“Estado de Minas”:Um resgate histórico do jornal dos mineiros1
Haydêe Sant’ Ana ARANTES2
Christina Ferraz MUSSE3
Universidade Federal de Juiz de Fora- UFJF, MG
Resumo: O objetivo deste artigo é traçar um panorama histórico do jornal Estado de
Minas, fundado em 1928, em Belo Horizonte, acompanhando seu desenvolvimento ao
longo das décadas até chegar aos dias atuais. Para isso, utilizamos uma abordagem
historiográfica, mesclando dados e aspectos da política nacional com a configuração da
formação dos Diários Associados e também com a biografia de Assis Chateaubriand
fundador da rede de comunicações Associados, sendo portanto um personagem de
grande relevância para a compreensão da trajetória do jornal.
Palavras Chaves: Jornalismo; Estado de Minas; História; Assis Chateaubriand; Diários
Associados.
1 As origens do jornal Estado de Minas
Na década de 20, no cenário de uma Belo Horizonte ainda nascente, os
jovens Pedro Aleixo4 Juscelino Barbosa e Álvaro Mendes Pimentel compram as
oficinas do Diário da Manhã que dariam origem a O Estado de Minas. O Diário da
Manhã foi criado por Augusto de Lima Júnior 5em 16 de julho de 1927.
“O Estado de Minas nasce como uma expressão da sutil combinação da
vida em Belo Horizonte, da cultura e da sociabilidade envolta em particular sentimento
– o do ser mineiro- forjado em idéias liberais da Inconfidência”. (Estado de Minas 80
anos)
1
Trabalho apresentado no GT1 História do Jornalismo no 2° Encontro Regional Sudeste da História da Mídia a se
realizar entre os dias 31 de maio e 1° de junho de 2012.
2
Mestranda do programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação Social da UFJF, na linha Comunicação e
Identidades. Email: [email protected]
3
Professora doutora do programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação Social da UFJF.
[email protected]
Email:
4-Pedro Aleixo e Álvaro Pimentel eram advogados e políticos, membros do Conselho Deliberativo da capital, em
oposição ao prefeito da época: Cristiano Machado. Juscelino Barbosa era o diretor geral do Banco Hipotecário e
Agrícola de Minas Gerais.
5-Augusto de Lima Júnior era de uma família política tradicional, fundou o jornal junto com Clemente de Faria e
Hugo Werneck, também figuras de renome na época.
No entanto, o Diário não duraria muito devido aos confrontos com o
governo, encerrando suas atividades em 31 de dezembro de 1927. Em 7 de março de
1928, saía a primeira edição do veículo que carregaria no próprio nome o ideal de ser
um jornal voltado para o público mineiro: O Estado de Minas6. Logo no seu primeiro
editorial, o jornal já demonstrava o desejo de se afirmar como um defensor da
identidade mineira:
... vimos tomar posição – esperando contribuir para que a imprensa da
Capital tenha na vida de Minas Gerais o papel que lhe compete: de
orientadora e guia da opinião sensata e equilibrada dos mineiros, pela
discussão ponderada dos casos e pelo peso dos sagrados interesses daquelas
3 classes que formam o cerne econômico e constituem a resistência e a
força vital do Estado.
(...) o jornal não pode ser partidário, nem mesmo político no sentido usual
dessa palavra entre nós, pois que política é sinônimo de personalismo, e
não de ideias.
(...) Numa palavra, esforçar-nos-emos para fazer um jornal de sentimento
mineiro, e assim teremos de certo o apoio necessário do bom senso
inveterado do nosso povo (Estado de Minas, 07 de março de 1928).
Em sua primeira edição, o cotidiano possuía 12 páginas, formato tablóide7
e uma tiragem inicial de aproximadamente 5.000 exemplares. No começo, assim como
os demais veículos o jornal enfrentou muitos problemas como a influência do poderio
da política oficial, o baixo apoio do mercado publicitário e a concorrência de outros
títulos do Rio de Janeiro e São Paulo.
Diante dessa difícil situação financeira, em maio de 1929, Pedro Aleixo
vende o diário para Assis Chateaubriand8 por 500 contos de réis. Nesse momento,
Chateaubriand começava a montar seu império de comunicação que mais tarde se
consolidaria como os Diários Associados. Ele já era dono do O Jornal no Rio de
Janeiro, Diário da Noite em São Paulo, da revista O Cruzeiro e do Diário de Notícias
em Porto Alegre.
