ESCOLA SUPERIOR NÁUTICA INFANTE D. HENRIQUE DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA MARÍTIMA EXAMES DE RECICLAGEM PARA OFICIAIS DE MÁQUINAS MARÍTIMAS APONTAMENTOS DE SISTEMAS PNEUMÁTICOS Elementos coligidos por: Prof. Luis Filipe Baptista ENIDH, Dezembro de 2010 0 ÍNDICE 1. PNEUMÁTICA ...............................................................................................................................2 1.1. INTRODUÇÃO À PNEUMÁTICA........................................................................................2 Cilindros ......................................................................................................................................3 Válvulas ......................................................................................................................................3 Comando à distância de um cilindro pneumático ................................................................9 Bloqueamento do distribuidor................................................................................................11 Movimento semi-automático e automático..........................................................................12 Controlo de velocidade da haste do cilindro.......................................................................14 Elementos lógicos ...................................................................................................................15 Circuito pneumático (ciclo manual-automático) .................................................................17 ANEXO. SIMBOLOGIA DE CIRCUITOS PNEUMÁTICOS ..................................................20 1 1. PNEUMÁTICA 1.1. INTRODUÇÃO À PNEUMÁTICA Como é conhecimento de todos, só existem dois tipos de movimentos: rotativo e linear. A pneumática é uma tecnologia que se serve de ambos nas mais diversas aplicações, mas deve-se salientar que o movimento linear ou de vaivém é aquele que iremos dedicar uma maior atenção no estudo que iremos apresentar seguidamente. No entanto, as modificações dos esquemas de comando para o caso de aplicações com motores pneumáticos são de fácil compreensão, após a aquisição dos conhecimentos básicos acerca desta tecnologia. Assim como o motor eléctrico é o órgão de potência para a electricidade, o cilindro pneumático é o componente que executa o referido movimento linear, tendo como energia, naturalmente, o ar comprimido. Há muitas tarefas, bastante desgastantes, que o ser humano realiza, através dos seus órgãos motores (mãos, braços, pernas) cuja força muscular pode ser substituída por uma força externa, desenvolvida linearmente, embora basculante (ou de vaivém). Em geral, os cilindros pneumáticos desenvolvem forças até cerca de 30000 Newton (aproximadamente 3000 Kgf), visto que muitas operações na indústria podem ser executadas por uma força de vaivém pneumática, com o valor anteriormente indicado (Fig.1.1 e 1.2). Numa primeira análise, pode afirmar-se que acções como transportar, fechar, abrir, apertar, cortar, prensar, empurrar, puxar, elevar, são algumas das aplicações do movimento linear que servirão de exemplo a este estudo. Como órgão de potência, o cilindro é um componente extremamente simples, sendo constituído por: duas tampas, uma camisa, um êmbolo e uma haste. Fig.1.1. Cilindro pneumático de duplo efeito em corte. No entanto, a tecnologia pneumática tem evoluído bastante, pelo que hoje em dia existem diversos outros tipos de cilindros pneumáticos, de que são exemplos o cilindro sem haste ou cilindro de banda. Este tipo de cilindros é adequado quando se pretende obter cursos longos. Podem também ser utilizados em manipuladores automáticos controlados por autómatos programáveis. Fig.1.2. Diversos tipos de cilindros pneumáticos. 