QUAL DOS DOIS?
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CONTINUAÇÃO.
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aniel vio o sorriso e pareceu-lhe comprehender.
Mas
que tem isso? perguntou elle.
----Nada, acudio Amélia;
quer dizer que está mais
perto.
De quem ?
Ora de quem! d'ella!
Não conheço!
Augusta.
i
' ¦
fi
-Ora!
Daniel respondeu com uma expressão
que simulava indifferença; mas
se devo confessar a verdade, não o era. Quando o
procurador lhe trouxe
a noticia de que havia casa na rua de Mata-Cavallos, o rapaz
estimou a
noticia e acceitou a casa.
O facto é, disse Amélia,
que ella pensa no senhor.
Em mim?
Cuido
que sim, porque ha dias, indo eu lá, duas vezes me perguntou se estava bom. Quando me
perguntou a segunda vez sorri como ha
pouco fiz, e ella protestou calorosamente, mas debalde; via-se
que era
um protesto apparente.
*%:.
T. X. — Novembro de 1872.
11
I
t -Si
322
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
Daniel ouvio attento as palavras de Amélia.
E que não fosse! disse elle; como eu não vou para lá por causa d'ella!
Creio, respondeu Amélia; mas o fogo ao pé da pólvora...
Eu não sou pólvora, nem fogo...
A conversa ficou aqui. D'ahi a dias, Daniel estava completamente mudado.
•
A casa de Daniel ficava do lado opposto ao da casa de Augusta, e um
ver-se de uma janella; foi no
assim
ainda
mas
distante,
podiam
pouco
fortuito ou expressivo? Não
Seria
a
vio.
mais
nunca
depois,
dia,
primeiro
sabia.
X.
-.
&
No fim de quinze dias, recebeu Daniel um bilhete do tio de Augusta
convidando-o a ir passar a noite com elle.
Deveria ir? Sem duvida que sim. Não queria parecer que se mettia á
cara da moça. O orgulho lutava n'elle por dois modos; lutava retendo-o
longe de Augusta para não parecer que a adulava; lutava impellindo-o
para lá a ver se triumphava d'ella. É difíicil que com uma luta collocada
n'este terreno venha bom resultado.
Daniel só pela tarde adiante resolveu ir á casa de Augusta.
Era uma reunião intima; conversou-se e tocou-se; não se dansou.
O tio de Augusta desejou que Daniel considerasse a casa como sua ;
que se não prendesse por simples considerações de ceremonias enfadonhas. Posto que Daniel tivesse em pouco a conversa das salas, não por
desprezo reflectivo, mas por gênio e educação, todavia não ficava na sombra desde que lhe fosse necessário desempenhar-se como cavalheiro polido. Tinha natural espirito; a sua conversa era fácil, brilhante, sem ser
profunda, cousa que agrada absolutamente ás mulheres. Além d'isso, o
rapaz queria impor-se no espirito da moça; e como fazel-o senão por
meio d'esses triumphos de eloqüência familiar?
Mas Augusta parecia conhecer todas essas armas e a intenção com que
eram manejadas; tratou Daniel como a todos os outros, em perfeito pó de
igualdade. Nem lhe concedeu d'esta vez a distincçâo de desdém que tanto
agrada a certos caracteres; nivelou-o com as demais pessoas. /
Fuma oceasião pedio um dos amigos da casa que a moça cantasse a
cavatina da Norma, justamente na oceasião em que Daniel, por entabolar
intimidade, lhe pedia um pedaço da Luciá.
Collocada entre os dois pedidos, Augusta observou :
1
¦¦¦
I
0
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
- Não
posso executar ambas as cousas ao mesmo tempo
ser primeira. Qual d'ellas ? Resolvam
entre si
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des^ttoiTr
Prefere»™. -
ou depois o reclamado
pelo rapaz.
Estes e outros incidentes
produziram em Daniel,o effeito natural- o
quella ut. ja se pode drzer que ao coração do rapa.
rompia a aurora do
E cousa singular, esse amor não
era, como em outros casos, um resultado de sympathia, mas sio, da
aaüpathia de duas .reatale
7m
odiassem alguma vez, seriam mortaes
inimigos
XI.
Nao e minha intenção apresentar Augusta como
um caracter excepcional, nem como um espirito superior. Os
sentimentos da moça eram em
'
resumo, os mesmos das outras mulheres.
O que a dominava, porém era
uma certa frieza de temperamento cpie
a tornava incompetente
os
para
aifectos.
grandes
Accrescenta-se a isto uma tal ou
qual vaidade de sua
nelleza e ahi temos o
que era a filha de Magdalena.
Educada pela mãe com uma
perfeita independência de espirito Augusta adquirio certa aspereza que lhe fazia o caracter antipathico.
Era
imperiosa, altiva, ás vezes bondosa, mas
bondosa por orgulho, não acreditando muito nem
pouco na violência dos sentimentos ; o amor para ella
era simplesmente uma cousa
que não comprehehdia, nem desejava comprenender. Parecia-lhe melhor um triumpho n'uma
sala que n'um coração.
Nem Luiz nem Daniel comprehendiam isto; a indifferença
da moça era
apreciada por elles diversamente de
qüe cumpria ser, e d'ahi vinha a esperança de um e o capricho de outro. O
verdadeiro triumpho seria abandonar o campo; talvez
que tí despeito produzisse n'ella o resultado favorável.
Quem sabe? seria talvez a
primeira a dar um passo para o esquivo namorado.
*
í#i suppunha que podia fascinar a moça
pela grandeza da posição;
324
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
algumas eircumstancias lhe davam razão para crer assim; mas eram simpies eircumstancias.
Quanto a Daniel, um pouco picado em seu amor próprio, assentou que
de uma luta pertinaz poderia resultar proveito. Pareceu-lhe que era preciso ser um bom general em vez de diplomata fino. Afigurava-se-lhe
"que
a espada de Conde tinha para o caso mais virtude que a penna de
Mettèrnich.
„
Com estas impressões sahio da casa de Augusta.
Era a primeira vez que no espirito do moço a vontade annunciava um
o inspipapel aetivo. Não era de certo o amor, senão o amor próprio que
rava assim. Mas n'este caso amor próprio já não era um symptoma do
próprio amor? Daniel não percebeu isto; atirou-se á luta.
Começou a freqüentar a casa de Augusta na qualidade de amigo e de
vizinho. A moça foi com elle o que era com todos os outros, attenciosa e
polida, mas fria; distribuía a sua attenção com igualdade. Não dava direito a queixas nem a esperanças; valia tanto para ella Daniel como
Luiz.
Luiz freqüentava pouco a casa; nem se pode dizer que a freqüentava;
ia lá de longe em longe; conversava meia hora e sahia logo.
Posto que Daniel não entrasse nunca nas campanhas do namoro , e
apenas contasse em toda a vida alguns fáceis triumphos do tempo da Academia, todavia houve-se desde principio como um verdadeiro cabo de
guerra.
Foi difficil á moça resistir aos primeiros ímpetos da força arregimentada
do rapaz. Aos tiros de artilheria, isto é, os olhares, resistio ella com facilidade; ninguém tinha maior expressão de desdém do que ella quando se
tratava de repellir os olhares de um cortezão.
Mas quando, depois de seus primeiros tiros, Daniel aproveitou uma
situação adequada e atirou contra a fortaleza as massas compactas da infanteria, isto é quando elle fez uma declaração em regra, Augusta não foi
tão fácil na defeza, e se repellio o inimigo, foi com sensíveis perdas de sua
parte.
Daniel acabava de declarar que a amava.
— Não creia, disse elle,
que se trata de um amor de poeta. Eu não
lenho nada de poeta ; nem é cousa que me penalise. O meu amor vem
um pouco da razão. Sou um homem temperado. Confesso
que as suas
graças me impressionaram bastante; mas creia que se não a achasse digna
de ser minha mulher não lhe íallava n'isso. Estou
que o amor duraria
pouco mais que as rosas de Malherbe. Quer ser minha mulher ?
' '"
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
V
•'.:¦¦
m
Esta declaração em que se misturava a
sinceridade com a insolencia
*™>
o, d„a com voiub.Ldade, sem fogo nem
lagrimas m m
udo com certa graça; Augusta «. faci, em
responder se ___J^_\
homem louco de amores, nao achoU logo
„ma palavra para oppôr 72
p
FP
gunta e pedido de Daniel.
A moça tinha encontrado um sapato
para o seu pé
A conversa que estou mencionando dava-se
a um canto da sala • as demais pessoas estavam entretidas em
grupos distinetos
Augusta desejou que alli chegasse alguém
cuja presença interrompesse
a conversação; mas ninguém appareceu. «-"ompesse
Que me responde ?
perguntou Daniel.
Respondo, disse Augusta,
que não posso acceitar o seu amor nem o
seu pedido.
Porque ?
Augusta olhou para elle espantada com a resposta;
mas como visse o
olhar do moço sereno e fixo, respondeu sorrindo
:
Formalmente
porque o não amo.
Isso não é razão muito forte...
No emtanto...
O amor viria com o tempo; bastava
me tivesse alguma affeiçâo.
que
JNao tem ?
Nao tenho.
Que é
preciso fazer para vir a tel-a ?