Com a venda, o jornal sofre uma série de mudanças: é transformado numa
Sociedade Anônima, sendo integrado aos Diários Associados; sua equipe é renovada
6-Curiosamente Minas Gerais teve três jornais com o mesmo nome antes do Estado de Minas de 1928. O primeiro
surgiu em Ouro Preto no período ainda da monarquia. O segundo em 1910 em Belo Horizonte, e o terceiro em 1919
sobre a direção de Mário Brant, como porta voz da candidatura de Arthur Bernardes à presidência da República.
7
8
Formato tablóide tamanho: 33x 28 muito utilizado para publicações populares.
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em 05/10/1892 em Umbuzeiro na Paraíba.
Chateaubriand como era mais conhecido foi político e dono de um dos maiores impérios de comunicação do país: os
Diários Associados.
com a incorporação de novos membros: Milton Campos, Tancredo Neves, Antônio
Carlos Ribeiro de Andrade, Dário de Almeida Magalhães, José Maria Alckmin e Pedro
Aleixo, que continuou no cotidiano. Além disso, seu nome sofre uma alteração com a
omissão do artigo O, passa a se chamar: Estado de Minas.
Fundado no período de rompimento da política do café com leite São
Paulo/ Minas Gerais, que garantia a alternância de candidatos desses estados no poder,
Chateaubriand posiciona o Estado de Minas na Revolução de 1930, aliando-se ao Rio
Grande do Sul e à Paraíba representadas respectivamente por seus presidentes Getúlio
Vargas e João Pessoa, que formaram a Aliança Liberal para a tomada do poder. O
assassinato de João Pessoa, em 1930, foi o estopim para o início do confronto militar.
O movimento que começou em 3 de outubro, em Porto Alegre,
rapidamente espalhou-se pelo país. E o recém criado jornal já testemunhava a vitória da
ação revolucionária que pôs fim a República Velha, em 3 de novembro, na qual
soldados gaúchos amarraram seus cavalos no obelisco da Av. Rio Branco, no Rio de
Janeiro.
A Revolução de 1930 depôs o governo de Washington Luís, levando ao
poder o gaúcho, Getúlio Vargas. O fim da revolução teve como conseqüência uma
divisão política: a maioria da imprensa defendia a reconstitucionalização do país,
enquanto outros queriam a prorrogação do governo provisório.
Nesse contexto conturbado, acontece a Revolução Constitucionalista de
1932 organizada pelos paulistas devido à perda da influência política do estado. Os
paulistas reivindicavam a criação de uma nova Constituição e a derrubada do governo
provisório de Vargas. O Estado de Minas assistiu à Contra Revolução, na qual
Chateaubriand mais uma vez se integrou:
Numa manobra política equivocada, os Diários Associados de
Chateaubriand também apoiariam a causa (Revolução de 1932), mas
quando ela é derrotada, o jornalista-empresário aceitaria uma
composição com o grupo getulista (envolvendo aceitação de censura)
para não perder seus jornais (ROMANCINI, 2007, p.98).
Um exemplo disso foram as mudanças na maneira de se denominar a
Revolução feitas pelo jornal ao longo do conflito:
Até mesmo o Estado de Minas, que se equilibrava na tênue
cordialidade mineira, acabaria acocorado pela censura. O que no
começo era “o movimento revolucionário contra o governo ditatorial”
passou aos poucos a ser chamado apenas de “movimento armado”,
para no final de setembro virar “movimento subversivo contra o
governo provisório” (MORAIS, 1994, p. 298).
Apesar do fracasso da Revolução, os paulistas conseguiram conquistar o
direito a uma nova constituição. Vargas foi eleito pelo voto indireto dos constituintes
permanecendo no mandato até 1938.
O mandato de Vargas foi acompanhado por um crescente autoritarismo do
Estado que utilizou do seu poder para controlar a imprensa, criando órgãos como o DIPDepartamento de Imprensa e Propaganda - com o objetivo de controlar e manipular a
opinião pública.
