foi a joint venture entre Neoenergia e a espanhola Iberdrola. No total, o grupo vendeu 258 MW, o que deve contribuir para a Neoenergia atingir 3 mil MW de potência instalada no País, já considerando a parcela de Belo Monte, afirma o presidente da Empresa. III. Contratação O aperfeiçoamento dos instrumentos de contratação ampliou o interesse das empresas participantes. Anteriormente, praticava-se sistema semelhante ao feed-in da Europa, com garantia de compra, pela Eletrobrás, da energia gerada. O que remunerava aos produtores era a geração efetiva. O sistema feed-in, ideado como incentivo ao desenvolvimento de projetos de energia renovável, consiste na remuneração a preço diferenciado, maior que o de mercado, da energia produzida de forma renovável. Além disso, permite aos geradores vender sua energia a preços acordados. O custo da compra dessa 4/15 energia renovável mais cara é rateado entre os consumidores de eletricidade através de acréscimo à tarifa, proporcional ao consumo. No segundo leilão, realizado em agosto deste ano, houve inovação na contratação da energia. Agora, define-se a geração média anual de longo prazo e se paga ao gerador esse montante. Passou-se a garantir o recebimento ao produtor, o que lhe facilita o financiamento do projeto. IV. Financiamento Melhores condições de financiamento favoreceram ao pleito. A par com esse avanço, o BNDES melhorou suas condições de financiamento a projetos de energias alternativas. O Banco ampliou de 14 anos para 16 anos o prazo máximo de amortização de financiamentos para projetos de energia eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas. Com a mudança, as condições de financiamento desses empreendimentos prioritários para o banco - ficam equiparadas às oferecidas a usinas hidrelétricas entre 30 MW e 1.000 MW. Sabia o Banco que a medida traria efeitos diretos sobre os preços que seriam ofertados nos leilões de fontes alternativas de energia - eólica, biomassa e PCH (abaixo de 30 MW), realizados em agosto. Isso porque o financiamento é contabilizado como se fosse um item de custo de implantação de uma usina. Assim, as condições de financiamento vão influir na competitividade do empreendimento, que, por sua vez, repercutirá no preço que poderá ser ofertado no leilão. Dessa forma, melhores condições de financiamento podem significar menor tarifa final. Eventual ganho nesse sentido será absorvido pelo consumidor. Além dos impactos diretos, o apoio do BNDES a energias alternativas vem possibilitando a instalação de novos fabricantes de equipamentos e componentes no Brasil. Tal fato contribui para a redução do custo de investimento e, conseqüentemente, para ganhos de competitividade dos projetos, com reflexos diretos na modicidade tarifária. Como se comentou acima, o Banco ampliou de 14 para 16 anos o prazo para amortização de empréstimo para fontes alternativas, como a eólica. O que esperar desta medida, indagou o dirigente da Abeeólica? Um prazo maior de carência e de pagamento facilita o retorno dos investimentos. Esse aumento iguala a condição entre a eólica e a hidráulica e isso é um sinal claro de que houve um forte interesse por parte do Governo para mostrar que essas duas fontes energéticas têm a mesma importância. Além disso, os investidores encontram condições especiais junto aos fornecedores. A indústria Wobben, por exemplo, celebra contratos em Reais, o que evita o risco de variações cambiais. O fornecimento de aerogeradores 5/15 pode ser feito através de contratos "turn-key" e "semi turn-key", além de contratos de operação e de manutenção vantajosos. V. Registro dos ventos A perspectiva de bancos de dados mais completos é um fator positivo. O que hoje se tem como registro do comportamento dos ventos são dados colhidos no decorrer de onze anos, registrados pela Copel, em Palmas, e na usina de Taiba, no Ceará. A partir de agora, os parques eólicos mandarão para a Empresa de Pesquisa Energética - EPE medição de ventos a cada dez minutos, o que possibilitará a construção de um amplo banco de