RETRATOS DE UMA ÉPOCA:
AS IMAGENS HISTÓRICAS UTILIZADAS COMO FONTES DE PESQUISA
Marlise de Medeiros Nunes de Pieri1
Cremilson de Oliveira Ramos2
RESUMO: Para este trabalho busca-se elencar um rol de imagens históricas recolhidas em uma pesquisa de
mestrado com o objetivo de discutir como essas fontes são interpretadas no âmbito da pesquisa, utilizando
conceitos de autores como kassoy (2008). A fotografia é uma fonte rica e muito utilizada tanto em pesquisas
históricas quanto contemporâneas, são carregadas de subjetividades, pois, dependem da analise e das “lentes”
de quem as interpreta. A imagem nem sempre pode ser considerada como expressão pura da realidade. E ao
mesmo tempo carrega em sua essência um repertório enorme de informações utilizadas no âmbito da pesquisa.
Dentro dos resultados obtidos, percebe-se que a ausência de informações nas imagens históricas prejudica a
análise. O fotógrafo e suas intenções também compõem as diversas questões entrelaçadas nas análises, o que
muitas vezes se desconsidera. A imagem pode ser uma representação da realidade embutida nos objetivos de
quem faz o registro.
PALAVRAS-CHAVE: Imagem. História. Educação infantil.
Introdução
Neste texto, busca-se discutir a utilização da imagem, especialmente a imagem
histórica, no âmbito da pesquisa, tendo como base a análise de parte do material empírico
coletado em uma pesquisa de mestrado em educação, intitulada: A educação infantil em
Tubarão/SC: um estudo histórico da emergência das instituições coordenadas por
congregações religiosas (1908-1969). Durante essa pesquisa, visualizou-se a possibilidade de
novas pesquisas utilizando-se esse material, a saber, as imagens.
O material empírico da pesquisa de mestrado recolheu diversas imagens, de
diversas instituições, entre um determinado período. Para essa discussão, elencaram-se quatro
imagens, de uma das instituições pesquisadas. Essas imagens foram selecionadas a partir de
uma das instituições em que a imagem foi a principal fonte de pesquisa, cuja existência a
pesquisadora desconhecia, um dos primeiros indícios que levaram a descobrir e organizar
algum material referente àquela instituição foi uma imagem, representada por uma fotografia
encontrada no arquivo da secretária da paróquia de Oficinas, bairro de Tubarão.
Recorda-se uma das frases do pároco em 2012, quando solicitada a pesquisa no
livro tombo, da paróquia, sobre o jardim, pois, havia sido encontrado, em uma das crônicas3,
um pequeno trecho sobre a existência de um jardim ao lado da igreja de Oficinas, documento
datado de 1960. Solicitou-se pesquisa no livro tombo, a qual foi negada, com a justificada do
padre de aquele documento ser manuseado apenas pelo clero. Porém, o mesmo comprometeuse a verificar se havia material referente a esse jardim, no livro tombo. Depois de alguns dias,
a pesquisadora voltou a procurá-lo, conforme combinado anteriormente, momento em que o
1
Mestra em educação, graduada em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional e Gestão Escolar.
Professora da rede municipal de ensino. Com pesquisas na área de história da educação.
2
Doutorando do programa de pós-graduação em Ciências da Linguagem, graduado em Letras, especialista em
Psicopedagogia Institucional e Gestão do Cuidado. Com pesquisas na área de videogames e gênero.
3
Crônicas são relatos do cotidiano escolar escritos pelas irmãs de algumas congregações religiosas. O relato da
crônica mencionado no texto refere-se às crônicas do Jardim de infância Cristo Rei (1960-1970)
2
mesmo disse: “não encontrei nada escrito sobre o jardim de infância no livro tombo, mas ele
existiu, pois, encontrei essa foto.”4
Essa imagem foi que intensificou o empenho pelo recolhimento de novas
informações sobre a pesquisa dessa instituição. Ela chama-se Jardim de Infância Dom
Anselmo.
Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/ Tubarão, imagem sem data.
As demais imagens, dessa instituição, foram recolhidas com a ajuda do pároco,
junto aos fiéis, com o recolhimento de fotos históricas da construção da igreja matriz,
culminando em uma exposição em outubro de 2012, momento em que a paróquia estava
completando jubileu de ouro. Com esse trabalho, foram resgatadas do Jardim de Infância
Dom Anselmo outras dez imagens. Para esta análise, selecionaram-se cinco delas, que
mostram crianças em espaços escolares dentro e fora da sala de aula e em momentos de
atividades extraclasse5.
