CC – 11 História das Ciências na Bahia: cidades, instituições e personagens Coordenador: Francisco Antônio Zorzo A IMPORTAÇÃO DA TECNOLOGIA DOS TRANSPORTES FERROVIÁRIOS NA BAHIA DURANTE A SEGUNDA METADE DO S. XIX Francisco Antônio Zorzo Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana I. Introdução Propõe-se aqui uma discussão do problema da modernização da tecnologia dos transportes e seus impactos sócio-econômicos, ocorrida a partir da segunda metade do século XIX, em especial advinda com o agenciamento da ferrovia. Naquele período, a história da engenharia na Bahia esteve diretamente envolvida com a introdução das máquinas ferroviárias. Como se tratava de uma técnica nova e de um aparato importado do estrangeiro, cujos desdobramentos eram estimados com muito ufanismo, a introdução da ferrovia tornou-se num empreendimento estratégico com efeitos turbulentos. A questão mais geral a ser colocada nesta discussão se refere às formas como se introduziu a nova tecnologia e seus custos. Quais foram as primeiras iniciativas e propostas e até que ponto os empreendimentos que vingaram foram coerentes com os propósitos modernizadores? Para responder a uma pergunta como essa, faz-se necessário rastrear uma ampla documentação sobre o tema e compor um painel dos empreendimentos ferroviários no período. Quer dizer, deve-se buscar a resposta concreta dos fatos ao longo do período de cinco décadas do século XIX, não por meio de postulados e especulações, mas através da investigação documental. O processo de aquisição da tecnologia modificou-se muito ao longo do tempo com o aprendizado alcançado e com as táticas articuladas pelos agentes, sem se falar das improvisações que rechearam o episódio. Para fornecer uma perspectiva compreensiva de leitura dos fatos concretos, nesta comunicação, adotou-se, como marco introdutório para o estudo do acontecimento em questão, o documento de 1852, da Junta da Lavoura, referente à proposta de implantação da primeira estrada de ferro da província que partiria de Salvador até Juazeiro. Para o outro extremo, adotou-se, como marco de fechamento do período de análise, um notável documento de 1897, o relatório referente à mesma estrada de ferro, apresentado ao Ministério da Industria, Viação e Obras Públicas pelo engenheiro e diretor da empresa. É obvio que o recorte do estudo, pautado nos dois documentos acima referidos, independentemente da riqueza do conteúdo de ambos, tem muito de convencional. Por si só, tal escolha seria insuficiente, caso se restringisse às informações de apenas dois documentos para conduzir as análises. Para dar maior consistência ao estudo usou-se todo um conjunto de outros documentos e outras fontes secundárias que ao serem cruzados ancoram a presente dissertação sobre o objeto de estudo.1 Alguns dos principais documentos e referências bibliográficas usadas estão indicadas ao final do texto. Ainda sobre a amarração do presente estudo, para se ter uma idéia mais clara do problema da aquisição da tecnologia ferroviária desde uma perspectiva interna, como ele foi vivenciado e criticado por técnicos tidos como os mais competentes em sua época, foi possível empregar um interessante conjunto de relatos. Foram usadas publicações de vários técnicos que se vincularam ao tema das construções ferroviárias no país naquele período, entre outras como as de Cristiano Benedito Ottoni, André Rebouças e João Pandiá Calógeras e Teodoro Sampaio. II. A questão da Aquisição Tecnológica: A Leitura dos Documentos Selecionados Definidos os documentos, datados de 1852 e 1897, como marcos do presente estudo, obtem-se uma perspectiva do episódio ferroviário sob o ponto de vista das estratégias, dos trabalhos realizados, das dificuldades e desacertos relativos ao processo concreto de importação tecnológica. O processo mostrou-se bastante árduo e complicado. Para se ter uma idéia da precariedade e mesmo atraso de se dispor de serviços especializados na área da engenharia civil, somente a partir de meados do século XIX, que o governo imperial começou a chamar do estrangeiro os profissionais competentes para a planificação, direção ou supervisão das estradas de ferro e outras obras públicas de porte, segundo informação de Theodoro Sampaio em seu relato sobre a história da engenharia baiana Apenas em 1874 foi criada no Rio de Janeiro a primeira faculdade de engenharia civil do pais, a Escola Polytéchcnica. Antes havia um número muito restrito de técnicos formados no país, mesmo assim saídos do “casulo da Academia Militar”. Na província, a Escola Polytechnica da Bahia foi instalada tardiamente em 1897. Cabe dizer que, a primeira turma de engenheiros civis formados na Bahia foi diplomada em 1901, portanto em data que já está fora do período aqui focalizado. 1 O conhecimento do tema da modernização ferroviária ocorrida na Bahia vem sendo elaborado pelo autor da presente comunicação em pesquisas dos últimos dez anos. Em destaque deve ser citada a pesquisa de doutorado que culminou na tese que corresponde ao livro publicado em 2001 “Ferrovia e Rede Urbana na Bahia”. No livro consta exaustiva lista de fontes documentais e bibliografia relativa ao tema. II.1. Documento de 1852 sobre a Primeira Iniciativa de Empresa de Estrada de Ferro O documento impresso “Trabalho da Commissão da Junta de Lavoura sobre os Meios de se Fazer a Estrada de Ferro da Bahia ao Joazeiro” foi elaborado por uma equipe de representantes dos proprietários de terra e agricultores, que recebeu a incumbência de racionalizar um projeto de modernização nos transportes para a província.2 O “Trabalho da Junta da Lavoura” visava o convencimento da sociedade baiana sobre necessidade de construir uma ferrovia na província, sobre a viabilidade da mesma e as vantagens de criação de uma empresa de ações, chegando mesmo a compor um quadro do capital que, segundo sua estimativa, seria necessário para construir e fazer funcionar a empresa.3 Nesse sentido, um dos traços mais marcantes do documento é a exibição de confiança na iniciativa individual e na visão empresarial. A empresa construiria a obra de “100 léguas” ou 650 km de extensão, de Salvador a Juazeiro, em 10 anos. Através do “Trabalho” a comissão diagnosticava que: “A mais urgente necessidade de nossa pátria para que se possa fazer algum progresso em indústria e comércio é a construção de estradas [de ferro]”. No documento, o progresso era concebido como uma marcha (metáfora do movimento do trem) e que o desenvolvimento da humanidade era, basicamente, o desenvolvimento econômico (chamado de indústria e comércio de riquezas). E tirava a conseqüência simples e lógica de escolher a estrada de ferro como solução dos dilemas da época: “Um dos meios que mais contribuem para dar à indústria de uma nação todo o incremento que é suscetível, é a facilidade e rapidez dos meios de transporte. Os grandes progressos de algumas nações, especialmente dos ingleses e anglo-americanos, nas construções de estradas e de canais, que chegaram a maior perfeição pela descoberta dos railways (carris) e das locomotivas a vapor, são a principal causa da superioridade destes dois estados [Inglaterra e USA] em tudo que diz respeito às artes úteis.” Atraso ou civilização, essa era a escolha que o documento apontava. Para que a escolha fosse eficaz a técnica era a grande medida. Desse ponto de vista, tecnológico, os equipamentos teriam que ser importados. Do documento, nota-se que o modelo técnico a ser adaptado ao caso baiano vinha dos Estados Unidos. Os dados que entraram nos cálculos e que foram detalhados nas planilhas anexas ao texto do documento foram 2 Moniz, Antônio Ferrão, Gonçalves Junqueira, Luis Francisco e Sento e Sé, Justino Nunes. Trabalho da Commissão da Junta de Lavoura sobre os Meios de se Fazer a Estrada de Ferro da Bahia ao Joazeiro. Bahia: Typ. Republicana do Guaycuru. 