CONDIÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PSICOLOGIA
CRÍTICA: AUTONOMIA, ALIANÇAS E INSURGÊNCIA1
Fernando Lacerda Jr. – UFG
Introdução
Desde os anos 1960, certos grupos de profissionais e pesquisadores empenhados
em analisar criticamente a psicologia e as relações entre, de um lado, ideias e práticas
psicológicas e, de outro, as relações de poder existentes passaram a descrever suas
propostas como parte de uma “Psicologia Radical” e, posteriormente, de uma
“Psicologia Crítica”. Este último termo é parte da história recente da Psicologia e, até
onde se sabe, possui pouco mais de quarenta anos (FOX, 2012).
O presente trabalho apresenta uma breve história sobre o termo “psicologia
crítica” e problematiza alguns de seus desdobramentos contemporâneos. Nesta análise,
diferenciaremos duas tendências da psicologia crítica: a primeira, representada por
correntes hipersubjetivista (TONET, 2006), reproduz o movimento de “destruição da
razão” (COUTINHO, 1972; LUKÁCS, 1967); a segunda é caracterizada por tentativas
de converter a psicologia em um instrumento de crítica ideológica e de produção de
práticas emancipadoras. Muitas vezes, esta segunda vertente é marcada por diálogos
com o marxismo, quando não é claramente uma tentativa de construir “psicologias
marxistas” ou teorias da subjetividade/personalidade de base marxista.
Além desta breve apresentação histórica, o presente texto destaca três elementos
fundamentais para o surgimento da segunda tendência da psicologia crítica: (1) a
possibilidade de autonomia para o desenvolvimento da ciência, o que possibilitou uma
suspensão, ainda que temporária e relativa, das influências fetichizantes do mercado e
1
O presente trabalho é a apresentação parcial de algumas reflexões que ainda estão em processo de
elaboração pelo autor. Assim, boa parte das reflexões (especialmente aquelas apresentadas no tópico 3 do
trabalho), devem ser tomadas como uma posição provisória e que devem ser aprofundadas.
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do processo de decadência ideológica; (2) o estabelecimento de alianças com os setores
explorados e oprimidos das sociedades burguesas, o que possibilitou a compreensão dos
fundamentos da sociedade burguesa; (3) a existência de atividades insurgentes pela
classe trabalhadora, isto é, a irrupção e intensificação de lutas revolucionárias que
demonstraram, no nível da vida cotidiana, a falsidade das ilações burguesas e o caráter
social e histórico da subjetividade.
Sem essas três condições, a efetivação de uma psicologia crítica interessante
para aqueles preocupados em interpretar e transformar o mundo é, no mínimo, algo
difícil. Portanto, pode-se afirmar que o principal desafio para a “psicologia crítica” hoje
é a incorporação da perspectiva da emancipação humana, mas este movimento não é um
movimento puramente acadêmico e produto de vontades individuais. Por isso, a
reflexão sobre condições que precipitam uma psicologia efetivamente crítica é
fundamental para aqueles que hoje se preocupam em construir uma alternativa para
além do capital.
A Psicologia Crítica: entre a apologética e a emancipação humana
O conjunto de teorias e métodos que se apresentam, na atualidade, como
Psicologia Crítica sempre enfatizam o duplo caráter deste campo: crítica da sociedade e
crítica da psicologia (HEPBURN, 2003; MONTERO, 2009; WALKERDINE, 2001).
Isto significa que o termo Psicologia Crítica não revela a adesão a uma corrente teórica
específica e nem explicita um projeto de sociedade claro, mas apenas aponta para uma
ideia de crítica sobre a sociedade ou sobre modelos predominantes de ciência e
profissão na psicologia (PARKER, 1999; MONTERO, 2009).
O termo abarca desde análises de processos psicossociais opressivos – racismo,
sexismo, exploração, etc. – até a elaboração teórica de propostas alternativas à chamada
“psicologia dominante”. Neste último caso, podem ser encontrados trabalhos sobre
construcionismo social, psicologia cultural, teoria crítica, etc. (dentre vários:
HEPBURN, 2003; MONTERO, 2009; PARKER, 1999; WALKERDINE, 2001)
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No entanto, uma análise um pouco mais cuidadosa revela a existência de duas
vertentes da psicologia crítica. A primeira bebe na fonte do pós-estruturalismo, fetichiza
a categoria subjetividade e, usualmente, rejeita em um ou dois parágrafos as
contribuições da tradição marxista. A segunda nem sempre utiliza a formulação
“psicologia crítica”, está mais preocupada com a emancipação humana e,
marcadamente, é influenciada pelo marxismo.