Como estratégia para continuar no poder, Vargas articulou com militares e
membros da AIB- Associação Integralista Brasileira – um falso plano para implantar o
regime socialista no Brasil: o Plano Cohen (plano fictício que estruturava uma
insurreição comunista tida como um documento sério).
O pânico provocado pela ameaça comunista “justificou” o golpe de Vargas
que fechou o Congresso e outorgou uma nova Constituição, iniciava-se assim o período
do Estado Novo. No final dos anos 30, os Diários Associados já possuíam 15 jornais,
três estações de rádio, a revista O Cruzeiro e a agência de notícias Meridional.
A década de 40 é marcada por intensa repressão política e pela 2° Guerra
Mundial. A princípio, a imprensa mantinha uma neutralidade quanto ao conflito, porém
logo se posiciona quando cinco navios brasileiros são afundados e o país decide entrar
na guerra. A maioria dos jornais assume uma posição antifascista.
Com a aproximação de eleições, a classe trabalhadora apoiada pelo PCBPartido Comunista Brasileiro- inicia a campanha “Queremista9” que desejava a
continuação do governo Vargas.
Enquanto isso, a rede dos Diários Associados estava em franca expansão
sendo composta por 20 jornais, 5 revistas, 8 estações de rádio, uma editora de livros (a
Edições O Cruzeiro) e a Sirta, empresa encarregada de agenciar e distribuir publicidades
entre os órgãos da empresa.
9
Nota expressão originária da palavra: “Queremos Getúlio!”
Apesar dos esforços, a campanha não conseguiu atingir as elites. E após
algumas medidas totalitárias (como a nomeação de seu irmão para chefe de polícia do
Distrito Federal), Vargas se viu obrigado a renunciar em 1945.
Durante
o
período
eleitoral,
Chateaubriand
demonstrou
um
posicionamento ambíguo dando forte apoio ao candidato Eduardo Gomes, da UDN10(União Democrática Nacional) que tinha espaço garantido na cobertura jornalística dos
veículos do grupo Associados.
Porém paralelamente ao apoio da candidatura de Gomes, o grupo
Associados teve a precaução de não atacar a candidatura de seu concorrente, o marechal
Eurico Gaspar Dutra. As eleições no final do ano representaram o início de um novo
período encerrando o Estado Novo com a inauguração da democracia.
Dutra venceu o brigadeiro Eduardo Gomes, através da aliança
PSD11(Partido Social Democrático)-PTB12(Partido Trabalhista Brasileiro). Com a
chegada de Dutra no poder, uma nova constituição foi elaborada, esta possuía um perfil
democrático-liberal.
Nessa época, o Estado de Minas respirava o modernismo de Juscelino
Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), que pretendia promover o
progresso em um curto espaço de tempo, construindo um dos marcos na economia e
indústria da cidade: a Cidade Industrial.
O prefeito também visava à integração das obras de Oscar Niemeyer,
Cândido Portinari e Burle Marx ao conjunto arquitetônico da Pampulha. Guimarães
Rosa, um dos grandes autores da literatura nacional, já se destacava nas páginas do
jornal: “O real, o imaginário e o lendário se mesclavam nas paisagens de Minas.”
(Estado de Minas – 80 anos).
Em 1947, durante as comemorações do primeiro cinquentenário de Belo
Horizonte foi inaugurado o Hotel Financial13. Nesse período a cidade já contava com
quatro jornais, sendo o maior o Estado de Minas com 40.000 exemplares, a Folha de
10
UDN- reunia os políticos de oposição do Estado Novo.
11
PSD- formado pela burguesia e setores da elite burocrática.
12
PTB- formado pelos setores sindicalistas.
13
- Hotel Financial- Inaugurado em 1947 considerado o maior prédio da cidade com 26 andares, localizado na Av.
Afonso Pena 571 no Centro.
Minas, e o Diário com 22.000 exemplares cada, e o Diário da Tarde com 16.000
exemplares.
Do ponto de vista econômico, o governo Dutra caracterizou-se por um
estímulo à produção para o mercado interno, favorecendo assim a indústria nacional.
Enquanto esteve afastado do governo, Getúlio já arquitetava um plano para retomar o
poder.
