8A entrevista da semana A GAZETA CUIABÁ, DOMINGO, 5 DE MAIO DE 2013 GARGALO Consultor jurídico aponta problemas para Mato Grosso com a unificação do ICMS Desenvolvimento passa pelo incentivo SONIA FIORI DA REDAÇÃO C onsultor jurídico da Federação das Indústrias do Estado (Fiemt), Victor Humberto Maizman, aponta os reflexos para o Estado e mais especificamente para o setor, a respeito das mudanças de ordem tributária em franco andamento no país. Um dos principais eixos das alterações, a unificação da alíquota do ICMS com incidência de 7% para unidades federativas como Mato Grosso, abre o sinal de “alerta”. O quadro pode piorar drasticamente, como aponta Maizman, seguindo prospecto de fim da política de incentivos fiscais. Abre-se precedente para instalação de crise na economia, em efeito dominó. Nesta entrevista para A Gazeta, o advogado deixa ainda claro o sentimento de descrença sobre o sonho nacional de “redução dos impostos”, considerando a Reforma Tributária que se arrasta no Congresso Nacional. Maizman também é professor em Direito Tributário e membro titular do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais da Receita Federal (CARF). Quais os reflexos da unificação da alíquota do ICMS considerando os 7% para a região Centro-Oeste? Mato Grosso é um Estado que está em desenvolvimento. Ele precisa do incentivo fiscal, precisa de uma alíquota diferenciada para que possa ter um atrativo, para que as indústrias venham para cá e possam então se instalar, criar empregos. Enfim, o desenvolvimento passa necessariamente pelo incentivo fiscal. A observação que nós temos é que com a unificação dessas alíquotas, o Estado pode perder sim, um diferencial que seria na verdade ter uma regra de incentivo fiscal. O que se perde pontualmente? Perde, porque na verdade o Estado precisa que tenha o desenvolvimento, que tenha consumo interno, e nesse consumo interno que tenha frente de trabalho. Se não tiver indústria forte aqui no Estado, nós não vamos ter o desenvolvimento. Mato Grosso todo mundo sabe, ele é um Estado que exporta produtos primários. A exportação não agrega valor para o Estado e só vai agregar valor se tiver a indústria. E para ter indústria precisa ter um programa forte de incentivo fiscal. A Fiemt também entrou com defesa junto ao Supremo Tribunal Federal na ação de São Paulo que questiona as políticas de incentivo fiscal de Mato Grosso. Exatamente. O que acontece é o seguinte. A Fiemt começou a defender esses interesses, tomou a frente dessa questão, no sentido de defender as indústrias. Já é a terceira medida judicial que a Fiemt ingressa no Supremo, para essa defesa. O que a Fiemt busca basicamente com isso? É que seja declarada inconstitucional uma Lei de 1975, que obriga que para ser conseguido o incentivo fiscal na matéria de ICMS, precisa da aprovação unânime de todos os estados. Então se um estado da Federação não for favorável a essa concessão o incentivo acaba sendo ilegal, porque viola essa Lei. E nós entendemos que isso na verdade, acaba igualando os estados, sejam estados bem desenvolvidos e estados menos desenvolvidos. E entendemos que isso é inconstitucional. A política deve ser diferenciada. Este é o erro básico? Sim, porque em 4 artigos a Constituição Federal, ela preconiza que o estado como um todo tem que dar apoio aos estados menos desenvolvidos. E é aí que está a questão, ou seja, tem que tratar de forma desigual os desiguais. instalação de uma crise sem precedentes? Exatamente, porque a condição para o incentivo fiscal, principalmente o nosso aqui no Estado, o Prodeic, é que a empresa crie um certo número de frentes de emprego. Deve investir um determinado valor naquela determinada região, porque é feito um estudo com relação ao IDH, aquele índice que verifica a capacidade econômica dada a região do Estado, e é diferenciado. Na região menos desenvolvida do Estado, o incentivo é maior para que a indústria vá lá, gere emprego, enfim. Se for proibida essa concessão do incentivo fiscal, ou seja, mitigada essa forma de concessão, com certeza quem vai sofrer vai ser a população. Como analisa a posição do Estado na defesa desses temas, até porque é lema do governo a industrialização de Mato Grosso. O Estado vem fazendo essa análise, vem