1852. Disponível na Fundação Clemente Mariani em Salvador. 3 Sobre os autores do “Trabalho” além de saber que faziam parte da Junta da Lavoura, num levantamento no Almananak Administrativo Mercantil e Industrial da Bahia para o anno de 1857, Justino Nunes Sento- retiradas da experiência norte-americana: são as tabelas que contém um esboço “dos preços de algumas estradas de ferro dos Estados Unidos ...” e um demonstrativo “dos preços médios dos engenheiros, empregados e trabalhadores nas estradas de ferro nos Estados Unidos”. II.2 Documento de 1897 sobre a Estrada de Ferro do São Francisco O documento4 de 1897 foi elaborado mais de trinta anos após a inauguração do primeiro trecho da estrada de ferro que saía de Salvador para Juazeiro e mais de 40 após a elaboração de seu primeiro estudo de viabilidade constante no “Trabalho da Junta da Lavoura”. O documento coloca o emprendimento como um fato consumado, que malgrado a intenção oficial dos diretores de considerá-lo viável e meritoso, havia se mostrado extremamente desfavorável do ponto de vista financeiro. O documento refere-se somente à empresa do trecho Alagoinhas-Juazeiro, mas ao ser analisado conjuntamente com os dados disponíveis sobre o tramo Salvador-Alagoinhas, de domínio da empresa Bahia and S. Francisco Railway, torna ainda mais patente o montante dos prejuízos acumulados ao longo de 37 anos de operação da via. O relatório, feito sob encomenda, considerava as mudanças que estavam sendo promovidas, a passagem da“Estrada à administração particular” e a futura encampação da Bahia and São Francisco Railway pelo governo federal (fatos que ocorreram poucos anos depois). Teive e Argollo era um engenheiro experiente (atuara na direção em um período anterior no início da década de 1890) que estava a frente da empresa desde 1896. A E. F. São Francisco entrou em tráfego em 1880, dos anos de 1881 até 1897, teve déficit em 16 anos e saldo uma vez em 1897 de 388:764$519 (relativos a uma receita de 1.890 contos e despesa de 1.501 contos). Teive e Argollo se vangloria de ter passado a receita anual de 227 contos em 1890 para os 1.890 contos em 1897. Os engenheiros da direção e da fiscalização, além dos projetistas e empreiteiros, citados no documento eram brasileiros. Em 1871 o ministério contratou o engenheiro Antônio Maria de Oliveira Bulhões para os estudos da via de Alagoinhas a Juazeiro. A obra foi contratada em 1876 com a empreiteira do engenheiro Raphael Archanjo Galvão Filho. Em certos trechos da obra entraram outros construtores, mas todos de nome brasileiro. Sé apareceu no como eleitor da capital no Bairro do Santo Antônio e que Luis Francisco Gonçalves Junqueira constou como morador de Gravatá. Antônio Ferrão Moniz não foi encontrado nesse almanaque. 4 Teive e Argollo, Miguel de. Relatório [da Estrada de Ferro do São Francisco] do Anno de 1897 Apresentado ao Exmo. Sr. Ministro da Industria Viação e Obras Públicas pelo Diretor Engenheiro Civil Miguel de Teive e Argollo. Bahia: Officinas dos Dois Mundos. 1898. III. Algumas Considerações Finais sobre a Aquisição da Técnica Construtiva Ferroviária e a Importação de Equipamentos No caso da estrada de ferro da Bahia ao Juazeiro, o confronto entre o quadro estimado por ocasião dos primeiros estudos de viabilidade, conforme o documento datado de 1852, e o quadro relatado em 1897, do relatório da empresa, evidencia que processo de instalação da ferrovia havia se tornado problemático. Isso vem mostrar um aspecto grave da questão da modernização dos transportes com a adoção do sistema ferroviário, os custos do processo tornam-se muito altos e pouco rentáveis. Além do fracasso financeiro, do ponto de vista econômico como um todo, o empreendimento teve um alcance integrativo muito inferior ao que se esperava. Avaliando-se o episódio, conclui-se que, por um lado, quanto à aquisição da técnica construtiva ferroviária, os esforços desenvolvidos mostraram-se modestamente satisfatórios. Por outro lado, do ponto de vista da importação dos equipamentos e da possível instalação no país ou na província de uma indústria metalmecância acoplada à ferrovia, o processo não avançou consideravelmente em nada.5 Fontes Documentais e Bibliografia Lyra Tavares, Aurélio. A engenharia Militar Portuguesa na Construção do Brasil. Rio de Janeiro: SPEME/Estado Maior do Exército. 1965. Moniz, Antônio Ferrão, Gonçalves Junqueira, Luis Francisco e Sento e Sé, Justino Nunes. Trabalho da Commissão da Junta de Lavoura sobre os Meios de se Fazer a Estrada de Ferro da Bahia ao Joazeiro. Bahia: Typ. Republicana do Guaycuru. 1852. Rebouças, André. Garantia de Juros. Estudos paraa sua Aplicação às Empresas de Utilidade Pública no Brazil. Rio: Typ. Nacional. 1874. 5 Para se ter uma idéia do tratamento do assunto por engenheiros influentes, basta ler as idéias de Pandiá Calógeras. Falando como profissional e político (deputado federal) em discurso sobre a Indústria Siderúrgica, ele defendia em 1909 o emprego de capital e tecnologia estrangeiros no desenvolvimento do país na siderurgia e no apoio às ferrovias, mesmo sabendo dos deficits iniciais do processo. O discurso de Pandiá Calógeras dava bem uma idéia do problema da importação, o Brasil era “um país novo”, de formação “retardada” onde o “analfabetismo dominante” de “amortecidas” iniciativas individuais, caberia ao “Estado – despertador de energia” e “preparador das vias” das soluções futuras e da “socialização vindoura” dos meios de produção apoiar a “indústria ferroviária”. Ele almejava em 1909 a instalação da grande indústria da siderurgia no país, o que somente era viável com ferrovias para o transporte do minério. Sampaio, Theodoro. A Engenharia e a sua Evolução no Século da Independência, na Bahia. In: Diário Offficial do Estado da Bahia. Edição Especial do Centenário. Bahia: Imprensa Official. 1923 Sampaio, Theodoro. O Estado da Bahia. Bahia: Imprensa Official do Estado da Bahia. Bahia: 1925. Sodré, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil. 1990. 13ª Ed. 415 p. Souza, Alcindo de. Antologia Ferroviária do Nordeste. Palmares: Ed. Bagaço. 1988. Tarquínio, Mário. Vias de Comunicação e Meios de Transporte no Estado da Bahia. Revista do Institito Geográfico e Histórico da Bahia. Salvador: 1934. P. 325-444. Teive e Argollo. Miguel e Silveira Franco, Justino da. Memória sobre as Estradas de Ferro da Bahia. Bahia: Litho-typog. e Enc. Reis. 1908. 98 p. Topik, Steven. A Presença do Estado na Economia Política do Brasil de 1889 a 1939. Rio de Janeiro: Ed. Record. 