A INFLUÊNCIA DAS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DO TERRITÓRIO NA MORFOLOGIA URBANA. CONTRIBUIÇÃO PARA UMA ANÁLISE DA FORMA URBANA NO CONCELHO DE LISBOA Nádia Cristina da Costa Lopes Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Civil Júri Presidente: José Alvaro Pereira Antunes Ferreira Vogal: Jorge Manuel Gonçalves Vogal: Pedro Filipe Pinheiro de Serpa Brandão Orientador: António Salvador de Matos Ricardo da Costa Outubro 2009 i Agradecimentos Ao Arquitecto António Costa pela disponibilidade e ajuda prestada no âmbito da Dissertação. Aos meus amigos, em especial ao Alexandre Amado, João Ferreira, Paulo Cambra e Tiago Leitão, pela colaboração e apoio nas horas mais desesperadas. À minha família, em especial ao meu Pai, pela preocupação e disponibilidade demonstrada. ii Resumo O estudo da influência das características físicas do território na morfologia urbana, contribuição para uma análise da forma urbana no concelho de Lisboa, pressupôs a análise da cartografia produzida segundo o Método de McHarg, aplicado ao uso do solo edificação, à escala 1:10000 e Planimetria da zona. O Método de McHarg consiste na representação da área de estudo através de cartografia temática, e da sua classificação em termos dos constrangimentos ou benefícios que os valores naturais assinalados - fisiografia - representam para a edificação. Esta classificação coincide com a determinação da Aptidão do território à Edificação. Procedeu-se à análise global e detalhada de Lisboa. A análise detalhada incidiu sobre bairros da cidade de morfologias urbanas distintas inseridos em zonas de características fisiográficas também distintas. Da análise global concluiu-se uma vez mais que a ocupação de Lisboa foi fortemente influenciada pela morfologia do terreno: os vales são linhas de tráfego, cujas encostas têm geralmente forte densidade de construção. Da análise detalhada concluiu-se que a morfologia do terreno é também factor determinante na organização dos bairros e quarteirões: zonas de terreno muito acidentado com construção geralmente disposta em malha linear; zonas de terreno pouco acidentado com construção geralmente disposta em malha reticulada regular/irregular ou em malha livre. iii Abstrat The study of the influence of physical planning in urban morphology, contributing to an analysis of urban form in the municipality of Lisbon, comprehended the analysis of cartography produced according to the McHargh method, applied to the land use edification and the study area Planimetry, in a 1:10000 scale. The McHargh method consists in a representation of the study area using thematic cartography and its classification in terms of constraints or benefits that the highlighted natural values physiography - represent for edification. This classification coincides with the ascertainment of the ecological aptitude for edification. A global and detailed analysis of Lisbon was made and this focused on neighbourhoods in town that presented distinct urban morphologies and were, in turn, inserted in areas of different physiographic characteristics. From the global analysis it could be concluded once more that the occupation of Lisbon was strongly influenced by the morphology of the terrain: valleys are lines of traffic whose slopes generally have strong construction density. From the detailed analysis it could be concluded, in turn, that the terrain morphology is also a determinant factor in the organization of neighbourhoods, blocks and quarters: areas of rugged terrain generally possess construction oriented according to a linear mesh; areas of flatter terrain possess a construction generally oriented according to a reticulated mesh of regular or irregular nature or even a freely oriented mesh. iv Índice Introdução .............................................................................................................................................. 1 Parte I ...................................................................................................................................................... 8 1 Fisiografia e Paisagem ................................................................................................................ 10 1.1 Relevo, Exposição Solar e Morfologia do Terreno .............................................................. 11 1.1.1 Relevo ...................................................................................................................................... 11 1.1.2 Exposição Solar do Terreno .................................................................................................. 13 1.1.3 Morfologia do Terreno ........................................................................................................... 15 2 Metodologia de definição da Aptidão Ecológica á Edificação - O Método de McHarg ........ 21 2.1 Aptidão Ecológica à Edificação ............................................................................................ 22 2.2 Determinação da Carta de Aptidão Ecológica á Edificação no Concelho de Lisboa ..... 23 2.2.2 Carta Hipsométrica (Modelo Digital do Terreno)...................................................... 24 2.2.3 Cartas Temáticas ......................................................................................................... 25 Carta Hidrográfica ....................................................................................................................... 25 Carta de Declives ......................................................................................................................... 26 Carta de Exposições Solares ..................................................................................................... 27 2.2.4 Carta de Aptidão Ecológica à Edificação .................................................................. 29 Parte II ............................................................................................................................................... 31 3 O desenvolvimento urbano de Lisboa ...................................................................................... 32 3.1 Da ocupação romana à invasão árabe ................................................................................. 32 3.2 Os padrões muçulmano e medieval ..................................................................................... 33 3.3 Os primeiros aterros, a Lisboa das descobertas ................................................................ 34 3.4 A reconstrução da Baixa, uma malha reticulada para uma área quase plana ................. 34 3.5 A implantação da indústria nas áreas de vale .................................................................... 35 3.6 As zonas planálticas e o plano das Avenidas Novas ......................................................... 36 3.7 O Plano De Gröer, espaços verdes em zonas declivosas ................................................. 36 3.8 Considerações finais ............................................................................................................. 38 Parte III .................................................................................................................................................. 39 4 Análise de Bairros de Lisboa ..................................................................................................... 40 4.1 Avenidas Novas ...................................................................................................................... 40 v 4.2 Bairro Alto ............................................................................................................................... 43 4.3 Baixa ........................................................................................................................................ 48 4.4 Benfica ..................................................................................................................................... 54 4.5 Campolide ............................................................................................................................... 57 4.6 Chelas ...................................................................................................................................... 60 4.7 Costa do Castelo .................................................................................................................... 63 4.8 Encarnação ............................................................................................................................. 67 Conclusão ............................................................................................................................................ 72 Bibliografia ........................................................................................................................................... 75 Anexos .................................................................................................................................................. 77 vi Lista de Quadros Quadro 1: Classes de declives de referência [Fonte: Loid Engenharia, 2004] ..................................... 13 Quadro 2: Usos compatíveis ou preferenciais para cada situação ecológica [Fonte: Levy, 2003] ...... 20 Quadro 3: Método de McHarg [Fonte: Levy, 2003] ............................................................................... 21 Quadro 4: Classes de Aptidão Ecológica à Edificação ......................................................................... 23 Quadro 5: Classes de declives .............................................................................................................. 26 Quadro 6: Classes de exposições solares ............................................................................................ 27 Lista de Figuras Figura 1: Vista aérea da cidade de Lisboa [Fonte: Atlas Urbanístico de Lisboa, 2006, pág: 6] ........... 10 Figura 2: Escadas vencem declive acentuado para circulação de peões [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 11 Figura 3: Percurso de distribuição e de recolha de sedimentos e água [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 12 Figura 4: Processo de infiltração, escorrimento e drenagem de duas encostas com ocupações diferentes [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] ............. 12 Figura 5: Orientação do terreno aos quadrantes geográficos [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 14 Figura 6: Arquitectura bioclimática [Fonte: www.construible.es/images/news/060116_Fujy_Fachadasur.jpg] ....................................................... 14 Figura 7: Radiação recebida pelas encostas Este e Oeste ao longo do dia [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 15 Figura 8: Perfil esquemático das diferentes situações morfológicas [Fonte: Magalhães, Mª; Silva, A; Cunha, Natália; Campo, Sofia, 2001, pág: 35] ...................................................................................... 16 Figura 9: Implicações de diferentes usos do solo [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 18 Figura 10: Armação do terreno em socalcos [Fonte: www.ivdp.pt/pagina.asp?codPag=17&codSeccao=4&idioma=0#b] ..................................................... 19 Figura 11: Sobreposição dos temas Limite de Lisboa e Altimetria ....................................................... 24 Figura 12: Modelo Digital do Terreno .................................................................................................... 25 Figura 13: Carta de Declives ................................................................................................................. 27 Figura 14: Ilustração das classes de exposições solares ..................................................................... 28 Figura 15: Cartas de Exposições Solares ............................................................................................. 28 vii Figura 16: Carta de Aptidão à Edificação.............................................................................................. 29 Figura 17: “Antigo braço do Tejo”, que irrompe pelo vale da Baixa, e “os seus dois ramais”, correspondentes às Avenidas da Liberdade e Almirante Reis [Fonte: Levy, 2003] ............................. 32 Figura 18: Reconstituição da Cerca Moura e da Muralha Fernandina [Fonte: Moita, 1994] ................ 33 Figura 19: Lisboa no final do século XVI [Fonte: Barreiros, 2001] ........................................................ 34 Figura 20: À esquerda, planta de reconstrução pombalina; à direita, vista aérea sobre a zona de reconstrução pombalina [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] ...................................................................................................................................................... 35 Figura 21: No canto superior esquerdo, plano de urbanização de Olivais Sul [Fonte: Barreiros, 2001]; no canto superior direito, vista aérea de Olivais Sul [Fonte: Moita, 1994]; no canto inferior esquerdo, vista aérea de Chelas; no canto inferior direito, plano de urbanização de Chelas [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008]........................................... 37 Figura 22: Avenidas Novas [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl]....................................... 40 Figura 23: Avenida Fontes Pereira de Melo .......................................................................................... 41 Figura 24: Declives e exposições solares ............................................................................................. 41 Figura 25: MDT e linhas de água e de cumeada .................................................................................. 42 Figura 26: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 42 Figura 27: Bairro Alto [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ................................................ 43 Figura 28: MDT e linhas de água e de cumeada .................................................................................. 44 Figura 29: Rua Dom Pedro V ................................................................................................................ 44 Figura 30: Rua da Atalaia ...................................................................................................................... 45 Figura 31: Arco da Rua da Academia das Ciências ............................................................................. 45 Figura 32: Declives ................................................................................................................................ 46 Figura 33: Praças em zona de declives superiores a 25% ................................................................... 46 Figura 34: Exposição solar na envolvente do limite Sul do bairro ........................................................ 47 Figura 35: Rua que sobe em direcção ao limite Sul do bairro .............................................................. 47 Figura 36: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 48 Figura 37: Baixa [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ........................................................ 48 Figura 38: Exposições solares, MDT e linhas de água e de cumeada ................................................. 49 Figura 39: Rua Augusta......................................................................................................................... 50 Figura 40: Declives na envolvente do limite Este do bairro .................................................................. 50 Figura 41: Limite Este do bairro ............................................................................................................ 51 Figura 42: Declives e MDT na envolvente do limite Oeste do bairro .................................................... 52 viii Figura 43: Limite inferior esquerdo do bairro - Calçada Nova de São Francisco ................................. 52 Figura 44: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 53 Figura 45: Escadinhas da Rua de Santa Justa ..................................................................................... 53 Figura 46: Benfica [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ..................................................... 54 Figura 47: Declives, MDT e linhas de água e de cumeada .................................................................. 55 Figura 48: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 55 Figura 49: Rua dos Arneiros ................................................................................................................. 56 Figura 50: Exposições solares .............................................................................................................. 56 Figura 51: Bairro da Calçada dos Mestres [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ............... 