AS DINÂMICAS SOCIOECONÓMICAS
SOCIOECONÓMICAS DOS ESPAÇOS RURAIS
DO CONTINENTE PORTUGUÊS
PORTUGUÊS
O rural urbano industrializado
Isabel Rodrigo
Projecto AGRO 62 − EIRIZ 2005
ÍNDICE
Introdução .........................................................................................................................2
I – Economia, sociedade e enquadramento institucional .........................................................5
O passado próximo: Economia ....................................................................................5
(i) Agricultura I ...............................................................................................5
(ii) Indústria I ..................................................................................................8
Lacticínios .............................................................................................10
“Water-proof do camponez” ....................................................................11
Madeira e mobiliário de madeira ..............................................................11
Têxtil ....................................................................................................13
No limiar do século XXI: Economia ............................................................................14
(i) Agricultura II ............................................................................................14
Emprego e ocupação de mão-de-obra ......................................................14
Rendimento ...........................................................................................15
Ocupação do território ............................................................................15
Freguesia de Eiriz: 2003..........................................................................16
(ii) Indústria II ...............................................................................................18
Emprego e ocupação de mão-de-obra ......................................................19
Indústria transformadora ........................................................................20
Rendimento ..................................................................................20
Tecido empresarial local .................................................................21
Freguesia de Eiriz: 2003..........................................................................25
Sociedade ...............................................................................................................30
(i) Demografia: o local e a freguesia de Eiriz ....................................................30
Ocupação do território ............................................................................30
Famílias .................................................................................................32
(ii) Dinâmica social: o local..............................................................................34
Condições de vida ..................................................................................34
Poder de compra ..........................................................................35
Receita líquida total .......................................................................36
Qualidade de vida..........................................................................38
Empregabilidade ....................................................................................38
Enquadramento institucional .....................................................................................39
Actividades socioeconómicas ............................................................................39
Actividades sociopolíticas .................................................................................41
Freguesia de Eiriz: 2003 ..................................................................................42
Síntese..............................................................................................................43
II – Dinâmicas e bloqueios ao desenvolvimento rural ...........................................................45
ANEXOS...........................................................................................................................50
1
As Dinâmicas Socioeconómicas dos Espaços Rurais do Continente Português:
O rural urbano industrializado
INTRODUÇÃO
O presente documento procura identificar e analisar as principais dinâmicas e bloqueios
do desenvolvimento socioeconómico da freguesia de Eiriz. O facto desta unidade territorial ser
representativa de um tipo de espaço rural do Continente português explica que tenha sido
seleccionada para o estudo que se apresenta neste Seminário.
De seguida esclarecem-se os seguintes aspectos. Em primeiro lugar o contexto onde o
presente estudo se enquadra. Em segundo lugar definem-se as principais características do tipo
de espaço rural que a freguesia de Eiriz representa e ilustra. Em terceiro lugar, esclarecem-se
as fontes de informação utilizadas e o conteúdo do presente documento. Por fim, dão-se a
conhecer os principais objectivos do mesmo.
O estudo da freguesia de Eiriz enquadra-se no Projecto de DE&D do Agro (no 62),
intitulado “As Dinâmicas Socioeconómicas dos Espaços Rurais do Continente Português”.
Identificar e caracterizar as dinâmicas e os bloqueios do desenvolvimento socioeconómico dos
referidos espaços são os principais objectivos daquele Projecto. A análise destas questões
centrou-se em torno de quatro tipos de espaços do rural, ou quatro “rural-tipo”. Estes foram
delimitados com base na conjugação de dois critérios, a saber: número de habitantes por
quilómetro quadrado de área rural (“densidade rural”) e peso relativo, em termos de inserção
profissional, dos sectores de actividade económica (agricultura, indústria e/ou serviços)1. Os
quatro “rural-tipo” identificados são aqui designados, de forma sucinta, por rural de elevada
densidade, rural de média densidade (assente na indústria/serviços), rural de média densidade
(assente na agricultura) ou rural agrícola e rural de baixa densidade. Fixados os quatro “ruraltipo” foram seleccionadas oito unidades territoriais (freguesias) que, sendo representativas de
cada um dos quatro “tipos” de rural, pudessem servir de “estudo de caso” e, deste modo,
1
Novais, Ana; Fernando Lourenço e Fernando Oliveira Baptista (2000), Portugal (Continente) – Uma Leitura do Rural,
Lisboa, DEASR/ISA, Doc. de Trabalho no 18.
2
contribuir para ilustrar a diversidade de situações existentes e, simultaneamente, satisfazer os
objectivos do Projecto Agro (no 62)2.
A freguesia de Eiriz é representativa do “tipo” de rural de elevada densidade/baseado na
indústria. Concretamente, está localizada num espaço cuja densidade (demográfica) rural é
superior a 100 habitantes/Km2 e a indústria é o sector de actividade económica onde se insere
profissionalmente a maior parte da respectiva população residente.
Eiriz, uma das dezasseis freguesias do concelho de Paços de Ferreira, situa-se no Norte
Atlântico Litoral (na NUT III “Tâmega”). Por sua vez, Paços de Ferreira, em conjunto com os
concelhos de Penafiel, Paredes, Felgueiras, Lousada e Castelo de Paiva constitui o agrupamento
de concelhos do “Vale do Sousa” 3. A Região Norte e a Área Metropolitana do Porto são outros
espaços de influência em Eiriz4. Neste documento, a referência a cada um destes territórios terá
em consideração a relevância da escala de leitura, tendo em conta os objectivos da análise.
O presente documento está organizado em duas partes.
A primeira baseia-se na informação recolhida por inquérito por questionário realizado, em
2003, na freguesia e ainda em fontes secundárias. Tem por principal objectivo dar a conhecer
as principais linhas de mudança que foram moldando os contornos do território onde Eiriz se
insere e situá-lo no momento presente. No referido inquérito por questionário procedeu-se à
identificação e caracterização demográfica e socioeconómica dos agregados domésticos, e
respectivos indivíduos, residentes em alojamentos familiares clássicos, segundo a definição do
Recenseamento Geral da População5, dos alojamentos familiares não ocupados em
permanência, das unidades produtivas, agrícolas e florestais, e ainda das empresas localizadas
nos limites geográficos da freguesia. Para tal recorreu-se a informadores privilegiados, bem
como à população residente. Foram identificados e caracterizados 2046 indivíduos, 157
unidades produtivas, 36 alojamentos familiares não-ocupados em permanência e 119 entidades
(empresas)6.
A segunda parte do documento baseia-se nos aspectos que sobressaíram da análise
anterior e ainda na informação qualitativa recolhida, em 2005, por inquérito por entrevista. As
entrevistas foram realizadas a entidades e a actores individuais que, directa e indirectamente,
2
Rolo, Joaquim Cabral (2003), Para uma Monografia dos Espaços do Rural: Informação sobre a Socioeconomia e
Agricultura do Rural (e Concelhos) do Continente Português no Final do Século XX, Lisboa, ISA/INIAP/ANIMAR, Projecto
Agro no 62, Doc. de Trabalho no 4 [Anexo: “Delimitação dos “Tipos” de Rural nos Espaços Geográficos do Continente
Português].
Agrupamento de concelhos definido em 1979 pelo Despacho Normativo no 389/79 de 31 de Dezembro, que criou as
“Regiões Plano e Agrupamentos de Concelhos”.
4
A Região Norte abrange as NUT III: Minho-Lima, Cávado, Ave, Grande Porto, Entre Douro e Vouga, Tâmega, Douro,
Alto Trás-os-Montes.
5
INE, XIV Recenseamento Geral da População, 2001.
6
Rodrigo, Isabel (2004), Eiriz (Paços de Ferreira) – Caracterização Socioeconómica da População e do Espaço. Quadros
de Apuramento do Inquérito realizado em 2003 (1ª fase do projecto), Projecto Agro (no 62), Doc. de Trabalho no 5.
3
3
intervêm na zona rural em estudo. Nesta parte do documento procura-se identificar os
principais tipos de dinâmicas e de bloqueios que se colocam ao desenvolvimento do espaço
rural em estudo.
Os objectivos subjacentes a este documento estão só parcialmente preenchidos. Com
efeito, procura-se com a realização do Seminário confrontar a leitura aqui realizada com os
conhecimentos e pontos de vista de entidades e de actores individuais com intervenção na zona
rural em estudo. Procura-se ainda com este documento facilitar, no referido Seminário, um
debate e reflexão colectiva sobre os possíveis cenários de desenvolvimento rural que, num
futuro próximo, poderão constituir a realidade de zonas com características rurais com elevada
densidade demográfica e em que a maior parte da população residente activa trabalha na
indústria.
Por fim, quero agradecer ao Senhor José Meireles (Presidente da Junta de Freguesia de
Eiriz) a receptividade que manifestou à realização deste estudo, aos Senhores Adelino Neto,
Ernesto Gomes e David Neto, a disponibilidade para percorrerem comigo, e com a Cláudia
Bandeiras, a totalidade do espaço residencial da freguesia, aquando da realização do inquérito
por questionário, em 2003, e ainda à população de Eiriz a gentileza com que aceitou responder
às questões formuladas neste e no outro inquérito realizado, em 2005, também na freguesia.
4
I - Economia, sociedade e enquadramento institucional
Este ponto procura dar a conhecer, ainda que de forma sucinta, as principais linhas de
mudança que foram moldando os contornos do território onde a freguesia de Eiriz se insere.
Neste âmbito, são privilegiados três temas: economia, sociedade e enquadramento
institucional. O primeiro concentra-se nas alterações que se foram processando nos sectores e
actividades socioeconómicas. O segundo nas dinâmicas demográficas e sociais. O último, nas
principais organizações que enquadram, quer a actividade produtiva, quer a estrutura social
local.
A contextualização espacial da análise que se segue circunscreve-se, sobretudo, ao
concelho de Paços de Ferreira e à freguesia de Eiriz. A contextualização temporal, no que se
refere ao tema economia, circunscreve-se a dois momentos: o primeiro recua, sempre que se
afigure relevante, a 1836, data de constituição do referido concelho; o segundo concentra-se
nas duas décadas mais recentes. Já a análise dos temas sociedade e instituições privilegia este
último período temporal.
Segundo Lacerda, “o concelho de Paços de Ferreira, tal como o conhecemos actualmente
é, acima de tudo, fruto da importante reorganização do território nacional levada a cabo após a
vitória liberal na guerra civil que terminou em 1834.
Decorrente da vontade de assegurar um maior controlo político-administrativo sobre todo
o país, o Decreto de 6 de Novembro de 1836 vem definir uma nova geografia para o poder
local, suprimindo 497 concelhos e criando apenas 21, de forma a tornar viáveis as novas
unidades. (...) Nos alvores do século XIX as 16 freguesias que compõem o actual concelho (...)
estavam dispersas em 4 núcleos de entre os quais avulta o concelho de Sobrosa predecessor
imediato do actual” (Lacerda, 1986: 85)7.
O passado próximo: Economia
(i) Agricultura I
Ao longo de todo o século XIX, e até à primeira metade do século XX, o cultivo da terra
representava a actividade económica principal da maior parte da população residente no
7
Lacerda, Silvestre de Almeida (1986), “Paços de Ferreira: Traços de História Contemporânea”, em Paços de Ferreira:
Estudos Monográficos, Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Gabinete de Informação e Cultura, Volume II,
pp. 85-246.
Sobre esta questão ver também o documento, Paços de Ferreira: 1836/1936 – Número Comemorativo do 1º
Centenário, (1937), Porto.
5
concelho e em Eiriz. A indústria e o comércio, então existentes, gravitavam em torno deste
sector.
O cenário que se traça dá conta das principais actividades agrícolas vegetais praticadas,
até finais da primeira metade do século passado.
O milho e o centeio, utilizados no fabrico do pão (broa), juntamente com o feijão  a
acompanhar o milho ou a crescer nas hortas , a batata e as hortaliças, ocupavam a maior
parte da terra limpa. Eram também estes os elementos que constituíam a base da alimentação
das populações, já que com eles elaboravam o caldo. Aquelas, por seu lado, organizavam-se
segundo o modelo que então estruturava o território à escala regional. Como o Eng.º
Agrónomo Alexandre Aranha Furtado Mendonça referia, tomando como suas as palavras do
Conde de Ficalho, “a acção do clima e da geografia são concordantes no Minho para crear uma
região agrícola definida, uniforme, de pequena propriedade, cultura bastante manual, por
processos mais hortícolas que agrícolas, fazendo viver uma população rural numerosa” (Paços
de Ferreira: 1836/1936, 1940: 79). De referir ainda que a vinha de enforcado e formando
latadas não crescia em terrenos que lhe eram especificamente votados mas nas bordas dos
campos, sobre os caminhos e quintais ou em qualquer margem onde não ocupava terreno
propício a outras culturas (Lacerda, 1986: 152-153).
Para além destas culturas vocacionadas, antes de mais, para o autoconsumo das
populações, o linho era também uma actividade vegetal relevante. Como refere Lacerda, “o
linho (...) destinava-se ao auto-consumo mas também a ser vendido nas feiras, (...)
alimentando-se assim uma actividade caseira feminina.
O aparecimento de engenhos de tracção animal ou hidráulica vieram, neste século XIX,
simplificar uma das tarefas mais duras de preparação do linho e criar mais um ofício que exigia
uma certa especialização, o de engenheiro, que trabalhava num mecanismo ao qual um custo
relativamente elevado vedava a posse individual” (Lacerda, 1986: 157).
Ainda presente nos campos da região até 1966/68, a cultura do linho é hoje inexistente.
Segundo Silva, “o artesanato de fabrico de linho, praticamente extinto neste concelho [Paços de
Ferreira], não se pode divorciar do fenómeno de implantação das fábricas têxteis nos vales do
Ave e do Vizela. Se por um lado se assiste à decadência daquela cultura, por outro foi a
abundante e especialização de mão-de-obra feminina, hábil na tecelagem do linho, que veio
constituir o factor determinante na localização das primeiras fábricas têxteis de algodão” (Silva,
1986: 43)8.
8
Silva, Rosa Fernanda (1986), “Caracterização geográfica do concelho de Paços de Ferreira”, em Paços de Ferreira:
Traços de História Contemporânea, Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Gabinete de Informação e Cultura, Volume
I, pp. 11-75.
