AQUI TAMBÉM TEM ROCK: O CENÁRIO ROQUEIRO EM FEIRA DE
SANTANA (1995 – 2005)
Patrícia Matos de Almeida
Universidade Estadual de Feira de Santana
[email protected]
1. O cenário cultural na Bahia contemporânea
A constituição da chamada cultura baiana contemporânea, no Estado da Bahia, tem
sido estabelecida, principalmente, a partir dos moldes daquilo que foi vivenciado na sua
capital, Salvador, a partir da década de 1980. Esse período foi marcado por um maior
desenvolvimento e estruturação do carnaval soteropolitano que acabou por gerar toda uma
lógica de mercado de bens de serviços simbólicos que influenciaram naquilo que foi
sinalizado pela mídia de massa, nas últimas décadas, como cultura baiana.
Os anos que antecedem esta década foram caracterizados por um certo esvaziamento
de artistas baianos em sua terra de origem, já que a indústria musical ainda era pautada,
principalmente, no eixo Rio de janeiro e São Paulo (DE OLIVEIRA, 2002). Tal eixo atraiu os
artistas baianos, que só passaram a enxergar perspectiva de crescimento e desenvolvimento a
partir do momento em que a axé music e o carnaval começaram a despontar como um
mercado de grande retorno financeiro.
Dessa forma, quando se pensa a cultura baiana contemporânea, é preciso entender
como se constituiu uma indústria musical extremamente empreendedora em torno da axé
music e do carnaval a partir da década de 1980. O carnaval, segundo De Oliveira (2002), foi o
eixo dinâmico de toda uma estrutura de “mercado de bens e serviços simbólico-culturais
constituído por uma complexa e extensa rede de criadores e produtores” (DE OLIVEIRA,
2002, p. 281) que se fortaleceu, cada vez mais e principalmente, a partir da presença do
empresariado que viam nos trios elétricos, por exemplo, uma oportunidade de propagar a sua
marca.
Revelando-se um excelente veículo de propaganda e, portanto, alvo
privilegiado de patrocínios, o trio elétrico também abre espaço para os
1
primeiros contornos empresariais do Carnaval, incorporando uma lógica
comercial que a partir de então não mais se descolaria da festa baiana. (DE
OLIVEIRA, 2002, p. 283).
Assim, como destaca De Oliveira (2002), toda a estruturação dessa indústria, que
abarcava um complexo mercado, foi muito atrativa para diversos segmentos da sociedade
baiana, justamente, por envolver uma rica lógica que se mostrava como grande possibilidade
de ganhos. Este mercado foi sedutor para os artistas locais que viam, agora, um meio de não
mais precisarem se deslocar de seu Estado para viver de sua arte; foi atrativo para o turismo,
que também viu um caminho de se fortalecer dentro dessa rede, principalmente, por entender
que a festa ocorre em um período, o veraneio, que é sedutor por si só para uma cidade com
praia, como é Salvador e que, portanto, associar a vinda do turista para a cidade por conta da
festa, despontava, também, atraí-lo para uma hospedagem mais longa em que o verão pudesse
ser melhor aproveitado. Assim, as oportunidades de lucratividades se mostravam muito claras
e atraiam, especialmente, os setores ligados ao turismo. De Oliveira (2002) reforça a reflexão:
Em quatro séculos e meio de vida muitas foram as tramas tecidas por sua
história e sua cultura, muitos foram os jeitos de corpo que pode
experimentar. Na sua tessitura contemporânea, no entanto, um aspecto salta
à vista: a existência de um mercado de bens e serviços simbólicos
alimentado por articulações que, ancoradas na rica experiência simbólica
dos seus habitantes, particularmente do seu segmento populacional
negromestiço, entre si estabelecem a cultura espetacularizada da festa, a
indústria fonográfica, a economia do lazer e do turismo e mais um conjunto
variado de atividades lúdico-econômicas. (DE OLIVEIRA, 2002, pp. 13–14).
Para impulsionar toda esta rede de mercado cultural na Bahia, que teve o turismo
como um grande interessado, foi necessário estimular um mercado publicitário que tinha a
mídia de massa como uma grande ferramenta de divulgação desta complexa indústria. Dessa
forma, não há como falar do sua eclosão, pautada no axé music e no carnaval, sem
compreender o papel dos veículos midiáticos nesta constituição.
