ANÁLISE ESTRUTURAL DE ÁREA NATIVA DE CERRADO
CONSIDERANDO CINCO ESPÉCIES ARBÓREAS EM DOURADOS, MS
Scalon Filho, H.1; Vasconcelos, E.S.2; Schwantes, D.3; Gonçalves Júnior, A.C.2
Resumo
O Cerrado tem diferentes densidades de plantas e pode ser analisado sob o aspecto de sua estrutura
vertical, objeto desse estudo. Nesta análise foram considerados o número de indivíduos, a área basal, a área das
copas e a distribuição de cinco espécies arbóreas: Anadenanthera falcata (Benth) Speg (angico-preto-docerrado), Bauhinia holophylla (Bong.) Steud (pata-de-vaca), Dimorphandra mollis Benth (faveiro-do-cerrado),
Duguetia furfuraceae (St. Hil.) Benth & Hook f (araticum-do-cerrado) e Tabebuia aurea (Silva Manso) Bent &
Hook f ex S. Moore (ipê ou para-tudo), em uma área útil de 7,5 hectares divididos em 30 parcelas de 50 x 50
metros, em Dourados, MS, nas coordenadas 22o 08’ 17,03’’ S e 55o 08’ 14,72’’ W e a 486 m de altitude. Foram
calculadas as Dominâncias, Densidades e Frequências Absolutas e Relativas para a estimativa do Índice de Valor
de Importância (IVI) de cada espécie. Para melhor compreensão da análise estrutural foram feitos quadros de
distribuição de frequências para cada espécie em função da sua área à altura do peito, o que sugere a distribuição
das espécies em cinco classes de idade. O angico apresenta a maior cobertura, a maior dominância e o maior IVI,
mas não o maior número de indivíduos, superado pelo araticum. A pata-de-vaca apresenta os menores índices
avaliados.
Palavras-chave: Fitossociologia; Índice de Valor de Importância; Análise Estrutural.
Abstract
STRUCTURAL ANALYSIS OF THE SAVANNAH NATIVE AREA WHEREAS FIVE TREE SPECIES IN
DOURADOS, MS
The Cerrado has different densities of plants and can be analyzed from the aspect of its vertical
structure, object of this study. In the analysis were considered the number of individuals, basal area, canopy area
and distribution of five species: Anadenanthera falcata (Benth) Speg (angico-preto), Bauhinia holophylla
(Bong.) Steud (pata-de-vaca), Dimorphandra mollis Benth (faveiro), Duguetia furfuraceae (St. Hil.) Benth &
Hook f. (araticum) e Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth & Hook f. ex S. Moore (para-tudo), in an area of 7.5
hectares divided into 30 plots of 50 x 50 meters, located in Dourados, MS, in the coordinates 22o 08’ 17,03’’ S e
55o 08’ 14,72’’ W and 486 meters above sea level. Were calculated Dominance, Densities and Absolute and
Relative Frequencies for estimating the Importance Value Index (IVI) of each species. To better understand the
structural analysis was made of frequency distribution tables for each species according to their area at breast
height, suggesting the distribution of species in five age classes. To better understand the structural analysis was
made of frequency distribution tables for each species according to their area at breast height. The angico has the
highest coverage, the most dominant and most IVI, but not the greater number of individuals, overcome by
araticum. The pata-de-vaca has the lowest indexes.
Phytosociology; Importance Value Index; Structural Analysis.
INTRODUÇÃO
Os benefícios das florestas podem ser diferenciados em duas categorias – os diretos e os indiretos,
sendo os primeiros representados pelos produtos úteis ao homem como a “madeira, resinas, óleos essenciais,
plantas medicinais, frutos e mel”; e indiretos os serviços prestados pelas árvores sobre os efeitos do clima, solos
e recursos hídricos além da qualidade da vida dos animais e do homem em seus aspectos psicológicos e sociais,
desde a manutenção da piscosidade dos rios até à redução dos riscos de enchentes e da poluição sonora a que o
homem moderno se submete (CARPANEZZI, 2000).
Os Cerrados são unidades fitofisionômicas expressivas considerando-se o porcentual de áreas ocupadas,
em torno de 25% de todo o território brasileiro (POGGIANI et al., 1996), superior a 2 milhões de km² com mais
de 1.200 km de leste para oeste e mais de 1.000 km de norte a sul abrangendo o Planalto Central e uma pequena
área da região sul. Coutinho (2002), sugere que o cerrado tenha 1,5 milhão de km2 e entre 1,8 e 2,0 milhões de
km2 se forem adicionadas as áreas periféricas encravadas em outros domínios de entorno e faixas de transição,
sendo o segundo bioma em extensão (SILVA et al., 2001), perdendo somente para a Floresta Amazônica, que
ocupa 49,29% do território nacional (ANUÁRIO BRASILEIRO DE SILVICULTURA, 2005). A região dos
cerrados possui alta luminosidade, baixa densidade demográfica e intensa atividade agro-pastoril. As espécies
que caracterizam a vegetação de Cerrado são normalmente heliófitas, com exceção feita àquelas de ocorrência
nos sub-bosques, e apresentam grande capacidade de rebrota das estruturas subterrâneas após queimadas com a
predominância de fogo rasteiro.