A Psicologia Crítica irracionalista
Walkerdine (2001) apresenta a seguinte definição de psicologia crítica:
Psicologia crítica pode ser pensada enquanto um termo guarda-chuva
que descreve um amplo número de respostas politicamente radicais e
de diferenças com a psicologia dominante (mainstream psychology);
ela inclui a perspectiva daqueles da esquerda, do feminismo, da
política étnica e antirracista, movimentos ecológicos, novas formas de
espiritualidade e trabalho radical em um sentido mais geral. Os
movimentos da psicologia crítica podem ser datados até os
movimentos contra-culturais, a antipsiquiatria, a Nova Esquerda, os
movimentos por direitos civis e das mulheres (Walkerdine, 2001, p.9).
Parker (1999; 2007b) em um ensaio que faz uma análise de síntese sobre os
primeiros debates críticos em psicologia, propõe quatro elementos constituintes da
psicologia crítica:

a análise de como algumas formas de ação e experiência psicológicas são
privilegiadas e de como elas agem a serviço do poder;

o estudo da construção histórica de todas as variedades de psicologia e
das formas pelas quais elas podem confirmar ou resistir às
pressuposições ideológicas dominantes;

o estudo das formas de vigilância e autoregulação cotidianas e das
formas em que a cultura psicológica influencia a vida cotidiana;
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
o estudo da influência da psicologia humana cotidiana sobre o trabalho
acadêmico e profissional e sobre como o cotidiano pode servir como
resistência às práticas disciplinadoras contemporâneas.
Nestas definições pode-se notar que há certa influência do pós-estruturalismo
(ver também HEPBURN, 2003) Junto com a hegemonia do pós-estruturalismo, há uma
notável ênfase sobre a centralidade da subjetividade. Tal como os irracionalistas,
psicólogos críticos contemporâneos estão obcecados com a subjetividade como única
fonte de inteligibilidade.
Assim, um eminente autor nos estudos vygotskyanos afirma que:
Em um mundo no qual um rumor ou uma especulação subjetiva causa
impacto demolidor em uma economia – que, em sua versão
globalizada, é cada vez mais sensível a momentos subjetivos -, é
difícil ignorar este momento [a subjetividade] dos processos humanos.
Se a modernidade foi mais sensível ao controle e à objetividade, já
que a própria vida moderna desenvolveu a possibilidade desse sentido
subjetivo, no que teve de ilusão e distorção na apreciação humana do
mundo, o advento pós-moderno (termo ainda em discussão
acrescentou com força o protagonismo subjetivo e desvaneceu toda
ilusão de objetividade universal” (González Rey, 2003, p. X).
Da mesma forma, Blackman, Combry, Hook, Papadopoulos e Walkerdine
(2008) definem a subjetividade da seguinte maneira:
Subjetividade é sempre incompleta, parcial, não-linear. É inacabada
porque existe apenas no presente. (...); é não-linear porque interrompe
a determinação e colonização do presente pelo passado (...); é parcial
porque não somos totalmente conscientes de como nos tornamos o que
nós somos (BLACKMAN et al., 2008, p. 16).
Ainda segundo os autores, são precisamente estes traços que fazem da
subjetividade “um agente ativo de análise e transformação social, política e cultural”
(BLACKMAN et al., 2008, p. 16).
Com a hipertrofia da subjetividade, vem uma concepção profundamente
voluntarista e ingênua de transformação social. Por exemplo, Papadopoulos, Stephenson
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e Tsianos (2008) argumentam que o verdadeiro motor das transformações sociais é a
fuga. Até mesmo o fim do feudalismo foi um produto da fuga: o capitalismo foi a
solução encontrada pelo controle para responder à fuga dos camponeses da terra. A
imobilidade necessária à reprodução do feudalismo foi desafiada pelo movimento de
corpos que abandonavam a terra. Por causa da fuga da terra, o feudalismo foi
transformado com a finalidade de controlar, reprimir e disciplinar a mobilidade dos
corpos. A fuga estaria presente em diversos processos de transformação social:
a fuga cria uma forma de energia que potencialmente rompe o
equilíbrio de um regime de controle existente; então, um novo regime
de controle precisa ser estabelecido com a finalidade de apropriar esta
energia e transformá-la em uma nova subjetividade social
administrável (PAPADOPOULOS; STEPHENSON; TSIANOS, 2008,
p. 52).