dados, de grande importância para o setor. VI. Empresas participantes A inserção da fonte eólica na matriz energética brasileira atrai novas inversões. Dentre as empresas participantes, destacam-se: Dreen Brasil, controlada pelos grupos Galvão e Enerpura, está organizada como companhia holding, controladora de diversos projetos. Tendo como acionistas majoritários a família originalmente controladora do Grupo Somague, maior grupo português no segmento de infraestrutura, a Enerpura é uma empresa focada na implementação de projetos baseados na utilização da água (reciclagem, reutilização e dessalinização de água) e da energia (energias renováveis). Enerfin Sociedad de Energia S.L, Enerfin-Enervento S.A. e Elecnor Financiera S.L. são sociedades através das quais o Grupo Elecnor desenvolve projetos de aproveitamento da energia eólica. Iberdrola, empresa espanhola que nesta década. Consolidou-se como primeiro produtor eólico mundial. Neoenergia, foi a maior vendedora promovido em agosto. registrou grande expansão internacional primeira empresa energética espanhola e A Iberdrola, que no Brasil controla a do segundo leilão de fontes alternativas, A espanhola Gamesa informou que fornecerá os geradores que a Iberdrola Renováveis utilizará nos nove parques eólicos que a empresa vai construir no Nordeste. A filial Gamesa Eólica fornecerá 129 aerogeradores, com potência total de 258 MW. Além do fornecimento das turbinas, o contrato inclui ainda transporte, instalação e manutenção dos equipamentos pelo período de dois anos. 6/15 Este é o primeiro contrato da Gamesa no Brasil e faz parte da estratégia da espanhola de ampliar sua participação nos mercados emergentes. Recentemente, a empresa inaugurou uma filial em São Paulo, que será responsável pelos acordos que envolvem o Mercosul. Gestamp, também de origem espanhola. Wobben Windpower Ind. e Com. Ltda. é a primeira fabricante de aerogeradores de grande porte da América do Sul. Foi criada para produzir componentes e aerogeradores para o mercado interno e exportação, além de projetar, instalar, operar e prestar serviços de assistência técnica para parques eólicos. É também, a primeira produtora independente de energia elétrica, oriunda de fonte eólica, autorizada pela Aneel, com quatro usinas próprias em operação. É subsidiária da Enercon, líder mundial em tecnologia eólica de ponta e um dos líderes do mercado eólico mundial. A Enercon já instalou cerca de 16.000 aerogeradores, totalizando mais de 20.100 MW em cerca de 40 países. A Wobben investe quantias significativas nas instalações fabris em Sorocaba. Há 14 anos em plena operação, produz os aerogeradores Enercon E-44 de 900 kW, E-48 de 800 kW e E-70 de 2.300 kW. O E-48 e o E-44 são da família de turbinas eólicas com mais de 6.500 unidades instaladas em 35 países. O aerogerador Enercon de 2.300 kW é líder mundial em sua classe, com cerca de 5.550 unidades instaladas. A partir de 2010 produzirá o modelo E-82, de 2.000 kW a 3.000 kW e 82 metros de diâmetro. Em fevereiro de 2002, a Wobben aumentou significativamente sua capacidade produtiva com a instalação de nova fábrica no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. Em 2005 esta unidade foi ampliada com a nova fábrica de torres de concreto visando principalmente o atendimento do mercado brasileiro. A Impsa Brasil esta destinada à produção de Aerogeradores. Sua capacidade de produção é de 300 equipamentos anuais. O centro de produção do Brasil está situado em Suape e é a instalação mais nova que a empresa possui. Em 2010 começou com a ampliação da planta, a qual estará destinada à fabricação de grandes estruturas e à usinagem de componentes para turbinas e geradores de grande tamanho, tanto para projetos de geração hidrelétrica como eólica e equipamentos de processo para a indústria petroquímica. Juntas, Wobben e Impsa Winds, tem uma capacidade de produção anual de 1,1 mil MW, sendo 500 MW e 600 MW, respectivamente. O gerente de desenvolvimento de negócios da Wobben declarou recentemente à imprensa que a empresa teria que, apenas, implementar um terceiro turno. Já o gerente geral da Impsa Wind disse que, com poucos investimentos, poderia ampliar a capacidade de produção em 50%. Com isso, as duas fabricantes nacionais poderiam, teoricamente, atender a totalidade da demanda do leilão, que prevê início de operação das usinas a partir de 2012. "Países com grandes mercados eólicos desenvolveram o mercado, com uma indústria local forte", disseram os executivos. 