Rubim (2000), em seu artigo “Comunicação, mídia e cultura na Bahia
contemporânea”, mostra como houve, com o que ele chama de “popização” da música baiana,
um aumento no número de rádios em Salvador até a década de 1990. Isso demonstra que, com
uma maior popularização de bens de consumo associados a esta indústria cultural e musical,
existiu um aquecimento no que diz respeito ao próprio crescimento de uma mídia local que foi
2
estimulada a explorar um mercado que se mostrava promissor na época. Assim, o crescimento
de meios de comunicação local que exploraram o axé music como a música baiana da época,
acabou por propiciar uma maior divulgação deste gênero musical em uma escala crescente
aonde relações de identidade foram construídas ou, muitas vezes, forjadas.
Rubim (2000) identifica como movimento todo o cenário que envolve cultura,
mercado e indústria mostrando, em seu texto, como toda esta movimentação esteve
comprometida a difundir, além da indústria em si, uma identidade que despontava Salvador
como uma cidade extremamente movimentada e frenética em contraponto à uma Bahia
vagarosa, como era associada a cultura baiana até então. Ao se referir sobre as mudanças
ocorridas no comportamento da mídia baiana com relação aos novos fluxos culturais, o autor
coloca:
Mas não se trata só de vender produtos específicos, com certa cor
diferencial, como a chamada “música baiana”. O movimento parece ser
mais amplo. Trata-se de consolidar e difundir uma nova identidade da
Bahia: em lugar da antiga “boa terra”, marcada por um ritmo lento,
preguiçoso, “malemolente”, tem-se agora um ritmo acelerado dos corpos
em frenéticas danças e uma “ritmicidade” vigorosa dos tambores que
constroem a terra da felicidade e fazem da alegria “um estado chamado
Bahia. (RUBIM, 2000, p. 86).
Dessa forma, nota-se como vai haver, neste período, um esforço de colocar a Bahia
como um polo de felicidade, em que os problemas sociais são deixados à margem naquilo que
constitui a sua história e identidade. O autor ainda reforça dizendo que “Salvador deixa de ser
aquela pacata ‘Cidade da Bahia’ para tornar-se Salvador, a capital do Axé e do Carnaval”
(RUBIM, 2000. p. 86). Assim, percebe-se que o axé music desponta, nesta época, como o
grande expoente de uma cultura de massa que, apesar de se consolidar na cidade de Salvador,
é associada à Bahia como um todo, traduzindo-se como o grande forte da chamada cultura
baiana.
Feira de Santana, cidade do interior da Bahia, localizada a 108 km da capital baiana,
acabou por receber esta influência da axé music na constituição de seus fluxos culturais. Esta
influência é claramente notada por meio da Micareta, carnaval fora de época que ocorre na
cidade, atualmente, no mês de abril e que se consolidou como uma grande festa de cunho
popular que também mobiliza muitos bens de consumo simbólicos que acabavam por
3
ultrapassar, assim como o carnaval soteropolitano, a temporalidade da festa fazendo com que
suas simbologias se estendessem a um recorte temporal que vai além do mês de abril.
Como em Salvador, a grande mídia de massa também via nesta indústria cultural da
cidade feirense uma forma de lucratividade muito grande, já que se trata de um mercado de
forte apelo popular, a imagem 1, localizada na página seguinte, por exemplo, demonstra o
destaque dado a festa em uma capa de jornal local. Entretanto, é importante ressaltar que a
Micareta não surgiu quando o carnaval soteropolitano se lançou com grande estrutura na
década de 1980, ela existiu em um período anterior a este, mas, também não tinha uma
relação tão forte com o empresariado como terá depois que a axé music passou a mobilizar
um forte mercado cultural na capital.
Em Feira de Santana, a relação da cidade com a Micareta é antiga e a mídia local
dispende grande energia para mostrar o peso da história desta festa colocando-a como grande
relevante para a cultura popular da cidade. A diferença, entretanto, é que toda uma lógica de
valorização daquilo que é local passou mudar à medida que o carnaval de Salvador ganhou
grande expressividade nacional, pois, a Micareta passou a ganhar ares cada vez mais
semelhantes aos da capital, o que a fez importar, progressivamente, artistas da axé music para
participar da festa.
