Formação continuada: uma reflexão a partir dos saberes necessários à prática pedagógica Cristiane Santos da Luz* Marlene Oliveira dos Santos** O desejo de escrevermos este texto partiu das inquietações pedagógicas, sociais e políticas vividas, por nós, no cotidiano dos cursos de formação continuada e nas reuniões mensais de estudo e de avaliação das atividades de formação realizadas pelo Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica – CEAP1. Nasceu, também, como um desafio de sistematizar as reflexões e as experiências educativas de todos os personagens envolvidos nos projetos de formação contínua: professores, coordenadores pedagógicos, professores-formadores (profissionais convidados para mediar o processo de formação continuada) e equipe de coordenação. Escolhemos a obra “Pedagogia da Autonomia” (1996) para ilustrar as nossas idéias porque nela encontramos a formação docente e a reflexão sobre a prática educativo-progressista associadas aos saberes fundamentais ao exercício da docência como eixos norteadores das provocações político-pedagógicas feitas por Freire. Já Tardif (2002), outro autor escolhido, vem enriquecer as discussões sobre formação de professores, apontando quatro saberes que consideramos relevantes à prática docente e que complementam, também, aqueles presentes no pensamento de Freire. Os saberes indispensáveis à prática pedagógica, sugeridos pelos dois estudiosos, estão relacionados com a concepção de formação continuada que acreditamos. Compreendemos a formação continuada como aquela que acontece ao longo da vida, de forma contextualizada e sistematizada; que leva em consideração a história de vida e a trajetória profissional dos educadores; que privilegia os objetivos do projeto políticopedagógico da escola; que relaciona os problemas de cunho social, político, econômico, ambiental, * Estudante de Pedagogia/UFBA, Professora do EJACAV (Educação de Jovens e Adultos do Colégio Antônio Vieira), Coordenadora do Projeto de Adoção Escolar à Distância e de Projetos na área de Formação Continuada no CEAP. [email protected] ** Pedagoga, Coordenadora de Projetos na área de Formação Continuada no CEAP e Professora-orientadora do Curso de Pedagogia do Programa Rede UNEB 2000 – Salvador II e III/UNEB-BA. [email protected]. 1 O CEAP é uma instituição da Companhia de Jesus, sem fins lucrativos, nascido em 1993 com a colaboração de profissionais da área da educação e de jesuítas. Desde a sua origem vem desenvolvendo projetos de formação continuada para professores, principalmente, de escolas populares da educação básica de Salvador e de cidades do interior da Bahia. Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) 1 Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos étnico presentes na sociedade com as situações pedagógicas vivenciadas na sala de aula e na escola pela comunidade educativa. • valorização das experiências profissionais e pessoais dos docentes envolvidos nos projetos; A formação continuada deve contribuir para a nomeação científica do fazer pedagógico, para a construção de novos saberes pautados, sobretudo, no ato de esmiuçar a prática pedagógica. Esmiuçar é uma ação inerente a atitude reflexiva diante do que vemos, fazemos, sentimos e pensamos. Ao escrever isto, nos lembramos de uma cena ocorrida em um dos encontros de formação, quando uma das professoras, ao estudar os níveis de escrita propostos por Grossi (1990), e, concomitantemente, refletir sobre o seu fazer pedagógico, disse entusiasmada: então quer dizer que eu venho para o curso para aprender a dar nomes às coisas que já faço em sala de aula?!”. Aprender a dar nomes às situações, às atividades e às experiências é uma das possibilidades que um projeto de formação continuada pode proporcionar aos educadores. Reconhecer que pode dar nomes “às coisas” que são feitas em sala de aula significa familiarizar-se com as teorias e apropriar-se de conceitos até então experimentados e, ao mesmo tempo, despercebidos nas ações didático-pedagógicas. • construção, individual e coletiva, de aprendizagens significativas durante/sobre o exercício da docência; Temos nos apoiado, ao longo desses anos, em princípios teórico-metodológicos que foram construídos a partir da cultura do vivido e da obra de pensadores como Paulo Freire (1970, 1986, 1992, 1996) e Antônio Nóvoa (1991, 1992), por exemplo. Com base em tais princípios, destacamos algumas de nossas ações: • desenvolvimento dos projetos de formação continuada em consonância com o cotidiano das escolas; • tomada da prática pedagógica como ponto de partida e de chegada; • adoção de uma postura dialógica e crítica no processo de ensino e de aprendizagem; • iniciativas que possibilitem o acesso aos bens culturais nas atividades de formação; • uso do registro como instrumento de problematização e de sistematização