7/15 VII. O que resta fazer O produtor paga a conexão da sua usina à rede elétrica. Estabeleceu-se que grupos de produtores possam pagar a ligação. Mas pode ocorrer que um só venha a pagar esse custo. Com efeito, no tocante ao acesso das usinas ao sistema elétrico, que é direito assegurado a qualquer agente de geração, certos problemas de conexão já estavam superados graças à evolução tecnológica da geração eólica. Mas os custos referentes à conexão eram de responsabilidade do acessante. No caso de acesso em caráter compartilhado, utilizando instalações de propriedade dos acessantes, a repartição dos custos devia ser acordada entre as partes. Sobre o acesso à rede básica, estava instituída a Instalação de Transmissão de Interesse Exclusivo de Centrais de Geração para Conexão Compartilhada – ICG para resolver o impasse do escoamento das centrais a biomassa. A modalidade de ICG é importante opção de acesso ao sistema elétrico quando se verifica cumulativamente a demanda por conexão de um número expressivo de geradores em regiões geográficas atendidas por malhas de transmissão com baixa capilaridade ou por sistemas de distribuição sem capacidade para incorporar fluxos significativos de energia. Ocorre que o compartilhamento por meio de ICG pressupõe a repartição dos custos de conexão das instalações entre os geradores, porém a saída de um ou mais geradores, causada pela competição no leilão de energia, carreará aumento dos custos para os geradores remanescentes, com nova repartição. Outro fato importante se deve ao caso de apenas um gerador permanecer na ICG planejada; nesse caso, a conexão passa à condição de uso exclusivo de geração. Tal situação onera o custo do empreendimento eólico e requer correção. VIII. O preço da energia alcançado no leilão A forte disputa verificada nos leilões promovidos pelo governo federal esta semana pôs a energia eólica na lista das mais competitivas do Brasil, abaixo até do custo das térmicas movidas a gás natural, de cerca de R$ 140/MWh. Na média, o preço da energia produzida com o vento foi negociada por R$ 130,86 o MWh. No leilão do ano passado, cada MWh custou em média R$ 148,39. Simulações de decisões de investimento utilizando ferramenta computacional desenvolvida pelo Cepel produzem resultados interessantes. A ferramenta utiliza o fluxo de caixa do projeto, bem como: custo de investimento, custo anual de operação, fator de capacidade, custo de aluguel do terreno, tempo de retorno do investimento, impostos incidentes, seguro, inflação e condições de financiamento. 8/15 Os casos simulados resultam em custos do MWh gerado na faixa de R$ 91,44/MWh a R$ 347,06/MWh, esse último correspondendo a elevado custo de instalação e baixíssimo fator de capacidade. O exercício mostra como as configurações de elevados fatores de capacidade e condições especiais de financiamento condicionam esses empreendimentos. IX. O “day after” Concluído o certame, transpareceram as primeiras reações diretas de fornecedores de equipamento eólico a respeito do resultado desse leilão de fontes eólicas. O acima narrado aponta motivos que, sem duvida, favoreceram a entrada intensiva da geração eólica no certame: melhoria em equipamentos, aperfeiçoamento na contratação e nas condições de financiamento. Há, contudo, aspectos conjunturais importantes. Da ótica de um grande fornecedor, o resultado do leilão é uma bolha, não representa uma tendência e esse movimento tão intenso será revertido. Segundo a apreciação dessa fonte, os seguintes pontos caracterizam esse "ponto fora da curva": • • • • vários proponentes quiseram