EDINALDO DE SOUZA LOBO1 EXECUTIVO EMPRESA LOBO Idade: 43 anos Nascido em Juazeiro do Norte - Ceará Esposa: Maria Libânia Lobo Silva Filhos: Lorena, Luiz Felipe e Gustavo. Em 1972, Juazeiro do Norte era uma cidade pequena, mas já começava a crescer. Tinha praticamente somente o Centro e uns poucos bairros ao redor, mas estava se expandindo. Foi aí que meus dois tios, Antônio e Esmeraldo, tiveram a ideia de colocar um ônibus para atender os bairros Pirajá e Casas Populares. Foi assim que eles fizeram a Empresa Lobo. Já tinha uma empresa de ônibus em Juazeiro. Era a Viação Padre Cícero, do José Firmino. Foi a primeira empresa daqui. Ela também fazia as linhas para os bairros que estavam crescendo, inclusive o Pirajá e Casas Populares. Meus tios vieram para trabalhar naquelas linhas também. Então, os ônibus da Viação Padre Cícero seguiam pela rua São Paulo e o ônibus dos meus tios iam pela rua de Todos os Santos. O tempo foi passando e a Empresa Lobo comprou a Viação Padre Cícero, por volta de 1975... Quando nós compramos a Viação Padre Cícero, tínhamos uns quatro ônibus. A outra empresa tinha seis ou oito. Meu pai e meus tios conseguiram um empréstimo e combinaram com um amigo de Recife para concluir a negociação. Isso porque eles sabiam que o José Firmino, mesmo já mostrando estar cansado do trabalho, não iria vender a empresa para os concorrentes. Acho que ele não gostou muito... Mas, com a compra, nossa empresa ampliou bastante a frota. E a Viação Padre Cícero encerrou aí. Lembro da compra... Eu era criança ainda. Lembro que meu pai já era sócio da empresa, mas trabalhava como cobrador para ajudar a diminuir os custos. Depois, ele tirou carteira e passou a motorista. Depois, ele passou para a administração. Meus tios tinham começado com um ônibus só. Era um Mercedes Benz bem antigo, que eles chamavam de “bicudinha”. Não sei se vou conseguir fotografia para mostrar... Meu pai, o José Lobo, entrou para a sociedade em 1974. Ele tinha uma propriedade aqui em Juazeiro e vendeu para comprar um ônibus. Foi o segundo ônibus da empresa. Hoje, ela tem 38 ônibus! No começo, para rodar no transporte de Juazeiro só precisava da autorização do Prefeito. Era “precário”.... O prefeito autorizava e pronto: você ia rodar 1 Depoimento à Aida Eskinazi e Patrícia Menezes, na manhã do dia 30 de novembro de 2010, na sede da Empresa Lobo, na Avenida Prefeito Carlos Cruz, 1.556, no bairro Franciscano, em Juazeiro do Norte. Transcrito em 06 de dezembro de 2010. naquela linha. Até hoje eu tenho essas autorizações. Vou ver se consigo cópias para vocês... Não precisava de registro na Junta Comercial para ter a autorização. A empresa podia começar a rodar e só fazer o registro depois. Às vezes, quando um entrava na linha do outro, o prefeito intervinha e delimitava a linha de cada um. A Prefeitura também determinava o valor da tarifa, já em 1972. A gente ia até lá, pedia o aumento da tarifa e o prefeito autorizava, O bairro do Pirajá tinha muita demanda de gente. Vizinho a ele tinham construído um conjunto habitacional, que se chamou “Casas Populares”. Quando se constrói um conjunto, junta muita gente, não é? Principalmente o povo que trabalha... A “Casas Populares” até hoje é a nossa melhor linha, mesmo tendo a concorrência da Viametro. Os nossos passageiros eram os trabalhadores que moravam lá. Mais tarde, foram criados outros bairros, como o Novo Juazeiro, por exemplo. Posso dizer que, nesses anos, a empresa foi bem, mas sempre foi difícil... A gente nunca tinha frota nova... Quando a frota é nova, o custo é bem menor, não é? Por isso, sempre foi difícil, sempre trabalhando com dificuldades, com ônibus usados. Comprávamos ônibus em Recife, João Pessoa ou Fortaleza. Lembro que alguns foram comprados da Empresa São José de Ribamar, de Fortaleza, e que, apesar de usados, eram carros muito bons. Só conseguimos comprar uns ônibus novos entre 1997 e 2002, mas depois, voltamos a comprar usados. Eu acho que foi um erro dos administradores... Em Juazeiro, o comércio de auto peças é pequeno. Faltam peças para ônibus. A gente tem uma grande dificuldade de encontrar peças para reposição. Temos que comprar em Fortaleza, Recife, São Paulo e outros lugares. Os preços ficam mais altos. Além disso, as peças demoram muito para chegar e, algumas vezes, vêm