VISÃO E ILUMINAÇÃO NA AVICULTURA MODERNA
VISION AND ILLUMINATION IN MODERN POULTRY PRODUCTION
1*
2
2
Angélica Signor Mendes , Rosana Reffati , Rasiel Restelatto , Sandro José Paixão
2
RESUMO
INTRODUÇÃO
Os aviários modernos são cuidadosamente iluminados visando
a redução de canibalismo, de movimentação das aves e os
custos em energia elétrica. Muito se sabe sobre os efeitos da
iluminação sobre a produção, mas pouco sobre a forma como
o bem-estar das aves pode ser afetado. Para avaliar esta
demanda, é importante compreender como as aves percebem
seu ambiente e quantificar os aspectos físicos da iluminação.
Visto que as principais propriedades do ambiente visual são a
iluminância e sua variação espacial, a temperatura das cores e
as oscilações das lâmpadas, a percepção destas propriedades
depende da sensibilidade espectral das aves, que é distinta da
sensibilidade e percepção humana. Só depois que estas
lacunas sobre as respostas das aves à luz ambiente forem
entendidas será possível explorar significativamente a relação
entre iluminação nos aviários e desempenho e bem-estar
animal. Desta forma, este trabalho tem como objetivo destacar
através da literatura científica referenciada, a relevância do
tema e a relação dos conceitos de iluminação no resultado final
de uma atividade avícola, em que se deseja atingir o máximo
potencial produtivo da espécie, sem privá-la de bem-estar.
A iluminação é um dos fatores que são freqüentemente
utilizados para manipular o comportamento e a produção de
aves de corte, incluindo perus (NIXEY, 1994; LEWIS et al.,
2004). Nos aviários modernos, o planejamento dos sistemas de
iluminação é largamente baseado na visão humana – o que é
um equívoco – e deve satisfazer os critérios de produção e de
legislação. Considerando que agora se tem um melhor
entendimento de como a iluminação, especialmente o
fotoperíodo, pode afetar as aves em reprodução e produção, o
conhecimento das habilidades visuais das aves e sua
influência nos principais comportamentos, como o
reconhecimento social e a alimentação, ainda é limitado
(PRESCOTT & WATHES, 2001).
A intensidade luminosa, a distribuição, a cor e a duração
da luz afetam o desempenho e o bem-estar do lote. O
posicionamento adequado das fontes de luz e sua distribuição
estimulam as aves a procurar alimento, água e calor durante a
fase de recria. Durante a fase de crescimento, a iluminação
pode ser útil para moderar o ganho de peso e otimizar a
eficiência da produção e a saúde do lote.
Durante muitos anos, programas com fotoperíodos de
23 a 24 horas de luz diária foram utilizados pela indústria
avícola a fim de proporcionar o máximo consumo alimentar. A
utilização deste sistema possibilitava um melhor resultado
econômico. Entretanto, o melhoramento genético proporcionou
ao mercado uma ave diferente e estudos surgiram
relacionando programas de luz com mortalidades e problemas
de pernas (MARTRENCHAR et al., 1999).
Após vários trabalhos, pesquisadores concluíram que
um melhor desempenho e bem-estar das aves poderia ser
alcançado com fotoperíodos moderados: aumento das horas
de sono, menor estresse e melhora na resposta imunológica
(LEWIS et al., 2004; GOUS et al., 2004; WANG et al., 2005).
A luz natural na qual as matrizes e as aves de corte são
criadas evoluiu no formato de fornecimento de iluminação
artificial. Primeiramente, a iluminância (intensidade luminosa)
da luz natural em um dia ensolarado pode ser tão alta quanto
100.000 lux (THE´RY, 2001). Considerando que a intensidade
luminosa encontrada em aviários ao nível das aves deve ser
inferior a 5 lux (PRESCOTT & WATHES, 1999a), apesar da UK
Farm Animal Welfare Council (FAWC, 1992) recomendar valor
inferior a 20 lux. ENDLER (1993) caracterizou a luz ambiente
do interior das florestas e mostrou como esta pode afetar a
aparência de um animal ou planta, logo a co-evolução da visão
e dos sinais visuais foi determinada, em parte, pela luz natural
disponível aos animais.
