Políticas Sociais de Transferência de Renda e a Pobreza no Estado de Mato Grosso do Sul Bruna Amaral Dávalo (PPGS/UFGD) [email protected] Resumo: A Pobreza é um fenômeno social que atinge cerca de 2,2 bilhões de pessoas no mundo e 800 milhões de pessoas estão em risco de pobreza. Os dados são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2014). É possível compreender este como um fenômeno social e por isso não natural. Diversas são suas definições conceituais, mas todas com características em comum. Este artigo contém dados e reflexões a respeito dos Programas sociais de transferência direta de renda, considerados Políticas Públicas importantes na diminuição das desigualdades socioeconômicas. O “sucesso” ou “fracasso” destas políticas gera um importante debate envolvendo diversas áreas do conhecimento, sob a luz das diferentes concepções de Estado e Políticas Sociais. O avanço das Políticas Sociais no Brasil e na América Latina aconteceu de forma tardia. No caso do Brasil este fenômeno deve-se a episódios históricos como os séculos na condição de colônia portuguesa, a abolição tardia da escravidão, décadas de ditadura militar e outros. Existem evidencias históricas de que a gênese das Políticas Sociais de Transferência direta de Renda é antiga, havendo evidencias históricas de políticas desta natureza, por exemplo, no século XVI e XVII na Europa. Fato mais recente é a intensificação destas Políticas, convergindo com o Liberalismo. Para Johnson (2014) programas como o Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada e, no caso do Mato Grosso do Sul, o Vale Renda são frutos de uma crise no Capitalismo. Neste artigo são analisados os Programas citados a cima com o objetivo de descrever e caracterizar os mesmos no Mato Grosso do Sul. Atualmente as ações de combate a pobreza tem sido amplamente discutidas sob diferentes perspectivas teóricas e práticas de enfrentamento. No mundo as ações variam, mas o que não se discute é a importância das Políticas Sociais neste processo. No Brasil, bem como no Estado do Mato Grosso do Sul não é diferente. O modo de produção capitalista, com a repartição desigual de renda e a divisão social de classes, desencadeia um processo de exclusão gerador de pobreza. Assim, para que se entenda a pobreza deve-se analisar primeiro o sistema econômico que a produz. Palavras-chave: Estado; Políticas Públicas; Pobreza; Mato Grosso do Sul. Public policies and the fight against poverty in the state of Mato Grosso do Sul Abstract: Poverty is a social phenomenon that affects about 2.2 billion people in the world and800 million people are at risk of poverty. Data are from the United Nations Program for Development (UNDP, 2014). One can understand this as a social phenomenon and therefore not natural. Several are their conceptual definitions, but all with common characteristics. This article contains reflections on the social programs direct income transfer, considered important public policy in reducing socioeconomic inequalities. The "success" or "failure" of these policies gives rise to multidisciplinary discussion of knowledge in the light of different conceptions of the State and Social Policy. Advancing Social Policies in Brazil and Latin America came belatedly. In the case of Brazil this phenomenon is due to historical episodes as the centuries provided Portuguese colony, late abolition of slavery, decades of military dictatorship and others. The genesis of Social Policies Direct Cash Transfer is old. There historical evidence of this kind of policies, for example, in the sixteenth and seventeenth century in Europe. Most recent event is the intensification of these policies, converging with Liberalism. To Johnson (2014) programs like "Family Allowance", "Continuing Monthly Benefit" and in the “income voucher” are the result of a crisis in capitalism. In this article we analyze the programs cited above in order to describe and characterize them in Mato Grosso do Sul. Currently actions to fight poverty has been widely discussed from different theoretical perspectives