erradas. Então, os ônibus ficam mais tempo parados. O mesmo acontece com as peças da carroceria. Aqui na cidade não tem nenhuma loja que venda peças de carroceria. Um vidro, por exemplo: se quebrar um vidro, por menor que seja, você não encontra para comprar. Aí, quando chove, o ônibus fica parado... E olhe que é comum quebrar um vidro. Então, se quebrar um párabrisa ou um vidro da lateral, eu preciso ligar para Fortaleza ou para Recife para pedir. Fica caro, aumenta o trabalho. É um problema. É certo que por aqui tem uma concessionária que já vende algumas coisas. Mas são muito caras! Tem peça que custa duas vezes mais na concessionária que no mercado paralelo... Outra coisa que dificulta muito, é que gente nunca conseguiu uma parceria com a Prefeitura de Juazeiro. Geralmente eles não consertam as ruas, deixam o calçamento muito ruim. Até hoje existem bairros onde a gente trabalha que não têm calçamento nenhum. Isso dificulta o nosso trabalho, estraga o carro. Quando meu pai começou, quase todas as ruas eram sem calçamento. Quando chovia, fazia lama, buraco. Então, lá iam meu pai e meu tio com carrinho de mão, colocando terra no buraco para que os ônibus passassem. Na volta da viagem, lá estava o buraco de novo. E eles saíam para encher outra vez. Acho que isso aconteceu com todas as empresas mais antigas. Eles eram desbravadores... Eles faziam de tudo! Por isso, eu acho uma injustiça que alguns deles tenham ficado de fora da licitação das linhas intermunicipais que o governo fez agora. Os mais antigos fizeram o trabalho todo e agora tiveram que sair do transporte... Aqui tem uns empresários de ônibus intermunicipais, da Viação Brasília e da Transceará, que simplesmente começaram tudo e hoje estão de fora. Eram até empresas bem estruturadas, mas faltou apoio. Ninguém tinha apoio do governo ou da prefeitura e, de repente, criaram uma licitação e eles saíram. Eu sei que licitação tem que ter, não é? Está na lei. Mas as licitações foram feitas de uma maneira tão arbitrária que não deram chance das empresas se prepararem... Então, chegou um grupo grande, muito poderoso, de fora, e ganhou. Esses grupos tem muito dinheiro e forçam para fazer a licitação. Eu acho que o poder público, que tem a concessão, deveria dar condições para as empresas mais antigas concorrerem. Fazer as exigências, mas dizer: “Olhe, vocês vão ter um prazo tal para entrar nas exigências e melhorar a qualidade para os usuários”. Se não for assim, os grupos grandes chegam como um rolo compressor. Eu até gostaria de deixar isso registrado aqui, como protesto. Nós, do transporte urbano de Juazeiro, tivemos a sorte de ter um prefeito comprometido com o transporte público e sensível à situação dos empresários. Nós tivemos várias reuniões com o pessoal da Secretaria do Transporte Urbano. Todas as empresas apresentaram suas autorizações de linha. Então, elas foram avaliadas e renovadas por mais dez anos, com uma prorrogação de mais cinco anos. Nessas negociações, não apareceu nenhuma divergência entre os empresários, porque o relacionamento sempre foi muito bom entre nós. Cada um reconhece o direito do outro. Ficou combinado que o governo só vai fazer a licitação para as linhas urbanas depois que terminarem os contratos. Foi há pouco tempo que a Prefeitura de Juazeiro criou a Secretaria de Transporte Urbano dentro do Demutran, o Departamento Municipal de Trânsito. A secretaria ficou responsável pela regulamentação e fiscalização do transporte público da cidade. Antes tinha muito pouco controle. Ficava tudo por conta dos empresários.. Quem sofria eram os passageiros, que ficavam muito tempo esperando nas paradas e, quando o ônibus chegava, já estava superlotado. E não tinham com quem reclamar. E olha que a gente tenta fazer de tudo para dar um bom serviço. Muitas vezes, a gente fica consertando carro durante a noite, para colocar para rodar logo de manhã e não deixar ninguém sem ônibus. Acho até que não mudou muito do que era no passado. A Secretaria de Transporte Urbano de Juazeiro ainda está engatinhando. Tem dificuldades, faltam recursos. Nós, do transporte, sempre encaminhamos nossas reivindicações, mas, na maioria das vezes, não somos atendidos... Falta dinheiro para tudo! Nós sempre escolhemos os trabalhadores da Empresa Lobo com cuidado. Os motoristas