Isso não sei, respondeu Augusta.
Daniel tirou o relógio do bolso e depois de consultal-o,
tornou a guardal-o silenciosamente. Na indifferença do rapaz havia
um tanto de calculo,
mas um tanto de sincero. Apenas
guardou o relógio :
Pois eu acho, D. Augusta, disse elle,
que difficilmente poderia en-.
contrar marido mais conveniente do
eu.
que
Tem boa opiniãoc.0 si, disse a moça
sorrindo.
A melhor opinião d'este mundo, acudio
Daniel. Convencido de que
os outros homens hão de ter sempre a meu respeito
uiha péssima opinião,
eu compenso esse juizo infundado,
pensando a meu respeito as melhores
cousas possíveis. Por exemplo, a sua observação
dizer que me julga
quer
fatuo; eu penso justamente o contrario a meu respeito.
E uma compensação, observou Augusta.
Então confessa?...
Confesso
que estou com muito calor, disse Augusta levantando-se.
Daniel mordeu os beiços; mas levantou-se e offereceu-lhe
o braço.
#
326
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
Vamos para a janella ?
Augusta acceitou sem repugnância, nem vontade.
Com effeito i aqui faz menos calor, disse Daniel apenas chegara á
janella. E a noite está bonita.
Está bonita, repetio Augusta ; mas se lá está calor , aqui está frio,
Não tanto, não tanto. Estou a ver uma cousa, D. Augusta.
O que é?
É que tudo lhe parece exagerado. Nem lá faz tanto calor, nem aqui
tanto frio. Porque esta maneira de apreciar as cousas ? Não lhe parece
que isso ha de leval-a muita vez a ser injusta ?
Quando assim seja, disse Augusta, eu creio que a primeira victima
da injustiça serei eu.
Perdão! nem sempre assim acontece; e é justamente por isso que
a justiça me parece uma bella cousa. Queira meditar bem n'estas palavras, D. Augusta : não julgue nunca pelos olhos do seu capricho.
Daniel dizia todas estas palavras com uma graça tão respeitosa que
desarmava a moça; e no entanto já tinha o direito de deixal-a á janella e
voltou á sala.
Quando elle lhe fallou nos olhos do capricho, Augusta olhou espantada
para elle ; depois respondeu :
Os olhos do meu capricho
podem ser máos; em todo caso porem,
não usarei dos óculos do seu despeito.
A allusão era clara; Daniel não contou com esta carga á baioneta.
0 meu despeito? disse elle;
já sei ao que allude. Eu poderia calarme, mas acaso é digno de nós deixar sem resposta uma allusão tão graciosamentefeita? D. Augusta, eu repito o que lhe disse; amo-a,
quizera
recebel-a em casamento; mas a sua recusa é para mim tão sagrada
que eu
nem quero discutil-a; e inspira-me o mesmo sentimento
que me inspiraria
a Virgem Maria se eu lhe pedisse uma graça e ella m'a negasse : resignome sem pensar mais n'isto.
Foi uma felicidade que entrassem n'este momento Valladares e a mulher. Augusta foi abraçar Amélia, em
quanto Daniel adiantou-se para ir
apertar a mão a Valladares.
XII.
Protestos de resignação em amor são como sentenças escriptas na arêa;
desfazera-se ao primeiro vento. Daniel
que era o typo da indifferença
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
m
começava a sentir a dolorosa convicção de
lhe seria difficil ™
que
viver sem
aquella mu her. Q„a„d„ chegou á casa
'
_ rmrim
notte, repe.,0 entre s, as
palavras tocadas eom Augusta, arrependeu-*
"
dasqueprofenra; por um ¦ instante teve
idéa de ir-lhe edir
pi
tiro de peça ainda o achou acordado.
Se durante esse tempo , Daniel
pudesse estar no quarto de Augusta
vem ,ue a luz da vela confundia-sc eom
os raios da Lha. A mofa dorm,o apenas duas horas e ainda o seu somno
foi sobresaltado. Seriam a,
mesmas opressões? Eu
poderia, „o interesse d»romance, ddT™
™«
claro este p„„to; mas
preflr0 fc buma^
'
mentos dos meus personagens.
Augusta não velara pelo mesmo motivo
Daniel. Era outro. Era
que
despeito. A orgulhosa Augusta sentia-se envergonhada
com a scena que
se passara durante a noite. Humilhára-se com
a fácil resignação de Damel; era a sua primeira derrota.
O seu primeiro pensamento foi um
pensamento vulgar; lembrou-se de
viugar-se do moço vendo-o a seus
pés. Mas para alcançal-o não seria preciso conceder-lhe esperanças, e estas não exprimiam
a confissão de um
triumpho, que lhe parecia odioso ?
Cálculos inúteis, dirá o leitor de boa fé, os d'esta
moça provinciana,
que fazia do amor um jogo do xadrez. Que importa? Eu narro a
verdade Confesso que era mais bonito, mais
juvenil, mais digno, resolver
simplesmente pelo coração; amar ou dar de taboa
ao pretendente coniorme lhe fallasse o sentimento. Mas se assim fosse
o romance acabaria e
seria outra cousa que não a historia
que estou relatando.
Quando Augusta se levantou tinha os olhos- pesados; a vigília deixaralhe impressos os seus vestígios. E eram bellos os seus
olhos, não sei ató
se mais poéticos, com a languidez do cansaço, do
que com a viveza natural.
Direi mais : aquelle aspecto tornára-a mais mulher,
Augusta
por
que
tem no olhar e nas feições um
quê de enérgico e severo que indicava antes um caracter masculino.
Passárara-se dias sem que os dois se encontrassem; nem
Daniel foi á
casa de Augusta, nem esta appareçeu ájanella.
N'uma segunda feira appareçeu Valladares em casa de Daniel.
Convidou-o para um passeio á Tijuca em companhia de varias
familias:
A Augusta vae, disse elle.
Que tenho eu com isso ?
perguntou Daniel.
Valladares sorrio.
Que tens com isto? Cuidei
que tinhas alguma cousa... Não se amam ?
328
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
Ella tem-me ódio.
É caminho para o amor, ouvi dizer; e tu ?
Desprezo.
Dizem que também é um atalho que vae ter á grande cidade do conjugo vobis.
Para a tua cidade! disse Daniel sorrindo maliciosamente.
{i
Valladares suspirou.
Para a minha cidade, tens razão! Mas antes não fosse !
A cousa vae mal ?
Vae o peior possível.
Hão de accommodar-se... Tu tratarás de ver uma compensação fóra
das fronterias conjugaes; e ella contentar-se-ha com as modas novas...
Escusar de franzir a testa; é esta atua convicção e a minha. O casamento,
meu caro Valladares, é uma loteria; o teu bilhete sahio branco. É dinheiro
perdido, ou antes dinheiro ganho, porque ainda que percas tudo, ainda
te fica o dinheiro...
Valladares engolio difficilmente a observação de Daniel; fallou outra
vez no passeio á Tijuca e assentou-se que Daniel iria.
O passeio fez-se d'ahi a oito dias.
Entre outras pessoas achavam-se lá Augusta e Luiz.
Daniel ignorava os sentimentos de Luiz em relação a Augusta; demais
conhecia-o pouco.
Na primeira oceasião que pôde alcançar, Daniel perguntou a Augusta
se estava com a mesma resolução em relação a elle.
A mesma, respondeu Augusta.
Daniel inclinou-se e começou a fallar da belleza do sitio em
que se
achava.
Augusta ouvio-o não sem espanto.
Tem grande amor á natureza?
perguntou ella.
Immenso. A natureza não falia.
Os poetas dizem o contrario, retorquio a moça
sorrindo.
E dizem bem; a natureza falia, mas falia
como uma alma deve fallar a outra sem intermédio dos lábios. Ora, eu tenho notado
que o fallar
é perigoso para as nossas illusôes; uma
palavra destróe ás vezes um
mundo.
Augusta mordeu os lábios.
Veja, disse Daniel, colhendo
uma flor agreste que lhe ficava ao
alcance da mão. Ha nada mais bello do
que isto? Esta flor diz mil cousas
justamente porque não pode articular o que me diz : o
perfume é a sua
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
329
linguagem; esta côr branca ligada
com esta côr azul formam uma
phrase
"T
"" eXPU.ar-
mal
" roÍW* "°"» *P°«»
« ei"„
a;hasse
nasuaiiwm
;ima:;,s;mz:houi;,:er'
, tinha o remedio nas mãos; destruil-a
hia assim... 011endesse
E Daniel esmagou a flor entre os
dedos
Augusta olhou para a flor e
para Daniel. Nem um gesto de sorpresa ou
de despeito; apenas sorrio dizendo««presa
emre
"
^
mfe'
CSSa
fl
W
* ">- * °
Se»"L"leSmaSada
Luiz aproximou-se do
grupo quando Augusta ia continuar.
D. Augusta, disse
elle; sua mãe quer fallar-lhe.
Augusta foi ter com a mãe.
*
Está um bonito dia,
disse Luiz a Daniel.
Está, respondeu o rapaz
distraindo.
E voltou os olhos
para Augusta que se afastava.
Luiz vio o gesto e
procurou adivinhar o olhar de Daniel. Palpitou-lhe o
coração mais fortemente;
que haveria entre elles ?
