Mil novecentos e
antigamente...
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Reitora
Nilcéa Freire
Vice-reitor
Celso Pereira de Sá
Sub-reitor de Graduação
Isac Vasconcellos
Sub-reitora de Pós-graduação e Pesquisa
Maria Andréa Rios Loyola
Sub-reitor de Extensão e Cultura
André Lázaro
UNIVERSIDADE ABERTA DA TERCEIRA IDADE
Direção
Renato Peixoto Veras
Vice-direção
Célia Pereira Caldas
Gerência de Pesquisa
Shirley Donizete Prado
Gerência de Extensão
Sandra Rabello de Frias
Gerência de Ensino e Formação de Recursos Humanos
Alzira Tereza G. L. Nunes
Mil novecentos e
antigamente...
Organizadora
Mabel Imbassahy
Augusta de Souza Alvaralhão
Luiz Carlos Valente
Myriam Lanna
Rio de Janeiro
2001
Copyright © 2001, UnATI
Todos os direitos desta edição reservados à Universidade Aberta da
Terceira Idade. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume,
ou de parte do mesmo, sob quaisquer meios, sem autorização expressa da UnATI.
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CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/PROTAT
I32
Mil novecentos e antigamente/ Organização Mabel
Imbassahy . Apresentação Renato Veras – Rio de
Janeiro: UERJ, UnATI, 2001.
148p – (Memória)
Inclui textos de : Augusta de Souza Alvaralhão, Luiz
Carlos Valente e Myriam Lanna.
ISBN 85-87897-03-9
1. Idoso 2. Memória 3. Vida I Veras, Renato. II.
Alvaralhão, Augusta de Souza. III. Valente, Luiz Carlos.
IV. Lanna, Myriam. V. Universidade Aberta da Terceira
Idade.
CDU 616-053.9
Produção Editorial Rosania Rolins
Projeto Gráfico/Diagramação/Capa Heloisa Fortes
Revisão Francisco Inácio Bastos e Alcides Mello
Sumário
APRESENTAÇÃO ..................................................... 7
INTRODUÇÃO ....................................................... 11
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE... ........... 15
ONTEM .................................................................. 24
VIVENCIANDO HOJE, RECORDANDO
ONTEM .................................................................. 29
BELEZA DESFEITA ............................................... 48
ESCOLA RISONHA E FRANCA ........................... 65
RUA SANTA LUIZA .............................................. 92
UM SEMIDEUS PARA MIM ................................. 97
MEU PAI .............................................................. 102
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL ........................... 107
COMO TUDO COMEÇOU ................................ 116
BIBLIOTECA VERDE .......................................... 126
RAIO X ................................................................. 132
Myriam Lanna
DIA DE REIS ......................................................... 21
VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA? ................ 39
MEU PAI-AVÔ ....................................................... 44
UM ADJETIVO ...................................................... 47
BECO ...................................................................... 53
QUERIDA ESCOLA ............................................... 57
VIDA NOVA .......................................................... 62
MINHA MÃE ......................................................... 80
FALANDO DE AMOR .......................................... 85
LIGAÇÃO DE AFETO ........................................ 114
BIBLIOTECA VERDE .......................................... 124
MINHA BRONQUITE ASMÁTICA ..................... 129
GETÚLIO MORREU ............................................ 135
SOLIDÃO .............................................................. 137
LIBERDADE ANSIADA ....................................... 142
Augusta Alvaralhão
UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA ............................ 38
MINHA INFÂNCIA ................................................ 41
MEU COLÉGIO INTERNO ................................... 75
AGRADÁVEL MOMENTO .................................... 77
OS DOCES DE MINHA MÃE E
DE MINHA MULHER ........................................... 83
ALGUÉM ................................................................ 88
O VERDADEIRO AMOR .................................... 114
MUDOU O NATAL OU MUDEI EU? ............... 139
COMO CONHECI A UNATI .............................. 140
Luiz Carlos Valente
SOBRE OS AUTORES ........................................ 142
Nota
“Biblioteca Verde” e “Mudou o Natal ou mudei eu?”
correspondem a poesias de autoria de Carlos Drummond
de Andrade e Machado de Assis, respectivamente, trabalhadas durante as atividades da Oficina, gerando os textos
incluídos nessa publicação.
Apresentação
A
gerente de Pesquisas da UnATI,
professora Shirley Donizete Prado,
sugeriu a organização de uma nova
publicação intitulada Série Memória. Sua proposta é a de estruturar uma publicação periódica na qual se possa oferecer aos idosos, que
freqüentam a UnATI, oportunidades mais amplas de divulgar trabalhos aqui produzidos, privilegiando-se elementos de conteúdo criativo, em diferentes domínios, revelando suas
origens e ilustrando seus processos de produção.
Para lançar a idéia Série Memória, publicamos
o livro Mil novecentos e antigamente..., resultado da Oficina de Produção de Textos, coordenada de forma envolvente e acolhedora
por Mabel Imbassahy. Mabel reuniu pessoas
dispostas a reconstituir as suas trajetórias de
vida, recorrendo às lembranças e aos seus
registros, tecendo, dessa forma, suas próprias
histórias.
APRESENTAÇÃO
%
O presente livro, que inaugura esta Série, constitui mais uma conquista da UnATI, que tem
como objetivo compartilhar com seus alunos as
experiências do passado, construindo com elas
novos projetos de vida.
Renato Veras
Diretor da UnATI/UERJ
&A P R E S E N T A Ç Ã O
O grande
patrimônio da pessoa idosa
está no mundo maravilhoso da memória, fonte
inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre
o universo em que vivemos, sobre as pessoas e
os acontecimentos que, ao longo do caminho,
atraíram nossa atenção. Maravilhoso este mundo
que pela quantidade e variedade inimaginável e
incalculável de coisas que traz dentro de si: imagens de vultos há muito desaparecidos, lugares
visitados em anos distantes e jamais revistos, personagens de romances lidos... fragmentos de poesias que aprendemos de cor na escola e nunca
mais esquecemos... quantos vultos de atores e
atrizes esquecidos, sabe-se lá há quanto tempo,
mas sempre prontos a reaparecer no momento
em que vem o desejo de revê-los... e quantos
trechos de canções voltamos a cantarolar sozinhos... Este imenso tesouro submerso jaz à espera
de ser trazido de volta à superfície durante uma
conversa, uma leitura... Seja de repente por uma
associação involuntária, por um movimento espontâneo e secreto da mente.
(Somos o que lembramos)
Norberto Bobbio. O tempo da memória
Introdução
M
il novecentos e antigamente... reúne
textos produzidos por alunos da
UnATI-UERJ que integraram uma “Oficina”, realizada em caráter experimental, cuja finalidade consistia em criar condições para a recuperação de lembranças referentes a histórias
vivenciadas ou “ficcionadas” pelos seus participantes.
O ofício de lembrar é tarefa salutar. Uma vez que
haja estímulo à transmissão daquilo que cada um
de nós vivencia e compartilha com os demais,
eterniza-se o que poderia desaparecer. Considerando-se o momento atual em que as construções
narrativas perderam lugar, substituídas pelos efeitos da imagem da TV e demais aparatos
tecnológicos, cabe às pessoas idosas resistirem à
desvalorização de suas lembranças. Observou
Norberto Bobbio: “O mundo do passado é aquele
no qual podemos buscar refúgio em nós mesmos (...)
[para] nele construir nossa identidade (...) Cumprenos saber, porém, que o resíduo, ou o que logramos
INTRODUÇÃO
desencavar, desse poço sem fundo é apenas uma
ínfima parcela da história da nossa vida. Nada de
parar. Devemos continuar a escavar.”
Os textos aqui reunidos expressam, certamente,
momentos preciosos, narrados com zelo e delicadeza pelos autores. São produções singelas, em
forma e essência, que contêm enorme riqueza: a
de dar vida às suas recordações que, “ficcionadas”
ou não, determinam um movimento em direção
ao futuro. Cada gesto, palavra e emoção poderiam
se perder para sempre, caso não fossem reencontrados e trabalhados.
Dispondo de duas horas semanais, a Oficina, além
de roteirizar temas com a intenção de apoiar os
textos produzidos, estabeleceu uma roda de leitura de autores consagrados, como Carlos Drummond
de Andrade, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias,
Cora Coralina, Rachel Jardim, Raquel de Queiroz,
Adélia Prado e Rubem Braga, a fim de serem
comentados e discutidos. Alguns desses autores
foram bem acolhidos e alvo de admiração, enquanto outros receberam críticas desfavoráveis.
No entanto, todos foram lidos, revelando alto grau
de atenção e interesse.
As lembranças incluídas nos textos geraram outras
manifestações, como a apresentação de fotografias
de um tempo remoto, algumas já esquecidas em
álbuns e gavetas. Desse modo, produziu-se mais
um registro de lembranças: “Veja a expressão sofrida
da minha mãe, como ela era bonita”. “Aqui era o
I N T R O D U Ç Ã O
Ipanema, um areal. Dizia-se: “O Ipanema”. “Olha o
meu pai, no restaurante do Corcovado, elegante
em seu traje de garçom”. “Aqui está o meu filho
aos 9 anos, em um passeio na praia; morreu aos
40”. “Ah, as reuniões de Natal. Como mudaram...”.
“Meu vestido de noiva era tão bonito, não era?”.
Olhem o véu”.
Tanto as lembranças que emocionavam, trazendo
sentimento de tristeza, quanto as que revelavam
a alegria e eram compartilhadas prazerosamente,
desvelando existências plenas de acontecimentos.
Foi extremamente gratificante e oportuno oferecer uma “Oficina” voltada para estas manifestações, apresentadas em diferentes formas e estilos,
próprios de cada aluno.
Reforçou-se assim o reconhecimento da capacidade em elaborar e criar explicitada por essas pessoas,
alunos da UnATI, que sem dúvida prestaram, com
apreço e dedicação, uma inusitada colaboração ao
se entusiasmarem pela “arte” de lembrar e tecer
suas histórias.
Reservamos os últimos parágrafos para os agradecimentos. Primeiramente para a dra. Rose Souza
pelo interesse demonstrado e incentivo a esta
publicação.
Agradecemos à UnATI, na pessoa de seu diretor
Renato Veras, pela oportunidade rara oferecida
àqueles idosos, detentores de um patrimônio ímpar
– suas lembranças – possibilitando seus registros
INTRODUÇÃO
!
e o reconhecimento de seu valor. E também ao
Comitê de Empregados da Embratel, ao Movimento
da Ação da Cidadania, do Combate à Fome, à
Miséria e pela Vida, representado na pessoa da
senhora Anésia Maia Araújo, que gentilmente
prestou enorme colaboração doando parte do
material necessário à publicação deste livro.
Mabel Imbassahy
Coordenadora da Oficina de Produção
de Textos da UnATI
"I N T R O D U Ç Ã O
Mil Novecentos e Antigamente...
Myriam Lanna
M
esa retangular, enorme, ocupando o
espaço de mais ou menos a terça
parte da grande sala de jantar. Toalha e
guardanapos trocados todos os dias, a toalha branca passadinha, com vincos à mostra (coitados dos
serviçais!).
Aquilo era a exigência de um pai que se
comprazia em ver a família em volta da mesa,
todos os dias. Hora sagrada a das refeições: o
genitor na cabeceira, os filhos todos nas laterais e
ela, a grande dama, na extremidade oposta à do
esposo.
Os talheres de prata maciça (não se conhecia ainda o inox) brilhavam, deixando sobressair
o alto relevo das flores cinzeladas, esculpidas nos
cabos, e os copos impecáveis na sua transparência
cuidada.
Ainda vejo o guarda-louças – portas de um
vidro muito fino, cuja opacidade ostentava desenhos clássicos de mulheres gregas; do outro lado,
o que chamávamos antigamente de guarda-comidas
(não me recordo de nenhum alimento guardado
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
#
nele) com tela verde, muito fina, em ambas as
portas e, junto dele, o filtro – filtro Fiel – duas
talhas de argila sobre um tripé de metal e um
suporte abaixo da torneira, onde ficava um copo
de alumínio para as crianças beberem água.
Essa a imagem que ainda guardo da sala
de jantar dos dias de minha infância. Não posso
me esquecer das horas solenes das refeições. As
travessas fumegantes vinham com aquele cheirinho que aguçava o apetite.
Para os dias de semana, o trivial, comida
mineira na íntegra: arroz, alisado cuidadosamente,
parecendo um bolo branco, na travessa rasa, oval;
feijão, noutra, mais funda, angu molinho e, invariavelmente, torresminho com pele e tudo; depois, o mais cheiroso: frango refogado que se
apanhava no terreiro logo de manhã, faca passada
no pescoço do pobre, imobilizado nas coxas pelo
implacável matador.
– O sangue é meu, a oveira é minha, eu
quero a moela – gritava a criançada alegre com o
feito.
Quiabo fazia parte do menu quando tínhamos frango refogado na mesa. A gente não gostava, mas tinha de comer.
– Carne de vaca? Não me recordo de haver
comido quando criança de roça. Só me vem à
mente aquelas panelas de pedra enormes, cheias
de gordura de porco talhada, onde, postas e postas
de suíno eram conservadas para o consumo da
semana.
Para a mesa elas iam douradas, com um
acebolado por cima. Nós, pequenos, adorávamos
$
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
o dia das costelinhas – que delícia chupar os
ossos temperados até ficarem sem cor.
No dia em que se matava porco, minha
mãe e as auxiliares labutavam até o pôr-do-sol. A
banha, depois de picada, era levada para a fornalha, debaixo de uma coberta, no terreiro da casa,
lenha ardendo desde cedo, tacho de cobre reluzindo, colher de pau enorme, remando naquelas
ondas espumosas de gordura.
Nós, menores, ficávamos esperando os
bolinhos fritos, feitos dos miolos – uma tentação. Mamãe não deixava perder nada: aquela
espécie de torresmo mole da banha era retirado com a escumadeira e colocado noutro tacho, com soda cáustica em cima. Dali, no fim da
semana, juntando com os outros restos, saía o
sabão com que a roupa era lavada (ela sabia
tanta coisa). Nesse dia e nos subseqüentes, tínhamos aquela pele macia, torradinha, saborosa.
O trabalho para raspar aqueles pêlos todos –
não havia produtos químicos para isso, como
hoje – ela o fazia sobre um banquinho, junto
da mesa rústica, assim como a demorada tarefa
de encher lingüiças.
– Menina, vai apanhar uns espinhos de
laranjeira, ali, para a mamãe.
– E você aí, fure uns buraquinhos aqui nas
tripas que estou enchendo para que as lingüiças
não fiquem cheias de vento.
Depois, as lingüiças eram dependuradas
na dispensa – cortina cheirosa, convidativa – até
o dia seguinte, quando muitas, em rolo, eram
levadas aos colonos.
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
%
Pão, diariamente, como nos dias de hoje?
Pelo menos, na minha casa não havia. Eram as
fornadas de biscoitos de polvilho, guardados em
latas enormes, eram as roscas-doces, douradas com
gema que, depois de enroladas, tinham de dormir
cobertas para que crescessem – sob vigilância
constante –, pois não podiam passar do ponto.
O forno de lenha era conservado aceso a
noite toda – “rosca-doce”, dizia minha mãe, “assase em forno bem quente”.
De forma geral, no lanche, comíamos broa
de milho, bolo, biscoito frito na gordura. Nada de
refrigerantes ou sucos artificiais. Era leite puro
mesmo – aquela nata grossa –, com açúcar somente para a criançada.
Os frutos do pomar, fresquinhos, mamão,
laranja, abacaxi, melão, goiaba, melancia, eram
muitas vezes moídos ou socados no almofariz
(recipiente de cobre, maciço, pesado) para serem
transformados em sucos, servidos nos intervalos
das refeições. Pena é que aquela maçaroca era
coada numa peneira de taquara – as fibras lá se
iam (ainda não era conhecido o seu valor) – e as
babás tinham receio de que a gente se engasgasse.
Aos domingos, tínhamos, impreterivelmente, a deliciosa macarronada. Cedinho, a mãe
já estava batalhando com a massa: ovos, farinha
de trigo, leite e água com sal.
A gente ficava observando. Depois de
muito sovar, aquela substância branca, compacta,
arredondada, tinha de descansar por algumas horas.
Mamãe dizia “se não repousar não vou conseguir
abri-la”.
&
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
Mais tarde, o rolo manejado por mãos
hábeis, deslizava com força sobre aquele conteúdo,
pedaço por pedaço, até que ficasse fininho, espessura toda igual. Farinha de trigo salpicada, e
a massa, uma vez aberta, deveria secar até a hora
de ser enrolada como um rocambole e cortada
em tiras, que eram colocadas na panela de água
fervendo.
Eu só sei que a travessa de macarrão
cheiroso e dourado ia para a mesa na hora do
almoço. A gente se deliciava com aquele manjar
saboroso. E a sobremesa? Hora melhor para a
petizada: goiabada cremosa com queijo de Minas
ralado.
Mês de dezembro! Natal aproximando-se!
A figura incansável da genitora, lenço na cabeça,
óculos escorregando pelo nariz, era vista, quase o
dia todo, no mesmo lugar de sempre, preparando
os doces para a festa de Natal. Doce de cidra
cristalizada! Como aquilo era trabalhoso! Ela raspava os frutos, um por um, cortava-os em quatro
pedaços, retirava as sementes e os fervia várias
vezes; para que o amargo saísse, escorria a água.
Feito isso, colocava-os numa calda, depois de
purificada – nós, pequenas, batíamos as claras em
neve. E não acabava aí. Nos dias subseqüentes,
fervia-se a cidra na calda até que ficasse como
vidro, transparente. Só então o doce era colocado
a secar ao sol e se tornava um cristal macio,
comível, delicioso.
Não podiam faltar, na Noite Santa, os doces de figo, de laranja e de goiaba em calda. No
Natal, a mesa ficava posta o dia todo com as
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
'
guloseimas características da época: pão-dourado,
rocambole e bons-bocados, sobre os quais se enterravam cravinhos negros.
Aquela leitoa assada, em cuja barriga se
escondia a farofa temperadinha, vinha na hora da
ceia, portentosa, com um grande ovo cozido na
boca, mantida aberta de propósito. Era o regalo
dos apreciadores de carne gordurosa, tão condenada pela medicina atual. Têm razão, os doutores donos da vida e da morte?... Não sei. Só
sei que, conversando com um senhor de oitenta anos, ele me disse: “Qual nada! Durante toda
esta minha longa vida comi carne de porco
bem engordurada e apimentada, bebi pinga em
todas as refeições – a cachaça dissolve a gordura. Não troco o meu quibe frito e o meu
pastelzinho por nenhum alimento saudável,
como apregoam por aí”.
Realmente, eu o conheço faz tempo, é um
homem forte, saudável, nada de mãos trêmulas e
passos indecisos. Nunca se queixa de dor ou malestar, ajuda a esposa, também idosa, em todos os
trabalhos de casa, faz o mercado para ela, sempre
a acompanha nas caminhadas diárias, e isto com
toda a segurança.
Comentou um motorista de táxi, outro dia,
quando estávamos quase chegando ao Hospital
Pedro Ernesto: “Olhem lá (apontou para um grupo de médicos, vestidos de branco), já vão para
a churrascaria. E o prato de hoje é feijoada, aquela
bem incrementada! Para a gente receitam legumes
cozidos e, quando muito, carne branca. Essa é
muito boa! Assim até eu!”
MIL NOVECENTOS E ANTIGAMENTE...
Dia de Reis
Augusta Alvaralhão
G
rupos do Morro de São Carlos, que
normalmente se encontravam na
igreja, após o catecismo e as missas,
representados por adultos, adolescentes e crianças, reuniram-se no barracão de um deles a
respeito da festa do “Dia de Reis”, que era
comemorado todos os anos no dia 6 de janeiro.
Nada fácil, pois as opiniões eram as mais
desencontradas.
A princípio, todos acreditavam que as
fantasias poderiam ser de tecido, porém, mesmo o mais barato não dava para alguns. Terminava a reunião sem que nada tivesse sido resolvido e com muita frustração. Pensou-se,
então, bater de porta em porta, solicitando qualquer ajuda. Nada feito, realmente todos eram
pobres e, por maior boa vontade que tivessem
em ajudar, sentiriam muito por não poder colaborar.
Certa vez, fui a uma festinha de uma
menina da escola e recebi, como lembrança,
algo feito de papel. Uma luz surgiu. “E se fiDIA DE REIS
zéssemos as fantasias de papel crepom?” Apresentei a idéia e todos concordaram. Foi preciso muita
imaginação, capricho e força de vontade para conseguirmos realizar nosso sonho. Então, o grupo
saiu!
