RETRATOS DE UMA ÉPOCA: AS IMAGENS HISTÓRICAS UTILIZADAS COMO FONTES DE PESQUISA Marlise de Medeiros Nunes de Pieri1 Cremilson de Oliveira Ramos2 RESUMO: Para este trabalho busca-se elencar um rol de imagens históricas recolhidas em uma pesquisa de mestrado com o objetivo de discutir como essas fontes são interpretadas no âmbito da pesquisa, utilizando conceitos de autores como kassoy (2008). A fotografia é uma fonte rica e muito utilizada tanto em pesquisas históricas quanto contemporâneas, são carregadas de subjetividades, pois, dependem da analise e das “lentes” de quem as interpreta. A imagem nem sempre pode ser considerada como expressão pura da realidade. E ao mesmo tempo carrega em sua essência um repertório enorme de informações utilizadas no âmbito da pesquisa. Dentro dos resultados obtidos, percebe-se que a ausência de informações nas imagens históricas prejudica a análise. O fotógrafo e suas intenções também compõem as diversas questões entrelaçadas nas análises, o que muitas vezes se desconsidera. A imagem pode ser uma representação da realidade embutida nos objetivos de quem faz o registro. PALAVRAS-CHAVE: Imagem. História. Educação infantil. Introdução Neste texto, busca-se discutir a utilização da imagem, especialmente a imagem histórica, no âmbito da pesquisa, tendo como base a análise de parte do material empírico coletado em uma pesquisa de mestrado em educação, intitulada: A educação infantil em Tubarão/SC: um estudo histórico da emergência das instituições coordenadas por congregações religiosas (1908-1969). Durante essa pesquisa, visualizou-se a possibilidade de novas pesquisas utilizando-se esse material, a saber, as imagens. O material empírico da pesquisa de mestrado recolheu diversas imagens, de diversas instituições, entre um determinado período. Para essa discussão, elencaram-se quatro imagens, de uma das instituições pesquisadas. Essas imagens foram selecionadas a partir de uma das instituições em que a imagem foi a principal fonte de pesquisa, cuja existência a pesquisadora desconhecia, um dos primeiros indícios que levaram a descobrir e organizar algum material referente àquela instituição foi uma imagem, representada por uma fotografia encontrada no arquivo da secretária da paróquia de Oficinas, bairro de Tubarão. Recorda-se uma das frases do pároco em 2012, quando solicitada a pesquisa no livro tombo, da paróquia, sobre o jardim, pois, havia sido encontrado, em uma das crônicas3, um pequeno trecho sobre a existência de um jardim ao lado da igreja de Oficinas, documento datado de 1960. Solicitou-se pesquisa no livro tombo, a qual foi negada, com a justificada do padre de aquele documento ser manuseado apenas pelo clero. Porém, o mesmo comprometeuse a verificar se havia material referente a esse jardim, no livro tombo. Depois de alguns dias, a pesquisadora voltou a procurá-lo, conforme combinado anteriormente, momento em que o 1 Mestra em educação, graduada em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional e Gestão Escolar. Professora da rede municipal de ensino. Com pesquisas na área de história da educação. 2 Doutorando do programa de pós-graduação em Ciências da Linguagem, graduado em Letras, especialista em Psicopedagogia Institucional e Gestão do Cuidado. Com pesquisas na área de videogames e gênero. 3 Crônicas são relatos do cotidiano escolar escritos pelas irmãs de algumas congregações religiosas. O relato da crônica mencionado no texto refere-se às crônicas do Jardim de infância Cristo Rei (1960-1970) 2 mesmo disse: “não encontrei nada escrito sobre o jardim de infância no livro tombo, mas ele existiu, pois, encontrei essa foto.”4 Essa imagem foi que intensificou o empenho pelo recolhimento de novas informações sobre a pesquisa dessa instituição. Ela chama-se Jardim de Infância Dom Anselmo. Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/ Tubarão, imagem sem data. As demais imagens, dessa instituição, foram recolhidas com a ajuda do pároco, junto aos fiéis, com o recolhimento de fotos históricas da construção da igreja matriz, culminando em uma exposição em outubro de 2012, momento em que a paróquia estava completando jubileu de ouro. Com esse trabalho, foram resgatadas do Jardim de Infância Dom Anselmo outras dez imagens. Para esta análise, selecionaram-se cinco delas, que mostram crianças em espaços escolares dentro e fora da sala de aula e em momentos de atividades extraclasse5. Na pesquisa sobre instituições escolares, as imagens foram utilizadas tanto para confirmar o que os documentos recolhidos mostravam sobre as instituições como para instigar a pesquisadora a descobrir outros dados referentes às instituições por meio da observação dos detalhes encontrados nos registros pictóricos. Em um primeiro momento deste trabalho, discutem-se alguns pressupostos teóricos referentes à leitura das imagens em pesquisas, como: o poder da imagem, a linguagem verbal, a imagem não linear, a indução do pensamento do interlocutor com a intencionalidade, a imagens no campo educacional, elementos articulados à exploração da linguagem imagética no campo da pesquisa. Posteriormente, trata-se das imagens utilizadas para essa discussão, a forma como os dados foram resgatados, quando elas foram utilizadas como fortalecimento do material encontrado nos documentos escritos e quais detalhes instigaram a pesquisadora a ir à busca de novos dados para a pesquisa, seja em documentos ou depoimentos para compreender as imagens encontradas. 4 Relato do padre Edinei Ouriques da Silva em 23 de outubro de 2012. Atividades realizadas fora do espaço educativo formal, utilizado pelas irmãs especialmente com intuito de evangelizar as famílias por meio da realização destas atividades com as crianças. 5 3 Percebe-se a necessidade de explorar esse campo de estudo, aprofundando discussões relacionadas ao uso da linguagem imagética sobre o tema, com o objetivo de lançar novas possibilidades de pesquisa, que podem ser desenvolvidas no âmbito da linguagem, tanto no campo da educação quando da linguagem. Alguns pressupostos sobre a linguagem imagética no âmbito da pesquisa Para entender a emergência do poder da imagem nos processos discursivos de produção de conhecimento, é relevante entender aspectos conceituais com relação aos tipos de linguagem, a relação entre os sujeitos produtores dessa linguagem e que o contexto em que ela é produzida interfere diretamente em seus usos e práticas cotidianos. Nesse sentido, neste texto busca-se refletir sobre a imagem enquanto documento histórico que traz em si elementos da realidade que estão no entremeio do legível e do invisível, isto é, das informações presentes na imagem que estão manifestas e daquelas que permanecem latentes, só vistas pelos olhos mais atentos. A linguagem verbal é linear, tende a representar uma continuidade no tempo e sempre que emitimos um enunciado temos de nos expressar nos tempos verbais passado, presente ou futuro, elementos que podem nos remeter ao contexto em que foi realizada. Entretanto, a imagem não é linear. Suas informações são dispostas em cadeia, aglomerando multiplicidades de sentidos, múltiplas vozes, constituindo o que no dialogismo bakhtiniano pode ser chamado de polissemia. Sendo um signo linguístico, não pode ser compreendido fora da realidade material em que é concebida. Daí a importância de se compreender o contexto de sua produção. Vale ressaltar a linguagem não verbal expressa pela imagem é atemporal, isto é, não conseguimos determinar um tempo específico em que as ações representadas nela acontecem, como é possível no texto verbal oral ou escrito. Monnerat (2010) fala do sequestro do olhar do interlocutor por meio do uso da imagem e das cores na produção dos textos publicitários. Segundo a autora, “A imagem [...] guarda em si duas imagens: uma literal, reprodução do real, portanto, denotativa (são os objetos, personagens, ambiente etc.) e outra simbólica, provida de conotações, plena de implícitos e de valores de crença, ideologicamente construídos pelos receptores (p. 1069).” No quadro abaixo, a princesa egípcia é representada com fenótipo branco. Esse é um exemplo bem aparente da representação de um ideal cultural, no caso a visão eurocêntrica de mundo, ressaltada pelo artista. É no eixo simbólico, portanto, que as imagens podem ser montadas, editadas e reconstruídas, representando parte do real, de acordo com a intenção dos locutores produtores de certas imagens históricas, jornalísticas ou publicitárias. Isso quer dizer que pode haver indução de pensamento do interlocutor por meio da