De igual importância é o efeito da luz ambiente,
especialmente a iluminância e o fotoperíodo, sobre o
desenvolvimento funcional do olho e, conseqüentemente, da
Palavras-chave: bem-estar de
iluminância; sensibilidade à luz
aves;
espectro
de
luz;
ABSTRACT
The modern poultry houses are carefully guided to the
reduction of cannibalism, the activity of the birds and the cost in
electric energy. Much is known about the effects of light on
production, but little about how the welfare of birds can be
affected. To assess this demand, it is important to understand
how birds perceive their environment and quantify the physical
aspects of the illumination. Since the main properties of the
visual environment are illuminance and its spatial variation,
temperature fluctuations and the colors of the lamps. The
perception of these properties depends on the spectral
sensitivity of birds, which is distinct from human perception and
sensitivity. Only after these gaps on the responses of birds to
the light environment are understood will be possible to explore
the relationship between lighting and performance in poultry
and animal welfare. Thus, this paper aims to highlight through
the scientific literature referenced, the relevance of the topic
and the concepts of illumination in the final result of a poultry
production, which want to achieve the maximum yield potential
of the species, without depriving it of animal welfare.
Key words: poultry welfare; spectrum of light; illuminance;
sensitivity to light
1*
a
a
a
Eng Agrícola, Prof , Dr , Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Campus Dois Vizinhos – Estrada para Boa
Esperança, Km 04, Caixa Postal 157, CEP 85.660-000, Dois Vizinhos, PR. E-mail: angé[email protected].
2
Acadêmicos de Zootecnia (UTFPR).
(Recebido para publicação em 11/03/2009, aprovado em 18/11/2009)
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
5
MENDES et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
visão. A sensibilidade relativa espectral é conhecida pelas aves
e humanos. Para as aves, pode-se determinar a percepção dos
níveis de iluminação para as diferentes fontes de luz na
unidade "clux”, unidade oposta ao lux (uma unidade fotométrica
calculada pelo espectro de uma fonte de luz e pela
sensibilidade do olho humano), percebida pelos humanos.
Pode-se confirmar também a gama de comprimentos de ondas
que as aves podem “ver”, que inclui os raios UVA (ultravioleta).
Percebe-se que o manejo de luz é uma técnica muito útil
e de baixo custo de produção e os princípios que envolvem a
importância da iluminação são: fonte de luz e comprimento de
onda, intensidade de luz, duração e distribuição do fotoperíodo
(programas de iluminação), os quais serão descritos a seguir.
A VISÃO
Sensibilidade relativa (555 =nm = 1)
As aves possuem relativamente olhos maiores em
comparação com os humanos e cabe a nós compreender que
essa não é a única diferença entre essas duas espécies no
tocante a visão. Há dois tipos de células fotoreceptoras na
retina do olho: bastonetes, que são mais numerosos, altamente
sensíveis e possibilitam enxergar em ambientes com pouca
luz, e cones, que são responsáveis pelas condições de visão
normais durante o dia. A imagem produzida pelos bastonetes é
pouco definida, pois há muitas imagens ligadas a uma única
fibra nervosa. Entretanto, um somatório de estímulos fornece
aos bastonetes uma alta sensibilidade, no máximo de 507nm
(luz azul-verde). Estas células, que operam somente abaixo de
4 cd/m², são inaptas a distinguir as cores. Entretanto, o menor
número de cones, cada um ligado a uma única fibra nervosa, é
responsável por fornecer níveis muito mais significativos de
intensidade luminosa (iniciando de 4 até 44 cd/m²), produzindo
imagens em alta definição e permitindo a percepção das cores.