Alguns minutos durou o silencio;
no fim d'elles Daniel voltou-se
para
Luiz e encetou uma conversa; Luiz
respondeu pormonòsyllabos ao inter-
wi
o
tem°*
*** •**• - «* p6r
lui aqriantar
XIII.
Üaniel levantou-se um dia com a idéa de
fazer uma viagem a Minas
bentia que Augusta
já o prendia mais do que çonvinha ao seu coraçãonasciam-lhe forças até então ignoradas. A indifíerença
da moça, fazia-lhe
suppor que andava em vão; temia o desgosto.
Resolveu viajar.
Valladares recebeu uma manhã a seguinte carta
:
¦
¦
_P
-\-?-'J
¦
¦¦¦'
¦
:'••¦:.
(( Valladares,
A
« Vou para Minas amanhã. Não sei se terei
tempo de ir fazer-te as minhas despedidas. Hecommenda-me a tua
senhora. Teu do coração
« Daniel. »
Apenas Valladares recebeu a carta foi immediatamente
ter com o
amigo.
— Vás
para Minas ?
T Y
'
330
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
É verdade.
Que tempo te demoras lá?
Uns cinco mezes. Queres alguma cousa ?
i — Estava capaz de ir comtigo.
E tua mulher ?
Fica.
Pois tens animo?
Pois então! Eu te digo; tenho até necessidade de ver- me livre por
*
algum tempo de semelhante algoz...
Valladares, isso não é bonito...
Seja bonito ou não, eu vou comtigo; mas só te peço uma cousa.
O que é ?
Que adiemos a viagem para a semana que vem.
Impossível.
Porque ?
Tenho minhas razões.
Valladares fez uma careta de desgosto; insistio, mas Daniel resistio ao
convite.
Então, não poderei ir, disse Valladares.
Não sei porque.
Ora! ir só é aborrecido. Comtigo, a cousa era oulra. Olha lá; e se
fossemos a Paris ?
Isso mais tarde.
A conversa durou pouco mais; Valladares sahio desconsolado. Daniel
continuou a dar as suas ordens precisas para a viagem.
Foi n'essa mesma tarde á casa de Augusta despedir-se da familia e offerecer-lhe os seus prestimos em Minas. A mãe de Augusta agradeceu-lh'os
e ao mesmo tempo participou que acabada a sessão do parlamento partiriam para o norte; e por tanto só no anno seguinte se poderiam encontrar.
Até para o anno, disse Daniel tranquillamente.
Augusta não manifestou sorpresa, nenhum desgosto com a noticia
da viagem de Daniel; conversou alegremente com elle sobre cousas
futeis; tocou um pouco de piano e despedio-se d'elle como se tivesse de
velo no dia seguinte.
Ás seis horas estava Daniel em casa, de volta da casa de Augusta.
.! Mas d'ahi a cinco minutos parava-lhe um carro á porta.
Que é ?
perguntou elle ao criado.
O criado foi ver e voltou dizendo :
'»
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
33,4
r
E uma senhora, vem subindo.
Pouco depois entrou-lhe na-sala Amélia
Valladares.
f
Desculpe se venho assim
sosinha á casa de um homem solteiro.
--Desculpar? disse Daniel
convidando Amélia a sentar-se. Não ha
que desculpar; ha que agradecer.
Então, como vae de saúde
?
Assim, assim... creio
que preciso de fazer uma viagem a Minas Geraes, e ja mandei fazer-lhe as minhas despedidas
intermédio do Vaipor
ladares.
Elle me disse isso; e
é justamente por causa d'esta viagem
que
^ eu
venho aqui.
°
Amélia sorrio-se com ar sonso.
Daniel não atinou com a ligação da viagem
a Minas e da visita da mulher de Valladares.
Venho reforçar, disse Amélia,
um pedido de meu marido.
Daniel já se não lembrava
que pedido era.
üm
pedido ? disse elle. Qual ?
Valladares entrou agora lá
em casa muito triste;
perguntei-lhe o
que tinha e contòu-me que, desejando ir a Minas com o senhor, não
podera obter que o Sr. adiasse a viagem até á semana
que vem. Ora, é isso
justamente o que lhe venho pedir.
Festa vez foi Daniel quem sorrio.
Não
podia, respondeu elle, adiar a viagem ha tanto preparada; mas
a vista do pedido não
posso recusar o adiamento. Diga ao Valladares que
pode contar comigo.
Agradeço-lhe o obséquio, disse
Amélia muito satisfeita, e creia
que favorece a meu marido.
E favorecer a V. Exca, creio, interrompeu
Daniel. Pode dizer que
conte comigo.
A mulher de Valladares levantou-se
para se despedir, e n'esse acto fez
o que fizera ao principio, segundo costumava, correu
por toda a sala olhos
minuciosos.
-*- Desculpe, disse Daniel, desculpe
o desarranjo em que isto se acha...
^
Estou em véspera de viagem; e bem vê...
Pois não; desculpo tudo, disse
Amélia aproximando-se de uma
mesa. São lindos esles objectos de bronze são
;
principalmente de bom
gosto... OSr. tem bom gosto.
Creio
que sim...
Por exemplo, a Augusta...
r
¦**>_:•
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.
332
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
E calou-se.
Que tem a Augusta? perguntou Daniel.
A Augusta é bonita; e o Sr. mostra que tem bom gosto,..
Maliciosa! bem sabe que...
Sei que o Sr. gosta d'ella.
—Perdão, gostei d'ella.
Amélia sorrio, mas não respondeu. Não teria acreditado? Daniel suspeitou-o; e quando ia continuar a conversa para deixar-lhe bem claro no
espirito que já nada havia d'elle para com Augusta, a mulher de Valiadares chamou a attençâo para não sei que volume [que estava sobre a
mesa.
Como elle lhe explicasse o que era o livro, ella continuou no exame
dos objectos que vio sobre a mesa.
Amélia era naturalmente indiscreta e leviana. A visita á casa de Daniel era já um acto de soffrivel leviandade; a demora e a bisbilhotice com
que examinava a sala tinha mais graves conseqüências. Que pensaria Daniel se não conhecesse o espirito frivola da moça ?
De repente, Amélia, indo levantar um álbum vio debaixo um objecto
que lhe chamou a attençâo : era uma liga. Daniel estava voltado para um
espelho e não vio o gesto da moça. Amélia examinou a liga e vio duas
*
iniciaes; as iniciaes de Augusta.
O leitor lembra-se do episódio da rua do Ouvidor.
Quando Daniel voltou-se para Amélia vio-a sorrir; aproximou-se e
reparou que ella tinha a liga nas mãos. Não lhe occorrendo a circums-:
tancia das iniciaes (circumstancia bem própria de romance), Daniel arriscou a seguinte observação.
Fez mal em descobrir isso : é um despojo de vencido.
Ah! disse Amélia.
E mostrou as iniciaes de Augusta.
Daniel empallideceu.
Amélia olhou para elle , atirou a liga sobre a mesa , e disse caminhando para o espelho :
Não se assuste; eu sou de segredo,
Daniel tinha recobrado o sangue frio.
Assustar-me de
í
que? perguntou elle.
Não sei, respondeu Amélia;
concertando o chapéo.
Alem de
que, não é segredo.
Ah! não é segredo? Eu
cuidei que era... Não me disse ha pouco1
'ella
?
que já não gostava d
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
333
Estarei enganada,
e o Luiz também.
Quem é o Luiz ?
O deputado, respondeu
Amélia rindo
E apertando a mão a Daniel, accrescentou •
3de0S' "*"PreSSa-Trah°«sua**»'
sóM„asemana
^l^
E antes ,ue Daniel lhe elTereeesse
o braço ou prosasse retel-a
sahio
da sala e desceu as escadas.
'
D'ahi a pouco partio o carro.
XIV.
Damel nao pôde conter um
gesto de despeito apenas Amélia sahio.
Tinha vontade de ir agarral-a e
castigal-a de toda a leviandade com
que
estra
fe™nd°
•,
u
do
n°
**m * >»«
£,___£ «:r
- Que leviana ! dizia
elle comsigo. Vir á casa de um homem
solteiro
um
modo
tão
singular; fazer-me o singular
por
pedido de ir com o marido
para ora; revolver os meus moveis; calumniar
pessoas a quem abraça...
Ai, Valladares que mulhersinha te
cahio nos braços!
XV.
Valladares era menos exigente
que Daniel.
O que lhe parecia mal em Amélia eram as
impertinencias da mulher
faceira, os caprichos, as imposições de
maneira que tudo se acabaria se
estivesse algum tempo fora d'ella... a
esparecer.
Cuidou que a viagem a Minas era boa oceasião;
mas que Daniel não
quiz adiar a sua viagem para esperal-o. Amélia soube d'isso e foi
ajudal-o nos seus desejos
pedindo esse favor ao próprio Daniel.
Quando no dia seguinte de manhã Valladares encontrou
a mulher á
,
mesa do almoço disse-lhe ella :
Já
preparaste as malas ?
Para
que?
334
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Para a viagem de Minas.
Só, não vou.
Vás com o Daniel.
Mas elle não quer adiar...
Quer.
Como sabes?
Pedi-lh'o eu.