and practical coping. Worldwide actions vary, but what is not discussed is the importance of Social Policies in this process. In Brazil, as well as in the state of Mato Grosso do Sul is no different. The capitalist mode of production, with the unequal distribution of income and social class division, triggers a process of exclusion generator poverty. Thus, in order to understand poverty should first analyze the economic system that produces it. Keywords: State; Public Policy; Poverty; Mato Grosso do Sul. Políticas de Transferencias sociales y la pobreza en el estado de Mato Grosso do Sul Resumen: La pobreza es un fenómeno social que afecta a alrededor de 2,2 millones de personas en todo el mundo y 800 millones de personas están en riesgo de pobreza. Los datos proceden del Programa de Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD, 2014). Uno puede entender esto como un fenómeno social y, por tanto, no es natural. Varios son sus definiciones conceptuales, pero todas ellas con características comunes. Este artículo contiene información y reflexiones sobre los programas sociales de transferencia directa de ingresos, las políticas públicas importantes considerados en la reducción de las desigualdades socioeconómicas. El "éxito" o "fracaso" de estas políticas generan un importante debate que involucra diversas áreas del conocimiento, a la luz de las diferentes concepciones del Estado y de la política social. La promoción de políticas sociales en Brasil y América Latina llegaron tardíamente. En el caso de Brasil este fenómeno se debe a episodios históricos como los siglos proporcionaron colonia portuguesa, a finales de la abolición de la esclavitud, de décadas de dictadura militar y otros. Hay evidencias históricas de que la génesis de Políticas Sociales de transferencia directa de efectivo es viejo, y no hay evidencia histórica de las políticas de esta naturaleza, por ejemplo, en el siglo XVI y XVII en Europa. Lo más reciente evento es la intensificación de estas políticas, que converge con el liberalismo. Para Johnson (2014) programas como Bolsa Familia, continuación de beneficios y en el caso de Mato Grosso do Sul, el Vale de ingresos son el fruto de una crisis en el capitalismo. En este artículo se analizan los programas citados anteriormente, a fin de describir y caracterizar ellos en Mato Grosso do acciones. Sul Actualmente para luchar contra la pobreza ha sido ampliamente discutido desde diferentes perspectivas teóricas y afrontamiento práctico. Acciones en todo el mundo varían, pero lo que no se discute es la importancia de las políticas sociales en este proceso. En el Brasil, así como en el estado de Mato Grosso do Sul no es diferente. El modo de producción capitalista, con la distribución desigual de los ingresos y la división de clases sociales, desencadena un proceso de pobreza generador de exclusión. Por lo tanto, con el fin de entender la pobreza debe analizar en primer lugar el sistema económico que la produce. Palabras clave: Estado; Políticas Públicas; pobreza; Mato Grosso do Sul. Estado e Políticas Públicas As políticas sociais variam de acordo com a sociedade e a concepção de Estado. Para Offe (1991apud HÖFLING, 2001. p.1), autor reconhecidamente marxista, “o Estado atua como regulador das relações sociais a serviço da manutenção das relações capitalistas [...] não especificamente a serviço dos interesses do capital”. Quanto às teorias políticas liberais, estas entendem que as políticas sociais criadas pelo Estado devem buscar prioritariamente assegurar os direitos dos indivíduos. Isso deve ser feito de modo que se evitem impactos “[...] nas esferas da vida pública e, especificamente, na esfera econômica da sociedade”. Neste contexto o Estado assumiria o papel de arbitro, e não de mediador dos conflitos sociais. Os neoliberais defendem a iniciativa individual como alicerce da economia, assim quem regularia as riquezas seria não o Estado, mas o Mercado (HÖFLING, 2001. p.7). As teses neoliberais, absorvendo o movimento e as transformações da história do capitalismo, retomam as