Solidão na Adolescência: apreciações psicanalíticas
Alceu Roberto Casseb1
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meu braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegre,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
RESUMO
Alceu Roberto Casseb*
Este ensaio procura por em foco os processos de perda que acomete o
adolescente e que, ao gerar estados de solidão interna disparam processos de
transformações indispensáveis para a construção de uma nova ordem das
relações objetais. Trago três fragmentos de trabalho clínico com jovens para
discutir os “estragos” que estes estados de solidão, ou a falta deles podem fazer
para desenvolvimento emocional. No fragmento de um filme procuro destacar a
importância da parceria. Esta é entendida como um criar condições para ser
convidado a vir a fazer parte do mundo interno do jovem visando a intermediação
entre a perda da confiança onipotente nos objetos internos e as demandas
crescentes por novas aquisições.
introdução
Neste ensaio procurarei expor para discussão alguns pontos teórico-clínicos
do atendimento de adolescentes. Tenho observado que com a vivência de
separação o jovem se desorganiza e freqüentemente desenvolve um quadro de
exacerbação das angustias. Com o ego enfraquecido, o adolescente acaba
reproduzindo quase que in natura, a qualidade (parcial) dos objetos que foram
assimilados durante a infância. Procura na oscilação PS↔D subsídios para
atenuar a invasão de seu mundo interno por temores incontroláveis. Passa a
exteriorizar projetivamente esta vivência que me parece relacionada à
configuração dos estados conhecidos como Border line, ou seja, quando se
organizam instituem um conjunto de defesas que posteriormente serão
visualizados como sendo o chamado Transtorno Fronteiriço de Personalidade.
1
*
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Membro Efetivo da Sociedade Brasileiraa de Psicanálise de São Paulo
A perda de estados infantis confortáveis, como exaustivamente descrito na
literatura, traz mudanças significativas para a economia psíquica. Uma importante
aquisição infantil que se vai com a chegada da adolescência está relacionada com
a perda da tranqüilizante sensação de proteção dada pelos idealizados objetos
internos que, gerando estados de solidão ao invés de sentimentos de solidão
influenciam confundindo a percepção da realidade interna. Este dinâmico
conglomerado emocional que surge com a adolescência nem sempre é
organizado pelo ego como sentimento de solidão, pode assumir diversas formas
de expressão como veremos a seguir.
O “Estado de Solidão” dispara testagens empíricas que por identificação
projetiva encontra objetos externos propícios a ações em busca da recuperação
da homeostase psíquica. Essa homeostase é também, e mais facilmente
reconstituída através dos atos impulsionados pela onipotência e sadismo. Estes
são ingredientes explosivos no impacto das novas demandas da realidade, e, vai
instituir um imenso trabalho na re-edificação da função de continência psíquica. O
arcabouço epigenético infantil do adolescente, a pouca experiência com este novo
contexto e a demanda incrivelmente rápida por soluções, catalisa o
desenvolvimento das organizações defensivas que tornam a vida do adolescente
e de seus ‘continentes externos’, muito tumultuada. A impossibilidade de
restituição da mente onipotente é um importante fator para tornar a realidade
interna insuportável, ajuda a induzir o jovem a um ataque ao aparelho de pensar e,
dessa forma inviabiliza o sentir. Sem sentimentos o ‘ser cuidadoso’ com o novo
não se processa, surge uma tendência a displicência como parte do mundo
onipotente. Este desconforto proporcionado pelos estados de solidão intensifica a
relação dinâmica de separação/fusão do adolescente com suas figuras de
identificação.
Na falta de um melhor equipamento, muitas vezes resta ao adolescente
manejar suas angustias através de desordenadas e impulsivas ações que, sem
que o deseje, vem substituir com enorme prejuízo o pensamento. A inadequação
destas ações onipotentes associadas a ‘buracos negros’ nas imagos parentais,
aumentam o desespero (inabilidade para esperar) induzem a atuações violentas, e
aceleram a devastação da percepção da realidade interna. Nesse vai e vem a vida
das relações objetais do adolescente transcorre em picos de crise e ou calmarias,
estas últimas caracterizadas por indiferença emocional. Este estado de solidão
interna induz o adolescente a um trabalho aflitivo com as (pré) concepções acerca
dos pais introjetados que deve gerar resultados na direção da reconstituição de
conforto psíquico. As articulações2 mentais vão buscar, nas fronteiras do ego,
respostas que acomodem o desconforto. Nestas condições a desenvoltura do
superego é fundamental, torna-se indispensável a disponibilização de um
superego realista, útil para a nova demanda que tenha um certo destempero para
desafios e ao mesmo tempo a função moderadora dos impulsos desorganizados
provenientes do id.
2
Como Alvarez (1994) salienta articulação é um termo utilizado por Bion por seu duplo significado: de
liberdade de movimento e de flexibilidade de expressão verbal, portanto, pode agregar a idéia de vínculos
rígidos rodeados de discursos.