1987. Cap. 4 – O Sistema Ferroviário. P. 111-150. Zorzo, Francisco Antônio. Ferrovia e Rede Urbana na Bahia. Feira de Santana: UEFS. 2001. A idéia era suprir a demanda de barras de trilhos de trem com produção nacional. Ver o livro constante na bibliografia anexa, contendo os seus discursos, nas páginas 341-356. ESTRATÉGIAS DE PRESERVAÇÃO DA CIDADE ANTIGA NA CIDADE CONTEMPORÂNEA ‘Autora: Lysie dos Reis Oliveira Titulação: Professora Assistente do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana/ Doutoranda em História na Universidade Federal da Bahia e-mail: [email protected] INTRODUÇÃO No Brasil, conciliar preservação e sustentabilidade dos núcleos antigos na gestão de cidades em crescimento não têm sido uma prática bem-sucedida. Cada lugar tem a suas especificidades, seja no desenho urbano, seja na constituição da sua territorialidade. A particularidade histórica é o estrado em que se apóia esta identidade, o lugar. E deste, pouco se rememora depois das intervenções. Nesses processos, tanto é relevante analisar as mudanças ou descentralização das atividades tradicionais do centro antigo, quanto os esforços em ações de salvaguarda promovidas para reverter a degradação física e social. Em cada reformulação da estrutura espacial encontra-se o confronto entre a préexistência e a introdução de novos valores estéticos e conceituais que indicam mudança, mesmo que tudo pareça estar intacto. A mais recente ordem cultural, designada por alguns teóricos como pósmodernidade tem, no campo da arquitetura e do urbanismo, uma série de objetos e ícones de fácil apropriação aos seus propósitos. Dentre estes, destaca-se o simulacro, a espetacularização do cotidiano e, principalmente a valorização dos elementos arquitetônicos e urbanísticos do passado. Segundo Connor “O lugar mais evidente para começar o exame do relacionamento entre modernismo e pós-modernismo é a arquitetura” (1993:58). Sabe-se que as questões teóricas e práticas de intervenção em imóveis e contextos urbanos de interesse cultural têm, a partir de meados do século XIX, uma série de princípios, procedimentos e técnicas que fizeram do restauro, um instrumento disciplinar que visa à conservação e à preservação6. Para tanto, essa conscientização deflagrou a criação de instituições e entidades governamentais destinadas a cumprir tal finalidade7. No que diz respeito ao restauro, enquanto disciplina emergente da modernidade, muitos conceitos mudaram; desde os caminhos iniciais, direcionados pelas formulações positivistas que serviram de base ao ideário do restauro científico, até às reflexões mais recentes, que se detiveram sobre a fenomenologia relacionada à preocupação com a imagem da matéria, transmissível pela polaridade estética e histórica do objeto. Longe de ser uma exclusividade do modernismo, a preocupação com o objeto a ser preservado se mantém. A escassez de iniciativas bem sucedidas, e a falta de uma vertente pautada na educação patrimonial para conservação integrada, possibilitam que a nova condição cultural e interesses econômicos passem a influenciar modificações nesta disciplina. Há um entendimento sobre o poder de sedução exercido por lugares historicizados, apropriados ao sentido efêmero de reviver os modos de habitar do passado. Operações tentam simular a atmosfera do centro antigo como se o visitante entrasse numa “máquina do tempo”. Esta tem sido a tônica dos processos mais recentes, fazendo crer que “restaurações historicizantes de velhos centros urbanos de cidades e cenários históricos típicas da passagem da modernidade para a pós - modernidade” (Huyssen apud Marques, 1995:95). Formular uma crítica sobre este tipo de requalificação nos leva à pensar sobre a teoria de Walter Benjamim. Longe de pautar-se nas requalificações que atuam sobre o patrimônio cultural constituído no urbano, esta construção teórica discute três conceitos essenciais ao restauro: história, memória e arte. Portanto, a análise da intervenção na preexistência - a cidade como um todo histórico -, está aqui estruturada a partir da reflexão deste critico8. 6 A preservação pode ser definida como uma atitude contrária ao esquecimento; no caso específico do restauro é, sobretudo, uma ação seletiva sobre o caráter do objeto a ser preservado, na qual se pesam valores culturais, funcionais e econômicos. 7 Por outro lado, o culto aos objetos do passado não é uma novidade. É uma prática que, de maneiras diversas, acompanha todas as civilizações passadas como forma de evocar a História. 8 Gey Espinheira, num artigo sobre a intervenção no Pelourinho diz que é “em compainha de Walter Benjamin e de Paul Valery que olho, com distância, o novo Pelourinho em promessa de ressurreição”. Consultar o artigo A alma separou-se do olho. A Tarde. Salvador, 15 Mai. 1993. Para balizar a discussão será utilizada o caso do núcleo antigo da cidade do Salvador. Um processo específico de requalificação do espaço urbano que se processa desde 1992 e até hoje não consegue reverter o estado de degradação da área de interesse histórico e artístico, nem mesmo integrá-la ao resto da cidade, ou despertar nos cidadãos o interesse pela sua conservação. QUEM VAI COMPRAR HISTÓRIA? Várias iniciativas foram tomadas na tentativa de reverter o estado de degradação física e social do centro antigo de Salvador O tombamento9 foi o reconhecimento de uma situação limite, um ato simbólico, jurídico e, que não significou preservação10. Por Salvador passaram técnicos conceituados internacionalmente, houve investimentos municipais e do governo federal, embora tenha sido, do governo estadual, o maior número de ações empreendidas. Também é desta instância a decisão de iniciar a intervenção em novembro de 1992, objetivando a requalificação física e funcional, e sobretudo, a mudança da imagem do núcleo antigo da cidade. Ao longo de quase três décadas de intervenções, nenhuma operação chegou a abranger ao menos a metade da área tombada pelo IPHAN11, em 1959. A última intervenção também não chega alcançar toda a área tombada, no entanto, a expulsão da antiga população, a ocupação em bloco dos novos espaços através do sequenciamento das etapas da intervenção e a gestão centralizada da área por parte do órgão estadual - IPAC12- foram fatores que contribuíram com o distanciamento da antiga imagem do Pelourinho enquanto zona suja e perigosa. A mídia teve e a ainda tem um papel muito importante nessa operação. Porque constrói, a partir de um “Pelourinho revitalizado”, uma imagem de eficiência, de preservação cultural e de salvamento ao “Patrimônio da Humanidade”, o que se traduz num apoio generalizado às ações realizadas em prol 9 O primeiro tombamento foi realizado em 1959 pelo governo federal através do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, pela Prefeitura em dezembro de 1977 e pela Unesco em 02 de dezembro de 1985. 10 Sua revalorização está presente em pautas de interesse da União, do Estado e do Município que, em momentos distintos e com propostas diversas, configuraram uma trajetória de ações e propostas, tanto a nível ético-conceitual, quanto ao nível de parcerias e investimentos. 11 Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão do governo federal. 