DIAGNÓSTICO PARA A IMPLEMENTAÇÃO DE AÇÃO TERRITORIAL INTEGRADA “GRANDE MATHIAS VELHO” CANOAS/RS Canoas, setembro de 2011. 1 EQUIPE TÉCNICA Aline Kerber Socióloga e Coordenadora de Pesquisas Rafael Dal Santo Sociólogo e Coordenador de Pesquisas Janine Prandini Silveira Licenciada em Ciências Sociais Pâmela Bergonci Geógrafa Rodrigo Sabedot Soares Sociólogo Heloise Canal Acadêmica de Geografia Mariana Flores Nunes Acadêmica de Direito COORDENADOR INSTITUCIONAL Eduardo Pazinato Mestre em Direito PARCERIAS Ministério da Justiça Prefeitura de Canoas Fórum Brasileiro de Segurança Pública Universidade Federal do Rio Grande do Sul Grupo de Pesquisa Violência e Cidadania 2 SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO E METODOLOGIA.......................................................... 6 2. O MUNICÍPIO DE CANOAS ........................................................................ 12 2.1. HISTÓRIA DE CANOAS........................................................................ 12 2.2 CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-DEMOGRÁFICA ...................................... 13 2.3. DADOS DE CRIMES E DE VIOLÊNCIAS ............................................. 16 2.3.1 HOMICÍDIOS ................................................................................... 16 2.3.2 PESQUISA DE VITIMIZAÇÃO ......................................................... 31 3. HISTÓRIA E CARACTERIZAÇÃO DOS BAIRROS MATHIAS VELHO E HARMONIA...................................................................................................... 34 3.1. HISTÓRIA.............................................................................................. 34 3.2 CARACTERIZAÇÃO SOCIODEMOGRÁFICA DA ÁREA ....................... 40 3.2.1 LOCALIZAÇÃO ................................................................................ 40 3.2.2 POPULAÇÃO................................................................................... 41 4. INVESTIMENTOS PÚBLICOS DE SEGURANÇA....................................... 45 4.1 VIDEOMONITORAMENTO E FURTO E ROUBO DE VEÍCULOS ......... 45 4.1.1 CÂMERAS EM PRÓPRIOS MUNICIPAIS ....................................... 46 4.2 ALARMES EM PRÓPRIOS MUNICIPAIS............................................... 46 4.3 DENÚNCIAS E SOLICITAÇÕES ADVINDAS DO SISTEMA DE PARTICIPAÇÃO ........................................................................................... 47 4.4 PLANTÃO INTEGRADO DE FISCALIZAÇÃO (PIF) ............................... 49 4.5 BOLETINS DE ATENDIMENTO E REGISTROS DE OCORRÊNCIAS ADMINISTRATIVAS ..................................................................................... 51 5. EQUIPAMENTOS DE USO COLETIVO ...................................................... 53 3 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Localização geográfica do Município de Canoas. Em destaque, bairros Mathias Velho e Harmonia. .................................................................. 13 Figura 2: Comparação entre os homicídios ocorridos em Canoas no primeiro semestre dos anos de 2009, 2010 e 2011. ...................................................... 19 Figura 3: Relação entre o local dos homicídios e a residência das vítimas. .... 23 Figura 4: Relação entre o local dos homicídios de jovens de 15 a 24 anos e a residência das vítimas...................................................................................... 29 Figura 5: localização dos bairros Mathias Velho e Harmonia e áreas de loteamentos irregulares ou em fase de regularização...................................... 41 Figura 6: Pessoas residentes de 12 a 24 anos. ............................................... 42 Figura 7: Pessoas residentes de 25 a 59 anos. .............................................. 43 Figura 8: Registros de furto e roubo de veículos e localização das câmeras de videomonitoramento com área de alcance....................................................... 45 Figura 9: Denúncias e solicitações advindas dos Sistemas de Participação. .. 48 Figura 10: Plantão Integrado de Fiscalização com os bairros mais visitados. . 50 Figura 11: Locais visitados pelo Plantão Integrado de Fiscalização. ............... 50 Figura 12: Relação dos Boletins de Atendimento e Registros de Ocorrências Administrativas com os Recursos Institucionais............................................... 52 Figura 13: Equipamentos de uso coletivo nos bairros Mathias Velho e Harmonia.......................................................................................................... 53 4 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Bairro de ocorrência dos Homicídios, por ano.................................. 18 Tabela 2: Bairro de ocorrência por bairro de residência das vítimas de homicídios ........................................................................................................ 21 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Tipificação dos registros sistematizados no âmbito do GGI-M de Canoas............................................................................................................. 17 Gráfico 2: Taxas de homicídio por ano (por 100 mil habitantes) ...................... 24 Gráfico 3: Locais de ocorrência de homicídios (%). ......................................... 24 Gráfico 4: Meio empregado nos homicídios (%)............................................... 25 Gráfico 5: Sexo das vítimas de homicídio (%).................................................. 26 Gráfico 6: Faixas etárias das vítimas de homicídio (%).................................... 27 Gráfico 7: Taxas de homicídio entre jovens de 15 a 24 anos........................... 28 Gráfico 8: Antecedentes policiais e criminais das vítimas de homicídio (%). .. 30 Gráfico 9: Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia – Adultos (%)......................................................... 32 Gráfico 10: Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia – Jovens (%) ......................................................... 33 irregulares ou em fase de regularização. ........................................................ 41 5 1. APRESENTAÇÃO E METODOLOGIA Presencia-se uma crise nas instituições de controle social primário (família, escola e igreja), tanto pelos novos arranjos societários, que acarretam novas sociabilidades, quanto pela própria descrença nessas instituições. Junto disso, a mídia, do seu modo, neste contexto, acaba sendo fundamental para potencialização de uma maior vulnerabilidade, exclusão e desagregação social, visto que através da espetacularização do crime provoca o aumento do medo e da sensação de insegurança, maior descrença nas instituições policiais, reafirmando que o crime é uma ameaça à sociedade. Com isso, instiga que a própria comunidade tenha um papel importante na resolução dos conflitos, através de práticas individualizadas e pouco pacificadoras. Além disso, o aumento dos processos estruturais de exclusão social pode vir a gerar a expansão das práticas de violência como norma social particular, vigente em vários grupos sociais enquanto estratégia de resolução de conflitos, ou meio de aquisição de bens materiais e de obtenção de reconhecimento e prestígio social. Para tanto, faz-se necessário o entendimento de que o direito à segurança só será garantido assim que outros direitos sejam promovidos com amplo acesso e qualidade, tais como: espaços de lazer e de cultura, escola pública, saúde pública, assistência social, emprego e renda, saneamento, transporte público, iluminação, moradia, entre outros. Somado a isso tudo, a violência tem como principal ator e vítimas as juventudes. Entre os jovens, de duas em cada três mortes se originam numa violência, seja ela homicídios, suicídios ou acidentes de trasnporte. Por fim, a fragmentação do espaço social urbano e a criação de áreas isoladas, com populações desfavorecidas economicamente e desprovidas da presença do Estado, pode favorecer uma violência sistemática, que se apresenta como uma das formas de sobrevivência. 6 Orientado pelas relações epistemológicas expostas acima, o 1 Observatório de Segurança Pública de Canoas , criado em maio de 2010, vem num esforço sistemático de construção de objetos sociológicos que busquem traçar conexões entre dados objetivos, estatísticas criminais e investimentos públicos, e dados subjetivos, ligados à representação social das violências. O Observatório foi concebido para atuar como uma ferramenta estratégica do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M), realizando periodicamente diagnósticos e estudos locais para subsidiar a tomada de decisão dos gestores públicos, favorecendo uma melhor adequação dos recursos, identificando as áreas com menos recursos públicos e com maior concentração de criminalidade. O Observatório vem estruturando e analisando informações advindas tanto de fontes primárias quanto de secundárias. Através de múltiplas estratégias metodológicas, analisa-se documentos históricos, registros policiais e registros da Guarda Municipal; avalia-se a relação das tecnologias de monitoramento com os crimes; analisa-se as solicitações populares; realiza-se pesquisas de opinião junto à população, alvos diretos e indiretos de programas municipais de segurança pública. Todos esses dados são estudados espacialmente, seja através de software estatístico e/ou de georreferenciamento com a finalidade de selecionar as áreas críticas de insuficiência do Estado e com índices altos de criminalidade. Para este estudo, optamos por apresentar dados gerais do