tendo esse empenho, só que não pode afastar que as entidades que são interessadas e nesse caso eu menciono a questão da Federação das Indústrias, de poder agir, de poder atuar também na defesa. Fazer uma defesa também incisiva também em relação a essas questões. De forma geral se fala muito em Reforma Tributária e sabe-se que Mato Grosso tem altas cargas tributárias. A matéria pode trazer a esperada redução dos impostos, o setor acredito nisso? Não. Eu não acredito. Eu tenho que ser realista com relação a essa situação. A carga tributária do país é extremamente alta, mas quando se fala em Reforma Tributária, eu vejo que o poder público, seja no Congresso Nacional, seja no poder executivo, ele está discutindo apenas a questão da distribuição do produto arrecadado e não sobre a questão da diminuição da carga tributária. Essa é a realidade. Veja que quando nós falamos com relação a unificação das alíquotas, eles só estão verificando a questão da distribuição. Não se fala que vai diminuir a alíquota de algum produto básico, exemplo a energia elétrica, telefonia, combustível, que são serviços essenciais e que são produtos que acabam tendo uma influência direta na economia. A resistência da população sobre esse cenário é a falta do retorno em serviços, basicamente? Também. Isso é uma cultura nossa. Todos nós pagamos uma alta carga tributária, pagamos essa carga tributária no que consumimos e não vemos o retorno. Não consegue se perceber um retorno. Então quando nós ligamos a televisão, vemos nos jornais e vemos hospitais falidos por exemplo, são situações que geram uma sensação para o contribuinte de enganação. “ Mato Grosso é um Estado que exporta produtos primários. A exportação não agrega valor para o Estado e só vai agregar valor se tiver a indústria. E para ter indústria precisa ter um programa forte de incentivo fiscal Victor Maizman lembra que a carga tributária do país é extremamente alta, mas quando se fala em Reforma Tributária, está se discutindo apenas a questão da distribuição do produto arrecadado e não a diminuição da carga tributária Mato Grosso deve perder até R$ 600 milhões em razão desse novo modelo. O olhar especial prometido pelo governo federal ao Estado não vem sendo dado então? Não vem sendo dado. E isso vai acabar sendo decidido no Supremo, porque se a Corte acolher a tese defendida pela Federação das Indústrias de que tem que priorizar os estados menos desenvolvidos, nós vamos criar uma situação benéfica para o Estado, porque terá um diferencial. O setor da indústria pede a prorrogação dos incentivos fiscais até 30 anos, resolveria? Por uma questão simples. O governo federal está legislando através de media provisória no sentido de que sejam unificados os benefícios fiscais. E que seja, digamos, concedido ele apenas pelo órgão federal. E se tiver uma aprovação da Lei, uma prorrogação desses incentivos da Lei que concedeu o incentivo, principalmente o Prodeic, para mais esse período, nós estaríamos resguardados pelo menos em relação ao aspecto legal. Mas mesmo com a prorrogação legal, eu acredito que ainda vai ter muita discussão sobre essa questão. Os incentivos fiscais são muito questionados, inclusive por parlamentares. O foco maior reside sobre a Secretaria de Estado de Fazenda, com críticas sobre a não apresentação de informações completas a respeito do funcionamento, empresas e outros dados. A exposição geral não poderia melhorar esse desempenho? Existem duas questões. Primeiro é o sigilo fiscal e o que é o sigilo fiscal? Nós não podemos saber quanto a pessoa “X” e a pessoa “Y” para de imposto. É uma regra constitucional que fala de sigilo de dados e que está incluído também a questão do sigilo fiscal. Por outro lado nós temos a questão da arrecadação, das finanças públicas. Então o nosso parecer em relação a isso é que não precisa ser divulgado, referente a uma empresa X ou Y, mas sim no todo que deve ser transparente. O Estado tem que divulgar toda, qualquer renúncia fiscal, qual o valor total da arrecadação. Essas questões elas necessariamente ser divulgadas, ser apresentadas para a sociedade. As empresas beneficiadas têm compromisso com geração de emprego e renda. O fim dos incentivos fiscais significa na prática a João Vieira