Assim, no Dia de Rei percorremos ruas e
becos, caracterizados de diversos seres do folclore brasileiro, cantando e representando. As roupas, mesmo de papel crepom – muito coloridas e
caprichadas – ficaram perfeitas.
O povo aguardava ansioso e aplaudia com
veemência. Em algumas casas (a maioria) os grupos eram convidados a entrar para que fizessem
pequenos lanches. A festa durava o dia inteiro.
A menina morena de longas tranças, vestida de cigana, ia na frente, com um pires nas
mãos, cantando bem alto:
Boa noite, meus senhores,
Estou cansada de andar
Com esta minha sacola (bis)
Esmola vou tirar (bis)
Eu leio a sorte
Vejo a linha do destino
(bis)
Vou ler hoje a ‘buena dicha’
Do Sagrado Deus-Menino.
Uma jovem, gordinha, muito clara, vestida de fada, continuava:
Sou a fada mimosa e garbosa,
Também trago minhas oferendas
DIA DE REIS
Para ofertar a Jesus
Que do mundo é rica prenda.
Outros representantes seguiam alegres
com suas fantasias e a festa durava até o anoitecer. Era lindo, inesquecível!
DIA DE REIS
!
Ontem
Myriam Lanna
–A
ve, Maria! Era uma vez duas meninas
rezando:
– Santa Maria!
– Ave, Maria!
– Santa Maria! Era uma vez duas meninas
rezando.
– Depressa, Yayá, não vai dar tempo de a
gente jogar bulca. Acabadas as dez ave-Marias...
“Pai nosso”... corríamos para o buraquinho preparado, anteriormente, pelas duas amigas inseparáveis.
As bolas de gude eram substituídas por
aquelas sementes pretas, redondas, quase do
mesmo tamanho das bolinhas de vidro – por isso
o nome do jogo: bulcas.
Sentadas no chão, calcinhas sujando-se – a
gente levantava o vestido de ver Deus, senão... a
mamãe iria perceber.
– Agora é minha vez! Acertei! E as sementes
redondas, pretinhas, brilhantes, rolavam para o
buraquinho.
– Dois a zero! Ganhei! Depressa, Yayá,
voltemos à igreja, o terço já deve estar acabando.
"
ONTEM
Temos de rezar outro mistério, somente as primeiras palavras, senão demora muito e a gente não
joga nada.
– Ave, Maria!...
– Santa Maria!...
– Ave, Maria!...
– Santa Maria!... Pai nosso!... É mês de
maio, Myriam, ainda vão cantar a ladainha de Nossa
Senhora.
– Tenho de ir lá porque a mamãe vai
perguntar quem coroou e eu não vou saber dizer.
– O alto-falante arrasta aquela cantoria abençoada:
– Santa Dei Genitrix, ora pro nobis...
– Virgo fidelis, ora pro nobis...
– Regina Angelorum, ora pro nobis...
– Está no fim. E nós, polegar armado,
perninhas abertas, cabeças quase encostadas no
chão, jogando bulcas.
– Como é gostoso jogar bulcas! – Por que
será que a mamãe proíbe a gente?
– Brinquedo de moleque, não está vendo?
E a calça, toda suja de terra? Da outra vez, você
vai levar umas palmadas. Eu vou esquentar você.
%%&&
Assim, tudo na minha infância: peralta,
criativa, eu, amando a vida que se debruçava
sobre mim como um tufão – cores e perfumes a
sufocar-me – não tinha outra alternativa. Burlava
a vigilância de minha pobre e sofrida mãezinha,
que ficara viúva aos quarenta anos, com 12 filhos
ONTEM
#
menores. O mais velho – 17 anos; nove meses o
mais novo.
Não fosse o aborto que teve com a morte
do meu pai, outro rebento, muito breve, veria a
luz do dia.
Para a minha mãe a vida acabara, para mim
estava apenas começando.
– Menina sem pai não pode ficar por aí,
brincando na rua...
– Menina sem pai não pode andar com
filha de mãe solteira – justamente a minha amiga
de todas as horas, de todos os brinquedos, de
todas as peraltices... Cada uma!
– Menina sem pai não pode coroar Nossa
Senhora. Que pena! Precisaria de um longo vestido branco de seda e paetês, arminho nas mangas largas e na barra, coroa de rosas brancas na
cabeça e aquelas asas de anjo! Meu Deus! Com
elas eu voaria até o céu!
– Menina sem pai não pode, não pode...
não pode...
– Como eu tinha raiva de ser menina sem
pai! Não podia nem ganhar um irmãozinho, como
a filha da vizinha do lado – um neném fofinho,
cheiroso, envolvido na manta bordada e cheia de
rendas.
Não podia pular amarelinha com a negrinha
que a comadre de minha mãe criava – lé com lé...
cré com cré – mas eu pulava assim mesmo.
Não podia brincar de roda no jardim da
cidade: “Fui ao tororó, beber água, não achei.
Achei bela morena que no tororó deixei”. Eu
brincava às escondidas. Era tão bom!
$
ONTEM
Não podia saltar do coreto do parque.
“Você quebra a perna, menina, e depois como
vamos fazer para encaná-la? Você não tem pai!” Eu
dava os meus saltos, sorrateira.
%%&&
– Carinho? Não! Não era possível! Só mesmo da mucama gostosa, cabelo de pimenta-doreino, que todas as noites eu pelejava para
desembaraçar.
– Por que o meu cabelo era tão feio, tão
liso? E o dela tão bonito?... Eu a penteava até
que caía de sono sobre a roupa – tanta roupa
para passar à noite, ela que tivera um dia de
labutas.
Balançava o ferro de brasas que eu soprava
prazerosamente para ela. Tinha inveja de sua cor
de piche, reluzente, eu que era tão desbotada, tão
branquela!
– Venha tomar banho, menina.
– Que diabo! Quem inventou o banho não
sabia que estava fazendo tanto mal para as crianças. E conosco não tinha aquela de, já vou, mamãe. Justamente na hora do batizado da minha
boneca! Depois do banho, nada de brincar no
porão. Você se sujaria toda outra vez.
– Que? Eu estava limpa, limpa. Não entendia para que banho todos os dias.
Uma vez limpa, sob a vigilância de minha
mãe, só podia brincar na varanda e na frente da
casa, onde um tapete verde manchava-se de
boninas lindas.
ONTEM
%
Eu me cansava de olhar o viveiro de
canários belgas do meu irmão, que me enfadavam
com seu gorjeio sonoro ao entardecer. Me enroscava, então, à semelhança de serpente, pelos pilares do peitoril da varanda.
– Saia daí, menina! Você ainda vai agarrar
a cabeça.
É falar e acontecer. Choro! Palmadas!
– Um dia eu deixo você presa entre estas
colunas.
%%&&
Refeita, corria para as boninas. Fazia longas
guirlandas que pendurava no pescoço, nos braços
e nos cabelos. Era, agora, a cigana sedutora a
rodopiar pelo campo, mãos erguidas, passos
ritmados, desvendando os segredos do futuro
lindo, sonhando com uma cidade inesquecível –
ruas calçadas de pães-de-ló, casas feitas de rapaduras e muros de pés-de-moleque.
– Isso é veneno, menina teimosa, venha
para dentro.
%%&&
Blem blau, blem blau, blem blau.
Angelus! Que sorte!
– Mamãe, vou rezar o terço na igreja!
E caía no gozo! Natureza sábia, sabia sem
saber que estava defendendo meus direitos de
criança traquina, sem carinho, sem dinheiro, sem
pai!
&
ONTEM
Vivenciando Hoje –
Recordando Ontem
Myriam Lanna
–A
lô!
– De onde?
– Do Tijucor?
– A Ilza?
– Está bem, está bem, vamos já, já.
Corações aos saltos, línguas agarrando-se
ao céu da boca, mãos trêmulas e passos titubeantes, trocamos a roupa em um instante. Havíamos acabado de almoçar. O alimento fazia um
bolo no estômago, que recusava aquela realidade
dura. Mas, resistimos.
O momento era de luta, e vencer a nós
mesmas, a todo custo, era necessário. A imaginação, doida da casa, depressa começou a trabalhar:
“É, a Ilza deve estar muito mal, ela não é de
alarmar ninguém. Mulher forte, batalhadora, não
costuma queixar-se das dores e dos problemas
que a vida nos oferece sempre, em demasia até.
Ninguém escapa deles”.
“Viver é um problema”, já disse, certa
vez, o professor Mira y Lopez, e “quando problemas deixam de existir é porque a vida se
extinguiu”.
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
'
– E os filhos? Por que não os chamaram?
Será que já estão lá? Será que aconteceu o pior?
– continuava a martelar a imaginação.
Em contrapartida, a razão insiste por alguns instantes: dois deles trabalham fora, horário
integral, a caçula, companheira de todos os dias
da mana, deve ter saído para qualquer coisa:
mercado, banco, dentista.
Em outras épocas, em outros lugares, não
havia a tristeza de ter que recorrer a um prontosocorro sozinha; não havia o perigo de solidão,
do isolamento: casa cheia de filhos, de serviçais, de amigos, portas sempre abertas, vizinhos, ali perto, acorrendo a qualquer sintoma
diferente.
Saímos como desvairadas, sem levar ao
menos os números dos telefones dos sobrinhos.
Trânsito engarrafado... táxi arrastando-se...
– Senhor motorista, o retorno é ali, na rua
Pareto; a Conde de Bonfim, neste trecho, só dá
mão para baixo. “Ah, meu Deus”, pensei angustiada. “Era preferível aquele tempinho do bonde,
mão e contramão, trânsito livre, poucos carros na
rua”.
O bonde era mais devagar, mas andava.
Pelo menos, esta angústia não sufocava o peito.
Creio que, agora, se a gente fosse a pé, chegaria
mais depressa.
Enfim! Casa de Saúde Santa Terezinha! Sala
de espera cheia. Deus meu, isto está parecendo
com os INSS da vida, pensei com meus botões.
Guarda, a postos, junto da porta de entrada da
emergência.
!
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
– Uma de cada vez, falou a médica, lá de
dentro.
Minha irmã, tubo no nariz, soro na veia,
chorou ao ver-nos.
– Assim, vou mandar que saiam... Você
não pode se emocionar, tornou a falar em voz
alta a médica.
Como no fim do século as coisas funcionam diferentes das do princípio! Recordo-me de
meu pai, chegando à casa, depois de acidentado:
os amigos e colonos improvisaram uma maca e
vieram, de uma fazenda à outra, carregando-o
nos ombros solidários e fortes.
Agora, as UTIs móveis! Qual UTI, qual nada!
Na que minha irmã foi transportada, de um hospital para outro, os aparelhos não funcionavam,
estavam danificados. Manutenção custa caro! O
enfermeiro que a acompanhou, bem instruído,
naturalmente, foi conversando, brincando com ela.
– Ei, vó, você está enxuta ainda! Já arranjou um namorado? Sei de uma pessoa que está
louquinha por uma companheira. Quer que lhe
dê seu endereço?
Por incrível que pareça, a Golden Cross
não mandara a ambulância, apesar de insistentes
pedidos. Naquela aflição da espera, a médica a
todo instante dizia que ela precisava de uma
UTI..., que no Santa Terezinha não havia vaga...,
que ela estava num processo de angina e poderia
sofrer um infarto... Não tivemos outra alternativa
senão pedir uma ambulância e pagar por este
serviço a pequena importância de duzentos e
cinqüenta reais.
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
!
Mais tarde, depois de muito labutar, meu
sobrinho foi reembolsado, ele tinha esse direito;
o contrato de seu plano rezava isto e ele estava
disposto a “botar para quebrar”.
E digo mais, ao chegarmos à outra Casa
de Saúde, para onde foi transferida, surgiu uma
nova batalha para interná-la. Disseram que a
Golden Cross não havia dado autorização, que
era necessário deixar um depósito de “apenas”
sete mil e duzentos reais. Tudo foi tratado nas
duas longas horas de espera.
Novamente um cheque, mas, desta vez,
sem fundos e pré-datado. Quem é que tem na
sua conta sete mil e duzentos reais? Só mesmo
um felizardo. A Beth, minha sobrinha, contou
que na primeira noite em que foi dormir com a
mãe, depois que saiu da UTI, mal refeita ainda,
entrou uma profissional no quarto e foi falando
em bom tom:
– Sabe que a acompanhante paga? Você
tem de deixar um cheque. E para o aluguel da TV
também. E minha sobrinha, que não é nada fácil:
– É? Eu não sabia. Só que não tenho dinheiro nem cheque. Depois comentou conosco: “Eu só
pago por serviços prestados. Nada de suborno
comigo, eles estão ali para trabalhar, para atender
aos pacientes e acompanhantes. Já se viciaram com
as gorjetas. Os cariocas são mestres nestas coisas.
Minha cunhada mesmo, contando, quando teve de
internar o filho: “Tome aqui para você comprar um
batom, cuide bem dele que amanhã lhe trago mais”.
Como o dinheiro conta neste mundo!
Aliás, ele é tudo para alguns. Outrora, era as!
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
sim?... Não tanto, parece. Ou foi assim em todas
as épocas?...
Vejo, até hoje, junto do leito de meu pai,
médicos que até pernoitavam lá em casa. E não
é só porque naquele tempo tivéssemos melhores
condições financeiras.
Quando ainda criança, adoeci seriamente.
Mamãe mandou chamar o médico, já com o aviso
de que não podia pagar, pelo menos naquele
momento. Ele foi logo e me atendeu com aquela
atenção. E prometeu à minha mãe um diagnóstico mais preciso, depois que consultasse os livros
– tinha uma pequena biblioteca especializada. Voltou, sem que fosse chamado, com informações
precisas sobre a enfermidade e com a receita –
bastou uma para que me curasse.
– Que é isso, Luizinha? Não precisa pagar
nem hoje, nem nunca. Você me estimulou à
pesquisa. Preciso estudar mais.
O capitalismo dominou tudo e todos. É
pena! A dignidade, a valorização do ser humano
contam ainda?... Quem sabe!...
Uma vez conseguida a ansiada UTI, salvação da pátria, coitada da minha irmã: puseram-na
inteiramente despida sobre o leito – homens e
mulheres na mesma sala – ela, uma mulher “com
valores cultivados”, rejeitava aquilo.
Mas teve de se submeter. Nessa hora não
tiveram medo de que ela enfartasse, apesar de
perceberem a sua inquietação – adrenalina não
acelera as batidas do coração? A primeira providência seria tentar eliminar o fator de agressão
(Entrevista: O amor é uma vacina – Dr. Marco
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
!!
Aurélio – extraída da revista Isto É, dada ao grupo
pela Mabel).
Fio prá lá, fio pra cá, tubo pra lá, tubo prá
cá... Minha irmã disse que nem podia se mexer
e... ar refrigerado em cima... ela que tem alergia
ao ar condicionado. Ninguém da família podia
ficar perto; visitas somente das 16 às 17 horas,
uma pessoa de cada vez.
Está certo! Minha irmã contou que, nesses
três dias, não viu sequer a cara de um médico –
Tudo máquina... máquina... Tanta confiança na
máquina!... É só programá-la e... pronto! Mas a
máquina pode falhar, talvez mais que o ser
humano. Meu pai dizia: “O porco só engorda aos
olhos do dono”. Vejam a tragédia com o avião da
TAM. Tantas vidas ceifadas! Ouvi, perplexa, ontem, a entrevista de um comandante da Aeronáutica: “O avião não cai, ele pode ser derrubado”.
Técnica infalível.
Com minha irmã a máquina falhou; teve;
um choque pirogênico que quase a leva de vez.
E não queriam tirar-lhe o soro. Foi preciso que
minha sobrinha “rodasse a baiana”, como se costuma dizer. O médico de plantão entrou no quarto,
olhou, de longe, minha irmã tremendo, a ponto
de balançar a cama, dentes cerrados, braços endurecidos, respiração ofegante e falou: “Ela deve
estar com alguma infecção, pois a temperatura
está alta, mas a pressão está normal, conforme
constatou a enfermeira.”
– P..., retrucou minha sobrinha. “Se está
com infecção deve ter apanhado nesta espelunca.
Isto não é infecção coisa alguma, é choque do
!"
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
soro, a minha filha já teve isto. Se vocês não
tirarem o soro, tiro eu e assumo as conseqüências.”
A muito custo, resolveram fazê-lo, e o terrível mal foi cedendo, cedendo até desaparecer.
A plantonista da UTI ficava numa cabina,
num canto da grande sala, de frente para o computador, sentada numa poltrona. Quando algo
não ia bem lá, olhava, apertava o botãozinho e...
missão cumprida.
A mana disse que precisou urinar; na cama,
não havia campainha, ela gritou, gritou até que
apareceu alguém com uma comadre na mão e...
“tchau”. O recipiente permaneceu ali... quanto
tempo ela não sabe. Sorte é que seu médico,
que não trabalha naquele hospital, foi vê-la, a
pedido nosso, e retirou a comadre.
Pior é que não era necessária a permanência da mana naquele mundo frio. A Beth ouvira
de uma funcionária que estavam esperando vagar
um quarto para transferi-la.
O preço da UTI? É claro, só pesa no bolso
do paciente e sobre os planos de saúde... eles
podem, podem, mas fazem corpo mole: foi pedida à Golden autorização para um ecocardiograma.
Só na véspera da alta, após quatro dias de
internação, é que vieram dois funcionários do
“plano”, munidos de toda aquela aparelhagem,
para fazer o eco. Entenda quem quiser.
A máquina! Se, pelo menos, ela fosse acompanhada do olhar aconchegante de um ser humano, solidário, complacente numa hora destas. “O
amor é uma vacina!”.
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
!#
Dr. Valdir! Que lembrança doce deixou na
nossa memória, no nosso coração; ele assistiu a
minha mãe nos seus últimos dias, em casa mesmo
– soro, oxigênio e tudo. E ele ali – dias seguidos.
Pagamento? Mais tarde... agora não é hora para
isso... podem parcelar... não importa.
Graças a Deus a minha irmã está em casa,
mexendo-se na cama à vontade, levantando-se
sozinha para ir ao sanitário, amparada para o
banho diário, água gostosa que purifica e relaxa.
O medo de ter de voltar ao hospital faz com que
cumpra as recomendações do médico: repouso,
dieta, remédios e todo o cuidado para não se
emocionar.
Bênção dos Céus que a gente possa ainda
ter o cantinho aconchegante do lar, onde a privacidade é respeitada e a autonomia, dom
intransferível, pode ser exercida, amplamente.
Agora, meu sobrinho está brigando com a
Golden, com a Casa de Saúde. Adianta alguma
coisa? Pelo menos, ficarão atentos para que fatos
assim não se repitam com outras pessoas que
recorrem a essas instituições, ansiosas, aflitas, angustiadas, querendo a todo custo salvar a vida
dos que amam.
Adendo 1 – Pensei que tudo houvesse
acabado aí, mas nada. A atuação das máquinas vai
prosseguir. Minha irmã, infelizmente, deve submeter-se a um cateterismo e, talvez, a uma cirurgia de ponte de safena. Agora, meus sentimentos
!$
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
são de gratidão pelas máquinas e por seus inventores; com a ajuda delas vão tentar salvar a vida
da mana, tão preciosa para todos nós.
Adendo 2 – Novamente a técnica falhou.
Minha querida irmã submeteu-se a uma cirurgia
coronariana que os médicos afirmavam ser uma
das mais simples e... Tudo correu bem, “informaram os doutores, senhores da vida e da morte”,
alguém já disse. Mas, no dia seguinte, ao irmos
para a visita, ela não estava na UTI. Ficamos alarmadas ao nos informarem que voltara ao Centro
Cirúrgico. Poucas explicações: um capilar rompera-se ou, o que não confessaram, não fora pinçado
na cirurgia. Em conseqüência: derrame no pulmão... sofrimento de trinta e três dias e... o adeus
para sempre.
VIVENCIANDO HOJE – RECORDANDO ONTEM
!%
Um Episódio da Infância
Luiz Carlos Valente
A
minha infância foi tranqüila, mas
entre os vários episódios que a
marcaram ressalto um dia, quando morávamos no Ipanema, na Lagoa Rodrigo de
Freitas, quando, escondido de minha mãe, entrei
num barco de pesca que estava na margem.
Saí remando desajeitadamente lagoa adentro. Pelas tantas, nos meus 11 anos, fiquei cansado
e o barco, impulsionado pelas marolas, afastou-se
muito da margem.
Não tive medo, mas meu irmão, que tudo
assistia, foi chamar minha mãe que, aflita, pediu a
um pescador que chegava que me trouxesse de
volta.
Não é preciso dizer que recebi umas boas
chineladas e um bom castigo.
Não mais me aventurei a sair de barco,
enquanto criança, isso só voltou a acontecer oito
anos depois, quando passei a remar no Clube de
Regatas Vasco da Gama.