das atividades sócio-educativas; 2 • uso da pesquisa como estratégia permanente de articulação entre a teoria e a prática e de produção do saber; • acompanhamento didático-pedagógico das atividades desenvolvidas pelos educadores nas escolas; • desenvolvimento das ações dos projetos de formação continuada em, no mínimo, dois e, no máximo, em 3 anos. O sucesso de um curso de formação continuada está relacionado à maneira como o projeto é elaborado/executado, às condições de trabalho dos profissionais da educação, à organização do trabalho pedagógico na escola, às políticas públicas destinadas para esta modalidade de formação, ao desejo de quem vai participar do processo de formação, às competências sociopolítica e técnico-pedagógica dos “formadores” e à intenção de quem está propondo ou sendo convidado para organizar/mediar as ações no âmbito da formação continuada. Sem políticas públicas, participação, organização, coerência, desejo, acompanhamento e clareza política, a formação continuada se transforma em um passa-tempo descontínuo e infrutífero. O foco dos cursos de formação continuada não pode ser apenas o professor. É necessário voltar o olhar também para a escola, percebendoa como instituição construtora de história, de cultura, de política, de conhecimento... Centrar a atenção no professor significa responsabilizá-lo pelo sucesso e/ou fracasso da aprendizagem dos estudantes e pelos resultados da escola. Será que é papel do professor assumir sozinho esta responsabilidade? Essa mentalidade se reflete na concepção de formação para professores implementada pelos últimos governos com a adoção de políticas neoliberais. A ênfase no trabalho individual, a desobrigação do Estado em elaborar e assumir as políticas públicas, a exigência de eficiência e de qualidade sem dar condições Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos mínimas para o desenvolvimento profissional docente, a transformação da educação em mercadoria, a valorização da aprendizagem como produto e a mercantilização do ensino são indícios de um plano de ação, que já está em vigor, perverso e cada vez mais excludente. Em relação à formação continuada, apesar de já se ter ampliado os projetos nesta área, temos ainda muitos educadores excluídos das cirandas de estudo e de reflexão sobre o fazer pedagógico, principalmente, aqueles desvinculados da rede oficial de ensino, municipal e estadual, os professores das escolas comunitárias e das escolinhas particulares de bairros populares. As ONGs que têm como campo de trabalho a educação e que assumiram um compromisso político com este grupo social vêm desenvolvendo projetos de formação continuada, atendendo professores, coordenadores e dirigentes que trabalham nestas instituições, como é o caso do CEAP. Para a maioria deles, os cursos de formação continuada se configuram como os únicos na sua caminhada pessoal e profissional. Portanto, temos uma grande responsabilidade para com estes profissionais da educação, principalmente, na construção de projetos que possibilitem o estudo do texto chamado cotidiano e que contribuam com a melhoria da qualidade da aprendizagem dos estudantes. Os projetos de formação continuada de professores precisam ter, no mínimo, dois momentos, chamados por Freire (1996) de ciclo gnosiológico: o em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente (p. 31). Entendemos que este ciclo não deve ser vivenciado de maneira dicotômica, pois a reflexão sobre o conhecimento já existente parte da experiência vivida, do saber popular e dos saberes construídos historicamente pela humanidade, o que subsidiará e possibilitará a construção de novos conhecimentos. O conhecimento existente está presente em todos os níveis de ensino, nos diversos espaços formais e não-formais de aprendizagem e se traduz por meio das práticas sócio-educativas e de atitudes político-pedagógicas. Práticas e atitudes são constituídas de saberes que vão além da experiência. De acordo com Tardif (2002), a prática integra diferentes saberes, com os quais o corpo docente mantém diferentes relações (p. 36). Os saberes docentes, estudados por este autor, são oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais. Os saberes profissionais são construídos nos espaços acadêmicos (escolas normais e faculdades de educação), nos quais o professor e o ensino são tomados como objeto do saber. Os conhecimentos produzidos a partir de investigações científicas sobre o professor e o ensino não se reduzem apenas em teorias. Existem tentativas de incorporá-los à prática do professor. Essa articulação acontece, concretamente, através da formação inicial ou contínua de professores. A prática docente não é apenas um objeto de saber das faculdades de educação (grifo nosso), ela é também uma atividade que mobiliza diversos saberes que podem ser chamados de saberes pedagógicos (Tardif, 2002, p.37). Os saberes pedagógicos são constituídos a partir de reflexões sistemáticas e científicas sobre a prática pedagógica que, de certa forma, orientam e legitimam as atividades educativas desenvolvidas nas escolas e nas faculdades de educação. Os saberes profissionais e os saberes pedagógicos fazem parte da formação profissional, primeiro saber apontado por Tardif. Já os saberes disciplinares correspondem aos diversos campos de conhecimento, aos saberes de que dispõem a nossa sociedade...