Em olhos humanos, os cones são responsáveis pela radiação
eletromagnética entre aproximadamente 400 e 730nm, com
uma sensibilidade máxima de 555nm. Há três tipos de cones e
cada um é nivelado por doses de óleo que permitem que
específicos comprimentos de ondas penetrem através das
fibras nervosas.
Os picos de sensibilidade destes três tipos de cones
permitem aos humanos perceber as cores primárias,
violeta/azul (450nm), verde (550nm) e vermelho (700nm).
Quando todas são estimuladas simultaneamente o cérebro
registra a luz como branca. Os olhos das aves têm um tipo
adicional de cone na retina com um pico de sensibilidade por
volta de 415nm (GOVARDOVSKII & ZUEVA, 1977; HART et
al., 1999) e este cone permite a percepção de radiações abaixo
de 400nm (PRESCOTT & WATHES, 1999).
As curvas da sensibilidade espectral das aves
domésticas foram traçadas por PRESCOTT & WHATES
(1999b), utilizando um teste comportamental e por Wortel et al.
(1987), utilizando um teste eletrofisiológico. Os pesquisadores
relataram que estas curvas das aves diferem das humanas:
nas aves a resposta é relativamente mais ampla e os raios
ultravioleta A (UVA 320 <8 <400nm) podem ser percebidos
(Figura 1).
nm
Figura 1 - Espectro de sensibilidade relativo das aves e humanos. Fonte: Prescott & Wathes, 2001
O efeito global destas diferenças anatômicas é um
sistema visual que está bem adaptado para a coleta de
informações espectrais. No entanto, a penalidade é,
provavelmente, o elevado nível de iluminância que é exigido
para o sistema trabalhar em seu pleno potencial. Logo, as
implicações da sensibilidade espectral das aves são triplas.
Primeiro, a unidade com a qual estamos tradicionalmente
mensurando a iluminância em aviários, o lux, está incorreta,
pois o fluxo luminoso percebido pelos animais é a soma das
respostas das células cone (PRESCOTT & WATHES, 2001).
A Equação 1, descreve o cálculo para determinar o fluxo
luminoso, onde observa-se que a constante específica
conhecida e utilizada é de 683 lumens/W, ou seja, para
6
determinação de estudos com humanos. Essa equação tem
sido comumente utilizada na programação dos luxímetros
(equipamentos que mensuram a iluminância), denotando que
esses equipamentos não fornecem uma resposta correta
quando utilizado em aviários.
£ = K ∫ R (λ).V (λ) dλ
(Eq. 1)
Onde:
£ = fluxo luminoso (lumens); k = constante específica (683
lumens/W para humanos); R = fluxo radiante incidente
espectral (W); V = eficiência luminosa relativa.
Calcula-se que para lâmpadas incandescentes e
fluorescentes típicas iluminando com a mesma intensidade, as
aves perceberiam a lâmpada incandescente 20% mais
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
MENDES et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
brilhante do que a lâmpada fluorescente. Unidades alternativas
para mensurar a iluminância percebida pelas aves, o clux ou
galluminance (galillux, em português), foram obtidos por
Prescott & Wathes (1999b) e Nuboer et al. (1992a). Atualmente
o valor de k é desconhecido para as aves, o que significa que
somos incapazes de equacionar a iluminância percebida pelas
aves.
Em segundo lugar, a gama disponível de
comprimentos de onda emitidas a partir das lâmpadas talvez
tenha restringido o fluxo de cores como informações. Isto
significa que se alguma informação social é resultante da
vermelhidão da crista de uma outra ave, sabe-se que uma
luz fluorescente, que emite pouca luz vermelha, dificultaria a
transmissão deste visual. Uma lâmpada incandescente, no
entanto, permitiria que essa informação fosse transmitida
eficientemente.
Em terceiro lugar, lâmpadas produzem pouca, ou
nenhuma, radiação UVA, que é biologicamente relevante para
as aves; a sua inclusão na iluminação artificial pode ajudar a
controlar canibalismo em perus (LEWIS et al., 2004) e mediar o
comportamento de acasalar em frangos e matrizes (JONES et
al., 1999).