!&
UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA
Vamos Brincar de Comidinha?
Augusta Alvaralhão
C
ada um dá uma coisa!
– Olha, eu trago cenoura, chuchu,
vagem, batata, abóbora, repolho...
– Tudo isso? Perguntaram admiradas.
– É claro, não é, a mamãe está fazendo
cozido e me dará as cascas.
– Pena que não dá pra fazer sobremesa
com casca de banana.
– Dá sim, é tudo de mentirinha.
Hoje, descobriram que o que foi jogado
fora está sendo aproveitado, principalmente pelos
mais carentes.
Progresso?
Miséria?
Graças a Deus conhecemos a “comidinha
de verdade”, e meu pai muito contribuiu para que
nós a apreciássemos, orientando-nos a comer de
tudo. Verduras, legumes e feijão não podiam faltar. Carne e peixe, havia eventualmente. Doces,
apenas em dia de festa, e frutas, as mais comuns,
laranja, banana... Galinha criada em casa, gorda,
VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA?
!'
saudável, dava prazer saboreá-la. Meu pai aproveitava tudo, as tripas, que abria com uma tesoura,
lavava-as bem com limão e as colocava na canja.
O sangue também era aproveitado, porém não me
lembro como. Quando abria a galinha, chamavanos para ver os ovinhos. Uns já quase prontos
para adquirirem casca e outros miudinhos...
Minha mãe não gostava de cozinhar, porém caprichava na sua “comidinha espanhola”, que
ela chamava de sorda. Colocava o bacalhau de
molho e, no dia seguinte, dava uma fervura no
mesmo. Tirava as espinhas, cortando-o em pedaços pequenos. Fazia um refogado com azeite,
cebola, tomate, alho, pimentão, azeitonas pretas e
colorau. Juntava o bacalhau, deixando cozinhar
por pouco tempo em fogo brando, pingando água
até o molho ficar grossinho. Colocava, então, pedaços de pão dormido, cortados em quadradinhos.
Não esquecia do manjericão. Ficava delicioso...
Comidinhas do Natal:
Castanhas cozidas e assadas, nozes, avelãs,
passas, aletria, arroz doce, rabanadas comuns e
rabanadas no vinho. Bacalhoada à portuguesa.
Um tabuleiro bem grande com batatas, cebolas
inteiras, ovos, couve “tronchuda” e azeitonas pretas. Bacalhau partido em postas (tudo previamente cozido). À parte, um molho com bastante alho
socado, azeite português, vinagre e sal. Todos
gostavam e comiam com prazer. Ah! Não posso
esquecer de mencionar algo indispensável: o vinho!
Presentes modestos completavam a alegria
do encontro. Família reunida, família feliz.
"
VAMOS BRINCAR DE COMIDINHA?...
Minha Infância
Luiz Carlos Valente
N
ascido em 21 de junho de 1922,
cheguei ao Brasil no ventre de minha
mãe, com oito meses de gestação.
Meus pais eram portugueses, de natureza
austera, o que fez com que minha educação fosse
rigorosa. Lembro-me de que, aos seis anos, comecei a estudar no jardim de infância do Instituto
Laffayete, onde passava as manhãs brincando com
terra, baldinhos, forminhas e pás.
Tinha um irmão mais novo um ano, que
era doente, com problemas de respiração e ataques de bronquite.
Lembro-me de que, devido à doença de
meu irmão, muitas vezes fui privado de brincar
com outras crianças, por não poder ele participar
das brincadeiras.
Um dia, estava esperando a hora de ir para
o colégio quando, na porta de casa, um cachorro
me atacou, mordendo minha perna. Foi um alvoroço muito grande para laçar o bicho, meu pai foi
atingido pela baba do animal e conseqüente raiva,
indo junto comigo para o Instituto Pasteur.
MINHA INFÂNCIA
"
Confinado em uma jaula, dias depois, o
cachorro morreu de raiva. Nessa época, eu morava na Praça da República; meu irmão, devido ao
seu problema de saúde, foi aconselhado a viajar
para se tratar. Como os padrinhos dele iam a
Portugal, ele partiu com eles, lá permanecendo
por seis meses.
Meu pai, que trabalhava em uma drogaria
desde 1918, resolveu, em 1930, se estabelecer no
ramo de farmácia. Foi quando fomos morar em
Ipanema, na Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma
casa que ele mandou construir.
Fui matriculado no colégio N. Sra. da
Paz, colégio de freiras da matriz da igreja do
mesmo nome. Nesse colégio, aos 11 anos de
idade, fiz a minha primeira comunhão com um
grupo de crianças.
Era uma época feliz onde eu e meu
irmão brincávamos no areal imenso que existia
em volta da Avenida Epitácio Pessoa. Este já
era o nome da pista de carros que até hoje se
mantém.
Lembro-me de que, muitas vezes, minha
mãe saía nos procurando, de cinto na mão, porque não obedecíamos ao chamado dela. A vida
transcorria feliz quando, aos 12 anos, fomos morar
em Niterói, pois meu pai foi obrigado a vender
nossa casa já que os negócios não iam bem na
sua farmácia.
Foi então que meu irmão e eu fomos internados num colégio em Friburgo, de uma família
de poloneses, rigorosos na educação de crianças
e de grande experiência no ensino.
"
MINHA INFÂNCIA
Graças à estadia nesse colégio, onde estudamos durante dois anos, consegui adquirir bons
conhecimentos.
Da minha infância, muito mais teria que
escrever, mas a premência de tempo me obriga a
interromper essa pequena biografia.
MINHA INFÂNCIA
"!
Meu Pai-Avô
Augusta Alvaralhão
G
ordinho, corado, pele lisa, sempre
alegre, assim era o avô de minhas
filhas. Elas o adoravam. Pediam sempre
para visitá-lo.
Para mim e o pai delas usavam o tratamento “você”. Ele não aceitava e dizia: “Você não,
senhor, ouviram?” Consegui contornar a situação,
para não aborrecê-lo, combinando com elas que
para o vovô diriam “senhor”. Travessuras, choro,
denguinho, coisas normais nas crianças que outrora ele jamais aceitara, agora, pacientemente, a
tudo assistia, brincando, rindo... Que bom! Ele
realmente não parecia, de maneira alguma, com o
meu pai, “sem ser avô”. Muitas vezes olhava para
ele, admirada, pensando: “Como era possível alguém mudar tanto?” Mas logo voltava à realidade
e agradecia a Deus por essa graça.
Ele sempre trabalhou como garçom. Uma
vez por mês levava-nos para jantar no local onde
trabalhava.
– Escolham o que quiserem, só não podem pedir feijão e arroz. Hoje tem de ser algo
""
MEU PAI-AVÔ
especial. Por exemplo: uma rãzinha, polvo à moda
da casa, bacalhau na brasa, e tem de comer sobremesa...
Minha mãe dizia-lhe:
– Vai ficar muito caro, como fazer para
pagar?
– Ora, o patrão é camarada. Não é sempre
que tem o prazer de receber, em seu restaurante,
um avô com seis netas.
Eram três minhas e três do meu irmão.
Às quartas-feiras, ele saía do Estácio, passava na feira, e ia carregado para minha casa na
Penha, levando, entre outras coisas, melancia (que
minha filha caçula adorava), bacalhau e azeite,
pois dizia que um bom português não passava
sem eles.
Certa vez, o convite foi para almoçarmos
no restaurante do Pão de Açúcar, onde ele trabalhava naquela época. Passamos um dia maravilhoso, inesquecível. Tudo para nós era novidade,
beleza, surpresa. Ficávamos assustados ao ver o
Rio de Janeiro lá embaixo.
Estive pensando na mudança de comportamento do meu pai e não posso deixar de prestar uma homenagem à minha irmã caçula. Foi ela,
foi ela sim, que conseguiu enfrentá-lo com sua
coragem e persistência, fazendo-o entender o
quanto era importante ser amado. Meu irmão e eu
tínhamos temperamentos iguais, ou seja, éramos
dois medrosos.
A última vez que o vimos foi num aniversário da minha filha, num dia 20 de janeiro, na
residência dele.
MEU PAI-AVÔ
"#
– Garotas, vocês já viram minhas uvas?
(Risada geral). Venham, vamos ao terraço.
Ele havia plantado três tipos de uvas e as
videiras estavam carregadas. Trepou numa cadeira
e, com uma tesoura, começou a cortar os cachos.
As meninas e nós não cabíamos de tanta alegria.
Fomos enchendo vasilhas e, ao mesmo tempo,
comendo-as. Lembro-me bem que ele brincava,
dizendo:
– Ah, é assim? Dois p’ra vocês e uma pra
mim?
– Vô, olha um marimbondo, pega ele!
– Pode deixar, esse não me escapa –
pegava a tesoura e começava a persegui-lo até
cortá-lo.
– Olha aqui mais um, vô, corre senão ele
vai te picar.
– Pai, o senhor vai cair desta cadeira, desce
por favor, já chega de tanta uva!
Ficamos assim até à noite, quando tivemos
de nos despedir. Levamos muita uva. Saímos felizes. As meninas abraçando-o, beijando-o e ele
emocionado, dizendo:
– Calma, minha gente, o mundo não acabou!
Dia 11 de fevereiro seguinte:
– Alô, é Augustinha?
Fiquei sem entender, pois apenas as
pessoas do local onde nasci assim me chamavam.
– Sou eu, por quê?
– Seu pai acaba de falecer, teve um colapso!
"$
MEU PAI-AVÔ
Um Adjetivo
Augusta Alvaralhão
E
la crescia, crescia tanto, que já estava
quase impossível alcançá-la. Mas era
bom...
Causava surpresa a força que tinha e a
alegria que passava para quem na vida tivera tantos desenganos. Estava sendo plantada com muito
carinho, dedicação e respeito, na certeza de que
viveria para sempre. Mas sempre é tempo demais...
Foi alcançada, quebraram-na. Os estilhaços
caíram vertiginosamente, ferindo sem piedade, sem
dar tempo sequer de compreender.
A surpresa continua, mas quem sabe algum dia tudo poderá ser reconstruído? Afinal, a
esperança é a última que morre.
UM ADJETIVO
"%
Beleza Desfeita
Myriam Lanna
E
nfim chegamos.
Luzes e sombras competiam, brejeiras,
uma empurrando a outra, quando a brisa
suave soprava sobre as frondes das árvores enormes que, de mãos dadas, brincavam de ciranda
em volta da lagoa.
O perfume chegava a embriagar-nos – no
céu deve ser assim! Odor dos anjos voantes a nos
envolver por inteiro.
– Dêem as mãos – disse meu cunhado –
a descida é escorregadia. Patinhávamos num tapete
macio de vegetação rasteira e folhas secas que
gritavam ao serem pisoteadas por nós.
Mais embaixo, a lagoa! Sonho ou realidade?... Manhã de outono! Que lindo! O sol, este
malandrão prepotente, insistindo em violentar a
lagoa e ela, virgem casta, fugindo para as margens,
encolhendo-se à sombra das árvores que a protegiam prazerosamente.
Bem junto à picada (em Minas Gerais,
caminho entre vegetações, feito pelos pés dos
caminhantes), o bote à nossa espera, acorrentado
"&
BELEZA DESFEITA
ao tronco de um cedro gigantesco, chocalhava ao
ritmo das ondas, dançarinas incansáveis.
Alojamo-nos. Remo em punho, era vencer
nossas combatentes, que faziam grande resistência à nossa empreitada, como a querer impedir
aquela invasão a seu território inexplorado.
Desviamo-nos de uma enorme prancha de
aguapés – tapete verde, todo bordado pelo veludo de lindas flores brancas; ele também parecia
querer dar proteção à mulher dos seus sonhos –
a lagoa dourada, cobrindo sua nudez misteriosa
com aquela manta de esperança.
Aportados à sombra de um ipê-amarelo,
bote amarrado, anzóis com iscas lançados às águas
impediam-nos de nos extasiar com a variedade de
cores e sons que a natureza milionária e pródiga
nos oferecia.
Aquietamo-nos silenciosos. De repente,
nossos olhos se enlevaram com um bando de
marrecos, lençol branco deslizando em nossa direção. Haviam percebido que estávamos com os
farnéis abarrotados e, sentindo o cheiro do milho
cozido que levávamos como isca para a pesca,
vieram como um exército, mas alçaram a bandeira
de paz, a fim de partilhar conosco da ração devida
a todos os viventes.
Peixes! Milhares! Milhões: traíras, dando
saltos mortais, rodopiando no ar e caindo novamente nas águas esplendorosas; lambaris – cardumes e mais cardumes, lépidos, nadavam, à tona,
em ziguezagues furta-cores; bagres escuros, de
antenas ligadas e ferrões armados, abriam e fechavam a bocarra cortante, metiam-se pelas tocas que
BELEZA DESFEITA
"'
cavavam para depositar e proteger suas ovas – é
preciso defender a vida a todo custo.
Sem dúvida, aquilo era o paraíso que Milton julgara perdido! E eu o encontrara!
Indescritível a sensação quando um gatuno das águas agarrava a isca e ficava preso ao
anzol; ele pulava e girava sobre a lagoa mansa,
levantando coroas de espumas prateadas que se
desfaziam sorrateiras.
Invadíramos o espaço daqueles seres inofensivos, que apenas queriam viver. Eles se debatiam, gemiam de dor e de tristeza, gritavam, alguns, mas o hedonismo que toma conta da humanidade impedia-nos de sermos misericordiosos –
queríamos o nosso gozo, o nosso prazer a despeito de tudo, até da vida, bem maior que
Deus concedeu aos habitantes deste pequeno
planeta.
A paisagem viva renova-se a cada instante:
agora eram as maritacas palradoras que perturbavam a nossa pesca; depois, um bem-te-vi saltitante
que denunciava o nosso crime em alta voz: Bemte-vi... Bem-te-vi...
À tardinha já, um casal de gansos enamorados, brancos como a neve, leves como plumas,
deslizava pelas águas tranqüilas, beijando-se e
abraçando-se carinhosamente e, de vez em quando, girando como um pião, mergulhando a metade
dos corpos à busca de alimento.
Pelas frestas dos troncos grossos que nos
cercavam, começamos a perceber luzes tremeluzindo nos retângulos dos casebres. Que pena! A
noite caíra, era hora do regresso.
#
BELEZA DESFEITA
Aquela imagem – maravilha inesquecível –
fotografada a cores, miniatura valiosa no cérebro
desta que já viveu mais de sete décadas,
perambulou por aí e não se recorda de ter visto
coisa mais bonita, mais extasiante!
Voltei lá algumas vezes. Fui notando mudanças na paisagem. Há mais de vinte anos não
visito aquele local. Soube que é hoje quase um
deserto. A busca do ouro verde – Zona da Mata,
riqueza inexplorada –, iniciada a machadadas na
década de trinta, foi depois completada, clandestinamente, com serras elétricas, ao longo dos anos.
Madeira de lei, troncos que quatro braços
de gigantes não conseguiriam abraçar; cedros
milenares, sucupiras preciosas, perobas que se
encostavam no céu, fincados lá em cima, na
Serrinha, foram levados por causa da ambição do
único ser pensante que povoa este planeta.
Agora, no lugar das florestas encantadas,
residências dos sacis de uma perna só, das bruxas
malvadas e fadas salvadoras, o plantio é de eucaliptos, para que sejam, de tempos em tempos
(cinco anos após o primeiro plantio e, uma vez
cortados, de três em três anos), transformados
em carvão vegetal, destinado à usina siderúrgica de João Monlevade. Lá, em ferro líquido, as
árvores – carvão negro – vão correr pelas tubulações da usina até adquirirem uma forma
determinada.
Cá, na paisagem destruída, fornos de tijolos queimam os eucaliptos, produzindo uma fumaça negra, malcheirosa, espalhando fuligem em
toda a região, causando sérias doenças respiratórias
BELEZA DESFEITA
#
aos poucos moradores que ainda resistem a esta
agressão porque não têm como escapar.
As árvores sedentas estão sugando toda a
água do solo, que se tornou arenoso e improdutivo. Em lugar dos habitantes cantadores, escorpiões enormes, escuros, venenosos, ameaçam a
vida dos trabalhadores.
As lagoas – vinte? trinta? talvez, mas estão
secando –, os peixes se foram para sempre, nenhum matiz naquela região...
Assim é o homem: acaba com aquilo que
recebeu de mão beijada, destrói as belezas que
extasiam os olhos, ambicionando estocar (para
quê?... por que?... por quanto tempo, se a vida é
tão curta?...) o vil metal, desfazendo os sonhos
mais lindos, substituindo-os por uma quimera enganadora.
Ao querido amigo Luiz Carlos, no dia de
seu aniversário – 21/6/1996.
#
BELEZA DESFEITA
Beco
Augusta Alvaralhão
C
ora Coralina emociona-me profundamente quando escreve que o
“Beco” recomenda-se a quem busca o
passado. É verdade.
Carlos Drummond de Andrade, o poeta
maior, diz que Cora Coralina vive em estado de
graça com a poesia, enaltecendo-a pela sua sabedoria. Para mim, principiante na arte de entender
poetas, resta-me a esperança de receber a graça
de sentir a riqueza desta literatura.
Beco... Beco... Muitas lembranças tenho de
ti. Eras o meu caminho pequeno e estreito por
onde desfilei na infância e adolescência. Para ti,
estava voltado aquele portão trancado, que me
impedia de correr abraçada à liberdade, em busca
de muito sonhos.
Beco, por tua causa perdi um grande amor!
Por que exatamente naquele dia ficaste tão sujo,
enlameado? Durante muito tempo fiquei triste,
julgando-te o causador, porém, logo me recuperei, graças às lágrimas que derramava ao
passar por ti.
BECO
#!
O luar das noites claras tornava-te até
poético, ajudando-me a voltar, com alegria, a fazer
várias viagens com uma lata d’água na cabeça.
Buscando o passado, seguindo a sabedoria de Cora Coralina, lembro-me do teu dia de
glória, quando viste aquela menininha desfilar na
tua passarela, vestida de noiva. Pessoas seguravam o grande véu para que não se arrastasse na
poeira, mas nem precisava, tu havias preparado o
cenário, deixando tudo limpo e brilhando, fazendo
com que a noiva-menina, ao passar por ti, tivesse
a impressão de estar flutuando. Ela se despediu,
em busca da felicidade.
#"
BECO
Querida Escola
Augusta Alvaralhão
N
ão gosto de escrever ou falar de
“saudade” pois, para mim, significa algo
que não voltará. Mas, pensando bem,
até que existem algumas lembranças que valem a
pena ser recordadas, apesar da tristeza de sabermos que jamais voltaremos a viver (viver de verdade) os momentos que as proporcionaram.
Escola Rio Grande do Norte. Não preciso
fazer grande esforço para trazê-la para cá. Ameite muito. Contigo e em ti passei momentos maravilhosos. Tu eras minha casa, minha diversão, meu
sorriso, meu refúgio, meus sonhos. Eu te achava
linda, parecias um palácio cheio de salas enormes,
com biblioteca (onde se escondiam meus príncipes, fadas, bruxas, madrastas, etc.). O gabinete
dentário era completo, adorava sentar-me naquela
cadeira que girava, girava... Havia também a sala
para trabalhos manuais, a de religião, o refeitório
e um pátio grande para brincarmos na hora do
recreio.
Fui escolhida para ficar com a chave da
Secretaria. Quando precisavam de algum material,
QUERIDA ESCOLA
##
recorriam a mim que, prontamente, atendia e tinha o maior cuidado em anotar tudo. Aquela
contabilidade de “entra material”, “sai material”,
saldo disto, saldo daquilo, era importante para
mim. Não admitia erros, honestidade acima de
tudo, coisa que meu pai sempre me ensinou.
Certa vez disseram-me: “De hoje em diante
você vai hastear a Bandeira e pode chamar um
colega para ajudá-la”. Fiquei feliz, pois, estava claro,
poderia levar aquele menino louro de olhos verdes.
O uniforme da escola pública, naquele tempo, era muito bonito. Tinha grande orgulho do
meu (só tinha um), sempre impecável. Eu mesma
cuidava dele: saia azul-marinho com pregas, blusa
branca de mangas compridas abotoadas nos pulsos, sapatos pretos, meias brancas, gravata azulmarinho com tiras brancas, que significavam o ano
que estávamos cursando. Pena não ter sequer um
retrato vestida com meu uniforme.
Eu, realmente, gostava de estudar. Pode
parecer falta de modéstia este relato, porém, orgulho-me de ter sido assim. Em todas as classes
era sempre a primeira (que tirava as melhores
notas e, por essa razão, incumbiam-me de diversas tarefas).