Mais do que isso, começaram a valorizar e a colocar a presença de grupos deste gênero
como imprescindíveis para a realização da Micareta, não é à toa que o “Jornal Folha do
Estado” de 2001, trouxe um texto com o título Vereador teme que artista feirense fique fora
da Micareta1 que abordou um incomodo por parte do político Fernando Torres e de outras
pessoas com relação ao tratamento dado pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer aos
artistas feirense na Micareta. Na matéria, nota-se que o espaço reservado para os grupos locais
era o palco fixo e para aqueles que eram mais valorizados, entenda-se ai os artistas “de fora”,
reservavam-se os trios elétricos e os circuitos mais almejados.
1
Folha do Estado, Feira de Santana, 07, 08 e 09 de abril de 2001. ANO V – Nº 519 – Disponível no acervo do
Museu Casa do Sertão, Feira de Santana – BA.
4
Imagem 1
É importante notar que a diferença, com relação a atenção dada aos artistas que eram
destacados no carnaval soteropolitano e os artistas feirenses, se dava por conta de uma lógica
de mercado que acreditava que a festa poderia ser muito lucrativa por meio de uma busca de
prestígio, através de atrações compostas por destaques da axé music, e identidade que
vendiam Feira de Santana como a cidade que promovia a maior Micareta do Brasil.
2. O mainstream baiano e o cenário roqueiro underground em Feira de Santana
A constituição de uma cultura baiana que se mostrava homogeneizante por conta da
associação de uma musicalidade, no caso, a axé music, que foi desenvolvida na capital, mas,
que era colocada, principalmente, pelas mídias de massa, como algo que representava a
cultura de toda a Bahia, acabou por estimular a existência outras identidades que buscaram
existir como alternativas dentro de um cenário musical e cultural massificado. Tal busca era
para, inclusive, desmistificar a ideia unilateral de cultura baiana trazendo, à tona, outras
Bahias que soavam outros ritmos que iam além da axé music.
Dessa forma, na Bahia, existiram cenários independentes, tendo o rock como um
grande expoente, que mobilizavam grupos que não se identificavam com a chamada cultura
baiana e que precisaram buscar outros meios para obterem espaços de sociabilidade e
transgressão que lhes fizessem sentido. Em Feira de Santana, existiu um cenário roqueiro
relevante entre meados das décadas de 1990 e 2000 que buscou alternativas de entretenimento
5
que lhes propiciassem conversar e ouvir aquilo que fugisse do que era colocado como padrão
pela mídia de massa da época.
Benevides (2000), conta que o grunge (despontado como rock alternativo) foi o último
grande momento do rock mundial. Apesar do texto ser do ano de 2000 e o recorte desta
pesquisa alcançar um período posterior a este, de fato, depois do grunge, que teve a banda
Nirvana como grande destaque, ainda não houve um fenômeno que superasse este último no
sentido de mobilizar o surgimento de novas bandas com estéticas, sonoridades e ideologias
que seguissem uma lógica semelhante. Muitas bandas de rock de grande relevância surgiram
depois dos anos 2000, mas, não se observou um movimento que mobilizasse, a nível mundial,
tantos jovens e bandas como fez o grunge na década de 1990. Assim, Benevides (2000)
coloca que:
O gênero de rock predominante na década de 90 foi o chamado rock
alternativo. Seus traços característicos podem ser delineados através de três
dimensões. Em primeiro lugar, na dimensão estética ressalta o estilo póspunk estadunidense. Bandas alternativos como REM, Sonic Youth, Husker
Du, Pixies fundiram os estilos punk, new wave e hardcore a sonoridades
oriundas de diversos gêneros como o funk, o heavy metal, o folk, o pop e,
pode-se afirmar, até mesmo à Bossa Nova, se caracterizando pela reunião
de diversos estilos como um todo. (BENEVIDES, 2000, p. 250).
Nota-se, então, que a década de 1990 é caracterizada por diversos estilos dentro do
rock and roll e, principalmente, por uma certa ideia de preservação da autenticidade do rock.
O grunge, segundo Benevides (2000), “se constituiu sob as influências do punk, a partir de
pequenos selos e gravadoras locais e preservando aspectos atitudinais e ideológicos
marcadamente contra a lógica do mainstream.” (BENEVIDES, 2000. p. 249-250). Assim, o
grunge foi, então, a última grande influência a nível mundial até o período em que se trata
esta pesquisa.