6
Para além desta alteração significativa em termos de ocupação do solo agrícola, Silva faz
referência à existência, na segunda metade do século passado, de algumas áreas, dispersas
pelo concelho, de pomar e de vinha contínua, armada em bardo ou em cruzeta (Silva, 1986:
46). O milho forragem e os prados permanentes são outras actividades agrícolas vegetais cuja
implantação se foi reforçando ao longo daquele período temporal. Paralelamente, os processos
produtivos e tecnológicos foram-se alterando. Como Silva recorda, até à década de 1960, a
forragem ficava na terra durante o máximo de tempo para garantir ao gado de trabalho
alimento verde até muito tarde, e o milho de rega era sempre associado ao feijão e à abóbora
(Silva, 1986: 43).
A actividade pecuária bovina já teve importância na região. A barrosã, raça que
predominava no município, para além de utilizada na tracção animal proporcionava
significativos rendimentos através das trocas no mercado, primeiro os de Inglaterra e depois os
nacionais (matadouros do Porto e Lisboa). É em 1847 que os britânicos começam a comprar
gado bovino, criado no território do concelho de Paços de Ferreira. Foi aliás a intensificação
desta actividade que impôs a necessidade, justificada pelo Governo Civil do Porto em 1854, de
construir estatísticas do número de cabeças de gado, “com o fim de evitar os malefícios da
grande exportação que houve este ano” (Lacerda, 1986: 160). Porém, progressivamente, este
mercado foi perdendo interesse e em 1904 dois agricultores da região, “Pinheiro Carneiro Leão
e José Leão Torres, verificam que enviando o gado para os matadouros da capital obtinham
maior lucro” (Lacerda, 1986: 171). Para além de Lisboa, o Porto e Gibraltar passaram a ser
outros mercados de exportação de bovinos de carne com origem no concelho (Lacerda, 1986:
175). Os lacticínios eram, à época, o outro aproveitamento da actividade bovina, com
expressão significativa na região. Esta questão será retomada mais adiante, a propósito da
indústria dos lacticínios.
Sem a relevância económica dos bovinos, o gado ovino era também presença na região.
A lã era então não só uma matéria prima importante para a indústria têxtil caseira, uma vez
que acompanhava o linho, mas era também vendida para o exterior (Lacerda, 1986: 158).
Apesar de enquadrado no Entre-Douro e Minho, Paços de Ferreira, bem como os
restantes concelhos do “Vale do Sousa”, localiza-se numa área de características muito próprias
em relação ao restante Minho. De acordo com Silva, “o diferente comportamento das manchas
litológicas [do “Vale do Sousa”] associado ao diversificado panorama morfológico, constitui um
dos factores de forte incidência no clima, na cobertura vegetal e mesmo na ocupação humana.
7
Assim, nos níveis de 450 e 570 metros (Padrão, Pilar, Citânia e Alto do Castro) e
nalgumas encostas aflora o granito a nú. (...) As manchas de bravio cobrem as vertentes de
maior declive e úmbrias. Recorde-se que o povoamento florestal [do concelho de Paços de
Ferreira] (...) foi primitivamente constituído por espécies de folhagem caduca, com especial
importância para o carvalho; mas a partir do século XIV, começou a sua fisionomia a alterar-se
com a difusão do pinheiro, que passou a dominar o povoamento das matas do Minho; e a área
concelhia em estudo não é excepção” (Silva, 1986: 17).
É na segunda metade do século XX, concretamente, após a II Grande Guerra Mundial
que se processa a expansão do eucalipto associado ao incremento industrial (Silva, 1986: 17).
Presentemente, a área de coberto florestal é bem inferior da de outrora. Como Silva nos
recorda, estando Paços de Ferreira localizado numa área de influência industrial e urbana, “por
toda a área [do concelho] o surto de construção civil fez aparecer casas (...) em antigos
pinhais. A expansão industrial incide igualmente na transformação da paisagem, com prejuízo
das áreas de bravio” (Silva, 1986: 17)9.
(ii) Indústria I
Como já antes foi referido, a actividade industrial representa, no momento presente, o
principal sector de inserção profissional da população residente no concelho. Esta actividade,
como se procura dar a conhecer, tem tradição na região, à qual não é certamente alheia dois
aspectos importantes. Ambos estão relacionados com a localização geográfica do concelho.
Porém, enquanto um assenta na geografia natural  o rio Ferreira , o outro enquadra-se no
âmbito da geografia humana  proximidade da cidade do Porto e construção de infraestruturas, mais concretamente, electrificação e vias de comunicação.
O rio Ferreira assumiu um papel importante no desenvolvimento industrial do concelho10.
Com efeito, a força motriz que este proporcionava foi utilizada por inúmeras unidades de
diversas indústrias que, deste modo, superavam a carência de qualquer outro meio propulsor. A
título ilustrativo, é de referir que já “em 1856 existiam 50 moinhos, 6 engenhos de serrar
madeira e 1 engenho de fazer azeite. Pelo Inquérito Industrial de 1881, [primeira fonte
sistematizada de que se dispõe sobre a indústria em Portugal] haveria: 50 moinhos, 140 mós e
9
Em anexo, na Figura 1, consta o espaço hipsométrico do concelho de Paços de Ferreira.
O rio Ferreira é um dos mais importantes afluentes do rio Sousa. A depressão de Paços de Ferreira (200 a 300 metros
de altitude), localizada no domínio deste concelho é drenada por aquele rio, bem como pelos seus afluentes: o rio Eiriz
e a ribeira da Carvalhosa (Silva, 1986: 14).
10
8
150 a 200 empregados no seu trabalho, mas em 1895, o seu número ascende já a 70 moinhos
e cerca de 210 pessoas empregadas. (...)
Ainda relacionado com o rio Ferreira, para a exploração de madeiras, foram registadas
em 1881, 15 serras hidráulicas de serração de pinho, número que aumenta para 17 em 1895,
empregando nesse ano esta actividade 34 pessoas.
O Inquérito Industrial de 1881 caracteriza o concelho como ‹um centro de produção fabril
rural, existindo 14 oficinas de serração mecânica, 15 serras hidráulicas, cujo trabalho orçado em
1 500 tábuas por dia em 8 meses de trabalho activo, pois a estiagem dura 4 meses. A produção
total é de 360 000 tábuas ou 30 000 dúzias, pois esta é a unidade tradicional, valendo em
média 1$300 reis, o produto local é de 39 contos, pagando-se a serração a 140 reis a dúzia, o
rendimento desta indústria é de 4.200$00 reis››› (Lacerda, 1986: 193-4: sublinhados nossos).
A criação de infra-estruturas foi certamente o outro aspecto relevante para o
desenvolvimento industrial do concelho. No levantamento dos documentos do arquivo do
Município de Paços de Ferreira, o ano de 1927 é considerado como o início “de um período de
florescimento e actividade por meio de incontáveis melhoramentos realizados nas freguesias e
sede de concelho”
11
. De entre os melhoramentos concretizados, e tendo em conta a questão
sob análise, são de reter os seguintes. Em primeiro lugar, a electrificação do concelho.
Classificada como “uma obra de relevo”, é descrito que “foi levantado, para fornecimento da
energia eléctrica a todo o concelho, um cabo de alta tensão”. Acrescentava-se ainda que
“acham-se actualmente construídas cinco ‘cabines’ e electrificadas todas as freguesias, à
excepção de Ferreira. A vila de Paços e a vila de Freamunde, beneficiadas pela energia eléctrica
e iluminação pública, devem a este melhoramento uma nova vida comercial e industrial”
(1940: 67-8).
De entre os melhoramentos rurais mais importantes então anunciados, figuram os
realizados na freguesia de Eiriz. Concretamente, “a construção da estrada municipal do Cancelo
a Eiriz. Um fontenário e lavadouro no lugar do Cabo. Foi criada uma escola mista, que a
Comissão Administrativa [do Município] dotou com mobiliário e material didático” (1940: 68).
Como curiosidade, refere-se aqui que a referida escola criada em 1927, em Eiriz, tinha,
em 1936, 75 crianças matriculadas. Destas, menos de metade (35) tiveram aproveitamento
escolar12.
11
Paços de Ferreira: 1836/1936, 1937: 67. Nesta data era presidente da Câmara o Sr. D. José Maria de Queiroz
Lencastre.
12
Delegação Escolar de Paços de Ferreira – Estatística Escolar em Julho de 1936, em Paços de Ferreira: 1836/1936,
1940.
9
Os transportes e as estradas mereceram também referência na descrição, de 1927, das
actividades realizadas pelo Município. Relativamente aos primeiros, é referido que para além da
linha do Douro servir a vila, “há diariamente um duplo serviço de transportes em caminheta
para os comboios-correios ascendentes e descendentes, na estação mais próxima que é a de
Paredes, à distância de 10 Km. Há também serviço diário de camionagem para o Pôrto às 7 e 8
horas da manhã e pelo meio-dia. Actualmente o estacionamento naquela cidade é na rua de
Camões” (1940: 77).
Quanto às vias de comunicação rodoviárias, dava-se a conhecer que “de Paços de
Ferreira irradiam estradas nas direcções de Paredes, Valongo, Serra da Agrela, Louzada, Santo
Tirso, Vizela, Guimarães, etc. Paços de Ferreira é dos concelhos mais bem servidos de estradas
através de várias freguesias” (1940: 77).
Por fim é de salientar o posicionamento estratégico do concelho no contexto da área que,
ao longo dos tempos recentes, se veio tornando de maior tradição e concentração industrial da
Região Norte. Para além de confinar a norte e a oeste com o que viria a afirmar-se como bacia
têxtil algodoeira do vale do rio Ave, Paços de Ferreira faz fronteira, a sul e a leste, com centros
localizados no vale do rio Sousa que igualmente se foram tornando relevantes do ponto de vista
do desenvolvimento industrial. São estes: Penafiel, Paredes e Lousada. Por fim, a sudoeste, o
concelho bordeja o que no momento presente é designado por Área Metropolitana do Porto.
Após este breve apontamento sobre algumas condições relevantes que favoreceram o
desenvolvimento industrial do concelho, referem-se de seguida alguns aspectos das principais
indústrias.
Lacticínios
Esta indústria, que entretanto se extinguiu, já foi relevante no concelho.
O inquérito Industrial de 1881, referindo-se à exploração de manteiga, faz notar que esta
“acha-se apenas em Paços de Ferreira, onde 3 pessoas vivem exclusivamente dela. A
preparação da manteiga constitui um labor doméstico de algumas famílias rurais. [Adianta
ainda que aquela] é indústria recente e apresenta inclinação fabril (...). A exportação faz-se
para o Porto e Valongo, onde o fabrico do biscoito requer manteiga” (em Lacerda, 1986: 194).
A “lacticultura”, como o Eng.º Agrónomo Alexandre Aranha Furtado Mendonça designa a
indústria dos lacticínios, desenvolveu-se no concelho devido não só às boas condições
climatéricas, mas também ao apoio produtivo e tecnológico prestado pela “Quinta Distrital do
Porto (Alentem-Louzada)”. De acordo com aquele autor, foi por volta de 1878 que esta Estação
Experimental “propagou as vacas turinas na região ao mesmo tempo que ensinava a prática da
10
indústria dos lacticínios com maquinaria e métodos modernos hoje utilisados pela afamada
industria regional” (Paços de Ferreira: 1836/1936, 1940: 80).
Eiriz - que já era paróquia em 1220 e cujo nome Pinho Leal diz vir de Eurico  teve
papel relevante nesta indústria. Concretamente, através da Quinta do Paço (antiga Casa do
Paço) localizada na freguesia. Era aqui que funcionava “uma das instalações mais conhecidas
do país pelo seu aperfeiçoamento técnico” (Paços de Ferreira: 1836/1936, 1940: 93)13. De
acordo com Lacerda, as instalações construídas na Quinta do Paço, considerada uma quinta
modelo na transformação de lacticínios, “correspondeu, sem dúvida, à tendência fabril
apontada pelo Inquérito Industrial [de 1881]” (Lacerda, 1986: 194). Ainda em Eiriz, lugar do
Souto, é também instalada, em 1901, “uma sucursal da fábrica de Santo Thyrso das firmas
Azevedo Júnior & Ca” (Jornal de Paços de Ferreira, em Lacerda, 1986: 194).
“Water-proof do camponez”
Uma outra indústria outrora com alguma expressão no concelho, e hoje inexistente, foi a
das croças ou palhoças ou ainda, de acordo com os relatórios do Inquérito Industrial de 1881,
do “water-proof do camponez”. Esta indústria, eminentemente rural, ocupava a mão-de-obra,
mais liberta dos trabalhos agrícolas, durante os quatro meses de Inverno. Localizada, em
especial, na freguesia de Carvalhosa, vizinha de Eiriz, ocupava naquele ano cerca de 250
pessoas que fabricavam outras tantas croças diariamente. Nos finais do século XIX (1895)
dedicavam-se àquela actividade 104 pessoas (Lacerda, 1986: 194). Com efeito, embora por
todo o distrito do Porto se fizessem cestos, gigos, canastras, .... só em Paços de Ferreira se
fabricavam as croças que então abasteciam aquele território (Magalhães, 1986: 86).
Madeira e mobiliário de madeira
Para além de indústrias que, na época e na região, existiam mais ou menos dispersas
(Moagens, Padarias, Ferrarias, Fogueteiros, Manufacturas de Linho (Teares Domésticos) e de
Algodão (Oficinas de Tecelagem), Alfaiates, Tinturarias, ...) o Inquérito Industrial de 1881 dá,
no que respeita ao concelho de Paços de Ferreira, particular atenção a um conjunto de
indústrias que o tornava um concelho “industrialmente curioso”. Para além dos “lacticínios” e da
13
Sobre esta questão ver também Magalhães, Maria Madalena Allegro de (1986: 84-85), “Paços de Ferreira: Indústria
Transformadora”, em Paços de Ferreira: Traços de História Contemporânea, Câmara Municipal de Paços de Ferreira,
Gabinete de Informação e Cultura, Volume I, pp. 79-93.
11
“Obra de Verga e Palha”  já acima descritos  aquele Inquérito fazia ainda referência à
“Serração de Madeira de Pinho” e à “Manufactura de Fusos” (Magalhães, 1986: 84-85).
Foi, porém, a “Serração de Madeira de Pinho” que levou o Inquérito Industrial de 1881 a
designar Paços de Ferreira como “um centro de produção fabril rural”. Esta actividade neste
concelho contrastava com outros, nomeadamente, Bouças, Valongo, Maia e Vila do Conde onde
a exploração dos pinhais se fazia para abastecimento de tabuado e de lenha para o Porto.
Magalhães refere a actividade da “Serração de Madeira de Pinho” como “provavelmente aquela
que poderá ser apontada como a mais remota origem da actual indústria do mobiliário”
(Magalhães, 1986: 86).
