INTRODUÇÃO Este estudo procura refletir sobre as compreensões dos pais ou responsáveis de três escolas públicas estaduais da cidade de Curitiba, no Paraná, acerca das violências nas escolas. O termo “violências nas escolas”1 vem sendo utilizado por pesquisadores que investigam as diferentes formas de violências que se manifestam no espaço escolar, bem como no seu entorno. Estas violências englobam uma série de aspectos, tais como: agressão física ou verbal, ameaça, pichação, depredação, furtos, roubos, estupro, assassinato, venda e uso de drogas e álcool, invasão entre outros e, em função dessa diversidade é que o conceito de violência vem sendo utilizado no plural. Assim, no presente trabalho tomar-se-á esse conceito dessa forma. As violências nas escolas, fenômeno que tem se manifestado em nível mundial, apresentam sérias implicações para a vida em geral e para a prática pedagógica em particular. No imaginário social a violência é vista enquanto um fenômeno e uma manifestação de caráter único, entretanto, traz consigo sérias implicações. Não são todas as escolas que enfrentam o problema e este não se dá da mesma maneira em todos os lugares. Cada instituição tem as suas especificidades, portanto, situações de violências que ocorrem em algumas, não necessariamente ocorrerão em outras da mesma forma. A pesquisa investiga as compreensões que têm os pais ou responsáveis acerca das violências nas escolas, em que medida a escola tem viabilizado de forma efetiva espaços de interação para refletir sobre os problemas, bem como se os pais ou responsáveis têm contribuído ou não na busca de alternativas para a prevenção e intervenção com relação às violências no espaço escolar. É importante destacar que muitos colégios públicos estaduais do Paraná encontram-se em situação precária. Tornou-se comum os desabafos de profissionais da educação desses estabelecimentos até mesmo por intermédio da imprensa denunciando as dificuldades que encontram no processo de ensino-aprendizado e 1 Expressão empregada por DEBARBIEUX, Eric. La violence dans la classe. Paris: ESF, 1990. 2 as péssimas condições de trabalho.2 Não bastasse isso, as escolas estão se deparando com novos elementos que vêm atingindo sobremaneira muitos estabelecimentos de ensino, dentre eles as diferentes manifestações de violências. O estudo partiu de uma inquietação e necessidade da pesquisadora em elucidar questões que ficaram obscuras ainda na época em que fazia graduação, quando realizou estágio em supervisão e orientação escolar em uma escola pública estadual na região central da cidade de Curitiba. Na ocasião, cursando o último ano da faculdade de Pedagogia, se deparou com inúmeras situações de violências que a deixaram confusa, com uma sensação de impotência e com dúvidas se teria condições de assim que formada, atuar em um ambiente escolar. Dentre as situações pelas quais passou, se deparou com alunos usuários de drogas, que as consumiam no próprio Grêmio, na frente da escola ou chegavam alterados sob o seu efeito para assistirem às aulas provocando tumulto no decorrer das mesmas; brigas com lesões graves no interior e nas imediações da escola tanto de meninas como de meninos – em uma ocasião um aluno arrancou parte da orelha do outro; agressões físicas e verbais a professores; furtos e roubos, depredações, tanto de bens de professores, em especial – furavam pneus, riscavam e quebravam os vidros de seus carros, quanto do patrimônio público – além das constantes destruições, em um final de semana alunos invadiram e tentaram colocar fogo na escola; aluno portando arma de fogo e ameaças de morte a membros da equipe pedagógica. Um dos episódios ocorreu quando um pai entrou na sala de supervisão e orientação escolar bem alterado, dizendo vários palavrões e gritando que queria falar com a orientadora que tinha repreendido o seu filho no dia anterior. Na ocasião a pesquisadora quase não teve tempo de dizer que não era a orientadora, que 2 Esta reportagem expressa o desespero de um professor que escreveu para a Coluna do Leitor da Gazeta do Povo em 14. 06. 2001: “Quer viver perigosamente, com adrenalina irrompendo pelas suas veias, no limite do estresse? Seja professor. Vai conviver com alunos lindos, pequenos, mas com garras e línguas afiadas. Utilize seus modernos conhecimentos de pedagogia, empregue a psicologia, aumente a auto-estima de seus discípulos. Em troca, receba palavras de baixo calão, gestos obscenos e outras agressões dessas crianças adoráveis com quem convive. Recorra a todos os modernos processos didáticos, idealize aulas com todos os recursos disponíveis e boa parte dos alunos ignorará o conteúdo e irá procurar meios para provocá-lo. (...) Professor é uma categoria em extinção e a sociedade só compreenderá o seu valor quando perceber que voltou à época das trevas. Vamos repensar a maneira de considerar esse profissional, responsável pela formação de todos os outros e ajudá-lo na difícil tarefa de formar bons cidadãos”. R.S.G. 3 estava sozinha e que ela não havia chegado ainda, então o encaminhou para conversar com a diretora auxiliar. A conversa acalorada era devido ao fato de que o aluno havia destruído a cesta do garrafão de basquete e por isso foi chamada a sua atenção. Entretanto, o sentimento de impotência veio em um dia em que a pesquisadora chegou para estagiar e um aluno que estava fazendo uso de drogas em frente à escola foi recolhido pela então supervisora3. Esta o levou até a sala da supervisão e disse para que a pesquisadora ficasse na porta e que não o deixasse sair enquanto iria acionar o Conselho Tutelar. O jovem que tinha cerca de dezesseis anos olhou para ela e disse: “Eu vou sair daqui e não vai ter mulher que me segure”. É difícil, ainda que hoje, esquecer a cena, pela primeira vez a pesquisadora realmente teve medo, nem que quisesse e não era essa a sua intenção ou função o seguraria, porque ele era bem maior do que ela. Sentindo-se ameaçada gritou para um rapaz que trabalhava na secretaria para que ele viesse ocupar o seu lugar. Porém, a partir daquele dia, começou a ter dúvidas acerca das possibilidades que tinha de vir a atuar profissionalmente. Quando retornou no início do ano seguinte com o resultado do trabalho de pesquisa que desenvolvera na escola a supervisora informou que o aluno havia falecido. No curso de Pós–graduação Lato sensu, com o intuito de refletir mais profundamente sobre a temática das violências nas escolas, a pesquisadora realizou uma pesquisa sobre “A violência nas escolas e suas implicações para a prática pedagógica” na qual procurou focar sua atenção sobre as conseqüências das violências na cultura da escola. Não obstante, na ocasião não houve a possibilidade de realizar pesquisa nas escolas, limitando-se a mesma à análise bibliográfica e documental. Quanto à pesquisa concorda-se com MINAYO (1994, p. 17) quando assinala que, entendemos por pesquisa a atividade básica da Ciência na sua indagação e construção da realidade. É a pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente à realidade do mundo. Portanto, embora seja uma prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação. 3 Não havia pedagogo na função de supervisão na escola e uma professora da escola ocupava o cargo. 4 Ou seja, nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida prática. [grifos da autora]. Dessa forma, considerando que a riqueza do real é de natureza precípua para compreensão do problema dado sua complexidade é que se propõe para este estudo a seguinte problematização: Quais as relações entre as compreensões que os pais ou responsáveis têm acerca das violências nas escolas e a própria violência? As compreensões dos pais ou responsáveis merecem ser levadas em conta uma vez que eles fazem parte da comunidade escolar e, dentro dos pressupostos de uma gestão democrática, entende-se que é necessária a participação de toda essa comunidade para tratar dos assuntos da escola. Assim não é só a equipe pedagógica quem deve decidir sobre os rumos a serem tomados no decorrer do processo de ensino-aprendizado, pois para tratar dos problemas de violências nas escolas é necessária a participação de todos, tanto dos envolvidos naquela comunidade no que diz respeito às reflexões sobre o problema, quanto no que tange à busca de alternativas, ações de prevenção e intervenção. Tendo em conta que a família ou outras pessoas, são responsáveis pelos alunos que estão sob sua tutela, conseqüentemente, é com elas que a escola precisa tratar, num primeiro momento, quando crianças ou adolescentes estão envolvidos em situações de violências. Ademais, entende-se que é preciso conhecer que significados os sujeitos atribuem ao fenômeno, considerando que a escola, além de reproduzir as relações sociais é também um espaço de produção social, de construção da cultura. Assim, o não exercício da participação democrática pode, por si só, ser fator de violência, pois se trata de atitude que marginaliza e por isto é injusta, pois a exclusão social também se caracteriza na medida em que os pais ou responsáveis não são convidados a refletir e buscar alternativas acerca de situações de seu interesse e, uma vez que o sujeito não participa democraticamente, ele é excluído e tem cerceado o direito de exercer a sua cidadania. A relevância do tema se justifica pelo fato de que as pesquisas sobre as violências, no que diz respeito à opinião e envolvimento dos pais ou responsáveis para refletir sobre o problema, são incipientes ainda e, para que se possa pensar em que medida eles podem ajudar a escola a lidar com as situações de violências é importante ouvi-los e que sejam viabilizadas formas efetivas de participação dos 5 mesmos no espaço escolar. Dessa forma, com o intuito de apreender o significado atribuído pelos pais ou responsáveis às violências e elucidar o referido problema, algumas questões nortearam o desenvolvimento da pesquisa, bem como a organização do trabalho: Que compreensões têm os pais ou responsáveis sobre a violência? Será que os pais ou responsáveis têm conhecimento das violências nas escolas? Quais os tipos de violências que os pais ou responsáveis presenciaram ou tiveram conhecimento nas escolas ou no seu entorno? Na opinião deles por que ocorrem situações de violências nas escolas? Será que eles acreditam que os alunos estão seguros na escola? Caso reconheçam que há situações de violências nas escolas por que enviam seus filhos ou alunos sob sua responsabilidade à mesma? Que compreensões têm os pais ou responsáveis sobre a Associação de Pais e Mestres e sobre o Conselho Escolar? O que podem fazer para ajudar a escola na prevenção das violências? Do que os pais ou responsáveis gostam ou não na escola? Como ajudam a escola? Em que momento a presença deles é solicitada pela escola? Quais as iniciativas das escolas junto à comunidade na busca de alternativas, ações para prevenir as violências no ambiente escolar? A mídia tem divulgado inúmeros episódios de violências nas escolas, mas embora alguns jornais optem pelo sensacionalismo4 é sabido que os casos que a mídia divulga não refletem a real situação do que vem ocorrendo em muitas escolas e que na grande maioria das vezes são abafados pela equipe pedagógicoadministrativa que não quer ver a imagem da escola ofuscada. Apesar dos cuidados que se deve ter com as notícias veiculadas pela mídia devido ao sensacionalismo, ela tem sobremaneira contribuído para denunciar as violências nas escolas. É através dela que muitos fatos são noticiados e chegam ao público mostrando de que forma as violências estão tomando conta de alguns estabelecimentos de ensino. De acordo com FREITAG (2002, p. 06) pode-se “(...) ter mil conflitos, mas se eles não forem retratados, tematizados e divulgados, não aparecem para os que não foram testemunhas oculares”. 4 Entende-se por sensacionalismo na mídia a atitude de no afã de divulgar a notícia não buscar as origens do problema e o fato de que para vender mais, alguns jornais ou revistas, maximizam, minimizam ou distorcem a notícia com o intuito de causar impacto ou chocar a opinião pública. 6 Não obstante, em alguns estabelecimentos os professores são proibidos de falar sobre assuntos sigilosos que digam respeito à escola, sob pena de estarem infringindo uma norma já presente em muitos Regimentos e, sob pena de sofrerem as conseqüências por parte da direção. As represálias vão desde a diminuição da carga horária para esses professores e até mesmo maus tratos no cotidiano escolar, pois o professor passa a ser visto como inimigo da escola por ficar “difamando-a”. Verifica-se que a “Lei do Silêncio”, prática que resulta do medo de denunciar por temor às represálias por parte de quem pratica atos ilícitos é também uma violência que incide sobre toda a comunidade escolar. Pautando-se na mesma lógica que têm nas suas comunidades, muitos pais ou responsáveis, têm medo de falar sobre o que se passa na escola sob pena de sofrerem punições da direção, que acreditam, poderá perseguir seus filhos. No silêncio dos inocentes, muitos professores e equipes pedagógicas têm que conviver com diferentes situações nas quais, muitas vezes, não sabem como proceder e não recebem, no mais das vezes, apoio das entidades mantenedoras para resolvê-las e, tampouco, dos pais ou responsáveis que em sua maioria estão distantes da escola e não sabem o que acontece ou de que forma poderiam ajudá-la a prevenir as violências nas escolas. Sendo assim, é importante buscar entender as compreensões dos pais ou responsáveis sobre as violências nas escolas e a relação com a própria violência a fim de que a escola possa estreitar os laços entre a comunidade escolar com o intuito de viabilizar espaços de participação que lhe permitam refletir e buscar alternativas para agir com a coletividade, em especial, acerca dos problemas das violências. Para contemplar as questões supracitadas o trabalho foi organizado em cinco capítulos. O Capítulo I refere-se à “Opção metodológica” que explicita aspectos referentes ao campo da pesquisa e a abordagem metodológica. O Capítulo II, “Violência: marcas e reflexões”, mostra a complexidade da distinção entre indisciplina e violências nas escolas, aborda ainda, os conceitos de violência para diferentes autores com o intuito de compreender a diversidade de concepções e a complexidade deste conceito e, analisa as compreensões dos pais ou responsáveis sobre o fenômeno. 7 O Capítulo III, “As escolas”, apresenta e caracteriza as escolas nas quais se realizou a pesquisa mostrando de que maneira as violências se manifestam no espaço escolar. O Capítulo IV, “Tudo começa dentro de casa?”, caracteriza os pais ou responsáveis que responderam à pesquisa e apresenta os tipos de violências que eles referem no espaço escolar e em seu entorno. Apresenta-se, ainda, as causas das violências para os pais ou responsáveis e a questão da segurança dos alunos na escola. O Capítulo V, “Tô nem aí: espaços não ocupados de participação”, aborda a relação dos pais ou responsáveis com a escola. Para tanto analisa as compreensões sobre a Associação de Pais e Mestres, o Conselho Escolar, as iniciativas dos pais ou responsáveis para ajudar a escola na prevenção das violências, o que eles gostam ou não na escola, como é a participação na escola, bem como sobre as ações da escola junto à comunidade para prevenção das violências. E, finalmente, apresenta-se o texto “Nas teias da violência: algumas considerações finais” no qual apontam-se as reflexões advindas das análises subtraídas da pesquisa. 8 CAPÍTULO I – OPÇÃO METODOLÓGICA O campo de pesquisa A pesquisa foi desenvolvida em três escolas5 públicas estaduais do Paraná, na cidade de Curitiba, selecionadas de uma relação de onze escolas e um estabelecimento que oferece Educação de Jovens e Adultos. Estas onze escolas são pertencentes ao Núcleo de Educação de Curitiba e foram indicadas em reunião dos diretores com o secretário Estadual de Educação, no início do ano letivo de dois mil e três, como sendo as que apresentavam maiores índices de violências. Na referida reunião, foram relatados diferentes problemas pelos quais algumas escolas estavam passando e foi organizada uma relação daquelas que apresentavam maior incidência de situações de violências e que de imediato, careciam de medidas emergenciais para solucionarem problemas no ambiente escolar, bem como de um trabalho de prevenção e intervenção. Entretanto, no decorrer deste processo de escolha das escolas, surgiram algumas dificuldades. Foi difícil localizar alguns diretores nos estabelecimentos, pois nas inúmeras tentativas feitas via telefone alegava-se que estavam ausentes, em reunião e, por vezes, a impressão era a de que não havia interesse por parte de algumas escolas. Chegou-se a conversar com os diretores de duas escolas da lista que não permitiram que a pesquisa fosse feita no estabelecimento, embora estivesse bem claro que o nome da escola não seria exposto. A percepção foi a de que quando se explicava que os sujeitos da pesquisa seriam os pais ou responsáveis a idéia não agradava muito, talvez por se tratar de ano de eleição de diretores.6 Teve uma escola para a qual telefonou-se inúmeras vezes, 5 6 deixou-se recado, mas o diretor nunca podia atender, a ponto da Sempre que se falar em escola neste trabalho estará se referindo ao estabelecimento de ensino coletivo. Em época de eleição de diretores não é nada bom ficar questionando os pais ou responsáveis, eleitores em potencial, acerca de problemas que ocorrem ou ocorreram na escola, posto que há ainda a possibilidade de antigos problemas voltarem à tona e ao fazer os pais ou responsáveis relembrarem das dificuldades porque passa a escola, pode-se mesmo sem a intenção, provocar um descontentamento com relação à administração. Para diretores que pretendem se reeleger esta não parece ser uma boa idéia. 9 pesquisadora começar a sentir que já estava sendo inconveniente com tanta insistência. Enfim, nas três escolas onde foi desenvolvida a pesquisa, esta foi feita com o consentimento dos diretores. Assim, após a primeira conversa para explicar a pesquisa agendava-se a entrevista com o presidente da Associação de Pais e Mestres que também era pai ou responsável de aluno, com a diretora e, combinavase como seria a entrega dos instrumentos que os alunos deveriam entregar para os pais ou responsáveis responderem em casa. A idéia de entregar o instrumento para os pais ou responsáveis preencherem em casa partiu da conversa com alguns diretores que não aconselharam a realização da entrevista na escola alegando que seria muito difícil que eles quisessem participar, tendo em vista que muitos trabalhavam e não participavam nem das reuniões convocadas pela escola. A incursão às escolas foi feita no segundo semestre de dois mil e três, no período de setembro a novembro concomitantemente ao estudo teórico realizado. O período aproximado de pesquisa em cada escola foi de duas semanas, com observações do cotidiano escolar. Devido à solicitação da equipe pedagógica destas escolas, foram fornecidos textos de diferentes autores que abordam a temática da violência, para realização de estudos com a comunidade escolar. A realização da pesquisa no segundo semestre, também considerou o fato de que no início do ano, pais ou responsáveis novos na escola não têm ainda elementos que lhes possibilitem uma compreensão ou uma visão mais ampla do problema na escola. Dessa forma, foram entregues em cada escola cento e cinqüenta questionários aos alunos para que eles entregassem aos seus pais ou responsáveis. Para entrega do instrumento a pesquisadora foi em cada sala acompanhada pela pedagoga do colégio que pedia licença ao professor para que o instrumento pudesse ser entregue. Foi necessário explicar aos alunos que se tratava de uma pesquisa e pedir a colaboração deles na entrega para os pais ou responsáveis. Assim, após uma breve apresentação e explicação da pesquisa perguntava-se a eles se seria possível contar com a sua ajuda e havendo o consentimento entregava-se o instrumento. Em algumas turmas os alunos fizeram perguntas e nos dias seguintes quando eram recolhidos os instrumentos alguns justificavam porque não haviam trazido, diziam que tinham esquecido, que trariam no dia seguinte, o que 10 nem sempre se concretizou. Alguns alegaram que os pais ou responsáveis trabalhavam e que não teriam tempo para preencher, outros afirmaram que os mesmos não quiseram responder. Na entrega dos instrumentos alguns professores comentavam: “Pesquisa sobre violência? Nossa aqui você está no lugar certo...” E, seguiam com as lamentações: “Coitada, vai distribuir tudo isso de questionário? Mas, eles não entregam nem bilhete cê acha que vão entregar isso aí pros pais? Não fazem lição de casa, trabalho valendo nota... Quanto dinheiro jogado fora...” Não foram poucos os comentários deste tipo. Em apenas uma das escolas e uma única professora interveio e chamou a atenção da turma dizendo: “Gente, vocês estão vendo esta moça? Ela é pesquisadora, lá da Universidade, isto que ela está pesquisando hoje, um dia vai nos ajudar aqui na sala, portanto não esqueçam de entregar para os pais heim pessoal...”. Com o intuito de analisar as compreensões de violências nas escolas por parte de uma diversidade maior de pais ou responsáveis, levando em conta as especificidades de cada uma é que se optou por realizar a pesquisa em três escolas e em turnos diferentes. No Colégio da Vida7 a pesquisa foi realizada no período da manhã e o instrumento foi distribuído entre os alunos da sexta, sétima e oitava séries do Ensino Fundamental e entre as turmas do Ensino Médio. Esta escola possuía um total de mil quinhentos e sessenta e seis alunos matriculados, distribuídos em trinta e sete turmas, sendo que destes, seiscentos e sessenta e dois estudavam no período da manhã e distribuíam-se entre as quinze turmas deste período. O objetivo era de conseguir um retorno de no mínimo 10% dos questionários que foram entregues aos pais ou responsáveis de alunos do turno pesquisado. Nesta escola voltaram trinta e dois questionários o que representa 21,33% do total que havia sido distribuído. O Colégio Esperança possuía um total de oitocentos e oitenta e quatro alunos matriculados distribuídos em trinta e duas turmas, sendo que no período da tarde, havia cento e noventa e quatro alunos matriculados, distribuídos em sete turmas. A pesquisa foi realizada no período da tarde e os instrumentos foram entregues entre os alunos de quinta às oitavas séries do Ensino Fundamental. Nesta 7 Os nomes dos colégios da Vida, Esperança e Ambiente são fictícios a fim de preservar as suas identidades. 11 escola retornaram quarenta e dois instrumentos que correspondem a 28% do total. Cabe ressaltar ainda, um aspecto observado na escala de entrega dos instrumentos. Dentre os alunos do Ensino Fundamental, no caso específico das quintas às oitavas séries envolvidas na pesquisa, o maior retorno foi dos alunos da quinta série. Na medida em que as séries aumentavam diminuía o retorno dos alunos. O Colégio Ambiente atende somente alunos do Ensino Médio e possuía um total de mil duzentos e oitenta e sete alunos matriculados, distribuídos em trinta e sete turmas, sendo que no período da noite havia quatrocentos e vinte e três alunos distribuídos em doze turmas. A pesquisa foi realizada no período da noite e apesar do esforço feito junto a esses alunos a fim de obter um maior retorno, voltaram apenas dezenove instrumentos, que correspondem a 12,6% do total. A diretora desta escola assinalou que a dificuldade em conseguir retorno junto aos alunos do Ensino Médio, em especial do noturno, devia-se ao fato de que os pais ou responsáveis desta faixa etária acreditam que como muitos são maiores de idade e já trabalham, devem se responsabilizar por seus atos e, os alunos por sua vez, não costumavam entregar bilhetes aos pais ou responsáveis com base nesta mesma lógica. Vale lembrar também que as violências se manifestam com maior intensidade em boa parte dos estabelecimentos de ensino no período noturno. Abordagem da pesquisa A partir da proposição do problema e das questões norteadoras, pôde-se definir o marco teórico que embasa a presente pesquisa. Para refletir sobre a violência buscou-se aporte nas obras de autores que desenvolvem pesquisas sobre o tema, dentre eles, CARAM (1978) que analisa os fatores que contribuem para a institucionalização da violência, as respostas fornecidas com o intuito de combatê-la, bem como as possibilidades de uma visão integral do fenômeno; MICHAUD (1989) que discorre sobre os diferentes conceitos de violência, analisando-a em suas implicações com a história, sociologia, filosofia e antropologia; BOURDIEU (1998) que faz reflexões acerca da violência simbólica e suas implicações na educação; SORGE (1993) analisa o fenômeno da violência, suas formas e manifestações na sociedade; LONDOÑO e GUERRERO (2000) refletem sobre a expansão da violência na América Latina; GUIMARÃES (1985, 1996) analisa a violência, a 12 depredação escolar, bem como a ambigüidade entre violência e indisciplina e, ARENDT (1999) que cunhou o conceito de banalização do mal. Para analisar especificamente as violências nas escolas, as contribuições vieram dos trabalhos de GUIMARÃES (1998) cujo trabalho resulta de um estudo etnográfico, no qual aborda as relações da escola pública com a violência, que se intensifica a partir dos anos oitenta no Rio de Janeiro; MINAYO et al (1999), que procuram compreender que significado os jovens da cidade do Rio de Janeiro atribuem à juventude, à cidadania e à violência, em especial no âmbito do cotidiano escolar, familiar e de sociabilidade; BARREIRA et al. (1999) procuram compreender que percepções têm os jovens da cidade de Fortaleza sobre a violência e a cidadania, abordando também a violência na escola; CAMACHO (2000), desenvolveu pesquisa sobre a violência e a indisciplina nas práticas escolares de adolescentes de classes médias, a fim de compreender a violência que praticam no interior das escolas; LATERMAN (2000), procurou compreender os significados próprios da violência no espaço escolar; LOPES (2001), procurou compreender a violência no espaço escolar, analisando a relação professor-aluno; SPOSITO (2001), faz um balanço sobre a produção na pós-graduação em educação acerca do tema violência e escola no Brasil, após a década de oitenta, bem como dos poucos diagnósticos sobre o tema; SANTOS (2001), analisa as relações da escola e as práticas da violência; ARAÚJO (2001), examina de que forma as vivências dos jovens interferem no cotidiano escolar; DEBARBIEUX (2001), desenvolveu pesquisa sobre a violência na escola francesa; PEREIRA (2002), em seu estudo em escolas públicas portuguesas, procurou conhecer as práticas agressivas denominadas de Bullying, feita entre pares nos contextos escolares, definindo medidas de intervenção que visavam prevenir e reduzir tais práticas; ABRAMOVAY (2002), desenvolveu pesquisa sobre escola e violência, analisando questões sociais, possibilitando reflexões e iniciativas para prevenção do problema; CASTRO e ABRAMOVAY (2002), realizaram pesquisa com a comunidade escolar de diferentes escolas públicas e privadas de capitais brasileiras a fim de analisar suas percepções sobre a presença de drogas nas escolas; ORTEGA e DEL REY (2002), apresentam diferentes estratégias para prevenção da violência nas escolas; DEBARBIEUX e BLAYA (2002a), abordam os fatores de risco para violência juvenil, para exclusão da escola, bem como as experiências de diferentes países no combate e prevenção às 13 violências nas escolas; DEBARBIEUX e BLAYA (2002b), apresentam a experiência de dez países europeus com relação às violências nas escolas, ressaltando a similaridade de alguns fenômenos e implicações e, ABRAMOVAY e RUA (2002) refletem acerca das causas e conseqüências das violências nas escolas, a partir de uma concepção ampliada da violência, enquanto ação causadora de dano, considerando as dimensões que surgiram em sua pesquisa com diferentes atores, realizada em escolas da rede municipal, estadual e privada de quatorze cidades brasileiras, entre outros. Ainda, para compreender as diferentes formas de manifestações das violências nas escolas, buscou-se subsídios no Congresso Ibero-Americano sobre Violências nas Escolas, realizado em Brasília, Brasil, em abril de 2004 – evento preparatório do Congresso Internacional sobre Violências nas Escolas que deverá acontecer no ano de 2005 também no Brasil8 – com o intuito de estimular a pesquisa e o intercâmbio de informações sobre a referida temática. Os pesquisadores citados abaixo e demais participantes estavam preocupados em refletir, trocar experiências de pesquisas, intervenções e propor recomendações às políticas públicas. WERTHEIN (2004), representante da Unesco no Brasil, presente no referido Congresso, afirmou que a problemática da violência é global e que especialistas do mundo todo têm pesquisado a temática. Destacou ainda, o altíssimo custo que têm as violências nas escolas que é um fenômeno complexo e de múltiplas faces que têm resultado em fracasso escolar. Entretanto, dentre as considerações que foram feitas, destacou iniciativas que precisam ser tomadas, como o combate às desigualdades e injustiças sociais, a implantação de ações baseadas no diálogo que visam negociar os conflitos de forma pacífica, criar espaços de formação para os pais para estreitar as relações família-escola, investir na formação de educadores e a preocupação com uma cultura de paz. DEBARBIEUX (2004), representante do Observatório Internacional de Violência Escolar (França), apresentou estudos comparativos sobre violências nas escolas da França, Espanha e Brasil. Em sua conferência alertou para o sentimento 8 Na ocasião reuniram-se pesquisadores de diferentes Estados do Brasil e de diferentes países, dentre eles, México, Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai, Nicarágua, República Dominicana, Porto Rico, Espanha, Portugal, França e Canadá. 14 de insegurança decorrente do clima escolar no qual se fazem presentes às incivilidades: ofensas, humilhações, maus-tratos (microviolências), destacando que há correlações muito fortes entre esse clima e a vitimização. Assevera que as causas externas à escola explicam apenas 21% das vitimizações. O referido pesquisador afirmou que lutar contra as violências é lutar para mudar o clima escolar, pois quanto maior a insegurança maior será a degradação do mesmo. Alertou também que o medo que os alunos têm de ir para escola é um dos motivos do fracasso escolar. Destacou ainda, que a violência escolar é ligada a uma sociologia clara de exclusão social e que escolas com as mesmas condições sociais, podem ter resultados muito diferentes com a violência escolar. Assim, culturas diferentes podem produzir resultados diferentes. Discorreu ainda, quanto aos fatores estruturais, assinalando que ninguém pode atuar contra a violência escolar em uma escola sem estrutura. A pesquisadora BLAYA (2004), representante do Observatório Europeu de Violência Escolar (França), apresentou um estudo comparativo das violências escolares em países da Europa com o objetivo de apresentar o estado da questão sobre o fenômeno naquele continente. Tratou também da vitimização e evasão escolar decorrente, alertando que é preciso desenvolver uma cultura comum de pertencimento à instituição escolar, que deve haver organização escolar, implementação de políticas públicas, uma grande mobilização da comunidade escolar e formação inicial e continuada de professores. ABRAMOVAY (2004), da Universidade Católica de Brasília e Observatório de Violências nas Escolas (Brasil) apresentou dados preliminares da pesquisa que vem desenvolvendo. Dentre as considerações que fez, assinalou que a escola que deveria funcionar como lugar de convivência e inclusão social deixou de ser um oásis de paz, pois é um lugar onde existem conflitos e violências. Destacou que a escola é um local onde jovens e crianças passam a maior parte do tempo e é, portanto, o principal espaço onde podem chegar a exercer a sua cidadania. Alerta que os alunos dizem que não gostam da escola porque são vitimados e que é preciso levar em consideração o que dizem as vítimas. ROYER (2004), do Centro de Pesquisa e Intervenção Sobre Sucesso Escolar – Crires (Canadá) realizou conferência sobre a implementação e avaliação de programas de intervenção para prevenir as violências e condutas agressivas na 15 escola. Apresentou reflexões sobre intervenção e pesquisa, assinalando a importância de formar os docentes para intervirem. Afirmou que um programa para prevenir o “bulling” (agressão entre pares) deve ser universal e que deve haver fidelidade na implantação desse programa que dura em média três anos considerando a elaboração, implementação e avaliação. Apresentou o Programa desenvolvido no Canadá que se realiza por meio de três eixos. O primeiro passo visa a não expulsão do aluno da escola. Este, quando envolvido em situações de violências, vai para uma sala de transição na qual é desenvolvido um trabalho específico com ele. O segundo diz respeito à formação dos professores para prevenção e mediação, aqui também procura-se cristalizar espaços nos quais os docentes possam se encontrar para trocar experiências. O terceiro refere-se ao trabalho com as famílias. Enfatiza que três aspectos precisam ser considerados na intervenção: o tempo, o grupo de controle e a formação sistemática das pessoas envolvidas. Outro pesquisador que se fez presente no Congresso supracitado, tecendo considerações importantes, foi o ARROYO (2004), da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil). Ele apresentou uma reflexão sobre “Violência nas escolas: uma disputa entre imaginários de infância e de docência?” sugerindo que se coloquem as análises das violências nas escolas para além da escola, pois assinalou que está se tocando em contextos culturais muito complexos e profundos. Assevera que ao se falar em violências nas escolas é preciso atentar para o cuidado em não se destruir o imaginário da infância, pois a imagem inocente da infância não pode ser substituída pela imagem violenta da infância, porque, quando se quebra a imagem da infância quebra-se a imagem da Pedagogia. Faz-se necessário ainda, segundo este pesquisador, analisar o imaginário que se cria sobre o povo e sobre os docentes. FURLAM (2004), da Universidade Nacional Autônoma do México (México), apresentou pesquisa sobre “Formadores, futuros professores e atores do Ensino Médio. Um acordo funcional”, onde destacou que é preciso inserir matérias que falam sobre violência e indisciplina na formação de professores. Alertou ainda que é preciso atentar para o aspecto de que as políticas dos países latino-americanos foram impostas por um modelo internacional com poucas agregações da cultura. VISCARDI (2004), da Universidade da República – UdelaR (Uruguai), 16 afirmou que a violência escolar no Uruguai na sua manifestação subjetiva é semelhante com a de outros países. Ao discorrer sobre “o que a violência escolar nos diz sobre a educação: um olhar sob a perspectiva dos jovens”, disse que grande parte das violências se cria nas próprias escolas, nas suas práticas e que os processos subjetivos precisam ser considerados. Assinalou que está havendo a conformação de uma cultura extra-escolar, centrada numa resistência, de oposição à escola e que o processo de socialização dos alunos está se tornando um processo de socialização violenta, na medida em que se faz o uso das violências nas relações interpessoais. Ressalva que há uma necessidade de ressignificar o espaço escolar que tem cada vez menos legitimidade para realizar sua função. Destaca que há um conjunto de fatores que têm refletido na maioria das relações no interior da escola. Entretanto, alerta que as estratégias de intervenção só fazem sentido se estiverem articuladas com estratégias que visam a resolução de problemas para além da escola. DEL REY (2004), da Universidade de Sevilla (Espanha), apresentou pesquisa sobre “(...) a convivência escolar de alunos envolvidos em situações de violência interpessoal”, analisou o bulling entre pares e afirmou que a intervenção deve envolver toda a comunidade escolar e que deve haver num primeiro momento uma investigação para saber aonde é necessária tal intervenção. Afirmou que é preciso ainda, analisar cada situação, para então saber se é necessária só a prevenção ou se já é caso de intervenção. CARRANO (2004), da Universidade Federal de Fluminense (Brasil), fez uma reflexão sobre “desafios na educação da juventude em culturas de paz, justiça e liberdade”, enfatizou que na atual conjuntura o medo tem organizado a esfera pública e é ele quem diz às pessoas se elas vão ou não a um determinado lugar. Ao tratar das violências nas escolas assinala que é um complexo de inúmeros fatores, pois a própria instituição escolar produz violência. Assinalou que quando se fala em comunidade violenta é preciso ver que é a comunidade que é violentada. Asseverou que a escola pública tem se constituído em “depósito” de jovens e apresentou três tipologias de escolas: as primeiras seriam as escolas celas de aula, na qual os valores são inegociáveis; as segundas seriam as escolas arenas de competitividade, nas quais a utopia é o mercado e, as terceiras seriam as escolas territórios abertos a diálogos que se constituem em espaços públicos nas quais a comunidade faz o seu 17 currículo. BONNAFÉ-SCHMITT (2004), da Universidade Lumière Lyon II (França), apresentou pesquisa sobre “Três anos de avaliação da Mediação Escolar: resultados encorajadores”, salientando que a mediação nas escolas é um fenômeno recente. Os mediadores intervêem na gestão de conflitos e os efeitos da mediação variam de acordo com a idade. O papel deles não é propor ou impor soluções, mas sim levar os próprios alunos a encontrarem a solução, eles são, portanto, instrumentalizadores. Afirma que para a gestão deste processo é necessária uma sensibilização para a mediação, pois os mediadores devem ser mediadores positivos, saber guardar confidências e estar disponíveis. Para refletir sobre as relações das famílias com as escolas, o aporte advém de trabalhos de pesquisas realizadas por PARO (1995, 1997, 1999, 2001), FERREIRA (2000), FREIRE (2000) entre outros. Os conceitos – chave que norteiam a análise dos dados são: violências nas escolas, violência, violência simbólica, habitus9, práticas pedagógicas, participação, gestão democrática e cultura da escola. A escolha dos referidos autores se justifica porque eles oferecem contribuições significativas que ajudam a desvendar a problemática no espaço escolar e como assevera CARAM (1978, p. 13), visto a violência ser um fenômeno complexo, sua análise hoje, não pode mais se restringir ao aspecto moral de relações diretas e nem mesmo a alguns aspectos da economia, da política ou da sociologia. Ela atinge a totalidade da vida humana. Por isso, necessário se torna um estudo interdisciplinar, pois cada ciência poderá, direta ou indiretamente, contribuir para a compreensão da problemática. Embora, a rigor, a violência não pertença a nenhum campo específico dos quadros científicos. Como ato humano poderá ser estudada por qualquer ciência. Evidentemente, cada uma a analisará segundo seus conceitos, princípios, objetivos e perspectivas. Com relação à metodologia trata-se de uma pesquisa qualitativa na qual para a escolha das técnicas de coleta de dados, buscou-se subsídios nos trabalhos de RICHARDSON (1999) que apresenta estudos sobre os métodos e técnicas de pesquisa social, MINAYO (1994), que apresenta estudo sobre pesquisa social e investigação qualitativa e, LESSARD-HÉBERT, GOYETTE e BOUTIN (1990) cujo trabalho versa sobre investigação qualitativa, fundamentos e práticas. De acordo 9 O conceito de habitus é empregado por BOURDIEU (1975). 