Análise hidro-mecânica de uma barragem de terra zonada Perlita Rosmery Esaine Barrantes PUC-RIO, Rio de Janeiro, Brasil, [email protected] Celso Romanel PUC-RIO, Rio de Janeiro, Brasil, [email protected] RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo investigar o comportamento da barragem de Recreta, de terra zonada, situada na província de Huaraz – Peru, durante a sua construção, primeiro enchimento do reservatório e ao longo do período de avanço da frente de saturação, através de uma análise acoplada hidro-mecânica pelo método dos elementos finitos utilizando o programa Plaxis 2D. Os resultados numéricos são apresentados em termos de deslocamentos na barragem e fatores de segurança para estabilidade dos taludes nas diversas fases de análise estudadas neste trabalho. PALAVRAS-CHAVE: Análise hidro-mecânica, Hardening Soil Model, Barragem de terra. 1 BARRAGEM DE RECRETA de 2900m, situa-se na província de Huaraz – Peru a 4021m acima do nível do mar (figura 2). O projeto do reservatório Recreta está localizado perto das nascentes do rio Santa, a 12 km da Lagoa Conococha, na cordilheira dos Andes no norte do Peru. Entre os rios que desembocam no Oceano Pacífico, o rio Santa, é uns dos poucos que tem uma vazão permanente e significativa, porque a origem da maioria de suas águas resulta do degelo das neves perpétuas da cordilheira Branca. Na figura 1 a localização da barragem é apresentada. Figura 2. Seção longitudinal da barragem de Recreta (2900 m de crista) com altura máxima de 48m. COLOMBIA ECUADOR LOCALIZAÇÃO DA BARRAGEM 244 248 252 256 ROMA TAMBO 4400 4200 BRASIL Localização do Projeto SHIQUI RECRETA BRASIL 00 40 LUSGA RIO 420 0 PERU 00 42 PAMPA CANCHA SA NT PIRIAY A PIRURO CORRAL COTO COTO OC YURAC YACO 8892 8888 8884 EA NO LIMA CONOCOCHA SACACUTA LAGUNA CONOCOCHA 8880 IFI CO BOLIVIA C PA 4200 ICA 0.38 CHILE Figura 1. Localização da barragem de Recreta no Peru. A barragem de Recreta, de terra zonada com altura máxima de 48m e comprimento de crista O reservatório formado pela barragem tem um espelho de água de 24.4 km2, com capacidade de armazenamento de 267 milhões de metros cúbicos, regularizando a vazão na usina hidrelétrica Cañon del Pato que atualmente gera 150 MW de energia elétrica. O solo de fundação está composto de depósitos muito heterogêneos de solos de geleira, fluviais e lacustres, pré-adensados (alguns fortemente), variando desde argilas a pedregulhos. Solos orgânicos com algum grau de pré-adensamento são também encontrados. As explorações geotécnicas não conseguiram determinar a profundidade real da base rochosa abaixo da barragem, apenas indicando que seria superior a 250 m. A relação comprimento/altura máxima da barragem de Recreta é da ordem de 60, justificando uma análise bidimensional (estado plano de deformação). A seção A-A estudada neste trabalho está apresentada nas figuras 2 e 3, com o corpo da barragem formado por um núcleo argiloso (GC) de baixa permeabilidade e espaldares de material granular (GP-GM). Filtros, drenos e tapetes controlam a percolação da água através da estrutura. Com base em um abrangente programa de ensaios de laboratório foram determinados na tabela 1 os parâmetros do modelo hiperbólico (Duncan e Chang, 1970). módulo de compressão confinada Eoed conforme equações (1) a (3), respectivamente. O modelo HSM também inclui efeitos da dilatância dos solos e trabalha com dois tipos de superfícies de escoamento plástico: de cisalhamento, controladas pelo módulo triaxial E50 (figura 4) e de compressão (caps), controladas pelo módulo de compressão confinada Eoed. A componente elástica das deformações é determinada pelo módulo de elasticidade Eur obtido em trajetórias de descarregamento / recarregamento. c cos φ + σ 3′ sen φ ref c cos φ + p sen φ m ref 50 c cos φ + σ 3′ sen φ ref c cos φ + p sen φ m ref ur E 50 = E E ur = E Figura 3. Seção transversal A-A e seções 1-1 e 2-2 da barragem de Recreta com altura de 26.5m. E oed = E ref oed c cos φ + σ 1′ sen φ ref c cos φ + p sen φ (1) (2) m (3) Tabela 1. Parâmetros do modelo hiperbólico para solos da barragem de Recreta (Parra, 1996) Figura 4. Módulos triaxiais inicial Ei, de carregamento E50 e de descarregamento / recarregamento Eur. 2 MODELO ELASTO-PLÁSTICO HSM HARDENING SOIL MODEL O modelo HSM - Hardening Soil Model, desenvolvido por Schanz et al. (1999) praticamente reformula o modelo constitutivo hiperbólico com fundamentação na teoria da plasticidade, estando atualmente implementado no programa computacional Plaxis. Sua característica básica é permitir a variação da rigidez do solo com o estado de tensão, através do parâmetro m, que controla os valores do módulo triaxial de carregamento E50, do módulo de descarregamento / recarregamento Eur e do Para descrição completa do modelo HSM são necessários 11 parâmetros, listados na tabela 2. Com base nos valores anteriormente determinados para o modelo hiperbólico (tabela 1) foram obtidos os parâmetros do modelo HSM conforme tabela 3. 3 SIMULAÇÃO DA CONSTRUÇÃO A seção transversal A-A da barragem de Recreta (figura 3) foi discretizada em 1174 elementos triangulares de quarta ordem (15 nós), apresentada na figura 5. A base rochosa foi considerada na profundidade de 23m. Tabela 2. Parâmetros do modelo HSM Parâmetro Resistência Rigidez Descrição c Coesão ϕ Ângulo de atrito interno ψ Ângulo de dilatância E50ref Módulo de rigidez secante de ensaios triaxiais Eeodref Módulo de rigidez tangente de ensaios oedometricos. Eurref Módulo de carregamentodescarregamento de ensaios triaxiais m Constante de dependência da rigidez do solo com o estado de tensão. ʋur Coeficiente de Poisson carregamento/ descarregamento. p’ref Pressão de referência (atmosférica) Avançados K0NC Rf Coeficiente de empuxo no repouso para solos normalmente adensados Razão de ruptura (quociente entre qf e qa) – figura 4. Tabela 3. Parâmetros do modelo HSM para solos da barragem de Recreta. camada na crista da barragem de 0.50m de espessura. Imediatamente após o lançamento de determinada camada, os deslocamentos nela obtidos foram zerados, considerando-se que a mesma apenas carrega as camadas préexistentes, seguindo o procedimento geral recomendado na literatura (Potts e Zdravković, 1999). As figuras 6 e 7 ilustram a distribuição dos deslocamentos verticais e horizontais, respectivamente, após o término da construção da barragem, obtidos com a aplicação do programa Plaxis 2D v.2010. Figura 5. Seção transversal A-A discretizada em elementos finitos, indicando as seções 1-1 e 2-2. Figura 6. Distribuição dos deslocamentos verticais no término da construção da barragem – Plaxis 2D. Figura 7. Distribuição dos deslocamentos horizontais no término da construção da barragem – Plaxis 2D. A construção da barragem foi simulada incrementalmente, considerando-se o lançamento sequencial de 10 camadas horizontais com 2.6m de espessura cada, seguidas de uma última As figuras acima mostram que o programa Plaxis 2D v. 2010 computa os deslocamentos acumu-lados de todas as camadas com os maiores valores no topo da barragem, enquanto que há indicações na literatura, desde o trabalho pioneiro de Clough e Woodward (1967), que os deslocamentos verticais máximos ocorrem a aproximadamente meia altura no caso de uma barragem homogênea. Assim, os resultados numéricos dos deslocamentos horizontal e vertical foram recalculados com auxílio de uma tabela Excel para obter a distribuição causada pelo carregamento de cada camada isoladamente. Com este procedimento, foram obtidas as distribuições dos deslocamentos no eixo central 1-1 da seção A-A conforme linhas tracejadas das figuras 8 e 9, onde também são indicados, para efeitos comparativos, os deslocamentos