Valladares tomou a liberdade de abraçar enthusiasticamente a mulher,
diante da criada, cujo pudor lhe aconselhou immediatamente uma excursão á cozinha.
Não sabes como te agradeço o que fizeste por mim.
Ah! tens muito prazer em ir a Minas ? Queres esquecer-me ?
Eu, lindinha? Nem por sombras. Quero estudar a provincia, e alem
disso preciso de tomar ares. O Valladao diz que eu estou caminhando
Sabe Deus, que
para a cova, e que preciso reforçar a minha constituição.
saudades levo de ti! Mas tu não queres ir.
Bem sabes que não posso.
O almoço terminou alegremente; parecia que aquelles dois gales já
saboreavam a felicidade de se separarem durante algum tempo.
j.
(Continuar-se-ha.)
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A CAÇA DE ÜM BARONATO.
CONTINUAÇÃO.
III.
Recordações da historia antiga. - Outras de 40 annos atraz,
algumas das quaes hão
de despertar saudades nos leitores de cabellos brancos e
grisalhos.
ão é minha intenção, nem seria de interesse
para o
leitor, seguir passo a passo, as circumstancias da
vida do nosso Pantaleao.
E verdade que, tratando da vida dos homens notaveis, a historia esmerilha e recolhe com cuidado,
todos os factos e minudencias, por mais insignificantes que pareçam, afim de que, com a máxima
verdade a posteridade faça o seu
juizo acerca do heroe de que se trata.
Por esse motivo lemos nos livros e nossos vindouros também o hão de ler,
que Neivtòn usava cabellos compridos e que nunca soffreu dores de dentes; que Scipião, o feliz vencedor de Annibal, tinha
por divertimento
favorito, atirar pedrinhas no mar, fazendo ricochetes;
que Alexandre
Severo entretinha-se muito a ver brigar o seu cão d'agoacom um
porco;
que o celebre Gustavo-Adolfo, nas horas vagas, jogava á cabracega
com os criados do
palácio; que Themistocles passava horas inteiras a ver
boiar os corpos leves,
junto da praia ; que Alcibiades brincava com o seu
336
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
cão do rabo cortado; Sertorio com a cabrinha branca ; o sábio Ampère
com a sua gatinha; o grande Agesiláo montado na bengala á frente dos
filhinhos. etc, etc.
O Pantaleão Fagundes não pode ainda hombrear com esses homens celebres; mas, como elle ainda está vivo, ha pouco passou de Commendador
a Barão, e de Barão, ainda pode ir adiante, como Bismark que de igual
titulo elevou-se a Principe (e, o que é melhor, com a dotação correspondente) é bom que o não tratemos com pouco caso, e digamos algumas
palavras sobre a sua infância e mocidade.
Desde os seus 4 annos, isto é : desde que aportou ao Rio de Janeiro,
até que completou os 16, elle tornou-se insigne nos seguintes exercícios:
atirava com garbo um pião roncador e aparava-o na unha; jogava ás cabeçadas e passava bem uma rasteira; cavalgava com perícia um arco de
pipa ou barril; furtava, de vez em quando, o seu vintemsinho para comipv&v pipocas ou alcomonia; era assíduo nas Igrejas em dias de festa, e
quando subiam ao ar as girandolas, ninguém lhe ganhava na presteza com
que apanhava as flexas; em summa o nosso Pantaleão pôz em pratica
durante esse tempo, tudo o que fizeram muitos outros rapazes endiabrados
que, com o andar dos tempos, chegaram a ser virtuosos sacerdotes, graves
magistrados e mesmo respeitáveis generaes e ministros de Estado.
N'aquella época a religião dominava a todos, e por isso a vida do Pantaleão era dividida da seguinte forma : Pelo Anno Rom era certo encontral-o junto aos devotos presepes, que então se armavam com gosto, principalmente o do Conego Philippe no Livramento; d'ahi a cinco dias lá
andava elle entre os bandos que percorriam as ruas cantando os Reis e recebendo esmolas; duas semanas depois estava elle firme na retaguarda
da procissão de S. Sebastião; seguia-se pouco depois o entrudo, época em
que elle regalava-se, armado de seringa de folha, em molhar os companheiros e pintal-os com vermelhão e pós de sapatos; na
quarta feira seguinte pavoneava-se com uma enorme cruz de cinza no meio da testa;
chegava depois a Semana Santa, estação que elle esperava com a maior
anciedade. Começava o Domingo de Ramos, e n'esse dia ninguém tinha
licença de possuir um assobio de palma, mais retorcido, enfeitado e de
melhores vozes; tres dias depois, corria elle arrogantemente toda a cidade
atroando os ares com uma berradora matraca ou uma estridente cegarrega ;¦ no dia seguinte (Quinta feira Santa), era certo encontral-o visitando as igrejas, assistindo ao Lava
pés, e correndo sem cessar de um
templo a outro; na Sexta feira, ajudava a espalhar folhas de mangueira e
'
canella nas ruas por onde passavam as
procissões, e n'esse dia não se re-
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
337
colhia á casa de seu tio, senão depois de ter
visto todos tres, esperando
as. em dtfiWes pontos do se„ transito,
. comparando as T JX1°'
Cantor, „ numero dos anjinhos e a
grandeza LmmJVuZ
noes armados com as enormes lanças calçadas
de ferro, com'il«
uu batiam
ferozmente nas pedras da rua. Vinha depois
o Sabbado d
'on2
de regoz-jo sem egual! Logo depois da alvorada,
sahia elle a in ~
e™
onde havtam os mais bellos;*,
que „rdi„„iamente se ach
os nos telhados, encostados nas esquinas,
ou enforcados nos, ^
depots de congregai os seus companheiros,
armados de fortes o te's
esperava quo os stnos da Capella e as salvas
da Fortaleza dessem o sigÕ i
do ter romptdo a Alle.uiu, c eutào era de
ver como elle se atirav, eu
mçado con ,, os fscanotes, os
quaos depois do sovados, amassados, L
lameados trucidados e deslocados, dekando
ver os scús intestino de
'
palha ou de trapos, eram sem remissão entregues ás chammas.
A tarde
emquanto descançava do afanoso trabalho
tivera, contava elle aos
que
outros as façanhas que praticara, os tormentos
inventara e o numero
que
áejudas a cujo martyrioassistirae efficazmente
auxiliara; e depois esperava qne chegasse a noite (que era sempre de bello luar),
para ir a
Santo Antonio ou a S. Bento atormentar as velhas
de mantilha que devotamente ouviam o Sermão da Resurreição e contavam
umas ás outras as
novidades que tinham oceorrido ou deviam oceorrer
esses dias. Finda a
por
Missa e ja ao romper da aurora, aggregava-se a algum
dos bandos alegres
que, acompanhados da competente matalotagem, ião festejar com uma
tremenda sarrabulhada a terminação da magra
abarrotara de bacalháo, sardinhas e mulatos velhos.quaresma que a todos
A Semana Santa e suas oitavas, seguia-se a festividade do Espirito
Santo;
e já desde algumas semanas antes, era visto o Pantaleão
entre a comitiva
dos devotos que, de opas encarnadas, conduzindo
enfeitadas, e
palmas
acompanhados por uma musica de barbeiros, com
grande pancadaria,
esmolavam para o Divino, dando a beijar a sua imagem
todo rodeada de
flores e fitas. Que tempo de
prazer que era aquelle do Espirito Santo!
Elle quasi vivia todo esse tempo no Campo de Santa Anna.
Com que alegria percorria elle todas as barracas, tanto as de bonecos e sortes, como
as de petiscos e bebidas, e as de theatrinhos ou cosmoramas!
como apreciava ver desfilar o Imperador do Divino com o
seu fardamento de
veludo verde acompanhado do seu brilhante séquito!
Como se extasiava,
capitaneando um
grupo de collegas, que atropellavam sem piedade os
que não pertenciam ao seu partido, e pisavam as famílias
sentadas no
que,
chão em esteiras, esperavam o fogo de artiücio,
no qual eram infalliveis:
338
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
a fragata que se batia contra dous castellos e o barbeiro que girava rápidamente, esguichando fogo para os lados, até acabar em um valente estouro 1
Passados esses lindos dias, vinha o da procissão de Corpo de Deus, e lá
ia o Pantaleão acompanhar o S. Jorge; e apezar do sol ardente elle não
voltava para casa sem ter visto umas seis ou oito vezes durante o trajecto,
o obeso Ferreiro que seguia o Santo General; os cavallos empennachados
de crinas trançadas e todos ornados de laços e fitas de variadas cores; as
ordens religiosas e irmandades, que^rivalizavam em qual apresentaria
maior pessoal; o pallio conduzido pelo Monarca e seguido da maior fidale finalmente a moo
guia da terra; a tropa de linha que seguia prestito,
lecagem que seguia a tropa.
Eram ainda n'esse mez, os dias de Santo Antônio, S. João e S. Pedro,
d'esses santos não deixava de festejar
devoto
o
Pantaleão,
grande
que
com fervor. Elle sempre sabia onde estava armada a mais alta fogueira e a
maior cabeça de alcatrâo; e á noite acompanhado de seus sequazes armados de bombas, pistolas e busca-pés, tomava posição nas'jmmediaeões e
dirigindo um nutrido fogo, tornava-se o terror dos cães e moleques que
se approximavam, e que eram sem compaixão queimados, se não tratavam
de pôr-se a salvamento.