18 com os últimos autores, De Bruyne et al.10 classificam as técnicas de recolha de dados em três grupos: o inquérito, a observação e a análise documental. Desta forma, por meio do inquérito aplicou-se junto aos pais ou responsáveis o questionário composto por questões abertas e fechadas como principal instrumento de coleta de dados e com os diretores11 e presidentes das Associações de Pais e Mestres foram utilizadas entrevistas não estruturadas, centradas no tema geral; também se realizaram análises documentais e observações de campo de pesquisa, considerando que, como assinala GARCIA (2001), “no trabalho de campo, estão compreendidas operações de análise que deverão evitar que a investigação seja apenas uma validação de posições assumidas pelo pesquisador em relação ao seu objeto”. O instrumento12 de pesquisa foi elaborado com base no relatório13 sobre ocorrências em estabelecimentos de ensino de Curitiba e Região Metropolitana de Curitiba, do ano 2000 e de janeiro a julho de 2001, fornecido pelo Sistema de Controle Operacional da Polícia Militar do Paraná – Siscop/PM – PR. No referido relatório são apresentados os tipos de ocorrências que foram atendidos nos estabelecimentos de ensino estadual, federal, municipal, particular e religioso naquele período. Para a elaboração do instrumento considerou-se, ainda, os relatos de experiências feitos por diversos profissionais da educação e de pessoas que atuam em organizações não governamentais que participaram do grupo de estudos “Quero paz nas escolas”, que desenvolveu estudos no ano de 2003, às sextas-feiras, na Secretaria Estadual de Educação do Paraná, em Curitiba, bem como os tipos de violências referenciados em trabalhos sobre a temática. Após a elaboração e aplicação do instrumento piloto, com cinco pais ou responsáveis de alunos de escolas públicas estaduais de Curitiba, o instrumento foi reformulado a partir das contribuições oferecidas pelos mesmos e, aplicado nas três escolas. Assim, as 10 DE BRUYNE, P., HERMAN, J. E DE SCHOUTHEETE, M. (1975), Dynamique de la recherche en sciences sociales, Vendôme, P.U.F., 240 p. 11 As entrevistas com os diretores e presidentes foram registradas em gravador com o seu consentimento. Com uma delas foi necessário continuar os registros manualmente devido a um problema que surgiu no aparelho. 12 Ver o anexo 1, instrumento usado para fazer a pesquisa com os pais ou responsáveis. 13 Ver o anexo 2, relatório sobre ocorrências em estabelecimentos de ensino de Curitiba e Região Metropolitana de Curitiba – ano 2000 e de janeiro a julho de 2001. 19 unidades de análise apresentadas no decorrer do trabalho foram retiradas do instrumento. Com relação à denominação “pais ou responsáveis”, compreende-se que muitos alunos estão aos cuidados de responsáveis que são quem respondem por eles junto à escola. Assim, há que se ter em conta essa diversidade presente no cotidiano escolar. Sendo assim, pretende-se oferecer subsídios para a compreensão das violências no espaço escolar, bem como chamar a atenção para a necessidade do estreitamento dos laços entre escolas e pais ou responsáveis para que a comunidade escolar possa refletir em conjunto e pensar em alternativas para prevenir e intervir superando o estado de violências que as escolas atravessam. Portanto, com o objetivo de contribuir para uma compreensão mais ampla da dinâmica das violências no espaço escolar e de chamar a atenção para a importância de estabelecer parceria efetiva com os pais ou responsáveis na gestão da escola é que esta pesquisa foi desenvolvida. 20 CAPÍTULO II – VIOLÊNCIA: MARCAS E REFLEXÕES Presença marcante na sociedade brasileira, bem como em outras sociedades, a começar pelas desigualdades econômicas e, por conseqüência, políticas, sociais, culturais, algumas formas de violências, que em um primeiro momento manifestavam-se para além dos muros escolares, agora fazem parte do seu cotidiano. Fenômeno que vem se revelando paulatinamente a partir da década de oitenta, como objeto de pesquisa (SPOSITO, 2001) e de forma mais intensa na década de noventa, têm causado inquietações entre os profissionais da educação que não sabem como lidar com o problema, pois em um primeiro momento, no seu imaginário, a violência tratava-se de um problema externo à escola. Todavia, se até então, nas escolas, as reflexões que se faziam eram acerca das práticas de indisciplina e não sobre as violências, nos dias de hoje as discussões sobre ambas transformam-se num emaranhado no universo escolar. Analisando a relação pedagógica, a disciplina e a indisciplina na sala de aula, ESTRELA (1994, p. 11), considerando suas especificidades em dado momento histórico, revela que a indisciplina sempre esteve presente nas escolas. Sendo assim, “a manutenção da disciplina constitui com efeito uma preocupação de todas as épocas, como já testemunharam vários textos de Platão, como o ‘Protágoras’ ou as ‘Leis’.” A referida autora afirma que “é preciso distinguir a indisciplina escolar de outras formas de violência (...)”. (ibid., p. 12) Com relação à indisciplina e disciplina ressalva, ainda, que “as regras e o tipo de obediência que elas postulam são relativas a uma dada coletividade, vivendo num determinado tempo histórico, e aos corpos sociais que nela existem”. (ibid., p. 15). O problema da indisciplina faz parte, em maior ou menor grau, do cotidiano de muitas escolas, entretanto, as práticas de violências, dentre elas, as sérias agressões físicas aos professores por alunos e a estes, por seus pares, em algumas escolas têm causado sérias implicações para a prática pedagógica. De acordo com HOUAISS e VILLAR (2001, p. 1051-52), “disciplina é o ensino e a educação que um discípulo recebia do mestre, obediência às regras e aos superiores”; é ainda, “regulamento sobre a conduta dos diversos membros de uma coletividade, imposto ou aceito democraticamente, que tem por finalidade o bem-estar dos membros e o bom andamento dos trabalhos”. Quanto ao termo 21 indisciplina significa “falta de disciplina, desobediência, insubordinação, rebeldia; (...) violação de regras ou ordens (...)”. (ibid., p. 1606). A tenuidade das fronteiras entre violência e indisciplina é analisada por CAMACHO (2000) que utiliza-se do termo tenuidade para mostrar que há diferentes olhares sobre esses dois conceitos. Em sua pesquisa realizada junto a jovens oriundos da classe média, assinala que foi necessário investigar as práticas de violência e indisciplina “(...) uma vez que essas duas formas de conduta se emaranhavam e se confundiam nas relações entre os alunos”. (ibid., p. 37). Os alunos que participaram da sua pesquisa revelaram diferentes percepções sobre essas práticas. Todavia ela assevera que (...) a indisciplina não pode se restringir apenas à indicação de negação ou privação da disciplina ou à compreensão, no sentido pejorativo de desordem, de descontrole ou de falta de regras. A indisciplina pode, também, ser entendida como resistência, ousadia ou inconformismo a regras injustas ou mal aplicadas. Esta última compreensão da indisciplina está vinculada ao entendimento do processo educativo enquanto processo de construção do conhecimento e de formação da personalidade, no qual emergem discussões, movimento, rebeldia, discordância, oposição, desejo de extrapolar fronteiras e busca de respostas por parte dos alunos e dos professores. (ibid., p. 165). A referida autora assinala que é difícil definir o que é violência, no entanto, “mais desafiador ainda é delimitar suas fronteiras com a indisciplina. A maioria dos alunos tem clareza de que a indisciplina é a quebra da regra e de que a violência é muito mais ferir ou machucar o outro física ou psicologicamente do que destruir o patrimônio”. (ibid., p. 169). Por meio da percepção que apresentam, a autora assevera, que os alunos indicam a facilidade com que uma coisa pode ser transformada em outra, demonstrando dificuldades no que tange às caracterizações do que seriam indisciplinas e do que seriam violências. Ao analisar o problema da violência, AQUINO (2002) assinala que a violência, em geral, apresenta-se como uma espécie de resposta a um conjunto de humilhações silenciosas perpetradas todos os dias. Mas há um senão. Não se pode confundir violência com indisciplina nem com incivilidade. São três âmbitos diferentes. A indisciplina, em geral, sinaliza um protesto pontual a um modo de relação interpessoal. A incivilidade, por sua vez, tem a ver com a idéia de uma recusa genérica, quando se rompem as regras de civilidades clássicas. Isso não é violência ainda. Será quando estiverem em curso práticas ativas de danificação da integridade física ou moral do outro. A violência simbólica, relativa à danificação moral do outro é algo onipresente na escola. (ibid., p. 4849). 22 No entanto, para DEBARBIEUX (2004), as incivilidades são microviolências e dentre elas, estão os maus-tratos no cotidiano escolar. Mas, ainda no que tange à indisciplina, AQUINO (2002, p. 51) assevera que “(...) ela tem um caráter bastante interessante, uma vez que questiona as regras estabelecidas não necessariamente para infringi-las, mas para desestabilizá-las. E aí que surge o papel fundamental dos acordos, combinados ou contratos (...)”. Ao refletir sobre indisciplina e violência na escola GUIMARÃES (1996, p. 74) assinala que para compreender a experiência partilhada dos pequenos grupos é preciso analisar “(...) como a sociedade vive e se organiza também através dos reencontros, das experiências, das situações dos diferentes grupos aos quais pertence cada indivíduo”. Neste sentido MAFFESOLI14, citado por GUIMARÃES (ibid., p. 75) salienta que “o social tem como lógica o dever-ser, determinando os caminhos dos indivíduos nos partidos, nas igrejas, nas escolas, nas associações, em todos os grupos estáveis; a socialidade, ao contrário, é a expressão do querer-viver, de uma outra lógica que organiza as minúsculas atitudes cotidianas dos pequenos grupos”. [grifos do autor] Não obstante, GUIMARÃES (ibid., p. 75) assevera que as instituições são fecundadas pela ambigüidade da lógica do dever-ser que tenta uniformizar o comportamento das pessoas e, por uma lógica do querer-viver que constitui-se num espaço no qual cada indivíduo pode colaborar, sentindo-se representado coletivamente, sem perder a sua especificidade. Dessa forma, é importante compreender, como lembra EDWARDS (1997), que os indivíduos são antes de tudo sujeitos sociais que se constituem em relação com os outros, mediados pelas significações sociais de seu mundo e são, portanto, sujeitos que pertencem a uma classe social. Nesta perspectiva, “a relação com as realidades não imediatas se torna possível a partir do cotidiano, ou seja, o sujeito tem acesso ao não cotidiano a partir do cotidiano. E é no dia-a-dia da escola, (...) que o sujeito educativo se expressa em todas as suas dimensões”. (ibid., p. 13). GUIMARÃES (1996, p. 77) destaca, ainda, que “a instituição escolar não pode ser vista apenas como reprodutora das experiências de opressão, de violência, 14 MAFFESOLI, M. A sombra de Dionísio: contribuição a uma sociologia da orgia. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 23 de conflitos, advindas do plano macro-estrutural. É importante argumentar que, apesar dos mecanismos de reprodução social e cultural, as escolas também produzem sua própria violência e sua indisciplina”. Desse modo, o poder de dominação da escola manifesta-se na imposição de normas do dever-ser. Assim, “a disciplina imposta, ao desconsiderar, por exemplo, o modo como são partilhados os espaços, o tempo, as relações efetuais entre os alunos, gera uma reação que explode na indisciplina incontrolável ou na violência banal.” [grifos da autora] (ibid., p. 78). Para APPLE (1989) assim como a escola não é somente reprodutora, os estudantes também não são passivos, eles reinterpretam os conhecimentos ou os aceitam parcialmente. Muitas vezes ocorre a rejeição pura e simples dos significados intencionais e não intencionais das escolas. Ao chamar a atenção para a cultura legitimada pela escola, que ela objetiva e transmite, ROCKWEL (1997) enfatiza que há na escola um conjunto de valores herdados e construídos, de significados culturais que têm suas implicações na prática cotidiana. A autora parte do princípio de que a educação se dá a partir da cultura, reconhecendo que cada um constitui ao longo da sua existência um conjunto de significados e que os conteúdos são instrumentos de luta próprios de cada cultura. Ressalva que há uma falta de compreensão da diversidade, que a escola não reconhece essa diversidade e com isso não consegue trabalhá-la. Afirma que é importante conhecer como a cultura local procura enfrentar essa questão. Dessa forma, depreende-se que a disciplina entendida como obediência a uma regra, revela que alguns atos de violência são disciplinados, como os atos dos soldados em guerra ou de policiais. Entretanto, se consideradas as legislações brasileiras observar-se-á que quando o sujeito comete atos de violência comete atos de indisciplina, de desobediência a uma regra, qual seja a da legislação. A indisciplina nem sempre é “desobediência” à regra, pode ser uma forma de resistência quando se trata de contestação. Assim sendo, a violência é sempre algo ruim, que vai contra os valores humanos de solidariedade, justiça e respeito. Embora, para a pessoa que utiliza-se da violência para se vingar, possa ser um ato de solidariedade e justiça na medida em que comete o ato por assumir as dores de outrem. O termo disciplina entendido no sentido de discípulo – aquele que aprende, remete ao entendimento da 24 indisciplina como um (des)aprendizado, neste sentido pode-se afirmar que a violência culmina em indisciplina, na medida em que o aluno deixará de aprender devido às conseqüências do ato que de uma forma ou de outra irão interferir no seu aprendizado. Todavia, para este trabalho toma-se a concepção de CARAM (1978, p. 13) na qual assevera que a violência apresenta um caráter dialético: a violência sempre supõe duas partes: natureza-cultura; indivíduo-sociedade; ricos-pobres; razão-desrazão; tradição-evolução; ordem-contra-ordem; ingênuos-espertos; desenvolvimento-subdesenvolvimento; opressor-oprimidos; senhor-escravo... Em suma é dialética, oposição de contrários. É nomeada como violência manifesta e latente; que denuncia e esconde; que acomoda e exige; defensiva e agressiva; premeditada e instintiva; opressora e libertadora; destruidora e construtora; negativa e positiva; ilegítima e legítima; justa e injusta. Diante do exposto, é importante perceber que violência sempre esteve presente na história da humanidade. Entretanto, atualmente os atos de violência revestem-se de novas formas e ela atinge de uma maneira ou de outra todas as pessoas, independente de classe social, raça, gênero religião ou cultura. Este aspecto é ressaltado por ODALIA (1983) quando assinala que ironicamente podese dizer que há uma democracia na violência, pois ela atinge à todas as pessoas sem distinção. [grifos nossos]. As novas formas da violência têm se manifestado de diferentes maneiras, dentre elas por meio do terrorismo ou da “brincadeira”. De acordo com ABRAMOVAY e RUA (2002, p. 21) “o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 que derrubou as duas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ilustra umas das características essenciais do fenômeno da violência, sua capacidade de continuamente apresentar novas e inimagináveis formas de manifestação”. Pode-se complementar o exemplo lembrando o dia onze de março de dois mil e quatro quando terroristas realizaram outro atentado brutal, por meio de ataques múltiplos às estações ferroviárias em Madri, capital da Espanha. Os trens transportavam trabalhadores que ao invés de seguirem em direção ao seu ofício se depararam com a dor ou com a morte. Deste atentado resultaram cerca de duzentos mortos, aproximadamente mil e quatrocentos feridos, a dor das famílias e, novamente, a comoção mundial com tamanha brutalidade. O terrorismo é uma forma de violência que vem se intensificando dia-a-dia e, 25 cuja especificidade é matar o diferente. As causas e interesses dos grupos que o praticam, são muitas vezes desconhecidas das suas principais vítimas. As pessoas que praticam terrorismo são também vítimas que encontram nas violências uma forma de manifestar seu descontentamento com um sistema que também os oprime, não obstante a matança generalizada que vem ocorrendo não se justifica. No que refere-se, ainda, às novas formas da violência, FREIRE (2002) analisa a violência dos cinco adolescentes de classe média que atearam fogo num índio Pataxó que dormia numa estação de ônibus em Brasília, em vinte de abril de mil novecentos e noventa e sete, um dia após o “Dia do Índio”, comemorado no país no dia dezenove de abril. O ato foi cometido de forma banal, pois ao serem detidos pela polícia os jovens disseram que estavam brincando. FREIRE (ibid., p. 66) assevera, “que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável destes moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer”. O conceito de violência é abordado por meio de diferentes perspectivas por diversos autores. Em latim tem-se violentia, violentus que significa violência. De acordo com HOUAISS e VILLAR (2001), violência é qualidade do que é violento, ação ou efeito de violentar, de empregar força física contra algo ou alguém; é definida, ainda, como intimidação moral contra alguém, ato violento, crueldade ou força. Em FERREIRA (1994-95), o conceito violência é definido também como qualidade de violento, ato violento; juridicamente seria constrangimento físico ou moral, uso da força e coação. A violência é caracterizada ainda como “um ato que se exerce com força contra um obstáculo. Daí: comportamento de uma pessoa contra uma outra que ela considera como um obstáculo à realização de seu desejo [grifo do autor]”. (DUROZOI, 1996, p. 485). Conforme BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO (1986, p. 1291) por violência entende-se a intervenção física de um indivíduo ou grupo contra outros sujeitos ou grupos. Afirmam que para que a violência se caracterize é preciso que haja intervenção física voluntária com a finalidade de destruir, ofender e coagir. Normalmente a violência é exercida contra a vontade da vítima. Assim, a categoria violência “encerra leituras diferenciadas que incorporam práticas inteiramente diversas, segundo o grupo ou classe social que as vivencia. 26 (...) não existe uma violência, mas violências que devem ser entendidas em seus contextos e situações particulares”. (BRITTO, 1994, p. 150). Frisando que a violência é um fenômeno complexo, inegável na vida social, CARAM (1978, p. 10) afirma que é preciso considerar as suas causas mais profundas e que “(...) a violência também pode ser considerada como um ato e como um estado. [grifos do autor] Como ato pode ser enquadrada nas relações interpessoais diretas. Como estado implica exigências maiores, devido à complexidade e interdependência das situações”. Não obstante, em algumas escolas supera-se o estado de violência com práticas pedagógicas específicas, porém em outras, algumas práticas tendem a instaurar este estado de violência. Dessa forma, as violências nas escolas não são, portanto, fatos permanentes e imutáveis, mas sim reflexos de uma realidade complexa na qual vários aspectos intramuros15 inerentes à cultura da escola (FORQUIN, 1993), que refere-se a sua vida própria, seus ritmos e seus ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus modos próprios de regulação e transgressão, seu regime próprio de reprodução e gestão de símbolos e, à cultura escolar, que é o conjunto de conteúdos cognitivos e simbólicos que selecionados, organizados, “normatizados”, “rotinizados”, constituem habitualmente o objeto de uma transmissão deliberada no contexto das escolas, bem como a aspectos extramuros, relacionados à realidade econômica, política, social e cultural, entre outras, podem influir para que determinadas situações estejam ocorrendo. De acordo com FORQUIN (ibid., p. 14) (...) a cultura é o conteúdo substancial da educação, sua fonte e sua justificação última: a educação não é nada fora da cultura e sem ela. Mas, reciprocamente, dir-se-á que é pela e na educação, através do trabalho paciente e continuamente recomeçado de uma ‘tradição docente’ que a cultura se transmite e se perpetua: a educação ‘realiza’ a cultura como memória viva, reativação incessante e sempre ameaçada, fio precário e promessa necessária da continuidade humana. Desse modo a cultura da escola é constituída por uma série de atos que podem ser entendidos como violentos. A forma como a escola se relaciona com a sua comunidade reflete essa cultura. Porém, ela faz parte de um movimento social 15 Os termos intramuros e extramuros são empregados por ZALUAR, Alba; LEAL, Maria Cristina. Violência extra e intramuros. Revista Brasileira de Ciência Sociais, São Paulo, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, v. 16, n. 45, p. 145 – 164, fev. 2001. 27 mais amplo, portanto além de reproduzir ela também produz as relações sociais presentes neste contexto. Ao referir-se à violência MICHAUD (1978) assevera que “há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais”. (MICHAUD16, apud MICHAUD, 1989, p. 10 -11). Enfatizando a complexidade em se conceituar a violência, MINAYO, et al. (1999, p. 14) destacam que ela é “um fenômeno de conceituação complexa, polissêmica e controversa. Entretanto, (...) é representada por ações humanas realizadas por indivíduos, grupos, classes, nações numa dinâmica de relações, ocasionando danos físicos, emocionais, morais e espirituais a outrem”. Outro aspecto da violência é que nas diferentes sociedades não há apenas a que se revela nas brutalidades que ocorrem diariamente, existem também as formas de violência ocultas, como as que se manifestam por meio, do gesto, da postura, do tom de voz e do olhar: Pelo olhar, a violência faz suas graduações mais finas e mais variadas, como se existisse uma afinidade particular, quase metafísica, entre o olhar e a violência. Existem os olhares dignos de Górgona, que petrificava aqueles que a contemplavam – olhares duros que congelam e assombram, impondo diretamente sua violência, olhares ditos inquisidores, desdenhosos, penetrantes, que interpelam, suspeitam, ‘fuzilam’; olhares que importunam e não largam o interlocutor; olhares de uma tal suavidade e doçura, que nos levam à perdição, nos afundam dentro deles (...). (DADOUN, 1998, p. 67). [grifos do autor]. O caráter simbólico da violência é analisado por BOURDIEU (1998) que faz uma reflexão sobre a sociedade francesa do século XX, que tem como uma de suas características fundamentais a sua estrutura de classes, decorrente da divisão social do trabalho, baseada na apropriação diferencial dos meios de produção. Para ele o sistema educacional preenche duas funções estratégicas para a sociedade capitalista: a reprodução da cultura e a reprodução da estrutura de classes. Uma das funções se manifesta no mundo das “representações simbólicas” ou ideologia, a outra atua na própria realidade social. 16 MICHAUD, Yves. Vilence et politique, Col. “Les Essais”, Paris, Gallimard, 1978. 28 Entretanto, as duas funções estão intimamente interligadas, uma vez que a função global do sistema educacional é garantir a reprodução das relações sociais de produção. Para que essa reprodução esteja totalmente assegurada, não basta que sejam reproduzidas as relações fatuais que os homens estabelecem entre si relações de trabalho e relações de classe, precisam também ser reproduzidas as representações simbólicas, ou seja, as idéias que fazem dessas relações. Sendo assim, BOURDIEU (ibid., p. 296) assevera que o sistema educacional garante a “transmissão hereditária do poder e dos privilégios, dissimulando sob a aparência da neutralidade o cumprimento desta função”. Desse modo, o sistema educacional consegue reproduzir por meio de uma violência simbólica as relações sociais, ou seja, a estrutura de classes, reproduzindo de maneira diferenciada a cultura, isto é a ideologia da classe dominante. Assim, o referido autor considera o processo educativo uma ação coercitiva, definindo a ação pedagógica como um ato de violência, de força. Neste ato são impostos aos educandos sistemas de pensamento diferenciais que criam nos mesmos hábitos diferenciais, ou seja, predisposições para agirem segundo um certo código de normas e valores que os caracteriza como pertencentes a um certo grupo ou uma classe. BOURDIEU (1975, p. 92) afirma que o habitus consiste em (...) sistema de disposições duradouras e transferíveis, estruturadas predispostas a funcionar como estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações que podem estar objetivamente adaptadas ao seu fim, sem supor a busca consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los objetivamente ‘reguladas’ e ‘regulares’, sem ser o produto da obediência a regras e, ao mesmo tempo, coletivamente orquestradas sem ser produto da ação organizada de um diretor de orquestra. Dessa maneira, BOURDIEU (1998) afirma que o sistema educacional não reproduz estritamente a configuração de classes, como fazia o anterior, mas consegue impondo o habitus da classe dominante, cooptar membros isolados das outras classes. Esses membros tendo familiarizado os esquemas e rituais da classe dominante, defendem e impõem de maneira mais radical à classe dominada os sistemas de pensamentos que a fazem aceitar sua sujeição à dominação. O autor supracitado assinala ainda, que além de promover aqueles que segundo seus padrões e mecanismos de seleção, demonstram-se aptos a participarem dos privilégios e do uso do poder, o sistema educacional cria sob uma 29 aparência de neutralidade, os sistemas de pensamento que legitimam a exclusão dos não privilegiados, convencendo-os a se submeterem à dominação, sem que percebam o que fazem. O poder simbólico é exercido pela ocultação, quando as pessoas se dão conta desse poder ele deixa de ser simbólico, passando a ser coercitivo. As formas simbólicas são instrumentos de dominação. De modo geral a exclusão é imputada à falta de habilidades e capacidades, ao mau desempenho e outros. Dessa forma, a escola cumpre, simultaneamente, sua função de reprodução cultural e social, qual seja, a de reproduzir as relações sociais de produção da sociedade capitalista. Assim sendo, o caráter violento está presente “(...) num sistema educativo fundado sobre a competição, a seleção, a discriminação, a exclusão – com a violência dramática do fracasso, que tende quase sempre a conduzir à desvalorização de si, aos vícios do álcool e droga, à delinqüência, ao suicídio. (DADOUN, 1998, p. 99). [grifos do autor]. Prosseguindo com a análise acerca da violência, suas marcas e reflexões, constata-se ainda que “a definição do caráter violento de um ato depende dos valores culturais de cada grupo social, das circunstâncias em que foi praticado e até de disposições subjetivas (...)”. (LOPES, 2001, p. 16). Dentre os fatores que caracterizam a violência estão o uso da força e a violação de um direito, assim, “o uso injusto da força-física, moral e psicológica – com a finalidade de privar um ser humano do seu legítimo direito à vida, à saúde e à liberdade. Neste último caso, quando o homem é impedido de ter uma opção livre, quando é obrigado a fazer o que é contrário à sua vontade, ideais e interesses”. (SORGE, 1993, p. 9). A caracterização da violência pela sociedade por meio do senso comum reporta-se ao emprego da força física, não obstante, “violência não se limita ao uso da força física, mas a possibilidade ou ameaça de usá-la constitui dimensão fundamental de sua natureza”. (VELHO, 2000, p. 11). Decorre daí a idéia de que o poder permeia a ação violenta, ou ainda, a sua intenção, partindo do pressuposto de que o exercício do poder carrega, em sua essência, as diferenças econômicas, sociais e culturais, no qual a história sempre demonstrou a heterogeneidade de suas ações, sobretudo as repressoras. Destacando que o instrumento da violência é o poder, o poder político, religioso, cultural, social ou outro DAUDON (1998, p. 81-82), assinala que há uma 30 proximidade entre poder e violência. O poder utiliza-se da violência e esta exprime uma certa forma de poder. Os vínculos são tão estreitos “(...) que chega-se a pensar que o único problema real do poder é a violência, e que a única verdadeira finalidade da violência é o poder – não importa sob que forma. Mais um esforço de união ou de desarticulação, e será permitido dizer que a violência se mantém no coração do poder e o poder se mantém no coração da violência”. Desse modo, o entendimento de poder transcende a repressão. Assim, “deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir” (FOUCAULT, 1999, p. 8). O autor assinala ainda, que a violência como fruto da repressão, reproduz-se a partir da condição de supremacia de dirigir, intervir e tentar modificar as ações de alguém ou de grupos sociais, pela dominação, pela obediência incontestável e cega a determinados princípios e interesses, ou seja, não é interessante para o sistema que os oprimidos se organizem e tomem consciência de sua sujeição. Para SANTOS (2001, p. 107) “a violência configura-se como um dispositivo de controle, aberto e contínuo. Força, coerção e dano em relação ao outro, enquanto atos de excesso, presentes nas relações de poder – seja no nível macro, do Estado, seja no nível micro, entre os grupos sociais –, vêm a configurar a violência social contemporânea”. De acordo com CHAUÍ (1998, p. 33-34), “(...) violência é um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão, intimidação, pelo medo e pelo terror”. WAISELFISZ (1998) assinala ainda que (...) O alargamento da nossa visão de violência se expressa também no fato de não se considerar apenas a manifestação via agressão física. Engloba também situações de humilhação, exclusão, ameaças, desrespeito, indiferença, omissão para com o outro. A violência, hoje, está ligada ao conceito de alteridade e se expressa nas formas e mecanismos pelos quais a sociedade convive com as diferenças. (ibid., p. 9). Um fato a ser observado é que na história antiga e na contemporaneidade os dados relativos à violência não condizem com a realidade, pois “a apreensão, o registro e a avaliação da violência nunca são neutros, mas pelo contrário, o foco de um conflito que desdobra o confronto direto dos adversários. Os que dominam os 31 canais de comunicação ou os procedimentos de arquivamento têm, dependendo do caso, interesse em exagerar ou diminuir a violência de seus adversários ou a deles próprios”. (MICHAUD, 1989, p. 17). Nestas condições, a banalização da violência é identificada como um processo normal, pois, ao agir contra os semelhantes em favor de uma “causa justa”, onde apenas um lado tem suas razões apresentadas à sociedade, favorece-se interpretações fragmentadas referentes aos reais motivos que geram determinados conflitos internos e externos em certas nações. Não obstante, LONDOÑO e GUERRERO (2000) também asseveram que a violência é um termo usado para descrever situações muito diversas e por essa razão gera muitas confusões e controvérsias. Assim, existem várias maneiras de classificar a violência e cada classificação serve a um determinado propósito. Segundo os autores supracitados, uma primeira distinção é aquela entre o ato violento e o seu correspondente registro. Muitas ações violentas não são registradas e às vezes nem são percebidas socialmente e conseqüentemente não são conhecidas. Um exemplo é o da violência doméstica, pois grande parte dos casos não são registrados. Sendo assim, a violência pode ser classificada segundo a pessoa que a sofre, em violência contra as crianças, contra a mulher, o idoso e diferenciar segundo a natureza da agressão em física, psicológica, sexual e pode ser catalogada segundo o motivo, político, racial, religioso, cultural entre outras e também segundo o local onde ocorre, em doméstica, urbana, rural ou no local de trabalho. Entretanto, LONDOÑO e GUERRERO (2000) estabelecem, ainda, duas grandes categorias de violência: a intencional e a não intencional. A primeira inclui os atos onde houve a intenção de provocar dano, tal como a lesão corporal. Na segunda os atos de onde decorrem os danos, não são resultantes de uma intenção prévia por parte do agressor. Dessa forma, de acordo com os referidos autores, a violência é definida como o uso ou ameaça de uso da força física com a intenção de causar dano. Esta definição tem as suas vantagens pela sua facilidade de registro, mas tem também as suas limitações, pois exclui outras formas mais freqüentes de violência como a psicológica e desconsidera os casos em que se usa a força física sem a intenção de causar lesão, resultando nos chamados acidentes. A violência contra a propriedade 32 é aquela em que se produz dano econômico contra o patrimônio e contra a integridade da pessoa. O furto e o roubo são as manifestações mais freqüentes e podem apresentar-se com ou sem o uso da força física. Entende-se que o patrimônio a que se refere os autores citados acima, engloba não só o físico, mas também o intelectual. Desse modo, na época presente amplia-se a violência contra a propriedade intelectual, pois com o avanço da tecnologia, em especial da Internet, este tipo de atitude torna-se cada vez mais comum, entretanto é considerado crime previsto em Lei no Brasil. A classificação que separa os atos violentos em instrumentais e expressivos pode ter implicações políticas muito importantes. LONDOÑO e GUERRERO (ibid.) assinalam que na primeira categoria estão os roubos a mão armada e os homicídios com fins de extorsão e com fins de proveito para o agressor. Na segunda categoria se incluem os atos violentos que são produtos da ira de pessoas sob o efeito de álcool e em geral todos aqueles em que não se pode perceber uma intenção de proveito. Refletindo sobre a violência e a cultura no Brasil, OLIVEN (1989) problematiza a maneira pela qual a dominação de classe é refletida na cultura e por ela mediada em cidades brasileiras. Assinala que a violência está presente na história brasileira a começar pela repressão aos movimentos populares, como o do Quilombo dos Palmares, o da Cabanada, Balaiada entre outros. Assim, o uso da força permeou acontecimentos nos quais o Estado não estava diretamente ligado, como as guerras civis ou a vida cotidiana dos homens livres na ordem escravocrata. O autor observa que a violência e a tortura com que a polícia tem tratado as classes populares têm função eminentemente política – no sentido de contribuir para preservar a hegemonia das classes dominantes e que o aumento da violência se deu tanto na cidade quanto no campo. Portanto, cabe falar em violência na cidade e não em violência urbana, pois, “optar pelo termo violência na [grifo do autor] cidade implica em preservar a idéia de que a violência tem raízes sociais, manifestando-se em contextos diferentes que não podem, entretanto, ser considerados como seus causadores”. (ibid., p. 16). Desse modo, afirma que o tema da violência no Brasil passa obrigatoriamente pela discussão da democracia. É preciso que “haja um real estado de direito e uma efetiva participação da população nas decisões que afetam a sua vida” 33 (ibid., p. 25). Este autor ressalva também, que não é possível associar criminalidade à pobreza, pois apesar de que a falta de oportunidade de trabalho pode levar à criminalidade, não significa que todos os pobres tornam-se delinqüentes para sobreviver. De acordo com LONDOÑO e GUERRERO (2000) a violência na América Latina tem alcançado níveis altíssimos, sendo um dos seus principais problemas. A crescente ineficiência do setor educativo é um dos principais fatores para aumentar o nível da violência na região, associada ao aumento da pobreza e das desigualdades sociais. Para APPLE (1989) a crise capitalista não é só econômica, é política, cultural, ideológica e acima de tudo estrutural. Assevera que os problemas são sistêmicos, cada um causado por outros. Assim, o modo de produção ao reproduzir as condições de sua própria existência, cria antagonismos e contradições em outras esferas, dentre elas na escola que são instituições culturais e refletirão as mudanças no processo de trabalho, na cultura e na legitimidade. Assim, é importante compreender que a escola está localizada no interior de uma trama mais ampla de relações sociais e pode se constituir num terreno de transformação no qual ações significativas podem ser desenvolvidas. Ao analisar a violência SORGE (1993), assevera que ela está disseminada em todas as instâncias de nossa sociedade, na família pela ação coercitiva dos pais, no Estado pelo regime autoritário, na sociedade pelas Leis, na igreja pelos limites que impõe, no trabalho pela submissão a que o trabalhador está exposto, na escola pelo autoritarismo dos profissionais da educação, nos meios de comunicação com sua propaganda ideológica, entre outras. Inúmeros fatores presentes em nosso meio estimulam a violência. A sociedade de consumo ao alimentar aspirações e despertar esperanças que não se concretizam acaba marginalizando muitos indivíduos do processo de produção e consumo, destrói valores morais, exalta o prazer e o dinheiro como valores supremos da vida. De acordo com SORGE (1993), assim, a agressividade explode diante do menor desagrado e a violência decorrente é desproporcional às causas que deram origem à situação, assumindo progressivamente formas mais bárbaras de se manifestar. Muitos que estão descrentes com a atual situação brasileira de desigualdades sociais têm recorrido à violência como recurso, acreditando ser ela 34 um instrumento de mudança, gerando situações mais violentas ainda. A violência apresenta sentidos diversos que, como afirma MICHAUD (1989, p. 7), "(...) indicam duas orientações principais: de um lado, o termo ‘violência’ designa fatos e ações; de outro, designa uma maneira de ser da força, do sentimento ou de um elemento natural – violência de uma paixão ou da natureza. No primeiro caso, a violência opõe-se à paz, à ordem que ela perturba ou questiona. No outro, é a força brutal ou desabrida que desrespeita as regras e passa da medida”. Assim, para onde quer que nos voltemos, encontramos portanto no âmago da noção de violência a idéia de uma força, de uma potência natural cujo exercício contra alguma coisa ou contra alguém torna o caráter violento. À medida que nos aproximamos desse núcleo de significação, cessam os julgamentos de valor para dar lugar à força não qualificada. Tal força, virtude de uma coisa ou de um ser, é o que é, sem consideração de valor. Ela se torna violência quando passa da medida ou perturba uma ordem. (ibid., p. 8). Enfatizando que a palavra violência apresenta variações em suas significações MICHAUD (1989) assevera, ainda, que a idéia da força constitui seu núcleo central e contribui para fazê-la designar prioritariamente uma gama de comportamentos e de ações físicas. A violência é, antes de tudo, uma questão de agressões e de maus tratos. Por isso a consideramos evidente: ela deixa marcas. No entanto essa força assume sua qualificação de violência em função de normas definidas que variam muito. Desse ponto de vista, podem haver quase tantas formas de violência quantas forem as espécies de normas. (MICHAUD, 1989, p. 8). Em sua análise sobre a violência WAISELFISZ (1998) destaca que novos estilos de relações sociais resultam em mudanças nas formas de violência e nas respostas sociais, bem como transformações na natureza das relações sociais e nas percepções sobre os direitos humanos. As preocupações acerca da violência se devem ao medo e ao desconforto com a organização da vida cotidiana nas grandes cidades brasileiras. Não obstante, os esforços para eliminar as causas geradoras da violência irão defrontar-se com fortes interesses como, por exemplo, o que está por detrás do tráfico de drogas que se constitui numa das causas mais freqüentes dos atos de violência, segundo GUIMARÃES (1998) e ZALUAR (1997). Para um determinado grupo de pessoas a violência é rentável, existem indústrias que lucram com a 35 criminalidade, quais sejam, as de prestação de serviços de segurança, o tráfico de drogas ou diferentes sujeitos que atuam tanto em setores públicos quanto na iniciativa privada, portanto, combatê-la significa desafiar os interesses dessas pessoas que não medem esforços para continuar usufruindo a custa da desgraça alheia. Entretanto, as pessoas que praticam essa violência encontram-se em risco permanente uma vez que a violência originária da disputa entre estes grupos, não raras vezes, volta-se contra elas mesmas. Diante do exposto, depreende-se que o emprego da violência ao longo da história sempre esteve presente e é uma constante entre grupos, povos e nações. Destarte, de acordo com ARENDT (1985, p. 6) ninguém que se dedique à meditação sobre a história e a política consegue se manter ignorante do enorme papel que a violência desempenhou sempre nas atividades humanas, e à primeira vista é bastante surpreendente que a violência tão raramente tenha sido objeto de consideração. (...) Qualquer um que procurasse algum sentido nos registros do passado estava quase que destinado a encarar a violência como um fenômeno marginal. Assim, a violência sempre caracterizou a relação entre os povos. Na escola a cultura escolar está imersa na cultura de violência na medida em que a seleção dos conteúdos que compõem esta cultura não ocorre de forma neutra, mas se pauta em relações de poder. 