1
2
MSc, Professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS [email protected]; doutorando PPGA/UNOESTE;
Dr, Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNOESTE; 3Mestrando PPGA/UNOESTE
A vegetação característica do Cerrado tem sua origem na seleção e adaptação de espécies às condições
de deficiências minerais (CAVASSAN, 2002), desde o campo limpo (formação campestre) até o cerradão
(formação florestal), e as formações savânicas intermediárias – campo sujo, cerrado e cerrado senso restrito, que
se constituem em ecótonos de vegetação entre as formações extremas. As formas intermediárias, estabelecidas
conforme a fertilidade do solo e frequência, época e intensidade das queimadas, levam a crer que apesar da sua
distribuição predominantemente em áreas de clima tropical sazonal, a fertilidade do solo e o fogo são de fato os
fatores que limitam as formas de vegetação (COUTINHO, 2002), embora seja claramente notado que algumas
formas abertas de cerrado sejam resultantes de ações antrópicas visando à obtenção, eventualmente criminosa, de
lenha e de carvão.
Apesar de apresentar potencial para abrigar cerca de um terço da fauna e da flora nacional, o bioma
cerrado é classificado como um “hotspot” por apresentar expressiva redução da biodiversidade (MEDEIROS,
2004).
Desde a década de setenta, o Cerrado vem sendo ameaçado pela expansão marginal da fronteira
agrícola que já tomou cerca de 50% de sua área original, que hoje se encontra sem 70% da sua cobertura vegetal
e menos de 2% protegido por Parques Nacionais ou Reservas, separados entre si por grandes distâncias. Não
foram encontrados dados na literatura consultada sobre incrementos de áreas utilizadas com Sistemas
Agroflorestais ou Silvopastoris, embora sejam hoje técnicas já consagradas pela Pesquisa e por produtores mais
afetos à questão ambiental.
O fator antrópico, que se inicia no desmatamento e no extrativismo predatório e culmina com a poluição
do ar, do solo e da água, é mais sentido neste bioma do que na Floresta Amazônica, considerando que somente
2,2% da área do cerrado são protegidas por Lei. Estimativas apontam para uma devastação de aproximadamente
35% do cerrado que, transformado em terras de pecuária e cultivo, tem perdido seu potencial hidrográfico
imprescindível para a manutenção dos recursos da natureza inclusive do bioma Pantaneiro, uma planície
inundável que vive em função do fluxo desses cursos d’água. Dentre os Estados que mais sacrificaram o cerrado
está certamente o de São Paulo, onde restam menos de 10% dessa vegetação e onde os rios são mais poluídos em
função de esgotos urbanos e industriais.
O desmatamento promove ainda a eliminação local de plantas e animais, a degradação dos solos de
florestas, o assoreamento e o rompimento dos cursos d’água, mudanças climáticas regionais, perda de produtos
valiosos com consequências sociais e econômicas, o deslocamento de culturas indígenas e alteração do clima
global, (MANUAL GLOBAL DE ECOLOGIA, 1996).
Os Sistemas Agroflorestais são uma alternativa viável tanto quanto desejável para o cultivo de muitas
espécies, capaz de atender a um mercado cada vez mais exigente (BAGGIO et al., 2003), mas por diversos
fatores tem sido pouco adotado por setores da produção agrícola.
O produtor rural tem como objetivo geral obter ganhos financeiros, e que se recusa a utilizar ou utiliza
muito pouco as propostas originadas da pesquisa como o cultivo em Sistema Agroflorestal (DOSSA, 2000).
Entretanto, para o adequado desenvolvimento rural sustentável, a integração dos componentes pecuário, agrícola
e florestal contempla a necessidade de mitigação de seus impactos no meio ambiente além de permitir a máxima
biodiversidade possível, o uso conservacionista do solo e a conservação da água (SILVA et al, 2003).
O modo mais lucrativo e imediato de combinar objetivos de desenvolvimento e conservação deveria
considerar a exploração apenas de alimentos, óleo, borracha e medicamentos, considerando que estudos
realizados no Brasil e Peru indicam que rendas líquidas desses produtos não madeireiros, no longo prazo,
rendem três vezes mais do que a extração comercial de madeira ou a abertura de clareiras para a criação de gado.