12 Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, órgão do governo estadual. da nova concepção do “Centro Histórico” como um “Shopping Turístico de Salvador”. Inicialmente, há uma resposta positiva de boa parte dos segmentos sociais, motivada pela publicidade em torno da retomada cultural, ao mesmo tempo em que se observa uma quase apatia de setores intelectualizados da sociedade que poderiam questionar a eficiência da operação. Esta intervenção, capitaneada pelo governo estadual desde 1992 e que perdura, até hoje, com bem menos fôlego, instaura um processo de mudanças num centro antigo que já não era mais aquele tombado em 1959 pelo Iphan, muito menos aquele tombado em 1984 pela Unesco. Apesar do avanço da degradação física, é exatamente nas décadas que antecedem os anos noventa que as músicas do blocos afros do bairro são cantadas além dos limites do Pelô. Soteropolitanos da classe média, que nunca haviam ido até o marginalizado centro antigo, passam a freqüentar os ensaios do Olodum nas “Terça da Benção13”, avançando num território consagrado pelo estigma da marginalidade. A revitalização inicialmente se dá pelo viés da cultura. O poder público percebe a atratividade cultural que desponta no centro antigo, utilizando-a como aliança estratégica e transitória, moldando o formato do produto que entrega ao consumo: ‘o novo Pelourinho’14. No outro extremo do contexto, arruinamento, marginalização e degradação sócio – econômica. Pelos dados divulgados pelo IPAC, para desocupação dos imóveis e realização das obras foram cadastrados todos os moradores e comerciantes da área. Em seguida, estes foram chamados para negociação no setor de serviço social do IPAC15. Nestas reuniões, eram oferecidas três tipos de opções: a indenização em dinheiro e o compromisso de abandonar a área; a relocação definitiva (mudar para um imóvel especialmente recuperado pagando aluguel e com contrato juridicamente válido); e a relocação provisória, opção válida para proprietários de imóveis degradados, que 13 Festa de grande participação popular, realizada tradicionalmente após a missa das 17:00hs na Igreja de S. Francisco. Tem a presença do bloco-afro Olodum e de outros grupos culturais do local. 14 Segundo Miceli, a estrutura da economia capitalista contemporânea volta-se para a cultura como um dos meios de fornecer modelos universais de comportamento aos diversos grupos sociais. A esfera da cultura faz uma passagem do significado utópico e revolucionário da morte da arte, a seu significado tecnológico que se resolve numa teoria da cultura de massa; indispensável, para definir o quanto se torna aberto o conceito de arte à expressão coletiva, que passa então a ser o pressuposto geral de uma nova tendência de produção e, principalmente, de consumo da arte. Para Boaventura de Souza Santos, o ideário modernista, centrado na dicotomia entre alta cultura e cultura popular, rompe-se no pós-guerra, resultando na emergência da cultura de massas. Agora, temos que levar em conta que, além de distribuir informações, a mídia produz consenso, idéias e ideais, instauração e intensificação de uma linguagem comum no social. 15 Vale a ressalva de que a maioria dos moradores não era constituída de proprietários legais; dessa forma, o IPAC atuou, através de seu setor jurídico institucional e de uma equipe de cientistas sociais, no processo de sondagem aos moradores no sentido de retirá-los do local. poderiam ficar residindo provisoriamente em imóvel adaptado até retornar para o de sua propriedade. Segundo o órgão, “houve opção maciça pelas indenizações, pois estas, calculadas caso a caso, levavam em consideração o tamanho da família, o tempo de moradia no Centro Histórico, o espaço utilizado e a situação jurídica da ocupação, se regularizada ou não”. Na maior parte dos casos, apesar de baixos, os valores das indenizações eram bastantes atrativos aos olhos dos antigos moradores, haja vista que a renda familiar média era menos de US$100 por mês. A saída dos moradores sem reclamações demonstra a eficácia das indenizações que camuflaram a exclusão, comprovada na análise dos documentos que acompanham a intervenção, pois, em nenhum deles, existe um plano de manutenção da população residente e a direção inicial da refuncionalização não prevê função habitacional. A forma de negociação para a qual eram chamados os antigos moradores tem, no discurso informal da direção do IPAC, o retrato falado do que realmente aconteceu. Fato é que, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Adriana Castro, diretora do IPAC, justifica a operação :“O Pelourinho era um beco sem saída: ou restaurávamos ou deixávamos o casario cair”(Carvalho, 1994:05). Segundo ela, a intenção foi transformar um bairro decadente, habitado por desempregados, traficantes e prostitutas, numa região capaz de conjugar preservação histórica e valor imobiliário16. Daí, a opção pela saída da população. Para o órgão estadual, “a recuperação de marginal deve ser feita pela polícia ou órgãos assistenciais, não pelo Patrimônio Histórico. Além disso, não pode haver romantismo: marginais não pintam casas e jogam fezes na rua”, defende a Diretora (Folha de São Paulo,1994:05). As obras correram em ritmo acelerado, no curso da campanha eleitoral que se aproximava. Contribuiu para isto o fato de o ano de 1994 ter sido um ano de reeleição, o que fez com que, mesmo sem a conclusão total das obras nas 16 Segundo o IPAC, “no início dos trabalhos havia uma afirmação generalizada que a saída dos moradores só poderia ser efetivada com o uso da força. Entretanto, se conseguiu fazer um trabalho ágil, em prazo muito curto e sem maiores problemas. Apenas um morador entrou na Justiça, mas acabou perdendo a ação. O elemento facilitador do trabalho de transferência da população foi o uso dos indicadores citados para compor o valor das indenizações. Desta forma, manteve-se a estrutura interna do grupo de vizinhança durante o processo, evitando-se os conflitos decorrentes de diversos membros se considerarem com mais direitos que seus vizinhos. Quando algum recebia um pouco mais, havia uma razão clara: ou tinha uma família mais numerosa, ou estava ali há mais tempo, ou detinha uma área maior no imóvel, ou, por fim, usava a residência em regime de ocupação juridicamente regularizada”(IPAC,1995:25). 4 primeiras etapas, o então Governador da Bahia, inaugurasse e devolvesse à cidade do Salvador “um novo Pelourinho”. Apesar do expressivo montante de investimentos e de edificações reparadas, a exigüidade de prazo, o fato das empresas contratadas para a execução não terem qualificação específica para restaurar o casario, a falta de fiscalização do IPAC e a não aprovação17 dos projetos de arquitetura por parte de técnicos do ETELF e do IPHAN, acaba resultando numa péssima qualidade dos projetos e detalhamentos de arquitetura, dos materiais usados e, por conseqüência, numa repetição nos padrões de intervenção. No entanto, a estratégia de marketing que acompanha o empreendimento é tão eficaz quanto o rigoroso cronograma de obras e os prazos políticos, fazendo crer, na propaganda veiculada na mídia, que toda operação seguia critérios e métodos rígidos de restauração, no intuito de devolver à Bahia um patrimônio que se encontrava no limite de sua existência. Apesar da indicação desses documentos, as obras realizadas foram homogeneizadoras e superficiais. Limitaram-se a recomposição das fachadas com a