Mil novecentos e antigamente... UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Reitora Nilcéa Freire Vice-reitor Celso Pereira de Sá Sub-reitor de Graduação Isac Vasconcellos Sub-reitora de Pós-graduação e Pesquisa Maria Andréa Rios Loyola Sub-reitor de Extensão e Cultura André Lázaro UNIVERSIDADE ABERTA DA TERCEIRA IDADE Direção Renato Peixoto Veras Vice-direção Célia Pereira Caldas Gerência de Pesquisa Shirley Donizete Prado Gerência de Extensão Sandra Rabello de Frias Gerência de Ensino e Formação de Recursos Humanos Alzira Tereza G. L. Nunes Mil novecentos e antigamente... Organizadora Mabel Imbassahy Augusta de Souza Alvaralhão Luiz Carlos Valente Myriam Lanna Rio de Janeiro 2001 Copyright © 2001, UnATI Todos os direitos desta edição reservados à Universidade Aberta da Terceira Idade. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, ou de parte do mesmo, sob quaisquer meios, sem autorização expressa da UnATI. Universidade Aberta da Terceira Idade Rua São Francisco Xavier, 524 10º andar bloco F Maracanã Rio de Janeiro RJ CEP 20.559-900 Tels.: (21) 587.7236 / 7672 / 7121 Fax: (21) 264.0120 e-mail: [email protected] Internet: www.unati.uerj.br CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/PROTAT I32 Mil novecentos e antigamente/ Organização Mabel Imbassahy . Apresentação Renato Veras – Rio de Janeiro: UERJ, UnATI, 2001. 148p – (Memória) Inclui textos de : Augusta de Souza Alvaralhão, Luiz Carlos Valente e Myriam Lanna. ISBN 85-87897-03-9 1. Idoso 2. Memória 3. Vida I Veras, Renato. II. Alvaralhão, Augusta de Souza. III. Valente, Luiz Carlos. IV. Lanna, Myriam. V. Universidade Aberta da Terceira Idade. CDU 616-053.9 Produção Editorial Rosania Rolins Projeto Gráfico/Diagramação/Capa Heloisa Fortes Revisão Francisco Inácio Bastos e Alcides Mello Sumário APRESENTAÇÃO ..................................................... 7 INTRODUÇÃO ....................................................... 11 MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... ........... 15 ONTEM .................................................................. 24 VIVENCIANDO HOJE, RECORDANDO ONTEM .................................................................. 29 BELEZA DESFEITA ............................................... 48 ESCOLA RISONHA E FRANCA ........................... 65 RUA SANTA LUIZA .............................................. 92 UM SEMIDEUS PARA MIM ................................. 97 MEU PAI .............................................................. 102 AMOR INVISÍVEL, MAS REAL ........................... 107 COMO TUDO COMEÇOU ................................ 116 BIBLIOTECA VERDE .......................................... 126 RAIO X ................................................................. 132 Myriam Lanna DIA DE REIS ......................................................... 21 VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA? ................ 39 MEU PAI-AVÔ ....................................................... 44 UM ADJETIVO ...................................................... 47 BECO ...................................................................... 53 QUERIDA ESCOLA ............................................... 57 VIDA NOVA .......................................................... 62 MINHA MÃE ......................................................... 80 FALANDO DE AMOR .......................................... 85 LIGAÇÃO DE AFETO ........................................ 114 BIBLIOTECA VERDE .......................................... 124 MINHA BRONQUITE ASMÁTICA ..................... 129 GETÚLIO MORREU ............................................ 135 SOLIDÃO .............................................................. 137 LIBERDADE ANSIADA ....................................... 142 Augusta Alvaralhão UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA ............................ 38 MINHA INFÂNCIA ................................................ 41 MEU COLÉGIO INTERNO ................................... 75 AGRADÁVEL MOMENTO .................................... 77 OS DOCES DE MINHA MÃE E DE MINHA MULHER ........................................... 83 ALGUÉM ................................................................ 88 O VERDADEIRO AMOR .................................... 114 MUDOU O NATAL OU MUDEI EU? ............... 139 COMO CONHECI A UNATI .............................. 140 Luiz Carlos Valente SOBRE OS AUTORES ........................................ 142 Nota Biblioteca Verde e Mudou o Natal ou mudei eu? correspondem a poesias de autoria de Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis, respectivamente, trabalhadas durante as atividades da Oficina, gerando os textos incluídos nessa publicação. Apresentação A gerente de Pesquisas da UnATI, professora Shirley Donizete Prado, sugeriu a organização de uma nova publicação intitulada Série Memória. Sua proposta é a de estruturar uma publicação periódica na qual se possa oferecer aos idosos, que freqüentam a UnATI, oportunidades mais amplas de divulgar trabalhos aqui produzidos, privilegiando-se elementos de conteúdo criativo, em diferentes domínios, revelando suas origens e ilustrando seus processos de produção. Para lançar a idéia Série Memória, publicamos o livro Mil novecentos e antigamente..., resultado da Oficina de Produção de Textos, coordenada de forma envolvente e acolhedora por Mabel Imbassahy. Mabel reuniu pessoas dispostas a reconstituir as suas trajetórias de vida, recorrendo às lembranças e aos seus registros, tecendo, dessa forma, suas próprias histórias. APRESENTAÇÃO % O presente livro, que inaugura esta Série, constitui mais uma conquista da UnATI, que tem como objetivo compartilhar com seus alunos as experiências do passado, construindo com elas novos projetos de vida. Renato Veras Diretor da UnATI/UERJ &A P R E S E N T A Ç Ã O O grande patrimônio da pessoa idosa está no mundo maravilhoso da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o universo em que vivemos, sobre as pessoas e os acontecimentos que, ao longo do caminho, atraíram nossa atenção. Maravilhoso este mundo que pela quantidade e variedade inimaginável e incalculável de coisas que traz dentro de si: imagens de vultos há muito desaparecidos, lugares visitados em anos distantes e jamais revistos, personagens de romances lidos... fragmentos de poesias que aprendemos de cor na escola e nunca mais esquecemos... quantos vultos de atores e atrizes esquecidos, sabe-se lá há quanto tempo, mas sempre prontos a reaparecer no momento em que vem o desejo de revê-los... e quantos trechos de canções voltamos a cantarolar sozinhos... Este imenso tesouro submerso jaz à espera de ser trazido de volta à superfície durante uma conversa, uma leitura... Seja de repente por uma associação involuntária, por um movimento espontâneo e secreto da mente. (Somos o que lembramos) Norberto Bobbio. O tempo da memória Introdução M il novecentos e antigamente... reúne textos produzidos por alunos da UnATI-UERJ que integraram uma Oficina, realizada em caráter experimental, cuja finalidade consistia em criar condições para a recuperação de lembranças referentes a histórias vivenciadas ou ficcionadas pelos seus participantes. O ofício de lembrar é tarefa salutar. Uma vez que haja estímulo à transmissão daquilo que cada um de nós vivencia e compartilha com os demais, eterniza-se o que poderia desaparecer. Considerando-se o momento atual em que as construções narrativas perderam lugar, substituídas pelos efeitos da imagem da TV e demais aparatos tecnológicos, cabe às pessoas idosas resistirem à desvalorização de suas lembranças. Observou Norberto Bobbio: O mundo do passado é aquele no qual podemos buscar refúgio em nós mesmos (...) [para] nele construir nossa identidade (...) Cumprenos saber, porém, que o resíduo, ou o que logramos INTRODUÇÃO desencavar, desse poço sem fundo é apenas uma ínfima parcela da história da nossa vida. Nada de parar. Devemos continuar a escavar. Os textos aqui reunidos expressam, certamente, momentos preciosos, narrados com zelo e delicadeza pelos autores. São produções singelas, em forma e essência, que contêm enorme riqueza: a de dar vida às suas recordações que, ficcionadas ou não, determinam um movimento em direção ao futuro. Cada gesto, palavra e emoção poderiam se perder para sempre, caso não fossem reencontrados e trabalhados. Dispondo de duas horas semanais, a Oficina, além de roteirizar temas com a intenção de apoiar os textos produzidos, estabeleceu uma roda de leitura de autores consagrados, como Carlos Drummond de Andrade, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Cora Coralina, Rachel Jardim, Raquel de Queiroz, Adélia Prado e Rubem Braga, a fim de serem comentados e discutidos. Alguns desses autores foram bem acolhidos e alvo de admiração, enquanto outros receberam críticas desfavoráveis. No entanto, todos foram lidos, revelando alto grau de atenção e interesse. As lembranças incluídas nos textos geraram outras manifestações, como a apresentação de fotografias de um tempo remoto, algumas já esquecidas em álbuns e gavetas. Desse modo, produziu-se mais um registro de lembranças: Veja a expressão sofrida da minha mãe, como ela era bonita. Aqui era o I N T R O D U Ç Ã O Ipanema, um areal. Dizia-se: O Ipanema. Olha o meu pai, no restaurante do Corcovado, elegante em seu traje de garçom. Aqui está o meu filho aos 9 anos, em um passeio na praia; morreu aos 40. Ah, as reuniões de Natal. Como mudaram.... Meu vestido de noiva era tão bonito, não era?. Olhem o véu. Tanto as lembranças que emocionavam, trazendo sentimento de tristeza, quanto as que revelavam a alegria e eram compartilhadas prazerosamente, desvelando existências plenas de acontecimentos. Foi extremamente gratificante e oportuno oferecer uma Oficina voltada para estas manifestações, apresentadas em diferentes formas e estilos, próprios de cada aluno. Reforçou-se assim o reconhecimento da capacidade em elaborar e criar explicitada por essas pessoas, alunos da UnATI, que sem dúvida prestaram, com apreço e dedicação, uma inusitada colaboração ao se entusiasmarem pela arte de lembrar e tecer suas histórias. Reservamos os últimos parágrafos para os agradecimentos. Primeiramente para a dra. Rose Souza pelo interesse demonstrado e incentivo a esta publicação. Agradecemos à UnATI, na pessoa de seu diretor Renato Veras, pela oportunidade rara oferecida àqueles idosos, detentores de um patrimônio ímpar suas lembranças possibilitando seus registros INTRODUÇÃO ! e o reconhecimento de seu valor. E também ao Comitê de Empregados da Embratel, ao Movimento da Ação da Cidadania, do Combate à Fome, à Miséria e pela Vida, representado na pessoa da senhora Anésia Maia Araújo, que gentilmente prestou enorme colaboração doando parte do material necessário à publicação deste livro. Mabel Imbassahy Coordenadora da Oficina de Produção de Textos da UnATI "I N T R O D U Ç Ã O Mil Novecentos e Antigamente... Myriam Lanna M esa retangular, enorme, ocupando o espaço de mais ou menos a terça parte da grande sala de jantar. Toalha e guardanapos trocados todos os dias, a toalha branca passadinha, com vincos à mostra (coitados dos serviçais!). Aquilo era a exigência de um pai que se comprazia em ver a família em volta da mesa, todos os dias. Hora sagrada a das refeições: o genitor na cabeceira, os filhos todos nas laterais e ela, a grande dama, na extremidade oposta à do esposo. Os talheres de prata maciça (não se conhecia ainda o inox) brilhavam, deixando sobressair o alto relevo das flores cinzeladas, esculpidas nos cabos, e os copos impecáveis na sua transparência cuidada. Ainda vejo o guarda-louças portas de um vidro muito fino, cuja opacidade ostentava desenhos clássicos de mulheres gregas; do outro lado, o que chamávamos antigamente de guarda-comidas (não me recordo de nenhum alimento guardado MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... # nele) com tela verde, muito fina, em ambas as portas e, junto dele, o filtro filtro Fiel duas talhas de argila sobre um tripé de metal e um suporte abaixo da torneira, onde ficava um copo de alumínio para as crianças beberem água. Essa a imagem que ainda guardo da sala de jantar dos dias de minha infância. Não posso me esquecer das horas solenes das refeições. As travessas fumegantes vinham com aquele cheirinho que aguçava o apetite. Para os dias de semana, o trivial, comida mineira na íntegra: arroz, alisado cuidadosamente, parecendo um bolo branco, na travessa rasa, oval; feijão, noutra, mais funda, angu molinho e, invariavelmente, torresminho com pele e tudo; depois, o mais cheiroso: frango refogado que se apanhava no terreiro logo de manhã, faca passada no pescoço do pobre, imobilizado nas coxas pelo implacável matador. O sangue é meu, a oveira é minha, eu quero a moela gritava a criançada alegre com o feito. Quiabo fazia parte do menu quando tínhamos frango refogado na mesa. A gente não gostava, mas tinha de comer. Carne de vaca? Não me recordo de haver comido quando criança de roça. Só me vem à mente aquelas panelas de pedra enormes, cheias de gordura de porco talhada, onde, postas e postas de suíno eram conservadas para o consumo da semana. Para a mesa elas iam douradas, com um acebolado por cima. Nós, pequenos, adorávamos $ MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... o dia das costelinhas que delícia chupar os ossos temperados até ficarem sem cor. No dia em que se matava porco, minha mãe e as auxiliares labutavam até o pôr-do-sol. A banha, depois de picada, era levada para a fornalha, debaixo de uma coberta, no terreiro da casa, lenha ardendo desde cedo, tacho de cobre reluzindo, colher de pau enorme, remando naquelas ondas espumosas de gordura. Nós, menores, ficávamos esperando os bolinhos fritos, feitos dos miolos uma tentação. Mamãe não deixava perder nada: aquela espécie de torresmo mole da banha era retirado com a escumadeira e colocado noutro tacho, com soda cáustica em cima. Dali, no fim da semana, juntando com os outros restos, saía o sabão com que a roupa era lavada (ela sabia tanta coisa). Nesse dia e nos subseqüentes, tínhamos aquela pele macia, torradinha, saborosa. O trabalho para raspar aqueles pêlos todos não havia produtos químicos para isso, como hoje ela o fazia sobre um banquinho, junto da mesa rústica, assim como a demorada tarefa de encher lingüiças. Menina, vai apanhar uns espinhos de laranjeira, ali, para a mamãe. E você aí, fure uns buraquinhos aqui nas tripas que estou enchendo para que as lingüiças não fiquem cheias de vento. Depois, as lingüiças eram dependuradas na dispensa cortina cheirosa, convidativa até o dia seguinte, quando muitas, em rolo, eram levadas aos colonos. MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... % Pão, diariamente, como nos dias de hoje? Pelo menos, na minha casa não havia. Eram as fornadas de biscoitos de polvilho, guardados em latas enormes, eram as roscas-doces, douradas com gema que, depois de enroladas, tinham de dormir cobertas para que crescessem sob vigilância constante , pois não podiam passar do ponto. O forno de lenha era conservado aceso a noite toda rosca-doce, dizia minha mãe, assase em forno bem quente. De forma geral, no lanche, comíamos broa de milho, bolo, biscoito frito na gordura. Nada de refrigerantes ou sucos artificiais. Era leite puro mesmo aquela nata grossa , com açúcar somente para a criançada. Os frutos do pomar, fresquinhos, mamão, laranja, abacaxi, melão, goiaba, melancia, eram muitas vezes moídos ou socados no almofariz (recipiente de cobre, maciço, pesado) para serem transformados em sucos, servidos nos intervalos das refeições. Pena é que aquela maçaroca era coada numa peneira de taquara as fibras lá se iam (ainda não era conhecido o seu valor) e as babás tinham receio de que a gente se engasgasse. Aos domingos, tínhamos, impreterivelmente, a deliciosa macarronada. Cedinho, a mãe já estava batalhando com a massa: ovos, farinha de trigo, leite e água com sal. A gente ficava observando. Depois de muito sovar, aquela substância branca, compacta, arredondada, tinha de descansar por algumas horas. Mamãe dizia se não repousar não vou conseguir abri-la. & MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... Mais tarde, o rolo manejado por mãos hábeis, deslizava com força sobre aquele conteúdo, pedaço por pedaço, até que ficasse fininho, espessura toda igual. Farinha de trigo salpicada, e a massa, uma vez aberta, deveria secar até a hora de ser enrolada como um rocambole e cortada em tiras, que eram colocadas na panela de água fervendo. Eu só sei que a travessa de macarrão cheiroso e dourado ia para a mesa na hora do almoço. A gente se deliciava com aquele manjar saboroso. E a sobremesa? Hora melhor para a petizada: goiabada cremosa com queijo de Minas ralado. Mês de dezembro! Natal aproximando-se! A figura incansável da genitora, lenço na cabeça, óculos escorregando pelo nariz, era vista, quase o dia todo, no mesmo lugar de sempre, preparando os doces para a festa de Natal. Doce de cidra cristalizada! Como aquilo era trabalhoso! Ela raspava os frutos, um por um, cortava-os em quatro pedaços, retirava as sementes e os fervia várias vezes; para que o amargo saísse, escorria a água. Feito isso, colocava-os numa calda, depois de purificada nós, pequenas, batíamos as claras em neve. E não acabava aí. Nos dias subseqüentes, fervia-se a cidra na calda até que ficasse como vidro, transparente. Só então o doce era colocado a secar ao sol e se tornava um cristal macio, comível, delicioso. Não podiam faltar, na Noite Santa, os doces de figo, de laranja e de goiaba em calda. No Natal, a mesa ficava posta o dia todo com as MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... ' guloseimas características da época: pão-dourado, rocambole e bons-bocados, sobre os quais se enterravam cravinhos negros. Aquela leitoa assada, em cuja barriga se escondia a farofa temperadinha, vinha na hora da ceia, portentosa, com um grande ovo cozido na boca, mantida aberta de propósito. Era o regalo dos apreciadores de carne gordurosa, tão condenada pela medicina atual. Têm razão, os doutores donos da vida e da morte?... Não sei. Só sei que, conversando com um senhor de oitenta anos, ele me disse: Qual nada! Durante toda esta minha longa vida comi carne de porco bem engordurada e apimentada, bebi pinga em todas as refeições a cachaça dissolve a gordura. Não troco o meu quibe frito e o meu pastelzinho por nenhum alimento saudável, como apregoam por aí. Realmente, eu o conheço faz tempo, é um homem forte, saudável, nada de mãos trêmulas e passos indecisos. Nunca se queixa de dor ou malestar, ajuda a esposa, também idosa, em todos os trabalhos de casa, faz o mercado para ela, sempre a acompanha nas caminhadas