editorial
Estamos em Março, mês que celebra o Dia Mundial do Teatro e cuja mensagem deste ano
escrita por Krzysztof Warlikowski (Diretor Artístico do Novo Teatro de Varsóvia – Polónia)
testemunha a importância da verdade e da procura do que está “para além dos muros que
teimosamente continuamos a erguer”, na construção do teatro contemporâneo.
A palavra dita é uma forma de poder sobre o objecto nomeado, segundo José Fanha; é
também, de acordo com Hans Magnus Henzensberger (poeta alemão) um exercício de
memória e de narração. O Teatro é, por consequência, um exercício de memória e a palavra
assume um papel fundamental na encenação do real. O Teatro, como a leitura e a escrita,
permite-nos abordar o tempo do passado, o tempo do presente e perspectivar o tempo do
futuro e por isso é uma arte de inestimável valor.
A FPTA está envolvida com outras congéneres nacionais (entre as quais se contam a
Confederação Portuguesa das Casas do Povo, a Confederação do Desporto de Portugal,
a Confederação Musical Portuguesa, a Federação de Cineclubes, a Federação Portuguesa
de Folclore) na organização do Congresso Nacional das Colectividades, Associações e
Clubes de raiz popular, que vai acontecer no próximo dia 7 de Novembro em Lisboa. Esta
iniciativa que está a ser coordenada pela Confederação Portuguesa das Colectividades de
Cultura, Recreio e Desporto pretende reforçar e valorizar o Movimento Associativo e reflectir
sobre o modelo do associativismo e seu papel na Sociedade Portuguesa, bem como
demonstrar as potencialidades do mesmo no plano cultural, económico e social. Este
congresso irá marcar de forma significativa a nossa importância e posicionamento no âmbito
da produção cultural e o nosso enquadramento no Portugal de hoje.
Em Março ficamos também a conhecer o vencedor do prémio Ruy de Carvalho (XI edição
do Concurso Nacional de Teatro) - Grupo Dramático e Recreativo da Retorta (Valongo) com
o texto “Óculos de Sol” de Laura Ferreira a quem endereçamos as nossas felicitações. Este
mesmo espetáculo foi também o grande vencedor da II edição do Prémio Europa da
Escenamateur, a nossa congénere espanhola.
Existem, nesta edição, mais motivos de interesse: a entrevista feita a Porfírio Lopes
(Encenador, ator, formador nos Fóruns Permanentes da Federação e dirigente
associativo), uma resenha sobre o Fórum da Amadora e um “aperitivo” para o próximo
Fórum Permanente que se irá realizar na Figueira da Foz em 25, 26 e 27 de Setembro; o
Professor Doutor João Maria André prossegue a sua colaboração dando início a uma nova
série de textos sobre estética e prática teatral sob o mote “conversas com os mestres”.
Estes são, em sinopse, os principais temas que iremos abordar neste número nove da nossa
“Palcos” que está aí para ser partilhada por todos os que amam o teatro.
Aproveitem!
Fernando Rodrigues
Diretor da Revista PALCOS
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editorial 1 conversas de bastidores porfirio lopes 3 estreia xiv
fórum permanente de teatro 10 programa de sala figueira da foz | páteo das galinhas 14 na ribalta xi concurso nacional de teatro 18 boca de
cena mensagem do dia mundial do
teatro 2015 22 reportório conversas com os mestres - a energia
teatral 23 sem palco amadora fórum aproxima-se 27
FICHA TÉCNICA
Propriedade Federação Portuguesa de Teatro - Praça José Afonso, 15 E | C.
C. Colina do Sol, Loja 55 | 2700-495 Amadora
Diretor Fernando Rodrigues Conselho Editorial Luis Mendes, Tânia Maria
Falcão, Anabela Teixeira, Manuela Estevinha, Bruno Gomes, Manuel Ramos
Costa e José Teles Colaborador Permanente João Maria André Fotografia
Alice Grade, André Tenente e Carla Ferreira Grafismo e Paginação Gabinete de
Comunicação/Federação Portuguesa de Teatro
Periodicidade Semestral | Edição Digital
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conversas de bastidores
PORFIRIO LOPES
QUERO FICAR ONDE ESTOU. VIGILANTE E ATENTO.
Conheci-o na Póvoa de Lanhoso, ao tempo do
Fórum que a Federação, ou melhor, que a então
ANTA lá realizou, em Janeiro de 2010.
O momento era solene e o bonito auditório do
Teatro Club enchera-se de pessoas para assistir ao
lançamento de «O Livro da Ilusão», de Domingos
Galamba, superiormente apresentado pelo nosso
entrevistado. E desde então fiquei com a impressão
de estar diante de um verdadeiro homem do teatro,
muito
apaixonado,
muito
culto,
muito
impulsionador, muito perfecionista, muito de muito.
Impressão confirmada, anos mais tarde, no décimo
Fórum de Setúbal.
Falo-vos do ator e encenador Porfírio Lopes,
nascido há sessenta anos em Ferreira do Zêzere.
Licenciado em Psicologia e Mestrando em Psicologia da Linguagem e Logopedia,
frequentou diversos cursos na área do teatro e… E o mais que, a seguir, gentilmente nos
irá dizer.
MANUEL RAMOS COSTA – Ferreira do Zêzere, que lembranças?
PORFÍRIO LOPES – Guardo muitas e indeléveis lembranças. O menino de bata branca a
caminho da escola, ao encontro de uma professora ríspida, autoritária e que em simultâneo
expressava uma singular benevolência. Sinto a nostálgica harmonia do verde das serranias
espraiando-se em longos e excelsos horizontes, dos campos cultivados e do gorgolejar das
águas da ribeira. Recordo a felicidade das pessoas estampada em seus rostos, apesar das
dificuldades que enfrentavam por esses dias. A saudade do apito da serração do Pinhão,
há muito desativada, anunciando a hora de pegar, e de despegar, ao trabalho. A recordação
de tantos rostos enrugados pelo rigor dos anos, grande parte já desaparecida, e de tantos
aromas, cores, sabores e frutos.
MRC – Quando eras criança…
PL – Os meus pais e avós eram humildes agricultores. Algumas vezes, acompanhava-os
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nas lides dos campos. Nas sementeiras, nas colheitas, principalmente na hora da merenda.
Sempre que podia, brincava com outras crianças da minha idade. Poucas, porque a minha
aldeia era um acanhado lugarejo e algumas dessas crianças eram obrigadas, depois da
escola, a acompanharem os pais nos trabalhos agrícolas. Eu era imaginoso, o jogo do faz
de conta dominava os meus dias. Talvez fosse um pouco teimoso e preguiçoso. Nesse
sentido, fui um privilegiado. Não necessitei de trabalhar na terra como alguns dos meus
amigos e queria ser padre quando fosse grande.
MRC – O que manténs em ti da criança que foste?
PL – A sensação de que ainda continuo a sê-lo. Pura ilusão, logo desfeita assim que me olho
num qualquer espelho. Talvez a grande capacidade de continuar a imaginar, a sonhar e uma
inveterada teimosia. Talvez estes olhos, que persistem em querer ver o mundo por uma ótica
mesclada de ingenuidade e de fantasia, já que parece difícil entendê-lo de outro modo.
MRC – Juventude. Estudos. Amores. Ideais. Conta-nos.
PL – Acabei por entrar no seminário aos doze anos de idade, mas abandonei-o após ter
reprovado no terceiro ano. Voltei à minha terra. Durante algum tempo estagiei na
Conservatória do Registo Civil de Ferreira do Zêzere. Durante este período tomei contacto
com os quase indecifráveis livros de assentos de batismo, relíquias manuscritas, anteriores
a 1911, que haviam sido retirados às paróquias, após o surgimento das Conservatórias do
Registo Civil, criadas pelo Código 1911, e que permitiam que fossem emitidas as certidões
de nascimento relativas aos cidadãos portugueses nascidos antes da implantação da
República. Por esses dias, ingressei no Colégio Nossa Senhora do Pranto, onde estudei até
ao 5º Ano dos Liceus e conheci a Lucília – companheira de uma vida, com quem viria a casar
alguns anos mais tarde. Hoje surpreendemo-nos a ver crescer as netas Carolina e Benedita.
