editorial Estamos em Março, mês que celebra o Dia Mundial do Teatro e cuja mensagem deste ano escrita por Krzysztof Warlikowski (Diretor Artístico do Novo Teatro de Varsóvia – Polónia) testemunha a importância da verdade e da procura do que está “para além dos muros que teimosamente continuamos a erguer”, na construção do teatro contemporâneo. A palavra dita é uma forma de poder sobre o objecto nomeado, segundo José Fanha; é também, de acordo com Hans Magnus Henzensberger (poeta alemão) um exercício de memória e de narração. O Teatro é, por consequência, um exercício de memória e a palavra assume um papel fundamental na encenação do real. O Teatro, como a leitura e a escrita, permite-nos abordar o tempo do passado, o tempo do presente e perspectivar o tempo do futuro e por isso é uma arte de inestimável valor. A FPTA está envolvida com outras congéneres nacionais (entre as quais se contam a Confederação Portuguesa das Casas do Povo, a Confederação do Desporto de Portugal, a Confederação Musical Portuguesa, a Federação de Cineclubes, a Federação Portuguesa de Folclore) na organização do Congresso Nacional das Colectividades, Associações e Clubes de raiz popular, que vai acontecer no próximo dia 7 de Novembro em Lisboa. Esta iniciativa que está a ser coordenada pela Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto pretende reforçar e valorizar o Movimento Associativo e reflectir sobre o modelo do associativismo e seu papel na Sociedade Portuguesa, bem como demonstrar as potencialidades do mesmo no plano cultural, económico e social. Este congresso irá marcar de forma significativa a nossa importância e posicionamento no âmbito da produção cultural e o nosso enquadramento no Portugal de hoje. Em Março ficamos também a conhecer o vencedor do prémio Ruy de Carvalho (XI edição do Concurso Nacional de Teatro) - Grupo Dramático e Recreativo da Retorta (Valongo) com o texto “Óculos de Sol” de Laura Ferreira a quem endereçamos as nossas felicitações. Este mesmo espetáculo foi também o grande vencedor da II edição do Prémio Europa da Escenamateur, a nossa congénere espanhola. Existem, nesta edição, mais motivos de interesse: a entrevista feita a Porfírio Lopes (Encenador, ator, formador nos Fóruns Permanentes da Federação e dirigente associativo), uma resenha sobre o Fórum da Amadora e um “aperitivo” para o próximo Fórum Permanente que se irá realizar na Figueira da Foz em 25, 26 e 27 de Setembro; o Professor Doutor João Maria André prossegue a sua colaboração dando início a uma nova série de textos sobre estética e prática teatral sob o mote “conversas com os mestres”. Estes são, em sinopse, os principais temas que iremos abordar neste número nove da nossa “Palcos” que está aí para ser partilhada por todos os que amam o teatro. Aproveitem! Fernando Rodrigues Diretor da Revista PALCOS # 9 - março' 15 1 # 9 - março' 15 editorial 1 conversas de bastidores porfirio lopes 3 estreia xiv fórum permanente de teatro 10 programa de sala figueira da foz | páteo das galinhas 14 na ribalta xi concurso nacional de teatro 18 boca de cena mensagem do dia mundial do teatro 2015 22 reportório conversas com os mestres - a energia teatral 23 sem palco amadora fórum aproxima-se 27 FICHA TÉCNICA Propriedade Federação Portuguesa de Teatro - Praça José Afonso, 15 E | C. C. Colina do Sol, Loja 55 | 2700-495 Amadora Diretor Fernando Rodrigues Conselho Editorial Luis Mendes, Tânia Maria Falcão, Anabela Teixeira, Manuela Estevinha, Bruno Gomes, Manuel Ramos Costa e José Teles Colaborador Permanente João Maria André Fotografia Alice Grade, André Tenente e Carla Ferreira Grafismo e Paginação Gabinete de Comunicação/Federação Portuguesa de Teatro Periodicidade Semestral | Edição Digital # 9 - março' 15 2 conversas de bastidores PORFIRIO LOPES QUERO FICAR ONDE ESTOU. VIGILANTE E ATENTO. Conheci-o na Póvoa de Lanhoso, ao tempo do Fórum que a Federação, ou melhor, que a então ANTA lá realizou, em Janeiro de 2010. O momento era solene e o bonito auditório do Teatro Club enchera-se de pessoas para assistir ao lançamento de «O Livro da Ilusão», de Domingos Galamba, superiormente apresentado pelo nosso entrevistado. E desde então fiquei com a impressão de estar diante de um verdadeiro homem do teatro, muito apaixonado, muito culto, muito impulsionador, muito perfecionista, muito de muito. Impressão confirmada, anos mais tarde, no décimo Fórum de Setúbal. Falo-vos do ator e encenador Porfírio Lopes, nascido há sessenta anos em Ferreira do Zêzere. Licenciado em Psicologia e Mestrando em Psicologia da Linguagem e Logopedia, frequentou diversos cursos na área do teatro e… E o mais que, a seguir, gentilmente nos irá dizer. MANUEL RAMOS COSTA – Ferreira do Zêzere, que lembranças? PORFÍRIO LOPES – Guardo muitas e indeléveis lembranças. O menino de bata branca a caminho da escola, ao encontro de uma professora ríspida, autoritária e que em simultâneo expressava uma singular benevolência. Sinto a nostálgica harmonia do verde das serranias espraiando-se em longos e excelsos horizontes, dos campos cultivados e do gorgolejar das águas da ribeira. Recordo a felicidade das pessoas estampada em seus rostos, apesar das dificuldades que enfrentavam por esses dias. A saudade do apito da serração do Pinhão, há muito desativada, anunciando a hora de pegar, e de despegar, ao trabalho. A recordação de tantos rostos enrugados pelo rigor dos anos, grande parte já desaparecida, e de tantos aromas, cores, sabores e frutos. MRC – Quando eras criança… PL – Os meus pais e avós eram humildes agricultores. Algumas vezes, acompanhava-os # 9 - março' 15 3 nas lides dos campos. Nas sementeiras, nas colheitas, principalmente na hora da merenda. Sempre que podia, brincava com outras crianças da minha idade. Poucas, porque a minha aldeia era um acanhado lugarejo e algumas dessas crianças eram obrigadas, depois da escola, a acompanharem os pais nos trabalhos agrícolas. Eu era imaginoso, o jogo do faz de conta dominava os meus dias. Talvez fosse um pouco teimoso e preguiçoso. Nesse sentido, fui um privilegiado. Não necessitei de trabalhar na terra como alguns dos meus amigos e queria ser padre quando fosse grande. MRC – O que manténs em ti da criança que foste? PL – A sensação de que ainda continuo a sê-lo. Pura ilusão, logo desfeita assim que me olho num qualquer espelho. Talvez a grande capacidade de continuar a imaginar, a sonhar e uma inveterada teimosia. Talvez estes olhos, que persistem em querer ver o mundo por uma ótica mesclada de ingenuidade e de fantasia, já que parece difícil entendê-lo de outro modo. MRC – Juventude. Estudos. Amores. Ideais. Conta-nos. PL – Acabei por entrar no seminário aos doze anos de idade, mas abandonei-o após ter reprovado no terceiro ano. Voltei à minha terra. Durante algum tempo estagiei na Conservatória do Registo Civil de Ferreira do Zêzere. Durante este período tomei contacto com os quase indecifráveis livros de assentos de batismo, relíquias manuscritas, anteriores a 1911, que haviam sido retirados às paróquias, após o surgimento das Conservatórias do Registo Civil, criadas pelo Código 1911, e que permitiam que fossem emitidas as certidões de nascimento relativas aos cidadãos portugueses nascidos antes da implantação da República. Por esses dias, ingressei no Colégio Nossa Senhora do Pranto, onde estudei até ao 5º Ano dos Liceus e conheci a Lucília – companheira de uma vida, com quem viria a casar alguns anos mais tarde. Hoje surpreendemo-nos