57 Figura 52: MDT, linhas de água e de cumeada e curvas de nível de 10 em 10m................................ 57 Figura 53: Acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações........................................ 58 Figura 54: Acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações, Rua 7 (continuação) ..... 58 Figura 55: Declives ................................................................................................................................ 59 Figura 56: Exposições solares .............................................................................................................. 59 Figura 57: Chelas [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ..................................................... 60 Figura 58: MDT, linhas de água e de cumeada e declives ................................................................... 60 Figura 59: Avenida Mal. António de Spínola ......................................................................................... 61 Figura 60: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 61 Figura 61: Rua Manuel Teixeira Gomes ............................................................................................... 62 Figura 62: Exposições solares .............................................................................................................. 62 Figura 63: Costa do Castelo [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] ..................................... 63 Figura 64: Declives ................................................................................................................................ 64 Figura 65: Rua Norberto de Araújo ....................................................................................................... 64 Figura 66: MDT e linhas de água e de cumeada .................................................................................. 65 Figura 67: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 66 Figura 68: Rua de Augusto Rosa .......................................................................................................... 66 Figura 69: Exposições solares .............................................................................................................. 67 Figura 70: Bairro da Encarnação [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] .............................. 67 Figura 71: Alameda da Encarnação ...................................................................................................... 68 Figura 72: Declives na envolvente dos limites Sudoeste e Sul do bairro ............................................. 68 ix Figura 73: Rua da Portela ..................................................................................................................... 69 Figura 74: MDT e linhas de água e de cumeada .................................................................................. 69 Figura 75: Curvas de nível de 10 em 10m ............................................................................................ 70 Figura 76: Transição da Rua dos Eucaliptos para a Rua da Portela .................................................... 70 Figura 77: Exposições solares .............................................................................................................. 71 x Introdução Objecto do trabalho O presente trabalho pretende estudar a influência das características físicas do território na morfologia urbana, contribuição para uma análise da forma urbana no concelho de Lisboa. É objectivo específico a descoberta de relações de causa e efeito entre a presença de factores fisiográficos determinados e as características do desenho urbano de pormenor da cidade. Objectivos específicos e hipóteses a testar A ideia será pois, verificar se as relações entre a fisiografia e a forma urbana se poderão considerar directas ou seja, se é evidente a relação entre uma ocorrência fisiográfica, por exemplo uma linha de água, e a forma de um quarteirão ou o traçado de uma rua, ou se, estas relações ocorrem de modo indirecto, ou seja, se a predefinição fisiográfica se consubstancia na forma urbana de modo subtil, indirecto ou subliminar. Sendo evidente, que as duas hipóteses acima enunciadas, não são únicas, sendo óbvio que é possível uma gama alargada de relações que poderão não ser, nem directas, nem subliminares, propõe-se este trabalho uma reflexão sobre a natureza e grau de influência das constantes fisiográficas no desenho e na forma urbana. Estrutura da Dissertação Este trabalho está dividido em três partes. A Parte I constitui uma introdução teórica á metodologia de análise fisiográfica a qual permite estudar o território concelhio de Lisboa nas vertentes do relevo (altimetria e declive) e da exposição solar. Partindo dos resultados definidos na Parte I, traduzidos já em cartografia, procede-se, na Parte II, á análise da evolução urbana de Lisboa na sua relação com as constantes fisiográficas estudadas. Na Parte III figura o contributo mais original ao desenvolvimento desta matéria, na medida em que se estudam detalhadamente as repercussões dos factores fisiográficos mencionados no desenho urbano da cidade de Lisboa. Esta análise, feita à escala do quarteirão, da rua e do bairro, resulta da análise em planta e no terreno da forma urbana. É assim objectivo deste trabalho o estabelecimento de relações mais ou menos explicitas entre os factores fisiográficos estudados e o desenho urbano de pormenor. Métodos e Técnicas Utilizados Na Parte I deste trabalho utilizou-se o Método de McHarg como forma de classificação das áreas de estudo em termos de Aptidão á Edificação. A definição desta Aptidão á Edificação traduz os constrangimentos ou benefícios que os valores naturais assinalados representam para a edificação e urbanização e constitui portanto um primeiro passo para a consecução da análise que aqui é proposta. Na Parte II a comparação e análise sistemática da cartografia obtida na Parte I, com a cartografia de Lisboa na actualidade, permitirá uma análise das morfologias urbanas presentes no conselho de Lisboa quanto às suas relações com as constantes fisiográficas. Esta comparação é feita através da sobreposição da cartografia obtida na Parte I, onde está patente a informação relativa à Aptidão Edificatória, com a cartografia da cidade. 1 Na medida em que existe o pressuposto de que a intensidade das relações entre fisiografia e forma urbana varia com o tempo histórico, já que se supõe que os tecidos mais antigos estabelecem relações mais ricas com a fisiografia, estabelecem-se, a partir das conclusões desta análise as áreas de estudo a estudar na terceira parte. Estas deverão representar diversos tempos históricos que permitam aferir desta “hipótese”. A avaliação e caracterização da intensidade e natureza das relações em análise far-se-á através do estudo de áreas específicas da cidade. Os critérios para a definição e delimitação destas áreas de estudo serão: a sua identidade enquanto áreas ou bairros já definidos, a sua homogeneidade tipomorfológica e a cronologia da sua génese. Estado da arte Atlas Urbanístico de Lisboa, informa sobre quantidades e qualidades dos bairros de Lisboa. Procura-se perceber como diferentes disposições das áreas de construções e espaços residenciais relativamente homogéneas e, por isso, reconhecidas como “bairros”, de diferentes épocas e composições sociais, ocupam o solo contido nos perímetros escolhidos. Comparam-se as diferenças qualitativas das arquitecturas urbanas que se foram sucedendo, com tipos de edifícios e volumetrias variáveis e, sobretudo, tipos diferentes de espaços colectivos que os servem e separam. Vectores que, para serem comparáveis, descrevem os espaços físicos e não as pessoas ou actividades que no momento presente as ocupem. Trata-se, portanto, de um estudo comparado de modelos “físicos” que, em distintas épocas, procuraram relacionar a disposição e a arquitectura dos edifícios bem como os tipos de espaços urbanos não edificados, públicos ou privados, que os suportam ou servem. O desafio que sugere é o de comparar para perceber, procurando entender o que foi variando e o que foi permanecendo. Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, sintetiza a História de Lisboa. O núcleo urbano começa-se a desenvolver no período fenício, a partir do século VIII a. c. No período romano, na zona baixa, em torno do esteiro e na ribeira do Tejo, desenvolve-se a cidade industrial e comercial, enquanto na encosta da colina se instala a cidade social e administrativa. No período manuelino irá ter lugar a mais importante intervenção urbanística em Lisboa. Aplainado o terreno da praia, traça-se nele uma nova praça, Terreiro do Paço, respeitando até aos dias de hoje o lugar por excelência do poder político, afirmação de capitalidade que transborda em muito os limites estritos da própria cidade. A realização da obra notável do Aqueduto das Águas Livres, veio permitir um melhor aproveitamento da zona ocidental, até então falha de água. Com o terramoto de 1755, sob a direcção de Manuel da Maia, o corpo de engenheiros militares tomou em mãos a tarefa de pensar a nova cidade, à luz de critérios racionais, baseados numa funcionalidade pragmática e numa uniformização algo utópica do tecido urbano. À margem da reconstrução oficial, sobretudo sensível na zona central da cidade, uma outra cidade ia nascendo na periferia. Assim, como consequência directa do terramoto, o perímetro urbano de Lisboa aumentou desmesuradamente, alargando os limites da cidade num ritmo acelerado, sobretudo na sua vertente ocidental. No período oitocentista dá-se a penetração urbanística para o interior (Avenidas Novas), isto é para norte, no seguimento da abertura da Avenida da Liberdade 2 (1879), contrariando fortemente a tradição evolutiva do urbanismo da cidade, até aí condicionado pelo crescimento ao longo do rio. No que respeita à rede viária, são sobretudo relevantes as linhas de saída para as zonas envolventes quer a norte quer a nascente e poente, pois elas irão ser, ao longo dos séculos, os eixos de crescimento da cidade. Carta de Aptidão Ecológica à Edificação para o Concelho de Lisboa, pretende-se elaborar a Carta de Aptidão ecológica à edificação para o Concelho de Lisboa. A metodologia utilizada constitui um desenvolvimento do Método de McHarg, aplicado a um único uso do solo – a edificação. O concelho de Lisboa encontra-se extensamente urbanizado, pelo que a análise temática se centra em preocupações relativas à carência de espaços verdes, à regulação do balanço hídrico e ao conforto bioclimático. Assume-se como objectivo a automatização do processo, nomeadamente no que respeita à obtenção da Carta de Morfologia do Terreno, e ao cálculo de Radiação solar recebida em cada local do concelho. A Carta de Aptidão obtida indica que o concelho poderia suportar uma densidade de ocupação semelhante à que hoje existe, sem comprometer a estrutura ecológica urbana. Lisboa, Conhecer; Pensar; Fazer; Cidade, acompanha o percurso que, da forma urbana da cidade tradicional, chega à realidade múltipla e complexa da cidade contemporânea, assinalando, a cada passo, os traços mais significativos do urbanismo de Lisboa. Começa-se por recordar a modernidade das regras e das métricas da cidade dos Descobrimentos, as marcas, no tecido urbano, dos cenários que a Lisboa barroca projectou, ou da competência dos urbanistas pombalinos, como da invenção burguesa da estética e do conforto urbanos. Vem depois a Lisboa viária e industrial da transição para o século XX, com o plano das Avenidas, que levará a cidade do Rossio ao Campo Grande. A Actualização celebrativa e febril dos instrumentos de planeamento, as infraestruturas do tráfego urbano, os “bairros económicos” marcam a capital do Estado Novo - que também legou o primeiro plano director de Lisboa e o seu primeiro plano integrado, o bairro de Alvalade. Com Olivais, Lisboa internacionaliza-se e adere aos princípios urbanísticos do Movimento Moderno. Chelas é o compromisso entre a Carta de Atenas do urbanismo e o regresso à cidade linear. Um novo ciclio da história do país e do entendimento do urbano começa a partir de 1974. Pólo de uma vasta área metropolitana, Lisboa, os seus agentes e planeadores devem responder sucessivamente - às vezes, simultaneamente - aos desafios da habitação digna para todos, de uma infraestruturação urbana actualizada, da qualificação da cidade existente e do regresso à cidade histórica, da integração das comunidades imigrantes e dos excluídos das sociedades de hoje. O século XX culmina com a realização de Exposição Mundial de 1998, projecto colectivo em que Lisboa e o país se reviram, e mote para a requalificação e integração, na cidade, de uma vasta área votada ao único uso industrial, pelos zonamentos do meio do século. Emergiram, com o megaprojecto Expo 98, as potencialidades da imagem virtual e das tecnologias multimédia, que parecem ter aberto caminho a um novo urbanismo interactivo, de envolvimento efectivo da comunidade nas grandes decisões sobre a Lisboa do futuro. 3 Lisboa em Mapas – Informação Geo-Referenciada, os sistemas de informação geográfica permitem à Câmara Municipal de Lisboa tratar, de forma integrada, a informação de base e temática da cidade. Além das vantagens, em termos de rapidez e eficiência, que estes sistemas trazem ao planeamento e gestão municipais, eles facilitam a compilação, organização e difusão de informação com interesse para o público. A publicação Lisboa em Mapas, desenvolvida em conjunto com o departamento de geografia e planeamento regional da Universidade Nova de Lisboa, pretende ser um instrumento de acesso simples a essa informação. Trata-se de um atlas de formato versátil, vocacionado para diferentes tipos de utilizadores, pretendendo divulgar a vasta informação geográfica disponibilizada pela Câmara Municipal de Lisboa em diferentes escalas e suportes. A estrutura interna de Lisboa em Mapas apresenta uma sequência clássica de caracterização geográfica: inicia-se com os aspectos de localização e de enquadramento regional e administrativo; passa pelas características físicas, demográficas, habitacionais, de infra-estruturas, equipamentos e património; termina com um conjunto de mapas relacionados com a gestão e o planeamento urbanos. Lisboa - Morfologias Urbanas 1850 - 1950, estudo elaborado no quadro dos trabalhos sectoriais desenvolvidos para o Plano Director Municipal. O seu ponto de partida foi a inventariação das áreas morfologicamente consistentes produzidas em Lisboa na transição dos séculos XIX - XX. A análise das morfologias assenta no período entre 1850 e 1950, quando a quantidade dos novos bairros, bem como a sua regularidade, geometria ou modulação significou a construção de vastas áreas novas da cidade, claramente identificáveis. A análise assenta numa base de dados cartografados, referida nos indicadores toponímicos (designação) e de mensuração (medidas de arruamentos, de lote, de quarteirão). O principal objectivo prático deste trabalho é servir como documento operativo para quaisquer regulamentações, intervenç~es planeadas e controle de obras pontuais ou parcelares. Um escalonamento cronológico determina as várias etapas consideradas significativas da evolução da construção de bairros: 1850 - 1875/90; 1875/90 - 1925; 1925 - 40; 1940 - 50/55. De forma complementar, estão referidos e mapados os tecidos anteriores a 1850, mas entrosados os novos tecidos; e também as vilas e bairros operários que atingiram dimensão urbanística significativa. Projecto de Ordenamento dos Terrenos Situados entre as Bacias Hidrográficas de São Francisco, Malhada e Moia Moia, visa responder as preocupações dos proponentes de um projecto turístico. A área do projecto localiza-se nas subbacias de São Francisco, Malhada e Moia Moia, na Ilha de Santiago, concelho de São Domingos e mais precisamente na Freguesia de Nossa Senhora da Luz a Leste do Monte dos Bodes, tendo como fronteira principal uma Zona de Desenvolvimento Turístico Integral. Por isso, o estudo foi direccionado para o ordenamento paisagístico centrado na Aptidão Ecológica do Território, tendo em conta por um lado o pressuposto de que as características ecológicas de cada área, potenciam ou limitam a implantação de diversas ocupações isto é, influenciam directamente o sucesso ou o insucesso de um determinado investimento e por outro, evitar intervenções incorrectas que chocariam com a Zona de Desenvolvimento Turístico Integral o 4 que poderia custar a sua inviabilização. Deste modo, este trabalho assume desde já um papel de suma importância pois que dá orientações precisas ao empreendedor cuja intenção é de investir no mercado turístico internacional na área de estudo e identificando nas cartas em anexo as potencialidades e limitações. Para o efeito, foi tido em conta factores de ordem económica, social e obviamente os de natureza ecológica numa perspectiva de planeamento e gestão