Apesar do cenário heterogêneo que se constituiu em Feira de Santana e que, portanto,
abarcava bandas dos mais diversos segmentos dentro do rock, o grunge influenciou e
reforçou, ao menos, a ideia que o movimento punk já havia lançado mão anteriormente: o Do
It Yourself, em português, “faça você mesmo”. O que se observa é que esta espécie de lema
foi muito forte no sentido de envolver aqueles que se esforçavam para construir espaços de
autonomia para o rock em suas regiões, principalmente, em cenários em que a cultura de
6
massa, no caso da Bahia a partir da axé music, parecia ter preenchido todos os possíveis
espaços, pois, a legitimidade dada a ela nos meios midiáticos e nos espaços públicos e
privados era muito expressivo.
No panorama nacional, Janotti Jr (2003) conta que a partir da década de 1990, a
chegada da versão nacional da MTV (Music Television) se configurou como uma cadeia
midiática voltada para o rock em que os roqueiros puderam ter acesso a muitas bandas
internacionais e nacionais, além do fato, desta TV ter sido um caminho de possibilidades para
bandas novas mostrarem o seu trabalho. Chico Science & nação zumbi e Mundo Livre S.A.
foram duas bandas pernambucanas que alcançaram grande popularidade no rock nacional
nesta época. Ambas, também trouxeram à tona a ideia do alternativo em suas criações no
sentido de agregar outras linguagens e musicalidades dentro daquilo que era proposto.
Como nessa época a MTV possibilitava ao rock uma existência
independente do grande mercado fonográfico, as gravadoras começaram a
apostar em lançamentos segmentados. Assim, a gravadora Sony lançou em
1994 Da lama ao caos, primeiro LD de Chico Science & nação zumbi que
deu novo fôlego ao rock nacional [...]. Essa nova configuração do pop rock
tupiniquin possibilitou maiores experimentações e um distanciamento dos
modismos do mercado fonográfico. Assim, independentemente da axé music
ou do pagode, os roqueiros já haviam estabelecido sua própria rota de
vendagens, shows e troca de informações. (JANOTTI JR, 2003, p. 100).
Entretanto, apesar da existência de um novo mercado voltado para o rock, este gênero
ainda se mostrava segmentado e consolidado em um eixo mais voltado para o sudeste. Apesar
do movimento manguebeat2, em Pernambuco, ter dado um novo fôlego no cenário alternativo
no Nordeste, na Bahia e em Feira de Santana, especialmente, a busca pela autonomia do rock
ainda se mostrava um trabalho que demandava grande esforço. E foi por meio de ferramentas
alternativas, que bandas e produtores locais buscaram, em Feira de Santana, sem grande
esperança de retorno financeiro substancial, lograr espaços de convivência aonde se pudesse
ouvir e vivenciar algo diferente daquilo que era colocado como padrão na época.
2
Movimento oriundo de Recife, Pernambuco na década de 1990. O manguebeat, segundo Janotti Jr (2003),
“misturava, em seu início, jovens universitários, pessoas oriundas das cenas funk e hip hop, além de jovens da
periferia que tocavam em bandas de samba reggae” (JANOTTI JR, 2003, P. 100). As bandas surgidas deste
movimento que mais repercutiram nacionalmente foram Chico Science & nação zumbi e Mundo Livre S.A.
7
Foi por meio de um maior desenvolvimento e acesso tecnológico que bandas puderam
gravar suas músicas em pequenos estúdios da cidade, ou até mesmo em casa, como foi o caso
da banda de rock feirense Lenora, e ainda, puderam divulgar, posteriormente, por meio de
cartazes e internet, esta última ainda com cautela já que ainda não era tão popular na época,
através de um trabalho, praticamente, artesanal. Wendell Fernandes (2014), atualmente
ativista cultural na cidade de Feira de Santana e que fez parte da banda Lenora no início dos
anos 2000, fala sobre a difícil relação do cenário roqueiro da época e a mídia de massa da
cidade feirense. Para ele,
A mídia de massa, a comunicação de massa não tava muito preocupada com
o rock nessa altura, sobretudo na Bahia. A Bahia não tinha e não tem,
ainda, quer dizer, teve a Tropicália e tal. Mas ela não teve posteriormente a
isso, um movimento cultural aonde ele fosse abrangente de forma a fazer
uma coesão de todo mundo (FERNANDES, 2014, p. 6-7).