Na pesquisa sobre instituições escolares, as imagens foram utilizadas tanto para
confirmar o que os documentos recolhidos mostravam sobre as instituições como para instigar
a pesquisadora a descobrir outros dados referentes às instituições por meio da observação dos
detalhes encontrados nos registros pictóricos.
Em um primeiro momento deste trabalho, discutem-se alguns pressupostos
teóricos referentes à leitura das imagens em pesquisas, como: o poder da imagem, a
linguagem verbal, a imagem não linear, a indução do pensamento do interlocutor com a
intencionalidade, a imagens no campo educacional, elementos articulados à exploração da
linguagem imagética no campo da pesquisa.
Posteriormente, trata-se das imagens utilizadas para essa discussão, a forma como
os dados foram resgatados, quando elas foram utilizadas como fortalecimento do material
encontrado nos documentos escritos e quais detalhes instigaram a pesquisadora a ir à busca de
novos dados para a pesquisa, seja em documentos ou depoimentos para compreender as
imagens encontradas.
4
Relato do padre Edinei Ouriques da Silva em 23 de outubro de 2012.
Atividades realizadas fora do espaço educativo formal, utilizado pelas irmãs especialmente com intuito de
evangelizar as famílias por meio da realização destas atividades com as crianças.
5
3
Percebe-se a necessidade de explorar esse campo de estudo, aprofundando
discussões relacionadas ao uso da linguagem imagética sobre o tema, com o objetivo de
lançar novas possibilidades de pesquisa, que podem ser desenvolvidas no âmbito da
linguagem, tanto no campo da educação quando da linguagem.
Alguns pressupostos sobre a linguagem imagética no âmbito da pesquisa
Para entender a emergência do poder da imagem nos processos discursivos de
produção de conhecimento, é relevante entender aspectos conceituais com relação aos tipos de
linguagem, a relação entre os sujeitos produtores dessa linguagem e que o contexto em que
ela é produzida interfere diretamente em seus usos e práticas cotidianos. Nesse sentido, neste
texto busca-se refletir sobre a imagem enquanto documento histórico que traz em si elementos
da realidade que estão no entremeio do legível e do invisível, isto é, das informações
presentes na imagem que estão manifestas e daquelas que permanecem latentes, só vistas
pelos olhos mais atentos.
A linguagem verbal é linear, tende a representar uma continuidade no tempo e
sempre que emitimos um enunciado temos de nos expressar nos tempos verbais passado,
presente ou futuro, elementos que podem nos remeter ao contexto em que foi realizada.
Entretanto, a imagem não é linear. Suas informações são dispostas em cadeia, aglomerando
multiplicidades de sentidos, múltiplas vozes, constituindo o que no dialogismo bakhtiniano
pode ser chamado de polissemia. Sendo um signo linguístico, não pode ser compreendido fora
da realidade material em que é concebida. Daí a importância de se compreender o contexto de
sua produção. Vale ressaltar a linguagem não verbal expressa pela imagem é atemporal, isto é,
não conseguimos determinar um tempo específico em que as ações representadas nela
acontecem, como é possível no texto verbal oral ou escrito.
Monnerat (2010) fala do sequestro do olhar do interlocutor por meio do uso da
imagem e das cores na produção dos textos publicitários. Segundo a autora, “A imagem [...]
guarda em si duas imagens: uma literal, reprodução do real, portanto, denotativa (são os
objetos, personagens, ambiente etc.) e outra simbólica, provida de conotações, plena de
implícitos e de valores de crença, ideologicamente construídos pelos receptores (p. 1069).”
No quadro abaixo, a princesa egípcia é representada com fenótipo branco. Esse é um exemplo
bem aparente da representação de um ideal cultural, no caso a visão eurocêntrica de mundo,
ressaltada pelo artista.
É no eixo simbólico, portanto, que as imagens podem ser montadas, editadas e
reconstruídas, representando parte do real, de acordo com a intenção dos locutores produtores
de certas imagens históricas, jornalísticas ou publicitárias. Isso quer dizer que pode haver
indução de pensamento do interlocutor por meio da intencionalidade, dado que a linguagem
imagética, por ser simbólica, é mais difícil de ser interpretada que a linguagem verbal. Assim,
a edição de imagem leva ao que se conhece por singularização da uma ideia, um realce sobre
a parte que leva a uma tentativa de apagamento do todo, mas que, no entanto, sempre deixa
algo possível de escorregar pelas margens, dado que a linguagem não pode ser contida
totalmente. Assim, pode-se entender que realidades são forjadas, pois há uma tendência em
lermos apenas o conteúdo manifesto, o que está na superfície da imagem, sem considerarmos
seu conteúdo latente.