2
Uma saída para o desconforto pode ser encontrada no grupo, em estados
de prazer relacionados à acomodação da angustia a partir da diluição do seu
próprio superego no do grupo. As (atu-ais) ações, testagens no mundo real, só
podem buscar os substratos para manejamento da angústia no próprio mundo
interno, levando o jovem a construir um saber desprovido do teste de realidade e,
portanto repleto de elementos alucinados. A aquisição de um ‘conhecimento’
(misknowledge) pouco útil para a nova realidade, mas muito eficaz para a
reconstituição de estados de onipotência pode ocorrer em diversas modalidades
de organização defensiva. Quando sob uma atmosfera psicótica as alucinações
tomam forma espacial, pode-se produzir uma companhia invisível (The Imaginary
Twin Bion 1950) ou se ocorrem, por exemplo, numa atmosfera maníaca, podem se
estabelecer sistemas defensivos voltados para a negação e a indiferença, com
ruptura perceptiva do mundo interno onde a substituição triunfante do objeto se dá
através da ênfase no sucesso e nas aquisições materiais; quando a atmosfera é
histeriforme temos configurações patoplásticas semelhantes às descritas por
Freud no caso Dora (Freud 1905) com sua rica capacidade de teatralização e
enovelamentos de linguagem; agora se a atmosfera é obsessiva agregam-se
ingredientes defensivos para o desenvolvimento de fanatismos e seus correlatos
‘ritus’ com a construção de mitos particulares e da busca por adoção através de
supostos básicos que prescindem de colaboração, portanto negando a ausência
do objeto interno contentor, da mesma maneira que negando a emergência da
renovação das qualidades do bom objeto interno. O adolescente geralmente
transita nestas esferas ‘pano de fundo’ da realidade interna, o adulto border line se
organiza a partir deste contexto, nunca realmente abandonando a necessidade de
atuar, testando os objetos eleitos para as funções substitutivas do continente e
assim resumir a vida a evitar os estados de solidão intensa.
O interjogo entre Projeção e Introjeção na gênese de estados de solidão
Para Klein o inicio da adolescência é um processo que se caracteriza pela
forte separação dos vínculos de amor e de ódio, e, talvez a partir daí induzindo a
noção epistemológica entre certo e errado, bom e ruim, belo e feio, e, verdadeiro e
falso. Neste processo muitos elementos vão tomar de assalto o mundo mental do
jovem. Os valores sociais, religiosos e econômicos, os substratos culturais dos
ancestrais, as diretrizes de educação da família/escola, o pensamento grupal, o
tempo e continência dos pais, etc... Nesta combinação explosiva, o jovem clama
por “Companhia Viva” (Alvarez 1994) proveniente dos objetos internos, ou nos
seus correlatos projetados. Os processos de identificação que facultam introjeção
e projeção vão desesperadamente buscar conforto trazendo uma maior fluência
da oscilação das posições procurando, rudimentarmente constituir alguma função
de rêverie que facilite a assimilação de modelos. Alvarez citando Paula Heimann
enfatiza, a partir da biologia celular, alguns princípios dos processos de introjeção
e projeção:
“A vida é mantida através da incorporação, por parte de um organismo, de
matéria que, ainda que alheia a si é útil, e da descarga da matéria que, ainda que
3
própria, é prejudicial. Incorporação e descarga são os processos mais
fundamentais em qualquer organismo vivo.”
A função incorporadora assim como a aliviadora que são moduladas a partir
da experiência de perda progressiva dos pais infantis (solidão), são os elementos
essenciais das discussões que seguem.
Estados de solidão mediando a aquisição da individualidade
. Para Freud (1923) o complexo de Édipo termina com uma escolha: minha
vida genital ou o amor infantil dos pais, talvez por isso, advém a segunda onda da
sexualidade (Freud 1905). Esta exacerbação parece induzir a confusão entre a
adolescência e a juventude, que são tratados como sinônimos de energia e
disposição exuberante, o que nem sempre é observável.
A experimentação da bissexualidade quer na atividade masturbatória, quer
em experiências ‘homossexuais’ complexas, induzem o adolescente a (re)
conhecer um mundo que é agora renovado pela percepção mais abstrata do
recém chegado equipamento hormonal que não deixa outra alternativa para o
jovenzinho: o mundo o aguarda para ser vivido, modificado e principalmente
usufruído, pois já deve ter sido “conquistado” e basicamente conhecido na infância
mesmo que não tenha desenvolvido um sistema de notação e registro útil ao
crescimento do ego. As novas buscas congregam atitudes empíricas e grupais,
assumem princípios e direcionamentos experimentais que nunca antes se
estabeleceram tem, portanto a marca da cultura e da aflição na tentativa de
domínio por real potência. Mesmo que precariamente a tentativa de digestão da
experiência de perda aflora estados de solidão, estes como corolários da
frustração, vão procurar um destino psíquico.
Adolescer que tem relação com florescer, feder, emergir, desabrochar é ser
desajeitado, é transparecer a ausência de cuidados, é também não ter uma
constante atenção com o refinando trabalho de contenção de cada inapropriado
desejo. O pensamento mágico, herança difícil de ser abandonada da infância, vai
procurando abrir caminho no mundo que se complica, nem tudo pode ser
assimilado, o mundo não é simples por mais que se procure simplificar. O sonhar,
raramente dá conta dos desejos, a experiência sensorial força caminho para as
realizações factuais tornando o processo de aquisição de bagagem pessoal, um
processo turbulento, ruidoso, aflitivo e pouco arquitetável.
Estados de solidão gerando patologia na adolescência
“Tenho um problema com meu filho. O senhor poderia vê-lo? Acontece que
ele não vai a seu consultório de forma alguma. O dr Fulano me deu seu telefone...
tenho uma grande coleção de miniaturas... esse seu colega adora a minha
coleção. O que poderíamos fazer é marcarmos um dia aqui na minha casa para
você vir ver minha coleção. Como meu filho sabe tudo da coleção, eu marcaria um
dia em que ele estivesse aqui e ai o senhor olhando com seu colega os detalhes
das miniaturas, puxaria conversa com meu filho sobre as miniaturas e depois com
jeito o convenceria a ir a seu consultório. Doutor não importa quanto isso pode
4
custar, eu pago qualquer preço para ver ele sair dessa depressão. Seu colega
disse que a depressão dele é muito séria, e que ele não sai disso sozinho”.