Apesar da importância (em termos económicos e de mão-de-obra que ocupava) das
indústrias da madeira no concelho, sucede que as mesmas se concentravam em duas
freguesias: Freamunde e Arreigada. Enquanto Freamunde se especializou na indústria de
material escolar e de móveis domésticos e ainda em oficinas de tamancaria e marcenaria, já em
Arreigada concentravam-se a moagem e a serração de madeiras (Magalhães, 1986: 87). De
acordo com Magalhães, foram razões de aproveitamento de energia, o que levou estes dois
tipos de unidades  moagem e serração de madeiras e fabricação de mobiliário  a
associarem-se. Este era então um fenómeno relativamente comum antes de a produção e
distribuição da energia eléctrica se terem generalizado no país (1986: 88).
Esta especialização territorial ainda se fazia sentir na segunda década do século passado.
Com efeito, em 1920, em periódicos regionais, era feita referência “à nova oficina de Mobiliário
e Material Escolar e à Fábrica de Moagem sob a firma Pereiras, Barros e Ca La”, localizada na
rua do Comércio em Freamunde. Era também divulgado o início da construção do “aparatoso
edifício para a instalação da fábrica de mobiliário e material escolar da firma Albino de Matos,
Sucessores, La”, também em Freamunde (Magalhães, 1986: 88).
Também nos documentos do arquivo do Município de Paços de Ferreira é feita referência
a Freamunde. Como os mesmos descrevem, “A 15 de Junho de 1933 a laboriosa povoação de
Freamunde foi elevada à categoria de vila. Assim o mereciam a numerosa população, os seus
mercados e feiras concorridas, a sua vida associativa e o seu grande desenvolvimento industrial
e comercial. (...) A indústria e material escolar e de móveis está aqui muito desenvolvida, sendo
as suas fábricas as mais conhecidas do paiz. São também numerosas as oficinas de tamancaria
e marcenaria” (em Paços de Ferreira: 1836/1936, 1940: 81-83).
A carpintaria e a marcenaria são, com efeito, outras actividades relacionadas com as
industrias anteriores, que também merecem referência. Em 1887, José Augusto Vieira no Minho
Pittoresco (Tomo II), refere que no concelho de Paços de Ferreira há “uma certa aptidão para
12
os trabalhos de carpinteria e marcenaria que muito conviria fomentar, algumas officinas
existem já (...)” (em Magalhães, 1986: 88).
Embora sem tradição de mobiliário propriamente dito, Paços de Ferreira tinha reunido ao
longo de décadas condições para o desenvolvimento deste tipo de indústria transformadora. Os
antecedentes históricos da serração de madeiras, da tamancaria e a existência de fábricas de
mobiliário escolar ilustram o referido.
Reunidas condições favoráveis, factores exógenos impulsionaram o desenvolvimento do
ramo da indústria mobiliária no concelho. Concretamente, o acréscimo generalizado na procura
de mobiliário doméstico, verificado a partir de finais de 1960, associado à melhoria das
condições de vida dos portugueses que lhe foi abrindo o acesso ao consumo (em Magalhães,
1986: 89).
Têxtil
À indústria têxtil, bem como às actividades que lhe estavam associadas, o Inquérito
Industrial de 1881 faz escassa referência.
No “Mapa Geral das Pequenas Indústrias”, então recenseadas no concelho, figuram as
“Manufacturas de Fusos”, que à data empregavam 30 fuseiros, as “Manufacturas de Linho” que
registavam 150 “Teares Domésticos” e as “Manufacturas de Algodão” com 1 Oficina de
Tecelagem e 2 Teares em Oficinas (Magalhães, 1986: 85).
Porém, cinco décadas passadas, o periódico Eco de Paços de Ferreira ao relatar o cortejo
que se realizou em 1936, no âmbito das comemorações do primeiro centenário do Município,
descreve um leque diversificado de representações das actividades transformadoras que nele
tinham participado. Tal relato deixa “transparecer a imagem de uma estrutura industrial (...)
rica e complexa” (Magalhães, 1986: 87). Para além das fábricas de lacticínios do concelho e das
inúmeras actividades artesanais, estiveram representadas, no referido cortejo, as indústrias de
marcenaria, as de serralharia e serralharia mecânica, do calçado e ainda o “interessante” carro
e pessoal da indústria de fundição de metais (Magalhães, 1986: 87).
Embora (aparentemente) ausente naquele cortejo, a “Empresa de Canelas, L.DA”
figurava naquele periódico concelhio que, também em 1936, dava a conhecer as finalidades da
mesma. Segundo o anúncio, a referida empresa dedicava-se ao “fabrico mecânico de canelas,
bobines, carretas e tudo o que diz respeito à indústria de fiação e tecidos. Principais
fornecedores das mais importantes fábricas do país” (em Magalhães, 1986: 87).
Segundo Magalhães, este anúncio revela a existência de um sector ligado à indústria
têxtil, então em expansão nas áreas vizinhas do Vale do Ave, e que em termos de cadeia de
13
produção, lhe está a juzante. Ainda de acordo com aquela autora, “é possível que o
desenvolvimento das indústrias de máquinas e instrumentos diversos para a indústria têxtil
entroncasse na manufactura de fusos, de que já falava o Inquérito Industrial de 1881,
revelando-se assim uma evolução positiva” (Magalhães, 1986: 87).
No limiar do século XXI: Economia
Neste breve apontamento privilegiaram-se as actividades socioeconómicas que, ao longo
do último século e meio, marcaram o funcionamento de Paços de Ferreira e, simultaneamente,
foram moldando a estrutura produtiva e sócio-política local. Daquelas actividades, enquanto
umas se extinguiram em parte (agricultura) ou de todo (lacticínios e produção de croças),
outras foram-se afirmando (indústrias de madeira e mobiliário de madeira). Outras ainda
foram-se implantando.
Nas páginas que se seguem procura-se traçar os principais contornos e características da
estrutura socioprodutiva local. Para além de dar a conhecer o actual cenário, a análise que se
segue tem ainda, sobretudo, o objectivo de contextualizar a leitura dos bloqueios e das
dinâmicas socioeconómicas ao funcionamento de Eiriz, que ocupará o capítulo que se segue.
Neste âmbito, a análise temporal circunscreve-se, sobretudo, às últimas duas décadas
(1980-2000).
(i) Agricultura II
Na viragem do século (2001) o sector primário evidenciava-se, localmente, pela sua
reduzida expressão: quer em termos de emprego e de ocupação de mão-de-obra, quer de
rendimento, quer ainda de ocupação do território. De seguida dão-se a conhecer alguns
indicadores estatísticos que ilustram o referido.
Emprego e ocupação de mão-de-obra - Em 2001, a população envolvida no mercado de trabalho
agrícola representava, unicamente, 1% e 2% do total dos activos, no concelho e na freguesia,
respectivamente. Observando as características da mão-de-obra que garantia o cultivo da terra,
conclui-se que a maior parte era de natureza familiar. Isto é, sem qualquer vínculo contratual.
Com efeito, no total das UTA recenseadas em 1999, mais de quatro quintos (86%), a
nível do concelho, e praticamente a totalidade (93%), a nível da freguesia, tinham relações de
parentesco com o chefe de exploração da unidade produtiva que cultivavam. Em suma,
14
unicamente 5 e 8 em cada 100 residentes, respectivamente, no concelho e em Eiriz, estavam
relacionados com o cultivo da terra, independentemente da natureza das relações de trabalho
(ver Quadro I.1).
Rendimento - O contributo do sector primário em 1999 para o produto nacional  VAB a preços
de base (preços correntes)  do concelho era de 1,6%14. Este valor repartia-se
equitativamente pelas actividades agrícola e silvícola (Rolo, 2003). Embora o contributo da
agricultura do concelho para a riqueza aqui gerada fosse diminuto, não contrastava
grandemente com o cenário apurado a nível do Continente (3,6%). Deste total, 2,6%
correspondia à agricultura e 0,6% à silvicultura (Rolo, 2003).
Ocupação do território - Por fim, uma breve nota para referir o reduzido espaço que esta
actividade territorial ocupa localmente.
Fontes
Quadro I.1 – Importância do sector primário no emprego e na ocupação de mão-de-obra
Concelho
de
Paços de Ferreira
Freguesia
de
Eiriz
a)
52,981
2,123
População activa (nº) – 2001
a)
27,405
1,151
População activa na agricultura (nº) – 1999
b)
319
21
b)
1107,1
86,6
UTA familiares (nº) – 1999
b)
949,8
80,4
UTA assalariados permanentes (nº) – 1999
b)
90,5
3,4
UTA assalariados eventuais (nº) – 1999
b)
66,8
2,8
Pessoas de família que trabalham na exploração agrícola (nº) – 1999
b)
2,268
161
População residente (nº) – 2001
UTA total
(1)
(nº) – 1999
População agrícola
(2)
b)
2,425
167
População agrícola/População residente (%) - 1999
(nº) – 1999
b)
4,6
7,9
VAB do sector primário a preços correntes (%) - 1999
c)
1,6
-
(1) UTA – Unidade de Trabalho Agrícola: equivale ao trabalho de uma pessoa a tempo completo realizado num
ano, medido em horas (1 UTA = 275 dias de trabalho a 8 horas por dia).
(2) “População agrícola” corresponde à soma do número de pessoas de família que trabalham na exploração
agrícola e de UTA assalariadas (Cfr. Rolo, Joaquim Cabral, 2003).
Fontes: a) INE, XIV Recenseamento Geral da População, 2001.
b) INE, Recenseamento Geral Agrícola, 1999.
c) Rolo, Joaquim Cabral, 2003.
A superfície das explorações agrícolas, recenseada em 1999, ocupava 0,03% e 0,04% do
total da área territorial do concelho (71,59 Km2) e de Eiriz (5,10 Km2). De notar, que desta
superfície total  2,438 ha no concelho e 209 ha na freguesia de Eiriz  56% (1,367 ha) e
63% (131 ha), respectivamente, correspondia ao que é designado por Superfície Agrícola
14
VAB – Valor Acrescentado Bruto: resultado final da actividade produtiva no decurso de um período determinado.
Resulta da diferença entre o valor da produção e o valor do consumo intermédio.
15
Utilizada (SAU)15. Desta, a maior parte  80% no concelho e 90% na freguesia de Eiriz  era
ocupada, àquela data, por culturas temporárias (ver Quadro 1 do anexo).
Para além do reduzido espaço territorial ocupado, localmente, pela actividade agrícola,
dos elementos quantitativos descritos ressaltam dois outros aspectos. Por um lado, a
importância da área florestal no total da superfície das unidades produtivas do concelho e da
freguesia, respectivamente, 44% e 37%16. A muito reduzida expressão da superfície ocupada
pelas culturas permanentes é o outro aspecto a assinalar.
Freguesia de Eiriz: 2003
Da informação recolhida por inquérito por questionário, realizado em 2003, na freguesia
no âmbito do projecto Agro 62 dão-se a conhecer alguns elementos que ajudam a esclarecer
algumas das características dos proprietários ou titulares das unidades produtivas, localizadas
nos limites administrativos de Eiriz.
Antes porém, convém esclarecer que a definição subjacente à noção de unidade agrícola
adoptada no inquérito de 2003 é muito mais ampla da utilizada nos recenseamentos agrícolas.
Assim se explica a diferença do número total daquelas unidades recenseadas na freguesia, pelo
INE em 1999 (concretamente 48) e as 157 recenseadas no inquérito de 2003, como consta do
Quadro I.2.
Quadro I.2 – Eiriz: Proprietários ou titulares do espaço da freguesia por local de residência e natureza
jurídica: superfície (inquirida em 2003) e unidades agrícolas (número e superfícies)
Tipo de
proprietário ou titular
Residentes na freguesia
Não residentes com interesses na freguesia
Entidades
Total
Unidades agrícolas
Nº total
Superfície
total
Superfície total
na freguesia
Superfície
activa
113
283,60
281,58
109,44
43
190,82
147,88
65,43
1
1,5
1,5
157
475,92
430,96
174,87
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), Eiriz (Paços de Ferreira) – Caracterização Socioeconómica da População e do Espaço.
Quadros de Apuramento do Inquérito Realizado em 2003 (1ª fase do projecto), Projecto Agro 62, Doc. de
trabalho no 5, Quadro 7.1.
Da informação recolhida é interessante notar que cerca de dois terços (65%) do total da
área da freguesia, ocupada por unidades agrícolas, pertence a indivíduos e famílias residentes
em Eiriz. A restante área é pertença de proprietários ou titulares não residentes na freguesia
15
SAU – Superfície da exploração que inclui terras aráveis, culturas permanentes e prados e pastagens permanentes.
A Figura 2, que consta do anexo, evidencia a ocupação territorial da actividade agrícola no concelho e em Eiriz em
1981.
16
16
(para além de 1,5 ha que é propriedade da Igreja). Parte significativa desta superfície será
certamente de unidades agrícolas cuja sede de exploração se localiza em freguesias limítrofes
de Eiriz  Meixomil, Sanfins e Carvalhosa  mas cuja área se estende para além dos limites
administrativos das mesmas. Com efeito, da superfície total recenseada na freguesia como
sendo pertença de não-residentes (190,82 ha), 78% (147,88 ha) está localizada em Eiriz.
Um outro aspecto relevante diz respeito à área cultivada17. Esta corresponde a menos de
metade (41%) da superfície total que as unidades produtivas ocupam na freguesia. Dada a
importância do coberto florestal, não será ousado sugerir que parte significativa da área nãoagrícola está ocupada por espécies florestais.
A informação empírica recolhida em 2003 permite ainda afirmar que cerca de metade
(52%) dos residentes na freguesia são proprietários ou titulares de unidades produtivas com
uma superfície total inferior a 1 ha. Estes residentes têm a pertença de 26,31 ha, dispersos por
73 parcelas. Dada a topografia da freguesia, estes valores não parecem desajustados. À medida
que a dimensão física das unidades produtivas aumenta, o número de proprietários diminui,
mas o número das parcelas das unidades mantém-se elevado.
Quem são, ou antes, o que fazem os residentes, proprietários ou titulares do espaço da
freguesia ocupado por unidades produtivas? O quadro abaixo esclarece que exactamente
metade daqueles indivíduos se encontrava, em 2003, na condição de reformado ou pensionista.
Porém, estes detinham unicamente um pouco mais de um terço (39%) do total do espaço da
freguesia que era então ocupado por unidades produtivas, o qual, recorde-se, se encontrava
extremamente fragmentado.