Nesse tempo, os meus dias eram repartidos entre várias atividades: a música – integrava
o naipe de clarinetistas de uma banda filarmónica e, como se isso não bastasse, cantava
num conjunto musical –, o desporto – perdia-me a organizar equipas de futebol e a promover
desafios – jogava a guarda-redes. Entretanto, entrei para o Colégio Nuno Álvares em Tomar,
a fim de frequentar o curso complementar dos liceus (antigos 6º e 7º anos). Foi por esses
dias que fomos recompensados com o 25 de abril e pouco depois fui às sortes.
MRC – Que te diz a palavra Teatro?
PL – Provoca-me uma infinidade de sensações. Transporta-me de imediato a um palco,
onde vejo desfilar inúmeras personagens que me influenciaram. Criatividade gerada nas
dinâmicas de grupo, na experimentação, no trabalho e na inspiração.
MRC – 60?
PL – Seis décadas, cinco das quais repletas de lutas, algumas conquistas e muito teatro.
MRC – Espetador?
PL – Alguém que pretendemos convencer e tocar pela eficácia do nosso trabalho e pela
força empática. Um elo importante neste sistema de vasos comunicantes que é o espetáculo
de teatro. O elemento imprescindível à receção da mensagem e à razão de ser do teatro.
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MRC – Se te fosse dado partir agora…
PL – Recusar-me-ia a partir. Agora, neste preciso momento, não. Quero ficar onde estou.
Vigilante e atento. Este é um período novo, impregnado de fortes energias, de projetos e de
desafios, que não me permitem perder tempo. O meu lugar agora é aqui. Já houve
momentos, em que era enorme a minha vontade de partir, de virar costas a tudo, de
desaparecer até. De fugir. Acompanhado ou não, isso pouco importa. Mas agora, não.
Durante estes dias, nem pensar! O futuro vai depender deles, do que for decidido agora. Os
sinais são bons, infundem esperança.
MRC – O que te levaria a parar o mundo?
PL – A possibilidade de corrigir tudo o que fiz de errado.
MRC – És supersticioso? Quais os teus medos?
PL – Não me considero supersticioso, mas respeito os que o são. Medos? Tenho vários. Por
exemplo: andar de avião, ou imaginar um fim de vida longo e sofrido, dando trabalho e
preocupações aos que me são próximos.
MRC – O que é que, olhando ao teu redor, mais te dói?
PL – O desprezo pela vida e pelos valores humanos.
MRC – Foi o Teatro que te encontrou ou foste tu que o encontraste?
PL – Foi o teatro que me encontrou, corria o ano de
1966. Tinha eu 12 anos de idade. Até então, nunca
me havia cruzado ou tido o privilégio de ser tocado
pela magia desta arte, e eis senão quando, de forma
inesperada, caiu-me nas mãos um papel. Foi-me
atribuída e imposta a personagem do 1º Pajem, da
peça “Mocidade Heroica”, que estava a ser ensaiada
no colégio interno onde eu era aluno. Apesar de ter
esperneado e argumentado do modo que me parecia
mais razoável, a verdade é que o projeto foi para a
frente e eu junto com ele. Para minha surpresa, a sua
apresentação ao público constituiu para mim uma
experiência inolvidável, emocionante. Desde então,
nunca mais me afastei do teatro e este, pouco a
pouco, foi-se assenhoreando primeiro das minhas
horas, depois, dos meus sentidos, da minha
respiração, da minha vida.
MRC – É urgente aprender a esquecer tudo o
que…
PL – … não nos ajuda e nos magoa.
MRC – Viver do Teatro é uma desgraça?
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PL – Viver do teatro é uma bênção. Desgraça é viver num tempo em que o teatro não é
olhado como mereceria, nem defendido e apoiado pela sociedade e pelos seus
representantes de forma justa, como um dos rituais mais significativos, sublimes e
primordiais do homem.
MRC – A Amadora diz-te…
PL – A Amadora diz-me uma infinidade de coisas e recorda-me muitas outras. Interpela-me,
sobretudo, a realizar os projetos que dão sentido e enchem a minha alma. A cidade de Abril,
que me acolheu quando eu tinha 20 anos e onde me fixei até hoje, foi-se tornando, pouco
a pouco, a minha cidade, a terra onde nasceram e cresceram os meus dois filhos. Nela está
instalada a Escola Superior de Teatro, apesar disso, a urbe necessita ainda de se encontrar
com o teatro, de reconhecer a sua grandeza e acuidade, de viver o teatro por dentro e por
fora. De sentir esta arte como um dos seus patrimónios. As suas principais salas de
espetáculos acolheram e homenagearam, nas décadas de 80/90, as obras dos dramaturgos
nacionais, durante 7 edições do Ciclo de Teatro de Autores Portugueses – CITAP,
apresentadas por Companhias e Grupos de teatro de todo o país. Mas isso foi já há muito
tempo. Entendo, agora, que este deve ser um trabalho contínuo de sensibilização e de
educação. É necessário congregar esforços. Não podem existir descuidos, senão corremse sérios riscos de tudo se perder: o resultado da ação, o esforço despendido e a memória
coletiva.
MRC – Como vai o Teatro Passagem de Nível?
PL – O TPN está a viver um tempo de exceção e de mudança com a envolvência e o
comprometimento de um amplo e heterogéneo grupo de associados e de atores. Em 2014,
estrearam-se dois espetáculos: - os “Rituais da Terra”, um projeto de teatro inclusivo com
atores surdos e ouvintes e “Fernando Pessoa Contado às Crianças Adultas”, uma parceria
com o Externato D. João VI – Amadora, no qual participaram atores do TPN, bem como
professores e pais dos alunos do referido colégio. Já no começo de 2015 subiu à cena um
novo trabalho: “A Moura”, de Luís Palma Gomes, um autor da casa, com um elenco de 28
atores. Foi ainda apresentado um exercício final de uma oficina de teatro, em que os
formandos eram crianças e adolescentes. Há mais de um ano que o TPN vem promovendo,
uma vez por mês, em parceria com a Associação Amadora Passado, Presente e Futuro, os
“Encontros Imaginários”, na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, com textos de
Hélder Costa. A força dos quase 34 anos de existência é um património que justifica e
alavanca novas sinergias e ambições.
MRC – Se tivesses de te pintar de alto-abaixo, que cores utilizarias?
PL – Utilizaria duas, a terra sena e o preto. Estas são as cores da imagem visual do Teatro
Passagem de Nível, do seu símbolo, e de acordo com a sua criadora, Marina Palácio,
exprimem: terra sena – a homenagem à luz; àquilo que torna possível ver; ao espaço
cénico… Preto - a homenagem àquilo que não se vê: ilusão, mistério, bastidores…
MRC – Há quem afirme que o Teatro está cheio de orgulhosos e de arrogantes, de
mercenários e traidores e que tal facto ilustra bem o estado miserável em que o mundo
está. Que dizes tu?
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PL – Então e os grandes homens que proliferam no teatro? Os heróis, os humildes, os
abnegados… No teatro espelha-se a sociedade inteira – o mundo, com o que tem de melhor
e de pior. As suas virtudes e as suas perversidades. Atos de generosidade e de ganância,
de altruísmo e de fraqueza. Todas as verdades profundas e obscuras. Se não fosse assim,
não estaríamos certamente a falar de teatro.
MRC – Que figuras do Teatro mais admiras, e porventura te influenciaram?
PL – Não sei se pela sua veterania, ou se pela
transcendência de seus ofícios, já que sempre
que os vejo em cena me conseguem fascinar,
elejo as figuras de Eunice Muñoz e de Ruy de
Carvalho. Por outro lado, não posso deixar de
referenciar Adolfo Gutkin, um argentino radicado
em Portugal, e Luís de Lima, um ator e encenador
português há muitos anos a viver no Brasil, os
mestres que me fizeram olhar para o teatro de
uma forma mais coerente e autêntica e que, por
isso mesmo, muito me influenciaram.