teses clássicas do liberalismo e resume-se na conhecida expressão “menos Estado e mais mercado” sua concepção de Estado e de governo. (HÖFLING, 2001. p.7) Quanto ao avanço das políticas sociais no Brasil e na América Latina Yazbek (2012, p.7) explica que diferentemente da Europa, “[...] o acesso a bens e serviços sociais caracterizouse por ser desigual, heterogêneo e fragmentado”. No Brasil, este retardo deve-se a episódios históricos como os séculos na condição de colônia portuguesa, a abolição tardia da escravidão, décadas de ditadura militar e outros. Para Souza (2006, p.24 e 25) “Não existe uma única, nem melhor, definição sobre o que seja política pública [...] o campo das Políticas Públicas é multidisciplinar e busca sintetizar teorias”. No entanto a autora argumenta que “mesmo as definições minimalistas sobre políticas públicas [...] guiam nosso olhar para embates em torno de interesses, preferências, e idéias que se desenvolvem, isto é, os governos”. As diferentes definições de Políticas Públicas assumem “[...] uma visão holística do tema, uma perspectiva de que o todo é mais importante do que a soma das partes”. Por conta de sua repercussão na sociedade e na economia as teorias sobre políticas públicas devem contribuir com avanços sobre “[...] as inter-relações entre Estado, política, economia e sociedade”. Assim, outras áreas do conhecimento, além da ciência política, têm “[...] contribuído para avanços teóricos e empíricos”. É o caso da Sociologia e Economia, por exemplo. (SOUZA, 2006, p.25-26) Embora existam definições diversas sobre Políticas Públicas, é possível observar certa convergência de pensamentos entre estas como, por exemplo: o entendimento de que por meio das Políticas Públicas é possível avaliar as ideias e práticas de um determinado governo; que, além dos governos, elas envolvem outras contingências e agentes sociais; são abrangentes, com objetivos a curto, médio e longo prazo; apresentam intencionalidade nas ações. As políticas públicas podem ser entendidas como uma ação do Estado visando colocar em prática determinado projeto de governo. Os mecanismos desta ação seriam os programas e ações voltadas para os diversos setores da sociedade. Lowi (apud SOUZA, 2006, p.28) aponta quatro formatos principais das políticas públicas. O primeiro é o das políticas distributivas, o segundo é o formato das políticas regulatórias, o terceiro é o das políticas redistributivas e o quarto é o das políticas constitutivas. O primeiro formato, o das Políticas Distributivas, focaliza o beneficio de determinados grupos sociais e regiões gerando impactos que não preconizam a universalização dos benefícios. O segundo formato, o das políticas regulatórias, tem mais visibilidade “[...] envolvendo burocracia, políticos e grupos de interesse”. O terceiro formato é o das Políticas Redistributivas, que preconiza as políticas sociais universais. Estas políticas costumam alcançar grupos maiores de pessoas. Por último, o quarto formato é o das Políticas públicas Constitutivas, que são voltadas para procedimentos. (LOWI apud SOUZA, 2006, p.28) Quanto a implementação e desenvolvimento das Políticas Públicas, entende-se que estas são responsabilidades do Estado. O conceito de Estado aqui não abrange somente os governantes e gestores, mas também os agentes sociais afetados pelas políticas em questão (HÖFLING, 2001, p.9). Assim, as políticas sociais têm como objetivo diminuir as desigualdades sociais causadas pelas desigualdades socioeconômicas. Para além de uma tendência atual voltada a produção de instrumentos que avaliem as políticas públicas e ações congêneres (programas, projetos, etc.), Höfling (2001, p. 10) alerta sobre a importância das chamadas “questões de fundo”. Uma destas questões, segundo a autora, seria a relação entre o tipo de concepção de Estado e a Política Social que este promove. Em outras palavras a caracterização das políticas, dês de como e por que ela é pensada até sua operacionalização, é fruto de uma visão do Estado. Outra questão apontada pela autora é a dificuldade para definir