Através da manipulação de um ambiente utilizando
fontes de iluminação fluorescente pode-se avaliar o efeito de
uma variável sobre o desempenho da produção de perus.
Quando comparadas com lâmpadas incandescentes,
demonstrou-se que a iluminação fluorescente produz um
considerável efeito de redução de peruzinhos considerados
refugos (WILLGEROTH & FRITZ, 1944), mas sem efeitos
negativos sobre a produção e desempenho de perus do sexo
masculino (LEIGHTON et al., 1989) ou do sexo feminino
(SIOPES, 1984; DENBOW et al., 1990).
Tanto a iluminância como as temperaturas das cores
das fontes de luz produzem alterações comportamentais nas
aves, mas só recentemente os humanos têm sido capazes de
separar estas em experiências.
Conforme já mencionado e de acordo com Nuboer et
al. (1992), a unidade “lux” mensura apenas a percepção da
intensidade de luz pelos olhos humanos. Isso é de extrema
importância, pois talvez o lux não seja um método confiável
para avaliar os níveis de intensidade luminosa em um
aviário. Percepções teóricas de humanos e aves da
intensidade luminosa de alguns tipos de lâmpadas podem
ser observadas na Tabela 1. O termo gallilux descreve a
percepção da luminosidade pelas aves, diferindo do termo
lux que utiliza a sensibilidade do olho humano em seus
cálculos.
Tabela 1 - Percepção da intensidade luminosa de aves e de humanos a uma distância de 1,5m das fontes de iluminação (LEWIS &
MORRIS, 2006)
Intensidade da percepção*
Irradiância
(W/m²)
Humanos
(lux)
Aves
(gallilux)
Iluminância
(entre aves e
humanos)
Lâmpada incandescente de 15W
0,03
5,6
8,1
1,45
Lâmpada fluorescente tubular quente
0,28
120,8
147,2
1,22
Lâmpada fluorescente tubular fria
0,3
120,8
159,1
1,32
Lâmpada de sódio de 70W de alta pressão
0,52
254,4
277,3
1,09
Lâmpada azul de 36W (Blacklight)
0,28
0,7
31,1
41,86
Lâmpada fluorescente tubular azul de 36W
0,42
37,8
196,8
5,2
Lâmpada fluorescente tubular vermelha de 36W
0,03
2,2
6,7
3,05
163.560
1,64
Fonte de luz
Luz natural (céu encoberto e luz da lua)
487
100.000
*Valores calculados em função da sensibilidade aos espectros e potencial das lâmpadas.
Existe pouca informação disponível sobre respostas
das aves à oscilação das lâmpadas fluorescentes
convencionais, em que a oscilação é o dobro do ciclo da
energia elétrica (50 Hz na Europa e 60 Hz nos EUA),
embora seja provável que as aves percebem esta oscilação,
pelo menos em algumas circunstâncias. Embora úteis para
algumas aplicações, a maioria dos trabalhos publicados
confunde uma série de fatores quando se compara a
oscilação e a não-oscilação das fontes luminosas
(PRESCOTT & WATHES, 2001).
Considerando que lâmpadas incandescentes produzem
uma constante taxa de iluminância quando comparadas com
uma fonte fluorescente, embora imperceptíveis para os seres
humanos, poderá ser percebida por aves de corte (NUBOER et
al., 1992) podendo causar desconforto, (BOSHOUWERS &
NICAISE, 1993), ou agitação (NUBOER, 1993; WIDOWSKI &
DUNCAN, 1996). No entanto, relata-se que, mesmo que as
oscilações da iluminação fluorescente sejam percebidas, esta
não é aversiva, pelo menos para galinhas poedeiras
(WIDOWSKI et al., 1992).