Quadro I.3 – Eiriz: Proprietários singulares do espaço residentes na freguesia por condição perante a
actividade económica (2003)
Total (%)
Nº de
proprietários
Superfície na
freguesia
(inquirida)
Nº de
parcelas
Activo a exercer profissão
39
54
41
Activo desempregado
4
2
3
Não activo – doméstica
6
4
5
Não activo – outros casos
¨
1
1
Não activo – reformado ou pensionista
50
39
50
Nd
¨
¨
¨
100
100
100
Condição perante a actividade económica
Total
Fonte: Isabel, Rodrigo (2004), Quadro 6.1.1.
17
Esta área é designada no quadro por “superfície activa”.
17
Em anexo, o Quadro 1 procura esclarecer, com base nalguns indicadores estatísticos, a
evolução da agricultura local, entre 1979 e 1999.
(ii) Indústria II
Como foi antes sugerido, o sector secundário foi-se implantando localmente. Neste
ponto, para além dos aspectos analisados a propósito da agricultura local, isto é, emprego,
ocupação de mão-de-obra e rendimento, serão ainda comentados outros, que se afiguram
relevantes para a caracterização do sector. Concretamente, os relacionados com as
características da estrutura do tecido empresarial local.
Porém, uma vez que a análise da informação estatística disponível, relativamente a este
sector de actividade económica, requer algumas cautelas, enumeram-se de seguida os aspectos
mais relevantes que as mesmas devem observar.
Em primeiro lugar, é de salientar o facto de a população activa recenseada como estando
ligada a estabelecimentos industriais contemplar unicamente a relacionada com as empresas
com trabalhadores por conta de outrém. Ou seja, ao ignorar as empresas familiares aquela
população está, certamente, sub-avaliada. Sobretudo, tendo em conta as características da
estrutura do tecido industrial local. A sub-avaliação estatística é igualmente válida quando se
analisa o número de empresas.
Com efeito, a informação estatística sobre o número de empresas não contempla as
sociedades nem os empresários em nome individual. De novo, o conhecimento da realidade
local informa-nos sobre a importância do número de empresas que pertencem a estas duas
categorias de forma jurídica. Para além destes aspectos, há ainda a salientar um outro facto
que contribui também para a sub-avaliação do número de empresas estatisticamente
recenseadas. Nomeadamente, a não-contabilização dos agentes que exercem actividade
isolada, apoiados na estrutura familiar, ou sem existência legal e fiscal.
Apresentam-se, de seguida, alguns elementos que ilustram os comentários anteriores.
Por exemplo, de acordo com a informação do INE, o número de empresas existentes em Paços
de Ferreira em 1999 era 928. Porém, de acordo com informação também do INE, em 1999,
“76% dos agentes económicos de Paços de Ferreira, o grosso das empresas, são em nome
individual” (INE, Atlas das Cidades de Portugal, 1999). Segundo a informação divulgada pela
Marktest no “Sales Index 2002”, o número de empresas existentes em 1999, naquele concelho,
era de 1894. Deste modo, a Associação Empresarial de Paços de Ferreira (AEPF) conclui que “a
grande diferença entre os valores indicados para 1999, 1894 vs 928 empresas, poderá ser
justificado pelo elevado número de empresários em nome individual que exercem actividade
18
com pessoal contratado. Mesmo assim, [sublinha aquela Associação] não estarão a ser
considerados os agentes que exercem actividade isoladamente, apoiados na estrutura familiar
ou sem existência legal e fiscal. Actualmente [2003] a previsão é que o número de empresas
existentes no concelho seja de cerca de 3000 (dado estimado, apresentado pela AEPF)”
(AEPF, 2003: 59).
Esclarecidas as precauções, retomam-se os elementos quantitativos disponíveis.
Emprego e ocupação de mão-de-obra - A importância do sector secundário no emprego local é,
com efeito, significativa. Em 2001, 68% e 79% do total dos activos empregados e residentes no
concelho e em Eiriz, respectivamente, estavam relacionados com aquele sector (ver Quadro 2
em anexo). Contudo, aparentemente, este vem perdendo expressão a favor do sector terciário.
Os valores dos activos, recenseados em 1981 e em 2001, nestes dois sectores de actividade
económica e respectiva evolução ilustram o referido.
De sublinhar também a evolução registada no sector agrícola. Em duas décadas (19812001) a população activa empregada no sector primário passou de 8% para 1% no concelho, e
de 16% para 2% na freguesia de Eiriz.
Um outro aspecto a assinalar é o da progressiva integração da força de trabalho feminina
no mercado de trabalho local. Do total dos activos, em 2001, cerca de metade (42%) eram
mulheres. O processo de feminização do mercado de trabalho local vem-se acentuando desde a
década de 1981. Nesta data, aquele valor era só de 27% a nível do concelho, e 33% em Eiriz
(ver Quadro 2 do anexo).
Analisando a informação relativa ao sector secundário conclui-se que em 1981, as
mulheres representavam 27% e 38% do total dos activos, do concelho e de Eiriz,
respectivamente (ver Quadro 4 do anexo). Porém, em duas décadas (1981-2001), a estrutura
da força de trabalho, daquele sector concelhio, altera-se profundamente. Com efeito, em 2001,
as mulheres representavam já 38% do total dos activos empregados no secundário. Contudo,
este valor ascendia a 41% no sector das indústrias transformadoras, e a 73% e a 93% no
ramos dos têxteis e da indústria do vestuário, respectivamente (ver Quadro 3 do anexo).
Embora caracterizadores da economia local é de sublinhar que os dois aspectos
enumerados são também estruturantes da economia da região. Como Hespanha refere, “o peso
do sector secundário e da participação feminina na estrutura da população activa parecem ser
19
as características mais distintivas da Região do Norte relativamente ao total do país, no que
refere aos indicadores do emprego” (2002: 37-8)18.
Dada a muito reduzida expressão local da indústria extractiva, bem como das restantes
actividades classificadas no sector secundário  electricidade, gás e água, e construção, como
os Quadros 3, 5 e 6, em anexo, confirmam  cabe à indústria transformadora a
responsabilidade pela maior parte da oferta de emprego no sector secundário local.
Indústria transformadora - Em 1999, segundo a informação divulgada pela Marktest no “Sales
Index 2002”, a indústria transformadora registava a nível do concelho de Paços de Ferreira
1,060 empresas, as quais empregavam 11,956 trabalhadores por conta de outrém. Em termos
globais, aquelas representavam 56% do total das empresas recenseadas no concelho e estes
representavam 73% do total dos trabalhadores por conta de outrém (ver Quadros 5 e 6 em
anexo)19.
De acordo com o último Censo (2001), do total da população empregada neste ramo
(16,097 indivíduos), metade (52%) concentrava-se na indústria da madeira e da fabricação de
mobiliário, o que correspondia a 79% do total da mão-de-obra masculina a trabalhar nas
indústrias transformadoras. Por seu lado, as indústrias dos têxteis e do vestuário ocupavam
37% do total da força de trabalho recenseada nas indústrias transformadoras, sendo que 89%
desta mão-de-obra era feminina (ver Quadro 3 do anexo).
Rendimento - A importância que a indústria transformadora assume a nível do emprego
que gera localmente também se reflecte em termos económicos. A informação relativa a 1999
avalia o contributo do sector secundário, para o produto total gerado a nível concelhio (VAB a
preços de base - preços correntes), em 50,7%. Deste, 47,8% foram realizados pela indústria
transformadora (Rolo, 2003).
Confrontando estes valores com os estimados para o total nacional sobressai a
importância local, quer do sector secundário, quer da indústria transformadora. Com efeito, o
contributo do sector secundário, estimado a nível do Continente, em 1999, para o total do
produto foi de 29,5%. Deste valor, 18,8% correspondeu à indústria transformadora
(Rolo, 2003).
18
Hespanha, Pedro (2002), A transformação da Família e a Regressão da Sociedade – Providência, Comissão de
Coordenação da Região do Norte, Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente.
19
A não-coincidência dos valores que constam, nomeadamente, nos Quadros 3 e 5, e também no Quadro 7, do anexo,
explica-se pelo facto de se reportarem a momentos temporais e a fontes secundárias distintas.
20
Tecido empresarial local - Sem pretender a exaustão apresentam-se, de seguida, alguns
indicadores estatísticos tendo em vista uma caracterização sumária da estrutura do tecido
empresarial local relacionado com o sector secundário e a indústria transformadora, em
particular.
A informação reporta-se às escalas do concelho de Paços de Ferreira e do Continente
português. O ano de 2000 é o marco temporal de referência. No Quadro 7, do anexo, consta a
informação quantitativa que serve de suporte aos gráficos a seguir apresentados e comentados.
Indústrias
extractivas
1%
P ro dução e
distribuição de
electricidade,
gás e água
0%
Co nstrução
7%
Indústria
transformador
a
92%
Produção e distribuição de electricidade, gás e água
Indústrias extractivas
Construção
Indústria transformadora
Figura 1 – Paços de Ferreira: Trabalhadores por conta de outrém nas
quatro actividades do sector secundário
A muito reduzida dimensão económica das entidades que, em 2000, empregavam a força
de trabalho local sobressai dos valores que constam das figuras que se seguem. Esta
constatação é válida para o ramo das indústrias transformadoras e da construção.
200-499
1%
Ignorado
21%
<10
47%
100-199
4%
50-99
3%
30-49
5%
<10
10-29
10-29
19%
30-49
50-99
100-199
200-499
Ignorado
Figura 2 – Paços de Ferreira: Construção – Número de empresas segundo a
dimensão (volume de vendas)
21
No que se refere ao ramo da construção, constata-se que, àquela data, do total das 170
empresas recenseadas no concelho, cerca de metade (47%) atingia um volume de vendas
inferior a 10 mil contos (49,880 euros), e dois terços (66%) das mesmas registavam um
volume de vendas inferior a 29 mil contos (144,651 euros).
20-49
3%
10-19
8%
5-9
23%
1-4
66%
1-4
5-9
10-19
20-49
Figura 3 - Paços de Ferreira: Construção – Número de estabelecimentos
segundo a dimensão (nº de pessoas ao serviço)
A oferta de emprego por parte das empresas do ramo da construção, sediadas no
concelho, pulverizava-se por um elevado número de entidades. Com efeito, dois terços (66%)
daquelas acolhiam entre 1 e 4 trabalhadores.
500-999
1%
1000-4999
0%
Igno rado
10%
200-499
3%
<10
37%
100-199
6%
50-99
7%
30-49
9%
<10
200-499
10-29
27%
10-29
500-999
30-49
1000-4999
50-99
Ignorado
100-199
Figura 4 - Paços de Ferreira: Indústria transformadora – Número de empresas
segundo a dimensão (volume de vendas)
Embora o ramo das indústrias transformadoras local evidencie uma estrutura empresarial
um pouco mais favorável, quando comparada com a do ramo da construção, este continua, no
entanto, a ser caracterizado por empresas de dimensão micro.
22
Com efeito, do total das 1,062 empresas recenseadas em 2000, cerca de dois terços
(64%) registavam um volume de vendas inferior a 30 mil contos (149,639 euros).
100-199
1%
50-99
3%
200-399
0%
400-499
0%
500-999
0%
20-49
11%
1-4
48%
10-19
15%
5-9
22%
1-4
5-9
10-19
20-49
50-99
100-199
200-399
400-499
500-999
Figura 5 - Paços de Ferreira: Indústria transformadora – Número de
estabelecimentos segundo a dimensão (nº de pessoas ao serviço)
A reduzida dimensão económica das empresas daquele ramo do sector secundário, em
termos de número de empregos que proporciona, sobressai dos elementos que constam da
Figura 5. Com efeito, quase metade (48%) empregavam entre 1 e 4 trabalhadores, e cerca de
dois terços (60%) empregavam entre 1 e 9 trabalhadores. Unicamente 26% do total das
referidas empresas eram de pequena dimensão. Isto é, tinham entre 10 e 49 pessoas ao
serviço. As empresas que empregavam entre 50 e 199 trabalhadores resumiam-se a 36, as
quais representam 3% do número total das indústrias transformadoras (ver Quadro 7 do
anexo).
Quadros médios
Quadros superiores
0%
1%
Ignorados
0%
Praticantes e aprendizes
13%
Profissionais nãoqualificados
7%
Encarregados, cont. e
chefes de equipa
1%
Profissionais altamente
qualificados
1%
Profissionais qualificados
65%
Profissionais semiqualificados
12%
Quadros superiores
Encarregados, cont. e chefes de equipa
Profissionais qualificados
Profissionais não-qualificados
Ignorados
Quadros médios
Profissionais altamente qualificados
Profissionais semi-qualificados
Praticantes e aprendizes
Figura 6 – Paços de Ferreira: Indústria transformadora – Número de
trabalhadores por conta de outrém, por níveis de qualificação
23
Uma breve nota sobre o nível de qualificação e de habilitações dos trabalhadores por
conta de outrém envolvidos nas indústrias transformadoras do concelho.
De acordo com a informação estatística, cerca de dois terços daquela mão-de-obra são
profissionais qualificados. Qual o significado desta qualificação é uma questão pertinente. O
conhecimento da realidade local, a partir dos inquéritos realizados na freguesia de Eiriz, permite
afirmar que, no que respeita à indústria da madeira e do mobiliário
ramos da indústria
transformadora com forte presença entre os residentes na freguesia , a referida qualificação
foi obtida com base na experiência. Ou seja, subjacente a este tipo de especialização está um
conhecimento transmitido entre gerações e exercitado pela prática do saber-fazer. Para além
deste aspecto, o trabalho de campo realizado indicia ainda uma escassa, ou mesmo ausência,
actualização técnica, tendo em conta as constantes mudanças dos mercados da oferta e da
procura.
Técnico
Profissional
0%
Bacharelato
0%
Secundário
3%
Licenciatura
2%
Básico
2%
3º ciclo
5%
1º ciclo
50%
2º ciclo
38%
Básico
1º ciclo
2º ciclo
3º ciclo
Secundário
Técnico Profissional
Bacharelato
Licenciatura
Figura 7 - Paços de Ferreira: Indústria transformadora – Número de
trabalhadores por conta de outrém, por nível de habilitações
Os aspectos acabados de enumerar com base nos conhecimentos da realidade local,
circunscritos a Eiriz, não parecem estar confinados a esta escala, mas provavelmente são
elementos estruturantes da própria indústria transformadora concelhia. Com efeito, metade da
força de trabalho daquela indústria possui, como nível de habilitações, unicamente o 1º ciclo, e
mais de quatro quintos (88%) o 1º e o 2º ciclos de escolaridade. Estes valores são, note-se,
inferiores dos registados a nível do Continente. A esta escala, 39% dos trabalhadores por conta
de outrém da indústria transformadora possui o 1º ciclo, e 69% o 1º e o 2º ciclos (ver Quadro
7 do anexo).