supressão dos detalhes arquitetônicos e, por analogia, escolheram o formato das fachadas que não apresentavam mais vestígios da preexistência. Ou seja, a partir de um exemplar, os demais foram reconstruídos. As estruturas foram recuperadas e as coberturas das edificações foram reconstruídas segundo a volumetria existente. As reconstruções internas limitavam-se a adequar as instalações mínimas de habitabilidade. Pode-se afirmar que não foram realizados estudos minuciosos em busca das “condições originais” almejada pelo Termo de Referência que antecede a operação. Até porque isso dependeria de uma equipe interdisciplinar, de um tempo de pesquisa significativo, de mão de obra qualificada. E, por conseguinte, de maior alocação de recursos e envolvimento de outras entidades institucionais. A contradição está no fato de que, ao mesmo tempo, faz-se uma total desconstrução dos antigos fundos de quintais, testemunhos do antigo traçado urbano e da tipologia construtiva tradicional, o que chega a ser, apesar do uso de novos materiais, que tentam imitar a preexistência, um “falso histórico”, já que, para a maioria dos visitantes, é difícil distinguir se as praças internas são atuais ou de alguma época do passado. Observa-se que este exemplo de requalificação do patrimônio ainda contém muitos equívocos: O pior deles está na falta de sincronia com o planejamento urbano de Salvador. Dificulta a revitalização deste espaço o fato desta operação não ter sido integrada aos interesses dos demais níveis do poder público, como indicam, alguns exemplos bem sucedidos; no plano operacional, os antigos problemas estruturais deste 17 Pelo menos, nas 04 primeiras etapas, pouquíssimos foram os projetos enviados pelo IPAC que receberam aprovação do escritório de responsabilidade municipal, o ETELF e do coordenador da regional do IPHAN na Bahia. Apesar do indeferimento na instância de maior grau de responsabilidade pública com o território, tais como política habitacional ou inserção deste espaço na economia urbana mais dinâmica caminham muito lentamente e sem nenhuma direção específica. Como conseqüência, os valores de rememoração não são revelados. Outra imagem se constitui na expectativa de convencer o olhar do turista, indivíduo de qualquer lugar, em busca de algum prazer efêmero. O exercício de educação patrimonial como um dos pilares na construção da cidadania foi também excluído, a não - participação da comunidade na revitalização da área contribuiu para o cenário que se apresenta. UM OLHAR SOBRE O ESPAÇO URBANO. A escolha por rever o olhar analítico de Walter Benjamin se dá na perspectiva de facilitar a compreensão das transformações na área urbana de interesse histórico e artístico. A partir de seus conceitos, avaliam-se as manipulações que limitam a referência histórica nas intervenções na preexistência, na medida em que estas reforçam a fragmentação do contexto histórico no qual se insere o bem cultural, impondo concepções limitadas de arte e memória num ideário preservacionista. A cidade, que também se insere num contexto histórico, possui, neste momento, espacialidades diferenciadas e lugares que são capazes de dar conta das fragmentações identitárias, das particularidades e das diversidades do território. O lugar passa a ser a dimensão fragmentada e é, também, o artefato produzido por uma sistematização ininterrupta e mutante de valores e significados. Através dessa intenção política definida culturalmente na modernidade, tendo em vista que a constituição de patrimônios históricos e artísticos é uma invenção dos Estados modernos18 ,são colocados em prática ideais excludentes que incidem na estrutura espacial encerrando a perspectiva de diversidade do restauro nas múltiplas descaracterizações que esperam simbolizar uma imagem emoldurada por um presente sem referências criativas do passado, optando pela intenção reacionária de reverter a qualquer custo uma imagem que supostamente existiu em algum momento do passado. patrimônio, todas as obras foram realizadas e contraditoriamente, receberam, da Prefeitura Municipal, o Alvará de Funcionamento. 18 Ver a esse respeito em SANT ’ANNA, Marcia. Da cidade - Monumento à Cidade - Documento: A trajetória da norma de preservação de áreas urbanas no Brasil(1937-1990). Salvador: Dissertação apresentada ao Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Dezembro de 1995. No último texto de Benjamin, As Teses sobre o Conceito de Historia , sua originalidade teórica revela-se contrária a qualquer visão determinista: ele critica a concepção de tempo que lhe é decorrente e que se destina a pensar o devir histórico independentemente da ação humana. Dessa forma, na teoria benjaminiana, o tempo linear, “homogêneo e vazio”, deve ser incisivamente questionado. Benjamin opõe-se, ainda, à falsa eficácia da ciência literária burguesa, apontando o equívoco metodológico19 em que esta se apóia por desassociar as obras do passado do contexto histórico em que se inserem, ignorando, portanto, a reflexão sobre o processo histórico e político pelo qual elas nos são transmitidas. Para Benjamin, a historiografia burguesa, em sua transparência de apresentação dos fatos históricos, deve ser questionada pelo materialista histórico que “sempre há de querer a vitória e de lembrar que as idéias de felicidade e libertação se associam à idéia de salvação20, já que (...) “o passado arrasta consigo um índice secreto que pode nos remeter à salvação”(Kothe:1985:154). O conceito benjaminiano de história não tem como foco principal a história social - na qual se insere grande parte da história urbana - assim como não se detém numa postura de crítica endereçada à história da arte ou a qualquer outra categoria de história. Sua análise caracteriza uma revisão crítica da história da literatura que pode ser vista como uma análise que se expande à compreensão geral da história . Segundo Odete Dourado, “para Benjamin, história no sentido estrito é o esforço de recuperação da experiência do passado contra um mundo que a reduz a um presente sem passado. Passado ritualizado no presente”(Dourado, 1989:68). Na atual sociedade, consumo e cultura associam-se ao âmbito do entretenimento. No bojo desta nova condição cultural, os lugares de paisagem histórica se destacam por denotar redescobrimento do passado, num mundo em que as novidades pareciam esgotadas. Este novo contexto cultural chega a promover, na arquitetura e no urbanismo, a experimentação da multivalência e do pluralismo de estilos. A idéia de restaurar os objetos do passado também assimila estes pressupostos. Em alguns casos, promove redescobertas de um passado em versões criativas, capazes de dialogar criticamente com a contemporaneidade, sem réplicas ou imitações. Em outros, como o estudo de caso que é aqui analisado, o Pelourinho, observa-se a manipulação das tipologias espaciais e uma 19 Esse método causa um falso imediatismo entre a obra do passado e a nossa concepção do presente. O passado é apresentado pronto, numa só versão. Não permite questionamentos ou formas variadas de apreensão. Quando revisto dessa forma, se propõe a apagar diferenças históricas para sublinhar uma inquestionável identidade entre os valores do passado e os do presente. E assim, decreta um falso valor de novidade singular à obra, baseado na expressão de valores eternos. 