PRINCÍPIOS DA ILUMINAÇÃO
O fotoperíodo é essencialmente uma alteração na
intensidade luminosa. Assim, é esperado que a cor, que é
essencialmente uma alteração na intensidade em certos
comprimentos de onda, afete o crescimento e o
comportamento das aves. A luz visível é uma pequena coleção
de comprimentos de onda, oriundos de uma série muito maior,
e é chamada de espectro electromagnético. As luzes
incandescentes apresentam um aspecto de luz vermelha,
enquanto que as luzes fluorescentes brancas apresentam um
aspecto azulado. Isto acontece porque as luzes
incandescentes produzem comprimentos de onda mais longos
(vermelho) enquanto que luzes fluorescentes, mais curtos
(verde e azul).
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
7
MENDES et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
Pesquisadores (LEWIS & MORRIS, 2006) indicam que a
habilidade das aves em visualizar cores é similar à dos
humanos, exceto pelas aves não conseguirem ver com
precisão a luz de onda curta. Este artifício tem sido utilizado
para facilitar o manuseio dos frangos no momento da apanha.
O espectro da luz natural contém uma significativa contribuição
de comprimentos de onda entre 350 e 700nm, considerando
que fontes de iluminação artificiais mostraram variação na
emissão do espectro a alguns comprimentos de onda e,
conseqüentemente, diferentes cores (PRESCOTT & WATHES,
1999a).
Como a sensibilidade para comprimentos de onda difere
entre frangos e humanos (PRESCOTT & WATHES, 1999b), as
fontes de iluminação podem ser percebidas com cores
diferentes pelos mesmos.
Alguns comprimentos de onda específicos têm um
forte impacto sobre certas características de produção com
efeitos similares em perus e frangos. Aves expostas a
comprimentos de onda curtos apresentam melhor ganho de
peso e eficiência alimentar (KRISTENSEN et al. 2007).
Existe a hipótese de que o efeito sobre o crescimento possa
ser explicado pelo estímulo da atividade da ave pela luz de
longo comprimento de onda, a qual penetra na cavidade
craniana, e não pelo efeito da luz sobre a produção de
gonadotrofinas. Se a atividade é aumentada em aves
expostas a longos comprimentos de onda e a eficiência
alimentar é piorada, o ganho de peso pode ficar
comprometido. Durante os primeiros dias da criação de
frangos, a luz tipo onda curta estimula o crescimento,
enquanto que, a maturidade sexual é acelerada pela luz de
onda longa. Existem estudos investigando a possibilidade
de utilizar luz azul durante todo o crescimento dos frangos.
Isto decorre do fato de que as aves expostas à luz azul e
verde mantêm-se mais calmas do que aquelas expostas à
luz branca ou vermelha (Figura 2).
Figura 2 - Aves expostas à luz azul. Fonte: http://www.eltam-eh.com
Conforme KRISTENSEN et al. (2007) em estudo com
frangos de corte, constataram que as aves de 6 semanas de
idade passaram 61% do tempo descansando sobre a cama,
mas este comportamento não foi afetado significativamente
pela fonte luminosa ou pela iluminância. Porém, os frangos
demonstraram maior incidência do comportamento de
investigar o ambiente em locais mais escuros em comparação
a ambientes mais claros.
Frangos criados sob luz branca, vermelha ou azul (30
lux) durante 7 a 28 dias de vida preferiram luz azul, após a
primeira semana de exposição, enquanto as aves criadas em
luz azul preferiram luz verde após a primeira semana de
exposição (DAVIS et al. 1999). Outros estudos relatam que as
aves foram mais ativas sob luz vermelha (demonstraram mais
os comportamentos de ciscar, espreguiçar e bicar outras aves)
e branca (maior movimentação) em comparação à luz verde ou
luz azul, na intensidade de 30 lux e durante 7 e 28 dias de
idade (PRAYITNO et al., 1997a).