MRC – O que é que verdadeiramente te faz
feliz?
PL – Ver os outros felizes. Sentir que a verdadeira
riqueza está dentro de nós, tal como a
competência (empowerment) para vencer todos os obstáculos, os interiores e os outros.
MRC – Como achas que anda atualmente a nossa Cultura? Esvaziada? Intoxicada?
Torturada? Ou preparada para… Emigrar?
PL – Creio que todas estas classificações servem para caracterizar na perfeição o estado
atual da nossa cultura. Porém, nestes tempos de grande efervescência e perturbação social
atrevo-me a dar preponderância à palavra “intoxicada”. Hoje, vivemos sob o domínio das
redes sociais e dos media. Somos bombardeados diariamente por uma infinidade de
mensagens subliminares, engendradas por métodos científicos, ou quase, que nos toldam
o discernimento, mascaram o falso e o genuíno e envenenam as corretas escolhas.
Acredito, no entanto, que apesar de todas as vicissitudes e contrariedades do tempo atual,
o fenómeno cultural será como o azeite. Mais tarde, ou mais cedo, emergirá, virá à tona da
água. Assumirá o seu justo lugar e reconhecimento.
MRC – Qual foi a peça que mais pica te deu a encenar?
PL – É difícil dizê-lo. Fico bastante indeciso ao tentar reunir razões ou motivos que me
permitissem, sem embaraço, eleger uma delas. O problema é que, quando decidimos
encenar este ou aquele texto, todas as nossas energias e conexões neurais se centram de
forma intensa e absoluta nesse novo trabalho, na sua verdade, nos seus conflitos e nas suas
envolvências. Como se não existissem outros textos, outros mundos. Ficamos entregues
e obcecados a conceber as estratégias convincentes e adequadas na direção do ator, bem
como a dar consistência, autenticidade, fôlego e ritmo a cada cena. E esta entrega repetese com a mesma intensidade em cada encenação. Atrevo-me, no entanto, a destacar,
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apenas pela sua complexidade, “O Grande Circo Ibérico”, de Jaime Gralheiro. Quando
telefonei ao autor pedindo-lhe autorização para encenar a sua peça, recordo-me da
resposta: - “Para pegar nesse texto é necessário ter to…!” E continuou… “Tenho
experimentado todas as minhas peças encenando-as no Cénico de São Pedro do Sul.
Todas, exceto essa, já que necessita de um grande elenco. Se precisarem de mim, estou
ao dispor. Força e boa sorte”. Foram necessários quase 2 anos para colocá-la de pé. O TPN
estreou-a nos Recreios da Amadora, com a honrosa presença de Jaime Gralheiro. Para
suportar este trabalho foi forçoso ao TPN criar uma panóplia de adereços, guarda-roupa,
cenários. O elenco era constituído por cerca de 40 atores e pelo palco desfilavam mais de
100 personagens. Espetáculos como este não se repetem com frequência.
MRC – Federação Portuguesa de Teatro, o que te diz?
PL – Durante o interregno após a extinção da APTA – Associação Portuguesa de Teatro de
Amadores pugnei sempre pelo surgimento de uma estrutura congénere que tivesse o mérito
de congregar o movimento associativo na área do teatro. Só após cerca de 15 anos de
deserto surge, primeiro a ANTA, depois a Federação Portuguesa de Teatro, para
derrotarem essa espécie de orfandade. O Teatro Passagem de Nível teve o privilégio de
acompanhar, desde a primeira hora, o ressurgimento destas estruturas. Hoje a FPTA lidera
esta riqueza de companheirismo e de cumplicidades. E assim os grupos de amadores, ou
de teatro associativo, passaram a conhecer melhor o que representam, quantos são e o que
fazem. Estou convencido que ao serem confrontados e ao percecionarem, entre si, novos
modelos, ou processos diferentes de fazer e de se organizar, todos evoluem
consequentemente.
MRC – Que dirias tu (em jeito de conselho) aos jovens que pretendem seguir artes e,
mais propriamente, Teatro?
PL – Se estão decididos a sofrer por amor a uma causa, então sigam em frente, e coloquem
sempre o trabalho como razão maior do vosso sucesso. Não devem acreditar, em excesso,
na inspiração. Essa nem sempre se revela. Com esforço e dedicação tudo será possível.
MRC – Para além do Teatro, que valores te prendem à vida?
PL – A família, a camaradagem e a ambição de tentar melhorar o mundo que me rodeia...
MRC – Num saco de areia, achas que te reconhecerias?
PL – Sim. Reconhecer-me-ia, certamente, forçando a metáfora em que essa areia assumiria
desígnios de proteção. A predisposição que caracteriza também a personalidade do ser
humano numa vertente antropomórfica. Senão vejamos: o saco de areia que estanca as
águas das cheias para segurança das populações, ou aquele que nas trincheiras protege
o combatente das balas inimigas, ou ainda aquele que serve de suporte dando estabilidade
ao cenário, a fim de que este não tombe sobre o ator. Segurança, proteção e estabilidade.
Três caraterísticas de personalidade, além de muitas outras, indispensáveis ao líder perante
o seu grupo.
MRC – Gostavas de saber o futuro?
PL – Não. Acho que não. Estamos formatados para funcionar nestes moldes. Conhecer o
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futuro obrigar-nos-ia a reinventar uma nova “praxis”. Seria uma mudança demasiado radical
e com resultados imprevisíveis. Teríamos de inventar um homem novo para lidar com a
implacabilidade dos fatos. E o sonho? Que lugar lhe estaria reservado?
MRC – O que diz o ator ao encenador que em ti coabitam?
PL – Ajuda-me a tornar visível, a invisível alma humana, como diria Peter Brook. Faz-me
descobrir no fundo de mim mesmo todas as verdades que me permitam atingir a exata
dimensão da personagem que o texto dramático não revela em absoluto, e na maior parte
das vezes, apenas muito tenuemente.
MRC – Viagens. Já foste porventura à Polinésia? Conta-nos tudo sobre o que tens
visto por esse mundo.
PL – Não. Nunca fui à Polinésia, nem a lugar algum. Sou uma pessoa pouco viajada. Fora
de Portugal, estive em Compostela, Salamanca e em Madrid, onde passei três dias a visitar
museus. O da Rainha Sofia, onde contemplei em silêncio prolongado “Guernica”, o Thyssen
e, claro, como não podia deixar de ser, o do Prado. Há quatro anos declinei um convite, com
estadia e passagens pagas, para viajar até Brasília. As viagens não são o meu
deslumbramento. O mundo que me interessa está em plenitude em redor de mim.
MRC – Quais as vantagens de se ser «doido»?
PL – Ter desculpas para tudo. Ninguém o levar a sério. Ter um mundo só dele.
MRC – Que compras gostarias de fazer agora mesmo para teu conforto?
PL – Um auditório com 200 lugares, bem equipado, confortável, com salas de ensaio, de
cenografia e de arrumos e com amplo e fácil acesso tanto para pessoas como para
materiais. Ah! E já agora, que tivesse ali mesmo à beirinha um razoável parque de
estacionamento.
O Teatro é sem dúvida um lugar mágico onde vivem pessoas de corpo inteiro, capazes de
enfrentar os mais variados conflitos que ocorrem num mundo em constante mudança.
Porfírio Lopes é uma dessas pessoas e não mudará. Bem-haja.
Entrevista de Manuel Ramos Costa
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estreia
XIV FÓRUM PERMANENTE DE
TEATRO
A Cidade de Amadora recebeu nos dias 30 e 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro a XIV edição do
Fórum Permanente de Teatro da FPTA, realizado em parceria com o Teatro Passagem de Nível
e a caixanegra . colectivo de criação, com o apoio do Município da Amadora.