20 Para Benjamin, existe um acordo secreto entre as gerações passadas e as atuais: nós fomos esperados sobre a terra; dessa forma, “foi-nos concedida uma frágil força messiânica para qual o passado dirige um apelo, o qual não pode ser rejeitado impunemente” (Benjamin,1994:223).Esse apelo, dirigido ao materialista histórico o faz rever os acontecimentos segundo uma concepção de verdade em que “nada que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (Idem,1985:223). Isto quer dizer que a uma humanidade redimida por uma força messiânica, o passado se torna citável em cada um de seus momentos, cada um dos quais deve ser vivido como se fora o último (Benjamin,1994:223). imagem histórica é entregue ao consumo. Neste panorama, qual a relação das colocações teóricas de Benjamin sobre a interpretação da história e a importância disso para a intervenção no patrimônio histórico? Com efeito, as teses de Benjamin sobre a história redundam num problema teórico que busca o questionamento de como pensar o tempo histórico, o que assume extrema importância no caso do restauro, enquanto disciplina intimamente relacionada à concepção do tempo. A intervenção que se dá sobre o objeto, que é uma entidade histórica, traz como problemática implícita a releitura do passado e o decidir sobre o método de inserção de novos fatos que, conseqüentemente, passam a atuar na história. Entende-se, então, que nesta teoria o passado não está “intacto”, é passível de uma construção interpretativa e espera ser avaliado criticamente para revelar uma história que não aquela revestida de verdades inquestionáveis. Esta avaliação baseada na crítica, converte-se, nesta teoria, numa experiência de salvação, como se fora uma possibilidade de libertar, no presente, as qualidades não reveladas de um passado expressivo, que aguarda ansioso o momento seguir pelo futuro. Para Benjamin, esta libertação não é possível se as obras do passado forem desassociadas do contexto histórico em que se inserem. Percebe-se com isso que a cidade, enquanto entidade histórica, também se coloca como um texto a ser apreendido, decodificado, não só por estar relacionada com as preexistências do sistema cultural urbano, como também por condensar toda uma série de imagens, com seus resultados e significados multifacetados21. A composição deste sistema tem uma figura disciplinar complexa e aberta à interpretação. Neste contexto, percebe-se que a intervenção que se dá sobre o espaço construído, é a mesma que ocorre sobre a história daquele lugar. Ademais, esta intervenção é uma interpretação sobre o passado deste lugar, revela imagens que deverão ser lembradas e apaga aquelas que deverão ser esquecidas. Pode-se dizer que este é o ponto em que esta teoria auxilia a crítica às intervenções processadas no espaço antigo. Benjamin indica que a condição anterior à explicação de uma obra é a revisão do processo de sua transmissão, ou seja, é, antes de tudo, desconfiar da historiografia vigente. Para isso é preciso descolar o 21 Se é possível falar em verdade da obra, se essa verdade transcende seu momento histórico, ela não deixa de permanecer-lhe, por outro lado, indissociavelmente ligada, só podendo se revelar no próprio interior da núcleo do passado de um invólucro de imagens preestabelecidas ou mesmo reproduzidas através da técnica apoiada na mídia e na publicidade, que apagam os conflitos e as forças que atuam em nome de uma verdade22 a ser marcada na história. São interesses que também perseguem, na perspectiva de intervenção no espaço tradicional, a reversão imediata da imagem histórica a ser referenciada, isto é, baseia-se numa conversão de temporalidades. Na arquitetura e no urbanismo, esse tipo de método vem acompanhado do desbastamento de estruturas que marcam o decorrer natural do tempo e os acréscimos significativos para a memória. Testemunhos que se calam em nome de uma história que passa a ser oficial. Uma das contribuições mais interessantes que Benjamin legou àquele que pretende pensar o objeto impregnado pelo caráter histórico - o espaço antigo, por exemplo - é a idéia de que “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi”(Benjamin, 1994:224). Na verdade, o restauro moderno, em sua versão mais positiva, é compatível com a articulação entre passado e presente proposta por Benjamin, tanto é que procura “problematizar mais do que manipular os códigos culturais, interpelar mais do que dissimular as articulações políticas e sociais”(Magnavita, 1995:150). Essa versão expõe uma postura mais crítica, preocupada em promover o diálogo entre as novas inserções e a preexistência, chegando até a acentuar as diferenças históricas, no sentido de reforçar a irreversibilidade do tempo. O autor da preservação também pode ser comparado com o sujeito histórico de Benjamin; um indivíduo exposto é vulnerável, mas também capaz de escapar das armadilhas e avaliar, criticamente, o seu papel na preservação da memória. Essencialmente, o objetivo desse estudo é analisar as características de uma metodologia e de uma concepção de intervenção urbana que despontam na contemporaneidade e, que vêm dando nova forma à imagem e à utilização de espaços antigos. Denuncia-se, neste estudo, a partir da teoria de Benjamin sobre a “traição da história”, a manipulação da imagem histórica do lugar que passa a exibir, através da simulação de signos históricos, uma trajetória de passado que nunca existiu. Esta crítica tem como objetivo apontar a estratégia que atua nas novas tendências de intervenção no espaço de caráter histórico e artístico como um procedimento camuflado de trair o passado23. A concepção do objeto antigo como parte de um processo organização do texto, compreendido como produção histórica e entregue à nossa interpretação. Esta, no entanto, não deve se deixar levar por uma leitura estática e comemorativa dos fatos históricos revelados. 22 Essa verdade não é, “na filosofia benjaminiana, a luminosidade ofuscante das origens, como se fosse possível remontar a uma fonte tanto mais pura quanto mais distanciada no tempo e da originalidade da obra”(Gagnebin,1982:60). Essa idéia procura uma verdade para além da história universal, como se esta fosse apenas o decorrer progressivo de uma origem. 