(idem, p.38). Os professores interagem com saberes sociais selecionados e organizados em disciplinas oferecidas pela universidade. Portanto, os saberes disciplinares integram, também, a prática docente nos níveis da formação inicial e continuada. Os saberes curriculares estão relacionados aos discursos, objetivos, conteúdos e métodos a partir dos quais a instituição escolar categoriza e apresenta os saberes sociais por ela definidos e selecionados como modelos da cultura erudita e de formação para a cultura erudita (idem). Concretamente, estes saberes se traduzem em programas escolares que os professores precisam aprender para aplicar em sala de aula e em outros espaços educativos. Por último, temos os saberes experienciais que são construídos a partir do Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) 3 Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos exercício da profissão docente, onde o trabalho desenvolvido no cotidiano escolar serve de bússola para as discussões e construção de conhecimentos. Esses saberes brotam da experiência e são por ela validados. Eles incorporamse à experiência individual e coletiva sob a forma de ‘habitus’ e de habilidades, de saber-fazer e de saberser (p. 39). Eles podem ser chamados de saberes experienciais ou práticos. modelo de educação que centrava no docente o poder e o papel de transmitir conhecimento para quem era considerado como uma caixa vazia para ser preenchida, o aluno. Cremos que ainda não nos livramos completamente desse modelo, mas percebemos que já existem experiências em diferentes espaços educativos nos quais professores e alunos são parceiros nos ninhos de aprendizagem e na caminhada educativa. A profissão, as disciplinas, o currículo e a experiência são necessários à formação continuada quando tomados de forma crítica e contextualizada nos programas das faculdades de educação, das escolas normais e dos centros educativos que desenvolvem projetos no âmbito da formação contínua. Levar em consideração o trabalho, os saberes sociais, os objetivos e o fazer pedagógico do professor exige por parte de quem está mediando o processo de formação continuada clareza política, conhecimento do cotidiano, sensibilidade e domínio dos temas/ conteúdos que serão desenvolvidos no decorrer dos cursos. A mudança de foco do educador autoritário para o educador democrático requer, necessariamente, a criação de uma prática que valorize e crie oportunidades para o desenvolvimento da humildade, da curiosidade, da indagação e da crítica na aproximação e na apropriação dos objetos cognoscíveis. Freire (1996) apresenta no livro “Pedagogia da Autonomia” três grandes saberes - não há docência sem discência; ensinar não é transferir conhecimento; ensinar é uma especificidade humana. Nos esforçaremos para estabelecer algumas pontes entre estes três saberes “guardachuva” e a nossa experiência de formação continuada. Estamos chamando de saberes “guarda-chuva” porque dentro de cada um deles tantos outros estão agregados e interrelacionados. “Não há docência sem discência” A tarefa docente não é apenas ensinar os conteúdos mas também ensinar a pensar certo (p. 29). O pensar certo tem uma forte relação com as “nossas certezas”. Não podemos estar seguros de que o que sabemos é eterno e intocável. O professor que crê que está com sua caixa de certezas fechada e definitiva tem dificuldades de dialogar com os saberes dos educandos e de outras pessoas, de olhar para os seus pares e estudantes como sujeitos capazes de aprender, de criar e de ousar e de concebê-los como seres históricos. O professor que pensa dessa maneira impõe seu modo de pensar aos outros como se fosse único e verdadeiro. O ensino e a aprendizagem não podem acontecer sem que professores e alunos adotem uma postura de aprendizes diante dos objetos de conhecimento. Compreender que quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender (Freire, 1996, p. 23) significa rever um Segundo Freire (1996), o professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo (p. 31). Conhecer o mundo através da intervenção político-pedagógica Reconhecemos que tanto os saberes apresentados por Tardif (2002) como os saberes necessários à prática pedagógica indicados por Freire (idem) podem ser considerados fundamentais à formação continuada. Entretanto, faremos uma reflexão mais aprofundada a partir daqueles presentes no livro anteriormente citado. 