município e de uma área da cidade (abrangendo dois bairros – Mathias Velho e Harmonia), devido à constatação de que nestes bairros ocorre grande parte das ocorrências de homicídios e vitimização de jovens e há peculiaridade históricas e sócio-demográficas que constituem esses locais. Como ocorre nos demais locais do país, os homicídios nesses bairros eleitos são extremamente expressivos entre os homens, sendo que a faixa etária de concentração está entre os 15 e 29 anos, sendo a maioria das vítimas 1 Para maiores informações sobre o Observatório acesse http://www2.forumseguranca.org.br/observatorio-de-seguranca-publica-de-canoas o site 7 residentes do próprio bairro onde ocorreu o fato, apontando para uma dinâmica com natureza e agenciamento local. Dessas vítimas, 63,6% possuem antecedentes criminais e policiais, percentual acima da média da cidade. Outro dado destoante é a taxa de homicídio juvenil - 108 homicídios por 100 mil habitantes - a mesma taxa juvenil da cidade de Alvorada que localiza-se no Estado do Rio Grande do Sul e detém a maior taxa de homicídio juvenil do Estado. Apesar de ser impossível a comparação de taxas com unidades territorais diferentes, município e bairro, serve de indicativo para a expressão da magnitude do problema. Os dados históricos desses bairros tiveram como referencial os seguintes trabalhos: “As paisagens da memória do bairro Harmonia, em Canoas/RS: um estudo a partir de registros fotográficos e relatos orais”, de Francisco de Paula Brizolara de Freitas e Lucas Graeff; e o sexto volume referente ao bairro Mathias Velho - do Projeto “Canoas - Para Lembrar Quem Somos”, iniciado em 1994, fruto de uma parceria entre o Centro Universitário La Salle e a Prefeitura Municipal de Canoas. Esse volume, publicado em 2000, tem como autores Rejane Penna (Coord.), Darnis Corbellini e Miguel Gayeski. Em relação aos dados socio-econômicos e demográficos, a fonte foi a pesquisa realizada em julho de 2010 pela Fundação La Salle, para subsídio de ações de reassentamento, regularização fundiária e infra-estrutura urbana do PAC2 na cidade de Canoas. É possível destacar uma caracterização, especialmente das condições habitacionais, das vilas Santo Operário e União dos Operários - localizadas nestes bairros. Foram amostrados 343 domicílios na primeira vila e 306 domicílios na segunda. As informações apresentadas neste diagnóstico são as seguintes: históricas e sócio-demográficas; homicídios (perfil das vítimas e espacialização), furto e roubo de veículos (espacialização e área de visada das câmeras), pesquisa de vitimização e denúncias feitas através dos canais de comunicação da Prefeitura; investimentos públicos de segurança (ações e projetos); equipamentos de uso coletivo, comparando a cidade e os bairros selecionados. 8 Com base na sistematização desses dados, para a delimitação da área de abrangência, utilizamos os seguintes critérios: concentração de jovens de 12 a 24 anos, com base nos dados censitários 2010 do IBGE e concentração de vítimas de homicídios residentes e não residentes no bairro, considerando a intersecção entre os eventos na faixa etária de 15 a 24 anos. Para a análise a partir dos dados do IBGE utiliza-se a faixa etária de 12 a 24 anos, pois acredita-se ser de suma importante iniciar a prevenção com jovens que ainda não alcançaram a idade apontada como crítica para os crimes contra a vida (15 a 24 anos). A informações descritas foram sendo agregadas, possibilitando a correlação de dados e a contextualização mais ampla do objeto selecionado para a análise. Os dados (Censo IBGE 2010), foram classificados por desvio padrão em 5 classes, sendo a classe do meio (nos mapas representada com a cor amarela) a que abrange a média de pessoas nessas faixas etárias por setor do município. As fontes utilizadas para a análise dos homicídios são os Boletins de Ocorrência (BO’s) registrados pela Polícia Civil e Brigada Militar e os dados advindos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde. Esses registros são repassados mensalmente ao Observatório, que os sistematiza e os analisa, com dados de dois anos e meio (janeiro de 2009 a agosto de 2011). Entretanto, esse delito é muito complexo para ser compreendido com essa série histórica e sem os inquéritos policiais, pois envolve vários cenários sociais do crime, nos quais reúnem diversos atores e objetos, relações sociais, temas de confrontação, interesses e dinâmicas em jogo, o que remete à necessidade de um monitoramento permanente e cada vez mais aprofundado do tema. Para os dados de furto e roubo de veículos, utiliza-se um questionário estruturado que é entregue pela Secretaria Municipal de Segurança Pública e Cidadania em cada Delegacia de Polícia da cidade, o qual é preenchido semanalmente para cada situação de registro policial para esses crimes e entregue ao Observatório para tabulação, espacialização e análise dos registros. Os dados ilustrados que serão demonstrados correspondem ao 9 período de julho de 2010 a julho de 2011. Neste período, foram contabilizados 517 furtos de veículos e 669 roubos de veículos. Com relação as câmeras de videomonitoramento, para além da sua localização, delimita-se a sua área real de cobertura. Após a espacialização das câmeras na cidade, mapeia-se a área de cobertura de cada câmera em via pública e identifica-se os pontos de obstrução da área de visão. Munidos de software específico, a metodologia consistiu em vetorizar, sobre a imagem de satélite, conforme o operador direcionava a câmera na interface de seu monitor, o alcance da câmera. A contribuição dos operadores foi importante não só pela manipulação das câmeras como também pelo compartilhamento de saberes adquiridos ao longo da sua rotina de trabalho. Este trabalho é importante para medir o impacto dessa tecnologia na redução e/ou migração dos crimes de furto e roubo de veículos. A pesquisa de vitimização que será apresentada foi realizada em Canoas entre os meses de junho e novembro de 2009, sob coordenação do sociólogo Marcos Rolim. Os resultados fazem referência aos 12 meses anteriores - junho a novembro de 2008. No total foram entrevistadas 1.568 pessoas, sendo 1.315 adultos com 18 anos ou mais e 253 jovens entre 12 e 17 anos. Nos bairros Mathias Velho e Harmonia, se contabilizados conjuntamente, a amostra foi de 248 adultos e 50 jovens. As pesquisas de vitimização vêm se destacando como instrumento complementar no entendimento das dinâmicas criminais e para o planejamento de políticas públicas de segurança, uma vez que são capazes de precisar informações não disponíveis em outras fontes, como os registros policiais, em razão dos sub-registros. A partir das manifestações/solicitações dos(as) cidadãos(as) canoenses, o Observatório construiu um banco de dados que subsidia tanto a metodologia dos Plantões Integrados de Fiscalização2 quanto possibilita a correlação com outros indicadores criminais e não-criminais a fins de estudos mais analíticos e 2 Para maiores informações acesse o documento “Análise das solicitações populares no site:http://www2.forumseguranca.org.br/observatorio-de-seguranca-publica-decanoas/lista/documentos 10 explicativos das dinâmicas da participação popular e a importância dessas informações para a prevenção da criminalidade e para o aumento da sensação de segurança. O período de análise está entre janeiro de 2009 a agosto de 2011. Tais expressões se dão na forma de reivindicações, denúncias, pedidos de informações e/ou elogios, feitas através de mecanismos do Sistema de Participação Popular Municipal3, (como as Plenárias de Serviços e Prefeitura na Rua), da Coordenadoria de Atendimento ao Cidadão - CAC (espécie de disque-denúncia), dos órgãos de fiscalização do Município (Secretaria Municipal de Saúde/ Diretoria de Vigilância Sanitária – SMS/VS, Secretaria Municipal de Meio Ambiente - SMMA, Secretaria de Desenvolvimento Econômico - SMDE), da Sala Integrada de Monitoramento (SIM) da Secretaria Municipal de Segurança Pública e Cidadania (SMSPC)), e demais denúncias que chegam a SMSPC. Os mapas utilizados para as análises dos homicídios são os de intensidade (hotspot) cuja representação cartográfica é estabelecida por variações de cores quentes a frias entre as escalas de maior a menor concentração dos fenômenos em questão, respectivamente. Estes mapas são gerados a partir de ferramentas específicas do software cuja base de cálculo de concentrações está baseada em estimador Kernel. Esta função tem como parâmetro básico a busca por pontos em um raio de influência apontado pelo profissional, definindo assim a vizinhança dos pontos e ponderando-os pela distância de cada um à localização de interesse. Os registros realizados pela Guarda Municipal de Canoas referem-se às situações que envolvem serviços públicos e encaminhamentos a outras secretarias, não relacionados diretamente à violência (Registro de Ocorrências 3 O Prefeito Municipal Jairo Jorge, desde o dia 3 de janeiro de 2009 vem realizando, todo sábado, atendimentos públicos em praças e parques da cidade. Trata-se do projeto Prefeitura na Rua. Outra ação que compõe o Sistema de Participação é a Plenária de Serviços, encontros regionais em que o prefeito presta contas sobre a execução dos serviços públicos, com espaço para a participação social através de críticas e sugestões. Intenta-se, desta forma, reduzir o déficit democrático e empoderar a cidadania canoense mediante uma nova pactuação entre Estado e sociedade. 