Isso fica claro numa entrevista concedida ao jornalista Samuel Wainer, em
1949, em que ainda se definia como um líder de massas: “não propriamente um líder
político. Sou, isto sim, um líder de massas” (ROMANCINI, 2007, p.105). A matéria
provocou grande repercussão sendo publicada em vários órgãos dos Diários Associados.
2 A expansão da Rede Associados
A inauguração da primeira emissora brasileira, a TV Tupi Difusora por
Assis Chateaubriand, em 18 de setembro de 1950, é considerada um marco na história
da comunicação no país. Antes mesmo da televisão ser inaugurada, jornais e revistas do
grupo Associados já anunciavam a chegada do novo símbolo da modernidade.
Com o advento da TV, os jornais impressos tiveram que se readaptar à
nova realidade, procurando trazer um material mais aprofundado e diferenciado do que
era oferecido pelo novo meio.
Em 1951, Vargas retoma o poder com uma campanha fortemente
alicerçada na industrialização e na defesa dos trabalhadores. Com a exceção dos Diários
Associados de Assis Chateaubriand que apoiava o governo, Vargas enfrentava a
oposição da maioria da imprensa.
Com o intuito de melhorar a imagem do governo nasce o jornal Última
Hora de Samuel Wainer. Entretanto, o sucesso desse novo periódico e os rumos da
política de Vargas acabam contribuindo para que os Diários Associados também passem
para a oposição.
O apoio financeiro fornecido pelo governo ao veículo provocou a ira de
Carlos Lacerda que criou uma campanha anti Wainer/Vargas na imprensa. É importante
ressaltar que a acusação sobre Wainer de conseguir empréstimos do Banco do Brasil
para montar ou manter os meios de comunicação era na época uma prática muito
comum de empresas de comunicação.
Enquanto Última Hora registrava um empréstimo de 26 milhões de
cruzeiros, Roberto Marinho, proprietário de O Globo tinha uma dívida de 50,4 milhões,
já a Tribuna da Imprensa devia o equivalente a 100 mil dólares na época e o próprio
Diários Associados, de Chateaubriand, possuía uma dívida de 113,6 milhões.
Após o incidente da Rua Toneleiros, que quase provocou a morte de Carlos
Lacerda, a pressão política sobre Vargas aumentou, culminando no seu suicídio em 24
de agosto de 1954. O suicídio de Getúlio Vargas provocou a reação do povo contra a
aliança “Chateaubriand e Lacerda”, os veículos do grupo Associados sofreram ataques
sendo apedrejados, revirados. Nas ruas de várias capitais, passeatas e protestos pediam a
morte de Assis Chateaubriand e de Carlos Lacerda.
Apesar da crise política, a parte financeira do jornal ia bem. Nesse mesmo
ano, o Estado de Minas ampliou sua capacidade gráfica ao adquirir uma rotativa Mann
em quatro cores com capacidade para rodar mais de 60 mil jornais por hora. E também
mudou seu formato para o modelo padrão da imprensa o standard.
Posteriormente dos anos (1964-1980), o país viveu sob o regime militar o
que para imprensa representou um longo período de repressão e censura sobre os meios
de comunicação. Todavia, nem a intensa repressão política conseguiu impedir o
surgimento de veículos de caráter alternativo14.
Primeiramente, a maioria da imprensa apoiou o golpe de 64 por causa da
preocupação com os rumos políticos que o governo João Goulart estava tomando.
Quando ocorreu o golpe de Estado no Brasil, o jornal Estado de Minas publicou em
reportagem no dia 02 de abril de 1964:
Multidões em júbilo na Praça da Liberdade. Ovacionados o
governador do estado e chefes militares. O ponto culminante das
comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do
movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a
concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade.
(Jornal Estado de Minas, 02 de abril de 1964).
Porém, a aliança com os militares não durou muito e em agosto de 1964,
Chateaubriand já atacava o governo em seus artigos, não poupando dos seus ataques
nem mesmo o presidente.
14
São exemplos da imprensa alternativa desse período a revista Pif Paf, de Millôr Fernandes criada em 1964 e o
Pasquim, em 1969.