2 Para além dos cilindros pneumáticos, é forçoso falar das válvulas que lhes estão associadas. Estes componentes já não são tão simples como os cilindros, visto existir uma gama muito vasta destes elementos, atendendo, não só, ao circuito lógico em causa, mas também à aplicação e ambiente de trabalho. a) b) Fig.1.3. Válvulas pneumáticas. a) Válvula simples. b) Bloco de válvulas (tipo compacto). Vamos começar por descrever alguns componentes, de modo a poder-se elaborar os primeiros esquemas, necessariamente simples, como introdução ao princípio de funcionamento de válvulas de 3 e 5 orifícios em simbologia normalizada ISO-CETOP 1219 (ISO – International Organization for Standardization ; CETOP - Comissão Europeia de Transmissões Óleo-pneumáticas). Assim, apresentam-se seguidamente os principais tipos e características de cilindros e válvulas geralmente utilizados na indústria. Para mais detalhes, veja os quadros de símbolos pneumáticos em Anexo. Cilindros Simples efeito Cilindros quanto ao tipo Duplo efeito Cilindros quanto à classe Leve Média Pesada Especial Mini Membrana Tandem Dupla haste Binário (torque) De uma forma simplista, pode dizer-se que o cilindro mais usado é o de duplo efeito quanto ao tipo, e a classe média quanto à classe. Duplo efeito, porque efectua trabalho em ambos os sentidos de movimento e classe média, porque possui amortecimento regulável em ambos os fins de curso. Válvulas As válvulas de dois estados, com três e cinco orifícios, são as mais utilizadas em aplicações práticas. Para construir os primeiros circuitos, é fundamental estudar-se o princípio de funcionamento destes dois tipos de válvulas. À medida que se for avançando neste capítulo, iremos introduzir mais alguns elementos da vasta gama de válvulas disponibilizadas pelos fabricantes. Deste modo, pretendemos evitar uma apresentação muito exaustiva de simbologia, o que permite ao aluno uma assimilação progressiva e contínua dos diversos símbolos pneumáticos. 3 Válvulas quanto ao número de estados 2 orifícios 3 orifícios 4 orifícios 5 orifícios Manual Válvulas quanto ao comando Mecânico Manípulo Botão Puxador Pedal Rolete fixo Rolete móvel Haste sensível Botoneira Electromagnético Eléctrico Electropneumático Pneumático A figura 1.4-a) e b) representa uma válvula de dois orifícios com dois estados, 2/2, respectivamente, fechada e aberta. Nesta válvula, o orifício 1 é a entrada e o 2 é a saída (números normalizados). 12 2 10 1 a) b) Fig.1.4 Diariamente, o leitor toma contacto com este tipo de válvula, sem se dar conta disso. Quando pela manhã abre e fecha a torneira da água para se lavar está a utilizar a referida válvula (de passagem). Basicamente, todas as válvulas, quer sejam de dois, três, quatro ou cinco orifícios, são constituídas por um invólucro ou sede (construída com material metálico ou sintético), dentro da qual existe um mecanismo que se encarrega de efectuar todos os desvios de fluxo de ar, independentemente do tipo de comando. Este mecanismo poderá ser representado por um êmbolo distribuidor, uma gaveta ou um diafragma. Vamos optar pelo êmbolo distribuidor, tendo em conta que este apresenta um desenho mais simples. A Figura 1.4-a) representa a válvula normalmente fechada e, consequentemente, o êmbolo distribuidor encontra-se todo à esquerda. Na figura 1.4-b), ao posicionar-se todo à direita permite que aquela se encontre normalmente aberta. 4 A Figura 1.5 simboliza a reunião dos dois estados possíveis, constituindo o símbolo ISO-CETOP de uma válvula 2/2. O número de quadrados reunidos indica, assim, o número de estados ou posições de uma válvula. O símbolo “Δ” representa a alimentação de ar comprimido já filtrado, regulado e possivelmente lubrificado. 12 2 10 1 Fig. 1.5 A Figura 1.6-a), b) representam uma válvula bastante mais importante em pneumática. Trata-se de uma válvula de três orifícios com dois estados, ou seja, uma válvula 3/2. Provavelmente já contactou certamente com um tipo de componente semelhante no seu quotidiano sem se preocupar, naturalmente, com a sua designação. Por exemplo, quando enche a câmara-de-ar de um pneu recorre a uma válvula 3/3, isto é, três orifícios e três estados. A sua preocupação é enchê-la à pressão da referência indicada pelo fabricante. Se por acaso a encheu demasiado, pretende deixar escapar para a atmosfera o ar em excesso. Estas duas funções correspondem ao princípio de