24
Em suma, a força de trabalho da indústria transformadora local possui um baixo nível de
habilitações escolares e, de acordo com a informação empírica recolhida, também um baixo
nível de qualificação. Estas constatações são válidas em termos absolutos e relativos.
Para além dos principais aspectos estruturantes do sector secundário local, acrescentamse umas breves notas à actividade do artesanato. A informação recolhida por inquérito directo,
elaborado na década de 1960, identificou a existência de 244 oficinas nos concelhos de
Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira. Recenseou ainda cerca de 600 bordadeiras em
Felgueiras e Lousada (AEPF, s/d: 49).
De acordo com o documento Estudo sobre a Realidade Empresarial do Concelho de Paços
de Ferreira, na classificação hierárquica dos diferentes ofícios o das bordadeiras surge em
primeiro lugar. Em segundo lugar, consta a confecção de camisolas e casacos “com desenhos
muito característicos”. Esta actividade foi identificada, naquele inquérito directo, em 56 oficinas,
concentradas em Ferreira (Paços de Ferreira), Meinedo e Nevogilde (Lousada). A estes ofícios
seguiam-se os praticados nas oficinas dedicadas ao empalhamento, concretamente, 34. De
acordo com aquele documento, “no caso desta actividade, a indústria foi muito importante para
a sua sobrevivência, uma vez que antes do desenvolvimento da indústria do mobiliário não
havia mercado para estes artesãos. Este tipo de trabalho conta com mais-valias importantes e
decisivas para a obtenção de uma imagem de qualidade que dignifica e valoriza os produtos.
Os entalhadores e os embutidores [representavam] cerca de 33 oficinas e também eles
foram induzidos pela indústria das mobílias” (s/d: 49).
Em Eiriz, no inquérito realizado em 2003, foram recenseadas algumas oficinas de
entalhadores e de embutidores.
Freguesia de Eiriz: 2003
O cenário traçado, relativo ao sector secundário concelhio, não difere do captado
aquando da realização do inquérito por questionário na freguesia, em 2003. A informação
apurada neste último permite, no entanto, dar a conhecer e esclarecer alguns aspectos.
Em primeiro lugar é de referir que o total de activos empregados identificados em 2003
(1,069) é ligeiramente inferior ao que o INE registara no último Censo da População (1,151),
publicado em 2001 (ver Quadro I.1 e Quadro 2 do anexo). Os factores de dinâmica e de
bloqueios ao funcionamento socioeconómico da freguesia poderão ajudar a esclarecer as
diferenças assinaladas.
Um outro aspecto interessante a assinalar (ver Quadro I.4) é o facto de a maioria dos
residentes em Eiriz relacionados com o mercado de trabalho do sector secundário se deslocar
25
para fora da freguesia para exercer a respectiva actividade económica. Do total destes
indivíduos, dois quintos (40%) permanece na freguesia, 41% desloca-se para outras freguesias
do concelho e 19% para fora dos limites administrativos de Paços de Ferreira.
Quadro I.4 – Eiriz: População residente a exercer profissão por sectores económicos: número de
activos total segundo o local de trabalho
Actividade económica por sectores
Agricultura e Pescas
Na freguesia
No concelho
e
fora do concelho
Total
17
1
18
Indústrias, Construção, Produção e distribuição de
electricidade, gás e água
357
530
887
Serviços
101
63
164
475
594
1,069
Total
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), quadros 1.2.1.2 e 4.7.
É no entanto de sublinhar que esta mobilidade individual, associada ao exercício da
actividade económica, não é exclusiva desta freguesia nem é recente a nível local.
Dados relativos a duas décadas atrás (1981), esclareciam que do total dos activos na
indústria transformadora residentes no concelho (9,700), cerca de 19% (1,800) deslocavam-se
para fora do concelho. Os principais destinos destes últimos, por ordem de importância
decrescente, eram Santo Tirso, que então absorvia mais de metade daqueles residentes,
Paredes, Lousada, Guimarães e Porto. Este movimento, àquela data, era biunívoco, uma vez
que residentes noutros concelhos trabalhavam então na indústria transformadora local.
Aproximadamente 900 activos deslocavam-se, por ordem de importância decrescente, de
Lousada (mais de metade das entradas), Paredes, Santo Tirso, Porto e Valongo. O cenário
traçado leva Magalhães a concluir que “indirectamente é possível concluir que Paços de Ferreira
usufrui de uma certa autonomia em termos de base económica, não se encontrando na
dependência do exterior, no que respeita ao emprego industrial, ao contrário do que se verifica
em muitos outros concelhos próximos do Porto” (1986: 80). Porém, aquela mesma autora, ao
salientar a excessiva especialização da economia local, alertava que a mesma poderia obrigar a
outro tipo de dependências que, só através de um certo dinamismo e esforço de integração
regional e nacional, seriam evitadas eventuais crises ou migrações indesejáveis (Magalhães,
1986: 81, sublinhados nossos).
O Estudo sobre a Realidade Empresarial do Concelho de Paços de Ferreira (s/d: 107),
realizado pela AEPF, realça também a importância da mobilidade sócio-profissional, no concelho
e na região onde este se insere. Reportando-se a um estudo do INE, baseado nos Censos de
26
1991, a taxa de mobilidade extra-concelhia da população residente empregada, nos concelhos
do “Vale do Sousa” era, segundo aquele documento, a seguinte (ver Quadro I.5).
Quadro I.5 – Taxa de mobilidade extra-concelhia da população residente, 1991
Concelhos
Taxa de mobilidade
Penafiel
32%
Paredes
26%
Lousada
36%
Felgueiras
10%
Paços de Ferreira
17%
Castelo de Paiva
28%
Fonte: AEPF: (s/d:107).
De acordo com a informação recolhida, do total dos indivíduos activos empregados,
residentes em Eiriz, 887 trabalhavam em 54 entidades classificadas no sector secundário
(ver Quadro I.6).
Quadro I.6 – Eiriz: Entidades por actividade económica: número e volume de emprego segundo o tipo e
a dimensão económica da entidade (2003)
7
55
1
7
Produção e
distribuição de
electricidade,
gás e água
Construção
Total
5
95
7
16
1
4
4
30
2
21
19
44
11
55
14
106
7
116
2
2
116
116
Grande
1
1
(2)
Nº de
trabalhadores
46
(2)
Nº de
entidades
9
Média
Nº de
trabalhadores
14
Nº de
trabalhadores
2
Nº de
entidades
5
(2)
450
450
Total
Nº de
trabalhadores
28
1
Pequena
Nº de
entidades
12
Micro III
(grande) (2)
Nº de
trabalhadores
Indústrias
transformadoras
(2)
Nº de
entidades
Indústrias
extractivas
Micro II
(pequena)
Nº de
trabalhadores
Nº de
entidades
Actividade
económica
Nº de
trabalhadores.
(2)
Nº de
entidades
Micro I
(muito pequena)
(1)
Nº de
entidades
Autónoma
3
19
36
790
1
7
14
71
54
887
(1) Entidade – Corresponde a uma unidade organizacional, usufruindo de capacidade de decisão quanto à
afectação de meios e recursos. Entidade Autónoma – É uma entidade não-pública (natureza jurídica) e nãosubordinada (hierarquização de decisão),Cfr. Rodrigo, Isabel (2004: VIII).
(2) Dimensão Económica – A dimensão económica das entidades não-agrícolas foi definida com base em
indicadores económicos adoptados pelo Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento
(IAPMEI).
Grandes – quando têm ≥ 250 trabalhadores; Médias – quando têm < 250 a ≥ 50 trabalhadores; Pequenas –
quando têm < 50 a ≥ 10 trabalhadores; Micro III – quando têm < 10 a ≥ 7 trabalhadores; Micro II – quando
têm < 7 a ≥ 4 trabalhadores; Micro I – quando têm ≤ 3 trabalhadores, Cfr. Rodrigo, Isabel (2004: IX).
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), Quadro 4.5.
27
Deste sector, a indústria transformadora empregava 89% do total dos activos residentes
em Eiriz e que trabalhavam no sector secundário. A oferta de trabalho por parte das restantes
actividades económicas do sector secundário assume uma importância diminuta para a
população activa residente na freguesia. De esclarecer que as 3 entidades recenseadas e
classificadas na indústria extractiva referem-se à exploração de pedreiras.
Da leitura da informação quantitativa relativa à indústria transformadora ressalta que
16% dos indivíduos trabalham em entidades que empregam menos de 10 trabalhadores.
Ressalta ainda a dependência de mais de metade (53%) do total da população activa residente
em Eiriz (1,069) em 3 entidades da indústria transformadora. Também não é de negligenciar o
facto de 42% do total dos indivíduos activos residentes em Eiriz dependerem do funcionamento
de uma única entidade.
Dos comentários anteriores são de reter três aspectos. A forte articulação da população
activa, residente na freguesia, ao sector secundário. A importância que a indústria
transformadora assume naquele sector, em termos de emprego e de rendimento dos
residentes. Por fim, a fragilidade de parte significativa deste emprego, dado a importância do
seu volume relativamente ao reduzido número de entidades de que depende.
A informação recolhida permite ainda concluir que embora a maior parte das entidades
do sector secundário, que dão emprego à população de Eiriz, estejam localizadas na freguesia,
a maior parte dos activos aí residentes (60%) trabalham em unidades localizadas fora desta
(ver Quadro I.7). Da análise da implantação local das unidades, do sector secundário, ressalta a
actividade económica “construção”. A quase totalidade (93%) das entidades que estão na
origem do emprego e do rendimento dos residentes na freguesia que trabalham naquela
actividade encontra-se sediada em Eiriz. Porém, este ramo emprega unicamente 8% dos
activos residentes em Eiriz que trabalham no sector secundário.
Analisando a indústria transformadora conclui-se que a maioria das entidades (78%)
desta actividade económica estão também localizadas em Eiriz. Porém, estas representam
emprego e rendimento somente para cerca de um terço (36%) dos indivíduos que residem em
Eiriz e trabalham na indústria transformadora. Ou seja, as entidades da indústria
transformadora sediada na freguesia têm uma reduzida dimensão económica. Com efeito, dado
terem sido identificadas 28 entidades que empregavam 285 indivíduos, a dimensão económica
da maior parte daquelas deverá centrar-se em torno do que já foi identificado, a propósito do
Quadro I.6, por entidades classificadas na categoria de dimensão de número de trabalhadores
como micro. Isto é, que empregam menos de 10 trabalhadores.
28
Embora não circunscrito às entidades da indústria transformadora, mas antes
abrangendo a totalidade das mesmas, a informação recolhida em 2003 na freguesia confirma
aquela hipótese (ver Quadro I.8).
Quadro I.7 – Eiriz: Entidades por actividade económica: número e volume de emprego segundo o tipo de
implantação local
Autónoma
Actividade
económica
Entidade com estabelecimento
na freguesia
Nº de
entidades
Indústrias extractivas
Indústrias
transformadoras
Nº de
trabalhadores
Total
Nº de
entidades
Nº de
trabalhadores
Total
Nº de
entidades
Nº de
trabalhadores
1
5
2
14
3
19
28
285
8
505
36
790
1
7
1
7
Produção e
distribuição de
electricidade, gás e
água
Construção
Entidade sem estabelecimento
na freguesia mas com
influência local significativa
13
67
1
4
14
71
42
357
12
530
54
887
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), Quadro 4.7.
Quadro I.8 – Eiriz: Entidades por dimensão económica: número e volume de emprego segundo o tipo e
implantação local
Autónoma
Actividade económica
Entidade com estabelecimento
na freguesia
Nº de
entidades
Nº de
trabalhadores
Entidade sem estabelecimento
na freguesia mas com
influência local significativa
Nº de
entidades
Nº de
trabalhadores
Total
Nº de
entidades
Nº de
trabalhadores
Micro I (muito pequena)
43
81
5
12
48
93
Micro II (pequena)
16
78
6
29
22
103
Micro III (grande)
11
86
6
44
17
130
Pequena
6
97
4
58
10
155
Média
2
116
2
116
1
450
Grande
1
Nd
4
Total
82
450
1
458
23
5
593
105
1,051
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), Quadro 4.6.
29
Sociedade
Uma leitura de alguns indicadores que, directa ou indirectamente, poderão aferir o
desenvolvimento local é o principal objectivo deste ponto. Neste âmbito são privilegiados
indicadores demográficos e de dinâmica social. Os primeiros centram-se em torno da ocupação
do território e das famílias. Os segundos nas condições de vida e na empregabilidade das
populações.
(i) Demografia: o local e a freguesia de Eiriz
Ocupação do território - Quer o concelho quer as 16 freguesias que o constituem vêm, numa
perspectiva temporal longa, a registar um aumento da respectiva população residente. O
quadro que se segue ilustra o referido para o total do concelho e para Eiriz (ver Quadro I.9).
Quadro I.9 - Evolução da população residente (Nº de indivíduos)
Concelho de
Paços de Ferreira
Freguesia de
Eiriz
1758
1864
1900
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
5,422
9,627
11,900
15,686
18,697
21,999
27,537
33,655
40,687
44,190
52,985
351
482
476
604
758
960
1,203
1,455
1,610
1,836
2,123
Fonte: Silva, Rosa Fernanda (1986), “Caracterização geográfica do concelho de Paços de Ferreira”, em Paços de
Ferreira: Traços de História Contemporânea”, Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Gabinete de
Informação e Cultura, Volume I, pg. 24 (anos até 1981, inclusive).
INE, XIII Recenseamento Geral da População, 1991.
INE, XIV Recenseamento Geral da População, 2001.
Como seria de esperar, ao aumento da população residente corresponde uma densidade
populacional crescente. Em 1864 a densidade da população em Paços de Ferreira era inferior a
150 habitantes/Km2, como sucedia aliás na maior parte das freguesias que o constituem. As
excepções eram Frazão, Meixomil, Raimonda e Figueiró  que registavam uma densidade
demográfica compreendida entre 150 e 230 habitantes/Km2 , e Freamunde cuja densidade
estava compreendida entre os 230 e os 400 habitantes/Km2. Eiriz registava uma densidade
populacional de 99,5 habitantes/Km2.