sustentável do território. E assim, dois conceitos serviram de base para a delimitação das áreas edificáveis e não edificáveis. Está-se a falar de Estrutura Ecológica Fundamental e da Estrutura Ecológica Secundária. Em termos metodológicos, foram realizadas visitas de campo e construiu-se um sistema de informação geográfica em suportes informáticos, visando a angariação de informações e produção de cartografias, os quais vieram a permitir a delimitação e análise qualitativa das diferentes componentes da paisagem que constituem partes integrantes daquelas estruturas. Destas análises chegou-se à determinação da Aptidão Ecológica à Edificação, resultado da avaliação dos diversos processos ecológicos, que ocorrem na região, com as necessidades sociais e desenvolvimento económico a nível local e nacional. A Aptidão Ecológica à Edificação, um dos objectivos consistiu no desenvolvimento de uma metodologia de determinação da Carta de Aptidão à Edificação, considerando alguns parâmetros significativos para a caracterização biofísica do caso de estudo. A metodologia utilizada é baseada no método de McHarg, mas aplicada a uma única Aptidão - a edificação - com alguns refinamentos, nomeadamente no que diz respeito à introdução da morfologia do terreno como indicador da espacialização dos processos ecológicos, no território. São considerados como factores indicadores dos processos naturais ou ecológicos: o relevo, a hidrografia e a exposição das superfícies ao sol. Cada um destes factores origina, respectivamente, a Carta de Declives, a Carta Hidrográfica e a Carta de Exposições. As classes de valores seleccionadas para cada factor foram direccionadas para a análise da influência deste factor sobre a edificação. Outro dos objectivos foi a comparação da informação dada pela Carta de Aptidão com os dados planimétricos referentes à área em estudo. Assim, foi possível comparar a sua informação com a edificação já existente no local e extrair algumas conclusões. Delimitação da Estrutura Ecológica Municipal de Loures, consiste na delimitação da Estrutura Ecológica Municipal do Concelho de Loures apoiada num Sistema de Informação Geográfica (SIG). A Estrutura Ecológica Municipal representa uma figura de ordenamento do território integrada no Plano Director Municipal, cuja implantação se revela fundamental para a concretização dos pressupostos de desenvolvimento sustentável e para a melhoria da qualidade de vida das populações. A implementação de um SIG no âmbito do trabalho tem como objectivo dispor de um instrumento de análise, que complemente os métodos usualmente utilizados em planeamento, em particular no que se refere ao processo de delimitação das figuras de ordenamento que compõem a Estrutura Ecológica Municipal. Entre estas destacam-se a morfologia do terreno (sistemas húmidos e cabeços), as áreas de máxima infiltração, os riscos de erosão geológica e as áreas de protecção às cabeceiras. 5 Neste contexto propõem-se metodologias de análise espacial da Paisagem com vista à utilização de métodos computacionais que permitam concretizar uma diferente atitude relativamente ao ordenamento do território, conciliando a necessidade de utilização dos recursos naturais com a sustentabilidade futura dos mesmos. O Livro de Lisboa, “constrói” uma síntese sólida, competente e rigorosa da História de uma capital mais antiga que a própria nacionalidade. A partir do século VIII a. c., no período fenício, começa-se a desenvolver o núcleo urbano de Lisboa. No período romano, na zona baixa, em torno do esteiro e na ribeira do Tejo, desenvolve-se a cidade industrial e comercial, enquanto na encosta da colina se instala a cidade social e administrativa. A muralha envolvente, a Cerca Velha, iniciada no período das invasões bárbaras (século IV e V), irá deixar de fora do seu perímetro toda a zona baixa, junto do rio e do esteiro. A cidade extravasava em muito esses limites amuralhados, com um vasto arrabalde a poente ao longo do esteiro, a actual Baixa, outro a nascente, Alfama, e outro a norte, a Mouraria, todos situados extramuros. A Cerca Fernandina abrange um novo perímetro urbano, transformando de facto a Baixa em ponto central entre as duas colinas, a colina do Castelo e a colina de São Francisco ou dos Mártires, que já então se equivalem na área urbanizada. No período manuelino, aplainado o terreno da praia, traça-se nele uma nova praça, Terreiro do Paço, representando até aos dias de hoje o lugar por excelência do poder político, afirmação de capitalidade que transborda em muito os limites estritos da própria cidade. Esta há muito exorbitara os limites da Cerca Fernandina, e a melhor consciência desse facto consiste no processo de criação das novas freguesias, durante os séculos XVI e XVII. O crescimento empírico, em especial na correnteza das vias estiradas ao longo do rio, numa contínua ocupação espacial em que os conventos e as casas nobres aristocráticas tiveram sempre um carácter pioneiro. Universo empírico, desenvolvido ao longo dos tempos mais ao sabor das necessidades do que de qualquer visão global planeada, que chegou ao terramoto de 1755. Com este, sob a direcção de Manuel da Maia, o corpo de engenheiros militares tomou em mãos a tarefa de pensar a nova cidade, à luz de critérios racionais, baseados numa funcionalidade pragmática e numa uniformização algo utópica do tecido urbano. À margem da reconstrução oficial, sobretudo sensível na zona central da cidade (Baixa, Chiado, São Paulo), obedecendo às directrizes rígidas emanadas da Sala do Risco, uma outra cidade ia nascendo na periferia. Alguns particulares e casas religiosas, detentores de quintas de recreio ou das grandes cercas conventuais, urbanizaram rapidamente logo em seguida ao terramoto, fornecendo a uma população carente e sem grandes exigências as casas de que necessitavam. Portanto, como consequência directa do terramoto, o perímetro urbano de Lisboa aumentou desmesuradamente, alargando os limites da cidade num ritmo acelerado, sobretudo na sua vertente ocidental, em direcção a Alcântara. Pela primeira vez, a planta de Lisboa abrange áreas como Alcântara, Junqueira e Belém, até então meros arrabaldes, já perfeitamente integrados na unidade urbana. Assim, o perímetro abrangido é quase o actual. Apesar de serem já sensíveis algumas ocupações em direcção a norte, sobretudo em manchas consolidadas em torno das principais vias antigas de penetração - as estradas de Benfica ou de Campolide -, a verdade é que a cidade ainda mantém, nas suas linhas gerais, a sua configuração tradicional de dependência funcional da linha ribeirinha. Convirá chamar a atenção para a abertura da chamada 6 Estrada de Circunvalação (1ª circular), que irá delimitar até tempos mais recentes o perímetro da cidade. Em certa medida a Estada de Circunvalação anuncia, nos anos 50 do século XIX, as novas linhas de crescimento da cidade moderna, vindo a ser o processo de abertura da Avenida da Liberdade como um corolário natural da ocupação urbana da vasta área nela contida. 7 Parte I A Parte I do trabalho constitui, tal como referido anteriormente, uma introdução teórica à metodologia de análise fisiográfica que permite o estudo do território concelhio de Lisboa nas vertentes do relevo (altimetria e declive) e da exposição solar, para que posteriormente, se estabeleça uma relação entre os factores fisiográficos mencionados e a morfologia urbana da cidade. Este estudo pressupõe a definição da Aptidão Ecológica á Edificação. Salientar que a análise é imprescindível para a compreensão da evolução urbana de Lisboa e da análise detalhada do desenho urbano da cidade a ocorrer em determinadas áreas. São objectivos da Parte I: 1. O estudo, ainda que de forma sucinto, das dinâmicas de transformação da paisagem e sua relação com os diversos factores de análise fisiográfica; 2. A produção de cartografia à escala 1:10000 sobre os temas que permitem relacionar fisiografia e forma urbana: altimetria, declives e exposição solar; 3. A definição da Aptidão Ecológica á Edificação, que resulta da sobreposição cartográfica produzida. Assim, no Capítulo 1 da Parte I, Fisiografia e Paisagem, estuda-se de forma sucinta as dinâmicas de transformação da paisagem e sua relação com os factores fisiográficos em análise. No Capítulo 2, Metodologia de definição da Aptidão Ecológica à Edificação – o Método de McHarg, utiliza-se o Método de McHarg como forma de, a partir da construção da cartografia necessária, definir a Aptidão Ecológica á Edificação. Este método consiste na representação da área de estudo através de cartografia temática, e da sua classificação em termos dos constrangimentos ou benefícios que os valores naturais assinalados representam para a edificação. A aptidão à edificação resulta da sobreposição da cartografia produzida. O conceito Aptidão Ecológica pretende exprimir as diferentes potencialidades que as zonas da paisagem, de diferente funcionamento ecológico, oferecem à implantação das actividades humanas. A Aptidão do território, traduzida em critérios de ocupação pelas actividades humanas permite operacionalizar um planeamento de base ecológica, e racionalizar o processo de ocupação do solo. No meio urbano, onde é urgente a preservação do funcionamento ecológico da Paisagem, a Aptidão pode contribuir para a determinação da localização da estrutura ecológica urbana e da mancha edificada. São distinguidas três classes de Aptidão: inapto à edificação ou non aedificandi; medianamente apto à edificação e muito apto à edificação. A aptidão à edificação é então obtida dos factores fisiográficos: relevo, hidrografia, exposição das superfícies ao sol. A Morfologia do Terreno, indicativa da espacialização dos processos ecológicos no território, é implicitamente introduzida no decurso da definição da Aptidão Ecológica à Edificação. A Aptidão à Edificação sintetiza, de forma clara a informação necessária à compreensão da paisagem e ao planeamento em harmonia com os processos ecológicos. São diferenciadas situações 8 ecológicas - zonas de cabeço, zonas adjacentes às linhas de água, zonas de encosta - que representam diferentes preocupações ao nível da preservação do funcionamento ecológico da Paisagem, que devem ser avaliadas sob a perspectiva de Aptidão. Salientar a influência do relevo na determinação do escoamento ou acumulação da água dando também origem a diferenças nos microclimas de encosta. A orientação geográfica de cada parcela de terreno determina a quantidade de radiação solar recebida pelas encostas, influenciando assim o conforto da edificação. A edificação sobre locais pouco aptos, do ponto de vista do conforto bioclimático, acarreta custos económicos e ambientais incompatíveis com o desígnio da sustentabilidade. As áreas aptas e não aptas à edificação são identificadas aquando da definição da Aptidão Ecológica à Edificação, função dos factores avaliados. As áreas de condicionamento à Aptidão são particularmente aptas à implantação de espaços verdes, podendo constituir simultaneamente áreas de preservação dos processos naturais e a fonte de espaço verde nas metrópoles. 9 1 Fisiografia e Paisagem A Paisagem representa um sistema complexo em permanente transformação. Independentemente da escala de abordagem, é sempre possível encontrar evidências dessa transformação, que resulta de processos naturais e da actividade humana [Fonte: Magalhães, Mª; Silva A; Cunha, Natália; Campo, Sofia, 2001, pág: 4]. Antes de qualquer acção antrópica, são os agentes de erosão e transformação da natureza que operam mudanças constantes e criam a realidade geográfica sobre a qual se implantam as actividades humanas. A tectónica, a circulação do ar e da água e o clima, entre outros, são agentes de transformação permanentes das paisagens, destruindo e criando sucessões de realidades naturais, oferecendo a cada momento uma diferente Paisagem. A apropriação do território pelas actividades humanas constitui mais um nível de construção da Paisagem. Ao longo da história o Homem criou Paisagem operando sobre a natureza, com o objectivo de colmatar as suas necessidades de recursos, de segurança e de valores espirituais [Fonte: Magalhães, Mª; Silva A; Cunha, Natália; Campo, Sofia, 2001, pág: 8]. Em suma, em cada momento, são definidas características que determinam as qualidades, potencialidades e simultaneamente limitações e restrições da Paisagem. O carácter dinâmico da Paisagem, sobre o qual assenta a abordagem inicial, confronta directamente o conceito de identidade da Paisagem, apoiado na ideia de permanência e valorização de elementos e circunstâncias singulares, entendidos como determinantes para a manutenção da integridade da Paisagem, os quais se relacionam com uma ideia de imagem atemporal que caracteriza a realidade em questão e que a diferencia das restantes realidades [Fonte: Magalhães, Mª; Silva A; Cunha, Natália; Campo, Sofia, 2001, pág: 8]. A intervenção humana na Paisagem deverá conciliar os conceitos enunciados - dinâmica e permanência da Paisagem - de modo a que as inevitáveis transformações sejam conduzidas sem que se comprometa as características ecológicas e culturais que conferem singularidade a cada território. Figura 1: Vista aérea da cidade de Lisboa [Fonte: Atlas Urbanístico de Lisboa, 2006, pág: 6] 10 1.1 Relevo, Exposição Solar e Morfologia do Terreno 1.1.1 Relevo O relevo resulta da acção de processos geomorfológicos - endógenos: actividade ígnea, orogenia e epirogenia; exógenos: acção da água e do vento - sobre determinada litologia. A forma do relevo depende da natureza, frequência e intensidade dos processos geomorfológicos que sobre ele actuam, e da resistência à deformação dos materiais constituintes da superfície [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 21]. O relevo compreende três grandezas: altitude, declive e concavidade. A altitude, através da variação da pressão e temperatura, influência a precipitação, a distribuição da flora e a presença de fauna. A importância do referido factor depende da amplitude da sua variação. No que respeita à área em estudo - o concelho de Lisboa - a variação da altitude não é suficientemente elevada para que se possam retirar consequências relevantes em termos de planeamento (à excepção da determinação da localização de pontos de vista ou miradouros) [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 21]. O declive representa na generalidade, um factor preponderante no planeamento uma vez que condiciona fortemente a acessibilidade. A fraca acessibilidade conduz a um menor valor económico dos terrenos, dado o aumento dos custos de construção e utilização, constituindo portanto um obstáculo à urbanização. Em contrapartida, tal situação proporciona que dadas áreas tendam a permanecer mais tempo num estado pré-humanizado, podendo contribuir para o seu valor como áreas de conservação da Natureza. Figura 2: Escadas vencem declive acentuado para circulação de peões [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] A concavidade e o declive do terreno determinam situações ecológicas diferentes, dada a influência exercida na distribuição dos sedimentos, originando situações de erosão e aluviação; na distribuição da água, originando situações de escoamento e acumulação; e na distribuição dos microclimas, 11 avesseiros e soalheiros. A conjugação dos factores mencionados com a hidrografia - linhas de água e de festo - na determinação de situações ecológicas distintas é expressa pelo conceito de Morfologia do terreno [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 21]. Figura 3: Percurso de distribuição e de recolha de sedimentos e água [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] Relativamente à distribuição do solo, é particularmente importante acautelar eventuais riscos de erosão acelerada, mediante a consideração de um valor de declive a partir do qual se impõem medidas de protecção contra a mesma, como sejam o terraceamento ou a plantação de mata ou matos. A plantação ou manutenção de vegetação nas encostas contribui para a estabilização dos taludes na medida em que intercepta a precipitação, diminuindo a acção erosiva da água, e consolida o solo através das raízes [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 21, 22]. Figura 4: Processo de infiltração, escorrimento e drenagem de duas encostas com ocupações diferentes [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] Se a existência de relevo leva à perda de solo nas cotas mais altas, erosão, também conduz à deposição de solo nas cotas mais baixas, aluviação. A conjunção da maior espessura do solo com a maior humidade, originada pela acumulação da água, torna as áreas aptas à agricultura e à implantação de espaços verdes [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 22]. Nos processos de escoamento e infiltração da água, o declive é também determinante. De facto, existe escoamento da água a partir de declives próximos de 1% (dependendo do tipo de solo), e a partir de 8% a infiltração deixa de ser significativa. Tais considerações são importantes na modelação hidrográfica de bacias ou na determinação dos métodos de rega adequados. 