diárias, e isto com toda a segurança. Comentou um motorista de táxi, outro dia, quando estávamos quase chegando ao Hospital Pedro Ernesto: Olhem lá (apontou para um grupo de médicos, vestidos de branco), já vão para a churrascaria. E o prato de hoje é feijoada, aquela bem incrementada! Para a gente receitam legumes cozidos e, quando muito, carne branca. Essa é muito boa! Assim até eu! MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... Dia de Reis Augusta Alvaralhão G rupos do Morro de São Carlos, que normalmente se encontravam na igreja, após o catecismo e as missas, representados por adultos, adolescentes e crianças, reuniram-se no barracão de um deles a respeito da festa do Dia de Reis, que era comemorado todos os anos no dia 6 de janeiro. Nada fácil, pois as opiniões eram as mais desencontradas. A princípio, todos acreditavam que as fantasias poderiam ser de tecido, porém, mesmo o mais barato não dava para alguns. Terminava a reunião sem que nada tivesse sido resolvido e com muita frustração. Pensou-se, então, bater de porta em porta, solicitando qualquer ajuda. Nada feito, realmente todos eram pobres e, por maior boa vontade que tivessem em ajudar, sentiriam muito por não poder colaborar. Certa vez, fui a uma festinha de uma menina da escola e recebi, como lembrança, algo feito de papel. Uma luz surgiu. E se fiDIA DE REIS zéssemos as fantasias de papel crepom? Apresentei a idéia e todos concordaram. Foi preciso muita imaginação, capricho e força de vontade para conseguirmos realizar nosso sonho. Então, o grupo saiu! Assim, no Dia de Rei percorremos ruas e becos, caracterizados de diversos seres do folclore brasileiro, cantando e representando. As roupas, mesmo de papel crepom muito coloridas e caprichadas ficaram perfeitas. O povo aguardava ansioso e aplaudia com veemência. Em algumas casas (a maioria) os grupos eram convidados a entrar para que fizessem pequenos lanches. A festa durava o dia inteiro. A menina morena de longas tranças, vestida de cigana, ia na frente, com um pires nas mãos, cantando bem alto: Boa noite, meus senhores, Estou cansada de andar Com esta minha sacola (bis) Esmola vou tirar (bis) Eu leio a sorte Vejo a linha do destino (bis) Vou ler hoje a buena dicha Do Sagrado Deus-Menino. Uma jovem, gordinha, muito clara, vestida de fada, continuava: Sou a fada mimosa e garbosa, Também trago minhas oferendas DIA DE REIS Para ofertar a Jesus Que do mundo é rica prenda. Outros representantes seguiam alegres com suas fantasias e a festa durava até o anoitecer. Era lindo, inesquecível! DIA DE REIS ! Ontem Myriam Lanna A ve, Maria! Era uma vez duas meninas rezando: Santa Maria! Ave, Maria! Santa Maria! Era uma vez duas meninas rezando. Depressa, Yayá, não vai dar tempo de a gente jogar bulca. Acabadas as dez ave-Marias... Pai nosso... corríamos para o buraquinho preparado, anteriormente, pelas duas amigas inseparáveis. As bolas de gude eram substituídas por aquelas sementes pretas, redondas, quase do mesmo tamanho das bolinhas de vidro por isso o nome do jogo: bulcas. Sentadas no chão, calcinhas sujando-se a gente levantava o vestido de ver Deus, senão... a mamãe iria perceber. Agora é minha vez! Acertei! E as sementes redondas, pretinhas, brilhantes, rolavam para o buraquinho. Dois a zero! Ganhei! Depressa, Yayá, voltemos à igreja, o terço já deve estar acabando. " ONTEM Temos de rezar outro mistério, somente as primeiras palavras, senão demora muito e a gente não joga nada. Ave, Maria!... Santa Maria!... Ave, Maria!... Santa Maria!... Pai nosso!... É mês de maio, Myriam, ainda vão cantar a ladainha de Nossa Senhora. Tenho de ir lá porque a mamãe vai perguntar quem coroou e eu não vou saber dizer. O alto-falante arrasta aquela cantoria abençoada: Santa Dei Genitrix, ora pro nobis... Virgo fidelis, ora pro nobis... Regina Angelorum, ora pro nobis... Está no fim. E nós, polegar armado, perninhas abertas, cabeças quase encostadas no chão, jogando bulcas. Como é gostoso jogar bulcas! Por que será que a mamãe proíbe a gente? Brinquedo de moleque, não está vendo? E a calça, toda suja de terra? Da outra vez, você vai levar umas palmadas. Eu vou esquentar você. %%&& Assim, tudo na minha infância: peralta, criativa, eu, amando a vida que se debruçava sobre mim como um tufão cores e perfumes a sufocar-me não tinha outra alternativa. Burlava a vigilância de minha pobre e sofrida mãezinha, que ficara viúva aos quarenta anos, com 12 filhos ONTEM # menores. O mais velho 17 anos; nove meses o mais novo. Não fosse o aborto que teve com a morte do meu pai, outro rebento, muito breve, veria a luz do dia. Para a minha mãe a vida acabara, para mim estava apenas começando. Menina sem pai não pode ficar por aí, brincando na rua... Menina sem pai não pode andar com filha de mãe solteira justamente a minha amiga de todas as horas, de todos os brinquedos, de todas as peraltices... Cada uma! Menina sem pai não pode coroar Nossa Senhora. Que pena! Precisaria de um longo vestido branco de seda e paetês, arminho nas mangas largas e na barra, coroa de rosas brancas na cabeça e aquelas asas de anjo! Meu Deus! Com elas eu voaria até o céu! Menina sem pai não pode, não pode... não pode... Como eu tinha raiva de ser menina sem pai! Não podia nem ganhar um irmãozinho, como a filha da vizinha do lado um neném fofinho, cheiroso, envolvido na manta bordada e cheia de rendas. Não podia pular amarelinha com a negrinha que a comadre de minha mãe criava lé com lé... cré com cré mas eu pulava assim mesmo. Não podia brincar de roda no jardim da cidade: Fui ao tororó, beber água, não achei. Achei bela morena que no tororó deixei. Eu brincava às escondidas. Era tão bom! $ ONTEM Não podia saltar do coreto do parque. Você quebra a perna, menina, e depois como vamos fazer para encaná-la? Você não tem pai! Eu dava os meus saltos, sorrateira. %%&& Carinho? Não! Não era possível! Só mesmo da mucama gostosa, cabelo de pimenta-doreino, que todas as noites eu pelejava para desembaraçar. Por que o meu cabelo era tão feio, tão liso? E o dela tão bonito?... Eu a penteava até que caía de sono sobre a roupa tanta roupa para passar à noite, ela que tivera um dia de labutas. Balançava o ferro de brasas que eu soprava prazerosamente para ela. Tinha inveja de sua cor de piche, reluzente, eu que era tão desbotada, tão branquela! Venha tomar banho, menina. Que diabo! Quem inventou o banho não sabia que estava fazendo tanto mal para as crianças. E conosco não tinha aquela de, já vou, mamãe. Justamente na hora do batizado da minha boneca! Depois do banho, nada de brincar no porão. Você se sujaria toda outra vez. Que? Eu estava limpa, limpa. Não entendia para que banho todos os dias. Uma vez limpa, sob a vigilância de minha mãe, só podia brincar na varanda e na frente da casa, onde um tapete verde manchava-se de boninas lindas. ONTEM % Eu me cansava de olhar o viveiro de canários belgas do meu irmão, que me enfadavam com seu gorjeio sonoro ao entardecer. Me enroscava, então, à semelhança de serpente, pelos pilares do peitoril da varanda. Saia daí, menina! Você ainda vai agarrar a cabeça. É falar e acontecer. Choro! Palmadas! Um dia eu deixo você presa entre estas colunas. %%&& Refeita, corria para as boninas. Fazia longas guirlandas que pendurava no pescoço, nos braços e nos cabelos. Era, agora, a cigana sedutora a rodopiar pelo campo, mãos erguidas, passos ritmados, desvendando os segredos do futuro lindo, sonhando com uma cidade inesquecível ruas calçadas de pães-de-ló, casas feitas de rapaduras e muros de pés-de-moleque. Isso é veneno, menina teimosa, venha para dentro. %%&& Blem blau, blem blau, blem blau. Angelus! Que sorte! Mamãe, vou rezar o terço na igreja! E caía no gozo! Natureza sábia, sabia sem saber que estava defendendo meus direitos de criança traquina, sem carinho, sem dinheiro, sem pai! & ONTEM Vivenciando Hoje Recordando Ontem Myriam Lanna A lô! De onde? Do Tijucor? A Ilza? Está bem, está bem, vamos já, já. Corações aos saltos, línguas agarrando-se ao céu da boca, mãos trêmulas e passos titubeantes, trocamos a roupa em um instante. Havíamos acabado de almoçar. O alimento fazia um bolo no estômago, que recusava aquela realidade dura. Mas, resistimos. O momento era de luta, e vencer a nós mesmas, a todo custo, era necessário. A imaginação, doida da casa, depressa começou a trabalhar: É, a Ilza deve estar muito mal, ela não é de alarmar ninguém. Mulher forte, batalhadora, não costuma queixar-se das dores e dos problemas que a vida nos oferece sempre, em demasia até. Ninguém escapa deles. Viver é um problema, já disse, certa vez, o professor Mira y Lopez, e quando problemas deixam de existir é porque a vida se extinguiu. VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM ' E os filhos? Por que não os chamaram? Será que já estão lá? Será que aconteceu o pior? continuava a martelar a imaginação. Em contrapartida, a razão insiste por alguns instantes: dois deles trabalham fora, horário integral, a caçula, companheira de todos os dias da mana, deve ter saído para qualquer coisa: mercado, banco, dentista. Em outras épocas, em outros lugares, não havia a tristeza de ter que recorrer a um prontosocorro sozinha; não havia o perigo de solidão, do isolamento: casa cheia de filhos, de serviçais, de amigos, portas sempre abertas, vizinhos, ali perto, acorrendo a qualquer sintoma diferente. Saímos como desvairadas, sem levar ao menos os números dos telefones dos sobrinhos. Trânsito engarrafado... táxi arrastando-se... Senhor motorista, o retorno é ali, na rua Pareto; a Conde de Bonfim, neste trecho, só dá mão para baixo. Ah, meu Deus, pensei angustiada. Era preferível aquele tempinho do bonde, mão e contramão, trânsito livre, poucos carros na rua. O bonde era mais devagar, mas andava. Pelo menos, esta angústia não sufocava o peito. Creio que, agora, se a gente fosse a pé, chegaria mais depressa. Enfim! Casa de Saúde Santa Terezinha! Sala de espera cheia. Deus meu, isto está parecendo com os INSS da vida, pensei com meus botões. Guarda, a postos, junto da porta de entrada da emergência. ! VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM Uma de cada vez, falou a médica, lá de dentro. Minha irmã, tubo no nariz, soro na veia, chorou ao ver-nos. Assim, vou mandar que saiam... Você não pode se emocionar, tornou a falar em voz alta a médica. Como no fim do século as coisas funcionam diferentes das do princípio! Recordo-me de meu pai, chegando à casa, depois de acidentado: os amigos e colonos improvisaram uma maca e vieram, de uma fazenda à outra, carregando-o nos ombros solidários e fortes. Agora, as UTIs móveis! Qual UTI, qual nada! Na que minha irmã foi transportada, de um hospital para outro, os aparelhos não funcionavam, estavam danificados. Manutenção custa caro! O enfermeiro que a acompanhou, bem instruído, naturalmente, foi conversando, brincando com ela. Ei, vó, você está enxuta ainda! Já arranjou um namorado? Sei de uma pessoa que está louquinha por uma companheira. Quer que lhe dê seu endereço? Por incrível que pareça, a Golden Cross não mandara a ambulância, apesar de insistentes pedidos. Naquela aflição da espera, a médica a todo instante dizia que ela precisava de uma UTI..., que no Santa Terezinha não havia vaga..., que ela estava num processo de angina e poderia sofrer um infarto... Não tivemos outra alternativa senão pedir uma ambulância e pagar por este serviço a pequena importância de duzentos e cinqüenta reais. VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM ! Mais tarde, depois de muito labutar, meu sobrinho foi reembolsado, ele tinha esse direito; o contrato de seu plano rezava isto e ele estava disposto a botar para quebrar. E digo mais, ao chegarmos à outra Casa de Saúde, para onde foi transferida, surgiu uma nova batalha para interná-la. Disseram que a Golden Cross não havia dado autorização, que era necessário deixar um depósito de apenas sete mil e duzentos reais. Tudo foi tratado nas duas longas horas de espera. Novamente um cheque, mas, desta vez, sem fundos e pré-datado. Quem é que tem na sua conta sete mil e duzentos reais? Só mesmo um felizardo. A Beth, minha sobrinha, contou que na primeira noite em que foi dormir com a mãe, depois que saiu da UTI, mal refeita ainda, entrou uma profissional no quarto e foi falando em bom tom: Sabe que a acompanhante paga? Você tem de deixar um cheque. E para o aluguel da TV também. E minha sobrinha, que não é nada fácil: É? Eu não sabia. Só que não tenho dinheiro nem cheque. Depois comentou conosco: Eu só pago por serviços prestados. Nada de suborno comigo, eles estão ali para trabalhar, para atender aos pacientes e acompanhantes. Já se viciaram com as gorjetas. Os cariocas são mestres nestas coisas. Minha cunhada mesmo, contando, quando teve de internar o filho: Tome aqui para você comprar um batom, cuide bem dele que amanhã lhe trago mais. Como o dinheiro conta neste mundo! Aliás, ele é tudo para alguns. Outrora, era as! VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM sim?... Não tanto, parece. Ou foi assim em todas as épocas?... Vejo, até hoje, junto do leito de meu pai, médicos que até pernoitavam lá em casa. E não é só porque naquele tempo tivéssemos melhores condições financeiras. Quando ainda criança, adoeci seriamente. Mamãe mandou chamar o médico, já com o aviso de que não podia pagar, pelo menos naquele momento. Ele foi logo e me atendeu com aquela atenção. E prometeu à minha mãe um diagnóstico mais preciso, depois que consultasse os livros tinha uma pequena biblioteca especializada. Voltou, sem que fosse chamado, com informações precisas sobre a enfermidade e com a receita bastou uma para que me curasse. Que é isso, Luizinha? Não precisa pagar nem hoje, nem nunca. Você me estimulou à pesquisa. Preciso estudar mais. O capitalismo dominou tudo e todos. É pena! A dignidade, a valorização do ser humano contam ainda?... Quem sabe!... Uma vez conseguida a ansiada UTI, salvação da pátria, coitada da minha irmã: puseram-na inteiramente despida sobre o leito homens e mulheres na mesma sala ela, uma mulher com valores cultivados, rejeitava aquilo. Mas teve de se submeter. Nessa hora não tiveram medo de que ela enfartasse, apesar de perceberem a sua inquietação adrenalina não acelera as batidas do coração? A primeira providência seria tentar eliminar o fator de agressão (Entrevista: O amor é uma vacina Dr. Marco VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM !! Aurélio extraída da revista Isto É, dada ao grupo pela Mabel). Fio prá lá, fio pra cá, tubo pra lá, tubo prá cá... Minha irmã disse que nem podia se mexer e... ar refrigerado em cima... ela que tem alergia ao ar condicionado. Ninguém da família podia ficar perto; visitas somente das 16 às 17 horas, uma pessoa de cada vez. Está certo! Minha irmã contou que, nesses três dias, não viu sequer a cara de um médico Tudo máquina... máquina... Tanta confiança na máquina!... É só programá-la e... pronto! Mas a máquina pode falhar, talvez mais que o ser humano. Meu pai dizia: O porco só engorda aos olhos do dono. Vejam a tragédia com o avião da TAM. Tantas vidas ceifadas! Ouvi, perplexa, ontem, a entrevista de um comandante da Aeronáutica: O avião não cai, ele pode ser derrubado. Técnica infalível. Com minha irmã a máquina falhou; teve; um choque pirogênico que quase a leva de vez. E não queriam tirar-lhe o soro. Foi preciso que minha sobrinha rodasse a baiana, como se costuma dizer. O médico de plantão entrou no quarto, olhou, de longe, minha irmã tremendo, a ponto de balançar a cama, dentes cerrados, braços endurecidos, respiração ofegante e falou: Ela deve estar com alguma infecção, pois a temperatura está alta, mas a pressão está normal, conforme constatou a enfermeira. P..., retrucou minha sobrinha. Se está com infecção deve ter apanhado nesta espelunca. Isto não é infecção coisa alguma, é choque do !" VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM soro, a minha filha já teve isto. Se vocês não tirarem o soro, tiro eu e assumo as conseqüências. A muito custo, resolveram fazê-lo, e o terrível mal foi cedendo, cedendo até desaparecer. A plantonista da UTI ficava numa cabina, num canto da grande sala, de frente para o computador, sentada numa poltrona. Quando algo não ia bem lá, olhava, apertava o botãozinho e... missão cumprida. A mana disse que precisou urinar; na cama, não havia campainha, ela gritou, gritou até que apareceu alguém com uma comadre na mão e... tchau. O recipiente permaneceu ali... quanto tempo ela não sabe. Sorte é que seu médico, que não trabalha naquele hospital, foi vê-la, a pedido nosso, e retirou a comadre. Pior é que não era necessária a permanência da mana naquele mundo frio. A Beth ouvira de uma funcionária que estavam esperando vagar um quarto para transferi-la. O preço da UTI? É claro, só pesa no bolso do paciente e sobre os planos de saúde... eles podem, podem, mas fazem corpo mole: foi pedida à Golden autorização para um ecocardiograma. Só na véspera da alta, após quatro dias de internação, é que vieram dois funcionários do plano, munidos de toda aquela aparelhagem, para fazer o eco. Entenda quem quiser. A máquina! Se, pelo menos, ela fosse acompanhada do olhar aconchegante de um ser humano, solidário, complacente numa hora destas. O amor é uma vacina!. VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM !# Dr. Valdir! Que lembrança doce deixou na nossa memória, no nosso coração; ele assistiu a minha mãe nos seus últimos dias, em casa mesmo soro, oxigênio e tudo. E ele ali dias seguidos. Pagamento? Mais tarde... agora não é hora para isso... podem parcelar... não importa. Graças a Deus a minha irmã está em casa, mexendo-se na cama à vontade, levantando-se sozinha para ir ao sanitário, amparada para o banho diário, água gostosa que purifica e relaxa. O medo de ter de voltar ao hospital faz com que cumpra as recomendações do médico: repouso, dieta, remédios e todo o cuidado para não se emocionar. Bênção dos Céus que a gente possa ainda ter o cantinho aconchegante do lar, onde a privacidade é respeitada e a autonomia, dom intransferível, pode ser exercida, amplamente. Agora, meu sobrinho está brigando com a Golden, com a Casa de Saúde. Adianta alguma coisa? Pelo menos, ficarão atentos para que fatos assim não se repitam com outras pessoas que recorrem a essas instituições, ansiosas, aflitas, angustiadas, querendo a todo custo salvar a vida dos que amam. Adendo 1 Pensei que tudo houvesse acabado aí, mas nada. A atuação das máquinas vai prosseguir. Minha irmã, infelizmente, deve submeter-se a um cateterismo e, talvez, a uma cirurgia de ponte de safena. Agora, meus sentimentos !$ VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM são de gratidão pelas máquinas e por seus inventores; com a ajuda delas vão tentar salvar a vida da mana, tão preciosa para todos nós. Adendo 2 Novamente a técnica falhou. Minha querida irmã submeteu-se a uma cirurgia coronariana que os médicos afirmavam ser uma das mais simples e... Tudo correu bem, informaram os doutores, senhores da vida e da morte, alguém já disse. Mas, no dia seguinte, ao irmos para a visita, ela não estava na UTI. Ficamos alarmadas ao nos informarem que voltara ao Centro Cirúrgico. Poucas explicações: um capilar rompera-se ou, o que não confessaram, não fora pinçado na cirurgia. Em conseqüência: derrame no pulmão... sofrimento de trinta e três dias e... o adeus para sempre. VIVENCIANDO HOJE RECORDANDO ONTEM !% Um Episódio da Infância Luiz Carlos Valente A minha infância foi tranqüila, mas entre os vários episódios que a marcaram ressalto um dia, quando morávamos no Ipanema, na Lagoa Rodrigo de Freitas, quando, escondido de minha mãe, entrei num barco de pesca que estava na margem. Saí remando desajeitadamente lagoa adentro. Pelas tantas, nos meus 11 anos, fiquei cansado e o barco, impulsionado pelas marolas, afastou-se muito da margem. Não tive medo, mas meu irmão, que tudo assistia, foi chamar minha mãe que, aflita, pediu a um pescador que chegava que me trouxesse de volta. Não é preciso dizer que recebi umas boas chineladas e um bom castigo. Não mais me aventurei a sair de barco, enquanto criança, isso só voltou a acontecer oito anos depois, quando passei a remar no Clube de Regatas Vasco da Gama. !& UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA Vamos Brincar de Comidinha? Augusta Alvaralhão C ada um dá uma coisa! Olha, eu trago cenoura, chuchu, vagem, batata, abóbora, repolho... Tudo isso? Perguntaram admiradas. É claro, não é, a mamãe está fazendo cozido e me dará as cascas. Pena que não dá pra fazer sobremesa com casca de banana. Dá sim, é tudo de mentirinha. Hoje, descobriram que o que foi jogado fora está sendo aproveitado, principalmente pelos mais carentes. Progresso? Miséria? Graças a Deus conhecemos a comidinha de verdade, e meu pai muito contribuiu para que nós a apreciássemos, orientando-nos a comer de tudo. Verduras, legumes e feijão não podiam faltar. Carne e peixe, havia eventualmente. Doces, apenas em dia de festa, e frutas, as mais comuns, laranja, banana... Galinha criada em casa, gorda, VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA? !' saudável, dava prazer saboreá-la. Meu pai aproveitava tudo, as tripas, que abria com uma tesoura, lavava-as bem com limão e as colocava na canja. O sangue também era aproveitado, porém não me lembro como. Quando abria a galinha, chamavanos para ver os ovinhos. Uns já quase prontos para adquirirem casca e outros miudinhos... Minha mãe não gostava de cozinhar, porém caprichava na sua comidinha espanhola, que ela chamava de sorda. Colocava o bacalhau de molho e, no dia seguinte, dava uma fervura no mesmo. Tirava as espinhas, cortando-o em pedaços pequenos. Fazia um refogado com azeite, cebola, tomate, alho, pimentão, azeitonas pretas e colorau. Juntava o bacalhau, deixando cozinhar por pouco tempo em fogo brando, pingando água até o molho ficar grossinho. Colocava, então, pedaços de pão dormido, cortados em quadradinhos. Não esquecia do manjericão. Ficava delicioso... Comidinhas do Natal: Castanhas cozidas e assadas, nozes, avelãs, passas, aletria, arroz doce, rabanadas comuns e rabanadas no vinho. Bacalhoada à portuguesa. Um tabuleiro bem grande com batatas, cebolas inteiras, ovos, couve tronchuda e azeitonas pretas. Bacalhau partido em postas (tudo previamente cozido). À parte, um molho com bastante alho socado, azeite português, vinagre e sal. Todos gostavam e comiam com prazer. Ah! Não posso esquecer de mencionar algo indispensável: o vinho! Presentes modestos completavam a alegria do encontro. Família reunida, família feliz. " VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA?... Minha Infância Luiz Carlos Valente N ascido em 21 de junho de 1922, cheguei ao Brasil no ventre de minha mãe, com oito meses de gestação. Meus pais eram portugueses, de natureza austera, o que fez com que minha educação fosse rigorosa. Lembro-me de que, aos seis anos, comecei a estudar no jardim de infância do Instituto Laffayete, onde passava as manhãs brincando com terra, baldinhos, forminhas e pás. Tinha um irmão mais novo um ano, que era doente, com problemas de respiração e ataques de bronquite. Lembro-me de que, devido à doença de meu irmão, muitas vezes fui privado de brincar com outras crianças, por não poder ele participar das brincadeiras. Um dia, estava esperando a hora de ir para o colégio quando, na porta de casa, um cachorro me atacou, mordendo minha perna. Foi um alvoroço muito grande para laçar o bicho, meu pai foi atingido pela baba do animal e conseqüente raiva, indo junto comigo para o Instituto Pasteur. MINHA INFÂNCIA " Confinado em uma jaula, dias depois, o cachorro morreu de raiva. Nessa época, eu morava na Praça da República; meu irmão, devido ao seu problema de saúde, foi aconselhado a viajar para se tratar. Como os padrinhos dele iam a Portugal, ele partiu com eles, lá permanecendo por seis meses. Meu pai, que trabalhava em uma drogaria desde 1918, resolveu, em 1930, se estabelecer no ramo de farmácia. Foi quando fomos morar em Ipanema, na Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma casa que ele mandou construir. Fui matriculado no colégio N. Sra. da Paz, colégio de freiras da matriz da igreja do mesmo nome. Nesse colégio, aos 11 anos de idade, fiz a minha primeira comunhão com um grupo de crianças. Era uma época feliz onde eu e meu irmão brincávamos no areal imenso que existia em volta da Avenida Epitácio Pessoa. Este já era o nome da pista de carros que até hoje se mantém. Lembro-me de que, muitas vezes, minha mãe saía nos procurando, de cinto na mão, porque não obedecíamos ao chamado dela. A vida transcorria feliz quando, aos 12 anos, fomos morar em Niterói, pois meu pai foi obrigado a vender nossa casa já que os negócios não iam bem na sua farmácia. Foi então que meu irmão e eu fomos internados num colégio em Friburgo, de uma família de poloneses, rigorosos na educação de crianças e de grande experiência no ensino. " MINHA INFÂNCIA Graças à estadia nesse colégio, onde estudamos durante dois anos, consegui adquirir bons conhecimentos. Da minha infância, muito mais teria que escrever, mas a premência de tempo me obriga a interromper essa pequena biografia. MINHA INFÂNCIA "! Meu Pai-Avô Augusta Alvaralhão G ordinho, corado, pele lisa, sempre alegre, assim era o avô de minhas filhas. Elas o adoravam. Pediam sempre para visitá-lo. Para mim e o pai delas usavam o tratamento você. Ele não aceitava e dizia: Você não, senhor, ouviram? Consegui contornar a situação, para não aborrecê-lo, combinando com elas que para o vovô diriam senhor. Travessuras, choro, denguinho, coisas normais nas crianças que outrora ele jamais aceitara, agora, pacientemente, a tudo assistia, brincando, rindo... Que bom! Ele realmente não parecia, de maneira alguma, com o meu pai, sem ser avô. Muitas vezes olhava para ele, admirada, pensando: Como era possível alguém mudar tanto? Mas logo voltava à realidade e agradecia a Deus por essa graça. Ele sempre trabalhou como garçom. Uma vez por mês levava-nos para jantar no local onde trabalhava. Escolham o que quiserem, só não podem pedir feijão e arroz. Hoje tem de ser algo "" MEU PAI-AVÔ especial. Por exemplo: uma rãzinha, polvo à moda da casa, bacalhau na brasa, e tem de comer sobremesa... Minha mãe dizia-lhe: Vai ficar muito caro, como fazer para pagar? Ora, o patrão é camarada. Não é sempre que tem o prazer de receber, em seu restaurante, um avô com seis netas. Eram três minhas e três do meu irmão. Às quartas-feiras, ele saía do Estácio, passava na feira, e ia carregado para minha casa na Penha, levando, entre outras coisas, melancia (que minha filha caçula adorava), bacalhau e azeite, pois dizia que um bom português não passava sem eles. Certa vez, o convite foi para almoçarmos no restaurante do Pão de Açúcar, onde ele trabalhava naquela época. Passamos um dia maravilhoso, inesquecível. Tudo para nós era novidade, beleza, surpresa. Ficávamos assustados ao ver o Rio de Janeiro lá embaixo. Estive pensando na mudança de comportamento do meu pai e não posso deixar de prestar uma homenagem à minha irmã caçula. Foi ela, foi ela sim, que conseguiu enfrentá-lo com sua coragem e persistência, fazendo-o entender o quanto era importante ser amado. Meu irmão e eu tínhamos temperamentos iguais, ou seja, éramos dois medrosos. A última vez que o vimos foi num aniversário da minha filha, num dia 20 de janeiro, na residência dele. MEU PAI-AVÔ "# Garotas, vocês já viram minhas uvas? (Risada geral). Venham, vamos ao terraço. Ele havia plantado três tipos de uvas e as videiras estavam carregadas. Trepou numa cadeira e, com uma tesoura, começou a cortar os cachos. As meninas e nós não cabíamos de tanta alegria. Fomos enchendo vasilhas e, ao mesmo tempo, comendo-as. Lembro-me bem que ele brincava, dizendo: Ah, é assim? Dois pra vocês e uma pra mim? Vô, olha um marimbondo, pega ele! Pode deixar, esse não me escapa pegava a tesoura e começava a persegui-lo até cortá-lo. Olha aqui mais um, vô, corre senão ele vai te picar. Pai, o senhor vai cair desta cadeira, desce por favor, já chega de tanta uva! Ficamos assim até à noite, quando tivemos de nos despedir. Levamos muita uva. Saímos felizes. As meninas abraçando-o, beijando-o e ele emocionado, dizendo: Calma, minha gente, o mundo não acabou! Dia 11 de fevereiro seguinte: Alô, é Augustinha? Fiquei sem entender, pois apenas as pessoas do local onde nasci assim me chamavam. Sou eu, por quê? Seu pai acaba de falecer, teve um colapso! "$ MEU PAI-AVÔ Um Adjetivo Augusta Alvaralhão E la crescia, crescia tanto, que já estava quase impossível alcançá-la. Mas era bom... Causava surpresa a força que tinha e a alegria que passava para quem na vida tivera tantos desenganos. Estava sendo plantada com muito carinho, dedicação e respeito, na certeza de que viveria para sempre. Mas sempre é tempo demais... Foi alcançada, quebraram-na. Os estilhaços caíram vertiginosamente, ferindo sem piedade, sem dar tempo sequer de compreender. A surpresa continua, mas quem sabe algum dia tudo poderá ser reconstruído? Afinal, a esperança é a última que morre. UM ADJETIVO "% Beleza Desfeita Myriam Lanna E nfim chegamos. Luzes e sombras competiam, brejeiras, uma empurrando a outra, quando a brisa suave soprava sobre as frondes das árvores enormes que, de mãos dadas, brincavam de ciranda em volta da lagoa. O perfume chegava a embriagar-nos no céu deve ser assim! Odor dos anjos voantes a nos envolver por inteiro. Dêem as mãos disse meu cunhado a descida é escorregadia. Patinhávamos num tapete macio de vegetação rasteira e folhas secas que gritavam ao serem pisoteadas por nós. Mais embaixo, a lagoa! Sonho ou realidade?... Manhã de outono! Que lindo! O sol, este malandrão prepotente, insistindo em violentar a lagoa e ela, virgem casta, fugindo para as margens, encolhendo-se à sombra das árvores que a protegiam prazerosamente. Bem junto à picada (em Minas Gerais, caminho entre vegetações, feito pelos pés dos caminhantes), o bote à nossa espera, acorrentado "& BELEZA DESFEITA ao tronco de um cedro gigantesco, chocalhava ao ritmo das ondas, dançarinas incansáveis. Alojamo-nos. Remo em punho, era vencer nossas combatentes, que faziam grande resistência à nossa empreitada, como a querer impedir aquela invasão a seu território inexplorado. Desviamo-nos de uma enorme prancha de aguapés tapete verde, todo bordado pelo veludo de lindas flores brancas; ele também parecia querer dar proteção à mulher dos seus sonhos a lagoa dourada, cobrindo sua nudez misteriosa com aquela manta de esperança. Aportados à sombra de um ipê-amarelo, bote amarrado, anzóis com iscas lançados às águas impediam-nos de nos extasiar com a variedade de cores e sons que a natureza milionária e pródiga nos oferecia. Aquietamo-nos silenciosos. De repente, nossos olhos se enlevaram com um bando de marrecos, lençol branco deslizando em nossa direção. Haviam percebido que estávamos com os farnéis abarrotados e, sentindo o cheiro do milho cozido que levávamos como isca para a pesca, vieram como um exército, mas alçaram a bandeira de paz, a fim de partilhar conosco da ração devida a todos os viventes. Peixes! Milhares! Milhões: traíras, dando saltos mortais, rodopiando no ar e caindo novamente nas águas esplendorosas; lambaris cardumes e mais cardumes, lépidos, nadavam, à tona, em ziguezagues furta-cores; bagres escuros, de antenas ligadas e ferrões armados, abriam e fechavam a bocarra cortante, metiam-se pelas tocas que BELEZA DESFEITA "' cavavam para depositar e proteger suas ovas é preciso defender a vida a todo custo. Sem dúvida, aquilo era o paraíso que Milton julgara perdido! E eu o encontrara! Indescritível a sensação quando um gatuno das águas agarrava a isca e ficava preso ao anzol; ele pulava e girava sobre a lagoa mansa, levantando coroas de espumas prateadas que se desfaziam sorrateiras. Invadíramos o espaço daqueles seres inofensivos, que apenas queriam viver. Eles se debatiam, gemiam de dor e de tristeza, gritavam, alguns, mas o hedonismo que toma conta da humanidade impedia-nos de sermos misericordiosos queríamos o nosso gozo, o nosso prazer a despeito de tudo, até da vida, bem maior que Deus concedeu aos habitantes deste pequeno planeta. A paisagem viva renova-se a cada instante: agora eram as maritacas palradoras que perturbavam a nossa pesca; depois, um bem-te-vi saltitante que denunciava o nosso crime em alta voz: Bemte-vi... Bem-te-vi... À tardinha já, um casal de gansos enamorados, brancos como a neve, leves como plumas, deslizava pelas águas tranqüilas, beijando-se e abraçando-se carinhosamente e, de vez em quando, girando como um pião, mergulhando a metade dos corpos à busca de alimento. Pelas frestas dos troncos grossos que nos cercavam, começamos a perceber luzes tremeluzindo nos retângulos dos casebres. Que pena! A noite caíra, era hora do regresso. # BELEZA DESFEITA Aquela imagem maravilha inesquecível fotografada a cores, miniatura valiosa no cérebro desta que já viveu mais de sete décadas, perambulou por aí e não se recorda de ter visto coisa mais bonita, mais extasiante! Voltei lá algumas vezes. Fui notando mudanças na paisagem. Há mais de vinte anos não visito aquele local. Soube que é hoje quase um deserto. A busca do ouro verde Zona da Mata, riqueza inexplorada , iniciada a machadadas na década de trinta, foi depois completada, clandestinamente, com serras elétricas, ao longo dos anos. Madeira de lei, troncos que quatro braços de gigantes não conseguiriam abraçar; cedros milenares, sucupiras preciosas, perobas que se encostavam no céu, fincados lá em cima, na Serrinha, foram levados por causa da ambição do único ser pensante que povoa este planeta. Agora, no lugar das florestas encantadas, residências dos sacis de uma perna só, das bruxas malvadas e fadas salvadoras, o plantio é de eucaliptos, para que sejam, de tempos em tempos (cinco anos após o primeiro plantio e, uma vez cortados, de três em três anos), transformados em carvão vegetal, destinado à usina siderúrgica de João Monlevade. Lá, em ferro líquido, as árvores carvão negro vão correr pelas tubulações da usina até adquirirem uma forma determinada. Cá, na paisagem destruída, fornos de tijolos queimam os eucaliptos, produzindo uma fumaça negra, malcheirosa, espalhando fuligem em toda a região, causando sérias doenças respiratórias BELEZA DESFEITA # aos poucos moradores que ainda resistem a esta agressão porque não têm como escapar. As árvores sedentas estão sugando toda a água do solo, que se tornou arenoso e improdutivo. Em lugar dos habitantes cantadores, escorpiões enormes, escuros, venenosos, ameaçam a vida dos trabalhadores. As lagoas vinte? trinta? talvez, mas estão secando , os peixes se foram para sempre, nenhum matiz naquela região... Assim é o homem: acaba com aquilo que recebeu de mão beijada, destrói as belezas que extasiam os olhos, ambicionando estocar (para quê?... por que?... por quanto tempo, se a vida é tão curta?...) o vil metal, desfazendo os sonhos mais lindos, substituindo-os por uma quimera enganadora. Ao querido amigo Luiz Carlos, no dia de seu aniversário 21/6/1996. # BELEZA DESFEITA Beco Augusta Alvaralhão C ora Coralina emociona-me profundamente quando escreve que o Beco recomenda-se a quem busca o passado. É verdade. Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior, diz que Cora Coralina vive em estado de graça com a poesia, enaltecendo-a pela sua sabedoria. Para mim, principiante na arte de entender poetas, resta-me a esperança de receber a graça de sentir a riqueza desta literatura. Beco... Beco... Muitas lembranças tenho de ti. Eras o meu caminho pequeno e estreito por onde desfilei na infância e adolescência. Para ti, estava voltado aquele portão trancado, que me impedia de correr abraçada à liberdade, em busca de muito sonhos. Beco, por tua causa perdi um grande amor! Por que exatamente naquele dia ficaste tão sujo, enlameado? Durante muito tempo fiquei triste, julgando-te o causador, porém, logo me recuperei, graças às lágrimas que derramava ao passar por ti. BECO #! O luar das noites claras tornava-te até poético, ajudando-me a voltar, com alegria, a fazer várias viagens com uma lata dágua na cabeça. Buscando o passado, seguindo a sabedoria de Cora Coralina, lembro-me do teu dia de glória, quando viste aquela menininha desfilar na tua passarela, vestida de noiva. Pessoas seguravam o grande véu para que não se arrastasse na poeira, mas nem precisava, tu havias preparado o cenário, deixando tudo limpo e brilhando, fazendo com que a noiva-menina, ao passar por ti, tivesse a impressão de estar flutuando. Ela se despediu, em busca da felicidade. #" BECO Querida Escola Augusta Alvaralhão N ão gosto de escrever ou falar de saudade pois, para mim, significa algo que não voltará. Mas, pensando bem, até que existem algumas lembranças que valem a pena ser recordadas, apesar da tristeza de sabermos que jamais voltaremos a viver (viver de verdade) os momentos que as proporcionaram. Escola Rio Grande do Norte. Não preciso fazer grande esforço para trazê-la para cá. Ameite muito. Contigo e em ti passei momentos maravilhosos. Tu eras minha casa, minha diversão, meu sorriso, meu refúgio, meus sonhos. Eu te achava linda, parecias um palácio cheio de salas enormes, com biblioteca (onde se escondiam meus príncipes, fadas, bruxas, madrastas, etc.). O gabinete dentário era completo, adorava sentar-me naquela cadeira que girava, girava... Havia também a sala para trabalhos manuais, a de religião, o refeitório e um pátio grande para brincarmos na hora do recreio. Fui escolhida para ficar com a chave da Secretaria. Quando precisavam de algum material, QUERIDA ESCOLA ## recorriam a mim que, prontamente, atendia e tinha o maior cuidado em anotar tudo. Aquela contabilidade de entra material, sai material, saldo disto, saldo daquilo, era importante para mim. Não admitia erros, honestidade acima de tudo, coisa que meu pai sempre me ensinou. Certa vez disseram-me: De hoje em diante você vai hastear a Bandeira e pode chamar um colega para ajudá-la. Fiquei feliz, pois, estava claro, poderia levar aquele menino louro de olhos verdes. O uniforme da escola pública, naquele tempo, era muito bonito. Tinha grande orgulho do meu (só tinha um), sempre impecável. Eu mesma cuidava dele: saia azul-marinho com pregas, blusa branca de mangas compridas abotoadas nos pulsos, sapatos pretos, meias brancas, gravata azulmarinho com tiras brancas, que significavam o ano que estávamos cursando. Pena não ter sequer um retrato vestida com meu uniforme. Eu, realmente, gostava de estudar. Pode parecer falta de modéstia este relato, porém, orgulho-me de ter sido assim. Em todas as classes era sempre a primeira (que tirava as melhores notas e, por essa razão, incumbiam-me de diversas tarefas). Cada turma escolhia dois pelotões, aqueles que iriam verificar se o uniforme estava em ordem, se as unhas estavam cortadas, as orelhas limpas e, acima de tudo, se os alunos estavam com piolhos, etc. Como chefe dos pelotões, minha responsabilidade era maior. Usávamos uma cruz bem larga, de feltro vermelho, no braço esquerdo. Éramos muito respeitados. #$ QUERIDA ESCOLA D. Eunice, a diretora, d. Leonor, subdiretora, e as professoras eram amigas, conseguiam, com carinho, manter a disciplina. Existia entre nós um clima familiar. Um dia, todos ficamos tristes ao sabermos que nossa professora de história, d. Carmem, ia sair. Chorando, começamos a cantar: Oh! Carmem, Carmencita, morena tão bonita, és linda espanhola, etc. Esta música estava em evidência na época, mas não sei quem a cantava. Resolveram criar o Centro de Brasilidade. Era composto de presidente, vice-presidente, secretário e um aluno para cada Estado. Tudo foi feito por meio de votação. Colocaram duas urnas no pátio e, sob orientação da direção, tudo foi feito com muito civismo, alegria e respeito. Todos os dias cantávamos o Hino Nacional, hasteando a Bandeira. Datas históricas, como o Dia da Independência, da Proclamação da República, da Bandeira, entre outras datas cívicas, eram também comemoradas. Cantávamos seus respectivos hinos, que achávamos lindos. Ninguém errava. Chegou o dia da apuração. Todos atentos. É incrível, mas não me lembro de ter passado por nossas cabeças que poderíamos ser enganados. Creio que naquele tempo a palavra corrupto não era uma constante. Resultado: para Presidente a aluna Augusta Alvaralhão Souza, com... votos. Para vice-presidente, o aluno... Para secretário... e, assim, sucessivamente. Era lindo, emocionante, o enorme peso da responsabilidade, de amor à Pátria. Daí em dianQUERIDA ESCOLA #% te, em todas as comemorações, lá estava eu, pequenina, magrinha, morena com cabelos compridos, pretos e lisos, com meu querido uniforme, braço direito esticado para frente, dizendo bem alto para que todos repetissem: Juro amar a Bandeira Minha grande Pátria Que desejo sempre livre Forte e generosa, etc. D. Oscarina dava-nos aula de música. D. Guiomar, de matemática (a matéria de que mais gostava). A professora de trabalhos manuais, d. Jane, era uma gracinha, estava sempre rindo. D. Lúcia, de religião, muito nos ajudou. Hoje penso que ela devia ser psicóloga. Quero escrever sobre os demais, inclusive as serventes, o pessoal da cozinha, mas este relato ficará muito longo e, assim sendo, resumo dizendo que foram todos muito importantes na minha vida, que jamais os esquecerei. Quanto à convivência com colegas e amigos, ficará para um próximo trabalho, naturalmente. Fiquei cinco anos nessa escola. Recebi diploma com louvor. Nela aprendi a amar, respeitar, acreditar, a ser feliz. Vocês acreditam que era uma escola pública para crianças, em sua maioria, pobres? Pergunto-me, por que hoje é tão diferente? É triste observarmos a deterioração do ensino, a exploração do professor, a falta de amor e respeito às crianças, a falta de civismo. #& QUERIDA ESCOLA Hoje, as crianças crescem sem saber sequer cantar o Hino Nacional. Acorda, Brasil, deixa de ser covarde, luta, não fiques apenas esperando que Deus te ajude!!! QUERIDA ESCOLA #' Vida Nova Augusta Alvaralhão S urpresa... Olhos curiosos observando admirados aquele casarão velho, no centro de tanto espaço... Viu-se imediatamente correndo, brincando, cantando feliz. Os irmãos acordaram e juntaram-se a ela, mesmo sem entenderem porque estava ali. Avistou uma varanda comprida, pintada de azul, com muitas plantas e uma mesa grande com dois bancos feitos de madeira. Aproximou-se para admirar de perto algumas flores que ainda não conhecia e que, mais tarde, veio a saber que eram azaléias, espirradeiras e manacás. Não se cansava de aspirar o perfume suave que exalavam. Decidiu fazer dali o local de encontro com os livros. Ficou encantada com a horta, verdinha, brilhando com o orvalho que sobre ela caía. Um pequeno córrego, com agrião, completava a beleza do lugar. O lampião, ah!, o lampião... Que susto! Ao pegá-lo, para que fosse limpo, deixou-o cair e quebrou-se. E agora?, pensava assustada. Queria contar à sua mãe, mas não tinha coragem. Resolveu $ VIDA NOVA esperar que ela descobrisse. Porém, o tempo passava... passava... e nada. Não agüentou a ansiedade e resolveu falar: Mãe, quebrei o lampião, me bate de uma vez, pois quero ficar livre. A mãe olhou para ela e, sacudindo a cabeça, começou a rir. Certa vez, acordou com o barulho de temporal e a mãe chamando-os: Vamos crianças, rápido, peguem algumas vasilhas e corram para apanhar as frutas que estão caindo. Ela também foi. Depressa dizia e não deixem seus avós perceberem. Foi até divertido, riam baixinho, correndo de um lado para outro, molhados, catando o que viam pela frente. Por que aquele medo? Afinal, não estavam na casa dos avós que vieram de Portugal? Percebeu que não gostavam da mãe, tampouco deles. Matricularam-na na mesma escola em que os irmãos estudavam. Uniforme simples, material escolar numa sacola de pano, feita pela mãe. Caminhava feliz, pensando que, finalmente, ia realizar seu grande sonho: aprender a ler de verdade. Não precisaria mais inventar histórias, fingindo que estava lendo. Estudou com tanta vontade que, em um ano, chegou à terceira série. As professoras, vendo seu interesse pela leitura, emprestavam-lhe revistas, livros, porém tudo era nada, pois queria sempre mais. Um dia, ao chegar em casa, percebeu algo diferente. Os pais traçavam planos que ela não entendia e os irmãos, agitados, contentes, disseram-lhe que todos iam embora. É verdade sim, VIDA NOVA $ pergunta ao papai. Não foi preciso, logo entendeu que voltariam para a casinha humilde do morro, pois os avós maternos retornariam à Espanha. Que pena, a vida nova foi tão curtinha!... $ VIDA NOVA Escola Risonha e Franca Myriam Lanna U m pouco tradicional na sua arquitetura: seis grandes janelas abertas para a praça da cidade, largos corredores, salas enormes, claras, cheias de carteiras enfileiradas, quadros-negros montados em cavaletes de madeira. Este, mais ou menos, o perfil da escola onde fiz o curso básico, o Grupo Escolar Dr. Cupertino, legenda que ostentava lá no topo, altaneira como o nome que versava. Dr. José Cupertino fora um dos políticos da cidade de Rio Casca, em Minas Gerais, onde passei alguns anos de minha infância. Astuto, como todos os políticos, depressa fizera carreira: vereador, prefeito, deputado e, por fim, senador da República. Quase nada realizara na cidade, mas a sua memória lá estava plantada e a gente reverenciava o notável representante daquele povo humilde que se evadira para a Capital, na época, o Rio de Janeiro. A diretora que os alunos não queriam bem sabia cumprir seu dever, mas intransigente, nada compreensiva, tratava-os como se estivessem ESCOLA RISONHA E FRANCA $! servindo ao Exército. Aplicava castigos que os humilhavam. Recordo-me de um que fez as crianças chorarem: ordenou que os retardatários desfilassem por todas as salas de aula. Foi horrível! Em compensação, as mestras eram amadas e dedicavam-se de verdade! Chegavam a peregrinar pelas fazendas e sítios em busca dos alunos que se evadiam. Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico, o brado retumbante. Todos em fila no pátio, posição de sentido, cabeças erguidas, braços junto ao corpo, pés juntinhos em direção à frente, cantávamos uma vez por semana e nas datas nacionais o hino, que indicava sermos um país livre, grandioso e belo, de povo corajoso e forte. No final, uma voz patriótica transmitia um grande amor por esta nação gloriosa, gritava: Viva o Brasil! Viiivaaaa!, respondiam todos. Década de 30. Iniciava a minha vida escolar. Não me recordo de ter sido alfabetizada na escola. Devo ter aprendido a ler e escrever com minhas irmãs ou com a professora que ia à minha casa, quando ainda morávamos na fazenda. Estão bem vivas na minha memória as aulas de aritmética no grupo escolar: D. Zizinha era autodidata, escrevia a tabuada no quadro, lia em voz alta, fazia com que a lêssemos em conjunto, depois cantava conosco: 3 x 4 = 12; 6 x 3 = 18; 6 x 8 = 48. Agora, olhos fechados, vamos: 4 x 9 = 36; 5 x 7 = 35. Apagava o quadro, argüía um por um, salteava, e só depois começava a parte prática: fazer $" ESCOLA RISONHA E FRANCA as contas na lousa, no caderno. Elogio para quem acertasse. Marcava tarefa para casa: aquelas operações intermináveis, somar, subtrair, dividir, estas últimas, as mais difíceis natureza humana de fato pequena. Desde sempre não gostou de dividir. E as aulas de língua pátria! Bonito nome! (Hoje, comunicação e expressão, pouco diz e pouco ensina). Textos escolhidos com esmero os nossos melhores que despertavam em nós um amor enorme por este enorme país. Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança, não verás nenhum país como este. Olha que céu, que mar, que rios, que florestas! A natureza aqui, perpetuamente em festa, É um seio de mãe a transbordar carinho. (Olavo Bilac) Textos que nos educavam; eu os sei de cor até hoje: Armas num galho de árvore um alçapão E em breve, uma avezinha descuidada, Batendo as asas, cai na escravidão. Dás-lhe, então, por esplêndida morada, A gaiola dourada! Dás-lhe alpiste, água fresca, ovos e tudo. Por que é que tendo tudo há de ficar O passarinho mudo, arrepiado e triste sem cantar? ESCOLA RISONHA E FRANCA $# É que, criança, os pássaros não falam Gorjeando, apenas, a sua cor exalam Sem que os homens os possam entender! Se os pássaros falassem Talvez os teus ouvidos escutassem Este cativo pássaro dizer: Não quero o teu alpiste, Gosto mais do alimento que procuro Na mata livre, em que voar me viste; Tenho água fresca no recanto escuro, No bosque em que nasci, Tenho frutas e flores, Sem precisar de ti! Deixa-me! Quero o sol! Quero o ar livre e o perfume da floresta! Quero o esplendor da natureza em festa! Quero cantar as pompas do arrebol! Quero, ao cair da tarde, Soltar minhas tristíssimas cantigas Por que me prendes? Solta-me, covarde; não me roubes a minha liberdade Deus me deu, por gaiola, a imensidade Quero voar... voar... Estas coisas os pássaros diriam Se pudessem os pássaros falar. A tua alma, criança, sentiria Uma imensa aflição $$ ESCOLA RISONHA E FRANCA E tua mão, tremendo, lhe abriria As portas da prisão! (Olavo Bilac) Um por um fazia a leitura, de pé, livro aberto na mão esquerda (a direita não podia apontar) à altura do peito, aprendendo a dar entonação à voz nos diálogos, nas mudanças de interlocutor. A pontuação era exigida rigorosamente: Levantem a voz nas vírgulas, meus alunos, abaixem-na nos pontos; dêem-lhe um tom diferente nas exclamações, nas interrogações, nas reticências. Vivam o que estão lendo! dizia nossa professora, que sempre nos mandava fazer leitura silenciosa do texto, antes que fosse lido em voz alta. Argüía salteadamente tínhamos que acompanhar o tempo todo. E quando o texto permitia, mandava que o dramatizássemos, como fazia com os principais fatos da história do Brasil. Escolhia sempre uma fábula, com máximas cheias de sabedoria, pois estava certa de que isto contribuiria para moldar nosso caráter, educar-nos para a vida. As professoras se empenhavam ao máximo, a gente sentia e isto marcava, estimulava. Escola pobre, paupérrima, nenhum material escolar. Livros?... Copiávamos as lições escritas no quadro-negro. Uniformes? Íamos de roupa comum. Merenda escolar? Nunca se pensou nisto. E mais de noventa por cento dos alunos eram carentes. Mas, como mencionei anteriormente, as mestras desdobravam-se. D. Chica, a professora de artes, não sei onde arranjava a argila (barro ESCOLA RISONHA E FRANCA $% branco natural) que nos levava para que pudéssemos esculpir algo descobrindo os artistas latentes. Não me esqueço das aulas práticas de história natural. Dois a dois, desfilávamos em silêncio pelas ruas até a casa da professora. Lá, em várias amoreiras, estavam os casulos do bicho-daseda. Lá, ela nos mostrava como os abandonavam lagartas enormes famintas, que se punham a devorar as folhas das amoreiras. Abria, então, os casulos e puxava aquele fio brilhante, quase transparente, que era forte e não tinha fim. E o apiário no fundo do quintal? Para que não houvesse evasão das abelhas, d. Chica tinha um jardim enorme, flores lindas e perfumadas que ela mesma cultivava, pois não dispunha de meios para manter um jardineiro. Fomos também, em outra oportunidade, ver a saída das borboletas daquele invólucro misterioso, onde permaneciam dormindo até que se efetivasse a metamorfose. Ela aproveitava para dar-nos lições de vida: Não sejam como as borboletas, tão diferentes das abelhas laboriosas que trabalham o dia inteiro para nos dar alimento tão saboroso e tão nutritivo. E reforçava: Não sejam como estas tontas borboletas tão diferentes dos bichos-deseda que fiam para nos vestir. As borboletas, belas, é verdade, mas levianas, dormem, dormem, dormem e quando despertam voejam por aí beijando as flores até que encontram uma flor venenosa e ali mesmo jazem inertes. E cantava conosco: $& ESCOLA RISONHA E FRANCA Quando queremos gozar mil prazeres nesta lida A morte vamos buscar, pensando buscar a vida. O meu amor maior, porém, foi para com a responsável pela turma. Era um ser de outro planeta diríamos hoje, um ET. Sabia elogiar na hora certa: Vejam a Laura vem da roça para a escola, anda mais de cinco quilômetros a pé, descalça, para não sujar os sapatos. Na entrada da cidade, arranja como lavar os pés e se calçar. Reparem, meus alunos, ela está sempre limpinha e penteada, e o que é melhor: nunca chegou atrasada, nunca deixou de fazer suas tarefas. Laura era uma mulata alta, de traços finos e cabelos de ondas largas. Tinha o porte de princesa, apesar da tez queimada pelo sol tropical e das mãos calejadas pelo manejo da enxada. Não era como nós, peraltas e inquietos, sabia se comportar. A nossa professora sabia também exigir disciplina e castigar na hora certa: Menino desobediente, fique de pé, ali no canto, voltado para a parede. D. Zizinha, a nossa admirável mestra, demonstrava por nós um amor mais do que maternal. Sabia-se, na cidade, que ela tinha o grande e frustrado desejo de ser mãe, por isso, quem sabe, penso agora, transferisse para nós toda a riqueza daquele incomensurável coração. Levava-nos sempre à sua chácara, situada no final de uma das ruas da cidade, a fim de ensaiar conosco para as comemorações patrióticas, para completar as tarefas escolares, para que, ESCOLA RISONHA E FRANCA $' ocultamente, saboreássemos os frutos do grande pomar de sua casa. O marido era carrancudo e não suportava barulho de criança. Tínhamos de subir as escadas pé ante pé, pois sua farmácia ficava no andar de baixo. Uma vez em cima, tirávamos os sapatos a fim de não incomodar o exigente farmacêutico. Mas a liberdade era recuperada quando chegávamos ao pomar. Que riqueza de frutos tropicais: abius, jabuticabas, pitangas, amoras, mangas e mexericas. Comíamos à vontade. Ela aproveitava para dar lições de higiene e saúde. Lavem as frutas e as mãos naquela bica. Água cristalina, originária de uma misteriosa mina, esbanjava-se em cascatas sobre pedras brancas como gelo. Ensinava que as frutas eram o alimento mais saudável para crianças: faziam a gente crescer e protegiam o organismo contra doenças. De repente, caía do alto, como vinda do céu, uma enorme fruta-de-conde. A um sinal de assentimento de d. Zizinha, corríamos para apanhála, lavá-la e reparti-la entre nós: as sementes envoltas em flocos brancos, semelhantes, ao algodão, enchiam nossa boca dágua. Como os frutos nos sabem doces quando a infância bafeja nossa existência! Pena que isto nos seja agora indiferente! Já provamos tantos dissabores pela vida afora! Aproxima-se o Dia da Bandeira. Vamos recordar o hino, dizia nossa professora: Salve lindo pendão da esperança Salve símbolo augusto da paz % ESCOLA RISONHA E FRANCA Tua nobre presença a lembrança Da grandeza da Pátria nos traz. Verde, cor das nossas matas! Amarelo, o subsolo rico em ouro. Azul, este céu lindo, ostentando o Cruzeiro do Sul. Branco a paz, sempre a paz, apesar de tudo. E a legenda Ordem e Progresso, como fala a nós, brasileiros! Nossas vozes infantis atraíam os animais, que ela mantinha no seu pequeno bosque encantado: um jabuti caminhava preguiçosamente em nossas direção, vinha reverenciar conosco a bandeira nacional; um bando de pintassilgos lépidos e multicores bicavam o solo, depois olhavam temerosos para nós. Nossa professora voltava à sua função de educadora para a vida. Olhem naquela árvore o joão-de-barro construindo a sua casinha. Os pássaros nos ensinam tanto! Vamos tentar imitar este bichinho: ele voa léguas e léguas à procura de um riacho, de cujas margens traz uma bolinha de barro no minúsculo bico. Faz centenas de viagens para construir sua casinha. E continuava. Reparem que é arquiteto, pois constrói uma repartição para preservar os ovos e depois os filhotes dos olhares indiscretos e do vento ameaçador. Vamos ser como o joão-de-barro, meus alunos, vamos trabalhar sempre, vamos edificar nossas vidas em sólidos alicerces, vamos levantar a moradia dos nossos sonhos, ainda que, para isso, tenhamos que labutar muito, voar muito, trazer nos nossos biquinhos ESCOLA RISONHA E FRANCA % frágeis o barro misterioso que nos protegerá das intempéries da vida. Não resta dúvida de que estas mulheres admiráveis exerceram grande influência em mim: desde pequena quis ser professora como elas e o fui. Desejei passar com seriedade ensinamentos imutáveis o cedro não pode vergar-se ao vento do norte , tentei ensinar àqueles que despontam