Tenho recebido com alguma freqüência este tipo de pedido. São
solicitações aflitivas, compostas por elementos de falsificação da realidade e
partem do principio que os fins justificam os meios.
Wilson é um bom menino, dedicado e atencioso com as coisas do pai.
Temporão, nunca teve alguém muito próximo para brincar. Sua mãe conta que ele
quando pequeno chamava o motorista de pai, e o pai de senhor Fulano. Moram
num condomínio de alto luxo onde tudo parece difícil, a mãe sempre temeu por
assaltos, violência, seqüestros e sempre manteve o garoto por perto. Apesar de
seus quase 16 anos, ele nunca foi a um lugar sozinho. Nunca saiu sozinho com
amigos, nem para as festas nos poucos convites que recebia de colegas de
escola. Quase sempre o motorista estava por perto. Contou-me que não suportava
mais este motorista, e queria substitui-lo, por isso veio me ver, para que eu possa
ajuda-lo a convencer seu pai a trocar de ‘bedel’. Por detrás desta proposta, Wilson
queria espaço, liberdade para testar suas habilidades, para ir em direção ao
mundo, e não suportava mais o assédio controlador do motorista. Chamou-me a
atenção como Wilson poupava seus pais de qualquer solicitação direta. Parecia
realmente convicto que trocar o motorista resolveria sua vida. Dizia que não tem
depressão coisa nenhuma, que ficava sim trancado no quarto o fim de semana
inteiro, por que gosta de seu quarto e por que não há mais nada interessante para
fazer. O pai gasta seu sábado e domingo com seu hobby, e vez ou outra, agora
mais raramente, Wilson se envolvia com as miniaturas do pai.
Wilson anda cabisbaixo, não tem projetos, não formula queixas, (apenas
sobre o motorista), procura dar a entender que é um menino acima de qualquer
suspeita. A mãe não está bem certa, mas disse que encontrou vestígios de
maconha em sua mochila. Quando iniciou uma conversa sobre o assunto com ele
no carro, Wilson abriu a porta e tentou descer mesmo estando o carro em
movimento a 60 km/hora. A mãe ainda assustada com o fato perguntou-me se foi
uma tentativa de suicídio, ou se ele não se dava conta do perigo. Wilson sorria
dizendo que não foi nada não, que não iria descer e disse que ela não deveria se
preocupar com isso. Fizeram um pacto velado, ela não investiga sua vida secreta
e ele não a perturba com seu sadismo. O rapaz parou de estudar um ano antes de
vir me ver. Contou-me que um dia viu na tv que os americanos estão estudando
em casa, que as escolas são muito problemáticas e ele resolveu também se
preparar por conta própria e fazer os exames. Depois de parar descobriu que
apenas o supletivo seria assim, para terminar o ensino fundamental faltavam dois
anos, para fazer o supletivo também, preferiu o supletivo, assim não precisaria ir a
escola e todas “aquelas burocracias”. O pai achou ótima a solução, a mãe sempre
desconfiou que não seria uma boa idéia. Wilson me contou que tem um irmão de
24 anos que mora com eles, esta trabalhando com o pai, a mãe corrige dizendo
que ele só vai lá para receber dinheiro e que passa a semana bebendo em casa
mesmo. A mãe teme que ele venha a ser como o irmão.
Todos os movimentos mentais proporcionados pela realidade
induziam retração e inibição no rapaz. Wilson estava se organizando na lei do
mínimo esforço, do desprezo com a realidade exigente e mutante, e nas respostas
de indiferença a solicitações que emergiam da mãe. O pai se dizia cansado e sem
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forças. O motorista era descrito como uma pessoa muito angustiada com a vida do
menino, um aliado incondicional da mãe, e por isso mesmo único alvo de ataque
edípico do rapaz. A imobilidade na triangulação edipica também se via no
interesse pelo sexo oposto, assim como nos processos de ‘aprendizagem’ sobre o
corpo. Wilson permanecia acordado a noite toda assistindo tv no quarto ao lado do
quarto dos pais, apesar de dispor de tv em seu próprio quarto. Apenas assistia tv
no seu quarto quando os pais viajavam. Wilson estava desesperadamente
procurando sobreviver, conseguia ‘vegetar’ e assim procurava minimizar sua
vivência ligada aos estados de solidão.
Camuflando a solidão ou infantilização
“Não pode... Não, eu já disse que não pode... Mas... Mas o quê? Já disse
que não pode. É perigoso meu filho. Você só vai a algum lugar se eu te levar...
Com toda essa violência o que podemos fazer? É melhor ficar aqui em casa...”.
A violência urbana exacerba aspectos rígidos das qualidades do superego
de muitos educadores. Põe ênfase numa determinada visão de mundo criando
muitas vezes uma perspectiva exagerada sobre a realidade externa que se torna
essencialmente paranóide e destrutiva. O adolescente se organiza neste contexto,
aproveita da conjuntura e evitando a solidão, camufla a inoperância dos objetos
internos mantendo-os infantis, assim como sua busca por novos horizontes.
A mãe de Ricardo, 14 anos, procurou-me para ajudá-la com o filho que
estava cada vez mais isolado. Tentou envolver-me numa trama complexa para
traze-lo até o consultório, pois, tinha certeza que ele não viria. Ricardo, como
sugeri, telefonou-me no dia seguinte e marcamos um encontro. Menino franzinho,
fala mansa meio desajeitada, sua receptividade afetiva indicava uma imensa
solicitação por contato humano, estava fascinado com a possibilidade de falar
sobre seus pensamentos. Conseguimos montar uma linguagem satisfatória desde
o inicio.