12 No planeamento, as classes de declives consideradas admissíveis por muitos autores são indicadas no quadro seguinte. Declives de referência Classes Características 2 - 5% Declive a partir do qual a água começa a escorrer; para grandes escalas de planeamento representam áreas planas 7% Declive até ao qual é possível a circulação de peões sem necessidade de recorrer a escadas 8% Declive até ao qual é possível a rega por aspersão sem grandes perdas 12% Declive até ao qual é possível edificar sem terraceamento, com garantias de ventilação transversal no primeiro piso através de janela lateral; limite para usos agrícolas sem terraceamento, desde que assegurada razoável cobertura do solo durante o período chuvoso 12 - 25% Faixa onde a edificação e agricultura exigem o terraceamento realizado conforme as regras de conservação do solo 25% Declive a partir do qual é desaconcelhável qualquer uso que não o florestal Quadro 1: Classes de declives de referência [Fonte: Loid Engenharia, 2004, pág: 6] 1.1.2 Exposição Solar do Terreno O relevo está na origem da diferente orientação aos quadrantes geográficos, de modo que as vertentes, ou encostas, estão diferencialmente expostas à radiação solar e aos ventos dominantes. Assim, em cada vertente são gerados diferentes microclimas resultantes das especificidades da vegetação espontânea e culturas agrícolas instaladas nos terrenos soalheiros, mais expostos ao sol, e nos avesseiros, menos expostos ao sol [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 23]. 13 Figura 5: Orientação do terreno aos quadrantes geográficos [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] Na implantação de edificação, é de considerar a quantidade de radiação recebida uma vez que influencia o conforto térmico e luminoso das habitações, e, consequentemente, as emissões de CO2 e os consumos energéticos dos edifícios devido às necessidades de condicionamento artificial do ar interior. O controlo das condições de conforto no interior das habitações é assegurado pela arquitectura bioclimática e pelas tecnologias solares passivas, mediante o uso de factores como a orientação dos edifícios relativamente ao sol (planeada de modo que estes recebam mais radiação nos períodos sub-aquecidos e menos nos períodos sobre-aquecidos), o dimensionamento das áreas envidraçadas consoante a orientação das fachadas, o sombreamento e a ventilação natural para controlar as condições de conforto no interior das habitações. Figura 6: Arquitectura bioclimática [Fonte: www.construible.es/images/news/060116_Fujy_Fachadasur.jpg] A quantidade de radiação recebida por uma superfície é a grandeza mais significativa em termos das condições de conforto que se podem criar em determinado local. 14 A quantidade de radiação recebida por um edifício ou por dada superfície na Terra depende da sua posição em relação ao sol, sendo, por isso, função da latitude e longitude do local, da orientação e do declive da superfície, da altura do ano e da hora solar, que determinam a posição do sol no horizonte. Em latitudes médias no hemisfério Norte, demonstra-se, na generalidade, que são as encostas expostas a Sul as que recebem maior quantidade de radiação ao longo do ano. De facto, as referidas encostas são as que recebem mais radiação no período sub-aquecido do ano e menos no sobreaquecido, apresentando deste modo as melhores condições de conforto térmico, e tanto mais quanto maior o declive. A variação com o declive, para a mesma latitude, é devida à variação da altura do sol ao longo do ano: no Inverno, a altura do sol (ângulo entre os raios de sol e o horizonte) é menor, logo, a quantidade de radiação recebida é maior sobre as superfícies verticais; no Verão, a maior altura do sol dá origem a que sejam as superfícies mais planas as que recebem mais radiação. Em suma, a encosta de declive acentuado e exposta a Sul será ideal em termos do conforto térmico proporcionado pela radiação solar. As encostas expostas a Norte, contrariamente às anteriores, não recebem praticamente radiação entre os Equinócios e o Solstício de Inverno, pelo que são desfavoráveis em matéria de conforto térmico. As encostas expostas a Este e a Oeste gozam de um posicionamento em relação ao sol que lhes permite obter valores de radiação total superiores aos das encostas expostas a Norte e inferiores aos das encostas expostas a Sul. As vertentes Este recebem radiação durante as primeiras horas do dia, enquanto as Oeste recebem radiação durante a tarde [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 24]. Figura 7: Radiação recebida pelas encostas Este e Oeste ao longo do dia [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] Os valores médios da temperatura nas encostas expostas a poente são superiores aos das encostas expostas a nascente, apesar da simetria relativamente ao movimento aparente do sol. Tal situação é devida ao aquecimento das massas de ar acumulado ao longo do dia nas encostas poente e ao consumo da energia recebida nas primeiras horas do dia pelas encostas nascente, aquando da evaporação do orvalho. 1.1.3 Morfologia do Terreno A Morfologia do Terreno representa a forma global do mesmo, resultado de determinada estrutura, biofísica e cultural. A forma do terreno identifica as estruturas biofísicas mais importantes, linhas de água e linhas de festo, e as relações que se definem entre estas, tipo e forma das encostas, conduzindo à definição de três unidades morfológicas distintas: cabeços, encostas e zonas 15 adjacentes às linhas de água. Qualquer das unidades mencionadas correspondem assim a áreas onde se diferenciam determinados processos (escoamento hídrico e atmosférico, transporte de sedimentos), e, portanto representam diferentes “preocupações” em termos de preservação do funcionamento ecológico da Paisagem [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 29]. Considerando os processos relacionados com os escoamentos hídrico e atmosférico, podem distinguir-se dois subsistemas: os sistemas secos e os sistemas húmidos. Os primeiros correspondem às áreas convexas ou inclinadas que conduzem ao escoamento das águas e do ar frio e incluem genericamente os cabeços e as encostas; os segundos constituídos pelas zonas adjacentes às linhas de água e bacias de recepção, correspondem às áreas planas ou côncavas onde a água e o ar frio se acumulam [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 29]. Figura 8: Perfil esquemático das diferentes situações morfológicas [Fonte: Magalhães, Mª; Silva, A; Cunha, Natália; Campo, Sofia, 2001, pág: 35] Os cabeços são constituídos pelas linhas de cumeada e pelas zonas contíguas, mais ou menos aplanadas, consoante a dureza da litologia, correspondentes à encosta do monte. Na sua forma mais reduzida o cabeço apresenta-se apenas como a cumeada. A forma convexa dos cabeços conduz à erosão do solo e ao escorrimento da água precipitada e do ar frio para as cotas mais baixas. Assim, os cabeços representam zonas extremamente sensíveis, cuja 16 degradação produz alterações profundas no equilíbrio ecológico de toda a bacia hidrográfica, tanto a nível da erosão, como do ciclo hidrológico [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 29, 30]. As encostas são áreas mais ou menos declivosas e portanto de transporte dos materiais erodidos dos cabeços e de passagem do ar frio e da água para as zonas de acumulação (talvegues). Mediante o referido, representam áreas de solos delgados e pobres, caracterizadas por uma permanente lavagem pelas águas da chuva. São áreas susceptíveis à erosão, tanto mais quanto maior for o declive e menor o revestimento por mata ou matos. O microclima da encosta varia com a exposição aos quadrantes geográficos. No entanto, em relação às restantes situações ecológicas, a encosta representa uma zona temperada devido à circulação das brisas de encosta e à formação do “thermal belt”, ou zona quente da encosta [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 30]. As zonas adjacentes às linhas de água são mais ou menos aplanadas, contíguas às margens das linhas de água, caracterizadas por uma maior humidade do solo, e onde existe acumulação dos materiais erodidos das cotas mais altas, e de ar frio proveniente dos cabeços e planaltos. Assumem expressão mais reduzida se associadas à zona montante das bacias hidrográficas. Nestas circunstâncias, a humidade do solo pode não ser elevada, embora significativa em relação às zonas circundantes. As zonas adjacentes na zona jusante da bacia hidrográfica correspondem sensivelmente às áreas inundáveis. A acumulação dos materiais erodidos, provenientes dos cabeços e encostas, nas zonas adjacentes às linhas de água, dá origem à formação de solos aluvionares, ou seja, solos com elevada aptidão para a produção de biomassa. O microclima das zonas adjacentes às linhas de água é caracterizado por grandes amplitudes térmicas diurnas, provocadas pela acumulação, durante a noite, do ar frio formado nos cabeços [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 30]. As bacias de recepção coincidem com as zonas situadas a montante das linhas de água onde, por confluência das águas de vários valeiros/barrancos afluentes, se forma o leito do curso de água. Nos climas temperados e em especial nas zonas mediterrânicas, dever-se-á promover, nas referidas áreas, o equilíbrio do ramo terrestre do ciclo da água, através do aumento da infiltração, e a diminuição da erosão, através da diminuição do escoamento superficial torrencial, da plantação de mata de protecção ou do terraceamento do terreno [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 30]. 1.2 Modelo de Ocupação do Solo Estrutura Ecológica Fundamental é o termo utilizado para as áreas que asseguram a sustentabilidade da Paisagem, ou cuja degradação acarreta riscos, ou a perda irreversível de valores ecológicos, sendo portanto, de vital importância a delimitação das mesmas de modo a que a edificação em mancha seja nelas impedida ou condicionada. 17 A edificação implica impermeabilização do solo em grande extensão; alteração do balanço energético local; alteração das linhas de drenagem natural da água que interfere com a geologia e taludes naturais, e provoca, muitas vezes, a destruição de valores do património natural. Figura 9: Implicações de diferentes usos do solo [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] Em bacias hidrográficas, a impermeabilização provocada pela urbanização aumenta o risco para pessoas e bens de ocorrência de cheias dada a diminuição da área em que ocorre infiltração da água. A situação é agravada se o leito de cheia, zona adjacente à linha de água, se encontrar obstruído por edificação ou infra-estruturas uma vez que constitui muitas vezes área por onde o escoamento se processa em caso de cheia. Nos meios urbanos, estas áreas são particularmente aptas à implantação de espaços verdes, que aqui beneficiam de condições favoráveis em termos de custos de implantação e manutenção, devido à maior disponibilidade de água e matéria orgânica. A vegetação “desempenha” um papel positivo na redução dos impactes de eventuais cheias. Em suma, nos sistemas húmidos, a urbanização em bacias hidrográficas deve ser contida; as margens das linhas de água devem ser consideradas zonas estritamente non aedificandi, e as respectivas zonas adjacentes não devem ser edificadas, podendo ser ocupadas por espaços verdes ou infra-estruturas pontuais [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 31]. No que respeita aos sistemas secos, as encostas com declives inferiores a 25%, à excepção das expostas a Norte, são as zonas mais aptas à urbanização, quer do ponto de vista das condições de conforto, quer da implantação do edificado (condições de drenagem e implantação das fundações), quer ainda do ponto de vista da susceptibilidade dos sistemas em presença. Esta situação ecológica é a que comporta um leque mais amplo de aptidões e onde, nas zonas peri-urbanas, deve preferencialmente incidir a alteração dos usos rurais para edificação [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 33]. Notar que em encostas com declives compreendidos entre 12% e 25% a urbanização deve ser acompanhada por medidas de protecção como a armação do terreno em socalcos, ou a alternância 18 com faixas de mata. Encostas com declives superiores a 25% devem ser consideradas estritamente non aedificandi [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 31]. Figura 10: Armação do terreno em socalcos [Fonte: www.ivdp.pt/pagina.asp?codPag=17&codSeccao=4&idioma=0#b] Nos cabeços, a raridade do solo e consequente proximidade da rocha mãe conduz a boas condições de drenagem e de implantação de fundações. No entanto, o conforto proporcionado por estas áreas é limitado devido ao acentuado arrefecimento nocturno e à maior exposição aos ventos dominantes. Assim, os cabeços que apresentam largura suficiente, assumindo a forma de planaltos, são considerados aptos à edificação desde que seja salvaguardada a protecção da orla do planalto, traduzida pela plantação de faixas de mata de protecção, e se assegure também a existência de vegetação no interior dos cabeços, sob a forma de compartimentação ou maciços, servindo as funções de corredor ecológico e aumento do conforto térmico. Notar que a plantação de mata ao longo da orla do planalto não só assegura a minimização da erosão e a promoção da infiltração da água, como também a protecção contra ventos dominantes e a redução do arrefecimento nocturno [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 32, 33]. 19 A síntese da Aptidão das situações ecológicas mencionadas encontra-se no quadro seguinte. Síntese da Aptidão das situações ecológicas Situação ecológica Usos compatíveis Cabeços estreitos Mata, vias de cumeada, eventualmente com edificação pontual ou em pátio Cabeços largos Edificação com maciços de árvores intercalados e sebes de protecção contra os ventos dominantes e a erosão, na orla do planalto e encosta do monte; agricultura de sequeiro compartimentada, no caso de coexistência de solos de elevada capacidade de produção de biomassa; prado permanente ou mata Vertentes, excepto expostas a Norte Atendendo aos condicionamentos relativos ao declive e substrato geológico, a ocupação pode ser: edificação com estruturas verdes transversais às encostas; agricultura de sequeiro, vinha, olival, fruteira ou montado, dependendo do tipo de solo; prado permanente ou mata Vertentes expostas a Norte Mata ou agricultura de sequeiro; localização pontual de indústria produtora de calor Linhas de água e margens Galeria ripícola; sistemas de correcção torrencial (retenção/acumulação do caudal de ponta de cheia); REN Zonas adjacentes às linhas de água Agricultura de regadio compartimentada, prado permanente; mata com espécies ribeirinhas ou espaços verdes de utilização intensa; edificação pontual de apoio às explorações agrícolas ou equipamentos colectivos de apoio aos espaços verdes; atravessamentos viários preferencialmente transversais ao talvegue, em viaduto Bacias de recepção Mata de protecção ou prado; agricultura, no caso de coexistência de solos de elevada capacidade de produção de biomassa Quadro 2: Usos compatíveis ou preferenciais para cada situação ecológica [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 32] A urbanização de determinado local pressupõe a predominância de declives adequados, boas condições para implantação de fundações e boas condições de conforto bioclimático. De referir que a existência de condicionamentos à implantação de edificação vem frequentemente associada à ausência de benefícios. 