a ver crescer as netas Carolina e Benedita. Nesse tempo, os meus dias eram repartidos entre várias atividades: a música – integrava o naipe de clarinetistas de uma banda filarmónica e, como se isso não bastasse, cantava num conjunto musical –, o desporto – perdia-me a organizar equipas de futebol e a promover desafios – jogava a guarda-redes. Entretanto, entrei para o Colégio Nuno Álvares em Tomar, a fim de frequentar o curso complementar dos liceus (antigos 6º e 7º anos). Foi por esses dias que fomos recompensados com o 25 de abril e pouco depois fui às sortes. MRC – Que te diz a palavra Teatro? PL – Provoca-me uma infinidade de sensações. Transporta-me de imediato a um palco, onde vejo desfilar inúmeras personagens que me influenciaram. Criatividade gerada nas dinâmicas de grupo, na experimentação, no trabalho e na inspiração. MRC – 60? PL – Seis décadas, cinco das quais repletas de lutas, algumas conquistas e muito teatro. MRC – Espetador? PL – Alguém que pretendemos convencer e tocar pela eficácia do nosso trabalho e pela força empática. Um elo importante neste sistema de vasos comunicantes que é o espetáculo de teatro. O elemento imprescindível à receção da mensagem e à razão de ser do teatro. # 9 - março' 15 4 MRC – Se te fosse dado partir agora… PL – Recusar-me-ia a partir. Agora, neste preciso momento, não. Quero ficar onde estou. Vigilante e atento. Este é um período novo, impregnado de fortes energias, de projetos e de desafios, que não me permitem perder tempo. O meu lugar agora é aqui. Já houve momentos, em que era enorme a minha vontade de partir, de virar costas a tudo, de desaparecer até. De fugir. Acompanhado ou não, isso pouco importa. Mas agora, não. Durante estes dias, nem pensar! O futuro vai depender deles, do que for decidido agora. Os sinais são bons, infundem esperança. MRC – O que te levaria a parar o mundo? PL – A possibilidade de corrigir tudo o que fiz de errado. MRC – És supersticioso? Quais os teus medos? PL – Não me considero supersticioso, mas respeito os que o são. Medos? Tenho vários. Por exemplo: andar de avião, ou imaginar um fim de vida longo e sofrido, dando trabalho e preocupações aos que me são próximos. MRC – O que é que, olhando ao teu redor, mais te dói? PL – O desprezo pela vida e pelos valores humanos. MRC – Foi o Teatro que te encontrou ou foste tu que o encontraste? PL – Foi o teatro que me encontrou, corria o ano de 1966. Tinha eu 12 anos de idade. Até então, nunca me havia cruzado ou tido o privilégio de ser tocado pela magia desta arte, e eis senão quando, de forma inesperada, caiu-me nas mãos um papel. Foi-me atribuída e imposta a personagem do 1º Pajem, da peça “Mocidade Heroica”, que estava a ser ensaiada no colégio interno onde eu era aluno. Apesar de ter esperneado e argumentado do modo que me parecia mais razoável, a verdade é que o projeto foi para a frente e eu junto com ele. Para minha surpresa, a sua apresentação ao público constituiu para mim uma experiência inolvidável, emocionante. Desde então, nunca mais me afastei do teatro e este, pouco a pouco, foi-se assenhoreando primeiro das minhas horas, depois, dos meus sentidos, da minha respiração, da minha vida. MRC – É urgente aprender a esquecer tudo o que… PL – … não nos ajuda e nos magoa. MRC – Viver do Teatro é uma desgraça? # 9 - março' 15 5 PL – Viver do teatro é uma bênção. Desgraça é viver num tempo em que o teatro não é olhado como mereceria, nem defendido e apoiado pela sociedade e pelos seus representantes de forma justa, como um dos rituais mais significativos, sublimes e primordiais do homem. MRC – A Amadora diz-te… PL – A Amadora diz-me uma infinidade de coisas e recorda-me muitas outras. Interpela-me, sobretudo, a realizar os projetos que dão sentido e enchem a minha alma. A cidade de Abril, que me acolheu quando eu tinha 20 anos e onde me fixei até hoje, foi-se tornando, pouco a pouco, a minha cidade, a terra onde nasceram e cresceram os meus dois filhos. Nela está instalada a Escola Superior de Teatro, apesar disso, a urbe necessita ainda de se encontrar com o teatro, de reconhecer a sua grandeza e acuidade, de viver o teatro por dentro e por fora. De sentir esta arte como um dos seus patrimónios. As suas principais salas de espetáculos acolheram e homenagearam, nas décadas de 80/90, as obras dos dramaturgos nacionais, durante 7 edições do Ciclo de Teatro de Autores Portugueses – CITAP, apresentadas por Companhias e Grupos de teatro de todo o país. Mas isso foi já há muito tempo. Entendo, agora, que este deve ser um trabalho contínuo de sensibilização e de educação. É necessário congregar esforços. Não podem existir descuidos, senão corremse sérios riscos de tudo se perder: o resultado da ação, o esforço despendido e a memória coletiva. MRC – Como vai o Teatro Passagem de Nível? PL – O TPN está a viver um tempo de exceção e de mudança com a envolvência e o comprometimento de um amplo e heterogéneo grupo de associados e de atores. Em 2014, estrearam-se dois espetáculos: - os “Rituais da Terra”, um projeto de teatro inclusivo com atores surdos e ouvintes e “Fernando Pessoa Contado às Crianças Adultas”, uma parceria com o Externato D. João VI – Amadora, no qual participaram atores do TPN, bem como professores e pais dos alunos do referido colégio. Já no começo de 2015 subiu à cena um novo trabalho: “A Moura”, de Luís Palma Gomes, um autor da casa, com um elenco de 28 atores. Foi ainda apresentado um exercício final de uma oficina de teatro, em que os formandos eram crianças e adolescentes. Há mais de um ano que o TPN vem promovendo, uma vez por mês, em parceria com a Associação Amadora Passado, Presente e Futuro, os “Encontros Imaginários”, na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, com textos de Hélder Costa. A força dos quase 34 anos de existência é um património que justifica e alavanca novas sinergias e ambições. MRC – Se tivesses de te pintar de alto-abaixo, que cores utilizarias? PL – Utilizaria duas, a terra sena e o preto. Estas são as cores da imagem visual do Teatro Passagem de Nível, do seu símbolo, e de acordo com a sua criadora, Marina Palácio, exprimem: terra sena – a homenagem à luz; àquilo que torna possível ver; ao espaço cénico… Preto - a homenagem àquilo que não se vê: ilusão, mistério, bastidores… MRC – Há quem afirme que o Teatro está cheio de orgulhosos e de arrogantes, de mercenários e traidores e que tal facto ilustra bem o estado miserável em que o mundo está. Que dizes tu? # 9 - março' 15 6 PL – Então e os grandes homens que proliferam no teatro? Os heróis, os humildes, os abnegados… No teatro espelha-se a sociedade inteira – o mundo, com o que tem de melhor e de pior. As suas virtudes e as suas perversidades. Atos de generosidade e de ganância, de altruísmo e de fraqueza. Todas as verdades profundas e obscuras. Se não fosse assim, não estaríamos certamente a falar de teatro. MRC – Que figuras do Teatro mais admiras, e porventura te influenciaram? PL – Não sei se pela sua veterania, ou se pela transcendência de seus ofícios, já que sempre que os vejo em cena me conseguem fascinar, elejo as figuras de Eunice Muñoz e de Ruy de Carvalho. Por outro lado, não posso deixar de referenciar Adolfo Gutkin, um argentino radicado em Portugal, e Luís de Lima, um ator e encenador português há muitos anos a viver no Brasil, os mestres que me fizeram olhar para o teatro de uma forma mais coerente e autêntica e que, por isso mesmo, muito me influenciaram. MRC – O que é que verdadeiramente te faz feliz? PL – Ver os outros felizes. Sentir que a verdadeira riqueza está dentro de nós, tal como a competência (empowerment) para vencer todos os obstáculos, os interiores e os outros. MRC – Como achas que anda atualmente a nossa Cultura? Esvaziada? Intoxicada? Torturada? Ou preparada para… Emigrar? PL – Creio que todas estas classificações servem para caracterizar na perfeição o estado atual da nossa cultura. Porém, nestes tempos de grande efervescência e perturbação social atrevo-me a dar preponderância à palavra “intoxicada”. Hoje, vivemos sob o domínio das redes sociais e dos media. Somos bombardeados diariamente por uma infinidade de mensagens subliminares, engendradas por métodos científicos, ou quase, que nos toldam o discernimento, mascaram o falso e o genuíno e envenenam as corretas escolhas. Acredito, no entanto, que apesar de todas as vicissitudes e contrariedades do tempo atual, o fenómeno cultural será como o azeite. Mais tarde, ou mais cedo, emergirá, virá à tona da água. Assumirá o seu justo lugar e reconhecimento. MRC – Qual foi a peça que mais pica te deu a encenar? PL – É difícil dizê-lo. Fico bastante indeciso ao tentar reunir razões ou motivos que me permitissem, sem embaraço, eleger uma delas. O problema é que, quando decidimos encenar este ou aquele texto, todas as nossas energias e conexões neurais se centram de forma intensa e absoluta nesse novo trabalho, na sua verdade, nos seus conflitos e nas suas envolvências. Como se não existissem outros textos, outros mundos. Ficamos entregues e obcecados a conceber as estratégias convincentes e adequadas na direção do ator, bem como a dar consistência, autenticidade, fôlego e ritmo a cada cena. E esta entrega repetese com a mesma intensidade em cada encenação. Atrevo-me, no entanto, a destacar, # 9 - março' 15 7 apenas pela sua complexidade, “O Grande Circo Ibérico”, de Jaime Gralheiro. Quando telefonei ao autor pedindo-lhe autorização para encenar a sua peça, recordo-me da resposta: - “Para pegar nesse texto é necessário ter to…!” E continuou… “Tenho experimentado todas as minhas peças encenando-as no Cénico de São Pedro do Sul. Todas, exceto essa, já que necessita de um grande elenco. Se precisarem de mim, estou ao dispor. Força e boa sorte”. Foram necessários quase 2 anos para colocá-la de pé. O TPN estreou-a nos Recreios da Amadora, com a honrosa presença de Jaime Gralheiro. Para suportar este trabalho foi forçoso ao TPN criar uma panóplia de adereços, guarda-roupa, cenários. O elenco era constituído por cerca de 40 atores e pelo palco desfilavam mais de 100 personagens. Espetáculos como este não se repetem com frequência. MRC – Federação Portuguesa de Teatro, o que te diz? PL – Durante o interregno após a extinção da APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores pugnei sempre pelo surgimento de uma estrutura congénere que tivesse o mérito de congregar o movimento associativo na área do teatro. Só após cerca de 15 anos de deserto surge, primeiro a ANTA, depois a Federação Portuguesa de Teatro, para derrotarem essa espécie de orfandade. O Teatro Passagem de Nível teve o privilégio de acompanhar, desde a primeira hora, o ressurgimento destas estruturas. Hoje a FPTA lidera esta riqueza de companheirismo e de cumplicidades. E assim os grupos de amadores, ou de teatro associativo, passaram a conhecer melhor o que representam, quantos são e o que fazem. Estou convencido que ao serem confrontados e ao percecionarem, entre si, novos modelos, ou processos diferentes de fazer e de se organizar, todos evoluem consequentemente. MRC – Que dirias tu (em jeito de conselho) aos jovens que pretendem seguir artes e, mais propriamente, Teatro? PL – Se estão decididos a sofrer por amor a uma causa, então sigam em frente, e coloquem sempre o trabalho como razão maior do vosso sucesso. Não devem acreditar, em excesso, na inspiração. Essa nem sempre se revela. Com esforço e dedicação tudo será possível. MRC – Para além do Teatro, que valores te prendem à vida? PL – A família, a camaradagem e a ambição de tentar melhorar o mundo que me rodeia... MRC – Num saco de areia, achas que te reconhecerias? PL – Sim. Reconhecer-me-ia, certamente, forçando a metáfora em que essa areia assumiria desígnios de proteção. A predisposição que caracteriza também a personalidade do ser humano numa vertente antropomórfica. Senão vejamos: o saco de areia que estanca as águas das cheias para segurança das populações, ou aquele que nas trincheiras protege o combatente das balas inimigas, ou ainda aquele que serve de suporte dando estabilidade ao cenário, a fim de que este não tombe sobre o ator. Segurança, proteção e estabilidade. Três caraterísticas de personalidade, além de muitas outras, indispensáveis ao líder perante o seu grupo. MRC – Gostavas de saber o futuro? PL – Não. Acho que não. Estamos formatados para funcionar nestes moldes. Conhecer o # 9 - março' 15 8 futuro obrigar-nos-ia a reinventar uma nova “praxis”. Seria uma mudança demasiado radical e com resultados imprevisíveis. Teríamos de inventar um homem novo para lidar com a implacabilidade dos fatos. E o sonho? Que lugar lhe estaria reservado? MRC – O que diz o ator ao encenador que em ti coabitam? PL – Ajuda-me a tornar visível, a invisível alma humana, como diria Peter Brook. Faz-me descobrir no fundo de mim mesmo todas as verdades que me permitam atingir a exata dimensão da personagem que o texto dramático não revela em absoluto, e na maior parte das vezes, apenas muito tenuemente. MRC – Viagens. Já foste porventura à Polinésia? Conta-nos tudo sobre o que tens visto por esse mundo. PL – Não. Nunca fui à Polinésia, nem a lugar algum. Sou uma pessoa pouco viajada. Fora de Portugal, estive em Compostela, Salamanca e em Madrid, onde passei três dias a visitar museus. O da Rainha Sofia, onde contemplei em silêncio prolongado “Guernica”, o Thyssen e, claro, como não podia deixar de ser, o do Prado. Há quatro anos declinei um convite, com estadia e passagens pagas, para viajar até Brasília. As viagens não são o meu deslumbramento. O mundo que me interessa está em plenitude em redor de mim. MRC – Quais as vantagens de se ser «doido»? PL – Ter desculpas para tudo. Ninguém o levar a sério. Ter um mundo só dele. MRC – Que compras gostarias de fazer agora mesmo para teu conforto? PL – Um auditório com 200 lugares, bem equipado, confortável, com salas de ensaio, de cenografia e de arrumos e com amplo e fácil acesso tanto para pessoas como para materiais. Ah! E já agora, que tivesse ali mesmo à beirinha um razoável parque de estacionamento. O Teatro é sem dúvida um lugar mágico onde vivem pessoas de corpo inteiro, capazes de enfrentar os mais variados conflitos que ocorrem num mundo em constante mudança. Porfírio Lopes é uma dessas pessoas e não mudará. Bem-haja. Entrevista de Manuel Ramos Costa # 9 - março' 15 9 estreia XIV FÓRUM PERMANENTE DE TEATRO A Cidade de Amadora recebeu nos dias 30 e 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro a XIV edição do Fórum Permanente de Teatro da FPTA, realizado em parceria com o Teatro Passagem de Nível e a caixanegra . colectivo de criação, com o apoio do Município da Amadora. Confirmaram a presença cerca de 240 participantes provenientes das associadas ACIJE – Associação do Coro Infanto-Juvenil de Esporões, Associação do Pessoal da Câmara Municipal de Póvoa de Lanhoso, ATA – Acção Teatral Artimanha, Ateneu Artístico