No processo de interpretação da imagem, então, entrecruzam-se a
intencionalidade do locutor, a materialidade do texto, no caso a fotografia, e as infindáveis
possibilidades de interpretação do interlocutor, pois esse a interpreta não apenas de sua
posição de sujeito ativo no discurso, mas da posição das várias vozes que compõem seu
próprio discurso, o que demanda do interlocutor um amplo conhecimento histórico,
antropológico e estético para a leitura da imagem e que tem sido expropriado da grande massa
4
populacional ao se restringir à aristocracia uma das estratégias de desenvolvimento da
percepção que são as artes. O que se quer dizer é que o acesso ao teatro, aos museus, à música
clássica e à erudita é potencializador do desenvolvimento da percepção de mundo, da
consciência e da autoconsciência humana, que, no entanto, são acessados apenas por uma
minoria das camadas sociais, e essa minoria, detentora de tal patrimônio cultural, é classe
dominante.
Figura 1: Love’s Labour Lost, de Edwin Longsden Long
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Edwin_Longsden_Long_-_Loves_Labour_Lost.jpg
Além de todo o potencial das imagens para a linguagem e para a comunicação, o
papel dela na educação e formação de ideias não pode ser negligenciado. Segundo Martins at
al (2005, p. 38), “[...] as imagens também desempenham um papel fundamental na
constituição das idéias científicas e na sua conceitualização.” Nesse sentido, numa perspectiva
educacional, as imagens contribuem significativamente para o entendimento de aspectos
abstratos da produção do conhecimento cientifico como, por exemplo, em estudos de
elementos que não são visíveis a olho nú, como as células nas ciências biológicas, os planetas
e estrelas na astronomia, e mesmo as representações gráficas, como as letras na escrita para a
linguagem verbal.
Sardelick, ao refletir sobre a cultura visual na contemporaneidade, faz-nos pensar
sobre o entrecruzamento entre técnicas cientificas e artísticas envolvidas nos processos de
produção da imagem e a influência que essa tem sobre as pessoas. Por exemplo, para a autora,
“A perspectiva é bem mais do que a aplicação de leis geométricas e matemáticas, ela é um
modelo de organização e racionalização de um espaço hierárquico. É a possibilidade de
estruturar o espaço a partir de um determinado ponto de vista, aquele de um sujeito onisciente,
capaz de tudo dominar e determinar (2006, p. 205).” Essa hierarquia estaria representada no
poder de que o produtor da imagem que é detentor de influenciar ou direcionar os
pensamentos e modos daqueles que não são tão instruídos ou capazes de perceber as relações
de poder que subjazem ao domínio desse tipo de linguagem. Numa perspectiva científica dos
estudos da imagem, a autora também afirma que “[...] antropólogos, sociólogos e
historiadores vêm examinando o uso de imagens como fonte documental, instrumento,
produto de pesquisa ou, ainda, como veículo de intervenção político-cultural (, 2006, p. 206).”
5
A autora ainda sustenta que a compreensão crítica da cultura da imagem requer a
consideração de aspectos como a dimensão crítico-antropológica, em que o uso de artefatos
imagéticos contribui para a emergência de políticas quanto aos processos identitário, questões
de gênero, entre outros; estético-artística, valorizando as várias manifestações artísticas que
estão além dos modelos vigentes; biográfico, pois estão diretamente ligados com a construção
da subjetividade por meio da representação de hábitos e valores.
O que se observa quanto a representação em imagens históricos, em especial as
fotografias, é que “A representação reiterada de determinados temas e ou grupos sociais
acabam por naturalizar e simbolizar um determinado grupo social e ou um tema como normal,
aceitável (SARDELICH,2006, p. 217),” Isso quer dizer que modelos ideais de sociedade por
muito tempo vêm sendo representado por meio de construções imagéticas que, não sendo o
real, inculcam-se em nossas mentes como se fossem a verdade da sociedade. A título de
exemplo, observem-se os corpos masculinos representados nas estátuas greco-romanas ou a
imagem da mulher contemporânea divulgada pelas revistas de moda, que representam e
exaltam um imaginário cultural do corpo perfeito, que tende a reger a vida.