Ricardo contava que se sentia apavorado com tudo, não conseguia ir à
padaria na esquina de sua casa. Os amigos que ainda mantinha contato só o
visitavam, não adiantava convidá-lo sua inibição não permitia que ele se
arriscasse a ir a casa deles. Vivia no vídeo game, nos programas de tv e nos
‘assuntos da internet’, esta área parecia secreta e reinvidicava da nossa relação
mais confiança e liberdade para ser explorada. Tinha certeza que seria castigado
se demonstrasse qualquer vida sexual masturbatória3. Desejos confusos o
tomavam de assalto. Não queria ir para a escola nos dias em que tinha que se
expor. Não conseguia ir a festas, pois, temia que seria ridicularizado. Sentia-se
pequeno e incapaz, dessa forma ia organizando sua vida numa combinação de
indiferença e preguiça. Ricardo procurava mostrar-se conformado com a situação
e buscava meios de adaptar-se e não se sentir molestado. Nos primeiros meses
3
Numa versão etimológica medieval masturbação está relacionada a mãos que usurpam e devem ser
cortadas.
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de contato comigo nunca aconteceu uma referência ao pai. Comerciante
inconstante, apaixonado pela filha mais nova, seu pai foi referido como um
estranho. A fratura edípica se evidenciava com a satisfação camuflada que
relatava quando se submetia incondicionalmente aos apelos da mãe, visando sua
posse e controle. Suas ações lembravam a de um bebê que esta sempre sob os
cuidados da mamãe e, apenas se sentindo protegido por ela, ao mesmo tempo em
que entretinha a mãe num estado ambivalente repleto de idealizações e de falta
de reconhecimento da noção de tempo e espaço.
Ricardo passou sutilmente a sinalizar como sentia, sadicamente, que
frustrava as expectativas de seu pai. Dava a entender que se esforçava para ir ao
encontro dessas, mas não conseguia disfarçar seu prazer secreto em vê-lo
impotente frente aos resultados obtidos, conquistando assim a atenção da mãe e
a progressiva indiferença do pai. Via sua mãe queixando-se continuamente do pai.
Ela, no entender do menino, queria viver o amor com seu próprio pai, avô materno
de Ricardo, o menino admirava intensamente esse avô, a ponto de criar muitas
indisposições entre este e seu pai. Um círculo de identificações cruzadas se
formava criando um engodo emocional para o menino. Como ele poderia ser um
homem que se torna social? Como se orgulhar dele mesmo se não há confiança
essencial no objeto masculino? A mãe o apresenta como reprodução parcial de
seu próprio pai, o pai odeia esse sogro e ataca este modelo, acaba delineando um
modelo confuso que vem a ser violentamente recusado pela mãe. As figuras
internas de Ricardo não guardam coerência entre si. Ricardo mergulha
progressivamente num estado de solidão onde predomina a falta de conforto
provocada pela inexistência apreensível de um modelo. Resta em parte uma área
em comum aos dois homens. O pai, o avô e Ricardo são apaixonados pelo
Corinthians. Ser partidário de um mesmo ‘ideal’ é um elo de ligação que poder
trazer alguma coerência das partes pai e avô dentro do menino.
A situação analítica oferece uma perspectiva bastante útil para reconstituir o
aparelho digestivo mental capaz de tornar assimilável algumas frustrações, dentre
estas as relacionadas aos estados de solidão. Num primeiro momento esta
digestão intensifica o sentir-se só, podendo desencadear violentas atuações para
o convencimento do contrário. Posteriormente observa-se uma busca por um
objeto capaz de reparar os sentimentos de pertinência e orgulho que pode induzir
o jovem a ‘lutar’ sem medidas pelo amor do objeto original projetado no analista,
neste delicado momento o desejo essencial é de poder restituir algum conforto
que foi sentido como perdido. A busca por segurança para sentir-se aceito,
“parecido”, afiliado, mescla-se com uma atitude de devoção e submissão tornando
o jovem fragilisado um quase ‘discípulo’, a capacidade para fazer parceria sem
intromissão torna-se imperativa para a sustentação da relação analítica, pois esta
oferece um campo adequado para a reparação dos objetos, e assim para a
retomada do percurso do narcisismo em direção ao “social-ismo” (Bion 1992).
Qualquer adolescente envolvido num vinculo de amor e ódio com seus pais,
vai refutar a intromissão de um analista que despreza as qualidades destes
vínculos. Nesta altura da vida, o adolescente esta intensamente próximo dos
sonhos de criança para vir a transformá-los e suficientemente longe para não viver
incorporados neles. O adolescente vai tendo que se inserir na realidade, e como
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Ricardo, tem que fazer ações públicas (publicações4), tem de sair de seu
individualismo para uma espécie complexa de socialismo, onde sua sociabilização
depende essencialmente da qualidade da assimilação dos primeiros objetos de
amor e ódio, assim como, e essencialmente, da sua habilidade para formar
vínculos de conhecimento útil sobre os elementos coletados de sua própria
observação (método científico). Neste período o ser humano não tem mais como
delegar essas funções para os pais, e tem que encontrar subsídio nele mesmo, o
grupo não tolera o refugio doméstico.
Solidão ou abandono: sentimento de perda da adolescência
Muitas vezes os estados de solidão podem se originar da convicção de que
não há pessoa ou grupo a quem se pertença (Klein 1975), ou seja, que não há
refugio interno disponível. Ferenczi (1912) já destacava que para uma matriz
psíquica ser assimilada dois processos são indispensáveis: (1-) internalização do
objeto pela introjeção de suas representações e, também, (2-) pela atração
amorosa da libido emanada do erotismo proveniente do objeto. Nos sentimentos
de ausência desta “Companhia Viva” uma sucessão emocional de desastres se
processa. A separação é vivida como a confirmação do abandono, e a solidão
como uma sentença a ser cumprida e que não favorece crescimento. Algum
conforto precisa ser encontrado para aplacar a insuportável turbulência interna.