O resto do anno era então de mais tranquillidade, alterada apenas no dia
de Sta Anna, em que tambem se accendia algum fogo de artificio; as
grandes paradas de 7 de Setembro e de 12 de Outubro, nas quaes tanto
sobresahiam os fampsos esquadrões da Guarda de Honra, com seu fardamento de casimira branca e seus capacetes com pennachos de crina encamada; as noites de luminárias, em que elle disfarçadamente se divertia
em exercitar sua destreza, atirando pedrinhas nas tigellinhas de azeite de
peixe que illuminavam as janellas; e fechava a porta de todos estes foiguedos, o Natal, que com a Missa do gallo e as visitas aos presepes, fazia
começar novamente a serie acima mencionada; convindo accrescentar
que, intercallados com esses dias de prazer, davam-se ás vezes outros extraordinarios, os quaes por serem fora do programma não eram mal recebidos pelo nosso heroe, como por exemplo : em um dia, era uma festa
solemne em uma igreja; em outro, o funeral de um general ou ministro
de Estado; em outro, um grande incêndio (em que, quando muito, só se
queimava uma casa, porque ainda não havia o enorme beneficio dos bombeiros e seus carros de ferramenta); emfim, não havia falta de divertimentos n'esse bello tempo, em que havia menos ilhistração, é verdade,
mas havia boa fé, sinceridade, amor de Deus e do próximo.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
339
IV.
Onde se trata de cousas alegres, tristes,
gloriosas, ridículas, grandes, pequenas, etc,
O que é certo, é
que brincando-brincando (como diziam n'aquelle
empo) o PaataleíoPororoca teve oecasiSo
de assistir a muitos aeto'
raordmarios, cuja descripção causa, ainda
hoje, profunda emoção a muito. que*, peesencfam. Foi assim
q„e elie testemunhou :a sanidade
esplendida da Acclamação e Coroação
do Rei D. João VI • as do nasci
mento e baptisado da Princeza D. Maria
da Gloria; os famosos tiros dã
Praça do Commercio; o embarque do
Rei para Lisboa; o memorável
Fico, que sendo uma
palavra muito pequena, deu muito grandes resultados; os levantes do General Jorge de
Avilez e sua tropa; as
jxequias
pelos martyres da Independência da Bahia ; a chegada da
esqíadra do
Almirante Francisco Maximiano; a ovação
recebida pelo Principe á sua
chegada de Minas; a acclamação do mesmo
Principe como Defensor perpetuo do Brazil; a sahida da esquadrilha
que levava á Bahia o General
Labatut, a viagenf do Principe D. Pedro á
Provincia de S. Paulo; a sua
chegada depois do immortal
grito do Ipyranga; a creação da gloriosa
bandeira verde earaarella; os esplendidos festejos
da Independência da
Acclamação e da Coroação do l" Imperador do Brazil;
a sahida da esquadra de Lord Cockrane para a Bahia; a noticia da restauração
d'essa heróica
Província e das do Pará e Maranhão; a sessão
solemne da abertura da
Assembléa Constituinte; a scena do largo da
Carioca que deo em resultado a dissolução da mesma Assembléa e a deportação
de alguns de seus
membros; o juramento da Constituição Politica
do Império; o acto do
reconhecimento da Independência do Brazil,
por Portugal e outras naÇões; a creação da primeira nobreza do novo Império Americano;
os sete
dias de regozijo do nascimento e baptisado de
nosso actual Soberano ; a
declaração de guerra á Republica Argentina
; a viagem de D. Pedro l» á
Bahia; a chegada da noticiado fallecimento do
ReiÒ. João VI; avinda da
DeputaçSo Portugueza
para receber as ordens de D. Pedro como Rei de
Portugal; os cinco Decretos assignados
por D. Pedro IV, o ultimo dos
quaes foi a abdicação da Coroa Portugueza em sua filha D. Maria II; a
abertura solemne da í'Assembléa Geral
Legislativa; o reconhecimento
ao Infante D. Pedro como Principe Imperial;
a viagem do Imperador ao
oul; o triste fallecimento da nossa
virtuosa Iinperatriz; as dolorosas noti-
340
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
cias da campanha do Sul, as façanhas do Corsário Chacabuco e a expedição da Patagônia ; a sublevação dos soldados Irlandezes e Allemaes; a
insolente exigência do Almirante Francez Roussin; o embarque para a
Europa da Rainha D. Maria II; o tratado da Independência da Republica do Uruguay; a celebre Falia do throno de encerramento da Assemblea, em quatro palavras; a chegada da 2a Imperatriz do Brazil; o tratado de extincção do trafico de Africanos, etc, etc.
Em uma palavra, o pequeno Pantaleão assistio a essa multidão de factos que tiveram lugar na época fertilissima que decorreu, desde que raiou
a alvorada do nascente Império, até ás proximidades da Abdicação do
Fundador da Monarchia.
Fora estes acontecimentos importantes, elle acompanhou a marcha do
progresso ascendente da nossa cidade e lembra-se ainda hoje de muita
cousa curiosa d'aquelle tempo, como por exemplo : da tamina ou falta
d'agoa, que fazia reunir e enfileirar junto dos chafarizes os pretos, que se
julgavam felizes quando no fim de 3 ou 4 horas de espera, chegava a sua
vez de chegar o barril á bica; dos negros barbeiros e applicadores de
ventosas de chifre, que exerciam o seu mister ao lado da Igreja da Sé, das
tribus de índios Peruanos que, envoltos em seus
ponchos e barretes encarnados, estacionavam em algumas
praças, vendendo remédios para dôr
de dentes, opilação, morphea, e todas as moléstias
que afíligiam a humanidade d'essa época; dos negros com ferro de S ao
pescoço ou mascara de
folha com nariz de funil, para indicar um escravo
fajão ou bêbado; dos
mestres de resa que vagavam ás Ave-marias
pelas ruas, deixando ver o
cabo da terrível palmatória sahindo da algibeira da
jaqueta azul; dos
bandos de negros minas fazendo mudanças de trastes no meio de infernal
alarido de chocalhos e cantoria; dos carros de enterro com corujas
douradas, pennachos pretos e cocheiros de chapéo de tres bicos, seguidos
de
urubus a cavallo com tochas e crepes; dos
janotas d'esse bom tempo, os
quaes se pavoneavam com a sua calça de presilha e alçapão, robição ou
rocloró, catimplora de dois
palmos na cabeça e relógio de cebola com uma
libra de sinetes e pendurucalhos presos na corrente dos aromaticos ti;
gres que eram a toda hora encontrados nas ruas e praias; das seges de
balanço que obrigavam o viajante a um violento exercício de
popa á proa
e de bombordo a estibordo; das rótulas de
grade de páo, com postigos
abrindo para a rua, e atravez dos
quaes se examinava tudo o que succedia na vizinhança; dos lampeõesde azeite de
peixe e os seus competentes
accendedores munidos [de prego torto
para arreal-os nas occasiões de
limpar, accender e apagar^das turmas de negros calceteiros
que batiam
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
compassadamente com os rmivfàlté ~ 341
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to daS Matrizes, nao eram ainda empregadas
como cacetes, em dias do
vo'» ta» ; nos theatros representavam*,
sacras ou de reconhecida
peças
ma dade, que nSo tinham o encanto -das
operas do Atear e das
parodias do Vasques; ainda não se haviam descoberto
o Xarope do bosque a
salaapamlha de Ayer, o óleo «ço, o
pain Killor e mil outros ¦ .medLs
que fazem cessar para sempre a dôr, augmentando cento
por cento a
mortalidade; as palavras dos homens tinham
força de lei, sem necessitar
de escnpturas, fianças, sellos e certidões; não
havia a Republica a dous
vinténs, nem os
postos médicos a dous mil reis por cabeça; o azeite de
peixe ainda não se chamava óleo de fígado de bacalháo; na extracção
dos
dentes nao se adaptava o
gaz hilariante que tem a grande vantagem de
provocar uma congestão cerebral, que faz esquecer a dôr de tirar o
dente \
os médicos e operadores não tinham tempo
de escreverem e publicarem
nos jornaes, pomposos elogios a si
próprios, assignados por pessoas que
nunca existiram; as festas
populares não eram abrilhantadas com os produetos do Grande Mágico e das Bichas
monstros; accendia-se o fogo por
meio de isca e fusil, não havendo, como
agora, a massa phosphorica que
Permitte o suicídio commodo e barato; havia n'esse tempo o odioso
coswnie dc só escolher-se
para deputados, Presidentes de Provineias e Mi-
342
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
nistros, a homens experientes e conhecidos por seus serviços, emquanto
cargos, serve bem qualquer
que reconhece-se actualmente, que para esses
menino imberbe ou janota de pince-nez e bigode encerado; a chimica não
estava tão divulgada que permittisse qualquer taverneiro fazer de uma
não ganhavam tanto
cirurgiões
os
dez;
nove
ou
ou
vinagre,
vinho
de
pipa
dinheiro como hoje, em concertar braços e pernas, por que não haviam
tantos tilburys, bonds, gondolas, trens, locomotoras, etc; não havia como
hoje a liberdade de, qualquer moço despeitado ou pescador de agoas turvas,
fazer prelecções publicas ou escrever artigos de propaganda, contra as leis e
instituições do Estado e da Religião; n'aquelle tempo os médicos só medicavam, os advogados advogavam, os navegantes navegavam, e todos se
empregavam segundo suas habilitações, ao passo que no bello tempo presente, todos são para tudo, os médicos dirigem Academias de pintura,
Observatórios astronômicos e Casas de correcção; os Officiaes da Armada
dirigem estradas de ferro; os poetas administram Províncias, os bachareis em direito gozam do privilegio de estarem habilitados para todos os
cargos; não se havia inventado os Officiaes de Gabinete, excellente instituição que veio tirar os espinhos que haviam nas pastas dos Ministros
d'Estado; dominava naquelle tempo uma sórdida avareza de titulos e
condecorações, que só eram dados a quem tinha grandes serviços, emquanto que hoje ha a judiciosa pratica de mostrar que o homem de verdadeiro mérito, é desinteressado, e por isso nada se lhe dá, e enche-se de
distincções aos que precisam d'esse meio para serem distinetos.