11 Administrativas - ROCA), assim como às situações que envolvem conflito, risco de vida e/ou acidente (Boletim de Atendimento - BA). Serão apresentadas no estudo as concentrações de ROCAs e BAs nos bairros Mathias Velho e Harmonia no período de março de 2010 a fevereiro de 2011 (1 ano). Foi utilizado a mesma metodologia de análise dos homicídios e residência das vítimas (intersecção) cuja representação de cores varia do rosa (maior concentração concomitante dos dois registros) ao lilás (menor concentração). Também estão localizados no mapa os equipamentos públicos referentes às escolas municipais, praças e parques, equipamentos de saúde e prédios administrativos. A metodologia das demais informações será explicitada ao longo das exposições neste relatório. 2. O MUNICÍPIO DE CANOAS 2.1. HISTÓRIA DE CANOAS Através do Decreto nº 7.839, de 27 de julho de 1939, Canoas foi incluída na categoria de município. Seu território constituía-se do 4º distrito de Gravataí, nos mesmos limites da antiga sesmaria de Francisco Pinto Pandeira, e do 6º distrito de São Sebastião do Caí, Santa Rita, antigos campos de D. Rita de Melo de Azevedo Coutinho, viúva do Sargento-Mor Manoel José Pires da Silveira Casado, que passou a ser 2º Distrito de Canoas. A instalação do Município de Canoas ocorreu a 15 de janeiro de 1940. O crescimento populacional de Canoas deu-se, principalmente, a partir de 1970, devido ao surgimento de pólos industriais e tecnológicos instalados no município. Canoas tornou-se um espaço estratégico devido a sua localização geográfica, ligando Porto Alegre às demais regiões do Estado e do País através das rodovias BR-116, BR-386, pela hidrovia dos Rios Gravataí e dos Sinos, além do sistema integrado de transporte metropolitano e da Trensurb. 12 Em pouco tempo atraiu investimentos comerciais e industriais, caracterizandose como pólo industrial da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). Além disso, atualmente, é um grande centro educacional da RMPA, pois possui dois Centros Universitários e uma Universidade. 2.2 CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-DEMOGRÁFICA Canoas é um município situado no leste da Depressão Central do Estado do Rio Grande do Sul e no centro geográfico da Região Metropolitana da Grande Porto Alegre. Além da Capital, limita-se com os municípios de Esteio, Cachoeirinha e Nova Santa Rita. A delimitação dos limites físicos dos bairros foi estipulada pela Lei Nº 4736 de 2003, criando 18 bairros, nove a leste e nove a oeste da BR 116. (Figura 1). Figura 1: Localização geográfica do Município de Canoas. Em destaque, bairros Mathias Velho e Harmonia. 13 Segundo os dados do Censo, IBGE de 2010, a população é de 323.827, em um território de 131,17 km². A densidade demográfica é de 2.500 habitantes por km². Se por um lado, em uma série de aproximadamente 20 anos, apresenta um aumento de população de aproximadamente 16%, por outro o crescimento no número de domicílios chega a 50%, se comparado com o dado de 1991. O número de habitantes por domicílio (Censo 2010) é de 3,11, o que se assemelha a nova sociedade urbana, configurada por novas organizações familiares, com um número menor de pessoas por residência. As mulheres são a maioria da população canoense, com uma representação de 51,8%. A distribuição etária da população se dá seguinte forma: crianças (0 a 11 anos) representam 56.516 pessoas, 17,4% da população; jovens (12 a 24 anos) correspondem a 69.568 pessoas, ou seja, 21,5% da população; adultos (25 a 59 anos) equivalem a 160.604 pessoas, que representa 49,6% dos canoenses; idosos (60 a 100 anos) são 37.139 pessoas, 11,4% do total de habitantes. Sobre as condições de saúde em Canoas, o coeficiente de mortalidade geral (CMG)4 no ano de 2010 foi de 7,43, taxa semelhante a do Estado do Rio Grande do Sul, mas superior aos CMG para o país. Para esse mesmo ano, o percentual de mulheres que tiveram filhos e que tinha até 19 anos5 foi de 19,02%. Embora o percentual tenha diminuído nos últimos anos, observa-se que a proporção ainda é expressiva, se compararmos com outras realidades no país. Sobre a taxa de internação por drogradição6, de 2009 para 2010, praticamente dobrou, saindo de 3,0 para 5,3, o que pode sugerir uma política 4 Mede o risco de morte por todas as causas em uma população de um dado local e período. Taxa calculada pelo número de óbitos por 1.000 habitantes, ocorridos na população geral. Fonte: DATASUS, Estimativas populacionais (2007-2009) e Censo Demográfico (2010) – IBGE Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011 5 Distribuição percentual de nascidos vivos por idade da mãe (até 19 anos) na população residente.Fonte: DATASUS, Secretaria Municipal de Saúde/Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS): SINASC. Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011 6 Taxa de internação por consumo de álcool e outras drogas na população acima de 10 anos de idade. Calculado a partir da divisão entre o número de internações por uso de álcool e outras drogas e a população de idade superior a 10 anos, por 10.000 habitantes. Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011 14 municipal de saúde em relação às drogas com mais acesso para possibilidades de tratamento. Já sobre a educação pública do município, em 2009, a taxa de abandono escolar7 no Ensino Fundamental da Rede Estadual foi de 3,6 e para a Rede Municipal foi de 1,7. Essa taxa no Ensino Médio da Rede Estadual, no mesmo período, foi de 17,5, ou seja, praticamente quatro vezes maior que a do Ensino Fundamental da mesma Rede. Tal resultado no abandono escolar pode ter uma intrínseca relação com a a violência objetiva e/ou subjetiva experimentada no espaço social, visto que os alunos que frequentam o Ensino Médio estariam na faixa etária principal das situações de violência, podendo estar deixando de frequentar a escola ou por comungarem o sentimento de insegurança e de maior exposição à violência com os seus pares ou por serem vítimas dessas ocorrências. Os dados levantados sobre a cultura demonstram que o município tem 71 associações culturais e entidades com ou sem fins lucrativos8 - o que significa 0,22 entidades por 1000 habitantes. Esse resultado acompanha a maior parte das demais cidades brasileiras em termos de desequilíbrio entre as ofertas culturais e a população residente. De 2006 para 2008 o PIB per capita do município9 de Canoas teve um incremento de 32%, ou seja, passou de R$ 28.790 para R$ 38.133. No Rio Grande do Sul, nesse mesmo período em comparação, o aumento foi de 25%, passando de R$ 14.305 para R$ 17.980. O PIB per capita de Canoas é 47% superior ao do Estado. Contribui para o alto PIB do muncípio o setor secundário, principalmente a indústria metal-mecânica e a Refinaria Alberto Pasqualini. 7 É a proporção de alunos da matrícula total em cada nível de ensino, no ano, que abandonaram a escola. Fonte: Censo Escolar: Edudata Brasil INEP/MEC; SEC-RS. Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011 8 Calculado a partir da divisão do número de associações e entidades culturais pela população residente. Expressa por 1000 habitantes.Fonte: Secretaria Municipal de Cultura. Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011 9 É o valor do PIB dividido pelo total da população. Fonte: Fundação de Economia e Estatística – FEE/RS. Publicação: Estado da Cidade - Um retrato de Canoas - 2011. 15 2.3. DADOS DE CRIMES E DE VIOLÊNCIAS 2.3.1 HOMICÍDIOS10 Segundo o Mapa da Violência 2011, há um crescimento no RS das taxas de homicídios em 10 anos (1998-2008) de 21,8% para a população em geral e 40,4% para os jovens (15 a 24 anos). Este crescimento é ainda maior na RMPA, em que as taxas aumentaram 60,3% na população em geral e 64,4% para os jovens (15 a 24 anos). Canoas, em relação às taxas de homicídios juvenis no Estado, aparece em 5º lugar. No entanto, conforme dados da SSP/RS (Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul), percebe-se que de 2009 a 2010 houve uma diminuição de 23,3% nas taxas de homicídios em Canoas. Dentro do acompanhamento realizado no âmbito do Gabinete de Gestão Integrada do Município (GGI-M), através do Observatório, dispondo de uma metodologia extraoficial, foram contabilizados 333 casos de homicídios em Canoas desde Janeiro de 2009 a junho de 2011, classificados segundo as tipificações do Gráfico 1, que são superiores aos dados da SSP/RS, visto que a metodologia adotada considera todos os eventos violentos com resultado morte como homicídio, encontros de cadáveres, latrocínios e confrontos com a Brigada Militar. 10 O uso do termo “homicídio” neste estudo deve ser entendido em seu contexto mais genérico, como um agregado dos crimes violentos com resultado morte.Essa metodologia traz de um modo mais próximo da “realidade”, ou seja, agregando-se eventos inicialmente distintos, que produzem, todavia, reações sociais similares. Por outro lado, a tipificação legal, as motivações e as circunstâncias (agenciamentos) para a prática desses crimes não são as mesmas. Uma desvantagem significativa é a falta de comparabilidade com outros municípios da região e do país, uma vez que há divergência na metodologia utilizada.vantagens e desvantagens à gestão das políticas públicas de segurança de prevenção das violências e da criminalidade, especialmente de crimes violentos contra vida. A vantagem reside na possibilidade de se compreender os eventos. 