Solidão na Adolescência: apreciações psicanalíticas Alceu Roberto Casseb1 Ausência Por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meu braços, Que rio e danço e invento exclamações alegre, Porque a ausência, essa ausência assimilada, Ninguém a rouba mais de mim. Carlos Drummond de Andrade RESUMO Alceu Roberto Casseb* Este ensaio procura por em foco os processos de perda que acomete o adolescente e que, ao gerar estados de solidão interna disparam processos de transformações indispensáveis para a construção de uma nova ordem das relações objetais. Trago três fragmentos de trabalho clínico com jovens para discutir os “estragos” que estes estados de solidão, ou a falta deles podem fazer para desenvolvimento emocional. No fragmento de um filme procuro destacar a importância da parceria. Esta é entendida como um criar condições para ser convidado a vir a fazer parte do mundo interno do jovem visando a intermediação entre a perda da confiança onipotente nos objetos internos e as demandas crescentes por novas aquisições. introdução Neste ensaio procurarei expor para discussão alguns pontos teórico-clínicos do atendimento de adolescentes. Tenho observado que com a vivência de separação o jovem se desorganiza e freqüentemente desenvolve um quadro de exacerbação das angustias. Com o ego enfraquecido, o adolescente acaba reproduzindo quase que in natura, a qualidade (parcial) dos objetos que foram assimilados durante a infância. Procura na oscilação PS↔D subsídios para atenuar a invasão de seu mundo interno por temores incontroláveis. Passa a exteriorizar projetivamente esta vivência que me parece relacionada à configuração dos estados conhecidos como Border line, ou seja, quando se organizam instituem um conjunto de defesas que posteriormente serão visualizados como sendo o chamado Transtorno Fronteiriço de Personalidade. 1 * Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo Membro Efetivo da Sociedade Brasileiraa de Psicanálise de São Paulo A perda de estados infantis confortáveis, como exaustivamente descrito na literatura, traz mudanças significativas para a economia psíquica. Uma importante aquisição infantil que se vai com a chegada da adolescência está relacionada com a perda da tranqüilizante sensação de proteção dada pelos idealizados objetos internos que, gerando estados de solidão ao invés de sentimentos de solidão influenciam confundindo a percepção da realidade interna. Este dinâmico conglomerado emocional que surge com a adolescência nem sempre é organizado pelo ego como sentimento de solidão, pode assumir diversas formas de expressão como veremos a seguir. O “Estado de Solidão” dispara testagens empíricas que por identificação projetiva encontra objetos externos propícios a ações em busca da recuperação da homeostase psíquica. Essa homeostase é também, e mais facilmente reconstituída através dos atos impulsionados pela onipotência e sadismo. Estes são ingredientes explosivos no impacto das novas demandas da realidade, e, vai instituir um imenso trabalho na re-edificação da função de continência psíquica. O arcabouço epigenético infantil do adolescente, a pouca experiência com este novo contexto e a demanda incrivelmente rápida por soluções, catalisa o desenvolvimento das organizações defensivas que tornam a vida do adolescente e de seus ‘continentes externos’, muito tumultuada. A impossibilidade de restituição da mente onipotente é um importante fator para tornar a realidade interna insuportável, ajuda a induzir o jovem a um ataque ao aparelho de pensar e, dessa forma inviabiliza o sentir. Sem sentimentos o ‘ser cuidadoso’ com o novo não se processa, surge uma tendência a displicência como parte do mundo onipotente. Este desconforto proporcionado pelos estados de solidão intensifica a relação dinâmica de separação/fusão do adolescente com suas figuras de identificação. Na falta de um melhor equipamento, muitas vezes resta ao adolescente manejar suas angustias através de desordenadas e impulsivas ações que, sem que o deseje, vem substituir com enorme prejuízo o pensamento. A inadequação destas ações onipotentes associadas a ‘buracos negros’ nas imagos parentais, aumentam o desespero (inabilidade para esperar) induzem a atuações violentas, e aceleram a devastação da percepção da realidade interna. Nesse vai e vem a vida das relações objetais do adolescente transcorre em picos de crise e ou calmarias, estas últimas caracterizadas por indiferença emocional. Este estado de solidão interna induz o adolescente a um trabalho aflitivo com as (pré) concepções acerca dos pais introjetados que deve gerar resultados na direção da reconstituição de conforto psíquico. As articulações2 mentais vão buscar, nas fronteiras do ego, respostas que acomodem o desconforto. Nestas condições a desenvoltura do superego é fundamental, torna-se indispensável a disponibilização de um superego realista, útil para a nova demanda que tenha um certo destempero para desafios e ao mesmo tempo a função moderadora dos impulsos desorganizados provenientes do id. 2 Como Alvarez (1994) salienta articulação é um termo utilizado por Bion por seu duplo significado: de liberdade de movimento e de flexibilidade de expressão verbal, portanto, pode agregar a idéia de vínculos rígidos rodeados de discursos. 