inverso É o Mundo M. Dueñas É o mundo ao ao Inverso Agência e Anunciante discutindo a relação u }O que as agências de comunicação pensam a respeito dos anunciantes, e como se dá o relacionamento existente entre eles.~ ma pesquisa realizada na França entre mais de 200 agências de comunicação do país mostra que o consumidor continua perdendo enquanto existir falta de sinergia, alinhamento e empatia entre anunciante e agência. A pergunta que fica é se o mesmo acontece no Brasil e o que fazer para melhorar a relação. Estamos vivendo, nos últimos 5 anos, uma rápida transformação dos hábitos dos consumidores no mundo inteiro. A internet, a baixo custo e alta velocidade, não apenas possibilitou a inserção digital de inúmeras pessoas e regiões, como transformou a forma como as 138 R e v i s t a d a ES P M – julho / agosto de 2009 pessoas se comunicam e interagem com a notícia e o entretenimento. A televisão, o rádio, o jornal e o telefone estão em um único lugar e, agora, o próprio consumidor escolhe o que vai assistir, ouvir ou ler. Esse mesmo consumidor escolhe a marca com a qual ele vai interagir e como, seja assistindo a um filme no youtube, lendo a informação em alguma comunidade virtual, rede social ou blog ou ainda entrando no site da marca para participar de alguma atividade. Os executivos e profissionais dessas marcas sabem que precisam mudar rapidamente e pressionam as suas agências de publicidade, eventos, serviços, RP, digital, enfim... todos os tipos de agências de comunicação para encontrar novas soluções criativas para atender a esses novos anseios dos consumidores. As agências, por sua vez, querem conhecer os anunciantes mais a fundo, entender melhor o que querem de seu serviço e esperam uma relação ganhaganha e de parceria. Os executivos dos anunciantes não têm tempo para transmitir todos os conceitos e estratégias concebidos no dia-a-dia. Às vezes, delegam o desenvolvimento do briefing a um simples estagiário. Valeria Café Por todos esses motivos, o Clube dos Anunciantes de Paris realizou, no primeiro trimestre de 2009, a segunda edição da pesquisa “O Mundo ao inverso”, entre 455 representantes de 209 agências de comunicação, dentre elas, agências generalistas, de serviços de marketing, publicidade, RP, eventos, corporativas etc. O objetivo era saber o que as agências de comunicação pensam a respeito dos anunciantes; desde quais as empresas esses profissionais das agências almejam como clientes, até uma análise quantitativa do relacionamento existente entre agência e anunciante. O interesse foi tão grande que 43% dos respondentes da pesquisa foram os próprios dirigentes das agências, seguidos de 37% dos respondentes da área de atendimento e comercial. A pesquisa se dividiu em três partes, sendo a primeira sobre o Estado de Conhecimento das Marcas, sua Notoriedade, Reconhecimento e Atratividade. A segunda parte, denominada de “Quadro da Relação”, compara e avalia o que agências e anunciantes pensam sobre o formato de agência ideal e o significado das palavras Criatividade e Conselho, e a terceira parte compara as prioridades estratégicas e operacionais de cada um dos lados. Anne Marie Gaultier-Dreyfus, presidente do Clube dos Anunciantes de Paris, explica o principal motivo que levou a associação a desenvolver essa pesquisa: “Neste momento, em que a história se acelera, os pontos de contato entre a marca e o consumidor se multiplicam e as ferramentas de marketing se sofisticam, torna-se ainda mais importante que os anunciantes estejam acompanhados por agências com expertise em marcas e ferramentas. Neste contexto, torna-se essencial avaliar e aprimorar a qualidade da relação e da confiança entre anunciante e agência, além de alinhar suas prioridades e alguns significados como criação e conselho”. O Resultado Primeiro Round: Notoriedade, Reconhecimento e Atratividade das Marcas De forma espontânea, a Renault foi considerada a anunciante mais conhecida das agências, seguida da Orange, empresa francesa de telecomunicações. Não por acaso, ambas têm sido as maiores anunciantes do país nos últimos dois anos. Já em termos de atratividade, a Apple continua sendo a mais admirada. A Volkswagen foi citada como a empresa mais coerente ao longo dos anos e a P&G, a empresa que preza pelo rigor e pela qualidade das relações. Uma