2.1 AS COMPREENSÕES DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS SOBRE VIOLÊNCIA As diversas formas de violências carregam consigo inúmeros significados, mas que compreensões têm os pais ou responsáveis sobre a violência? A fim de desvelar esta questão pediu-se a eles que a definissem e, nas respostas obtidas, surgiram inúmeras conceituações. Dos noventa e três pais ou responsáveis entrevistados, 7,5% não responderam à questão. Não obstante, assim como foi explicitado pelos diferentes autores citados anteriormente, verificou-se, através das compreensões dos pais ou responsáveis que eles também conceituam violência de várias maneiras. Desse modo, da mesma forma que nas definições apresentadas por jovens em ABRAMOVAY (2002, p. 98), há também nas compreensões dos pais ou responsáveis que responderam à pesquisa uma pluralidade de elementos. É 36 importante ressaltar, ainda, que “o que é caracterizado como violência varia em função do estabelecimento escolar, da posição de quem fala (professores, diretores, alunos ...), da idade e do sexo; sendo, portanto, uma conceituação ad hoc mais apropriada ao lugar, ao tempo e aos atores que a examinam”. (ABRAMOVAY, 2002, p. 95) [grifo da autora]. Cerca de 54,8% das definições dos pais ou responsáveis reportam-se à agressão física, verbal, estupro, assassinato, roubos, furtos, depredação, seqüestros, tortura, disparo de armas, tráfico e uso de drogas entre outros. Chama a atenção o fato de que a grande maioria associou a violência ao uso da força física, à agressão verbal e muitas vezes à própria criminalidade. A associação da violência com a criminalidade, também surgiu nas pesquisas realizadas com jovens por MINAYO (1999) e ABRAMOVAY (2002). A violência enquanto uso da força física está presente nas definições de DADOUN (1998), SORGE (1993), HOUAISS e VILLAR (2001), FERREIRA (1994-95), BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO (1986), CHAUI (1998), LONDOÑO e GUERRERO (2000) e MICHAUD (1989). De acordo com os pais ou responsáveis violência é: “Todos os tipos de agressões físicas e verbais”. (Feminino, 34 anos, Primeiro Grau Incompleto). “São ameaças, brigas, roubos, mortes. Esse colégio é violento quase todos os dias acontecem brigas”. (Feminino, 37 anos, Primeiro Grau Completo). “Ato de bater, gangues”. (Feminino, 44 anos, Segundo Grau Completo). A violência física ocorre por meio do uso da força, da agressão com ou sem o uso de objetos, podendo ou não deixar lesões no corpo, pois depende do tipo de instrumento que foi utilizado. A violência verbal ocorre com freqüência na sociedade, não fere o corpo, mas pode causar mágoas profundas. Segundo VELHO (2000, p. 18) embora a tensão social sempre estivesse presente, com eventuais irrupções de violência, tendiam a predominar acordos e negociações que diluíam a ameaça do confronto físico. À medida que o individualismo foi assumindo formas mais agonísticas e a impessoalidade foi, gradativamente, ocupando espaços antes caracterizados por contatos face-to-face, a violência física foi se rotinizando, deixando de ser excepcional para tornar-se uma marca do cotidiano. 37 Desse modo, a ausência do diálogo na resolução dos conflitos tem culminado freqüentemente em agressões físicas entre as pessoas que compõem a comunidade escolar, em especial, entre os alunos. Nas conceituações apresentadas abaixo, chama a atenção à ênfase dada à questão do estupro que também se constitui numa violência à integridade física: “Assaltos, trânsito, seqüestros, prostituição, estupro”. (Masculino, 41 anos, Primeiro Grau Completo). "Violência é matar, agredir, estuprar, matar as pessoas que não tem nada a ver com isso". (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Incompleto). "Violência para mim é quando alguém mata, bate, espanca e violenta uma criança com três anos". (Feminino, 32 anos, Primeiro Grau Incompleto). A violência sexual pode atingir a todos e ocorre quando uma pessoa é forçada a manter ou presenciar relações sexuais contra a sua vontade com ou sem violência física. O incesto e o assédio sexual também se enquadram nesta categoria. Outro grave problema brasileiro, diz respeito à exploração sexual infantil, que como assinala CALLIGARIS (1996), é quase endêmica em nosso país. Outro aspecto que surgiu nas conceituações dos pais ou responsáveis foi a problemática das drogas que também estão presentes no espaço escolar. Eles acreditam que há uma relação direta entre o mundo das drogas e a violência. No entanto, para analisar a questão das drogas é preciso ter em conta os fatores estruturais presentes na sociedade (CASTRO e ABRAMOVAY, 2002). Evidencia-se aqui, ainda, o fato de que as drogas também foram emparelhadas com a violência contra crianças e mulheres. Assim, para eles violência é: “Droga, tortura contra criança e mulheres”. (Feminino, 42 anos, Não freqüentou a escola). “É mau trato de crianças e drogas”. (Masculino, 37 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Droga, violência contra criança”. (Masculino, 46 anos, Não freqüentou a escola). 38 A violência no lar, também conhecida como doméstica, familiar ou intrafamiliar se constitui em uma das formas de violências com maior incidência na sociedade e decorre muitas vezes da ausência de condições econômicas mínimas que possibilitem que os membros da família tenham uma vida digna. De acordo com CANDAU, LUCINDA e NASCIMENTO (2001, p. 35) “a violência familiar, sofrida pela criança e o adolescente, tem sido motivo de grande preocupação dos educadores. Apesar de estar localizada, quase sempre, fora dos muros escolares, tal forma de violência interfere significativamente no cotidiano escolar. Torna-se cada vez mais freqüente o fato de crianças chegarem à escola vítimas de violência familiar. São diversos os fatores que podem estar relacionados a esta manifestação de violência”. A família enquanto instituição social, ao longo da história apresenta-se de diversas formas e, tem grande responsabilidade com relação ao bem estar das crianças e adolescentes. Entretanto, pode apresentar contradições e muitos conflitos que se manifestam devido a questões culturais e relações de poder que podem resultar em maus tratos dispensados mais freqüentemente às crianças, jovens ou mulheres. Em alguns lares há muita divergência entre jovens que estão ainda construindo sua identidade e adultos. As violências contra crianças e adolescentes decorrem ainda da negligência, omissão, abandono por parte dos responsáveis, da falta de cuidados de que necessitam para o seu bom desenvolvimento e, ambos podem sofrer às demais formas de violências apresentadas. Em muitos lares os pais ou responsáveis mesmo conscientes da necessidade de um tratamento terapêutico para criança ou adolescente não permitem que ele o faça, em algumas situações por não disporem das condições econômicas necessárias em outras por negligência. Há ainda, os que induzem os filhos a seguirem uma determinada profissão ou se casar para realizar um desejo seu, usando o filho para satisfazer uma vontade própria. No lar ou na sociedade manifestam-se, ainda, as violências contra a mulher. Estas ocorrem quando ela é impedida de exercer uma profissão, é coagida devido a uma conduta machista pelo pai, marido ou filho a ficar em casa contra a sua vontade, quando sofre violência e assédio sexual, ameaças, discriminação no trabalho e na sociedade, constrangimentos e todo tipo de agressões que violam a sua integridade física, moral ou psicológica. As seqüelas da violência são diferentes para cada mulher dependendo da sua cultura e da sua condição social. Em alguns 39 países as mulheres estão sujeitas a se portarem de determinada forma com relação às roupas que usam ou postura diante do marido que para elas não necessariamente se constitui em violência. Dentre os pais ou responsáveis que responderam à questão 26,9% assinalaram em suas conceituações aspectos que abrangem às violências simbólicas, morais, psicológicas, preconceitos, discriminações, desrespeito, falta de valores humanos e ameaça. A esse respeito, VELHO (2000) assinala que a violência não se limita à força física, mas também a possibilidade de usá-la. A questão da discriminação evidencia-se na definição de dois pais ou responsáveis, bem como a ausência do Estado no que tange às suas obrigações sociais: “É agressão física, verbal, discriminação racial e religiosa”. (Masculino, 37 anos, Segundo Grau Incompleto). “Discriminação na escola, falta de polícia nas escolas, falta mais atenção pelas pessoas que fazem parte da educação, nas escolas mais distantes do centro da capital”. (Masculino, 49 anos, Primeiro Grau Incompleto). Sendo assim, a violência racial ocorre quando uma pessoa em função de sua raça recebe remuneração inferior à outra de raça diferente, tem dificuldade de conseguir trabalho, é impedida de ir e vir, torna-se alvo de piadas preconceituosas, é tratada com desdém por pertencer a um grupo diferente, ou seja, sofre discriminação, preconceito e por vezes segregação. Desse modo, apesar da diversidade dos grupos humanos, alguns valores recebem uma adesão mais ampla, mas isso não pode dissimular a divergência e a heterogeneidade das convicções. A idéia de violência cristaliza essa heterogeneidade e essas divergências, tanto que o recurso a ela para apreender os fatos é o indício mais seguro de que estão em causa valores importantes – e no centro de um antagonismo. (MICHAUD, 1989, p. 14). Os depoimentos acima demonstram que a discriminação ocorre não só com os alunos, como denunciam pais ou responsáveis, mas também com as escolas dependendo da região na qual estão inseridas. Este aspecto pode ser observado no relato presente no documento sobre a história do Colégio Ambiente, apresentado mais adiante, no qual assinala-se “ouvimos várias vezes comentários de visitantes 40 da Secretaria de Educação do Paraná que se soubessem onde a escola ficava não teriam chegado perto ou então teriam providenciado mais seguranças para acompanhá-los”.17 As escolas que mais precisam que o Estado lhes assegure condições adequadas de funcionamento são discriminadas por localizarem-se em regiões consideradas perigosas, conseqüentemente, têm seus problemas agravados face ao descaso das autoridades competentes. Com relação à discriminação racial e religiosa, as escolas não têm levado em conta a pluralidade cultural da comunidade escolar. BAIBICH (2002) observa que a ausência de pluralidade na educação e a prática da negação do preconceito na escola contribuem para a manutenção do mesmo no tecido social. Assevera que apesar das evidências quotidianas, o Brasil considera-se livre de preconceitos, tratando a situação como se ela não representasse um problema. A escola que é um espaço privilegiado de transmissão da cultura tem feito vistas grossas para o problema do preconceito, na medida em que nega sua existência. Desse modo, uma vez que não se admite a existência do fenômeno, também não se buscam formas de combatê-lo. BAIBICH (ibid.), ressalva, ainda, que de modo geral está clara a intenção da escola em trabalhar a questão do preconceito, mas as atividades desenvolvidas visam mais abafar o problema do que de fato a sua modificação, pois a idéia de “colocar o dedo na ferida” assusta a todos e assim se dá o processo de “varredura para debaixo do tapete” ou “técnica Fred Flintstone” no espaço escolar18. Dessa forma, (...) numa sociedade que é, ou pretende ser, plenamente democrática, a filosofia e a prática educativas devem orientar-se no sentido de formar a cidadania plena, garantir os inalienáveis direitos humanos, promover o respeito à diversidade, eliminar as desigualdades sociais, apagar o que é tido como depreciativo nos grupos estigmatizados, desaprovar as atitudes e comportamentos sociais que discriminam indivíduos e grupos. (PEREIRA, 2001, p. 174). O referido autor lembra ainda, que a Educação formal é a chave para a cidadania, ela se forma com a abertura da estrutura social a todos aqueles que 17 18 DOCUMENTO HISTÓRIA DO COLÉGIO, 2003, mimeo. A “técnica Flintstone” no espaço escolar é descrita por BAIBICH (2002) em seu artigo “Os Flintstones e o preconceito na escola”, no qual assevera que a escola ao invés de problematizar o preconceito adota a prática da negação do mesmo agindo da mesma forma que no desenho dos Flintstones jogando a sujeira para debaixo do tapete e contribuindo para manutenção do preconceito no tecido social. 41 estão marginalizados. Ainda com relação às compreensões dos pais ou responsáveis acerca da violência, verifica-se nas conceituações abaixo que alguns pais ou responsáveis reconhecem na violência o seu caráter desumano e cruel: “É um ato desumano” (Feminino, 43 anos, Primeiro Grau Incompleto). "É uma coisa ruim destruidora, maléfica". (Feminino, 33 anos, Primeiro Grau Incompleto). “É um ato criminoso e diabólico. Falta de respeito com o seu semelhante". (Feminino, 45 anos, Primeiro Grau Incompleto). Em apenas uma conceituação assinala-se que a violência também pode resultar de uma patologia: “A violência pode ser física ou verbal. Ambas são feitas por pessoas desequilibradas ou com algum distúrbio mental”. (Masculino, 39 anos, Segundo Grau Completo). Outro aspecto presente foi a conceituação da violência como violação moral e psicológica. A violência psicológica também não deixa marcas visíveis, mas pode causar traumas que marcam os indivíduos por toda a sua vida. Ela ocorre quando uma pessoa é desrespeitada, ofendida moralmente, é ameaçada, rejeitada, pressionada e impedida de exercer o seu direito de cidadã. Assim, para eles violência é: “Tudo aquilo que viola sua integridade física, moral e psicológica”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Completo). “O ato de desrespeito à ética e a moral”. (Feminino, 29 anos, Segundo Grau Completo). “Violência é tudo aquilo que fere a dignidade, o físico, o emocional, o mental e o espiritual do ser humano”. (Feminino, 70 anos, Segundo Grau Completo). “Tudo, desde palavras, gestos, física e moral”. (Feminino, 34 anos, Segundo Grau Incompleto). 42 Constata-se entre os pais ou responsáveis que a violência foi conceituada como desrespeito à ética e a moral. Dessa forma, observa-se nos dias atuais uma transgressão sem par destes valores frente a um clamor de resgate aos diretos humanos: (...) a civilização contemporânea, hoje mais do que antes, apresenta-se em crise, crise de valores e crise de "modelos" para os nossos jovens. Nessa sociedade predomina a violência, transformando todo esse potencial humano de juventude: onde deveriam predominar o amor, a amizade e a confiança, há relações de ódio, antagonismo e temor. O progressivo avanço no campo material em descompasso com o domínio da moral, ameaça cada vez mais o homem. (ALVA, 2002, p. 74). PEGORARO (1997) lembra que a ascensão da ética nas últimas décadas vem marcada pelas inovações da ciência, da técnica e da industrialização. As discussões acerca da ética extrapolam os ambientes acadêmicos e chegam às empresas, aos sindicatos, aos partidos políticos e aos meios de comunicação. Todavia, as discussões sobre ética têm se ampliado em função do aumento das diferentes formas e manifestações da violência. Dentre os desafios éticos planetários situam-se questões sobre o meio ambiente, natalidade, desigualdades sociais, direitos da mulher, do afrodescendente, do menor, bem como a preocupação central com a vida humana e com o problema da violência. Para VÁZQUEZ (2002) o objeto da ética é a atitude e o agir do homem. Ela se preocupa com os pressupostos de um agir ético, como liberdade, autonomia, consciência, entre outras; reflete sobre os problemas e as condições do agir ético e, portanto, é reflexão, teoria da condução da vida humana e não prática direta, nem preceito para agir. Todavia “(...) o progresso histórico, ainda que crie as condições para o progresso moral e traga conseqüências positivas para este, não gera por si só um progresso moral, porque os homens não progridem sempre na direção moralmente boa, mas também através da direção má; isto é, pela violência, o crime ou a degradação moral". (ibid., 2002, p. 57). Do exposto depreende-se que a escola precisa ser um espaço ético, inspirador de valores éticos, operando por meios éticos. VÁZQUEZ (ibid., p. 146) salienta ainda que: 43 (...) os valores existem para um sujeito, entendido não no sentido de mero indivíduo, mas de ser social; (...) É o homem - como ser histórico - social e com a sua atividade prática - que cria os valores e os bens nos quais se encarnam, independentemente dos quais só existem como projetos ou objetos ideais. Os valores são, pois, criações humanas, e só existem e se realizam no homem e pelo homem. A violência foi conceituada ainda, como ausência de valores humanos, falta de amor e respeito. “Violência é a falta de amor ao ser humano, falta de paz, diálogo, falta de respeito”. (Feminino, 39 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Além da violência física a falta de respeito para com o próximo”. (Feminino, 45 anos, Segundo Grau Completo). “É o resultado da falta de amor, violência gera violência”. (Feminino, 41 anos, Segundo Grau Completo). SANTOS (2001) ressalta que a educação tem que ser um processo de elaboração consciente. Assim, a falta de respeito com o próximo, o não-respeito à regra e a falta de autonomia surgem na escola como a anomia, que significa ausência de regras. LATERMAN (2000, p. 148) diz que a anomia na escola está muito próxima da onipotência. Assinala que estas dificuldades vão em sentido contrário ao da construção da cidadania, do ensino e do desenvolvimento pessoal. Assim, não há dúvidas sobre a existência de incivilidades entre os alunos, mas é preciso também que considerar a ausência de cidadania, ou seja, a violência para com a cidadania dos estudantes e dos profissionais, resultante do conjunto de fatores que lhe são (ou melhor, que não são) oferecidos pelas próprias políticas públicas para a educação. É importante mobilizar os alunos para o conhecimento, estimular as interações e a participação, promovendo valores como respeito e cooperação através do empenho coletivo, o que requer a adesão de todos os envolvidos com a prática pedagógica. Os professores têm de certa forma autonomia para decidirem por si qual o melhor encaminhamento que devem tomar no decorrer do processo educativo desde que tenham claro qual a sua concepção do homem, de educação, de sociedade e o tipo de aluno que se deseja formar. GONZÁLEZ (1996, p. 97) assevera que "el saber no vale por si, 44 desprendidos de sus fines éticos, y ante el porvenir del hombre. No vale si es ajeno o contrário a su misión de paz, de conservación y creación". A violência foi associada aos problemas sociais, políticos ou econômicos por apenas 10,8% dos pais ou responsáveis. Esses fatores abarcam o papel da família e do Estado no que tange às suas obrigações sociais. Dentre os fatores citados destacam-se a falta de emprego, de segurança, de políticas públicas, a omissão e a negligência da família. Para eles violência: “É a última coisa que poderia ocorrer num país, desde que esse país, não tivesse tanto desemprego e tanta diferença social”. (Masculino, 45 anos, Curso Superior Completo.). “A violência é algo que acontece quando faltam as necessidades básicas a cada pessoa e daí ela começa a roubar, matar, se drogar, ofender, bater nos filhos e nos pais, quase a maioria de tudo isso é falta de dinheiro, de empregos e de educação”. (Feminino, 33 anos, Segundo Grau Completo). A violência econômica se manifesta por meio das transformações no sistema nacional e internacional decorrentes do movimento histórico e que afetam também os países pobres, gerando muitas vezes, um quadro de instabilidade econômica que torna mais difícil a vida das pessoas. É praticada, ainda, no mercado ilegal, do contrabando, do tráfico de drogas e mercadorias. A violência no trabalho se caracteriza pela exploração do trabalhador, pelas precárias condições de trabalho a que está sujeito, pela discriminação racial, de gênero ou outra, que faz com que uma pessoa receba um salário menor independente da sua capacidade, por meio do assédio sexual, bem como quando a pessoa não é aceita devido à sua aparência, cor de pele, religião, condição social, região de moradia, entre outras. A falta do trabalho gera violência e a demissão ou até mesmo a sua possibilidade, causa muitas vezes transtornos psicossociais que geram conflitos no lar. Os efeitos psicológicos causados pela ausência do trabalho ou da pressão exercida na execução deste, pode levar o sujeito a cometer atos de violências. A realidade econômica brasileira induz muitas pessoas à criminalidade devido à falta de perspectivas. A falta de trabalho além de todas as dificuldades financeiras que 45 acarreta, faz com que as pessoas apresentem problemas de saúde como depressão e estresse. A exploração do trabalhador, que se constitui em uma violação dos direitos humanos é uma forma de violência que pode gerar outras formas decorrentes, como a violência doméstica. A criança ou adolescente que vive num ambiente de conflitos poderá manifestar esses problemas na escola e poderá tentar resolver seus problemas por meio de atitudes violentas. A violência política caracteriza-se pela corrupção, lavagem de dinheiro, desvio de verbas, omissão, irresponsabilidade, descaso e negligência daqueles que foram eleitos ou não e representam toda uma população, bem como pode estar associada a regimes autoritários que restringem a participação popular, gerando conflitos. Houve também pais ou responsáveis que denunciaram que a violência pode estar relacionada à falta de controle ou ausência dos pais na educação dos seus filhos. “É a irresponsabilidade de alguns pais, por não darem educação a seus filhos, falta de emprego e estudo”. (Feminino, 32 anos, Segundo Grau Completo). “Falta de educação, quando os filhos são pequenos os pais fazem tudo o que eles querem, depois vem a adolescência e os pais perdem o controle dos filhos”. (Masculino, 45 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Criança na rua sem ir para a escola, passando fome, fumando droga. Criança que não tem pai e mãe, ou que tem os dois só que eles não dão atenção merecida e que não sabem dizer não na hora certa. Violência é surrar e não conversar. Descuidar dos filhos e não ficar de olho em tudo que eles fazem”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). Para alguns pais ou responsáveis a educação dos filhos constitui-se em um trabalho difícil. FREIRE (2000) analisa o problema da liberdade confundida por muitos pais com licenciosidade. Nesta perspectiva, eles não estabelecem nenhum limite aos seus filhos. Assinala que não há como aprender democracia na licenciosidade ou no autoritarismo, pois se não houver espaço, a liberdade não se exerce. Nenhuma educação pode realizar-se ausente da relação entre autoridade e liberdade, tendo em vista vez que uma não é necessariamente antagônica da outra 46 e ambas se comprometem na prática educativa. Desse modo para FREIRE (ibid., p. 35) a prática educativa deve pautar-se na relação entre autoridade e liberdade, “(...) uma autoridade ciosa de seus limites em relação com uma liberdade zelosa igualmente de seus limites e de suas possibilidades”. Assevera, ainda A mim me dá pena e preocupação quando convivo com famílias que experimentam a “tirania da liberdade”, em que as crianças podem tudo: gritam, riscam as paredes, ameaçam as visitas em face da autoridade complacente dos pais que se pensam, ainda, campeões da liberdade. Submetidas ao rigor sem limites da autoridade arbitrária as crianças experimentam fortes obstáculos ao aprendizado da decisão, da escolha, da ruptura. Como aprender a decidir, proibidas de dizer a palavra, de indagar, de comparar. Como aprender democracia na licenciosidade em que, sem nenhum limite, a liberdade faz o que quer ou no autoritarismo em que, sem nenhum espaço, a liberdade jamais se exerce? (ibid., p. 34) Há violências também contra os portadores de necessidades especiais. Esta violência vai desde a ausência de condições de acesso com relação aos espaços físicos públicos ou privados que não permitem que pessoas deficientes se movimentem, à falta de informações, de profissionais especializados para atendêlos, em instituições públicas ou privadas e demais recursos de acordo com as suas necessidades. Muitas crianças com necessidade educativa especial são privadas de tratamento devido à omissão dos pais ou responsáveis. Contudo em muitas situações o poder público não assegura o tratamento ou as condições para que o mesmo se realize. Alguns pais ou responsáveis conceituaram violência como um fenômeno mundial: "O mundo que vivemos". (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Completo) “Violência é uma coisa que existe em todo o mundo e que é construído por todo o nosso mundo”. (Feminino, 68 anos, Primeiro Grau Incompleto). Diante do exposto, verifica-se que a maior parte dos pais ou responsáveis que respondeu à pesquisa, conceitua violência relacionando-a a própria criminalidade, ao passo que, talvez o mais importante enquanto causador e reprodutor de injustiça – o Estado, fica imune à crítica, à cobrança, à responsabilidade. Se a grande causa da violência é a injustiça, dado que a sociedade mais 47 justa e democrática seria “continente” para a natureza do bicho homem (“o homem é o lobo do homem” – Freud), então a questão da violência reside muito mais na causas político-sociais e econômicas do que em outras.19 Para CHAUÍ (1998), (...) a violência não é percebida ali mesmo onde se origina e ali mesmo onde se define como violência propriamente dita, isto é, como toda prática e toda idéia que reduza um sujeito à condição de coisa, que viole interior e exterior o ser de alguém, que perpetue relações sociais de profunda desigualdade econômica, social e cultural. Mais do que isto, a sociedade não percebe que as próprias explicações oferecidas são violentas porque está cega ao lugar efetivo de produção da violência, isto é, a estrutura da sociedade brasileira. Dessa maneira, as desigualdades econômicas, sociais e culturais, as exclusões econômicas, políticas e sociais, a corrupção como forma de funcionamento das instituições, o racismo, o sexismo, a intolerância religiosa, sexual e política não são consideradas formas de violência (...) a mitologia e os procedimentos ideológicos fazem com que a violência que estrutura e organiza as relações sociais brasileiras não possa ser percebida, e, por não ser percebida é naturalizada (...). (CHAUÍ, 1998, p. 37). Para compreender o campo no qual a pesquisa foi desenvolvida serão apresentados de forma detalhada na seqüência, aspectos relativos às três escolas. 19 BAIBICH, Tânia Maria, 2004, Conversas informais. 48 CAPÍTULO III – AS ESCOLAS Durante a realização da pesquisa foi possível observar o espaço escolar, aqui compreendido como lócus no amplo sentido do termo, obtendo as primeiras impressões, ao caminhar pelos colégios levando e buscando nas salas o instrumento que os alunos deveriam entregar para os pais ou responsáveis, bem como ao realizar as entrevistas com os diretores e presidentes das Associações de Pais e Mestres. O Colégio20 da Vida oferece matrículas no Ensino Fundamental de quinta à oitava série e no Ensino Médio. A diretora da escola é a mesma desde a inauguração, há cerca de dez anos. Indicada naquele momento e eleita pela comunidade escolar nos demais períodos de mandato, mostrou-se bastante solícita na realização da pesquisa. O Colégio Esperança oferece matrícula na Educação Infantil em turmas de Pré-escola, no Ensino Fundamental de primeira a oitavas séries e, à noite, no Ensino Fundamental e Ensino Médio de Educação de Jovens e Adultos. Possui, ainda, duas Salas de Recursos e uma Classe Especial destinada a alunos com necessidades educativas especiais. A diretora está há dois anos na direção e foi eleita pela comunidade escolar. No Colégio Ambiente são ofertadas matrículas nos três períodos, manhã, tarde e noite apenas para o Ensino Médio. Nesta escola a diretora também está há dois anos na direção e foi eleita pela comunidade. 3.1 O COLÉGIO DA VIDA: E A LUTA CONTINUA O Colégio da Vida foi inaugurado em 1994 devido à demanda de alunos presente na região. Num primeiro momento, no local onde a escola foi construída funcionava um pequeno campo de futebol utilizado pela comunidade. A pesquisa foi realizada no turno da manhã e o instrumento foi entregue para alunos de sexta, sétima e oitava séries do Ensino Fundamental e do primeiro, segundo e terceiro anos do Ensino Médio. Este não existia nos primeiros anos de 20 A palavra colégio neste estudo refere-se aos estabelecimentos de ensino pesquisados, cuja entidade mantenedora é o governo do Estado do Paraná. 49 funcionamento do colégio e só foi implantado após muita luta da comunidade escolar para suprir as necessidades dos alunos, conforme o relato no documento histórico do colégio: Desde 1996, os alunos que terminavam a oitava série encontravam dificuldades para conseguir vagas nas escolas vizinhas chegando a ponto de pedir para repetir a série só para não ficar sem estudar. Consultados o Conselho Escolar e a APM, ambos concordaram que era hora de tomar atitudes em favor da comunidade escolar. Com o apoio dos professores, alunos, pais e amigos da escola recolheu-se mais de 1.100 assinaturas em um abaixo-assinado em prol da criação do Segundo Grau na escola. A Direção entrou com a solicitação, mas foi negada por parte da Secretaria Estadual de Educação, isto em outubro de 1998. Em janeiro e fevereiro de 1999 tornamos a entrar com a solicitação (...) apoiada pelo (...) através de companheiros como (...). Também tínhamos o apoio da professora (...) que nos auxiliou colocando o pedido nas mãos do Deputado (...). Este apadrinhou a idéia e da união destes nomes numa luta em prol dos alunos ficou impossível para a Secretaria Estadual de Educação negar a abertura do Ensino de Segundo Grau na escola. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). Este não será o único relato em que se verifica que o Estado simplesmente se exime de suas responsabilidades e a escola num ato de desespero tem que apelar para outras instâncias, utilizando-se até mesmo de métodos do “toma lá dá cá”, “apadrinhamento” ou do “Quem Indica – QI”, pouco ortodoxos, que a tirem do total abandono em que se encontra. O Estado se omite de suas obrigações, induz as escolas a buscarem recursos na iniciativa privada para suprir as suas necessidades. É terrível como a violência manifestada pela ausência do Estado fere a comunidade escolar usurpando seus direitos e a possibilidade de ampliar a sua cultura. O colégio localiza-se em zona urbana, na região Sul, num bairro pobre da periferia da cidade de Curitiba, bem distante do centro da cidade. O acesso para quem vem de outros locais é facilitado por uma linha de ônibus cujo ponto final é do lado da escola. Considerado violento e perigoso, em especial no período da noite, devido aos confrontos entre traficantes de droga da região, o bairro compõe-se de casas bem humildes, algumas de madeira e outras de alvenaria, muitas inacabadas. O bairro não possui infra-estrutura adequada para atender a sua comunidade, fazendo com que as pessoas tenham que se locomover para outros bairros mais centrais para suprir as suas necessidades básicas como ir às farmácias, lojas de vestuários entre outros. Entretanto, conta com uma Unidade de Saúde Municipal. É bem provável que a presença de pouco comércio se deva em parte aos assaltos que são 50 comuns na região. O Colégio é cercado por um muro bem alto todo pichado que, de acordo com o relato da diretora, serve como proteção do prédio e da comunidade escolar, ou seja, dos pais ou responsáveis, alunos, professores, funcionários e equipe pedagógico-administrativa. Para entrar, primeiro atravessa-se um enorme portão de ferro e na seqüência, depara-se com um outro de grade no qual é necessário se identificar para a pessoa que fica logo na entrada deste conferindo a carteirinha dos alunos, criada como uma forma de inibir a presença de pessoas estranhas21 e garantir segurança. Passando-se este portão, atravessa-se ainda mais dois, um que fecha o pátio coberto da escola e outro que dá acesso ao interior do prédio escolar. A sensação logo na entrada é a de que se está entrando num presídio.22 O uso do uniforme é obrigatório, foi instituído, criado e aprovado por unanimidade pelos pais ou responsáveis em reunião na escola e tem a mesma finalidade que a da carteirinha. Ao tentar se proteger a escola exclui a comunidade e é justamente esta exclusão que é uma das principais causas da violência. O prédio escolar tem marcas de pichações e depredações, necessitando de obras de melhoria e de manutenção. O colégio possui Laboratório de Ciências Físicas e Biológicas, Laboratório de Informática mantido por meio de parcerias com a iniciativa privada, onde são oferecidos cursos pagos para a comunidade, quatorze salas de aula, pátio coberto, quadra de esportes, biblioteca, sala de vídeo, sala dos professores, dois banheiros para funcionários e dois para alunos, dependências administrativas, sala de supervisão e orientação, cozinha, almoxarifado, casa do 21 22 Há aqui uma lógica subjacente que vê a violência identificada com o que é estranho, o “estrangeiro”. Desta forma os portões e as grades serviriam como escudo protetor. (BAIBICH, 2004, Conversas informais). Foucault (1987, p. 207) assinala que “A forma-prisão preexiste à sua utilização sistemática nas leis penais. Ela se constitui fora do aparelho judiciário, quando se elaboram, por todo o corpo social, os processos para repartir os indivíduos, fixá-los e distribuí-los espacialmente, classificá-los tirar deles o máximo de tempo, e o máximo de forças, treinar seus corpos, codificar seu comportamento contínuo, mantê-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno deles um aparelho completo de observação, registro e notações, constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza. A forma geral de uma aparelhagem para tornar os indivíduos dóceis e úteis, através de um trabalho preciso sobre seu corpo, criou a instituição – prisão, antes que a lei a definisse como a pena por excelência.” 