funcionamento de uma válvula 3/2, se excluirmos a terceira posição que corresponde à posição de válvula totalmente fechada para admissão e escape em simultâneo. a) b) Fig.1.6 Na Figura 1.6-b), corresponde ao distribuidor colocado à esquerda, o que põe em escape todo o ar, através de comunicação interna entre os orifícios 2 e 3. Assim, o orifício 1 está fora de serviço, embora continue “alimentado” pela rede de distribuição do ar comprimido. Na Figura 1.6-b) o êmbolo distribuidor está colocado à direita o que permite a admissão do ar comprimido entre os orifícios 1 e 2, ficando o 3 fora de serviço durante este estado. 5 A Figura 1.7 reúne os dois estados que acabamos de estudar e representa o símbolo ISO-CETOP da válvula 3/2. Neste caso, a válvula possui comando por manípulo com duas posições fixas estacionárias. 2 10 12 3 1 Fig. 1.7 A Figura 1.8-a), b) representam uma válvula de cinco orifícios com dois estados, isto é, uma 5/2. Esta válvula é normalmente utilizada para comandar cilindros pneumáticos de duplo efeito, como iremos ver um pouco mais à frente neste estudo. a) b) Fig.1.8 Na figura 1.8-a), o êmbolo está à direita, existindo admissão entre 1 e 2 e escape entre 4 e 5, ficando o orifício 3 fora de serviço. A figura 1.8-b) apresenta o êmbolo distribuidor à esquerda, resultando dessa posição o seguinte: admissão entre os orifícios 1 e 4 e simultaneamente escape entre 2 e 3, ficando fora de serviço o orifício 5. A figura 1.9-a), representar o símbolo ISO-CETOP de uma válvula 5/2 de actuação por botão e retorno por mola, na qual estão indicados os números correspondentes aos orifícios. A figura 1.9-b) representa o esquema da válvula 5/2 em corte na qual é possível observar a configuração do êmbolo distribuidor que canaliza o ar no interior da válvula para os diferentes orifícios. 4 2 1 1 5 1 3 a) 6 b) Fig.1.9-a) Símbolo de válvula 5/2. b) Válvula 5/2 em corte. Após efectuar-se o estudo preliminar de válvulas 3/2 e 5/2, estamos em condições de elaborar os primeiros circuitos pneumáticos básicos. Vamos admitir que se pretende fixar uma peça, utilizando um cilindro de simples efeito como o da Figura 1.10 ou um cilindro de duplo efeito, conforme indicado na Figura 1.11. Ambas as válvulas são de actuação por botoneira e retorno por mola. Nestes casos, a válvula 3/2 comanda o cilindro de simples efeito e a 5/2 o cilindro de duplo efeito. 2 10 12 3 2 12 3 1 1 1 a) b) Fig. 1.10 - 1 + 4 2 5 1 3 - 1 1 a) + 4 2 5 1 3 1 b) Fig. 1.11 7 Vamos considerar, ainda, que os diâmetros internos dos cilindros são de 50 mm e que o ar está à pressão de 6 bar, concluímos que a força de avanço (F+) é de 1180 N para o cilindro de duplo efeito e de 1080 N para o de simples efeito, quando os êmbolos estiverem completamente avançados. Qual a razão para esta diferença? Porque a mola que executa o retorno da haste no cilindro de simples efeito, possui normalmente uma força de 100 N, quando está totalmente premida. Quando se pretende que um cilindro execute trabalho em ambos os sentidos, ou mais propriamente, à compressão e à tracção, é necessário utilizar-se um cilindro de duplo efeito. O de simples efeito só pode executar trabalho num sentido - à compressão ou à tracção dependendo, para tanto, da posição da mola a qual possui força unicamente para recolher ou fazer sair a haste, respectivamente. Num cilindro de duplo efeito, temos de diferenciar a força de avanço (F+) da força de retorno (F-). De facto, o mesmo cilindro desenvolve mais força quando trabalha à compressão do que à tracção. Com efeito, a força desenvolvida pela haste resulta do produto da pressão (P) pela área (S) onde incide o ar comprimido (F=P*S). Assim, a haste, ao retirar alguma área ao êmbolo, determina que F- seja ligeiramente inferior a F+. Daqui resultam, também, as designações de câmara positiva (+) e câmara negativa (-). Foi dito anteriormente que os cilindros de duplo efeito e de classe média são os mais utilizados. De facto, assim acontece, mas isso não significa que o de simples efeito, embora menos utilizado, não tenha igualmente o seu campo de aplicação. A