É a partir de 1960 que a densidade demográfica se acentua, com significado, em todas
as freguesias do concelho. Naquela data Eiriz registava uma densidade demográfica comum a
outras 7 freguesias do concelho, isto é, compreendida entre 230 e 400 habitantes/Km2. Porém,
em 1960, Arreigada, Frazão e Paços de Ferreira registavam já valores compreendidos entre 510
e 600 habitantes/Km2; e Meixomil e Figueiró entre 400 a 510 habitantes/Km2. Destacava-se
Freamunde que, à data, registava valores compreendidos entre 770 a 1187 habitantes/Km2. No
30
extremo oposto, Sanfins e Codeços registavam os valores mais baixos: entre 150 a 230
habitantes/Km2.
Durante as duas décadas seguintes (1970/1980) só Eiriz e Penamaior se mantiveram no
escalão de densidade demográfica registada em 1960. As 14 restantes freguesias do concelho
ganharam população residente. Com efeito, mesmo as outras duas freguesias, para além de
Eiriz e Penamaior, da “Serra”  isto é, localizadas no alinhamento da Agrela ,
concretamente, Codeços e Sanfins, ganharam população (ver Quadro 8 do anexo).
De acordo com a informação estatística mais recente, quer o concelho quer Eiriz viram
reforçada a respectiva população residente. A taxa de variação desta última, registada entre
1991 e 2001, foi, respectivamente, de 19,9% e 15,6% (4,8% foi o valor registado a nível do
Continente). De salientar também o valor elevado da densidade populacional do concelho em
2001 (740 habitantes/Km2)  Eiriz registava 416 habitantes/Km2 , sobretudo quando
comparado com a maior parte do território nacional. A título ilustrativo refere-se o valor
registado a nível do Continente português: 112 habitantes/Km2 (ver Quadro 9 do anexo).
A vitalidade local do povoamento, que os indicadores retidos ilustram, é reforçada
quando se analisa a estrutura etária da população, bem como alguns indicadores demográficos
com ela relacionados. Relativamente àquela estrutura sobressai, por um lado, a reduzida
importância relativa da população do concelho que em 2001 tinha idade superior a 65 anos
(9% no concelho e 17% no Continente) e, por outro, a presença da população jovem. Com
efeito, mais de um terço (37%) dos residentes no concelho tinha menos de 25 anos, valor
superior ao registado no Continente (30%).
A reduzida taxa de mortalidade (6,2‰), o baixo índice de envelhecimento (42%) e a
elevada taxa de natalidade (14,4‰) registados no concelho, reflectem a estrutura etária da
respectiva população residente, e contrastam com os valores a nível do Continente. A esta
escala, os valores foram, respectivamente, 10,2‰, 108% e 10,9‰.
Em resumo, uma dinâmica demográfica positiva caracteriza o concelho. Para além de
densamente povoado, parte significativa dos que o habitam é jovem.
As tendências demográficas assinaladas não são certamente alheias, por um lado, à
oferta de emprego por parte do sector secundário em particular  como já foi atrás analisado
 e, por outro, à localização geográfica do concelho.
Como também já foi aqui comentado, Paços de Ferreira está estrategicamente localizado
na área de maior tradição e concentração industrial da Região Norte. Confina ainda com a Área
Metropolitana do Porto. Causa ou efeito destes aspectos, Paços de Ferreira é um concelho que
se poderá considerar como estando bem servido por vias rodoviárias.
31
Com efeito, nos domínios do município cruzam-se 3 estradas nacionais: 207, 209, 319.
Para além da ligação ao Porto, este traçado facilita a mobilidade da população residente no
(e para fora) do concelho. Facilita ainda, quer o abastecimento da indústria local com matérias
primas, quer o escoamento da respectiva produção. Para além das estradas nacionais
enumeradas, o concelho está ainda rodeado por acessos: IP1 (A1 e A3), IP4 (A4), IP9 e ainda o
IC25. Os traçados de outras vias em construção, e planeadas, diversificam e facilitam, ainda
mais, os acessos rodoviários. Não é, no entanto, servido por qualquer rede ferroviária.
Famílias - Em 2001, o número de alojamentos familiares clássicos excedia  em 2,164 e em 25
no concelho e na freguesia de Eiriz, respectivamente  o número de famílias clássicas
recenseadas (ver Quadro 9 do anexo). Estes valores embora indicativos da existência de
alojamentos não-habitados em permanência têm, no entanto, um significado residual no total
dos alojamentos familiares clássicos localmente recenseados.
A dimensão média das famílias, no concelho e em Eiriz, sugere o predomínio da família
nuclear com filhos. Com efeito, aquele valor, em 2001, era de 3,5 na freguesia e de 3,4 no
concelho. A diminuição da dimensão média das famílias registada, entre 1991 e 2001, em Paços
de Ferreira é uma tendência que se manifestou quer à escala nacional, quer à escala regional.
Com efeito, naquele período temporal, na Região Norte as famílias passaram de 3,1 para
2,8 elementos, na NUT III Tâmega de 3,7 elementos para 3,3 elementos e em Paços de
Ferreira de 3,9 para 3,4 elementos. Para além deste concelho e o de Lousada, nos restantes
que integram a NUT III Tâmega as famílias registavam, em 2001, um número médio de
elementos mais baixo20.
Uma leitura da informação recolhida, em 2003, na freguesia de Eiriz esclarece-nos sobre
a estrutura familiar dos residentes, segundo a respectiva condição perante a actividade
económica (ver Quadro I.10)21.
Do Quadro I.10 sobressai a importância dos seguintes tipos de famílias: família nuclear
com filhos (que integra dois terços (66%) dos indivíduos residentes), família com filhos
alargada e família nuclear. Cada um destes dois tipos de família acolhe, respectivamente, 17%
e 7% dos residentes em Eiriz22.
20
INE, Destaque, 26 de Julho de 2001.
Tal como sucede com o número de activos, também o número de residentes e o número de famílias recenseadas em
2001 pelo INE, não coincide com os valores apurados no inquérito realizado em 2003. em 2001 e em 2003, os valores
recenseados foram: indivíduos residentes 2,123 e 2,046, respectivamente, e famílias 614 e 575, respectivamente.
22
Família com filhos alargada: constituída por 1 indivíduo, cônjuge, filho(s) e outro(s) elemento(s).
21
32
Quadro I.10 – Eiriz: População residente por condição perante a actividade económica,
segundo o tipo de família
Condição perante
a actividade
económica
Activos a exercer
profissão
Família
com
filhos
alargada
Família
nuclear
com
filhos
Família
sem
filhos
alargada
Família
nuclear
Família
monoparental
alargada
Família
monoparental
Família
mononuclear
alargada
Família
mononuclear
Total
157
736
2
60
26
46
11
7
1,045
Activo
desempregado
15
34
-
6
1
4
1
1
62
Outros activos
3
1
-
-
1
-
-
-
5
Doméstica
31
105
3
14
4
8
1
5
171
Estudante
48
277
1
-
7
9
1
-
343
Reformado(a)
ou
pensionista
45
34
5
57
4
20
10
21
196
Outros
42
160
-
1
6
5
1
1
216
Não-activo:
Nd
Total
1
4
1
-
1
-
-
1
8
342
1,351
12
138
50
92
25
36
2,046
Fonte: Rodrigo, Isabel (2004), Quadro 3.1.
Para além dos tipos de família enumerados é ainda de referir a importância dos
indivíduos que vivem integrados em famílias monoparental e mononuclear. As primeiras
correspondem a famílias constituídas: por 1 indivíduo com filho(s) e sem outro(s) elemento(s)
 família monoparental , e por 1 indivíduo com filho(s) e com outro(s) elemento(s)  família
monoparental alargada. Este dois tipos de família acolhem 7% do total dos residentes na
freguesia. A informação apurada informa-nos que estas famílias são maioritariamente
constituídas por elementos do sexo feminino, o que sugere a importância das famílias
constituídas pela mãe e filho(s) com ou sem a presença de outro(s) elemento(s).
As famílias mononucleares, constituídas por 1 indivíduo  família mononuclear  e por
1 indivíduo sem filho(s) e com outro(s) elemento(s)  família mononuclear alargada 
integram unicamente 3% dos indivíduos residentes em Eiriz. Embora estes tipos de famílias
assumam alguma relevância entre os indivíduos com 65 ou mais anos é, no entanto, de
sublinhar que os residentes mais idosos estão integrados, sobretudo, em famílias nucleares
(constituídas por 1 indivíduo e cônjuge) e em famílias com filhos alargadas. Mais
concretamente, cerca de um terço (32%) dos residentes com 65 ou mais anos vive em famílias
do tipo nuclear, 21% em famílias com filhos alargadas e 18% em famílias mononucleares.
Das características da estrutura familiar que acolhe os residentes de Eiriz ressaltam dois
aspectos.
Em primeiro lugar, os tipos de famílias que predominam são representativos do “modo de
vida” e do “estilo de vida” urbano. Em segundo lugar, dada a reduzida presença da população
33
idosa (indivíduos com 65 ou mais anos)  os quais representam unicamente 9% do total dos
indivíduos recenseados em 2003  é difícil retirar conclusões sobre o modelo dominante “tipo
de família  envelhecimento”. Contudo, o número de idosos que vivem em famílias
mononucleares parece significativo, sobretudo se se tiver em consideração a reduzida
expressão numérica da população daquele escalão etário.
As conclusões retiradas para Eiriz, relativamente à dinâmica demográfica e estrutura
familiar, parecem, em traços largos, poder ser extrapoladas para Paços de Ferreira, bem como
para uma mancha de outros concelhos do continente (nomeadamente, 35) situados a noroeste
de Portugal e designados, num estudo recente, por territórios industriais com forte
desqualifacação23. A grande vitalidade demográfica destes territórios reflecte-se a vários níveis.
Concretamente, naquele conjunto de concelhos nota-se uma maior integração familiar e
uma menor procura por soluções institucionalizadas. Isto é, é sobretudo naqueles territórios
que, comparativamente ao resto do Continente, se regista um menor número de idosos a
residir em famílias de uma só pessoa e em famílias institucionais24. É também ali onde a
percentagem de crianças dos 0 aos 3 anos em amas e creches é mais baixa. Se os dois
aspectos enumerados em primeiro lugar são, em larga medida, explicados pelo reduzido peso
de idosos que integram a população residente daqueles territórios, já a fraca integração de
crianças em amas e creches traduz ou uma fraca cobertura territorial deste recurso ou uma
reduzida procura do mesmo. O baixo poder de compra destas populações, como de seguida se
analisa, ajuda certamente a explicar o recurso a mecanismos informais  solidariedades de
vizinhança e entre-ajuda familiar  que substituem localmente aquelas estruturas de
socialização infantil.
Até que ponto e porquê a presença daqueles mecanismos informais são um sintoma de
desenvolvimento são questões que merecem ser analisadas.
(ii) Dinâmica social: o local
Condições de vida - Neste ponto procura-se analisar, ainda que indirectamente, alguns aspectos
relacionados com o poder aquisitivo e qualidade de vida da população local. Neste âmbito,
comentam-se os seguintes indicadores: “Poder de Compra”, “Receita Líquida Total” e ainda
outros mais articulados com a qualidade de vida.
23
24
Instituto da Segurança Social (2005), Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental.
Conjunto de indivíduos residentes num alojamento colectivo.
34
Poder de Compra – A análise desta questão será feita com base num estudo recente cujo
principal objectivo foi o de caracterizar os concelhos portugueses sob o ponto de vista do poder
de compra25. As conclusões serão retiradas com base em dois indicadores, a saber: o Indicador
per Capita do Poder de Compra e a Percentagem do Poder de Compra.
A fim de esclarecer o significado destes indicadores, e das conclusões que os mesmos
permitem alcançar, importa dar a conhecer o tipo de variáveis que lhe estão subjacentes e
alguns aspectos relevantes das mesmas. Importa ainda proceder à definição daqueles
indicadores.
Como o estudo esclarece (INE, 2005: 5-12), a informação estatística utilizada reporta-se,
na sua maioria, ao ano de 2002, embora a análise tenha também incluído alguns elementos dos
Censos 2001. As variáveis utilizadas (20 no total) estão intimamente associadas ao poder de
compra. A sua selecção obedeceu a uma óptica não de geração do rendimento, mas de
utilização do rendimento, o que justifica a não consideração de variáveis ligadas à produção.
Neste âmbito, o fenómeno do autoconsumo está, certamente, insuficientemente reflectido nos
indicadores apresentados.
Para além do referido, é ainda de salientar que a metodologia adoptada é
particularmente adequada ao confronto espacial dos diferentes indicadores de poder de
compra, de seguida apresentados, mas ajusta-se menos a comparações temporais.
Compreende-se assim, que no presente documento não se proceda a comparações entre
distintas escalas temporais.
O Indicador per Capita (IpC) é um número índice com o valor 100 na média do país, que
compara o poder de compra manifestado quotidianamente, em termos per Capita, nos
diferentes concelhos e regiões, com esse valor de referência nacional.
A Percentagem do Poder de Compra (PPC) reflecte o peso do poder de compra de cada
concelho e região (que transparece do Indicador per Capita) no total do país, que assume o
valor 100%.
Para além do concelho de Paços de Ferreira, são considerados, nos Quadros 10 e 11 em
anexo, os concelhos do Porto e de Lisboa e as Regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto.
Referem-se ainda os concelhos que, em conjunto com Paços de Ferreira, constituem o “Vale do
Sousa” e a NUT III Tâmega, onde aquele se enquadra. Dada a não-adequação de se proceder a
comparações dos indicadores à escala temporal, como atrás foi explicado, optou-se pelo
alargamento da análise à escala territorial.
25
INE, Estudo sobre o poder de Compra Concelhio, 2005.
35
A informação contida nos Quadros 10 e 11 do anexo permite-nos retirar as seguintes
conclusões.
No que respeita à distribuição do poder de compra per Capita, Paços de Ferreira está
aquém da média do Continente em 36,74 pontos. Por outras palavras, o poder de compra da
respectiva população residente é cerca de um terço inferior ao do valor médio registado a nível
do Continente. Porém, no âmbito do agrupamento de concelhos do “Vale do Sousa”, Paços de
Ferreira e Felgueiras são os que registam um índice de poder de compra per Capita mais
elevado. Esta constatação é igualmente válida para os concelhos que integram a NUT III
Tâmega. A diferença, entre o poder de compra dos habitantes de Paços de Ferreira e do Porto
é bastante significativa: cerca de três vezes inferior.
O indicador Percentagem do Poder de Compra (PPC) é, como se sabe, inferido do
indicador per Capita de poder de compra. Para além de medir o peso do poder de compra de
cada concelho no total do País, que toma o valor 100, reflecte não só a distribuição do poder de
compra pelo país, mas também, e concomitantemente, a distribuição da população.