51 zelador e cantina. Parte do material de apoio pedagógico foi doado a escola por instituições privadas23. O colégio possui Regimento Escolar, Proposta Pedagógica, Associação de Pais e Mestres que tem um estatuto próprio e deve atuar em conjunto com a comunidade escolar, visando à melhoria da estrutura física e pedagógica da escola e também conta com o Conselho Escolar. Dispõe de trinta e cinco professores regentes, sendo que 51,4% destes têm pós-graduação e 48,6% têm somente licenciatura. As atividades em cada turno iniciam-se quando toca o sinal. Neste momento, as funcionárias, com certa dificuldade devido ao movimento dos alunos, ajudam a organizar as filas para que eles acompanhem os professores até as salas de aula. Todavia, a falta dos professores é uma das maiores dificuldades do Colégio, pois não há substitutos e os alunos ficam sem nada para fazer, pois a escola não apresenta alternativas de atividades nestas situações. Quando é possível, algumas turmas adiantam aula, outras jogam bola na quadra se esta não estiver sendo usada pelo professor de Educação Física, mas o barulho próprio das brincadeiras livres, feito pelos alunos, incomoda os que estão em aula, uma vez que o pátio coberto e a quadra ficam praticamente unidos às salas. Este colégio tem muita história de violências para contar. Desde a sua inauguração, há cerca de dez anos, até os dias atuais se defronta com inúmeras situações de violências com as quais tem sérias dificuldades para lidar. Os problemas começaram no segundo semestre do ano de inauguração, conforme relatos do documento que descreve a história da escola: No segundo semestre começaram os problemas com as gangues locais e a escola começou a ter os primeiros prejuízos com invasões nos finais de semana, vidros quebrados, abandono de restos de bebidas e cola de sapateiro no pátio interno e a cerca de tela era constantemente arrebentada. Estes fatos se agravaram ainda mais nos anos seguintes. A Direção tentando evitar as depredações cedeu as chaves do portão a um vizinho para que o time de futebol que invadia a quadra nos finais de semana e feriados tivesse acesso e colaborasse para que não houvesse problemas com o patrimônio público. Não passariam dois meses e a chave era devolvida, pois o vizinho não queria arcar com as responsabilidades uma vez que o grupo de invasores preferia agir à sua maneira transgressora da ordem e não pretendia colaborar em nada com a escola responsabilizando-a 23 Manifesta-se aqui a violência do Estado neoliberal que isenta-se de suas obrigações constitucionais deixando em condições de “pedintes” os cidadãos considerados de “segunda categoria”. (BAIBICH, 2004, Conversas informais). 52 pelo fato de não terem mais seu campo de futebol usurpado com a construção da mesma. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). Note-se aqui um grande problema social, ao mesmo tempo em que a comunidade necessitava da escola, também não queria perder talvez a sua única possibilidade de lazer. Sentindo-se lesada tenta reaver a qualquer custo o espaço que lhe pertencia sem, entretanto, conscientizar-se de que embora seja a escola quem define as regras, o público é seu e poderia usufruir a quadra da escola. Uma forma democrática seria a de que ambas se reunissem para definir em conjunto as formas de uso do espaço escolar pela comunidade. Nos anos de 95 e 96 a situação ficou crítica, as gangues passaram a disputar o domínio territorial e os alunos da escola tinham que pagar pedágio para transitar pelas ruas, além de serem constantemente assaltados e agredidos. Para piorar a situação surgiu um bar defronte a escola, local utilizado por desocupados e até por alunos que acabavam adentrando na escola, no período noturno, exalando forte cheiro de bebida alcoólica. A escola se ressentia não só das depredações, pichações, invasões e ameaças constantes além dos tiros, bombas de cal, bombas caseiras e apedrejamentos como também do abandono da comunidade que preferia difamar a escola como violenta e outros adjetivos pouco recomendáveis de se repetir ao invés de defender e auxiliar a manter o sossego no ambiente escolar visto que era um patrimônio público, portanto deles próprios. Era mais fácil falar mal da escola do que defendê-la, era mais fácil se omitir do que reconhecer que a violência não estava dentro da escola e sim ao redor dela, no seio da comunidade local. Em novembro de 1996, mais precisamente no feriado de 15 de novembro, a gangue do (...) invadiu a escola, detonou todos os extintores de incêndio recém recarregados, causou estragos na sala da direção, na biblioteca, roubou o som da escola, máquina de datilografar, telefone, roubou e estragou fotografias, pichou paredes, arrebentou caixas de energia e portas, causando um prejuízo de quase quatro mil reais para a Fundepar. A escola ficou fechada uma semana para que uma equipe fizesse todo o trabalho de limpeza e consertos. Um grupo de operações especiais foi acionado pelas polícias civil e militar e em pouco tempo os autores foram descobertos e os materiais recuperados. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). A Administração da Escola e o Corpo Docente lutaram muito para se sobrepor aos problemas e às constantes ameaças que sofriam. A Associação de Pais e Mestres, junto com a Direção, procurava pelos órgãos competentes em busca de segurança, muro, telefone e casa de zelador. Não foram poucas as vezes que chefias ouviram os lamentos da Direção em busca de solução sem, contudo lograr êxito. Ouvimos várias vezes comentários de visitantes da Secretaria de Educação do Paraná que se soubessem onde a escola ficava não teriam chegado perto ou então teriam providenciado mais seguranças para acompanhálos. Nunca nenhum destes se preocupou em pensar de fato no risco por quais passavam os alunos, os professores e demais funcionários e o desgaste psicológico dos administradores escolares. A Direção e Associação de Pais e Mestres precisaram ser firmes dentro da Secretaria de Educação do Paraná para convencê-los a tomar providências e buscar junto a FUNDEPAR a agilização para a construção do muro e da casa do zelador e a instalação de um telefone. O telefone solicitado desde 1994 e o muro desde 1995 só chegaram na metade do ano de 96 e coincidentemente a ordem para a construção e a instalação chegou no mesmo dia. (...) Numa última tentativa, a gangue do (...), tentou danificar o muro abrindo buracos em três dos seus lados no primeiro final de semana em que ele foi entregue. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). 53 (...) No ano de 1997, por ocasião dos seqüentes apagões de luz, quando a Direção voltou a Secretaria de Educação do Paraná para buscar soluções, a Diretoria respondeu que nada podia fazer pela escola e pelos alunos, perguntou-se: Então quem pode? A resposta foi: Só o Palácio Iguaçu. Para lá fomos com o Assistente do (...) Recebidos na hora por uma das secretárias, conseguimos mobilização geral da Polícia Militar para vigiar todas as imediações da escola a fim de apreender os responsáveis, pois a comunidade já estava a culpar os alunos. Segundo eles, eram os alunos que apagavam as luzes para não ter aulas no período noturno. Um mês depois a polícia comprovou que o responsável não era aluno da escola. A Assembléia Legislativa, Comissão da Educação, a pedido da Direção providenciou junto à Copel uma rede de proteção nos fios e transformadores próximos à escola. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). No quesito segurança obtivemos o apoio do Núcleo Regional de Educação (...) incansáveis em buscar soluções e cobrar das autoridades para que a tranqüilidade voltasse a reinar na Escola. Com a presença de policiais no cotidiano da escola e as adequações da Quarta Companhia para a Patrulha Escolar, as constantes revistas, vigilância nas ruas próximas, cerco das gangues e palestras para alunos, pais e professores por parte dos chamados “anjos da guarda” (patrulheiros), a paz voltou a reinar e a escola pôde desenvolver seus trabalhos pedagógicos de forma a reconquistar seu espaço como instituição cultural do bairro. (Documento História do Colégio, 2003, mimeo). Confrontando o relato acima com os resultados da pesquisa, contata-se que a presença da polícia abafa o problema, mas não o resolve. Assim apaga-se cada vez ao novo incêndio, mas não se atinge as raízes do problema. Está claro que inúmeras questões fogem da alçada da escola, entretanto, no decorrer da pesquisa verificou-se por meio dos depoimentos, que muitos diretores de escolas estaduais preferiam transferir toda a responsabilidade para a polícia ao invés de questionar as suas práticas e chamar a comunidade escolar para refletir sobre o problema. O que vem acontecendo em muitas escolas é que ao menor sinal de fumaça aciona-se a Patrulha Escolar24 que nem sempre aparece para socorrê-las. Essa dependência pela segurança pública, funciona como “o tiro que sai pela culatra” e vem sendo prejudicial em especial quando a polícia é chamada e não aparece aumentando o sentimento de frustração e impotência que as escolas sentem ao terem que tratar o problema. LOPES (2001, p. 39) em sua pesquisa sobre a violência no espaço escolar e a relação professor-aluno assevera que: A presença, na escola, da polícia ou de qualquer outro “especialista” ou “perito”, pode anular a possibilidade de uma negociação compartilhada dos conflitos. Não se reconhece a presença da violência na escola, não se busca administrá-la, simplesmente passa-se a refutá-la como tendo origens totalmente exteriores às praticas escolares. Tal fato, ao mesmo tempo que inibe (ou desestimula) o professor da necessária exegese que o 24 A Patrulha Escolar tem como meta proporcionar segurança para as escolas públicas estaduais a fim de prevenir e evitar ações delituosas. 54 problema requer, em um estado limite, desresponsabiliza-o de gerir ou administrar os conflitos presentes na sala de aula e no espaço escolar como um todo, atribuindo “a outro”, esta tarefa. Cabe assinalar que tanto os profissionais da educação quanto os policiais são trabalhadores, sujeitos vítimas de um mesmo sistema neoliberal no qual o Estado Capitalista torna-se a garantia do processo de acumulação do capital (...) Sendo a acumulação resultante da exploração da força de trabalho, em seu sentido mais amplo, dela decorre diversos fatores, entre os quais cabe destacar, para os propósitos desta reflexão, o desemprego e a concentração de renda. Estes fatores encontram-se na base do processo de pobreza, da exclusão social e de suas conseqüências. (BAIBICH; FARIA, 2004, prelo do 5.º Coned). Sendo assim, ambos estão igualmente vulneráveis à arbitrariedade de uma violência maior, com a qual não podem lutar de forma isolada, como a violência de terem que enfrentar as suas precárias condições de trabalho ou o desemprego, por exemplo. No entanto, AQUINO (2002, p. 50) assevera que “o manejo dos conflitos escolares é prerrogativa dos educadores”. Destaca ainda, que a ação policial contra a violência escolar deve ser sempre preventiva e ocorrer para além dos muros escolares. Quanto à instalação dos muros, este artifício por si só, não assegura que a escola esteja de fato protegida de fatores externos, como por exemplo, do tráfico de drogas (CASTRO e ABRAMOVAY, 2002). Convém destacar que as várias situações de violências já enfrentadas pelo Colégio da Vida também foram ressaltadas na entrevista com a diretora, que relata que tiveram de fato: (...), desde depredação, gangues invadindo, (...) nós tivemos problemas de bombas, bombas de cal, nós tivemos problemas de agressões dentro da escola, invasões da direção, as gangues dominavam o território, era briga de território, cobrança de pedágio dos alunos que vinham para cá e a escola acabou com isso tendo a fama de ser uma escola violenta. Então muita gente não queria estudar aqui ou pediu transferência por causa da situação, mas era uma violência que vinha da rua para dentro da escola, na verdade não eram os alunos que eram violentos, mas as pessoas que não estudavam e que atravancavam todo direito do aluno vir para a escola e estudar com tranqüilidade (...) inclusive a gente trabalhava com ameaça de morte e professores muitas vezes agredidos na saída da escola. (DIRETORA DO COLÉGIO DA VIDA, 11 nov., 2003). A ação de gangues é um fenômeno mundial e suas formas de atuação estão se intensificando nas escolas brasileiras. Não obstante, os grupos de jovens que se 55 reúnem para diversos tipos de práticas e que estão sendo denominados como gangues pela comunidade escolar, têm cada um deles as suas especificidades e embora apresentem características comuns a outros grupos assim denominados, não necessariamente realizam as mesmas ações. Os três colégios pesquisados já se depararam com esse problema, seja de gangues invadindo o espaço interno, cercando, ameaçando ou espancando alunos na saída, nos pontos ou terminais de ônibus. Problemas semelhantes aos apresentados por este colégio já foram registrados em outras pesquisas. Dentre elas a de GUIMARÃES (1998) que realizou pesquisa em uma escola pública de primeiro grau no Estado do Rio de Janeiro. Em seu trabalho, ela identifica três movimentos distintos: o narcotráfico, as ‘galeras’ ou gangues e movimentos juvenis emergentes que agem “comprometendo os esforços de professores e direção para gerir o estabelecimento e interferindo de forma direta sobre o cotidiano da escola e sobre a prática pedagógica”. (ibid., 1998, p. 10). No Colégio da Vida alguns integrantes de gangues eram alunos ou exalunos da escola que também estavam envolvidos com o tráfico de drogas na região. Desse modo, assim como em GUIMARÃES (ibid., p. 58) a interferência das gangues na escola era uma “(...) forma de exercitar seus princípios e de fazer cumprir seus projetos organizativos”. Um dos objetivos das gangues além de manifestar seu repúdio à escola que teria usurpado parte do seu território, o campo de futebol, era demarcar o seu espaço, seja pela cobrança de pedágio ou pela simples presença ameaçadora aos que passavam pelo local. Assim: A demarcação territorial aparece então associada ao controle e à defesa do território, protegido pela invasão de outros grupos e, em alguns casos, de representantes de instituições da sociedade mais ampla. Se o território é a base e o princípio de constituição e estruturação da gang [grifo do autor], a consciência de pertencimento a ela tende a crescer com os combates e, ao mesmo tempo, a aumentar o potencial para a luta. O que distingue uma gang da outra é, inicialmente, a vinculação ao território da residência. As fronteiras entre elas, no entanto, embora definidas, são móveis, no sentido de que cada grupo luta por ampliá-las, em um processo de apropriação de ‘pontos’ estratégicos no interior ou nos limites da área de moradia (como passagens de pedestres, com a cobrança de taxas), incorporando áreas ‘neutras’ (como praças), localizadas nos limites entre os territórios, ou desenvolvendo estratégias de negociação – e de luta – em torno do direito de ‘administrar’ lugares considerados ‘livres’: cinemas, teatros, parques, escolas. O domínio do espaço é assegurado pela interdição do acesso de grupos rivais ao local. (ibid., 1998, p. 99-100). Não obstante, GUIMARÃES (ibid., p.89) assinala que “a territorialidade não é 56 apenas geográfica, embora seja essa sua característica definidora, mas dimensão fundamental da própria constituição e da história do grupo”. As gangues também se caracterizam por seus valores culturais, por códigos próprios representados pela forma de falar, de agir, de se vestir, por estilos musicais, afinidades com relação a times de futebol entre outros e, suas relações para com os pares se pautam numa espécie de termo de compromisso que se violado pode acarretar em sérias conseqüências para o integrante que vão desde a sua expulsão do grupo, podendo custar até mesmo, a própria vida. Dessa forma, A utilização da violência assume dimensões diferentes no contexto da gang. [grifo do autor]. Representa, muitas vezes, para os que nela pretendem ingressar, a condição de admissão. Em contextos onde, de outra forma, além do risco individual, a vida dos familiares poderia estar sujeita a vários constrangimentos, a adesão ao grupo pode ser uma questão de sobrevivência física, mas contém também uma dimensão simbólica. (ibid., p. 99 -100). Diante do exposto, GUIMARÃES (ibid., p. 23) assevera que a escola tem que responder a um desafio “(...) encontrar as formas de relacionamento e de convivência com os diferentes universos contidos em seu interior e que se manifestam no meio circundante, sem abrir mão de suas funções mais fundamentais. (...)”. 3.2 O COLÉGIO ESPERANÇA: JOGA, JOGA, JOGA FORA O Colégio Esperança foi inaugurado em 1939, junto a um hipódromo e devia atender os filhos dos jóqueis e crianças da região. Ao longo de sua história passou por várias modificações de ampliação do prédio escolar e das modalidades de ensino que oferta. Localiza-se na zona urbana, próxima à região central de Curitiba, junto a uma grande favela, composta por barracos com condições bem precárias, alguns de madeira, outros de alvenaria em cimento bruto de um lado, e de outro, por residências com melhores condições de moradia e estabelecimentos comerciais diversificados. A pesquisa foi realizada no turno da tarde e o instrumento de pesquisa foi entregue para alunos de quinta, sexta, sétima e oitava séries. De imediato foi possível observar que o colégio tinha passado por uma grande reforma, esta segundo a diretora, foi feita com a ajuda do mutirão composto pela comunidade 57 escolar por ocasião da festa de comemoração do seu aniversário. Se do lado de fora nos muros ainda persistiam as marcas de pichações e depredações, na parte interna o cheiro da tinta (doada por uma instituição de ensino privado) 25 da pintura das paredes ainda se fazia presente e os murais ainda traziam mensagens de felicitações para a escola. Novamente verifica-se o fenômeno do Estado mínimo com as suas obrigações sociais, delegando a responsabilidade pela manutenção da educação pública à comunidade escolar e iniciativa privada26. Há ainda, a falta de organização e força política para reverter esse quadro. Diante da necessidade imediata, há uma forte tentativa de sobrevivência dos órfãos sociais, ou seja, da comunidade escolar. Desse modo, política e socialmente, a economia neoliberal é o projeto de encolhimento do espaço público e do alargamento do espaço privado – donde seu caráter essencialmente antidemocrático – caindo como uma luva na sociedade brasileira. No caso do Brasil, o neoliberalismo significa levar ao extremo a polarização carência-privilégio, a exclusão sóciopolítica das camadas populares, a desorganização da sociedade como massa de desempregados; significa solidificar e encontrar novas justificativas para a forma oligárquica da política, para o autoritarismo social e para o bloqueio à democracia. (CHAUÍ, 1998, p. 40). Esta escola também é cercada por muros e possui um enorme portão de ferro por onde passam veículos e pessoas. O portão grande esteve sempre aberto e durante a pesquisa apenas num dia ele estava trancado, nesta ocasião havia um acúmulo de pessoas querendo entrar e não havia quem o abrisse devido à falta de pessoal na escola para esta função. Assim, as pessoas tiveram que ficar para o lado de fora por um bom tempo gritando até que uma das serventes ouviu os gritos que avisavam que tinha gente no portão querendo entrar. O espaço físico é composto por um prédio principal e um anexo. Ao todo o colégio possui dezesseis salas, dois banheiros femininos e dois masculinos, biblioteca, sala para direção, secretaria, supervisão, orientação, sala dos professores, cozinha, depósito, sala de refeições, dois banheiros para funcionários, banheiros para alunos, pátio interno coberto e quadra para jogar bola. No pátio do colégio 25 26 Esta política de voluntariado, de “amigos da escola” tem sido e é uma das manifestações da forma como Estado trata os cidadãos de “segunda categoria”, isto é, transferindo responsabilidades para a sociedade civil. (BAIBICH, 2004, Conversas informais). Não que a comunidade não possa ajudar a escola, mas o que é preciso estar claro é qual é o sentido dessa “participação”. 58 existem, ainda, duas casas uma de madeira e outra de alvenaria que servem de moradia para os caseiros. O acesso à escola para quem vem de outros locais é facilitado pela diversidade de linhas de ônibus que passam pelas imediações. A Proposta Pedagógica do Colégio e o Regimento Escolar encontravam-se em processo de construção, mesmo assim a supervisora responsável pela organização do material permitiu a consulta aos esboços dos documentos. O Regimento, até o momento, só apresentava os deveres dos alunos. Chama atenção o fato de que esta escola tem sessenta e cinco anos de existência e a cada mudança de governo ou de gestão escolar traçam-se novas diretrizes, o que havia até o momento anterior é praticamente desconsiderado ou o que ocorre, ainda, em muitas escolas, é o boicote à gestão anterior que, por não conseguir se reeleger desaparece com todos os documentos feitos pela sua gestão ou joga fora e apaga-se a memória da escola, como atitude de represália devido a sua não-aceitação pela comunidade escolar. Esta é uma forma de manifestação da violência institucional porque reduz o coletivo ao individual em detrimento do público. Este aspecto foi observado no Colégio da Vida quando se fez necessário retornar ao estabelecimento para averiguar mais um dado da pesquisa e encontrouse uma nova equipe administrativa. Na ocasião o novo diretor eleito não se encontrava, mas uma das supervisoras informou que não poderia ceder a consulta ao documento sem a autorização do diretor e que nem adiantava querer ver o Regimento porque eles iriam reformulá-lo: “vai mudar tudo”, disse ela em tom de desaprovação. De fato as mudanças já estavam se efetivando; umas das primeiras atitudes foi retirar a página da internet na qual estava registrado todo o histórico da escola27. Desse modo, evidencia-se no espaço escolar o extermínio da memória que é uma violência para com a comunidade escolar. A falta de cuidado com materiais didáticos, textos, livros, filmes, fotos, cds e documentos é comum em muitas escolas. A não consideração de práticas já efetivadas aniquila a identidade da escola. Seria importante que se formasse nas escolas a consciência da importância da memória por meio de uma compreensão de que as mudanças devem partir do 27 LONDOÑO e GUERRERO (2000) asseveram que há uma distinção entre o ato violento e o seu registro, pois muitas ações não chegam ao conhecimento das pessoas porque não são registradas. 59 que já existe a fim de garantir a continuidade da história. Em termos legais poderia haver um compromisso de que a gestão que sair preste conta de todos os documentos a que entra, e que esta por sua vez, se comprometa em dar continuidade ao trabalho que estava sendo desenvolvido, partindo deste para superá-lo, tendo em vista o melhor atendimento da comunidade escolar. Faz-se necessário que a conservação da memória seja vista como direito público e não propriedade privada de alguns que por não serem mais aceitos, se acham no direito de levar embora aquilo que não lhes pertence, pois no exercício da sua função já foram pagos para elaborar em conjunto com a comunidade escolar, tais documentos. Com relação ao corpo docente, o colégio dispõe de um total de quarenta professores, destes, treze que lecionam no Ensino Fundamental de primeira a quartas séries, não são licenciados, possuem Magistério, dos vinte e sete que lecionam de quinta a oitavas séries, 59,2% têm pós-graduação e 40,8% têm somente licenciatura. O documento que trata do histórico deste colégio não denuncia, como fez o colégio anterior, as dificuldades enfrentadas com o problema da violência. Este é revelado no depoimento da diretora que relata que já passaram por vários tipos de situações: Já tivemos violência de vários tipos, a escola abrange de Pré a Educação de Adulto. (...) A própria brincadeira do sinal. Eles, os alunos fazem um pacto entre eles, chegam para um colega e dizem o sinal e o colega tem que dar o retorno, se ele não responder o código eles agridem fisicamente, e as agressões costumam ser bem violentas. Tinha parado, mas está voltando (...) estamos tentando combater (...). Muitos alunos também agem em gangues, invadem a escola com pedaços de paus, pedras e trazem até pessoas da família. A Gangue da (...) se mexer com um dos alunos chamam a gangue. Nesta direção não invadiram a escola, mas já aconteceu na anterior. (...) Já teve agressão verbal, (...) com os professores é mais comum. Á noite já desarmei alunos, já separei meninas que estavam se mordendo, brigando, se rasgando de tirar sangue e os alunos não me ajudaram ficaram em volta torcendo. De certa forma consegui controlar a violência. Os adultos à noite querem fazer o querem, que não tenha ordem nem regras. Um aluno do noturno chegou e disse: Eu não peço autorização nem para minha mãe vou pedir para você. À noite é o horário que o problema se manifesta com maior intensidade (...). (DIRETORA DO COLÉGIO ESPERANÇA, 19 set., 2003). Para enfrentar o problema das violências, de acordo com a diretora, a escola recorre às parcerias com a Prefeitura, com a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, com instituições privadas e se ressente da ausência do Estado em 60 cumprir com a sua obrigação de assegurar condições adequadas de funcionamento do estabelecimento escolar, pois uma das grandes dificuldades é a falta de funcionários que ocupariam as vagas de serviços gerais. 3.3 O COLÉGIO AMBIENTE: RESPEITAR É PRECISO O Colégio Ambiente foi fundado na década de 1960 e na época ofertava o ensino de Primeiro Grau e cursos profissionalizantes de Magistério, Técnico em Administração, em Secretariado e em Contabilidade no período vespertino. Em 1996 aderiu ao Programa de Reorganização e Expansão do Ensino Médio extinguindo gradativamente estes cursos, passando a ofertar somente o Ensino Médio nos três períodos letivos. Neste colégio a pesquisa foi realizada no turno da noite e o instrumento foi distribuído entre alunos do primeiro, segundo e terceiro ano do Ensino Médio. Dos alunos que freqüentam a escola, uma parte pertence à comunidade local e outra parte vem de bairros vizinhos e de outros mais distantes utilizando-se de ônibus. O colégio também se localiza na zona urbana, numa região não muito distante do centro de Curitiba. É cercado por residências e nas proximidades há uma variedade de estabelecimentos comerciais. O bairro de classe média baixa possui boa infra-estrutura. O espaço físico é composto por doze salas de aula, uma sala de vídeo, um laboratório de Ciências da Natureza e Matemática, dois laboratórios de informática, uma quadra coberta, um pátio interno coberto, biblioteca, dois banheiros coletivos sendo um masculino e outro feminino, dois banheiros para funcionários, sala dos professores, refeitório, cozinha, cantina, secretaria, sala de direção, duas salas uma para orientação e outra para supervisão pedagógica, depósito e sala de xerox. O Colégio possui o seu Projeto Político-Pedagógico e o Regimento Escolar, mas este, como nas demais escolas pesquisadas só descreve normas para alunos e professores e não apresenta normas para pais ou responsáveis. O fato de não haver no Regimento normas para os pais ou responsáveis, revela que, embora a escola requisite a participação deles, não lhe parece de grande importância traçar qual é o seu papel, suas responsabilidades para com a escola. Assim, como assinala BAIBICH (2002), está muito claro que os educadores 61 querem que a escola se constitua num espaço que prime pela formação de sujeitos autônomos aonde o horizonte da paz se faça presente, entretanto, esta premissa firma-se no nível do discurso porque na prática cotidiana há uma distância grande entre a “intenção e o gesto”. O conceito de Projeto Político-Pedagógico utilizado por este colégio não está presente na Lei 9394/96, que traça as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O conceito de Proposta Pedagógica, adotado pelos colégios citados anteriormente, está presente na referida Lei, no Art. 12 no qual assinala-se que: “Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: I – elaborar e executar sua proposta pedagógica“; no Art. 13 destaca-se que “Os docentes incumbir-se-ão de: I – participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino”. (BRASIL, Lei n.º 9394/96). A utilização do termo Projeto Político-Pedagógico pressupõe uma compreensão emancipada de educação. O quadro de regentes do Colégio Ambiente é composto por quarenta e seis professores, destes 60,9% têm somente licenciatura e 39,1% têm pós-graduação. Para entrar na escola, no início das aulas uma inspetora abria o portão que era mantido aberto até que tocasse o sinal. Os alunos que chegavam atrasados sem justificativa ficavam para fora, pois o portão só era aberto novamente quando tocava o sinal para a aula seguinte. Ao soar o sinal ao invés do som da sirene ouvia-se uma música, neste momento os alunos se dirigiam para as salas, os que se demoravam eram acompanhados pela vice-diretora ou pela pedagoga. Nesta escola, a música é tocada para indicar mudança de aula, mas não são os professores que saem da sala e sim os alunos, estes devem se basear no horário das aulas e se dirigir para a sala na qual o professor se encontra. Esta escola também apresentava marcas de depredações e pichações, porém as manutenções pareciam ser mais freqüentes, embora a diretora revele na entrevista o sacrifico que é feito pela equipe de gestão para deixar a escola com aspecto agradável para os alunos. Apesar de tudo, ela afirma que eles insistem em destruir o que lhes pertence, ressaltando que “(...) depredação só dos alunos mesmo né (...) de estragarem as coisas da escola, eles mesmos né, na questão da pichação (...) de vez em quando eles tiram vasos do banheiro do lugar, estragam as torneiras, isso tem bastante”. [grifo nosso]. (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 62 18 nov., 2003). Observa-se que a sua fala é contraditória, pois ao mesmo tempo em que quer dizer que não é um grande problema acaba por revelar na própria fala que ocorre com freqüência. A diretora desta escola relata ainda que a agressão verbal e física é um dos principais problemas de violências que o colégio enfrenta: Bem, agressão entre palavras né (...) que eu acho que seria agressão moral né, de ofensa, eu acho que essa violência sim, né (...) De repente entre alunos, entre professor e aluno né que não é tão comum, mas que de vez em quando acontece né (...) tanto do professor para com o aluno que é poucas ocorrência, mas do aluno com relação ao professor, né (...) violência verbal de xingar, de falar palavrão, de ofender mesmo né (...) e tivemos até por último um episódio de um jornalzinho que um aluno escreveu sem autorização da direção, sem nada, ofendendo alguns professores, né (...) que eu também acho que seja uma forma de violência (...) e fora a violência física que é a da agressão pessoal mesmo de um atacar o outro com socos, com chute, né, dentro da escola é raro acontecer, já aconteceu, mas né (...) Agora fora da escola, na frente ou nas imediações é bem comum, de vez em quando, não só entre os meninos, mas entre as meninas também, tá bem constante [grifo nosso] essa questão da agressão física, né. (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 18 nov., 2003). A agressão física também foi indicada pelo presidente da Associação de Pais e Mestres dessa escola como sendo o principal problema que a escola enfrenta com relação à violência, afirma que ocorrem “mais brigas. Brigas por motivos passionais, briga de menina por causa dos rapazes, dos meninos de desavença de rapazes, de tirar a limpo alguma coisa que aconteceu na sala de aula, no pátio, alguma coisa assim. (...) Agressão física”. (PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE PAIS E MESTRES DO COLÉGIO AMBIENTE, 17 nov., 2003). Quanto aos furtos e roubos a diretora afirma que “de vez em quando, (...) até nós tivemos um episódio semana passada que roubaram as calotas do carro de uma professora e essa semana que riscaram o carro dessa mesma professora, né, é raro, mas aconteceu esses casos assim bem seguidos”. [grifos nossos]. (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 18 nov., 2003). Na semana em que ocorreu este episódio foi possível acompanhar como esta situação especificamente foi encaminhada pela escola. Na ocasião estava presente, um policial da Patrulha Escolar e algumas pessoas que compõe a equipe técnico-pedagógica, o presidente da Associação de Pais e Mestres, portavam um pedaço de colher, que julgavam que poderia ter sido utilizado pelo aluno que cometera o ato, relataram o ocorrido ao policial. A solução que o mesmo deu à 63 escola, de forma ingênua, foi a de separar o pátio dos alunos do estacionamento dos professores. Ora, profissionais da educação que trabalham em escolas públicas sabem muito bem que isto não resolve o problema, pois freqüentemente carros de profissionais que trabalham em outras escolas estaduais e que têm estacionamento à parte aparecem riscados, com pneus furados ou até mesmo com os vidros quebrados, como represália de alunos que foram repreendidos ou mal sucedidos em avaliações. Parece que a escola acredita que a função da polícia é a de redenção, quando na verdade o que o policial pode fazer é tentar garantir a segurança em especial ao redor da escola. A forma como a escola lida com as situações de violências remete a uma compreensão do tipo de cidadão que está se formando. Algumas práticas evidenciam que o perfil de cidadania assumido coloca em segundo plano o compromisso em formar alunos cultos, morais, solidários, justos e bondosos. De acordo com HELLER (1998)28 a pessoa honesta faz mais do que “restaurar a justiça”. Ir além da justiça não significa uma questão de atos ou escolhas únicas. O exercício da bondade torna-se caráter. O caráter das pessoas honestas é diferente em espécie uma vez que o “eu” homogeneizado é único. As pessoas honestas têm uma “aura” própria, uma “aura” que clama por confiança com todas as facetas da vida exigidas pelas normas que a pessoa honesta escolheu. A pessoa justa pode ser confiável, mas em base mais estrita. Sabe-se que ela aplicará adequadamente as normas sociopolíticas e regras válidas. A “aura” da pessoa honesta é seu caráter, que torna uma pessoa além da justiça. Dessa forma, a honestidade (bondade, certeza) está além da justiça. Mas tem uma conotação “mais alta” não apenas “diferente”. A vida possui três constituintes: honestidade, o desenvolvimentos dos melhores dons e talentos da pessoa e a força das ligações pessoais do sujeito. Dessas três, a honestidade (bondade) é o elemento abrangedor.29 Sendo assim, oportunidades de vida iguais para todos, liberdade igual para todos, a idéia reguladora do melhor mundo sociopolítico possível, também podem ser concebidos como um objetivo (...) 28 29 HELLER, Agnes. Além da justiça. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. Contribuições feitas pela professora Doutora Naura Syria Carapeto Ferreira na ocasião de Defesa desta Dissertação em 12/08/2004, Curitiba, Paraná. 64 ainda assim, esse objetivo é um meio. O objetivo do melhor mundo sociopolítico possível merece ser buscado porque é a condição da possibilidade da vida boa para todos. O único objetivo que não é apenas um meio é a vida boa para todos. O objetivo da justiça está além da justiça. (HELLER, 1998, p. 436-437). 65 CAPÍTULO IV – TUDO COMEÇA DENTRO DE CASA? Neste capítulo serão caracterizados os pais ou responsáveis que responderam ao instrumento, bem como o tipo de violência que referem no espaço escolar. Faz-se também uma análise das causas das violências para eles e a questão da segurança dos alunos na escola. Analisando o papel e a forma que a família assume nas sociedades modernas ocidentais, SALLAS, et al. (1999, p. 125) assinalam que algumas pesquisas publicadas recentemente têm enfocado como o modelo familiar tradicional (pai/mãe/filhos) tem cedido espaço para criação de formas heterogêneas de família. A possibilidade de novos arranjos familiares vem sendo tratada por pesquisadores das áreas de saúde coletiva, que apontam para o fato de a crise do modelo familiar tradicional estar alterando radicalmente os papéis de mãe e de pai em nossa sociedade. A mãe torna-se uma figura poderosa, uma espécie de ”mulher maravilha” faz-tudo, enquanto o pai passa a perder espaço (à medida que também deixa de ser o provedor da mulher e filhos) tornando-se vulnerável. Dentre as alterações decorrentes, no âmbito das relações familiares, há exigências que muitas famílias têm de trabalhar o dia todo30, não dispondo de tempo para os filhos ou crianças sob sua responsabilidade ou para uma interação entre seus membros. Para PRADO (1982, p. 26), “hoje, os laços entre os membros da família nuclear se enfraquecem, porque a responsabilidade coletiva da família enquanto núcleo através do qual se realizam projetos em comum diminui cada vez mais. E também porque cada um de seus membros é cada vez mais absorvido por suas atividades próprias e num meio ambiente específico”. Os resultados apresentados na tabela 1 mostram, no que diz respeito à faixa etária em cada escola, a heterogeneidade dos pais ou responsáveis que participaram da pesquisa. 