Confirmaram a presença cerca de 240 participantes provenientes das associadas ACIJE –
Associação do Coro Infanto-Juvenil de Esporões, Associação do Pessoal da Câmara Municipal
de Póvoa de Lanhoso, ATA – Acção Teatral Artimanha, Ateneu Artístico Vilafranquense,
Contacto – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, GAFT – Alma de Ferro, Getas Centro
Cultural de Sardoal, Grupo Cultural e Recreativo Nun’ Álvares – Teatro Vitrine, Grupo de
Animação e Teatro Espelho Mágico, Grupo de Teatro Palha de Abrantes, Grupo de Teatro “A
Fantasia”, Grupo de Teatro Renascer, GrutaForte Teatro, Pateo das Galinhas – Grupo
Experimental de Teatro, Teatro de Carnide, Teatro do Zero – A.A.V., Teatro Nova Morada,
Teatro Sem Dono, TEM - Teatro Experimental de Mortágua, TIL – Teatro Independente de
Loures, Tinbra – Grupo de Teatro Infantil de Braga. Para além destas associadas, também
participaram particulares e outros não associados, como o Centro Internacional do Carrilhão e
do Órgão de Constância e o Externato D. João VI, da Amadora.
Na sexta-feira, dia 30, os Recreios
da Amadora tiveram lotação
esgotada para assistir ao mais
recente projeto teatral do Teatro
Passagem de Nível – “A Moura”
de Luís Palma Gomes, com
encenação de Porfírio Lopes. Em
1362 uma princesa moura de seu
nome Fátima, (nome da filha do
profeta Maomé) permanece refém
num convento entre Alcobaça e a
Vila de Ourém, enquanto espera
que o seu destino incerto se decida.
El-Rei D. Pedro I, "O Justiceiro" ou
"O Cruel", anda em folguedos e montarias na região. Na Vila de Ourém, uma intriga política
cresce entre um clima de feitiçaria e um calor feroz que teima em não abandonar aquelas
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paragens. A cobiça, a ambição, o amor jovem e tardio são as forças em confronto naquela vila.
Um grupo de mulheres e crianças, que vem em cruzada para resgatar os seus homens feitos
prisioneiros na batalha do Salado, chega à vila. O seu destino é Córdoba, cidade do Al-Andaluz,
território cada vez mais exíguo, numa península cada vez mais cristã.
No convento onde agora vive a princesa moura, foi batizada com o nome de Oriana. E então um
milagre acontece….
No sábado e após as cerimónias solenes habituais iniciaram-se os painéis de formação:
Painel de Formação / Formador
Jogo Dramático - Mauro Corage
Respiração, Voz e Dicção - Sónia Sousa
Sensações e Emoções - Ivo Luz
Máscara Neutra - Miguel Lemos
Construção do Espetáculo - Jorge Fraga
Improvisação - Nuno Loureiro
Encenação - Porfírio Lopes
Fotografia de Cena - Paulo Sousa
Iluminação de Cena - Mário Pereira e Rui Ferreira
Cenografia e Adereços - João Barros
Caracterização - Aurora Gaia
Dirigentes - Direção da FPTA
Esta XIV edição do fórum contou também com a presença de Eduarda Reis - uma convidada
muito especial que veio diretamente dos Açores para dar testemunho das atividades teatrais
daquela ilha, partilhar a sua larga experiência no mundo do teatro e presenciar esta grande festa
de partilha entre grupos. Fomos presenteados no encerramento desta edição com uma atuação
extraordinária de teatro do improviso com a sua personagem deveras conhecida nos Açores –
a Tia Gerónima e a sua conterrânea e formadora do Fórum, Sónia Sousa.
Momentos hilariantes de saudáveis gargalhadas foram o resultado da interpelação entre esta
personagem insular, o Diretor do Fórum e os formadores.
Todas as edições do Fórum Permanente de Teatro homenageiam a dramaturgia portuguesa.
O XIV Fórum não foi exceção e homenageou o dramaturgo Fernando Augusto, relembrado na
emoção das palavras de Porfírio Lopes que com ele trabalhou e privou.
Fernando Augusto, encenador e dramaturgo, viveu de perto a realidade do teatro de amadores.
Tinha uma costela popular e revisteira, mas não era só isso. Era muito mais. Era um “amante
do teatro”, um atento interveniente no Teatro de Amadores. Foi professor e coordenador do
Sector de Teatro do Inatel, e neste cargo privilegiado contactou com dezenas de grupos de todo
o país. Com muito trabalho e dedicação devemos a Fernando Augusto o contributo para a
crescente importância e apoio mais que merecidos que o Inatel presta ao teatro.
Das suas obras premiadas, destacamos Nunca te disse que conheço as almas boas pelo
calor das mãos? (Menção Honrosa CITAP 1987 e editado pela Câmara Municipal da Amadora
em 1988), Príncipe Bão (2º Prémio CITAP 1991. Prémio Baltazar Dias 1995 – Câmara
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Municipal do Funchal. Editado pela SPA/D. Quixote em 1997), Pastéis de Nata para a Avó (2º
prémio CITAP 19993. 1º Prémio do Concurso Dramatúrgico Nacional “A Barraca” 1994), Andou
Um Anjo P´lo Cais (Prémio Miguel Torga 1996 – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
e A Última Batalha (Grande Prémio de Teatro Português SPA/Novo Grupo 1999. Editada pela
SPA/D. Quixote em 2000)
Colaborou com diversos grupos, dos quais destacamos o Grupo Dramático Povoense,
Proscenium, Teatro Passagem de Nível, Teatro Experimental do Funchal e Teatro
Camarim.
Deixou-nos prematuramente em 2003. Foi homenageado pelo TEF Companhia de Teatro, com
a abertura da Teatroteca com o seu nome a 30 de Novembro de 2005. Esta biblioteca de teatro
contém cerca de 1.500 volumes da biblioteca pessoal do autor, doada a Élvio Camacho e aí
depositada por empréstimo.
Para esta XIV edição do Fórum Permanente de Teatro, foi escolhido o texto de sua autoria –
Nunca te disse que conheço as almas boas pelo calor das mãos?- trabalhado de forma
brilhante no painel de Construção do Espetáculo pelo formador Jorge Fraga e no painel de
Improvisação pelo formador Nuno Loureiro. Duas perspectivas diferentes acerca do mesmo
texto, uma mais arrojada do que outra, mas ambas transmitiram fielmente a dureza e o realismo
das palavras de Fernando Augusto.
O sábado já ia longo e a noite
prometia, como sempre em cada
edição do Fórum. Subiu ao palco dos
Recreios da Amadora a anfitriã
caixanegra . colectivo de criação
com o espetáculo Cisnegrama, ou
exercício num palco imaginado a
partir de Anton Tchekòv e P. I.
Tchaikòvsky. Aqui encontramos um
ator em final de espetáculo, um palco
quase vazio e a confissão de quem
viveu e inventou lembranças próprias.
Tendo como base o enredo de O Canto do Cisne, cruzam-se em cena personagens de diversas
obras de Anton Tchekòv, desde A Gaivota, O Cerejal, As Três Irmãs, O Tio Vânia, para além
de cartas que o próprio dramaturgo escreveu. Na tentativa de criar um ambiente (quase) onírico,
a opção por ligar esta estória à música de O Lago dos Cisnes, da autoria de Piotr Ilitch
Tchaikòvsky. Continuando a assumir a proximidade com o espetador, para além de privilegiar
o trabalho de ator, toda a encenação e concepção cénica procura a simplicidade – isto para além
da assunção dos camarins, os atores em preparação mesmo sob o foco do olhar do público: “A
promessa do Teatro como se fosse vida.”
A alegria e emoção continuaram pela noite fora no espaço de eventos da Residencial Jardins
da Amadora com muita música, animação, Ilusionismo e Magia, pelas mãos do brilhante Zé
Mágico.
O Domingo chegou e com ele o final, de mais uma edição do fórum. Mas ainda houve tempo para
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a confraternização e partilha no Almoço Social oferecido pelo Município da Amadora.