Os ecossistemas são bastante complexos, e nas florestas e matas existem intrínsecas relações cujo
conhecimento se torna imprescindível para a aplicação de novas técnicas como manejo sustentável, sistemas
agroflorestais, preservação de áreas nativas e levantamentos e análise da vegetação.
Esses levantamentos e análises são imprescindíveis para a estimativa da resiliência, da dispersão, da
produção e do incremento anual por unidade de área das espécies nativas ainda sem avaliações sistemáticas, e as
espécies foram escolhidas segundo trabalhos de Sangalli, 2000 que as elencou entre as mais retiradas das matas
no entorno da cidade de Dourados, MS.
O objetivo desse estudo foi o da descrição ecossociológica de um segmento do bioma tropical tipo
Cerrado a partir de um senso preliminar que considerou o número de indivíduos por espécie, o diâmetro de copa
e de tronco à altura do peito e a locação de cada planta das espécies citadas, com circunferência à altura do peito
superior a dois centímetros, na área em estudo.
REVISÃO DE LITERATURA
Os ecossistemas são bastante complexos, e seu entendimento é tarefa árdua para a pesquisa. Nas
florestas e matas existe uma gama de relações cujo conhecimento se torna imprescindível para a aplicação de
novas técnicas como manejo sustentável, sistemas agroflorestais e para a preservação de áreas nativas.
Os Cerrados são unidades fitofisionômicas expressivas considerando-se o porcentual de áreas ocupadas,
em torno de 25% de todo o território brasileiro (POGGIANI et al., 1996), superior a 2 milhões de km² com mais
de 1.200 km de leste para oeste e mais de 1.000 km de norte a sul abrangendo o Planalto Central e uma pequena
área da região sul. Coutinho, 2002, sugere que o cerrado tenha 1,5 milhão de km2 e entre 1,8 e 2,0 milhões se
forem adicionadas as áreas periféricas encravadas em outros domínios de entorno e faixas de transição – os
ecótonos. Apresentam vegetação característica dos Cerrados os Estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso,
Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Piauí e o Distrito Federal, além de uma parte dos estados da Bahia, Ceará,
Maranhão, Rondônia, São Paulo e uma pequena parte do Paraná, mais precisamente no município de
Jaguariaíva. Ocorre também em pequenas áreas dos estados de Roraima, Pará, Amapá e Amazonas, sendo o
segundo bioma em extensão (SILVA et al., 2001), perdendo somente para a Floresta Amazônica, que ocupa
49,29% do território nacional (ANUÁRIO BRASILEIRO DE SILVICULTURA, 2005). O clima predominante é
o tropical sazonal de inverno seco com temperatura média anual entre 22 e 23oC, com máximas absolutas
mensais que pouco variam durante o ano, podendo atingir valores superiores a 40oC e mínimas absolutas
mensais que atingem valores abaixo de zero. Encontram-se normalmente sobre relevo plano ou suavemente
ondulado com 50% de sua área situada entre os 300 e 600 metros de altitude, tendo como ápices o Pico do Sol na
Serra do Caraça, com 1.207 m; o Pico do Itacolomi na Serra do Espinhaço, com 1.797 m e a Chapada dos
Veadeiros, com até 1.676 m, mas o bioma geralmente não ultrapassa os 1.100 metros de altitude (COUTINHO,
2002). A região dos cerrados possui alta luminosidade, baixa densidade demográfica e intensa atividade agropastoril.
Apesar de apresentar potencial para abrigar cerca de um terço da fauna e da flora nacional, o bioma
cerrado é classificado como um “hotspot” por apresentar expressiva redução da biodiversidade (MEDEIROS,
2004). Ainda hoje bastante diversificado, varia desde as formas campestres – campos limpos, até formas mais
densas – florestais como o cerradão, passando por formas intermediárias, estabelecidas conforme a fertilidade do
solo e frequência, época e intensidade das queimadas, o que leva a crer que apesar da sua distribuição
predominantemente em áreas de clima tropical sazonal, a fertilidade do solo e o fogo são de fato os fatores que
limitam as formas de vegetação (COUTINHO, 2002), embora seja claramente notado que algumas formas
abertas de cerrado sejam resultantes de ações antrópicas visando obtenção, eventualmente criminosa, de lenha e
de carvão.