16 No ano de 2009, foram contabilizados 154 casos; em 2010, foram 127 e nos primeiros seis meses de 2011, foram 52 casos. Considerando os dados populacionais do Censo 2010 e a estimativa populacional do IBGE para o ano de 2009, chega-se às taxas de 47,5 homicídios por 100 mil habitantes em 2009 e de 39,2 em 2010 – uma redução de 17,4% na taxa de homicídio. Gráfico 1: Tipificação dos registros sistematizados no âmbito do GGI-M de Canoas No período em análise, o bairro que apresentou o maior número de homicídios foi o Mathias Velho, concentrando quase 25% dos homicídios ocorridos em Canoas, seguido dos bairros Guajuviras (15%) e Harmonia (14,7%), conforme a Tabela 1. Ressalta-se que em 10% dos casos não foi possível identificar o bairro de ocorrência dos homicídios em virtude desses registros terem como fonte exclusiva de informação o SIM / Datasus11. 11 Nestes casos, as vítimas faleceram no hospital. Como o SIM/Datasus registra o local de ocorrência do óbito, o local de ocorrência do fato não pôde ser identificado. 17 Tabela 1: Bairro de ocorrência dos Homicídios, por ano.12 Ano_recod bairro_ocorr Mathias Velho Guajuviras Harmonia Não informado Rio Branco Mato Grande Niterói Olaria Fátima São Luis Centro Igara Nossa Senhora das Graças Estância Velha São José Marechal Rondon Industrial Brigadeira TOTAL 2009 2010 2011 24,7 ( 38) 18,2 ( 28) 14,9 ( 23) 12,3 ( 19) 4,6 ( 7) 5,2 ( 8) 3,9 ( 6) 1,3 ( 2) 2,0 ( 3) 2,6 ( 4) 2,6 ( 4) 2,6 ( 4) 1,3 ( 2) 1,3 ( 2) 0,7 ( 1) 1,3 ( 2) 0,7 ( 1) 0,0 ( 0) 100 (154) 23,6 ( 30) 13,4 ( 17) 11,0 ( 14) 11,0 ( 14) 6,3 ( 8) 7,1 ( 9) 7,1 ( 9) 5,5 ( 7) 3,2 ( 4) 3,2 ( 4) 0,8 ( 1) 2,4 ( 3) 2,4 ( 3) 1,6 ( 2) 0,8 ( 1) 0,8 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 100 (127) 28,9 ( 15) 9,6 ( 5) 23,1 ( 12) 3,9 ( 2) 11,5 ( 6) 0,0 ( 0) 1,9 ( 1) 1,9 ( 1) 5,8 ( 3) 3,9 ( 2) 3,9 ( 2) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 1,9 ( 1) 1,9 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 1,9 ( 1) 100 ( 52) TOTAL 24,9 ( 83) 15,0 ( 50) 14,7 ( 49) 10,5 ( 35) 6,3 ( 21) 5,1 ( 17) 4,8 ( 16) 3,0 ( 10) 3,0 ( 10) 3,0 ( 10) 2,1 ( 7) 2,1 ( 7) 1,5 ( 5) 1,5 ( 5) 0,9 ( 3) 0,9 ( 3) 0,3 ( 1) 0,3 ( 1) 100 (333) Em 2010, apesar de os homicídios terem apresentado redução de 21% no Mathias Velho e no Guajuviras e Harmonia ter reduzido 39% em relação ao ano de 2009, tais bairros continuam liderando o ranking na cidade. No primeiro semestre de 2011, destes três bairros, apenas o Guajuviras dá sinais de que conseguirá manter uma redução. No bairro Harmonia, por sua vez, o número de homicídios no primeiro semestre de 2011 já representa quase a mesma quantidade de homicídios ocorridos no ano anterior. No mapa abaixo (Figura 2) são apresentados, através da graduação de cores, os bairros do município de Canoas que tiveram redução ou aumento do número de homicídios no primeiro semestre dos anos de 2009, 2010 e 2011. 12 Os valores da tabela são os percentuais em coluna. Os retângulos de intensidade (em verde) são proporcionais a estes percentuais. Entre parênteses estão os valores absolutos. 18 Figura 2: Comparação entre os homicídios ocorridos em Canoas no primeiro semestre dos anos de 2009, 2010 e 2011. Em termos de dinâmica temporal, nota-se que o bairro Guajuviras diminuiu significativamente o número de homicídios no período de análise. Tal fato pode estar relacionado aos projetos sociais do Território de Paz/PRONASCI implementados no bairro neste mesmo período e as tecnologias utilizadas para a redução das violências, como o Sistema Shotspotter e o videomonitoramento. Já nos bairros Mathias Velho e Harmonia nota-se, além da maior concentração de homicídios em relação aos outros bairros, uma constância do número de eventos, apresentando apenas no bairro Mathias Velho uma pequena redução entre 2009 e 2010, no entanto essa diminuição não se manteve, em 2011, continuando na mesma classe de homicídios. Em relação ao bairro Harmonia, observa-se uma manutenção da classificação por classe em todo o período de análise, apesar da diminuição de 2009 para 2010, considerando os doze meses. 19 Além de estarem entre os bairros com o maior número de homicídios, os bairros Mathias Velho, Guajuviras e Harmonia também são aqueles em que residiam a maior parte das vítimas de homicídio de Canoas, com 29%, 15% e 10,8%, respectivamente. Conforme pode ser verificado na Tabela 2, a maior parte dos homicídios tem como vítimas moradores do próprio bairro em que estes acontecem. No bairro Mathias velho, por exemplo, 66% dos homicídios vitimaram moradores do próprio bairro. No bairro Guajuviras o percentual de vítimas residentes é de 78% e no bairro Harmonia é de quase 43%. Ressaltase que em outros 22% dos homicídios ocorridos no Harmonia as vítimas residiam no bairro Mathias Velho. 20 Tabela 2: Bairro de ocorrência por bairro de residência das vítimas de homicídios13 bairro_resid Mathias Guajuviras Harmonia Rio Branco Velho bairro_ocorr Mathias Velho 66,3 ( 55) 2,4 ( 2) 9,6 ( 8) 3,6 ( 3) Guajuviras 8,0 ( 4) 78,0 ( 39) 2,0 ( 1) 0,0 ( 0) Harmonia 22,5 ( 11) 0,0 ( 0) 42,9 ( 21) 0,0 ( 0) Rio Branco 4,8 ( 1) 0,0 ( 0) 9,5 ( 2) 57,1 ( 12) Mato Grande 17,7 ( 3) 5,9 ( 1) 5,9 ( 1) 0,0 ( 0) Niterói 6,3 ( 1) 6,3 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Olaria 0,0 ( 0) 10,0 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Fátima 10,0 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 10,0 ( 1) São Luis 30,0 ( 3) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Centro 28,6 ( 2) 14,3 ( 1) 14,3 ( 1) 0,0 ( 0) Igara 0,0 ( 0) 28,6 ( 2) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Nossa Senhora das Graças20,0 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Estância Velha 0,0 ( 0) 20,0 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Outros bairros 0,0 ( 0) 12,5 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) Não informado 42,9 ( 15) 2,9 ( 1) 5,7 ( 2) 5,7 ( 2) TOTAL 29,1 ( 97) 15,0 ( 50) 10,8 ( 36) 5,4 ( 18) Estância Velha Niterói Mato Grande Fátima 0,0 ( 0) 2,0 ( 1) 4,1 ( 2) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 30,0 ( 3) 10,0 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 28,6 ( 2) 0,0 ( 0) 60,0 ( 3) 0,0 ( 0) 17,1 ( 6) 5,4 ( 18) 1,2 ( 1) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 4,8 ( 1) 0,0 ( 0) 50,0 ( 8) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 11,4 ( 4) 4,2 ( 14) 2,4 ( 2) 0,0 ( 0) 6,1 ( 3) 0,0 ( 0) 35,3 ( 6) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 5,7 ( 2) 3,9 ( 13) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 4,1 ( 2) 9,5 ( 2) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 10,0 ( 1) 50,0 ( 5) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 0,0 ( 0) 3,0 ( 10) Igara 0,0 ( 0,0 ( 2,0 ( 0,0 ( 0,0 ( 0,0 ( 0,0 ( 0,0 ( 10,0 ( 14,3 ( 28,6 ( 0,0 ( 0,0 ( 12,5 ( 0,0 ( 1,8 ( Não informado 0) 13,3 ( 11) 0) 8,0 ( 4) 1) 10,2 ( 5) 0) 9,5 ( 2) 0) 29,4 ( 5) 0) 37,5 ( 6) 0) 0,0 ( 0) 0) 10,0 ( 1) 1) 50,0 ( 5) 1) 28,6 ( 2) 2) 0,0 ( 0) 0) 20,0 ( 1) 0) 0,0 ( 0) 1) 37,5 ( 3) 0) 2,9 ( 1) 6) 13,8 ( 46) Outros bairros 1,2 ( 1) 0,0 ( 0) 2,0 ( 1) 0,0 ( 0) 5,9 ( 1) 0,0 ( 0) 10,0 ( 1) 0,0 ( 0) 10,0 ( 1) 0,0 ( 0) 14,3 ( 1) 40,0 ( 2) 0,0 ( 0) 25,0 ( 2) 5,7 ( 2) 3,6 ( 12) Outro município TOTAL 0,0 ( 0) 100 ( 83) 2,0 ( 1) 100 ( 50) 6,1 ( 3) 100 ( 49) 4,8 ( 1) 100 ( 21) 0,0 ( 0) 100 ( 17) 0,0 ( 0) 100 ( 16) 40,0 ( 4) 100 ( 10) 10,0 ( 1) 100 ( 10) 0,0 ( 0) 100 ( 10) 0,0 ( 0) 100 ( 7) 0,0 ( 0) 100 ( 7) 20,0 ( 1) 100 ( 5) 20,0 ( 1) 100 ( 5) 12,5 ( 1) 100 ( 8) 0,0 ( 0) 100 ( 35) 3,9 ( 13) 100 (333) 13 Os valores da tabela são os percentuais em linha. Os retângulos de intensidade (em verde) são proporcionais a estes percentuais. Entre parênteses estão os valores absoluto. 21 Tendo em vista a incidência de homicídios por bairro de ocorrência e bairro de residência das vítimas nos últimos dois anos e meio, a necessidade de se delimitar uma área para a intervenção pública direcionaria o apontamento do bairro Mathias Velho enquanto “locus” de intervenção. Contudo, conforme será exposto em seguida, a espacialização das ocorrências de homicídios e das residências das vítimas demonstra a existência de concentrações espaciais em áreas de intersecção entre os bairros Mathias Velho e Harmonia. Em metodologia explicada anteriormente, o raio de influência apontado pelo profissional, no caso deste estudo, foi de 500 metros. O principal objetivo da elaboração destes mapas foi subsidiar a identificação de áreas prioritárias no direcionamento de ações e estratégias tanto repressivas (relacionadas aos locais de ocorrência de homicídios) quanto preventivas (relacionadas aos locais de residência das vítimas e que dão pistas para a identificação de áreas com maior possibilidade de vitimização). A partir da consideração de que as áreas de concentração destes dois fenômenos, ocorrendo concomitantemente, devam receber maior atenção no que se refere à implantação de projetos que visem à redução da violência, foi gerado um mapa com a intersecção de concentrações de ocorrências de homicídio e de residências de vítimas no período de Janeiro de 2009 a Julho de 2011 (Figura 3). A análise do mapa de intensidade mostra que a relação entre a ocorrência de homicídios e a localização de residências das vítimas não possui uma distribuição aleatória, visto que podem ser identificados padrões de concentração em determinadas regiões dos bairros, a destacar áreas paralelas e comuns entre os bairros Mathias Velho e Harmonia (ao longo da Avenida Florianópolis), Rua Uruguaiana no bairro Mathias Velho e, na maior parte, condizente com a localização de loteamentos e ocupações irregulares: Getúlio Vargas (Mathias Velho), Bom Sucesso (Mathias Velho), Natal (Harmonia), União dos Operários (Mathias Velho), Santo Operário (Harmonia), ocupação ao lado do Hospital de Pronto Socorro (Mathias Velho) e Dique São Paulo (Mathias Velho, divisa bairro São Luís). 