E entretanto, ha ainda gente falta de juizo que chama a esse o bom
tempo!
Rom tempo éeste ! em que os meninos de escola discutem sobre politica; em que cada creançola julga-se habilitado a indicar ao Monarca\
por meio do jornal, uma organisação ministerial, no caso de poder salvar
o paiz; em que o jornalismo, em lugar de instruir e moralisar, ó um vehiculo de injurias e calumnias.
Rom tempo é este, em que a subordinação é servilismo; a dignidade,
insolencia ; a obediência ás leis, tolice; o respeito á igreja, idiotismo.
Emfim, bom tempo é este, da liberdade sem limites, das subscripções,
da bitola estreita, do carregamento pela culatra, da Internacional e da
Communa.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
343
V.
í.<*
O Panlaleãoncaorphão.- Conseqüências d*essa desgraça.Experiência que adquire
-Um abalo político na nação,
causa outro na sua carreira.
Assim que o Pantalcào completou 17 annos,
achando-se orphão e ter
chegado do Sul a noticia da morte do Capitão Gafanhoto,
julgou o tio que
rapaz
o
já se achava baslante adiantado e em termos de ser
jubilado na vidiação e na pcraltice; e que convinha
quanto antes procurar-lhe um meio
de ganhar honestamente a vida, sem sèr
pesado a quem também tinha
íilhos para crear e educar.
Como era dc suppôr, a idéa do tio não havia de
quadrar muito ao sobnnho. Mas, quer sim
quer sopas, d'ahi a alguns dias o Pantaleão entrou
de aprcnd.z de ourives, em casa de um fabricante
muito conhecido e acreditado, morador na rua dos Ourives
perto da Igreja de Santa Rita.
Naquella época, ser aprendiz de um officio ou
arte, queria dizer ser
caixeiro, comprador, criado, varredor da casa e
da rua, escravo, etc, do
mestre; e já se vô,
portanto, que a vida que levava agora o rapaz, quasi
todo o dia de pé,
junto do pequeno mostrador envidraçado, esperando que
apparecesse algum comprador de verônicas,
resplandores ou figas, era
muito diversa da vida milagrosa
que d'antes gozava; e a<sim, era fácil de
prever que pouco tempo elle se demoraria aprendendo o officio.
Com effeito, no fim de alguns mezes,
por sua alta recreação e sem dar
satisfações a seu mestre, nem mesmo a seu tio, despedio-se
á fránceza da
loja, levando meia duzia de colherinhas de
prata, para pagar-se por suas
mãos, do ordenado
que lhe era devido, tal e qual como lhe constou que
fizera o Almirante Lord Cockrane cora a fragata
Piranga; e depois de
alguma difficuldade, conseguio arranjar-se de caixeiro
em casa de um ferragista da rua Direita, onde estava também empregado
um outro caixeiro
que, nos passados anuos, fora seu companheiro nas alegres tardes e noites das barracas do Campo e no acompanhamento das
procissões.
JNo seu novo emprego, ao menos,
(pensava elle comsigo) a rua era mais
larga e bonita, a loja mais clara e alegre, o outro caixeiro tinha sido
collega de pândega, e o amo
parecia muito agradável e boa pessoa.
k> porém, bem certo
que, uma cousa e estar da parte de fora e outra da <
parte de dentro ! O passarinho que tenta a entrada da gaiola, não lhe vê
os ponteiros, mas nota somente as folhas de alface c o comedouro cheio
de alpiste. O rato
que fareja a ratoeira, só avista o pedaço de queijo ou de
344
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
i
toucinho e não repara nos agudos dentes de ferro que a guarnecem. O
joven devoto que tem vocação de recolher-se a um santo convento, apenas sente o perfume do incenso que se eleva ao Céo, de envolta com os
hymnos melodiosos do órgão do coro; mas não calcula de certo a horrível
decepção que experimentará, quando reconhecer no seio da corporação
religiosa, um foco de profundos ódios, intrigas e calumnias.
Dentro de pouco dias, o nosso Pantaleão couíirmava a veracidade d'estas proposições, observando que o amo e o caixeiro não eram tão bons
como lhe parecera á primeira vista; e que quanto á belleza da loja e á
alegria da rua, elle não podia gozal-as, porque todas as horas do dia eram
poucas para elle estar em pé, do lado interior do balcão e, sem licença dc
levantar os olhos, esfregando com lixa e azeite, as facas e ferramentas,
que o are a humidade das prateleiras haviam enchido de ferrugem.
D'esta vez (faça-se-lhe justiça) não foi elle quem procurou novo arranjo.
Um padeiro, amigo do ferragista da rua Direita, sympathisando com o
Pantaleão, muito em segredo desinquietou-o a que deixasse essa loja e
fosse para a sua padaria, na rua da Cadeia, onde alem de outras vantagens
que lhe fazia, lembrava-lhe que era muito melhor lidar com pão e roscas,
do que com ferros velhos e azeite rançoso.
Não sei o que elle levou do amo para pagar-se de seu ordenado vencido; o que sei é, que agarrou-se ao novo offerecimento e lá foi muito
contente para a padaria, sem pensar no desengano
que o esperava.
Pobre Pantaleão! N'este seu ultimo emprego, não só o serviço era equivalente ao que prestava ao ourives e ao ferragista, como ainda, nas horas
em que a padaria estava vazia de freguezes, era elle obrigado a
pôr em dia
a escripturação e tirar as contas dos devedores, e ainda
(o que elle mais
sentia 1) fora-lhe incumbida uma nova e humilhante tarefa ; tinha de levantar-se ao tiro de peça e ajudar a accender o fogo,
para coser a primeira fornada da madrugada!
Não tardou também que mudasse de amo e de officio : e assim foi correndo mundo, variando de
profissão equasi sempre peiorandode condição,
mas adquirindo (como quasi sempre acontece) experiência
para quando
d'ella não necessitasse mais;
porque ordinariamente, é na oceasião em
que o homem se acha com a experiência precisa para melhor dirigir a sua
vida nos parceis do mundo,
que vem a morte e embarga-lhe o uso d'aquillo que tanto lhe custou a adquirir!
Não me demorarei relatando as diversas vicissitudes
por que passou o
nosso amigo Pantaleão; só direi
que, chegada a época da Maioridade, em
1841, ganhava elle muito bom dinheiro,
como mascate ou negociante
ü
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
345
ambulante de fazendas, bugigangas e
jóias de lei duvidosa ont,*, __. d
Pr°"
vincias do Rio de Janeiro e Minas Geraes.
*S
O leitor é versado na nossa historia eomemponmea
; p„r iss0 ha de „
cordar-se qne, no a„„„ seguinte ao da Maioridade
do nosso Imperad
teve lugar um movimento revolucionário na ultima
d'essas duas Provin
cias, por «gnal que os autores d'essa rebellião,
d'ahi a poucos annos"
(talvez para casLgo sen e eaemplo de touros rebeldes) estavam
«ocupando
elevados cargos, como o de Senador, Ministro
do Estado etc
- Mal cuidava
o pobre Pantaleão, elle
que nunca cogitou em assumpto,
po t,cos, ,_e o rompimento da revoluçfc, ia f„zcr..|,e mudar
de
^
Um dia em que elle pacificamente deitado embaixo
de frondosa arvore"
calculava os lucros que lhe rendera uma especulação
innocente na qua!
passara gato por lebre, uma força da legalidade
que andava recrutando
poz-lhe cerco, e sem consultar a sua vontade ou vocação, alistou-o
no serviço do exercito, fazendo-o encorporar á columna
em operações na fronteira das duas Províncias, sob o commando
do Coronel José Thomas
Henriques.
Ahi chegando, teve a fortuna de encontrar entre
os Officiaes um seu an*
tigo freguez e amigo,
por intermédio do qual conseguio pôr em lugar seguro a sua loja ambulante e pecúlio arrecadado.