correlação entre Notoriedade e atratividade Notoriedade 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 4 Os prospects que as agências sonham em ter Os anunciantes mais conhecidos que atraem © Limelight pour le Club des Annonceurs 2009 Classificação dos anunciantes de acordo com o ranking obtido 3 2 1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Atratividade 20 Ao falar das marcas com que gostariam de trabalhar e da atratividade que esses profissionais das agências possuem perante cada marca, esses mesmos profissionais mencionaram cerca de 130 campanhas publicitárias î s Querem agilidade, mas demoram nos processos de aprovação. E o enxugamento e a terceirização realizados há duas décadas nas empresas espremeram a agenda dos executivos e aumentaram em 100% a sua dedicação ao trabalho. É interessante observar que as marcas mais atrativas não são, necessariamente, as que mais investem em comunicação, mas sim, as mais inventivas. julho / agosto de 2009 – R e v i s t a d a ES P M 139 É o mundo ao inverso Criatividade subestimada sob o ponto de vista dos anunciantes 79% Criatividade no sentido inventividade Criatividade de canais (estratégia dos meios) 76% Criatividade no sentido “qualidade da criação” (forma) 75% Do ponto de vista das agências 88% Do ponto de vista dos anunciantes (Fonte: Barômetro Limelight 2008) 93% 68% Criatividade no sentido das estratégias propostas 96% 95% © Limelight pour le Club des Annonceurs 2009 que mais gostaram durante os anos de 2008/2009, seja a título profissional, seja a título pessoal. ção veem a palavra criatividade como inventividade. Em segundo lugar, a criatividade é vista sob o ponto de vista de estratégia dos meios e, em terceiro lugar, ela está ligada à qualidade da criação. A questão da criatividade, sob o ponto de vista de estratégias propostas, ficou em quarto lugar, com 68% de respostas. É uma pena que, nesse caso, a pergunta sobre o porquê não veio em seguida, já que muitas campanhas são inexplicáveis, como é o caso da campanha da Orange, que ficou em primeiro lugar, incompreensível, sob o ponto de vista de um brasileiro, mas fantástico, sob o ponto de vista de um francês. Vale a pena assistir e dar sua opinião: www.youtube.com. Search: chabal pub orange foot Segundo Round: Quadro da Relação A mesma pergunta, feita às empresas anunciantes, obteve uma resposta totalmente oposta. Para essas empresas, a inventividade realmente é prioritária, mas o que se espera Já com relação ao significado da palavra criatividade e do nível de conselho exigido e dado pelas agências, vale a pena observar: Em primeiro lugar, com 80% das respostas, as agências de comunica- R e v i s t a d a ES P M – julho / agosto de Sobre a questão Conselho/Consultoria, ambas, agência e anunciante, acreditam que as agências devem aconselhar sobre a estratégia dos meios. Porém, com relação à questão “Empatia” (conhecimento do mercado, sua cultura etc.) e “Conselho Operacional Técnico”, as agências não acreditam que sejam os conselhos mais importantes, ao contrário das empresas, que acreditam na importância desses aspectos. O GAP entre agência e anunciante para os itens “Empatia” e “Conselho Operacional Técnico” gira em torno de 18%. Terceiro Round: O Estado das Relações A nota de avaliação dada pelas agências para os anunciantes está em 50% do valor total. Os principais pontos de melhoria são a remuneração coerente com a prestação de serviços, Quais são os pontos de melhoria prioritários? Perguntadas sobre o tipo de agência que as empresas preferem contratar, 50% das agências acreditam que as empresas preferem contratar agências transversais e não especialistas. No entanto, apenas 40% das empresas fariam essa escolha. 140 das agências criativas, são também propostas estratégicas criativas (95% de respondentes). 