Cada turma escolhia dois “pelotões”, aqueles que iriam verificar se o uniforme estava em
ordem, se as unhas estavam cortadas, as orelhas
limpas e, acima de tudo, se os alunos estavam
com piolhos, etc. Como chefe dos “pelotões”,
minha responsabilidade era maior. Usávamos uma
cruz bem larga, de feltro vermelho, no braço
esquerdo. Éramos muito respeitados.
#$
QUERIDA ESCOLA
D. Eunice, a diretora, d. Leonor, subdiretora, e as professoras eram amigas, conseguiam,
com carinho, manter a disciplina. Existia entre nós
um clima familiar.
Um dia, todos ficamos tristes ao sabermos
que nossa professora de história, d. Carmem, ia
sair. Chorando, começamos a cantar:
“Oh! Carmem, Carmencita, morena tão bonita, és linda espanhola, etc.” Esta música estava em
evidência na época, mas não sei quem a cantava.
Resolveram criar o Centro de Brasilidade.
Era composto de presidente, vice-presidente, secretário e um aluno para cada Estado. Tudo foi
feito por meio de votação. Colocaram duas urnas
no pátio e, sob orientação da direção, tudo foi
feito com muito civismo, alegria e respeito. Todos
os dias cantávamos o Hino Nacional, hasteando a
Bandeira. Datas históricas, como o Dia da Independência, da Proclamação da República, da Bandeira, entre outras datas cívicas, eram também
comemoradas. Cantávamos seus respectivos hinos, que achávamos lindos. Ninguém errava.
Chegou o dia da apuração. Todos atentos.
É incrível, mas não me lembro de ter passado por
nossas cabeças que poderíamos ser enganados.
Creio que naquele tempo a palavra “corrupto”
não era uma constante.
Resultado: para Presidente a aluna Augusta
Alvaralhão Souza, com... votos. Para vice-presidente, o aluno... Para secretário... e, assim, sucessivamente.
Era lindo, emocionante, o enorme peso da
responsabilidade, de amor à Pátria. Daí em dianQUERIDA ESCOLA
#%
te, em todas as comemorações, lá estava eu,
pequenina, magrinha, morena com cabelos compridos, pretos e lisos, com meu querido uniforme,
braço direito esticado para frente, dizendo bem
alto para que todos repetissem:
Juro amar a Bandeira
Minha grande Pátria
Que desejo sempre livre
Forte e generosa, etc.
D. Oscarina dava-nos aula de música. D.
Guiomar, de matemática (a matéria de que mais
gostava). A professora de trabalhos manuais, d.
Jane, era uma gracinha, estava sempre rindo. D.
Lúcia, de religião, muito nos ajudou. Hoje penso
que ela devia ser psicóloga.
Quero escrever sobre os demais, inclusive
as serventes, o pessoal da cozinha, mas este relato
ficará muito longo e, assim sendo, resumo dizendo
que foram todos muito importantes na minha vida,
que jamais os esquecerei.
Quanto à convivência com colegas e amigos, ficará para um próximo trabalho, naturalmente.
Fiquei cinco anos nessa escola. Recebi
diploma com louvor. Nela aprendi a amar, respeitar, acreditar, a ser feliz.
Vocês acreditam que era uma escola pública para crianças, em sua maioria, pobres? Pergunto-me, por que hoje é tão diferente?
É triste observarmos a deterioração do
ensino, a exploração do professor, a falta de amor
e respeito às crianças, a falta de civismo.
#&
QUERIDA ESCOLA
Hoje, as crianças crescem sem saber sequer cantar o Hino Nacional.
Acorda, Brasil, deixa de ser covarde, luta,
não fiques apenas esperando que Deus te ajude!!!
QUERIDA ESCOLA
#'
Vida Nova
Augusta Alvaralhão
S
urpresa... Olhos curiosos observando
admirados aquele casarão velho, no
centro de tanto espaço... Viu-se imediatamente correndo, brincando, cantando feliz. Os
irmãos acordaram e juntaram-se a ela, mesmo sem
entenderem porque estava ali. Avistou uma varanda comprida, pintada de azul, com muitas plantas
e uma mesa grande com dois bancos feitos de
madeira. Aproximou-se para admirar de perto algumas flores que ainda não conhecia e que, mais
tarde, veio a saber que eram azaléias, espirradeiras
e manacás. Não se cansava de aspirar o perfume
suave que exalavam. Decidiu fazer dali o local de
encontro com os livros.
Ficou encantada com a horta, verdinha,
brilhando com o orvalho que sobre ela caía. Um
pequeno córrego, com agrião, completava a beleza do lugar.
O lampião, ah!, o lampião... Que susto! Ao
pegá-lo, para que fosse limpo, deixou-o cair e
quebrou-se. E agora?, pensava assustada. Queria
contar à sua mãe, mas não tinha coragem. Resolveu
$
VIDA NOVA
esperar que ela descobrisse. Porém, o tempo
passava... passava... e nada. Não agüentou a ansiedade e resolveu falar: “Mãe, quebrei o lampião,
me bate de uma vez, pois quero ficar livre”. A mãe
olhou para ela e, sacudindo a cabeça, começou a
rir.
Certa vez, acordou com o barulho de temporal e a mãe chamando-os: “Vamos crianças,
rápido, peguem algumas vasilhas e corram para
apanhar as frutas que estão caindo”. Ela também
foi. “Depressa – dizia – e não deixem seus avós
perceberem”. Foi até divertido, riam baixinho, correndo de um lado para outro, molhados, catando
o que viam pela frente. Por que aquele medo?
Afinal, não estavam na casa dos avós que vieram
de Portugal? Percebeu que não gostavam da mãe,
tampouco deles.
Matricularam-na na mesma escola em que
os irmãos estudavam. Uniforme simples, material
escolar numa sacola de pano, feita pela mãe.
Caminhava feliz, pensando que, finalmente, ia
realizar seu grande sonho: aprender a ler de
verdade. Não precisaria mais inventar histórias,
fingindo que estava lendo. Estudou com tanta
vontade que, em um ano, chegou à terceira série.
As professoras, vendo seu interesse pela leitura,
emprestavam-lhe revistas, livros, porém “tudo era
nada”, pois queria sempre mais.
Um dia, ao chegar em casa, percebeu algo
diferente. Os pais traçavam planos que ela não
entendia e os irmãos, agitados, contentes, disseram-lhe que todos iam embora. É verdade sim,
VIDA NOVA
$
pergunta ao papai. Não foi preciso, logo entendeu
que voltariam para a casinha humilde do morro,
pois os avós maternos retornariam à Espanha.
Que pena, a vida nova foi tão curtinha!...
$
VIDA NOVA
Escola Risonha e Franca
Myriam Lanna
U
m pouco tradicional na sua arquitetura: seis grandes janelas abertas para
a praça da cidade, largos corredores,
salas enormes, claras, cheias de carteiras enfileiradas,
quadros-negros montados em cavaletes de madeira. Este, mais ou menos, o perfil da escola onde
fiz o curso básico, o Grupo Escolar Dr. Cupertino,
legenda que ostentava lá no topo, altaneira como
o nome que versava.
Dr. José Cupertino fora um dos políticos
da cidade de Rio Casca, em Minas Gerais, onde
passei alguns anos de minha infância. Astuto, como
todos os políticos, depressa fizera carreira: vereador, prefeito, deputado e, por fim, senador da
República. Quase nada realizara na cidade, mas a
sua memória lá estava plantada e a gente reverenciava o “notável” representante daquele povo
humilde que se evadira para a Capital, na época,
o Rio de Janeiro.
A diretora – que os alunos não queriam
bem – sabia cumprir seu dever, mas intransigente,
nada compreensiva, tratava-os como se estivessem
ESCOLA RISONHA E FRANCA
$!
servindo ao Exército. Aplicava castigos que os
humilhavam. Recordo-me de um que fez as crianças
chorarem: ordenou que os retardatários desfilassem
por todas as salas de aula. Foi horrível! Em compensação, as mestras eram amadas e dedicavam-se de
verdade! Chegavam a peregrinar pelas fazendas e
sítios em busca dos alunos que se evadiam.
Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um
povo heróico, o brado retumbante.
Todos em fila no pátio, posição de sentido,
cabeças erguidas, braços junto ao corpo, pés
juntinhos em direção à frente, cantávamos uma vez
por semana e nas datas nacionais o hino, que indicava sermos um país livre, grandioso e belo, de
povo corajoso e forte. No final, uma voz patriótica
transmitia um grande amor por esta nação gloriosa,
gritava: “Viva o Brasil! Viiivaaaa!”, respondiam todos.
Década de 30. Iniciava a minha vida escolar. Não me recordo de ter sido alfabetizada na
escola. Devo ter aprendido a ler e escrever com
minhas irmãs ou com a professora que ia à minha
casa, quando ainda morávamos na fazenda.
Estão bem vivas na minha memória as aulas
de aritmética no grupo escolar: D. Zizinha era
autodidata, escrevia a tabuada no quadro, lia em
voz alta, fazia com que a lêssemos em conjunto,
depois cantava conosco: “3 x 4 = 12; 6 x 3 = 18;
6 x 8 = 48.”
“Agora, olhos fechados, vamos: 4 x 9 = 36;
5 x 7 = 35”. Apagava o quadro, argüía um por um,
salteava, e só depois começava a parte prática: fazer
$"
ESCOLA RISONHA E FRANCA
as contas na lousa, no caderno. Elogio para quem
acertasse. Marcava tarefa para casa: aquelas operações intermináveis, somar, subtrair, dividir, estas
últimas, as mais difíceis – natureza humana de fato
pequena. Desde sempre não gostou de dividir.
E as aulas de língua pátria! Bonito nome!
(Hoje, comunicação e expressão, pouco diz e
pouco ensina). Textos escolhidos com esmero –
os nossos melhores – que despertavam em nós
um amor enorme por este enorme país.
Ama com fé e orgulho a terra em que
nasceste!
Criança, não verás nenhum país como este.
Olha que céu, que mar, que rios, que
florestas!
A natureza aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinho.
(Olavo Bilac)
Textos que nos educavam; eu os sei de
cor até hoje:
Armas num galho de árvore um alçapão
E em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas, cai na escravidão.
Dás-lhe, então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada!
Dás-lhe alpiste, água fresca, ovos e tudo.
Por que é que tendo tudo
há de ficar
O passarinho mudo, arrepiado e triste sem
cantar?
ESCOLA RISONHA E FRANCA
$#
É que, criança, os pássaros não falam
Gorjeando, apenas, a sua cor exalam
Sem que os homens os possam entender!
Se os pássaros falassem
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
Não quero o teu alpiste,
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre, em que voar me viste;
Tenho água fresca no recanto escuro,
No bosque em que nasci,
Tenho frutas e flores,
Sem precisar de ti!
Deixa-me! Quero o sol!
Quero o ar livre e o perfume da floresta!
Quero o esplendor da natureza em festa!
Quero cantar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Soltar minhas tristíssimas cantigas
Por que me prendes?
Solta-me, covarde; não me roubes a minha liberdade
Deus me deu, por gaiola, a imensidade
Quero voar... voar...
Estas coisas os pássaros diriam
Se pudessem os pássaros falar.
A tua alma, criança, sentiria
Uma imensa aflição
$$
ESCOLA RISONHA E FRANCA
E tua mão, tremendo, lhe abriria
As portas da prisão!
(Olavo Bilac)
Um por um fazia a leitura, de pé, livro
aberto na mão esquerda (a direita não podia
apontar) à altura do peito, aprendendo a dar
entonação à voz nos diálogos, nas mudanças de
interlocutor. A pontuação era exigida rigorosamente: “Levantem a voz nas vírgulas, meus alunos, abaixem-na nos pontos; dêem-lhe um tom
diferente nas exclamações, nas interrogações, nas
reticências. Vivam o que estão lendo!” – dizia
nossa professora, que sempre nos mandava fazer
leitura silenciosa do texto, antes que fosse lido em
voz alta.
Argüía salteadamente – tínhamos que acompanhar o tempo todo. E quando o texto permitia,
mandava que o dramatizássemos, como fazia com
os principais fatos da história do Brasil. Escolhia
sempre uma fábula, com máximas cheias de sabedoria, pois estava certa de que isto contribuiria
para moldar nosso caráter, educar-nos para a vida.
As professoras se empenhavam ao máximo, a gente sentia e isto marcava, estimulava.
Escola pobre, paupérrima, nenhum material escolar. Livros?... Copiávamos as lições escritas no
quadro-negro. Uniformes? Íamos de roupa comum.
Merenda escolar? Nunca se pensou nisto. E mais
de noventa por cento dos alunos eram carentes.
Mas, como mencionei anteriormente, as
mestras desdobravam-se. D. Chica, a professora
de artes, não sei onde arranjava a argila (barro
ESCOLA RISONHA E FRANCA
$%
branco natural) que nos levava para que pudéssemos esculpir algo – descobrindo os artistas latentes.
Não me esqueço das aulas práticas de
história natural. Dois a dois, desfilávamos em silêncio pelas ruas até a casa da professora. Lá, em
várias amoreiras, estavam os casulos do bicho-daseda. Lá, ela nos mostrava como os abandonavam
lagartas enormes famintas, que se punham a devorar as folhas das amoreiras. Abria, então, os
casulos e puxava aquele fio brilhante, quase transparente, que era forte e não tinha fim.
E o apiário no fundo do quintal? Para que
não houvesse evasão das abelhas, d. Chica tinha
um jardim enorme, flores lindas e perfumadas que
ela mesma cultivava, pois não dispunha de meios
para manter um jardineiro.
Fomos também, em outra oportunidade,
ver a saída das borboletas daquele invólucro
misterioso, onde permaneciam dormindo até que
se efetivasse a metamorfose. Ela aproveitava para
dar-nos lições de vida:
“Não sejam como as borboletas, tão diferentes das abelhas laboriosas que trabalham o dia
inteiro para nos dar alimento tão saboroso e tão
nutritivo”. E reforçava: “Não sejam como estas
tontas borboletas tão diferentes dos bichos-deseda que fiam para nos vestir. As borboletas,
belas, é verdade, mas levianas, dormem, dormem, dormem e quando despertam voejam por
aí beijando as flores até que encontram uma
flor venenosa e ali mesmo jazem inertes”. E
cantava conosco:
$&
ESCOLA RISONHA E FRANCA
Quando queremos gozar mil prazeres nesta lida
A morte vamos buscar, pensando buscar a vida.
O meu amor maior, porém, foi para com
a responsável pela turma. Era um ser de outro
planeta diríamos hoje, um ET. Sabia elogiar na
hora certa: “Vejam a Laura – vem da roça para a
escola, anda mais de cinco quilômetros a pé,
descalça, para não sujar os sapatos. Na entrada da
cidade, arranja como lavar os pés e se calçar.
Reparem, meus alunos, ela está sempre limpinha
e penteada, e o que é melhor: nunca chegou
atrasada, nunca deixou de fazer suas tarefas”.
Laura era uma mulata alta, de traços finos
e cabelos de ondas largas. Tinha o porte de princesa, apesar da tez queimada pelo sol tropical e
das mãos calejadas pelo manejo da enxada. Não
era como nós, peraltas e inquietos, sabia se comportar.
A nossa professora sabia também exigir
disciplina e castigar na hora certa: “Menino desobediente, fique de pé, ali no canto, voltado para
a parede”.
D. Zizinha, a nossa admirável mestra, demonstrava por nós um amor mais do que maternal. Sabia-se, na cidade, que ela tinha o grande e
frustrado desejo de ser mãe, por isso, quem sabe,
penso agora, transferisse para nós toda a riqueza
daquele incomensurável coração.
Levava-nos sempre à sua chácara, situada
no final de uma das ruas da cidade, a fim de
ensaiar conosco para as comemorações patrióticas, para completar as tarefas escolares, para que,
ESCOLA RISONHA E FRANCA
$'
ocultamente, saboreássemos os frutos do grande
pomar de sua casa.
O marido era carrancudo e não suportava
barulho de criança. Tínhamos de subir as escadas
pé ante pé, pois sua farmácia ficava no andar de
baixo. Uma vez em cima, tirávamos os sapatos a
fim de não incomodar o exigente farmacêutico.
Mas a liberdade era recuperada quando
chegávamos ao pomar. Que riqueza de frutos
tropicais: abius, jabuticabas, pitangas, amoras,
mangas e mexericas. Comíamos à vontade. Ela
aproveitava para dar lições de higiene e saúde.
“Lavem as frutas e as mãos naquela bica”. Água
cristalina, originária de uma misteriosa mina, esbanjava-se em cascatas sobre pedras brancas como
gelo. Ensinava que as frutas eram o alimento mais
saudável para crianças: faziam a gente crescer e
protegiam o organismo contra doenças.
De repente, caía do alto, como vinda do
céu, uma enorme fruta-de-conde. A um sinal de
assentimento de d. Zizinha, corríamos para apanhála, lavá-la e reparti-la entre nós: as sementes envoltas em flocos brancos, semelhantes, ao algodão, enchiam nossa boca d’água.
Como os frutos nos sabem doces quando
a infância bafeja nossa existência! Pena que isto
nos seja agora indiferente! Já provamos tantos
dissabores pela vida afora!
“Aproxima-se o Dia da Bandeira. Vamos
recordar o “hino”, dizia nossa professora:
Salve lindo pendão da esperança
Salve símbolo augusto da paz
%
ESCOLA RISONHA E FRANCA
Tua nobre presença a lembrança
Da grandeza da Pátria nos traz.
Verde, cor das nossas matas! Amarelo, o subsolo
rico em ouro. Azul, este céu lindo, ostentando o Cruzeiro
do Sul. Branco – a paz, sempre a paz, apesar de tudo.
E a legenda “Ordem e Progresso”, como fala a nós,
brasileiros!
Nossas vozes infantis atraíam os animais,
que ela mantinha no seu pequeno bosque encantado: um jabuti caminhava preguiçosamente em
nossas direção, vinha reverenciar conosco a bandeira nacional; um bando de pintassilgos lépidos
e multicores bicavam o solo, depois olhavam temerosos para nós.
Nossa professora voltava à sua função de
educadora para a vida.
“Olhem naquela árvore o joão-de-barro
construindo a sua casinha. Os pássaros nos ensinam tanto! Vamos tentar imitar este bichinho: ele
voa léguas e léguas à procura de um riacho, de
cujas margens traz uma bolinha de barro no minúsculo bico. Faz centenas de viagens para construir sua casinha”. E continuava. “Reparem que é
arquiteto, pois constrói uma repartição para preservar os ovos e depois os filhotes dos olhares
indiscretos e do vento ameaçador. Vamos ser como
o joão-de-barro, meus alunos, vamos trabalhar
sempre, vamos edificar nossas vidas em sólidos
alicerces, vamos levantar a moradia dos nossos
sonhos, ainda que, para isso, tenhamos que labutar muito, voar muito, trazer nos nossos biquinhos
ESCOLA RISONHA E FRANCA
%
frágeis o barro misterioso que nos protegerá das
intempéries da vida”.
Não resta dúvida de que estas mulheres
admiráveis exerceram grande influência em mim:
desde pequena quis ser professora como elas e o
fui. Desejei passar com seriedade ensinamentos
imutáveis – o cedro não pode vergar-se ao vento
do norte –, tentei ensinar àqueles que despontam
para a vida, conhecimentos que os conduziriam à
felicidade. Desejei, como elas, ser amada pelos
pequenos, amor puro, desinteressado, sublime
mesmo, causa de realização total de uma existência obscura, mas rica no essencial – no amor!!!
%
ESCOLA RISONHA E FRANCA
Meu Colégio Interno
Luiz Carlos Valente
E
m 1934, aos 12 anos de idade, meus
pais me colocaram em um colégio
interno, na cidade de Nova Friburgo. O
nome deste colégio era “Educação e Saber”. Por
um ano e meio, passei muitos momentos de tristeza e poucos de alegria. Éramos 12 crianças, que
variavam entre 10 e 12 anos de idade.
Nosso mestre era o próprio diretor; ele e
sua mulher atuavam, ensinando-nos. Os dois,
naturais do Paraná, eram filhos de poloneses e
muito rigorosos com a disciplina e a educação. O
seu rigor levava, às vezes, a castigar os alunos,
com proibição de sair nos fins de semana. Em
outras ocasiões, ficávamos em pé, à frente de sua
mesa de estudos, de braços abertos em cruz. Ao
menor movimento que fizéssemos com os braços
e as mãos, ele aplicava uma pancada com uma
vara comprida. Hoje isso seria considerado uma
violência, mas reconheço que nos tornamos aplicados e comportados.