2 Uma saída para o desconforto pode ser encontrada no grupo, em estados de prazer relacionados à acomodação da angustia a partir da diluição do seu próprio superego no do grupo. As (atu-ais) ações, testagens no mundo real, só podem buscar os substratos para manejamento da angústia no próprio mundo interno, levando o jovem a construir um saber desprovido do teste de realidade e, portanto repleto de elementos alucinados. A aquisição de um ‘conhecimento’ (misknowledge) pouco útil para a nova realidade, mas muito eficaz para a reconstituição de estados de onipotência pode ocorrer em diversas modalidades de organização defensiva. Quando sob uma atmosfera psicótica as alucinações tomam forma espacial, pode-se produzir uma companhia invisível (The Imaginary Twin Bion 1950) ou se ocorrem, por exemplo, numa atmosfera maníaca, podem se estabelecer sistemas defensivos voltados para a negação e a indiferença, com ruptura perceptiva do mundo interno onde a substituição triunfante do objeto se dá através da ênfase no sucesso e nas aquisições materiais; quando a atmosfera é histeriforme temos configurações patoplásticas semelhantes às descritas por Freud no caso Dora (Freud 1905) com sua rica capacidade de teatralização e enovelamentos de linguagem; agora se a atmosfera é obsessiva agregam-se ingredientes defensivos para o desenvolvimento de fanatismos e seus correlatos ‘ritus’ com a construção de mitos particulares e da busca por adoção através de supostos básicos que prescindem de colaboração, portanto negando a ausência do objeto interno contentor, da mesma maneira que negando a emergência da renovação das qualidades do bom objeto interno. O adolescente geralmente transita nestas esferas ‘pano de fundo’ da realidade interna, o adulto border line se organiza a partir deste contexto, nunca realmente abandonando a necessidade de atuar, testando os objetos eleitos para as funções substitutivas do continente e assim resumir a vida a evitar os estados de solidão intensa. O interjogo entre Projeção e Introjeção na gênese de estados de solidão Para Klein o inicio da adolescência é um processo que se caracteriza pela forte separação dos vínculos de amor e de ódio, e, talvez a partir daí induzindo a noção epistemológica entre certo e errado, bom e ruim, belo e feio, e, verdadeiro e falso. Neste processo muitos elementos vão tomar de assalto o mundo mental do jovem. Os valores sociais, religiosos e econômicos, os substratos culturais dos ancestrais, as diretrizes de educação da família/escola, o pensamento grupal, o tempo e continência dos pais, etc... Nesta combinação explosiva, o jovem clama por “Companhia Viva” (Alvarez 1994) proveniente dos objetos internos, ou nos seus correlatos projetados. Os processos de identificação que facultam introjeção e projeção vão desesperadamente buscar conforto trazendo uma maior fluência da oscilação das posições procurando, rudimentarmente constituir alguma função de rêverie que facilite a assimilação de modelos. Alvarez citando Paula Heimann enfatiza, a partir da biologia celular, alguns princípios dos processos de introjeção e projeção: “A vida é mantida através da incorporação, por parte de um organismo, de matéria que, ainda que alheia a si é útil, e da descarga da matéria que, ainda que 3 própria, é prejudicial. Incorporação e descarga são os processos mais fundamentais em qualquer organismo vivo.” A função incorporadora assim como a aliviadora que são moduladas a partir da experiência de perda progressiva dos pais infantis (solidão), são os elementos essenciais das discussões que seguem. Estados de solidão mediando a aquisição da individualidade . Para Freud (1923) o complexo de Édipo termina com uma escolha: minha vida genital ou o amor infantil dos pais, talvez por isso, advém a segunda onda da sexualidade (Freud 1905). Esta exacerbação parece induzir a confusão entre a adolescência e a juventude, que são tratados como sinônimos de energia e disposição exuberante, o que nem sempre é observável. A experimentação da bissexualidade quer na atividade masturbatória, quer em experiências ‘homossexuais’ complexas, induzem o adolescente a (re) conhecer um mundo que é agora renovado pela percepção mais abstrata do recém chegado equipamento hormonal que não deixa outra alternativa para o jovenzinho: o mundo o aguarda para ser vivido, modificado e principalmente usufruído, pois já deve ter sido “conquistado” e basicamente conhecido na infância mesmo que não tenha desenvolvido um sistema de notação e registro útil ao crescimento do ego. As novas buscas congregam atitudes empíricas e grupais, assumem princípios e direcionamentos experimentais que nunca antes se estabeleceram tem, portanto a marca da cultura e da aflição na tentativa de domínio por real potência. Mesmo que precariamente a tentativa de digestão da experiência de perda aflora estados de solidão, estes como corolários da frustração, vão procurar um destino psíquico. Adolescer que tem relação com florescer, feder, emergir, desabrochar é ser desajeitado, é transparecer a ausência de cuidados, é também não ter uma constante atenção com o refinando trabalho de contenção de cada inapropriado desejo. O pensamento mágico, herança difícil de ser abandonada da infância, vai procurando abrir caminho no mundo que se complica, nem tudo pode ser assimilado, o mundo não é simples por mais que se procure simplificar. O sonhar, raramente dá conta dos desejos, a experiência sensorial força caminho para as realizações factuais tornando o processo de aquisição de bagagem pessoal, um processo turbulento, ruidoso, aflitivo e pouco arquitetável. Estados de solidão gerando patologia na adolescência “Tenho um problema com meu filho. O senhor poderia vê-lo? Acontece que ele não vai a seu consultório de forma alguma. O dr Fulano me deu seu telefone... tenho uma grande coleção de miniaturas... esse seu colega adora a