A fuga, de acordo com os autores, só é possível fora da política, fora da
vigilância e o seu principal traço é ser uma política imperceptível.
A política imperceptível muda a sociedade sem mesmo ter esta
intenção. Ela se torna uma força constituinte porque constrói novas
realidades materiais onde ela opera, não porque ela busca erigir uma
sociedade melhor em geral. A política imperceptível não acredita em
um futuro por vir, ela acredita nas ações cotidianas, ela ama os
campos em que opera, ela traça o futuro no presente, ela subverte
perspicazmente tudo o que existe para manter a integridade de um
dado campo de poder (PAPADOPOULOS; STEPHENSON;
TSIANOS, 2008, p. 52).
Não existe teleologia na política imperceptível, mas apenas ausência de
propósitos (purposelessness). Ela não se liga a nenhum grupo social, mas a qualquer
“comunidade de pessoas que se encontram em atos de produção de fuga”
(PAPADOPOULOS; STEPHENSON; TSIANOS, 2008, p. 258).
Com o exposto fica claro que esta vertente da psicologia crítica não passa de
uma das manifestações do pensamento burguês decadente (LUKÁCS, 1965/2010). Não
há ultrapassagem dos limites da sociedade burguesa. Há, no melhor dos casos, protestos
românticos anticapitalistas, que refletem a angústia resultante das crises do modo de
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produção capitalista. Por se manterem dentro dos limites da sociedade burguesa,
resultam em apologias indiretas da ordem instituída. Ao transmutar em condição
humana geral uma situação histórica específica, as proposições irracionalistas terminam
justificando a ordem social (COUTINHO, 1972; LUKÁCS, 1967; PINASSI, 2009;
TONET, 2006).
A psicologia crítica insurgente
Outro tipo de crítica é aquela que se propõe a ir além dos limites do pensamento
burguês e que encontra no contributo marxiano ou na tradição marxista, os elementos
fundamentais para problematizar a realidade com o fim de superá-la. Neste caso, as
possibilidades da crítica no interior da psicologia estão enraizadas nos caminhos do
processo histórico de autoconstrução humana, isto é, nos avanços e retrocessos das lutas
da classe trabalhadora por emancipação humana.
Há aqui uma enorme quantidade de trabalhos que, desde o início do século XX
tentaram aliar a luta de setores explorados e dominados em nossa sociedade com a
psicologia e, neste processo encontraram no marxismo uma fonte de inspiração. Desde
trabalhos que tentavam estabelecer um diálogo entre marxismo e psicologia com a
finalidade de aprimorar a luta socialista (ver um exemplo pioneiro em: FRAINA, 1915)
até aqueles que criticaram mais profundamente certos fenômenos “psi”, também pelo
diálogo com o marxismo. Um exemplo ilustrativo é a chamada “Psicologia Radical” de
Brown (1973)– que apontava, por exemplo, para a relação entre “doença mental” e
alienação (no sentido marxista do termo).
Neste campo, há obras que, ainda que não tratem diretamente de socialismo,
criticam e lutam contra o capitalismo e elaboraram ideias e práticas críticas na
psicologia por meio do diálogo com o marxismo: Holzkamp (1991) refletiu sobre a
ampliação do controle e da participação consciente de sujeitos no processo geral de
reprodução social de suas condições de vida; Ratner (2012) elaborou uma Psicologia
Macrocultural com a finalidade de identificar como a cultura organiza fenômenos
psicológicos e, assim, pensar processos de mudança social com a finalidade de superar
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problemas psicológicos. Lucien Sève (1979) afirmou que a psicologia pode contribuir
ao socialismo questionando mistificações ideológicas sobre os seres humanos e sua
personalidade e estudando as complexas mediações entre os movimentos gerais da
sociedade e a constituição de individualidades concretas. Martín-Baró (1987/1998), em
sua psicologia da libertação, afirmou que o fatalismo – um processo psicossocial
produzido em relações sociais de exploração – só pode ser desenvolvido mediante uma
“prática de classe”, isto é:
a superação do fatalismo das maiorias populares latino-americanas
requer uma mudança revolucionária. [...] Somente a prática
revolucionária permitirá aos povos latino-americanos romperem a
inflexibilidade de estruturas sociais congeladas em função de
interesses minoritários e superar os “cem anos de solidão” que os
mantêm à margem da história, atrelados ao julgo de um destino fatal
(MARTÍN-BARÓ, 1987/1998, p. 101).