Acordávamos muito cedo e, no inverno,
ainda escuro, antes do café, corríamos em volta
MEU COLÉGIO INTERNO
%!
do prédio várias vezes para, em seguida, tomarmos banho de água fria. A temperatura média em
Friburgo é de 5-7ºC. Recordo-me de que, dentro
do chuveiro, uma névoa densa cobria todo o
recinto, provocada pelos corpos aquecidos.
Os ensinamentos foram de grande proveito, pois, ao sair deste colégio, obtive, em outros
escolas, boas notas. Das matérias, as que mais me
interessavam eram geografia e história do Brasil.
O prédio do colégio era todo de madeira,
no estilo colonial alemão, com janelas largas, em
guilhotina. Tínhamos, nos fundos, uma grande
quantidade de árvores frutíferas, onde se destacavam as jabuticabeiras.
Sentíamos muitas saudades de nossos pais,
pois, os menos favorecidos financeiramente, raras
vezes viajavam ao Rio de Janeiro.
Ao término desse período, ficou em minha
lembrança a grande experiência do ensino em um
colégio interno, que hoje considero como tendo
sido dos melhores.
%"
MEU COLÉGIO INTERNO
Agradável Momento
Luiz Carlos Valente
N
o dia 17 de agosto, participei de um
encontro com pessoas queridas. A
amiga Diva oferecia um chá de gratidão
pelo seu restabelecimento de uma cirurgia a que
foi submetida.
Em cerca de cinqüenta mesas, as pessoas,
em sua maioria senhoras, confraternizaram-se com
a Diva, que não cabia em si de felicidade pelas
gentilezas que recebia. Foi servido um farto buffet
de salgadinhos, doces, belíssimas e gostosas tortas.
Para alegrar mais a reunião, Diva e umas
amigas premiaram os presentes cantando músicas
do nosso cancioneiro. A anfitriã ainda sorteou
para os convidados muitos brindes.
Esse momento agradável teve por local o
abrigo para crianças Lar Amália Franco, instituição
das mais antigas no auxílio às crianças do sexo
feminino, carentes e sem lar.
Diva é uma pessoa atuante na instituição,
pois, como professora, se dedica à instituição uma
vez por semana, ministrando orientação pedagógica de alto nível.
AGRADÁVEL MOMENTO
%#
Em retribuição pela gentileza da casa que
cedeu o espaço, os presentes contribuíram para a
construção da futura creche, chegando a arrecadar mais de setecentos reais.
Ao término da reunião, todos cantaram a
música “Pela estrada do bosque”, com letra
psicografada por um médium anônimo, que passo
a transcrever.
Estrada do Bem
Brilha no firmamento novo luar!
Uma verdade imensa anda a cantar!
A humanidade que chora passa a sorrir!
Pois uma estrada infinita, vi palmilhar...
Esta é uma estrada florida
É o caminho da vida!
Que se estende ao Além,
E quem a tiver palmilhado
O presente e o passado
Tornará tudo em bem
Assim, do mal, o espinho
Há de se tornar carinho
E as eclosões da luz
Hão de vir com Jesus!
Vem ver esta estrada tão linda
Entre muitas, infinda
É a estrada do amor!
%$
AGRADÁVEL MOMENTO
Termino com uma frase muito conhecida
da benemérita Amália Franco:
A lágrima mais sentida é a do órfão desvalido.
AGRADÁVEL MOMENTO
%%
Minha Mãe
Augusta Alvaralhão
F
inalmente alguém se lembrou de me
pedir que escrevesse sobre minha mãe.
Grata, querida amiga, por esta oportunidade. Acreditem, estou muito emocionada.
Por que não tomei eu mesma esta iniciativa? Ela merecia!
Tenho poucas recordações de minha mãe,
pois fui criada, até os nove anos, por meus avós
maternos. Minha mãe estava quase sempre doente
e não consigo me lembrar de seu sorriso. Sentia
que ela não era feliz, mas amava meu pai. Sei que
ela veio da Espanha (era muito bonita) com 19
anos, junto com a mãe dela, encontrar-se com o
pai e um irmão.
Aqui chegando, conheceu meu pai e se
casaram. Ficaram morando num “barraco”, próximo ao dos pais dela. Creio que me deixaram com
meus avós porque, um ano e meio após meu
nascimento, nasceu mais uma criança (dessa vez
um menino).
Quase não sei mais de nada a respeito da
vida deles. Lembro-me dela, magrinha, morena,
%&
MINHA MÃE
com cabelos castanhos escuros, lisos e compridos.
Assustava-se com os temporais, cobrindo os espelhos, dizendo “Louvado seja Deus”, toda vez que
ocorria um relâmpago ou trovão. Quando queria
resolver qualquer coisa, falava primeiro com meu
pai. Ele era muito genioso, e ela, assim como nós,
ficávamos com medo. Quantas vezes deixou de ir
ao médico porque nós lhe pedíamos que não nos
deixasse ficar sozinhos com ele.
Mesmo assim, nem sei como, conseguia
comprar algumas roupas, baratas, mas bonitinhas
(normalmente à prestação), num turco que vendia
de porta em porta.
Assustava-se, quando meu pai e nós demorávamos. Ela saía, a qualquer hora, com chuva
e frio e ia para a entrada do “Beco”, esperar-nos.
Eu a preocupei, muitas vezes. Como meu pai não
me deixava sair (exceto para trabalhar), eu fazia
“gazeta”, principalmente na aula de inglês, e ia
com os colegas dançar no Orfeão Português, ao
cinema e, até mesmo, namorar. Distraía-me e,
quando olhava as horas, corria desesperada, porque sabia que minha mãe lá estaria, como sempre,
esperando-me angustiada, principalmente com
medo de que meu pai chegasse. Não me lembro
de ter apanhado dela.
Sempre trabalhei muito, ajudava-a nos afazeres da casa, mas jamais me perdoei por lhe ter
causado tanta preocupação. Não fui a filha que ela
merecia.
Com 49 anos, seu estado de saúde
agravou-se. Eu já estava casada, tinha uma filha
de três anos e estava grávida da segunda. Ela teve
MINHA MÃE
%'
de ser internada na Santa Casa de Misericórdia.
Toda semana, apesar da barriga enorme, eu saía
da Penha para visitá-la. Era terrível. Quando eu
estava com quase nove meses de gravidez, ela
faleceu.
Disseram-me que morreu chamando por
mim. Parece incrível mas, exatamente nesse dia,
não consegui visitá-la. Os ônibus estavam em greve.
Fiz de tudo, mas quando cheguei ao hospital, já
era tarde. É tudo muito triste de contar, mas devia
isto a ela.
&
MINHA MÃE
Os Doces de Minha Mãe e
de Minha Mulher
Luiz Carlos Valente
E
m criança, pouco me recordo dos
doces de minha mãe; só depois de
adolescente, em nossos aniversários,
éramos brindados com guloseimas que minha mãe
fazia.
A mesa então se enfeitava com brigadeiro,
olho-de-sogra, mãe-benta, biscoito de coco,
cajuzinho, manjar do céu, quindim de coco, torta
de banana, bolo de chocolate.
Nas ocasiões em que tínhamos visitas, minha mãe preparava também alguns salgadinhos,
como pastéis de carne, de queijo e de camarão,
empadinhas de vários sabores e panquecas de
banana.
Minha mulher herdou de minha mãe o
prazer de fazer doces, alguns que ela lhe ensinou,
outros que aprendeu com a tia dela.
Quando nosso filho aniversariava, além dos
doces já enumerados, surgiam, à mesa, bolo de laranja,
torta de maçã, pudim de coco, pudim de laranja,
bombocados de laranja, bolo de coco e o famoso bolo
do aniversariante, com suas velinhas acesas.
OS DOCES DE MINHA MÃE E DE MINHA MULHER
&
No Natal, era a vez das rabanadas, da aletria,
do pão-de-ló e alguns pudins. Na ceia, como meus
pais e meu sogro eram portugueses, preparava-se
o bacalhau de vários modos, entre eles o Gomes
de Sá, o bacalhau à portuguesa e, também, à
espanhola. Esses diferentes pratos à base de bacalhau não eram preparados simultaneamente, mas
sim escolhidos, um para cada Natal.
Em ocasiões não festivas, tanto minha mãe
como minha mulher gostavam, de vez em quando, de nos alegrar com guloseimas.
&
OS DOCES DE MINHA MÃE E DE MINHA MULHER
Falando de Amor
Augusta Alvaralhão
S
onhava com uma casinha branca,
jardim e muitas flores. Não queria
castelo, mas não conseguia impedir que
um lindo príncipe invadisse seus pensamentos.
Quando menos esperava, ele apareceu-lhe, disfarçado num bonito jovem, que, olhando-a com
admiração, perguntou-lhe: “Posso acompanhá-la?’
Seguiu-a, fazendo-lhe todas as vontades, amandoa e respeitando-a. Escrevia-lhe belos poemas. Ela
achava graça quando ele lhe dizia: “Você é minha
musa inspiradora”. Criança, não entendia tanta
beleza e foi, com sua ingenuidade, ferindo-o,
fazendo-o perceber que aquela musa jamais seria
dele.
Ela teve certeza disso ao conhecer um
jovem cadete, simpático, educado, diferente. Sentia prazer em encontrá-lo e pensava muito nele.
De segunda a sexta-feira, acompanhava-a, à noite,
até o curso. Certa vez, uma colega disse-lhe que
o noivo dela tinha um amigo que queria conhecêla. Combinaram sair antes da aula de inglês para
irem ao cinema. Apresentações. O rapaz, eleganteFALANDO DE AMOR
&!
mente, segurou-lhe o braço para atravessarem a
rua, porém, ela ao olhar para o outro lado, avistou
o namorado. Afastou-se de todos e voltou
correndo para a sala de aula. E agora? Precisava
“bolar” algo. Às 22h saiu e lá estava ele, esperando-a.
– Olha aqui, não gostei da sua atitude,
disse-lhe ela.
– Ah! Você é que não gostou?
– Claro, não percebeu que fiz de propósito? Não vou admitir que fique me vigiando.
Ele ficou meio atônito, tentando esclarecer, mas ela, determinada, disse-lhe que estava
tudo acabado. Apesar da insistência dele, não
voltou atrás.
Navio-escola “La Argentina”, Cais do Porto,
Praça Mauá. Encontro casual com o cadete Juan
Lobo, residente em Buenos Aires, Argentina –
assim apresentou-se o rapaz, moreno, bonito, falando em castelhano. Ela possuía bastante conhecimento da língua e tudo se tornou mais fácil.
Levou-a para conhecer o navio, apresentou-lhe
alguns amigos. Saíram para visitar alguns pontos
turísticos e foram ao cinema.
Enfim, aproveitaram ao máximo os cinco
dias que o navio ficou atracado. A partida foi
triste, pois ainda que pareça incrível, no pouco
tempo que estiveram juntos, sentiram grande afinidade. Teria sido “amor à primeira vista”? Ele
prometeu-lhe escrever sempre. Assim o fez. Ela
recebeu 32 cartas, lindas, amorosas, escritas de
&"
FALANDO DE AMOR
diversos países, cheias de esperança e da certeza
de ficarem juntos para sempre. Finalmente, ele
voltou para a Argentina. Escreveu-lhe sobre a
possibilidade de se casarem por procuração, uma
vez que ele, como militar, não poderia vir. Surpresa, emoção, alegria e medo foram os sentimentos
que a surpreenderam. Nada sabia a respeito. Os
primos dela, que moravam em Buenos Aires, inteirados do fato, procuraram-no para informações
e tiveram ótima impressão dele e da família.
Prontificaram-se, inclusive, se ela assim o desejasse, a tratar do necessário. Aí entrou o medo, a
covardia. E o pai? Jamais permitiria aquilo, ela bem
o conhecia. Não teve sequer coragem de falar-lhe
a respeito.
Sonhos desfeitos, palavras perdidas. Ela
nunca se perdoou, pois, através do tempo, percebeu que isso mudara seu destino.
FALANDO DE AMOR
&#
Alguém
Luiz Carlos Valente
N
os primeiros meses de nosso casamento
até que não nos importamos com a
demora de uma gravidez, mas, um ano
após, minha mulher e eu procuramos um médico
que indicou um tratamento para apressar a vinda
de nosso filho.
No dia 2/3/1950, recebíamos, com alegria,
aquele que viria a ser nosso único filho, que,
batizado, recebeu o nome de Luiz Cláudio. A sua
infância foi toda cercada de carinhos pelos que o
amavam. Foi uma criança estudiosa, pois, logo no
primeiro colégio – Colégio Nossa Senhora de Lurdes
– tornou-se o melhor aluno, o que lhe valeu,
durante dois anos, a conquista de várias medalhas.
Ao ser transferido para a Escola Pública Municipal
barão Homem de Melo, continuou sendo um aluno aplicado, o primeiro da classe.
Aos dez anos, foi matriculado no Externato do Colégio Marista São José para cursar o
admissão. Sendo sempre o primeiro da turma, participou do coral orfeônico, não porque tivesse
boa voz para o canto, mas por ser dos melhores
&$
ALGUÉM
alunos. Luiz Cláudio gostava muito de esportes e,
nessa época, começou a jogar futebol de salão,
hoje conhecido como futsal, participando desse
esporte até os 18 anos, quando foi campeão infantojuvenil, juvenil e aspirante pela Associação Atlética
de Vila Isabel. Ao sair do Colégio São José, por
motivos econômicos, fez o concurso de admissão
para o Colégio Pedro II, onde se classificou entre
os primeiros.
Luiz Cláudio era muito inteligente, pois
mesmo não se dedicando às aulas do Pedro II,
terminou o ginasial e o complementar. Em 1966,
fez o concurso de admissão ao Colégio Naval,
tendo sido aprovado mas, com se dedicava muito
ao esporte, não seguiu carreira na Marinha. Em
1967, cursou a Escola Técnica Celso Suckow da
Fonseca, até o final do ano de 1968.
Nosso filho Luiz Cláudio, sempre dedicado
ao futebol de salão, só começou a trabalhar aos
20 anos de idade, no Banco Lar Brasileiro, depois
no Banco Crédito Nacional, onde conseguiu boa
posição, atuando, pelo banco, no mercado de
capitais. Nessa época, ambicioso quanto ao futuro,
resolveu fazer concurso para Petrobrás, tendo sido
admitido na Reduc, entre milhares de candidatos,
em março de 1972.
Infelizmente, depois de um ano, deixou o
cargo, pois não se adaptou aos horários de turnos. Foi o grande erro de sua vida. Veio depois
a conhecer uma moça que virou sua cabeça
durante um ano. Ao final do ano de 1973, conheceu outra moça por quem se apaixonou, casandose com ela em 1974. Foi quando os dois passaram
ALGUÉM
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a se dedicar ao artesanato, com trabalhos de
quadros de linha e artigos em madeira. O tipo de
vida que ele e a mulher levavam, devido ao trabalho extenuante, causava grande preocupação à
mãe, que não se conformava com o fato dele,
com a inteligência que tinha, preferir aquele trabalho.
Viajava muito com o carro, um TL da Volks,
de segunda mão, procurando, no interior, feiras
de artesanato. Em setembro de 1977, nascia o
filho dele, Luiz Alexandre. Nem esse acontecimento impediu que continuasse com aquele trabalho,
de que ele e a mulher gostavam.
Em 1980, foi morar em São Lourenço, Minas
Gerais, cidade que lhes pareceu ser um bom
mercado de trabalho, uma vez que ficava próxima
de outras cidades turísticas, onde o artesanato era
muito procurado. Sempre vivendo com muito
sacrifício, em 1982, saíram de São Lourenço e
vieram morar comigo e a mãe, em Maricá, Estado
do Rio, onde já residíamos desde 1980. Nessa casa
havia uma garagem onde ele instalou sua oficina,
com sua serra circular, sua lixadeira e máquina de
furar; perto de nós, pudemos constatar a sua luta,
num trabalho pouco rendoso e de muito sacrifício.
Muitas vezes, já tarde da noite, ele e a
mulher ficavam colando as peças de madeira para
formarem seus porta-retratos de vários tamanhos,
suas janelinhas-porta-chaves, seus cabides-sanfona
e outros artigos, tudo em madeira.
Em 1985, Odalisca e eu vendemos a casa
e viemos morar em um apartamento em Vila Isabel, ficando Luiz Cláudio e a mulher (Valéria
&&
ALGUÉM
Regina) morando em casa alugada e com uma
pequena oficina, perto da cidade de Maricá. Algumas vezes, íamos visitá-los, quando, em 1986, ele
passou a ter problemas de saúde, emagrecendo
consideravelmente, de tal maneira que, em março
de 1987, veio a falecer no Hospital do Câncer,
com os pulmões afetados por esse terrível mal.
“Alguém com uma vida inglória”.
ALGUÉM
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Rua Santa Luiza
Myriam Lanna
P
elo menos três vezes por semana,
quando vou para a UnATI, o ônibus
atravessa a Rua Santa Luiza, sempre
engarrafada. Olhando a placa da rua, sou transportada involuntariamente ao meu mundo de
saudade e fantasia, universo dos meus sonhos,
coloridos, às vezes, outras vezes cheios de sombras. Céu de chumbo, mundo de lona, que me
encobre inteiramente, tirando-me a visão da
realidade.
Eu gostaria tanto de morar naquela rua!
Assim, iria voltar a conviver com ela, trazê-la para
a minha vida sofrida, cheia de complexos. Por que
te abandonei, mãe?...
Luiza, este era o nome de minha mãe, mas
todos a chamavam de Luizinha, d. Luizinha. Mulher bíblica, pura como um anjo, conservando
sempre o cilício da viuvez precoce, corajosa, como
que decepando a cabeça de Holofernes, general
assírio, a atacar impiedoso, à frente de um poderoso exército, os judeus, povo escolhido de Deus.
A coragem de minha mãe ultrapassava as raias do
'
RUA SANTA LUIZA
verossímil, apesar de, fisicamente, ser uma mulher
frágil e de saúde comprometida.
Ficara viúva muito cedo, com 12 filhos,
todos menores – o mais velho com 17 anos e o
mais novo com apenas nove meses. Ela, jamais,
depôs as armas, estava sempre na vanguarda,
brandindo a espada, lutando sem esmorecer para
conquistar os seus direitos, os direitos de seus
filhos, os nossos direitos. Apesar de tudo, não
conseguiu muita coisa: os abutres, que não podem sentir cheiro de carniça, depois da morte de
meu pai, vieram de todos os cantos, cobrando-lhe
os compromissos do esposo que se fora repentinamente, e não tivera tempo de pô-los em dia.
Ela, honesta, cumpriu todos os compromissos e,
nem por isto, aqueles que deviam a papai agiram de forma correta. Havia lá em casa um
caderno grosso, cheio de nomes dos devedores – papai era organizado demais –, nesse
ponto, eu puxei a ele. De vez em quando, a
coisa apertava de tal jeito que ela não tinha
outro recurso senão enviar-nos aos inadimplentes: “Vai, filha, lá no sr. Homero; estou pedindo
que liquide a dívida”. E o caloteiro mandava
uma nota suja e desbotada de dez mil réis: “Vai
no Juquinha, filha”.
Não é fácil manter o equilíbrio numa situação dessas e de outras piores: a minha sofrida
mãe, de terço na mão, de joelhos na terra, implorava a proteção do Alto, principalmente para os
filhos mais velhos, que nunca aceitaram o fato de
o pai ter sido assassinado covardemente – a paga
de uma alta fiança, que papai, homem de boa fé,
RUA SANTA LUIZA
'
assumira, como sempre, sem documento assinado. Saíram os três mais velhos por este mundão
de Deus, à procura do assassino que nunca foi
para trás das grades, onde era seu lugar. Minha
mãe rezava, rezava... Quantas vezes eu me levantava à noite e a via de luz acesa, livro de orações
em punho, pedindo, implorando aos céus que
não deixassem os filhos mancharem as mãos de
sangue. Então, vinha-me à cabeça a trova aprendida na escola:
Eu vi minha mãe rezando,
Aos pés da Virgem Maria,
Era uma santa escutando
O que a outra santa dizia.
O livrinho, de reza, relíquia para nós, tinha
manchas de lágrimas e de dedos suados – tão
grande era a sua angústia.
Durante o dia, olhos penetrantes, cabeça
erguida, mãos à obra; era preciso defender o pão
dos filhos e nisto teve êxito durante algum tempo:
foi a época do desmatamento daquela região, rica
em madeira nativa, quase toda madeira de lei... O
comércio na Zona da Mata intensificou-se. Mamãe
aproveitou a oportunidade e pôs-se a fazer doces,
biscoitos e quitandas para fora, vendendo-os num
bar aberto na praça municipal por belgas imigrados, ávidos dos dólares que, naquela época, já
começavam a circular na cidadezinha em que
morávamos.