minha coleção. O que poderíamos fazer é marcarmos um dia aqui na minha casa para você vir ver minha coleção. Como meu filho sabe tudo da coleção, eu marcaria um dia em que ele estivesse aqui e ai o senhor olhando com seu colega os detalhes das miniaturas, puxaria conversa com meu filho sobre as miniaturas e depois com jeito o convenceria a ir a seu consultório. Doutor não importa quanto isso pode 4 custar, eu pago qualquer preço para ver ele sair dessa depressão. Seu colega disse que a depressão dele é muito séria, e que ele não sai disso sozinho”. Tenho recebido com alguma freqüência este tipo de pedido. São solicitações aflitivas, compostas por elementos de falsificação da realidade e partem do principio que os fins justificam os meios. Wilson é um bom menino, dedicado e atencioso com as coisas do pai. Temporão, nunca teve alguém muito próximo para brincar. Sua mãe conta que ele quando pequeno chamava o motorista de pai, e o pai de senhor Fulano. Moram num condomínio de alto luxo onde tudo parece difícil, a mãe sempre temeu por assaltos, violência, seqüestros e sempre manteve o garoto por perto. Apesar de seus quase 16 anos, ele nunca foi a um lugar sozinho. Nunca saiu sozinho com amigos, nem para as festas nos poucos convites que recebia de colegas de escola. Quase sempre o motorista estava por perto. Contou-me que não suportava mais este motorista, e queria substitui-lo, por isso veio me ver, para que eu possa ajuda-lo a convencer seu pai a trocar de ‘bedel’. Por detrás desta proposta, Wilson queria espaço, liberdade para testar suas habilidades, para ir em direção ao mundo, e não suportava mais o assédio controlador do motorista. Chamou-me a atenção como Wilson poupava seus pais de qualquer solicitação direta. Parecia realmente convicto que trocar o motorista resolveria sua vida. Dizia que não tem depressão coisa nenhuma, que ficava sim trancado no quarto o fim de semana inteiro, por que gosta de seu quarto e por que não há mais nada interessante para fazer. O pai gasta seu sábado e domingo com seu hobby, e vez ou outra, agora mais raramente, Wilson se envolvia com as miniaturas do pai. Wilson anda cabisbaixo, não tem projetos, não formula queixas, (apenas sobre o motorista), procura dar a entender que é um menino acima de qualquer suspeita. A mãe não está bem certa, mas disse que encontrou vestígios de maconha em sua mochila. Quando iniciou uma conversa sobre o assunto com ele no carro, Wilson abriu a porta e tentou descer mesmo estando o carro em movimento a 60 km/hora. A mãe ainda assustada com o fato perguntou-me se foi uma tentativa de suicídio, ou se ele não se dava conta do perigo. Wilson sorria dizendo que não foi nada não, que não iria descer e disse que ela não deveria se preocupar com isso. Fizeram um pacto velado, ela não investiga sua vida secreta e ele não a perturba com seu sadismo. O rapaz parou de estudar um ano antes de vir me ver. Contou-me que um dia viu na tv que os americanos estão estudando em casa, que as escolas são muito problemáticas e ele resolveu também se preparar por conta própria e fazer os exames. Depois de parar descobriu que apenas o supletivo seria assim, para terminar o ensino fundamental faltavam dois anos, para fazer o supletivo também, preferiu o supletivo, assim não precisaria ir a escola e todas “aquelas burocracias”. O pai achou ótima a solução, a mãe sempre desconfiou que não seria uma boa idéia. Wilson me contou que tem um irmão de 24 anos que mora com eles, esta trabalhando com o pai, a mãe corrige dizendo que ele só vai lá para receber dinheiro e que passa a semana bebendo em casa mesmo. A mãe teme que ele venha a ser como o irmão. Todos os movimentos mentais proporcionados pela realidade induziam retração e inibição no rapaz. Wilson estava se organizando na lei do mínimo esforço, do desprezo com a realidade exigente e mutante, e nas respostas de indiferença a solicitações que emergiam da mãe. O pai se dizia cansado e sem 5 forças. O motorista era descrito como uma pessoa muito angustiada com a vida do menino, um aliado incondicional da mãe, e por isso mesmo único alvo de ataque edípico do rapaz. A imobilidade na triangulação edipica também se via no interesse pelo sexo oposto, assim como nos processos de ‘aprendizagem’ sobre o corpo. Wilson permanecia acordado a noite toda assistindo tv no quarto ao lado do quarto dos pais, apesar de dispor de tv em seu próprio quarto. Apenas assistia tv no seu quarto quando os pais viajavam. Wilson estava desesperadamente procurando sobreviver, conseguia ‘vegetar’ e assim procurava minimizar sua vivência ligada aos estados de solidão. Camuflando a solidão ou infantilização “Não pode... Não, eu já disse que não pode... Mas... Mas o quê? Já disse que não pode. É perigoso meu filho. Você só vai a algum lugar se eu te levar... Com toda essa violência o que podemos fazer? É melhor ficar aqui em casa...”