30 De acordo com BAIBICH e FARIA (CADERNO DO 5.º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2004), “a concentração de renda apresenta dados incontestáveis acerca da pobreza no Brasil (...): Os ricos recebem 14 vezes mais do que a média da população e 80 vezes mais do que os que se encontram abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo a renda da classe média caiu 17% entre1999 e 2001, enquanto o número de pobres cresceu em 18 % no mesmo período (...)”. 66 TABELA 1 – IDADE – 2004 FAIXA ETÁRIA APRESENTADA PAIS OU RESPONSÁVEIS ENTRE A FAIXA INDICADA EM CADA COLÉGIO COLÉGIO DA VIDA Até 19 anos 0,0% 20 – 29 anos 6,3% 30 – 39 anos 37,5% 40 – 49 anos 40,6% 50 – 59 anos 6,3% 60 – 69 anos 6,3% Acima de 70 anos 3,1% TOTAL 100,0% COLÉGIO ESPERANÇA TOTAL COLÉGIO AMBIENTE 0,0% 10,5% 2,2% 7,1% 21,1% 9,7% 47,6% 26,3% 39,8% 35,7% 31,6% 36,6% 4,8% 10,5% 6,5% 4,8% 0,0% 4,3% 0,0% 0,0% 1,1% 100,0% 100,0% 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. Verifica-se que a maior faixa etária entre os pais ou responsáveis das referidas escolas que responderam à pesquisa compreende a idade de trinta a trinta e nove anos, seguida pela faixa de quarenta a quarenta e nove anos de idade. No Colégio Ambiente, o índice de 10,5% de pais ou responsáveis jovens, pode indicar jovens sob a responsabilidade de outros jovens, irmãos, parentes ou outras pessoas. A tabela 2 refere-se ao gênero dos pais ou responsáveis que responderam à pesquisa. TABELA 2 – SEXO – 2004 PAIS OU RESPONSÁVEIS (COM O REFERIDO SEXO) EM CADA COLÉGIO SEXO COLÉGIO COLÉGIO COLÉGIO DA VIDA ESPERANÇA AMBIENTE Masculino 34,4% 26,2% 26,3% Feminino 65,6% 73,8% 73,7% TOTAL 100,0% 100,0% 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. TOTAL 29,0% 71,0% 100,0% Com relação ao gênero, verifica-se que 71% dos pais ou responsáveis que responderam à pesquisa são do sexo feminino e apenas 29% são do sexo masculino. A ausência paterna é um fato que não pode ser ocultado em muitas 67 famílias brasileiras, entretanto, no cotidiano escolar, observa-se, mesmo entre os alunos que têm o pai, que quem acaba sempre respondendo pelo filho é a mãe. Sendo assim, BRUSCHINI (1997, p. 63) assevera que “além de ser o lugar onde se forma a estrutura psíquica, a família constitui um espaço social distinto, na medida em que gera e consubstancia hierarquias de idade e de sexo. Ela é um espaço social onde as gerações se defrontam mútua e diretamente, é onde os sexos definem suas diferenças e relações de poder”. Quanto à escolaridade destas pessoas, verifica-se um baixo grau. Este é um aspecto que pode indicar desigualdades sociais no acesso aos bem culturais. TABELA 3 – GRAU DE ESCOLARIDADE – 2004 GRAU DE ESCOLARIDADE PAIS OU RESPONSÁVEIS COM O REFERIDO GRAU EM CADA COLÉGIO COLÉGIO DA VIDA 15,6% 18,8% Não freqüentou a escola a Primeiro Grau Completo / Até a 8. série a Primeiro Grau Incompleto e/ou até a 4. . série 25,0% Segundo Grau Incompleto/Sem concluir o Ensino Médio 15,6% a Segundo Grau Completo/Até a 3. . série do Ensino Médio 21,9% Curso Superior Incompleto/Cursou por algum tempo ou está cursando uma faculdade/ universidade 0,0% Curso Superior Completo/Formou-se em uma faculdade/universidade 3,1% Não responderam a questão 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO ESPERANÇA 2,4% 4,8% TOTAL COLÉGIO AMBIENTE 0,0% 15,8% 6,5% 11,8% 57,1% 21,1% 38,7% 2,4% 26,3% 11,8% 9,5% 36,8% 19,4% 7,1% 0,0% 3,2% 2,4% 14,3% 100,0% 0,0% 0,0% 100,0% 2,2% 6,5% 100,0% O grau de escolaridade dos pais ou responsáveis entrevistados revela que 38,7% deles possuem o Primeiro Grau Incompleto ao passo que apenas 2,2% possuem Curso Superior Completo, evidenciando que ainda há muito a ser feito em termos de políticas públicas para que se efetive realmente uma educação para todos. Observa-se ainda que 6,5% dos pais ou responsáveis não revelaram o seu grau de escolaridade, este aspecto pode indicar como assinalaram SALLAS, et al. (1999, p. 127), com relação aos jovens na pesquisa sobre a escolaridade dos seus pais, que os pais ou responsáveis das escolas pesquisadas também podem ter vergonha de mencionar um baixo nível de escolaridade. Este aspecto pode 68 evidenciar desigualdades sociais no acesso à escolarização. Dessa forma, dentre as tantas perversidades da “violência político - social” aquela que faz com que a vítima se sinta culpada por sua condição de espoliação e desamparo, dado que não alcança compreender o fenômeno em sua inteireza, funciona como mecanismo auto-perpetuante do status quo.31 Chama atenção, ainda, o fato de que 6,5% dos pais ou responsáveis afirmaram que não freqüentaram a escola. Este aspecto evidencia que eles podem ter solicitado o auxílio dos filhos, vizinhos ou de parentes com quem convivem para preencher a entrevista. Uma das senhoras de setenta anos que respondeu à pesquisa, embora a tenha feito com letra trêmula, assinalou que não freqüentou a escola, indicando que pode ter sido alfabetizada na comunidade em associações ou igrejas e que por isso não soube dizer em que grau estava. A tabela 4 refere-se ao tipo de atividade profissional que os pais ou responsáveis exercem. TABELA 4 – TRABALHO – 2004 TIPO DE TRABALHO QUE DESENVOLVE Aposentado Agente comunitário de saúde Lactarista Monitora de Berçário Auxiliar de produção Auxiliar administrativo Soldado Técnico em telecomunicações Telefonista Vendedor Relações públicas Analista de crédito Comerciante Entregador de jornal Encarregado de supermercado Trabalha com tripa Inspetor de alunos Segurança Porteira Autônomo Motorista de ônibus 31 PAIS OU RESPONSÁVEIS QUE DESENVOLVEM O REFERIDO TRABALHO EM CADA COLÉGIO COLÉGIO COLÉGIO COLÉGIO DA VIDA ESPERANÇA AMBIENTE 9,4% 2,4% 0,0% 6,3% 2,4% 0,0% 0,0% 2,4% 0,0% 0,0% 2,4% 0,0% 9,4% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 2,4% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 6,3% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 5,3% 3,1% 2,4% 0,0% 0,0% 2,4% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 5,3% 3,1% 0,0% 0,0% 3,1% 0,0% 0,0% 0,0% 2,4% 0,0% 9,4% 0,0% 0,0% 3,1% 0,0% 0,0% BAIBICH, Tânia Maria. 2004, Conversas informais. TOTAL 4,3% 3,2% 1,1% 1,1% 3,2% 1,1% 1,1% 1,1% 1,1% 3,2% 1,1% 1,1% 2,2% 1,1% 1,1% 1,1% 1,1% 1,1% 1,1% 3,2% 1,1% 69 Mecânico 3,1% Medicina 3,1% Supervisora de instrumentação cirúrgica 0,0% Reciclagem de papel: recolho, compro e vendo 0,0% Limpeza: servente, zeladora, diarista domés-tica/cozinheira 12,5% Pedreiro 3,1% Serviços gerais de manutenção 0,0% Marceneiro 0,0% Trabalha fora, mas não definiu o que faz 0,0% Estão desempregados 0,0% Não trabalha fora 25,0% Não respondeu 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 1,1% 1,1% 1,1% 14,3% 0,0% 6,5% 26,2% 5,3% 17,2% 2,4% 2,4% 2,4% 4,8% 2,4% 23,8% 2,4% 100,0% 0,0% 10,5% 0,0% 5,3% 0,0% 26,3% 5,3% 100,0% 2,2% 3,2% 1,1% 3,2% 1,1% 24,7% 2,2% 100,0% Quanto ao tipo de trabalho que realizam verifica-se entre os pais ou responsáveis uma variedade de atividades, sendo que no total 17,2% trabalham com limpeza, 6,5% com reciclagem de papel e 24,7% não trabalham fora. No Colégio Esperança os dados revelam um alto percentual de famílias que sobrevivem da reciclagem de papel, de fato este trabalho é característico da região na qual a escola está instalada, aonde há inclusive galpões que armazenam o papel coletado e comprado da comunidade. O índice de famílias que não trabalham fora pode indicar que muitas mães dedicam-se às atividades no lar ou que há um número maior de situações de desempregados que não quiseram se identificar, devido ao preconceito que há na sociedade com relação às pessoas que estão sem trabalho, pois apenas 1,1% dos pais ou responsáveis indicaram que estão desempregados. Segundo BAIBICH e FARIA (2004) em 2003 o desemprego aumentou para 20,6% e estima-se que 60% da força de trabalho encontra-se na informalidade. Há ainda, no cotidiano escolar, por parte dos profissionais da educação, uma valoração dos pais de alunos que trabalham e a percepção pelos próprios pais ou responsáveis de que os que não trabalham são “vistos com outros olhos”, o que de fato ocorre não só no cotidiano escolar, como também na sociedade. Assim, há uma forma de violência oculta na qual cobra-se também do aluno o fato do pai ou responsável não estar trabalhando. Desse modo, faz-se necessário compreender que as funções da família englobam também aspectos econômicos, sociais e ideológicos que não são destacáveis do quotidiano familiar e que por isso, sugerem que a família merece 70 uma atenção especial pelas suas particularidades, pois “ela não é uma soma de indivíduos, mas um conjunto vivo, contraditório e cambiante de pessoas com sua própria individualidade e personalidade”. (BRUSCHINI, 1997, p. 77). Sendo assim, os sujeitos determinam grupos sociais em que o trabalho, o lazer e a convivência familiar significam formas de participação. 4.1 TIPOS DE VIOLÊNCIAS PRESENTES NAS ESCOLAS PESQUISADAS: “DE VEZ EM QUANDO... TÁ BEM CONSTANTE...” Os diferentes tipos de violências, bem como seus mecanismos, prejudicam o processo de ensino-aprendizado resultando em implicações para a prática pedagógica. Dentre as dificuldades encontradas pelas equipes pedagógico-administrativas, encontram-se algumas relações entre os alunos no cotidiano escolar que vêm culminando em atitudes de violências, as depredações, os roubos e o consumo de drogas pelos estudantes. Para SPOSITO (2002) é possível pensar em duas modalidades de violência escolar: - a primeira seria caracterizada por atos de violência contra a escola, produtos de ações que danificam o patrimônio escolar, perpetram agressões a bens (em geral automóveis) de funcionários ou professores; - a segunda decorre de um padrão de sociabilidade, das relações interpessoais que hoje atinge a escola, tanto a pública como a privada. Trata-se tanto de uma série de práticas que compreendem os alunos e seus pares, crivadas pela formação de grupos que podem ou não se enfrentar de modo belicoso, como envolvem agressões, tanto físicas como verbais por meio de ameaças, a professores e funcionários. (SPOSITO, 2002, p. 73). Assim, diante dos inúmeros episódios de violências ocorridos nestes colégios perguntou-se aos pais ou responsáveis: quais os tipos de violência que presenciaram nas escolas ou no seu entorno, tiveram ou não conhecimento e que envolveram a comunidade escolar: funcionários, zeladores, alunos, professores, orientadores, supervisores, coordenadores, diretores, vice-diretores, pais ou respon- 71 sáveis e pessoas da comunidade?32 Observa-se que o alto índice de “não tive conhecimento” em especial nas questões em que os próprios diretores das escolas denunciam que têm problemas, pode estar relacionado tanto à ausência de participação na escola, assinalada nas entrevistas com diretores e presidentes das Associações de Pais e Mestres quanto ao que é muito mais grave que é o fenômeno da banalização violência, já assinalada por ABRAMOVAY (2002), CANDAU, LUCINDA e NASCIMENTO (2001), entre outros. Conforme CHAUÍ (1998, p. 39) dentre os traços mais marcantes da sociedade brasileira está a “naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas, postas como desigualdades raciais entre superiores e inferiores, das diferenças religiosas e de gênero, bem como naturalização de todas formas visíveis e invisíveis de violência”. Para muitos, pode ser que determinados comportamentos e atitudes não lhes causem mais estranheza ou quem sabe, impere a “Lei do Silêncio” que se consolida por meio da cumplicidade e apatia (CASTRO e ABRAMOVAY, 2002). A ameaça A percepção dos pais ou responsáveis no que diz respeito à ameaça revela que ela atinge os estabelecimentos de ensino de forma diferenciada. 32 No item que perguntou “Feita por outro?”, no instrumento, deixou-se espaço para que a pessoa pudesse indicar quem seria esse outro, devido à variedade de opções que surgem, pois ele pode contemplar pessoas da comunidade, alunos de outras escolas, estranhos, etc. Em todas as questões caso fosse necessário, poderiam marcar mais de uma alternativa. Conforme assinalado anteriormente o instrumento de pesquisa foi elaborado com base no relatório sobre ocorrências em estabelecimentos de ensino de Curitiba e Região Metropolitana de Curitiba, do ano 2000 e de janeiro a julho de 2001, fornecido pelo Sistema de Controle Operacional da Polícia Militar do Paraná. 72 TABELA 5 – AMEAÇA A ALGUÉM DA ESCOLA – 2004 COLÉGIOS AMEAÇA COLÉGIO DA VIDA 12,5% 0,0% 0,0% 9,4% 78,1% Feita por Aluno da Escola Feita por Profissionais da Escola Feita por Pais ou Responsáveis Feita por Outros? Não Tive Conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO ESPERANÇA 28,6% 2,4% 4,8% 2,4% 59,5% 2,4% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 36,8% 0,0% 0,0% 5,3% 57,9% 0,0% 100,0% TOTAL 24,7% 1,1% 2,2% 5,4% 65,6% 1,1% 100,0% Observa-se na tabela que com relação à ameaça feita por aluno da escola, que a incidência é maior no Colégio Ambiente, pois do total de pais ou responsáveis que foram entrevistados 36,8% têm conhecimento de que há este tipo de ameaça no ambiente escolar, seguido do Colégio Esperança com 28,6% e por último do Colégio da Vida com 12,5%. Ao todo 24,7% dos pais ou responsáveis entrevistados reconhecem a presença da ameaça feita por aluno na escola. No Colégio Esperança 2,4% dos pais ou responsáveis acreditam que a ameaça é feita por profissionais da escola, 4,8% pelos próprios pais ou responsáveis e 2,4% que é feita por outras pessoas. No Colégio da Vida 9,4% e no Colégio Ambiente 5,3%, dos pais ou responsáveis acreditam que a ameaça é feita por outras pessoas. A ameaça constitui-se em uma forma de violência silenciosa que causa sérios traumas às pessoas. Alunos ameaçados têm medo de ir para escola causando prejuízos para o seu aprendizado, culminando muitas vezes em fracasso e evasão escolar. Professores e profissionais ameaçados não querem trabalhar nas escolas, também sentem medo e temem pela sua segurança quando vão trabalhar. Muitas vezes quando não se sentem seguros abandonam a escola ou faltam constantemente causando prejuízos para o processo de ensino-aprendizado. A ameaça no cotidiano escolar também é conhecida como intimidação. De acordo com SMITH (2002), a intimidação tem sido compreendida como um conjunto de comportamentos repetitivos, no qual a vítima é tomada como alvo por inúmeras vezes e não consegue se defender com facilidade. É um problema que afeta a atmosfera da escola toda. Ele destaca que diferentes países como Escandinávia, Japão, Reino Unido, Irlanda, Austrália e Estados Unidos dentre outros, têm se 73 interessado pelo (bullying) a intimidação por pares. A intimidação pode ocorrer em vários contextos, no local de trabalho, em casa, em prisões, na escola e em outros locais. Na escola a intimidação pode acontecer na relação professor-professor, aluno-professor, professor-aluno e aluno-aluno. De acordo com o autor os principais métodos de obtenção de dados para detectar a intimidação na escola provêm de queixas apresentadas por pais e professores, depoimentos dos próprios alunos que praticaram ou não intimidação, nomeação pelos colegas, observação direta dos comportamentos no pátio de recreio, entrevistas com indivíduos e com grupos de alunos. Na categoria de intimidadores os meninos são a maioria, mas ambos os sexos aparecem em número equivalente na categoria de vítima. No caso das meninas a intimidação ocorre de forma mais indireta e relacional e os meninos tanto praticam quanto sofrem mais intimidação física. Para SMITH (ibid., p. 192) a extensão e a natureza da ocorrência da intimidação sofre a influência de diversos fatores, tais como as variáveis sociais e comunitárias e a forma como a intimidação é mostrada pelos meios de comunicação de massa. Assim, “as escolas, por sua vez, podem dar maiores ou menores oportunidades para a ocorrência de intimidação, em termos da natureza do ambiente escolar e do tipo de valores éticos que ali prevalecem, de haver ou não uma política escolar que de fato funcione e sanções contra a prática da intimidação, e de quais são as atitudes dos grandes grupos de colegas, na escola”. O referido autor destaca ainda, que pesquisas têm apontado os fatores que levam o sujeito a ser vitimado. Tais fatores referem-se ao fato de se ter poucos amigos, ser de condição social inferior, proveniente de famílias superprotetoras ou excessivamente apegadas, portador de deficiências, ter orientação homossexual, não ser branco entre outros. Há também os fatores de risco individuais de vir a praticar intimidação. Dentre estes é mais comum ocorrer entre crianças que vem de família onde há falta de afeto, muita violência e disciplina inconsistente. A intimidação também tem seus efeitos. As vítimas podem sofrer de depressão, baixa auto-estima e queixas físicas, podem até mesmo cometer suicídio. Muitos casos de ameaça só são conhecidos quando resultam em agressão, pois as ameaças raramente chegam aos ouvidos das equipes pedagógicas. Foi o que ocorreu com uma adolescente de um grande colégio estadual na cidade de 74 Curitiba cujo caso foi noticiado pelos jornais. De acordo com a reportagem, “Meninas aplicam violento trote em colega de escola” (Gazeta do Povo, 2004, p. 07), ela foi abordada por alunas veteranas que lhe pediram dinheiro, mas no momento acreditou tratar-se de um trote e não levou a sério. Quando entendeu a situação, disse que não pagaria o “pedágio” e passou a receber ameaças. Na saída da escola, próximo às imediações, foi atacada por um grupo de meninas veteranas que passaram a agredi-la, durante aproximadamente quinze minutos, com socos nas costas e na cabeça. De acordo com a mãe da menina, a escola alegou que devido ao grande número de alunos não tem como controlar este tipo de situação. Todavia, SMITH (ibid., p. 202) assinala que em diversos países uma série de métodos de intervenção já foram utilizados a fim de combater a intimidação: campanha de larga escala, material e vídeos distribuídos entre alunos e professores, aconselhamento aos pais e publicidade na mídia. Entretanto, assevera que “as intervenções com base nas escolas podem ser úteis para lidar com os fatores individuais e escolares, mas não se pode esperar que elas venham a ter grande impacto sobre as variáveis sociais e comunitárias, por um lado, ou sobre as variáveis familiares, por outro”. Disparo de arma de fogo Dentre os tipos de violências assinalados pelos pais ou responsáveis constatou-se o disparo de armas de fogo nas imediações ou no interior da escola. Na tabela 6 pode-se observar a incidência de disparos nas diferentes escolas. 75 TABELA 6 – DISPARO DE ARMA NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 DISPARO DE ARMA COLÉGIO DA VIDA 3,1% Feito por aluno Feito por pai ou responsável da escola 0,0% Feito por outros? 12,5% Não tive conhecimento. 84,4% Não respondeu nenhuma das alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 4,5% COLÉGIO AMBIENTE 31,6% TOTAL 9,5% 0,0% 31,8% 59,1% 0,0% 10,5% 57,9% 0,0% 21,1% 67,4% 4,5% 100,0% 0,0% 100,0% 2,1% 100,0% Com base nos dados apresentados acima, com relação aos disparos de arma, verifica-se um índice alarmante de 31,6% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, afirmam que têm conhecimento de disparos de arma feitos por alunos da escola, seguido pelo Colégio Esperança com 4,5% e pelo Colégio da Vida com 3,1%. Quanto aos disparos feitos por outros, nota-se que a incidência maior foi apontada, pelos pais ou responsáveis do Colégio Esperança com 31,8%, seguido pelo Colégio da Vida com 12,5% e pelo Colégio Ambiente com 10,5%. Como se pode constatar, no total 9,5% dos pais ou responsáveis assinalam que têm conhecimento de disparos feitos por alunos e 21,1% afirmam que foi feito por outras pessoas. No Colégio da Vida três pais ou responsáveis assinalaram no instrumento que o disparo teria sido feito respectivamente, por transeunte, por desconhecido e por aluno de fora. No Colégio da Ambiente um pai ou responsável relatou que um estranho teria invadido uma das salas atrás de aluno, vestido com máscara de palhaço e com a arma em punho deu um tiro no teto. De acordo com SPÓSITO (2002, p. 74) (...) a violência como padrão das relações interpessoais e sua conseqüente banalização, tem adquirido uma característica nova, nos anos 90, pois muitas vezes tem terminado em desenlaces fatais, como mortes por armas de fogo. As escaramuças juvenis e o acerto de contas, tradicional na cultura de rua masculina, revestem-se hoje de conseqüências mais graves, diante da facilidade do acesso a armas por parte de jovens e adolescentes. Não obstante, esta facilidade de acesso às armas pode explicar o alto índice de alunos no Colégio Ambiente que já fizeram disparo de armas de fogo. Assim, nestas situações são várias as incidências de alunos portando arma de fogo nos 76 estabelecimentos de ensino. A diretora do Colégio Esperança também assinalou que já desarmou aluno no interior da escola. No Brasil milhares de homicídios são causados pelo uso de armas de fogo anualmente devido ao fácil acesso às mesmas. Para conter o alto índice de mortalidade por armas, foi aprovado o Estatuto do Desarmamento em 22 de dezembro de 2003 – Lei n.º 10.826, que entre outras providências, proíbe o comércio de armas para civis. Este estatuto recebeu apoio de vários pesquisadores do fenômeno da violência, de especialistas e profissionais de segurança pública. Como resultado, em alguns Estados, como no Paraná está havendo campanha de conscientização da sociedade e políticas públicas que visam o controle de armas de fogo a fim de prevenir que o ciclo de violência continue se efetivando. Ao se falar em políticas públicas é preciso que se foque, sob pena de se incorrer no grave erro de desconsideração da macro-realidade brasileira, alguns dados obscenos no que tange a questões sociais: a) De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, os socialmente excluídos no Brasil são cerca de 63% da população; b) Ainda este mesmo relatório recente apontou que 15% da população (25 milhões de habitantes) não têm acesso às condições mínimas de saúde, educação e serviços básicos, isto significa, em média, que 11% dos brasileiros (19 milhões) morrem antes de chegar aos 40 anos, 16% (27 milhões) são analfabetos, 24% (41 milhões) não têm acesso à água potável, e 30% (51 milhões) estão privados da rede de esgoto; c) O Produto Interno Bruto caiu 0,2%, o rendimento médio do trabalhador caiu em 12,5% e o desemprego aumentou para 20,6% (...) estima-se que atualmente cerca de 60% da força de trabalho encontra-se na informalidade; d) O PIB per capita dos 20% mais ricos é 32 vezes maior do que o dos 20% mais pobres, o que significa que os 20% mais pobres ficam com apenas 2% da renda, enquanto que os 10% mais ricos ficam com 46,7% e os 2% mais ricos ficam com 63,4% dela; e) Para complementar este quadro no qual o Estado adota políticas de favorecimento do capital e de submissão aos ordenamentos de organismos externos, criados justamente para favorecer o desenvolvimento do sistema de capital, como o Banco Mundial e o Sistema Monetário Internacional, a gestão orçamentária e financeira do aparelho administrativo do Estado adota práticas de exclusão... A persistir a atual política, ao final de 2004, o governo deixará de investir cerca de R$ 32 Bilhões que poderiam ser aplicados em Programa Sociais. (BAIBICH e FARIA, 2004, prelo 5.º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO) As bombas e explosivos As bombas e explosivos também têm feito parte do cotidiano de algumas escolas. Na tabela 7 verifica-se que os pais ou responsáveis alegam, na sua maioria, que estes objetos são colocados pelos próprios alunos. 77 TABELA 7 – BOMBAS E EXPLOSIVOS NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 BOMBAS E EXPLOSIVOS Colocado por aluno COLÉGIO DA VIDA COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE 6,1% 23,8% Por outros? 3,0% Não tive conhecimento. 87,9% Não respondeu nenhuma das alternativas 3,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. 23,8% 50,0% 15,8% 10,5% 73,7% 2,4% 100,0% 0,0% 100,0% TOTAL 16,0% 13,8% 68,1% 2,1% 100,0% A tabela acima demonstra a presença de bombas caseiras e explosivos artesanais que têm feito parte do cotidiano de algumas escolas. Nas escolas pesquisadas, 23,8% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança, indicam que têm conhecimento de que estes tipos de artefatos foram colocados por alunos e 23,8% de que foram postos por outras pessoas. No Colégio Ambiente, 15,8% dos pais ou responsáveis e no Colégio da Vida 6,1% assinalam que foram postos por alunos e 10,5% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente e 3,0% do Colégio da Vida, dizem que têm conhecimento de que foram postos outras pessoas. A presença de bombas e explosivos na escola refere-se na sua maioria a artefatos feitos artesanalmente pelos alunos. Estes objetos, muitas vezes postos para chamar a atenção, causam acidentes e machucam os próprios alunos que são as principais vítimas. Há relatos de alunos que levaram bombas de São João e jogaram nos colegas como ato de “brincadeira”, tumultuando o ambiente escolar além de causar medo, insegurança e ferimentos. Ato obsceno Na tabela 8 são apresentados os resultados referentes ao ato obsceno. Nos horários de entrada e saída das escolas, há uma incidência maior de atos obscenos praticados por estranhos, entretanto, constata-se pelo resultado da pesquisa que entre os alunos a prática está bem expressiva, em especial no Colégio Ambiente. 78 TABELA 8 – ATO OBSCENO, ATENTADO AO PUDOR (EXPOSIÇÃO OU EXIBIÇÃO DE ÓRGÃOS SEXUAIS) NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 ATO OSBCENO COLÉGIO DA VIDA 9,4% 3,1% 87,5% Praticado por alunos da escola Praticado por outros? Não tive conhecimento. Não respondeu nenhuma das alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 7,2% 11,9% 73,8% COLÉGIO AMBIENTE 47,4% 0,0% 47,3% TOTAL 7,1% 100,0% 5,3% 100,0% 4,3% 100,0% 16,1% 6,5% 73,1% Com relação às escolas que foram pesquisadas, observa-se a maior incidência de atos obscenos entre os próprios alunos, conforme demonstram 47,3% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, seguidos por 9,4% do Colégio da Vida e 7,2% dos pais do Colégio Esperança. Dentre os pais ou responsáveis do Colégio Esperança, 11,9% e do Colégio da Vida 3,1% assinalam que tais atos foram feitos por outras pessoas. É interessante destacar que um pai ou responsável do Colégio da Vida relatou no instrumento que tem conhecimento de alunos que praticaram ato obsceno, atentado ao pudor não só no interior da escola como também num passeio de trem que teriam realizado no período da tarde. O estupro A tabela 9 diz respeito à questão do estupro. Na caracterização do que é violência, o estupro foi citado por vários pais ou responsáveis como violência. Nas escolas o estupro envolvendo alunos foi citado pelo Colégio da Vida. 79 TABELA 9 – ESTUPRO NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 COLÉGIOS ESTUPRO COLÉGIO DA VIDA 3,1% 0,0% 3,1% 93,8% Envolvendo Aluno Envolvendo Profissional da Escola Envolvendo Outras Pessoas? Não Tive Conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO ESPERANÇA 0,0% 0,0% 4,8% 92,9% 2,4% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 0,0% 0,0% 0,0% 100,0% TOTAL 0,0% 100,0% 1,1% 100,0% 1,1% 0,0% 3,2% 94,6% No caso destas escolas, constata-se que 3,1% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida indicam que houve estupro envolvendo aluno e 3,1% envolvendo outras pessoas. No Colégio Esperança 4,8% dos pais ou responsáveis apontam que houve estupro envolvendo outras pessoas. A negligência Um problema que vem sendo observado em muitos estabelecimentos de ensino é o da negligência, não só por parte dos pais ou responsáveis no que tange às suas obrigações, mas da própria escola que se omite em situações nas quais deveria agir, em especial quando os alunos se machucam durante o horário de aula. A tabela 10 revela que segundo os pais ou responsáveis, a maior incidência é a da negligência da escola com os próprios alunos. 80 TABELA 10 – NEGLIGÊNCIA NA ESCOLA, FALTA DE ATENÇÃO NO ATENDIMENTO ÀS SITUAÇÕES EMERGENCIAIS – 2004 NEGLIGÊNCIA COLÉGIO DA VIDA 9,4% 6,3% 9,4% 0,0% 71,9% Com os alunos Com os pais ou responsáveis Com os profissionais da escola Com outras pessoas? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 3,1% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 16,7% 2,4% 0,0% 4,8% 71,4% COLÉGIO AMBIENTE 20,0% 10,0% 5,0% 0,0% 65,0% 4,8% 100,0% 0,0% 100,0% TOTAL 14,9% 5,3% 4,3% 2,1% 70,2% 3,2% 100,0% Com relação à negligência observa-se que a incidência maior é com os alunos, sendo apontada por 20% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 16,7% do Colégio Esperança e 9,4% do Colégio da Vida. Com os próprios pais ou responsáveis foi apontado por 10,0% do Colégio Ambiente e 6,3% do Colégio da Vida e 2,4% do Colégio Esperança. A negligência com profissionais das escolas foi apontada por 9,4% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida e 5,0% do Colégio Ambiente. A negligência por parte da escola também é uma forma cruel de violência que vem sendo cometida em muitos estabelecimentos contra a comunidade escolar, em especial com relação aos alunos. Não são poucos os relatos de pais ou responsáveis que alegam que o filho se feriu em brigas ou acidentes, sejam em correrias, brincadeiras ou nas aulas de Educação Física na escola e esta não tomou nenhuma providência. Em muitos casos e o que é mais cruel ainda, liberou o aluno para ir embora sem prestar nenhum socorro. Não raras vezes os pais ou responsáveis chegaram em casa cansados do trabalho e tiveram que sair em busca de uma Unidade de Saúde vinte e quatro horas ou de hospitais e tiveram a triste notícia de que seu filho passara o tempo todo com o braço, perna, nariz ou dedo quebrado. Acidentes acontecem, mas deixar que o aluno vá embora sem prestar atendimento é no mínimo desumano para uma instituição que se diz responsável pela formação humana. Urge a necessidade de uma campanha nas escolas entre a comunidade escolar, bem como a proposição de alternativas a fim de prevenir acidentes, em especial com os alunos. 81 A depredação A tabela 11 revela o problema da depredação. Na pesquisa, chama atenção o alto índice de “não tive conhecimento”33, em especial no Colégio Ambiente em que a diretora relata que este é um dos principais problemas que a escola enfrenta. Basta fazer uma visita nas três escolas para se certificar de que todas têm o patrimônio depredado. O alto índice de “não tive conhecimento” pode estar relacionado, conforme citado anteriormente, à banalização. (ARENDT, 1999). De acordo com ABRAMOVAY (2002), a escola torna-se “(...) um ambiente no qual a violência deixou de ser um componente de excepcionalidade e se disseminou a tal ponto que se naturalizou, se banalizou, passando a ser um elemento comum no cotidiano das populações de baixa renda”. Para os pais e responsáveis pesquisados nas escolas abaixo ao que tudo indica as marcas de depredações já fazem parte da estrutura da escola. O que lhes chama a atenção é quando a escola aparece reformada. Todavia, a depredação não refere-se só a estrutura da escola, mas sobretudo de mesas, armários, computadores, pias, vasos sanitários entre outros e bens dos profissionais da escola – em especial de automóveis ou dos materiais dos colegas. TABELA 11 – DEPREDAÇÕES QUE TENHAM OCORRIDO NO PRÉDIO ESCOLAR, EM MATERIAIS, MÓVEIS OU CARROS DA ESCOLA OU DE PROFISSIONAIS QUE NELA TRABALHAM – 2004 DEPREDAÇÕES COLÉGIO DA VIDA 3,1% 0,0% 40,6% 6,3% 37,5% Feito por pais ou responsáveis Feito por profissionais da escola Feito por alunos da escola Feito por outras pessoas? Não tive conhecimento. Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 12,5% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. 33 COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 4,9% 0,0% 29,3% 22,0% 41,5% 2,4% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 0,0% 0,0% 22,7% 27,3% 50,0% TOTAL 0,0% 100,0% 5,3% 100,0% 3,2% 0,0% 31,6% 17,9% 42,1% Como referido anteriormente, a “lei do silêncio” é uma das perversas condições impostas pela violência social e constitui-se em motor auto-perpetuante, pois que retira da vítima o direito da defesa. (BAIBICH, Conversas informais, 2004). 82 O maior índice de responsabilidade pelas depredações foi imputado pelos pais ou responsáveis aos próprios alunos, por 40,6% no Colégio da Vida, 29,3% no Colégio Esperança e 22,7% no Colégio Ambiente. Quanto à depredação feita por pais ou responsáveis, foi apontada por 4,9% do Colégio Esperança e 3,1% do Colégio da Vida e, feita por outras pessoas, foi assinalada por 27,3% do Colégio Ambiente, 22,0% do Colégio Esperança e 6,3% do Colégio da Vida. O fato de que 42,1% do total dos pais ou responsáveis pesquisados apontaram que não têm conhecimento de depredação na escola é no mínimo alarmante, pois também pode indicar que eles sequer estiveram na escola, tendo em vista que as três, em maior ou menor grau, sofrem com o problema da depredação. Este aspecto é evidenciado em especial pela diretora do Colégio Ambiente que afirma que uma das maiores violências que acontece na escola é com o patrimônio: olha eu acho, que a própria violência, eu não sei, eu acho que a própria agressão com o patrimônio da escola, sabe (...). Por que a gente procura, eu acho que é uma forma de violência também, não deixa de ser, porque a gente procura deixar a escola no início do ano bonitinha aconchegante, dentro das condições que a gente tem, a gente procura fazer o melhor possível né e eles começam a estragar as coisas, estragar sem motivo, eu não sei, não sei se é uma revolta que eles têm, se eles querem colocar alguma coisa pra fora né, eu acho que essa agressão com relação às coisas da escola, que são deles, que é público, eu vejo assim que é mais gritante, né (...). (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 18 nov., 2003). Observa-se que a escola não é tida como sendo deles, daí o significado esvaziado do bem público, pois quem não se sente cidadão não é dono nem tampouco responsável34. Este aspecto também é apresentado por PARO (1995) por meio do depoimento de uma professora que alega que a depredação ocorre porque os alunos não se sentem donos da escola. Dois pais ou responsáveis do Colégio da Vida assinalaram no instrumento que as depredações teriam sido feitas por outras pessoas, um deles indica que foi por vândalos e outro afirma que foi por vagabundos. 34 Com relação à depredação nas escolas BAIBICH e ARCO-VERDE (2002) em seu trabalho intitulado HETERONOMIA CULTURAL: da escravidão à morobeza, assinalam, ainda, que estas não são sentidas como patrimônio público daí decorrem os altos índices de depredação. 83 A pichação A pichação, assim como a depredação também é um aspecto presente nas escolas pesquisadas. Conforme os dados abaixo, novamente o maior índice é imputado pelos pais ou responsáveis aos próprios alunos. TABELA 12 – PICHAÇÃO NAS PAREDES OU MURO DA ESCOLA – 2004 PICHAÇÃO COLÉGIO DA VIDA 57,9% 26,3% 15,8% Feito por alunos da escola Feito por outra pessoa? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 36,2% 36,2% 21,3% 6,4% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 54,5% 18,2% 22,7% TOTAL 4,5% 100,0% 3,7% 100,0% 47,7% 29,0% 19,6% A pichação é um problema presente nas três escolas. A alternativa feita por alunos da escola foi indicada por 57,9% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida, 54,5% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente e 36,2% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança. Verifica-se por meio dos dados que 36,2% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança, 26,3% do Colégio da Vida e 18,2% do Colégio Ambiente assinalam que foi feita por outras pessoas. O ato de pichar muro feito normalmente por jovens, pode representar uma forma de manifesto, de denúncia, de resistência contra a própria cultura da escola, a cultura escolar ou contra o sistema. Dos dez pais ou responsáveis do Colégio da Vida que assinalaram a opção feita por outros, sete assinalaram quem teria sido. Assim, três indicaram que foi por vândalos, dois por desconhecidos, um por gente que não estuda no colégio e um afirma que foi por “maloqueiros”. Ao imputar o ato de pichação às pessoas denominadas de “maloqueiros” revela-se aqui um preconceito que está presente na sociedade em acreditar que existe uma relação direta entre pobreza e violência. Deduz-se que o pobre, aquele que mora na maloca em situação precária é o responsável por atos de violências. No entanto, BAIBICH (2000, p. 22) assevera que as diferenças culturais constituem a maior parte dos motivos da alteridade, assim, “no sentido de reafirmar a identidade e 84 a pertença a seu grupo é atribuído ao outro (alter) características, também grupais, supergeneralizadas sobre seu comportamento ou constituição. Estas características são comumente negativas e, quando ‘positivas’, carregam consigo uma avaliação negativa (...)”. A autora assevera, ainda, que Desta maneira, é possível conceber que a pertença a um determinado grupo étnico, além de pressupor a identificação com um conjunto de significações transmitidas pelos agentes sociais apropriados (considerando o processo de identificação como um processo inconsciente), pressupõe também a não-identificação com os outros, tidos como plenos de características indesejadas. Tornar-se idêntico é, portanto, um fenômeno que contém simultaneamente a afirmação de si e a recusa do outro. (ibid., p. 23). O roubo A violência contra o patrimônio público ou privado, intelectual, os furtos e os roubos prejudicam e interferem diretamente na qualidade de vida das pessoas. As violências têm um custo financeiro altíssimo para todas as instituições e pago pela própria sociedade que ao mesmo tempo é desprovida dos recursos de que necessita no seu cotidiano. Assim como para a saúde pública, que atende as vítimas de violências, dentre os inúmeros órgãos, como para a escola o prejuízo em ter que repor o que foi roubado ou depredado impede que se façam novos investimentos. A tabela 13 aborda os roubos nas escolas ou nas suas imediações, que têm se constituído num problema para a comunidade escolar. Não são poucos os relatos de alunos que têm seus tênis, agasalhos e demais objetos roubados. A diretora do Colégio da Vida relatou que já sofreu até seqüestro relâmpago, ao ser abordada na porta da escola. Uma professora do Colégio Ambiente foi assaltada após a aula nas imediações da escola, na semana da realização da pesquisa. 