apenas marcar presença e não têm condições de financiar seus projetos; comenta-se no mercado, com ironia, que há casos em que a proporção 80 x 20, de financiamento do BNDES, terminará sendo 20 x 80, de vez que o Banco ficará "com pé atrás"; o leilão foi favorecido pelo cambio favorável no caso de compra de equipamentos de fora. E esse câmbio não dura; o mercado de eólica nos EEUU e na Europa voltará a aquecer e não haverá a sobra de equipamentos em prateleira, como foi o caso de agora; • os maiores investidores entraram com máquinas próprias. Tal é o caso da Iberdrola (com Gamesa) e Impsa; • há players que aqui estão há dois anos e que tinham de entrar de qualquer jeito, porque já "pagaram o ticket" para vir; • havia estoque de equipamentos nos EEUU e na Europa devido à baixa no mercado, mas esses estoques já estão vendidos; • o "day after" foi marcado por certo grau de arrependimento e viu-se que muitos investidores ganharam para "depois ver o que fazer". Enfim, considera irrealista que o Brasil possa garantir o melhor preço da geração eólica no Mundo. Nesse sentido, foi uma bolha, um ponto fora da curva que ocorreu. 9/15 Uma semana depois dos leilões, a imprensa noticiava que os fabricantes de aerogeradores começavam uma segunda rodada de negociações com seus clientes. Dizia a imprensa: “Estima-se que há cerca de 800 MW descontratados em razão da continuação das conversas sobre os termos contratuais decorrente dos lances abaixo do esperado pelo mercado para a geração eólica”. Prosseguia: “Segundo o diretor presidente da Wobben Windpower-Enercon, a perspectiva é de fechar contratos firmes em breve. Ele não revela a sua expectativa, mas afirma que o volume contratado será menor que o verificado no primeiro leilão de eólicas, realizado em 2009, quando a Empresa vendeu aerogeradores que somam potência instalada de 478 MW”. Segundo a mesma fonte, para o representante da Wobben, “não é possível saber como foi possível oferecer lances tão baixos já que o valor dos equipamentos não apresenta diferença muito acentuada entre os diversos fornecedores que aqui se instalaram. Esse volume representa cerca de 40% do total vendido”. E mais: “empresas como General Electric e Alstom também não informaram o volume de contratos. Ambas disseram, por meio de sua assessoria de imprensa, que ainda não têm o balanço de negócios gerados pelos leilões”. Por outro lado, prosseguia: “Na contramão dessa tendência está a Impsa Wind, que anunciou a contratação de 450 MW de potência instalada somente nos leilões da semana passada. A companhia, por meio de sua subsidiária Wind Power Energia (WPE), assinou contrato de venda de geradores com empresas que participaram do segundo leilão de fontes alternativas (A- 3). Além disso, a Energimp, empresa controlada pela própria Impsa e pelo Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS), vendeu projetos que somam 270 MW. Junto com a Chesf, subsidiária da Eletrobrás, a empresa vendeu outros 180 MW”. 10/15 ANEXOS Anexo A: Situação anterior No Wind Forum Brazil 2009 destacou-se que o aproveitamento da energia eólica possui inúmeros benefícios em comparação com o de outras fontes energéticas, mesmo as renováveis. Frisou-se que a eólica causa baixo impacto ambiental, de vez que não alaga, não contamina recursos hídricos e não emite gases causadores do efeito estufa nem outros poluentes durante sua operação. Ao contrário das térmicas, o parque eólico não traz o risco de vazamentos de combustíveis ou gás. E não impede a ocupação do solo seja por lavoura seja por pastagem no perímetro da instalação. Ademais, a relativa rapidez de instalação dos aerogeradores é fator de atração de investimentos. Não é por outro motivo que esses empreendimentos são favorecidos com prazos relativamente curtos de obtenção de licenças ambientais. Uma pequena central hidrelétrica, por exemplo, requer em média prazo de instalação três vezes mais longo que o de uma usina eólica de mesma potência. A possibilidade de uso em conexão com redes elétricas ou em sistemas isolados