Vilafranquense, Contacto – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, GAFT – Alma de Ferro, Getas Centro Cultural de Sardoal, Grupo Cultural e Recreativo Nun’ Álvares – Teatro Vitrine, Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico, Grupo de Teatro Palha de Abrantes, Grupo de Teatro “A Fantasia”, Grupo de Teatro Renascer, GrutaForte Teatro, Pateo das Galinhas – Grupo Experimental de Teatro, Teatro de Carnide, Teatro do Zero – A.A.V., Teatro Nova Morada, Teatro Sem Dono, TEM - Teatro Experimental de Mortágua, TIL – Teatro Independente de Loures, Tinbra – Grupo de Teatro Infantil de Braga. Para além destas associadas, também participaram particulares e outros não associados, como o Centro Internacional do Carrilhão e do Órgão de Constância e o Externato D. João VI, da Amadora. Na sexta-feira, dia 30, os Recreios da Amadora tiveram lotação esgotada para assistir ao mais recente projeto teatral do Teatro Passagem de Nível – “A Moura” de Luís Palma Gomes, com encenação de Porfírio Lopes. Em 1362 uma princesa moura de seu nome Fátima, (nome da filha do profeta Maomé) permanece refém num convento entre Alcobaça e a Vila de Ourém, enquanto espera que o seu destino incerto se decida. El-Rei D. Pedro I, "O Justiceiro" ou "O Cruel", anda em folguedos e montarias na região. Na Vila de Ourém, uma intriga política cresce entre um clima de feitiçaria e um calor feroz que teima em não abandonar aquelas # 9 - março' 15 10 paragens. A cobiça, a ambição, o amor jovem e tardio são as forças em confronto naquela vila. Um grupo de mulheres e crianças, que vem em cruzada para resgatar os seus homens feitos prisioneiros na batalha do Salado, chega à vila. O seu destino é Córdoba, cidade do Al-Andaluz, território cada vez mais exíguo, numa península cada vez mais cristã. No convento onde agora vive a princesa moura, foi batizada com o nome de Oriana. E então um milagre acontece…. No sábado e após as cerimónias solenes habituais iniciaram-se os painéis de formação: Painel de Formação / Formador Jogo Dramático - Mauro Corage Respiração, Voz e Dicção - Sónia Sousa Sensações e Emoções - Ivo Luz Máscara Neutra - Miguel Lemos Construção do Espetáculo - Jorge Fraga Improvisação - Nuno Loureiro Encenação - Porfírio Lopes Fotografia de Cena - Paulo Sousa Iluminação de Cena - Mário Pereira e Rui Ferreira Cenografia e Adereços - João Barros Caracterização - Aurora Gaia Dirigentes - Direção da FPTA Esta XIV edição do fórum contou também com a presença de Eduarda Reis - uma convidada muito especial que veio diretamente dos Açores para dar testemunho das atividades teatrais daquela ilha, partilhar a sua larga experiência no mundo do teatro e presenciar esta grande festa de partilha entre grupos. Fomos presenteados no encerramento desta edição com uma atuação extraordinária de teatro do improviso com a sua personagem deveras conhecida nos Açores – a Tia Gerónima e a sua conterrânea e formadora do Fórum, Sónia Sousa. Momentos hilariantes de saudáveis gargalhadas foram o resultado da interpelação entre esta personagem insular, o Diretor do Fórum e os formadores. Todas as edições do Fórum Permanente de Teatro homenageiam a dramaturgia portuguesa. O XIV Fórum não foi exceção e homenageou o dramaturgo Fernando Augusto, relembrado na emoção das palavras de Porfírio Lopes que com ele trabalhou e privou. Fernando Augusto, encenador e dramaturgo, viveu de perto a realidade do teatro de amadores. Tinha uma costela popular e revisteira, mas não era só isso. Era muito mais. Era um “amante do teatro”, um atento interveniente no Teatro de Amadores. Foi professor e coordenador do Sector de Teatro do Inatel, e neste cargo privilegiado contactou com dezenas de grupos de todo o país. Com muito trabalho e dedicação devemos a Fernando Augusto o contributo para a crescente importância e apoio mais que merecidos que o Inatel presta ao teatro. Das suas obras premiadas, destacamos Nunca te disse que conheço as almas boas pelo calor das mãos? (Menção Honrosa CITAP 1987 e editado pela Câmara Municipal da Amadora em 1988), Príncipe Bão (2º Prémio CITAP 1991. Prémio Baltazar Dias 1995 – Câmara # 9 - março' 15 11 Municipal do Funchal. Editado pela SPA/D. Quixote em 1997), Pastéis de Nata para a Avó (2º prémio CITAP 19993. 1º Prémio do Concurso Dramatúrgico Nacional “A Barraca” 1994), Andou Um Anjo P´lo Cais (Prémio Miguel Torga 1996 – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e A Última Batalha (Grande Prémio de Teatro Português SPA/Novo Grupo 1999. Editada pela SPA/D. Quixote em 2000) Colaborou com diversos grupos, dos quais destacamos o Grupo Dramático Povoense, Proscenium, Teatro Passagem de Nível, Teatro Experimental do Funchal e Teatro Camarim. Deixou-nos prematuramente em 2003. Foi homenageado pelo TEF Companhia de Teatro, com a abertura da Teatroteca com o seu nome a 30 de Novembro de 2005. Esta biblioteca de teatro contém cerca de 1.500 volumes da biblioteca pessoal do autor, doada a Élvio Camacho e aí depositada por empréstimo. Para esta XIV edição do Fórum Permanente de Teatro, foi escolhido o texto de sua autoria – Nunca te disse que conheço as almas boas pelo calor das mãos?- trabalhado de forma brilhante no painel de Construção do Espetáculo pelo formador Jorge Fraga e no painel de Improvisação pelo formador Nuno Loureiro. Duas perspectivas diferentes acerca do mesmo texto, uma mais arrojada do que outra, mas ambas transmitiram fielmente a dureza e o realismo das palavras de Fernando Augusto. O sábado já ia longo e a noite prometia, como sempre em cada edição do Fórum. Subiu ao palco dos Recreios da Amadora a anfitriã caixanegra . colectivo de criação com o espetáculo Cisnegrama, ou exercício num palco imaginado a partir de Anton Tchekòv e P. I. Tchaikòvsky. Aqui encontramos um ator em final de espetáculo, um palco quase vazio e a confissão de quem viveu e inventou lembranças próprias. Tendo como base o enredo de O Canto do Cisne, cruzam-se em cena personagens de diversas obras de Anton Tchekòv, desde A Gaivota, O Cerejal, As Três Irmãs, O Tio Vânia, para além de cartas que o próprio dramaturgo escreveu. Na tentativa de criar um ambiente (quase) onírico, a opção por ligar esta estória à música de O Lago dos Cisnes, da autoria de Piotr Ilitch Tchaikòvsky. Continuando a assumir a proximidade com o espetador, para além de privilegiar o trabalho de ator, toda a encenação e concepção cénica procura a simplicidade – isto para além da assunção dos camarins, os atores em preparação mesmo sob o foco do olhar do público: “A promessa do Teatro como se fosse vida.” A alegria e emoção continuaram pela noite fora no espaço de eventos da Residencial Jardins da Amadora com muita música, animação, Ilusionismo e Magia, pelas mãos do brilhante Zé Mágico. O Domingo chegou e com ele o final, de mais uma edição do fórum. Mas ainda houve tempo para # 9 - março' 15 12 a confraternização e partilha no Almoço Social oferecido pelo Município da Amadora. Com forças retemperadas e lágrimas nos olhos lá fomos à despedida na sala dos Recreios da Amadora. Estava na hora de assistir aos exercícios dos painéis de apresentação - Jorge Fraga e Nuno Loureiro. Os formadores estão de parabéns. Os formandos também e a FPTA idem. Um agradecimento especial às nossas associadas Teatro Passagem de Nível e KAIXACRIATIVA – Associação Cultural/caixanegra . colectivo de criação. E o XV Fórum Permanente de Teatro é na… FIGUEIRA DA FOZ nos dias 25, 26 e 27 de Setembro e seremos