Obviamente, é parte deste leque de trabalhos a pioneira articulação entre
psicologia e socialismo realizada por Vygotsky. Preocupado com a criação do “homem
novo” no interior da revolução russa, Vygotsky (1930/2006) argumenta que, por ser
histórico e social, o ser humano não encontra qualquer barreira natural ao seu
desenvolvimento. Toda miséria e toda limitação humana decorre de processos que
podem ser modificados, destruídos, superados. Por isto, quando a sociedade é marcada
pela divisão entre classes sociais, a personalidade se reduz a um desenvolvimento
unilateral, no qual as capacidades humanas emergem de forma distorcida. Assim,
Vygotsky (1930/2006) conclui que: “Tão-só uma elevação de toda a humanidade a um
nível mais alto de vida social – a libertação de toda a humanidade – pode conduzir à
formação de um novo tipo de homem” (p. 11-12).
Como se pode notar, este tipo de psicologia crítica, ao contrário da primeira
vertente, não tem dificuldades em indicar a necessidade da superação das sociedades
regidas pelo capital. Da mesma forma, também não tem dificuldade em apresentar quem
são os sujeitos revolucionários e não se perde na romantização de mudanças subjetivas,
pois apontam a dialética da subjetividade e da objetividade no processo de constituição
da individualidade.
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As condições da psicologia crítica
Há claramente duas vertentes que podem ser nomeadas de críticas. Para aqueles
preocupados com a emancipação humana, apenas a segunda parece ser interessante.
Não obstante diversas contradições e lacunas que podem ser encontradas em alguns
trabalhos desta segunda vertente, parece ser interessante analisar que condições
possibilitaram o emergir de concepções críticas em psicologia que não apenas realizam
um fetiche da subjetividade, mas buscam interpretar e transformar a sociedade
capitalista. Se as ideias não caem do céu, é fundamental analisar porque alguns
psicólogos críticos apontam claramente para projetos sociais anti-capitalistas, enquanto
outros, de forma mais ou menos refinada, reafirmam teses que endossam ou
universalizam a exploração do homem pelo homem. Três condições parecem estar
invariavelmente presentes nos trabalhos de crítica anticapitalista na psicologia:
autonomia para o desenvolvimento científico; alianças com a classe social
revolucionária, isto é, o proletariado; a intensificação de atividades insurgentes pela
classe social revolucionária.
Autonomia
De acordo com Lukács (1966), arte e ciência partem da vida cotidiana e
possibilitam o seu enriquecimento e a sua transformação. No entanto, o fato da ciência
ou da arte contribuir para o enriquecimento da vida cotidiana, não significa que aquelas
são meras derivadas desta. É necessária uma diferenciação e relativa independência da
ciência ou da arte em relação à vida cotidiana para que exista este processo de
enriquecimento. Fazendo um paralelo com a ideia de Lênin sobre a intervenção do
partido revolucionário sobre o movimento espontâneo da classe trabalhadora, Lukács
(1966) afirma que a superação qualitativa do pensamento cotidiano (o pensamento do
homem inteiro) só pode se dar pelo abandono do pensamento cotidiano, isto é, pela
ciência.
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No entanto, isto não significa que exista um cancelamento da relação dialética
entre vida cotidiana e ciência ou arte. Discutindo o tema da liberdade na arte, Lukács
(1965) lembra que a ideia de um artista completamente livre é tão ilusória quanto a de
um produtor de mercadorias livre em relação ao mercado, isto é, tanto um (artista /
cientista), quanto outro (trabalhador) estão sujeitos às leis do mercado. Por isto: “a
liberdade total de invenção torna-se, na realidade, uma servidão” (LUKÁCS,
1965/2010, p. 272).
Assim, separar radicalmente a ciência da vida cotidiana ou convertê-la em algo
nada diferenciado da vida cotidiana são duas posturas que cumprem a função social de
eliminar qualquer relação orgânica entre ciência e vida cotidiana. A discussão
lukacsiana demonstra que a ciência emerge como um complexo de práticas sociais
voltadas ao estudo das conexões causais reais de distintos entes objetivos – os
complexos inorgânico, orgânico e social – as suas descobertas contribuem para a
elaboração de uma imagem desantropomorfizada da realidade. Desta forma, pelo menos
potencialmente, a ciência enriquece a vida cotidiana servindo como guia para a ação
humana e como base de construção de uma concepção de mundo historicamente
condicionada (ver também: HENRIQUES, 1978).
Assim, quando se fala da autonomia aqui não é da chamada liberdade atual, mas
sim daquela autonomia que possibilita a suspensão temporária da vida cotidiana e,
assim, o enriquecimento do gênero humano apontada originalmente por Lukács (1965).