Tentarei ilustrar estes importantes aspectos através da enriquecedora experiência
que tive com Bruna:
Bruna é uma menina que conhece muitos tipos de tratamentos. Passou por
toda sorte de colegas e métodos terapêuticos em diversos paises. Conta que
ninguém conseguiu adequadamente tratar dela, revoltada dizia que uns a
rotulavam como sendo ‘crises de depressão atípica’ outros como patologia ‘border
line’. Em nosso primeiro encontro contou que seu pai se suicidara quando ela
tinha doze anos. Bruna procurava nos convencer que o suicídio de seu pai era
aceitável, tentava fazer acomodações racionais repetindo para si mesma que ele
sendo médico, sabendo ter um câncer avançado ‘optou’ por não sofrer. Mesclava
ausência e falta, enovelando-se num luto complicado tinha uma convicção de não
tê-lo disponível para enfrentar os atritos sado/masoquistas que caracterizava a
relação com sua mãe a qual se refere como sendo extremamente narcísica.
Sentindo-se abandonada, e impossibilitada para digerir sua imensa solidão, Bruna
4
Bion descreveu alguns elementos associados as public-ações. A indução é um conceito teórico que nos
auxilia a compreender nossos impulsos em direção a publicação. A indução deve estar relacionada à
consciência de dados externos da realidade que urgem por se tornarem do domínio comum. A validação então
proveniente da publicação dos dados de realidade externa devem vir a compor o senso comum. Para Bion este
é um dos elementos essenciais do método cientifico (Bion 1992). Procuro agregar nesta noção a
reconfiguração dos elementos das imagos parentais como subsídios para o método observacional, assim como
para a disponibilização dos dados observados e só então sua publicação, que na adolescência tem um caráter
de validação confirmatória do método de observação. A função de publicação no adolescente está, na minha
experiência, associada ao vinculo de amor e ódio para com as imagos parentais que estão sofrendo uma
transformação para vínculos de conhecimento e para tal propósito, o adolescente vasculha as fronteiras destas
imagos assim como as imagos dos próprios pais num movimento aparentemente transgeracional, mas que é
investigação científica (verdadeira) para saber (+K) que “pito toca mamãe e ou papai”, nas suas incursões
narcísicas ou em coito.
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ia progressivamente também abandonando sua capacidade de conter o ódio e de
utilizar o pensamento e então ficava a mercê de suas violentas atuações:
Bruna: “Quero morrer, assim posso encontrá-lo... nada realmente me
interessa, não sou parte de nada, sabe a ‘fulana’ que morreu? Então eu queria
estar no lugar dela...”
Esportes, estudo, grupos de amigos nada é continuo na vida de Bruna, com
um enorme esforço da avó consegue iniciar algo, mas, dificilmente vai além de
algumas semanas. Sua busca por um continente capaz de receber suas projeções
é oceânica e ao mesmo tempo apavorante. Um sem número de namorados foi
testado para reconstituir esta lacuna interna. Os terapeutas entravam no mesmo
rito de substituição. Bruna se entretia em vê-los desesperados sem condições de
ajudá-la, pois não conseguia reparar o objeto perdido. Algumas experiências
homossexuais também se mostraram frustras. As drogas eram um refugio de
conforto e controle sobre a realidade sem palavras. O continente procurado por
Bruna deveria ser suficientemente maleável para suas projeções (alívios), e,
nutridor com novas perspectivas. A mesma avó intuitiva deu-lhe um cãozinho. Um
porto seguro capaz de ancorar sua necessidade por afago e atenção, sempre
disponível para uma manifestação simples de afeto, não há animal mais motivado
para encontrar o dono que um cão. Não é à toa que o cão é conhecido como o
melhor amigo do homem, pois é um animal que quanto mais severamente é
tratado mais se apega ao dono.(Bowlby 1958).
Bruna imediatamente transformou a disponibilidade receptiva do animal no
objeto parcial substitutivo das funções que se sentiu privada com as perdas
internas. O pai que a abandonou por ter se suicidado e a mãe que se casou
meses depois da morte do pai com seu melhor amigo e sócio. A menina deu-se
inteira para o animal. Todo seu mundo depressivo insuportável conheceu uma luz
inexistente, contemplava um oásis (maníaco) após longa jornada no deserto. Logo
Bruna agregou outros dois cães e três gatos. Evidentemente esse sistema não
vingou. Logo Bruna veio a destratar os animais e a utiliza-los para atacar
projetivamente aos pais. A oscilação de atitudes e a vulnerabilidade eram as
características mais marcantes daquela menina. Foi devagar me permitindo fazer
companhia a ela. O respeito era a chave básica, a ousadia o tempero
indispensável, mas o interesse genuíno criava condições para irmos fazendo parte
de seu complicado mundo mental.