intencionalidade, dado que a linguagem imagética, por ser simbólica, é mais difícil de ser interpretada que a linguagem verbal. Assim, a edição de imagem leva ao que se conhece por singularização da uma ideia, um realce sobre a parte que leva a uma tentativa de apagamento do todo, mas que, no entanto, sempre deixa algo possível de escorregar pelas margens, dado que a linguagem não pode ser contida totalmente. Assim, pode-se entender que realidades são forjadas, pois há uma tendência em lermos apenas o conteúdo manifesto, o que está na superfície da imagem, sem considerarmos seu conteúdo latente. No processo de interpretação da imagem, então, entrecruzam-se a intencionalidade do locutor, a materialidade do texto, no caso a fotografia, e as infindáveis possibilidades de interpretação do interlocutor, pois esse a interpreta não apenas de sua posição de sujeito ativo no discurso, mas da posição das várias vozes que compõem seu próprio discurso, o que demanda do interlocutor um amplo conhecimento histórico, antropológico e estético para a leitura da imagem e que tem sido expropriado da grande massa 4 populacional ao se restringir à aristocracia uma das estratégias de desenvolvimento da percepção que são as artes. O que se quer dizer é que o acesso ao teatro, aos museus, à música clássica e à erudita é potencializador do desenvolvimento da percepção de mundo, da consciência e da autoconsciência humana, que, no entanto, são acessados apenas por uma minoria das camadas sociais, e essa minoria, detentora de tal patrimônio cultural, é classe dominante. Figura 1: Love’s Labour Lost, de Edwin Longsden Long Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Edwin_Longsden_Long_-_Loves_Labour_Lost.jpg Além de todo o potencial das imagens para a linguagem e para a comunicação, o papel dela na educação e formação de ideias não pode ser negligenciado. Segundo Martins at al (2005, p. 38), “[...] as imagens também desempenham um papel fundamental na constituição das idéias científicas e na sua conceitualização.” Nesse sentido, numa perspectiva educacional, as imagens contribuem significativamente para o entendimento de aspectos abstratos da produção do conhecimento cientifico como, por exemplo, em estudos de elementos que não são visíveis a olho nú, como as células nas ciências biológicas, os planetas e estrelas na astronomia, e mesmo as representações gráficas, como as letras na escrita para a linguagem verbal. Sardelick, ao refletir sobre a cultura visual na contemporaneidade, faz-nos pensar sobre o entrecruzamento entre técnicas cientificas e artísticas envolvidas nos processos de produção da imagem e a influência que essa tem sobre as pessoas. Por exemplo, para a autora, “A perspectiva é bem mais do que a aplicação de leis geométricas e matemáticas, ela é um modelo de organização e racionalização de um espaço hierárquico. É a possibilidade de estruturar o espaço a partir de um determinado ponto de vista, aquele de um sujeito onisciente, capaz de tudo dominar e determinar (2006, p. 205).” Essa hierarquia estaria representada no poder de que o produtor da imagem que é detentor de influenciar ou direcionar os pensamentos e modos daqueles que não são tão instruídos ou capazes de perceber as relações de poder que subjazem ao domínio desse tipo de linguagem. Numa perspectiva científica dos estudos da imagem, a autora também afirma que “[...] antropólogos, sociólogos e historiadores vêm examinando o uso de imagens como fonte documental, instrumento, produto de pesquisa ou, ainda, como veículo de intervenção político-cultural (, 2006, p. 206).” 5 A autora ainda sustenta que a compreensão crítica da cultura da imagem requer a consideração de aspectos como a dimensão crítico-antropológica, em que o uso de artefatos imagéticos contribui para a emergência de políticas quanto aos processos identitário, questões de gênero, entre outros; estético-artística, valorizando as várias manifestações artísticas que estão além dos modelos vigentes; biográfico, pois estão diretamente ligados com a construção da subjetividade por meio da representação de hábitos e valores. O que se observa quanto a representação em imagens históricos, em especial as fotografias, é que “A representação reiterada de determinados temas e ou grupos sociais acabam