título de exemplo, podemos referir a indústria de confecções, onde a cravação de botões metálicos em calças de ganga (“jeans”) é executada por cilindros pneumáticos de simples efeito. Este tipo de operação exige forças entre 6000 e 12000 N e cursos à volta de 50 mm. Nestas condições, o cilindro de simples efeito é mais rápido que o de duplo efeito porque, à partida, tem uma menor resistência na câmara negativa. Daqui resulta uma maior aceleração do êmbolo e maior acumulação de energia na ponta da haste que executa a referida cravação. No entanto, para além das limitações já descritas, o cilindro de simples efeito está também limitado a cursos pequenos, raramente superiores a 100 mm, devido às dimensões da mola de recuperação. A partir desta fase do estudo, vamos passar a utilizar apenas circuitos com cilindros de duplo efeito. Logo que possível, irá estudar-se a controlo de velocidade destes componentes, conforme representado na figura 1.12. A figura 1.12, representa o esquema de comando de um cilindro através de uma válvula 5/2 com comando por manípulo, com duas posições estacionárias (ou biestáveis). Diz-se neste caso que a válvula é biestável. - + 4 2 5 12 1 3 1 Fig. 1.12 8 Uma válvula quando possui retorno por mola (Figuras 1.10 e 1.11), designa-se vulgarmente por monoestável, porque esta regressa imediatamente à posição de repouso, assim que a força que a faz mudar de estado deixa de actuar. Comando à distância de um cilindro pneumático Vamos, seguidamente estudar o controlo pneumático à distância. Para tanto, vamos admitir que dispõe de duas botoneiras de comando para fixar e libertar a peça, podendo analisar o respectivo circuito na figura 1.13. Este circuito é composto pelos seguintes componentes: • A - cilindro pneumático de duplo efeito, com amortecimento regulável. • B - válvula de cinco orifícios com dois estados, 5/2, comando pneumático duplo e impulsos à distância. • C1 - C2 - válvulas de três orifícios com dois estados, 3/2, comando manual por botão e retorno por mola. A 4 2 14 12 B 1 3 2 1 12 C1 5 3 1 2 1 12 C2 3 1 Fig.1.13 Como é normal, todos os circuitos são representados na posição de repouso. Assim, temos a câmara negativa do cilindro A com ar comprimido à pressão da rede, visto que os orifícios 1 e 2 comunicam entre si, e a câmara positiva à pressão atmosférica, atendendo a que o 4 está em comunicação com a atmosfera, através do orifício 5. Vamos iniciar o ciclo com o avanço da haste do cilindro A. Para tal, é necessário que haja admissão de ar comprimido na câmara positiva e simultaneamente que a câmara negativa entre em escape para a atmosfera. Admissão e escape verificar-se-ão logo que a válvula 5/2 mude de estado, isto é, logo que receba impulso no seu lado esquerdo. Este impulso é obtido por actuação do botão C1, conforme pode analisar-se na figura 1.14-a). Na figura 1.14-b), a válvula Cl deixou de estar premida e retorna à posição inicial, pela acção da mola incorporada na sua sede. Assim, permite o escape do ar que originou o impulso, uma vez que o orifício 2 volta a estar em comunicação com a atmosfera através de 3. A válvula B já mudou de estado e como resultado, temos a câmara positiva de A a ser pressurizada com ar da rede, atendendo a que existe admissão entre os orifícios 1 e 4. Por outro lado, a câmara negativa está em escape através da comunicação entre os orifícios 2 e 3. A Fig.1.14-b) representa o estado em que ficou o circuito, após a haste do êmbolo ter atingido o seu ponto morto superior. Esta posição manter-se-á enquanto não houver mudança de estado na válvula 9 B. A figura 1.15-a) indica-nos que pretendemos fazer regressar a haste do êmbolo ao seu ponto morto inferior. Para que isso suceda, premimos a válvula C2, permitindo deste modo, a passagem de um impulso pneumático dirigido à válvula B. 4 4 2 14 5 2 1 C1 3 2 1 1 1 12 5 1 3 1 2 14 12 3 C2 2 1 1 C1 1 1 3 3 2 1 1 1 3 C2 a) 1 b) Fig.1.14-a). Actuação em C1 – avanço do cilindro A (pilotagem mo orifício 14 da válvula 5/2). b) Válvula C1 em escape – cilindro A continua a avançar (válvula B é biestável). - + 4 4 14 C1 5 1 3 2 10 3 12 12 5 12 2 14 2 2 12 C2 1 a) 3 1 10 2 10 12 C1 1 3 3 2 10 12 1 C2 3 1 b) Fig. 1.15-a). Actuação em C2 – recuo do cilindro A (pilotagem do orifício 12 da válvula 5/2). b) Válvula C2 em escape – cilindro A recua totalmente (válvula B é biestável). A figura 1.16 representa o esquema de comando electropneumático do circuito. Ambos os solenóides (S1 e S2) são “alimentados” por ar comprimido (orifício n.