Do Quadro 11, do anexo, sobressai o insignificante contributo de Paços de Ferreira, e dos
restantes concelhos do “Vale do Sousa”, para o total do Continente (e do país). Aquele valor
contrasta com os registados a nível de Lisboa e do Porto. Cada um destes concelhos abarca,
respectivamente, 15% e 5% do total nacional do poder de compra.
Receita Líquida Total – Este Indicador, para além de contemplar os fluxos monetários e
não monetários, permite ainda analisar a origem e a composição dos rendimentos das famílias.
Ou seja, este indicador contempla a totalidade das fontes de rendimento dos indivíduos e
famílias, bem como a respectiva importância relativa.
A informação de seguida apresentada (ver Quadro I.11), relativamente àquele indicador,
é baseada num estudo recente e inclui a totalidade dos concelhos abarcados pela NUT III
Tâmega. De esclarecer que os territórios rurais que integram aquela NUT III estão contidos no
“rural-tipo”: rural de elevada densidade.
De acordo com o trabalho realizado por Rolo (2005)26 é possível concluir sobre a
importância das receitas monetárias e, dentro destas, as que são originadas no mercado de
trabalho (64,7%). Neste, a situação na profissão “trabalhador por conta de outrém” é a que
mais contribui (71%) para o rendimento das famílias.
26
Rolo, Joaquim Cabral (2005), “Rendimentos: de que vivem os que vivem no rural ?”, em População Rural e espaço,
Textos para debate, MANIFESTA 2005, Trancoso.
36
Quadro I.11 – Importância relativa dos tipos de receitas, dos rendimentos da população activa e
não-activa, dos ramos de actividade económica e dos rendimentos das explorações agrícolas
no rural de elevada densidade – NUT III “Tâmega”
%
Total
Rendimentos segundo o tipo de
receitas
Importância relativa dos rendimentos
da população activa e
não-activa
100
Monetárias (total)
Do trabalho
Transferências (total)
Pensões
Não-monetárias (total)
84,2
Activos TCO (1)
Activos TCP (2)
Não-activos (total)
Não-activos reformados
70,7
16,8
12,5
“Actividades territoriais” (total)
Agricultura
Hotelaria e restauração
“Secundário” (total)
Indústrias transformadoras
Construção
Serviços (total)
Serviços mercantis
4,6
64,7
16,2
9,2
15,8
9,1
Total
Origem dos rendimentos segundo os
ramos de actividade económica
Rendimentos das explorações
agrícolas
Explorações agrícolas de produtores singulares
Produção
Subsídios
Explorações agrícolas “Outras”
Produção
Subsídios
0,8
2,8
63,7
48,7
11,5
31,7
24,0
75,1
19,6
4,2
1,1
(1) TCO = Trabalhadores por Conta de Outrém.
(2) TCP = Trabalhadores por Conta Própria.
Fonte: Rolo, 2005: 5-10.
Contudo, é também de sublinhar o peso relativo das receitas das famílias com origem em
transferências e das receitas não-monetárias. Estas duas fontes de rendimento representam,
em conjunto, cerca de um terço das receitas das famílias residentes no território da NUT III
Tâmega.
Como seria de esperar, pela análise desenvolvida no ponto anterior, as actividades
territoriais têm um significado residual na origem dos rendimentos gerados pelos residentes no
rural de elevada densidade. Com efeito, cerca de dois terços (64%) dos mesmos são originados
no sector secundário (onde sobressaem as indústrias transformadoras) e o terço restante
(32%) no sector terciário.
Por fim, uma nota para sublinhar a reduzida importância dos subsídios agrícolas no total
dos rendimentos gerados pelo cultivo da terra.
No caso concreto da freguesia de Eiriz, o trabalho de campo realizado permite afirmar
que a larga maioria dos chefes de exploração que aí residem recorriam (informação de 2003) às
37
ajudas directas aos cereais, nomeadamente, à cultura do milho. Aliás, era a existência deste
subsídio que, na opinião da maioria dos inquiridos, explicava, em larga medida, que grande
parte da área de milho cultivada na freguesia ainda permanecesse.
Qualidade de vida – A este propósito apresentam-se alguns indicadores de qualidade de
vida relacionados com as condições de habitação das populações.
Neste âmbito, há a destacar, a nível do concelho, o reduzido número de alojamentos
familiares com acesso à rede pública de saneamento (unicamente cerca de um quarto (23%)
do total dos alojamentos) e de distribuição de água (também somente cerca de um quarto
(26%) do total dos alojamentos). Estes valores ressaltam, pela negativa, quando comparados
com os registados à escala da Região do Norte (ver Quadro 12 do anexo).
Por outro lado, são muito escassos os alojamentos que, no concelho, ainda não dispõem
de electrificação.
Empregabilidade - Dos indicadores seleccionados para aferir esta vertente social sobressaem,
pela positiva, a taxa de actividade e a taxa de desemprego registadas no concelho de Paços de
Ferreira, comparativamente aos restantes concelhos do território mais amplo onde aquele se
insere (ver Quadro 13 do anexo). Pela negativa, ressaltam os indicadores relativos à
escolarização. A informação estatística disponível esclarece que parte significativa da população
mais jovem inicia o respectivo percurso escolar, mas não conclui a escolaridade obrigatória.
Esta trajectória reflecte-se nas elevadas taxas de incumprimento da escolaridade e nas baixas
taxas específicas de escolarização.
A relação desfavorável da população do concelho com o sistema de ensino é uma
realidade já conhecida e amplamente divulgada.
Segundo um trabalho realizado pelo Instituto da Segurança Social, as altas taxas de
abandono escolar precoce (no caso das crianças e jovens com idades compreendidas entre os
10 e os 15 anos) e os valores elevados de saída antecipada do sistema de ensino (para aqueles
entre os 18 e os 24 anos) são particularmente evidentes em Paços de Ferreira, entre outros
concelhos. Neste concelho, 95,3% da população possui escolaridade menor ou igual à
obrigatória (2005: 93)27.
Ainda de acordo com aquele estudo, “se o baixo capital escolar desta população se
encontra associado ao desempenho de profissões desqualificadas ele também poderá, em
parte, explicar o grande peso de desempregados, sobretudo, daqueles que se encontram nesta
27
Instituto de Segurança Social (2005), Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental.
38
situação há mais de um ano”. Entre os concelhos que apresentam o maior peso de
desempregados de longa duração figura Paços de Ferreira (2005: 94).
O documento utilizado como base para a elaboração do Pacto Territorial para o Emprego
do Vale do Sousa (PTE), que tem por objectivo melhorar a situação do emprego na região
através de investimentos na área da educação, é também claro nesta matéria. Como aí é
referido, “uma certa ideia de educação feita na fábrica e não nos bancos da escola encontra-se
fortemente enraizada e revela-se, porventura, num obstáculo ao modelo produtivo instalado”28.
Enquadramento institucional
O quadro institucional abarca não só o conjunto de políticas, normas e regulamentos de
aplicação geral e local, mas igualmente as instituições que aplicam, adaptam e discutem
aqueles normativos. Ambas as vertentes têm, como se sabe, uma importância crucial nas
dinâmicas e bloqueios ao desenvolvimento dos espaços rurais.
Sem pretender retirar protagonismo ou relevância aos aspectos enumerados em primeiro
lugar, neste ponto referem-se as principais instituições que, a nível local, e também nacional e
regional, enquadram as actividades socioeconómicas e sociopolíticas29. Esta questão será
retomada no capítulo II de forma mais contextualizada e baseada na informação primária
entretanto recolhida, por inquérito por entrevista.
Actividades socioeconómicas
De seguida, enumeram-se e descrevem-se, de forma sumária, as principais instituições
cuja influência se manifesta, directa e indirectamente, a nível local. Naturalmente, elas estão
maioritariamente relacionadas com o sector de actividade secundária e, em particular, com as
indústrias transformadoras da madeira e do mobiliário.
A Associação Industrial do Concelho de Paços de Ferreira (AICPF) é uma entidade sem
fins lucrativos. Constituiu-se, em 1988, da necessidade de apoio sentida pelas indústrias da
região. Até 1996, esta Associação servia somente a indústria do concelho, dada a existência, a
nível regional, de uma Associação de Comerciantes.
28
Lourenço, José Manuel (2004) “Falta de qualificação dos empresários compromete futuro do Vale do Sousa”, Jornal
Público, 4 de Julho, sublinhados nossos.
29
Este ponto baseia-se na informação contida no documento Caracterização Económica do Concelho de Paços de
Ferreira, da responsabilidade da AEPF, publicado em 2003 (pp. 35-46 e 111-128).
39
A fim de servir melhor o tecido empresarial concelhio, através da concentração de acções
dirigidas ao comércio e serviços e à indústria, o apoio a estes sectores de actividade passou a
ser assegurado, após 1996, pela Associação Empresarial de Paços de Ferreira (AEPF).
Dada a relevância das indústrias da madeira e do mobiliário no concelho, a maioria dos
associados eram, em 2003, empresas deste ramo. Em 2003, a AEPF tinha 866 associados: 29%
eram empresas industriais e 71% comerciais e de serviços. Embora os associados industriais
fossem numericamente menos expressivos, comparativamente aos comerciantes, o respectivo
volume de negócios era bastante superior, reflectindo, deste modo, um maior peso na
Associação, em termos de valor das quotizações.
Como refere a AEPF “o facto de a AEPF ser, hoje, considerada uma associação
empresarial de cariz local (Paços de Ferreira) e sectorizada (mobiliário de madeira) deriva,
essencialmente, às raízes históricas que estiveram na génese da sua constituição.
No entanto, a estratégia da direcção tem sido no sentido de alargar quer a cobertura
geográfica quer sectorial, abrangendo todo o tecido empresarial de Paços de Ferreira. Para tal
pretendem estimular a concertação e a cooperação entre os vários agentes económicos.
Tendo começado por promover feiras exclusivas para os industriais de mobiliário locais
[Capital do Móvel], a AEPF tem alterado o perfil dos seus expositores, incluindo também
comerciantes locais e industriais de outros concelhos” (AEPF, 2003: 113).
De criação relativamente recente (1999), a Profisousa tem por objectivo promover a
qualificação dos futuros activos “fornecendo meios, à indústria, para enfrentar os novos
desafios de competitividade e sustentabilidade” (AEPF, 2003: 118). São sócios da Profisousa a
AEPF, a Câmara Municipal de Paços de Ferreira e a Escola Vértice. As duas primeiras detêm, em
partes iguais, cerca de 75% do capital social.
Em 2003 funcionaram 15 acções de formação de curta duração (50 horas), com especial
incidência na área da Informática. Funcionou ainda um curso de Educação e Formação de
Adultos (1,960 horas) que conferia dupla certificação aos formandos: 9º ano e certificação
profissional de nível II. No que refere às acções de formação profissional, funcionaram os
cursos de Animador Sócio-Cultural e de Técnico Projectista de Mobiliário.
Para além das duas instituições acima apresentadas, há ainda a salientar outras, também
relacionadas com a principal actividade empregadora do concelho.
O Centro de Formação Profissional da Indústria de Mobiliário e Madeira (CFPIMM), foi
criado por protocolo entre o Instituto de Emprego e Formação Profissional e a actual Associação
das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP). Ao definir a formação profissional
como factor decisivo para o desafio da modernização, aquela entidade actua em duas grandes
40
vertentes de formação: a formação inicial para jovens e a formação contínua para
trabalhadores no activo, empresários e chefias.
O Centro Tecnológico da Indústria de mobiliário e Madeira (CTIMM) foi constituído em
1987, na qualidade de pessoa colectiva de utilidade pública, sem fins lucrativos, dotado de
autonomia técnica, administrativa e financeira e dispõe de património próprio. Tem por
objectivo “prestar às indústrias nacionais de madeira e mobiliário o apoio técnico e a promoção
tecnológica indispensáveis ao seu desenvolvimento e competitividade” (AEPF, 2003: 44).
A Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP) representa as
indústrias da fileira da madeira. Tinha, em 2003, cerca de 1200 associados.
A Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA) foi constituída em
1984. Em 2003 representava cerca de 300 empresas produtoras de mobiliário, não
exclusivamente de madeira, em todo o país. A maioria dos associados eram empresas de
dimensão média (mais de 50 trabalhadores).
De certo modo relacionada com as indústrias da madeira e do mobiliário há ainda a
referir a Associação Florestal do Vale do Sousa. Esta associação privada sem fins lucrativos
abrange proprietários florestais de 6 concelhos: Castelo de Paiva, Felgueiras, Lousada, Paços de
Ferreira, Penafiel e Paredes. Tem por objectivo criar serviços que apoiem os proprietários
florestais a valorizar o respectivo património florestal que, em 2003, representava 8,350 ha.
Actividades sociopolíticas
Concelho desde 1836, Paços de Ferreira foi elevada a cidade em 1993.
A Associação de Municípios do Vale do Sousa (VALSOUSA) foi constituída em 1989 e
congrega 6 Municípios: Castelo de Paiva, Felgueiras, Lousada, Paços de Ferreira, Paredes e
Penafiel. De entre os projectos concretizados, refere-se aqui o designado por “Pacto Territorial
para o Emprego do Vale do Sousa”. Iniciado em 1998, este foi mais um projecto cujo objectivo
central ancorou na qualificação da força de trabalho daqueles concelhos. “A grande
preocupação deste projecto [foi], de uma forma integrada, conceber, planificar, executar,
acompanhar e avaliar um conjunto de acções que visassem essencialmente a sensibilização
para a importância da qualificação e do emprego sustentável. (...) [Embora a criação de
emprego não fosse prioridade, existiram] medidas cuja vocação [foi] a criação de novos postos
de trabalho, especialmente dirigidas aos mais jovens, em áreas que [integraram] a componente
da inovação e a da dimensão tecnológica e/ou [respondiam] a necessidades sociais não
satisfeitas” (AEPF, 2003: 37).
41
A Associação Paços 2000 é uma instituição sem fins lucrativos. Foi criada em 1992, com
o impulso significativo da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, com o objectivo de
desenvolver um Projecto de Luta Contra a Pobreza no concelho. Das áreas de intervenção
privilegiadas destacam-se: a implementação de Equipamentos Sociais de apoio à Infância e à
Terceira Idade, a Acção Social, o Emprego e Formação Profissional, a Deficiência e a Animação
Sociocultural.
A Associação de Desenvolvimento Rural das Terras do Sousa (ADER-SOUSA) foi fundada
em 1991. É uma Associação de âmbito regional, abarcando os concelhos de Paços de Ferreira,
Felgueiras, Lousada, Penafiel e Paredes. Tem como principal finalidade promover o
“desenvolvimento rural a nível local, tendente à melhoria das condições sociais, culturais e
económicas das populações, nomeadamente, a promoção da actividade do sector agrícola, do
artesanato, da cultura, dos serviços e do turismo” (em Estatutos da Ader-Sousa).