A Solidão proporcionada pela revisão da existência de Deus
Quando o jovem pode experimentar os estados de solidão de tal forma que
o estar só organiza seus pensamentos e, portanto dão condição psíquica as
ações, o novo e o emergente deixam de ser assustador e pode ser inserido num
contexto do cotidiano. Esta inserção facilita uma re-visão no seu particular plano
de crenças. Todas as bases do funcionamento egóico, organização particular e
coerente do psiquismo, sofre influência da contextualização induzida pelo temor
ao abandono. O abandono místico, perda da proteção divina também precisa ser
adaptado a esta nova perspectiva de mundo que esta se sofisticando em virtude
dos novos desdobramentos edípicos. A proteção intima que era dada pela crença
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num sistema onipotente rígido vai saindo de cena com a organização
individualizada do ser. Esta associada a realizações modifica o sistema místico de
sustentação dos estados de solidão. Da crença no poder alheio, Deus como
entidade externa, vai surgindo alguma crença no eu mesmo, no ego que não é
self, pois o eu esta especialmente mesclado a elementos de onipotência e de
confiança incipiente. Nesta passagem o novo eu (ego) pode criar um sistema de
leis que propicia a convivência com a angustia mesmo na vigência das sensações
de fracasso derivado dos estados de solidão. Do Deus infalível que pune o
fracasso (ficar só por ser mau) vai surgindo o Deus natureza e suas leis de
punição a partir do exagero (inveja e voracidade). As vertentes educativas que
colocam ênfase nos sentimentos ecológicos se aproveitam dessa virada religiosa.
Um desdobrando dessas construções pode ser visto em alguns adolescentes que
assumem uma quase obcecada necessidade de preservação do ambiente, assim
como uma ingênua formulação de modelos que venham a salvar o mundo. São
construções teóricas formuladas a partir das paixões de alguns professores que as
comunicam de forma parcial e passional, ajudando a reconstituir aspectos das
imagos.
Quando este amálgama encontra um campo propicio para ser utilizado no
vai e vem do conflito religioso, que nada mais é que uma outra forma de testagem
dos objetos internos parciais, o adolescente pode oscilar nas atuações. Uma
forma muito comum de oscilação atuada pode ser vista nos ataques que o
adolescente formula às crenças dos objetos primários, e por prolongamento
projetivo ao estilo, gosto e costume do rival edípico. Nestas condições a perda da
crença na figura edipica confortante agrava os estados de solidão que, quando
acompanhados pela função continente (dos pais, avós, grupo, professores,
treinadores, analistas etc) encaminha esta castração a um polimento do ideal do
ego, auxiliando o jovem a abandonar elementos pré-constituídos do ego ideal.
Solidão e Crescimento Psíquico
Vou utilizar-me de um filme, Finding Forrester (Encontrando Forrester), para
ilustrar um percurso que poderia ser de análise onde o manejamento da solidão na
dupla pai/filho (analista/analisando) promove transformações úteis para a
edificação de um psiquismo em busca da resignificação da vida. O roteiro do filme
foi escrito por Michael Rich, e, foi dirigido por Gus Van Sant.
Jamal é um rapaz negro que vive no Bronx. Como a maioria dos jovens
procura um espaço de existência junto aos amigos. Encontra algum conforto
psíquico no intelecto e nas habilidades com o basquetebol. Viver resume-se à bem
estar e assim Jamal é o habilidoso para os colegas e secretamente um sedento
leitor e potencial escritor. Parece buscar a partir de suas aptidões o amor
reparador dos amigos e da mãe para amortizar a falta do pai. Típico bom garoto
que tenta ser agradável, dedicado e leal o tempo todo, suplica por espaço
psíquico. Carrega um ar depressivo-introspectivo característico dos estados de
luto que oscilam nas posições, não parecendo viver de pequenos méritos
cotidianos que colhe a cada façanha pré-anunciada, nem das costumeiras
atuações coletivas que carreiam uma atmosfera de astúcia e aquisição de poder.
O corpo deve descarregar tudo aquilo que o pensamento não dá conta. Jamal
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conta sem palavras que esta constantemente em presença da ausência do pai.
Procurar saber significa querer desvendar o enigma da esfinge, Jamal teme a
reprovação e a ampliação dos sentimentos de exclusão, sua trajetória ortogada
em direção aos profundos sentimentos de solidão tornam essa obrigatória
passagem pouco sustentável. Um homem desconhecido (William) o observa de
uma janela. Parece um velho excêntrico. Jamal cheira a solidão de William.
Rich arquiteta o encontro de ambos num enredo previsível. Jamal é
desafiado pelo grupo de jovens negros a roubar um objeto do apartamento de
William. O roubo é frustro, mas Jamal deixa sua mochila e dentro dela seus
rascunhos. Estes retornam a Jamal com anotações feitas por William. A solidão de
ambos encontra uma perspectiva de linguagem. Nem o jovem Jamal nem o velho
William podem criar, podem dar vasão a seus anseios por reparação. Não podem
se permitir, a solidão os deixa presos na dimensão do desamparo. Onde se
refugia o ser quando não há inspiração? Para o jovem inexperiente pode existir
outro caminho fora das atuações?
Rich delineia uma resposta interessante para o desenrolar dos processos
psíquicos catalisados pelas experiências de separação, perda e fracasso que
compõem os estados de solidão.
A busca por companhia viva que pode sintonizar-se ao próprio mundo
construindo interesses em comum e edificando um objeto com objetivo
compartilhado assume o centro do drama.
Jamal e William são apaixonados pelas letras, aprenderam a dar conta da
angustia pessoal neste cenário, a enfrentar os desastres não contornáveis da vida.
Precisavam de reciprocidade e respeito mútuos, essência do vinculo de amor.
Refeito a possibilidade substitutiva do objeto original, dada a chance de reparação
da perda pode-se instalar um projeto comum, a luz acende onde apenas existia
penumbra.