Esta falta de busca por uma coesão, citada por Fernandes (2014), em que as
manifestações culturais alternativas convivessem em um espaço mútuo, ou recebesse uma
atenção respeitosa semelhante ao da cultura de massa na cidade, é colocada por ele em um
tom de exasperação, principalmente, por se tratar de uma pessoa que tinha grande
conhecimento das dificuldades em propor um evento que trouxesse um ar diferente para a
cidade.
Assim, os depoentes mostram que aqueles que tentavam produzir eventos de rock em
Feira de Santana se sentiam lesados, em muitos momentos, por não encontrarem espaços de
divulgação mais direta que tratassem deste segmento, o rock, e dos seus eventos de forma
respeitosa. Um exemplo desse desinteresse por parte da mídia de massa com relação aos
shows e festivais que se configuravam como espaços de convivência alternativos da época, é
colocado por Wendell Fernandes (2014) em seu depoimento.
Ele conta que as raras vezes em que a televisão local se mostrou presente nos eventos
alternativos da cidade foi para colocá-los em uma formatação estereotipada e que, portanto, ao
invés de ajudar a mostrar aquele movimento de maneira mais clara para um público maior,
acabava atrapalhando o cenário, no que diz respeito a sua busca por legitimidade, quando os
trazia de maneira equivocada. Sobre esta questão, Fernandes (2014) expõe em um tom de
indignação que:
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Todas as vezes que a televisão apareceu, e eu me lembro, tipo assim, de
raras. Era sempre pra mostrar aspectos negativos da coisa. Como assim?
Teve um atropelamento no fim do Mac Rei3, a televisão foi lá cobrir o
atropelamento, não o evento, o evento não lhe interessava, todas as vezes
que o rock foi tratado em Feira de Santana, nomeado pela TV Subaé, você
assistia uma formatação ridícula, estereotipada do modelo. Tipo assim, o
cara chegava, escolhia as pessoas menos conscientes do que estava
acontecendo ali pra criar, pra fazer entrevistas que eram perguntas “porque
você se veste de preto?”, “porque você gosta de rock?”, “porque a
caveira...?” e isso acabava por ridicularizar todo um movimento, todo um
esforço de diversas pessoas que tavam criando, que tavam tentando criar
um cenário alternativo. Observe, quando eu falo alternativo aqui, eu não
estou falando de alternativo no uso da música, estou falando do alternativo
aqui como alternativa de entretenimento porque o que, música alternativa é
uma coisa, mas, disso que eu tô te falando né? Nós naquela altura, alguns
conscientemente, outros inconscientemente tavam criando alternativas.
(FERNANDES, 2014, p. 7).
O que o depoente chamou de movimento no depoimento pode ser identificado, em
outros registros, como cenário ou movimento underground que, significa, a partir das
reflexões de Cardoso Filho e Janotti Jr (2006), essencialmente, aquilo que está fora de uma
circulação comercial mais voltada para a cultura de massa e, dessa forma, o underground
seria uma articulação construída para um âmbito mais segmentado, portanto, menos
comercial.
Alguns cartazes de shows da época fazem uma espécie de chamado para que o público
apoiasse o cenário roqueiro feirense, principalmente, por meio de sua presença nos eventos,
para o fortalecimento do movimento underground. Apesar de dizer que acha este termo
desapropriado hoje em dia, porque o considera limitado no sentido de abarcar outras
musicalidades que se veem à margem da mídia de massa, Wendell Fernandes admite que o
que ele chama hoje de cenário independente, na época, era reconhecido, por uma maioria do
segmento, como cenário underground. As imagens 2 e 3, situadas na página seguinte,
correspondem a dois eventos que ocorreram em Feira de Santana no final da década de 1990.
Ambas tentam estimular e apontar, por meio de exclamações, para a necessidade de união e
apoio mútuo para o fortalecimento do cenário underground da cidade.
3
Lanchonete que foi localizada, segundo os depoentes, na Avenida Getúlio Vargas, em Feira de Santana.