Vegetação
Comunidades vegetais apresentam composição florística ainda desconhecida em grande parte do
território nacional, e estudos dessa monta são imprescindíveis para o entendimento dos padrões de distribuição
geográfica das espécies em estudo. O atual estado das formações vegetais brasileiras confere maior importância
a esses estudos, servindo de base para programas de recuperação de áreas degradadas n os níveis local e regional,
considerando a inexistência de estudos específicos para cada localidade (SILVA JÚNIOR, 2004).
A vegetação tem importância que transcende a beleza cênica, desempenhando papel fundamental na
disponibilidade hídrica, no sequestro de carbono e na liberação do oxigênio. Quando uma lista das espécies de
uma área é obtida, cada uma pode ser avaliada segundo gradientes quantitativos como abundância, cobertura e
frequência (CARDOSO et al., 2002).
De qualquer forma, tem-se como certo que a vegetação característica do Cerrado tem sua origem na
seleção e adaptação de espécies às condições de deficiências minerais (CAVASSAN, 2002), desde o campo
limpo (formação campestre) até o cerradão (formação florestal), e as formações savânicas intermediárias –
campo sujo, cerrado e cerrado senso restrito constituem-se ecótonos de vegetação entre as extremas.
O Fator antrópico
Para Drew (1994), as atitudes do homem para com a terra têm variado com o passar do tempo, assim
como suas reações ao fator ambiental. Dentre esses fatores estão o solo, o relevo, o clima, a vegetação, os
minerais e a água como sujeitos a fatores antrópicos como a demografia, economia e história social. Com o
incremento da tecnologia o homem toma decisões quanto ao uso da terra, fato que gera mudanças no uso do solo
que realimenta ou altera os fatores ambientais, dando continuidade a um ciclo que parece ter início e fim na
resiliência do ambiente.
O fator antrópico, que se inicia no desmatamento e no extrativismo predatório e culmina com a poluição
do ar, do solo e da água, é mais sentido neste bioma do que na Floresta Amazônica, considerando que somente
2,2% da área do cerrado são protegidas por Lei. Estimativas apontam para uma devastação de aproximadamente
35% do cerrado que, transformado em terras de pecuária e cultivo, tem perdido seu potencial hidrográfico
imprescindível para a manutenção dos recursos da natureza inclusive do bioma Pantaneiro, uma planície
inundável que vive em função do fluxo desses cursos d’água. Dentre os Estados que mais sacrificaram o cerrado
está certamente o de São Paulo, onde restam menos de 10% dessa vegetação e onde os rios são mais poluídos em
função de esgotos urbanos e industriais. Ainda, o desmatamento promove a extinção de planta e animais, o
deslocamento de culturas indígenas, a degradação dos solos de florestas, o assoreamento e o rompimento dos
cursos d’água, mudanças climáticas regionais, alteração do clima global, perda de produtos valiosos e
consequências sócias e econômicas (MANUAL GLOBAL DE ECOLOGIA, 1996).
Sistemas agroflorestais
Os Sistemas Agroflorestais são uma alternativa viável tanto quanto desejável para o cultivo de muitas
espécies, capaz de atender a um mercado cada vez mais exigente (BAGGIO et al, 2003), mas por diversos
fatores tem sido pouco adotado por setores da produção agrícola.
Dossa, 2000, observa que o produtor rural tem como objetivo geral obter ganhos, fundamentalmente
financeiros, e que se recusa a utilizar ou utiliza muito pouco as propostas originadas da pesquisa como o cultivo
em Sistema Agroflorestal, embora sejam inquestionáveis seus ganhos sócio-ambientais. Silva et al, 2003,
acrescenta que para o adequado desenvolvimento rural sustentável, a integração e a interação dos componentes
pecuário, agrícola e florestal contempla a necessidade de mitigação de seus impactos no meio ambiente além de
permitir a máxima biodiversidade possível, o uso conservacionista do solo e a conservação da água. A
preocupação com a transferência e adoção dos Sistemas Agroflorestais ocorre por falta de visão dos benefícios
que podem ser obtidos, pela inadequada coordenação das ações de transferência e pela falta de mecanismos e
metodologias apropriadas de pesquisa e de transferência de tecnologia agroflorestal (VILCAHUAMAN, 2002).
A agricultura familiar, responsável por significativa parcela na produção nacional, precisa de sistemas de
produção adequados ao tamanho de suas propriedades, à disponibilidade de mão-de-obra e à sua capacidade de
investimento, e o Sistema Agroflorestal para esse caso reúne vantagens econômicas e ambientais além de uma
menor dependência de insumos externos resultando em maior segurança alimentar e economia, tanto para os
pequenos agricultores quanto para os consumidores (ARMANDO et a.l, 2003).