O olhar triste do menino-rapaz não vive sem a esperança de fazer par com
alguém que invista em seu projeto, da mesma forma o velho precisa da esperança
de continuidade para fazer par e sair de seu claustro particular. O encontro da
digestão da solidão arquiteta um projeto: existir dentro do outro, vasculhar o
interior do outro para encontrar o intimo das imagos perdidas. O rapaz para poder
ampliar seus horizontes, e o velho para fecundar e perpetuar sua própria
existência que até então não tem sentido.
Após uma discussão com William, Jamal consegue equacionar sua
angústia essencial:
“Minha mãe cansou de esperar que meu pai se livrasse do vicio, foi quando
comecei a escrever...”
Para o pai ídolo, Michael Jordan5, Jamal se dedica o tempo todo, vê a saída
mais acessível. Mas sua habilidade corporal é pequena frente à sua inspiração
essencial proveniente da herança edipica: a respeitabilidade a ser constituída
transcende a espera pelo pai, o menino vai procurar conquistar plenamente a
mãe, até que um novo objeto de amor se oponha à monotonia desta perspectiva.
O pai negativo odiado, opositor de suas habilidades vai tomar forma na
trama a partir das figuras rivais. Parcialmente no colega rico do basquete que
5
Atheta profissional do basquetebol americano.
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disputa o mesmo lugar de destaque, mas, e principalmente o professor frustrado
de literatura. Exemplo vivo de falha superegóica a serviço de submeter às funções
do ego pela inveja e voracidade, torna-se um fator precipitante de atuações pela
indução de ritos de força e poder sobre este objeto odiado.
O pai positivo, por outro lado, vai ao encontro dos interesses auxilia a
pensar promovendo uma melhor visão de suas facetas tanto das expressadas
pelos atritos como aquelas que não tem representações emocionais. No
movimento de povoar a mente esvaziada pela ausência/falta, ressurge um imenso
interesse pela vitalidade do objeto substituto/complementar (Ferenczi 1912). A
função reparadora restaurada permite a aceitação da figura substitutiva sem que
seja necessário descartar a original, apenas e essencialmente cria condições para
a restauração útil da função perdida, e assim pode diminuir as sensações aflitivas
de ausência. A assimilação do ser do pai positivo cria um senso ético, auxilia a
desenvolver funções continentes para o negativo e induz o crescimento pela
esperança de poder digerir os inevitáveis dissabores propostos pela realidade
complexa.
Munido de um senso ético mais apropriado Jamal pode enfrentar seu rival,
pode experimentar outros lugares mais difíceis para dar sustentação na dialética
das diferenças. Acolhido pela parceria do objeto substituto, Jamal consegue
utilizar-se dos resíduos constrangedores da rivalidade com o professor de
literatura para modular suas incursões maníacas e assim aparelhar melhor seu
ego para as relações artificiais.
O embate edípico, no desejo de derrotar o pai (positivo ou negativo), traz
outra perspectiva de mundo interno: pode-se perder tudo, inclusive o objeto de
interesse, é esse medo essencial que promove a maioria das atuações no
adolescente.
Do lado de Laio temos o pai buscando um sentido na paternidade, função
essencial da existência masculina. William deixa sua atitude defensiva e ranzinza
de lado para se permitir reparar seu projeto de vida através do amor e vitalidade
de Jamal. William vai se instalando nas partes frágeis de Jamal e assim recupera
importância e vontade de viver. Ambos tratam de combater a estupidez e
arrogância, atributos sentidos como geradores de desconforto psíquico.
Jamal consegue criar um laboratório empírico para crescer, conhecendo em
si próprio as vicissitudes da arrogância e da estupidez para poder absorvê-las. No
vai e vem do aprendiz de feiticeiro, o escritor passa sua paixão para o recém
adotado filho, criando condições para o desenvolvimento de um superego útil para
as modulações do id com o ego:
William: “Primeiro você escreve com o coração e depois com a cabeça, o
primeiro passo deve ser o de não pensar”.
No outro movimento ligado ao superego restritor, o professor de literatura
combina cuidado com rito sádico, situação muito freqüente na “educação” em
nosso meio.
Professor Crawford: “
Suas notas do teste da outra escola não
acompanham o que você faz aqui”.
A humilhação induz à atuação, o desejo de vencer no adolescente o toma
de assalto e o faz buscar seu objetivo sem medir seqüência ou conseqüência.
William volta a carga:
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William: “Jamal bata nas teclas pelo amor de Deus (com força, marque o
caderno, faça-se presente)... assim você entendeu...” E pela primeira vez sorri,
feliz ao ver-se no filho recém adotado. Jamal refere maior confiança que é
realmente computada com o sucesso dos seus trabalhos literários. A solidão em
ambos encontra um outro caminho, agora podem ter esperança de poder vir a ser
só na busca pelo outro.
Melhor munido do equipamento masculino é que Jamal pode ir em direção
a outra mulher que não a mãe. A sexualidade agora significa cuidado e não
atuação. As falhas psíquicas de William o distanciam de Jamal, William nunca
tratou de mulheres com Jamal. Ate quando insiste:
William: “Mulheres gostam de um presente inesperado num momento
inesperado”.
O menino aprendiz de homem ganha um impulso para se aventurar a se
aproximar do outro objeto feminino que não a mãe. A sexualização de Jamal ajuda
o pai adotivo a reencontrar suas funções reparadoras e assim reconstitui sua
inspiração para escrever. William até então só havia escrito um livro em toda sua
vida, pois, ficou obstruído pela morte do irmão que desencadeou um estado de
solidão fóbico até então insuperável. Nutrido pela relação amorosa William volta a
escrever:
William: “Você sabe qual é o momento absoluto? É quando você termina o
primeiro rascunho (do coração) e ninguém ainda destruiu o que acabou de ser
feito”.