para a vida, conhecimentos que os conduziriam à felicidade. Desejei, como elas, ser amada pelos pequenos, amor puro, desinteressado, sublime mesmo, causa de realização total de uma existência obscura, mas rica no essencial no amor!!! % ESCOLA RISONHA E FRANCA Meu Colégio Interno Luiz Carlos Valente E m 1934, aos 12 anos de idade, meus pais me colocaram em um colégio interno, na cidade de Nova Friburgo. O nome deste colégio era Educação e Saber. Por um ano e meio, passei muitos momentos de tristeza e poucos de alegria. Éramos 12 crianças, que variavam entre 10 e 12 anos de idade. Nosso mestre era o próprio diretor; ele e sua mulher atuavam, ensinando-nos. Os dois, naturais do Paraná, eram filhos de poloneses e muito rigorosos com a disciplina e a educação. O seu rigor levava, às vezes, a castigar os alunos, com proibição de sair nos fins de semana. Em outras ocasiões, ficávamos em pé, à frente de sua mesa de estudos, de braços abertos em cruz. Ao menor movimento que fizéssemos com os braços e as mãos, ele aplicava uma pancada com uma vara comprida. Hoje isso seria considerado uma violência, mas reconheço que nos tornamos aplicados e comportados. Acordávamos muito cedo e, no inverno, ainda escuro, antes do café, corríamos em volta MEU COLÉGIO INTERNO %! do prédio várias vezes para, em seguida, tomarmos banho de água fria. A temperatura média em Friburgo é de 5-7ºC. Recordo-me de que, dentro do chuveiro, uma névoa densa cobria todo o recinto, provocada pelos corpos aquecidos. Os ensinamentos foram de grande proveito, pois, ao sair deste colégio, obtive, em outros escolas, boas notas. Das matérias, as que mais me interessavam eram geografia e história do Brasil. O prédio do colégio era todo de madeira, no estilo colonial alemão, com janelas largas, em guilhotina. Tínhamos, nos fundos, uma grande quantidade de árvores frutíferas, onde se destacavam as jabuticabeiras. Sentíamos muitas saudades de nossos pais, pois, os menos favorecidos financeiramente, raras vezes viajavam ao Rio de Janeiro. Ao término desse período, ficou em minha lembrança a grande experiência do ensino em um colégio interno, que hoje considero como tendo sido dos melhores. %" MEU COLÉGIO INTERNO Agradável Momento Luiz Carlos Valente N o dia 17 de agosto, participei de um encontro com pessoas queridas. A amiga Diva oferecia um chá de gratidão pelo seu restabelecimento de uma cirurgia a que foi submetida. Em cerca de cinqüenta mesas, as pessoas, em sua maioria senhoras, confraternizaram-se com a Diva, que não cabia em si de felicidade pelas gentilezas que recebia. Foi servido um farto buffet de salgadinhos, doces, belíssimas e gostosas tortas. Para alegrar mais a reunião, Diva e umas amigas premiaram os presentes cantando músicas do nosso cancioneiro. A anfitriã ainda sorteou para os convidados muitos brindes. Esse momento agradável teve por local o abrigo para crianças Lar Amália Franco, instituição das mais antigas no auxílio às crianças do sexo feminino, carentes e sem lar. Diva é uma pessoa atuante na instituição, pois, como professora, se dedica à instituição uma vez por semana, ministrando orientação pedagógica de alto nível. AGRADÁVEL MOMENTO %# Em retribuição pela gentileza da casa que cedeu o espaço, os presentes contribuíram para a construção da futura creche, chegando a arrecadar mais de setecentos reais. Ao término da reunião, todos cantaram a música Pela estrada do bosque, com letra psicografada por um médium anônimo, que passo a transcrever. Estrada do Bem Brilha no firmamento novo luar! Uma verdade imensa anda a cantar! A humanidade que chora passa a sorrir! Pois uma estrada infinita, vi palmilhar... Esta é uma estrada florida É o caminho da vida! Que se estende ao Além, E quem a tiver palmilhado O presente e o passado Tornará tudo em bem Assim, do mal, o espinho Há de se tornar carinho E as eclosões da luz Hão de vir com Jesus! Vem ver esta estrada tão linda Entre muitas, infinda É a estrada do amor! %$ AGRADÁVEL MOMENTO Termino com uma frase muito conhecida da benemérita Amália Franco: A lágrima mais sentida é a do órfão desvalido. AGRADÁVEL MOMENTO %% Minha Mãe Augusta Alvaralhão F inalmente alguém se lembrou de me pedir que escrevesse sobre minha mãe. Grata, querida amiga, por esta oportunidade. Acreditem, estou muito emocionada. Por que não tomei eu mesma esta iniciativa? Ela merecia! Tenho poucas recordações de minha mãe, pois fui criada, até os nove anos, por meus avós maternos. Minha mãe estava quase sempre doente e não consigo me lembrar de seu sorriso. Sentia que ela não era feliz, mas amava meu pai. Sei que ela veio da Espanha (era muito bonita) com 19 anos, junto com a mãe dela, encontrar-se com o pai e um irmão. Aqui chegando, conheceu meu pai e se casaram. Ficaram morando num barraco, próximo ao dos pais dela. Creio que me deixaram com meus avós porque, um ano e meio após meu nascimento, nasceu mais uma criança (dessa vez um menino). Quase não sei mais de nada a respeito da vida deles. Lembro-me dela, magrinha, morena, %& MINHA MÃE com cabelos castanhos escuros, lisos e compridos. Assustava-se com os temporais, cobrindo os espelhos, dizendo Louvado seja Deus, toda vez que ocorria um relâmpago ou trovão. Quando queria resolver qualquer coisa, falava primeiro com meu pai. Ele era muito genioso, e ela, assim como nós, ficávamos com medo. Quantas vezes deixou de ir ao médico porque nós lhe pedíamos que não nos deixasse ficar sozinhos com ele. Mesmo assim, nem sei como, conseguia comprar algumas roupas, baratas, mas bonitinhas (normalmente à prestação), num turco que vendia de porta em porta. Assustava-se, quando meu pai e nós demorávamos. Ela saía, a qualquer hora, com chuva e frio e ia para a entrada do Beco, esperar-nos. Eu a preocupei, muitas vezes. Como meu pai não me deixava sair (exceto para trabalhar), eu fazia gazeta, principalmente na aula de inglês, e ia com os colegas dançar no Orfeão Português, ao cinema e, até mesmo, namorar. Distraía-me e, quando olhava as horas, corria desesperada, porque sabia que minha mãe lá estaria, como sempre, esperando-me angustiada, principalmente com medo de que meu pai chegasse. Não me lembro de ter apanhado dela. Sempre trabalhei muito, ajudava-a nos afazeres da casa, mas jamais me perdoei por lhe ter causado tanta preocupação. Não fui a filha que ela merecia. Com 49 anos, seu estado de saúde agravou-se. Eu já estava casada, tinha uma filha de três anos e estava grávida da segunda. Ela teve MINHA MÃE %' de ser internada na Santa Casa de Misericórdia. Toda semana, apesar da barriga enorme, eu saía da Penha para visitá-la. Era terrível. Quando eu estava com quase nove meses de gravidez, ela faleceu. Disseram-me que morreu chamando por mim. Parece incrível mas, exatamente nesse dia, não consegui visitá-la. Os ônibus estavam em greve. Fiz de tudo, mas quando cheguei ao hospital, já era tarde. É tudo muito triste de contar, mas devia isto a ela. & MINHA MÃE Os Doces de Minha Mãe e de Minha Mulher Luiz Carlos Valente E m criança, pouco me recordo dos doces de minha mãe; só depois de adolescente, em nossos aniversários, éramos brindados com guloseimas que minha mãe fazia. A mesa então se enfeitava com brigadeiro, olho-de-sogra, mãe-benta, biscoito de coco, cajuzinho, manjar do céu, quindim de coco, torta de banana, bolo de chocolate. Nas ocasiões em que tínhamos visitas, minha mãe preparava também alguns salgadinhos, como pastéis de carne, de queijo e de camarão, empadinhas de vários sabores e panquecas de banana. Minha mulher herdou de minha mãe o prazer de fazer doces, alguns que ela lhe ensinou, outros que aprendeu com a tia dela. Quando nosso filho aniversariava, além dos doces já enumerados, surgiam, à mesa, bolo de laranja, torta de maçã, pudim de coco, pudim de laranja, bombocados de laranja, bolo de coco e o famoso bolo do aniversariante, com suas velinhas acesas. OS DOCES DE MINHA MÃE E DE MINHA MULHER & No Natal, era a vez das rabanadas, da aletria, do pão-de-ló e alguns pudins. Na ceia, como meus pais e meu sogro eram portugueses, preparava-se o bacalhau de vários modos, entre eles o Gomes de Sá, o bacalhau à portuguesa e, também, à espanhola. Esses diferentes pratos à base de bacalhau não eram preparados simultaneamente, mas sim escolhidos, um para cada Natal. Em ocasiões não festivas, tanto minha mãe como minha mulher gostavam, de vez em quando, de nos alegrar com guloseimas. & OS DOCES DE MINHA MÃE E DE MINHA MULHER Falando de Amor Augusta Alvaralhão S onhava com uma casinha branca, jardim e muitas flores. Não queria castelo, mas não conseguia impedir que um lindo príncipe invadisse seus pensamentos. Quando menos esperava, ele apareceu-lhe, disfarçado num bonito jovem, que, olhando-a com admiração, perguntou-lhe: Posso acompanhá-la? Seguiu-a, fazendo-lhe todas as vontades, amandoa e respeitando-a. Escrevia-lhe belos poemas. Ela achava graça quando ele lhe dizia: Você é minha musa inspiradora. Criança, não entendia tanta beleza e foi, com sua ingenuidade, ferindo-o, fazendo-o perceber que aquela musa jamais seria dele. Ela teve certeza disso ao conhecer um jovem cadete, simpático, educado, diferente. Sentia prazer em encontrá-lo e pensava muito nele. De segunda a sexta-feira, acompanhava-a, à noite, até o curso. Certa vez, uma colega disse-lhe que o noivo dela tinha um amigo que queria conhecêla. Combinaram sair antes da aula de inglês para irem ao cinema. Apresentações. O rapaz, eleganteFALANDO DE AMOR &! mente, segurou-lhe o braço para atravessarem a rua, porém, ela ao olhar para o outro lado, avistou o namorado. Afastou-se de todos e voltou correndo para a sala de aula. E agora? Precisava bolar algo. Às 22h saiu e lá estava ele, esperando-a. Olha aqui, não gostei da sua atitude, disse-lhe ela. Ah! Você é que não gostou? Claro, não percebeu que fiz de propósito? Não vou admitir que fique me vigiando. Ele ficou meio atônito, tentando esclarecer, mas ela, determinada, disse-lhe que estava tudo acabado. Apesar da insistência dele, não voltou atrás. Navio-escola La Argentina, Cais do Porto, Praça Mauá. Encontro casual com o cadete Juan Lobo, residente em Buenos Aires, Argentina assim apresentou-se o rapaz, moreno, bonito, falando em castelhano. Ela possuía bastante conhecimento da língua e tudo se tornou mais fácil. Levou-a para conhecer o navio, apresentou-lhe alguns amigos. Saíram para visitar alguns pontos turísticos e foram ao cinema. Enfim, aproveitaram ao máximo os cinco dias que o navio ficou atracado. A partida foi triste, pois ainda que pareça incrível, no pouco tempo que estiveram juntos, sentiram grande afinidade. Teria sido amor à primeira vista? Ele prometeu-lhe escrever sempre. Assim o fez. Ela recebeu 32 cartas, lindas, amorosas, escritas de &" FALANDO DE AMOR diversos países, cheias de esperança e da certeza de ficarem juntos para sempre. Finalmente, ele voltou para a Argentina. Escreveu-lhe sobre a possibilidade de se casarem por procuração, uma vez que ele, como militar, não poderia vir. Surpresa, emoção, alegria e medo foram os sentimentos que a surpreenderam. Nada sabia a respeito. Os primos dela, que moravam em Buenos Aires, inteirados do fato, procuraram-no para informações e tiveram ótima impressão dele e da família. Prontificaram-se, inclusive, se ela assim o desejasse, a tratar do necessário. Aí entrou o medo, a covardia. E o pai? Jamais permitiria aquilo, ela bem o conhecia. Não teve sequer coragem de falar-lhe a respeito. Sonhos desfeitos, palavras perdidas. Ela nunca se perdoou, pois, através do tempo, percebeu que isso mudara seu destino. FALANDO DE AMOR &# Alguém Luiz Carlos Valente N os primeiros meses de nosso casamento até que não nos importamos com a demora de uma gravidez, mas, um ano após, minha mulher e eu procuramos um médico que indicou um tratamento para apressar a vinda de nosso filho. No dia 2/3/1950, recebíamos, com alegria, aquele que viria a ser nosso único filho, que, batizado, recebeu o nome de Luiz Cláudio. A sua infância foi toda cercada de carinhos pelos que o amavam. Foi uma criança estudiosa, pois, logo no primeiro colégio Colégio Nossa Senhora de Lurdes tornou-se o melhor aluno, o que lhe valeu, durante dois anos, a conquista de várias medalhas. Ao ser transferido para a Escola Pública Municipal barão Homem de Melo, continuou sendo um aluno aplicado, o primeiro da classe. Aos dez anos, foi matriculado no Externato do Colégio Marista São José para cursar o admissão. Sendo sempre o primeiro da turma, participou do coral orfeônico, não porque tivesse boa voz para o canto, mas por ser dos melhores &$ ALGUÉM alunos. Luiz Cláudio gostava muito de esportes e, nessa época, começou a jogar futebol de salão, hoje conhecido como futsal, participando desse esporte até os 18 anos, quando foi campeão infantojuvenil, juvenil e aspirante pela Associação Atlética de Vila Isabel. Ao sair do Colégio São José, por motivos econômicos, fez o concurso de admissão para o Colégio Pedro II, onde se classificou entre os primeiros. Luiz Cláudio era muito inteligente, pois mesmo não se dedicando às aulas do Pedro II, terminou o ginasial e o complementar. Em 1966, fez o concurso de admissão ao Colégio Naval, tendo sido aprovado mas, com se dedicava muito ao esporte, não seguiu carreira na Marinha. Em 1967, cursou a Escola Técnica Celso Suckow da Fonseca, até o final do ano de 1968. Nosso filho Luiz Cláudio, sempre dedicado ao futebol de salão, só começou a trabalhar aos 20 anos de idade, no Banco Lar Brasileiro, depois no Banco Crédito Nacional, onde conseguiu boa posição, atuando, pelo banco, no mercado de capitais. Nessa época, ambicioso quanto ao futuro, resolveu fazer concurso para Petrobrás, tendo sido admitido na Reduc, entre milhares de candidatos, em março de 1972. Infelizmente, depois de um ano, deixou o cargo, pois não se adaptou aos horários de turnos. Foi o grande erro de sua vida. Veio depois a conhecer uma moça que virou sua cabeça durante um ano. Ao final do ano de 1973, conheceu outra moça por quem se apaixonou, casandose com ela em 1974. Foi quando os dois passaram ALGUÉM &% a se dedicar ao artesanato, com trabalhos de quadros de linha e artigos em madeira. O tipo de vida que ele e a mulher levavam, devido ao trabalho extenuante, causava grande preocupação à mãe, que não se conformava com o fato dele, com a inteligência que tinha, preferir aquele trabalho. Viajava muito com o carro, um TL da Volks, de segunda mão, procurando, no interior, feiras de artesanato. Em setembro de 1977, nascia o filho dele, Luiz Alexandre. Nem esse acontecimento impediu que continuasse com aquele trabalho, de que ele e a mulher gostavam. Em 1980, foi morar em São Lourenço, Minas Gerais, cidade que lhes pareceu ser um bom mercado de trabalho, uma vez que ficava próxima de outras cidades turísticas, onde o artesanato era muito procurado. Sempre vivendo com muito sacrifício, em 1982, saíram de São Lourenço e vieram morar comigo e a mãe, em Maricá, Estado do Rio, onde já residíamos desde 1980. Nessa casa havia uma garagem onde ele instalou sua oficina, com sua serra circular, sua lixadeira e máquina de furar; perto de nós, pudemos constatar a sua luta, num trabalho pouco rendoso e de muito sacrifício. Muitas vezes, já tarde da noite, ele e a mulher ficavam colando as peças de madeira para formarem seus porta-retratos de vários tamanhos, suas janelinhas-porta-chaves, seus cabides-sanfona e outros artigos, tudo em madeira. Em 1985, Odalisca e eu vendemos a casa e viemos morar em um apartamento em Vila Isabel, ficando Luiz Cláudio e a mulher (Valéria && ALGUÉM Regina) morando em casa alugada e com uma pequena oficina, perto da cidade de Maricá. Algumas vezes, íamos visitá-los, quando, em 1986, ele passou a ter problemas de saúde, emagrecendo consideravelmente, de tal maneira que, em março de 1987, veio a falecer no Hospital do Câncer, com os pulmões afetados por esse terrível mal. Alguém com uma vida inglória. ALGUÉM &' Rua Santa Luiza Myriam Lanna P elo menos três vezes por semana, quando vou para a UnATI, o ônibus atravessa a Rua Santa Luiza, sempre engarrafada. Olhando a placa da rua, sou transportada involuntariamente ao meu mundo de saudade e fantasia, universo dos meus sonhos, coloridos, às vezes, outras vezes cheios de sombras. Céu de chumbo, mundo de lona, que me encobre inteiramente, tirando-me a visão da realidade. Eu gostaria tanto de morar naquela rua! Assim, iria voltar a conviver com ela, trazê-la para a minha vida sofrida, cheia de complexos. Por que te abandonei, mãe?... Luiza, este era o nome de minha mãe, mas todos a chamavam de Luizinha, d. Luizinha. Mulher bíblica, pura como um anjo, conservando sempre o cilício da viuvez precoce, corajosa, como que decepando a cabeça de Holofernes, general assírio, a atacar impiedoso, à frente de um poderoso exército, os judeus, povo escolhido de Deus. A coragem de minha mãe ultrapassava as raias do ' RUA SANTA LUIZA verossímil, apesar de, fisicamente, ser uma mulher frágil e de saúde comprometida. Ficara viúva muito cedo, com 12 filhos, todos menores o mais velho com 17 anos e o mais novo com apenas nove meses. Ela, jamais, depôs as armas, estava sempre na vanguarda, brandindo a espada, lutando sem esmorecer para conquistar os seus direitos, os direitos de seus filhos, os nossos direitos. Apesar de tudo, não conseguiu muita coisa: os abutres, que não podem sentir cheiro de carniça, depois da morte de meu pai, vieram de todos os cantos, cobrando-lhe os compromissos do esposo que se fora repentinamente, e não tivera tempo de pô-los em dia. Ela, honesta, cumpriu todos os compromissos e, nem por isto, aqueles que deviam a papai agiram de forma correta. Havia lá em casa um caderno grosso, cheio de nomes dos devedores papai era organizado demais , nesse ponto, eu puxei a ele. De vez em quando, a coisa apertava de tal jeito que ela não tinha outro recurso senão enviar-nos aos inadimplentes: Vai, filha, lá no sr. Homero; estou pedindo que liquide a dívida. E o caloteiro mandava uma nota suja e desbotada de dez mil réis: Vai no Juquinha, filha. Não é fácil manter o equilíbrio numa situação dessas e de outras piores: a minha sofrida mãe, de terço na mão, de joelhos na terra, implorava a proteção do Alto, principalmente para os filhos mais velhos, que nunca aceitaram o fato de o pai ter sido assassinado covardemente a paga de uma alta fiança, que papai, homem de boa fé, RUA SANTA LUIZA ' assumira, como sempre, sem documento assinado. Saíram os três mais velhos por este mundão de Deus, à procura do assassino que nunca foi para trás das grades, onde era seu lugar. Minha mãe rezava, rezava... Quantas vezes eu me levantava à noite e a via de luz acesa, livro de orações em punho, pedindo, implorando aos céus que não deixassem os filhos mancharem as mãos de sangue. Então, vinha-me à cabeça a trova