85 TABELA 13 – ROUBO DE DINHEIRO, OBJETOS DE ALUNOS OU DE PROFISSIONAIS NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 ROUBO COLÉGIO DA VIDA 65,6% 0,0% 0,0% 31,3% Feito por alunos da escola Feito por estranhos Feito por profissionais da escola Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 3,1% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 50,0% 15,0% 0,0% 30,0% 5,0% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 40,0% 10,0% 0,0% 50,0% TOTAL 0,0% 100,0% 3,3% 100,0% 53,3% 8,7% 0,0% 34,8% O roubo, não necessariamente seguido de violência física, também é uma das maiores queixas registradas pelas escolas. Entretanto, chama a atenção o fato de estar sendo praticado pelos próprios alunos, tendo sido apontado por 65,6% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida, seguido por 50,0% do Colégio Esperança e 40,0% do Colégio Ambiente. O roubo feito por estranhos foi apontado por 15% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança e 10% do Colégio Ambiente. Há relatos de alunos que sofreram roubos feitos por estranhos que entraram na escola, dentre os objeto roubados estão tênis, jaquetas e dinheiro. Quanto aos profissionais da escola, os relatos denunciam que professores já foram abordados e roubados em especial no horário da saída à noite. O furto Quanto aos furtos, há uma incidência maior de furtos de materiais dos alunos e da escola principalmente em finais de semana e feriados. TABELA 14 – FURTO (ROUBO PRATICADO ESCONDIDO, SEM VIOLÊNCIA) NA ESCOLA – 2004 FURTO COLÉGIO DA VIDA 63,6% 0,0% 3,0% 33,3% Feito por alunos da escola Feito por profissionais da escola Feito por outras pessoas? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 28,6% 0,0% 33,3% 35,7% COLÉGIO AMBIENTE 40,0% 0,0% 10,0% 50,0% TOTAL 2,4% 100,0% 0,0% 100,0% 1,1% 100,0% 43,2% 0,0% 17,9% 37,9% 86 Os resultados demonstram que 63,6% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida acreditam que os furtos são praticados pelos próprios alunos, seguidos pelos pais ou responsáveis do Colégio Esperança com 28,6% e pelo Colégio Ambiente com 40% de indicações. No Colégio Esperança os pais ou responsáveis assinalam ainda que 33,3% dos furtos foram feitos por outras pessoas, seguido pelo Colégio Ambiente com 10% e pelo Colégio da Vida com 3,0%. Os furtos, em especial de objetos da escola, causam prejuízos ao trabalho pedagógico na medida em que a escola é desprovida dos seus parcos recursos, dentre eles, multimeios, materiais didáticos e até merenda e quem sofre as conseqüências são os próprios alunos. Um pai ou responsável alega, ainda, que as crianças são muito carentes e é comum um pegar o material do outro, relata que desapareceu o penal da sua filha com todo o material dentro, mas que diante da pressão que foi feita pela professora a colega acabou devolvendo. Valores tais como honestidade, confiança, respeito mútuo, entre outros, dados os índices apontados, não parecem constituir necessidade moral para muitos dos membros da comunidade escolar. Tendo em conta que a escola é, por princípio, lócus privilegiado para formação de cidadãos de uma sociedade que se pretende justa, este fenômeno pode estar apontando para um “empobrecimento do futuro”.35 A invasão Na tabela 15 são apresentados dados referentes à invasão do estabelecimento. A invasão compreende a entrada sem permissão no estabelecimento com ou sem arrombamentos. 35 BAIBICH, Tânia Maria. 2004, Conversas informais. 87 TABELA 15 – INVASÃO DO ESTABELECIMENTO DE ENSINO – 2004 INVASÃO COLÉGIO DA VIDA 12,5% 0,0% 87,5% Feito por alunos da escola Feito por outros? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 4,5% 47,7% 43,2% 4,5% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 5,0% 25,0% 70,0% TOTAL 0,0% 100,0% 2,1% 100,0% 7,3% 27,1% 63,5% Quanto à invasão do estabelecimento de ensino, no Colégio da Vida 12,5% dos pais ou responsáveis, seguido por 4,5% do Colégio Esperança, 5% do Colégio Ambiente afirmam que foi feita por alunos. No Colégio Esperança 47,7% dos pais ou responsáveis indicam que as invasões foram feitas por outros, bem como 25% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente. Há denúncias de invasões de gangues para retirar aluno de dentro da escola para fazer acerto de contas, bem como de pessoas que invadem nos finais de semanas e feriados no período diurno ou noturno tanto para jogar bola, quanto para usar drogas, roubar ou praticar atos sexuais. A agressão física A agressão física nas escolas se constitui em um grave problema. Os dados da tabela 16 mostram que nas três escolas ela ocorre com intensidade. 88 TABELA 16 – AGRESSÃO FÍSICA NA ESCOLA POR MEIO DE BRIGAS OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 AGRESSÃO FÍSICA Praticada por alunos em seus colegas Praticada por profissionais da escola em alunos Praticada por alunos a profissionais da escola Praticada por pais ou responsáveis a alunos Praticada por pais ou responsáveis a funcionários da escola Praticada por outra pessoa? Não tive conhecimento. Não Respondeu Nenhuma das Alternativas TOTAL COLÉGIOS COLÉGIO DA COLÉGIO VIDA ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE TOTAL 70,6% 60,5% 66,7% 65,3% 0,0% 0,0% 4,8% 1,0% 2,9% 4,7% 0,0% 3,1% 0,0% 2,3% 0,0% 1,0% 0,0% 2,9% 20,6% 0,0% 4,7% 23,3% 0,0% 4,8% 23,8% 0,0% 4,1% 22,4% 2,9% 100,0% 4,7% 100,0% 0,0% 100,0% 3,1% 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. A agressão física entre os alunos é um grande problema nas escolas. De acordo com os dados 70,6% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida, 66,7% do Colégio Ambiente e 60,5% Colégio Esperança assinalam que é cometido por alunos em seus colegas. Dentre os pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 4,8% afirmam que foi praticada por profissionais em alunos. No Colégio Esperança 4,7%, seguido por 2,9% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida, dizem que foi praticada por alunos a profissionais da escola. Um total de 2,3% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança dizem, ainda, que foi praticado por pais ou responsáveis a alunos. Quanto à agressão física praticada por outra pessoa, foi apontada por 4,8% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 4,7% do Colégio Esperança e por 2,9% do Colégio da Vida. As práticas agressivas entre os alunos nas escolas têm sido objeto de estudo em diferentes países. Essas práticas são denominadas de Bullying por diferentes pesquisadores, dentre eles, SMITH (2002), DEBARBIEUX e BLAYA (2002a) e PEREIRA (2002). Esta pesquisadora assinala que o bullying na escola adquire diversas formas e que os estudos sobre a agressividade têm visado o mau trato pessoal, a intimidação psicológica e o isolamento social entre pares. Dessa forma, “tratam-se de situações em que um ou vários alunos decidem agredir injustamente outro colega e o submetem, por períodos prolongados, a uma ou várias 89 formas de agressão: a agressão corporal, o extorquir dinheiro ou a ameaça. É praticado sobre crianças ou jovens mais inseguros, mais fáceis de amedrontar e/ou que têm dificuldades em se defenderem ou pedir ajuda”. (PEREIRA, 2002, p.15). Nas escolas muitas agressões decorrem de brigas entre os alunos que, na sua maioria, ocorrem no horário da saída, no entorno da escola, trazendo sérias implicações na medida em que, no mesmo dia, ou o que é mais comum, no dia seguinte, a escola tem que atender o aluno, tratar com a família do agredido e do agressor e muitas vezes, no caso de agressões em que há lesões graves, o problema é encaminhado para outras instâncias como ao Conselho Tutelar ou até mesmo para a Delegacia. Soma-se aqui, ainda, o tempo que a escola tem que despender para tratar do problema e os prejuízos para todos os envolvidos. A agressão verbal A agressão verbal, assim como a agressão física, teve um alto índice de indicações pelos pais ou responsáveis. Conforme demonstra a tabela 17, a prática é maior entre os alunos. TABELA 17 – AGRESSÃO VERBAL (XINGAMENTOS) NA ESCOLA – 2004 AGRESSÃO VERBAL COLÉGIO DA VIDA 55,8% Praticada por alunos em seus colegas Praticada por profissionais da escola em alunos 7,0% Praticada por alunos a profissionais da escola 16,3% Praticada por pais ou responsáveis a alunos 2,3% Praticada por pais ou responsáveis a funcionários da escola 4,7% Praticada por outra pessoa? 0,0% Não tive conhecimento 14,0% Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 49,0% COLÉGIO AMBIENTE 51,7% TOTAL 52,0% 3,9% 20,7% 8,9% 13,7% 17,2% 15,4% 2,0% 0,0% 1,6% 2,0% 5,9% 21,6% 0,0% 0,0% 10,3% 2,4% 2,4% 16,3% 2,0% 100,0% 0,0% 100,0% 0,8% 100,0% A agressão verbal, assim como a agressão física apresenta um alto índice nas escolas. Dentre os pais ou responsáveis do Colégio da Vida 55,8% assinalaram 90 que é feita por alunos em seus colegas, seguidos por 51,7% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente e 49% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança. A prática da agressão verbal por profissionais da escola em alunos foi assinalada por 20,7% do Colégio Ambiente, 7,0% do Colégio da Vida e 3,9% do Colégio Esperança. A agressão verbal feita por alunos à profissionais da escola foi indicada por 17,2% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 16,3% do Colégio da Vida e 13,7% do Colégio Esperança . A prática de pais ou responsáveis em alunos foi indicada por 2,3% do Colégio da Vida e 2,0% do Colégio Esperança. A prática por pais ou responsáveis a funcionários da escola foi indicada por 4,7% do Colégio da Vida e 2,0% do Colégio Esperança. No Colégio Ambiente a diretora reconhece que a agressão verbal é um grande problema na escola “(...) a relação entre eles também (...) assim sabe, xingam direto, aqueles palavrões assim, ofensas, não importa se é menino, se é menina, acho que o palavreado deles a forma como eles estão se colocando é bem agressivo, desrespeito”. (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 18 nov., 2003). O assassinato de alunos O assassinato de alunos no interior ou na porta da escola chama atenção pela brutalidade. ABRAMOVAY (2003, p. 20) assevera que “a violência que mata não é fato corriqueiro na escola”. Porém, algumas escolas já passaram por esta situação. Dentre as escolas pesquisadas, este fato foi indicado pelo Colégio Esperança, conforme resultados apresentados na tabela 18. TABELA 18 – ASSASSINATO DE ALUNO – 2004 ASSASSINATO Feito por outro aluno da escola COLÉGIO DA VIDA 0,0% Feito por profissional da escola 0,0% Feito por outra pessoa? 9,4% Não tive conhecimento. 87,5% Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 3,1% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE 2,4% 0,0% 11,9% 81,0% 0,0% 0,0% 0,0% 94,7% 1,1% 0,0% 8,6% 86,0% 4,8% 100,0% 5,3% 100,0% 4,3% 100,0% TOTAL 91 O assassinato feito por aluno da escola é indicado por 2,4% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança. O assassinato feito por outra pessoa é indicado por 11,9% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança e por 9,4% do Colégio da Vida. É importante destacar que 14,3% de assassinatos referentes aos feitos por outros alunos e por outras pessoas, indicados por pais ou responsáveis do Colégio Esperança é um número alarmante. Entretanto, pode estar relacionado com o tráfico de drogas presente na região, que também é considerada violenta, devido ao grande número de assaltos. Um dos três pais ou responsáveis do Colégio da Vida que assinalaram a opção “feito por outros”, indica que um aluno teria sido assassinado por maconheiros. De acordo com ZALUAR (1997), a presença cada vez maior de traficantes e assaltantes nos centros urbanos é uma realidade inegável. Assim, os jovens “extorquidos e criminalizados pelo uso de drogas, (...) acabam nas mãos de traficantes e assaltantes, ou são vítimas de chacinas que, quando esclarecidas, exibem seus reais motivos: a cobrança de dívidas ou a divisão dos lucros com policiais corruptos”. (ZALUAR, 1997, p. 41). A provocação de tumulto A provocação de tumulto nas escolas é causada por alunos ou estranhos embriagados, por alunos que se aglomeram prestes a realizar brigas, gangues que invadem o espaço interno fazendo arrastões, entre outros. TABELA 19 – PROVOCAÇÃO DE TUMULTO, BAGUNÇA, CONFUSÃO NA ESCOLA – 2004 TUMULTO COLÉGIO DA VIDA 70,6% 2,9% 2,9% 23,5% Feito por alunos da escola Feito por profissionais da escola Feito por outras pessoas? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 58,1% 0,0% 7,0% 34,9% COLÉGIO AMBIENTE 63,6% 0,0% 13,6% 18,2% TOTAL 0,0% 100,0% 4,5% 100,0% 1,0% 100,0% 63,6% 1,0% 7,1% 27,3% Muitas situações de tumulto prejudicam o andamento do trabalho pedagógico, seja ele provocado por alunos ou por estranhos nas imediações. O 92 tumulto feito por alunos foi indicado por 70,6% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida, 63,6% do Colégio Ambiente e 58,1% do Colégio Esperança. Apenas 2,9% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida assinalou que o tumulto foi causado por profissionais da escola. O tumulto causado por outras pessoas foi apontado por 13,6% pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 7,0% do Colégio Esperança e 2,9% do Colégio da Vida. Esta prática, entre os alunos, normalmente antecede situações de briga como se fosse a atividade preliminar antes de culminar em agressão física, mas não necessariamente termina em briga. Alunos embriagados ou sob o efeito de drogas também podem tumultuar o ambiente escolar tendo atitudes que visam chamar a atenção para si. Gangues ao redor da escola também costumam fazer barulho com o carro, com fogos de artifícios ou tiros para chamar a atenção e amedrontar a comunidade escolar, tumultuando o ambiente. O tumulto também pode ocorrer na escola durante a prática do esporte que deveria se constituir num espaço de lazer, mas em algumas escolas tem se constituído em um espaço em que podem ocorrer violências, seja entre os próprios jogadores que se agridem verbal e fisicamente ou entre as diferentes torcidas. Muitas escolas investiram no esporte como uma forma de solucionar conflitos entre os alunos ou para ocupar os tempos livres, não obstante, não raras vezes um jogo de futebol termina em briga devido aos conflitos gerados por uma derrota indesejada, bem como à ausência de um trabalho que vise fazer com que os próprios alunos tornem-se mediadores e aprendam a lidar com as dificuldades. Dentre os relatos feitos pelos pais ou responsáveis, assinala-se que no Colégio Ambiente a perda de um jogo de futebol levou os adolescentes a se agredirem fisicamente e, um deles, que foi agredido com uma lata na cabeça teve ferimentos graves. A embriaguez A tabela 20 refere-se ao consumo de álcool. Esta atitude tem se constituído numa preocupação para as escolas, em especial quando os alunos chegam embriagados. 93 TABELA 20 – EMBRIAGUEZ NO INTERIOR DA ESCOLA OU NA QUADRA EM QUE ELA ESTÁ LOCALIZADA – 2004 EMBRIAGUEZ COLÉGIO DA VIDA 30,3% 0,0% 0,0% 3,0% 66,7% De alunos De profissionais da escola De pais ou responsáveis De outros? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 26,7% 0,0% 6,7% 8,9% 55,6% COLÉGIO AMBIENTE 66,7% 0,0% 0,0% 9,5% 23,8% TOTAL 2,2% 100,0% 0,0% 100,0% 1,0% 100,0% 36,4% 0,0% 3,0% 7,1% 52,5% O estudo aponta que 66,7% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 26,7% do Colégio Esperança e 30,3% do Colégio da Vida assinalam a embriaguez de alunos. Dentre os pais ou responsáveis do Colégio Esperança 6,7% indicam os próprios pais ou responsáveis. A embriaguez feita por outras pessoas foi indicada por 9,5% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 8,9% do Colégio Esperança e por 3,0% do Colégio da Vida. Um pai ou responsável do Colégio da Vida relatou que tem conhecimento de alunos que se embriagam antes de ir para escola, quando saem desta ou quando gazeiam aula e de alunos que teriam se embriagado em um passeio realizado com a escola. Outro pai ou responsável deste mesmo Colégio, também relatou que sua filha foi proibida de levar sucos para escola porque os alunos estariam misturando bebidas alcoólicas a este tipo de líquido e consumindo durante as aulas. Bares presentes ao redor da escola facilitam o acesso aos alunos e, embora seja proibido por lei a venda a menores, muitos deles compram-na livremente e chegam embriagados na escola. (ABRAMOVAY, 2003, p. 20). Assim, o álcool, considerado droga lícita, apresenta efeitos nocivos que se revelam por meio das estatísticas que apontam que muitos acidentes de trânsito são causados por falhas humanas devido ao excesso de ingestão de álcool pelos motoristas. A violência no trânsito é responsável por milhares de óbitos em todo o mundo, bem como por grande parte dos custos com saúde pública devido à imprudência e ao desrespeito às Leis de trânsito. Nas escolas há casos de alunos que chegam embriagados tumultuando o ambiente escolar na medida em que estão sem condições para assistirem às aulas. 94 Alguns provocam brigas com os colegas e querem muitas vezes desafiar os professores. Há ainda relatos de alunos que estudam a noite e apostam corridas de automóveis no entorno da escola ou estacionam seus carros com o som no último volume prejudicando o andamento das aulas, nestas situações ficam consumindo bebidas alcoólicas. O uso de drogas ilícitas A tabela 21 refere-se ao uso de drogas ilícitas, que entre alunos nas escolas, cresce a cada dia. TABELA 21 – USO DE DROGAS NA ESCOLA – 2004 USO DE DROGAS COLÉGIO DA VIDA 54,3% 5,7% 5,7% 34,3% Feito por alunos da escola Feito por profissionais da escola Feito por outras pessoas? Não tive conhecimento Não Respondeu Nenhuma das Alternativas 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 18,6% 0,0% 18,6% 60,5% COLÉGIO AMBIENTE 75,0% 0,0% 5,0% 15,0% TOTAL 2,3% 100,0% 5,0% 100,0% 2,0% 100,0% 42,9% 2,0% 11,2% 41,8% O uso de drogas ilícitas na escola tem se constituído em um grave problema. Com relação às escolas pesquisadas, 75,0% dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente, 54,3% do Colégio da Vida e 18,6% do Colégio Esperança assinalam que foi feito por alunos. Observe-se que a pergunta não se refere ao entorno da escola o que certamente revelaria um quadro ainda mais crítico. Assim, 5,7% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida afirmam que o uso foi feito por profissionais da escola. 18,6% dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança, 5,7% do Colégio da Vida e 5,0% do Colégio Ambiente, assinalam que foi feito por outras pessoas. Os dados revelam um índice alarmante de consumo entre os alunos do Ensino Médio do Colégio Ambiente, seguido pelo Colégio da Vida. Cabe ressaltar que a comunidade escolar imputa parte dos problemas de violências nas escolas aos usuários de droga, entretanto, não há uma relação direta entre ambos. Todavia, pesquisas revelam que o jovem brasileiro está experimen- 95 tando drogas cada vez mais cedo. De acordo com MINAYO (1999, p. 75) a questão do uso das drogas entre adolescentes e jovens brasileiros, assim como no mundo inteiro, vem envolta em muita mitificação, fascínio, medo e exagero. A história social mostra que não existe comunidade humana que não registre experiências de consumo de substâncias que provoquem alterações significativas dos estados da consciência e da personalidade. (...) No entanto, os vários interesses em jogo e o alto teor emocional que cercam a discussão do tema bloqueiam uma discussão mais balizada cientificamente, capaz de diferenciar os diversos contextos de uso e o real prejuízo que cada uma possa produzir no organismo, no psiquismo e na vida social. Sendo assim, uma das melhores formas de contraposição às drogas é a educação preventiva. Trabalhos na área informam quanto à importância de informar os alunos sobre cada aspecto do problema. CASTRO e ABRAMOVAY (2002, p. 342) salientam que há uma “(...) multiplicidade de formas de apresentação das drogas aos jovens, (...) o que requer não somente da escola, mas da família e da sociedade em geral, um maior esforço no desenvolvimento de ações voltadas para minimizar a influência que a droga pode exercer sobre os jovens”. Embora a questão não diga respeito à droga lícita, ou seja, ao cigarro, dois pais ou responsáveis do Colégio Ambiente denunciam que apesar de existir uma Lei Estadual n.º 8.852 que proíbe fumar em ambientes fechados, em vigor desde 1988, funcionários da escola estariam fumando no seu interior. Observa-se ainda, no Regimento do Colégio Ambiente uma contradição sobre o uso do cigarro. Nas normas para os alunos assinala-se que “alunos fumantes deverão fazê-lo na área coberta, sendo proibido fumar em sala de aula” e no que diz respeito às normas para professores “não é permitido ao professor: fumar em sala de aula ou em qualquer dependência do colégio”. Verifica-se então que os alunos podem e os professores não e, assim, diante da incoerência do Regimento, são estes que infringem a regra. De acordo com APPLE (1989) e WILLIS (1991), a organização real do processo de trabalho e o controle, mostram o quanto os trabalhadores em todos os níveis, muitas vezes, apresentam resistências e envolvem-se em ações que são bastante contraditórias. Assim, a cultura do trabalho fornece elementos de resistência para o trabalhador. Eles transformam modos de controle em oportunidades de resistência e de manutenção de suas próprias normas informais de direção do processo de trabalho. Contudo, essas resistências ocorrem no terreno do capital e podem agir sob formas contraditórias, as quais podem acabar sendo reprodutivas, 96 pois ao resistir e estabelecer uma cultura de trabalho informal que tanto recria alguma espécie de controle do trabalhador sobre o processo de trabalho, quanto rejeita uma boa parte das normas, os trabalhadores podem também estar de forma latente reforçando as relações sociais da produção capitalista. Distância da moradia A tabela 22 revela a distância da moradia das famílias em relação à escola. Uma das dificuldades em participar das atividades promovidas pela escola deve-se à distância, entretanto, este não parece ser um problema para os pais ou responsáveis das escolas pesquisadas, pois a maioria mora próximo à escola. TABELA 22 – DISTÂNCIA QUE MORA DA ESCOLA – 2004 DISTÂNCIA DA MORADIA COLÉGIO DA VIDA Algumas quadras 68,8% Num bairro vizinho 21,9% Num bairro longe 9,4% Em outro município? Qual? 0,0% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 92,9% 7,1% 0,0% 0,0% 100,0% COLÉGIO AMBIENTE 36,8% 52,6% 10,5% 0,0% 100,0% TOTAL 73,1% 21,5% 5,4% 0,0% 100,0% Observa-se que 73,0% dos pais ou responsáveis que responderam à pesquisa moram próximo à escola, 21,5% num bairro vizinho e 5,4% num bairro longe. Assim, 68,8% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida moram próximo à escola, 21,9% num bairro vizinho e 9,4% num bairro longe. No Colégio Esperança 92,9% dos pais ou responsáveis moram bem próximo à escola e apenas 7,1% num bairro vizinho. No Colégio Ambiente, 36,8% mora próximo, a maioria mora num bairro vizinho 52,6% e 10,5% moram em um bairro longe. Supõe-se, que o fato de morar próximo à escola, facilitaria aos pais ou responsáveis a participação na gestão. No entanto, não é isso que a pesquisa revela com relação à participação dos pais ou responsáveis na escola, como será mostrado no próximo capítulo. Por meio dos resultados apresentados verifica-se que a maior participação nos atos de violências nas escolas é dos próprios alunos. Todavia, SANTOS (2001, 97 p. 107) afirma que é necessário salientar “(...) que a relação da escola com as particularidades culturais dos grupos que compõe o espaço social local em que ela se localiza é marcada por uma violência simbólica do saber escolar, exercida, muitas vezes, por hábitos sociais, pelos professores e funcionários da instituição: uma relação de poder que impõe um conjunto de valores ao conjunto da população envolvida”. Por meio de uma descrição etnográfica WILLIS (1991) analisa um grupo de “rapazes”, da classe operária que desenvolvem uma cultura contra-escolar expressa na forma de se comportar e se relacionar na escola. Os jovens passam boa parte do seu tempo tentando manter sua identidade coletiva, buscando formas para driblar o sistema para obter momentos de descontração. De acordo com WILLIS (1991, p. 42) “a cultura contra-escolar já tem uma forma desenvolvida de troca e de intercâmbio não-oficial que se baseia em ‘furtos’, trapaças e na obtenção de um dinheiro extra através da venda de objetos furtados – um padrão que, naturalmente, emerge muito mais completamente no mundo operário adulto”. Assim, “a oposição à escola manifesta-se principalmente na luta por ganhar espaço físico e simbólico da instituição e suas regras e por derrotar aquilo que é percebido como seu principal propósito: fazer você ‘trabalhar’”. (id., p. 42) O referido autor assinala, ainda, que para os “rapazes” há uma alegria positiva em brigar, em causar brigas mediante intimidação, e falar sobre brigas e sobre as táticas da situação toda de briga. Muitos valores culturais importantes são expressados através da briga. A arrogância masculina, a exibição dramática, a solidariedade do grupo, a importância do pensamento rápido, claro e não moralista, aparecem sempre. (...) A violência e o julgamento da violência constituem o eixo mais fundamental da ascendência dos ‘rapazes’ sobre os conformistas, quase da mesma forma que o conhecimento constitui o eixo fundamental para os professores. (WILLIS, 1991, p. 51). Dessa forma “(...) uma vez experienciado, o medo da briga e a euforia que se seguem, à medida que o eu retoma em segurança sua jornada, são viciantes. Eles se tornam possibilidades permanentes para o alívio do tédio e elementos onipresentes de uma presença e de um estilo masculinos”. WILLIS (id., p. 51) Os “rapazes” rejeitam o mundo da escola e o trabalho mental. Os próprios estudantes possuem um poder, calcado em suas próprias formas culturais, que agem sob formas contraditórias, formas que tanto sustentam esse processo 98 reprodutivo quanto o “penetram” parcialmente. A penetração refere-se aos casos em que os estudantes desenvolvem respostas lúcidas em relação à escola e ao trabalho. A rejeição do conteúdo baseia-se na compreensão quase inconsciente de que como uma classe, a escola não lhes permitirá ir muito além de onde eles já estão. As limitações referem-se ao fato de que as penetrações culturais dos “rapazes” são reprimidas e impedidas de avançar pelas contradições embutidas em suas ações. Ao rejeitar o trabalho mental, eles reforçam a divisão entre o mental e o físico. (WILLIS, 1991). No entanto, o autor supracitado ressalta que o desprezo à atividade mental, fornece um elemento importante para a recriação da hegemonia ideológica das classes dominantes. A cultura contra-escolar acaba atuando contra eles mesmos, pois se tornam os trabalhadores exigidos por uma economia iníqua. Como criadores daquelas formas culturais, os estudantes estão reproduzindo formas que os condenarão a expressões de reação, mas não fortalecerão uma oposição crítica. Nessa elaboração da cultura, os estudantes participam da elaboração dos processos reprodutivos que fazem com que seja provável que eles terão a mesma sorte em outros locais, especialmente no local de trabalho. Convém lembrar que é com base nas formas curriculares dominantes que o controle, a resistência e o conflito se desenvolvem na escola. Os alunos são capazes de reagir e resistir às normas impostas pela escola. No entanto, essas formas curriculares também engendram possibilidades de ação política. (APPLE, 1989). Segundo FORQUIN (1993) a educação enquanto formação, socialização do indivíduo supõe a comunicação, a transmissão, a aquisição de alguma coisa: conhecimentos, competência, crenças, hábitos, valores, que constituem o que se chama precisamente de ‘conteúdo’ da educação. Este conteúdo parece irredutível ao que há de particular e de contingente na experiência subjetiva imediata, constituindo antes a moldura, o suporte e a forma de toda experiência individual possível, devido, então, a que este conteúdo que se transmite na educação é sempre alguma coisa que nos precede, nos ultrapassa e nos institui enquanto sujeitos humanos, pode-se dar-lhe o nome de cultura. Outro aspecto que não pode ser excluído é o papel da mídia enquanto difusora da violência. Em determinados programas de televisão ao se falar e mostrar 99 constantemente cenas de violência há um incentivo das práticas de violências, desde o desenho animado, passando pelos tele-jornais, novelas, filmes ou propagandas há um forte estímulo que determina as formas de agir, pensar e se relacionar das pessoas. Os jornais, as revistas e os painéis de propagandas outdoors, também podem veicular e incentivar a prática da violência na resolução de conflitos. Contudo, GUIMARÃES (2002, p. 123) assinala que uma das formas de trabalhar as violências nas escolas seria lançando um novo olhar para as cenas de violência presentes nos filmes, assim ela propõe “um novo olhar que não julga e nem devora imagens que passam por ele, mas que se exercita a perceber as imagens de violência por meio da imaginação e desse modo abrir novas perspectivas de visão. Olhares que nos façam perceber que tipo de sociedade, de polícia, de educação, de saúde, de governo desejamos.” De acordo com GUIMARÃES (1996, p. 81), é preciso construir práticas organizacionais e pedagógicas que levem em conta as características das crianças e jovens que hoje freqüentam as escolas. A organização do ano escolar, dos programas das aulas, a arquitetura dos prédios e sua conservação não podem estar distantes do gosto e das necessidades dos alunos, pois, quando a escola não tem significado para eles, a mesma energia que leva ao envolvimento, ao interesse, pode transformar-se em apatia ou explodir em indisciplina e violência. É importante atentar, conforme assevera SPOSITO (2002) para uma reflexão cuidadosa sobre as imagens e práticas acerca das crianças e dos jovens que freqüentam a escola, pois estigmatizados pela condição social de exclusão e pobreza, além de preconceitos de outra natureza, essas crianças e jovens têm sido vistos cada vez sob a ótica do medo e, assim, tratados como virtuais criminosos e delinqüentes. Hoje a instituição escolar já não teme apenas os que estão além dos muros, mas enfrenta o pânico interno. As possibilidades do convívio democrático se esgarçam, acentuando o medo, a desconfiança e a necessidade de medidas que reforcem a vigilância e o controle. Nesse caso, pode haver uma reinvenção perversa da escola: mais do que espaço educativo voltado para o desenvolvimento humano, torna-se lugar do medo, da sociabilidade cindida e da ausência de tolerância. Projetos e programas especiais deverão empreender esforços para lidar com essas questões substantivas, se quiserem fomentar a transformação da cultura escolar. (SPOSITO, 2002, p. 82-83). A imagem do adolescente associada à delinqüência e criminalidade é analisada ainda por CÉSAR (1999) que investiga a forma como as crianças e jovens foram caracterizados entre a primeira década do século XX até os anos setenta, 100 analisando “(...) os discursos que constituíram a adolescência como objeto de investigação e intervenção, a partir de textos produzidos por psicólogos e pedagogos desde o início do século XX. Desde o princípio, observou-se uma estreita relação entre adolescência e delinqüência juvenil, conceito proveniente dos movimentos de filantropia e dos discursos jurídicos do século XIX”. (ibid., 1999, p. 18) Assim, é necessário considerar que os jovens e adolescentes são sujeitos em formação e, dentre outras medidas a serem tomadas, cabe à escola a proposição de um projeto educativo que atenda as suas aspirações e necessidades. 4.2 AS CAUSAS DAS VIOLÊNCIAS NAS ESCOLAS PARA OS PAIS OU RESPONSÁVEIS: “DROGAS, BRIGAS, BRIGAS, DROGAS” Para saber que compreensões os pais ou responsáveis têm acerca das razões que fazem com que haja violências nas escolas perguntou-se a eles: por que ocorrem situações de violências nas escolas? Ao relatarem quais as causas das violências nas escolas eles indicaram inúmeros fatores que podem, segundo sua compreensão, contribuir para que elas se façam presentes no ambiente escolar. Entretanto, as causas se confundem com o ato de violência em si. Um dos aspectos que mais foi citado refere-se às brigas entre os alunos: “Bagunça, xingamento, ofender a mãe do colega sem ela ter a ver”. (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Brigas de alunos na escola. Violência dos alunos com a própria escola”. (Masculino, 44 anos, Primeiro Grau Incompleto) “Brigas, discussões, falta de respeito com os professores, funcionários, etc.” (Feminino, 35 anos, Superior Incompleto) “As brigas, os roubos, os xingamentos, tudo relacionado a isso”. (Feminino, 68 anos, Primeiro Grau Incompleto). “São alunos que não querem estudar, pessoas sem regras, largados”. (Feminino, 41 anos, Segundo Grau Completo). As brigas a que se referem os dados não são aquelas brincadeiras de socialização que há entre crianças e adolescentes, mas sim práticas que visam ferir 101 o outro. Elas também foram apontadas pelos pais ou responsáveis como um dos tipos de violência que mais ocorrem no espaço escolar. Com relação às causas das violências alguns responsabilizam os próprios pais ou responsáveis e seus problemas familiares: “Situação doméstica desfavorável e principalmente faltam os princípios religiosos imprescindíveis ao harmonioso desenvolvimento do ser humano”. (Feminino, 70 anos, Segundo Grau Completo). “Acho que tudo começa dentro de casa, pois somos nós os pais os exemplos aos nossos filhos na maioria das vezes”. (Masculino, 35 anos, Primeiro Grau Completo). “Falta de consciência tanto dos pais e alunos. Antigamente quando eu estudava os professores e diretores tinham autoridade, hoje já não existe mais respeito. Antes os professores falavam e os alunos escutavam”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). “São os pais que são violentos e usam drogas em casa e bebidas de álcool”. (Feminino, 45 anos, Primeiro Grau incompleto). “A má convivência no lar. Se você não tem a base de uma estrutura familiar você vai transmitir muita complicação na escola ou onde quer que você vá ou esteja...” (Feminino, 26 anos, Segundo Grau Completo). Como foi assinalado anteriormente, a violência familiar é uma das formas mais incidentes de violência na sociedade e acarreta sérios problemas às crianças e adolescentes que estão submetidos a ela. Decorre muitas vezes da falta de condições mínimas de sobrevivência e apresenta-se de forma intensa em comunidades carentes. Entretanto, a violência familiar, está presente também em outras classes sociais, ainda que se dê por outras razões. Constata-se que os pais ou responsáveis se colocam como responsáveis pelas violências nas escolas, revelando, novamente, que não conseguem perceber que na verdade as causas são multi-fatoriais determinadas por uma estrutura mais ampla. Houve a responsabilização da própria escola: “Mais segurança, mais atenção por parte da professora e da diretora”. 