Jamal segue o caminho oferecido por William e se arrisca presenteando a
colega. Feliz, pois conseguiu os efeitos previstos por William confirmando na
realidade testada a parceria, Jamal instituiu com William um sistema alimentar,
estavam costurando a vida de um no outro e tentando montar um bordado que
desse outra significação aos estados de solidão. Os contornos do bordado são
feitos pelo elemento valorativo das imagos de cada um dos solitários, estes só são
realmente úteis quando geram efeitos consistentes na vida, transformações que
geram verdade e esperança. Jamal costura seu mundo sensorial, sua paixão
pelas descobertas e sua carência na relação com William. Prepara uma festa de
aniversário inesquecível para o velho agorafóbico. Leva-o a assistir um jogo,
paixão remanescente dos tempos do irmão vivo. Eles perdem um ao outro na
entrada do estádio e William tem um episodio de agorafobia. Jamal o acolhe.
Recuperado Jamal o leva para dentro do estádio vazio e o homenageia com a
revelação de que tudo aquilo é por razão de seu aniversário. William se emociona
e pela primeira vez demonstra afeto explicito ao menino esforçado. Jamal agora
sabe que também pode alimentar.
William costura-se na relação com Jamal com sua experiência sobre os
dilemas humanos, substratos dos conteúdos de um escritor:
William: ”Você sabe do que as pessoas têm mais medo? Do que não
conhecem...” Parecia falar consigo próprio sobre a agorafobia. Volta a carga:
William: ”Normalmente as pessoas tem medo de serem incapazes de
realizar seus sonhos, mas o medo é maior de realizá-los, elas temem o sucesso
também.”
O epílogo do filme é preparado em direção a uma grande demonstração de
gratidão de William para com Jamal. Jamal esta sofrendo um processo retaliativo
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do professor de literatura, o rapaz descobriu que o mesmo é um desafeto antigo
do William, agora pai e filho têm os ingredientes para vencerem o inimigo comum:
a estupidez e a arrogância projetada nas atitudes invejosas do professor Crawford.
Jamal esta preste a ser expulso da escola, pois, concorreu no concurso de
trabalhos literários com um texto inspirado e contendo o mesmo titulo que
encontrou num outro artigo escrito por William, que sem que o menino soubesse
havia publicado. O professor acusou-o de plagio e de falta de ética. Jamal pediu
ajuda a William que a principio “recusou”. Num estado de pressão e abandono,
como ficam os heróis quando tem que ir ao Hades para só depois conhecerem o
Olimpo, Jamal também mergulha profundamente em sua solidão. William vai a
escola, num ato heróico salvá-lo da retaliação do professor. No momento da
comunicação do vencedor do concurso, William resolve ler um comunicado que
fora escrito por Jamal e que nos auxilia a ilustrar essas idéias sobre perdas, luto,
solidão e parceria:
“Perder a família nos obriga a encontrar a nossa família, nem sempre a
família que é nosso sangue... e acaso tenhamos a sabedoria para abrir nossa
porta para essa nova família, descobriremos que os nossos desejos que outrora
tínhamos para com nosso pai que outrora nos guiou para nosso irmão estão lá
mais uma vez...”
Alguns diretores de cinema desenvolvem uma incrível capacidade de
sintetizar sentimentos e dar corpo visual a eles que me faz pensar que muitas
vezes são excelentes arquitetos da vida onírica. Gus Van Sant conseguiu registrar
a última cena do vislumbrar a vida do pai adotivo, aquela última cena que
permanece no nosso mundo mental como resíduo vivo daquilo que poderia ter
sido perpetuado e nunca realmente foi, ao menos em nossa lembrança. Jamal
despedia-se de William. Feito o concerto dos enganos, resta o olhar, um olhar
fundo no ser que dispensa palavras, encurta o tempo prolongando a lembrança
que se torna infinita. Apenas não o sabem. William sai pedalando sua antiquada
bicicleta pela avenida. Jamal, pelos olhos da câmera, o segue ate onde é possível
ver. A última visão do companheiro. A sensação absoluta de se estar próximo do
eterno vislumbrar dos olhos, não de qualquer olhar, mas daquele olhar. O olhar
que congrega orgulho e paixão. O olhar do ser em companhia, daquilo que se esta
perdendo no medo de ter sido objeto do orgulho.
Referências:
Alvarez, A. Companhia Viva. Artes Médicas Porto Alegre 1994.
Bion, W. Cogitations. Karnac Books. London Mew York, 1992.
Bion, W. The Imaginary Twin (1950) IN: Second Thoughts. Maresfield Library.
London 1987.
Bowlby, J.. The nature of the child’s tie to his mother. Int Jour Psychoan, 39: 350,
1958.
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Drummond de Andrade, Carlos. Corpo: novos poemas. Ed Record, Rio de
Janeiro 1984.
Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol VII
Os três ensaios sobre a teoria da Sexualidade (1905) ed Imago, Rio de Janeiro
1972.
Ibid, vol VII, Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria (1905-B),
Ibid, vol XIX, O Ego e o Id (1923),
Klein, M. O Sentimento de Solidão. Sobre o Sentimento de Solidão Capitulo
quarto. Imago Editores, segunda edição, Rio de Janeiro 1975.
Klein, M e Riviere, J. , Amor, Ódio e Reparação. Relacionamentos na
Adolescência. Imago Editora, ed USP. São Paulo 1975-B.
Alceu Roberto Casseb
Rua: dr Alceu de Campos Rodrigues 229 cj 601
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Tel/fax: 11-3849-5851
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apreciações psicanalíticas RESUMO Alceu Roberto Casseb