º 1) vindo através do corpo da válvula 5/2. Estas linhas de alimentação internas estão representadas a tracejado. Premindo o contacto eléctrico C1, a bobina é excitada e atrai o núcleo, estabelecendo a seguinte ligação no interior do solenóide: o orifício n.º 1 contacta com o n.º 2 e naturalmente produz-se o impulso pneumático à semelhança do verificado na figura 1.14-a); o orifício n.º 3 ficará obstruído pela ponta a negro do núcleo, enquanto a bobina permanecer excitada. Logo que o núcleo C1 abra o circuito eléctrico, deixa de existir campo magnético e a mola leva-o à posição de repouso. Consequentemente os orifícios n.º 2 e n.º 3 estabelecem o escape pelo interior do núcleo do ar 10 comprimido que foi necessário para realizar o impulso pneumático que produziu o avanço do cilindro A. a) b) Fig.1.16. (Nota: Imagens retiradas da ref. [1]). A Fig.1.17 representa o esquema eléctricopneumático relativo ao movimento de avanço-recuo do cilindro. Neste esquema, S1 é representado pela botoneira “Avanço” e S2 é representado pela botoneira “Recuo”. De notar que o esquema representado foi realizado num software específico de desenho e simulação de circuitos pneumáticos (Automation Studio). (Nota: ver http://www.automationstudio.com). Fig.1.17 Bloqueamento do distribuidor Vamos seguidamente ver as situações de bloqueamento (fig.1.18) no ponto morto inferior. A válvula 5/2, não pode mudar de estado, visto que os impulsos vindos de C1 e C2 se anulam mutuamente e deste modo o seu êmbolo distribuidor não passa da esquerda para a direita. Para que o bloqueamento desapareça, o impulso vindo de C2, tem de entrar em escape, ou seja, a válvula C2 não pode estar actuada. A figura 1.19 dá-nos a situação inversa, ou seja, o bloqueamento existe agora no ponto morto superior. Neste caso, é o impulso originado por Cl que tem de entrar em escape, isto é, a válvula Cl não pode estar actuada. 11 Fig.1.18 Fig.1.19 Movimento semi-automático e automático Analisemos seguidamente um circuito que iremos designar por semi-automático. Na figura 1.20, pretende-se o seguinte: premir manualmente Cl e obter o avanço de A; logo que a haste do êmbolo atinja o seu fim de curso, o que corresponde ao ponto morto superior, a válvula aí será actuada mecanicamente, permitindo o regresso automático de A e, portanto, atingir o ponto morto inferior. Fig. 1.20 Deve notar-se que o único componente novo que aparece neste circuito é o elemento a1, que é uma válvula 3/2 de comando mecânico por rolete e retorno por mola (sensor de fim de curso). 12 Com a figura 1.21, pretende introduzir-se o conceito de circuito inteiramente automático, embora recorrendo a um simples vaivém. Fig. 1.21 Neste circuito, logo que a válvula 3/2 de manípulo, passe de stop para start, por acção do operador, dá-se passagem ao impulso pneumático vindo de a0, uma vez que esta válvula se encontra actuada pela haste do cilindro; por sua vez, a válvula 5/2 que “alimenta” o cilindro de duplo efeito, recebe, assim, o impulso que a faz mudar de estado, ou seja desloca o êmbolo distribuidor da esquerda para a direita. Esta acção permite o avanço da haste do cilindro pneumático. Esta, ao atingir o seu fim de curso, vai actuar a válvula a1, dando origem ao impulso responsável por nova mudança de estado da válvula 5/2. A deslocação do êmbolo distribuidor da direita para a esquerda, dá origem ao retorno da haste do cilindro. Logo que a válvula a0 volte a ser actuada pela haste do cilindro, dá-se novo impulso A+ e este dará origem a um novo ciclo de vaivém. Como é lógico, podemos alterar este vaivém de contínuo a descontínuo ou intermitente, mas o ciclo irá manter-se. Este