20 2 Metodologia de definição da Aptidão Ecológica á Edificação - O Método de McHarg Tal como definido na introdução a esta Parte I, é objectivo deste Capitulo 2, a produção de cartografia sobre os diferentes temas que permitirão relacionar fisiografia e forma urbana, a saber: altimetria, declives, exposição solar, assim como a definição das áreas de Aptidão Ecológica á Edificação. Em Design with Nature Ian McHarg pretendia fornecer uma teoria que integrasse Ecologia e Planeamento, tendo sido, no entanto melhor sucedido no fornecimento de um método de integração da informação ecológica (ciências biofísicas) no processo de planeamento. O método de McHarg baseia-se na tradicional análise custo-benefício inserindo-a num contexto mais amplo que inclui os valores naturais, sociais e estéticos presentes. O método deveria ser capaz de proporcionar uma resposta racional a questões típicas do planeamento - definição dos usos do solo, definição da melhor localização para determinada actividade - que representasse o máximo benefício social ao menor custo social [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 45]. O reconhecimento dos valores presentes na área em estudo é o ponto de partida de McHarg. A fisiografia, o clima, a geologia, o solo ou a vegetação são indicadores dos processos naturais em presença. Estes factores são representados através de cartografia temática, e classificados em termos dos constrangimentos ou benefícios que representam para cada actividade humana. Esta classificação coincide com a determinação da Aptidão do território a usos particulares. A Aptidão é expressa nas cartas temáticas através de variações de tons, em que, tons mais escuros representam menor Aptidão, implicada pela presença de constrangimentos ou simples ausência de benefícios. Da sobreposição das cartas resultará um padrão onde as zonas mais claras serão as zonas relativamente mais aptas para a implantação de determinada actividade, incluindo a possibilidade de uso múltiplo. O resultado pretendido não é, deste modo, uma optimização do zonamento funcional, mas um plano que considera alternativas e contempla a diversidade e complementaridade dos usos. Método de McHarg Identificação e inventariação Compilação e cartografia Interpretação e classificação Síntese Identificar os principais processos físicos e biológicos que deram origem à morfologia do local e que a caracterizam Reunir a informação relativa aos principais temas - clima, geologia, fisiografia, hidrologia, solos, vegetação, habitats, uso do solo - e elaborar a respectiva cartografia Interpretar a informação e classificá-la segundo a Aptidão a cada uso Elaborar a matriz de incompatibilidades dos usos do solo, de modo a obter a síntese de Aptidão, que representa os possíveis usos do solo para cada área Quadro 3: Método de McHarg [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 46]. As vantagens deste método são: método racional, informação derivada das ciências exactas; explícito, aceitando o método, quaisquer duas pessoas chegarão à mesma conclusão; pode ser relativizado, cada comunidade pode empregar o seu próprio sistema de valores; pode facilmente ser 21 tornado público, com o emprego dos Sistemas de Informação Geográfica e o avanço das técnicas de visualização tridimensional. Por outro lado na aplicabilidade do método surgem limitações: carência de informação ou de nem sempre a mesma existir de forma adequada; interpretação subjectiva de um mesmo factor [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 47]. O método de McHarg surge como uma óptima ferramenta para a resolução de problemas que ainda se colocam; é um método dedutivo que fornece zonamentos potenciais em relação ao uso do espaço, com a inovação de apresentar usos em alternativa, sobretudo nas áreas sujeitas a menores condicionamentos ecológicos [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 47]. O estudo das relações entre a fisiografia e o desenvolvimento e definição da morfologia urbana no concelho de Lisboa sugere a definição da Aptidão Ecológica à Edificação da respectiva área resultante da sobreposição cartográfica obtida, por sua vez, pelo Método de McHarg. Na definição da Aptidão Ecológica à Edificação, são assim considerados alguns parâmetros significativos para a caracterização biofísica - fisiografia - ressalvando que, para além destes, outros descritores poderão contribuir para aprofundar as conclusões obtidas. A Aptidão Ecológica à Edificação classifica as áreas integrantes do território em estudo segundo a sua Aptidão ao uso do solo: edificação. No presente trabalho, as conclusões obtidas assentam nas classes de Aptidão à Edificação identificadas: inapto à edificação ou non aedificandi; medianamente apto à edificação; muito apto à edificação. Salientar que as zonas medianamente aptas e muito aptas à edificação são não restritas à ocupação por edificação, sem que as primeiras sejam dotadas de condições particularmente favoráveis à ocupação por edificação e onde as segundas se apresentam dotadas de condições favoráveis à referida ocupação. 2.1 Aptidão Ecológica à Edificação A metodologia adoptada na definição da Aptidão Ecológica à Edificação do concelho de Lisboa é baseada no método de McHarg, centrada num único uso do solo - a Edificação. A Morfologia do Terreno, indicativa da espacialização dos processos ecológicos, é implicitamente introduzida aquando da sobreposição cartográfica, uma vez, que resulta da sobreposição das Cartas de Declives e Hidrográfica. Na determinação da Aptidão à Edificação de Lisboa, são considerados como factores indicadores dos processos naturais ou ecológicos: o relevo, a hidrografia e a exposição das superfícies ao sol. Cada um destes factores origina, respectivamente, as Cartas de Declives, Hidrográfica e de Exposições Solares. As classes de valores seleccionadas para cada factor são direccionadas para a análise da influência do factor sobre a edificação. A partir da sobreposição da Carta de Declives com a Carta Hidrográfica obtém-se a Morfologia do Terreno delimitativa de três zonas ecológicas fundamentais: cabeços, encostas e zonas adjacentes 22 às linhas de água, nas quais os factores de ambiente (solo, água, ar, vegetação e fauna) interagem de modo diferenciado. A Aptidão Ecológica à Edificação resulta da sobreposição das Cartas mencionadas. As três classes de Aptidão à Edificação - inapto à edificação ou non aedificandi, medianamente apto e muito apto à edificação - são então identificadas: Matriz síntese da Aptidão Ecológica à Edificação Encosta Classes Cabeço < 16% Non aedificandi Medianamente apto à edificação Muito apto à edificação ≥ 16% x x Cartografia Zonas Ajacentes às Linhas Norte de Água x Exposições Solares Sul Este Oeste x x x x x x Quadro 4: Classes de Aptidão Ecológica à Edificação Em suma, o processo de implementação que conduz à definição da Aptidão Ecológica à Edificação compreende três estádios: a construção do Modelo Digital do Terreno (MDT), a elaboração das Cartas Temáticas e a síntese na sobreposição cartográfica. Salientar que o MDT é um modelo matemático que visa representar, de forma aproximada, a topografia de uma determinada superfície. Este modelo está na base de toda a análise topográfica necessária à definição da Aptidão à Edificação. 2.2 Determinação da Carta de Aptidão Ecológica á Edificação no Concelho de Lisboa A Aptidão Ecológica à Edificação de Lisboa é determinada, no presente trabalho, apenas com base em critérios fisiográficos - relevo, hidrografia, exposição solar - dado o objectivo a alcançar: aprofundar o estudo das relações entre a fisiografia e a forma urbana na cidade. A Aptidão à Edificação constitui assim uma síntese de determinadas características biofísicas do terreno expressas através do modo como se relacionam com o uso do solo Edificação. Por Edificação entende-se a implantação de estruturas construídas para habitação, comércio, serviços ou equipamentos indiferenciadamente. O termo Edificação pretende distinguir os espaços construídos dos espaços livres, que incluem os espaços verdes. 23 2.2.1 Dados de Base Os dados que constituem a base do presente trabalho, encontram-se disponíveis na internet, na página da disciplina de Planeamento Regional e Urbano www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, em formato digital, ficheiros do tipo shp (ArcMap), e por temas: planimetria; limite admistrativo do concelho de Lisboa; altimetria, pontos cotados e curvas de nível de 10 em 10m. Figura 11: Sobreposição dos temas Limite de Lisboa e Altimetria 2.2.2 Carta Hipsométrica (Modelo Digital do Terreno) O MDT - Modelo Digital do Terreno - é um modelo matemático normalmente utilizado para a representação aproximada, em suporte digital, da topografia de determinada superfície. Este modelo constitui assim a base a partir da qual são elaboradas as Cartas Temáticas, estando o rigor dos resultados dependentes, em grande medida, da sua qualidade, que depende, por sua vez, da qualidade dos dados de base e do método de interpolação utilizado. A quantidade de dados de base só é sinónimo de qualidade do MDT se as escalas de origem forem semelhantes e os levantamentos tiverem sido realizados em alturas próximas no tempo. O método de interpolação utilizado no presente trabalho coincide com a interpolação por Triangulação. A construção do MDT é iniciada a partir da obtenção da rede triangular - TIN, Triangular Irregular Network - que constitui já um modelo do terreno, embora baseado numa estrutura vectorial. No TIN a superfície é representada por um conjunto de triângulos irregulares e contíguos de vértices apoiados nas curvas de nível e/ou pontos cotados. À face de cada triângulo corresponde um único valor de 24 declive, obtido da interpolação entre os valores de altitude nos vértices. Os dados utilizados na construção do TIN coincidem com a altimetria, curvas de nível. Embora o TIN constitua já um modelo do terreno, a conversão para o modelo raster é vantajosa em termos da manipulação do modelo e da obtenção dos outros temas. De facto, a rede de drenagem não pode ser obtida directamente a partir do TIN, pelo menos através das ferramentas existentes no sistema. Na conversão para uma estrutura matricial, a perca de alguma informação é compensada pelo ganho em capacidade de análise e velocidade de processamento da informação. A resolução da grid coincide com a menor parcela de terreno que se pode representar como tendo características homogéneas e específicas, diferentes das das células matriciais vizinhas. No presente trabalho, o valor de resolução adoptado é 20m. Figura 12: Modelo Digital do Terreno A Carta Hipsométrica, correspondente ao MDT, à escala 1:10000 encontra-se em anexo. 2.2.3 Cartas Temáticas Carta Hidrográfica A Carta Hidrográfica é constituída pela rede de drenagem das águas pluviais e pelas cumeadas, ou linhas de separação das águas, que delimitam as bacias hidrográficas. Pode ser obtida automaticamente, a partir do Modelo Digital do Terreno. A delineação automática das linhas de água pressupõe a geração, a partir do MDT, das direcções do escoamento, e da acumulação. O procedimento no caso das linhas de festo é semelhante, mas realizado a partir do MDT invertido. Salientar que neste último modelo, as elevações passam a depressões, comportando-se como linhas de escoamento, reflectindo linhas de festo. 25 O traçado automático das linhas de água e de festo não é no presente trabalho considerado aceitável. De facto, no procedimento descrito a determinação das referidas linhas parte de estruturas matriciais (embora possam ser posteriormente vectorizadas), quando na realidade, o tipo de estrutura que melhor as representa é vectorial. Usando assim uma estrutura raster, as linhas do terreno apresentam-se como linhas quebradas, e só uma estrutura vectorial lhes confere um aspecto mais arredondado, mais orgânico, mais próximo do que é característico nas formas naturais. As linhas de água e de festo são então obtidas manualmente, tendo por base os pontos cotados e a forma das curvas de nível: as primeiras resultam da união dos pontos de cota mais baixa do terreno, as segundas da união dos pontos de cota mais alta. A Carta Hidrográfica à escala 1:10000 encontra-se em anexo. Carta de Declives Na Carta de Declives do concelho de Lisboa, directamente obtida do MTD, consideram-se as classes indicadas no quadro seguinte. Declives Classes Características 0 - 5% Áreas quase planas 5 - 12% 12 - 16% 16 - 25% > 25% Edificação sem necessidade de terraceamento do terreno Edificação com terraceamento do terreno Zonas com declive demasiado acentuado para edificar Quadro 5: Classes de declives Notar que a diferenciação das classes 16 - 25% e > 25%, de características consideradas iguais, resulta da pretenção de uma maior pormenorização a nível visual, dada a altimetria da zona de estudo. 26 Figura 13: Carta de Declives A Carta de Declives à escala 1:10000 encontra-se em anexo. A Morfologia do Terreno resulta da sobreposição da Carta de Declives com a Carta Hidrográfica. Demarca as três zonas ecológicas fundamentais: cabeços, encostas e zonas adjacentes às linhas de água. Os cabeços e as zonas adjacentes representam as zonas, mais ou menos aplanadas, de declive inferior ou igual a 5%, contíguas às cumeadas, no primeiro caso, e às linhas de água, no segundo. As superfícies existentes entre as duas anteriores correspondem às encostas. Carta de Exposições Solares A Carta de Exposições Solares, directamente obtida do MDT, apresenta as diferentes orientações geográficas de cada parcela de terreno. Consoante a sua orientação, as encostas recebem uma maior ou menor quantidade de radiação solar, que influencia o conforto da edificação. A elaboração da Carta de Exposições Solares a utilizar na definição da Carta de Aptidão Ecológica à Edificação, sugere a consideração das direcções dos quatro principais pontos cardeais: Norte, Sul, Este e Oeste. Exposições solares Classes Ângulos Áreas Planas Plano (-1) Norte 315 - 45º Este 45 - 135º Sul 135 - 225º Oeste 225 - 315º Quadro 6: Classes de exposições solares 27 Figura 14: Ilustração das classes de exposições solares Salientar que a Carta acima referida, resulta da reclassificação da Carta de Exposições Solares inicialmente obtida para a cidade de Lisboa, na qual se consideram as direcções já mencionadas e as intermédias àquelas. A reclassificação efectuada traduz-se na menor complexidade dos resultados obtidos e, consequentemente na maior facilidade de interpretação dos mesmos. Figura 15: Cartas de Exposições Solares 28 A Carta de Exposições Solares à escala 1:10000 encontra-se em anexo. 2.2.4 Carta de Aptidão Ecológica à Edificação A Aptidão Ecológica à Edificação, representativa da capacidade intrínseca do território para esse uso do solo, é obtida pela sobreposição das Cartas Temáticas. São assim identificados os Planos Negativo, áreas inaptas à edificação ou non aedificandi, e Positivo, áreas aptas à edificação. O primeiro resulta da união das áreas consideradas zonas adjacentes, encostas expostas a Norte e encostas com declive superior a 16%; o segundo é constituído pelos cabeços e encostas com inclinação inferior a 16% e expostas a Sul, Este ou Oeste. A classificação das áreas do concelho de Lisboa nas classes: inapto à edificação ou non aedificandi, medianamente apto à edificação e muito apto à edificação, pressupõe a distinção de zonas medianamente aptas e com grande aptidão à edificação. Zonas de grande aptidão à edificação correspondem a encostas com inclinação inferior a 16% e expostas a Sul, as restantes zonas do Plano Positivo são consideradas medianamente aptas à edificação. Figura 16: Carta de Aptidão à Edificação Na Parte II e III deste trabalho procede-se à avaliação do modo como os factores fisiográficos abordados ao longo desta Parte I, influenciam ou não as construções da cidade sob o ponto de vista da morfologia urbana. Salientar que a Carta de Aptidão à Edificação não é tida em conta na referida avaliação devido à existência de zonas não classificadas quanto à Aptidão à Edificação, a preto, e devido a zonas classificadas de modo incorrecto. A sobreposição de zonas adjacentes às linhas de água e cabeços estão na origem das zonas não classificadas. Considerou-se que zonas que distam até 200m de linhas de água e de cumeada são, respectivamente, zonas adjacentes às linhas de água e cabeços. No entanto, existem linhas de água e linhas de cumeada que distam entre si de valores inferiores a 200m havendo por isso sobreposição de zonas classificadas como zona adjacente às 29 linhas de água e cabeços. Por outro lado, ocorrem zonas contíguas às linhas de água e linhas de cumeada que não devem ser consideradas zonas adjacentes às linhas de água e linhas de cumeada devido ao declive que apresentam. Existem ainda zonas que distam de valores superiores a 200m das linhas de água e de cumeada que deveriam ser consideradas zonas adjacentes a linhas de água e de cumeada, respectivamente. Estas duas últimas situações coincidem com zonas classificadas de modo incorrecto. Para a obtenção de uma Carta de Aptidão à Edificação com resultados fiáveis seria necessário o estudo pormenorizado do território. De referir que a aptidão à edificação é também obtida da sobreposição da restante cartografia produzida. É com este pressuposto que, neste trabalho, se infere acerca da aptidão do território à edificação. 