obtidos quando a construção da barragem é simulada em apenas única etapa. Figura 8. Deslocamentos verticais corrigidos (linha tracejada) ao longo do eixo 1-1 da seção transversal A-A. Figura 9. Deslocamentos horizontais corrigidos (linha tracejada) ao longo do eixo 1-1 da seção transversal A-A. 4 SIMULAÇÃO DO ENCHIMENTO DO RESERVATÓRIO Os valores dos coeficientes de permeabilidade dos diversos materiais do corpo da barragem e de sua fundação estão listados na Tabela 4. Tabela 4. Coeficientes de permeabilidade da barragem de Recreta. Para a simulação das condições de fluxo transiente (avanço da frente de saturação) e de fluxo permanente foi considerado o enchimento do reservatório em 9 etapas sequenciais, com espessuras das lâminas de água coincidentes com as espessuras das camadas de solo lançadas durante o período da construção da barragem (2.6m de espessura), seguindo recomendações da literatura (Veiga Pinto, 1983). Admitiu-se que o enchimento total do reservatório ocorreu no período de 150 dias, com um tempo de duração proporcional (17 dias) em cada uma das 9 etapas parciais de enchimento. Uma vez alcançado o nível máximo de água no reservatório, a análise computacional prosseguiu até atingir condições de fluxo permanente, verificadas quando as poropressões em diversos pontos de controle da barragem não apresentassem mais oscilações de valores no tempo. Em condição de fluxo permanente, a posição final da superfície freática encontra-se indicada na figura 10, enquanto que as figuras 11 e 12 mostram as distribuições dos deslocamentos verticais e horizontais, respectivamente, causados pelo primeiro enchimento do reservatório. Conforme pode ser observado, os deslocamentos horizontais ocorrem no sentido de montante para jusante, enquanto que os deslocamentos verticais são ascendentes na região do espaldar de montante, tendendo a provocar uma rotação do núcleo da barragem. Nobari e Duncan (1972) investigaram os fatores que causam deslocamentos em barragens durante o primeiro enchimento do reservatório, sendo que dois são os mais importantes no caso de barragens de terra zonadas, conforme ilustrado na figura 12: a) como a permeabilidade do núcleo é pequena em relação à permeabilidade do material granular do espaldar de montante, pode-se considerar a ocorrência de uma pressão hidrostática na face de montante do núcleo, que produzirá deslocamentos direcionados para jusante, principalmente em relação às componentes horizontais; b) com a submersão do espaldar de montante, devido ao conhecido empuxo de Arquimedes, deslocamentos verticais ascendentes ocorrem com rotações na barragem na direção de jusante, conforme ilustrado na figura 11. As figuras 13 e 14 mostram a distribuição dos deslocamentos verticais ao longo do eixo central (1-1) da seção A-A da barragem (ocorrência de valores negativos, ou descendentes, e positivos, ou descendentes) e num alinhamento vertical situado à distância de 10m (2-2), no sentido de montante (somente deslocamentos verticais positivos ou ascendentes). Em ambas as figuras, para efeitos comparativos, também foram plotados os deslocamentos verticais determinados com o enchimento total do reservatório em uma única etapa. Figura 10. Posição da superfície freática na condição de fluxo permanente. Figura 11. Distribuição dos deslocamentos verticais causados pelo primeiro enchimento do reservatório. Figura 12. Distribuição dos deslocamentos horizontais causados pelo primeiro enchimento do reservatório. 5 ESTABILIDADE DE TALUDES A estabilidade dos taludes da seção A-A da barragem de Recreta foi analisada para as situações de construção, primeiro enchimento e rebaixamento rápido do reservatório. 