E continuava a velar por nós, a encaminhar-nos para a vida – nós mulheres – oito filhas,
'
RUA SANTA LUIZA
não é para qualquer um! Pedia às vizinhas e amigas
prendadas da cidade que nos ensinassem todos
os tipos de artesanato: bilros, tricô, crochê, crivo
– ai, meu Deus, como eu exercitava a minha
paciência, louca que estava para saltar amarelinha
com Laura, minha amiga de infância. Eu tinha dez
anos de idade quando d. Guiomar, costureira de
renome, ensinou-me corte e costura. Lembro-me
perfeitamente até hoje – lá se vão mais de sessenta anos –, eu riscava e coloria num caderno
grande de desenho os moldes, reduzidos todos,
colocando medidas: blusa, manga, saia justa, saia
de godê, e mamãe punha o visto. O primeiro vestido que cortei – verdadeira odisséia para mim –,
destinou-se à Berata, nossa mãe preta que eu
amava de verdade. Mas a aventura não deu certo:
coloquei para o busto a mesma medida da cintura
e o vestido ficou parecendo uma tubulação de
esgoto, que não entrava nem num esqueleto de
tuberculoso.
Batalhou a minha incansável mãe para
conseguir-nos bolsas de estudos em colégios internos – Ponte Nova, Leopoldina, Ubá. Na minha
terra só havia uma escola primária. Formou as
filhas todas, casou duas moças e um rapaz e aceitou, generosamente, que três filhas seguissem a
vida religiosa, renunciando à presença e ajuda
que tanto esperava delas.
Passando pela Rua Santa Luiza, fico me
lembrando de minha mãezinha, estatura mediana,
olhos quase pretos, um todo que transmitia altivez
e seriedade, cabelos longos que ela lavava sempre
e ficava ao sol para secá-los.
RUA SANTA LUIZA
'!
– Por que, mamãe, estes cabelos tão compridos, que dão tanto trabalho, se a senhora corta
os nossos bem curtinhos?
– Seu pai gostava, filha, dos meus cabelos
pretos; ele não queria que eu os cortasse – vivia
o amor, ausente para nós, mas sempre presente
para ela. E foi fiel a meu pai até o fim de sua vida,
apenas meio século de existência.
Estou policiando os meus sentimentos para
não deixá-los gravados aqui – eles perderiam a
sua transparência – mas algo está conseguindo
escapar. A mão se nega a escrever, meus olhos se
enchem de lágrimas, meu peito bate forte ao ver,
com os olhos do amor, a imagem aureolada de
minha mãe querida, que guardo no relicário do
meu coração saudoso. Se eu adivinhasse que ela
se iria tão cedo, não a teria abandonado jamais.
Ficaria a seus pés, olhando-a, admirando-a, pensando, na sua presença, o que poderia fazer para
imitar a musa da minha vida.
'"
RUA SANTA LUIZA
Um Semideus para Mim
Myriam Lanna
E
ntrou na sala – tudo se clareou. É
impressionante a luminosidade suave
que irradia de todo o seu ser, principalmente de seus olhos claros e inquiridores, referência dessa pessoa tão especial.
Tez clara, maçãs do rosto um pouco salientes, sempre vermelhinhas, sangue a banharlhe a face toda, diante de qualquer ocorrência
singular.
Os caracóis dos cabelos castanhos claros,
quase louros, nunca em desalinho, caem-lhe ligeiramente pela testa supostamente grande, ocultando
parte deste testemunho de inteligência singular.
Bigode cerrado – ah! eu não gosto do
bigode: dá-lhe a impressão de austeridade e causa
um pouco de medo na gente – repito, bigode
cerrado, com fios já brancos, apesar de não haver
ele completado meio século de peregrinação por
este mundo de Deus.
Alto, corpo bem proporcionado – jamais
ostenta no seu modo de trajar. O seu todo é muito
distinto, imponente mesmo, sem ser arrogante.
UM SEMIDEUS PARA MIM
'#
Anda quase sempre no mesmo ritmo –
nunca apressado nem devagar demais, parecendo
direcionar-se a um afazer importante. Lá se vai ele
pelos corredores e halls, interrompido a cada
momento por um e por outro. A todos dedica
uma atenção especial, como se não tivesse mais
nada a fazer senão conversar com aquele passante.
Eu lhe digo, às vezes, em tom de brincadeira,
quando o estou acompanhando: “Ah! doutor, você
parece ter visgo; assim a gente nunca vai chegar
ao destino”. E ele sorri, calado.
O seu dorso vai se curvando para a frente,
tão constante é o seu mergulho nos livros, companheiros seus de todas as horas. Disse-me que
nas suas viagens – idas e vindas para o trabalho
e para casa – não perde tempo: lê, lê sempre, lê
o percurso todo, vai acumulando conhecimentos,
questionando os sábios, ele que parece ter uma
sabedoria infusa.
Nos meus muitos momentos de entretenimentos com ele, o que mais me impressionava era
a sua precisão – palavra certa, na hora certa.
Mineiro, ouve mais do que fala (que pena, agora
começou a perder este dom!). Eu o considerava
um semideus, tão evidente o seu carisma.
Louvo o seu equilíbrio habitual, mas critico
a sua modéstia. É demais, digo-lhe, às vezes: “Assim você não se promove e você precisa disso;
trabalha muito e na hora H parece que se oculta,
enquanto os outros procuram evidenciar-se”.
Já é a segunda obra dele que eu leio, trazendo na primeira página “Construção Coletiva”, e
eu sei que foi ele quem a construiu quase sozinho.
'$
UM SEMIDEUS PARA MIM
Seu humor é tão igual que penso, às vezes, estar ele acima do bem e do mal: “Como vai,
professor?” “Bem, muito bem, e você, como está
passando?” A gente percebe que o estão aborrecendo com questões sem soluções. Mas ele permanece ali, firme, como um rochedo, rosto sem
uma contração, olhar manso e transparente como
as águas de uma das lagoas de minha terra.
Fala continuamente em crescimento pessoal e aceita com tranqüilidade as sugestões e as
críticas que lhe são feitas. O que mais me impressiona nele é esta valorização do ser humano, uma
de suas características dominantes.
– Você é a Myriam, não é? E tem um
encontro comigo. Eu sou o terapeuta marcado
para você. Aperto de mãos acariciador, beijo espontâneo a esta idosa que o estava esperando
para a primeira entrevista de um tratamento
especializado, coração aos saltos, língua colada
ao céu da boca, ela, que nunca o tinha visto
antes.
No consultório – não, não era um homem
comum, antes um iluminado, irradiando um misto
de essência. Cor. Luz. Não sei bem, só sei que
acabávamos nos entregando como criancinhas, sem
malícia, sem segundas intenções, sem nada a
ocultar.
É esse seu jeito de tirar as pessoas do
marasmo, levantá-las do abismo em que os acontecimentos da vida as jogaram, abrir delicadamente as ostras onde os moluscos se ocultaram, de
rasgar os casulos para que as borboletas se libertem e alcem vôos:
UM SEMIDEUS PARA MIM
'%
– Fale-me de sua vida.
– Minha vida? Não sei se vale a pena
mexer. Eu a sepultei lá no fundo do poço para
que sua lembrança não me fizesse pena, não me
machucasse mais. Há muito lodo por lá.
– Quem sabe podemos encontrar nesse
lodaçal uma pérola, um colar de pérolas?
E de outra feita:
– Eu gosto muito de vocês”, declarou com
simplicidade ao grupo que assistia, uma vez por
semana.
– Quem gosta de velho é reumatismo,
alguém atinou.
– Pois então eu sou reumatismo, porque
gosto mesmo de vocês.
A turma, 12 idosos, dos quais três já se
foram, sentiu-se realmente promovida e valorizada
e começou a tomar postura de gente outra vez;
aprendeu a reivindicar seu espaço entre os viventes, malgrado a discriminação que ainda perdura.
Se era este o seu objetivo, ele o atingiu.
No dia de seu aniversário, os idosos preparam-lhe uma agradável surpresa: bolos, doces,
presentes. E cantaram para ele, demonstrando
gratidão e reconhecimento por tanto empenho a
seu favor, por tão valorosa dedicação.
(Adaptação da trova que Sérgio Bittencourt
fez para seu pai).
Naquela mesa
Naquela mesa, ele se senta sempre
Vai ensinado sempre como viver melhor
'&
UM SEMIDEUS PARA MIM
Naquela mesa, ele ouve a nossa história
E a guarda na memória
E a sabe até de cor
Rosto sereno, coração aberto,
Mostrando-se incansável em todas as manhãs
E nos seus olhos é tão grande o brilho
Que mais que clientes, ficamos sendo seus
fãs.
A gente não sabia que valia tanto
Uma mesa no canto, um iluminado atrás
Talvez nem mesmo ele saiba, na sua
quintessência
Todo o bem que nos faz.
Agora, sempre, a turma aqui reunida
Recebe lições de vida, como num festim
Queremos, hoje, parabenizá-lo:
Felicidades muitas
Tudo de bom, enfim!
UM SEMIDEUS PARA MIM
''
Meu Pai
Myriam Lanna
T
enho uma lembrança muito vaga do
meu pai. Quando ele faleceu, eu
estava apenas chegando ao uso da razão. Alguns acontecimentos ocorridos na minha
infância registraram, em mim, a imagem de meu
pai e agora, sofrida, vivida, procuro desvendar seu
caráter, sua personalidade, sua maneira de ser –
pontos altos e baixos, luz e sombra de um homem que não chegou a completar meio século de
existência.
Minha família descrevia meu pai como o
maior herói do mundo – minha mãe viveu o resto
dos seus dias, depois de sua morte apenas da
lembrança dele. Disseram-me: era um homem de
bem, pai de família exemplar, honesto, daqueles
que selam o compromisso com um fio de barba.
Morreu porque sempre confiou nos outros, porque emprestava a quem pedia emprestado, dava
àqueles que nada tinham.
Lembro-me dele voltando das constantes
viagens que fazia. A nossa fazenda ficava numa
pequena elevação; lá em baixo, antes da ponte
MEU PAI
que cortava o córrego, a madrinha da tropa se
anunciava, balançando a cabeça fazendo soar:
“blem, blem, blem...”
A gente olhava da varanda, e lá vinha ele,
acompanhado de quatro ou cinco cavaleiros, dos
burros vergados às cargas. Trazia-nos sempre as
novidades dos lugares por onde passava, onde
acampava com a tropa.
Meu pai era um homem que procurava se
atualizar-se; a nossa fazenda tinha luz elétrica, esgoto sanitário – estávamos na década de 1920 – e, por
incrível que pareça, uma cadeira de dentista com
um profissional para o tratamento dos nossos
dentes e dos colonos que temiam aquele motor
tocado a pedal. Gritavam tanto que me parecia
estarem sendo torturados. A gente tampava os
ouvidos e corria para longe, para a horta, para o
terreiro de café, para a mata, a fim de não ouvir
aqueles clamores.
Meu pai não era dono de cultura apurada,
mas fazia questão de que nós a tivéssemos, tanto
assim que mantinha professores particulares dentro de casa. Os mais velhos eram levados à cidade
próxima para que aprendessem música – cada um
tinha um instrumento musical: violino, violão, flauta, cavaquinho e bandolim.
Deliciava-se, ele, com os sons que minha
irmã mais velha tirava do violino importado. Ao
entardecer, aquela orquestra sem maestro enlevava
toda a família. Eu não gostava muito daquilo, pois
tinha de ficar sentadinha quieta, sem cruzar as
pernas, na cadeira de palhinha da sala de visitas,
onde o conjunto se exibia.
MEU PAI
Sabia ele que a “ociosidade é a mãe de
todos os vícios”, por esta razão não deixava os
filhos mais velhos desocupados. Tinha o costume
de levá-los, mesmo de madrugada, apesar dos
sermões de minha mãe, às incursões aos formigueiros. Meus irmãos não ousavam resistir, ainda
que tivessem vontade de fazê-lo; acompanhavam
o desfilar das assaltantes até a sua moradia, contavam-nos, moradia que era um verdadeiro armazém de folhas cortadas, “panelas”, como o povo
dizia.
%%&&
O último Natal da vida de meu pai é o
primeiro do qual tive consciência. Recordo-me
nitidamente do meu pai chegando na véspera,
com aqueles caixotes lacrados que abriu a martelo; o aroma recendia pela casa toda. Eram maçãs
importadas, tentação para os olhos, protegidas por
um verdadeiro emaranhado de fitinhas de madeira com as quais eu brincava. Depois outro caixote:
uvas enormes, transparentes, branquinhas – néctar dos deuses. Meu pai era o mágico, o semideus
que se comprazia em trazer essas doçuras para os
filhos – no nosso pomar não havia frutos tão
gostosos, tão cheirosos!
Lembro-me dele, cuidadoso com a saúde
dos filhos, levando, à noite, um copo de leite frio
para os menores que já estavam deitados. É claro
que a gente não ousava recusar, mas quando meu
pai saía, eu, que sempre tive repugnância a leite,
levantava-me, pulava pela grade da cama, abria a
MEU PAI
janela e rejubilava-me ao ver o grande fio branco
do leite escorrer pela escuridão da noite.
Que meu pai era autoritário e exigente
não resta a menor dúvida. Uma sala de jantar, com
mesa posta, faz-me lembrar dele: a toalha tinha de
ser branca, impecável, trocada todos os dias; os
talheres de prata areados antes de serem colocados
na mesa – ainda os vejo, pesados, cabos trabalhados em relevo, a reluzir; iguarias sem conta: aquelas travessas de louça com arroz branquinho (assim como eu, papai só gostava de arroz branco)
saindo fumaça, legumes e verduras diariamente
(onde aprendera aquilo?), carne de porco assada
com rodelas de cebola e limão por cima (ah!
como eu tinha repugnância daquilo) e aquele
torresminho com pele e tudo que eu nunca dispensava. Ainda bem que nós, pequenos, não nos
sentávamos à mesa para as refeições.
Quando voltava das viagens, mal apontava
lá embaixo, a dedicada negra chamava-me: “Venha, Myriamzinha, moer o café para mim, seu pai
só toma café passado e moído na hora!” Um toco
de gente, eu trepava num banquinho e me punha
a moer, toda prosa. Ele entrava pela sala de tábuas
largas, passos firmes e ecoantes, tala batendo nas
polainas. Na cozinha, ao ver-me laboriosa, diziame: “Eta, menina trabalhadora! É assim que eu
gosto! Você vai ser uma grande mulher, como sua
mãe!”
Vendo, agora, o retrato de meu pai, ele me
parece uma figura familiar, com quem tenho convivido durante estes meus longos anos de peregrinação. Sua imagem está gravada no recôndito
MEU PAI
!
do meu cérebro. Estatura mediana, pele clara, era
quase louro, descendente de franceses imigrados
– família De Lanne, que deu Lanna em português
– olhos doces que ocultavam um temperamento
muito forte, herdado pelos 12 filhos. Não era homem de faltar com a palavra. Era destemido até
demais. Não admitia que os outros burlassem a
sua confiança, falhassem com ele. Naturalmente,
por isso mesmo, devia ser mais temido do que
amado. Por isso lhe tiraram a vida – ele incomodava.
Como eu, ele gostava das coisas muito
certas, muito organizadas, muito transparentes.
Pagou com a própria vida!
"
MEU PAI
Amor Invisível, mas Real
Myriam Lanna
N
os arroubos de minha adolescência,
fui atraída por um amor intenso, por
um amor irresistível, que me envolveu
por inteiro, que me fez ver a vida cor-de-rosa, que
me cobriu os olhos com um véu azul de gaze
para que eu não enxergasse os escuros dos caminhos, as canseiras das subidas íngremes, os perigos das descidas vertiginosas que podem nos
derrubar e causar sérios danos à vida.
Uma das exigências deste amor: “Vai, vende tudo que tens, dá-os aos pobres, depois vem
e segue-me” (Mateus 19:21).
Eu tinha de corresponder àquele apelo a
todo custo, tinha de ir ao seu encontro de qualquer maneira, ainda que para isso tivesse de sacrificar a minha vida. Era preciso renunciar aos
gozos que a juventude fogosa me oferecia, sacrificar os que eu amava – mãe, irmãos... “Quem ama
seu pai e sua mãe mais do que a mim não é digno
de Mim” (Mateus 10: 37).
A essa altura da vida, eu me julgava uma
heroína. Minha mãe, coitada, sem entender nada:
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
#
“Oh! filha, preciso tanto de você, de seus braços
fortes, de sua audácia e coragem, de sua inteligência para me ajudarem no sustento da casa, agora
que estou ficando velha e não tenho mais o seu
pai!”
E eu, interiormente: “Ele pode tudo. Ele
vai me substituir junto dos meus (Cuida de mim
e dos meus que eu cuidarei de ti e dos teus).”
Ficando, quem sabe?, eu atrapalharia mais do que
ajudaria. O amor é assim: não encontra barreiras,
não vê empecilhos.
As máximas sempre tiveram grande influência na minha vida. Eu refletia sobre elas e procurava aplicá-las a mim. “Que adianta ao homem
conquistar o mundo inteiro se vem a perder a sua
própria alma?” (Santo Inácio de Loyola).
Os livros, meus amigos íntimos, com quem
sempre convivia nos intervalos dos meus estudos,
exerciam também grande influência sobre mim.
Vida dos santos: Santa Terezinha do Menino Jesus. Que encanto! O heroísmo da menina de família rica, a caçulinha mimada, pequena rainha,
como a chamava o pai, arrastava-me à imitação.
Para ingressar no Carmelo, ordem austera e rígida,
precisou da licença do papa – tinha apenas 15
anos.
Santa Terezinha morreu aos 24 anos, vítima
de uma tuberculose não tratada. Morte! Uma libertação!, dizia ela, hora dos esponsais verdadeiros.
Santa Margarida Maria, a vidente do Coração de Jesus que também entrara para o convento. Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Assis,
“il poverello”, tantos outros.
$
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
Não, eu não deveria argumentar, eu não
tinha o direito de pesquisar, nem ao menos questionar: o caminho que me levaria à realização
deste amor era um só – eu o segui. Contava com
o sofrimento, mas ele se me apresentava como
um bolo de noiva, enfeitado e colorido.
Os primeiros anos numa instituição desse
gênero destinavam-se à formação. Lutas internas?
Muitas... Contradições externas? Milhares... E para
completar o quadro, problemas de saúde apresentando-se a cada dia. Mas eu estava disposta a
resistir a qualquer preço: “Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á; aquele que a perder por
minha causa, reencontrá-la-ᔠ(Mateus 10: 39).
Foi assim, confusa mas obstinada, que
cheguei aos esponsais místicos. Preparação longa
– dez dias de retiro espiritual – pregações muitas,
meditações, reflexões durante todo o dia, colóquios
exclusivamente com o Amado.
Eis, vejo, enfim, despontada a aurora
Do belo dia em que me uni a Jesus...
Capela toda florida, coro que nos transportava ao amor.
Os céus se abrem, eis Jesus que desce.
Eis, vem a mim um Deus que é todo amor.
Nós, meia dúzia de jovens vestidas de
negro, rosto coberto por um véu, coroa de espinhos na mão, desfilávamos pelo meio da capela
ao som dos cantos e do órgão. Bem junto ao altar,
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
%
o deitar-se ao chão, com os braços em cruz à
semelhança do Cristo, comovia parentes e
amigos que foram testemunhas da nossa oblação
total.
Confiteor Deo umnipotenti
Beatae Maria semper virginis, cantávamos com
a voz sufocada pela emoção.
Depois, uma a uma, subíamos os degraus do altar, dizendo pausadamente: “Faço
voto e prometo a Deus, pobreza, castidade e
obediência”. O sacerdote que, em nome da
Igreja, recebia nossos votos, colocava a coroa
de espinhos nas nossas cabeças. Éramos, agora,
esposas de Cristo e devíamos ir à luta pela sua
causa.
Assim, peguei as armas e permaneci com
elas em punho durante um quarto de século,
apesar das lutas interiores, apesar dos contratempos, malgrado os desencontros. O amadurecimento, o tempo – este mestre experiente –,
foram-me mostrando que para amar o Amado
não era preciso fechar-se dentro de quatro
paredes:
O mundo tão enganoso
Tão cheio de ilusão
De Jesus só quero o gozo
Em seu doce coração.
Cantavam versos como estes nas missas
matinais. Concluí que não precisava submeter&
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
me a normas (que diziam santificar-nos), desde
que punha os pés no chão, pela madrugada,
para as matinas – ora et labora – até a noite,
quando reclinava a cabeça sobre o travesseiro,
exausta, exangue, às vezes, desiludida.