Com forças retemperadas e lágrimas nos olhos lá fomos à despedida na sala dos Recreios da
Amadora. Estava na hora de assistir aos exercícios dos painéis de apresentação - Jorge Fraga
e Nuno Loureiro.
Os formadores estão de parabéns. Os formandos também e a FPTA idem.
Um agradecimento especial às nossas associadas Teatro Passagem de Nível e
KAIXACRIATIVA – Associação Cultural/caixanegra . colectivo de criação.
E o XV Fórum Permanente de Teatro é na… FIGUEIRA DA FOZ nos dias 25, 26 e 27 de
Setembro e seremos recebidos pelo Páteo das Galinhas Teatro de Bico - Grupo Experimental
de Teatro, com o apoio do Município da Figueira da Foz.
Este vai ser um Fórum de Acampamento com muita diversão para miúdos e graúdos,
aproveitando o melhor que a Figueira da Foz tem para oferecer.
Esperamos lá por vocês. Até já!
José Teles e Tânia Maria Falcão
Coordenação do Fórum Permanente de Teatro
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programa de sala
FIGUEIRA DA FOZ:
PRAIA DA CLARIDADE
A Figueira da Foz é uma cidade do
distrito de Coimbra, sede do concelho,
localizada no centro de Portugal,
inserida na região do Baixo Mondego e
situada na foz do rio Mondego com o
oceano Atlântico. É, portanto, uma
cidade costeira de rica história, cultura
e tradição. Considerada a "rainha da
Costa de Prata" pelas suas extensas
praias, tem no turismo um dos principais recursos económicos, sendo um dos principais
centros turísticos do país, rodeada pelo rio e serras densamente arborizadas que lhe
conferem características únicas. Com ocupação humana desde tempos antigos, a Figueira
da Foz teve um grande desenvolvimento no século XVIII e XIX devido ao movimento do porto
e ao desenvolvimento da indústria de construção naval, com abertura de novas vias de
comunicação e afluência de veraneantes. Em finais do século XIX e início do século XX
construíram-se novas infraestruturas de desenvolvimento que ainda se mantém, como os
hotéis, casino, restaurantes e a zona onde se concentra a atividade comercial.
Foi nesta localidade, no início do século XIX, que desembarcaram as tropas inglesas que
vieram auxiliar Portugal na luta contra as Invasões Francesas.
Recentemente, o Cabo Mondego, um
promontório na Serra da Boa Viagem
nos arredores da Figueira da Foz, foi
declarado
Monumento
Natural
Nacional. Com o mais antigo casino de
toda a Península Ibérica e único na
região centro, o Casino Figueira, um
enorme areal (a praia mais larga da
Europa) com equipamentos lúdicos e
desportivos e uma animada vida
noturna. A cerca de dez quilómetros da
cidade, já no limite do concelho e
próximo de Montemor-o-Velho, localizam-se os Montes de Santa Olaia e Ferrestelo com
uma estação de escavação onde se encontraram monumentos e objetos da Idade do Ferro.
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No monte encontra-se ainda a capela de Santa Eulália com vista deslumbrante sobre os
arrozais do Mondego. O território concelhio é atravessado pelo Rio Mondego e da sua rede
hidrográfica fazem parte várias ribeiras e cinco lagoas (Salgueiros, Vela, Braças, Corvos e
Leirosa).
Com um património históricocultural muito forte e rico, destacamse as suas inúmeras igrejas com as
suas talhas douradas, onde o
Barroco tantas vezes impera, o
Museu Municipal Dr. Santos Rocha
com vasto espólio que conta com
coleções de arqueologia, etnografia,
pintura, escultura, cerâmica e
mobiliário, o Forte de Santa Catarina
e a Fortaleza de Buarcos, a Torre do
Relógio,
diversos
vestígios
arqueológicos, e os muitos Palácios (como o Sottomayor), parques e jardins, palacetes e
casas senhoriais que atestam a importância turística e económica desta cidade ao longo dos
anos, a marina ou o recentemente construído Centro de Artes e Espetáculos.
Um dos encantos da Figueira da Foz é a “Praia da Claridade”, um vasto areal que, já desde
os finais do séc. XIX, era o preferido da classe aristocrática. Os seus emblemáticos bares
em madeira listrada e a areia branca e macia continuam a atrair turistas de todo o mundo.
A gastronomia é um dos ex-líbris da Figueira da Foz, enquanto reflexo de uma memória
coletiva, de costumes e tradições. A sua riqueza gastronómica com base no peixe e as
típicas sobremesas, como as brisas da Figueira da Foz ou as gulosas papas de moado,
fazem as delícias dos nossos visitantes. Os múltiplos espaços verdes existentes convidam
a agradáveis passeios a pé, de bicicleta ou de carro. Destaca-se a serra da Boa Viagem, o
Parque das Abadias, a zona ribeirinha e as diversas lagoas. Os percursos pedestres
complementam a oferta turística da Figueira da Foz, proporcionando agradáveis
experiências de ecoturismo: Rota das Salinas e Rota dos Arrozais.
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O Pateo das Galinhas – Grupo Experimental de Teatro foi fundado a 19 de setembro de
2008, na Figueira da Foz. Na sua génese encontram-se alguns amigos e conhecidos, com
ligações díspares ao teatro amador da região e ao teatro escolar. Os seus fundadores
tinham como objetivo central criar uma estrutura autónoma que, sem menosprezar a secular
e rica tradição de teatro amador da Figueira da Foz associada a coletividades das freguesias
periféricas da cidade, estivesse mais direcionada para o público urbano. A 15 de junho de
2010, com um grupo mais alargado de colaboradores, o Pateo das Galinhas constituiu-se
formalmente como associação cultural sem fins lucrativos e passou, desde logo, a
associado da Federação Portuguesa de Teatro.
Embora composto por um grupo permanente de colaboradores, o Pateo das Galinhas não
tem, por opção, elenco fixo, o que lhe tem permitido liberdade criativa e criadora para a
produção de espetáculos distintos no conteúdo e na forma. Do mesmo modo, tem procurado
trabalhar com diferentes criadores, tanto na área da encenação, como nas diversas áreas
ligadas à produção teatral. Assenta a sua ação em dois eixos principais: a formação e a
criação. Procura um teatro experimental e crítico, que seja capaz de envolver a comunidade
local, regional e nacional.
Apresentou, desde a sua formação, as seguintes produções teatrais: em 2009 estreou-se
com 667, O Vizinho da Besta, com encenação de Laura Oliveira; em 2010 apresentou As
Vedetas, com encenação de Laura Oliveira; em 2011 subiu à cena Creeps, com encenação
de Victor Marques; em 2012 foi
a vez de Sangue Jovem, com
encenação de Laura Oliveira;
em 2013 apresentou Milhões
de Contos, com encenação de
Júlio Gomes. Também em
2013 iniciou um projeto de
formação teatral destinado a
jovens dos 12 aos 18 anos, o
Pateo
Jovem,
da
responsabilidade
do
encenador Júlio Gomes. O
Hotel, com texto de Gonçalo M.
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Tavares, foi o primeiro resultado desse projeto, apurado para o Festival PANOS - Palcos
Novos Palavras Novas, uma iniciativa da Culturgest.
Foi selecionado, em 2013, 2014 e 2015, para a fase final do CONTE, Concurso Nacional de
Teatro, uma organização da Federação Portuguesa de Teatro, INATEL e Câmara Municipal
da Póvoa de Lanhoso. Em 2014, no CONTE, com Milhões de Contos, obteve três
nomeações (melhor espetáculo,
melhor encenação e melhor guardaroupa), tendo sido galardoado com o
prémio de melhor guarda-roupa e, no
mesmo ano, com a mesma peça,
recebeu o Prémio Europa, atribuído
pela Confederación Escenamateur.
Presentemente, prepara a estreia de
duas peças de teatro.