102 (Feminino, 33 anos, Primeiro Grau Incompleto) “Falta de autoridade por parte da direção da escola”. (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Completo). “As brigas e tumultos nas escolas, xingamentos para os profissionais da escola”. (Feminino, 68 anos, Não Freqüentou a Escola). “Falta de respeito e diálogo entre alunos, funcionários, etc”. (Feminino, 34 anos, Primeiro Grau Incompleto). “A falta de organização, precisam ser revistados”. (Feminino, 38 anos, Primeiro Grau Completo). À causa da violência também é atribuída ao uso de drogas: “Impunidade dos jovens, drogas, desrespeito com as autoridades”. (Masculino, 37 anos, Segundo Grau Incompleto). “Verificar os alunos se não são usuários de drogas e outros vícios porque isso que causa violência”. (Feminino, 43 anos, Primeiro Grau Incompleto). “As drogas, armas, o mau humor, a falta de interesse em estudar”. (Masculino, 37 anos, não indicou o grau de escolaridade). “Drogas, brigas, brigas, drogas”. (Masculino, 37 anos, Primeiro Grau Incompleto). O poder público também é responsabilizado e os pais ou responsáveis assinalam a falta de segurança. Novamente eles evidenciam que têm a compreensão de que os problemas de violência no ambiente escolar são casos de polícia. Há os que afirmam que os alunos não estão seguros na escola porque há falta de policiamento e os que dizem que estão, porque tem policiamento. “Falta de educação de alguns alunos e falta de segurança em período integral de aulas”. (Masculino, 39 anos, Segundo Grau Completo). "A falta de segurança. Pois se o governo precavesse com policiais, guardas no interior da escola não haveria tanta violência". (Feminino, 44 anos, Primeiro Grau Incompleto) “A insegurança”. (Feminino, 52 anos, Primeiro Grau Incompleto) 103 “Falta de policial no pátio da escola, na saída da escola e no cruzamento da rua”. (Masculino, 49 anos, Primeiro Grau Incompleto) “Por não ter segurança no portão e nem no interior da escola”. (Feminino, 40 anos, Primeiro Grau Completo). O preconceito embutido por meio do qual se responsabiliza o outro: “Há violência por causa dos maus elementos”. (Feminino, 50 anos, Primeiro Grau Incompleto). "Os favelados, os meninos de rua que vivem nos arredores da escola". (Feminino, 67 anos, não indicou o grau de escolaridade) “Xingamentos, cara feias, provocação, racismo, preconceito”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Incompleto). A falta de educação, orientação e diálogo, a ausência de formação em valores, o desrespeito foram os aspectos mais citados pelos pais ou responsáveis e, também, assinalados nas entrevistas com os diretores e presidentes das Associações de Pais e Mestres como uma das principais causas das violências nas três escolas. “Falta amor e respeito”. (Feminino, 39 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Não adianta dizer que é culpa da população ou da comunidade, mas sim da educação que os pais dos alunos tiveram e passaram adiante”. (Feminino, 24 anos, Segundo Grau Completo). “Muita bagunça, falta de respeito com professores, alunos não respeitam ninguém”. (Feminino, 42 anos, Não Freqüentou a escola). “Violência dos alunos e falta de respeito uns com os outros”. (Feminino, 32 anos, Segundo Grau Incompleto). “A ausência de normas e regras que eram adotadas no passado que hoje não se usam mais, como a disciplina e comportamento”. (Feminino, 32 anos, Segundo Grau Completo). Sendo assim, dentre as causas da violência atual estão à dissolução da moral e a desagregação social. Todavia, importantes aspectos devem ser 104 considerados dentro dos fatores sociais, familiares e da aquisição e transmissão de valores, pois valores que num primeiro momento eram assegurados pela família foram deixados de lado. 4.3 A SEGURANÇA DOS ALUNOS NAS ESCOLAS: “A VIOLÊNCIA NÃO RESPEITA FRONTEIRAS” Com relação à segurança perguntou-se aos pais ou responsáveis se eles acreditavam que os alunos estão seguros na escola. Os resultados apresentados na tabela 23 indicam que compreensões têm os pais ou responsáveis acerca da segurança dos alunos na escola: TABELA 23 – SEGURANÇA DO ALUNO NA ESCOLA – 2004 SEGURANÇA COLÉGIO DA VIDA Estão seguros porque tem policiamento / Patrulha Escolar 12,5% Sim, porque tem profissionais tomando conta 9,4% Sim, porque estão na escola e não na rua 0,0% Sim, estão seguros 9,4% Confia em Deus 0,0% Não há segurança em lugar algum, a violência está em toda parte 15,6% Não estão seguros 9,4% Não estão seguros porque falta policiamento 12,5% Não porque estão expostos a violência que vem de dentro e de fora; há desorganização e violências na escola 12,5% Os alunos podem entrar armados; podem praticar violência 0,0% Não, porque tem gangues no portão 3,1% Os alunos estão fazendo uso de drogas ou de bebidas alcoólicas 12,5% Não porque na escola entra quem quer 0,0% Não porque o portão fica aberto 0,0% Não porque os roubos e tiros são frequentes 0,0% Não porque é possível pular o muro 0,0% Tem dúvidas 0,0% Não responderam a questão 3,1% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE TOTAL 4,8% 5,3% 7,5% 0,0% 0,0% 3,2% 9,5% 11,9% 4,8% 5,3% 0,0% 0,0% 5,4% 8,6% 2,2% 11,9% 7,1% 31,6% 21,1% 17,2% 10,8% 7,1% 0,0% 7,5% 4,8% 10,5% 8,6% 0,0% 0,0% 10,5% 0,0% 2,2% 1,1% 0,0% 2,4% 14,3% 0,0% 5,3% 0,0% 4,3% 2,2% 6,5% 2,4% 4,8% 2,4% 11,9% 100,0% 0,0% 5,3% 0,0% 5,3% 100,0% 1,1% 3,2% 1,1% 7,5% 100,0% 105 Os resultados demonstram que 17,2% dos pais ou responsáveis afirmam que não é só na escola que não há segurança, mas também em toda sociedade. O total revela que 10,8% acreditam que não estão seguros, 8,6% assinalam que os alunos estão expostos às violências, 7,5% assinalam que falta segurança, policiamento e 6,5% especificamente dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança enfatizam que não há devido ao fato de que o portão de acesso é mantido aberto. Dentre as compreensões dos pais ou responsáveis sobre segurança, destacam-se “Sim, por causa da carteirinha e da Patrulha Escolar”. (Feminino, 68 anos, não freqüentou a escola). “Não, porque se um aluno já entra drogado ou bêbado pode machucar os seus colegas e nós não estamos seguros nem em nossas casas, em lugar nenhum temos segurança total”. (Feminino, 34 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Não, porque tem um portão grande aberto e na hora do recreio alguns vão para rua e também podem ser atropelados”. (Feminino, 32 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Nem sempre, pois eles podem entrar armados ou até mesmo alguém de fora pode fazer algo”. (Feminino, 50 anos, Segundo Grau Incompleto). “Não, porque qualquer um com uma boa mentira ou com braços para pular o muro entra na escola”. (Feminino, 24 anos, Segundo Grau Completo). “Não, porque a violência não respeita fronteiras”. (Masculino, 27 anos, Segundo Grau Incompleto). É importante compreender como as violências se desenvolvem na escola, encontrando as contradições para que se possa ver as possibilidades de ação. De acordo com AQUINO (2002, p. 49) “(...) se em determinado contexto escolar as coisas não vão bem, é hora de pactuar com o alunado e a comunidade formas de enfrentamento da questão”. Sendo assim, cabe a escola encontrar canais de diálogo com os pais ou responsáveis para tratar de questões inerentes ao espaço escolar e que estão comprometendo o trabalho pedagógico. 106 4.4 RAZÕES PARA QUE O ALUNO CONTINUE NA ESCOLA APESAR DAS SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIAS: “É A ESCOLA MAIS PRÓXIMA DE CASA” Mas, em havendo violências o que será que faz com que os pais ou responsáveis permitam que seu filho ou criança sob sua responsabilidade freqüente à mesma? Para descobrir as razões perguntou-se: Caso reconheçam que há situações de violências nas escolas, por que enviam seus filhos ou alunos sob sua responsabilidade à mesma? A tabela 24 evidencia o que pensam os pais ou responsáveis. TABELA 24 – MOTIVO QUE FAZ COM QUE O ALUNO CONTINUE NA ESCOLA – 2 004. COLÉGIOS MOTIVO COLÉGIO DA VIDA 56,3% É o colégio mais próximo de casa Leva em consideração a qualidade do ensino e os bons professores 21,9% Tem que estudar para ser alguém na vida; ter um diploma 0,0% Vontade de aprender 0,0% Consegue dialogar com os profissionais do ensino 0,0% É melhor do que estar na rua 3,1% Falta de condições de pagar colégio particular; a escola é pública 0,0% Não há outra opção 15,6% A necessidade 0,0% Violência tem em todas as escolas 0,0% Nada 0,0% Não respondeu a questão 3,1% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO ESPERANÇA 31,0% COLÉGIO AMBIENTE 21,1% TOTAL 37,6% 4,8% 31,6% 16,1% 2,4% 0,0% 5,3% 5,3% 2,2% 1,1% 7,1% 0,0% 0,0% 0,0% 3,2% 1,1% 4,8% 2,4% 7,1% 19,0% 4,8% 16,7% 100,0% 15,8% 0,0% 10,5% 0,0% 0,0% 10,5% 100,0% 5,4% 6,5% 5,4% 8,6% 2,2% 10,8% 100,0% A localização da escola próxima da casa é o principal motivo que leva 37, 6% de pais ou responsáveis a manterem os filhos ou alunos sob sua responsabilidade estudando na escola, seguida por 16,1% que leva em consideração os bons professores e a qualidade de ensino. Dentre o total 8,6% dos pais ou responsáveis admitem que violência tem em todo lugar. “É a escola mais próxima de casa”. (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Completo). 107 “Um bom ensino, com bons professores”. (Feminino, 33 anos, Segundo Grau Completo). “Porque não tenho condições de pagar colégio particular”. (Masculino, 37 anos, Não indicou o grau de escolaridade). “Violência tem em todas as escolas em geral”. (Feminino, 33 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Porque ela é próxima de casa e sempre auxiliei a minhas filhas a ficarem longe de confusão e a violência está em todo lugar”. (Feminino, 34 anos, Primeiro Grau Incompleto). Alguns pais ou responsáveis afirmam, ainda, que mantém os filhos na escola porque não têm condições de pagar colégio particular. No entanto, as violências também estão presentes nestas escolas, contudo, as situações freqüentemente são abafadas e resolvidas internamente, pois há o receio de que sejam reveladas para a sua comunidade escolar deficiências no trabalho pedagógico. 108 CAPÍTULO V – TÔ NEM AÍ: ESPAÇOS NÃO OCUPADOS DE PARTICIPAÇÃO A compreensão de gestão democrática na educação enfatiza que a escola deve ser um local no qual os diferentes sujeitos do universo escolar tenham ampla participação no decorrer do processo educativo, inclusive no que tange às decisões. Entretanto, constatou-se nas escolas pesquisadas que há um grande distanciamento entre pais ou responsáveis e escola. Neste capítulo apresentam-se as compreensões dos pais ou responsáveis acerca do Conselho Escolar e da Associação de Pais e Mestres analisando em que medida eles se constituem ou não, num espaço onde se consolida a participação democrática na escola. Para tanto, procurou-se saber que compreensões têm os pais ou responsáveis sobre a Associação de Pais e Mestres e sobre o Conselho Escolar. A Associação de Pais e Mestres – APM Entendendo que a escola precisa do apoio dos pais ou responsáveis para viabilizar ações que contribuam para o bom andamento do processo de ensinoaprendizado, procurou-se investigar se os pais ou responsáveis sabiam o que era a sigla APM, assim denominada no cotidiano escolar e qual a sua função na escola. TABELA 25 – ASSOCIAÇÃO DE PAIS E MESTRES (APM) – 2004. COMPREENSÕES SOBRE A APM Sabem o que significa a sigla, mas não sabem qual o seu papel na escola; Não sabem o que significa a sigla, mas assinalam que serve para ajudar a escola; Não sabem nem o que significa a sigla; Sabem o que significa a sigla e assinalam que serve para ajudar com: manutenção, eventos e na melhoria da escola; Sabem o que significa a sigla e assinalam que serve para aproximar pais, alunos e professores; para discutirem questões relativas à escola e cuidar da administração; promover reuniões; Sabem o que significa a sigla e assinalam que serve para discutir assuntos relacionados aos alunos; Sabem o que significa a sigla e assinalam que serve para ditar as normas da escola; COLÉGIO DA VIDA COLÉGIO COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE TOTAL 18,8% 11,9% 10,5% 14,0% 18,8% 3,1% 4,8% 14,3% 10,5% 5,3% 9,7% 8,6% 18,8% 4,8% 10,5% 10,8% 18,8% 7,1% 26,3% 15,1% 3,1% 0,0% 5,3% 2,2% 3,1% 0.0% 0,0% 1,1% 109 Sabem o que significa a sigla e assinalam 3,1% que não serve para nada; Sabem o que significa a sigla e assinala que deveriam organizar a escola; 0,0% Não sabem o que significa a sigla e nem para que serve e confundem com a Polícia Militar; 3,1% Não responderam a questão 9,4% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. 2,4% 5,3% 3,2% 0,0% 5,3% 1,1% 16,7% 38,1% 100,0% 0,0% 21,1% 100,0% 8,6% 24,7% 100,0% Verifica-se a partir dos resultados que 24,7% dos pais ou responsáveis não responderam à questão e que 14% sabe o que significa a sigla, mas não sabe para que serve. Destarte, 8,6% não sabe nem o que significa a sigla e 8,6% dos pais ou responsáveis confunde com a Polícia Militar. Os resultados demonstram que a Associação de Pais e Mestres não se constitui em um espaço de efetiva participação nas escolas, tendo em vista que a maior parte deles desconhece o seu significado e função. Este aspecto pode ser observado nas respostas fornecidas: “Associação de Pais e Mestres. Serve para ajudar na melhoria da escola, tudo de bonito e bom é com a ajuda da APM”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). “Associação da Polícia Militar. Para proteger os alunos das brigas, mas não é isso que fazem”. (Feminino, 37 anos, Primeiro Grau Completo). “Na verdade fica difícil dizer, pois em muitos casos a PM são os culpados, não é?” (Feminino, 26 anos, Segundo Grau Completo). “Associação de Pais e Mestres. Para prender marginais”. (Feminino, 46 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Nada. Pois é o bem estar só dela. Só se preocupa uma vez por ano quando cobra 10,00”. (Feminino, 20 anos, Segundo Grau Completo). Questiona-se qual o sentido para os pais ou responsáveis de um órgão que deveria representá-los, mas que, no entanto, não os representa uma vez que a maioria não sabe exatamente para que ele serve. Todavia, a escola precisa explicar de forma acessível aos pais ou responsáveis o significado dos órgãos nos quais têm representatividade para que eles se sintam efetivamente convidados a participar, bem como viabilizar formas para que esta participação se torne uma prática. A 110 gestão democrática pressupõe educação e ação para que ela ocorra. (BAIBICH, 2004, Conversas informais). O Conselho Escolar Nas escolas pesquisadas o Conselho Escolar é o órgão colegiado de natureza deliberativa, consultiva e fiscal, que tem como uma de suas atribuições emitir parecer acerca das reivindicações e consultas da comunidade escolar. Entretanto, o estudo demonstra que um considerável número de pais ou responsáveis que participou da pesquisa, não soube dizer ao certo, quais são as atribuições do Conselho Escolar. Perguntou-se a eles “O que é o Conselho de Escola? Para que serve?”. Por meio dos resultados constata-se que os pais ou responsáveis enquanto sujeitos que integram a comunidade escolar, não sabem para que serve o Conselho Escolar que é o órgão colegiado que tem como um de seus objetivos estabelecer o Projeto Político Pedagógico da escola. TABELA 26 – COMPREENSÕES SOBRE O CONSELHO ESCOLAR – 2004 COLÉGIOS CONSELHO ESCOLAR COLÉGIO DA COLÉGIO VIDA ESPERANÇA União de pessoas para discutirem questões administrativas e pedagógicas da escola 9,4% 7,1% Dizem que serve para ajudar a escola 3,1% 9,5% Serve para avaliar o aprendizado do aluno 25,0% 26,2% Serve para aconselhar alunos; ajuda os pais a educarem os filhos 0,0% 9,5% Serve para ensinar 0,0% 2,4% Discutem o que deve ser melhorado nas disciplinas 6,3% 0,0% Nunca ouviu falar 3,1% 0,0% Não serve para nada 0,0% 0,0% Não sabe para que serve 25,0% 21,4% Não responderam a questão 28,1% 23,8% TOTAL 100,0% 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO TOTAL AMBIENTE 21,1% 0,0% 36,8% 10,8% 5,4% 28,0% 0,0% 0,0% 4,3% 1,1% 0,0% 5,3% 5,3% 10,5% 21,1% 100,0% 2,2% 2,2% 1,1% 20,4% 24,7% 100,0% O resultado da pesquisa demonstrou que dentre os noventa e três pais ou responsáveis 24,7% não responderam a questão, 20,4% não sabem para que serve, 28% confundem com o Conselho de Classe. Dentre eles 5,4% responderam que serve “para ajudar”, mas não explicitaram como e, surgiram ainda, respostas que 111 evidenciam uma grande falta de informação. Apenas 10,8% assinalaram que serve para tratar de questões administrativas e pedagógicas da escola. Segundo a Deliberação 016/99, artigo seis, Capítulo II – Da organização da comunidade escolar, “a gestão escolar da escola pública, como decorrência do princípio constitucional da democracia e colegialidade, terá como órgão máximo de direção um colegiado” e ainda, no inciso segundo, destaca-se que “o órgão colegiado de direção será constituído de acordo com o princípio da representatividade, devendo abranger toda comunidade escolar, cujos representantes nele terão necessariamente, voz e voto”. (DELIBERAÇÃO 016/99, p. 3-4). De acordo com o Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, em documento oficial do 5.º Congresso Nacional de Educação, realizado em Recife em maio de 2004, como instâncias essenciais na gestão democrática, os Conselhos Escolares e Universitários, além de deliberativos nos seus respectivos âmbitos, constituem-se em espaços informativos (na medida em que ampliam as informações sobre os processos educacionais); educativos (como prática de reflexão e ação sobre assuntos de interesse de todos) e organizativos (além de estabelecer relações institucionais de representação, em relação ao poder público e à própria sociedade, podem ter sua forma de organização expandida para outros ações coletivas). (CADERNO DO 5.º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2004, p. 9). Num universo de noventa e três pais ou responsáveis, nenhum apontou o Conselho Escolar como uma instância que viabiliza a sua própria participação na escola, nem se posicionou enquanto sujeito partícipe articulado com o grupo que o representa: “É a reunião de professores e pais para questionar o comportamento dos alunos”. (Feminino, 33 anos, Não Freqüentou a escola). “Quando a escola faz reuniões com pais e alunos, não serviu para nada”. (Feminino, 37 anos, Primeiro Grau Completo). “Aconselhar alunos que parecem ser ignorantes”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Completo). Constata-se que eles falam do Conselho como algo totalmente distante. Para os pais ou responsáveis não tem sentido, trata-se de um órgão que deveria representá-los, mas que para eles não significa nada, porque mal sabem para que 112 serve. É fato que a existência do Conselho Escolar por si só não consegue contemplar as reais necessidades da escola, ainda mais, porque ele não se constitui aos olhos dos pais ou responsáveis em um espaço democrático, na medida em que a sua função é esvaziada de significado. No entanto, “(...) dada a realidade educacional brasileira e o caráter praticamente formal dos colegiados e dos conselhos de escola deliberativos hoje existentes, cabe ressaltar a necessidade de ampla campanha de esclarecimento e debate sobre esse nível de participação nas unidades escolares”. [grifo do autor] (CADERNO DO 5.º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2004, p. 9). Não obstante, faz-se necessário que a participação se concretize de fato para que essa prática se configure no espaço escolar. Uma parcela significativa de pais ou responsáveis acredita que a função do Conselho Escolar limita-se à avaliação do aprendizado dos alunos, isso pode ser observado nos dados acima e conceituações assinaladas abaixo: “Conselho de escola é para os professores e funcionários debaterem os problemas e também a solução sobre o desempenho dos alunos”. (Feminino, 44 anos, Primeiro Grau Incompleto). “São reuniões escolares, serve para avaliar o aprendizado dos alunos”. (Feminino, 35 anos, Superior Incompleto). “O Conselho da Escola é a reunião para os professores verem as notas de seus alunos”. (Feminino, 50 anos, Primeiro Grau Incompleto). Verifica-se na fala destes pais ou responsáveis, ao que tudo indica, que estão confundindo o Conselho Escolar com o Conselho de Classe, cuja função é de basicamente avaliar o aprendizado dos alunos por meio de um acompanhamento contínuo, orientando e reorientando todos os procedimentos dentro do âmbito escolar, fornecendo ao professor as informações sobre a aprendizagem e quanto à necessidade de rever a sua prática pedagógica. O profissional que atua na educação tem que ter em mente que a avaliação é uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e atribuições de notas. A avaliação deve ser diagnóstica, pois essa função permite identificar os progressos e as dificuldades dos alunos, possibilitando modificações na forma de 113 atuar do professor e por sua vez, no processo de ensino. Entretanto, para que o Conselho de Classe possa emitir qualquer parecer acerca do aprendizado dos alunos é preciso que todos tenham bem clara a função didática da avaliação, bem como, todos devem estar cientes do seu significado econômico, político e social. A visão esvaziada que os pais ou responsáveis têm do Conselho Escolar deve-se em parte à ausência de participação na escola relatada nas entrevistas com os três diretores e, com os três presidentes das Associações de Pais e Mestres. Entretanto, OLIVEN (1989) assevera que é preciso que haja uma efetiva participação da população nos processos de decisão que afetam a sua vida. Segundo PARO (1997, p. 17-18) “a participação da comunidade na escola, como todo processo democrático, é um caminho que se faz ao caminhar, o que não elimina a necessidade de se refletir previamente a respeito dos obstáculos e potencialidades que a realidade apresenta para a ação”. A escola enquanto local onde ocorre à apropriação da cultura precisa pensar em estratégias e oferecer subsídios aos pais ou responsáveis para que eles saibam para que serve o Conselho Escolar para que eles possam entender o sentido da participação e, encontrar formas de envolver as famílias e a comunidade nas discussões e tomadas de decisões. De acordo com GÓMEZ (1998, p. 92) (...) os significados e condutas compartilhados que compõe a cultura encontram-se tanto nas instituições, costumes, objetos e formas de vida, quanto nas representações mentais que os indivíduos e os grupos elaboram e que se transmitem nas disciplinas científicas, nas especulações filosóficas, nas narrações históricas, nas expressões artísticas e na sabedoria popular. Ao mesmo tempo, convém não esquecer que os indivíduos e os grupos das novas gerações, em função de sua posição social, podem “desfrutar” das experiências e significados que formam a cultura da comunidade de maneira muito desigual. Por isso, é oportuno falar de diversidade de culturas e de diversidade de códigos de expressão das mesmas, como manifestação da vida complexa e conflitante dos diferentes grupos sociais dentro da mesma comunidade ou entre comunidades distintas. Há uma grande necessidade de se estabelecer interação entre pais ou responsáveis, escola e comunidade. Na medida em que o ser humano é formado num sistema incapaz de lhe fornecer os instrumentos básicos para que ele possa se constituir em sujeito coletivo, a sua capacidade crítica estará sendo inibida, cerceada, comprometendo a formação para o exercício político da cidadania e o aprendizado da democracia, conseqüentemente não há como haver emancipação. Na gestão democrática é possível trilhar o caminho para o exercício da democracia. 114 A escola é responsável pela formação de um tipo de hábito, no entanto, novos hábitos são formados por novas experiências pedagógicas. PARO (1999, p. 66) assinala que “uma postura positiva com relação ao aprender e ao estudar não acontece de uma hora para outra nem de uma vez por todas: é um valor cultural que precisa ser permanentemente cultivado”. Com relação à participação, esta também é um valor que deve ser cultivado nas escolas: Assim, a escola que toma como objeto de preocupação levar o aluno a querer aprender precisa ter presente a continuidade entre a educação familiar e a escolar, buscando formas de conseguir a adesão da família para sua tarefa de desenvolver nos educandos atitudes positivas e duradouras com relação ao aprender e ao estudar. (...) É aqui que entra o tema da participação da população na escola, pois dificilmente será conseguida alguma mudança se não se partir de uma postura positiva da instituição em relação aos usuários, em especial com os pais ou responsáveis pelos estudantes, oferecendo ocasiões de diálogo, de convivência verdadeiramente humana, em suma de participação na vida da escola. (ibid., 1999, p. 66). A escola fundada na gestão democrática deve viabilizar a participação de pais, professores, funcionários e especialistas na gestão, promovendo maior integração desta com a comunidade, favorecendo a implantação da autonomia pedagógica e administrativa, pois é importante que a escola tenha poder de decisão, mas ela deve gerir esse poder com a comunidade. Entretanto, é preciso pensar em mecanismos que permitam uma efetiva participação entre os membros da comunidade escolar, uma vez que estes encontram sérias dificuldades em participar ativamente das decisões a fim de que seja possível discutir na coletividade os diferentes problemas no ambiente escolar. Diante do exposto há que se ter em conta que a escola sendo, (...) o local em que se realiza a educação sistematizada precisa ser o ambiente mais propício possível à prática da democracia. Por isso, na realização da educação escolar, a coerência entre meios e fins exige que tanto a estrutura didática quanto à organização do trabalho no interior da escola estejam dispostas de modo a favorecer relações democráticas. Esses são requisitos importantes para que uma gestão escolar pautada em princípios de cooperação humana e solidariedade possa concorrer tanto para a ética quanto para a liberdade, componentes imprescindíveis de uma educação de qualidade. (PARO, 2001, p. 52). A escola deve instaurar-se enquanto instância social que sirva de base mediadora e articuladora para reverter esse quadro da não participação, pois ela é uma das principais instituições que viabiliza as ações pedagógicas dos educadores. A realidade social e educacional brasileira tem como desafios resolver a contradição 115 existente entre a declaração dos direitos sociais e a negação da prática dos direitos na realidade concreta. ”Sem diálogo tem violência” Ao serem questionados sobre o que podem fazer para ajudar a escola na prevenção da violência os pais ou responsáveis apresentaram as seguintes respostas: TABELA 27 – INICIATIVAS PARA AJUDAR A ESCOLA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA – 2004 INICIATIVAS Os pais devem se mobilizar fazendo greves, manifestações, abaixo-assinados, cartazes, palestras, campanhas educativas e faixas dizendo não à violência Dialogar, conversar, aconselhar, orientar os filhos Fornecer educação ao filho Responsabilizar-se pelos seus filhos Participar mais da escola Acionar as autoridades caso tenha problemas de violência na escola Evitar agressões Atribui a responsabilidade à escola que deve colocar segurança e mais regras Trabalho comunitário Não sabem Acreditam que não há o que fazer Atribuem a responsabilidade ao poder público; reivindicar mais segurança, chamar e confiar na polícia Rezar e ensinar as coisas de Deus Podem fazer muitas coisas, mas não definiram o que Lutar por mais estudo Não responderam a questão TOTAL FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIO DA VIDA COLÉGIOS COLÉGIO COLÉGIO TOTAL ESPERANÇA AMBIENTE 12,5% 7,1% 0,0% 7,5% 18,8% 21,4% 36,8% 23,7% 12,5% 6,3% 15,6% 9,5% 4,8% 7,1% 10,5% 10,5% 5,3% 10,8% 6,5% 9,7% 3,1% 0,0% 0,0% 1,1% 0,0% 2,4% 0,0% 1,1% 9,4% 2,4% 0,0% 4,3% 0,0% 3,1% 3,1% 2,4% 9,5% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 1,1% 5,4% 2,2% 6,3% 14,3% 5,3% 9,7% 0,0% 4,8% 0,0% 2,2% 0,0% 0,0% 9,4% 100,0% 2,4% 0,0% 11,9% 100,0% 5,3% 5,3% 15,8% 100,0% 2,2% 1,1% 11,8% 100,0% Dentre as iniciativas para ajudar a escola na prevenção das violências 23,7% demonstram que é preciso dialogar, conversar e orientar os filhos, seguido por 10,8% que acreditam que devem dar educação e 9,7% dos pais ou responsáveis reconhecem que devem participar mais da escola. A maior parte dos pais ou responsáveis atribuem para si a responsabilidade na prevenção das violências no espaço escolar. Entretanto, 9,7% atribuem a responsabilidade ao poder público que 116 deve fornecer mais segurança. Dentre os apontamentos feitos pelos pais ou responsáveis citam-se: “Fazer um abaixo-assinado para que haja mais segurança para o aluno dentro e fora da escola”. (Feminino, 29 anos, Segundo Grau Completo). “Aconselhar seus filhos a não terem atitudes racistas, preconceituosas e não ofender seus colegas”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Incompleto). “Responsabilizar-se pelos próprios filhos, denunciar atos violentos dos demais e omissão dos profissionais”. (Masculino, 39 anos, Segundo Grau Completo). “Simplesmente visitando a escola sempre e participando das reuniões”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). “Os pais já têm responsabilidade em casa e trabalho, cabendo à escola, Secretaria de Educação e Polícia Militar a prevenção no estabelecimento”. (Masculino, 45 anos, Curso Superior Completo). “Procurar aconselhar seus filhos orando por eles, ensinando as coisas de Deus, jejuando em favor de seus filhos”. (Feminino, 45 anos, Primeiro Grau incompleto). “Prestar mais atenção nas amizades dos filhos e muitas vezes verificar se estão carregando nas malas objetos estranhos causadores de violência”. (Feminino, 51 anos, Primeiro Grau Incompleto). Verifica-se que assim como têm pais ou responsáveis que demonstram que também têm responsabilidades e compromissos com a escola, bem como com a formação de seus filhos ou crianças sob sua responsabilidade há os que acreditam que a escola é quem deve gerir com o poder público os seus problemas. Este aspecto demonstra a importância de politizar os pais ou responsáveis quanto a necessidade da sua participação na gestão da escola. “As diretoras e as professoras são muito simpáticas” 117 Com o intuito de investigar o que agrada ou não os pais ou responsáveis na escola procurou-se saber dos mesmos quais as suas opiniões. Estas estão expressas na tabela abaixo. TABELA 28 – COMPREENSÕES SOBRE O QUE MAIS GOSTAM NA ESCOLA – 2004 O QUE MAIS GOSTAM NA ESCOLA COLÉGIO DA VIDA 3,1% Do time de vôlei; Dos professores, funcionários, diretores e orientadores; 18,8% Da biblioteca; 3,1% Da fanfarra e da sala de informática; 6,3% Da música no intervalo 0,0% Do ensino 9,4% Dos alunos 3,1% Da atenção que é dada aos pais ou respon-sáveis 6,3% Das reuniões 3,1% Dos passeios 3,1% Da aula de Educação Física 6,3% Do controle na entrada e na saída, da presença da Patrulha Escolar, do atendimen-to dos policiais; 6,3% Da localização, proximidade de casa; 3,1% Não conhece a escola 3,1% Gosta de muitas coisas, mas não definiu do que 0,0% Não sabe 3,1% Não gosta de nada 15,6% Não responderam a questão 6,3% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 0,0% COLÉGIO TOTAL AMBIENTE 0,0% 1,1% 28,6% 4,8% 0,0% 0,0% 14,3% 2,4% 42,1% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 28,0% 3,2% 2,2% 1,1% 9,7% 2,2% 4,8% 0,0% 0,0% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 0,0% 5,4% 1,1% 1,1% 2,2% 0,0% 11,9% 0,0% 5,3% 0,0% 0,0% 3,2% 6,5% 1,1% 7,1% 2,4% 11,9% 11,9% 100,0% 5,3% 5,3% 10,5% 21,1% 100,0% 4,3% 3,2% 12,9% 11,8% 100,0% Mesmo havendo violências, chama a atenção nestes resultados o fato de que 28% assinalam que o que mais gostam na escola é dos professores, funcionários e diretores, reconhecendo com isso o esforço que é feito pela escola que, apesar das dificuldades, consegue manter um bom relacionamento com eles. Assim, 9,7% indicam o ensino e 6,5% indicam a proximidade de casa. Não obstante, 12,9% não gostam de nada e 11,8% não responderam à questão. No Colégio Ambiente, apesar das dificuldades no relacionamento entre professor/aluno, relatados pela diretora da escola, os pais ou responsáveis assinalam que gostam dos professores, equipe pedagógica e funcionários. Entretanto, nesta ocasião nenhum dos pais ou responsáveis do Colégio Ambiente assinalou o ensino. Cabe ressalvar ainda, que a fanfarra, o time de vôlei e a sala de informática 118 são projetos somente do Colégio da Vida e a música no intervalo é característica somente do Colégio Ambiente. Dentre as definições sobre o que gostam pode-se destacar: “A computação, a biblioteca, mas deveria ser de graça o curso, pois muitos não têm condições de pagar”. (Feminino, 34 anos, Segundo Grau Incompleto). “Sim. A orientadora, porque é a única que sabe conversar com os pais e os alunos com educação”. (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Completo). “Gosto das reuniões onde eu fico a par de tudo que acontece principalmente dos desfiles de Sete de Setembro, pois tudo estava lindo”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). “O controle de entrada e saída, através das carteirinhas, assim tem como controlar as faltas”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Completo). “Sim, as diretoras e as professoras que são muito simpáticas!”. (Feminino, 68 anos, Primeiro Grau Incompleto). “A educação e o ensino”. (Feminino, 52 anos, Primeiro Grau Incompleto). Do exposto depreende-se que a escola precisa ser um local agradável não só para os alunos que irão passar boa parte da sua vida estudando, aprendendo, mas também para os pais ou responsáveis. É importante que eles sejam bem recebidos e com alegria pelos profissionais que lá trabalham para que eles se sintam convidados a retornar. Este elo precisa ser formado, pois é um aspecto importante da participação e ninguém gosta de voltar a um local se não for bem recebido, com educação, mesmo que seja para tratar de problemas. Os pais ou responsáveis sentem-se até mais seguros se percebem que o local é agradável para o aluno. Contudo, GUIMARÃES (1985) assevera ainda que, (...) a escola deve ser não apenas um local agradável, mas polêmico, o palco de conciliação, mas de conflito, de discussão, de crescimento, onde o desejo dos alunos, as suas necessidades, a sua fala representem os principais parâmetros para a elaboração de diretrizes que visem a organização da escola, o rendimento do aluno no que se refere à sua aprendizagem e principalmente à formação de indivíduos capazes de discutirem, de criticarem a sociedade onde estão inseridos, a partir de reflexões sobre sua realidade mais imediata, a escola. (GUIMARÃES, 1985, p. 159). “A violência dos alunos que surge na escola” 119 Questionados sobre o que os aborrece na escola os pais ou responsáveis apresentaram as respostas, relacionadas na tabela 29. TABELA 29 – COMPREENSÕES SOBRE O QUE OS ABORRECE NA ESCOLA – 2004 O QUE OS ABORRECE NA ESCOLA COLÉGIO DA VIDA Falta de educação, desrespeito e a violência dos alunos 21,9% Falta de autoridade do professor 3,1% Vista grossa em relação aos alunos 0,0% Lanche de má qualidade 3,1% Faltas de professores e greves que prejudicam os alunos 18,8% Falta de atenção quando os pais ou responsáveis vão à escola 3,1% Mal entendidos entre alunos e professores; funcionários e professores que desrespeitam alunos e falam palavrões 3,1% Falta de reuniões para pais ou responsáveis 3,1% As escadas 3,1% Os furtos 6,3% Drogas com alunos 3,1% Agressão entre alunos 3,1% Pichação e agressão ao patrimônio 6,3% Entrada de estranhos, portões abertos, falta de segurança, quando não há policiais 0,0% A violência 0,0% O ensino fraco 0,0% Falta de higiene 0,0% Falta de livros na biblioteca 0,0% Muitas coisas, mas não definiu o quê 0,0% Não há nada que os aborrecem 12,5% Não responderam a questão 9,4% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE TOTAL 9,5% 0,0% 0,0% 7,1% 15,8% 0,0% 5,3% 0,0% 15,1% 1,1% 1,1% 4,3% 0,0% 0,0% 6,5% 0,0% 0,0% 1,1% 4,8% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 10,5% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 5,4% 1,1% 1,1% 2,2% 1,1% 1,1% 2,2% 11,9% 7,1% 2,4% 0,0% 2,4% 2,4% 42,9% 9,5% 100,0% 0,0% 5,3% 5,3% 5,3% 0,0% 0,0% 26,3% 26,3% 100,0% 5,4% 4,3% 2,2% 1,1% 1,1% 1,1% 29,0% 12,9% 100,0% Ao responderem sobre o que não gostam na escola no total 29% dos pais ou responsáveis disseram que nada os aborrece, apesar das situações de violências. Este aspecto também pode comprovar entre uma parte dos pais ou responsáveis a banalização destas situações no espaço escolar. Cerca de 15,1% asseveram que não gostam da falta de educação, desrespeito e da violência dos alunos, ao passo que 12,9% não responderam à questão. Chama atenção no Colégio da Vida que 21,9% indicam a falta de respeito e violências dos alunos, bem como 18,8% indicam a falta de professores. De fato, estes aspectos também foram apontados pela diretora em sua entrevista como os 120 fatores que mais prejudicam a escola. A falta dos professores prejudica sobremaneira o processo de ensino-aprendizado na medida em que a escola não dispõe de professores para substituições e não contava com projeto alternativo para estes momentos. Nesta situação os maiores prejudicados são os alunos. Com relação à ausência de controle e a falta de segurança é um aspecto específico do Colégio Esperança no qual 11,9% dos pais ou responsáveis se queixam do portão que fica aberto, pois podem tanto estar percebendo que as violências também vêm de fora da escola como podem acreditar que elas só vêm de fora. As definições abaixo mostram o que os aborrece: “Alguns alunos que aborrecem na hora do recreio pedindo lanche se não dão eles xingam e batem”. (Feminino, 34 anos, Segundo Grau Incompleto). “O desrespeito dos alunos aos funcionários e professores, o desinteresse em aprender de alguns alunos”. (Feminino, 42 anos, Segundo Grau Incompleto). “Meu filho reclama que os alunos roubam suas coisas, lápis e outros e os professores não tomam providências”. (Feminino, 33 anos, Segundo Grau Completo). “Agressão ao patrimônio e mau comportamento dos alunos”. (Masculino, 39 anos, Segundo Grau Completo). “Portões abertos, falta de pessoas para cuidar de alunos, crianças que falam palavrões aos professores e não são advertidos”. (Masculino, 45 anos, Curso superior completo). “Gostaria que as refeições servidas fossem mais saborosas e bem preparadas, pois tem muitos alunos que passam o dia só com o que comem na escola. Ela precisa melhorar muito”. (Feminino, 24 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Sim, algumas serventes da limpeza são muito grossas e estúpidas com as crianças. Sei que tem crianças que são difíceis , mas tem hora até com a gente é uma grosseria”. (Feminino, 28 anos, Segundo Grau Completo). Os meandros da participação 121 Para saber como é a relação dos pais ou responsáveis com a escola e quais são as possibilidades de integração e cooperação família – escola de forma que haja a efetiva participação para a aprendizagem contemplando as questões relativas aos problemas de violência, perguntou-se aos pais ou responsáveis de que maneira ajudam a escola. Este aspecto é abordado a seguir. “Comprando rifas e dando prendas” Os dados abaixo demonstram de que maneira os pais ou responsáveis ajudam a escola. Observa-se que algumas práticas são mais intensas em uma escola do que na outra. No Colégio da Vida ajudar significa contribuir com a Associação de Pais e Mestres e no Colégio Esperança significa participar dos mutirões e festas. Chama atenção o fato de que a participação nas reuniões e na orientação dos filhos foi muito pouco citada. TABELA 30 – COMO COSTUMAM AJUDAR A ESCOLA – 2004 COMO AJUDAM A ESCOLA COLÉGIO DA VIDA 31,3% 3,1% Contribuindo, pagando a APM Em festas doando bolos, prendas ou objetos Cuidando, corrigindo e orientando os filhos; 6,3% atuando de forma correta Comparecendo às reuniões 6,3% Preservando o patrimônio 3,1% Em mutirões de limpeza e reforma da escola 0,0% Com opiniões, sugestões 0,0% Com palestras 0,0% Ajudam, mas não definiram como 3,1% Não ajudam 40,6% Não responderam a questão 6,3% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 2,4% 9,5% COLÉGIO AMBIENTE 5,3% 5,3% 7,1% 0,0% 5,4% 14,3% 2,4% 21,4% 4,8% 0,0% 14,3% 14,3% 9,5% 100,0% 5,3% 0,0% 0,0% 5,3% 5,3% 15,8% 31,6% 26,3% 100,0% 9,7% 2,2% 9,7% 3,2% 1,1% 10,8% 26,9% 11,8% 100,0% TOTAL 12,9% 6,5% Dessa forma constata-se que 26,9% dos pais ou responsáveis assinalam que não ajudam a escola, ao passo que 12,9% afirmam que ajudam pagando as contribuições, 9,7% ajudam comparecendo às reuniões, 9,7% nos mutirões, 6,5% doando bolos e prendas. Observe-se que o mutirão é citado exclusivamente pelo Colégio Esperança abrangendo 21,45% dos pais ou responsáveis, pois esta é uma prática bastante incentivada pela diretora. Esta escola apresentou ainda o maior 122 índice de participação em reuniões. Assim, 14,3% dos pais ou responsáveis vão às reuniões, este aspecto pode sinalizar que os pais ou responsáveis que vão, gostam da forma como a reunião é conduzida na escola, pois no relato apresentado abaixo, a diretora assinala que serve lanche, organiza apresentações de alunos e apresenta os resultados do aprendizado. Com relação às reuniões a diretora do Colégio Esperança assinala que: Eu adoro festa, então eu faço assim toda reunião. Quase não tinha mais festa, a direção anterior tinha medo de vir à noite. A festa eu faço em três momentos: o primeiro momento é uma dinâmica, mensagem, faço um trabalho com os pais, resgate da auto estima, valores... O segundo momento é um lanche no qual é servido um bolo, arroz doce, cachorro quente, sempre tem uma coisa diferente... O terceiro momento é a parte que envolve as crianças, porque daí os pais descem e assistem as apresentações dos filhos e vão ver os boletins nas salas, depende da data.