A defesa dessa autonomia significa, objetivamente, envolver-se em uma
“incessante luta de vida ou morte” contra o “aparelho de produção e de distribuição de
mercadorias criado pelo capitalismo” (LUKÁCS, 1965/2010, p. 275) que deve ser
travada pelo artista ou pelo cientista (no caso analisado aqui: o psicólogo crítico).
Esta autonomia é aquela que, em alguma medida, esteve presente nas atividades
de Vygotsky (ao menos, antes do autor vivenciar o recrudescimento do stalinismo) após
a Revolução de Outubro (alguns detalhes interessantes aparecem na problemática
biografia de VAN DER VEER; VALSINER, 1999). Da mesma forma, a situação sui
generis da Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas” em El Salvador durante
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a guerra civil que marcou o país na década de 1980 criou, em alguma medida, um
espaço favorável à produção crítica de Ignacio Martín-Baró (ver WHITFIELD, 1992).
Alianças
A segunda dimensão importante é a aliança com as classes exploradas e
oprimidas, especialmente a classe revolucionária. Não se trata aqui de estabelecer a
velha oposição stalinista entre ciência burguesa e ciência proletária, mas sim de retomar
a tese discutida por Löwy (1989) de que o conhecimento da realidade está relacionado
com as condições de possibilidade que certas perspectivas oferecem. De acordo com o
marxista brasileiro, são os grupos e classes revolucionários que buscam construir um
“reino de liberdade” – e não apenas grupos que buscam transformar a realidade para
trocar uma forma de dominação por outra – que portam as melhores possibilidades de se
gestar um conhecimento crítico e transformador.
Neste sentido, a adoção da perspectiva da classe trabalhadora é aquela que cria
as melhores possibilidades para o conhecimento efetivo e crítico da realidade. Esta tese
é profundamente devedora de Lukács (1965/2010) e sua análise do processo de
decadência ideológica. O autor retoma as teses de Marx sobre como a conversão da
burguesia em classe conservadora cria pressões e deformações no processo de
conhecimento da realidade. A questão central passa a ser se o conhecimento justifica ou
não o status quo e a sociedade do capital. O movimento da realidade deixa de ser o
ponto de partida, mas sim o processo de legitimação da ordem social. Neste sentido, o
pensamento: “não é mais fecundado pelas contradições do desenvolvimento social” [...],
mas pelas “necessidades econômicas e políticas da burguesia” (Lukács, 1965/2010,
p.52).
A aliança com a classe revolucionária passa, portanto, a ser uma necessidade
fundamental para o processo de apropriação e crítica do movimento do real (LÖWY,
1989). Algo semelhante é afirmado por Dussel (2001) em sua noção de ciência social
crítica. Para o autor, uma teoria só pode ser crítica se for negativa, materialista e,
fundamentalmente, se tomar parte, efetiva e praticamente, junto às vítimas. Ciência
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social crítica é aquela que, desde um posicionamento realista crítico, analisa o que a
realidade existente nega, assim como os problemas fundamentais colocados pelas
situações-limite vividas pelas vítimas.
Assim, a abertura para um novo horizonte crítico no âmbito das ciências
humanas ou da filosofia depende de um posicionamento ao lado das vítimas, o qual é
condição de possibilidade para uma exterioridade prática e utópica necessária para a
crítica da totalidade existente e a prefiguração de uma nova sociedade. Nas palavras do
filósofo argentino, foi justamente o compromisso com a luta revolucionária do
proletariado (as vítimas) é o que criou as condições de possibilidade para a elaboração
de um “‘juízo científico negativo’ crítico do capital” (DUSSEL, 2001, p. 269).
Assim, fazer ciência social crítica, tal como já se afirmou a partir de Dussel
(2001), é tomar parte ao lado das vítimas. No entanto, é preciso lembrar, com as
discussões de Löwy (1989), que a classe que tem melhores condições para apreender a
totalidade é a classe revolucionária, isto é, não são quaisquer vítimas em abstrato, mas
sim o proletariado.
Uma psicologia crítica que busca evitar a retomada da apologética presente nas
análises relativistas e niilistas que vêm caracterizando o campo atualmente pode ser
facilitada pela clara aliança com a perspectiva e as lutas da classe trabalhadora.
Atividade insurgente
A última condição para o fortalecimento de uma efetiva psicologia crítica parece
ser a intensificação da atividade de mudar o mundo enquanto ele é interpretado naqueles
momentos em que o proletariado passa à ofensiva política e realiza revoluções sociais.