se uma política obteve sucesso ou fracasso, uma vez que os fatores envolvidos são complexos. Apresenta-se então uma possível discussão para um artigo futuro, trata-se de avaliar os resultados das políticas sociais de combate a pobreza fugindo dos padrões numéricos dos quais as analises, em grande parte, parecem reféns. Assim, são necessárias ações baseadas em uma concepção crítica de Estado por parte da Administração Pública. Para Para Höfling (2001, p.10) a função das Políticas Sociais é “[...] atender a sociedade como um todo, não privilegiando os interesses dos grupos detentores do poder econômico”. Assim, segundo ela, devem ser priorizados “[...] programas de ação universalizantes, [...] visando à reversão do desequilíbrio social”. Considerações sobre a Pobreza A pobreza é um fenômeno social que atinge cerca de 2,2 bilhões de pessoas no mundo e 800 milhões de pessoas estão em risco de pobreza. Os dados são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2014). Segundo o Relatório Nacional de acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio1 (2014) o primeiro Objetivo de Desenvolvimento do 1 Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) nasceram em 2000 a partir da iniciativa de lideres mundiais. Foi estabelecida uma “agenda global de compromissos mínimos pela promoção da dignidade humana”. Surgiram então oito objetivos, dentre os quais o Objetivo número 1: Erradicar a pobreza e a fome (IPEA, 2014). Milênio (ODM 1) é acabar com a pobreza extrema e a fome. A meta global do ODM 1 é até 2015, reduzir a pobreza extrema à metade do nível de 1990. No Brasil a meta é até 2015, reduzir a pobreza extrema a um quarto do nível de 1990. Segundo mesmo relatório a pobreza extrema é determinada pela proporção de pessoas que vivem com menos de U$$ 1,25 por dia. (IPEA, 2014, pg. 12) O conceito de Pobreza possui diversas definições que se aproximam. Neste artigo tomarei a definição conceitual de Yazbek (2012, p.3) que aborda a Pobreza como “como categoria histórica e socialmente construída”. Para a autora a pobreza pode ser entendida: [...] enquanto fenômeno estrutural, complexo, de natureza multidimensional, relativo, não podendo ser considerado como mera insuficiência de renda é também desigualdade na distribuição da riqueza socialmente produzida; é não acesso a serviços básicos; à informação; ao trabalho e a uma renda digna; é não a participação social e política. (YAZBEK, 2012, p.) Atualmente as ações de combate a pobreza tem sido amplamente discutidas sob diferentes perspectivas teóricas e práticas de enfrentamento. No mundo as ações variam, mas o que não se discute é a importância das Políticas Sociais neste processo. No Brasil, bem como no Estado do Mato Grosso do Sul não é diferente. Segundo YAZBEK (2012) a pobreza vem sendo analisada “[...] por meio de indicadores de renda e emprego, [...] usufruto de recursos sociais que interferem na determinação do padrão de vida, tais como saúde, educação, transporte, moradia, aposentadoria e pensões, entre outros”. O modo de produção capitalista com a repartição desigual de renda e a divisão de classes sociais desencadeiam um processo de exclusão gerador de pobreza. Assim, a pobreza deve ser analisada com base nos fatores que a produzem. Sobre as Políticas Sociais de combate a pobreza Silva (2010) afirma que estas têm sido abordadas de forma “marginal e assistencialista” com o objetivo de apenas regular e administrar a questão. Vale lembrar que os governantes do Brasil nos últimos anos têm indicado como “carro-chefe” de suas políticas públicas a luta maciça contra a pobreza. Refiro-me aqui aos governos de Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2014). Paralelamente, no Mato Grosso do Sul, os dois últimos governantes foram Zeca do PT (1999-2006) e André Puccinelli (2007-2014). Dada a amplitude da temática em questão, as Políticas Sociais de combate a pobreza no Estado do Mato Grosso do Sul, busco aqui focar os programas de transferência de renda no mesmo Estado. Os Programas de transferência direta de renda no Mato Grosso do Sul. Neste