. A violência urbana exacerba aspectos rígidos das qualidades do superego de muitos educadores. Põe ênfase numa determinada visão de mundo criando muitas vezes uma perspectiva exagerada sobre a realidade externa que se torna essencialmente paranóide e destrutiva. O adolescente se organiza neste contexto, aproveita da conjuntura e evitando a solidão, camufla a inoperância dos objetos internos mantendo-os infantis, assim como sua busca por novos horizontes. A mãe de Ricardo, 14 anos, procurou-me para ajudá-la com o filho que estava cada vez mais isolado. Tentou envolver-me numa trama complexa para traze-lo até o consultório, pois, tinha certeza que ele não viria. Ricardo, como sugeri, telefonou-me no dia seguinte e marcamos um encontro. Menino franzinho, fala mansa meio desajeitada, sua receptividade afetiva indicava uma imensa solicitação por contato humano, estava fascinado com a possibilidade de falar sobre seus pensamentos. Conseguimos montar uma linguagem satisfatória desde o inicio. Ricardo contava que se sentia apavorado com tudo, não conseguia ir à padaria na esquina de sua casa. Os amigos que ainda mantinha contato só o visitavam, não adiantava convidá-lo sua inibição não permitia que ele se arriscasse a ir a casa deles. Vivia no vídeo game, nos programas de tv e nos ‘assuntos da internet’, esta área parecia secreta e reinvidicava da nossa relação mais confiança e liberdade para ser explorada. Tinha certeza que seria castigado se demonstrasse qualquer vida sexual masturbatória3. Desejos confusos o tomavam de assalto. Não queria ir para a escola nos dias em que tinha que se expor. Não conseguia ir a festas, pois, temia que seria ridicularizado. Sentia-se pequeno e incapaz, dessa forma ia organizando sua vida numa combinação de indiferença e preguiça. Ricardo procurava mostrar-se conformado com a situação e buscava meios de adaptar-se e não se sentir molestado. Nos primeiros meses 3 Numa versão etimológica medieval masturbação está relacionada a mãos que usurpam e devem ser cortadas. 6 de contato comigo nunca aconteceu uma referência ao pai. Comerciante inconstante, apaixonado pela filha mais nova, seu pai foi referido como um estranho. A fratura edípica se evidenciava com a satisfação camuflada que relatava quando se submetia incondicionalmente aos apelos da mãe, visando sua posse e controle. Suas ações lembravam a de um bebê que esta sempre sob os cuidados da mamãe e, apenas se sentindo protegido por ela, ao mesmo tempo em que entretinha a mãe num estado ambivalente repleto de idealizações e de falta de reconhecimento da noção de tempo e espaço. Ricardo passou sutilmente a sinalizar como sentia, sadicamente, que frustrava as expectativas de seu pai. Dava a entender que se esforçava para ir ao encontro dessas, mas não conseguia disfarçar seu prazer secreto em vê-lo impotente frente aos resultados obtidos, conquistando assim a atenção da mãe e a progressiva indiferença do pai. Via sua mãe queixando-se continuamente do pai. Ela, no entender do menino, queria viver o amor com seu próprio pai, avô materno de Ricardo, o menino admirava intensamente esse avô, a ponto de criar muitas indisposições entre este e seu pai. Um círculo de identificações cruzadas se formava criando um engodo emocional para o menino. Como ele poderia ser um homem que se torna social? Como se orgulhar dele mesmo se não há confiança essencial no objeto masculino? A mãe o apresenta como reprodução parcial de seu próprio pai, o pai odeia esse sogro e ataca este modelo, acaba delineando um modelo confuso que vem a ser violentamente recusado pela mãe. As figuras internas de Ricardo não guardam coerência entre si. Ricardo mergulha progressivamente num estado de solidão onde predomina a falta de conforto provocada pela inexistência apreensível de um modelo. Resta em parte uma área em comum aos dois homens. O pai, o avô e Ricardo são apaixonados pelo Corinthians. Ser partidário de um mesmo ‘ideal’ é um elo de ligação que poder trazer alguma coerência das partes pai e avô dentro do menino. A situação analítica oferece uma perspectiva bastante útil para reconstituir o aparelho digestivo mental capaz de tornar assimilável algumas frustrações, dentre estas as relacionadas aos estados de solidão. Num primeiro momento esta digestão intensifica o sentir-se só, podendo desencadear violentas atuações para o convencimento do contrário. Posteriormente observa-se uma busca por um objeto capaz de reparar os sentimentos de pertinência e orgulho que pode induzir o jovem a ‘lutar’ sem medidas pelo amor do objeto original projetado no analista, neste delicado momento o desejo essencial é de poder restituir algum conforto que foi sentido como perdido. A busca por segurança para sentir-se aceito, “parecido”, afiliado, mescla-se com uma atitude de devoção e submissão tornando o jovem fragilisado um quase ‘discípulo’, a capacidade para fazer parceria sem intromissão torna-se imperativa para a sustentação da relação analítica, pois esta oferece um campo adequado para a reparação dos objetos, e assim para a retomada do percurso do narcisismo em direção ao “social-ismo” (Bion 1992). Qualquer adolescente envolvido num vinculo de amor e ódio com seus pais, vai refutar a intromissão de um analista que despreza as qualidades destes vínculos. Nesta altura da vida, o adolescente esta intensamente próximo dos sonhos de criança para vir a transformá-los e suficientemente longe para não viver incorporados neles. O adolescente vai tendo que se inserir na realidade, e como 7 Ricardo, tem que fazer ações públicas (publicações4), tem de sair de seu individualismo para uma espécie complexa de socialismo, onde sua sociabilização depende essencialmente da qualidade da assimilação dos primeiros objetos de amor e ódio, assim como, e essencialmente, da sua habilidade para formar vínculos de conhecimento útil sobre os elementos coletados de sua própria observação (método científico). Neste período o ser humano não tem mais como delegar essas funções para os pais, e tem que encontrar subsídio nele mesmo, o grupo não tolera o refugio doméstico. Solidão ou abandono: sentimento de perda da adolescência Muitas vezes os estados de solidão podem se originar da convicção de que não há pessoa ou grupo a quem se pertença (Klein 1975), ou