mestres da cardiologia
Reinaldo Chiaverini, um
cardiologista vítima da ditadura
A menção não é a toa, como lembra o professor
Michel Batlouni: Chiaverini é considerado por
seus pares um dos maiores cardiologistas clínicos
do Brasil. Seu histórico profissional, cheio de
predicados, desperta tanto interesse quanto a
perseguição de que foi vítima durante os “anos
de chumbo” da ditadura militar, a qual culminou
com a cassação de seu título de professor da
Universidade de São Paulo (USP).
A cassação, que tanto magoou Chiaverini,
acabou sendo, porém, um verdadeiro laurel:
seja por causa dos professores, verdadeiras
sumidades, aposentados com ele, seja porque
foi a forma do governo militar tentar calar um
dos únicos focos de resistência e de luta pela
liberdade no Brasil.
“
Chiaverini é considerado
por seus pares um dos
maiores cardiologistas
clínicos do Brasil.
Michel Batlouni
“
O terceiro editor dos Arquivos Brasileiros de
Cardiologia, Reinaldo Chiaverini, tem uma
rica trajetória. É autor de obra baseada na
classificação americana das cardiopatias, com
prefácio de Paul White, lendário cardiologista
americano. Foi um dos responsáveis por fazer
do Hospital do Servidor Público um centro de
referência. Fundou o Fundo de Aperfeiçoamento
e Pesquisa em Cardiologia (Fapec), atual
Diretoria de Promoção de Saúde Cardiovascular
da SBC, que dirigiu por mais de 20 anos. E, na
ata de fundação da Sociedade de Cardiologia do
Estado de São Paulo (Socesp), é o único signatário
apresentado como “professor”.
A crise começou com a promoção do então
reitor Luiz Antonio Gama e Silva guindado ao
cargo de ministro da Justiça. Com sua saída,
por duas vezes, a lista apresentada para a
escolha do vice-reitor (que seria o reitor
em exercício) não contemplou os amigos do
ministro. Em conseqüência, Brasília decidiu
investigar “atividades subversivas na USP”.
E a “investigação” recomendou a suspensão
dos direitos políticos de 52 pessoas, 44 das
quais professores.
Após o Ato Institucional nº 5, foi baixado
um decreto cassando 42 “servidores
federais”. No meio deles, foram
incluídos três professores da USP,
nenhum deles funcionário federal
– Florestan Fernandes, Jaime Tíomno e
Vilanova Artigas. A universidade reagiu
em peso, clamou que o decreto era
ilegal e a ditadura contra-atacou,
em 29 de abril de 1969, com outro
decreto, cassando 23 professores,
entre os quais Reinaldo Chiaverini.
O decreto, novamente, nada valia,
pois seis dos “professores da USP”
não pertenciam à instituição, entre eles, Caio
Prado Júnior.
Jornal SBC 88 - Jul/Ago 2008
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