22 Figura 3: Relação entre o local dos homicídios e a residência das vítimas. Tendo em vista a delimitação estabelecida das áreas acima, será apresentado a seguir um breve perfil das ocorrências e das vítimas de homicídio nos bairros Mathias Velho e Harmonia, buscando a comparação de suas características com o perfil geral dos homicídios no município. Considerando a população dos bairros Mathias Velho e Harmonia no ano de 2010 (87.879 habitantes), chega-se a uma taxa de 50 homicídios por 100 mil habitantes, quase 28% superior à taxa do município neste mesmo ano, conforme Gráfico 2. 23 Gráfico 2: Taxas de homicídio por ano (por 100 mil habitantes) Mais da metade dos homicídios ocorridos em Canoas, desde 2009, ocorreram em vias públicas. Nos bairros Mathias Velho e Harmonia, este percentual é ainda superior: 66%, conforme grafico 3. A arma de fogo foi o instrumento utilizado em quase 80% dos homicídios, tanto nos bairros selecionados quanto no município (grafico 4). Gráfico 3: Locais de ocorrência de homicídios (%). 24 Gráfico 4: Meio empregado nos homicídios (%) Em relação aos dias da semana e aos horários em que os homicídios aconteceram, há uma distribuição homogênea, tanto no município quanto nos bairros selecionados, ou seja, não há um dia ou um horário em que se concentrem os homicídios. Nos bairros eleitos, 31% dos homicídios ocorreram entre sábado e domingo, principalmente no período da noite (34%) e madrugada (28%). Conforme o Gráfico 5 abaixo, as vítimas são majoritariamente homens: 92% no município e 94% nos bairros Mathias Velho e Harmonia. 25 Gráfico 5: Sexo das vítimas de homicídio (%). Quanto à faixa etária das vítimas, tanto em Canoas quanto nos bairros selecionados os jovens dos 15 aos 29 anos são os mais vitimados. Em Canoas, a proporção de vítimas entre 25 e 29 anos é um pouco superior à proporção nos bairros selecionados. Já entre os jovens de 15 a 19 anos, esta proporção é um pouco superior nos bairros Mathias Velho e Harmonia, demonstrando um perfil de vitimização mais jovem dos bairros em comparação ao do município. (Gráfico 6). 26 Gráfico 6: Faixas etárias das vítimas de homicídio (%). Levando-se em consideração a população dos 15 aos 24 anos nos bairros optados (15.703 jovens), chega-se a uma taxa de 108 homicídios por 100 mil habitantes. Em Canoas, a taxa de homicídio entre os jovens neste mesmo ano foi de 93 homicídios por 100 mil habitantes (Gráfico 7). 27 Gráfico 7: Taxas de homicídio entre jovens de 15 a 24 anos O mesmo tipo de mapa de intensidade foi gerado a partir de intersecção entre concentrações de ocorrências de homicídios de jovens entre 15 e 24 anos e concentração de residência das vítimas com a mesma faixa etária e para o mesmo período de análise (Figura 4). Verifica-se uma melhor delimitação da área onde ocorre vitimização de jovens, a destacar: concentração da Vila Bom Sucesso (bairro Mathias Velho) e oeste da Vila Natal (bairro Harmonia); parte da Vila União dos Operários (Mathias Velho) e parte da Vila Natal; norte da Vila Santo Operário (Harmonia) e oeste da ocupação ao lado do HPS (Mathias Velho); e ao longo da Rua Uruguaiana (Mathias Velho). 28 Figura 4: Relação entre o local dos homicídios de jovens de 15 a 24 anos e a residência das vítimas. Para melhor compreender as características e identificar as regularidades nos homicídios faz-se necessário empreender outro tipo de pesquisa, para além dos boletins de ocorrência, já que os boletins são confeccionados com poucas informações consistentes – uma vez que a qualidade destas depende de investigação policial. Em 2009, a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Cidadania de Canoas encomendou uma pesquisa sobre o perfil dos homicídios ocorridos no município em 2008, realizada a partir da análise de inquéritos policiais. Segundo o levantamento realizado, “em 57% dos inquéritos policiais não havia informações sobre os responsáveis, em 20% deles se apontava suspeitos (indicações decorrentes, em sua maioria, de depoimentos de familiares e de denúncias anônimas), e em apenas 23% havia indiciados” (ROLIM, p. 37, 2010) Igualmente, a qualidade dos inquéritos impossibilitou as conclusões à respeito das relações existentes entre vítima e autor, já que em 51% deles não 29 havia informações suficientes. Ainda segundo esta pesquisa, “a qualidade dos inquéritos não autoriza qualquer conclusão sobre a motivação, vez que 44,57% deles não apresentam informação alguma sobre o tema” (ROLIM, p. 48, 2010). Dentre os inquéritos em que foi possível determinar as motivações, 14,3% dos crimes tinham alguma relação com o tráfico de drogas, 9,7% seriam motivados por vingança e outros 9,7 por “rixa”. A despeito das conclusões desta pesquisa encomendada pelo Poder Público, sobre a impossibilidade de se compreender as motivações a partir de boletins de ocorrência, pode-se afirmar que os a maior parte dos homicídios nos bairros Mathias Velho e Harmonia estão de algum modo associadas às disputas existentes entre grupos de traficantes. A grande maioria dos homicídios nestes bairros envolveu vários disparos de armas de fogo, o que afasta a possibilidade de que estes crimes estejam sendo cometidos por motivos “banais”, como nos casos da violência interpessoal oriunda da incapacidade de convivência. Na análise dos registros policiais aqui empreendida, foi possível identificar que nestes bairros a proporção de vítimas com passagem pelo sistema de justiça criminal é superior ao que ocorre no município, conforme Gráfico 8. Gráfico 8: Antecedentes policiais e criminais das vítimas de homicídio (%). 30 No início de junho de 2009, uma operação policial realizada nos bairros Mathias Velho e Harmonia marcou o início da atuação integrada entre as forças policiais que compõem o GGI-M na área. Tal operação foi batizada de Operação “Cova Rasa”, a ação foi precedida de cinco meses de investigação policial e foi executada com a participação de centenas de policiais civis e militares que cumpriram 57 mandatos de busca e apreensão, prendendo mais de 40 pessoas. A ação conseguiu impactar na dinâmica criminal do município - especialmente nas práticas de homicídios - conforme dados acima, ao desarticular um grupo de extermínio ligado ao tráfico de drogas. Em agosto deste ano, 2011, uma nova operação foi realizada nestes bairros com o objetivo de desarticular um dos principais grupos que atuam no tráfico local. A operação resultou na prisão de 17 pessoas e na apreensão de dois adolescentes que, segundo o delegado da 1ª DP de Canoas, estariam envolvidos na maioria dos homicídios desta região.14 2.3.2 PESQUISA DE VITIMIZAÇÃO As pesquisas de vitimização vêm se destacando como instrumento complementar no entendimento das dinâmicas criminais e para o planejamento de políticas públicas de segurança, uma vez que são capazes de precisar informações não disponíveis em outras fontes, como os registros policiais. A pesquisa aqui em destaque foi realizada em Canoas entre os meses de junho e novembro de 2009, sob coordenação do sociólogo Marcos Rolim. Os resultados fazem referência aos 12 meses anteriores - junho a novembro de 2008. No total em Canoas foram entrevistadas 1.568 pessoas, sendo 1.315 14 Para mais informações sobre a operação “Cova Rasa” acesse: <http://www.canoas.rs.gov.br/Site/Noticias/Noticia.asp?notId=5973&pesquisa=Opera%E7%E3o %20Cova%20Rasa>. Acesso em 18/07/2011. Para mais informações sobre a operação “Paranóia” acesse: <http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/diario-gaucho/19,222,3453038,Canoas-nove-homens-eoito-mocas-a-menos-na-fuzarca.html>. Acesso em 01/09/2011. 31 adultos com 18 anos ou mais e 253 jovens entre 12 e 17 anos. Nos bairros Mathias Velho e Harmonia, se contabilizados conjuntamente, foram 248 adultos e 50 jovens. Algumas informações, extraídas da pesquisa, mostram que em geral a porcentagem de pessoas vitimadas nos bairros Mathias Velho e Harmonia (média dos dois bairros) são maiores que na cidade como um todo. Conforme gráfico abaixo: Gráfico 9: Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia – Adultos (%) Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia - Adultos (% ) Furto na residência com arrombamento 6,7 9,3 Furto na residência sem arrombamento 15,3 11,3 Furto fora da residência 18,1 2,4 2,1 Roubo na residência 6,0 6,6 Roubo fora da residência 18,9 Vandalismo na residência 0 5 10 15 Média de Mathias e Harmonia Os três 23,5 tipos de furto acima 21,9 20 25 Cidade de Canoas ilustrados (na residência com arrombamento, na residência sem arrombamento e fora da residência) apresentaram maior porcentagem nos bairros Mathias Velho e Harmonia do que na cidade de Canoas. Com relação aos roubos (na residência e fora da residência) percebe-se pouca diferença. Sobre o vandalismo na residência novamente é mais alta a porcentagem da média nos dois bairros (21,9%) do que na cidade de Canoas (18,9%). Uma outra questão, não presente no gráfico acima, perguntava ao entrevistado se ele tinha “presenciado venda de drogas”, a diferença foi de 40,4% da cidade de Canoas para 48,4% nos bairros Mathias Velho e Harmonia. 