Nos últimos três anos, com um
número de colaboradores cada vez
mais extenso, o Pateo das Galinhas tem procurado colaborações, parcerias e coproduções
com outras associações da região. Colabora frequentemente com a Divisão de Cultura da
Câmara Municipal da Figueira da Foz e com outros grupos de teatro amador em eventos de
índole cultural e lúdica. Integra a Plataforma de Teatro do Baixo Mondego, uma estrutura
constituída por vários grupos de teatro amador do distrito de Coimbra e pelo Teatrão, grupo
profissional de teatro de Coimbra, com o qual colabora desde 2012. Participa, desde 2009,
nas Jornadas de Teatro Amador do concelho da Figueira da Foz, organizadas pelo Lions
Clube da Figueira da Foz. Tem dinamizado diversas intervenções no âmbito da poesia,
leitura encenada e teatro de rua. Já organizou formações e workshops na área da formação
de atores, voz, som e movimento, produção de figurinos e construção de objetos de cena.
Recentemente, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, através da Divisão de Cultura,
disponibilizou um espaço n´O Sítio das Artes, onde o grupo tem agora residência.
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na ribalta
XI CONCURSO NACIONAL DE
TEATRO
Póvoa de
Lanhoso
Consagra Comédia...
O Concurso Nacional de Teatro 2015 foi marcado por uma profunda reestruturação,
desde logo, pela adoção de uma imagem renovada, mais arrojada e em sintonia com
o principal objetivo do Evento - a continua dinamização e adaptação aos movimentos
culturais e artísticos nacionais.
Desta feita, foram introduzidas novas categorias a premiar: ambiente sonoro,
interpretação secundária feminina e masculina, e o prémio Maria da Fonte, este último
atribuído pelo público.
O troféu do Concurso foi também ele atualizado, criando-se três imagens distintas,
entre o prémio do público, troféus gerais e o tão ansiado prémio Ruy de Carvalho,
prémio maior do Concurso, este último todo ele em filigrana, a arte maior da Póvoa de
Lanhoso. Os troféus foram criados pelo artesão local César Silva, tendo sido a última
obra feita pela mão do artista, devido à sua inesperada morte em dezembro último.
Conferindo aos galardões uma simbologia muito especial.
De realçar a enorme afluência de público sentida ao longo de todo o Concurso, marca
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incontornável da qualidade dos espetáculos apresentados e da notoriedade já alcançada
em termos locais e nacionais.
A abertura do concurso foi da responsabilidade da Associação de Funcionários da Câmara
Municipal da Póvoa de Lanhoso, com a comédia “1514”, o Grupo Dramático e Recreativo
da Retorta apresentou a comédia “Óculos de Sol”, de Montemor-o-Novo, o Theatron –
Associação Cultural levou a palco “O coração de um pugilista”, não faltou o Grupo Mérito
Dramático Avintense que apresentou o drama “Mortos de Fome”, seguindo-se o Teatro
Vitrine que de Fafe levou o drama “A Roda dos Expostos”, a tragicomédia “Maria – A Rainha”
foi o espetáculo apresentado pelo Grupo de Teatro Amador de Cristelo, a comédia “Histórias
para serem contadas” foi da responsabilidade do Teatro Independente de Loures, pela mão
do Páteo das Galinhas – Teatro de Bico da Figueira da Foz chegou “O Hotel”, e o
encerramento foi da responsabilidade do Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico que
levou o musical infantil “Rom Rom e Fofoca”.
A cerimónia de encerramento realizou-se no final da tarde de sábado do dia 14 de Março,
no Theatro Club, palco da competição, que, durante cerca de um mês, reuniu nove
companhias de todo o país.
Ao contrário de edições anteriores, a Gala foi estruturada em torno de uma temática: nesta
edição o “Burlesque” invadiu o Theatro Club. Animação que foi da responsabilidade do
Grupo local: Associação de Funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso.
Seguiu-se a entrega de prémios do Concurso que
nesta Edição foram maioritariamente entregues ao
Grupo Dramático e Recreativo da Retorta pelo
espetáculo “Óculos de Sol”, arrecadando os seguintes
Prémios: “Orlando Worm” para Melhor Desenho de
Luz, Melhor ambiente sonoro, Melhor Guarda Roupa,
Melhor interpretação Secundária Feminina, e uma
Menção Honrosa para a interpretação principal de
Núria Melo, Laura Ferreira recebeu o galardão para a
melhor encenação, e a Companhia arrecadou
também o Prémio Ruy de Carvalho para a melhor
produção 2014.
O público consagrou o espetáculo “1514” atribuindo-lhe o prémio Maria da Fonte.
O espetáculo “Maria – A rainha” foi distinguido com o prémio para melhor cenografia 2015.
O Theatron – Associação Cultural, com o espetáculo “O Coração de um Pugilista” arrecadou
os troféus de Interpretação Masculina de Paulo Quedas e Bernardino Samina (secundária
e principal respetivamente).
O espetáculo “Rom Rom e Fofoca” do Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico de
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Setúbal arrecadou o Prémio para Melhor Interpretação Principal Feminina pelo trabalho de
Isabel Ganilho.
“Mortos de Fome” foi distinguido com uma menção honrosa pela interpretação de Andreia
Rocha.
O Prémio Prestigio Personalidade Fundação INATEL foi entregue por Rui Sérgio a Leandro
Vale pelo trabalho desenvolvido em prol do Teatro e da Escrita em Portugal.
O trio que compôs o Júri da Edição do CONTE 2015, foi constituído por: Rosa Sousa
representante da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, Dantas Lima representante da
Fundação INATEL e Marcos Barbosa representante da Federação Portuguesa de Teatro.
A noite culminou com um jantar entre todos os participantes na Edição 2015.
De realçar, ainda, o empenho da
organização: Câmara Municipal
da Póvoa de Lanhoso, Fundação
INATEL
e
Federação
Portuguesa de Teatro, para que
edição do CONTE 2015 fosse um
verdadeiro sucesso, para que o
Evento seja cada vez mais uma
referência cultural em termos
nacionais.
Até 2016.
Anabela Teixeira
Diretora do Concurso Nacional de Teatro
“Tive o privilégio de assistir a quase todas as representações e sinto
que, de ano para ano, o nível deste concurso tem vindo a aumentar
de uma forma consolidada. Se alguém chegasse à Póvoa de
Lanhoso e se se sentasse nessa plateia, num qualquer fim-desemana do último mês, com o único objetivo de apreciar um
espetáculo teatral, não se aperceberia que à sua frente tinha atores
amadores. Todos vocês estiveram a um grande nível. Ao nível dos
melhores profissionais. Por isso não posso deixar de registar o meu
agradecimento e endereçar-vos os meus sinceros parabéns.”
Armando Fernandes:
Vereador da Cultura da
Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso
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LEANDRO VALE
PRÉMIO PRESTIGIO PERSONALIDADE FUNDAÇÃO INATEL 2015
O teatro, enquanto arte do faz de conta, vive das suas personagens, figuras mais ou menos
estereotipadas, com as suas qualidades e defeitos, muitas das vezes capazes dos mais
heroicos atos, outras tantas de crueldades tamanhas... É desta forma que nós, espetadores
de uma trama que corre frente aos nossos olhos, vivemos as suas histórias como se nossas
fossem...
Homenagear uma vida, para mais uma vida dedicada ao teatro e à cultura, em que as luzes
não são o mais importante, mas sim as marcas que se vão deixando pelo caminho que é
trilhado, tem tanto de difícil como de premente...
Homem simples, sem complexos, nem tiques de vedetismo, apesar da obra feita e da recusa
em dar o seu trabalho por terminado, é na alegria do fazer sempre mais que está a sua
essência...
Ator, encenador, dramaturgo, poeta... Criador de polémicas que nada mais visam do que
despertar consciências e provocar atitudes de inconformismo, é apenas à cultura que deve
obediência e ao teatro que reconhece como seu amo...
Leandro Vale, um homem que as contrariedades não conseguem vencer e para quem os
obstáculos só servem de impulso para continuar a caminhar, é um exemplo que não pode
deixar de ser imitado...