circuito voltará à posição de repouso, logo que o operador passe a válvula de manípulo, ou interruptor, da posição de start para stop. A Fig.1.22 representa o circuito electropneumático equivalente ao anteriormente apresentado. Fig.1.22 A partir desta descrição, vamos passar a usar uma terminologia mais simplificada. Por exemplo, em vez de dizer-se que a válvula 5/2 vai mudar de estado, isto é, o seu êmbolo distribuidor vai deslocarse da direita para a esquerda ou vice-versa, diz-se simplesmente: vai comutar, foi comutada, deu-se a comutação. Quando se pretender dizer que a haste do êmbolo do cilindro pneumático A vai avançar ou recolher, diremos simplesmente A+, A-. 13 A palavra impulso pode ter o mesmo significado através dos seguintes termos: pilotagem, sinal, ordem. Controlo de velocidade da haste do cilindro Para continuar o estudo, vejamos como regular a velocidade de um cilindro pneumático. Admita-se o sentido de avanço como exemplo. É vulgar pensar-se que devemos estrangular a respectiva admissão de modo a conseguirmos variar a velocidade em causa. Porém teremos de concluir que é errado, excepto com cilindros de simples efeito e ainda de duplo efeito mas com diâmetros internos até 20 mm. Acima destes valores, não é a admissão mas sim o escape da câmara contrária que se deve estrangular. Em qualquer movimento, quer seja de avanço ou de retorno, pretende-se, tanto quanto possível, uma força constante e se a admissão estiver estrangulada, a pressão do ar comprimido sofre variações que provocam oscilações no movimento em ritmo intermitente. A figura 1.23 representa a admissão na câmara positiva como deve ser efectuada, isto é, livre, e o ar contido na câmara negativa é estrangulado durante o escape através da válvula V2. Esta operação dar-se-á logo que a válvula 5/2 seja comutada pelo impulso vindo de C1. O esquema da figura 1.23, apresenta um novo símbolo, isto é, o do componente V2. Este não é mais do que uma válvula controladora de fluxo unidireccional, ou seja, estrangula a passagem do ar num sentido e deixa passá-lo livremente em sentido contrário. Este componente possui uma válvula de retenção que impede totalmente a passagem do ar durante o escape, obrigando-o a passar numa zona estrangulada, de variação regulável no exterior da sede e através de um parafuso. A V1 V2 4 2 14 12 B 2 1 12 C1 3 1 5 1 3 2 1 12 C2 3 1 Fig.1.23 Quando se pretende o movimento de retorno, teremos de possuir admissão de ar na câmara negativa. Neste caso, o ar circulará livremente através do “by-pass” ao estrangulamento, em sentido contrário àquele que se acabou de descrever. Neste sentido, a válvula de retenção não impede a livre circulação do ar e como tal possuímos uma admissão sem qualquer estrangulamento no movimento de retorno. Quando se pretender regular a velocidade em ambos os sentidos, terão que se usar dois estranguladores de fluxo (V1 e V2), conforme representado na figura 1.23. 14 Elementos lógicos Nesta secção vamos descrever as três funções lógicas mais simples, ou seja: E (And), OU (Or) e NEGAÇÃO (Not), em pneumática. Vamos começar pelo estudo da função E (and). Como exemplo prático desta função, pode referir-se a protecção de um operador quando este comanda manualmente uma prensa, uma guilhotina, balancé ou qualquer outro dispositivo em que haja o perigo de ser mutilado, principalmente, nos dedos ou nas mãos. De modo a evitar este perigo, é forçoso utilizar-se uma função lógica E (and), isto é, obrigar o operador a usar a mão esquerda e a mão direita em simultâneo. Só assim, ele porá em marcha a máquina que comanda sem que haja a possibilidade de danificar uma das mãos. Vamos exemplificar esta situação através do comando de um cilindro pneumático de duplo efeito. Fig.1.24 Na figura 1.24, vamos designar a válvula A como activa e a B como passiva. Entende-se por activa aquela que é alimentada a partir da rede de energia (ar comprimido) e por passiva a que está em série com a activa. A válvula B somente recebe o ar comprimido através de A, o que equivale a dizer que não possui energia própria. Vamos