seja, que não há refugio interno disponível. Ferenczi (1912) já destacava que para uma matriz psíquica ser assimilada dois processos são indispensáveis: (1-) internalização do objeto pela introjeção de suas representações e, também, (2-) pela atração amorosa da libido emanada do erotismo proveniente do objeto. Nos sentimentos de ausência desta “Companhia Viva” uma sucessão emocional de desastres se processa. A separação é vivida como a confirmação do abandono, e a solidão como uma sentença a ser cumprida e que não favorece crescimento. Algum conforto precisa ser encontrado para aplacar a insuportável turbulência interna. Tentarei ilustrar estes importantes aspectos através da enriquecedora experiência que tive com Bruna: Bruna é uma menina que conhece muitos tipos de tratamentos. Passou por toda sorte de colegas e métodos terapêuticos em diversos paises. Conta que ninguém conseguiu adequadamente tratar dela, revoltada dizia que uns a rotulavam como sendo ‘crises de depressão atípica’ outros como patologia ‘border line’. Em nosso primeiro encontro contou que seu pai se suicidara quando ela tinha doze anos. Bruna procurava nos convencer que o suicídio de seu pai era aceitável, tentava fazer acomodações racionais repetindo para si mesma que ele sendo médico, sabendo ter um câncer avançado ‘optou’ por não sofrer. Mesclava ausência e falta, enovelando-se num luto complicado tinha uma convicção de não tê-lo disponível para enfrentar os atritos sado/masoquistas que caracterizava a relação com sua mãe a qual se refere como sendo extremamente narcísica. Sentindo-se abandonada, e impossibilitada para digerir sua imensa solidão, Bruna 4 Bion descreveu alguns elementos associados as public-ações. A indução é um conceito teórico que nos auxilia a compreender nossos impulsos em direção a publicação. A indução deve estar relacionada à consciência de dados externos da realidade que urgem por se tornarem do domínio comum. A validação então proveniente da publicação dos dados de realidade externa devem vir a compor o senso comum. Para Bion este é um dos elementos essenciais do método cientifico (Bion 1992). Procuro agregar nesta noção a reconfiguração dos elementos das imagos parentais como subsídios para o método observacional, assim como para a disponibilização dos dados observados e só então sua publicação, que na adolescência tem um caráter de validação confirmatória do método de observação. A função de publicação no adolescente está, na minha experiência, associada ao vinculo de amor e ódio para com as imagos parentais que estão sofrendo uma transformação para vínculos de conhecimento e para tal propósito, o adolescente vasculha as fronteiras destas imagos assim como as imagos dos próprios pais num movimento aparentemente transgeracional, mas que é investigação científica (verdadeira) para saber (+K) que “pito toca mamãe e ou papai”, nas suas incursões narcísicas ou em coito. 8 ia progressivamente também abandonando sua capacidade de conter o ódio e de utilizar o pensamento e então ficava a mercê de suas violentas atuações: Bruna: “Quero morrer, assim posso encontrá-lo... nada realmente me interessa, não sou parte de nada, sabe a ‘fulana’ que morreu? Então eu queria estar no lugar dela...” Esportes, estudo, grupos de amigos nada é continuo na vida de Bruna, com um enorme esforço da avó consegue iniciar algo, mas, dificilmente vai além de algumas semanas. Sua busca por um continente capaz de receber suas projeções é oceânica e ao mesmo tempo apavorante. Um sem número de namorados foi testado para reconstituir esta lacuna interna. Os terapeutas entravam no mesmo rito de substituição. Bruna se entretia em vê-los desesperados sem condições de ajudá-la, pois não conseguia reparar o objeto perdido. Algumas experiências homossexuais também se mostraram frustras. As drogas eram um refugio de conforto e controle sobre a realidade sem palavras. O continente procurado por Bruna deveria ser suficientemente maleável para suas projeções (alívios), e, nutridor com novas perspectivas. A mesma avó intuitiva deu-lhe um cãozinho. Um porto seguro capaz de ancorar sua necessidade por afago e atenção, sempre disponível para uma manifestação simples de afeto, não há animal mais motivado para encontrar o dono que um cão. Não é à toa que o cão é conhecido como o melhor amigo do homem, pois é um animal que quanto mais severamente é tratado mais se apega ao dono.(Bowlby 1958). Bruna imediatamente transformou a disponibilidade receptiva do animal no objeto parcial substitutivo das funções que se sentiu privada com as perdas internas. O pai que a abandonou por ter se suicidado e a mãe que se casou meses depois da morte do pai com seu melhor amigo e sócio. A menina deu-se inteira para o animal. Todo seu mundo depressivo insuportável conheceu uma luz inexistente, contemplava um oásis (maníaco) após longa jornada no deserto. Logo Bruna agregou outros dois cães e três gatos. Evidentemente esse sistema não vingou. Logo Bruna veio a destratar os animais e a utiliza-los para atacar projetivamente aos pais. A oscilação de atitudes e a vulnerabilidade eram as características mais marcantes daquela menina. Foi devagar me permitindo fazer companhia a ela. O respeito era a chave básica, a ousadia o tempero indispensável, mas o interesse genuíno criava condições para irmos fazendo parte de seu complicado mundo mental. A Solidão proporcionada pela revisão da existência de Deus Quando o jovem pode experimentar os estados de solidão de tal forma que o estar só organiza seus pensamentos e, portanto dão condição psíquica as ações, o