D'essedia em diante,
quer chovesse quer íizesse sol de rachar, teve elle
durante duas horas,
pela manhã e a tarde, um hygienico exercicio de
hombro armas, e marche, marche, ao
qual elle se resignaria facilmente e
mesmo acharia divertido, senão fosse a
presença de um maldito sargento,
armado de junco,
que se punha á frente do pelotão em manejo, com
grande arreganho e cara de poucos amigos; emfim, um verdadeiro
sargento Ma' cara do Drama Vinte nove ou honra e
gloria, do conhecido
autor portuguez Jose Romano.
VI.
Uma pagioa de
guerra civil. - O nosso heroe promette vir a ser um grande guerreiro.
—Tres victorias era quatro semanas.
Els, pois, o nosso Pantaleão Gafanhoto transformado em
guerreiro;
elle que de armas, só conhecia
a sua faca de ponta e o grosso pistolão que
0 acompanhava em
suas viagens, e junto do qual elle não se approximava
erü grande cautela,
apesar de o trazer sempre descarregado.
™ fim de alguns dias de manejo, a columna legal
poz-se em marcha,
<
/
t
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
mas teve de fazer alto depois de poucas legoas, por um obstáculo serio que
se apresentou : uma força rebelde, postada próximo á ponte do Parahybuna e sustentada por uma trincheira, impedia o passo ás tropas do governo.
O coronel Henriques não pestanejou. Mandou collocar em boa posição
uma boca de fogo, e destacando uma partida para cortar a retirada do inimigo, dispunha-se a avançar, quando notou que os rebeldes abandonavam a trincheira e retiravam-se para o seu acampamento, a pequena distancia. A columna foi-lhes no encalço e assim que chegou a conveniente
alcance, desenvolveu em linha e rompeu o fogo contra a linha dos adversarios.
Mísero Pantaleão ! A sua commoção n'esse momento, era tal, que elle
sabia que estava marchando, porque notava que variavam as paizagens
que tinha em frente; mas elle tinha consciência de que nenhum esforço
empregava para abrir o compasso das pernas, ou para collocar um pé
adiante do outro. Era uma verdadeira machina de andar!
Quando d'ahi a pouco o official deo á força a voz de carregar armas í
a sua mão de tal forma tremia, que com certeza cahiram no chão os dous
terços da carga de pólvora, assim como a bucha de papel e a bala ; e no acto
de disparar contra o inimigo, elle por mais que fizesse, não foi senhor de impedir que os olhos se lhe fechassem, e frio suor correu-lhe pelo espinhaço.
Ouvio o estrondo dos tiros; depois, gritos de alegria; depois, vivas á
legalidade. Animou-se então a abrir os olhos; os inimigos fugiam em
varias direcções, pçrseguidos por gente da columna do governo.
Informou-se então de um camarada o que era aquillo e exultou com o
que este lhe disse. Tinha-se ganhado a assignalado victoria da Rocinha da
Negra e destroçado a invencível columna republicana do coronel Manoel
Francisco!
O Pantaleão, á vista d'esta noticia, percebeu então que o seu coração
pulsava novamente, e que ia aquecendo as extremidades que haviam sido
invadidas -pelo frio.
Depois d'esta procellosa tempestade, veio como era de esperar, a serena
claridade. Recolhidos os despojos do contrario vencido e postos em segurança os quatro prisioneiros (não houveram mortos ou feridos, nem de
um, nem de outro lado) rufou o tambor, formou de novo a columna e,
no meio de geral alegria, leo-se a ordem do dia n° 9, de 6 de Julho de
1842.
Um calafrio de enthusiasmo (calafrio mais agradável do que aquelle que
sentira antes) percorreu-lhe os membros, quando ouvio ler aquellas pala-
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
347
vras que trazem á memória as do grande Napoleào, na
primeira campanha da Itália:
<( ° Coronel Commandante declara,
que ficou contente com a conducta da columna sob o seu commando
»
O nosso Pantaleão corou de prazer e de orgulho
(e com toda a razão!)
lembrando-se de que tambem havia concorrido
para o esplendido triumpho da Rocinha cia Negra!
Elle ahi recebera o baptismo de fogo; ahi colhera os
primeiros louros;
e á vista do êxito feliz da acção, sentia em seú interior uma forte disposição para novos commettimentos e façanhas guerreiras.
— Felizmente a companha continua
(dizia elle) e o futnro a Deos pertence!
As forças legaes depois de breve repouso, puzeram-se novamente a caminho, em busca de novas victorias, quando em uma tarde o coronel José
Thomaz foi avisado por um explorador que os rebeldes se achavam na \izinhança dispostos a baterem-se a todo transe.
O coronel sorrio-se (talvez lembrando-se de que tinha o bravo Pantaleão nas suas fileiras), ordenou que se forçasse a marcha e em
poucas horas estava á vista da columna contraria.
Tomou-se posição conveniente, corôaram-se as eminências,
guarneceram-se os pontos estratégicos, cortáram-se as retiradas e carregáram-se
as armas.
O Pantaleão sentio um certo resfriamento nos ossos (sem duvida
por
estar-se na força do inverno); mas, d'esta vez já conseguio introduzir na
espingarda metade da carga, e a bala por cima da bucha de papel. A
perturbação causada pelo frio e pelo cansaço da marcha, até fez com
que, no
acto de escorvar, cahisse-lhe a pederneira queguarnecia o cão da arma.
O coronel José Thomas fez sahir uma partida exploradora ás ordens do
capitão André Pinto; mas, os rebeldes assim que a perceberam, julgaram que ia sobre elles toda a columna, levantaram acampamento e bateram em ligeira retirada. A principio, o bravo coronel desconfiou que era
um laço armado pelo chefe rebelde; porém, depois de tomar algumas
cautelas, avançou para a villa, e d'ahi a pouco, esta era oecupada sem
offerecer resistência alguma.
Estava ganha a victoria do Chapéo d'uvas!
Era a 2a columna rebelde em operações que se dispersava e destroçava;
e para ambos esses gloriosos feitos dermas o Pantaleão tinha consciência
de que cooperara efficazmente! Decididamente o Pantaleão estava ficando
ura guerreiro consummado!
348
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
Emquanto ahi se demorava a tropa, recebeu o coronel, ordem do general em chefe para destacar da columna uma força, que devia ir reforçar
a do coronel Manoel Antônio Pacheco, que estava operando no Sabará.
Succedeu que o nosso heroe foi destinado a fazer parte d'esta força e, a
marchas forçadas, seguio para o novo theatro de operações.
Chegou na melhor oceasião; no momento ,de encorporar-se á nova
columna, faziam-se n'esta os preparativos para atacar uma respeitável
força dos rebeldes, que se achava entrincheirada no sitio denominado
Córrego sujo, promettendo fazer desesperada resistência; e ainda o malfadado Pantaleão não descansara da longa marcha que fizera, já via-se mettido em nova peleja.
O combate d'este, dia nos faz lembrar aquella celebre batalha de César,
cujo desfecho deu lugar a que este grande capitão proferisse a conhecida
phrase : Veni. vidi, vici. Maio coronel Pacheco, depois de dispor a tropa,
ordenara que se desse a primeira descarga, o inimigo, tomado de terror
pânico, fugia em vergonhosa debandada, que contrastava bastante com
o primitivo arreganho.
O triumpho foi completo!
A columna legal nenhuma perda soffreu; mas, os adversários deixaram o campo de batalha juncado de trophéos: um morto e quatro prisioneiros (sendo dous rebeldes e dous animaes muares).
Como o leitor deve bem conjecturar, o corpo do Pantaleão não era de
ferro nem de bronze; não é pois de admirar que necessitasse de repouso,
depois de trabalhos tão fortes. As marchas forçadas, as commoções porque
passara, o rigor da estação invernosa e outras causas, puzeram-no em
tal estado, que teve de recolher-se á enfermaria militar; e foi esse a razão, pela qual não vemos figurar o seu nome entre os dos bravos que so
immortalisáram nas outras acções de guerra, feridas em o decurso d'essa
guerra civil.
Mas já elle não fizera pouco! Em menos de um mez (de 5 de Julho a
/ 2 de Agosto) entrara em 3 gloriosos combates e a sua fronte irradiava aitiva os tres bellos nomes: Rocinha da Negra, Chapéo d1 uvas, e Córrego
sujo. Tres nomes que (na sua opinião) valiam bem os de Marengo, Wagram e Austerlitz. E eu creio que o Pantaleão tinha razão em pensar
assim, porque, ao menos, n'aquella tres victorias, a humanidade bem
pouco sangue perdeu!
(Continuar-se-ha).
A.
F.
'/
*
MODAS.
DESCRIPÇÃO DO FIGURINO DE MODAS.
Primeiro vestuário.-. Túnica de
fatile preta arregaçada em pouff-tím ;
a frente nao é ajustada : mangas com canhões e
pregas grandes; laço sobre
o lado tendo por cima um viez e dentados
pequenos de tafetá azul turquoise.
baia de faülepreta lisa. Chapéo de
palha de arroz ornado com fitas de tafetá
azul e grinalda de trepadeiras.
Segundo vestuário. - Paletó
(dolman) de cachemira havane com trancelins
um pouco mais escuros e guarnecido com uma alta franja.
Túnica de cachemira guarnecida com franjas; saia irmada de tafetá
guarnecida com sete fôlhos. Chapéo pequeno de palha côr de castanha, ornado
com uma grinalda
ae sabugueiro, fitas de faüle côr de castanha e renda
preta.