Já a luz vermelha aumentou a movimentação,
alimentação e o comportamento de alongar (PRAYITNO et al.,
1997b), onde a maior parte destes comportamentos foi afetada
pelas interações entre o comprimento de onda (azul contra
vermelho) e a intensidade (baixa, média e alta).
TIPOS DE FONTES DE ILUMINAÇÃO
Os tipos mais comuns de iluminação em aviários
brasileiros são as lâmpadas incandescentes e as fluorescentes,
8
porém há uma nova lâmpada já testada e de grande utilidade e
economia no setor avícola: as lâmpadas de vapor de sódio.
Lâmpadas incandescentes são muito utilizadas na
produção de aves de corte, entretanto as lâmpadas
fluorescentes possuem várias vantagens, como: vida útil 20
vezes mais longa e quatro vezes mais eficiência energética que
as lâmpadas incandescentes (LEIGHTON et al., 1989;
DENBOW et al., 1990), aparente percepção mais “brilhante e
clara”, o que torna mais fácil a inspeção e manejo do lote em
comparação com lâmpadas incandescentes de mesma
intensidade (SHERWIN, 1998).
A instalação das lâmpadas incandescentes é barata e
estas fornecem uma faixa de iluminação uniforme; porém, os
custos operacionais são altos e esta lâmpada gera muito calor,
indesejável nos dias quentes. As lâmpadas fluorescentes
apresentam maior custo inicial, realmente produzem mais luz
por watt, porém a intensidade diminui com o tempo e as
lâmpadas necessitam ser substituídas. Já as lâmpadas de
vapor de sódio apresentam maior custo inicial, porém menor
manutenção e maior vida útil. A Tabela 2 apresenta o
comparativo entre as lâmpadas vapor de sódio e fluorescentes,
considerando para seus cálculos o tempo de uso dos
equipamentos de 6,5 horas por dia e a quantidade de
lâmpadas para atender a premissa de 20 lux na área de
alojamento e de 5 a 7 lux no restante do aviário (MENDES et
al., 2008).
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
MENDES et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
Tabela 2 - Comparativo entre as lâmpadas fluorescentes (40 W) e vapor de sódio (70 W)
Lâmpada
Valor
Unitário
(R$)
Quantidade
(un.)
Valor Total
inicial (R$)
Consumo
energia
(kwh/mês)
Gasto
energia*
(R$)
Vida Útil
(meses)
Custo
energia
825,00
663,00
395
153
126,40
48,96
38
123
126,4
48,96
Fluorescente (40 W)
33
25,00
Vapor de sódio (70W)
13
51,00
* Utilizou-se para cálculos o valor de R$ 0,32 / kWh.
A Figura 3 apresenta um comparativo dos espectros emitidos pela luz natural, pelas lâmpadas incandescentes e
fluorescentes e a percepção relativa de poedeiras.
Figura 3 - Espectros emitidos pela luz natural, pelas lâmpadas fluorescentes e incandescentes e pela percepção de poedeiras
(curva da luz natural e das lâmpadas incandescentes são de BOSHOUWERS & NICAISE, 1993; curva da percepção das poedeiras
de NUBOER et al., 1992a; e curva das lâmpadas fluorescentes da Philips).
Embora grupos de aves criados em luz incandescente e
natural demonstraram uma preferência pela luz incandescente, não
foi possível determinar quais características das lâmpadas
(intensidade, comprimento de onda ou oscilação) foi a mais
importante para a preferência das aves (GUNNARSSON et al.,
2007). Prayitno et al. (1997a) relataram que frangos demonstraram
uma preferência imediata para a qualidade da iluminação, ou seja,
pela cor da luz em que estavam acostumados.
Um estudo realizado na região Sudoeste do Paraná,
monitorando a intensidade luminosa (lux) em 30 aviários de
frango de corte e em 15 pontos para cada aviário, visando um
comparativo entre lâmpadas fluorescentes e incandescentes
(MENDES et al., 2008), demonstrou que em média os aviários
equipados com lâmpadas fluorescentes apresentaram
significativamente (p = 0,000; CV = 18,396%) maior intensidade
luminosa ao nível das aves (27,8 lux) enquanto que as lâmpadas
incandescentes apresentaram apenas 13,6 lux (Figura 4).