novo e o emergente deixam de ser assustador e pode ser inserido num contexto do cotidiano. Esta inserção facilita uma re-visão no seu particular plano de crenças. Todas as bases do funcionamento egóico, organização particular e coerente do psiquismo, sofre influência da contextualização induzida pelo temor ao abandono. O abandono místico, perda da proteção divina também precisa ser adaptado a esta nova perspectiva de mundo que esta se sofisticando em virtude dos novos desdobramentos edípicos. A proteção intima que era dada pela crença 9 num sistema onipotente rígido vai saindo de cena com a organização individualizada do ser. Esta associada a realizações modifica o sistema místico de sustentação dos estados de solidão. Da crença no poder alheio, Deus como entidade externa, vai surgindo alguma crença no eu mesmo, no ego que não é self, pois o eu esta especialmente mesclado a elementos de onipotência e de confiança incipiente. Nesta passagem o novo eu (ego) pode criar um sistema de leis que propicia a convivência com a angustia mesmo na vigência das sensações de fracasso derivado dos estados de solidão. Do Deus infalível que pune o fracasso (ficar só por ser mau) vai surgindo o Deus natureza e suas leis de punição a partir do exagero (inveja e voracidade). As vertentes educativas que colocam ênfase nos sentimentos ecológicos se aproveitam dessa virada religiosa. Um desdobrando dessas construções pode ser visto em alguns adolescentes que assumem uma quase obcecada necessidade de preservação do ambiente, assim como uma ingênua formulação de modelos que venham a salvar o mundo. São construções teóricas formuladas a partir das paixões de alguns professores que as comunicam de forma parcial e passional, ajudando a reconstituir aspectos das imagos. Quando este amálgama encontra um campo propicio para ser utilizado no vai e vem do conflito religioso, que nada mais é que uma outra forma de testagem dos objetos internos parciais, o adolescente pode oscilar nas atuações. Uma forma muito comum de oscilação atuada pode ser vista nos ataques que o adolescente formula às crenças dos objetos primários, e por prolongamento projetivo ao estilo, gosto e costume do rival edípico. Nestas condições a perda da crença na figura edipica confortante agrava os estados de solidão que, quando acompanhados pela função continente (dos pais, avós, grupo, professores, treinadores, analistas etc) encaminha esta castração a um polimento do ideal do ego, auxiliando o jovem a abandonar elementos pré-constituídos do ego ideal. Solidão e Crescimento Psíquico Vou utilizar-me de um filme, Finding Forrester (Encontrando Forrester), para ilustrar um percurso que poderia ser de análise onde o manejamento da solidão na dupla pai/filho (analista/analisando) promove transformações úteis para a edificação de um psiquismo em busca da resignificação da vida. O roteiro do filme foi escrito por Michael Rich, e, foi dirigido por Gus Van Sant. Jamal é um rapaz negro que vive no Bronx. Como a maioria dos jovens procura um espaço de existência junto aos amigos. Encontra algum conforto psíquico no intelecto e nas habilidades com o basquetebol. Viver resume-se à bem estar e assim Jamal é o habilidoso para os colegas e secretamente um sedento leitor e potencial escritor. Parece buscar a partir de suas aptidões o amor reparador dos amigos e da mãe para amortizar a falta do pai. Típico bom garoto que tenta ser agradável, dedicado e leal o tempo todo, suplica por espaço psíquico. Carrega um ar depressivo-introspectivo característico dos estados de luto que oscilam nas posições, não parecendo viver de pequenos méritos cotidianos que colhe a cada façanha pré-anunciada, nem das costumeiras atuações coletivas que carreiam uma atmosfera de astúcia e aquisição de poder. O corpo deve descarregar tudo aquilo que o pensamento não dá conta. Jamal 10 conta sem palavras que esta constantemente em presença da ausência do pai. Procurar saber significa querer desvendar o enigma da esfinge, Jamal teme a reprovação e a ampliação dos sentimentos de exclusão, sua trajetória ortogada em direção aos profundos sentimentos de solidão tornam essa obrigatória passagem pouco sustentável. Um homem desconhecido (William) o observa de uma janela. Parece um velho excêntrico. Jamal cheira a solidão de William. Rich arquiteta o encontro de ambos num enredo previsível. Jamal é desafiado pelo grupo de jovens negros a roubar um objeto do apartamento de William. O roubo é frustro, mas Jamal deixa sua mochila e dentro dela seus rascunhos. Estes retornam a Jamal com anotações feitas por William. A solidão de ambos encontra uma perspectiva de linguagem. Nem o jovem Jamal nem o velho William podem criar, podem dar vasão a seus anseios por reparação. Não podem se permitir, a solidão os deixa presos na dimensão do desamparo. Onde se refugia o ser quando não há inspiração? Para o jovem inexperiente pode existir outro caminho fora das atuações? Rich delineia uma resposta interessante para o desenrolar dos processos psíquicos catalisados pelas experiências de separação, perda e fracasso que compõem os estados de solidão. A busca por companhia viva que pode sintonizar-se ao próprio mundo construindo interesses em comum e edificando um objeto com objetivo compartilhado assume o centro do drama. Jamal e William são apaixonados pelas letras, aprenderam a dar conta da angustia pessoal neste cenário, a enfrentar os desastres não contornáveis da vida. Precisavam de reciprocidade e respeito mútuos, essência do vinculo de amor. Refeito a possibilidade substitutiva do objeto original, dada