Para amar de verdade o Amado não deveria restringir a minha entrega exclusivamente
(ainda que isso fosse gratificante) a um grupo
de adolescentes privilegiadas, aristocratas que
se preparavam para esposar os grandes da terra. Novamente a máxima a balançar-me: “Socorre primeiro o mais necessitado”. Meninas ricas,
filhas de poderosos e abastados, de políticos
influentes, a fina flor da sociedade, seriam as
mais necessitadas?
Meu amor, que eu pretendia abrangente,
e mesmo universal, não estaria sendo obrigado
a fazer discriminação? Eu aspirava por mais e
acabei seguindo os ditames do meu coração,
face às exigências do Esposo Místico.
Agora, à semelhança do Amado, meu
amor pode-se dizer infinito – pretensão minha?
Amo o Cristo presente em cada ser humano;
somos o Corpo Místico de Cristo. Amo o grande, o ilustre, o poderoso; eles podem ajudar,
socorrer o irmão carente; amo o enfermo, o
membro sofredor do Cristo que precisa, pelo
menos, de um olhar complacente; amo muito o
mendigo – retrato de Cristo crucificado, que a
vida despojou daquilo que enobrece o homem,
a dignidade. Ele precisa do meu amor. Amo o
adolescente, símbolo da exuberância, da grandiosidade do Cristo. Isso me gratifica e muito;
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
'
amo a criancinha, coisa divina! Ela é o despontar da vida, e o que é a vida senão o amor por
excelência?
Por que discriminar alguém se todos são
Cristos vivos, ostensórios que o mostram, sacrários que ocultam Sua divindade? Assim, eu me
realizo intensamente no amor.
AMOR INVISÍVEL, MAS REAL
O Verdadeiro Amor
Luiz Carlos Valente
A
mores de outrora, amores sinceros.
Amar na alegria e na tristeza.
Amar na saúde e na dor.
O amor era perpétuo e só terminava quando um dos amantes falecia.
O amor era respeito mútuo, era honesto
Os tempos mudaram o significado de amar
Das décadas mais recentes até os dias de
hoje, não se aplicam mais as palavras:
“Até que a morte nos separe”.
Porque as novas gerações não levam mais
a sério o casamento e,
Na maioria das vezes, se desiludem da
vida em comum.
E se separam....
O VERDADEIRO AMOR
Ligação de Afeto
Augusta Alvaralhão
T
enho tanto a escrever sobre isto... Será
que conseguirei passar para o papel
meus sentimentos, minha gratidão?
Tive várias colegas e algumas amigas que
me acompanham até hoje. Entretanto, Deus quis
me premiar fazendo com que conhecesse, há
aproximadamente 3 anos, através do N.A.I. (Núcleo de Atenção ao Idoso) alguém muito especial,
por sua bondade, seu afeto. Nosso relacionamento
foi crescendo à proporção que descobríamos afinidades, no ser, no aceitar, no compreender, no
saber, no perdoar, no ajudar, etc.
Ela tem sido minha amiga, confidente,
minha psicóloga, e tem me ajudado sempre. Uma
das coisas que admiro nela é a capacidade de
ouvir. Está sempre disposta, sem demonstrar impaciência. É claro que, em alguns momentos, divergimos, porém, isto logo é contornado.
Quantas e quantas vezes, principalmente
ao telefone, desabafo, contando-lhe meus problemas em busca de orientação, de ajuda. Chego a
me sentir egoísta.
LIGAÇÃO DE AFETO
É muito gostoso, gratificante, conviver com
alguém de sentimentos tão puros. Ela é para mim
a amiga que, igual, nunca tive.
Não tenho a menor dificuldade de falar-lhe
sobre qualquer assunto e isto devo a ela, que me
deixa a vontade, livre, sem ter vergonha de externar sentimentos ou situações, até mesmo sobre
minha família.
Além de tudo, me estimula, ensinando-me
trabalhos manuais e muitas outras coisas. Costuma
me dizer: “Não podemos parar, temos de nos
exercitar, botar a mente para funcionar” – explica
ela como mulher culta que é.
Querida amiga, que Deus a abençoe e
atenda todas as suas preces, que leve em conta
a grandeza de seu coração. Respeito, carinho, afeto
e muito afeto é o que nos liga, não é, Olka?
LIGAÇÃO DE AFETO
!
Como Tudo Começou
Myriam Lanna
T
udo começou quando eu ainda não
havia começado.
A mucama, que eu amava, disse-me que
eu demorara a nascer – teimava em não vir ao
mundo. Parece até que estava adivinhando o que
ia encontrar por aqui. Deixar o seio materno tão
aconchegante não era mesmo comigo. Quase matei
minha mãe, coitada! Depois que o médico saíra –
morávamos numa fazenda, nas imediações de
Jequeri, comarca de Ponte Nova, Minas Gerais –
e meu pai fora levar o profissional à cidade de
onde o trouxera pela manhã, mamãe sofreu uma
forte hemorragia que não estancava de jeito algum. As benzedeiras fizeram suas rezas, as crédulas, uma simpatia depois da outra, a experiente
parteira aplicou todos os tratamentos que davam
tão bons resultados noutras parturientes, mas nada
surtia efeito.
Mamãe mandou, então, que fervessem seringa e agulha e, destemida, se aplicou a injeção
deixada pelo médico. Foi o que a salvou. Eu,
alheia a tudo, só fazia chorar.
"
COMO TUDO COMEÇOU
Meu pai, chegando, assustou-se com o
acontecimento e ficou vigilante. De fato, o mal se
repetiu e ele não teve outra alternativa senão a de
levar mamãe para a cidade, a fim de interná-la.
Eu, ao que parece, não devo ter sentido
muito a ausência de minha mãe, pois o colo de
Berata – Maria Liberata, o seu nome –, aquela
negra santa, era macio como um colchão de plumas e, Maria Antônia, minha mãe-de-leite, dividira
comigo os seios fartos que amamentavam seu
filho de poucos meses.
Dos meus primeiros anos pouco ou nada
sei de definitivo. Mudamo-nos para a cidade de
Ponte Nova; deduzo que tenha sido por causa da
saúde da mamãe e, também, porque meus irmãos
mais velhos estavam na idade de concluir o primário, como se dizia na época, e receber o diploma oficial.
Em Ponte Nova nasceu outro rebento e,
dois anos depois, já de volta à cidade de origem,
Rio Casca, mamãe, essa heroína, foi mãe pela
décima segunda vez.
%%&&
Papai gostava mesmo é da terra – as plantas e os animais atraíram-no; sabia lidar com eles,
nascera para a agricultura: realizou, então, sua
última mudança com a família, para uma pequena
fazenda, bem próxima de Santo Antônio do Grama, aonde se podia ir até a pé em pouco tempo.
Foi nesta fazenda onde senti a vida, onde
percebi que os dias eram claros e as noites escuras,
COMO TUDO COMEÇOU
#
onde admirei o céu cheio de pontinhos luminosos – vagalumes de Deus – e a lua cheia, surgindo
por detrás da montanha, com a imagem nítida de
São Jorge no seu cavalo. Nela moramos pouco
tempo. Depois da morte trágica e precoce do meu
pai, saímos logo, e as lembranças dos bons tempos de outrora jamais foram narradas por minha
mãe ou por um dos irmãos, a fim de não evocar
a memória daquele que era tudo para nós. Nem
poderia ser de outro modo, porque, muito depressa, houve a dispersão de parte da família:
meus irmãos, um com 18 anos, os outros dois
ainda menores, foram para a cidade grande procurar trabalho e minhas irmãs, uma depois da
outra, internas para o colégio (em Rio Casca não
havia meios de trabalhar ou estudar).
%%&&
Mas não adiantemos as coisas. Eu, como
os demais mortais, apesar de não ser uma criança
sadia, gozei da infância, época em que as flores
têm um colorido forte, época em que as mulassem-cabeça (conforme contava Berata), soltando
fogo pelas ventas, entram nas casas pelo buraco
da fechadura, época em que os anjinhos de vestidos brancos muitos longos, barrados de arminho
e com asas de penas, revoam para lá e para cá,
no céu de nossa existência, cheia de sonhos e
fantasias.
Um bambual espesso, lembro-me bem, de
ambos os lados de grande parte da estrada de
chão batido que ligava a fazenda à cidade formava
$
COMO TUDO COMEÇOU
um túnel escuro e sombrio. Nós não nos atrevíamos a passar ali sozinhos. Os colonos diziam que
ali era o esconderijo de bruxas malvadas que
pegavam as crianças e as assavam em fogueiras
para as comerem com os duendes e fantasmas das
florestas, dançando e cantando ao redor de seu
prato predileto.
%%&&
Eu era a nona filha, portanto, tinha outros
irmãos para me ensinarem e conduzirem à peraltice. E como éramos travessos! Carmem, a que
nascera antes de mim, era e sempre foi da “pá
virada”, como dizia mamãe. Levava-me em longas
excursões até a mata – papai proibira-nos de ir a
esse lugar perigoso e mandava cercar os limites da
mata para deter algum animal. Mas nós, curiosas,
passávamos para o lado do perigo – ninguém
haveria de ver ou saber. Ali, procurávamos os
ninhos de cobras – ela tinha o prazer ou maldade
de quebrar os ovos a fim de ver as cobrinhas
serpenteando pela relva. Depois, corríamos, temendo que aparecesse a cobra-mãe que, disseram-nos, chocava com os olhos.
A mana era da breca mesmo. Certa vez
empurrou-me para dentro de um poço, onde havia
uma pasta feita de excremento de bois, água e
algum produto químico, talvez querosene, que se
usava na época. Aquilo era destinado a passar no
terreno para secar o café, ficava como se tivesse
sido cimentado. Vieram os lavradores que trabalhavam nas imediações e me retiraram imeCOMO TUDO COMEÇOU
%
diatamente. Saí como uma torta de chocolate:
aquela substância entrando pelos ouvidos e pelo
nariz... Recordo-me do banho depois: bacia cheia
de água e água jorrando feito cascata sobre minha
cabeça, olhos ardendo, mamãe improvisando
cotonetes para me limpar ouvidos, nariz e olhos.
Papai não estava em casa; mamãe, porém, mandou fechar o poço na mesma hora. Poderia ter
acontecido coisa pior comigo.
%%&&
Naquele recanto pitoresco, nasceu meu
irmão caçula, o décimo terceiro filho do casal.
Estávamos brincando em frente à casa, num carrinho de cabritos que papai mandou fazer para a
garotada e que um pretinho lindo, nosso irmão de
criação, guiava para nós. De repente, vimos Sá
Marta, como a chamavam, apontando lá embaixo.
– Sá Marta, Sá Marta!, deixe a gente ver
o que a senhora tem nesta malinha, gritou minha
irmã peralta.
– É um neném que trago para a sua mãe.
– Nós queremos ver, nós queremos ver,
Sá Marta.
– Não podem, acrescentou a parteira; sua
mãe tem de ver primeiro, senão ele morre. E
apressou o passo em direção à casa.
Esquecemo-nos do fato e continuamos a
passear de carrinho de cabritos. À tarde, papai
chamou-nos:
– Venham ver o irmãozinho que Sá Marta
trouxe para vocês.
&
COMO TUDO COMEÇOU
Corremos para o quarto da mamãe. Janelas fechadas, tudo escuro. Criança novinha não
pode ficar na claridade enquanto não abrir os
olhos, senão fica cega. Contentamo-nos com aquele
cheirinho delicioso de neném novo, todo enrolado:
fralda, cueiro, cinta no umbigo (diziam; se não
prendessem cinta, o umbigo ficava estufado), touca e manta escondendo o meu irmãozinho que
eu estava louca para ver. Divisamos apenas o
rostinho corado e as mãozinhas perfeitas, divinas. No quarto do casal, dormiam sempre os
dois últimos filhos: do lado do papai, a caminha
de grades do penúltimo e, do lado da mamãe,
o berço do recém-nascido, juntinho da cama
larga.
%%&&
No retrato, cuja cópia deixo aqui, podemos ver o porão, reservado para as nossas brincadeiras de casinha, de cozinha – isto quando o
tempo estava ruim, porque gostávamos mesmo
era de brincar ao ar livre, debaixo de uma frondosa
mangueira, atrás da casa. Dentro? Jamais! Tudo era
mantido nos seus devidos lugares: sala de visitas
com sofá, cadeiras de braços e outras, de palhinha,
numa postura impecável; um porta-chapéus e
guarda-chuvas, com um grande espelho num canto. Sala de jantar enorme, mesa sempre coberta,
quartos com aqueles catres de cabeceiras altas,
colchões de crina, camas esticadas forradas de
colchas brancas que luziam aos olhos. Não nos
sentávamos nas camas durante o dia – meu pai
COMO TUDO COMEÇOU
'
era um homem que exigia ordem. Imagina se
assim não fosse... com 12 filhos menores... Eu vi
a casa de meu irmão – um verdadeiro mafuá – e
lá eram, apenas, oito rebentos.
%%&&
Não me lembro de ter sido alfabetizada
sistematicamente. Tinha problemas de saúde, um
reumatismo doloroso nos joelhos; locomovia-me
com dificuldade. Às vezes, ia à escola da cidade,
que não era pública. d. Jovelina, nossa tia por
afinidade, d. Jove, tia Jove como a chamávamos,
mantinha uma pequena escola de uma sala só,
onde ela própria lecionava língua pátria, aritmética,
história e geografia para todos os cursos. Fui me
familiarizando com os números, em primeiro lugar, com as vogais, em seguida, depois com algumas consoantes. As sílabas vieram e, não sei como,
acabei lendo.
Papai jamais descuidava de nossa educação, apesar de não morarmos quase nunca em
cidades que tivessem meios. Meus irmãos tinham
sempre um professor de música que vinha à nossa
casa. Cada um dos seis mais velhos tocava um
instrumento, como já tive oportunidade de lhes
dizer. Os saraus eram uma constante quando
tínhamos visita e a casa estava quase sempre
com visitas. Violão no acompanhamento, violino, cavaquinho, bandolim solado – era um
deleite vê-los e ouvi-los tocar como adultos,
aquelas valsas românticas, “Branca” era uma
delas:
COMO TUDO COMEÇOU
“Há tempos que a vi,
Eu a conheci,
Ela era linda
Primor de amor
Misto de estrela e de flor.
Mas também sofreu
Eu sei e vou contar,
Pois li, naqueles olhos
Cansados de chorar
De tarde ao chegar
Os trens, um a um,
Ela viu desembarcar
Um estranho tentador
E Branca a cismar
Num sonho de amor
Ficou logo apaixonada
Pelo mancebo tentador.
Mas esta flor
Não sentiu florir o amor,
Nunca sentiu florir
Porque ele teve de partir;
Viu-o embarcar
Em um dia, após o amor
E nunca mais
Sentiu florir o amor
Do jovem tentador.”
COMO TUDO COMEÇOU
Biblioteca Verde
Augusta Alvaralhão
A
ssim que comecei a ler o texto fiquei
entusiasmada, identifiquei-me com ele,
ou seja, com o texto não mas sim com
a maneira de narrar. É exatamente assim que procedo, quando escrevo. Mas, à proporção que fui
lendo, comecei a me decepcionar, não gostei.
Porém, como não gostar de um Carlos Drummond
de Andrade?
Todos falam tão bem dele. Descobri que
me acomodei “no ouvir falar” de suas obras e não
procurei conhecê-las; não procurar é força de expressão, porque passei a maior parte de minha vida
sem tempo para ler Drummond ou outro escritor.
Resolvi deixar para o dia seguinte: com
calma, voltei a ler o texto, tentando ansiosamente
descobrir algo que, para mim, estaria escondido,
disfarçado; seria uma armadilha de Drummond?
Continuei a ler, a analisar; precisava encontrar,
mas encontrar o quê?
Depois de muita insistência, me veio à
mente meu tempo de criança pobre que gostava
imensamente de ler. Na escola pública havia uma
BIBLIOTECA VERDE
biblioteca. Eu não saía de lá, mas não me lembro
de ter desejado uma “Biblioteca Internacional de
Obras Célebres, 24 Volumes”? Nem poderia, pois
sequer sabia de sua existência, mesmo porque os
desejos ou sonhos de uma menina pobre não
subiriam tão alto.
Na biblioteca só havia histórias de príncipes, bruxas, sapos encantados. Eu adorava, sonhava e sonhava... Na certa, o menino que desejou a “Biblioteca Internacional” deve ter sentido a
mesma felicidade, lembrando que os livros dele
eram de percalina verde. A menina nunca sentiu
inveja de si mesma; assim sendo não foi melhor
para ela não ter a tal Biblioteca?
Ela não via o Templo de Tebas, Osíris,
Apolo nu, Vênus nua, mas convivia com a princesa, sentia-se dentro do castelo, correndo, brincando, olhando admirada para tantas coisas lindas!
Assustava-se com a madrasta, a bruxa; corria,
porém, com a princesa fugindo dos inimigos.
Uma coisa a menina descobriu: também
ela teve problemas para poder ler, para encontrarse com seus amigos. Mas, apesar de ser muito
pobre, foi tratada com mais carinho e liberdade.
De que adiantaria ganhar uma “Biblioteca
Verde” se a mãe vai se queixar, o irmão reclamar,
chamando-o de cretino? Parece que estou perdendo um pouco a convicção, pois de repente
pensei: não teria sido melhor que todas as bibliotecas tivessem obras célebres para que as crianças
se tornassem mais cultas e não chegassem, como
a menina pobre, a ter dificuldades de interpretar
tão ilustre escritor?
BIBLIOTECA VERDE
!
Biblioteca Verde
Myriam Lanna
(Carlos Drummond de Andrade.
Menino Antigo – Boitempo II, 2ª edição.
Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974,
página 129)
O
s livros, ah, os livros!
Como eu os amo!
Eles me dizem tanto!
Eles me passam tanta coisa, tantas mensagens lindas, mesmo que eu não os possa ler
todos, ainda que apenas os folheie. Transmitemme um fluido sutil que me penetra a alma a
dentro! Segredam-me aos ouvidos acontecimentos
inenarráveis, maravilhosos!... O mistério que encerram me fascina, não vejo a hora de desvendá-lo.
Fui bibliotecária durante algum tempo. Meu
Deus, isto hoje me parece um sonho bom! Como
eu gostava do cheiro dos meus livros – chegam
cheirando a papel novo, mata de pinheiros, toda
verde – como eu me comprazia em alisá-los, em
colocá-los em ordem!
“Tudo que sei é ela quem me ensina. Eu
os acariciava ternamente”... “Que bom passar a
mão no som da percalina, esse cristal de fluida
transparência” – sulcava, com a espátula, as capas
das brochuras, deixando, junto ao dorso, margens
que colava delicadamente a fim de protegê-las da
"
BIBLIOTECA VERDE
impetuosidade das jovens doidivanas que os folheavam, displicentes.
Madrugada a dentro, eu me perdia na
pesquisa, a fim de reclassificar os volumes antigos
(estava atualizando a biblioteca). Os livros modernos trazem uma boa dica.
Duas encadernadoras recuperavam todo
aquele acervo, aquela riqueza inesgotável, que eu
guardava debaixo de sete chaves. “Sou o mais rico
menino destas redondezas”.
A datilógrafa, séria, dedilhava, durante o
dia, sobre as fichas, o resultado de minhas pesquisas noturnas, colocava as etiquetas todas num
único alinhamento. Era tudo tão lindo, tão misterioso, tão divino! Eu amava ver aquele mundo de
mistérios... “Vai levando tamanho universo”...
Tinha ciúme dos meus livros, tanto assim
que transferi o fichário para a sala anexa, que chamei de sala de pesquisa. Não queria que as jovens
leitoras arrancassem bruscamente, como costumavam fazer, os compêndios das estantes – faltavalhes o carinho de quem sabe amar de verdade. As
alunas tinham que procurar o livro que desejavam
por meio das fichas, pelo título ou pelo autor ou
ainda pelo assunto ou tema que pesquisavam.
Cuidar de livros foi o trabalho mais gratificante que eu realizei em toda a minha vida. A
biblioteca foi o lugar em que eu me senti verdadeiramente realizada. Quando via as mesas cheias
de livros abertos, irradiando sabedoria, e as jovens debruçadas sobre eles, todo o meu cansaço,
todos os meus aborrecimentos desapareciam como
num mistério... “Carruagem de fugir de mim...”
BIBLIOTECA VERDE
#
Silêncio absoluto na biblioteca! Ao longe,
na parede, o cartaz com uma linda criancinha,
dedo indicador na boca: Psiu! Concentração total!
Estão mergulhadas noutro mundo... “Cavalgo de
novo meu verde livro!...”
O toc-toc da máquina de escrever, melodia
de uma nota só, conduz a reflexão profunda aos
meandros do espírito de horizonte azul e onisciência total!