30 Parte II A Parte II do presente trabalho consiste na análise da evolução e forma urbana de Lisboa, a partir dos resultados definidos na Parte I, traduzidos em cartografia. É objectivo da Parte II: 1. A análise da evolução urbana de Lisboa e sua relação com os factores fisiográficos estudados; 2. A análise da forma urbana de Lisboa e sua relação com os factores fisiográficos estudados. Assim, no Capítulo 3 da Parte II, “O desenvolvimento urbano de Lisboa”, analisa-se o desenvolvimento urbano da cidade e sua relação com os factores fisiográficos estudados na Parte I. 31 3 O desenvolvimento urbano de Lisboa 3.1 Da ocupação romana à invasão árabe A ocupação primordial de Lisboa, que no período do Paleolítico se encontrava já densamente povoada, poderá estar relacionada com a presença do estuário do Tejo. A arqueologia refere os Fenícios como povo fundador da cidade, com posterior ocupação dos Gregos e Cartagineses. O concelho de Lisboa, na margem norte do Tejo, é enquadrado pelo estuário, pela Serra de Monsanto e pela “linha de alturas” sobre o concelho de Loures. Salientar que a “linha de alturas” coincide com a linha fronteira do concelho de Loures, onde se destacam o monte das Galinheiras (150m de altitude) e o planalto do aeroporto (100m de altitude). Constitui a faixa limítrofe Norte [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 36]. Antes da ocupação romana, Lisboa exibia já um castro no alto da colina do Castelo de São Jorge, com habitações dispersas nas encostas meridional e ocidental, possivelmente relacionadas com as melhores condições de conforto térmico proporcionado, devido à exposição a Sul e a Oeste. A existência da ribeira de Alcântara é comprovada por vários documentos que indiciam também a presença forte de água no Vale da Baixa. De referir que a presença da ribeira é reforçada com referências a vestígios de uma ponte romana na esquina da Rua de São Julião com a Rua do Ouro, que ainda existia em meados do séc. XV. Figura 17: “Antigo braço do Tejo”, que irrompe pelo vale da Baixa, e “os seus dois ramais”, correspondentes às Avenidas da Liberdade e Almirante Reis [Fonte: Levy, 2003] 32 Os vestígios de cerca de sete séculos de ocupação romana foram, em grande parte, destruídos por sismos ou povos invasores. Subsistiram no entanto algumas vias, que desenvolvendo-se em torno das encostas sul e oeste da colina do Castelo, estruturavam o aglomerado. A partir da invasão árabe, em 715, a urbanização de Lisboa faz-se de forma lenta e orgânica. O padrão muçulmano, de malha densa e recortada, ainda pode ser observado em Alfama. Por questões defensivas, o perímetro da cidade seria murado pela chamada Cerca Moura [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 36]. 3.2 Os padrões muçulmano e medieval A elevação de Lisboa a capital do Reino de Portugal, em 1256, na época de D. Afonso I, conduz à notória existência de dois padrões, o muçulmano e o medieval. De malha mais aberta e penetrável face ao padrão muçulmano, o padrão medieval desenvolvia-se espontaneamente ainda dentro da Cerca Moura, adaptando-se a elevados declives, enquanto no vale da Baixa, entrecortado por canais atravessados por pontes, erguiam-se edifícios isolados, Conventos e Casas Nobres, de diversos pisos. Na zona do Castelo definem-se áreas de diferentes características em termos de declive. Verifica-se que a área do Castelo é considerada quase plana enquanto a Costa do Castelo apresenta declives maioritariamente acima dos 25%. A consequência em termos morfológicos é a acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações, multiplicando-se as construções numa organização territorial não planificada. Os quarteirões têm formas e tamanhos irregulares e as vias apresentam fortes inclinações, sendo muitas vezes substituídas por escadas de modo a vencer grandes desníveis. Em 1373/1375, é construída a Cerca Fernandina de modo a envolver o aglomerado na sua nova extensão [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 37]. Figura 18: Reconstituição da Cerca Moura e da Muralha Fernandina [Fonte: Moita, 1994] 33 3.3 Os primeiros aterros, a Lisboa das descobertas As Descobertas Marítimas e as riquezas geradas pelas rotas comerciais dominadas pelos portugueses marcam os séculos XV e XVI. Em Lisboa, capital e ponto de concentração dessas riquezas, as zonas baixas desenvolvem-se rapidamente, e a cidade aproxima-se definitivamente do Tejo. Procede-se assim aos primeiros aterros na zona ribeirinha inicialmente caracterizada por areia e lodo. Sobre o leito do rio, no tempo de D. Manuel, foi construído o Terreiro do Paço, aquando da instalação da Corte no Paço Real. A cidade, que entretanto se expandia nas direcções Poente (Carmo e Chiado) e Norte (Rossio) foi espartilhada pela proibição de construir fora da Cerca Fernandina, e “empurrada” para o rio, para a zona do Cais do Sodré. No século XVI, são concebidos os primeiros planos, o Bairro Alto de S. Roque (Bairro Alto) e o Bairro da Madragoa. O primeiro resultaria de uma operação de loteamento de áreas rurais e o segundo apresentaria já preocupações tipológicas inovadoras, concretizadas em quarteirões rectangulares ou trapezoidais e vias geométricas [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 37]. O Bairro Alto apresenta inclinações na ordem dos (5 12%) sendo a envolvente do limite Oeste do mesmo marcada por fortes declives, acima dos 16%, factor que se reflecte numa maior irregularidade da malha. Encontra-se limitado a Norte por uma linha de cumeada e é atravessado por outras duas linhas de cumeada. O bairro da Madragoa apresenta inclinações na ordem dos (12 - 16%) verificando-se zonas de declive (16 - 25%), sobretudo a sul do mesmo. Atravessado por linha de cumeada é limitado a Oeste por linha de água. Em termos de exposições solares, o bairro da Madragoa encontra-se exposto a Sul e a Este. Figura 19: Lisboa no final do século XVI [Fonte: Barreiros, 2001] 3.4 A reconstrução da Baixa, uma malha reticulada para uma área quase plana A reconstrução de Lisboa em virtude da ocorrência do terramoto de 1755 ficou a cargo do Marquês de Pombal, que, entre várias alternativas propostas para a zona da Baixa, a mais afectada, optou pela reedificação integral, adoptando uma malha reticulada, modular e de vias largas hierarquizadas. 34 Os novos limites da cidade abrangiam uma área de cerca de 670ha, desde o Palácio das Necessidades, a Ocidente, passando pelo Rato, Campo de Santana e Sapadores a Santa Apolónia, a Oriente. O Palácio das Necessidades junto à Tapada das Necessidades encontra-se em zona de declives (5 - 12%) e (12 - 16%). Em termos altimétricos insere-se nos intervalos, considerados de características homogéneas e específicas, de (20 - 40m), (40 - 60m) e (60 - 80m). O Rato, Campo de Santana e Sapadores apresentam declives na ordem dos (0 - 5%) e (5 - 12%). O Rato e o Campo de Santana inserem-se no intervalo altimétrico (60 - 80m); Sapadores no intervalo altimétrico (80 100m). Santa Apolónia encontra-se em zona de declives (5 - 12%) e insere-se no intervalo altimétrico (0 - 20m). Em termos de exposições solares, Santa Apolónia encontra-se exposta a Este e um pouco a Sul. Figura 20: À esquerda, planta de reconstrução pombalina; à direita, vista aérea sobre a zona de reconstrução pombalina [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] De 1755 ao início do séc. XX novos bairros crescem além dos anteriores limites da cidade: Estefânia, Campo de Ourique e Campolide. Os bairros da Estefânia e Campo de Ourique encontram-se inseridos em zonas consideradas quase planas (0 - 5%) e de declive (5 - 12%). Campolide apresenta todas as classes de declives consideradas. O “Plano de Melhoramentos da Capital”, de expressão Romântica, conduz à implantação da Avenida da Liberdade, coincidente com uma linha de água, do Passeio Público, do Jardim Botânico, do Jardim da Estrela e o Jardim do Príncipe Real. Salientar que as zonas pouco construídas coincidem com zonas declivosas a maior altitude sendo na sua maioria aproveitadas para a implantação de espaços verdes de média a grande dimensão. Constituem assim o “pulmão” da grande metrópole. 3.5 A implantação da indústria nas áreas de vale Na segunda metade do séc. XIX, com implantação da indústria na frente ribeirinha do Tejo e nos vales das principais ribeiras do concelho surgem inúmeros pátios e bairros operários. De referir que os cursos de água mais importantes, em termos de caudal e de área de bacia, são a ribeira de Alcântara, e os cursos de água dos vales da Baixa, Olivais e Chelas. 35 Respondendo aos desígnios da Carta de Atenas, o Plano dos Olivias orientava-se para o usufruto em igualdade de condições de espaço, luz e ar, em todas as actividades - trabalho, habitação, lazer, circulação. Pretendia-se a construção de habitações sociais e de habitações de renda livre. O Plano confirma o respeito pela orografia do local, retoma a Rua, a Praça e o Pátio. Dividem-se em unidades mínimas de vida (células) autónoma, zonificadas e hierarquizadas. Cada célula é constituída por unidades de vizinhança organizadas em torno de um equipamento ou comércio local. O conjunto edificado, envolvido por espaços verdes, era regrado por um Plano de Volumes, mas aos arquitectos foi dada grande autonomia formal e tipológica. O esquema viário é hierarquizado e separa a circulação dos peões da circulação dos veículos. O Plano de Urbanização de Chelas tem implícita uma crítica ao Plano dos Olivais. Propõe uma estrutura urbana compacta, identificável, plurifuncional e socialmente diversificada. Ao abandonar o conceito de célula, pretende recuperar os modelos urbanos tradicionais e criar zonas lineares de vida urbana intensa - a rua pedonal actuava como elemento urbano gerador e como espaço de convívio. As massas edificadas, definidas com soluções tipológicas diversas, desenhavam os principais percursos. 3.6 As zonas planálticas e o plano das Avenidas Novas Concretizado no séc. XX, o Plano das Avenidas Novas de Ressano Garcia reúne arquitecturas diversas uma vez que, por um lado, engloba e absorve malhas antigas da cidade, e, por outro lado, a sua construção atravessa várias décadas, do início do século à década de 50 [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 38]. A zona das Avenidas Novas insere-se no intervalo altimétrico (60 - 80m) e é considerada zona quase plana, portanto de declives na ordem dos (0 - 5%). Apresenta malha ortogonal com quarteirões rectangulares, que se desenvolve em torno de um eixo gerador formado pela Avenida da Liberdade/Fontes Pereira de Melo/Avenida da República. Concretizaram-se em troços sucessivos, delimitados por rotundas desenhadas para articular o sistema viário hierarquizado. Cada um dos troços do eixo define diferentes malhas, que respeitam vias preexistentes. 3.7 O Plano De Gröer, espaços verdes em zonas declivosas Da política urbanística do Estado Novo destaca-se o Plano Director Municipal de 1948, de De Gröer, que, em relação à estética neo-clássica dominante na época, viria a representar uma certa evolução. O Plano previa a concepção de espaços verdes, em zonas declivosas a maior altitude, constituindo assim o Pulmão Verde, concretizado no Parque Florestal de Monsanto e de Cintura Verde, da qual só resta o Parque Periférico; a criação de uma área rural envolvente ao concelho, sobre a várzea de Loures, que contivesse o crescimento da cidade para lá dos limites actuais [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 38]. A Serra de Monsanto é caracterizada pelas mais altas altitudes, com cotas próximas dos 220m. 36 A evolução do tecido urbano em Lisboa é também influenciada, embora com algum atraso em relação às outras capitais europeias, pelo movimento moderno. Olivais e Chelas exemplificam a aplicação dos princípios da Carta de Atenas na cidade. Nos Olivais os edifícios surgem isolados e o espaço envolvente padece dos inconvenientes apontados ao Movimento Moderno, sem referências, pouco estruturado. Em Chelas, o conceito de Aptidão Ecológica foi utilizado na determinação da localização da área edificada sendo, no entanto, a altura dos edifícios desmesurada, a projecção e construção do espaço público não foi conseguida, a escala é inumana e a impressão de degradação é total [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 39]. De características fisiográficas semelhantes, Olivais e Chelas correspondem a zonas inseridas nos intervalos de altitudes (40 - 60m) e (60 - 80m), considerados de características homogéneas e específicas, apresentando declives que oscilam de (0 - 5%) e (5 12%). De referir que Chelas é atravessada por linha de cumeada e delimitada a Sul por linha de água. É ainda atravessada por uma outra linha de água. As linhas de água passam por zona pouco construída. Figura 21: No canto superior esquerdo, plano de urbanização de Olivais Sul [Fonte: Barreiros, 2001]; no canto superior direito, vista aérea de Olivais Sul [Fonte: Moita, 1994]; no canto inferior esquerdo, vista aérea de Chelas; no canto inferior direito, plano de urbanização de Chelas [Fonte: www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm, práticas: aula 2, 2008] 37 3.8 Considerações finais A ocupação de Lisboa foi fortemente dominada pelas suas condições naturais, em particular pelo relevo, caracterizado por profundos e apertados vales, onde correm ribeiras de percurso curto e regime torrencial; mais a norte, os vales abrem-se em amplas bacias de infiltração. È gerada a coincidência das linhas dominantes do relevo e linhas estruturantes do tecido urbano: os vales são linhas de tráfego, cujas encostas têm geralmente forte densidade de construção. Grandes avenidas e vias rodoviárias e ferroviárias coincidem assim com linhas de água, ou seja, com zonas de altitudes inferiores às circundantes, facilitando e acarretando custos menores aquando da construção e manutenção das obras. Constituem exemplos evidentes a Avenida da Liberdade, a Avenida Fontes Pereira de Melo, a Avenida da República, a Avenida Almirante Reis, a Avenida Estados Unidos da América, a Avenida Almirante Gago Coutinho, a Avenida de Ceuta, as Estações de comboios de Entrecampos, do Cais do Sodré e a de Santa Apolónia. Por vezes, as linhas de água representam o limite de separação de zonas da cidade de diferentes funções, como a linha de água coincidente com a Avenida de Ceuta, delimitativa a Este do Parque Florestal de Monsanto, que separa o espaço verde da zona habitacional. As linhas de cumeada, ou seja, zonas de altitudes superiores às circundantes, constituem, na zona antiga da cidade, linhas de separação de bairros. Na zona nova da cidade, é de notar a fuga à construção nas referidas linhas. A altitude relativa é expressa, em algumas situações, na toponímia: Bairro Alto, Alto do Pina e, junto ao Tejo, a Ribeira e a Baixa. Verifica-se zonas de terreno muito acidentado com construção geralmente disposta em malha linear (ex. Costa do Castelo) e zonas de terreno pouco acidentado com construção geralmente disposta em malha reticulada regular (ex. Avenidas Novas), irregular (ex. Bairro Alto) ou em malha livre (ex. Benfica). Salientar que construções maioritariamente inseridas em zonas de declive inferior a 16% uma vez que acima desse valor a edificação se torna perigosa, dispendiosa e de acesso pedonal desconfortável. A expansão urbana recente da cidade tem-se sobretudo feito através dos vales de Benfica, Luz e Lumiar, progredindo para os concelhos limítrofes a norte de Lisboa, inicialmente, e para a margem sul do Tejo, mais recentemente. Actualmente, o concelho de Lisboa coincide com uma área densamente urbanizada e extensamente artificializada. A mancha urbanizada extravasa os limites do concelho, constituindo a Área Metropolitana de Lisboa [Fonte: Levy, Sara, 2003, pág: 39]. 38 Parte III A Parte III do presente trabalho incide sobre o estudo detalhado das repercussões dos factores fisiográficos estudados no desenho urbano da cidade de Lisboa. Esta análise, feita á escala do quarteirão, da rua e do bairro, resulta da análise em planta e no terreno da forma urbana. Os critérios para a definição e delimitação das áreas de estudo serão: a sua identidade enquanto áreas ou bairros já definidos, a sua homogeneidade tipo-morfológica e a cronologia da sua génese. É objectivo da Parte III: 1. O estabelecimento de relações mais ou menos explícitas entre os factores fisiográficos estudados e o desenho urbano de pormenor. Assim, no Capítulo 4 da Parte III, “Análise de bairros de Lisboa”, estabelecem-se relações entre os factores fisiográficos estudados na Parte I e o desenho urbano de pormenor. 39 4 Análise de Bairros de Lisboa 4.1 Avenidas Novas Figura 22: Avenidas Novas [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] Segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 70], as Avenidas Novas são limitadas a Norte pela linha de comboios de Sintra (1) Fig. 22, a Sul pela Avenida Duque d’ Ávila (2) Fig. 22 a Oeste pela Rua do Marquês de Sá Bandeira (3) Fig. 22 e pelas Avenidas de Berna (4) Fig. 22 e 5 de Outubro (5) Fig. 22 e a Este pelas Ruas de Dona Filipa de Vilhena (6) Fig. 22 e do Arco do Cego (7) Fig.22. O plano “Avenidas Novas”, da autoria de Ressano Garcia, integra-se no “Plano Geral de Melhoramentos da Cidade”. Tem por referência o urbanismo francês do século XIX e vem consagrar definitivamente a ruptura com o crescimento da cidade na faixa ribeirinha. O plano, a urbanização e o loteamento foram de responsabilidade Municipal, numa vasta área expropriada e depois vendida por lotes em hasta pública. A construção dos edifícios realizou-se de forma faseada, ao longo das primeiras décadas do século XX, dando resposta à procura de negócios e rendas imobiliárias. De malha ortogonal com quarteirões rectangulares, que se desenvolve em torno de um eixo gerador formado pela Avenida da Liberdade/Fontes Pereira de Melo/Avenida da República, as Avenidas Novas concretizaram-se em troços sucessivos, delimitados por rotundas desenhadas para articular o sistema viário hierarquizado. Cada um dos troços do eixo define diferentes malhas, que respeitam vias preexistentes. Salientar que as características das malhas sugerem quarteirões compreendidos, numa e noutra direcção, a cotas que distam em média de 2m. 40 Figura 23: Avenida Fontes Pereira de Melo As Avenidas Novas inserem-se em zona considerada quase plana, de declive (0 - 5%), e por isso sem orientação solar definida. Em termos altimétricos, a zona em estudo encontra-se maioritariamente no intervalo (60 - 80m), considerado no presente trabalho de características homogéneas e específicas. Figura 24: Declives e exposições solares 41 Figura 25: MDT e linhas de água e de cumeada Notar que as Avenidas Novas se inserem, na sua maioria, entre as curvas de nível de 70 e 80m. Figura 26: Curvas de nível de 10 em 10m Mediante o referido, a área de estudo coincide com zona considerada apta à edificação. 