Quando circulou a notícia de que o governo pretendia construir uma
fábrica estatal de papel de imprensa no Paraná, Chateaubriand afirmou
que só um bêbado seria capaz de tal desatino, e bateu duro diretamente
no marechal-presidente com uma provocação: “Será o presidente
Castelo Branco um bêbado?” (CHATEAUBRIAND apud MORAIS,
1994, p. 654).
É durante o regime militar que o jornal passa por sua primeira grande
reforma gráfica feita pelo artista plástico Amílcar de Castro e também inaugura o
projeto “Jornada pelo Natal do Menor”, hoje conhecido como “Jornada Solidária”. O
projeto incentiva iniciativas que vão desde a doação de brinquedos, há arrecadação de
recursos e a realização de eventos, mostrando a preocupação com o social.
A morte de Assis Chateaubriand em 1968 levaria ao abalo das estruturas
dos Diários Associados, com o declínio da revista O Cruzeiro, devido à concorrência
com as novas publicações como a revista Manchete15 e Fatos & Fotos16 e a perda de
audiência e de qualidade da TV Tupi.
Antes de morrer, Chateaubriand transformou o grupo Associados em
“condomínio” escolhendo 22 jornalistas para participarem, sendo que 83% dos Diários
e emissoras Associadas pertenciam ao condomínio e 17% a sócios anônimos. O sistema
de condomínio caracteriza-se por um novo modelo de gestão no qual concede
autonomia para os diretores e colaboradores dos Diários Associados, porém não permite
a posse sobre os veículos.
Após sua morte, seu império de telecomunicações começa a se
desestruturar, o condomínio ainda se mantinha, mas seus filhos lutavam na justiça pelo
direito de propriedade.
O condomínio administrativo descentralizado em que foi
transformado o império do jornalista, conforme sua vontade, ainda
tem relevância, mas não a enorme influência que tinha na época de
Chatô. Possui emissoras de rádio, TV, outras empresas e entre outros
os jornais Correio Braziliense e o Estado de Minas (ROMANCINI,
2007, p.140).
A adoção do sistema de condomínio descentraliza o poder, antes
concentrado na figura de Assis Chateaubriand, fazendo com que os veículos assumam
15
Manchete revista semanal criada em 1952 por Adolpho Bloch, empresário. Bloch também fundou uma TV com o
mesmo nome, hoje já extinta.
16
Fatos & Fotos revista semanal publicada pela Bloch Editores que disputava o mercado com O Cruzeiro.
uma postura mais neutra quanto ao envolvimento com a política nos anos posteriores.
Atualmente, o grupo Diários Associados conta com uma rede de 8 TVS, 14 sites, 14
jornais, 12 rádios e 2 revistas espalhados pelo país.
3 A modernização do jornal Estado de Minas
Os anos 70 são conhecidos como a época do “Milagre Brasileiro”,
marcados pela urbanização, industrialização e crescimento econômico do país
financiado em grande parte pela vinda de investimentos estrangeiros, o que
posteriormente provocaria um endividamento do país. Em Belo Horizonte, isso podia
ser percebido pelo alavancado processo de modernização que transforma a cidade numa
metrópole industrial, atraindo complexos de setores de bens de capital e consumo
durável, também consolidando-a como um centro prestador de serviços para as demais
regiões em volta.
Em sintonia com esse desenvolvimento, o jornal Estado de Minas inaugura
em 7 de março de 1979, o Parque Gráfico Geraldo Teixeira da Costa, o mais moderno
de Minas Gerais. Com isso, o jornal começa a ser produzido todo em off-set17. O Parque
Gráfico estimulou o crescimento do periódico e da empresa, o primeiro, com o aumento
em duas tiragens e, o segundo, a partir desse momento, com a impressão de jornais para
empresas e órgãos do governo.
Já a década de 80 é significativa pelo crescimento expressivo da
publicidade, da venda avulsa e também de assinaturas do jornal. No campo publicitário,
o jornalista Edison Zenóbio assume a Superintendência de Publicidade do veículo
incrementando as formas de negociação da propaganda no impresso.
No final dos anos 80, o grupo amplia novamente seu Parque Gráfico,
instalando mais duas rotativas: uma em preto e branco e mais uma a cores. Em 20 de
março de 1988, o jornal rodava sua primeira foto colorida sobre o treino da Seleção
Brasileira de Vôlei. Surge ainda nessa época, a Fundação Assis Chateaubriand com a
finalidade de resgatar a memória do fundador dos Diários Associados e desenvolver
atividades educativas e culturais.