Nestas situações específicas há uma profunda transformação nas formas de se viver e de
se compreender a vida humana que facilitam a explicitação de psicologias críticas.
Parker (2007a) pontuou este aspecto:
A revolução abala as categorias que usamos para dar sentido à
experiência; mostra o quão artificial, ainda que convincente, é a
separação entre o “individual” e o “social” sob o capitalismo, assim
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como a atividade de mudar enquanto se interpreta o mundo revela que
nossa individualidade é completamente social (Parker, 2007a, p. 147).
Junto com o desafio colocado ao ordenamento burguês pela atividade de
interpretar e mudar o mundo do proletariado, emerge um intenso combate às noções
hegemônicas de indivíduo e sociedade. As mais duras críticas à psicologia, assim como
as mais ricas e articuladas tentativas de reconstruí-la, são um subproduto das ofensivas
proletárias.
Ao mesmo tempo em que os sistemas existentes de conhecimento são
reavaliados, a revolução é uma oportunidade de fazer um balanço
sobre o que pode ser conservado das velhas formas de compreender o
mundo. É nestes momentos que disciplinas como a psicologia, que
fazem do isolamento individual uma virtude, são abaladas em seu
âmago e podemos começar a ver algo completamente diferente surgir
(Parker, 2007a, p. 148).
De fato, a história parece reforçar a tese de Parker. As elaborações mais
profundas, ousadas e que melhor floresceram no campo da psicologia crítica sem recair
na apologética da ordem burguesa foram aquelas que brotaram em momentos de
ofensivas anticapitalistas. Como falar da psicologia histórico-cultural de Vygotsky sem
a revolução russa? Como analisar o surgimento da Psicologia Crítica Alemã (Kritische
Psychologie) de Holzkamp e colaboradores, sem remeter às rebeliões de 1968? Como
analisar a psicopolítica de Frantz Fanon sem fazer referência à luta por libertação
nacional na Argélia? Como descrever a psicologia da libertação de Martín-Baró sem
descrever a atividade insurgente da FMLN?
O caso de Vygotsky parece ser o mais expressivo. De fato, a atividade
revolucionária de se construir uma nova sociedade é o pano de fundo ineliminável da
obra vygotskiana (TULESKI, 2008). Tão importante quanto a sua tese de que as
funções psíquicas superiores se desenvolvem no interior de relações sociais específicas
é a sua convicção de que toda miséria humana pode ser modificada, destruída e
superada (Vygotsky, 1930/2006). Da mesma forma, o autor afirma que uma nova
psicologia só pode surgir em uma nova sociedade:
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Nossa ciência não podia e nem pode desenvolver-se na velha sociedade. Ser
dono da verdade sobre a pessoa e da própria pessoa é impossível enquanto a
humanidade não é dona da verdade sobre a sociedade e da própria sociedade. Pelo
contrário, na nova sociedade, nossa ciência converter-se-á no centro da vida (Vygotsky,
1927/1997, p. 406).
Considerações finais
O presente trabalho descreveu, ainda que de forma geral e esquemática, duas
vertentes da psicologia crítica que podem ser diferenciadas por sua relação com a
apologética da ordem burguesa ou com a perspectiva da emancipação humana de Marx.
No primeiro caso, há uma vertente da psicologia crítica marcadamente caracterizada
pelo irracionalismo pós-moderno, isto é, que, em última instância justifica e sustenta
sociabilidades regidas pelo capital. Intelectuais mais próximos das fundações de
pesquisa do que da classe trabalhadora (PETRAS, 1996), que afirmam que a derrota dos
projetos de reformar ou controlar o capital (sobre este tema ver MÉSZÁROS, 2009), foi
a demonstração da insuperabilidade da sociedade do capital (ver PINASSI, 2009) são
aqueles que, hoje, hegemonizam a psicologia crítica.
No entanto, uma segunda vertente – cuja manifestação é facilitada pela
autonomia, pela aliança com a classe trabalhadora e com a intensificação de sua
atividade insurgente – se aproxima da perspectiva da emancipação humana. Além destas
condições fundamentais, a discussão desenvolvida tentou dar algumas indicações sobre
como algumas das melhores perspectivas da psicologia crítica foram enriquecidas pelo
marxismo. Desta forma, a afirmação de que “somente o marxismo pode nos salvar”
(PARKER, 2003) continua sendo verdadeira para aqueles implicados com a construção
da psicologia crítica.
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