O menino antigo tinha razão. Criança,
mamãe não podia comprar para mim a “Biblioteca
Verde”. Devorei toda a coleção infantil que havia
na biblioteca do clube único de minha cidade. O
namorado de minha irmã, que era sócio do clube,
retirava para mim os livros em troca dos recadinhos,
que, escondido de minha mãe, eu levava para a
mana.
$
BIBLIOTECA VERDE
Minha Bronquite Asmática
Augusta Alvaralhão
E
la veio, entrou em mim e ficou. Há 27
anos acompanha-me para onde quer
que eu vá. Sabida como é, somente no
verão tira algumas férias, aliás, acho justo, em
virtude do grande esforço que faz para, cumprindo sua missão, fazer-me passar muito mal.
Gosto dela. Tem-me proporcionado oportunidades de conhecer, sentir, ver coisas diferentes.
Não podendo dormir, tenho mais tempo
para pensar. Não conseguindo respirar, aprendi a
fazer exercícios respiratórios, a pensar na cor azul
para não me desesperar. Beber, ela não permite,
ficando assim meu fígado mais resguardado.
Ela não gosta de fumo, obriga-me a fazer
economia.
Aprendi a dormir sentada, a suportar as
dores nas costas, no peito: não é diferente?
Passo as noites sentada, algumas vezes no
chão, debruçada na beira da cama, e, enquanto
não durmo, tenho a felicidade de ver os outros
deitados, dormindo tranqüilamente...
MINHA BRONQUITE ASMÁTICA
%
Miar, sem precisar fazer esforço para imitar
um gato.
Oxigênio! Um privilégio conhecê-lo! Muitos não têm esse prazer.
Injeção na veia! Espeta uma, duas, três
vezes. A veia é difícil de ser encontrada. Fico com
uma pena enorme da pessoa que está tentando
aplicá-la. E então peço a Deus para que consiga,
a fim de aliviar a tensão e nervosismo de quem
a aplica. E se não existisse injeção? Coitado do
oxigênio, ficaria sobrecarregado.
A pressão baixou. Foi a dois. A cabeça
roda, a gente voa, vai se desintegrando. Levanta
a cabeça, baixa a cabeça, faz um esforço muito
grande para tornar a levantá-la porque alguém a
pressiona com força para baixo. Começa a sentir
um alívio... uma tranqüilidade... e então vai poder
dizer com ênfase:
– Menina!, minha pressão foi a dois... E a
oportunidade que me proporciona de sentir o
quanto as pessoas que amo se preocupam comigo?
Já experimentaram engolir um comprimido
sem água? Por meio dela aprendi.
Hospital! Médicos, médicas, enfermeiras, lutando para aliviar o sofrimento dos outros. Olho
para os lados e verifico que não sou a única
felizarda com bronquite asmática: umas melhores,
outras em crise.
Será que elas se dão bem, gostam de sua
bronquite asmática? Se não gostarem, pior pra
elas, pois sofrerão muito mais. Se fizerem igual a
mim, deixando de encará-la como inimiga, tudo
será mais suportável.
&
MINHA BRONQUITE ASMÁTICA
Sei que ela ainda tem muita coisa para
mostrar-me, para me fazer sentir. Não vai ficar
sempre nessa monotonia. Aceitarei tudo que me
der porque gosto dela, porque é minha amiga fiel,
que morrerá comigo, ou quem sabe, morrerei
com ela?
MINHA BRONQUITE ASMÁTICA
'
Raio X
Myriam Lanna
T
odos os dias ele descia, cambaleando,
o Morro do Matinha, ali no Engenho
Novo, amparado pelos braços de duas
mulatas de ancas largas e pés firmes.
– Está aí, sr. Elson, Raio X já veio para o
almoço.
– O quê? Magrinho?... É cedo ainda. Sentese neste banquinho enquanto a bóia não sai.
Os ossos do Magrinho, do Raio X, como o
chamavam, estavam à mostra. Podia-se até estudar
naquele esqueleto vivo: omoplata e clavícula,
brigando com o úmero por um lugar dentro do
farrapo de camisa que vestia. Peito a descoberto,
costelas em semicírculo, que podiam ser contadas, melhor que no próprio Cristo alongado na
cruz.... ficava ali quase estirado, esperando o
almoço.
Ninguém sabia seu nome verdadeiro. No
morro, chamavam-no Raio X, tal era a sua transparência e, cá embaixo, deram-lhe o apelido de
Magrinho. Ninguém indagava de onde viera. Fazia
parte do cotidiano do meu irmão que, no seu
!
RAIO X
linguajar cheio de gírias, dizia sempre “Está ferrado! Não demora a bater as botas!”
– Hoje, não vai ter almoço, Magrinho,
minha mulher me abandonou.
– O quê, sr. Elson? Ela teve coragem de
fazer isso com o senhor, um homem tão bom?
– É, Magrinho, ela se cansou do meu
machismo. Tome lá estes cinco reais e vai almoçar
ali no Marcos.
Magrinho cai nos botequins da vida e lá
bebe todo o seu rico dinheirinho. Por que não?
Ele precisava esquecer as mágoas; as horas custam tanto a passar quando os dias são aziagos e
Raio X não conhecia dias doces.
À tarde, quando as mulatas vieram buscá-lo:
– Onde está o Raio X, sr. Elson?
– Sei lá. Olhem ali no Marcos.
– Ele não pode beber. Agora não vamos
agüentar subir com o danado.
Daí a pouco passaram, arrastando o Magrinho, que não se agüentava nas pernas. Uma vez
no morro, devia respirar aquele ar puro, longe da
poluição cá de baixo e sentir a solidariedade dos
que vivem tão perto do céu.
– Estou com fome, sr. Elson, o almoço vai
demorar?
– É Magrinho, hoje vai demorar um pouco. É, aniversário aqui em casa. Vamos ter coisa
boa: churrasco, salpicão e farofa com aquele
torresminho! Espere, Magrinho.
– Estou com fome.
E lá se vai um pedaço de queijo, lá se vai
uma cumbuca de azeitonas e, para completar, uma
RAIO X
!
cervejinha geladinha. Raio X devora tudo aquilo
com sofreguidão e bate de novo:
– Estou com fome.
%%&&
Agora, Raio X não desce mais.
– Pai, o Magrinho não veio almoçar.
Emigrou para outra galáxia. Do morro até
lá foi um vôo rápido. Uma estrela cadente, enviada
por ele, de vez em quando tenta aterrissar no
Morro do Matinha, como a dizer “Obrigado minha
gente. Vocês são gente de fato!”
Nas noites tristes e escuras do campo santo, os favelados dizem ver laivos de fogos-fátuos
emitidos da cova rasa de Raio X.
Seus ossos, agora, chamam a atenção dos
passantes omissos que não se importavam com
eles enquanto chacoalhavam por este mundão de
Deus.
!
RAIO X
Getúlio Morreu
Augusta Alvaralhão
T
odos tinham medo dele e, ao mesmo
tempo, uma certa admiração. Chamavam-no de tio “Carlinhos”. Tipo místico, altivo, dava a impressão de ter sido “rei” e
“escravo”.
Alto, magro, negro, sujo, as roupas em
frangalhos, com várias latas vazias penduradas no
corpo (com arte), ou seja, no pescoço como um
colar, na cabeça como uma coroa. Nas pernas, as
latas davam a impressão de correntes, que arrastava raivosamente.
Quando os bondes paravam, corria para o
estribo, assustando os passageiros. Ninguém entendia porque se transformava e ficava violento,
se alguém gritasse “Getúlio morreu!”
Eu tinha de esperar o bonde naquele
ponto. Quando chegava, olhava para todos os
lados para me proteger, caso ele aparecesse. Assim
foi durante anos. Engraçado é que ninguém, nenhuma autoridade tomava qualquer providência.
Certa vez, estava distraída, quando ouvi
dizer “Getúlio morreu!” Não tive tempo para nada.
GETÚLIO MORREU
!!
Recebi com violência um soco nas costas. Corri
para a farmácia e fiquei esperando durante muito
tempo até que ele se afastasse.
Os anos se passaram, casei-me e me mudei
de lá. Muitas vezes pensei nele como estou fazendo
agora. O que teria acontecido àquele homem para
transformá-lo num quase animal?
Uns oito anos após, passei pelo local, de
carro, quando ouvi gritarem: “Getúlio morreu!”
– Corre por favor, sai daqui.
– Por quê?
– Depois te conto esta história.
Obs.: Nesta época Getúlio Vargas ainda
não havia morrido.
!"
GETÚLIO MORREU
Solidão
Augusta Alvaralhão
V
ocê veio sorrateira, observando,
sentindo, entrando, sem que eu,
durante m u i t o t e m p o , p u d e s s e
identificá-la. Com maldade, insensibilidade, vai
destruindo covardemente vidas, sonhos, deixando, em troca, amargura, insegurança,
medo...
Venho fugindo de você há anos. Já consegui algumas vitórias.
Se fosse escrever sobre sua trajetória em
minha vida, levaria muito tempo. Assim sendo,
vou tentar transcrever alguma coisa, sem levar em
conta se foi a pior ou não.
Certa vez, você estava tão grudada em
mim que tive uma idéia. Comprei um boneco
grande. Conversava com ele, abraçava-o, como a
um filho, não o tirava de perto de mim, mas de
nada adiantava, pois, para qualquer lugar que eu
olhasse lá estava você, sorrindo de forma zombeteira. Joguei o boneco fora. Engraçado, você me
liberou durante muito tempo. Será que foi atrás
do boneco?
SOLIDÃO
!#
Uma noite, estava triste, pensando, quando de repente tive a impressão de ouvir: “Olá,
olha eu aqui outra vez”.
Perversa “solidão” novamente? Sabe de uma
coisa? Vou viajar e você vai ficar aqui. Assim fiz.
De madrugada, fui para a Rodoviária, peguei um
ônibus para Angra dos Reis. Estava um dia maravilhoso. A praia cheia de adultos e crianças
sorridentes, felizes. Caminhei, curtindo a natureza.
Tomei banho de mar, comi peixe frito. Sentia-me
como se fosse uma daquelas pessoas. No fim da
tarde, resolvi voltar. Olhei, já com saudades, para
o mar e vi a “solidão” correndo para me alcançar.
Conseguiu seu objetivo, pois, na volta, foi uma
companheira inseparável.
Graças a Deus, tenho conseguido várias
vitórias, que me dão a esperança de expulsá-la de
minha vida para sempre.
!$
SOLIDÃO
Mudou o Natal ou Mudei Eu?
Luiz Carlos Valente
O
Natal mudou. Não se reúnem mais as
famílias neste dia consagrado ao
nascimento do Salvador. As pessoas
confraternizavam com amor e religiosidade.
Eu também mudei. Depois do falecimento
do meu filho, em 1987, em nosso lar não se
realizaram mais as nossas reuniões da noite de
Natal, pois as famílias foram se afastando e realizando essa festa em separado.
Agora, a mudança será radical, pois sem a
presença de minha mulher, falecida em fevereiro
deste ano, o encantamento dessa festa será esquecido, deverá ser esquecido e, se possível fosse, extinto do calendário da minha vida.
MUDOU O NATAL OU MUDEI EU?
!%
Como Conheci a UnATI
Luiz Carlos Valente
A
pós a realização da missa de 7º dia do
falecimento de minha mulher, Odalisca,
o psicólogo Jaime Lisandro Pacheco
convidou-me a procurá-lo na UnATI. No dia aprazado, fui ao seu gabinete, não o encontrando,
pois ainda não havia chegado. No recinto, estava
uma senhora que começou, enquanto eu esperava, a conversar comigo, o que resultou em momentos de emoção, pois falei-lhe sobre as angústias que estava passando pela perda de minha
mulher.
Mabel, esse é o seu nome, procurou, com
palavras amigas e sábias, consolar-me. Jaime acabava de chegar e me sugeriu que participasse de
algumas atividades da UnATI, levando-me à Secretaria, onde me inscrevi em Canto Coral, dirigido
pelo maestro Jefferson.
Na mesma ocasião, Jaime me encaminhou
à psicóloga Maria Helena Teixeira, que estava
formando um grupo de Informação e Reflexão.
Durante algumas semanas, participei dessas
reuniões, que foram de grande proveito face ao
!&
COMO CONHECI A UNATI
momento que estava passando pela perda de
minha mulher.
Dias após, recebi um telefonema da nossa
amiga Olka; falou-me que procurasse a Mabel para
a formação de um pequeno grupo em que eu, a
Olka e a Augusta Alvaralhão nos reuniríamos, às
quintas-feiras. Os trabalhos seriam de literatura,
por meio de diversos temas e trechos de obras de
escritores; faríamos comentários e análises dessas
obras.
Continuo no momento participando destas
reuniões onde, apesar de certa dificuldade na
execução dos trabalhos, sinto-me muito feliz e
gratificado.
Outra atividade em que me inscrevi foi o
grupo de Dança de Salão I, dirigido pelo casal de
dançarinos Mônica e Sérgio. Apesar de, na minha
juventude, ter dançado muito em clubes, só agora
notei que não utilizava a técnica de dança. Atualmente, estou aprendendo os vários passos; sem
eles, principalmente sem o “passo básico”, a dança
perde a sua grandeza.
Enfim, a minha participação na UnATI me
trouxe momentos de satisfação. Na idade em que
estou, posso encarar com mais coragem o futuro.
A Universidade Aberta da Terceira Idade é
a escola que, por meio de atividades e de cursos,
restabelece no idoso a vontade de enfrentar, com
mais felicidade, os poucos anos de vida que ainda
restam para seus participantes.
COMO CONHECI A UNATI
!'
Liberdade Ansiada
Augusta Alvaralhão
P
ortão trancado, crianças brincando do
lado de fora, mulheres conversando,
muita alegria. Ela precisaria ir até lá, mas
como? De repente, avistou um bambu. Com ele,
depois de várias tentativas, conseguiu abrir o
portão. Finalmente, encontrava-se no “Beco”, um
caminho estreito, de barro, feio, mas que, apesar
de tudo, significava para ela a liberdade.
– Menina, já para dentro, vou contar ao
teu avô!
– Velha coroca! Velha coroca!
Revoltada, não entendia porque não a
deixavam juntar-se às outras crianças, mas de uma
coisa tinha certeza; voltaria a abrir aquele portão.
Já começava a descobrir que a liberdade era
maravilhosa, mas não tinha ainda a noção do
quanto teria que lutar por ela.
– Bonequinha, você é uma bruxinha de
pano mas acho você linda, começou a embalá-la,
cantando canções de ninar.
Nos dias de sol, corria atrás das borboletas
lindas e coloridas que pousavam nas flores do
"
LIBERDADE ANSIADA
pequeno jardim da vovó. Ela queria pegá-las, mas
era difícil por causa dos espinhos das roseiras. Um
dia conseguiu. Porém, junto com a alegria de um
desejo realizado, surgiu um problema: “O que
fazer para aprisioná-la? Ah!, já sei”. Abriu uma
revista e, com cautela, colocou-a no meio das
páginas, fechando-as imediatamente. Ao verificar
que a borboleta havia morrido, acreditou que era
uma menina má.
Os avós achavam muita graça quando ela
pegava o jornal e, durante muito tempo, ficava
“lendo de mentirinha”, inventando histórias. Queria ir à escola, mas eles, com excesso de zelo,
tinham receio de deixá-la sair.
Um dia ficou olhando para o passarinho
amarelo que cantava e pensou: “Quem sabe ele
está dizendo que quer sair?” Abriu a porta da
gaiola e lá se foi ele, voando feliz. Ficou de castigo, mas valeu a pena. A bruxinha querida não a
abandonou e Pretinha, a cachorra inseparável,
deitou-se aos seus pés. Eram amigas de verdade.
O avô chegou até a cama onde ela dormia
e, sacudindo-a, disse-lhe que se levantasse. Abriu
os olhos assustada e perguntou por quê. – “Vou
entregar-te a tua mãe”, respondeu ele. Vinte de
janeiro, dia de São Sebastião, cinco horas da manhã. Descem o morro lentamente, tudo escuro!
Chegam a Irajá, num casarão enorme com muitas
árvores. Ele bate, e uma mulher de rosto sofrido
atende admirada, perguntando o que acontecera.
O velho abatido, explicou-lhe que não havia outra
solução, pois sofriam muito ao ouvirem-na à noite
chorar, dizendo que queria a mãe.
LIBERDADE ANSIADA
"
A partir daí, começava uma nova etapa na
vida da menina bonita, moreninha de longos cabelos pretos.
"
LIBERDADE ANSIADA
Sobre os Autores
Augusta de Souza Alvaralhão
Augusta é carioca, nascida no bairro do
Estácio, em 5 de junho de 1926. Atualmente reside em Vila Isabel.
Fez seus estudos na Escola Rio Grande do
Norte, hoje Canadá. Mais tarde freqüentou
o Instituto Comercial Brasil, onde se formou em contabilidade.
Filha de família com parcos recursos financeiros, passou, aos 14 anos, a estudar à
noite e trabalhar durante o dia.
Casou-se aos 21 anos, tendo três filhas,
oito netos e uma bisneta.
Demonstra vocação para escrever, sendo
autora de Da favela ao hospital psiquiátrico, livro que serviu de apoio a debate
sobre “Saúde mental”.
Seus textos são escritos com humor e ela
demonstra prazer em dialogar com seus
personagens.
Esses colóquios podem ser estabelecidos
com a sua “Bronquite asmática” ou com o
“Beco”, onde residiu, temas de algumas de
suas histórias.
SOBRE OS AUTORES
"!
Luiz Carlos Valente
Luiz Carlos é carioca, nascido no bairro de
São Cristóvão, no dia 21 de junho de 1922.
Reside hoje em Vila Isabel.
Trabalhou como caixeiro-viajante, vendendo produtos farmacêuticos. Correu todo o
Rio de Janeiro, quase sempre de trem, transporte de que guarda saudade.
Casou-se cedo, tendo tido apenas um filho. Apesar de ter sofrido perdas traumáticas, considera-se otimista.
Seus textos apresentam-se, na maioria das
vezes, sob a forma de relatos concisos e
objetivos, ricos em observações.
Myriam Lanna
Myriam é mineira, nascida em 2 de dezembro de 1923, em uma fazenda, perto do
município de Jequery, comarca de Ponte
Nova. Reside hoje no Rio de Janeiro, no
bairro do Rio Comprido.
Oriunda de uma família de 12 irmãos, perdeu o pai ainda criança. Sua mãe conseguiu
para ela uma bolsa de estudos no Colégio
Sacré-Coeur de Marie, de uma Congregação
francesa. Adolescente, se propôs a seguir a
vida religiosa, ingressando na Congregação,
lá permanecendo por 27 anos.
Deu aulas de português e francês, para
obter alguns rendimentos para a sua
sobrevivência, fora da Congregação. De""SOBRE OS AUTORES
monstrou, desde cedo, inclinação para
escrever. Diz ela: “são exercícios necessários à mente”, ou ainda: “costumo procurar
um canto silencioso para, com calma, discorrer sobre minhas histórias”. Demonstra
um cuidado extremo com o que escreve,
seja sobre uma lembrança, seja sobre um
sonho. Exige de si mesma, fidelidade à
língua portuguesa, da qual é grande admiradora e discípula.
%%&&
Estes alunos foram encaminhados ao Centro Ampliado de Convivência pelo Núcleo
de Atenção ao Idoso (NAI),1 onde estiveram em tratamento sob a orientação do
psicólogo Jaime Lisandro – à época, integrante da equipe do NAI e Gerente de
Extensão da UnATI-UERJ. Identificados
como pessoas afeitas às construções narrativas, foram orientados a procurar a Coordenação da Oficina de Produção de Textos. São marcantes as demonstrações de
afeto e gratidão pela atenção e amizade a
eles dispensados pela equipe de saúde,
especialmente, por Jaime e Célia Caldas,
que os acompanharam nessa trajetória.
Mabel Imbassahy
Professora da UnATI-UERJ. Responsável
pela Oficina de Textos e por esta publicaSOBRE OS AUTORES
"#
ção. É socióloga e integra a equipe de
Gerência de Pesquisa da UnATI.
Editora associada da Revista Textos sobre
Envelhecimento, publicada pelo CRDEUnATI-UERJ. Pesquisadora da Linha de
Pesquisa, Memória, Cultura e Envelhecimento.
Nota
O NAI é um ambulatório de cuidado integral à saúde da
pessoa idosa, vinculado à Gerência de Extensão da UnATIUERJ.
1
"$SOBRE OS AUTORES
Este livro foi diagramado no Page Maker 6.5, em formato
110 X 200 mm K Tipologia: Gatineau (corpo do texto)
e John Handy Let (Títulos) K Fotolito de capa: Dressa
Color K Impressão e acabamento: Gráfica Lidador
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Mil novecentos e antigamente... - UnATI