a chance de reparação da perda pode-se instalar um projeto comum, a luz acende onde apenas existia penumbra. O olhar triste do menino-rapaz não vive sem a esperança de fazer par com alguém que invista em seu projeto, da mesma forma o velho precisa da esperança de continuidade para fazer par e sair de seu claustro particular. O encontro da digestão da solidão arquiteta um projeto: existir dentro do outro, vasculhar o interior do outro para encontrar o intimo das imagos perdidas. O rapaz para poder ampliar seus horizontes, e o velho para fecundar e perpetuar sua própria existência que até então não tem sentido. Após uma discussão com William, Jamal consegue equacionar sua angústia essencial: “Minha mãe cansou de esperar que meu pai se livrasse do vicio, foi quando comecei a escrever...” Para o pai ídolo, Michael Jordan5, Jamal se dedica o tempo todo, vê a saída mais acessível. Mas sua habilidade corporal é pequena frente à sua inspiração essencial proveniente da herança edipica: a respeitabilidade a ser constituída transcende a espera pelo pai, o menino vai procurar conquistar plenamente a mãe, até que um novo objeto de amor se oponha à monotonia desta perspectiva. O pai negativo odiado, opositor de suas habilidades vai tomar forma na trama a partir das figuras rivais. Parcialmente no colega rico do basquete que 5 Atheta profissional do basquetebol americano. 11 disputa o mesmo lugar de destaque, mas, e principalmente o professor frustrado de literatura. Exemplo vivo de falha superegóica a serviço de submeter às funções do ego pela inveja e voracidade, torna-se um fator precipitante de atuações pela indução de ritos de força e poder sobre este objeto odiado. O pai positivo, por outro lado, vai ao encontro dos interesses auxilia a pensar promovendo uma melhor visão de suas facetas tanto das expressadas pelos atritos como aquelas que não tem representações emocionais. No movimento de povoar a mente esvaziada pela ausência/falta, ressurge um imenso interesse pela vitalidade do objeto substituto/complementar (Ferenczi 1912). A função reparadora restaurada permite a aceitação da figura substitutiva sem que seja necessário descartar a original, apenas e essencialmente cria condições para a restauração útil da função perdida, e assim pode diminuir as sensações aflitivas de ausência. A assimilação do ser do pai positivo cria um senso ético, auxilia a desenvolver funções continentes para o negativo e induz o crescimento pela esperança de poder digerir os inevitáveis dissabores propostos pela realidade complexa. Munido de um senso ético mais apropriado Jamal pode enfrentar seu rival, pode experimentar outros lugares mais difíceis para dar sustentação na dialética das diferenças. Acolhido pela parceria do objeto substituto, Jamal consegue utilizar-se dos resíduos constrangedores da rivalidade com o professor de literatura para modular suas incursões maníacas e assim aparelhar melhor seu ego para as relações artificiais. O embate edípico, no desejo de derrotar o pai (positivo ou negativo), traz outra perspectiva de mundo interno: pode-se perder tudo, inclusive o objeto de interesse, é esse medo essencial que promove a maioria das atuações no adolescente. Do lado de Laio temos o pai buscando um sentido na paternidade, função essencial da existência masculina. William deixa sua atitude defensiva e ranzinza de lado para se permitir reparar seu projeto de vida através do amor e vitalidade de Jamal. William vai se instalando nas partes frágeis de Jamal e assim recupera importância e vontade de viver. Ambos tratam de combater a estupidez e arrogância, atributos sentidos como geradores de desconforto psíquico. Jamal consegue criar um laboratório empírico para crescer, conhecendo em si próprio as vicissitudes da arrogância e da estupidez para poder absorvê-las. No vai e vem do aprendiz de feiticeiro, o escritor passa sua paixão para o recém adotado filho, criando condições para o desenvolvimento de um superego útil para as modulações do id com o ego: William: “Primeiro você escreve com o coração e depois com a cabeça, o primeiro passo deve ser o de não pensar”. No outro movimento ligado ao superego restritor, o professor de literatura combina cuidado com rito sádico, situação muito freqüente na “educação” em nosso meio. Professor Crawford: “ Suas notas do teste da outra escola não acompanham o que você faz aqui”. A humilhação induz à atuação, o desejo de vencer no adolescente o toma de assalto e o faz buscar seu objetivo sem medir seqüência ou conseqüência. William volta a carga: 12 William: “Jamal bata nas teclas pelo amor de Deus (com força, marque o caderno, faça-se presente)... assim você entendeu...” E pela primeira vez sorri, feliz ao ver-se no filho recém adotado. Jamal refere maior confiança que é realmente computada com o sucesso dos seus trabalhos literários. A solidão em ambos encontra um outro caminho, agora podem ter esperança de poder vir a ser só na busca pelo outro. Melhor munido do equipamento masculino é que Jamal pode ir em direção a outra mulher que não a mãe. A sexualidade agora significa cuidado e não atuação. As falhas psíquicas de William o distanciam de Jamal, William nunca tratou de mulheres com Jamal. Ate quando insiste: William: “Mulheres gostam de um presente inesperado num momento inesperado”. O menino aprendiz de homem ganha um impulso para se aventurar a se aproximar do outro objeto feminino que não a mãe. A sexualização de Jamal ajuda o pai adotivo a reencontrar suas funções reparadoras e assim reconstitui sua inspiração para escrever. William até então