artigo faço um breve apanhado quantitativo sobre os Programas de Transferência de Renda no Estado de Mato Grosso do Sul, resultando em algumas considerações qualitativas sobre os mesmos. Sobre os programas de transferência de renda e seus impactos no Estado, segue uma breve apresentação. São eles: O Vale-Renda (ação do governo do Estado de Mato Grosso do Sul), o Programa Bolsa Família (ação do governo Federal) e o Beneficio de Prestação Continuada (ação do governo Federal). Regulamentado pela lei nº 3.782 em 14 de dezembro de 2009, o ValeRenda é um programa coordenado pela Secretaria Estadual de Trabalho e Assistência Social (SETAS/MS, 2014) por meio de sua Superintendência de Benefícios Sociais. Tal Superintendência, por sua vez, desenvolve ações direcionadas às famílias em situação de vulnerabilidade econômica e social no Estado do Mato Grosso do Sul, objetivando a independência e melhoria nas condições de vida das mesmas (SETAS, 2014). O Programa se traduz em um benefício pecuniário pago em treze parcelas por ano cujo valor é reajustado anualmente com base na inflação. Em 2014 o valor repassado as famílias beneficiadas é de R$ 170, segundo dados publicados pela SETAS (2014). Para receber o Vale-Renda a família deve ter renda per capita menor ou igual a meio salário mínimo, morar no Estado há no mínimo dois anos, não receber beneficio de outro programa social do governo federal, estadual ou municipal - salvo situações excepcionais (SETAS, 2014). Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome por meio de sua Secretaria de Gestão e Avaliação da Informação (2014), a população em situação de extrema pobreza no Estado do Mato Grosso do Sul totaliza 120.102 pessoas (cento e vinte mil cento e duas), como demonstra a Tabela 1. Tabela 1 - População em situação de extrema pobreza no Mato Grosso do Sul (por faixa etária) em julho de 2014 IDADE QUANTIDADE 0A4 5 a 14 15 a 17 18 a 19 20 a 39 40 a 59 65 ou mais Total 15.634 33.845 8.262 3.942 29.261 20.550 8.609 120.103 Fonte: MDS/SAGI – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome/ Secretaria de Gestão e Avaliação da Informação. A Tabela 2 aponta que, em julho de 2014, a estimativa era de 229.612 (duzentos e vinte e nove mil seiscentas e doze) famílias de baixa renda com o perfil de inclusão no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal2 em Mato Grosso do Sul. Tabela 2 - Estimativa de famílias de baixa renda/pobres no Mato Grosso do Sul em julho de 2014. Perfil (CENSO 2010) Estimativa de famílias de baixa renda Perfil Cadastro Único Estimativa de famílias pobres - Perfil Bolsa Família Famílias 229.612 138.382 2 Instrumento que identifica e caracteriza as famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica no Brasil. Tais famílias possuem renda per capta mensal de até meio salário mínimo ou renda mensal total de até três salários mínimos (MDS, 2014). Fonte: MDS/SAGI – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome/ Secretaria de Gestão e Avaliação da Informação. Estas famílias possuem renda familiar per capita de até meio salário mínimo. Deste total, 138.382 (cento e trinta e oito mil trezentas e oitenta e duas) famílias apresentam o perfil do Programa Bolsa Família, segundo o IBGE (2010). São famílias que sobrevivem com renda familiar de até R$ 140,00. É importante lembrar que nem todas as famílias inscritas no Cadastro Único são perfil do Programa Bolsa Família. Na Tabela 3 pode se observar que o número de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família no Estado de Mato Grosso do Sul é 149.202 (cento e quarenta e nove mil duzentas e duas), segundo folha de pagamento utilizada como referência pelo IBGE (2010). O Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda do Governo Federal que beneficia famílias pobres e extremamente pobres. São consideradas famílias pobres aquelas com renda entre R$ 77,01 e R$ 154,00. São consideradas famílias extremamente pobres aquelas com renda per capta mensal inferior a R$ 77,00 (MDS, 2014). O Programa Bolsa Família é integrado pelo beneficio básico3 e outros benefícios variáveis 4. Cada família pode receber até cinco benefícios variáveis, sob a condição de todos os membros estarem inscritos no Cadastro Único do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS, 2014). Tabela 3 - Famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Familia (BF) no Mato Grosso do Sul em julho de 2014. Total de Famílias Valor Repassado 149.202 R$ 24.392.077,00 Fonte: MDS/SAGI – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome/ Secretaria de Gestão e Avaliação da Informação. 