Em 1992, a Ader-Sousa tornou-se num dos 213 grupos da Comunidade Europeia, a
implementar um projecto piloto de desenvolvimento rural, no âmbito da Iniciativa Comunitária
(IC) LEADER.
Depois desta IC, a Ader-Sousa integrou as IC seguintes, concretamente, LEADER II e
LEADER +. A estratégia de desenvolvimento proposta no Plano de Desenvolvimento Local,
designado por “Terra de Sousa +” assenta nas seguintes linhas orientadoras: parceria,
território, integração, experiência, participação, inovação e comunicação.
A zona de intervenção da IC LEADER + são as zonas rurais (76,5% de uma área de 653
2
Km ). Apesar do crescimento populacional do “Vale do Sousa”, o abandono do sector primário
vem-se traduzindo na degradação da paisagem, património, cultura e do artesanato.
Freguesia de Eiriz: 2003
Na freguesia de Eiriz, o trabalho de campo entretanto realizado permitiu identificar
instituições que têm objectivos, sobretudo, de integração social e que abrangem as vertentes
cultural e social.
Para além da Junta de Freguesia, são de destacar o Clube de Futebol “Águias de Eiriz”, o
Orfeão de Eiriz e o Centro de Dia. Enquanto as duas entidades enumeradas em primeiro lugar
são pólos aglutinadores de um número significativo dos mais jovens, o Centro de Dia é um
espaço de acolhimento e de socialização dos mais idosos. De referir ainda, a nível da freguesia,
actividades e festividades de natureza religiosa, promovidas e/ou apoiadas pela Paróquia. Tais
iniciativas são também contributos relevantes para a manutenção das relações de inter-
42
conhecimento dos residentes, de coesão e também de controle social e ainda de promoção de
uma entidade local.
Síntese
Da situação exposta ao longo destas páginas ressaltam algumas conclusões e também
interrogações, de seguida apresentadas.
À reduzida dimensão económica da maioria das empresas do sector secundário, sediadas
localmente, acresce uma fraca, ou mesmo nula, cultura empresarial. Até que ponto e como
estes aspectos inibem a longevidade de um processo de desenvolvimento baseado num sector
secundário pouco exigente em qualificação dos recursos humanos, em mão-de-obra barata e
orientado, sobretudo, para a produção massificada e o mercado interno são questões
pertinentes.
Que bloqueios enfrenta este modelo que, ao longo das últimas três décadas tem
suportado o desenvolvimento local; que tipos de actores sociais e origens do capital estiveram
na génese daquele modelo; qual a evolução destes elementos até ao momento presente e que
dinâmicas asseguram, ou prevêem assegurar, num futuro próximo são outro tipo de questões
que também importa averiguar.
Estudos recentes aconselham que se evite a leitura dicotómica que sublinha a pertinência
analítica da oposição entre o país moderno e desenvolvido do litoral e o país tradicional e
subdesenvolvido do interior (e ilhas) (Ferrão, 2004: 7)30. De acordo com Ferrão, as dinâmicas
de evolução ocorridas na década de 1990 exemplificam que aquela situação é bastante mais
complexa. Assim, “o final do século XX parece confirmar que, justapondo-se às dicotomias
Norte/Sul do Portugal tradicional e litoral/interior do Portugal moderno, se afirma
crescentemente um Portugal urbano organizado em rede, um arquipélago urbano constituído
pelas grandes regiões metropolitanas de Lisboa e Porto [área limitada grosso modo pelo arco
Viana do Castelo-Braga-Aveiro] (...)” (Ferrão, 2004: 7).
É certo que outros estudos recentes  sobre, por exemplo, as dinâmicas do emprego,
dos investimentos e da demografia, sobre a presença das teias de solidariedade baseadas nos
laços de parentesco e nas relações de vizinhança (Sociedade-Providência) e ainda sobre a
30
Ferrão, João (2004), “Dinâmicas territoriais e trajectórias de desenvolvimento: Portugal 1991-2001”, Revista de
Estudos Demográficos, nº 34.
43
qualidade de vida  concluem que a posição de Paços de Ferreira, relativamente aos restantes
concelhos abarcados pela Região Norte, está longe de poder ser classificada de desfavorável31.
Porém, também importará reflectir até que ponto a situação que os referidos estudos
apontam se deve às potencialidades e à dinâmica local ou, se os indicadores não reflectem
antes, isto é, se não são antes consequência da dinâmica “da rede, do arquipélago urbano” em
que o concelho se insere. E, assim sendo, se esta dinâmica esmorece, que características
específicas (bloqueios e potencialidades) possuem quer o território, quer os actores sociais para
minimizar os impactos desta situação.
Para além do território e dos actores locais, a dimensão institucional é um outro
elemento que importa analisar. A este propósito recorda-se aqui José Reis quando este refere
que “não é a dicotomia rural/urbano que melhor caracteriza a organização socio-económica do
espaço nas sociedades de hoje. O que melhor parece caracterizar as diferenças e as
desigualdades espaciais é a dicotomia que opõe zonas de fraca densidade socio-económica a
zonas de forte capacidade institucional e material” (1999: 33)32.
Assim sendo, e apesar da existência de várias instituições e da diversidade de funções e
de objectivos que lhes estão subjacentes
como atrás foi descrito
quais são “os agentes e os
actores locais dotados de capacidade para serem autónomos e agirem relacionalmente, isto é,
em suma, com capacidade institucional” (Reis, 1999: 33). Relacionada com esta, uma outra
questão se impõe. Até que ponto e porquê as políticas aplicadas têm sido as mais ajustadas às
necessidades do território local e até que ponto, e como, elas têm sido discutidas.
31
Varejão, José; Anabela Carneiro, Aurora Teixeira (2002), A Dinâmica do Emprego na Região Norte, Comissão de
Coordenação da Região Norte.
Hespanha, Pedro (2002), A Transformação da Família e a Regressão da Sociedade-Providência, Comissão de
Coordenação da Região Norte.
Chorinças, Joana (2002), Dinâmicas Regionais em Portugal – Demografia e Investimentos, Departamento de
Prospectiva e Planeamento, Ministério das Finanças.
Ferrão, João (org.), (2004), Municípios, Sustentabilidade e Qualidade de Vida, Observa, ISCTE.
32
José Reis (1999), “O rural e o urbano: as novas soluções institucionais e o problema da densidade dos meios”, em
Carminda Cavaco (org.), Desenvolvimento Rural, Desafio e Utopia, Centro de Estudos Geográficos, Universidade de
Lisboa.
44
II – Dinâmicas e bloqueios ao desenvolvimento rural
Este ponto tem por principal finalidade dar a conhecer a leitura realizada sobre as
principais dinâmicas e bloqueios que se colocam ao desenvolvimento do rural em estudo. Estas
duas dimensões são analisadas para cada uma das quatro vertentes, objecto de caracterização
no ponto anterior, nomeadamente, vertente económica, social, institucional e espacial.
A leitura sobre as dinâmicas e os bloqueios tem por base a informação recolhida, por
inquérito por entrevista, a entidades e actores individuais que, directa e indirectamente,
intervêm no território em estudo. Para a realização das entrevistas foi elaborado um guião 
entrevistas semi-directivas  onde se procura esclarecer a relevância de aspectos que foram
ressaltando da análise desenvolvida ao longo do ponto anterior e também explicitados na síntese
conclusiva do mesmo. Simultaneamente, com as entrevistas procurou-se conhecer os percursos,
as potencialidades e os bloqueios específicos de cada uma das situações entrevistadas.
A leitura realizada do conteúdo e dos significados das opiniões recolhidas nas entrevistas
encontra-se resumida nos quadros que se seguem. As sínteses elaboradas a partir daquelas
opiniões poderão constituir um ponto de partida para o debate e reflexão a realizar no
Seminário. Confrontando pontos de vista, resultantes de experiências distintas, poder-se-á não
só aferir a leitura aqui proposta mas, sobretudo, avaliar os possíveis cenários de
desenvolvimento rural que, num futuro próximo, poderão constituir a realidade de zonas com
características rurais com elevada densidade demográfica e em que a maior parte da população
activa trabalha na indústria.
45
Quadro II.1 – Síntese das dinâmicas e bloqueios económicos
Dinâmicas
•
•
Forte presença de população activa (e jovem)
Iniciativas locais individuais (“empresários de 2ª geração”) assentes:
•
Bloqueios
•
•
População activa com reduzida cultura escolar
Qualificação da mão-de-obra activa feita com base:
Nas dinâmicas actuais do mercado, as quais incluem:
-
na experiência
-
na produção “em massa”
• Controle da cadeia produtiva (produção, distribuição e comercialização)
- na rotina (“fazer mais do mesmo”)
• Investimento:
Economia local baseada na “mono-indústria” (indústrias da madeira e do mobiliário, confecções e (calçado))
•
• No design
• Reduzido grau de consolidação das empresas existentes:
• No marketing
• Enorme fragmentação entre produção, distribuição e comercialização
• Na internacionalização da comercialização (em particular com o mercado ibérico)
• Excessiva dependência, da maioria das empresas, de actividades de subcontratação
• Criação de marca própria (confecções)
• Desconhecimento, por parte dos empresários locais, das transformações que se vão processando no
• Formação profissional dos recursos humanos em função das necessidades face à estratégia
mercado da procura e da oferta
definida pela empresa (confecções)
•
•
•
•
•
•
•
Existência de diagnósticos e identificação de medidas para minorar alguns dos bloqueios económicos dos sectores,
suporte da economia local (Ex: Programa de Recuperação de Áreas e Sectores Deprimidos)
Existência de instituições sediadas localmente e sensibilizadas para a importância da diversificação sectorial da
economia local (Ex: Associação Empresarial de Paços de Ferreira, Profisousa)
Consciência, por parte dos empresários locais, da importância da “Qualidade” na reprodução local dos sectores
produtivos em que se baseia a economia local
•
Forte identidade territorial: “Paços de Ferreira: Capital do Móvel”
•
•
Rede de distribuição e de comercialização muito dependente e confinada ao mercado nacional
Ausência de relacionamento entre empresas, a nível local
Isolamento do tecido empresarial relativamente aos centros de formação e de inovação (design, marketing,
comercialização)
Fraco envolvimento e participação entre os empresários e população activa e entidades relacionadas com o sector
produtivo (Ex: Associação Empresarial de Paços de Ferreira, Profisousa), e vice-versa
•
Tecido empresarial com reduzida:
Identificação do concelho como plataforma comercial de mobiliário
-
cultura escolar
Identificação do concelho como sede de “Qualidade”
-
cultura empresarial
-
capacidade de investimento
-
capacidade de modernização/inovação
•
Ausência de estratégias para os sectores produtivos em que assenta a economia local (apesar dos diagnósticos
elaborados: Ex: Programa de Recuperação de Áreas e Sectores Deprimidos)
•
Identidade profissional “empresário-operário” dificulta a valorização social e a aquisição de novas competências,
impostas pelos mercados (da oferta e da procura)
•
Sector primário com reduzida capacidade para amortecer eventual crise socioeconómica dada a escassez de recursos
naturais devido a causas:
•
•
Naturais (declive, solos não adequados à prática agrícola)
Humanas (urbanização de solos potencialmente produtivos do ponto de vista agrícola)
46
Quadro II.2 – Síntese das dinâmicas e bloqueios sociais
Dinâmicas
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Elevada densidade populacional
Elevada taxa de natalidade
Baixo índice de envelhecimento
Forte integração familiar
Solidariedades de vizinhança e entreajuda familiar
Densidade de redes viárias
Fácil mobilidade territorial (transportes públicos e privados)
Importante actividade associativa nas áreas culturais, recreativas e desportivas (Eiriz)
Bloqueios
•
•
•
•
•
•
•
•
Desvalorização social do capital escolar
Baixo nível de escolaridade
Elevada taxa de abandono escolar precoce (jovens entre os 10 e 15 anos)
Saída antecipada do sistema de ensino (jovens entre os 18 e os 24 anos)
Baixo nível de qualificação profissional
Desemprego de longa duração
Existência de “bolsas” de pobreza/exclusão social
Parte do Poder de Compra suportado à custa da precarização das condições de vida no período da reforma
Manutenção da prática do cultivo da terra para auto-cosumo (Eiriz)
Existência de instituições sediadas localmente e a desenvolver acções concretas tendo em vista minorar alguns dos
bloqueios sociais (Ex: Paços 2000)
47
Quadro II.3 – Síntese das dinâmicas e bloqueios institucionais
Dinâmicas
•
•
Existência (e manutenção) de parcerias alargadas entre diferentes entidades (públicas e privadas)
Existência de um número significativo de instituições vocacionadas para a intervenção à escala local
Bloqueios
•
Fraca capacidade institucional (existência de agentes e actores locais dotados de capacidade para serem autónomos e
agirem relacionalmente)
•
Dificuldade em encontrar uma liderança e uma interlocução organizada para os sectores económicos, suporte da
economia local
•
•
•
Inexistência de rede(s) de actores
Rigidez na estrutura organizacional
Intervenção institucional (dos diferentes tipos de instituições) baseada e orientada segundo uma perspectiva
sectorial, ignorando a escala territorial
•
Rigidez dos conteúdos dos Programas vocacionados para o desenvolvimento da economia local:
• Reduzido diálogo entre as instituições que definem aqueles Programas, aplicam aqueles Programas e os
actores locais
•
•
Reduzida atenção às especificidades e necessidades locais
Reduzida reflexão de fundo e horizonte temporal (2/3 anos na maioria das situações, período que
corresponde à duração do(s) Programa(s))
•
Dificuldades de sustentabilidade económica. Consequentemente:
•
•
Dificuldade de planeamento de acções com um horizonte temporal superior a 2/3 anos
Quebra de continuidade das acções por:
• Ausência de estratégia
• Forte dependência de financiamentos suportados, maioritariamente, por fundos da União
Europeia
•
Sistema de financiamento de políticas desajustado às necessidades (excesso de burocracia, atribuição não-atempada
das verbas pelas entidades que gerem os fundos comunitários)
48
Quadro II.4 – Síntese das dinâmicas e bloqueios relacionados com o espaço
Dinâmicas
•
•
O espaço é maioritariamente propriedade da população residente
Bloqueios
•
Potencialidades reduzidas do espaço local para integrar o mercado das “amenidades rurais”
Forte coincidência entre o território e o espaço
49
Download

Relatório de Eiriz