32 Gráfico 10: Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia – Jovens (%) Comparação da vitimização na cidade de Canoas com os bairros Mathias Velho e Harmonia - Jovens (% ) 13,6 Furto fora da escola 18,4 11,7 12,5 Roubo fora da escola Furtado ou roubado na escola 13,6 15,9 25,4 Envolvimento com briga de rua Já viu consumo de drogas ilegais dentro da escola 38,8 30 0 5 10 15 Média de Mathias e Harmonia 20 25 30 38,8 35 40 Cidade de Canoas Com relação à vitimização de jovens no ambiente escolar, furtos e roubos apresentaram um valor inferior nos dois bairros em comparação à cidade (13,6% contra 15,9%). Na questão sobre “já ter visto consumo de drogas ilegais dentro da escola” ocorre o inverso, 38,8% nos bairros Mathias e Harmonia e 30% na cidade de Canoas. Sobre o consumo de drogas na escola, foram relatados 12 casos de “ter presenciado consumo de crack” em toda a cidade de Canoas, metade destes casos nos bairros Mathias Velho e Harmonia. Sobre a vitimização dos jovens de 12 a 17 anos fora da escola nota-se diferença significativa no que tange aos furtos (18,4% nos dois bairros e 13,6% na cidade) e resultados próximos com relação aos roubos, com a porcentagem ligeiramente maior nos dois bairros (12,5% nos bairros Mathias Velho e Harmonia e 11,7% na cidade). Ainda com relação aos jovens há uma considerável diferença na questão sobre envolvimento com briga de rua, pois na média dos dois bairros o percentual foi de 38,8% e na cidade de 25,4%, uma diferença de 52,8%. 33 Por fim, um dado de relevo captado pela pesquisa, sobre os jovens, foi o de agressão sexual fora da escola, ao todo foram relatados 7 casos em toda a cidade de Canoas, 4 deles nos bairros Mathias Velho e Harmonia. A pesquisa de vitimização - em linhas gerais - vai ao encontro da caracterização sociodemográfica e do levantamento das estatísticas criminais que demonstram que a região que abrange os dois bairros é mais vulnerável às violências se comparada ao restante da cidade. 3. HISTÓRIA E CARACTERIZAÇÃO DOS BAIRROS MATHIAS VELHO E HARMONIA 3.1. HISTÓRIA A história dos bairros vizinhos Harmonia e Mathias Velho têm muito em comum: desde a proximidade do período de início do povoamento, passando pelas características geomorfológicas, até a fluidez das delimitações políticoadministrativas. A área que atualmente compreende os bairros Harmonia e Mathias Velho foi delimitada oficialmente somente em 2003 – assim como o restante dos bairros do município – através da “Lei de Bairros” (Lei Municipal Nº 4736/03) já mencionada acima. Através dessa lei, a Rua Florianópolis tornase o limite entre os dois bairros, sendo a área localizada ao norte da via o bairro Mathias Velho, e a área ao sul, o bairro Harmonia. Algumas vilas e/ou loteamentos irregulares identificados com o bairro Mathias Velho atualmente compõem o bairro Harmonia. Em razão disso, a história desses bairros estão imbricadas, principalmente, no que tange aos processos históricos de ocupação das áreas hoje limítrofes desses bairros e à organização dos moradores na luta por infraestrutura urbana. O povoamento na região do Mathias Velho e Harmonia iniciou na década de 1950. A área compreendida por esses bairros caracterizava-se por seus terrenos planos e baixos, e solos mal-drenados com textura arenoargilosa. Segundo um antigo morador e corretor do bairro Mathias Velho, “os terrenos da Mathias eram alagadiços, baixos, muita água” (Penna; Corbellini e 34 Gayeski, p. 25, 2000)15. O morador do Harmonia relembra situação semelhante em seu bairro: “Era tudo granja de arroz por todos os lados! Antigamente, nós tínhamos que ir para o Centro com as calças pelos joelhos devido ao barro, pois era um lugar muito encharcado.” (Freitas e Graeff, p. 33, 2010)16. Com efeito, as terras que hoje compreendem os bairros Mathias Velho e Harmonia, favoráveis à lavoura de arroz, não eram as mais adequadas para residência. Conforme Penna; Corbellini e Gayeski (p.19, 2000) , “Ora, se um local é ideal para plantação de arroz , a condição básica é que seja extremamente úmido e, melhor ainda, completamente alagado.” Entretanto, segundo os autores acima (2000), justamente pelas condições desfavoráveis à moradia, e, por conseguinte, pela sua desvalorização, as terras se tornaram atraentes à população devido aos baixos preços dos lotes (nas áreas loteadas e colocadas à venda). O grande número de ocupações ocorridas entre o 1979 e 1985 nos bairros Harmonia e Mathias Velho (9, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação, antiga Secretaria Municipal de Planejamento Urbano), pode ser entendido também como resultado, por um lado, da grande extensão de terrenos deixados ociosos na região pelos seus proprietários, aguardando valorização, e por outro, do êxodo rural que trouxe muitas pessoas de municípios do interior do estado em busca de empregos no Pólo Petroquímico e na indústria metal-mecânica no município. O nome do bairro Mathias Velho deve-se aos proprietários da área, a família descendente de Saturnino Mathias Velho, que adquiriu as terras em 1885, ocupando-as e explorando-as com criação de gado e cultura de arroz. Somente em 1950, a área passou de zona produtiva à zona residencial, após contrato dos herdeiros das terras de Saturnino Mathias Velho com loteadora. 15 Uma das fontes orais que fez parte do sexto volume - referente ao bairro Mathias Velho - do Projeto “Canoas - Para Lembrar Quem Somos”, iniciado em 1994, fruto de uma parceria entre o Centro Universitário La Salle e a Prefeitura Municipal de Canoas. O sexto volume, publicado em 2000, tem como autores Rejane Penna (Coord.), Darnis Corbellini e Miguel Gayeski 16 Uma das fontes orais de pesquisa realizada em 2010, que deu origem ao artigo “As paisagens da memória do bairro Harmonia, em Canoas/RS: um estudo a partir de registros fotográficos e relatos orais”, de Francisco de Paula Brizolara de Freitas e Lucas Graeff. 35 Como na época ainda não existia Plano Diretor, a loteadora apenas abriu as ruas e vendeu os terrenos sem qualquer tipo de infraestrutura. Além disso, farta propaganda foi utilizada para vender os lotes do bairro, escondendo o problema das cheias, que eram frequentes em razão da combinação das condições do terreno com a falta de planejamento do loteamento. Após a enchente mais grave em 1967 - quando a região foi devastada e muitos dos moradores perderam tudo o que tinham, somente de barco podia-se atravessar a Av. Rio Grande do Sul, transformada em leito de rio - pensou-se em terminar com a vila, transferindo os moradores para áreas mais altas da cidade como o atual bairro Estância Velha, mas os moradores não aceitaram e ao invés de saírem, reivindicaram melhorias, como a construção do dique Mathias Velho (Penna; Corbellini e Gayeski, 2000), que começou a operar sua casa de bombas em 1970 (JusBrasil, 2010). De acordo com Penna; Corbellini e Gayeski (2000), o período em que se iniciou a venda dos lotes no bairro Mathias Velho (início da década de 1950) correspondeu ao auge do expansionismo da cidade: em 10 anos, de 1940 a 1950, a população foi triplicada. No final da década de 1970, inicia-se o período de ocupação das terras à oeste da Vala do Leão (rua República no bairro Harmonia e Mathias Velho). É nesse mesmo período que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) começaram a atuar nas áreas que compreendem os dois bairros, tendo um papel fundamental nos movimentos comunitários que ali se formaram, nas lutas por moradia e por infraestrutura nos bairros. Uma dificuldade encontrada na delimitação da área do projeto refere-se a diferença entre a delimitação e denominação oficial de bairros em vigor desde 2003 e o reconhecimento e identificação popular dos bairros do município. Nesse sentido, o livro que nos baseamos para recontar a história desses dois bairros, que é uma publicação de 2000, é o volume que resgata, através de fontes orais predominantemente, a história do bairro Mathias Velho ou do que ali se denomina a “Grande Mathias Velho”: compreendendo a área que, segundo um morador da Vila Natal, “de um lado vai até a beira do dique [Rua Curitiba] e do outro vai até a Vila Cerne e a Harmonia. A rua José 36 Veríssimo divide Mathias da Harmonia” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 28, 2000). Isto é, da “Grande Mathias” fariam parte, segundo o morador, as Vilas Santo Operário, Vila Natal e Vila Porto Belo, que pela Lei de Bairros de 2003, fazem parte do bairro Harmonia. Mesmo entre as delimitações e denominações das diferentes vilas há certa confusão. É o caso da divisão da Vila Santo Operário e da Vila Natal, ocupações que correram em 1979 em áreas contíguas, cujo limite é a Rua Dona Maria Isabel. O morador da Vila Natal, que tem dúvidas quanto o nome certo do local onde vive, já que para ele ainda é Santo Operário, critica a divisão entre as vilas: “Quando tu repartes uma vila em várias vilas, ela perde a força que tem. Eu não concordo com isso até hoje. Se tu vê a situação da vila hoje [Vila Natal], vai ver que era para estar muito melhor se não fosse a divisão feita” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 28, 2000) Portanto, atualmente, há bastante confusão entre moradores da cidade, que desconhecem a lei de bairros, e mesmo entre os próprios atores da administração municipal que também são moradores do município, acostumados com uma denominação e delimitação diferente dos bairros de Canoas. Tendo em vista tudo isso, esta breve revisão histórica dará foco especial a essa região compreendida pela “Grande Mathias Velho”, principalmente às vilas Santo Operário, Natal, União dos Operários, Getúlio Vargas e Bom Sucesso. Assim sendo, segundo relatos dos moradores, a Vila Natal é uma divisão da Santo Operário, que primeiro foi ocupada da vala do Leão até a Rua Dona Maria Isabel, e depois, dessa via para oeste do município até o Rio dos Sinos. Conforme morador da Vila Natal, aposentados da polícia civil e engenheiros se apossaram de alguns hectares da área da vila, usando-os para lazer. Segundo ele, “como eles não tinham a posse da área e não tinham como comprovar nós ocupamos em pé de igualdade”. (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 27, 2000) A vila Santo Operário possui esse nome em homenagem a um líder sindicalista ligado à Pastoral Operária morto pela polícia durante uma manifestação em São Paulo em 1979, chamado Santo Dias da Silva. O 37 processo de ocupação da área vazia ou “granja”, que hoje é a Vila Santo Operário, iniciou no final de 1979 nas reuniões preparatórias para o Natal, organizadas pelas CEBs, onde o estudo bíblico ocorria lado à lado com a reflexão sobre realidade local. O Natal de 1979, bem como a organização comunitária liderada pelos agentes pastorais das CEBs, também foram importantes para a ocupação, em maio de 1980, da área do antigo Hipódromo do Prado: a atual Vila União dos Operários. De acordo com o presidente da Associação de Moradores da União dos Operários do final da década de 1990, “ Lá pelo final dos anos sessenta e começo dos anos setetenta, conforme consta no processo, o Jóquei entrou em falência. Aí esta área foi penhorada pela Justiça e alguns funcionários receberam terras em troca de pagamentos. Como isso aqui era campo de futebol e campo para criação de cavalos, tinha espaço e as noventa famílias foram chegando na beira, ao longo da Av. Rio Grande do Sul, foram cercando as terras.” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 85, 2000). Aqui o processo de ocupação não se deu sem a corajosa resistência dos moradores à violência de jagunços contratados pelos proprietários e da polícia militar. Segundo um dos líderes da ocupação, até novembro de 1983 - “o período de resistência à violência” -, muitos moradores migravam para a Santo Operário, que era uma ocupação pacífica (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 56, 2000). Conforme relatos de pessoas que participaram de outras ocupações realizadas em Canoas, a da Vila União dos Operários foi uma das mais violentas. Os jagunços contratados, e até mesmo alguns policiais civis e militares, colocavam fogo nas casas, batiam nas famílias, abriam buracos de retroescavadeiras para as pessoas não entrarem em casa. Mas a união e organização dos moradores na resistência às violências teve até um símbolo: um sino usado para mobilizar a comunidade e que deu nome à Rua Sinos da União. “[...] colocaram um sino lá embaixo, quando os jagunços chegavam aqui, para corrê-los daqui eles batiam o sino lá, os invasores corriam para lá para resistir e corriam com os brigadianos. O sino era para avisar. O pessoal se uniu para correr os brigadianos, os jagunços. Por isso ficou a Rua Sino da União” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 29, 2000). 38 Os anos 1984 até 1989 foram considerados como o período de estruturação da União dos Operários. A posse da área foi garantida pela Justiça em 1986 em nome da Associação dos Moradores. Nesse espaço de participação comunitária, as famílias decidiram que iriam partilhar a posse com todos os que necessitassem de um terreno para morar. “A vila organizou-se nos seus oitocentos e trinta e dois lotes e mais várias áreas comunitárias destinadas à horta, praça, sede da associação, campos de futebol e espaços para igrejas.” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 57, 2000). As “Frentes de trabalho”, entre 1983 a 1986, organizada pela Associação de Moradores, foram muito importantes para a estruturação das vilas já que eram formadas por grupos de moradores desempregados que em troca de dois dias e meio de trabalho (construindo casas, abrindo valetas nas ruas), ganhavam 21 quilos de alimento, podendo voltar ao grupo dali a um mês. Havia também a Comissão de Moradores que, como observa um morador, “[...] era gente séria, que tinha consciência da gravidade dos semteto, do movimento pela moradia, que é um direito primeiro [...]” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 86, 2000). A comissão fazia a marcação dos lotes, fazia o controle das pessoas que chegavam na vila - “Se alguém tinha propriedade nós expulsávamos de lá” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 86, 2000). As reuniões da Comissão de Moradores, em um primeiro momento, ocorriam diariamente, depois passaram a ser semanais. Enfim, a Comissão de Moradores teve importante papel na organização e estruturação da vila. Devido a essa organização que um morador conclui : “Por isso que estas vilas hoje não são favelas, porque parece que são vilas feitas pelo Prefeito” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 86, 2000). A Vila Getúlio Vargas é fruto da ocupação ocorrida em 1985 em área de propriedade da família Mathias Velho. De acordo com um morador, é uma área de 70 hectares entre a Rua Campinas e a Rua Curitiba, que é uma gleba de terra só, mas tem dois nomes: a Getúlio Vargas à norte da Av. Rio Grande do Sul e a Bom Sucesso a sul dessa via (Penna; Corbellini e Gayeski, 2000). A Vila Getúlio Vargas é conhecida pejorativamente como “Vila Sapo”, nome criticado pelo morador: “Foram as elites que deram esse nome, porque lá, 39 quando chovia, tinha muita água. As elites queriam que o povo saísse de lá. Diziam: lá é para sapo!” (Penna; Corbellini e Gayeski, p. 65, 2000). Além da luta pela moradia, a organização comunitária também foi imprescindível para a garantia de infraestrutura urbana. É o que demonstra a fala de um morador do bairro Harmonia: “A rua era rebaixada e carro não entrava [...] A nossa rua aqui era barro e valo também então fizemos abaixo assinado para botar pedra aqui! Pra melhorar botaram aquela baita pedra” (Freitas e Graeff, p. 32, 2010). Essas vilas, ainda hoje, não possuem todas suas ruas pavimentadas. Quase trinta anos depois, vê-se que, a partir da mobilização dos moradores, muitas melhorias foram conquistadas, porém, a luta por regularização fundiária e urbanização ainda não terminou. 3.2 CARACTERIZAÇÃO SOCIODEMOGRÁFICA DA ÁREA 3.2.1 LOCALIZAÇÃO Os bairros Mathias Velho e Harmonia, localizam-se a Oeste da BR 116, rodovia que divide o município de Canoas no sentido Norte-Sul. Os dois bairros compreendem uma área de 11,01 km², ou seja, 11,9% da área total do município. Os outros tipos de regionalização que compreendem estes bairros referem-se à AISP 1 (Áreas Integradas de Segurança Pública - divisão administrativa para planejamento de ações) e Microrregiões 11,12,13,14 e 15 do Orçamento Participativo. A área conta atualmente com 10 vilas e loteamentos irregulares ou em fase de regularização, são elas: Vila Getúlio Vargas, Vila Bom Sucesso, Vila Natal, Vila União dos Operários, Dique São Paulo, Ocupação da Rua Araçá, Faixa de Domínio RFSSA, Vila Porto Belo, Ocupação ao lado do HPS e Vila Santo Operário. A localização destas áreas consta no mapa a seguir, assim como o limite dos dois bairros em questão. (Figura 5). 40 Figura 5: localização dos bairros Mathias Velho e Harmonia e áreas de loteamentos irregulares ou em fase de regularização. 3.2.2 POPULAÇÃO Segundo o Censo IBGE 2010, os bairros Mathias Velho e Harmonia concentram 87.879 habitantes dos 323.827 que residem em Canoas, isto é, aproximadamente 27%. Esses são os bairros com a maior densidade demográfica do município, com 8.127 hab/km² e 7.819 hab/km², respectivamente, enquanto que a densidade demográfica de Canoas é de 2.471 hab/km². Observa-se que, entre as vilas compreendidas pela área dos bairros Mathias Velho e Harmonia e que estão de alguma forma cobertas pelas manchas de intersecção da concentração de ocorrência de homicídios e de residência das vítimas desse tipo de crime, a Vila Santo Operário é mais populosa, com 14.254 habitantes. Em seguida, está a Vila Getúlio Vargas com 5.895 pessoas residentes, a Vila União dos Operários (5.121), a a Vila Natal (4.834) e Vila Bom Sucesso (1.453). 41 Em Canoas, 21,5% da população são jovens de 12 a 24 anos (69.568), o que equivale a uma média de 116 pessoas por setor censitário. Já nos bairros Harmonia e Mathias Velho, a proporção de jovens é um pouco maior: 23,2% (20.409). Analisando esses bairros por setor censitário, vemos que quase a totalidade dos setores apresenta um número de pessoas com essa faixa etária na média ou acima da média do município, demonstrando uma população mais jovem em relação a outros locais de Canoas. (Figura 6). Figura 6: Pessoas residentes de 12 a 24 anos. Comparando as vilas da área, vemos uma semelhança na proporção de jovens nessas vilas: em torno de 25% da população residentes nesses locais. A Vila Getúlio Vargas é a que apresenta um percentual um pouco maior de pessoas de 12 a 24 anos (26%), enquanto o menor percentual fica na Vila Bom Sucesso (24%). Sendo assim, os bairros Harmonia e Mathias Velho possuem uma proporção maior de jovens em relação ao município como um todo, e as 42 vilas em análise, por sua vez, apresentam maior proporção de jovens em relação ao total de residentes da área Mathias Velho e Harmonia. A população na faixa etária de 25 a 59 anos representa 49,6% do total de residentes do município, sendo a média por setor censitário igual a 267. Mathias Velho e Harmonia apresentam 41.976 pessoas nessa faixa etária, o que corresponde a 47,7% do total da população desses bairros. Nota-se que há menos setores censitários onde o número de residentes está acima da média do município, havendo muitos setores classificados na média do município (cor amarela) e alguns abaixo da média (cor verde). (Figura 7). Figura 7: Pessoas residentes de 25 a 59 anos. Olhando para as vilas, vê-se que a proporção de adultos de 25 a 59 anos é um pouco menor que a do total da área dos bairros, ficando perto dos 45%. A Vila Getúlio Vargas é a que apresenta o menor percentual de adultos (41,2%) e a Vila Santo Operário, o maior percentual de população nessa faixa etária (46,7%). 