permite que regiões afastadas de centros urbanos e que apresentem boa classe de ventos gerem sua própria energia sem incorrer em custos altos com redes de transmissão. Claramente, o aproveitamento da força dos ventos requer complementação com outras fontes de energia dada a variabilidade dos regimes eólicos, mas a complementação com o recurso hidrelétrico se dá quase com perfeição no Brasil. Contudo, os projetos eólicos necessitavam a tarifa média de R$ 210/MWh para serem viáveis, razão pela qual foram pouco competitivos nos primeiros leilões de energia. Representantes das empresas Vestas, Wobben, Siemens, Wind Power Energia e General Electric, que são fabricantes de aerogeradores, apresentaram seus produtos e afirmaram o propósito de expansão das suas atividades no Brasil. As empresas EDP, Dreen e Pacific Hydro, entre outras proprietárias de parques eólicos no Brasil e no Mundo, discorreram sobre projetos em andamento tanto no País quanto no exterior. Sem embargo, todos os fabricantes acordaram sobre a urgência de compromisso claro do Governo quanto às perspectivas do setor no longo prazo. Sublinhou-se a necessidade de inovar a contratação da energia, bem como de prazos de comercialização de pelo menos vinte anos e tarifas que remunerassem o investimento. Dentre os fabricantes presentes no Forum, apenas a Wobben, que é subsidiária da alemã Enercon, e a argentina Impsa tinham fábricas de aerogeradores no Brasil. 11/15 Segundo o representante da Wobben, os atrasos dos projetos eólicos nos últimos anos estiveram pouco associados à falta de capacidade da indústria nacional. Apontou a mudança freqüente de acionistas de projetos vencedores dos leilões como a principal razão dos atrasos. A expansão da geração eólica no país requeria avanços em diversas frentes. Contava-se com estimativa do potencial brasileiro e medições em locais específicos, mas não havia histórico de medições que permitissem avaliação criteriosa do potencial e do benefício energético da geração eólica em operação no sistema hidrotérmico brasileiro. E não estava previsto como remediar essa situação. Era consensual que cabia buscar: internalização da tecnologia e consolidação da indústria eólica nacional de fornecimento de componentes e montagem; participação da iniciativa privada em bases concorrenciais; aprimoramento da ordenação legal, do conhecimento da fonte primária e de sua interação energética com um parque gerador de base hidráulica. Ademais, restava garantir: acesso de menor custo à rede elétrica para os geradores; comercialização da energia em longo prazo; remuneração compatível com o estado da arte da tecnologia, e perspectiva de longo prazo favorável ao desenvolvimento da fonte. Viu-se que a geração eólica caracteriza-se pelo elevado investimento inicial e o baixo custo operacional. Além do preço, a garantia de tempo para a recuperação do capital e o acesso a financiamentos são fatores que podem influenciar a expectativa de retorno. O risco das inversões decorre, principalmente, dos reflexos no fluxo de caixa da aleatoriedade dos ventos, fato que termina por encarecer e dificultar o acesso a financiamentos. A modalidade de contratação da energia é decisiva na identificação do risco e do retorno do investimento. Via-se que esse risco poderia ser mitigado por meio de contratação considerando a produção média ao longo dos anos. Era o que restava fazer. Anexo B: Percalços do Proinfa O Programa de Incentivo de Fontes Alternativas – Proinfa caminhou aos trancos e barrancos, muito embora o saldo fosse positivo para o País e suas falhas servissem de exemplo para as iniciativas seguintes. O Programa foi lançado pelo Ministério de Minas e Energia em 2002. Por meio do Proinfa, o governo brasileiro se comprometeu a comprar 3.315 MW de energia renovável, dos quais 1/3 corresponderiam à fonte eólica. O Proinfa atravessou muitas dificuldades. Segundo a Eletrobrás, o mau desempenho observado no primeiro lustro do Programa deveu-se ao fato de vários projetos aprovados terem enfrentado problemas de fornecimento