9
A documentação infere que era necessário tentar agregar um público consistente que
frequentasse, regularmente, os eventos de rock para que dessa forma, a alternativa de
entretenimento que estava se tentando fortalecer na cidade, fosse consolidada. Essa
necessidade de união era intensificada, principalmente, pela falta de meios de divulgação mais
diretos fazendo com que, esta última, acontecesse através de cartazes colados nos muros de
grande visibilidade na cidade. Leonardo Guimarães (2014), que também foi integrante, entre
outras, da banda Lenora, fala de como era difícil a informação chegar até as pessoas já que a
internet ainda não era tão popularizada: “Antigamente tinha que fazer uns ‘flyer’4, sair igual
uns maluco entregando isso ai, colando cartaz pra caramba que hoje ainda tem, mas, acho que
a internet facilitou muito, criou um atalho pra que facilitasse mais isso hoje, naquela época era
muito difícil.” (GUIMARÃES, 2014, p. 2).
4
Cartaz de divulgação para evento.
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Imagens 2 e 3
O que se nota a partir do contato com os depoentes, é uma clara necessidade de
falarem sobre a relação da mídia de massa com o cenário roqueiro que se almejava em Feira
de Santana, ainda mais porquê, se tratam de pessoas que fizeram parte de bandas de rock da
cidade no período e que tinham, portanto, dificuldades em estruturar um evento que abarcava
este segmento e, principalmente, divulga-lo.
Ao falar sobre as dificuldades em viver uma cultura underground em uma cidade do
interior da Bahia em que o mainstream5 se mostrava tão forte, Fernandes (2014) coloca que a
5
O denominado mainstream (que pode ser traduzido como “fluxo principal”) abriga escolhas de confecção do
produto reconhecidamente eficientes, dialogando com elementos de obras consagradas e com sucesso
relativamente garantido. Ele também implica uma circulação associada a outros meios de comunicação de massa
11
cultura de massa parecia estar em todos os lugares na cidade e que ela, realmente, se mostrou
danosa para um maior crescimento de cenários musicais que se mostravam à margem daquilo
que dava um grande retorno financeiro.
Eu aprendi que essa, esse mainstream, a mídia de massas, ela observava
aquilo, porque o rock tinha uma conexão, sempre teve em Feira, pelo
menos, naquela altura, uma conexão com skate, com juventude, com um
entretenimento passageiro e então, você observando esse alinhamento, você
percebia porque motivo é que eles entrevistavam daquela forma porque eles
viam o rock num formato muito enlatado americano, paulista, carioca, eles
não conseguiam compreender que aquilo era, que aquilo era um ponto de
diversidade importante pra cidade. (FERNANDES, 2014. p. 8).
Ainda assim, apesar das dificuldades encontradas em articular um cenário alternativo
ao que era colocado como mainstream na cidade, a documentação demonstra que os roqueiros
feirenses conseguiam alguns locais para execução de shows, bem como, tentavam fazer com
que a divulgação desses eventos chegasse ao público almejado para que os materiais gravados
pelas bandas autorais encontrassem espaços de sociabilização em Feira de Santana.
3. Espaços, eventos e bandas do cenário roqueiro feirense
Segundo a documentação disponível até então, não existia, na cidade, um espaço
específico para shows de rock ou que promovesse este tipo de evento de forma regular,
havendo, assim, a dificuldade em encontrar um local aberto para este tipo de show. Os
cartazes e os depoimentos mostram que algumas lanchonetes, clubes e a própria Universidade
Estadual de Feira de Santana eram os principais espaços para ocorrência de eventos de rock
na cidade. Fernandes (2014) conta que, para ele, chegou a existir, inclusive, duas cenas na
cidade: uma no centro e a outra na universidade. Isto porquê, a universidade fica localizada
em um espaço longe do centro da cidade e ambos os cenários comportavam públicos
diferenciados, mas, que apesar de uma aparente distância, coexistiam com bastante diálogo.
(…). Consequentemente, o repertório necessário para o consumo de produtos mainstream está disponível de
maneira ampla aos ouvintes e a dimensão plástica da canção apresenta uma variedade infinita, em boa medida,
pelas indústrias do entretenimento e desse repertório. (FILHO E JÚNIOR, 2006, p. 18).