Carpanezzi, (2000), diferencia os benefícios das florestas entre duas categorias, os diretos e os indiretos,
sendo os primeiros representados pelos produtos úteis ao homem como a “madeira, resinas, óleos essenciais,
plantas medicinais, frutos e mel”; e os indiretos os serviços prestados pelas árvores sobre os efeitos do clima,
solos e recursos hídricos além da qualidade da vida dos animais e do homem em seus aspectos psicológicos e
sociais, desde a manutenção da piscosidade dos rios até à redução dos riscos de enchentes e da poluição sonora a
que o homem moderno se submete. Outros benefícios, qualificados como indiretos, são relatados por esse autor e
se referem ao controle dos ventos, a qualidade de vida do homem nas cidades, a redução do risco de enchentes, a
redução da poluição do ar e da água, a polinização nos pomares, o controle biológico de pragas entre outros, os
quais, apesar da importância para o homem, são de difícil quantificação monetária por envolver aspectos
psicofisiológicos como o lazer e celebrações religiosas em reservas naturais e uma melhor recuperação de
pacientes internados em hospitais com janelas voltadas para arvoredos. O mesmo autor cita ainda a importância
da liberação do oxigênio e sequestro de carbono como tema tornado recentemente popular, considerando o
aumento da poluição atmosférica através da emissão de gases poluentes tendo no dióxido de carbono seu mais
conhecido agente.
Para Dubois et al., (1996), as florestas fornecem madeira, lenha, resinas, óleos essenciais, plantas
medicinais, frutos, mel, além de melhorar a qualidade de vida silvestre e da humanidade, sendo que as espécies
denominadas “úteis” encontram-se classificadas as madeiráveis, frutíferas, hortaliças e espécies perenes com
folhas comestíveis, plantas ornamentais, perenes industriais (não madeireiras), medicinais e as condimentares.
Segundo o Manual Global de Ecologia, 1996, a importância das florestas tropicais é fundamental para a
manutenção dos habitats de milhões de espécies de plantas e animais, além de manter as populações nativas e
fornecer produtos como madeiras, frutas, vegetais, condimentos, castanhas, medicamentos, óleos, cera, borracha
e outras mercadorias industriais, além de suprir a engenharia genética de informações para criar novos produtos
para a indústria, medicina e outros usos comerciais. Cita ainda que o modo mais lucrativo e imediato de
combinar objetivos de desenvolvimento e conservação deve considerar a exploração apenas de alimentos, óleo,
borracha e medicamentos, considerando que estudos realizados no Brasil e Peru indicam que rendas líquidas
desses produtos não madeireiros, no longo prazo, rendem três vezes mais do que a extração comercial de
madeira ou a abertura de clareiras para a criação de gado.
Espécies arbóreas e suas dispersões
As espécies são árvores nativas com propriedades medicinais mais utilizadas pela população local
(SANGALLI, 2000) e em risco de extinção (VIEIRA et al., 2002).
Espécie secundária inicial decídua, a Anadenanthera colubrina, o angico branco, apresenta tronco sem
espinhos e folhas recompostas, bipinadas, com folíolos opostos e oblongo-lineares (REYES, 2003). Flores
pequenas, branco-amareladas. Fruto folículo achatado, com cerca de 20 cm de comprimento. Sua casca pode
atingir até 20 mm com fendas finas longitudinais. Ocorre preferencialmente em terrenos altos e bem drenados e é
bastante comum no Mato Grosso do Sul (CARVALHO, 2003).
Annona cacans, o araticum, é uma árvore semicaducifólia com tronco reto e cilíndrico e casca com
espessura de até 10 mm. Folhas simples, alternadas e flores em pedúnculos pubescentes (CARVALHO, 2003).
Planta hermafrodita com dispersão autocórica, é uma das espécies nativas do cerrado com alto potencial
frutífero, mas com escassa informação sobre seu comportamento em condições naturais (BRAGA FILHO,
2009).
A pata-de-vaca, Bauhinia forficata, apresenta-se com tronco tortuoso, curvo e delgado com fuste curto e
casca de até 7 mm. Caducifólia, suas folhas são alternadas, simples e coriáceas, flores brancas com
inflorescência racemosa axilar; planta hermafrodita polinizada principalmente por morcegos (CARVALHO,
2003). Seu fruto é um legume reto de deiscência elástica e indicado como fitoterápico na região amazônica
(ILKIU-BORGES; MENDONÇA, 2009).