são qualificados, com carteira de habilitação “D”, como exige a regulamentação de trânsito. Para cobradores, sempre empregamos pessoas que tem habilidades. Depende das vagas. No começo, nem todos os nossos ônibus tinham catraca. Era cobrado na mão. Tinha muita fraude... Mas isso foi há muito tempo atrás... Depois colocamos a catraca nos ônibus e microônibus. Nesse tempo todo de trabalho, tivemos alguns acidentes, mas nenhum tão grave que mudasse a rotina da Empresa Lobo. Foi tudo acontecendo no dia-adia. Mas, em 2007 ou 2008, passamos por uma grande crise e vendemos a empresa. Não tínhamos mais dinheiro para investir e, antes que ela entrasse em dívidas, resolvemos vende-la. Foi uma pena, porque a empresa era da família. Meu tio e sua mulher passaram praticamente 30 anos na administração, mas não foram capazes de superar a crise. Todos nós ajudávamos: uns lavavam os carros, outros varriam, outros ficavam de trocador. Fazíamos de tudo para diminuir os custos, mas chegou uma hora que não deu mais... Eu sempre achei que os custos das empresas de ônibus são altos demais. Tem muitas gratuidades. Tem os estudantes, os idosos, vários tipos de gratuidades. O prefeito age como se fosse o dono da empresa. Faz o projeto de lei, manda para a Câmara de Vereadores, eles votam e pronto: tem que cumprir. As empresas não são chamadas para discutir e sempre ficam com a conta para pagar. Acho que esse excesso de gratuidades foi o maior problema para nós. Principalmente quando apareceu a Lei do Idoso. Hoje, a Empresa Lobo transporta 5 ou 6 mil passageiros com gratuidades. Sei que nós não podemos mudar a Lei do Idoso, mas queríamos que ela fosse regulamentada para que se limitasse a quantidade de viagens. Ou então, que fosse votada uma lei criando um subsídio para salvar as empresas da crise. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, basta dizer que existem ônibus que transportam até 45 passageiros idosos, mais as outras categorias de gratuidades... Acho que alguém deveria fazer algo para mudar isso. Acho que os políticos fazem essas leis para se beneficiar nas campanhas eleitorais, mas que acaba pagando a conta são os empresários e até a própria população, que não pode ter um transporte de qualidade. Se, nos próximos anos, não houver uma mudança radical, o transporte público de Juazeiro do Norte pode se tornar inviável do ponto de vista econômico. A Viação São Francisco é uma empresa que foi fundada depois da Empresa Lobo. Ela começou com alguns ônibus, que rodavam daqui até Palmeirinha, uma vila nos arredores da cidade. Ela teve um crescimento mais rápido que a Empresa Lobo. O Francisco, dono da Viação, conseguiu fazer uma parceria com a prefeitura para transportar estudantes, na época do Prefeito Salviano. Fazia também uns fretamentos. Essas parcerias foram passando de um prefeito para outro e estão aí até hoje. Em outubro de 2007 resolvemos vender a Empresa Lobo para a Viação São Francisco. Ficaram duas empresas, com dois contratos sociais distintos e cada uma com as suas linhas. Esperamos que, mais tarde, possa acontecer uma fusão. Já fizemos um aditivo ao contrato social da Empresa Lobo, transferindo as ações do meu tio Antônio para a Viação São Francisco. Os 50% do meu pai estão sendo quitados aos poucos. Como eu sempre tive uma boa amizade com o Francisco, na hora da compra, ele exigiu que eu administrasse a empresa para ele. Eu acho que as condições para trabalhar no transporte são muito difíceis. É uma luta... Mas desde cedo aprendi a gostar de ônibus. Eu acho que a gente aprende muito com os pais da gente. Quando eu era criança, acompanhava meu pai no ônibus, sentava do lado dele para aprender a ser cobrador. Depois, ele me ensinou a ser motorista. Mais tarde, aprendi com ele alguma coisa de administração. Hoje, agradeço a Deus, que sempre iluminou meus passos e me orgulho muito do meu pai, que sempre me deu bons exemplos na vida. Acho que devo muito a ele. E me sinto orgulhoso por fazer o que eu gosto e por administrar a empresa que ajudei a construir. O futuro das empresas de ônibus de Juazeiro é imprevisível. Não sei até quando nós vamos sustentar essa situação. Só sei que vou fazer de tudo para permanecer no mercado. Não consigo imaginar minha vida fora do transporte. Se eu tiver que sair, vou sentir muito.