Entendemos a fotografia como um documento iconográfico, dado que por meio da
interpretação desses registros o etnógrafo consegue entender as condições em que uma
imagem foi produzida, buscando uma interpretação para o modo de vida de coletividades
passadas. Para Schlihita (2006, p. 355), o documento é “[...] base de conhecimento, fixada
materialmente e disposta de maneira que se possa utilizar para consulta, estudo, prova”, além
disso, como “escritura”, destina-se a “comprovar um fato”. Ela é um registro histórico que
não pode ser entendido como algo verdadeiro, pois como representação montada da realidade,
reflete o ponto de vista de seu produtor. É preciso interrogar a materialização visível na
imagem, seus excessos e apagamentos, pois essas imagens não veiculam informações neutras.
Nesse sentido, é preciso ter em mente que “[...] a interpretação das mesmas pelos sujeitos que
as recebem, são processos que envolvem a aplicação de regras, códigos ou convenções de
vários tipos e exibem uma estrutura articulada (SCHLIHITA, 2006, p. 360).” Essas
convenções e regras são dominadas por uma parcela pequena de sujeitos e fazem parte do
patrimônio cultural pouco acessível a muitos ao qual que nos referimos anteriormente. Uma
distribuição ou partilha desses bens de forma mais igualitária contribuiria para o
desenvolvimento perceptivo e uma leitura mais crítica do mundo.
Desse ângulo pode-se estabelecer, então, o fio condutor do exercício de leitura:
compreender o que as imagens veiculam e o que ocultam, tornando a leitura ou a
prática de apreciação um instrumento de desmistificação da aparente neutralidade
das imagens, muitas vezes, destinadas mais a conformação dos sujeitos aos
interesses inerentes ao modelo de sociedade do que a sua formação estética
(SCHLIHITA, 2006, p. 362).
Dessa forma, propomos a desestruturação da aparente neutralidade da imagem
histórica, pois nenhuma imagem é concebida de forma inocente. Ela encerra a perspectiva de
um sujeito forjado dentro de determinado contexto histórico-cultural e veicula informações
que contribuem tanto para o reforço de alguns ideais hegemônicos quanto para a
desestruturação de outros. No entanto, é preciso questionar: O que está além do aparente na
imagem? Que excessos não podem ser contidos? O que transborda pela moldura da imagem?
Que ideais são apagados e quais são ressaltados no processo de interlocução mediado pela
imagem? Com base nesses questionamentos, elencamos posteriormente algumas fotografias,
recolhidas a partir de uma pesquisa histórica, que foram fontes de importantes descobertas em
torno do tema da pesquisa.
6
Imagens históricas consultadas na buscada compreensão de um contexto escondido no
tempo
Uma das maiores dificuldades encontradas para a análise dos dados foi o fato de
as imagens não constarem datas, as quais foram estimadas por meio de algumas
características, por exemplo, sabe-se que o padre que aparece na imagem trabalhou em
Tubarão entre 1962 e 1966, porém, não há certeza do ano. No caso, optou-se por utilizar o
termo “material sem data”. A “falta de data” no material pode ser um indício que pode levar a
observar alguns detalhes que podiam passar despercebidos.
A data de criação do Jardim de Infância Dom Anselmo foi uma das inúmeras
interrogações provocadas por ele, desde a primeira foto. As imagens foram o principal
instrumento, que aliado a alguns depoimentos, seja de religiosas ou pessoas da comunidade,
bem como documentos utilizados, especialmente as crônicas do Jardim de Infância Cristo Rei,
levaram-nos a uma estimativa da data de abertura. Acredita-se que esse jardim tenha surgido
por volta de 1955/1956. Ele leva o nome do primeiro bispo de Tubarão, Dom Anselmo. Por
volta de 1950, a empresa Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina (EFDTC) abre uma escola
profissionalizante pela falta de mão de obra especializada. A partir dela, criou-se o Círculo
Ferroviário e a escola de Educação Familiar General Afonso de Albuquerque, para filhas e
esposas dos operários da ferrovia. Para trabalhar com esse grupo de mulheres a empresa
contratou as irmãs Catequistas Franciscanas, que de acordo com Zumblick (1987) havia o
pedido das famílias para abertura de um jardim de infância. Em 1954, segundo Bif (1997), foi
criada a diocese de Tubarão e posteriormente nomeado o seu primeiro bispo, Dom Anselmo.