43 Sobre as condições habitacionais17, no que tange a coleta de esgoto, há a cobertura de 94% na União dos Operários e 97% no Santo Operário. Sobre o abastecimento de água, na vila União dos Operários 24% não tem abastecimento regularizado enquanto o percentual na vila Santo Operário é de 22%. Acerca do abastecimento regular de energia elétrica, tanto União dos Operários quanto Santo Operário apresentaram 16% das residências sem abastecimento regular. Sobre a coleta de lixo, na vila União dos operários 10% das famílias não contam com coleta coletiva domiciliar, percentual que cai pela metade, 5%, na vila Santo Operário. Com relação à renda familiar, segundo a pesquisa, há pouca diferença entre as duas vilas, enquanto na União dos Operários 77% das famílias ganha até 2 salários mínimos, no Santo Operário o percentual é de 70%. Sobre a escolaridade do responsável pelo domicílio, a vila União dos Operários apresentou 64% com ensino fundamental incompleto, mesmo percentual verificado na vila Santo Operário. Percebe-se, pelas informações acima descritas, que as condições socioeconômicas das duas vilas são bastante semelhantes, aparentando a vila Santo Operário uma condição ligeiramente melhor. 17 Pesquisa realizada para subsídio do PAC 2, maiores informações constam no item 1.0 deste diagnóstico. 44 4. INVESTIMENTOS PÚBLICOS DE SEGURANÇA 4.1 VIDEOMONITORAMENTO E FURTO E ROUBO DE VEÍCULOS Figura 8: Registros de furto e roubo de veículos e localização das câmeras de videomonitoramento com área de alcance. As câmeras de videomonitoramento foram instaladas em Canoas a partir de 2009 em diversas fases de instalação. Das 130 câmeras existentes no município, 74 estão em via pública, 23 nos dois parques principais da cidade (Parque Esportivo Eduardo Gomes e Parque Getúlio Vargas), 31 nos próprios municipais e duas câmeras com reconhecimento facial no Trensurb. Das câmeras instaladas em via pública, 12 (9,23%) localizam-se nos bairros Mathias Velho e Harmonia com suas áreas de visão representadas no mapa acima. (Figura 8). 45 As ocorrências de furto e roubo de veículos vêm sendo sistematizadas pelo Observatório desde julho de 2010. Nestes primeiros 13 meses de acompanhamento (julho de 2010 a julho de 2011) foram contabilizados 517 furtos e 669 roubos de veículos. Destes, os bairros Mathias Velho e Harmonia concentram 8,7% dos furtos de veículos e 10,3% dos roubos de veículos. Os eventos em que foi possível o georreferenciamento, ou seja, aqueles em que contávamos com endereço e número das ocorrências e/ou alguma referência em que fosse possível a localização, mostra que não há um padrão de distribuição das ocorrências no bairro, não sendo possível delimitar uma área crítica para estes registros. 4.1.1 CÂMERAS EM PRÓPRIOS MUNICIPAIS Dos próprios municipais, 31 deles tem câmeras de Circuito Fechado de TV (CFTV). Destas, 17 são em escolas, sendo que 6 delas, ou seja, quase ⅓ das unidades de ensino que são contempladas com essa tecnologia estão nos bairros Mathias Velho e Harmonia. 4.2 ALARMES EM PRÓPRIOS MUNICIPAIS Das 197 instalações de alarmes em próprios municipais, 31 estão localizadas nos bairros Mathias Velho e Harmonia, ou seja, 15,7% do total da cidade. Tais alarmes são distribuídos em escolas de Educação e Infantil e Ensino Fundamental, em 6 Unidades Básicas de Saúde (UBS), 1 na unidade de Pavimentação, 1 no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e 1 em um dos Pontos Populares de Trabalho. 46 4.3 DENÚNCIAS E SOLICITAÇÕES ADVINDAS DO SISTEMA DE PARTICIPAÇÃO As denúncias sistematizadas pelo Observatório vem através do Sistema de Participação Popular Municipal, conforme explicitação na metodologia. Para esse estudo, analisamos as solicitações recebidas no período de janeiro de 2009 a agosto de 2011 que se referiam diretamente à segurança (não entraram aqui as reivindicações por melhorias na iluminação pública, por exemplo). Para o município de Canoas constaram 424 solicitações, e para os bairros Mathias Velho e Harmonia foram recebidas 91, sendo o segundo e o quarto bairro, respectivamente, com maior número de solicitações da cidade. Das 91 solicitações, somente foi possível o georreferenciamento de 17 (Figura 9) que se referiam a locais específicos e/ou que tinham a possibilidade de georreferenciamento18. Das informações não georreferenciadas muitas não indicavam um local específico, tendo um caráter mais genérico, como reivindicações de mais segurança para o bairro. 18 Para ser possível o georreferenciamento é necessário o endereço e número do local ou alguma informação que o indique. 47 Figura 9: Denúncias e solicitações advindas dos Sistemas de Participação. Alguns destaques foram observados ponderando a quantidade de solicitações nos dois bairros pelo total de solicitações do município. Houve 217 demandas genéricas por mais segurança na cidade, sendo que 47 (21,7%) localizaram-se nos bairros Mathias Velho e Harmonia. Com relação ao roubo foram 48 solicitações em Canoas e 9 (18,75%) nos dois bairros. No que tange o roubo/furto/arrombamento de veículos foram 17 solicitações no município e somente 1 (5,9%) nos bairros Mathias Velho e Harmonia. As solicitações relacionadas ao “tráfico de drogas” apresentaram 49 casos no município, destes 13 (26,5%) foram nos dois bairros. Outro dado com valor elevado nos dois bairros foi o referente ao “uso de drogas”, sendo 48 no município e 10 (20,8%) nos bairros Mathias Velho e Harmonia. Comércio de armas e desmanche de carro apresentaram um caso na cidade, justamente na área dos dois bairros. 48 A demanda por câmeras de videomonitoramento foi baixa, das 18 do município somente 2 (11,1%) foram nos bairros Mathias Velho e Harmonia. As solicitações acima descritas revelam uma maior demanda da área que compreende os bairros Mathias Velho e Harmonia no que se refere aos crimes relacionados às drogas. Junto a isso os bairros também apresentaram uma demanda maior por segurança, dita de forma genérica, se comparados ao resto da cidade. 4.4 PLANTÃO INTEGRADO DE FISCALIZAÇÃO (PIF) Analisando as visitas do Plantão por bairro notamos que Mathias Velho e Harmonia foram o segundo e terceiro bairros com o maior número de fiscalizações no período de análise - 13 meses -, apresentando 37 e 35 visitas, respectivamente (Figura 10). Das cinco situações de tráfico de drogas identificadas no PIF, três foram nos bairros Harmonia e Mathias. Destas uma foi na vila Santo Operário, local que também recebeu denúncias para esse tipo de atividade ilegal, o que corrobora a importância da participação popular e da metodologia de realização dos PIFs impulsionadas por essas demandas. (Figura 11). 49 Figura 10: Plantão Integrado de Fiscalização com os bairros mais visitados. Figura 11: Locais visitados pelo Plantão Integrado de Fiscalização. 50 4.5 BOLETINS DE ATENDIMENTO E REGISTROS DE OCORRÊNCIAS ADMINISTRATIVAS Nestes bairros, percebe-se que o trabalho realizado pela Guarda Municipal atrelou-se a equipamentos públicos, principalmente, de ensino, o que indica um trabalho mais preventivo junto às escolas, possibilitando estar no momento de muitos conflitos registrados por eles - o que pode impactar a médio ou longo prazo na diminuição das taxas de abandono escolar e na diminuição das situações graves de violência entre eles - envolvendo os “bondes”, o tráfico de drogas e uso/porte de instrumento de risco. (Figura 12). Nota-se que a Guarda Municipal vem exercendo funções muito ligadas às práticas de suspeição no extramuro escolar, ou seja, pessoas em comportamento suspeito, não-alunos das escolas, são comumente abordados pelos guardas, o que pode evitar maiores transtornos, ligado à ações de prevenção secundárias. Conforme pesquisas recentes, municípios nos quais possuem Guarda Municipal atuantes e estruturadas tem um impacto maior na redução da criminalidade. 51 Figura 12: Relação dos Boletins de Atendimento e Registros de Ocorrências Administrativas com os Recursos Institucionais. 52 5. EQUIPAMENTOS DE USO COLETIVO Figura 13: Equipamentos de uso coletivo nos bairros Mathias Velho e Harmonia. Os equipamentos compreendem os locais dos serviços oferecidos para a população, dividos no bairro Mathias Velho em Segurança: delegacia; Saúde: unidades básicas de saúde, hospital, ambulatório, unidade de prontoatendimento; Praças e parques; Esporte, Cultura e Lazer: entidades culturais, tradicionalistas, carnavalescas, bibliotecas, clubes, monumentos, prédios tombados, quadras de esportes, rádios comunitárias; Escolas; Entidades de Assitência Social: Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), albergues, associações, abrigos, asilos; Associações: associações de moradores; Administrativo: outros próprios municipais, como secretarias, casa de bombas, depósitos. (Figura 13). De modo geral, os dois bairros apresentam uma diversificação grande de equipamentos. Entretanto, algumas áreas específicas são carentes de 53 equipamentos administrados pelo setor público, a destacar o extremo oeste dos dois bairros (Vila Getúlio Vargas, Vila Bom Sucesso e parte da Vila Natal). Quanto à existência de equipamentos de ensino, percebe-se que esta mesma área cujo número de residentes entre 12 e 24 anos é bem acima da média do município (já explicitada na Figura 6) não possui estabelecimentos de ensino. O estabelecimento mais próximo é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Odette Yolanda Freitas onde também há Educação de Jovens e Adultos - EJA. 54