Mais importante do que as palavras, são os atos... E este era um ato há muito que se
impunha...
Por isso, é com enorme honra que a organização do Concurso Nacional de Teatro decidiu
distinguir LEANDRO VALE com o Prémio Prestígio Personalidade Fundação INATEL 2015.
Obrigado, Leandro...
Luís Mendes
Presidente da FPTA
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bocas de cena
Mensagem do
DIA MUNDIAL DO TEATRO 2015
Os verdadeiros mestres do teatro encontram-se quase sempre mais facilmente longe do
palco. De um modo geral não vêem o teatro como uma máquina de replicar convenções ou
reproduzir clichés. Procuram o impulso criador, as correntes de vida que tendem a ignorar
as salas de espectáculo e a multidão de pessoas que se inclina a copiar um ou outro mundo.
Tendemos a copiar em vez de criar mundos baseados no debate com o(s) público(s), sobre
as emoções que crescem sob a superfície. E, na realidade, nenhuma outra arte para além
do teatro consegue revelar as paixões ocultas.
Na maioria dos casos eu oriento-me na prosa. Dia após dia dou por mim a pensar nos
escritores que há cerca de cem anos atrás profetizavam, ainda que com alguma contenção,
o declínio dos deuses Europeus, o crepúsculo que mergulhou a nossa civilização numa
obscuridade que ainda não foi iluminada. Estou-me a referir a Franz Kafka, Thomas Mann
e a Marcel Proust. Nos dias de hoje incluo também John Maxwell Coetzee neste grupo de
escritores profetas.
A sua percepção do fim inevitável do mundo – não do planeta mas do modelo das relações
humanas – e da sublevação da ordem social, é de uma pungência muito actual para nós.
Para nós que vivemos depois do fim do mundo. Que vivemos e testemunhamos crimes e
conflitos que acontecem diariamente em novos lugares, mais rapidamente do que os
próprios media conseguem noticiar. Estes acontecimentos depressa se tornam aborrecidos
e desaparecem dos registos noticiosos, para nunca mais voltar. E nós sentimo-nos
impotentes, horrorizados e encurralados. Já não somos capazes de construir torres, e os
muros que teimosamente continuamos a erguer não nos conseguem proteger – ao
contrário, são eles que demandam protecção e cuidado que acaba por consumir grande
parte da nossa energia vital. Deixamos de ter a força para tentar vislumbrar o que está para
além dos portões, para além dos muros. E é por isso mesmo que o teatro deve existir e é
aí que deve ir buscar a sua força. Espreitar e ver para além do que é proibido ou está vedado.
“A lenda procura explicar aquilo que não pode ser explicado. Baseia-se na verdade e, por
isso, deve terminar no inexplicável” – é assim que Kafka descreve a transformação na lenda
de Prometeu. Também eu penso que o teatro pode ser descrito com as mesmas palavras.
É esse género de teatro, baseado na verdade mas cujo seu fim é o inexplicável, que eu
desejo para todos os seus intérpretes, os que estão no palco e os que estão na plateia, e
desejo-o com todo o meu coração.
Krzysztof Warlikowski
Tradução de Fernando Rodrigues (FPTA)
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reportório
Conversas com os Mestres:
A energia teatral
“Através da técnica que lhe transmite e tradição, ou
através da construção de uma personagem, o actor
chega a um comportamento artificial, extraquotidiano. Dilata a sua presença, por conseguinte
dilata a percepção do espectador. No fingimento do
teatro é um corpo-em-vida. Ou aspira a sê-lo. Para
isso trabalhou anos e anos, por vezes desde a
infância. Para isso repetiu muitas vezes as mesmas
acções, para isso, treinou-se. Para isso utiliza
processos mentais, ‘mágicos’, subtextos pessoais.
Para isso imagina o seu corpo no centro de uma rede
de tensões e resistências físicas irreais mas
eficazes. Usa uma técnica extra-quotidiana do
corpo e da mente. A nível visível, parece que
trabalha sobre o corpo e sobre a voz. Na realidade,
trabalho sobre algo de invisível: a energia.”
Eugenio Barba
L’arte segreta dell’attore, Milano Ubulibri, 2005, p. 57
Ao longo dos últimos textos, abordámos a relação entre arte, teatro e educação, procurando
esclarecer a complexidade inerente à noção de educação artística e aplicá-la, nas suas
diversas modalidades, à arte do teatro, com uma especial atenção às possibilidades que se
oferecem ao teatro não profissional. Hoje iniciamos uma nova forma de aproximação de
alguns temas inerentes à estética e à prática teatral. Designamos esta nova forma e esta
nova série de textos com a expressão “conversas com os mestres”. Assim, o que, de facto,
vamos procurar fazer é conversar com alguns dos nossos mestres, partir de palavras suas,
textos ou excertos breves em que incisivamente exprimiram certas ideias que a experiência
de anos lhes foi ensinando. E fazemo-lo porque entendemos que o diálogo com eles é
sempre estimulante e susceptível de abrir caminhos fecundos não apenas nas nossas
ideias, mas também nas nossas práticas e nos nossos procedimentos e comportamentos
em palco.
Poderíamos começar por muitos, tantos são aqueles com quem temos aprendido ao longo
da nossa experiência do teatro. Escolhemos, para hoje, Eugenio Barba, encenador que
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muito jovem partiu de Itália para os países nórdicos, conheceu e trabalhou com Grotowski
na Polónia e fundou depois na Noruega o Odin Teatret que logo se deslocou para uma
pequena povoação da Dinamarca tornando-se o centro de dinamização do chamado
Terceiro Teatro, que se distingue do teatro mais institucionalizado nos seus procedimentos
e do teatro experimental vanguardista e que se caracteriza pela assunção de uma dimensão
ético-teatral e comunitária. Foi também um dos que mais contribuiu para a consolidação de
uma nova disciplina nas artes do palco, a Antropologia Teatral, que define como “o estudo
do comportamento fisiológico e sociocultural do homem em situação de representação”.
No parágrafo que seleccionámos para este primeiro diálogo, retoma um dos conceitos que
desempenha, na sua estética, um papel central, o conceito de dilatação, de corpo dilatado
ou de mente dilatada, que corresponde ao que é mais característico do homem em situação
de representação, significando um processo em que “o fluxo das energias que caracteriza
o nosso comportamento quotidiano foi dilatado” e em que “as tensões que regem
quotidianamente o nosso modo normal de estar presentes fisicamente emergem no actor,
tornam-se visíveis, imprevistas”. Foi por isso que, durante muito tempo, se considerou o
conceito de “corpo dialtado” como um dos conceitos ou um dos contributos mais originais
de Eugenio Barba para a estética teatral. Todavia, se percebermos os vectores que dão
sentido ao texto transcrito, damo-nos conta de que, por detrás do conceito de dilatação, está
um outro que merece hoje a nossa atenção, o conceito de energia. Efectivamente, o que o
autor e encenador nos diz, com toda a clareza, é que aquilo sobre que o actor, na realidade,
trabalha, é a energia. Por esse motivo, a energia constitui o principal elemento em jogo na
prática teatral.