(...) A depredação melhorou bastante com os mutirões. (DIRETORA DO COLÉGIO ESPERANÇA, 19 set., 2003). Um total de 31,35% dos pais ou responsáveis do Colégio da Vida assinala que paga a contribuição para a Associação de Pais e Mestres, contrastando com apenas 2,4% do Colégio Esperança. É importante lembrar que boa parte dos pais ou responsáveis do Colégio Esperança sobrevive da venda de materiais recicláveis, porém fazem outros tipos de doações como bolos e outros objetos. Dessa forma, os pais ou responsáveis costumam ajudar a escola: “Pagando a APM e não recebendo nada em troca”. (Masculino, 46 anos, Não Freqüentou a Escola). “Infelizmente eu trabalho fora e não tenho como ser voluntário, mas mantenho em dia a taxa da APM”. (Feminino, 43 anos, Segundo Grau Incompleto). “Tendo uma filha não problemática”. (Feminino, 34 anos, Primeiro Grau Incompleto). "Quando promovem mutirão de limpeza". (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Completo). “Comprando rifas e dando prendas”. (Feminino, 46 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Vendo as tarefas de meus filhos e ajudando e aconselhando para ir para a escola”. (Feminino, 50 anos, Primeiro Grau Incompleto). 123 É importante frisar ainda que a forma de participação dos pais ou responsáveis na escola revela a cultura da escola. A compreensão que eles têm de participação é reflexo desta cultura de participação que está posta no espaço escolar. Sendo assim, para eles, o levar o bolo, a prenda, acompanhar a criança até a porta da escola e cumprimentar ou não um funcionário, pagar a contribuição é uma forma de participação. Há a participação, só que de outra forma. No entanto, cabe à escola transformar esta cultura para que os pais ou responsáveis também se sintam convidados a participar dos demais processos que ocorrem na escola, dentre eles o de decisão, do ensino-aprendizado do seu filho, bem como na reflexão e busca de alternativas para os problemas que ocorrem na escola. “Reuniões, entrega e boletins e festas” A tabela 31 demonstra em que momentos a escola convida os pais ou responsáveis a se fazerem presentes na escola. TABELA 31 – QUANDO A PRESENÇA DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS É SOLICITADA NA ESCOLA – 2004 QUANDO SÃO SOLICITADOS NA ESCOLA COLÉGIO DA VIDA Quando tem reunião, entrega de boletins, para fazer matrículas, festas e palestras e mutirões 65,6% Para resolver problemas com o filho ou aluno sob sua responsabilidade 12,5% Quando há necessidade de usar o Grêmio 0,0% Vai por conta por conta própria 0,0% Nunca fui chamado 15,6% Em muitas situações, mas não descreveu quais são elas 0,0% Não sabe 0,0% Não responderam a questão 6,3% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA COLÉGIO AMBIENTE TOTAL 59,5% 57,9% 61,3% 16,7% 0,0% 0,0% 4,8% 0,0% 5,3% 5,3% 10,5% 11,8% 1,1% 1,1% 9,7% 9,5% 0,0% 9,5% 100,0% 0,0% 5,3% 15,8% 100,0% 4,3% 1,1% 9,7% 100,0% Com relação à solicitação dos pais ou responsáveis na escola, verifica-se que 61,3% assinalam que vão à escola para pegar o boletim, participar de festas e mutirões, seguido de 11,8% que afirmam que vão para resolver problemas dos alunos. No entanto, 9,7% dos pais ou responsáveis alegam que nunca foram 124 chamados, evidenciando que muitos alunos não entregam os bilhetes como foi ressaltado nas entrevistas pelas diretoras das escolas. Observe-se que no Colégio Ambiente onde a diretora enfatizou que os alunos não tinham hábito de dar recado aos pais ou responsáveis 10,5% afirmam que nunca foram chamados e 15,8% não responderam esta questão. No Colégio Esperança no qual entrevistou-se pais ou responsáveis do Ensino Fundamental, 16,7% assinalam que são chamados para resolver problemas com alunos. No Colégio da Vida 15,6% dos pais ou responsáveis assinalam que nunca foram chamados, é provável que este fato decorra de uma prática da escola que nem sempre faz reuniões e utiliza-se muito de circulares, conforme assinala a diretora: Circulares na verdade são cartas da escola aos pais aonde a gente trabalha com orientações, né. Então os pais, muitos deles não têm tempo de vir em reunião. Tem pai aqui que trabalha dia de sábado, sábado de manhã, de tarde, então não tem tempo, de noite o coitado ta cansado. Então, a gente evita de ficar também atrapalhando o dia-a-dia deles, e as circulares facilita porque pode até ser um momento de reunião familiar, o aluno lê a carta para os pais, eu acho que é muito mais ganho de causa do que você ficar chamando os pais e as vezes eles virem até irritados porque não têm tempo. (DIRETORA DO COLÉGIO DA VIDA, 11 nov., 2003). Quanto à participação, a diretora do Colégio da Vida assinala ainda que: “a situação aqui é bem complicada (...) Quando você vai entregar o boletim, se você tratou do resultado da produção do filho dele aí ele vem... Quando tem o retorno imediato pra ele, ele vem, mas quando se trata de palestras sobre educação, sobre como tratar da educação do adolescente, menores, ele já fica com o pé atrás...”. (DIRETORA DO COLÉGIO DA VIDA, 11 nov., 2003). No que diz respeito a este aspecto é importante para os pais ou responsáveis saber o resultado do aluno. A escola poderia, no entanto, buscar formas de mostrar para os pais ou responsáveis o significado das palestras procurando fazer alguma relação com o cotidiano da escola ou da própria família, de forma que eles compreendessem a sua importância na vida prática. Quanto aos momentos em que são chamados na escola eles revelam: “Reunião, entrega de boletins, festas”. (Feminino, 50 anos, Primeiro Grau Incompleto). 125 “Para rematrícula ou falar com os professores, reuniões, etc.”. (Feminino, 34 anos, Segundo Grau Incompleto). “Em nenhum momento, vou por livre e espontânea vontade”. (Masculino, 63 anos, Não Freqüentou a Escola). “Nunca é solicitada. Se a gente quer saber tem que ir à escola, reunião não tem”. (Feminino, 38 anos, Primeiro Grau Completo). “Nas reuniões, nas festas comemorativas e se houver algum mutirão”. (Feminino, 24 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Quando os alunos fazem bagunça, não prestam atenção na aula”. (Feminino, 36 anos, Primeiro Grau Incompleto). De acordo com PARO (1995), para compreender os condicionantes da participação no interior da escola é importante considerar os seguintes aspectos: “1) a estrutura organizacional da escola em seu caráter legal; 2) a real distribuição hierárquica dos que atuam no interior da unidade escolar; 3) os mecanismos de ação coletiva aí presentes; 4) as relações interpessoais; 5) o atendimento aos pais e membros da comunidade; 6) o processo de ensino-aprendizagem propriamente dito”. (ibid., 1995, p. 69). Quanto aos condicionantes externos da participação da comunidade na escola, PARO (1995) assinala que geralmente ela é determinada pelos elementos citados a seguir: 1) os condicionantes econômico - sociais ou as reais condições de vida da população e a medida em que tais condições proporcionam tempo, condições materiais e disposição pessoal para participar; 2) os condicionantes culturais ou a visão das pessoas sobre a viabilidade e a possibilidade da participação, movidas por uma visão de mundo e de educação escolar que lhes favoreça ou não a vontade de participar; 3) os condicionantes institucionais ou os mecanismos coletivos, formalizados ou não, presentes em seu ambiente social mais próximo, dos quais a população pode dispor para encaminhar sua ação participativa. (ibid., p.273). “Infelizmente não, meu trabalho ocupa todo meu tempo” A fim de saber se as escolas tinham ou não tomado alguma medida para tratar das questões relativas às violências perguntou-se aos pais ou responsáveis: quais as iniciativas das escolas junto à comunidade na busca de alternativas, ações 126 para prevenir a violência no ambiente escolar? TABELA 32 –- AÇÕES FEITAS PELA ESCOLA COM AS FAMÍLIAS E COMUNIDADE – 2004 AÇÕES COLÉGIO DA VIDA 18,8% Festas, teatros e palestras Projetos de informática, esportes e fanfarra 12,5% no contra-turno Medidas de segurança: carteirinhas, uniforme, Patrulha Escolar, inspetor no portão 9,4% Abaixo assinado 3,1% Trabalho com a comunidade e pais ou responsáveis 0,0% Sim, mas não definiu o que 0,0% Não conheço 46,9% Não entendeu a questão 0,0% Não responderam a questão 9,4% TOTAL 100,0% FONTE: Dados extraídos da pesquisa de campo. COLÉGIOS COLÉGIO ESPERANÇA 16,7% COLÉGIO TOTAL AMBIENTE 15,8% 17,2% 0,0% 0,0% 4,3% 16,7% 0,0% 5,3% 0,0% 11,8% 1,1% 4,8% 9,5% 28,6% 2,4% 21,4% 100,0% 0,0% 0,0% 63,2% 0,0% 15,8% 100,0% 2,2% 4,3% 41,9% 1,1% 16,1% 100,0% Quanto às iniciativas da escola para prevenir as violências 41,9% do total dos pais ou responsáveis que responderam ao instrumento desconhecem que isso seja feito. 17,2% apontam as festas, teatros e palestras e 11,8% assinalam as medidas de segurança como o uniforme, a carteirinha, inspetor no portão e a solicitação da Patrulha Escolar. Entretanto, 16,1% não responderam à questão. No Colégio Esperança, trata-se especificamente do uso do uniforme e do Programa de Resistência às Drogas e a Violência – Proerd, que é desenvolvido junto aos alunos das quartas-séries por instrutores treinados da Polícia Militar do Paraná. Contudo as medidas de segurança, desvinculadas de um projeto de trabalho na escola, tornam-se medidas ineficazes no combate e prevenção das violências, pois tratam-se de formas paliativas para tentar resolver um problema que é muito mais complexo. É importante também repensar as relações sociais na escola. No Colégio Ambiente, 63,2% dos pais ou responsáveis responderam que não conhecem nenhuma ação. Entretanto, a diretora desta escola afirma que: já fizemos aqui palestras de policiais que vieram trabalhar com os pais, já fizemos algumas oficinas, mas nós temos muito pouca participação dos pais, sabe? Foi tentado montar um grupo de pais, né, começou assim com uns vinte, depois na outra reunião veio cinco, três e acabou em nada. Era bem legal que eram psicólogos, eram pessoas bem preparadas, né, que queriam trabalhar temas bem atuais, sexualidade, de violência e tudo mais, mas infelizmente não tivemos adesão por parte dos pais. (DIRETORA DO COLÉGIO AMBIENTE, 18 nov., 2003). 127 Se os pais ou responsáveis não vão à escola, eles não têm como saber sobre projetos e iniciativas desta para tratar da questão da violência. Quanto às ações que os pais ou responsáveis têm conhecimento que a escola desenvolveu em prol da comunidade para diminuir a violência, destacam-se algumas abaixo: “Apresentações de teatro, passeios educativos”. (Feminino, 29 anos, Segundo Grau Completo). “Prática de esportes no contra-turno”. (Feminino, 40 anos, Segundo Grau Completo). “Sim. Chamar a Patrulha, mas eles não vêm”. (Masculino, 63 anos, Não Freqüentou a Escola). “Sim, funcionários abrindo e fechando os portões, Patrulha Escolar, inspetor vigiando, carteirinha exigida na entrada do aluno”. (Masculino, 39 anos, Segundo Grau Completo). “Sim. Levantou o muro”. (Feminino, 52 anos, Primeiro Grau Incompleto). "Não conheço nada e nem minha filha". (Feminino, 44 anos, Primeiro Grau Incompleto). “Infelizmente não, meu trabalho ocupa todo meu tempo”. (Feminino, 37 anos, Primeiro Grau Completo). “Reunião falando sobre violência”. (Feminino, 45 anos, Segundo Grau Completo). Se por um lado os pais ou responsáveis podem entender que ao levar prendas para a escola e contribuir com doações significa estar participando, por outro os diretores enfatizaram que estes não participam ou que esta participação é muito reduzida. Entretanto, ao que tudo indica este fato ocorre porque a escola também não deixa claro para os pais ou responsáveis o que espera deles. Assim, ausência de participação dos pais ou responsáveis na escola foi citada pelos diretores das três escolas que se queixam sem, no entanto, dizer para eles que tipo de participação está faltando na escola. A diretora do Colégio da Vida assinala que a participação na escola é complicada: 128 Isso é bem complicado, porque os pais que trabalham, eu tenho pais que chega a ter dois, três empregos muitas vezes e tem pai que a situação de desemprego que vivem de bico. (...) Eu tenho pais que são completamente ausentes, que você nunca acha por telefone, o telefone fica mudo, muda de telefone não fornece o número, não tem endereço correto, sabe, você não acha, esse sim, você sabe que a Patrulha Escolar vai procurar e não consegue achar. A Patrulha Escolar nos ajuda, ela vai procurar esse aluno, não consegue localizar, tem pais que são completamente arredios e geralmente os pais que são completamente arredios na escola é os filhos deles que não têm limites, tá. As crianças mais problemáticas são dos pais ausentes, isto é uma característica da escola desde que nós viemos pra cá, né é característica principal. Pais ausentes, filhos sem limites. [grifos nossos] (DIRETORA DO COLÉGIO DA VIDA, 11 nov., 2003). Ao questionar o presidente da Associação de Pais e Mestres do Colégio Ambiente sobre a ausência de participação dos pais ou responsáveis na escola ele assevera que “(...) eles não querem realmente, os pais ou responsáveis não querem se incomodar, como eu disse não querem se preocupar com os filhos deles, como diz aquela música ‘eu não tô nem aí’36, a música eu não tô nem aí, só quando há briga daí apanha o filho, aí, fora isso não”. Assim, um elemento comum nas três escolas é que os pais ou responsáveis só vão à escola quando a situação já se intensificou. Muitos pais ou responsáveis se queixaram que a escola faz vista grossas perante as violências nas três escolas e que não se toma atitude, contudo, “este não fazer nada é uma forma da escola absorver estes impactos e continuar seguindo, equilibrando-se entre a ordem e a desordem (...) aceita-se que o caos é parte da vida escolar”. (LATERMAN, 2000, p. 129). Para PEDRA (1997, p. 84) o cotidiano escolar é complexo e não são raras as situações inusitadas. Afirma, ainda, que a escola “(...) não pode ser entendida como uma entidade com vida própria, capaz de produzir efeitos por si mesma. Ela é um espaço privilegiado onde as relações de poder e conhecimento se reencontram e tomam novos significados”. Neste sentido, faz-se necessário compreender os papéis contraditórios que a escola exerce, bem como alertar para o fato de que é importante pensar em mecanismos que permitam uma efetiva participação entre os membros da comunidade escolar, uma vez que estes encontram sérias dificuldades em participar ativamente das decisões a fim de que seja possível discutir na coletividade 36 A música “Tô nem aí” é de autoria da cantora Luka, cujo refrão assinala: “Tô nem aí, tô nem aí, pode ficar com seu mundinho eu não tô nem aí, tô nem aí , tô nem aí... Não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir..”. Muito cantada pelos jovens, aos olhos do referido presidente serve perfeitamente para os pais ou responsáveis. 129 os problemas e questões que trazem implicações para a prática pedagógica. De acordo com FERREIRA (2000 p. 296) a escola está inserida na ‘sociedade global’ e na chamada ‘sociedade do conhecimento’ onde violentas e profundas transformações no mundo do trabalho e das relações sociais vêm causando impactos desestabilizadores à toda humanidade, e conseqüentemente exigindo novos conteúdos de formação, novas formas de organização e gestão da educação ressignificando o valor da teoria e da prática da administração da educação. Assim, no espaço escolar é preciso lançar mão de empreendimentos que engendrem “(...) uma luta pelo coletivo, ou seja, uma atividade conjunta que rompa com o isolamento das pessoas e crie uma comunidade de trabalho”. (GUIMARÃES, 1996, p.81). A gestão democrática pressupõe que sejam formados vínculos entre a escola e comunidade por meio de um trabalho coletivo. FERREIRA (2000) assevera que a análise das possibilidades da administração da educação como prática educacional destinada não à manutenção, mas à construção coletiva e organizacional da instituição educativa vinculada ao projeto político pedagógico da escola, tendo como referencial o contexto global e as teorias contemporâneas que valorizam a potencialidade e a capacidade participativa do ser humano, ressignificam o valor dessa prática, conferindo à gestão da educação uma práxis que tenderá a superar nas organizações educacionais, as fraquezas institucionais e humanas que resultam em exclusão, desigualdades e injustiça. (ibid., 2000, p. 297). Dessa forma, para que a gestão democrática na educação se efetive é importante que a escola repense e modifique as suas práticas por meio de um trabalho coletivo, visando assegurar o aprendizado dos alunos em uma ambiente acolhedor e prazeroso no qual os alunos e demais membros da comunidade escolar se sintam respeitados e tenham as suas necessidades asseguradas. 130 NAS TEIAS DA VIOLÊNCIA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o intuito de investigar que compreensões têm os pais ou responsáveis de escolas públicas acerca das violências nas escolas, chegou-se à constatação de que as violências manifestam-se de diversas formas e decorrem de conflitos sociais, inerentes ao movimento histórico, que precisam ser desvendados para que se possa compreender as suas causas e implicações. No entanto, é importante analisar os processos que as geram e as sustentam na sociedade. As violências têm denominadores comuns, os diferentes tipos manifestam-se por meio de mecanismos similares, podendo ocorrer na cidade, no campo, no estado, país ou em qualquer região. Desse modo, o ser humano pode ser violento ou pacífico, dependendo da sua história de vida, da cultura a que pertence. Não obstante, supunha-se que a humanidade superaria as atitudes de violências com a instituição de leis, entretanto, mais e mais Leis vão surgindo concomitantemente às inovações das formas de violências que aparecem na sociedade, como exemplos recentes no Brasil, temos a criação de uma lei específica para punir crimes causados pela internet e outra que visa assegurar os direitos dos idosos. Assim, as violências se expressam de diferentes maneiras, ao passo que surgem, inúmeras instituições reguladoras de acordo com a sua especificidade: polícia civil, militar, federal, municipal, delegacia de furtos e roubos, de homicídios entre outras. As violências, produtos das condições sociais objetivas ou subjetivas, no caso da patologia, atingem todos os estratos sociais e causam impotência, frustração, aflição, insegurança, indignação, revolta, medo, dor, traumas, baixa qualidade de vida e em último grau a morte. Violam as leis e perturbam o desenvolvimento normal das atividades econômicas, sociais e políticas, causando um desequilíbrio social que gera índices elevados de pobreza e marginalização impedindo que as pessoas tenham uma vida digna e que possam gozar dos seus direitos humanos. Dissolvem valores mínimos de convivência causando desequilíbrios nas instituições sociais que por sua vez têm dificuldades em dar respostas à sociedade. As conseqüências decorrentes do aumento das desigualdades sociais, da pobreza, afetam a segurança, aumentam a criminalidade e as epidemias. As unidades de saúde e os hospitais não conseguem atender a demanda, não há acesso a saneamento básico e as pessoas vivem em condições precárias, o que as 131 deixa vulneráveis para contrair todo tipo de doenças. O emprego da violência tende a provocar uma postura radical que agrava as situações de injustiça que só poderão ser superadas na medida em que houver o compromisso de luta contra todos os fatores que alimentam a violência no mundo e quando os direitos essenciais e a dignidade humana dos cidadãos estiverem assegurados. Neste sentido, “a prática da violência como toda ação transforma o mundo, mas a transformação mais provável é em um mundo mais violento”. (ARENDT, 1985, p. 45). Dessa forma, há que se ressaltar que as estruturas produtivas capitalistas deterioraram as condições de vida da população, instauraram um sistema de injustiça institucionalizada condenando a maior parte da humanidade, à opressão, à fome, ao subdesenvolvimento e em muitos casos à própria morte. Se no nível macro a segregação que se observa é dos países ricos em relação aos pobres, nas escolas o que se verifica é a segregação da comunidade, pois aquela com o intuito de se proteger desta, instala muros e portões altos, câmeras, cercas elétricas, grades, alarmes e todo aparato necessário para assegurar sua inviolabilidade, no entanto, não assegura. Assim, nas teias das violências tem-se, num primeiro momento, um sistema econômico, social, político, cultural entre outros, excludente, do qual decorre uma violência estrutural responsável pelas desigualdades sociais que geram muitos conflitos. Essa exclusão também decorre das mudanças que ocorreram nos meios e modos de produção. Ao analisar o resultado da pesquisa junto aos pais ou responsáveis, percebe-se, que há um entrelaçamento que revela a interconexão que há entre os diversos aspectos e a formas de violências decorrentes, na sua maioria, os pais ou responsáveis, estabelecem uma relação direta com a violência criminal e constatouse que o espaço escolar torna-se um espaço de vozes ausentes. Pelas vozes dos pais ou responsáveis que aqui se fazem presentes a pesquisa demonstra que 54,8% das definições dos pais ou responsáveis sobre o que é violência referem-se a agressão física, verbal, estupro, assassinato, roubos, furtos, depredação, seqüestros, tortura, disparo de armas, tráfico e uso de drogas entre outros; 26,9% assinalaram aspectos que abrangem às violências simbólicas, morais, psicológicas, maus tratos, preconceito, discriminação, ameaça, desrespeito, 132 falta de valores humanos e, apenas 10,8%, fazem referência às questões econômicas, políticas e sociais que abarcam o papel do Estado e da família no que tange às suas obrigações sociais. Não obstante, verificou-se que há uma certa uniformidade nas compreensões que eles apresentam sobre as violências e, apesar de algumas especificidades, de modo geral, os tipos de violências porque passam as escolas são semelhantes. No entanto, embora reconheçam as situações de violências, os pais ou responsáveis assinalam que na escola têm professores bons e simpáticos. Sabem que as violências prejudicam o ensino, porém não percebem a amplitude das implicações para a prática pedagógica, como percebem os profissionais da educação que atuam na escola. Assim, a pesquisa revelou que os pais ou responsáveis reconhecem a presença de situações de violências no espaço escolar. Dentre os tipos de violências assinalados estão a ameaça, o disparo de arma, o colocar bombas, explosivos, o atentado ao pudor, o estupro, a embriaguez, a negligência da escola, a depredação, a pichação, o roubo, o furto, a invasão, a agressão física, a agressão verbal, o assassinato de aluno, provocação de tumulto e o uso de drogas. Com relação às causas das violências, confundem com o ato da violência em si, se referem às brigas entre os alunos, responsabilizam os próprios pais ou responsáveis e seus problemas familiares, a escola, atribuem ao uso de drogas, ao poder público em especial se queixam da falta de segurança policial. Atribuem, ainda, ao outro a quem referem de “favelados”, “maus elementos”, “maconheiros” entre outros, e, à falta de educação, orientação, diálogo, a ausência de formação em valores e ao desrespeito, principalmente no que tange ao comportamento dos alunos com os colegas e professores. Quanto à compreensão de segurança na escola, as opiniões são bem heterogêneas, a maior parte assinala que não há segurança em lugar nenhum e que a violência está em todo lugar. Reclamam que os alunos não estão seguros na escola e que estão expostos às violências. Procurou-se saber dos pais ou responsáveis o que os levava a manter o filho estudando na escola, em reconhecendo a presença de situações de violências. Dentre as razões apresentadas, o principal motivo, refere-se ao fato de que a escola é próxima do local de moradia, bem como o fato de considerarem que na escola tem 133 bons professores. Entre os pais ou responsáveis do Colégio Ambiente boa parte assinala que não tem condições de pagar colégio particular. Contudo, não percebem que nestas instituições também podem ocorrer situações de violências. No que se refere às compreensões sobre a Associação de Pais e Mestres e ao Conselho de Escola, revelam desconhecimento acerca das suas funções na escola e constata-se que ambos não se constituem em um espaço onde se efetiva a participação na gestão da escola. Para saber as compreensões que eles têm sobre a escola, investigou-se do que mais gostam e do que não gostam na escola. Quanto ao que mais gostam, dentre os que responderam, relatam em primeiro lugar que é dos professores, diretores e funcionários, do ensino e da localização próxima do local de moradia. Porém uma parte diz que não gosta de nada e uma outra não respondeu a questão. E, com relação ao que não gostam, asseveram que é da falta de educação, de respeito e a violência dos alunos. Mas, 29% dos pais ou responsáveis revelaram que nada os aborrece. Este aspecto pode revelar a Lei do Silêncio ou a banalização, na medida em que não há um estranhamento das situações de violências. Ao serem questionados quanto à forma que ajudam a escola, afirmam que é pagando a contribuição, participando de reuniões, do mutirão, doando bolos, prendas e outros objetos. Todavia, a maioria disse que não a ajuda. Quanto à solicitação da presença deles na escola, revelam que são chamados para as reuniões, entrega de boletins, para fazer matrícula, festas, palestras e mutirões, bem como para resolver problemas dos alunos. Contudo, alguns pais ou responsáveis afirmam que nunca foram chamados. Dentre as iniciativas tomadas pela escola junto à comunidade na busca de alternativas, ações para prevenir as violências no ambiente escolar, alegam que a escola realizou festas palestras e teatros, no entanto, a grande maioria desconhece qualquer iniciativa neste sentido. Não obstante, com base nos resultados da pesquisa, constatou-se no espaço escolar, a presença de alguns fenômenos que poderiam ser classificados como: Lei do Silêncio, a Banalização das violências, da Lei do “Deletar” e da Lei da Marginalização da Democracia. 37 37 BAIBICH, Tânia Maria. Conversas informais, 2004. 134 A Lei do Silêncio se refere à prática do não denunciar, fazer vistas grossas e omitir-se diante das situações vivenciadas na escola por medo de sofrer represálias. Os resultados evidenciaram dados relacionados ao item “não tive conhecimento”, com relação aos tipos de violências presentes no espaço escolar, que escamoteiam parte da realidade. Esta Lei pode ser constatada em especial, por meio dos resultados acerca da ameaça, negligência, depredação, entre outros, pois um grande número de pais ou responsáveis assinalaram que não tinham conhecimento delas, quando estas formas de violências estão entre os principais problemas presentes nas três escolas pesquisadas ou, quem sabe, trata-se da banalização da violência, uma vez que aos olhos destes pais ou responsáveis estas situações podem ter se tornado comum no cotidiano. O conceito “banalização do mal” foi cunhado por ARENDT (1999), ao descrever o julgamento de Eichmann, responsável pelo envio de milhões de Judeus para os campos de concentração, em Jerusalém em 1960. A referida autora relata desde a sua captura, até a condenação à morte. A banalização refere-se ao fato de que para todas as atrocidades que foram cometidas contra o povo judeu chega-se a conclusão de que as pessoas não tinham discernimento e o fizeram porque obedeciam a ordens, concretizando com isso a banalização do mal. No cotidiano essa banalização se expressa no fazer vistas grossas, nas negligências, na falta de responsabilidade, no ferir o outro por brincadeira, no “não dá nada”, ao se fazer de conta que não se percebe que determinadas situações podem de alguma forma prejudicar o outro, ao se fazer pouco caso de situações de violências que podem gerar outras ainda mais graves, ao se omitir entre outras. O uso de expressões como “solução final”, usado por Eichmann, que significa literalmente assassinato, massacre, para escamotear o verdadeiro sentido dos fatos e ações, também está presente nas escolas. Muitas expressões servem para camuflar situações de pura violência, em especial a simbólica. Quando o professor é conivente com atitudes dos alunos que ferem os colegas e diz “eles são assim mesmo, estão só brincando” ou “vocês vão me pagar” em tom ameaçador quando os alunos fazem algo que o desagrada. Os pais ou responsáveis denunciam ainda que profissionais da educação estariam fazendo vistas grossas para certos comportamentos de alunos. Alguns, apesar de que entregaram o instrumento, não preencheram a série na qual o aluno 135 estudava, este fato pode indicar o receio de uma possível perseguição por parte da escola evidenciando a Lei do Silêncio. Constatou-se, ainda, no espaço escolar, a presença da Lei do “Deletar” que trata-se da não preservação da memória, pelo descarte de documentos e materiais, aniquilando a própria história da escola. Documentos importantes são desprezados, jogados fora, sem levar em consideração o trabalho feito pela equipe anterior, não só aniquilando a memória da escola como também prejudicando toda a comunidade escolar, pois os documentos que integram a cultura escolar pertencem a esta comunidade. Além de deletar documentos, a escola deleta situações sérias, fatos cuja responsabilidade seria a de comunicar órgãos superiores e pedir ajuda ao invés de se preocupar com a sua imagem e submergir na Lei do Silêncio. Assim, muitos casos sérios de violências são deletados no espaço escolar que não se preocupa em buscar soluções ou alternativas para resolvê-las, preferindo colocar panos quentes e abafar o problema. Todavia, mais tarde quando o leite derrama, a situação já está insustentável. Com isso a escola acaba por deletar também seus alunos pelo ato de transferência pedido pelos pais ou responsáveis que temem por sua segurança ou pelo medo que culmina em fracasso e evasão escolar. Deleta, ainda, seus professores, bem como os demais profissionais da educação, que não conseguem trabalhar nestas condições e adoecem constantemente, faltando e prejudicando o processo de ensino-aprendizado dos alunos ou não indo trabalhar por medo de que algo mais grave possa lhes acontecer. Este fato leva a uma alta rotatividade pelos pedidos de transferências ou abandono do trabalho nas escolas que não conseguem assegurar uma equipe que possa dar continuidade às ações e iniciativas que venham a ser tomadas. E, finalmente, acaba por deletar a sua comunidade que não reconhece a escola como sendo sua e não se sente convidada a participar da sua gestão. Outro aspecto que foi constatado foi o da Lei da Marginalização da Democracia que aparece na medida em que os pais ou responsáveis não são partícipes do processo de discussão e decisão, isto é, não têm direito à voz e na prática, ao serem afastados não podem ser escutados e, ao não serem escutados pela escola são condenados à vozes afônicas. Desse modo, a escola poderá ser transformada quando os diferentes sujeitos que dela fazem parte tiverem direito a 136 voz. A participação dos pais ou responsáveis nas instâncias próprias funcionaria também como exercício de cidadania além da conseqüente organização social que advém do atuar colegiadamente.38 A escola, ao manter os pais ou responsáveis marginalizados dos seus direitos, ao mesmo tempo em que cultua a Lei do Silêncio, impõe uma violência a mais às mil e tantas já existentes. Obstaculiza, desta forma, tomadas de consciência e organização política e social. Assim, a “não-participação anunciada” parteja, continuamente, o crescimento desordenado das violências sendo, ela mesma, expressão da injustiça social que marginaliza para ser quem é. É preciso sublinhar a idéia de que a não possibilidade de compreensão da realidade macro, isto é, do funcionamento intrinsecamente injusto do capitalismo, causa importantíssima das violências, por parte dos pais ou responsáveis e professores aliada a sua não condição de cidadania e a banalização das violências são em última análise, motor e combustível da manutenção do que está aí.39 Verificou-se que mesmo morando próximo à escola pais ou responsáveis que poderiam ter uma participação maior, tanto no que diz respeito a aspectos referentes à gestão da escola, quanto na participação efetiva para aprendizagem e progressão na escolaridade do aluno, não ocorre uma vez que no Colégio Esperança aonde os pais ou responsáveis moram mais próximos essa participação ocorre de forma equivocada. As possibilidades de integração e cooperação família-escola de forma que haja a efetiva participação para a aprendizagem contemplando as questões relativas aos problemas de violências poderá ser concretizada na medida em que a compreensão de participação instaurada seja repensada, pois a participação dos pais ou responsáveis não pode se resumir em pagar contribuições para escola, doar bolos e participar da faxina. Às escolas cabe a responsabilidade de encontrar meios de acordo com as suas especificidades para formar os pais ou responsáveis ampliando o seu capital cultural (APPLE, 1989), para o tipo de participação que se almeja, transformando a atual cultura de participação que está presente, tendo em vista uma gestão efetivamente democrática. 38 39 BAIBICH, Tânia Maria. Conversas informais, 2004. BAIBICH, Tânia Maria. Conversas informais, 2004. 137 É importante registrar as dificuldades que foram encontradas, dentre elas, a falta de estrutura física, materiais didáticos, funcionários para atender as necessidades dos estabelecimentos, professores que faltam muito, cursos de formação com conteúdos relacionados à violência, gênero, preconceito, dentre outros, que dêem subsídios à comunidade escolar para atuarem junto às novas necessidades postas no espaço escolar, ausência de discussões e reflexões com a comunidade escolar para propor alternativas e sugestões para tratar do problema das violências. Não obstante, o que se quer destacar e chamar a atenção é para um fenômeno que se encontrou nos três estabelecimentos, qual seja o de uma violência maior que suplanta todas as outras. Trata-se de uma violência silenciosa, cuja percepção era a de que estava instaurada na atmosfera escolar uma densa névoa de desesperança, um fatalismo associado a um imobilismo. Este aspecto foi observado pela evidente falta de perspectivas por meio das falas dos próprios professores, dos diretores, dos presidentes das Associações e pela observação do espaço escolar. Chega-se ao final deste trabalho com a percepção de que a violência se banalizou mesmo e a sensação que se tem nas escolas é a de que não há mais nada a fazer. Faz-se necessário implementar um conjunto de ações, formular políticas públicas que visem melhorar a qualidade de vida para as populações carentes, em especial as que moram em regiões com alto índice de violências para que possam ter uma vida digna. As dinâmicas de prevenção de conflitos devem fazer parte da política pública nacional e educacional, paralelas às ações da sociedade civil. Todavia, é preciso compreender na sua essência a violência cotidiana a que estão submetidas todas as pessoas, seus significados e conseqüências que acarretam na vida social. A escola enquanto instituição social está inserida em um contexto histórico, sujeita às transformações que ocorrem neste contexto e também está vulnerável a todos os tipos de violências presentes na sociedade. Entretanto, enquanto espaço contraditório por meio dos seus rituais ela também pratica violências, ao não assegurar que o aluno aprenda, ao impor um determinado tipo de conduta e cultura reproduzindo relações sociais, mas nem por isso deixa de ser um espaço de luta e contestação. A escola ainda é a instituição com maior credibilidade na comunidade e 138 quem sabe na sociedade e é certo que não será só por meio dela que se transformará a realidade, mas ela constitui-se como peça fundamental nesse processo. Ela faz a diferença e acredita-se que é possível sim reverter este quadro, não só com a garantia de políticas públicas, mas também resgatando em cada profissional da educação o que ele tem de mais humano, fazendo-o parar e refletir no seu potencial de transformação. Para tanto, o trabalho pedagógico precisa estar pautado num requisito que é básico para quem trabalha com formação humana, na consciência do seu valor e do trabalho a ser desenvolvido com os alunos a partir da construção de um projeto educativo visando à efetivação da democracia na escola e na sociedade. 139 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMOVAY, Miriam. Escola, violência e fantasia. CÂMARA DOS DEPUTADOS: COMISSÃO DE EDUCAÇÃO CULTURA E DESPORTO. Violências nas escolas: reprimir, prevenir ou transformar? Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de publicações, 2003. 56 p. (Série Ação Parlamentar). _____. Estudos comparativos sobre as violências nas escolas da França, Espanha e Brasil. In: CONGRESSO IBERO-AMERICANO SOBRE VIOLÊNCIAS NAS ESCOLAS, 2004, Brasília. Anais... Brasília: Universidade Católica de Brasília, 2004. ABRAMOVAY, Miriam et al. Escola e violência. Brasília: Unesco, UCB, 2002. ABRAMOVAY, Miriam; RUA, Maria das Graças. Violências nas escolas. 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