por naturalizar e simbolizar um determinado grupo social e ou um tema como normal, aceitável (SARDELICH,2006, p. 217),” Isso quer dizer que modelos ideais de sociedade por muito tempo vêm sendo representado por meio de construções imagéticas que, não sendo o real, inculcam-se em nossas mentes como se fossem a verdade da sociedade. A título de exemplo, observem-se os corpos masculinos representados nas estátuas greco-romanas ou a imagem da mulher contemporânea divulgada pelas revistas de moda, que representam e exaltam um imaginário cultural do corpo perfeito, que tende a reger a vida. Entendemos a fotografia como um documento iconográfico, dado que por meio da interpretação desses registros o etnógrafo consegue entender as condições em que uma imagem foi produzida, buscando uma interpretação para o modo de vida de coletividades passadas. Para Schlihita (2006, p. 355), o documento é “[...] base de conhecimento, fixada materialmente e disposta de maneira que se possa utilizar para consulta, estudo, prova”, além disso, como “escritura”, destina-se a “comprovar um fato”. Ela é um registro histórico que não pode ser entendido como algo verdadeiro, pois como representação montada da realidade, reflete o ponto de vista de seu produtor. É preciso interrogar a materialização visível na imagem, seus excessos e apagamentos, pois essas imagens não veiculam informações neutras. Nesse sentido, é preciso ter em mente que “[...] a interpretação das mesmas pelos sujeitos que as recebem, são processos que envolvem a aplicação de regras, códigos ou convenções de vários tipos e exibem uma estrutura articulada (SCHLIHITA, 2006, p. 360).” Essas convenções e regras são dominadas por uma parcela pequena de sujeitos e fazem parte do patrimônio cultural pouco acessível a muitos ao qual que nos referimos anteriormente. Uma distribuição ou partilha desses bens de forma mais igualitária contribuiria para o desenvolvimento perceptivo e uma leitura mais crítica do mundo. Desse ângulo pode-se estabelecer, então, o fio condutor do exercício de leitura: compreender o que as imagens veiculam e o que ocultam, tornando a leitura ou a prática de apreciação um instrumento de desmistificação da aparente neutralidade das imagens, muitas vezes, destinadas mais a conformação dos sujeitos aos interesses inerentes ao modelo de sociedade do que a sua formação estética (SCHLIHITA, 2006, p. 362). Dessa forma, propomos a desestruturação da aparente neutralidade da imagem histórica, pois nenhuma imagem é concebida de forma inocente. Ela encerra a perspectiva de um sujeito forjado dentro de determinado contexto histórico-cultural e veicula informações que contribuem tanto para o reforço de alguns ideais hegemônicos quanto para a desestruturação de outros. No entanto, é preciso questionar: O que está além do aparente na imagem? Que excessos não podem ser contidos? O que transborda pela moldura da imagem? Que ideais são apagados e quais são ressaltados no processo de interlocução mediado pela imagem? Com base nesses questionamentos, elencamos posteriormente algumas fotografias, recolhidas a partir de uma pesquisa histórica, que foram fontes de importantes descobertas em torno do tema da pesquisa. 6 Imagens históricas consultadas na buscada compreensão de um contexto escondido no tempo Uma das maiores dificuldades encontradas para a análise dos dados foi o fato de as imagens não constarem datas, as quais foram estimadas por meio de algumas características, por exemplo, sabe-se que o padre que aparece na imagem trabalhou em Tubarão entre 1962 e 1966, porém, não há certeza do ano. No caso, optou-se por utilizar o termo “material sem data”. A “falta de data” no material pode ser um indício que pode levar a observar alguns detalhes que podiam passar despercebidos. A data de criação do Jardim de Infância Dom Anselmo foi uma das inúmeras interrogações provocadas por ele, desde a primeira foto. As imagens foram o principal instrumento, que aliado a alguns depoimentos, seja de religiosas ou pessoas da comunidade, bem como documentos utilizados, especialmente as crônicas do Jardim de Infância Cristo Rei, levaram-nos a uma estimativa da data de abertura. Acredita-se que esse jardim tenha surgido por volta de 1955/1956. Ele leva o nome do primeiro bispo de