5.1 Estabilidade durante a construção Para cada uma das 11 etapas de construção da barragem, foi calculado o correspondente fator de segurança FS contra a ruptura dos taludes, sendo determinado o valor FS = 1.87 ao final da construção no talude de montante, com a superfície crítica de deslizamento mostrada na figura 15. 5.2 Estabilidade no primeiro enchimento do reservatório Para cada uma das nove etapas de enchimento do reservatório também foi calculado o correspondente fator de segurança, sendo determinado o valor FS =1.93 no talude de jusante ao final do enchimento, sob condição de fluxo permanente, para a superfície crítica ilustrada na figura 16. Em qualquer das situações analisadas, os valores calculados atendem aos critérios de segurança contra a ruptura dos taludes da barragem. Figura 15. Superfície crítica de deslizamento ao final da construção com fator de segurança FS = 1.87. Figura 13. Distribuição dos deslocamentos verticais ao longo do eixo 1-1 da seção A-A da barragem. Figura 16. Superfície crítica de deslizamento ao final do primeiro enchimento do reservatório, sob condição de fluxo permanente, com fator de segurança FS = 1.93. Figura 17. Superfície crítica de deslizamento após rebaixamento rápido do reservatório, com fator de segurança FS = 1.40. 6 Figura 14. Distribuição dos deslocamentos verticais ao longo da linha vertical situada a 10m (2-2) do eixo central da seção A-A da barragem, no sentido de montante. 5.3 Estabilidade após rebaixamento rápido do reservatório O rebaixamento rápido do reservatório, depois de estabelecidas as condições de fluxo permanente com o reservatório na elevação máxima de 23.4m, foi simulado rebaixando-se o nível d’água para a elevação de 1m no período de 5 dias. O fator de segurança então calculado caiu para FS = 1.4 e a posição da correspondente superfície crítica pode ser verificada na figura 17. CONCLUSÕES O modelo constitutivo HSM - Hardening Soil Model, implementado no programa computacional Plaxis 2D v. 2010, foi utilizado para análises acopladas do comportamento da barragem de Recreta, situada no Peru, em várias fases de vida: construção, enchimento do reservatório (sob condições de fluxo transiente e permanente) e rebaixamento rápido do reservatório. Dentre as principais conclusões do estudo destacam-se as seguintes: a) o programa Plaxis não simula totalmente a construção de aterros e barragens, devendo o usuário, com os resultados numéricos do programa, determinar os deslocamentos correspondentes a cada camada de solo lançada durante a construção; b) a análise hidro-mecânica acoplada é capaz de representar os deslocamentos da barragem de terra zonadas durante o primeiro enchimento do reservatório, decorrente de vários fatores intervenientes (Nobari e Duncan, 1972). REFERÊNCIAS Clough, R.W. e Woodward, J.R. (1967) – Analysis of embankment stresses and deformations, Journal of the Soil Mechanics and Foundation Division, ASCE, v. 93, SM4, pp. 529-549. Duncan, J.M. e Chang, C.Y. (1970) – Nonlinear analysis of stress and strain in soils, J. of the Soil Mech. And Found. Div. v. 96, pp 1629-1653. Nobari, E.S. e Duncan, J.M. (1972) - Effect of reservoir filling on stress and movements in earth and rockfill dams, Report TE 72-1, Department of Civil Engineering, University of California, Berkeley. Parra, D. (1996) Modelagem numérica do comportamento estático e sísmico de barragens de terra, Dissertação de Mestrado, Programa de PósGraduação em Geotecnia, Departamento de Engenharia Civil, Pontifícia Católica do Rio de Janeiro, 137 p. Potts, D.M. e Zdravkovic (1990) – Finite Element Analysis in Geotechnical Engineering: Theory, Thomas Telford. Schanz, T; Vermeer, P.A. e Bonnier, P.G. (1999) – The hardening soil model: formulation and verification, Beyond 2000 in Computational Geotechnics, pp. 116, Balkema. Veiga Pinto, A. A. (1983) Previsão do comportamento estrutural de barragens de enrocamento, Tese para Especialista, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 1983.