de 12/15 equipamentos. Foi alegada dificuldade para o cumprimento do conteúdo nacional mínimo exigido, que era de 60%. Para contornar esse problema, suspendeu-se o imposto de importação para aerogeradores, cuja alíquota era de 14%. Essa alteração no imposto foi polêmica, uma vez que o país contava com um fabricante de aerogeradores – a Wobben –, o que impediria, segundo os trâmites convencionais, que um importador se beneficiasse de um ex-tarifário para comprar um bem com similar nacional. Os vencedores dos projetos eólicos alegavam que a presença de um monopólio justificava a redução do imposto. Em defesa da alteração aduaneira, a Eletrobrás argumentou que a indústria nacional de aerogeradores, cuja capacidade anual era de apenas 250 MW, não conseguiria atender à demanda prevista pelo Proinfa. A posteriori, percebeu-se que a indústria nacional, ainda que se desconsiderassem os investimentos feitos em expansão da capacidade produtiva, teria condições de atender à demanda. Isso obrigou a Eletrobrás a ampliar, pela segunda vez, o prazo para implantação da primeira fase do programa. As empresas contratadas teriam até fevereiro de 2009 para terminar seus projetos. Segundo o Jornal da Energia, o Proinfa deveria viabilizar 54 usinas eólicas, que somariam 1.423 MW em potência instalada. Hoje, a Aneel ainda lista 19 empreendimentos eólicos não concluídos. Dessas unidades, nove estão em construção, com previsão de estarem gerando energia até 2011. Esses projetos totalizam 316 MW em capacidade. Outros 351 MW são apontados como empreendimentos em que existem impedimentos para entrada em operação, como obras não iniciadas ou problemas com documentação, localização ou licenciamento ambiental. O relatório enumera dez usinas eólicas que sequer tiveram a construção iniciada. Ainda assim, a Aneel estima que, dessas usinas, uma deve iniciar a operação ainda neste ano, gerando 8 MW. E outras, somando 203 MW, devem conseguir entrar em funcionamento ainda em 2011, embora o prazo para os parques do Proinfa tenham como data-limite para a geração o ano de 2010. Caso a agência não autorize as usinas a continuarem no Proinfa após o fim do prazo, os empreendedores terão que buscar outros caminhos, como a participação em leilões de energia. No final de 2009, o preço máximo reajustado pago aos investidores responsáveis pelas usinas eólicas do Proinfa era de R$ 277/MWh. Como se viu, nos últimos leilões de reserva e de fontes alternativas de energia, a tarifa média para os empreendimentos da fonte ficou em R$ 130,86/ MWh. E, entre os parques atrasados, aparecem como mais preocupantes as situações das usinas Quintanilha Machado I, no Rio de Janeiro (135MW) e da eólica Alhandra, na Paraíba (5,4MW). Na primeira, os investidores não receberam autorização para implantação do projeto devido à influência que as torres teriam sobre o aeroporto de Cabo Frio. No momento, está em andamento um estudo para definir uma nova área para a eólica. Em Alhandra, a obra também não teve início, embora o contrato para o fornecimento de equipamentos para a usina tenha sido assinado em 2009. 13/15 Há ainda o caso da eólica Aquibatã, em Santa Catarina. Embora a Aneel não coloque o projeto na lista dos que não tem previsão para serem concluídos, a obra ainda não pode ser iniciada. Os empreendedores aguardam uma vistoria da Fatma, órgão ambiental local, para receber uma autorização para supressão vegetal. A usina é colocada como em fase de "início de mobilização do canteiro de obras". Anexo C: Outros aspectos do avanço no setor As usinas eólicas assemelham-se às hidrelétricas a fio d’água quanto ao regime de operação. Quando não despachadas de um centro coordenador da geração, produzem energia derivada dos ventos de cada instante. Por essa razão, requer a fonte eólica a contratação da energia com contabilização energética anual, admitindo-se certa margem de variação para compensar a incerteza da produção. O prazo de suprimento dos contratos de novos empreendimentos de geração hidrelétrica são 30 anos e os de