12
Haviam duas grandes cenas em Feira, duas grandes cenas em Feira
guardada devidas proporções, uma acontecia na Universidade, ela era
liderada pelo pessoal de Paulo de Tarso do Clube de Patifes e tal; e aqui no
centro da cidade, encabeçava-se por eu e Rodolfo, Rodolfo do Sugar Pine e
eu da Pornô. (FERNANDES, 2014, p. 4).
Ainda segundo Fernandes (2014), eram nos festivais organizados por Emerson6,
intitulados como Feira Rock Festival, em meados de 2002, que os dois cenários se
encontravam. Os festivais, inclusive, ajudaram a circular muitas bandas de vieses
diferenciados e que vinham de outras cidades também. A documentação infere que os eventos
na universidade funcionavam quase que como festivais, pois, segundo Fernandes (2014),
tratavam-se de grandes calouradas7, mas, que, os organizadores não dispendiam de tanta
energia para divulgarem para um grande público, fazendo com que a festa ficasse um tanto
quanto restrita para os estudantes e agregados.
Entretanto, os festivais organizados por Emerson tinham um intuito mais
organizacional aonde se buscava uma abertura para um público maior e uma circulação de
bandas independentes. Além disso, era por meio dos festivais que ele divulgava a sua loja de
artigos de skate, a Junkies, e tentava agregar, assim, um público que se sentisse atraída pelos
bens simbólicos que envolviam o rock n roll, entre eles, o skate.
A imagem 4, localizada na seguinte página, trata-se do cartaz de divulgação de uma
das edições do Feira Rock Festival. Nota-se que era um festival de grandes proporções aonde
muitas bandas se apresentavam. A maioria delas eram feirenses, mas, o evento fazia circular
grupos que vinham de outras cidades como: Autoramas, do Rio de Janeiro e Dominus Praelli
de Londrina, no Paraná. Isso demonstra que, apesar das dificuldades em divulgação fosse pela
internet, naquela época, ainda, pouco popularizada, ou por meio da mídia mais aberta, as
bandas conseguiam manter um diálogo que ajudava no fomento dos cenários independentes
pelo país.
Outra questão importante a ser observada é que o cartaz trata de uma quinta edição do
festival, o que mostra a relevância deste evento para a cidade. Além disso, intui-se que ele
pode ter crescido de uma tal forma que acabou por atrair, apoios que proporcionaram o seu
6
O sobre nome não foi citado pelo depoente. Ele, apenas, se referiu ao organizador dos festivais em questão,
como Emerson.
7
Festa de recepção para alunos novos, ou, calouros.
13
desenvolvimento a ponto de ele obter uma estrutura que permitia ao organizador, Emerson,
proporcionar três dias de shows com um grande número de bandas.
Tendo em vista toda a dificuldade em organizar um evento nesta proporção, infere-se
que isto só poderia ser possível não apenas por conta dos apoios recebidos, mas,
principalmente, com a presença de um público fiel e com a disponibilidade e capacidade em
organizar um evento de rock que se mostrava grandioso, guardada as devidas proporções, em
uma cidade do interior da Bahia. Talvez, por isso, todos os depoentes entrevistados até agora,
citem este evento e a figura de Emerson como importantes para o cenário roqueiro feirense da
época.
A banda Lenora, notada no cartaz, foi uma das poucas que, na época, conseguiu gravar
um disco com uma tiragem relevante para um grupo do cenário underground no período em
questão. Leonardo Guimarães (2014) e Wendell Fernandes (2014), ambos integrantes da
Lenora na época, contaram que a gravação foi possível porque Leonardo Guimarães havia
conseguido um equipamento que possibilitou o registro. Wendell Fernandes falou que já nesta
Imagem 4
14
época, havia uma preocupação em elaborar-se um trabalho artístico que marcasse a identidade
da banda. A tiragem, segundo Guimarães (2014) foi de 100 a 300 discos e que eles eram
vendidos, principalmente, nos shows. Apesar dessa bagagem, a Lenora não existe mais
enquanto banda, Leonardo Guimarães, atualmente, tem uma loja de instrumentos musicais e
Wendell Fernandes atua como cantor e guitarrista da banda Novelta hoje em dia.