2009 Aceitar remuneração coerente com a prestação Qualidade dos briefings Nível de confiança para com a agência Presença anunciantes decisores nas reuniões estratégicas Qualidade da relação cliente-agência 76% 74% 76% 80% 75% 79% 67% 72% 66% 74% © Limelight pour le Club des Annonceurs 2009 s Avaliação dos anunciantes pelas agências: em dois anos, nada mudou. As reclamações sobre os mesmos temas apenas se aprofundaram. Pesquisa 2009 Pesquisa 2007 Valeria Café a qualidade dos briefings, a relação de confiança e a participação dos executivos decisores nas reuniões. Do outro lado da mesa, os anunciantes avaliaram as agências em 67% do valor total. Aqui, os pontos de melhoria são a não compreensão da estratégia da empresa por parte da agência, a falta de flexibilidade e reação, o rigor ao cotidiano e uma maior disponibilidade e criatividade. Ainda sob o ponto de vista dos anunciantes, é preciso que as agências trabalhem melhor a análise dos resultados das ações de comunicação, a qualidade da produção e uma melhor orquestração das palavraschave da marca, por meio das melhores técnicas de comunicação. A Relação de Confiança foi o ponto crucial mencionado. Para as agências, é essa relação de confiança que mantém a estabilidade e a continuidade de uma relação, mesmo que seja de negócios. 38% das agências gostariam que os executivos das empresas anunciantes tivessem mais respeito, capacidade de ouvir, fossem mais transparentes e parceiros e que não tivessem medo de arriscar. Entendendo a Pesquisa de Forma Qualitativa Dominique Danae, Deputy General Director da Burson & Marsteller França diz que não sabe se essa relação pode melhorar se algumas atitudes dos anunciantes continuarem da mesma forma: “o maior problema ainda está no fato de os anunciantes realizarem constantes concorrências entre as agências, sendo que, nessas negociações, a decisão fica por conta da área de Compras (Procurement). Muitas vezes, em uma concorrência, não há nenhum ponto de contato da área de marketing e/ou comunicação para nos explicar a respeito da estratégia da companhia”. E completa: “Para se obter o melhor de nós, consultores de comunicação, o anunciante precisa nos ver como um parceiro e não somente como um fornecedor. É preciso que ele compartilhe sua estratégia, já que essa é uma relação ganha-ganha”. Sobre a questão orçamentária e o briefing, Dominique explica: “Nós entendemos que, se o cliente tem alguma dificuldade com relação à redução orçamentária, nós trabalharemos para atendê-lo, mas é bom lembrar que ações relevantes e de grande impacto pedem orçamentos maiores. Muitos clientes entendem que o briefing precisa ser refeito, principalmente na área de PR, uma vez que muitos deles ainda não entendem da nossa atividade e os resultados que podem trazer. As agências sempre podem explicar um orçamento específico, mas é importante que o cliente não compare agências com qualidades diferentes. Ainda com relação à criatividade e análise de resultados, Dominique diz que não é fácil definir criatividade. Segundo ela, pode ser uma chamada para um jornalista ou a criação de uma mensagem e não somente um plano de ação. Atualmente a área digital é um gancho forte para o uso da criatividade. Já com relação à entrega de resultados, Dominique reforça: “Em PR, por exemplo, a análise de resultados é ainda uma questão a ser resolvida, já que os resultados são qualitativos. Existem várias formas de medir, mas nenhuma é completa o suficiente.” Conclusão Se o Clube de Anunciantes de Paris fará alguma atividade ou planejamento visando melhorar este relacionamento, parece improvável, segundo a frase de Anne Marie Gaultier-Dreyfus, presidente do Clube: “Perante os desafios das mudanças de nossas profissões, depende de cada uma das partes tomar o processo de melhoria para si.” Claro que se uma pesquisa como essa fosse feita no Brasil, muitas atividades poderiam ser feitas envolvendo agência e anunciante, como Workshops, Fórum de Debates ou mesmo a criação de um grupo de trabalho na internet. Pode ser que a relação agência/anunciante não melhore muito de um ano para outro, seja na França, Estados Unidos, Japão ou Brasil. Discórdias e pontos de vista diferentes sempre existirão. Porém, apenas o fato de discutir esses pontos de conflito e criar empatia entre as partes buscando um melhor resultado no processo de comunicação de uma empresa ou de uma marca já é fundamental. Todos ganham com isso: agência, anunciante e principalmente o consumidor, que receberá uma mensagem mais próxiESPM ma da identidade da marca. Valeria Café Vivendo atualmente em Paris, foi professora de Comunicação na Graduação da ESPM e atuou nas áreas de marketing e comunicação na Coca-Cola Femsa, Whirlpool e Hewlett-Packard. http://novidadesdacafeemparis.blogspot.com julho / agosto de 2009 – R e v i s t a d a ES P M 141