aprendida na escola: Eu vi minha mãe rezando, Aos pés da Virgem Maria, Era uma santa escutando O que a outra santa dizia. O livrinho, de reza, relíquia para nós, tinha manchas de lágrimas e de dedos suados tão grande era a sua angústia. Durante o dia, olhos penetrantes, cabeça erguida, mãos à obra; era preciso defender o pão dos filhos e nisto teve êxito durante algum tempo: foi a época do desmatamento daquela região, rica em madeira nativa, quase toda madeira de lei... O comércio na Zona da Mata intensificou-se. Mamãe aproveitou a oportunidade e pôs-se a fazer doces, biscoitos e quitandas para fora, vendendo-os num bar aberto na praça municipal por belgas imigrados, ávidos dos dólares que, naquela época, já começavam a circular na cidadezinha em que morávamos. E continuava a velar por nós, a encaminhar-nos para a vida nós mulheres oito filhas, ' RUA SANTA LUIZA não é para qualquer um! Pedia às vizinhas e amigas prendadas da cidade que nos ensinassem todos os tipos de artesanato: bilros, tricô, crochê, crivo ai, meu Deus, como eu exercitava a minha paciência, louca que estava para saltar amarelinha com Laura, minha amiga de infância. Eu tinha dez anos de idade quando d. Guiomar, costureira de renome, ensinou-me corte e costura. Lembro-me perfeitamente até hoje lá se vão mais de sessenta anos , eu riscava e coloria num caderno grande de desenho os moldes, reduzidos todos, colocando medidas: blusa, manga, saia justa, saia de godê, e mamãe punha o visto. O primeiro vestido que cortei verdadeira odisséia para mim , destinou-se à Berata, nossa mãe preta que eu amava de verdade. Mas a aventura não deu certo: coloquei para o busto a mesma medida da cintura e o vestido ficou parecendo uma tubulação de esgoto, que não entrava nem num esqueleto de tuberculoso. Batalhou a minha incansável mãe para conseguir-nos bolsas de estudos em colégios internos Ponte Nova, Leopoldina, Ubá. Na minha terra só havia uma escola primária. Formou as filhas todas, casou duas moças e um rapaz e aceitou, generosamente, que três filhas seguissem a vida religiosa, renunciando à presença e ajuda que tanto esperava delas. Passando pela Rua Santa Luiza, fico me lembrando de minha mãezinha, estatura mediana, olhos quase pretos, um todo que transmitia altivez e seriedade, cabelos longos que ela lavava sempre e ficava ao sol para secá-los. RUA SANTA LUIZA '! Por que, mamãe, estes cabelos tão compridos, que dão tanto trabalho, se a senhora corta os nossos bem curtinhos? Seu pai gostava, filha, dos meus cabelos pretos; ele não queria que eu os cortasse vivia o amor, ausente para nós, mas sempre presente para ela. E foi fiel a meu pai até o fim de sua vida, apenas meio século de existência. Estou policiando os meus sentimentos para não deixá-los gravados aqui eles perderiam a sua transparência mas algo está conseguindo escapar. A mão se nega a escrever, meus olhos se enchem de lágrimas, meu peito bate forte ao ver, com os olhos do amor, a imagem aureolada de minha mãe querida, que guardo no relicário do meu coração saudoso. Se eu adivinhasse que ela se iria tão cedo, não a teria abandonado jamais. Ficaria a seus pés, olhando-a, admirando-a, pensando, na sua presença, o que poderia fazer para imitar a musa da minha vida. '" RUA SANTA LUIZA Um Semideus para Mim Myriam Lanna E ntrou na sala tudo se clareou. É impressionante a luminosidade suave que irradia de todo o seu ser, principalmente de seus olhos claros e inquiridores, referência dessa pessoa tão especial. Tez clara, maçãs do rosto um pouco salientes, sempre vermelhinhas, sangue a banharlhe a face toda, diante de qualquer ocorrência singular. Os caracóis dos cabelos castanhos claros, quase louros, nunca em desalinho, caem-lhe ligeiramente pela testa supostamente grande, ocultando parte deste testemunho de inteligência singular. Bigode cerrado ah! eu não gosto do bigode: dá-lhe a impressão de austeridade e causa um pouco de medo na gente repito, bigode cerrado, com fios já brancos, apesar de não haver ele completado meio século de peregrinação por este mundo de Deus. Alto, corpo bem proporcionado jamais ostenta no seu modo de trajar. O seu todo é muito distinto, imponente mesmo, sem ser arrogante. UM SEMIDEUS PARA MIM '# Anda quase sempre no mesmo ritmo nunca apressado nem devagar demais, parecendo direcionar-se a um afazer importante. Lá se vai ele pelos corredores e halls, interrompido a cada momento por um e por outro. A todos dedica uma atenção especial, como se não tivesse mais nada a fazer senão conversar com aquele passante. Eu lhe digo, às vezes, em tom de brincadeira, quando o estou acompanhando: Ah! doutor, você parece ter visgo; assim a gente nunca vai chegar ao destino. E ele sorri, calado. O seu dorso vai se curvando para a frente, tão constante é o seu mergulho nos livros, companheiros seus de todas as horas. Disse-me que nas suas viagens idas e vindas para o trabalho e para casa não perde tempo: lê, lê sempre, lê o percurso todo, vai acumulando conhecimentos, questionando os sábios, ele que parece ter uma sabedoria infusa. Nos meus muitos momentos de entretenimentos com ele, o que mais me impressionava era a sua precisão palavra certa, na hora certa. Mineiro, ouve mais do que fala (que pena, agora começou a perder este dom!). Eu o considerava um semideus, tão evidente o seu carisma. Louvo o seu equilíbrio habitual, mas critico a sua modéstia. É demais, digo-lhe, às vezes: Assim você não se promove e você precisa disso; trabalha muito e na hora H parece que se oculta, enquanto os outros procuram evidenciar-se. Já é a segunda obra dele que eu leio, trazendo na primeira página Construção Coletiva, e eu sei que foi ele quem a construiu quase sozinho. '$ UM SEMIDEUS PARA MIM Seu humor é tão igual que penso, às vezes, estar ele acima do bem e do mal: Como vai, professor? Bem, muito bem, e você, como está passando? A gente percebe que o estão aborrecendo com questões sem soluções. Mas ele permanece ali, firme, como um rochedo, rosto sem uma contração, olhar manso e transparente como as águas de uma das lagoas de minha terra. Fala continuamente em crescimento pessoal e aceita com tranqüilidade as sugestões e as críticas que lhe são feitas. O que mais me impressiona nele é esta valorização do ser humano, uma de suas características dominantes. Você é a Myriam, não é? E tem um encontro comigo. Eu sou o terapeuta marcado para você. Aperto de mãos acariciador, beijo espontâneo a esta idosa que o estava esperando para a primeira entrevista de um tratamento especializado, coração aos saltos, língua colada ao céu da boca, ela, que nunca o tinha visto antes. No consultório não, não era um homem comum, antes um iluminado, irradiando um misto de essência. Cor. Luz. Não sei bem, só sei que acabávamos nos entregando como criancinhas, sem malícia, sem segundas intenções, sem nada a ocultar. É esse seu jeito de tirar as pessoas do marasmo, levantá-las do abismo em que os acontecimentos da vida as jogaram, abrir delicadamente as ostras onde os moluscos se ocultaram, de rasgar os casulos para que as borboletas se libertem e alcem vôos: UM SEMIDEUS PARA MIM '% Fale-me de sua vida. Minha vida? Não sei se vale a pena mexer. Eu a sepultei lá no fundo do poço para que sua lembrança não me fizesse pena, não me machucasse mais. Há muito lodo por lá. Quem sabe podemos encontrar nesse lodaçal uma pérola, um colar de pérolas? E de outra feita: Eu gosto muito de vocês, declarou com simplicidade ao grupo que assistia, uma vez por semana. Quem gosta de velho é reumatismo, alguém atinou. Pois então eu sou reumatismo, porque gosto mesmo de vocês. A turma, 12 idosos, dos quais três já se foram, sentiu-se realmente promovida e valorizada e começou a tomar postura de gente outra vez; aprendeu a reivindicar seu espaço entre os viventes, malgrado a discriminação que ainda perdura. Se era este o seu objetivo, ele o atingiu. No dia de seu aniversário, os idosos preparam-lhe uma agradável surpresa: bolos, doces, presentes. E cantaram para ele, demonstrando gratidão e reconhecimento por tanto empenho a seu favor, por tão valorosa dedicação. (Adaptação da trova que Sérgio Bittencourt fez para seu pai). Naquela mesa Naquela mesa, ele se senta sempre Vai ensinado sempre como viver melhor '& UM SEMIDEUS PARA MIM Naquela mesa, ele ouve a nossa história E a guarda na memória E a sabe até de cor Rosto sereno, coração aberto, Mostrando-se incansável em todas as manhãs E nos seus olhos é tão grande o brilho Que mais que clientes, ficamos sendo seus fãs. A gente não sabia que valia tanto Uma mesa no canto, um iluminado atrás Talvez nem mesmo ele saiba, na sua quintessência Todo o bem que nos faz. Agora, sempre, a turma aqui reunida Recebe lições de vida, como num festim Queremos, hoje, parabenizá-lo: Felicidades muitas Tudo de bom, enfim! UM SEMIDEUS PARA MIM '' Meu Pai Myriam Lanna T enho uma lembrança muito vaga do meu pai. Quando ele faleceu, eu estava apenas chegando ao uso da razão. Alguns acontecimentos ocorridos na minha infância registraram, em mim, a imagem de meu pai e agora, sofrida, vivida, procuro desvendar seu caráter, sua personalidade, sua maneira de ser pontos altos e baixos, luz e sombra de um homem que não chegou a completar meio século de existência. Minha família descrevia meu pai como o maior herói do mundo minha mãe viveu o resto dos seus dias, depois de sua morte apenas da lembrança dele. Disseram-me: era um homem de bem, pai de família exemplar, honesto, daqueles que selam o compromisso com um fio de barba. Morreu porque sempre confiou nos outros, porque emprestava a quem pedia emprestado, dava àqueles que nada tinham. Lembro-me dele voltando das constantes viagens que fazia. A nossa fazenda ficava numa pequena elevação; lá em baixo, antes da ponte MEU PAI que cortava o córrego, a madrinha da tropa se anunciava, balançando a cabeça fazendo soar: blem, blem, blem... A gente olhava da varanda, e lá vinha ele, acompanhado de quatro ou cinco cavaleiros, dos burros vergados às cargas. Trazia-nos sempre as novidades dos lugares por onde passava, onde acampava com a tropa. Meu pai era um homem que procurava se atualizar-se; a nossa fazenda tinha luz elétrica, esgoto sanitário estávamos na década de 1920 e, por incrível que pareça, uma cadeira de dentista com um profissional para o tratamento dos nossos dentes e dos colonos que temiam aquele motor tocado a pedal. Gritavam tanto que me parecia estarem sendo torturados. A gente tampava os ouvidos e corria para longe, para a horta, para o terreiro de café, para a mata, a fim de não ouvir aqueles clamores. Meu pai não era dono de cultura apurada, mas fazia questão de que nós a tivéssemos, tanto assim que mantinha professores particulares dentro de casa. Os mais velhos eram levados à cidade próxima para que aprendessem música cada um tinha um instrumento musical: violino, violão, flauta, cavaquinho e bandolim. Deliciava-se, ele, com os sons que minha irmã mais velha tirava do violino importado. Ao entardecer, aquela orquestra sem maestro enlevava toda a família. Eu não gostava muito daquilo, pois tinha de ficar sentadinha quieta, sem cruzar as pernas, na cadeira de palhinha da sala de visitas, onde o conjunto se exibia. MEU PAI Sabia ele que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, por esta razão não deixava os filhos mais velhos desocupados. Tinha o costume de levá-los, mesmo de madrugada, apesar dos sermões de minha mãe, às incursões aos formigueiros. Meus irmãos não ousavam resistir, ainda que tivessem vontade de fazê-lo; acompanhavam o desfilar das assaltantes até a sua moradia, contavam-nos, moradia que era um verdadeiro armazém de folhas cortadas, panelas, como o povo dizia. %%&& O último Natal da vida de meu pai é o primeiro do qual tive consciência. Recordo-me nitidamente do meu pai chegando na véspera, com aqueles caixotes lacrados que abriu a martelo; o aroma recendia pela casa toda. Eram maçãs importadas, tentação para os olhos, protegidas por um verdadeiro emaranhado de fitinhas de madeira com as quais eu brincava. Depois outro caixote: uvas enormes, transparentes, branquinhas néctar dos deuses. Meu pai era o mágico, o semideus que se comprazia em trazer essas doçuras para os filhos no nosso pomar não havia frutos tão gostosos, tão cheirosos! Lembro-me dele, cuidadoso com a saúde dos filhos, levando, à noite, um copo de leite frio para os menores que já estavam deitados. É claro que a gente não ousava recusar, mas quando meu pai saía, eu, que sempre tive repugnância a leite, levantava-me, pulava pela grade da cama, abria a MEU PAI janela e rejubilava-me ao ver o grande fio branco do leite escorrer pela escuridão da noite. Que meu pai era autoritário e exigente não resta a menor dúvida. Uma sala de jantar, com mesa posta, faz-me lembrar dele: a toalha tinha de ser branca, impecável, trocada todos os dias; os talheres de prata areados antes de serem colocados na mesa ainda os vejo, pesados, cabos trabalhados em relevo, a reluzir; iguarias sem conta: aquelas travessas de louça com arroz branquinho (assim como eu, papai só gostava de arroz branco) saindo fumaça, legumes e verduras diariamente (onde aprendera aquilo?), carne de porco assada com rodelas de cebola e limão por cima (ah! como eu tinha repugnância daquilo) e aquele torresminho com pele e tudo que eu nunca dispensava. Ainda bem que nós, pequenos, não nos sentávamos à mesa para as refeições. Quando voltava das viagens, mal apontava lá embaixo, a dedicada negra chamava-me: Venha, Myriamzinha, moer o café para mim, seu pai só toma café passado e moído na hora! Um toco de gente, eu trepava num banquinho e me punha a moer, toda prosa. Ele entrava pela sala de tábuas largas, passos firmes e ecoantes, tala batendo nas polainas. Na cozinha, ao ver-me laboriosa, diziame: Eta, menina trabalhadora! É assim que eu gosto! Você vai ser uma grande mulher, como sua mãe! Vendo, agora, o retrato de meu pai, ele me parece uma figura familiar, com quem tenho convivido durante estes meus longos anos de peregrinação. Sua imagem está gravada no recôndito MEU PAI ! do meu cérebro. Estatura mediana, pele clara, era quase louro, descendente de franceses imigrados família De Lanne, que deu Lanna em português olhos doces que ocultavam um temperamento muito forte, herdado pelos 12 filhos. Não era homem de faltar com a palavra. Era destemido até demais. Não admitia que os outros burlassem a sua confiança, falhassem com ele. Naturalmente, por isso mesmo, devia ser mais temido do que amado. Por isso lhe tiraram a vida ele incomodava. Como eu, ele gostava das coisas muito certas, muito organizadas, muito transparentes. Pagou com a própria vida! " MEU PAI Amor Invisível, mas Real Myriam Lanna N os arroubos de minha adolescência, fui atraída por um amor intenso, por um amor irresistível, que me envolveu por inteiro, que me fez ver a vida cor-de-rosa, que me cobriu os olhos com um véu azul de gaze para que eu não enxergasse os escuros dos caminhos, as canseiras das subidas íngremes, os perigos das descidas vertiginosas que podem nos derrubar e causar sérios danos à vida. Uma das exigências deste amor: Vai, vende tudo que tens, dá-os aos pobres, depois vem e segue-me (Mateus 19:21). Eu tinha de corresponder àquele apelo a todo custo, tinha de ir ao seu encontro de qualquer maneira, ainda que para isso tivesse de sacrificar a minha vida. Era preciso renunciar aos gozos que a juventude fogosa me oferecia, sacrificar os que eu amava mãe, irmãos... Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim não é digno de Mim (Mateus 10: 37). A essa altura da vida, eu me julgava uma heroína. Minha mãe, coitada, sem entender nada: AMOR INVISÍVEL, MAS REAL # Oh! filha, preciso tanto de você, de seus braços fortes, de sua audácia e coragem, de sua inteligência para me ajudarem no sustento da casa, agora que estou ficando velha e não tenho mais o seu pai! E eu, interiormente: Ele pode tudo. Ele vai me substituir junto dos meus (Cuida de mim e dos meus que eu cuidarei de ti e dos teus). Ficando, quem sabe?, eu atrapalharia mais do que ajudaria. O amor é assim: não encontra barreiras, não vê empecilhos. As máximas sempre tiveram grande influência na minha vida. Eu refletia sobre elas e procurava aplicá-las a mim. Que adianta ao homem conquistar o mundo inteiro se vem a perder a sua própria alma? (Santo Inácio de Loyola). Os livros, meus amigos íntimos, com quem sempre convivia nos intervalos dos meus estudos, exerciam também grande influência sobre mim. Vida dos santos: Santa Terezinha do Menino Jesus. Que encanto! O heroísmo da menina de família rica, a caçulinha mimada, pequena rainha, como a chamava o pai, arrastava-me à imitação. Para ingressar no Carmelo, ordem austera e rígida, precisou da licença do papa tinha apenas 15 anos. Santa Terezinha morreu aos 24 anos, vítima de uma tuberculose não tratada. Morte! Uma libertação!, dizia ela, hora dos esponsais verdadeiros. Santa Margarida Maria, a vidente do Coração de Jesus que também entrara para o convento. Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Assis, il poverello, tantos outros. $ AMOR INVISÍVEL, MAS REAL Não, eu não deveria argumentar, eu não tinha o direito de pesquisar, nem ao menos questionar: o caminho que me levaria à realização deste amor era um só eu o segui. Contava com o sofrimento, mas ele se me apresentava como um bolo de noiva, enfeitado e colorido. Os primeiros anos numa instituição desse gênero destinavam-se à formação. Lutas internas? Muitas... Contradições externas? Milhares... E para completar o quadro, problemas de saúde apresentando-se a cada dia. Mas eu estava disposta a resistir a qualquer preço: Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á; aquele que a perder por minha causa, reencontrá-la-á (Mateus 10: 39). Foi assim, confusa mas obstinada, que cheguei aos esponsais místicos. Preparação longa dez dias de retiro espiritual pregações muitas, meditações, reflexões durante todo o dia, colóquios exclusivamente com o Amado. Eis, vejo, enfim, despontada a aurora Do belo dia em que me uni a Jesus... Capela toda florida, coro que nos transportava ao amor. Os céus se abrem, eis Jesus que desce. Eis, vem a mim um Deus que é todo amor. Nós, meia dúzia de jovens vestidas de negro, rosto coberto por um véu, coroa de espinhos na mão, desfilávamos pelo meio da capela ao som dos cantos e do órgão. Bem junto ao altar, AMOR INVISÍVEL, MAS REAL % o deitar-se ao chão, com os braços em cruz à semelhança do Cristo, comovia parentes e amigos que foram testemunhas da nossa oblação total. Confiteor Deo umnipotenti Beatae Maria semper virginis, cantávamos com a voz sufocada pela emoção. Depois, uma a uma, subíamos os degraus do altar, dizendo pausadamente: Faço voto e prometo a Deus, pobreza, castidade e obediência. O sacerdote que, em nome da Igreja, recebia nossos votos, colocava a coroa de espinhos nas nossas cabeças. Éramos, agora, esposas de Cristo e devíamos ir à luta pela sua causa. Assim, peguei as armas e permaneci com elas em punho durante um quarto de século, apesar das lutas interiores, apesar dos contratempos, malgrado os desencontros. O amadurecimento, o tempo este mestre experiente , foram-me mostrando que para amar o Amado não era preciso fechar-se dentro de quatro paredes: O mundo tão enganoso Tão cheio de ilusão De Jesus só quero o gozo Em seu doce coração. Cantavam versos como estes nas missas matinais. Concluí que não precisava submeter& AMOR INVISÍVEL, MAS REAL me a normas (que diziam santificar-nos), desde que punha os pés no chão, pela madrugada, para as matinas ora et labora até a noite, quando reclinava a cabeça sobre o travesseiro, exausta, exangue, às vezes, desiludida. Para amar de verdade o Amado não deveria restringir a minha entrega exclusivamente (ainda que isso fosse gratificante) a um grupo de adolescentes privilegiadas, aristocratas que se preparavam para esposar os grandes da terra. Novamente a máxima a balançar-me: Socorre primeiro o mais necessitado. Meninas ricas, filhas de poderosos e abastados, de políticos influentes, a fina flor da sociedade, seriam as mais necessitadas? Meu amor, que eu pretendia abrangente, e mesmo universal, não estaria sendo obrigado a fazer discriminação? Eu aspirava por mais e acabei seguindo os ditames do meu coração, face às exigências do Esposo Místico. Agora, à semelhança do Amado, meu amor pode-se dizer infinito pretensão minha? Amo o Cristo presente em cada ser humano; somos o Corpo Místico de Cristo. Amo o grande, o ilustre, o poderoso; eles podem ajudar, socorrer o irmão carente; amo o enfermo, o membro sofredor do Cristo que precisa, pelo menos, de um olhar complacente; amo muito o mendigo retrato de Cristo crucificado, que a vida despojou daquilo que enobrece o homem, a dignidade. Ele precisa do meu amor. Amo o adolescente, símbolo da exuberância, da grandiosidade do Cristo. Isso me gratifica e muito; AMOR INVISÍVEL, MAS REAL ' amo a criancinha, coisa divina! Ela é o despontar da vida, e o que é a vida senão o amor por excelência? Por que discriminar alguém se todos são Cristos vivos, ostensórios que o mostram, sacrários que ocultam Sua divindade? Assim, eu me realizo intensamente no amor. AMOR INVISÍVEL, MAS REAL O Verdadeiro Amor Luiz Carlos Valente A mores de outrora, amores sinceros. Amar na alegria e na tristeza. Amar na saúde e na dor. O amor era perpétuo e só terminava quando um dos amantes falecia. O amor era respeito mútuo, era honesto Os tempos mudaram o significado de amar Das décadas mais recentes até os dias de hoje, não se aplicam mais as palavras: Até que a morte nos separe. Porque as novas gerações não levam mais a sério o casamento e, Na maioria das vezes, se desiludem da vida em comum. E se separam.... O VERDADEIRO AMOR Ligação de Afeto Augusta Alvaralhão T enho tanto a escrever sobre isto... Será que conseguirei passar para o papel meus sentimentos, minha gratidão? Tive várias colegas e algumas amigas que me acompanham até hoje. Entretanto, Deus quis me premiar fazendo com que conhecesse, há aproximadamente 3 anos, através do N.A.I. (Núcleo de Atenção ao Idoso) alguém muito especial, por sua bondade, seu afeto. Nosso relacionamento foi crescendo à proporção que descobríamos afinidades, no ser, no aceitar, no compreender, no saber, no perdoar, no ajudar, etc. Ela tem sido minha amiga, confidente, minha psicóloga, e tem me ajudado sempre. Uma das coisas que admiro nela é a capacidade de ouvir. Está sempre disposta, sem demonstrar impaciência. É claro que, em alguns momentos, divergimos, porém, isto logo é contornado. Quantas e quantas vezes, principalmente ao telefone, desabafo, contando-lhe meus problemas em busca de orientação, de ajuda. Chego a me sentir egoísta. LIGAÇÃO DE AFETO É muito gostoso, gratificante, conviver com alguém de sentimentos tão puros. Ela é para mim a amiga que, igual, nunca tive. Não tenho a menor dificuldade de falar-lhe sobre qualquer assunto e isto devo a ela, que me deixa a vontade, livre, sem ter vergonha de externar sentimentos ou situações, até mesmo sobre minha família. Além de tudo, me estimula, ensinando-me trabalhos manuais e muitas outras coisas. Costuma me dizer: Não podemos parar, temos de nos exercitar, botar a mente para funcionar explica ela como mulher culta que é. Querida amiga, que Deus a abençoe e atenda todas as suas preces, que leve em conta a grandeza de seu coração. Respeito, carinho, afeto e muito afeto é o que nos liga, não é, Olka? LIGAÇÃO DE AFETO ! Como Tudo Começou Myriam Lanna T udo começou quando eu ainda não havia começado. A mucama, que eu amava, disse-me que eu demorara a nascer teimava em não vir ao mundo. Parece até que estava adivinhando o que ia encontrar por aqui. Deixar o seio materno tão aconchegante não era mesmo comigo. Quase matei minha mãe, coitada! Depois que o médico saíra morávamos numa fazenda, nas imediações de Jequeri, comarca de Ponte Nova, Minas Gerais e meu pai fora levar o profissional à cidade de onde o trouxera pela manhã, mamãe sofreu uma forte hemorragia que não estancava de jeito algum. As benzedeiras fizeram suas rezas, as crédulas, uma simpatia depois da outra, a experiente parteira aplicou todos os tratamentos que davam tão bons resultados noutras parturientes, mas nada surtia efeito. Mamãe mandou, então, que fervessem seringa e agulha e, destemida, se aplicou a injeção deixada pelo médico. Foi o que a salvou. Eu, alheia a tudo, só fazia chorar. " COMO TUDO COMEÇOU Meu pai, chegando, assustou-se com o acontecimento e ficou vigilante. De fato, o mal se repetiu e ele não teve outra alternativa senão a de levar mamãe para a cidade, a fim de interná-la. Eu, ao que parece, não devo ter sentido muito a ausência de minha mãe, pois o colo de Berata Maria Liberata, o seu nome , aquela negra santa, era macio como um colchão de plumas e, Maria Antônia, minha mãe-de-leite, dividira comigo os seios fartos que amamentavam seu filho de poucos meses. Dos meus primeiros anos pouco ou nada sei de definitivo. Mudamo-nos para a cidade de Ponte Nova; deduzo que tenha sido por causa da saúde da mamãe e, também, porque meus irmãos mais velhos estavam na idade de concluir o primário, como se dizia na época, e receber o diploma oficial. Em Ponte Nova nasceu outro rebento e, dois anos depois, já de volta à cidade de origem, Rio Casca, mamãe, essa heroína, foi mãe pela décima segunda vez. %%&& Papai gostava mesmo é da terra as plantas e os animais atraíram-no; sabia lidar com eles, nascera para a agricultura: realizou, então, sua última mudança com a família, para uma pequena fazenda, bem próxima de Santo Antônio do Grama, aonde se podia ir até a pé em pouco tempo. Foi nesta fazenda onde senti a vida, onde percebi que os dias eram claros e as noites escuras, COMO TUDO COMEÇOU # onde admirei o céu cheio de pontinhos luminosos vagalumes de Deus e a lua cheia, surgindo por detrás da montanha, com a imagem nítida de São Jorge no seu cavalo. Nela moramos pouco tempo. Depois da morte trágica e precoce do meu pai, saímos logo, e as lembranças dos bons tempos de outrora jamais foram narradas por minha mãe ou por um dos irmãos, a fim de não evocar a memória daquele que era tudo para nós. Nem poderia ser de outro modo, porque, muito depressa, houve a dispersão de parte da família: meus irmãos, um com 18 anos, os outros dois ainda menores, foram para a cidade grande procurar trabalho e minhas irmãs, uma depois da outra, internas para o colégio (em Rio Casca não havia meios de trabalhar ou estudar). %%&& Mas não adiantemos as coisas. Eu, como os demais mortais, apesar de não ser uma criança sadia, gozei da infância, época em que as flores têm um colorido forte, época em que as mulassem-cabeça (conforme contava Berata), soltando fogo pelas ventas, entram nas casas pelo buraco da fechadura, época em que os anjinhos de vestidos brancos muitos longos, barrados de arminho e com asas de penas, revoam para lá e para cá, no céu de nossa existência, cheia de sonhos e fantasias. Um bambual espesso, lembro-me bem, de ambos os lados de grande parte da estrada de chão batido que ligava a fazenda à cidade formava $ COMO TUDO COMEÇOU um túnel escuro e sombrio. Nós não nos atrevíamos a passar ali sozinhos. Os colonos diziam que ali era o esconderijo de bruxas malvadas que pegavam as crianças e as assavam em fogueiras para as comerem com os duendes e fantasmas das florestas, dançando e cantando ao redor de seu prato predileto. %%&& Eu era a nona filha, portanto, tinha outros irmãos para me ensinarem e conduzirem à peraltice. E como éramos travessos! Carmem, a que nascera antes de mim, era e sempre foi da pá virada, como dizia mamãe. Levava-me em longas excursões até a mata papai proibira-nos de ir a esse lugar perigoso e mandava cercar os limites da mata para deter algum animal. Mas nós, curiosas, passávamos para o lado do perigo ninguém haveria de ver ou saber. Ali, procurávamos os ninhos de cobras ela tinha o prazer ou maldade de quebrar os ovos a fim de ver as cobrinhas serpenteando pela relva. Depois, corríamos, temendo que aparecesse a cobra-mãe que, disseram-nos, chocava com os olhos. A mana era da breca mesmo. Certa vez empurrou-me para dentro de um poço, onde havia uma pasta feita de excremento de bois, água e algum produto químico, talvez querosene, que se usava na época. Aquilo era destinado a passar no terreno para secar o café, ficava como se tivesse sido cimentado. Vieram os lavradores que trabalhavam nas imediações e me retiraram imeCOMO TUDO COMEÇOU % diatamente. Saí como uma torta de chocolate: aquela substância entrando pelos ouvidos e pelo nariz... Recordo-me do banho depois: bacia cheia de água e água jorrando feito cascata sobre minha cabeça, olhos ardendo, mamãe improvisando cotonetes para me limpar ouvidos, nariz e olhos. Papai não estava em casa; mamãe, porém, mandou fechar o poço na mesma hora. Poderia ter acontecido coisa pior comigo. %%&& Naquele recanto pitoresco, nasceu meu irmão caçula, o décimo terceiro filho do casal. Estávamos brincando em frente à casa, num carrinho de cabritos que papai mandou fazer para a garotada e que um pretinho lindo, nosso irmão de criação, guiava para nós. De repente, vimos Sá Marta, como a chamavam, apontando lá embaixo. Sá Marta, Sá Marta!, deixe a gente ver o que a senhora tem nesta malinha, gritou minha irmã peralta. É um neném que trago para a sua mãe. Nós queremos ver, nós queremos ver, Sá Marta. Não podem, acrescentou a parteira; sua mãe tem de ver primeiro, senão ele morre. E apressou o passo em direção à casa. Esquecemo-nos do fato e continuamos a passear de carrinho de cabritos. À tarde, papai chamou-nos: Venham ver o irmãozinho que Sá Marta trouxe para vocês. & COMO TUDO COMEÇOU Corremos para o quarto da mamãe. Janelas fechadas, tudo escuro. Criança novinha não pode ficar na claridade enquanto não abrir os olhos, senão fica cega. Contentamo-nos com aquele cheirinho delicioso de neném novo, todo enrolado: fralda, cueiro, cinta no umbigo (diziam; se não prendessem cinta, o umbigo ficava estufado), touca e manta escondendo o meu irmãozinho que eu estava louca para ver. Divisamos apenas o rostinho corado e as mãozinhas perfeitas, divinas. No quarto do casal, dormiam sempre os dois últimos filhos: do lado do papai, a caminha de grades do penúltimo e, do lado da mamãe, o berço do recém-nascido, juntinho da cama larga. %%&& No retrato, cuja cópia deixo aqui, podemos ver o porão, reservado para as nossas brincadeiras de casinha, de cozinha isto quando o tempo estava ruim, porque gostávamos mesmo era de brincar ao ar livre, debaixo de uma frondosa mangueira, atrás da casa. Dentro? Jamais! Tudo era mantido nos seus devidos lugares: sala de visitas com sofá, cadeiras de braços e outras, de palhinha, numa postura impecável; um porta-chapéus e guarda-chuvas, com um grande espelho num canto. Sala de jantar enorme, mesa sempre coberta, quartos com aqueles catres de cabeceiras altas, colchões de crina, camas esticadas forradas de colchas brancas que luziam aos olhos. Não nos sentávamos nas camas durante o dia meu pai COMO TUDO COMEÇOU ' era um homem que exigia ordem. Imagina se assim não fosse... com 12 filhos menores... Eu vi a casa de meu irmão um verdadeiro mafuá e lá eram, apenas, oito rebentos. %%&& Não me lembro de ter sido alfabetizada sistematicamente. Tinha problemas de saúde, um reumatismo doloroso nos joelhos; locomovia-me com dificuldade. Às vezes, ia à escola da cidade, que não era pública. d. Jovelina, nossa tia por afinidade, d. Jove, tia Jove como a chamávamos, mantinha uma pequena escola de uma sala só, onde ela própria lecionava língua pátria, aritmética, história e geografia para todos os cursos. Fui me familiarizando com os números, em primeiro lugar, com as vogais, em seguida, depois com algumas consoantes. As sílabas vieram e, não sei como, acabei lendo. Papai jamais descuidava de nossa educação, apesar de não morarmos quase nunca em cidades que tivessem meios. Meus irmãos tinham sempre um professor de música que vinha à nossa casa. Cada um dos seis mais velhos tocava um instrumento, como já tive oportunidade de lhes dizer. Os saraus eram uma constante quando tínhamos visita e a casa estava quase sempre com visitas. Violão no acompanhamento, violino, cavaquinho, bandolim solado era um deleite vê-los e ouvi-los tocar como adultos, aquelas valsas românticas, Branca era uma delas: COMO TUDO COMEÇOU Há tempos que a vi, Eu a conheci, Ela era linda Primor de amor Misto de estrela e de flor. Mas também sofreu Eu sei e vou contar, Pois li, naqueles olhos Cansados de chorar De tarde ao chegar Os trens, um a um, Ela viu desembarcar Um estranho tentador E Branca a cismar Num sonho de amor Ficou logo apaixonada Pelo mancebo tentador. Mas esta flor Não sentiu florir o amor, Nunca sentiu florir Porque ele teve de partir; Viu-o embarcar Em um dia, após o amor E nunca mais Sentiu florir o amor Do jovem tentador. COMO TUDO COMEÇOU Biblioteca Verde Augusta Alvaralhão A ssim que comecei a ler o texto fiquei entusiasmada, identifiquei-me com ele, ou seja, com o texto não mas sim com a maneira de narrar. É exatamente assim que procedo, quando escrevo. Mas, à proporção que fui lendo, comecei a me decepcionar, não gostei. Porém, como não gostar de um Carlos Drummond de Andrade? Todos falam tão bem dele. Descobri que me acomodei no ouvir falar de suas obras e não procurei conhecê-las; não procurar é força de expressão, porque passei a maior parte de minha vida sem tempo para ler Drummond ou outro escritor. Resolvi deixar para o dia seguinte: com calma, voltei a ler o texto, tentando ansiosamente descobrir algo que, para mim, estaria escondido, disfarçado; seria uma armadilha de Drummond? Continuei a ler, a analisar; precisava encontrar, mas encontrar o quê? Depois de muita insistência, me veio à mente meu tempo de criança pobre que gostava imensamente de ler. Na escola pública havia uma BIBLIOTECA VERDE biblioteca. Eu não saía de lá, mas não me lembro de ter desejado uma Biblioteca Internacional de Obras Célebres, 24 Volumes? Nem poderia, pois sequer sabia de sua existência, mesmo porque os desejos ou sonhos de uma menina pobre não subiriam tão alto. Na biblioteca só havia histórias de príncipes, bruxas, sapos encantados. Eu adorava, sonhava e sonhava... Na certa, o menino que desejou a Biblioteca Internacional deve ter sentido a mesma felicidade, lembrando que os livros dele eram de percalina verde. A menina nunca sentiu inveja de si mesma; assim sendo não foi melhor para ela não ter a tal Biblioteca? Ela não via o Templo de Tebas, Osíris, Apolo nu, Vênus nua, mas convivia com a princesa, sentia-se dentro do castelo, correndo, brincando, olhando admirada para tantas coisas lindas! Assustava-se com a madrasta, a bruxa; corria, porém, com a princesa fugindo dos inimigos. Uma coisa a menina descobriu: também ela teve problemas para poder ler, para encontrarse com seus amigos. Mas, apesar de ser muito pobre, foi tratada com mais carinho e liberdade. De que adiantaria ganhar uma Biblioteca Verde se a mãe vai se queixar, o irmão reclamar, chamando-o de cretino? Parece que estou perdendo um pouco a convicção, pois de repente pensei: não teria sido melhor que todas as bibliotecas tivessem obras célebres para que as crianças se tornassem mais cultas e não chegassem, como a menina pobre, a ter dificuldades de interpretar tão ilustre escritor? BIBLIOTECA VERDE ! Biblioteca Verde Myriam Lanna (Carlos Drummond de Andrade. Menino Antigo Boitempo II, 2ª edição. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974, página 129) O s livros, ah, os livros! Como eu os amo! Eles me dizem tanto! Eles me passam tanta coisa, tantas mensagens lindas, mesmo que eu não os possa ler todos, ainda que apenas os folheie. Transmitemme um fluido sutil que me penetra a alma a dentro! Segredam-me aos ouvidos acontecimentos inenarráveis, maravilhosos!... O mistério que encerram me fascina, não vejo a hora de desvendá-lo. Fui bibliotecária durante algum tempo. Meu Deus, isto hoje me parece um sonho bom! Como eu gostava do cheiro dos meus livros chegam cheirando a papel novo, mata de pinheiros, toda verde como eu me comprazia em alisá-los, em colocá-los em ordem! Tudo que sei é ela quem me ensina. Eu os acariciava ternamente... Que bom passar a mão no som da percalina, esse cristal de fluida transparência sulcava, com a espátula, as capas das brochuras, deixando, junto ao dorso, margens que colava delicadamente a fim de protegê-las da " BIBLIOTECA VERDE impetuosidade das jovens doidivanas que os folheavam, displicentes. Madrugada a dentro, eu me perdia na pesquisa, a fim de reclassificar os volumes antigos (estava atualizando a biblioteca). Os livros modernos trazem uma boa dica. Duas encadernadoras recuperavam todo aquele acervo, aquela riqueza inesgotável, que eu guardava debaixo de sete chaves. Sou o mais rico menino destas redondezas. A datilógrafa, séria, dedilhava, durante o dia, sobre as fichas, o resultado de minhas pesquisas noturnas, colocava as etiquetas todas num único alinhamento. Era tudo tão lindo, tão misterioso, tão divino! Eu amava ver aquele mundo de mistérios... Vai levando tamanho universo... Tinha ciúme dos meus livros, tanto assim que transferi o fichário para a sala anexa, que chamei de sala de pesquisa. Não queria que as jovens leitoras arrancassem bruscamente, como costumavam fazer, os compêndios das estantes faltavalhes o carinho de quem sabe amar de verdade. As alunas tinham que procurar o livro que desejavam por meio das fichas, pelo título ou pelo autor ou ainda pelo assunto ou tema que pesquisavam. Cuidar de livros foi o trabalho mais gratificante que eu realizei em toda a minha vida. A biblioteca foi o lugar em que eu me senti verdadeiramente realizada. Quando via as mesas cheias de livros abertos, irradiando sabedoria, e as jovens debruçadas sobre eles, todo o meu cansaço, todos os meus aborrecimentos desapareciam como num mistério... Carruagem de fugir de mim... BIBLIOTECA VERDE # Silêncio absoluto na biblioteca! Ao longe, na parede, o cartaz com uma linda criancinha, dedo indicador na boca: Psiu! Concentração total! Estão mergulhadas noutro mundo... Cavalgo de novo meu verde livro!... O toc-toc da máquina de escrever, melodia de uma nota só, conduz a reflexão profunda aos meandros do espírito de horizonte azul e onisciência total! O menino antigo tinha razão. Criança, mamãe não podia comprar para mim a Biblioteca Verde. Devorei toda a coleção infantil que havia na biblioteca do clube único de minha cidade. O namorado de minha irmã, que era sócio do clube, retirava para mim os livros em troca dos recadinhos, que, escondido de minha mãe, eu levava para a mana. $ BIBLIOTECA VERDE Minha Bronquite Asmática Augusta Alvaralhão E la veio, entrou em mim e ficou. Há 27 anos acompanha-me para onde quer que eu vá. Sabida como é, somente no verão tira algumas férias, aliás, acho justo, em virtude do grande esforço que faz para, cumprindo sua missão, fazer-me passar muito mal. Gosto dela. Tem-me proporcionado oportunidades de conhecer, sentir, ver coisas diferentes. Não podendo dormir, tenho mais tempo para pensar. Não conseguindo respirar, aprendi a fazer exercícios respiratórios, a pensar na cor azul para não me desesperar. Beber, ela não permite, ficando assim meu fígado mais resguardado. Ela não gosta de fumo, obriga-me a fazer economia. Aprendi a dormir sentada, a suportar as dores nas costas, no peito: não é diferente? Passo as noites sentada, algumas vezes no chão, debruçada na beira da cama, e, enquanto não durmo, tenho a felicidade de ver os outros deitados, dormindo tranqüilamente... MINHA BRONQUITE ASMÁTICA % Miar, sem precisar fazer esforço para imitar um gato. Oxigênio! Um privilégio conhecê-lo! Muitos não têm esse prazer. Injeção na veia! Espeta uma, duas, três vezes. A veia é difícil de ser encontrada. Fico com uma pena enorme da pessoa que está tentando aplicá-la. E então peço a Deus para que consiga, a fim de aliviar a tensão e nervosismo de quem a aplica. E se não existisse injeção? Coitado do oxigênio, ficaria sobrecarregado. A pressão baixou. Foi a dois. A cabeça roda, a gente voa, vai se desintegrando. Levanta a cabeça, baixa a cabeça, faz um esforço muito grande para tornar a levantá-la porque alguém a pressiona com força para baixo. Começa a sentir um alívio... uma tranqüilidade... e então vai poder dizer com ênfase: Menina!, minha pressão foi a dois... E a oportunidade que me proporciona de sentir o quanto as pessoas que amo se preocupam comigo? Já experimentaram engolir um comprimido sem água? Por meio dela aprendi. Hospital! Médicos, médicas, enfermeiras, lutando para aliviar o sofrimento dos outros. Olho para os lados e verifico que não sou a única felizarda com bronquite asmática: umas melhores, outras em crise. Será que elas se dão bem, gostam de sua bronquite asmática? Se não gostarem, pior pra elas, pois sofrerão muito mais. Se fizerem igual a mim, deixando de encará-la como inimiga, tudo será mais suportável. & MINHA BRONQUITE ASMÁTICA Sei que ela ainda tem muita coisa para mostrar-me, para me fazer sentir. Não vai ficar sempre nessa monotonia. Aceitarei tudo que me der porque gosto dela, porque é minha amiga fiel, que morrerá comigo, ou quem sabe, morrerei com ela? MINHA BRONQUITE ASMÁTICA ' Raio X Myriam Lanna T odos os dias ele descia, cambaleando, o Morro do Matinha, ali no Engenho Novo, amparado pelos braços de duas mulatas de ancas largas e pés firmes. Está aí, sr. Elson, Raio X já veio para o almoço. O quê? Magrinho?... É cedo ainda. Sentese neste banquinho enquanto a bóia não sai. Os ossos do Magrinho, do Raio X, como o chamavam, estavam à mostra. Podia-se até estudar naquele esqueleto vivo: omoplata e clavícula, brigando com o úmero por um lugar dentro do farrapo de camisa que vestia. Peito a descoberto, costelas em semicírculo, que podiam ser contadas, melhor que no próprio Cristo alongado na cruz.... ficava ali quase estirado, esperando o almoço. Ninguém sabia seu nome verdadeiro. No morro, chamavam-no Raio X, tal era a sua transparência e, cá embaixo, deram-lhe o apelido de Magrinho. Ninguém indagava de onde viera. Fazia parte do cotidiano do meu irmão que, no seu ! RAIO X linguajar cheio de gírias, dizia sempre Está ferrado! Não demora a bater as botas! Hoje, não vai ter almoço, Magrinho, minha mulher me abandonou. O quê, sr. Elson? Ela teve coragem de fazer isso com o senhor, um homem tão bom? É, Magrinho, ela se cansou do meu machismo. Tome lá estes cinco reais e vai almoçar ali no Marcos. Magrinho cai nos botequins da vida e lá bebe todo o seu rico dinheirinho. Por que não? Ele precisava esquecer as mágoas; as horas custam tanto a passar quando os dias são aziagos e Raio X não conhecia dias doces. À tarde, quando as mulatas vieram buscá-lo: Onde está o Raio X, sr. Elson? Sei lá. Olhem ali no Marcos. Ele não pode beber. Agora não vamos agüentar subir com o danado. Daí a pouco passaram, arrastando o Magrinho, que não se agüentava nas pernas. Uma vez no morro, devia respirar aquele ar puro, longe da poluição cá de baixo e sentir a solidariedade dos que vivem tão perto do céu. Estou com fome, sr. Elson, o almoço vai demorar? É Magrinho, hoje vai demorar um pouco. É, aniversário aqui em casa. Vamos ter coisa boa: churrasco, salpicão e farofa com aquele torresminho! Espere, Magrinho. Estou com fome. E lá se vai um pedaço de queijo, lá se vai uma cumbuca de azeitonas e, para completar, uma RAIO X ! cervejinha geladinha. Raio X devora tudo aquilo com sofreguidão e bate de novo: Estou com fome. %%&& Agora, Raio X não desce mais. Pai, o Magrinho não veio almoçar. Emigrou para outra galáxia. Do morro até lá foi um vôo rápido. Uma estrela cadente, enviada por ele, de vez em quando tenta aterrissar no Morro do Matinha, como a dizer Obrigado minha gente. Vocês são gente de fato! Nas noites tristes e escuras do campo santo, os favelados dizem ver laivos de fogos-fátuos emitidos da cova rasa de Raio X. Seus ossos, agora, chamam a atenção dos passantes omissos que não se importavam com eles enquanto chacoalhavam por este mundão de Deus. ! RAIO X Getúlio Morreu Augusta Alvaralhão T odos tinham medo dele e, ao mesmo tempo, uma certa admiração. Chamavam-no de tio Carlinhos. Tipo místico, altivo, dava a impressão de ter sido rei e escravo. Alto, magro, negro, sujo, as roupas em frangalhos, com várias latas vazias penduradas no corpo (com arte), ou seja, no pescoço como um colar, na cabeça como uma coroa. Nas pernas, as latas davam a impressão de correntes, que arrastava raivosamente. Quando os bondes paravam, corria para o estribo, assustando os passageiros. Ninguém entendia porque se transformava e ficava violento, se alguém gritasse Getúlio morreu! Eu tinha de esperar o bonde naquele ponto. Quando chegava, olhava para todos os lados para me proteger, caso ele aparecesse. Assim foi durante anos. Engraçado é que ninguém, nenhuma autoridade tomava qualquer providência. Certa vez, estava distraída, quando ouvi dizer Getúlio morreu! Não tive tempo para nada. GETÚLIO MORREU !! Recebi com violência um soco nas costas. Corri para a farmácia e fiquei esperando durante muito tempo até que ele se afastasse. Os anos se passaram, casei-me e me mudei de lá. Muitas vezes pensei nele como estou fazendo agora. O que teria acontecido àquele homem para transformá-lo num quase animal? Uns oito anos após, passei pelo local, de carro, quando ouvi gritarem: Getúlio morreu! Corre por favor, sai daqui. Por quê? Depois te conto esta história. Obs.: Nesta época Getúlio Vargas ainda não havia morrido. !" GETÚLIO MORREU Solidão Augusta Alvaralhão V ocê veio sorrateira, observando, sentindo, entrando, sem que eu, durante m u i t o t e m p o , p u d e s s e identificá-la. Com maldade, insensibilidade, vai destruindo covardemente vidas, sonhos, deixando, em troca, amargura, insegurança, medo... Venho fugindo de você há anos. Já consegui algumas vitórias. Se fosse escrever sobre sua trajetória em minha vida, levaria muito tempo. Assim sendo, vou tentar transcrever alguma coisa, sem levar em conta se foi a pior ou não. Certa vez, você estava tão grudada em mim que tive uma idéia. Comprei um boneco grande. Conversava com ele, abraçava-o, como a um filho, não o tirava de perto de mim, mas de nada adiantava, pois, para qualquer lugar que eu olhasse lá estava você, sorrindo de forma zombeteira. Joguei o boneco fora. Engraçado, você me liberou durante muito tempo. Será que foi atrás do boneco? SOLIDÃO !# Uma noite, estava triste, pensando, quando de repente tive a impressão de ouvir: Olá, olha eu aqui outra vez. Perversa solidão novamente? Sabe de uma coisa? Vou viajar e você vai ficar aqui. Assim fiz. De madrugada, fui para a Rodoviária, peguei um ônibus para Angra dos Reis. Estava um dia maravilhoso. A praia cheia de adultos e crianças sorridentes, felizes. Caminhei, curtindo a natureza. Tomei banho de mar, comi peixe frito. Sentia-me como se fosse uma daquelas pessoas. No fim da tarde, resolvi voltar. Olhei, já com saudades, para o mar e vi a solidão correndo para me alcançar. Conseguiu seu objetivo, pois, na volta, foi uma companheira inseparável. Graças a Deus, tenho conseguido várias vitórias, que me dão a esperança de expulsá-la de minha vida para sempre. !$ SOLIDÃO Mudou o Natal ou Mudei Eu? Luiz Carlos Valente O Natal mudou. Não se reúnem mais as famílias neste dia consagrado ao nascimento do Salvador. As pessoas confraternizavam com amor e religiosidade. Eu também mudei. Depois do falecimento do meu filho, em 1987, em nosso lar não se realizaram mais as nossas reuniões da noite de Natal, pois as famílias foram se afastando e realizando essa festa em separado. Agora, a mudança será radical, pois sem a presença de minha mulher, falecida em fevereiro deste ano, o encantamento dessa festa será esquecido, deverá ser esquecido e, se possível fosse, extinto do calendário da minha vida. MUDOU O NATAL OU MUDEI EU? !% Como Conheci a UnATI Luiz Carlos Valente A pós a realização da missa de 7º dia do falecimento de minha mulher, Odalisca, o psicólogo Jaime Lisandro Pacheco convidou-me a procurá-lo na UnATI. No dia aprazado, fui ao seu gabinete, não o encontrando, pois ainda não havia chegado. No recinto, estava uma senhora que começou, enquanto eu esperava, a conversar comigo, o que resultou em momentos de emoção, pois falei-lhe sobre as angústias que estava passando pela perda de minha mulher. Mabel, esse é o seu nome, procurou, com palavras amigas e sábias, consolar-me. Jaime acabava de chegar e me sugeriu que participasse de algumas atividades da UnATI, levando-me à Secretaria, onde me inscrevi em Canto Coral, dirigido pelo maestro Jefferson. Na mesma ocasião, Jaime me encaminhou à psicóloga Maria Helena Teixeira, que estava formando um grupo de Informação e Reflexão. Durante algumas semanas, participei dessas reuniões, que foram de grande proveito face ao !& COMO CONHECI A UNATI momento que estava passando pela perda de minha mulher. Dias após, recebi um telefonema da nossa amiga Olka; falou-me que procurasse a Mabel para a formação de um pequeno grupo em que eu, a Olka e a Augusta Alvaralhão nos reuniríamos, às quintas-feiras. Os trabalhos seriam de literatura, por meio de diversos temas e trechos de obras de escritores; faríamos comentários e análises dessas obras. Continuo no momento participando destas reuniões onde, apesar de certa dificuldade na execução dos trabalhos, sinto-me muito feliz e gratificado. Outra atividade em que me inscrevi foi o grupo de Dança de Salão I, dirigido pelo casal de dançarinos Mônica e Sérgio. Apesar de, na minha juventude, ter dançado muito em clubes, só agora notei que não utilizava a técnica de dança. Atualmente, estou aprendendo os vários passos; sem eles, principalmente sem o passo básico, a dança perde a sua grandeza. Enfim, a minha participação na UnATI me trouxe momentos de satisfação. Na idade em que estou, posso encarar com mais coragem o futuro. A Universidade Aberta da Terceira Idade é a escola que, por meio de atividades e de cursos, restabelece no idoso a vontade de enfrentar, com mais felicidade, os poucos anos de vida que ainda restam para seus participantes. COMO CONHECI A UNATI !' Liberdade Ansiada Augusta Alvaralhão P ortão trancado, crianças brincando do lado de fora, mulheres conversando, muita alegria. Ela precisaria ir até lá, mas como? De repente, avistou um bambu. Com ele, depois de várias tentativas, conseguiu abrir o portão. Finalmente, encontrava-se no Beco, um caminho estreito, de barro, feio, mas que, apesar de tudo, significava para ela a liberdade. Menina, já para dentro, vou contar ao teu avô! Velha coroca! Velha coroca! Revoltada, não entendia porque não a deixavam juntar-se às outras crianças, mas de uma coisa tinha certeza; voltaria a abrir aquele portão. Já começava a descobrir que a liberdade era maravilhosa, mas não tinha ainda a noção do quanto teria que lutar por ela. Bonequinha, você é uma bruxinha de pano mas acho você linda, começou a embalá-la, cantando canções de ninar. Nos dias de sol, corria atrás das borboletas lindas e coloridas que pousavam nas flores do " LIBERDADE ANSIADA pequeno jardim da vovó. Ela queria pegá-las, mas era difícil por causa dos espinhos das roseiras. Um dia conseguiu. Porém, junto com a alegria de um desejo realizado, surgiu um problema: O que fazer para aprisioná-la? Ah!, já sei. Abriu uma revista e, com cautela, colocou-a no meio das páginas, fechando-as imediatamente. Ao verificar que a borboleta havia morrido, acreditou que era uma menina má. Os avós achavam muita graça quando ela pegava o jornal e, durante muito tempo, ficava lendo de mentirinha, inventando histórias. Queria ir à escola, mas eles, com excesso de zelo, tinham receio de deixá-la sair. Um dia ficou olhando para o passarinho amarelo que cantava e pensou: Quem sabe ele está dizendo que quer sair? Abriu a porta da gaiola e lá se foi ele, voando feliz. Ficou de castigo, mas valeu a pena. A bruxinha querida não a abandonou e Pretinha, a cachorra inseparável, deitou-se aos seus pés. Eram amigas de verdade. O avô chegou até a cama onde ela dormia e, sacudindo-a, disse-lhe que se levantasse. Abriu os olhos assustada e perguntou por quê. Vou entregar-te a tua mãe, respondeu ele. Vinte de janeiro, dia de São Sebastião, cinco horas da manhã. Descem o morro lentamente, tudo escuro! Chegam a Irajá, num casarão enorme com muitas árvores. Ele bate, e uma mulher de rosto sofrido atende admirada, perguntando o que acontecera. O velho abatido, explicou-lhe que não havia outra solução, pois sofriam muito ao ouvirem-na à noite chorar, dizendo que queria a mãe. LIBERDADE ANSIADA " A partir daí, começava uma nova etapa na vida da menina bonita, moreninha de longos cabelos pretos. " LIBERDADE ANSIADA Sobre os Autores Augusta de Souza Alvaralhão Augusta é carioca, nascida no bairro do Estácio, em 5 de junho de 1926. Atualmente reside em Vila Isabel. Fez seus estudos na Escola Rio Grande do Norte, hoje Canadá. Mais tarde freqüentou o Instituto Comercial Brasil, onde se formou em contabilidade. Filha de família com parcos recursos financeiros, passou, aos 14 anos, a estudar à noite e trabalhar durante o dia. Casou-se aos 21 anos, tendo três filhas, oito netos e uma bisneta. Demonstra vocação para escrever, sendo autora de Da favela ao hospital psiquiátrico, livro que serviu de apoio a debate sobre Saúde mental. Seus textos são escritos com humor e ela demonstra prazer em dialogar com seus personagens. Esses colóquios podem ser estabelecidos com a sua Bronquite asmática ou com o Beco, onde residiu, temas de algumas de suas histórias. SOBRE OS AUTORES "! Luiz Carlos Valente Luiz Carlos é carioca, nascido no bairro de São Cristóvão, no dia 21 de junho de 1922. Reside hoje em Vila Isabel. Trabalhou como caixeiro-viajante, vendendo produtos farmacêuticos. Correu todo o Rio de Janeiro, quase sempre de trem, transporte de que guarda saudade. Casou-se cedo, tendo tido apenas um filho. Apesar de ter sofrido perdas traumáticas, considera-se otimista. Seus textos apresentam-se, na maioria das vezes, sob a forma de relatos concisos e objetivos, ricos em observações. Myriam Lanna Myriam é mineira, nascida em 2 de dezembro de 1923, em uma fazenda, perto do município de Jequery, comarca de Ponte Nova. Reside hoje no Rio de Janeiro, no bairro do Rio Comprido. Oriunda de uma família de 12 irmãos, perdeu o pai ainda criança. Sua mãe conseguiu para ela uma bolsa de estudos no Colégio Sacré-Coeur de Marie, de uma Congregação francesa. Adolescente, se propôs a seguir a vida religiosa, ingressando na Congregação, lá permanecendo por 27 anos. Deu aulas de português e francês, para obter alguns rendimentos para a sua sobrevivência, fora da Congregação. De""SOBRE OS AUTORES monstrou, desde cedo, inclinação para escrever. Diz ela: são exercícios necessários à mente, ou ainda: costumo procurar um canto silencioso para, com calma, discorrer sobre minhas histórias. Demonstra um cuidado extremo com o que escreve, seja sobre uma lembrança, seja sobre um sonho. Exige de si mesma, fidelidade à língua portuguesa, da qual é grande admiradora e discípula. %%&& Estes alunos foram encaminhados ao Centro Ampliado de Convivência pelo Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI),1 onde estiveram em tratamento sob a orientação do psicólogo Jaime Lisandro à época, integrante da equipe do NAI e Gerente de Extensão da UnATI-UERJ. Identificados como pessoas afeitas às construções narrativas, foram orientados a procurar a Coordenação da Oficina de Produção de Textos. São marcantes as demonstrações de afeto e gratidão pela atenção e amizade a eles dispensados pela equipe de saúde, especialmente, por Jaime e Célia Caldas, que os acompanharam nessa trajetória. Mabel Imbassahy Professora da UnATI-UERJ. Responsável pela Oficina de Textos e por esta publicaSOBRE OS AUTORES "# ção. É socióloga e integra a equipe de Gerência de Pesquisa da UnATI. Editora associada da Revista Textos sobre Envelhecimento, publicada pelo CRDEUnATI-UERJ. Pesquisadora da Linha de Pesquisa, Memória, Cultura e Envelhecimento. Nota O NAI é um ambulatório de cuidado integral à saúde da pessoa idosa, vinculado à Gerência de Extensão da UnATIUERJ. 1 "$SOBRE OS AUTORES Este livro foi diagramado no Page Maker 6.5, em formato 110 X 200 mm K Tipologia: Gatineau (corpo do texto) e John Handy Let (Títulos) K Fotolito de capa: Dressa Color K Impressão e acabamento: Gráfica Lidador