Para nos apercebermos da mudança que implica esta inflexão na definição do trabalho do
actor e daquilo que se faz em teatro é importante notarmos que, no Ocidente, praticamente
até ao final do século XIX, e salvo algumas excepções que não fazem senão confirmar a
regra, o elemento fundamental do teatro foi o texto, de tal maneira que os conceitos de
“drama”, de “dramático” ou de “dramaturgia” se cristalizaram numa referência ao texto
teatral (quando, na realidade, a palavra drama, em grego, não significa isso, mas pura e
simplesmente acção), a ponto de a dramaturgia de um espectáculo ter sido entendida
sobretudo como um trabalho sobre o texto que servia de base ao espectáculo. Depois, com
o desenvolvimento dos chamados “teatros de arte” no final do século XIX e ao longo de todo
o século XX, em que se destaca, naturalmente, o Teatro de Arte de Moscovo, de
Stanislavski, mas a que há que juntar muitos outros teatros de arte que na mesma altura ou
nas décadas seguintes proliferaram por toda a Europa, o trabalho sobre o texto começou
a ter um equilíbrio com o trabalho sobre o corpo, até que, com Antonin Artaud, extasiado com
as manifestações do teatro balinês em Paris, tal primado do texto foi substituído pelo
trabalho sobre o corpo, que haveria de atingir os seus expoentes mais significativos com as
performances teatrais da body art na década de sessenta e com o teatro físico que lhes dá
sequência nas décadas seguintes. Muitos assumiram, então, que o teatro era,
fundamentalmente, um trabalho sobre o corpo. Ora é neste horizonte que se devem
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entender as palavras de Barba: não se trata de negar nem o trabalho sobre o corpo, nem
o trabalho sobre as palavras e a voz que as exprime. Trata-se, antes, de reconhecer, que,
em teatro, todo o trabalho sobre o corpo e sobre as palavras é, afinal e na realidade, um
trabalho sobre a energia. Dir-se-ia, então, que o sujeito teatral, o que no teatro se torna
visível (e o teatro é a arte da visibilidade, pois é do verbo ver que deriva teatro, que significa
o espaço em que se vê) é essencialmente a energia, ou seja, no teatro é a energia que está
permanentemente em movimento. E energia, que tomamos habitualmente como sinónimo
de força, significa etimologicamente, pelas palavras gregas que entram na sua composição,
“em trabalho”. A energia é a qualidade de alguma coisa que está em trabalho, em processo
de acontecimento. O trabalho do actor, quer com o corpo, quer com a mente, é sempre um
trabalho sobre a energia. E falar de energia não é exactamente o mesmo que falar de força
(no sentido de força viril, impetuosa ou violenta). São muitas as formas de energia e, nas
diversas culturas teatrais, mais do que deixarem reconduzir-se àquilo que, por comodidade
ou por estereótipo, poderíamos ser tentados a chamar energia masculina ou energia
feminina, elas organizam-se por duas polaridades que são expressões, por vezes opostas,
do conceito de vento ou de respiração: é assim com animus e anima nas línguas
provenientes do latim, com manis e keras, no teatro balinês, com lasya e tandava na tradição
indiana. Temos, deste modo, num pólo, a energia numa modulação delicada e terna, e, no
outro pólo, a energia na sua modulação vigorosa e dura. O que significa que tanto há energia
num gesto de ternura, como há energia num gesto violento. E o principal trabalho do actor
é compor e modular as diversas expressões de energia. Tal composição não significa
homogeneidade nem uniformidade: se o gesto de uma mão pode acompanhar, em
delicadeza, uma modulação mais terna de um olhar ou do movimento de um pé, pode
também contrapor-se a essa modulação com uma modulação mais vigorosa e dura,
resultando, da composição contraditória de várias modulações, a riqueza e a complexidade
de uma personagem sobre as tábuas do palco. Acresce ainda que a energia se manifesta
simultaneamente no espaço e no tempo: Assim, ao manifestar-se no espaço, cria campos
de força que saem de um gesto ou de um olhar em direcção a um ponto do espaço ou a em
direcção ao gesto e ao olhar de outra personagem; por outro lado, ao manifestar-se no
tempo, através das suas modulações, cria tempos fortes e tempos fracos, tempos curtos e
tempos longos, que jogam com os campos de força criados no espaço e com as diferentes
modulações da energia dos diversos aparelhos do actor (o aparelho de locomoção, a voz,
como aparelho fonador, o aparelho respiratório, o aparelho cutâneo, etc…). À sucessão e
alternação das diferentes modulações da energia chamamos ritmo. Assim, para o actor,
trabalhar sobre o corpo ou trabalhar sobre a voz, é sempre trabalhar sobre a energia.
Mas não é apenas o actor que, em teatro, trabalha sobre a energia. Também o cenógrafo,
cuja tarefa é criar condições para que o espaço teatral seja um espaço potencial e vivo como
vivo é o corpo do actor (ainda que um espaço vazio, como lhe chama Peter Brook), trabalha
essencialmente sobre e energia, e essa foi a grande lição de A. Appia, que revolucionou a
cenografia nas duas primeiras décadas do século XX. E, do mesmo modo, o figurinista: a
roupa que veste um actor ou é compatível com a sua energia e permite acompanhar as
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modulações de energia da respectiva personagem, ou falha na relação que estabelece com
o corpo vivo que a usa. Por outro lado, também o desenhador de luz e o compositor de uma
banda sonora trabalham com e sobre a energia: se as ondas sonoras são energia que se
propaga no espaço e entra no corpo dos actores e dos espectadores, também a luz é energia
que aquece, com o seu calor, uma atmosfera ou um ambiente, que os arrefece ou que os
complexifica com uma mistura dessas diversas modulações. E o maestro principal da
orquestração da energia é, naturalmente, o encenador, não independente do ou contra o
actor, o cenógrafo, o figurinista, o músico ou o iluminador, mas em sintonia e convergência
com eles. Porque não é o maestro que toca nem tão pouco é ele que ensina o violinista a
tocar a sua partitura. O maestro potencia e estrutura a articulação das diferentes partituras,
para que dessa rica composição brote a força e a beleza da obra teatral.
Quantas vezes, após um espectáculo, reconhecemos que estava tudo muito certinho, tudo
no seu lugar, tudo feito a tempo, mas… faltava alguma coisa. O que falta, tantas vezes, sem
que nós o saibamos explicitar, é a capacidade de modular com riqueza e fecundidade, a
energia. Diria, por isso, conversando com Barba, que a energia é a verdadeira alma do
teatro.
João Maria André
Professor Catedrádito
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
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sem palco
AMADORA - O FÓRUM DAS EMOÇOES
Texto produzido no âmbito do Painel de Encenação e Dramaturgia, orientado por Porfírio
Lopes (Processo coletivo de criação), no XIV Fórum Permanente de Teatro, na Amadora,
Janeiro de 2015.
(Todos os atores formam inicialmente um semicírculo, que se vai desfazendo num processo
continuo)
ROSA - O dia aproxima-se.
TODOS - O dia aproxima-se.
ROSA - A ansiedade toma conta do ser. A viagem, o nascer do sol, os quilómetros…
TODOS - Finalmente rostos…
ROSA - Sorrisos, o reencontro, os abraços, a alegria, a aprendizagem…
TODOS - Fórum Teatro emoções ao rubro.
MÁRIO - (Aproximando-se de Fernanda) O que vieste cá fazer?
FERNANDA - (Que se destacara do grupo, ao avançar alguns passos) Vim procurar
emoções.
MÁRIO - Encontraste?
FERNANDA - Encontrei o teatro.
MÁRIO - E o que viste?
FERNANDA - Arte
TODOS - (Em sussurro quase de êxtase) Arte!
RICARDO - Quando o sonho de realizar se alcança, o ser humano vive.
FERNANDA - Sensações ambíguas, interrogações, receio do tédio e “inesperado”, o sonho
esquecido relembra-se.
CLARA - Emoções, o sal da vida que faz do teatro, espelho, onde o homem se revê.
TODOS - Onde o homem se revê.
JOÃO - Ao revelar emoções damos a conhecer em nós um lado para além do ator.
# 9 - março' 15
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DIOGO - O trabalho de cada um faz-se da seguinte maneira:
TODOS - Faz-se da seguinte maneira:
DIOGO - Cada um no seu lugar, já que cada qual zela pelo seu fazer e trata-o de forma séria
e comedida. As emoções devem ser controladas, usadas também comedidamente
e quando solicitadas. De outra forma são meramente parasitas.
TODOS - Fórum Teatro emoções ao rubro.
PORFIRIO - Mas, como tudo na vida, o tempo esgota-se… e chegam...
ROSA - As despedidas. E a saudade do próximo Fórum.
PATRÍCIA - Viva o Teatro de Amadores.
TODOS - Viva.
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1 - Federação Portuguesa de Teatro