4 Ser professor democrático não significa, na sua prática pedagógica, deixar de ser exigente, crítico, questionador e curioso. Pelo contrário, a adoção de uma postura democrática no espaço escolar requer como eixo estruturante da ação educativa o diálogo entre educador e educando em todas as etapas do processo de ensino e de aprendizagem. Portanto, acreditamos que seja necessário criar estratégias didáticas que proporcionem o descortinamento da realidade, a construção de conhecimentos e a compreensão do emaranhado de fios que compõem a sociedade. Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos é uma das estratégias utilizadas em nossos cursos de formação continuada. A aprendizagem é construída através da relação com o outro e com o objeto de conhecimento. Os “professores-formadores” e os educadores são protagonistas e coadjuvantes das cenas pedagógicas e histórico-sociais construídas e vividas no processo de formação. O que é vivido no espaço escolar por educadores e educandos as discussões, as inquietações, as necessidades, as dificuldades, os risos... - servem de atos pedagógicos nos momentos das reflexões. Tomamos a prática pedagógica como ponto de partida e de chegada no processo de formação. É a partir dela que construímos/desconstruímos saberes, revemos conceitos, concepções, metodologias, atitudes.... A vivência da do-discência2 exige respeito aos saberes dos educandos, testemunho de decência, coerência entre o que se diz e o que se faz, reflexão crítica e pesquisa sobre a prática, esperança na construção de uma educação diferente, ousadia para enfrentar os desafios e propostas que excluem a grande maioria da população. “Ensinar não é conhecimento” transferir É fundamental ao educador, no seu processo de formação, construir ou rever saberes em torno da sua prática pedagógica, elemento de relevância nas atividades desenvolvidas pelo Centro. Quando Freire (1996) diz que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua construção (p. 52) ele quer ir de encontro a uma prática de ensino conteudista e autoritária, defendendo uma ação pedagógica que entenda o conhecimento não como algo preestabelecido e acabado, pronto para ser transmitido, mas como algo que deve ser compreendido e, sobretudo, testemunhado e vivido pelos agentes - educador e educando envolvidos no processo de formação. 2 Como Freire, acreditamos que educador e educando devem estar envolvidos na construção e produção do saber, pois, uma ação pedagógica incoerente, distanciada da prática concreta, onde discurso e posturas são divergentes, se constitui como uma ação estéril. Esta postura não está tão distante, mas também não se configura como uma ação predominante nos processos de ensino e aprendizagem das instituições acompanhadas por nós. Queremos contribuir com a formação do professor que desenvolva uma prática eficaz por produzir mulheres e homens agentes de suas histórias, protagonistas de sua formação pessoal, profissional e cidadã. Entre as escolas atendidas, é possível encontrar aquelas que ainda concebem o ato de ensinar como lugar para transferir e transmitir conhecimentos, ou melhor, narrar conteúdos programáticos, retalhos de realidade, desconectados de uma totalidade, sem significação (Freire, 1970). Uma atitude que não é tão fácil mudar pelo caráter histórico que envolve as posturas assumidas nas atividades docentes. As relações de troca estabelecidas com outras instituições, assim como a competência profissional e política dos “professoresformadores” convidados a mediar as ações, além da vivência comunitária e do vínculo com outras ONGs, são fatores que também influenciam e contribuem diretamente no exercício de reflexão sobre as práticas docentes, permitindo que os mesmos atentem para a necessidade de retomar o seu fazer pedagógico e torná-lo coerente e consoante com os discursos estabelecidos de uma educação humanizadora e crítico-libertadora. “Ensinar é uma especificidade humana” O último saber “guarda-chuva” indicado por Freire - ensinar é uma especificidade humana - é legitimado pela segurança e competência profissional; pela generosidade; pelo comprometimento do educador; pela sua Conceito utilizado por Freire para dizer que o sujeito ao ensinar aprende e ao aprender ensina. Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) 5 Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos compreensão da educação como forma de intervenção no mundo e como ação ideológica; pela sua capacidade de escuta e de disposição para o diálogo. Enquanto profissionais que trabalham em instituições comunitárias e atuam com classes populares, é possível perceber que a compreensão de educação como forma de intervenção e de ação ideológica nas ações sócioeducativas desenvolvidas no espaço escolar é clara e presente. A lacuna surge quando analisamos as competências profissionais e tentamos visualizar a segurança no exercício da docência. Estamos cientes de que apesar do esforço para melhorar a sua formação pedagógica, os professores ainda têm um longo caminho a percorrer. Assim como Freire, acreditamos que a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor (p. 103). A qualificação do profissional da educação deve privilegiar as dimensões pessoal, política, cultural, intelectual, espiritual, como uma forma de instrumentalizá-lo para o trabalho e para a vida. O professor que não desejar estudar hoje e não buscar possibilidades para aperfeiçoar suas competências terá dificuldade em contribuir para a formação de outras pessoas. E se fizer, por mais generosidade que tenha, será em condições limitadas. A luta por uma formação acadêmica, pelo domínio de teorias, pelo entendimento do seu fazer pedagógico é latente na maioria dos profissionais que acompanhamos. Organizar espaços que acolham as necessidades destes e tantos outros educadores é imperativo de qualquer iniciativa de formação continuada de professores que se propõe a nadar contra a correnteza da sociedade neoliberal excludente e marginalizadora. Procuramos, através dos nossos projetos de formação continuada, acolher as dificuldades de ordem político-pedagógica dos educadores. Eles são incentivados no processo de investigação, de descoberta e de construção/ressignificação de saberes pelos companheiros de cursos e da instituição em que trabalha, pelos mediadores e também pelos estudantes que os desafiam em sala de aula, obrigando-os a estudar mais e planejar de forma contextualizada. Para esta 6 caminhada a autonomia e a liberdade são fundamentais. A escuta e o diálogo agregados à autonomia e à liberdade podem proporcionar a construção de uma formação continuada mais democrática, humanizadora e politizada. O percurso da formação de cada educador é planejado e percorrido de acordo com a sua história de vida, sua experiência teórico-prática, seu nível de envolvimento em movimentos sociais, sua relação com o objeto de conhecimento, seu ritmo de estudo. Portanto, dar atenção ao processo individual de cada sujeito, nos cursos de formação continuada e na escola, é pré-requisito para a sensibilização e para uma possível mudança no trabalho docente. Considerações finais Podemos dizer que os saberes fundamentais à formação continuada podem ser os mesmos saberes necessários à prática pedagógica destacados por Freire (1996) e Tardif (2002). A apropriação e a vivência destes saberes nos espaços de formação e de trabalho devem ser feitas por cada um de nós. Lembramos que todos os saberes estão interconectados e se estudados e apreendidos de forma isolada estaremos perpetuando um modelo de educação opressora e de formação excludente. A formação continuada deve, através da problematização de temas/conteúdos e da criação de estratégias metodológicas, proporcionar aos professores situações de aprendizagem que favoreçam a articulação de saberes, a construção de aprendizagens, o acesso aos bens culturais, o diálogo entre os envolvidos no processo de formação, a reflexão crítica sobre prática pedagógica, a socialização de experiências bem como a sistematização de suas reflexões e descobertas. Foi refletindo sobre o fazemos que estamos conseguindo caminhar sem perder de vista as contradições, os avanços, as dificuldades, os desejos e os desafios de todos atores/autores dos projetos de formação continuada. Estamos contentes porque os educadores que participam de nossos cursos já exigem, de certa forma, um olhar diferenciado e cuidadoso para com o seu Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) Formação continuada: uma reflexão a partir... - Cristiane Santos da Luz e Marlene Oliveira dos Santos processo de formação. Temos nos empenhado, com a colaboração dos companheiros de curso e dos “professores-formadores”, para mediar o processo de ensino e de aprendizagem de forma democrática e dialógica. O impacto desses cursos na aprendizagem dos estudantes acompanhados pelos professores participantes dos nossos encontros de estudo e de reflexão é objeto futuro de pesquisa da equipe coordenação dos projetos de formação continuada do CEAP. Referências Bibliográficas FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1970. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GROSSI, Esther Pillar. Didática do nível Pré-silábico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. ___________. Didática do nível Silábico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. ___________. Didática do nível Alfabético. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2002. Revista de Educação CEAP - Ano 11 - n° 43 - Salvador, dez/2003 - fev/2004 (p. 67-77) 7