Anadenanthera falcata (Benth) Speg, o angico-preto-do-cerrado, é uma espécie pioneira da ordem das
Fabáceas pertencente à família das Mimosáceas e foi encontrado nos Estados do Piauí, Bahia, Goiás, Espírito
Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal,
entre os paralelos 70 S, no Piauí, e 250 20’ O no Paraná. Dentre seus nomes mais comuns, Carvalho (2003) e
Almeida et al., (1998) citam: arapiraca, cambuí-ferro, curupaí e pau-de-boaz, além de grande derivação do termo
angico cuja origem não consta da bibliografia consultada. Árvore perenifólia, pode atingir até 15 m
(CARVALHO, 2003) e até 35 m (ALMEIDA et al., 1998) de altura. Cita o primeiro autor que seu Diâmetro à
Altura do Peito - DAP atinge 0,40 m no Cerrado e até 0,60 m no noroeste do Paraná.
O faveiro, Dimorphandra mollis Benth, é planta característica do cerrado (LORENZZI, 1992) e
adaptada às condições de baixa precipitação pluviométrica, apresentando sua floração na estação chuvosa e
queda de folhas e frutificação na época seca do ano (LORENZI, 2002). Panegassi et al. (2000), analisando os
resultados de pesquisa sobre a viabilidade da utilização comercial das sementes desta espécie para a aplicação na
indústria de alimentos, concluiu ser possível a obtenção de galactomanano com grau de pureza bastante próximo
aos apresentados pelos produtos comerciais, atestando ausência de toxicidade.
Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth & Hook, árvore conhecida como para-tudo ou casca d’anta, é uma
rutácea que pode atingir até 20 m de altura com folhas simples, lisas e grandes e flores pequenas em cachos
redondos de 0,12 m. Fruto verde não comestível e sementes pretas e pequenas como um grão de arroz. É uma
das espécies mais procuradas por raizeiros que extraem sua casca para fins medicinais (SANGALLI, 2000), e
essa prática pode provocar a morte da árvore. Na paisagem destaca-se pela floração de cor amarela que ocorre
nos meses de agosto e setembro, quando perde suas folhas e compõe a beleza cênica das margens da rodovia
BR-262, entre as cidades de Miranda e Corumbá (SOARES; OLIVEIRA, 2009). As sementes apresentam
expansões aladas bilaterais assimétricas, fator que pode interferir de forma favorável em sua dispersão por
permitir maior raio de abrangência durante a dispersão eólica (OLIVEIRA et al., 2006).
Densidades, dominâncias, frequências e índice de valor de importância
A Densidade de uma dada espécie na mata é expressa pelo número de indivíduos encontrados por
unidade de área. Esse número, quando dividido pelo número total de indivíduos de todas as espécies dentro da
comunidade estudada, fornece a Densidade Relativa dessa mesma espécie. A Frequência indica o número de
parcelas nas quais foi possível a identificação da espécie em relação ao número total de parcelas, sendo uma
variável sensível aos padrões de distribuição dos indivíduos; e a relação entre esse valor e a soma das
frequências de todas as espécies encontradas na área amostrada define a Frequência Relativa da espécie. A
Dominância de uma espécie arbórea na mata é expressa pela sua área basal e, quando sua soma é dividida pela
soma da área basal de todas as espécies tem-se a Dominância Relativa que, à semelhança da Densidade Relativa
e da Frequência Relativa, deve ser expressa em porcentagem. O Índice de Valor de Importância das espécies
arbóreas considera a soma da Dominância, Frequência e Densidade Relativa (POGGIANI et al., 1996).
Material e métodos
O ensaio foi montado nas coordenadas 22o 08’ 17,03’’ S e 55o 08’ 14,72’’ W e a 486 m de altitude. Uma
estaca de madeira de um metro de comprimento, marcada com o número 01, foi fixada na mata à cerca de 20
metros da estrada vicinal de acesso à sede da propriedade e de um carreador de entorno perpendicular à estrada,
que faz às vezes de aceiro. A partir dela foram estendidas trenas de 50 metros mata à dentro em duas direções em
ângulo de 900 e fixadas e numeradas novas estacas até a completa demarcação da área. Sinalizadores de tecido
colorido foram presos aos galhos mais próximos às estacas a uma altura de mais ou menos dois metros do solo
para facilitar sua localização. Cada quatro estacas delimitam uma subárea.
A subárea um teve as árvores identificadas por fitas coloridas segundo a espécie das quais, depois de
conferidas, foram tomadas e anotadas as medidas da circunferência à altura do peito (CAP) e o maior diâmetro
da copa e outro perpendicular para estimativa do raio médio. Igual procedimento foi adotado para as demais
subáreas.
Os valores de CAP foram transformados para Área à Altura do Peito (AAP) e os diâmetros de copa
foram somados e divididos por quatro para a obtenção do raio (R) que foi transformado em Área de Copa (AC)
segundo a equação AC = π.R2.