só havia escrito um livro em toda sua vida, pois, ficou obstruído pela morte do irmão que desencadeou um estado de solidão fóbico até então insuperável. Nutrido pela relação amorosa William volta a escrever: William: “Você sabe qual é o momento absoluto? É quando você termina o primeiro rascunho (do coração) e ninguém ainda destruiu o que acabou de ser feito”. Jamal segue o caminho oferecido por William e se arrisca presenteando a colega. Feliz, pois conseguiu os efeitos previstos por William confirmando na realidade testada a parceria, Jamal instituiu com William um sistema alimentar, estavam costurando a vida de um no outro e tentando montar um bordado que desse outra significação aos estados de solidão. Os contornos do bordado são feitos pelo elemento valorativo das imagos de cada um dos solitários, estes só são realmente úteis quando geram efeitos consistentes na vida, transformações que geram verdade e esperança. Jamal costura seu mundo sensorial, sua paixão pelas descobertas e sua carência na relação com William. Prepara uma festa de aniversário inesquecível para o velho agorafóbico. Leva-o a assistir um jogo, paixão remanescente dos tempos do irmão vivo. Eles perdem um ao outro na entrada do estádio e William tem um episodio de agorafobia. Jamal o acolhe. Recuperado Jamal o leva para dentro do estádio vazio e o homenageia com a revelação de que tudo aquilo é por razão de seu aniversário. William se emociona e pela primeira vez demonstra afeto explicito ao menino esforçado. Jamal agora sabe que também pode alimentar. William costura-se na relação com Jamal com sua experiência sobre os dilemas humanos, substratos dos conteúdos de um escritor: William: ”Você sabe do que as pessoas têm mais medo? Do que não conhecem...” Parecia falar consigo próprio sobre a agorafobia. Volta a carga: William: ”Normalmente as pessoas tem medo de serem incapazes de realizar seus sonhos, mas o medo é maior de realizá-los, elas temem o sucesso também.” O epílogo do filme é preparado em direção a uma grande demonstração de gratidão de William para com Jamal. Jamal esta sofrendo um processo retaliativo 13 do professor de literatura, o rapaz descobriu que o mesmo é um desafeto antigo do William, agora pai e filho têm os ingredientes para vencerem o inimigo comum: a estupidez e a arrogância projetada nas atitudes invejosas do professor Crawford. Jamal esta preste a ser expulso da escola, pois, concorreu no concurso de trabalhos literários com um texto inspirado e contendo o mesmo titulo que encontrou num outro artigo escrito por William, que sem que o menino soubesse havia publicado. O professor acusou-o de plagio e de falta de ética. Jamal pediu ajuda a William que a principio “recusou”. Num estado de pressão e abandono, como ficam os heróis quando tem que ir ao Hades para só depois conhecerem o Olimpo, Jamal também mergulha profundamente em sua solidão. William vai a escola, num ato heróico salvá-lo da retaliação do professor. No momento da comunicação do vencedor do concurso, William resolve ler um comunicado que fora escrito por Jamal e que nos auxilia a ilustrar essas idéias sobre perdas, luto, solidão e parceria: “Perder a família nos obriga a encontrar a nossa família, nem sempre a família que é nosso sangue... e acaso tenhamos a sabedoria para abrir nossa porta para essa nova família, descobriremos que os nossos desejos que outrora tínhamos para com nosso pai que outrora nos guiou para nosso irmão estão lá mais uma vez...” Alguns diretores de cinema desenvolvem uma incrível capacidade de sintetizar sentimentos e dar corpo visual a eles que me faz pensar que muitas vezes são excelentes arquitetos da vida onírica. Gus Van Sant conseguiu registrar a última cena do vislumbrar a vida do pai adotivo, aquela última cena que permanece no nosso mundo mental como resíduo vivo daquilo que poderia ter sido perpetuado e nunca realmente foi, ao menos em nossa lembrança. Jamal despedia-se de William. Feito o concerto dos enganos, resta o olhar, um olhar fundo no ser que dispensa palavras, encurta o tempo prolongando a lembrança que se torna infinita. Apenas não o sabem. William sai pedalando sua antiquada bicicleta pela avenida. Jamal, pelos olhos da câmera, o segue ate onde é possível ver. A última visão do companheiro. A sensação absoluta de se estar próximo do eterno vislumbrar dos olhos, não de qualquer olhar, mas daquele olhar. O olhar que congrega orgulho e paixão. O olhar do ser em companhia, daquilo que se esta perdendo no medo de ter sido objeto do orgulho. Referências: Alvarez, A. Companhia Viva. Artes Médicas Porto Alegre 1994. Bion, W. Cogitations. Karnac Books. London Mew York, 1992. Bion, W. The Imaginary Twin (1950) IN: Second Thoughts. Maresfield Library. London 1987. Bowlby, J.. The nature of the child’s tie to his mother. Int Jour Psychoan, 39: 350, 1958. 14 Drummond de Andrade, Carlos. Corpo: novos poemas. Ed Record, Rio de Janeiro 1984. Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol VII Os três ensaios sobre a teoria da Sexualidade (1905) ed Imago, Rio de Janeiro 1972. Ibid, vol VII, Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria (1905-B), Ibid, vol XIX, O Ego e o Id (1923), Klein, M. O Sentimento de Solidão. Sobre o Sentimento de Solidão Capitulo quarto. Imago Editores, segunda edição, Rio de Janeiro 1975. Klein, M e Riviere, J. , Amor, Ódio e Reparação. Relacionamentos na Adolescência. Imago Editora, ed USP. São Paulo 1975-B. Alceu Roberto Casseb Rua: dr Alceu de Campos Rodrigues 229 cj 601 Vila Nova Conceição - São Paulo SP 04544-000 Tel/fax: 11-3849-5851 15