recebidos pelo Páteo das Galinhas Teatro de Bico - Grupo Experimental de Teatro, com o apoio do Município da Figueira da Foz. Este vai ser um Fórum de Acampamento com muita diversão para miúdos e graúdos, aproveitando o melhor que a Figueira da Foz tem para oferecer. Esperamos lá por vocês. Até já! José Teles e Tânia Maria Falcão Coordenação do Fórum Permanente de Teatro # 9 - março' 15 13 programa de sala FIGUEIRA DA FOZ: PRAIA DA CLARIDADE A Figueira da Foz é uma cidade do distrito de Coimbra, sede do concelho, localizada no centro de Portugal, inserida na região do Baixo Mondego e situada na foz do rio Mondego com o oceano Atlântico. É, portanto, uma cidade costeira de rica história, cultura e tradição. Considerada a "rainha da Costa de Prata" pelas suas extensas praias, tem no turismo um dos principais recursos económicos, sendo um dos principais centros turísticos do país, rodeada pelo rio e serras densamente arborizadas que lhe conferem características únicas. Com ocupação humana desde tempos antigos, a Figueira da Foz teve um grande desenvolvimento no século XVIII e XIX devido ao movimento do porto e ao desenvolvimento da indústria de construção naval, com abertura de novas vias de comunicação e afluência de veraneantes. Em finais do século XIX e início do século XX construíram-se novas infraestruturas de desenvolvimento que ainda se mantém, como os hotéis, casino, restaurantes e a zona onde se concentra a atividade comercial. Foi nesta localidade, no início do século XIX, que desembarcaram as tropas inglesas que vieram auxiliar Portugal na luta contra as Invasões Francesas. Recentemente, o Cabo Mondego, um promontório na Serra da Boa Viagem nos arredores da Figueira da Foz, foi declarado Monumento Natural Nacional. Com o mais antigo casino de toda a Península Ibérica e único na região centro, o Casino Figueira, um enorme areal (a praia mais larga da Europa) com equipamentos lúdicos e desportivos e uma animada vida noturna. A cerca de dez quilómetros da cidade, já no limite do concelho e próximo de Montemor-o-Velho, localizam-se os Montes de Santa Olaia e Ferrestelo com uma estação de escavação onde se encontraram monumentos e objetos da Idade do Ferro. # 9 - março' 15 14 No monte encontra-se ainda a capela de Santa Eulália com vista deslumbrante sobre os arrozais do Mondego. O território concelhio é atravessado pelo Rio Mondego e da sua rede hidrográfica fazem parte várias ribeiras e cinco lagoas (Salgueiros, Vela, Braças, Corvos e Leirosa). Com um património históricocultural muito forte e rico, destacamse as suas inúmeras igrejas com as suas talhas douradas, onde o Barroco tantas vezes impera, o Museu Municipal Dr. Santos Rocha com vasto espólio que conta com coleções de arqueologia, etnografia, pintura, escultura, cerâmica e mobiliário, o Forte de Santa Catarina e a Fortaleza de Buarcos, a Torre do Relógio, diversos vestígios arqueológicos, e os muitos Palácios (como o Sottomayor), parques e jardins, palacetes e casas senhoriais que atestam a importância turística e económica desta cidade ao longo dos anos, a marina ou o recentemente construído Centro de Artes e Espetáculos. Um dos encantos da Figueira da Foz é a “Praia da Claridade”, um vasto areal que, já desde os finais do séc. XIX, era o preferido da classe aristocrática. Os seus emblemáticos bares em madeira listrada e a areia branca e macia continuam a atrair turistas de todo o mundo. A gastronomia é um dos ex-líbris da Figueira da Foz, enquanto reflexo de uma memória coletiva, de costumes e tradições. A sua riqueza gastronómica com base no peixe e as típicas sobremesas, como as brisas da Figueira da Foz ou as gulosas papas de moado, fazem as delícias dos nossos visitantes. Os múltiplos espaços verdes existentes convidam a agradáveis passeios a pé, de bicicleta ou de carro. Destaca-se a serra da Boa Viagem, o Parque das Abadias, a zona ribeirinha e as diversas lagoas. Os percursos pedestres complementam a oferta turística da Figueira da Foz, proporcionando agradáveis experiências de ecoturismo: Rota das Salinas e Rota dos Arrozais. # 9 - março' 15 15 O Pateo das Galinhas – Grupo Experimental de Teatro foi fundado a 19 de setembro de 2008, na Figueira da Foz. Na sua génese encontram-se alguns amigos e conhecidos, com ligações díspares ao teatro amador da região e ao teatro escolar. Os seus fundadores tinham como objetivo central criar uma estrutura autónoma que, sem menosprezar a secular e rica tradição de teatro amador da Figueira da Foz associada a coletividades das freguesias periféricas da cidade, estivesse mais direcionada para o público urbano. A 15 de junho de 2010, com um grupo mais alargado de colaboradores, o Pateo das Galinhas constituiu-se formalmente como associação cultural sem fins lucrativos e passou, desde logo, a associado da Federação Portuguesa de Teatro. Embora composto por um grupo permanente de colaboradores, o Pateo das Galinhas não tem, por opção, elenco fixo, o que lhe tem permitido liberdade criativa e criadora para a produção de espetáculos distintos no conteúdo e na forma. Do mesmo modo, tem procurado trabalhar com diferentes criadores, tanto na área da encenação, como nas diversas áreas ligadas à produção teatral. Assenta a sua ação em dois eixos principais: a formação e a criação. Procura um teatro experimental e crítico, que seja capaz de envolver a comunidade local, regional e nacional. Apresentou, desde a sua formação, as seguintes produções teatrais: em 2009 estreou-se com 667, O Vizinho da Besta, com encenação de Laura Oliveira; em 2010 apresentou As Vedetas, com encenação de Laura Oliveira; em 2011 subiu à cena Creeps, com encenação de Victor Marques; em 2012 foi a vez de Sangue Jovem, com encenação de Laura Oliveira; em 2013 apresentou Milhões de Contos, com encenação de Júlio Gomes. Também em 2013 iniciou um projeto de formação teatral destinado a jovens dos 12 aos 18 anos, o Pateo Jovem, da responsabilidade do encenador Júlio Gomes. O Hotel, com texto de Gonçalo M. # 9 - março' 15 16 Tavares, foi o primeiro resultado desse projeto, apurado para o Festival PANOS - Palcos Novos Palavras Novas, uma iniciativa da Culturgest. Foi selecionado, em 2013, 2014 e 2015, para a fase final do CONTE, Concurso Nacional de Teatro, uma organização da Federação Portuguesa de Teatro, INATEL e Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso. Em 2014, no CONTE, com Milhões de Contos, obteve três nomeações (melhor espetáculo, melhor encenação e melhor guardaroupa), tendo sido galardoado com o prémio de melhor guarda-roupa e, no mesmo ano, com a mesma peça, recebeu o Prémio Europa, atribuído pela Confederación Escenamateur. Presentemente, prepara a estreia de duas peças de teatro. Nos últimos três anos, com um número de colaboradores cada vez mais extenso, o Pateo das Galinhas tem procurado colaborações, parcerias e coproduções com outras associações da região. Colabora frequentemente com a Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz e com outros grupos de teatro amador em eventos de índole cultural e lúdica. Integra a Plataforma de Teatro do Baixo Mondego, uma estrutura constituída por vários grupos de teatro amador do distrito de Coimbra e pelo Teatrão, grupo profissional de teatro de Coimbra, com o qual colabora desde 2012. Participa, desde 2009, nas Jornadas de Teatro Amador do concelho da Figueira da Foz, organizadas pelo Lions Clube da Figueira da Foz. Tem dinamizado diversas intervenções no âmbito