admitir que a mão esquerda do operador se ocupa do botão A e a mão direita do botão B. Se, por acaso, o operador pretender pôr a máquina em funcionamento, apenas com uma mão, tendo livre a outra, o sinal S (responsável pelo arranque da máquina) nunca será obtido, como facilmente se observa, através do funcionamento do circuito da Fig.1.24. Quando os botões A e B estiverem premidos, significa que o operador utilizou ambas as mãos e assim, teremos o aparecimento do sinal S, que irá fazer avançar a haste do cilindro. Na Fig.1.25 pode observar-se o mesmo circuito constituído por componentes electropneumáticos. Em geral, diz-se que uma função lógica E (and) é uma função em série. Com efeito, é o processo mais económico de construi aquela função, mas nem sempre é possível executá-la em série. Com efeito, depende do funcionamento interno das válvulas e das condições lógicas do circuito. Por exemplo, uma válvula de retorno por ar interno não pode se usada em série, visto que necessita de “alimentação” própria para executar o fecho da válvula, logo que esta deixe de ser actuada. Isto significa que a válvula tem de ser activa e nunca passiva. 15 Fig.1.25 O mesmo circuito pode ser executado por um elemento lógico E (and), conforme representado na Fig.1.26. Esta figura representa o símbolo ISO-CETOP 1219 da válvula E bem como a vista em corte da respectiva válvula. a) b) Fig.1.26 Consideremos agora a função lógica OU (Or). É também bastante usada e a título de exemplo poderemos referir um circuito constituído por ciclo manual ou automático e ainda um circuito de emergência. O elemento lógico OU funciona da seguinte forma: quer o sinal A quer o sinal B passam da entrada para a saída e escapam pela mesma via de chegada. No entanto, este elemento não permite a comunicação entre os orifícios de A e B, pelo que não se deve confundir este componente com uma vulgar ligação “T”. A Fig. 1.27 representa o símbolo ISO-CETOP 1219 da válvula OU bem como a vista em corte da respectiva válvula. a) b) Fig.1.27 Na eventualidade de os dois sinais A e B surgirem em “simultâneo”, a esfera ou disco irá manter-se na última posição (à esquerda ou à direita) e o sinal S irá obter-se sem qualquer dificuldade. A esfera ou disco nunca poderá ocupar a posição central, em funcionamento normal, visto impedir dessa forma a passagem de ar de A ou B para a saída (S). 16 Circuito pneumático (ciclo manual-automático) Considere o circuito representado na Fig.1.28. Conforme se pode verificar, a válvula 5/2 de comando manual, por manípulo (Manual/Automático) permite duas posições estacionárias. O estado correspondente à posição “Manual” vai alimentar os botões “Avanço”, “Recuo”, enquanto que a linha de alimentação dos sensores de fim de curso a0 e a1, está à pressão atmosférica (escape). Logo que o manípulo coloque a válvula na posição “Automático”, passa-se de imediato ao movimento de vaivém automático, visto que a0 e a1 passam a estar alimentados por ar comprimido enquanto que as botoneiras manuais passam a ficar fora de serviço. A Fig.1.29 representa a versão electropneumática do circuito representado na Fig.1.28. Fig.1.28 Fig.1.29 Referências: [1]. José Novais (1991), Método sequencial para automatização electro-pneumática, 2ª edição, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian [2]. José Novais (1995), Ar comprimido industrial, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian [3]. Site do fabricante de automatismos NORGREN MOTION CONTROL, FLUID PNEUMATIC EQUIPMENT, http://www.norgren.com/default.asp [4]. Site do fabricante de automatismos ASCOJOUCOMATIC, Componentes pneumáticos de automatização, http://www.ascojoucomatic.pt/ 17 Esquema de uma instalação de distribuição de ar comprimido a bordo de um navio Fig. Esquema de ar de arranque de uma instalação Diesel. (Fonte: MAN-B&W). 18 Esquema de ar de arranque por ar comprimido a) Válvula de ar de arranque 2) Esquema de funcionamento do circuito de ar de arranque (SULZER, modelo RTA) 19 ANEXO. SIMBOLOGIA DE CIRCUITOS PNEUMÁTICOS (Nota: Simbologia obtida a partir da ref.[4]) 20 21