Tubarão, Dom Anselmo. Por volta de 1950, a empresa Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina (EFDTC) abre uma escola profissionalizante pela falta de mão de obra especializada. A partir dela, criou-se o Círculo Ferroviário e a escola de Educação Familiar General Afonso de Albuquerque, para filhas e esposas dos operários da ferrovia. Para trabalhar com esse grupo de mulheres a empresa contratou as irmãs Catequistas Franciscanas, que de acordo com Zumblick (1987) havia o pedido das famílias para abertura de um jardim de infância. Em 1954, segundo Bif (1997), foi criada a diocese de Tubarão e posteriormente nomeado o seu primeiro bispo, Dom Anselmo. Uma das primeiras atitudes do bispo foi criar a paróquia São José Operário, em Oficinas em 1955. Segundo o depoimento de Estelita Minato e Armeli Brasil, o jardim surgiu logo depois de a igreja ter virado paróquia, talvez seis meses ou um ano após. Uma dessas fotos foi disponibilizada em uma rede social na página da paróquia, e um dos integrantes, Egnardo Gouveia, comentou ter estudado lá em 1957. Na figura 2, observam-se as crianças organizadas para serem fotografadas. Alinhadas, meninas separadas de meninos, todas as crianças de gravata, o que indica estarem usando um traje de gala. Está imagem veio confirmar a informação contida nas crônicas do colégio Cristo Rei, cujas irmãs fazem referência a dois tipos de uniforme usados na educação infantil: o diário e o de gala. Figura 2: Uniformes usados pelas crianças da educação infantil Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/ Tubarão, imagem sem data. 7 Na figura 3, observa-se que há irmãs com dois tipos de hábitos, crianças utilizando o traje de gala e outras com roupas normais, algumas até descalço. Seria esse o uniforme diário? Encontrou-se registro nas crônicas do jardim de infância Cristo Rei (19601970) de que as congregações religiosas realizavam atividades educativas integradas em espaços diferentes, geralmente a cargo da instituição que recebia os visitantes. Figura 3: Crianças em jardim de infância coordenadas por religiosas Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data. De acordo com outras imagens recolhidas nesta pesquisa, as irmãs que usavam hábito branco eram da Congregação das Irmãs Sacramentinas, popularmente conhecidas como as irmãs do Lar da Menina. A figura 4 confirma novamente a divisão pelo sexo: de um lado meninos, e de outro lado meninas. Nesse período ainda há uma grande preocupação em vigiar o sexo das crianças como forma de controle do sujeito, havendo uma pedagogização do sexo das crianças, na qual Foucault, ao refletir sobre a história da sexualidade, afirma haver: [...] dupla afirmação de que quase todas as crianças se dedicam ou são suscetíveis de se dedicar a uma atividade sexual; e de que tal atividade sexual, sendo indevida, ao mesmo tempo ‘natural’ e ‘contra a natureza’, traz consigo perigos físicos e morais, coletivos e individuais; as crianças são definidas como seres sexuais ‘liminares’, ao mesmo tempo aquém e já no sexo, sobre uma perigosa linha de demarcação; os pais, as famílias, os educadores, os médicos e, mais tarde, os psicólogos, todos devem se encarregar continuamente desse germe sexual precioso e arriscado, perigoso e em perigo; essa pedagogização se manifestou sobretudo na guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente. (FOUCAULT, 2014, p. 113-114) Esse controle e vigilância sobre os corpos teve seu início principalmente a partir do século XVIII e atingiu seu ápice com o surgimento da burguesia, a qual percebeu no controle de sua sexualidade mecanismo de poder usado para fazer com que seus corpos se tornassem mais saudáveis, resistentes e com maior longevidade, visando à sobrevivência da classe. 