F
I
Intensidade Luminosa Média (lux)
46
41
36
31
26
21
16
11
6
1
2
3
4
5
6
Região
7
8
9
10
Figura 4 - Intensidade luminosa média (lux) de dez regiões do Sudoeste do Paraná em função do tipo de lâmpada utilizada (F =
fluorescente; I = incandescente). Fonte: Mendes et al., 2008
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
9
Mendes et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
Alguns estudos constataram que poedeiras preferem
lâmpadas compactas fluorescentes em comparação as
lâmpadas incandescentes (WIDOWSKI et al., 1992) e não
mostraram
preferência
entre
lâmpadas
compactas
fluorescentes com diferentes freqüências (WIDOWSKI &
DUNCAN, 1996) ou entre lâmpadas de vapor de sódio de alta
intensidade em comparação com lâmpadas incandescentes de
baixa intensidade (VANDENBERG & WIDOWSKI, 2000).
Outro estudo constata que quando oferecida uma livre
escolha entre lâmpadas incandescentes de intensidades
diferentes (6, 20, 60 e 200 lux), frangos com duas semanas de
A
idade preferiram a iluminação de intensidade mais alta,
enquanto frangos com 6 semanas de idade preferiram
iluminação com menor intensidade (DAVIS et al., 1999).
Mendes et al. (2008) utilizaram o software Calculux para
prever o comportamento da variável intensidade luminosa (lux)
para o caso do dimensionamento de lâmpadas de vapor de
sódio de 70W (1 reator/lâmpada) em um aviário de 100 x 12m,
modelo Túnel negativo ou positivo (Figura 5). As letras A, B e
C, indicam respectivamente cada cenário (quantidade de
lâmpadas e distribuição espacial da iluminação).
B
C
A
B
C
Figura 5 - Dimensionamento de um aviário com lâmpadas vapor de sódio e seus respectivos mapas de intensidade luminosa (lux).
Fonte: Mendes et al., 2008
10
R. Bras. Agrociência, Pelotas, v.16, n.1-4, p.05-13, jan-dez, 2010
Mendes et al. Visão e iluminação na avicultura moderna
Seguindo o mesmo método, a Figura 6 demonstra a
previsão do comportamento da variável intensidade luminosa
(lux) para lâmpadas incandescentes de 100W (total de 40
lâmpadas) em um aviário de 100 x 12m, modelo Tunel negativo
ou positivo, realizada pelos mesmos autores.
Percebe-se com o mapeamento da variável intensidade
luminosa frente distintas fontes luminosas apresentado nas
A
Figuras 5 e 6, que a lâmpada de vapor de sódio forneceu maior
média de lux (26 na área de pinteira e 16 e 17 nas demais
áreas) em comparação com a lâmpada incandescentes (21 lux
na área de pinteira e 12 lux nas demais), mesmo tendo o
padrão de iluminação das lâmpadas incandescentes, utilizando
três vezes mais pontos de iluminação.
B
C
A
C
B
Figura 6 - Dimensionamento de um aviário com lâmpadas incandescentes de 100 W e seus respectivos mapas de intensidade
luminosa (lux). Fonte: Mendes et al. (2008)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intensidade da luz fornecida as aves é um dos
fatores físicos que afeta diretamente o desempenho
produtivo das mesmas. Logo, deve-se direcionar estudos e
pesquisas que reforcem o impacto de atributos da
iluminação como tipo de lâmpada, oscilação, temperatura
cromática, distribuição da iluminação e a quantidade de lux
a fornecer às aves. Com o uso do gallilux como indicador e
compreendendo mais profundamente a forma de visão das
aves, conseguiremos utilizar a iluminação como mais um
ponto forte de maximização de resultados na avicultura
moderna.
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