Mas a modernização de fato viria com a era da comunicação digital, na
qual os veículos dos Diários Associados investem em novas mídias e na sua
17
Impressão em offset é um processo planográfico de impressão que consiste em fazer com que a tinta passe por um
cilindro intermediário, antes de atingir a superfície. É um processo indireto de impressão.
convergência com as tradicionais, fortalecendo-se assim como um grupo multimídia.
Em conseqüência disso, em 1993, suas editorias são informatizadas.
Dois anos depois, o jornal inicia uma reforma gráfica sob a direção do
professor cubano Mário Garcia, do Poynter Institute Flórida. Paralelamente à reforma
gráfica é feita uma reforma editorial com foco na cobertura local. Essa foi realizada com
a orientação de um dos mais dos mais importantes institutos do mundo na área de
jornalismo: a Innovacion Periodística da Universidade de Navarra, na Espanha.
O sucesso do projeto garante ao Estado de Minas o pioneirismo na
América Latina em oferecer a paginação completa por meio de computador. Em 1996,
com a implementação do Net Service, ele se mostra mais uma vez à frente, sendo o
primeiro periódico brasileiro provedor de acesso à internet e a utilizar animação em sua
home-page.
Além disso, o jornal reforça o investimento no seu Parque Gráfico,
adquirindo mais duas unidades de rotativas em preto e branco e duas a cores, uma
dobradeira e duas torres de quatro cores. Essa ampliação possibilita a impressão a cores
nas suas páginas internas, aumentando dessa maneira sua circulação. Outros marcos
importantes são a mudança da marca do grupo de Diários Associados para Associados
em 1999 e o lançamento do portal UAI, que se torna uma referência em notícias de MG
na internet.
Na virada do milênio, o jornalista Édison Zenóbio assume a direção geral e
Álvaro Teixeira da Costa, a direção executiva do Estado de Minas. O jornalista Josemar
Gimenez é contratado para a diretoria de redação e uma nova reforma editorial é
implantada. Em 2004, o jornal formula um novo projeto gráfico e editorial, trazendo
uma diagramação arrojada e com matérias mais completas e analíticas.
É criada ainda uma equipe de repórteres especiais que passam a escrever
para o Estado de Minas e o Correio Braziliense18, promovendo maior sinergia entre os
veículos.
A grande novidade dos anos 2000 é a aposta em matérias voltadas para
leitores mais jovens com o surgimento de cadernos especializados direcionados para
esse público. De 2004 a 2008, ocorre a reformulação de cadernos, de suplementos, e o
18
Correio Braziliense jornal fundado em 21 de abril de 1960 por Assis Chateaubriand com sede em Brasília Distrito
Federal pertencente ao grupo Diários Associados.
lançamento dos portais verticais Vrum19 e Lugar Certo20, juntamente com outros jornais
regionais.
Em 2008, nas comemorações dos 80 anos do Estado de Minas e 84 do
grupo, a organização, reconhecendo que seu nome original nunca fora esquecido e
fazendo um retorno as suas raízes, voltam a se chamar: Diários Associados.
Em 2010, é lançado o portal em.com.br com uma proposta inovadora de
atualização de notícias minuto a minuto na internet e com blogs que tratam de temas
variados. Foi montada uma equipe específica para o site que trabalha em sintonia com a
redação do impresso. Na frente da editoria do online está Patrícia Aranha, que trabalhou
18 anos como repórter de política do jornal.
Alguns blogs abordam: as eleições de 2010, de Bertha Jeha, editora de
política, saúde e bem estar, de Ellen Cristie, sub-editora do Caderno Bem Viver,
tecnologia e informática, de Frederico Botrel, sobre educação, Glória Tupinambás, do
Caderno Gerais, meio ambiente, com Cristiana Andrade, entre outros.