Uma das primeiras atitudes do bispo foi criar a paróquia São José Operário, em Oficinas em
1955. Segundo o depoimento de Estelita Minato e Armeli Brasil, o jardim surgiu logo depois
de a igreja ter virado paróquia, talvez seis meses ou um ano após. Uma dessas fotos foi
disponibilizada em uma rede social na página da paróquia, e um dos integrantes, Egnardo
Gouveia, comentou ter estudado lá em 1957.
Na figura 2, observam-se as crianças organizadas para serem fotografadas.
Alinhadas, meninas separadas de meninos, todas as crianças de gravata, o que indica estarem
usando um traje de gala. Está imagem veio confirmar a informação contida nas crônicas do
colégio Cristo Rei, cujas irmãs fazem referência a dois tipos de uniforme usados na educação
infantil: o diário e o de gala.
Figura 2: Uniformes usados pelas crianças da educação infantil
Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/ Tubarão, imagem sem data.
7
Na figura 3, observa-se que há irmãs com dois tipos de hábitos, crianças
utilizando o traje de gala e outras com roupas normais, algumas até descalço. Seria esse o
uniforme diário? Encontrou-se registro nas crônicas do jardim de infância Cristo Rei (19601970) de que as congregações religiosas realizavam atividades educativas integradas em
espaços diferentes, geralmente a cargo da instituição que recebia os visitantes.
Figura 3: Crianças em jardim de infância coordenadas por religiosas
Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data.
De acordo com outras imagens recolhidas nesta pesquisa, as irmãs que usavam
hábito branco eram da Congregação das Irmãs Sacramentinas, popularmente conhecidas como
as irmãs do Lar da Menina.
A figura 4 confirma novamente a divisão pelo sexo: de um lado meninos, e de
outro lado meninas. Nesse período ainda há uma grande preocupação em vigiar o sexo das
crianças como forma de controle do sujeito, havendo uma pedagogização do sexo das
crianças, na qual Foucault, ao refletir sobre a história da sexualidade, afirma haver:
[...] dupla afirmação de que quase todas as crianças se dedicam ou são suscetíveis de
se dedicar a uma atividade sexual; e de que tal atividade sexual, sendo indevida, ao
mesmo tempo ‘natural’ e ‘contra a natureza’, traz consigo perigos físicos e morais,
coletivos e individuais; as crianças são definidas como seres sexuais ‘liminares’, ao
mesmo tempo aquém e já no sexo, sobre uma perigosa linha de demarcação; os pais,
as famílias, os educadores, os médicos e, mais tarde, os psicólogos, todos devem se
encarregar continuamente desse germe sexual precioso e arriscado, perigoso e em
perigo; essa pedagogização se manifestou sobretudo na guerra contra o onanismo,
que durou quase dois séculos no Ocidente. (FOUCAULT, 2014, p. 113-114)
Esse controle e vigilância sobre os corpos teve seu início principalmente a partir
do século XVIII e atingiu seu ápice com o surgimento da burguesia, a qual percebeu no
controle de sua sexualidade mecanismo de poder usado para fazer com que seus corpos se
tornassem mais saudáveis, resistentes e com maior longevidade, visando à sobrevivência da
classe.
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Figura 4: O cuidado em separar os sexos
Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data.
Ainda em nossos dias, é possível perceber que professores da educação infantil
veem o sexo das crianças como algo proibido, atitudes que são resquícios de uma sociedade
de controle que imprime incisivamente suas marcas nos sujeitos. A questão do sexo na escola
é um ponto que precisa ser melhor articulado em outras pesquisas.
No município de Tubarão, as escolas frequentadas pela população de maior poder
aquisitivo, por serem os principais colégios particulares, havia essa divisão entre os alunos na
classe: o colégio de meninos, Colégio Santíssimo Sacramento, atualmente colégio Dehon, e o
das meninas, que era o colégio São José, criado em 1895. No colégio São José, as únicas
turmas mistas eram as do jardim de infância. É possível ver, ainda na figura 4, novamente o
uso do uniforme de gala, e pelos cartazes na parede se pode afirmar que se tratava de um
momento festivo, provavelmente de homenagem às mães.
Nas crônicas do Jardim de Infância Cristo Rei (1960-1970), há diversos relatos de
atividades extraclasses como procissões, missas, coroações de Nossa Senhora, envolvendo
crianças, vestidas de branco ou de anjo. De acordo com os estudos realizados sobre a
pedagogia missionária, a mesma tem como base a pedagogia tradicional, que, segundo
Charlot (2013), entende a criança como natureza má, vindo do pecado original; portanto, a
mesma precisa, depois de batizada, ser disciplinada, purificando-a. Na figura 5, observa-se o
engajamento das crianças em rituais religiosos cristãos.