23 Benjamin tenta formular uma denúncia não somente dos limites histórico-sociais que presidem a gênese das obras, mas sobretudo das modificações a que são obrigadas a se submeter pelo processo de transmissão cultural. Esse processo, que não se desenvolve em um espaço histórico neutro, é parte comprometida na história da dominação burguesa. histórico de longa duração, nos faz entender que o passado, tal como foi um dia, é irreversível; assim, devese aceitar que as mudanças do presente não sejam mais que ajustamentos que devem permitir o diálogo crítico entre temporalidades distintas que esperam um reencontro24. Há uma ressalva a ser feita ao repúdio de Benjamin a respeito de qualquer identidade imediata e acrítica, entre passado e presente, que se constitua numa verdade histórica. A mesma recusa de identidade caracteriza a teoria benjaminiana em torno da alegoria, categoria central de sua obra a partir do ensaio A Origem do Drama Barroco Alemão (1925), até os ensaios sobre Baudelaire, escritos no fim dos anos 30. Com suas “imagens dialéticas”25, procura estabelecer uma proximidade entre o século XVII, o do Drama Barroco, e o século XX. Segundo Gagnebin, desde Goethe ao Romantismo Alemão, que “o símbolo é sinônimo da totalidade, de clareza e harmonia, enquanto a alegoria é recusada por sua obscuridade, seu peso e sua ineficiência26”(1982:47). A alegoria foi sempre criticada por requerer uma tradução sensível do conceito, ao invés de fazer ver o sentido clarificado em sua “imediatidade”27. A plenitude luminosa do símbolo se opõe, então, à deficiência e à ineficácia da alegoria, que não se basta a si própria, necessitando recorrer sempre a um sentido exterior28. Na modernidade do século XX, a alegoria é reabilitada e passa a reivindicar, justamente, qualidades artísticas desconsideradas anteriormente; mostra que, em seu caráter arbitrário, deficiente e aberto, propõe uma arte certamente diferente da concebida pela harmonia clássica, porém não menos importante29. Dessa forma, Benjamin constrói 24 Se, ao contrário, contemplarmos uma verdade estática e coincidente com o passado sempre ‘atual’ e um presente narcísico, a força messiânica à qual se refere Benjamin, passará desapercebida. 25 Olgária Matos indica que na ‘imagem dialética’, a dúvida não se dá mais no plano sensível, porque se duvida do próprio inteligível. E assim, a imagem vai ser construída como dialética, pois se trata do “aparecimento por imagens” da dialética (Matos, 1993:45). 26 O próprio nome já indica que a “alegoria fala de outra coisa que não de si mesma - alos, outro, e agorein, falar, em grego -, enquanto o símbolo liga dois aspectos da realidade em uma unidade bem - sucedida sym, conjunto, e ballein, juntar, colocar”(Gagnebin, 1982:48). 27 Olgária Matos afirma que a alegoria é a expressão primordial de uma experiência histórica, “a forma objetivada que se segue imediatamente à lastima”(Matos, 1993:30). Assim, não havendo mais um centro fixo no mundo, todas as coisas caem no vazio onde não há segurança de orientação; tudo depende agora da interpretação das ruínas e da desertificação. 28 Benjamin não denuncia as alterações sofridas por um sentido ‘original’ ou ‘autêntico’ no curso desse processo, mas sim, o que pode ocorrer por trás disso, ou seja: as marcas deixadas pelos interesses da classe dominante. Ao historiador materialista, cabe a tarefa de lembrar que a imagem do passado - sua imagem de passado -,não pode oferecer um ponto de partida imediata à análise; é o relâmpago no momento de ‘perigo’, momento de atuação. E, nesse momento, a única condição prévia de julgamento do passado é o exame crítico da constituição histórica da representação deste passado. É uma interpretação que se confunde entre símbolos e alegorias historicamente constituídos pelos interesses de classes distintas. 29 Gagnebin afirma que Walter Benjamin pode ser considerado o primeiro teórico a ter buscado essa reabilitação. sua teoria em uma ponte indutiva e acredita que não pode haver imediatidade no conhecimento humano, nem, portanto, “evidência estética como a clareza com que o símbolo pretende concretizar”(Gagnebin, 1982:50). Dentro da lógica, a alegoria30 se diferencia do símbolo e, de certa maneira, se coloca mais próxima da verdade do que a figuração simbólica, acomodada sobre a utopia de uma transparência do sentido31. Seguramente, Benjamin é contrário à percepção da aparência enquanto figuração da própria realidade. Aparência pode ser, na teoria benjaminiana, apenas um aspecto de realidade, ou o ocultamento de uma realidade diferente. Diante de um novo contexto cultural, em que a realidade vem sendo substituída pela dimensão virtual, as imagens têm um poder essencial: destinam-se a capturar o desejo e a fantasia. Com o desenvolvimento tecnológico, torna-se cada vez mais fácil seduzir através de simulações que, trabalhando com o poder imagético, dão forma ao simulacro. Para a arquitetura e o urbanismo, compatibilizados com a nova condição cultural, passa a valer o símbolo e a alegoria. O que parece importar é a comunicação com as massas; dessa forma o efêmero, o lúdico e o resgate de valores tradicionais dos mais variados segmentos tornam-se ingredientes básicos da produção pós-moderna. Conseqüentemente a cultura se apropria dessas características, constituindo-se numa versão de espetáculo, no qual a história passa a ser, em alguns momentos, a personagem principal. Nesse caso, por ter imagens relacionadas, também está sujeita às manipulações, simulações e maquiagens. Assim, a representatividade da história pode ser um símbolo, forjado pela simulação de suas imagens, e também pode ser alegoria. A última categoria, se torna mais aberta por fugir da transparência de sentidos, permitindo interpretações críticas e conscientes de sua multivalência. 30 Reservar aos acontecimentos sua força secreta e não encerrá-los numa única versão é, para a teoria benjaminiana uma arte; permitindo, assim, a escritura de uma anti-história. Ou seja, ao invés de dar o passado uma interpretação definitiva, reafirma-se a abertura de seu sentido, seu caráter inacabado. De novo, Benjamin se coloca diante dos fragmentos; sendo assim, o que menos importa para ele é a descontinuidade. O significativo é a retórica das coisas, “aquilo que a alegoria descobre como seus objetos de reflexão”(Matos, 1993:147). 31 Enquanto o símbolo no sentido clássico supõe uma totalidade harmoniosa e uma concepção do sujeito individual em sua integralidade, a visão alegórica não pretende qualquer totalidade, mas instaura-se a partir de fragmentos e ruínas e, sobretudo, trabalha com o imaginário. Nessa articulação laboriosa, a identidade do sujeito se desintegra também, incapaz que é de recolher a uma totalidade a significação desses fragmentos. Essa desreferencialização do sujeito clássico e a desintegração dos objetos é que explicam o ressurgimento da alegoria, na época moderna, em um autor como Baudelaire. Benjamin aponta no capitalismo moderno as condições de se consumar essa destruição do sujeito clássico. O restauro com caráter pós-moderno possui duas formas de resgate histórico. Em uma delas, o método utilizado é o de restituir as formas tradicionais ou produzir simulações inteiras; a segunda maneira de manipulação do passado assume uma postura mais crítica, preocupada em promover o diálogo entre as novas inserções e a preexistência. Relacionando a utilização de cada um dos métodos com a intervenção sobre um objeto, podemos dizer que se tem como resultado um símbolo ou uma alegoria. Quando Benjamin propõe uma distinção de arte entre símbolo e alegoria, é possível pensar o símbolo enquanto resultado de uma utopia regressiva, compatível com o que Jencks chama de “resgate direto do passado”; enquanto a alegoria pode ser compreendida como aquele objeto que recebe novas contribuições que se superpõem, sem simulação ou concessões, constituindo-se numa obra que expõe temporalidades distintas. Esta conceituação não tem, a partir da teoria de Benjamin, um reflexo direto sobre o resultado da imagem das intervenções que se baseiam na simulação da imagem da história. No entanto, parece ser uma construção conceitual aplicável