As Densidades Absoluta e Relativa foram calculadas segundo a equação
a) Densidades absoluta e relativa
DAi = ni . A-1 ; DRi = DAi . (∑Si=1 DAí)-1 . 100
em que:
DAi = densidade absoluta da i-ésima espécie, em número de indivíduos por hectare;
ni = número de indivíduos da i-ésima espécie na amostragem
A = área total amostrada, em ha;
DRi = densidade relativa da i-ésima espécie, em porcentagem; e
S = número de espécies amostradas
As Dominâncias Absoluta e relativa foram calculadas segundo a equação
b) Dominâncias absoluta e relativa
DoAi = ABi . A-1 ; DoRi = ABi . (∑Si=1 ABí)-1 . 100
em que:
DoAi = dominância absoluta da i-ésima espécie, em m2 . ha-1;
ABi = área basal (somatório das áreas seccionais) da i-ésima espécie, em m2, na área amostrada;
A = área amostrada, em ha; e
DoRi = dominância relativa da i-ésima espécie, em porcentagem.
As Frequências Absoluta e relativa foram calculadas segundo a equação
c) Frequências absoluta e relativa
FAi = ui . ut-1 . 100 ; FRi = FAi . (∑Si=1 FAi )-1 . 100
em que:
FAi = frequência absoluta da i-ésima espécie;
ui = número de unidades de amostra em que se encontrou a i-ésima espécie;
ut = número total de unidades de amostra medidas; e
FRi = frequência relativa da i-ésima espécie, em porcentagem.
O Índice de Valor de Importância foi calculado segundo a equação
d) Ìndice de Valor de Importância (%)
IVIi (%) = DRi + DoRi + FRi
As Áreas de Cobertura da Espécie (Ci) e Cobertura Relativa da Espécie (RCi) foram calculadas segundo
a equação:
Ci = ai . A-1; RCi = Ci . TCi-1 = Ci . ΣC-1
em que:
ai = Área total coberta pela espécie i
A = Área total amostrada
TCi = ΣCi = Cobertura total de todas as espécies
Resultados e discussão
Para a discussão abaixo devem ser consideradas as plantas para-tudo (PT), faveiro (FA), araticum (AR),
angico preto (AN) e pata-de-vaca (PV) como as espécies 1, 2, 3, 4 e 5 respectivamente, relacionadas no eixo x
das figuras.
A porcentagem de distribuição do número de indivíduos por espécie não variou entre as quatro
primeiras espécies avaliadas, exceção feita à pata-de-vaca que apresentou a menor ocorrência (Tabela 1). A
cobertura variou de forma a ser sempre menor, em proporção, que o número de indivíduos da mesma espécie,
exceção feita ao angico preto (espécie 4) que apresentou proporções de cobertura e de área basal superior àquela
observada para as demais espécies (Figura 1).
Tabela 1. Número e porcentagem de indivíduos observados por espécie avaliada
Table 1. Number and percentage of individuals observed per species evaluated
Espécie
PT
FA
AR
AN
n. indivíduos
150
110
155
125
%
27,32
20,04
28,23
22,77
PV
9
1,64
TOTAL
549
100
As estimativas dos parâmetros mostram maiores índices de Densidade Absoluta para o araticum, que
não apresentou diferença significativa (P>0,5) do Para-tudo, mesma observação para a Densidade Relativa, mas
as Dominâncias Absoluta e Relativa apresentaram maiores índices para o angico. As frequências não variaram
exceto para a pata-de-vaca (Tabela 2)
Tabela 2. Estimativas dos parâmetros da estrutura de mata de cerrado considerando cinco espécies arbóreas
nativas
Table 2. Estimates of the parameters of the structure of forest savanna considering five native tree species
ESPÉCIE
DA
DoA
FA
FR
DR
DoR
IVI (%)
PT
20,00
0,344517
90,00
23,28
27,31
21,80
24,13
FA
14,70
0,067076
96,67
25,00
20,07
04,24
16,44
AR
20,67
0,257518
96,67
25,00
28,22
16,29
23,17
AN
16,67
0,909163
90,00
23,28
22,76
57,53
34,52
PV
1,20
0,002175
13,33
3,44
1,64
0,14
1,74
TOTAL
73,21
1,580449
386,67
100,00
100,00
100,00
100,00
O número de indivíduos avaliados por espécie e por hectare está projetado na Tabela 3 com seus
respectivos IVI’s, onde se observa que o Angico apresenta o maior IVI mesmo com uma ocorrência mais baixa
que outras duas espécies, araticum e para-tudo.