9
Figura 5: Crianças em procissão
Fonte: Arquivo da paróquia São José Operário, Oficinas/Tubarão. Imagem sem data.
A utilização das crianças nesses rituais católicos é uma estratégia usada pelas
religiosas de evangelização das famílias, por meio do envolvimento das crianças em
atividades da religião católica. Todas as congregações religiosas femininas iniciaram seus
trabalhos entre 1908 e 1969 (período estudado nesta pesquisa) com crianças a partir dos
quatro anos, ou seja, com os jardins de infância.
Considerações finais
As imagens são fontes de pesquisas riquíssimas que expressam fatos específicos
da realidade. Com relação à fotografia sabemos que elas podem fazer parte de cenários
montados para expressar determinada realidade. No passado, as câmeras fotográficas eram
instrumentos acessíveis somente às pessoas de maior poder aquisitivo. Por isso, a quantidade
de fotografias existentes era reduzida. Hoje temos muitas marcas e modelos desses
dispositivos, e o acesso ao público é mais amplo, estendendo-se a classe média. Resgatar,
reunir um conjunto de imagens históricas para analise pode representar um fragmento daquela
determinada realidade. Foi com o objetivo de entender um pouco mais do contexto da
educação infantil no município de Tubarão que se realizou esta pesquisa, que, além de fotos,
reuniu depoimentos e documentos.
A fonte iconográfica traz em seu interior subjetividades que não devem ser
consideradas como verdades absolutas, mas expressam fragmentos da realidade que
geralmente são carregadas de intenções de quem produz o material iconográfico, tais como a
forma de escolher os locais, dispor as pessoas e objetos. Quanto aos registros fotográficos
como fonte de informação, Stamatto (2009, p. 142) diz que a “[...] nossa interpretação da
fotografia depende de nossos conhecimentos, o sentido que dela captamos está ligado a outras
informações que não aparecem na imagem.”
Dessa forma, percebe-se o quanto essas imagens ainda podem ser exploradas na
compreensão de determinada realidade e que a própria constituição da cultura que se criou em
torno das representações sociais por meio da linguagem imagética pode fazer o diferencial na
compreensão da realidade apresentada. Observa-se um potencial muito significativo nessas
10
fontes para uma hermenêutica dos contextos históricos quando aliadas ao uso crítico da
linguagem. É na imersão nos mais diversos tipos de linguagens, sejam elas verbais ou não
verbais, que nos constituímos humanos e nos compreendemos como seres sociais.
Referências
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Ltda., 1997.
CHARLOT, Bernard. A mistificação pedagógica: realidades sociais e processos
ideológicos na teoria da educação. Tradução de Maria José do Amaral Ferreira. Ed. rev. e
ampl. São Paulo: Cortez, 2013.
CRÔNICAS do Jardim de Infância Cristo Rei (1960-1970). Instituto Coração de Jesus.
Capivari de Baixo/SC. 71 f.
FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. Maria Theresa
da Costa Albuquerque; J. A. Guilhon Albuquerque. 1 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2014.
KOSSOY, Boris. Revelações à sombra. Revista de História (Rio de Janeiro), v. 3, p. 62-65,
2008.
MONNERAT, Rosane. Imagem e cor no discurso publicitário: o sequestro do olhar. In:
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<http://www.filologia.org.br/xiv_cnlf/tomo_2/1067-1077.pdf>. Acesso em: 18 maio 2014.
MARTINS, Isabel; GOUVÊA, Guaracira; PICCININI, Cláudia. Aprendendo com imagens.
In: Ciência e Cultura, vol. 57, no.4, São Paulo Oct./Dec. 2005. Disponível em: <
http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v57n4/a21v57n4.pdf>. Acesso em: 18 maio 2014.
SARDELICH, Maria Emilia. Leitura de imagens e cultura visual: desenredando conceitos
para a prática educativa. Educar, n. 27, p. 203-219. Curitiba: UFPR, 2006.
SCHLICHTA, Consuelo A. B. D. Leitura de imagens: uma outra maneira de praticar a
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STAMATTO, Maria Inês S. A fotografia em pesquisas históricas. In: ANDRADE, João
Maria Valença; STAMATTO, Maria Inês S. (Orgs.). História ensinada e escrita da história.
Natal- RN: EDUPRN, 2009. p. 139-152.
ZUMBLICK, Walter. Teresa Cristina: a ferrovia do Carvão. Florianópolis: Editora UFSC,
1987.
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