3 Benefício Básico: R$ 77, concedido apenas a famílias extremamente pobres (MDS, 2014). 4 Benefícios Variáveis: Beneficio de 0 a 15 anos (R$ 35,00), Benefício à Gestante (R$ 35,00), Benefício Nutriz (R$ 35,00), Benefício Vinculado ao Adolescente (R$ 42,00), Benefício para Superação da Extrema Pobreza (calculado caso a caso) (MDS, 2014). O Benefício de Prestação continuada (BPC) faz parte da Política de Assistência Social e foi instituído pela Constituição Federal de 1988. Trata-se de um benefício individual de caráter condicional no valor de 01 (um) salário mínimo a pessoa com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais e à pessoa portadora de necessidades especiais que atendam os critérios do Benefício. Tabela 4 - BPC Famílias beneficiadas pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) no Mato Grosso do Sul em julho de 2014. Programa PNE Idosos BPC 34.614 41.662 Fonte: MDS/SAGI – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome/ Secretaria de Gestão e Avaliação da Informação. De acordo com a Tabela 4, o Benefício de Prestação Continuada em Mato Grosso do Sul beneficia 34.614 (trinta e quatro mil seiscentas e quatorze) pessoas portadoras de necessidades especiais (PNE) e 41.662 (quarenta e um mil seiscentas e sessenta e duas) pessoas idosas, totalizando 76.276 (setenta e seis mil duzentas e setenta e seis) pessoas (CENSO IBGE, 2010). Considerações finais É possível compreender a pobreza como um fenômeno social que não deve ser naturalizado, como defende Yazbek (2012, p.3). Este fenômeno apresenta diversas definições conceituais com características em comum. Este artigo buscou contribuir para debate acadêmico sobre Estado, Governo, Políticas Públicas, Pobreza e o Estado de Mato Grosso do Sul, além de fazer considerações sobre os impactos dos programas de transferência direta de renda (Beneficio de Prestação Continuada, Bolsa Família e valerenda) no mesmo. É valido ressaltar que para a escrita deste artigo foi observado certo grau de dificuldade quanto ao acesso a dados precisos sobre o Programa ValeRenda, bem como analises críticas relevantes sobre este. Quanto à produção bibliográfica sobre as políticas públicas de combate a pobreza no Mato Grosso do Sul, esta se mostrou limitada. Avanços podem ser notados nos últimos anos em relação às políticas publicas de combate à pobreza, no entanto é preciso avançar muito mais para que se garantam efetivamente os direitos sociais. Assim, conclui-se que o enfrentamento da pobreza exige mudanças estruturais no modelo econômico que beneficia a minoria. É necessário que se avance num concepção crítica sobre Políticas Sociais e do papel do Estado, priorizando políticas de abrangência universal. Referência Bibliográfica BRESSER-PEREIRA, L. C. A construção política do Estado. Lua Nova, São Paulo, vol. 81, pp. 117-146, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/ CASTRO, J.A. Políticas Sociais: acompanhamento e análise - Vinte Anos da Constituição Federal. Brasília, 2009. COSTA, M. A. Brasil em desenvolvimento 2013: estado, planejamento e políticas pub licas. IPEA; Brasília: 2013. Disponível em http://www.ipea.gov.br DATHEIN, R. et al. Políticas e programas de combate à pobreza e desenvolvimento das capacidades humanas: uma análise comparativa dos municípios do Estado do Mato Grosso do Sul. Trabalho apresentado na III Conferência Latino americana e Caribenha sobre abordagem das capacitações e desenvolvimento Humano (ALCADECA). Porto Alegre, 2010. FALEIROS, V. P. 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