Tabela 3. Número de indivíduos observados por espécie e por hectare e IVI´s
Table 3. Number of individuals observed per species and per hectare and their IVI's
Espécies
PT
FA
AR
AN
Indiv ha-1
20,00
14,67
20,67
16,67
IVI
24,12
16,42
22,32
35,31
PV
1,20
1,89
TOTAL
73,21
100,00
Com relação à distribuição da idade, que pode ser inferida a partir dos diâmetros de caule, a tabela 4
demonstra que indivíduos mais jovens, pertencentes à 1a classe, são maioria dentre as espécies, exceção feita à
pata-de-vaca onde as duas primeiras classes não mostraram diferenças, mas deve-se considerar o pequeno
número de indivíduos encontrados. Na 5a classe, composta por indivíduos com maior área basal, encontram-se
classificadas em menor número as matrizes.
Tabela 4. Medidas de Posição, Dispersão e Distribuição de Frequências em cinco classes para Cobertura
Table 4. Measures of Location, Dispersion and Distribution of Frequencies in five classes for Coverage
Distribuição de frequências (%)
ESPÉCIE
MÉDIA
ME
SQD
1a
2a
3a
4a
5a
Para tudo
10,73
5,51
624,00
86,7 10,0
2,0
0,7
0,7
Faveiro
5,92
3,14
268,67
67,3 21,8
6,4
2,7
1,8
Araticum
6,84
4,91
318,17
74,2 23,9
1,3
0,0
0,6
Angico
28,61
16,02
520,83
72,8 20,0
4,8
1,6
0,8
Pata de vaca
2,74
2,01
22,30
33,3 33,3 22,2
0,0 11,1
A área basal fornece informação quanto à Dominância da espécie, sendo que quanto maior esse valor
maior a idade da planta. Assim, áreas são dominadas por espécies que se apresentam com o maior número de
indivíduos adultos, ou, teoricamente, com um número bastante expressivo de indivíduos jovens.
A distribuição em cinco classes de frequências observadas considerando a área basal pode ser melhor
observada na Figura 2.
Figura 2. Distribuição das Espécies em cinco classes de idades
Figure 2. Distribution of Species in five age classes
1a
2a
3a
4a
5a
Classes
100
80
%
60
40
20
0
1
2
3
4
5
Espécies
Todas as espécies avaliadas apresentam maior número de indivíduos com menor Área à Altura do Peito,
o que pode ser entendido como mais jovens originados das poucas plantas mais velhas, sugerindo um estado de
resiliência em que o sistema busca um novo equilíbrio a partir das gerações mais jovens (Figura 2). A correlação
entre Área à Altura do Peito e Área de Copa consta na Tabela 5, onde o faveiro se destaca como a de maior
correlação – 94% e o angico, a menor – 60%.
Tabela 5. Médias à Altura do Peito (AP), de Área de Copas (AC) e Coeficientes de Correlação (CC) das cinco
espécies avaliadas
Table 5. Averages of Breast Height (AP), Area of Hearts (AC) and Correlation Coefficients (CC) of the five
species evaluated
Espécies
PT
FA
AR
AN
PV
AP (média) m2
0,022989
0,006095
0,016362
0,072696
0,002416
AC (média) m2
10,731100
5,921700
6,879202
28,610102
2,741101
CC
0,774193
0,936446
0,630174
0,595925
0,864074
A maior área média aferida à altura do peito foi apresentada pelo Angico (0,07 m2) que apresenta
também a maior área de copa (28,61 m2) e o maior IVI (35,31%) (Tabela 3), espécie entre as mais retiradas das
matas. A maior porcentagem de correlação entre áreas de copa e tronco à altura do peito foi apresentada pelo
faveiro (93,65%).
Certamente trabalhos continuados de acompanhamento da área mapeada permitirão observação mais
clara quanto à resiliência desse sistema impactado.
Conclusão
A análise estrutural revela que as cinco espécies avaliadas não se distribuem de forma uniforme nas
matas de cerrado, dependendo certamente de outros fatores como a forma de propagação da espécie. A menos
adaptada é a pata-de-vaca que, apesar de deiscente, encontra dificuldades para propagar suas sementes
provavelmente por ser árvore de porte mais baixo em área densa. O araticum apresenta porte semelhante, mas
conta com a contribuição da fauna local para a dispersão de suas sementes - zoocoria.
Questões relativas à distribuição das espécies precisam ser melhor avaliadas para orientar a
recomposição florística de áreas degradadas.
A “restituição” de matas não deve se ater à disponibilidade de mudas simplesmente, mas sim observar a
capacidade de adaptação das espécies, suas formas de propagação e seus aspectos fitossociológicos.
Agradecimentos
À Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS, ao Programa de Pós-Graduação em Agronomia da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – PPGA/UNIOESTE e aos Professores que nos orientam.
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análise estrutural de área nativa de cerrado