8 Figura 4: O cuidado em separar os sexos Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data. Ainda em nossos dias, é possível perceber que professores da educação infantil veem o sexo das crianças como algo proibido, atitudes que são resquícios de uma sociedade de controle que imprime incisivamente suas marcas nos sujeitos. A questão do sexo na escola é um ponto que precisa ser melhor articulado em outras pesquisas. No município de Tubarão, as escolas frequentadas pela população de maior poder aquisitivo, por serem os principais colégios particulares, havia essa divisão entre os alunos na classe: o colégio de meninos, Colégio Santíssimo Sacramento, atualmente colégio Dehon, e o das meninas, que era o colégio São José, criado em 1895. No colégio São José, as únicas turmas mistas eram as do jardim de infância. É possível ver, ainda na figura 4, novamente o uso do uniforme de gala, e pelos cartazes na parede se pode afirmar que se tratava de um momento festivo, provavelmente de homenagem às mães. Nas crônicas do Jardim de Infância Cristo Rei (1960-1970), há diversos relatos de atividades extraclasses como procissões, missas, coroações de Nossa Senhora, envolvendo crianças, vestidas de branco ou de anjo. De acordo com os estudos realizados sobre a pedagogia missionária, a mesma tem como base a pedagogia tradicional, que, segundo Charlot (2013), entende a criança como natureza má, vindo do pecado original; portanto, a mesma precisa, depois de batizada, ser disciplinada, purificando-a. Na figura 5, observa-se o engajamento das crianças em rituais religiosos cristãos. 9 Figura 5: Crianças em procissão Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data. A utilização das crianças nesses rituais católicos é uma estratégia usada pelas religiosas de evangelização das famílias, por meio do envolvimento das crianças em atividades da religião católica. Todas as congregações religiosas femininas iniciaram seus trabalhos entre 1908 e 1969 (período estudado nesta pesquisa) com crianças a partir dos quatro anos, ou seja, com os jardins de infância. Considerações finais As imagens são fontes de pesquisas riquíssimas que expressam fatos específicos da realidade. Com relação à fotografia sabemos que elas podem fazer parte de cenários montados para expressar determinada realidade. No passado, as câmeras fotográficas eram instrumentos acessíveis somente às pessoas de maior poder aquisitivo. Por isso, a quantidade de fotografias existentes era reduzida. Hoje temos muitas marcas e modelos desses dispositivos, e o acesso ao público é mais amplo, estendendo-se a classe média. Resgatar, reunir um conjunto de imagens históricas para analise pode representar um fragmento daquela determinada realidade. Foi com o objetivo de entender um pouco mais do contexto da educação infantil no município de Tubarão que se realizou esta pesquisa, que, além de fotos, reuniu depoimentos e documentos. A fonte iconográfica traz em seu interior subjetividades que não devem ser consideradas como verdades absolutas, mas expressam fragmentos da realidade que geralmente são carregadas de intenções de quem produz o material iconográfico, tais como a forma de escolher os locais, dispor as pessoas e objetos. Quanto aos registros fotográficos como fonte de informação, Stamatto (2009, p. 142) diz que a “[...] nossa interpretação da fotografia depende de nossos conhecimentos, o sentido que dela captamos está ligado a outras informações que não aparecem na imagem.” Dessa forma, percebe-se o quanto essas imagens ainda podem ser exploradas na compreensão de determinada realidade e que a própria constituição da cultura que se criou em torno das representações sociais por meio da linguagem imagética pode fazer o diferencial na compreensão da realidade apresentada. Observa-se um potencial muito significativo nessas 10 fontes para uma hermenêutica dos contextos históricos quando aliadas ao uso crítico da linguagem. É na imersão nos mais diversos tipos de linguagens, sejam elas verbais ou não verbais, que nos constituímos humanos e nos compreendemos como seres sociais. Referências BIFF, Claudino. Crônicas da Diocese de Tubarão. Tubarão, SC: Coan Indústria Gráfica Ltda., 1997. CHARLOT, Bernard. A mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação. Tradução de Maria José do Amaral Ferreira. Ed. rev. e ampl. São Paulo: Cortez, 2013. CRÔNICAS do Jardim de Infância Cristo Rei (1960-1970). Instituto Coração de Jesus. Capivari de Baixo/SC. 71 f. FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. Maria Theresa da Costa Albuquerque; J. A. Guilhon Albuquerque. 1 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2014. KOSSOY, Boris. Revelações à sombra. Revista de História (Rio de Janeiro), v. 3, p. 62-65, 2008. 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