42 4.2 Bairro Alto Figura 27: Bairro Alto [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] O Bairro Alto encontra-se numa zona alta da cidade de Lisboa, (40 - 60m) e (60 - 80m). Limitado, segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 75], a Norte por uma linha de cumeada, coincidente com a Rua Dom Pedro V (8) Fig. 28. É atravessado por outras duas linhas de cumeada, coincidindo uma delas, com a Rua da Atalaia (9) Fig. 28. A coincidência da Rua Dom Pedro V com uma linha de cumeada faz dela uma rua sinuosa. 43 Figura 28: MDT e linhas de água e de cumeada Figura 29: Rua Dom Pedro V 44 Figura 30: Rua da Atalaia As duas linhas de água inseridas no bairro atravessam o edificado. Tal situação sugeriu que a drenagem da água no caso da linha de água (10) Fig. 28 continuasse através do Arco da Rua da Academia das Ciências. No caso da linha de água à direita na Fig. 28, a modelação do terreno sugere que a drenagem da água se dê mais à direita, na Rua da Misericórdia (11) Fig. 28. Figura 31: Arco da Rua da Academia das Ciências O Bairro Alto apresenta inclinações na ordem dos (5 - 12%), propícias portanto à edificação. De facto, este bairro é de urbanização densa, com ausência de espaços abertos amplos. As ruas têm proporções idênticas entre si, independentemente da sua hierarquia. Ruas principais orientadas Norte-Sul, perpendicularmente ao rio. A malha regular quasi ortogonal de ruas estreitas, quase sempre encerradas ao topo, adapta-se à morfologia do terreno. A envolvente do limite Oeste do bairro, coincidente com a Rua O Século (12) Fig. 32, é no entanto marcada por fortes declives, 45 acima dos 16%, factor que se reflecte numa maior irregularidade da malha. Na zona de declives superiores a 25% o desenho urbano articula-se admiravelmente com o terreno pré-existente através da construção de praças monumentais (13) e (14) Fig. 32 que constituem muros de suporte “resolvendo” assim a elevada diferença de cotas. Figura 32: Declives Figura 33: Praças em zona de declives superiores a 25% 46 Do ponto de vista das exposições solares, o Bairro Alto apresenta uma boa salubridade e equilíbrio térmico uma vez que praticamente não se verificam zonas expostas a Norte, consideradas zonas non aedificandi, verificando-se maioritariamente exposições a Oeste, zona Oeste do bairro, a Este e zonas sem orientação definida. As zonas expostas a Sul coincidem com a envolvente do limite Sul do Bairro, coincidente com a Calçada do Combro - Rua do Loreto (15) Fig. 34, entre a Rua O Século e a Praça Luís de Camões. No centro desta zona exposta a Sul, localizava-se o Palácio Sobral transformado no edifício da Caixa Geral de Depósitos (16) Fig. 34. Figura 34: Exposição solar na envolvente do limite Sul do bairro Figura 35: Rua que sobe em direcção ao limite Sul do bairro A análise da “forma” das curvas de nível, no Bairro Alto, parece não ser muito conclusiva, excepto na definição da forma do Jardim de São Pedro de Alcântara (17) Fig. 36, cujo limite coincide com a localização da cota 70m, e é no terreno definido com a construção de um muro de suporte que permite que o Jardim se desenvolva entre as cotas 60m e as cotas 70m. 47 Figura 36: Curvas de nível de 10 em 10m 4.3 Baixa Figura 37: Baixa [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] 48 Segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 91], a Baixa é limitada a Norte pela Rua da Betesga (18) Fig. 37, entre o Rossio e a Rua da Madalena, e a Sul pela Rua do Arsenal (19) Fig. 37, entre a Praça do Município e o Ministério das Finanças e da Administração Pública. A morfologia urbana coincide com malha reticulada regular: afirmam-se dois pólos, alinhados e regulares - o Terreiro do Paço e o Rossio; desenham-se três arruamentos principais que desembocam no Terreiro do Paço, relacionando-o com o Rossio; definem-se as ruas principais, que correm de Norte para Sul, ligando as duas praças, e as ruas secundárias. Inserida em área considerada quase plana, (0 - 5%), e com boa exposição solar, a Baixa Pombalina é no entanto classificada de zona non aedificandi devido à confluência de linhas de água que lhe atribuem um elevado risco de inundação. De facto, é na Baixa que se unem duas das linhas de água de maior importância de Lisboa, coincidentes com as Avenidas da Liberdade (20) Fig. 38 e Almirante Reis (21) Fig. 38, da qual resulta a linha de água sobre a qual se desenha a Rua Augusta (22) Fig. 38. Figura 38: Exposições solares, MDT e linhas de água e de cumeada Em termos da relação fisiográfica/morfologia, pode-se afirmar que a Baixa Pombalina corresponde a uma intervenção no território muito forte, com aterro no séc. XVI das principais linhas de água da cidade que permitiram a construção do Terreiro do Paço. Esta situação esteve na base da fragilidade demonstrada por este território aquando do terramoto de 1755, e na base do desenvolvimento da tecnologia da construção sobre estacas desenvolvida depois de 1755, exactamente por virem as construções a implantar-se sobre uma antiga linha de água ou sobre áreas adjacentes a esta. 49 Figura 39: Rua Augusta A envolvente dos limites Este e Oeste do bairro apresenta-se declivosa, razão pela qual a construção se torna irregular para além dos mesmos. A Rua da Madalena (23) Fig. 40, coincidente com o limite Este da Baixa, separa uma zona pouco declivosa, na ordem dos (5 - 12%), de uma zona muito declivosa, maioritariamente acima dos 16%. A disposição do edificado da Baixa próxima do referido limite permanece regular dado coincidir com a zona pouco declivosa. Notar a presença, no limite Este do bairro, entre a Rua dos Fanqueiros (24) Fig. 40 e a Rua da Madalena, de um quarteirão de grandes dimensões (25) Fig. 40 constituindo uma espécie de muro de suporte dado o grande aumento de cota para além do mesmo. Este quarteirão tem uma cota de soleira média de 20m, na Rua dos Fanqueiros, e uma cota de soleira média de 30m, na Rua da Madalena. Figura 40: Declives na envolvente do limite Este do bairro 50 Figura 41: Limite Este do bairro O desenho urbano do limite Oeste do bairro deverá estar relacionado com os fortes declives, superiores a 25%, verificados para além do mesmo. A ligação da Baixa ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes faz-se através da Calçada Nova de São Francisco (26) Fig. 42, que parte da Baixa Pombalina com uma cota de implantação na ordem dos 20m e atinge, à altura do Largo da Academia Nacional de Belas Artes, a cota de 30m. Notar o extraordinário desenho desta via, que consegue com um traçado curvo mas de geometria rigorosa, ultrapassar uma diferença de cotas de 10m. O aparecimento dos acentuados declives, nessa zona, acompanham a mudança dos intervalos de altitudes, considerados no presente trabalho de características homogéneas e específicas, de (0 20m) para (20 - 40m). 51 Figura 42: Declives e MDT na envolvente do limite Oeste do bairro Figura 43: Limite inferior esquerdo do bairro - Calçada Nova de São Francisco O quarteirão dos Armazéns do Chiado (27) Fig. 42 funciona como um muro de suporte fazendo a transição entre a cota 10m, na Baixa, e uma cota de 25m, na Rua Garret. É ainda este dramático desnível que leva à necessidade de criação das escadinhas da Rua de Santa Justa (28) Fig. 42 que fazem uma transição da cota de 10m, ao nível da Baixa, à cota de 20m ao nível da Rua do Carmo. 52 Figura 44: Curvas de nível de 10 em 10m Figura 45: Escadinhas da Rua de Santa Justa Em termos formais verifica-se que a necessidade de vencer desníveis de cotas elevadas nos limites nascente e poente da Baixa conduziram a situações urbanas de diferentes graus de interesse. Assim, a nascente a construção do quarteirão entre a Rua dos Fanqueiros e a Rua da Madalena, constitui uma clara barreira arquitectónica que não conecta de forma interessante as áreas a oriente e a área da Baixa. A poente denota-se uma relação muito mais sensível do desenho urbano com a morfologia inicial do terreno. Esta sensibilidade pode ser observada na forma de implantação do edifício dos armazéns do Chiado perfeitamente implantado para estabelecer a relação entre o vale/plano da Baixa e o acidentado da colina. Se a este “momento” do desenho da cidade juntar-se a Calçada Nova de São Francisco, onde a condição da geometria se articula na perfeição com o acidentado do terreno, percebe-se o quão cuidado foi o desenho no limite poente da Baixa Pombalina. 53 4.4 Benfica Figura 46: Benfica [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] Benfica é representativa de zona em que a ocupação dos terrenos foi feita, até aos anos 80, de forma maciça e desordenada. As ruas são hierarquizadas, com vias principais, secundárias e impasses, muitas vezes formando largos entre bandas edificadas. Com o crescimento desordenado originaramse espaços sobrantes entre edifícios que são preenchidos com zonas ajardinadas. Segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 93] a área em estudo insere a Norte a envolvente da Rua da Quinta do Charquinho (29) Fig. 46 e é limitada a Sul pela Estrada de Benfica (30) Fig. 46, a Oeste pela Rua Cláudio Nunes (31) Fig. 46 e a Este pela Avenida do Uruguai (32) Fig. 46. Atravessada por duas linhas de cumeada, uma coincidente com a Rua dos Arneiros (33) Fig. 47, e por uma linha de água (34) Fig. 47, entre aquelas, Benfica apresenta declives pouco acentuados, oscilando maioritariamente entre áreas quase planas, (0 - 5%), e de declive (5 - 12%). Notar a presença, em zona de declive (12 - 16%), a Noroeste da Rua Dr. João de Barros (35) Fig. 47, de amplo jardim (36) Fig. 47 voltado a Oeste e compreendido entre curvas de nível de 90m e 100m. O limite do intervalo de declives mencionado, considerado de características homogéneas e específicas, coincide com o limite do jardim. Benfica localiza-se em zona a diferentes altitudes: (60 - 80m), (80 - 100m) e (100 - 120m). A maior densidade construtiva, na envolvente do limite Oeste do bairro, entre a Rua Cláudio Nunes (37) Fig. 47 e Rua dos Arneiros, está compreendida entre linha de cumeada e linha de água. A disposição do edificado não é influenciada pela forma das curvas de nível. 54 Figura 47: Declives, MDT e linhas de água e de cumeada Figura 48: Curvas de nível de 10 em 10m 55 Figura 49: Rua dos Arneiros Em termos de exposições solares Benfica é considerada zona favorável à edificação verificando-se maioritariamente zonas sem orientação definida, zonas expostas a Oeste, a Este e a Sul. Figura 50: Exposições solares O edificado em Benfica dispõe-se em malha livre, possível de ser obtida dadas as boas características fisiográficas do local. 56 4.5 Campolide Figura 51: Bairro da Calçada dos Mestres [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] O Bairro da Calçada dos Mestres insere-se na área delimitada pela Avenida Calouste Gulbenkian (38) Fig. 51 e pelas Calçadas da Quintinha (39) Fig. 51 e dos Mestres (40) Fig. 51. Atravessado por linha de cumeada (41) Fig. 52 o bairro residencial está localizado em zona alta onde a acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações, (60 - 80m) e (80 - 100m), é perfeitamente visível. Notar que o edificado se localiza entre curvas de nível onde as vias se desenham com extraordinária coincidência. Figura 52: MDT, linhas de água e de cumeada e curvas de nível de 10 em 10m 57 Figura 53: Acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações Figura 54: Acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações, Rua 7 (continuação) Ordenado em torno de esquema viário, o tecido urbano tende a concentrar-se em zonas de declive constante, nomeadamente (5 - 12%) e (16 - 25%), sendo evitados declives superiores a 25%. 58 Figura 55: Declives Mediante o referido, e atendendo a que zonas orientadas a Norte, consideradas zonas non aedificandi, de densidade habitacional sensivelmente igual às orientadas a Oeste, consideradas medianamente aptas à edificação, conclui-se que a distribuição do edificado do bairro em estudo, está intimamente relacionada com a morfologia do terreno e não com as exposições solares. Figura 56: Exposições solares 59 4.6 Chelas Figura 57: Chelas [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] Chelas encontra-se limitada, segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 106], a Norte pelas Ruas Conselheiro Emídio Navarro (42) Fig. 57 e Dr. José Espírito Santo (43) Fig. 57, a Sul pela Avenida Marchal António de Spínola (44) Fig. 57, a Oeste pelas Ruas Eng. Ferreira Dias (45) Fig. 57 e Salgueiro Maia (46) Fig. 57 e a Este pela envolvente da Rua Professor Lopo de Carvalho (47) Fig. 57. Inserida nos intervalos de altitudes considerados de características homogéneas e específicas de (40 - 60m) e (60 - 80m), apresenta declives que oscilam de (0 - 5%) e (5 - 12%). Notar que o bairro é atravessado por linha de cumeada (48) Fig. 58 e encontra-se delimitado a Sul por linha de água (49) Fig. 58 coincidente com parte da Avenida Marchal António de Spínola. É ainda atravessado por uma outra linha de água (50) Fig. 58 que passa por zonas não edificadas. Figura 58: MDT, linhas de água e de cumeada e declives 60 Figura 59: Avenida Mal. António de Spínola No que respeita às curvas de nível verifica-se que a Este do bairro as curvas de 40 e 50m acompanham a forma do mesmo. De facto, a Rua Manuel Teixeira Gomes (51) Fig. 60 coincide sensivelmente com a localização da cota de 50m. Figura 60: Curvas de nível de 10 em 10m 61 Figura 61: Rua Manuel Teixeira Gomes Em termos de exposições solares, Chelas apresenta zonas planas, por isso sem orientação definida, zonas expostas a Este e pequenas zonas expostas a Norte e a Sul. Figura 62: Exposições solares Segundo A Aptidão Ecológica à Edificação [2000], o Plano de Chelas foi já realizado de acordo com critérios do planeamento ambiental ou seja, tendo por base o conceito de Aptidão Ecológica, pelo que a mancha de edificação se situa nas zonas aptas para a edificação. No entanto, o Vale de Chelas, que constitui o principal sistema húmido da zona central de Chelas, é atravessado pela Avenida Santo Condestável (52) Fig. 57. As vias, situadas nos vales, devem implantar-se na linha de separação entre área adjacente e a encosta, de modo a não constituírem um constrangimento ao escoamento da água e do ar. A par da via deverá situar-se um dos corredores primários da estrutura verde, aliás previsto na Estrutura Ecológica - componente ambiental do PDM. A circulação transversal aos vales, deve ser assegurada por viadutos, com altura suficiente para não interferirem com os fluxos de ar e água. Só deste modo se garantem todas as funções inerentes a esta situação 62 ecológica, de modo compatível e sustentável. O bairro do Vale Fundão, a sul da zona de estudo, está situado, segundo a Carta de Aptidão, numa zona não apta para a edificação. A sua localização numa bacia de apanhamento, local de confluência de linhas de água, explica a humidade elevada do local. Este é o principal desconforto sentido pelos habitantes desse local. A existência de situações como esta justificam a necessidade de alertar as entidades responsáveis pelo Planeamento e Ordenamento do Território. A inclusão da Carta de Aptidão e a sua efectiva utilização como instrumento básico de planeamento, contribui de forma decisiva para uma análise mais equilibrada das decisões do foro urbanístico, no respeito pelas leis da natureza e a sustentabilidade ecológica das intervenções na cidade. 