a uma crítica que vê, no resultado final das operações de resgate direto do passado, um símbolo forjado, manipulado sem qualquer compromisso com a história. Capacitar um território da cidade de uma categoria simbólica, aproxima-se do que Benjamin entende por forçar a configuração do símbolo, rompendo com a possibilidade do imaginário32 de atuar naquilo que o mesmo apresenta como ressurreição de fragmentos e ruínas. Quando este autor aceita que a obra possa ser constituída do caráter aberto e inacabado de fragmentos e ruínas, na verdade, ele se dirige à uma concepção de arte na qual o imediatismo da interpretação, diante da revelação ofuscante da mensagem, não é o objetivo esperado. Repensando nosso objeto de estudo, pode-se notar que a intervenção no espaço antigo tanto pode aceitar a releitura a partir dos fragmentos e ruínas, ou ignorá-los, tendo em vista a construção do símbolo histórico. No sentido da crítica benjaminiana, o símbolo encerra a possibilidade da liberdade da interpretação. Aqui entende-se que o símbolo confunde a legibilidade, tenta mascarar a relação histórica e, por vezes, impõe, 32 Segundo Ferrara, “Imaginário corresponde à prática social de atribuir significados a significados, ou seja, prática social pela qual os significados passam a acumular imagens e a significar mais. Através dessa prática, pessoas, datas, espaços, fatos ou objetos podem incorporar significados extras e passam a constituir através da publicidade, uma relação diretamente ligada à transparência de sentidos que, conseqüentemente, apagam outros sentidos não menos importantes. Diante da estrutura teórica apresentada, pode-se dizer que são alegóricas as manipulações espaciais processadas no espaço antigo que se impõem pela evidência da contraposição entre o passado e a contemporaneidade; e simbólicas, as intervenções que manipulam repertórios estilísticos para criar espaços simulados em relação à história. CONSIDERAÇÕES FINAIS. Quando o sentido é de preservação, os temas discutidos buscam, de imediato, um aparato sobre o qual se definem formas de avaliação, normas e, principalmente, métodos de ação. A finalidade? Recuperar e manter uma memória. Restituí-la, através da recuperação de algo perdido, e dar-lhe possibilidades futuras. Os estudos realizados por Benjamin levam à reflexão sobre todas as memórias que estão ligadas à percepção do espaço construído. Lugares capazes de evocar emoções, atraem os indivíduos por terem valores que podem ser ‘liberados do passado’ e isto pode ser feito criticamente, ou como Benjamim indica: através da releitura do passado “a contrapelo”. Essa atuação não pode ser imparcial, aceitando a preservação como uma ação de reviver cada época do passado nos cenários historicizados que induzem a fantasia de estar ‘voltando no tempo’. Esse imediatismo histórico ou, como diz Benjamin, “hipotética compreensão intuitiva ou imediata do passado”, não traz nenhum conhecimento verdadeiro, mas o sinal da incompreensão pelo que é diferente, estranho; estratégia do capitalismo assegurada pela classe dominante no intuito de manter seu próprio legado cultural. O trabalho da memória é compreendido, nesta teoria, enquanto uma instância do inconsciente capaz de registrar os traços duráveis, já que a consciência recusa-se a gravar esses mesmos traços duráveis e a lembrança é o lugar do próprio esquecimento. Desejo antagônico para quem pensa a preservação. Incide então, no que Benjamin também chama de memória involuntária, toda uma série de elementos capazes de desencadear valores de rememoração atraídos pelo imaginário; possibilidade de recuperar os ‘traços representações autônomas que desconhecem a prática social que lhes deu origem; circulam, e a elas não cabe acerto ou erro, verdade ou mentira, são amorais”(1996:45). duráveis’. Essa memória não cabe no tempo homogêneo e vazio e, sim, no tempo presente, tempo da libertação do passado. Para este pensador, o trabalho do historiador é o de considerar uma dupla liberação: a dos vencidos de ontem e os de hoje. Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo tal como ele propriamente foi. A indicação de uma articulação entre passado e presente é sempre aberta, forma casual que se estabelece sem determinações separatistas entre o que se deve preservar ou não. Quando essas idéias se articulam, não se deixa de lado nem mesmo a história dos dominadores, parte essencial para se entender um todo que se colocou entre lembranças e esquecimentos. Áreas urbanas que se integram a idéia de patrimônio são elementos que passam a confirmar estratégias de poder e de resistência que, conforme o momento histórico são usadas para estabelecer identidades nacionais; a educar cidadãos, a conferir status a determinada produção cultural, a incitar a utilização de determinado repertório formal, a reforçar a resistência cultural de grupos dominados, etc. Não caberia transformar as conceituações de Benjamin em norma preservacionista. O conhecimento desses conceitos leva às reflexões que se tornaram importantes na construção da análise de uma intervenção e, dessa forma, tomam relevância a partir do que pode se constituir numa crítica em torno das estratégias preservacionistas que despontam na contemporaneidade como meios seguros e diretos de preservar a memória. BIBLIOGRAFIA BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. 277 p CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. Tradução de Adail Sobral e Maria Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1993. 229 p. DOURADO, Odete. Para sempre, memória. Revista Rua. Salvador, v.2, n.3, p.65-74, 1989. ESPINHEIRA, Gey. A alma separou-se do olho. A Tarde. Salvador, 15 Mai. 1993. FERRARA, Lucrécia. Do mundo como imagem à imagem do mundo. In: SANTOS, Souza e Silveira (Org.). Território: globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1996. p.45-50. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin: os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982. 96 p. IPAC-BA. Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Centro histórico de Salvador: programa de recuperação. Salvador: Corrupio, 1995. 96p. KOTHE, Flávio. R.(Org.). Walter Benjamin. São Paulo: Ática, 1985. 256 p. MAGNAVITA, Pasqualino. Quando a história vira espetáculo do poder: a condição pós- moderna na preservação de centros históricos. In: ZANCHETI, Sílvio, et al. (Orgs.). Estratégias de intervenção em áreas históricas: revalorização de áreas centrais. Recife: UFPE/MDU, 1995. 219 p. p.149-156. MARQUES, Sônia. As estratégias dos lugares de memória: um novo elo entre cultura e política. In: ZANCHETI, Sílvio, et al. (Orgs.). Estratégias de intervenção em áreas históricas: revalorização de áreas centrais. Recife: UFPE/MDU, 1995. 219 p. p.95-100. MATOS, Olgária C. F. O iluminismo visionário: Benjamin, leitor de Descartes e Kant. São Paulo: Brasiliense, 1993. 184 p. MICELI, Sérgio (Org.). Estado e Cultura no Brasil: corpo e alma do Brasil. São Paulo: Difel, 1984. 240 p. SANT’ANNA, Marcia. Da cidade - monumento à cidade - documento. Salvador, 1995. 268 p. Dissertação de Mestrado - Universidade Federal da Bahia, 1995. SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e o político na pós- modernidade. São Paulo: Cortez, 1996. 348 p.