Recentemente, em janeiro de 2012, o jornal ampliou sua forma de interação
com os leitores na editoria de opinião, agora eles podem participar através de diferentes
redes como Facebook e Twitter. Os comentários postados nas redes são também
publicados no caderno opinião. Outra inovação é que essa editoria ganhou espaço no
Dzaí, site do jornal destinado ao compartilhamento de fotos, vídeos e notícias, etc. Com
isso, o internauta pode enviar materiais de caráter de urgência como em situações de
incêndios, acidentes, contribuindo assim com a divulgação de notícias. Tudo isso reflete
uma preocupação do jornal em se manter atualizado diante das novas possibilidades
oferecidas pelos meios digitais, aproveitando também para estreitar seus laços com o
público-leitor.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de sua trajetória, o jornal Estado de Minas conseguiu conciliar
sua tradição mineira conservadora com a modernização proporcionada pela
convergência midiática, se mostrando fiel aos seus princípios, representando
determinados segmentos sociais, noticiando fatos e acontecimentos que julgava
importante para os mineiros, o que certamente não é de relevância para todos, mas para
19
Portal Vrum contém os classificados sobre carros.
20
Portal destinado à venda de imóveis.
alguns que compõem a classe hegemônica político-econômica da cidade. Suas
narrativas são uma versão das muitas histórias possíveis de serem contadas.
Por testemunhar e participar da história de Belo Horizonte, o jornal se afirma
como um “guardião da memória” (BARBOSA, 2005) refletindo e acompanhando as
transformações vividas pela cidade que aos poucos vai se consolidando no cenário
nacional como uma das grandes capitais do país.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa Brasil – 1900-2000. Rio de Janeiro:
Ed Mauad, 2007.
__________. Jornalistas, “senhores da memória”? Trabalho enviado para o NP 02 –
Jornalismo, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom 2005.
FRANÇA, Vera Veiga. Jornalismo e vida social: A história amena de um jornal mineiro.
Belo Horizonte: Ed: UFMG 1998.
MORAIS, Fernando. Chatô: O Rei do Brasil. Ed. Schwarcz Ltda, 1994.
MORETZSOHN, Sylvia. Jornalismo em “tempo real” O fetiche da velocidade. Rio de
Janeiro: Ed. Revan, 2002
________. Pensando contra os fatos Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso
crítico. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 2007
NEVES, Lúcia Maria Bastos P. ; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da C.;
(orgs) História e Imprensa Representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro Ed
DP’A, 2006
ROMANCINI, Richard; LAGO, Claúdia. História do jornalismo no Brasil. Florianópolis: Ed
Insular 2007
SODRÉ, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis:
Ed. Vozes, 2009.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo – Porque as notícias são como são. Volume I.
Florianópolis: Ed Insular, 2008
________.Teorias do jornalismo A tribo jornalística – uma comunidade interpretativa
transnacional Volume II. Florianópolis: Ed Insular, 2008.
CADERNO ESPECIAL 80 anos do Jornal Estado de Minas. Belo Horizonte: Ed. 2008
Sites:
www.diariosassociados.com.br acessado em 23/03/2012
www.uai.com.br acessado em 23/03/2012
www.portaldapropaganda.com.br/portal/propaganda/2310 acessado em 26/02/2012
http://www.dapress.com.br/da/capa_ecommerce acessado em 05/03/2012
APÊNDICE
Pesquisa sobre o perfil do leitor do Estado de Minas:
Perfil dos Leitores: 531 mil leitores na Grande Belo Horizonte
Sexo: 53% Homens 47% Mulheres
Classe Social: 10% A1 (população 3%)
Idade:
18% A2 (população 6%)
3% de 10 a 14 anos
23% B1 (população 10%)
9% de 15 a 19 anos
21% B2 (população 18%)
27% de 20 a 29 anos
26% C (população 48%)
21% de 30 a 39 anos
2% DE (população15%)
19% de 40 a 49 anos
21% acima de 50 anos
Fonte: Ipsos: Estudos Marplan/EGM – Mercado Grande BH- Filtro 10 e + anos.
3.090.000 abril 2008 a março 2009. Nº de leitores impresso e/ou digital – Tiragem IVC
junho 2009
Circulação:
Dias
Circulação em Assinaturas
Venda avulsa
exemplares:
Dias úteis
71.926
90%
10%
Domingo
102.034
76%
24%
Fonte: IVC Setembro 2009 (venda avulsa+ assinatura)
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“Estado de Minas”:Um resgate histórico do jornal