da poesia, leitura encenada e teatro de rua. Já organizou formações e workshops na área da formação de atores, voz, som e movimento, produção de figurinos e construção de objetos de cena. Recentemente, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, através da Divisão de Cultura, disponibilizou um espaço n´O Sítio das Artes, onde o grupo tem agora residência. # 9 - março' 15 17 na ribalta XI CONCURSO NACIONAL DE TEATRO Póvoa de Lanhoso Consagra Comédia... O Concurso Nacional de Teatro 2015 foi marcado por uma profunda reestruturação, desde logo, pela adoção de uma imagem renovada, mais arrojada e em sintonia com o principal objetivo do Evento - a continua dinamização e adaptação aos movimentos culturais e artísticos nacionais. Desta feita, foram introduzidas novas categorias a premiar: ambiente sonoro, interpretação secundária feminina e masculina, e o prémio Maria da Fonte, este último atribuído pelo público. O troféu do Concurso foi também ele atualizado, criando-se três imagens distintas, entre o prémio do público, troféus gerais e o tão ansiado prémio Ruy de Carvalho, prémio maior do Concurso, este último todo ele em filigrana, a arte maior da Póvoa de Lanhoso. Os troféus foram criados pelo artesão local César Silva, tendo sido a última obra feita pela mão do artista, devido à sua inesperada morte em dezembro último. Conferindo aos galardões uma simbologia muito especial. De realçar a enorme afluência de público sentida ao longo de todo o Concurso, marca # 9 - março' 15 18 incontornável da qualidade dos espetáculos apresentados e da notoriedade já alcançada em termos locais e nacionais. A abertura do concurso foi da responsabilidade da Associação de Funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, com a comédia “1514”, o Grupo Dramático e Recreativo da Retorta apresentou a comédia “Óculos de Sol”, de Montemor-o-Novo, o Theatron – Associação Cultural levou a palco “O coração de um pugilista”, não faltou o Grupo Mérito Dramático Avintense que apresentou o drama “Mortos de Fome”, seguindo-se o Teatro Vitrine que de Fafe levou o drama “A Roda dos Expostos”, a tragicomédia “Maria – A Rainha” foi o espetáculo apresentado pelo Grupo de Teatro Amador de Cristelo, a comédia “Histórias para serem contadas” foi da responsabilidade do Teatro Independente de Loures, pela mão do Páteo das Galinhas – Teatro de Bico da Figueira da Foz chegou “O Hotel”, e o encerramento foi da responsabilidade do Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico que levou o musical infantil “Rom Rom e Fofoca”. A cerimónia de encerramento realizou-se no final da tarde de sábado do dia 14 de Março, no Theatro Club, palco da competição, que, durante cerca de um mês, reuniu nove companhias de todo o país. Ao contrário de edições anteriores, a Gala foi estruturada em torno de uma temática: nesta edição o “Burlesque” invadiu o Theatro Club. Animação que foi da responsabilidade do Grupo local: Associação de Funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso. Seguiu-se a entrega de prémios do Concurso que nesta Edição foram maioritariamente entregues ao Grupo Dramático e Recreativo da Retorta pelo espetáculo “Óculos de Sol”, arrecadando os seguintes Prémios: “Orlando Worm” para Melhor Desenho de Luz, Melhor ambiente sonoro, Melhor Guarda Roupa, Melhor interpretação Secundária Feminina, e uma Menção Honrosa para a interpretação principal de Núria Melo, Laura Ferreira recebeu o galardão para a melhor encenação, e a Companhia arrecadou também o Prémio Ruy de Carvalho para a melhor produção 2014. O público consagrou o espetáculo “1514” atribuindo-lhe o prémio Maria da Fonte. O espetáculo “Maria – A rainha” foi distinguido com o prémio para melhor cenografia 2015. O Theatron – Associação Cultural, com o espetáculo “O Coração de um Pugilista” arrecadou os troféus de Interpretação Masculina de Paulo Quedas e Bernardino Samina (secundária e principal respetivamente). O espetáculo “Rom Rom e Fofoca” do Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico de # 9 - março' 15 19 Setúbal arrecadou o Prémio para Melhor Interpretação Principal Feminina pelo trabalho de Isabel Ganilho. “Mortos de Fome” foi distinguido com uma menção honrosa pela interpretação de Andreia Rocha. O Prémio Prestigio Personalidade Fundação INATEL foi entregue por Rui Sérgio a Leandro Vale pelo trabalho desenvolvido em prol do Teatro e da Escrita em Portugal. O trio que compôs o Júri da Edição do CONTE 2015, foi constituído por: Rosa Sousa representante da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, Dantas Lima representante da Fundação INATEL e Marcos Barbosa representante da Federação Portuguesa de Teatro. A noite culminou com um jantar entre todos os participantes na Edição 2015. De realçar, ainda, o empenho da organização: Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, Fundação INATEL e Federação Portuguesa de Teatro, para que edição do CONTE 2015 fosse um verdadeiro sucesso, para que o Evento seja cada vez mais uma referência cultural em termos nacionais. Até 2016. Anabela Teixeira Diretora do Concurso Nacional de Teatro “Tive o privilégio de assistir a quase todas as representações e sinto que, de ano para ano, o nível deste concurso tem vindo a aumentar de uma forma consolidada. Se alguém chegasse à Póvoa de Lanhoso e se se sentasse nessa plateia, num qualquer fim-desemana do último mês, com o único objetivo de apreciar um espetáculo teatral, não se aperceberia que à sua frente tinha atores amadores. Todos vocês estiveram a um grande nível. Ao nível dos melhores profissionais. Por isso não posso deixar de registar o meu agradecimento e endereçar-vos os meus sinceros parabéns.” Armando Fernandes: Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso # 9 - março' 15 20 LEANDRO VALE PRÉMIO PRESTIGIO PERSONALIDADE FUNDAÇÃO INATEL 2015 O teatro, enquanto arte do faz de conta, vive das suas personagens, figuras mais ou menos estereotipadas, com as suas qualidades e defeitos, muitas das vezes capazes dos mais heroicos atos, outras tantas de crueldades tamanhas... É desta forma que nós, espetadores de uma trama que corre frente aos nossos olhos, vivemos as suas histórias como se nossas fossem... Homenagear uma vida, para mais uma vida dedicada ao teatro e à cultura, em que as luzes não são o mais importante, mas sim as marcas que se vão deixando pelo caminho que é trilhado, tem tanto de difícil como de premente... Homem simples, sem complexos, nem tiques de vedetismo, apesar da obra feita e da recusa em dar o seu trabalho por terminado, é na alegria do fazer sempre mais que está a sua essência... Ator, encenador, dramaturgo, poeta... Criador de polémicas que nada mais visam do que despertar consciências e provocar atitudes de inconformismo, é apenas à cultura que deve obediência e ao teatro que reconhece como seu amo... Leandro Vale, um homem que as contrariedades não conseguem vencer e para quem os obstáculos só servem de impulso para continuar a caminhar, é um exemplo que não pode deixar de ser imitado... Mais importante do que as palavras, são os atos... E este era um ato há muito que se impunha... Por isso, é com enorme honra que a organização do Concurso Nacional de Teatro decidiu distinguir LEANDRO VALE com o Prémio Prestígio Personalidade Fundação INATEL 2015. Obrigado, Leandro... Luís Mendes Presidente da FPTA # 9 - março' 15 21 bocas de cena Mensagem do DIA MUNDIAL DO TEATRO 2015 Os verdadeiros mestres do teatro encontram-se