geração termelétrica são de 15 anos. Para a geração eólica, cujos custos ainda não são competitivos no Brasil, demandavase prazo de suprimento de 20 anos, para o leilão de 2009. Posteriormente, malgrado o custo médio de geração eólica ainda se mostrar elevado para viabilizar sua participação em bases concorrenciais, o cadastramento de empreendimentos eólicos nos leilões de energia nova A-3 e A-5 de 2008 mostrou que havia maior interesse por parte dos investidores. Foram cadastrados 3.570 MW e 1.601 MW, respectivamente. Embora habilitados, os empreendedores declinaram da participação nesses leilões, assim como no leilão de fontes alternativas, confirmando a necessidade de tratamento econômico diferenciado apesar do fator de capacidade médio das usinas candidatas, próximo a 34%, ser bastante superior aos valores típicos observados na Europa. No Ambiente Regulado, o resultado do primeiro leilão exclusivo para energia eólica mostrou que este tipo de fonte pode competir com as outras fontes alternativas, como PCH e Biomassa. No Ambiente Livre, o grande benefício das Fontes Alternativas é o desconto na TUSD/TUST (50%). Os consumidores especiais (com demanda entre 0,5 MW e 3MW) são os clientes mais atrativos. Neste mercado as fontes alternativas competem com as tarifas das distribuidoras. Quanto maior é a tarifa de energia da distribuidora local, mais atrativo o mercado para estas fontes. Não se pode dizer que o setor está livre de subsídios. Incentivos e benefícios fiscais existem no âmbito da Sudene, abrangendo Maranhão, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e partes dos territórios de Minas Gerais e Espírito Santo. São beneficiários as pessoas jurídicas que tenham projeto aprovado para instalação, ampliação, modernização ou diversificação enquadrado em setores 14/15 da economia considerados prioritários para o desenvolvimento regional, microrregiões menos desenvolvidas localizadas nas áreas de atuação da Sudene. Dentre os setores de economia prioritários estão os de infra-estrutura, representados pelos projetos de energia Visando estabelecer condições de incentivo à Indústria Eólica, o Estado do Ceará, por meio de legislação específica, criou um programa de incentivo à instalação e desenvolvimento do setor no território do Estado, dirigido à desoneração e concessão de incentivos relativamente ao Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS, consolidados em decreto de 2005. São beneficiários empresas fabricantes de equipamentos utilizados na geração de energia eólica e empresas que pretendam implantar usinas eólicas no Estado do Ceará. E criou benefícios fiscais, como deferimento e alíquotas diferenciadas do ICMS. Anexo D: O que o setor quer Com a atualização do mapeamento eólico do país, a cargo do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), projeta-se o dobro do potencial identificado. O parque instalado brasileiro de eólica, hoje, conta com 45 parques, que somam 794 MW de potência. O crescimento desde dezembro de 2008 ficou em 132,8%. Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), o mercado já tem contratados 1.808 MW, devendo movimentar de R$ 6 bilhões a R$ 7 bilhões, até julho de 2012. Não está completamente equacionada a conexão, principalmente, pela falta de uma linha principal, que sirva como uma espinha dorsal, que facilite conexões futuras de novos parques, principalmente no Nordeste, onde existe uma carência na capacidade de conexões na atual malha de transmissões. Resta criar um regime tributário específico e que seja realizado, anualmente, um leilão exclusivo para a eólica com contratação média de 2.000 MW, durante 10 anos. Isso fará com que a base industrial cresça e o preço fique mais competitivo, como já aconteceu em outras indústrias como microinformática e a automobilística. Confederação Nacional da Indústria. Produção: COMPI - Unidade de Competitividade Industrial. Gerente de Infraestrutura: Wagner Ferreira Cardoso. Elaboração: Carlos Senna e Ilana Ferreira E-mail: [email protected] Site: www.cni.org.br 15/15