4.7 Costa do Castelo Figura 63: Costa do Castelo [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] A Costa do Castelo constitui um tecido muito marcado pela topografia acidentada da colina do Castelo, multiplicando-se as construções numa organização territorial não planificada. Os quarteirões têm formas e tamanhos irregulares e as vias apresentam fortes inclinações, sendo muitas vezes substituídas por escadas de modo a vencer grandes desníveis. De facto, a Costa do Castelo inserese em zona com declives maioritariamente superiores a 25%, sendo considerada, do ponto de vista ecológico, zona non aedificandi. O tecido urbano ordena-se portanto em torno de esquema viário, malha linear, com base em três arruamentos principais, segundo o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 115], dois concêntricos à volta da colina - Rua da Costa do Castelo (53) Fig. 63 e Rua Milagre de Santo António (54) Fig. 63 - e um terceiro que os secciona - Rua da Saudade (55) Fig. 63. Predominam edifícios de habitação colectiva, polarizados por antigos conventos e casas nobres, que hoje albergam equipamentos. 63 Figura 64: Declives Figura 65: Rua Norberto de Araújo Herdeira de uma estrutura urbana com raízes na cidade muçulmana, a cidade desenvolveu-se neste território durante a Idade Média. O Renascimento não teve impacto ao nível da estrutura urbana, mas está implícito na lógica da composição de alguns palácios e na composição da fachada de algumas igrejas. Com a reconstrução que se seguiu ao terramoto de 1755 produziram-se na área grandes 64 alterações, que se manifestam através do alargamento de algumas ruas e da construção de edifícios modernos. No tecido urbano da área, os mecanismos de mudança actuam como episódios parciais e interactivos - quer sejam as alterações morfológicas medievais, quer sejam as renovações morfológicas de alguns elementos a ter lugar a partir do século XIV, que ocorrem dentro de uma estrutura urbana relativamente constante -, de tal modo que a forma da cidade se torna canónica. Da mesma forma, também se constata a notável adaptabilidade do tipo de edificação de habitação à função urbana, validando a relação tipologia - morfologia como instrumento para a compreensão. O século XIX consolidou a reconstrução da área e surgem alguns pequenos equipamentos de apoio e edifícios com maior número de pisos. As alterações do século XX são pouco significativas nesta área. Pode-se, portanto, descrever esta área como um tecido orgânico, onde os sedimentos dos diferentes períodos se sobrepõem em justaposições complexas, onde os estratos de diferentes linguagens criam um discurso cujo significado reside fundamentalmente na sua descontinuidade. Figura 66: MDT e linhas de água e de cumeada Inserida às altitudes de (40 - 60m) e (60 - 80m), verifica-se que os limites interno e externo da Costa do Castelo tendem a coincidir com os limites superior e inferior, respectivamente, dos intervalos de altitudes mencionados e considerados no presente trabalho de características homogéneas e específicas. Salientar que a área de estudo é atravessada por três linhas de cumeada que constituem linhas de separação de zonas construídas. As vias, sinuosas, implantam-se ao longo das curvas de nível. Ordenando-se, o tecido urbano, em torno do esquema viário, verifica-se que a edificação se desenrola paralelamente às curvas de nível, criando-se assim um tipo de morfologia urbana bastante específica da área. 65 Figura 67: Curvas de nível de 10 em 10m Figura 68: Rua de Augusto Rosa Verifica-se que a densidade construtiva da área de estudo é sensivelmente igual em zonas expostas a Norte, a Sul ou a Oeste, consideradas zonas non aedificandi, muito aptas à edificação e medianamente aptas à edificação, respectivamente. Assim, conclui-se que a distribuição do edificado é função da morfologia do terreno e não da exposição solar. 66 Figura 69: Exposições solares 4.8 Encarnação Figura 70: Bairro da Encarnação [Fonte: maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl] Bairro residencial em forma de borboleta orientada a partir de um eixo de simetria principal, Alameda da Encarnação (56) Fig. 70, concede à população baixa densidade, uso de tipologias unifamiliares de cércea reduzida, espaços verdes e estrutura viária hierarquizada. No traçado das redes de circulação, as vias tiveram de se adaptar ao relevo e não o contrário uma vez que o presente bairro constitui um bairro de casas económicas no qual foi imperativo gastar a menor quantia de dinheiro possível. Pode 67 observar-se bem o referido aspecto na alameda principal, que não é completamente linear desde a parte inferior, Oeste, até ao topo, Este. O plano do designado “Bairro Jardim da Encarnação” tem como referência as Cidades-Jardim inglesas teorizadas por Ebenezer Howard. Os bairros económicos são o paradigma da actuação do Estado Novo no panorama urbanístico. Visam a ruralização da população, implantam-se em zonas isoladas, incentivando o apego à casa, à família, ao Estado, à Igreja, copiando o modelo da aldeia portuguesa. Figura 71: Alameda da Encarnação O Bairro da Encarnação insere-se maioritariamente em zona de fracos declives, na ordem dos (0 5%) e (5 - 12%), apresentando a envolvente dos limites Sudoeste e Sul do bairro declives acentuados, acima dos 16%. Tal situação não interfere, no entanto, na simetria do bairro. Figura 72: Declives na envolvente dos limites Sudoeste e Sul do bairro 68 Figura 73: Rua da Portela De acordo com o Atlas Urbanístico de Lisboa [2006, pág: 117], o Bairro da Encarnação é limitado a Oeste e Sudoeste pelas Ruas dos Eucaliptos (57) Fig. 74, coincidente com linha de água, e da Portela (58) Fig. 74, sendo a Norte atravessado por linha de cumeada (59) Fig. 74. No que respeita à altimetria, o bairro em estudo está localizado entre as altitudes (60 - 80m), intervalo considerado no presente trabalho de características homogéneas e específicas, à excepção da zona Norte compreendida entre (80 - 100m). Notar que os limites Sudoeste e Sul do bairro acompanham a fronteira dos intervalos altimétricos (40 - 60m) e (60 - 80m). Figura 74: MDT e linhas de água e de cumeada 69 Figura 75: Curvas de nível de 10 em 10m Figura 76: Transição da Rua dos Eucaliptos para a Rua da Portela Em termos de exposições solares o bairro objecto de estudo apresenta características de excelência dada a orientação a Sul de grande parte da zona. Verificam-se também zonas sem orientação definida e zonas orientadas a Este. 70 Figura 77: Exposições solares Salientar que a localização dos equipamentos colectivos, a Este, não deverá ter sido influenciada pelas características fisiográficas da zona uma vez que esta se apresenta, na generalidade, apta à edificação. 71 Conclusão O estudo da influência das características físicas do território na morfologia, contribuição para uma análise da forma urbana no concelho de Lisboa a análise da cartografia produzida segundo o Método de McHarg, aplicado ao uso do solo edificação, à escala 1:10000 e planimetria da zona. Procedeu-se assim a uma análise global e detalhada da cidade. A análise detalhada incidiu sobre bairros de Lisboa de morfologias urbanas distintas inseridos em zonas de características fisiográficas também distintas, pretendendo-se um estudo detalhado abrangente tanto quanto possível de diferentes situações: Avenidas Novas; Bairro Alto; Baixa; Benfica; Campolide, Bairro da Calçada dos Mestres; Chelas; Costa do Castelo; Encarnação, Bairro da Encarnação. Da análise global de Lisboa concluiu-se que a ocupação daquela foi fortemente influenciada pela morfologia do terreno: os vales são linhas de tráfego, cujas encostas têm geralmente forte densidade de construção. Encostas com exposições solares muito dispares sem que se verifique qualquer tendência numa determinada direcção. As zonas de maior aglomeração de construções e de concentração de grande parte do comércio tradicional coincidem com zonas pouco declivosas a menor altitude. As zonas pouco construídas coincidem com zonas declivosas a maior altitude sendo na sua maioria aproveitadas para a implantação de espaços verdes de média a grande dimensão. Constituem assim o “pulmão” da grande metrópole. Construções maioritariamente inseridas em zonas de declive inferior a 16% uma vez que acima desse valor a edificação se torna perigosa, dispendiosa e de acesso pedonal desconfortável. Da análise detalhada de Lisboa concluiu-se que organização de bairros e quarteirões intimamente influenciada pela morfologia do terreno. Zonas de terreno muito acidentado com construção geralmente disposta em malha linear (Campolide, Bairro da Calçada dos Mestres; Costa do Castelo; Encarnação, Bairro da Encarnação). Zonas de terreno pouco acidentado com construção geralmente disposta em malha reticulada regular (Avenidas Novas; Baixa), malha reticulada irregular (Bairro Alto) ou em malha livre (Benfica; Chelas). As características das malhas das Avenidas Novas sugerem quarteirões compreendidos, numa e noutra direcção, a cotas que distam em média de 2m. A Baixa corresponde a uma forte intervenção no território. O aterro das principais linhas de água da cidade esteve na base da fragilidade demonstrada pelo território aquando do terramoto de 1755, e do desenvolvimento da tecnologia da construção sobre estacas, depois de 1755, exactamente pelas construções virem a implantar-se sobre uma antiga linha de água ou sobre áreas adjacentes àquela. A necessidade de vencer desníveis de cotas elevadas nos limites nascente e poente da Baixa conduziram a situações urbanas de diferentes graus de interesse. Assim, a nascente a construção de um quarteirão de grandes dimensões constitui uma clara barreira arquitectónica que não conecta de forma interessante as áreas a oriente e a área da Baixa. A poente denota-se uma relação muito mais sensível do desenho urbano com a morfologia inicial do terreno: a forma de implantação do edifício dos armazéns do Chiado para estabelecer a relação entre o vale/plano da Baixa e o acidentado da 72 colina, e a Calçada Nova de São Francisco, onde a condição da geometria se articula na perfeição com o acidentado do terreno. Salientar o extraordinário desenho desta via, que consegue com um traçado curvo mas de geometria rigorosa, ultrapassar uma diferença de cotas de elevada. A Costa do Castelo constitui um tecido muito marcado pela topografia acidentada da colina do Castelo, multiplicando-se as construções numa organização territorial não planificada. Os quarteirões têm formas e tamanhos irregulares e as vias apresentam fortes inclinações, sendo muitas vezes substituídas por escadas de modo a vencer grandes desníveis. O tecido urbano ordena-se em torno do esquema viário coincidente com curvas de nível. A edificação desenrola-se portanto paralelamente às curvas de nível, criando-se assim um tipo de morfologia urbana bastante específica da área. A Costa do Castelo é um tecido orgânico, onde os sedimentos de diferentes períodos se sobrepõem em justaposições complexas. Os estratos de diferentes linguagens criam um discurso cujo significado reside fundamentalmente na sua descontinuidade. O Bairro da Calçada dos Mestres, Campolide, corresponde a zona alta onde, à semelhança da Costa do Castelo, a acomodação do edificado às mudanças de declive e elevações é perfeitamente visível. As construções localizam-se entre curvas de nível onde as vias se desenham com extraordinária coincidência. No traçado das redes de circulação do Bairro da Encarnação, as vias tiveram de se adaptar ao relevo e não o contrário uma vez que aquele constitui um bairro de casas económicas no qual foi imperativo gastar a menor quantia de dinheiro possível. De facto, a alameda principal não é completamente linear desde a parte inferior até ao topo. O Bairro Alto é de urbanização densa, com ausência de espaços abertos amplos. A envolvente do limite oeste do bairro é marcada por elevados declives, factor que se reflecte numa maior irregularidade da malha. O desenho urbano na zona de declives superiores a 25% articula-se admiravelmente com o território pré-existente através da construção de Praças Monumentais. Salientar que a “forma” das curvas de nível do Bairro Alto influem na definição da forma do Jardim de São Pedro de Alcântara. É no terreno definido com a construção de um muro de suporte que permite que o jardim se desenvolva entre cotas que diferem de 10m. O crescimento desordenado em Benfica originou espaços sobrantes entre edifícios que são preenchidos com zonas ajardinadas. De referir a presença, em zona de maiores declives, de amplo jardim de limite coincidente com do intervalo de declives onde se insere, considerado no presente trabalho de características homogéneas e específicas. O Plano de Chelas foi realizado de acordo com critérios do planeamento ambiental ou seja, tendo por base o conceito de Aptidão Ecológica, pelo que a mancha de edificação se situa nas zonas aptas para a edificação. No entanto, o Vale de Chelas que constitui o principal sistema húmido da zona central da área em estudo, é atravessado por uma avenida. As vias, situadas nos vales, devem implantar-se na linha de separação entre Área Adjacente e a Encosta, de modo a não constituírem um constrangimento ao escoamento da água e do ar. A par da via deverá situar-se um dos corredores primários da estrutura verde, previsto na Estrutura Ecológica componente ambiental do PDM. A circulação transversal aos vales deve ser assegurada por viadutos, com altura suficiente para não interferirem com os fluxos de ar e água. Só deste modo se garantem 73 todas as funções inerentes a esta situação ecológica, de modo compatível e sustentável. No entanto, o Bairro do Vale do Fundão está situado, segundo a Carta de Aptidão, numa zona não apta para a edificação. A sua localização numa bacia de apanhamento, local de confluência de linhas de água, explica a humidade elevada do local. No que respeita às exposições solares, os bairros que gozam de boa salubridade e equilíbrio térmico, portanto com reduzidas áreas expostas a Norte, são: Bairro Alto; Chelas; Bairro da Encarnação (Encarnação). As Avenidas Novas e a Baixa inserem-se em zona considerada quase plana e por isso sem orientação solar definida. Os bairros da Calçada dos Mestres (Campolide) e Costa do Castelo apresentam zonas orientadas a Norte de densidade construtiva sensivelmente igual às zonas com outras orientações geográficas. 74 Bibliografia ATLAS URBANÍSTICO DE LISBOA, Argumentum Edições, Lisboa, 2006. CIDADE TRADICIONAL VS CARTA DE ATENAS E A METODOLOGIA DOS PLANOS DE EXPANSÃO/REQUALIFICAÇÃO URBANA, Apontamentos da cadeira de Arquitectura e Urbanismo Curso de Engenharia Civil do ISEL. FRANÇA, José Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, Editora Livros Horizonte, Lisboa, 2005. LEVY, Sara Correia, Carta de Aptidão Ecológica à Edificação para o Concelho de Lisboa, Lisboa, 2003. LISBOA, CONHECER; PENSAR; FAZER; CIDADE, Edição Centro de Informação Urbana de Lisboa/CML, Lisboa, 2001. LISBOA EM MAPAS - INFORMAÇÃO GEO-REFERENCIADA, CML, Lisboa, 2001. LISBOA - MORFOLOGIAS URBANAS 1850 - 1950, CML, Lisboa, 1993. LOID ENGENHARIA, Projecto de Ordenamento dos Terrenos Situados entre as Bacias Hidrográficas de São Francisco, Malhada e Moia Moia, Ilha de Santiago, 2004. MAGALHÃES, Mª. Manuela; DIONÍSIO, José; MOREIRA, Ana; LARANJEIRO, Sérgio, A Aptidão Ecológica à Edificação, IN “LISBOA URBANISMO” Nº 9, Boletim da Direcção Municipal de Planeamento e Gestão Urbanística/CML, Lisboa, 2000. MAGALHÃES, Mª. Manuela; SILVA, A. Paula; CUNHA, Natália; CAMPO, Sofia, Delimitação da Estrutura Ecológica Municipal de Loures - Métodos de Análise Espacial para Interpretação da Paisagem, CML, Loures, 2001. TOSTÕES, Ana; COELHO, A. Borges; MARQUES, A. H. Oliveira; TORRES, Cláudio; AMARO, Clementino; PEREIRA, F. A. Baptista; BRANCO, Fernando Castelo; MOITA, Irisalva; FAGUNDES, João; CAETANO, Joaquim de Oliveira; CUSTÓDIO Jorge; GASPAR, Jorge; FRANÇA, José Augusto; MATOS, José Luís; MECO, José; FERNANDES, José Manuel; FERRÃO, Leonor; ATAÍDE, M. Maia; SOROMENHO, Miguel; SALDANHA, Nuno; PEREIRA, Paulo; MOREIRA, Rafael; SILVA, Raquel Henriques; SERRÃO, Vítor, O Livro de Lisboa, Editora Livros Horizonte, Lisboa, 1994. 75 maps.google.com/maps?hl=en&tab=wl www.civil.ist.utl.pt/~ams/PRUCivil/conteudos.htm www.construible.es/images/news/060116_Fujy_Fachadasur.jpg www.ivdp.pt/pagina.asp?codPag=17&codSeccao=4&idioma=0#b 76 Anexos Anexo 1: Planimetria a) - Carta Hidrográfica a) Anexo 2: Planimetria a) - Carta Hipsométrica a) Anexo 3: Planimetria a) - Carta de Declives a) Anexo 4: Planimetria a) - Carta de Exposições Solares a) Anexo 5: Planimetria a) - Carta de Aptidão à Edificação a) Anexo 6: Planimetria b) - Carta Hidrográfica b) Anexo 7: Planimetria b) - Carta Hipsométrica b) Anexo 8: Planimetria b) - Carta de Declives b) Anexo 9: Planimetria b) - Carta de Exposições Solares b) Anexo 10: Planimetria b) - Carta de Aptidão à Edificação b) Anexo 11: Planimetria c) - Carta Hidrográfica c) Anexo 12: Planimetria c) - Carta Hipsométrica c) Anexo 13: Planimetria c) - Carta de Declives c) Anexo 14: Planimetria c) - Carta de Exposições Solares c) Anexo 15: Planimetria c) - Carta de Aptidão à Edificação c) Anexo 16: Planimetria d) - Carta Hidrográfica d) Anexo 17: Planimetria d) - Carta Hipsométrica d) Anexo 18: Planimetria d) - Carta de Declives d) Anexo 19: Planimetria d) - Carta de Exposições Solares d) Anexo 20: Planimetria d) - Carta de Aptidão à Edificação d) 77