quase sempre mais facilmente longe do palco. De um modo geral não vêem o teatro como uma máquina de replicar convenções ou reproduzir clichés. Procuram o impulso criador, as correntes de vida que tendem a ignorar as salas de espectáculo e a multidão de pessoas que se inclina a copiar um ou outro mundo. Tendemos a copiar em vez de criar mundos baseados no debate com o(s) público(s), sobre as emoções que crescem sob a superfície. E, na realidade, nenhuma outra arte para além do teatro consegue revelar as paixões ocultas. Na maioria dos casos eu oriento-me na prosa. Dia após dia dou por mim a pensar nos escritores que há cerca de cem anos atrás profetizavam, ainda que com alguma contenção, o declínio dos deuses Europeus, o crepúsculo que mergulhou a nossa civilização numa obscuridade que ainda não foi iluminada. Estou-me a referir a Franz Kafka, Thomas Mann e a Marcel Proust. Nos dias de hoje incluo também John Maxwell Coetzee neste grupo de escritores profetas. A sua percepção do fim inevitável do mundo – não do planeta mas do modelo das relações humanas – e da sublevação da ordem social, é de uma pungência muito actual para nós. Para nós que vivemos depois do fim do mundo. Que vivemos e testemunhamos crimes e conflitos que acontecem diariamente em novos lugares, mais rapidamente do que os próprios media conseguem noticiar. Estes acontecimentos depressa se tornam aborrecidos e desaparecem dos registos noticiosos, para nunca mais voltar. E nós sentimo-nos impotentes, horrorizados e encurralados. Já não somos capazes de construir torres, e os muros que teimosamente continuamos a erguer não nos conseguem proteger – ao contrário, são eles que demandam protecção e cuidado que acaba por consumir grande parte da nossa energia vital. Deixamos de ter a força para tentar vislumbrar o que está para além dos portões, para além dos muros. E é por isso mesmo que o teatro deve existir e é aí que deve ir buscar a sua força. Espreitar e ver para além do que é proibido ou está vedado. “A lenda procura explicar aquilo que não pode ser explicado. Baseia-se na verdade e, por isso, deve terminar no inexplicável” – é assim que Kafka descreve a transformação na lenda de Prometeu. Também eu penso que o teatro pode ser descrito com as mesmas palavras. É esse género de teatro, baseado na verdade mas cujo seu fim é o inexplicável, que eu desejo para todos os seus intérpretes, os que estão no palco e os que estão na plateia, e desejo-o com todo o meu coração. Krzysztof Warlikowski Tradução de Fernando Rodrigues (FPTA) # 9 - março' 15 22 reportório Conversas com os Mestres: A energia teatral “Através da técnica que lhe transmite e tradição, ou através da construção de uma personagem, o actor chega a um comportamento artificial, extraquotidiano. Dilata a sua presença, por conseguinte dilata a percepção do espectador. No fingimento do teatro é um corpo-em-vida. Ou aspira a sê-lo. Para isso trabalhou anos e anos, por vezes desde a infância. Para isso repetiu muitas vezes as mesmas acções, para isso, treinou-se. Para isso utiliza processos mentais, ‘mágicos’, subtextos pessoais. Para isso imagina o seu corpo no centro de uma rede de tensões e resistências físicas irreais mas eficazes. Usa uma técnica extra-quotidiana do corpo e da mente. A nível visível, parece que trabalha sobre o corpo e sobre a voz. Na realidade, trabalho sobre algo de invisível: a energia.” Eugenio Barba L’arte segreta dell’attore, Milano Ubulibri, 2005, p. 57 Ao longo dos últimos textos, abordámos a relação entre arte, teatro e educação, procurando esclarecer a complexidade inerente à noção de educação artística e aplicá-la, nas suas diversas modalidades, à arte do teatro, com uma especial atenção às possibilidades que se oferecem ao teatro não profissional. Hoje iniciamos uma nova forma de aproximação de alguns temas inerentes à estética e à prática teatral. Designamos esta nova forma e esta nova série de textos com a expressão “conversas com os mestres”. Assim, o que, de facto, vamos procurar fazer é conversar com alguns dos nossos mestres, partir de palavras suas, textos ou excertos breves em que incisivamente exprimiram certas ideias que a experiência de anos lhes foi ensinando. E fazemo-lo porque entendemos que o diálogo com eles é sempre estimulante e susceptível de abrir caminhos fecundos não apenas nas nossas ideias, mas também nas nossas práticas e nos nossos procedimentos e comportamentos em palco. Poderíamos começar por muitos, tantos são aqueles com quem temos aprendido ao longo da nossa experiência do teatro. Escolhemos, para hoje, Eugenio Barba, encenador que # 9 - março' 15 23 muito jovem partiu de Itália para os países nórdicos, conheceu e trabalhou com Grotowski na Polónia e fundou depois na Noruega o Odin Teatret que logo se deslocou para uma pequena povoação da Dinamarca tornando-se o centro de dinamização do chamado Terceiro Teatro, que se distingue do teatro mais institucionalizado nos seus procedimentos e do teatro experimental vanguardista e que se caracteriza pela assunção de uma dimensão ético-teatral e comunitária. Foi também um dos que mais contribuiu para a consolidação de uma nova disciplina nas artes do palco, a Antropologia Teatral, que define como “o estudo do comportamento fisiológico e sociocultural do homem em situação de representação”. No parágrafo que seleccionámos para este primeiro diálogo, retoma um dos conceitos que desempenha, na sua estética, um papel central, o conceito de dilatação, de corpo dilatado ou de mente dilatada, que corresponde ao que é mais característico do homem em situação de representação, significando um processo em que “o fluxo das energias que caracteriza o nosso comportamento quotidiano foi dilatado” e em que “as tensões que regem quotidianamente o nosso modo normal de estar presentes fisicamente emergem no actor, tornam-se visíveis, imprevistas”. Foi por isso que, durante muito tempo, se considerou o conceito de “corpo dialtado” como um dos conceitos ou um dos contributos mais originais de Eugenio Barba para a estética teatral. Todavia, se percebermos os vectores que dão sentido ao texto transcrito, damo-nos conta de que, por detrás do conceito de dilatação, está um outro que merece hoje a nossa atenção, o conceito de energia. Efectivamente, o que o autor e encenador nos diz, com toda a clareza, é que aquilo sobre que o actor, na realidade, trabalha, é a energia. Por esse motivo, a energia constitui o principal elemento em jogo na prática teatral. Para nos apercebermos da mudança que implica esta inflexão na definição do trabalho do actor e daquilo que se faz em teatro é importante notarmos que, no Ocidente, praticamente até ao final do século XIX, e salvo algumas excepções que não fazem senão confirmar a regra, o elemento fundamental do teatro foi o texto, de tal maneira que os conceitos de “drama”, de “dramático” ou de “dramaturgia” se cristalizaram numa referência ao texto teatral (quando, na realidade, a palavra drama, em grego, não significa isso, mas pura e simplesmente acção), a ponto de a dramaturgia de um espectáculo ter sido entendida sobretudo como um trabalho sobre o texto que servia de base ao espectáculo. Depois, com o desenvolvimento dos chamados “teatros de arte” no final do século XIX e ao longo de todo o século XX, em que se destaca, naturalmente, o Teatro de Arte de Moscovo, de Stanislavski, mas a que há que juntar muitos outros teatros de arte que na mesma altura ou nas décadas