TRABALHOS.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS E TRABALHOS.
N° 1. — Desenho para almofada de alfinetes ou fundo dç touca. O trabalho
inteiro é feito sobre cassa em ponto de festão; sendo acabado, recorta-se a
fazenda nas partes sem pontos do desenho; e se for para almofada de alfinetes,
forra-se com transparente de seda de côr viva.
N° 2. — Outro desenho para almofada de alfinetes , fundo de touca ou tapete
de candieiro. As flores e folhagem fazem-se de crochet separadamente, e são
ajuntadas depois por um ponto de festão, como o indica o desenho.
N° 3. — Collarinho a marujo com reverso. A orla toda é feita de ponto festão, recortando como sempre a fazenda debaixo das barrinhas; a linha com
pontos indica o lugar do pescoço.
3S0
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
N° 4. — Collarinho com dois reversos para luto aliviado. 0 ramo de flores
faz-se com retroz preto em ponto lançado, e cordãozinho de seda nas hastes.
O collarinho acaba por um ponto de festão egualmente de retroz preto. Os
manguitos fazem-se com dois reversos como o collarinho.
N° 5.— Desenho para chinella. A obra toda é de retroz regular em ponto de
chainette de cores naturaes isso é, a folhagem verde, os amores perfeitos
roxos e os pistilos amarellos; o açafate pequeno assim como o ramalhete de
retroz côr de milho. O fundo pode ser de panno encarnado ou azul ou de
qualquer outra fazenda um pouco encorpada. Querendo simplificar o trabalho, executa-se unicamente o açafate do meio sem as duas grinaldas que
o acompanham.
N°6. — Quarta parte d!um sacco para fumo. Este trabalho pode fazer-se
de ponto chainette ou bordado com trancelim. Nosso modelo era de cache~ffiirk~^#rírt^
N° 7.— Entremeio para roupa fina. Este entremeio e feito de cordãozinho,
recortando depois a fazenda nas partes sem pontos indicadas pelo desenho.
N° 8. — Outro entremeio para guarniçâo de vestido ou roupa fina. Faz-se o
trabalho inteiro em ponto de festão e depois de acabado, recorta-se a fazenda
debaixo das barrinhas. Pode ser elle acabado por uma linha recta de ponto
festão, em lugar dos dentados.
N° 9. — Entremeio de fúet guipure. Ponto de espirito e ponto de serzido.
Pode este entremeio servir para cortinas pequenas alternadas com tiras de
cassa,
N° 10. —• Cercadura para saias, vestido para criança, etc. Tudo é feito em
ponto de festão.
N° 11. — Quadrado de Ia feito em ponto de meia para colcha.
Materiaes : lã de Alsacia 10 fios; branco e encarnado vivo; um jogo de
agulhas de marfim grossura surtida.
Esta colcha é composta de quadradinhos feitos em ponto de meia separadamente, e ajuntados depois e collocados em forma de taboleiro de damas,
alternando um quadrado branco com outro encarnado : • os quadradinhos
encarnados no sentido natural do ponto de meia e os brancos atravessados.
Cada quadrado é de nove malhas de lado e faz-se uma carreira no sentido
avesso, outra no direito.
Sobre o quadradinho encarnado, borda-se uma estrella de lã branca, e
sobre o quadradinho branco uma estrella de lã encarnada.
Com á grossura de lã por nos indicada, cada quadradinho terá de 6 para
7 centímetros quadrados.
Nb 12._—¦ Quadrado de fúet guipure de Florença. Este modelo é uma novidade imitada do antigo guipure florentino. O fundo e a orla unicamente variam do guipure regular. Para executar o fundo, é preciso atravessar o fio da
malha d'um lado e outro no fio que encruza no sentido opposto justamente
por cima do laço do fúet, de maneira a formar um V em cada quadradinho.
Para a orla os fios de filet cortam-se a par do dito fúet nos
quadradinhos vasios do desenho, e as partes assim cortadas se orlam com um
ponto de festão.
N° 13. — Entremeio para roupa fina (lingerie). Cordãozinho eplumetis.
N° 14. — Metade dJuma almofada para canapé ou véo de
poltrona. No primeiro caso o trabalho inteiro é feito de trancelim e
passe dé trancelim de
côr viva sobre o fundo. No segundo, é elle feito de ponto festão eplumetis, de
applicação de cassa sobre filo.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
m
NM5. -Collarinho a marujo com reversos. A orla
se faz cm ponto de í
tao. Depois de acabado recorta-se a fazenda nas
sem pontos dode"
nho. A linha de pontinhos indica a grossura do partes
pescoço
N° 16. - Tira para cortinas pequenas de applicaçâo
de cwi «nh™ <t
Estas liras bordadas são alternadas com tiras de cassa
-'
N"17. — Quarta parte dum guarda-napo. A narto mii* pnm„„-j _i
,
°rla
P1
indica o meio do guarda-napo. Tudo é fito d
Ito festão
í
fazenda debai.™ „as barbas o ta,se „ mé?„
T^p^ W
N° 18. - 0M«rfó porfc taa «««fcw de lenço
em ponto de Vere/a Este
N» 19.— Oitava parte d'um tapete
paru mesa (guéridon). Oito oedacosspmp
hantes formam um tapete. Nosso modelo era dc crochet
tnnis ano auaírt
de Ia encarnada, c quatro dc lã
preta alternados. Essas oito partes eram Sn
tadas por pontos dc retroz (llocbe) conforme o nosso
nJelS
de
quenos
ponto encruzado de tapeçaria. As cores dos palmos
pequenos são
alternadas ; faz-se uma fileira cFcllas de côr azul,
branco e verd
outra
fileira encarnado, amarello e roxo. Sobre a oitava
parte do tapete com chão
encarnado, substitue-se a côr encarnada
côr preta. Este írabalho pod
pela
lazer-se lambem mais pequeno armando menos malhas,
e então servirá nara
almofada pouff ou banquinbo de
P
~ Cnenadura de mtido pé.
*™nça cm ponto lançado.
l)ara
Z
f»'
in -il. - Desenho de circulo
para guarda-napo. Nosso modelo era de cachemira encarnada bordada em
ponto chainette de retroz de côr viva. No centro
. do florão pode ser bordado o nome da
a quem fôr destinado o obpessoa
jecto Para acabal-o, applica-se elle sobre um
pedaço de papelão ou sobre
fazenda encorpada e tesa ; forra-se com
percalina ou seda, e fecha-se elle
uma
abertura ou ilhó, de caoutchu com botão.
por
~
d'Um collarinho direit0- Plumetis e
ponto de festão.
x.
II'
v€tade
.x ii. — Nome para canto dc lenço. Plumetis
e cordãozinho.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE MOLDES.
VERSO DA ESTAMPA DE BORDADOS.
^ mpính° do se9undo
f'9urim du estampa de modas e d'um traje párd
mentia8
°iê ~ Fr^te
do corpinho; o collete é fingido pela
guarnição e se corta
d> ma peça so; o reverso,
indicado no lugar aonde deve ser elle collocado,
corta-se separadamente.
N° 2— Costas.
WoW"m 9ue se corta (,e uma
peça só com as costas. Entre
o*h1;3'o"T
°s dois S ha uma
prega.
fIue se corta em dois pedaços,
No i*"""Manga
Mdade d° ^Ôl,'° da "í3"83, As lettras indicam corao deve ser'elle
colloc: d~~
' ~ crente da túnica do traje
para menina. Corta-se cila d'um pedaço .
qA com
n
so
o corpinho.
352
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
N° 7. — Costas da túnica que tambem se corta d'um pedaço só com o
corpinho. Entre os dois S ha uma prega. A costura que une o corpinho debaixo do braço se prolonga só até á estrella pequena. O resto é atado por
laços de fitas.de côr irmanada com a guarnição da túnica que são marcados
sobre o molde por quadradinhos. Este traje é o do 5o figurino da gravura dé
modas do mez de agosto passado.
No nosso molde a túnica é orlada com umagrinalda bordada com trancelim; porém o bordado pode ser omittido. No nosso modelo a pequena túnica
era de cachemira azul escuro, bordada com trancelim de lã branca; a saia
e a camisinha Ae foulard de lã branco. É um pequeno traje que poderá servir egualmente para tempo frio.
N° 8. — Desenho do traje para menina.
N° 9. — Alphábeto para guardanapos, toalhas, lenços, fronhas, etc. Este
alphabeto é muito lindo e poderá agradar ás uossas assignantes que nos pedíram os seus iniciaes com lettras ornadas. 0 quadradinho que está no meio
das lettras é aberto; o resto de plumetis e cordãozinho.
ROMA.
ESTAMPA
SOBRE
MADEIRA.
Roma é a cidade do mundo a mais interessante pelos seus monumentos
históricos. Além de numerosos edifícios antigos como pórticos, amphitheatros, templos, arcos de triumpho, columnas, etc, encerra ella grande quantidade de modernos; quatrocentos e setenta egrejas, palácios e museos sem
rivaes no mundo. Era Roma antiga a cidade dos conquistadores, a Roma
moderna é a cidade dos christãos.
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Paris. — Typographia de G. Chamcrot, rua dos Santos-Padres, Vè.
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