seguintes proliferaram por toda a Europa, o trabalho sobre o texto começou a ter um equilíbrio com o trabalho sobre o corpo, até que, com Antonin Artaud, extasiado com as manifestações do teatro balinês em Paris, tal primado do texto foi substituído pelo trabalho sobre o corpo, que haveria de atingir os seus expoentes mais significativos com as performances teatrais da body art na década de sessenta e com o teatro físico que lhes dá sequência nas décadas seguintes. Muitos assumiram, então, que o teatro era, fundamentalmente, um trabalho sobre o corpo. Ora é neste horizonte que se devem # 9 - março' 15 24 entender as palavras de Barba: não se trata de negar nem o trabalho sobre o corpo, nem o trabalho sobre as palavras e a voz que as exprime. Trata-se, antes, de reconhecer, que, em teatro, todo o trabalho sobre o corpo e sobre as palavras é, afinal e na realidade, um trabalho sobre a energia. Dir-se-ia, então, que o sujeito teatral, o que no teatro se torna visível (e o teatro é a arte da visibilidade, pois é do verbo ver que deriva teatro, que significa o espaço em que se vê) é essencialmente a energia, ou seja, no teatro é a energia que está permanentemente em movimento. E energia, que tomamos habitualmente como sinónimo de força, significa etimologicamente, pelas palavras gregas que entram na sua composição, “em trabalho”. A energia é a qualidade de alguma coisa que está em trabalho, em processo de acontecimento. O trabalho do actor, quer com o corpo, quer com a mente, é sempre um trabalho sobre a energia. E falar de energia não é exactamente o mesmo que falar de força (no sentido de força viril, impetuosa ou violenta). São muitas as formas de energia e, nas diversas culturas teatrais, mais do que deixarem reconduzir-se àquilo que, por comodidade ou por estereótipo, poderíamos ser tentados a chamar energia masculina ou energia feminina, elas organizam-se por duas polaridades que são expressões, por vezes opostas, do conceito de vento ou de respiração: é assim com animus e anima nas línguas provenientes do latim, com manis e keras, no teatro balinês, com lasya e tandava na tradição indiana. Temos, deste modo, num pólo, a energia numa modulação delicada e terna, e, no outro pólo, a energia na sua modulação vigorosa e dura. O que significa que tanto há energia num gesto de ternura, como há energia num gesto violento. E o principal trabalho do actor é compor e modular as diversas expressões de energia. Tal composição não significa homogeneidade nem uniformidade: se o gesto de uma mão pode acompanhar, em delicadeza, uma modulação mais terna de um olhar ou do movimento de um pé, pode também contrapor-se a essa modulação com uma modulação mais vigorosa e dura, resultando, da composição contraditória de várias modulações, a riqueza e a complexidade de uma personagem sobre as tábuas do palco. Acresce ainda que a energia se manifesta simultaneamente no espaço e no tempo: Assim, ao manifestar-se no espaço, cria campos de força que saem de um gesto ou de um olhar em direcção a um ponto do espaço ou a em direcção ao gesto e ao olhar de outra personagem; por outro lado, ao manifestar-se no tempo, através das suas modulações, cria tempos fortes e tempos fracos, tempos curtos e tempos longos, que jogam com os campos de força criados no espaço e com as diferentes modulações da energia dos diversos aparelhos do actor (o aparelho de locomoção, a voz, como aparelho fonador, o aparelho respiratório, o aparelho cutâneo, etc…). À sucessão e alternação das diferentes modulações da energia chamamos ritmo. Assim, para o actor, trabalhar sobre o corpo ou trabalhar sobre a voz, é sempre trabalhar sobre a energia. Mas não é apenas o actor que, em teatro, trabalha sobre a energia. Também o cenógrafo, cuja tarefa é criar condições para que o espaço teatral seja um espaço potencial e vivo como vivo é o corpo do actor (ainda que um espaço vazio, como lhe chama Peter Brook), trabalha essencialmente sobre e energia, e essa foi a grande lição de A. Appia, que revolucionou a cenografia nas duas primeiras décadas do século XX. E, do mesmo modo, o figurinista: a roupa que veste um actor ou é compatível com a sua energia e permite acompanhar as # 9 - março' 15 25 modulações de energia da respectiva personagem, ou falha na relação que estabelece com o corpo vivo que a usa. Por outro lado, também o desenhador de luz e o compositor de uma banda sonora trabalham com e sobre a energia: se as ondas sonoras são energia que se propaga no espaço e entra no corpo dos actores e dos espectadores, também a luz é energia que aquece, com o seu calor, uma atmosfera ou um ambiente, que os arrefece ou que os complexifica com uma mistura dessas diversas modulações. E o maestro principal da orquestração da energia é, naturalmente, o encenador, não independente do ou contra o actor, o cenógrafo, o figurinista, o músico ou o iluminador, mas em sintonia e convergência com eles. Porque não é o maestro que toca nem tão pouco é ele que ensina o violinista a tocar a sua partitura. O maestro potencia e estrutura a articulação das diferentes partituras, para que dessa rica composição brote a força e a beleza da obra teatral. Quantas vezes, após um espectáculo, reconhecemos que estava tudo muito certinho, tudo no seu lugar, tudo feito a tempo, mas… faltava alguma coisa. O que falta, tantas vezes, sem que nós o saibamos explicitar, é a capacidade de modular com riqueza e fecundidade, a energia. Diria, por isso, conversando com Barba, que a energia é a verdadeira alma do teatro. João Maria André Professor Catedrádito Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra # 9 - março' 15 26 sem palco AMADORA - O FÓRUM DAS EMOÇOES Texto produzido no âmbito do Painel de Encenação e Dramaturgia, orientado por Porfírio Lopes (Processo coletivo de criação), no XIV Fórum Permanente de Teatro, na Amadora, Janeiro de 2015. (Todos os atores formam inicialmente um semicírculo, que se vai desfazendo num processo continuo) ROSA - O dia aproxima-se. TODOS - O dia aproxima-se. ROSA - A ansiedade toma conta do ser. A viagem, o nascer do sol, os quilómetros… TODOS - Finalmente rostos… ROSA - Sorrisos, o reencontro, os abraços, a alegria, a aprendizagem… TODOS - Fórum Teatro emoções ao rubro. MÁRIO - (Aproximando-se de Fernanda) O que vieste cá fazer? FERNANDA - (Que se destacara do grupo, ao avançar alguns passos) Vim procurar emoções. MÁRIO - Encontraste? FERNANDA - Encontrei o teatro. MÁRIO - E o que viste? FERNANDA - Arte TODOS - (Em sussurro quase de êxtase) Arte! RICARDO - Quando o sonho de realizar se alcança, o ser humano vive. FERNANDA - Sensações ambíguas, interrogações, receio do tédio e “inesperado”, o sonho esquecido relembra-se. CLARA - Emoções, o sal da vida que faz do teatro, espelho, onde o homem se revê. TODOS - Onde o homem se revê. JOÃO - Ao revelar emoções damos a conhecer em nós um lado para além do ator. # 9 - março' 15 27 DIOGO - O trabalho de cada um faz-se da seguinte maneira: TODOS - Faz-se da seguinte maneira: DIOGO - Cada um no seu lugar, já que cada qual zela pelo seu fazer e trata-o de forma séria e comedida. As emoções devem ser controladas, usadas também comedidamente e quando solicitadas. De outra forma são meramente parasitas. TODOS - Fórum Teatro emoções ao rubro. PORFIRIO - Mas, como tudo na vida, o tempo esgota-se… e chegam... ROSA - As despedidas. E a saudade do próximo Fórum. PATRÍCIA - Viva o Teatro de Amadores. TODOS - Viva. # 9 - março' 15 28