Outra banda que deixou um registro físico foi a Deformity e é um dos grupos mais
antigos que, ainda, atua na cidade. Um dos integrantes disponibilizou para esta pesquisa,
muitos registros importantes, como os cartazes ilustrados nas imagens 1 e 2 deste texto. Isto
demonstra o interesse de muitos sujeitos que atuaram neste cenário em fortalecer uma
memória que quer retratar um outro viés no que diz respeito à cultura em Feira de Santana.
A imagem 5, abaixo, trata de um encarte da gravação de uma música da banda para
promoção de seu trabalho, nela, pode-se notar a preocupação em datar o período de registro
do trabalho, além disso, ele lança luz ao CD independente a ser elaborado pela banda na
época. O encarte, apesar de mostrar certa simplicidade, é bem organizado, pois, possui, além
da data de gravação, ficha técnica com o nome, inclusive, do ilustrador da capa. Além disso,
traz telefones para contato, endereço de e-mail e página na internet, o que demonstra uma
organização relevante que visava, a partir das ferramentas de comunicação, uma articulação
dentro de um cenário underground que fosse além das terras feirenses.
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Imagem 5
Com relação às bandas que continuaram com a mesma formação e o mesmo nome até
os dias de hoje, é preciso citar o grupo Clube de Patifes que fez 15 anos de existência no ano
de 2013, tendo lançado 3 discos até então: Do Palco ao Balcão (2001), Com um Pouco mais
de Alma (2011) e Acústico (2013). A banda é identificada como blues rock e se configura,
atualmente, como um grupo de grande respeito na cidade por ter uma história bem
consolidada e por ainda atuar na cidade com lançamentos de novos discos, shows e por
agregar um público crescente e fiel. Os seus 15 anos de existência lhe renderam uma
comemoração no Museu de Arte Contemporânea, em Feira de Santana, com um show da
banda e exposição de fotos que contou um pouco de sua trajetória.
A televisão universitária, TV Olhos D’água, cobriu o evento e promoveu um vídeo
com entrevistas de pessoas que participaram de perto da história da banda e com integrantes
do próprio Clube de Patifes. No vídeo, intitulado como Patifes celebram 15 anos de história,
é possível perceber que o evento contou com um público em número relevante que foi
conferir o show e a comemoração. Um dos entrevistados foi o guitarrista da banda, Sérgio
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Magno, que frisou a satisfação de participar de uma banda de blues rock que resistiu à tantas
dificuldades próprias de um grupo que faz parte de um cenário independente aonde tais
dificuldades se tornam ainda maiores quando se trata de uma cidade do interior da Bahia.
Sendo uma casa musical que dura 15 anos de rock n roll, especificamente,
sendo em Feira de Santana, na Bahia. Então, eu me sinto parte do time
também, eu me sinto feliz por tá fazendo parte de uma militância musical. É
lenha8 fazer rock na Bahia, é lenha fazer rock blues dentro de Feira de
Santana, mas, tipo, isso pra mim representa muito por tá se tratando do
cenário independente. Eu sou um abraçador da causa da música
independente. Da arte que é feita pela arte, então, pra mim é gratificante
demais, velho. (MAGNO, Sérgio. Patifes celebram 15 anos de história.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_H73rh-acn0> Acesso
em: 15 de maio. 2015.).
Dessa forma, nota-se que, apesar das dificuldades, o que movia as pessoas que
buscavam alternativas de entretenimento e espaços de vivência aonde a musicalidade que
fugia aos padrões do mainstream pudesse ser vivida, era o fato de o cenário independente não
estar atrelado as exigências do mercado. Este fator proporcionava que seus sujeitos pudessem
vivenciar uma transgressão aonde o rock era experimentado com o vigor necessário para sua
sobrevivência em uma cidade do interior da Bahia, a princesa do sertão: Feira de Santana.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEVENIDES, Rubens de Freitas. Cenários Modernos e Pós-modernos no Brasil:
Juventude, Política e Rock and Roll. 2008. 359 f. Tese de Doutoramento – Programa de PósGraduação em Sociologia, Universidade de Brasília, Brasília.
DE OLIVEIRA, Paulo Cezar Miguez. A organização da cultura na “Cidade da Bahia”.
2002. 348 f. Tese de Doutoramento - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e
Culturas Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador.
FILHO, Jorge Cardoso e JÚNIOR, Jeder Janotti. A música popular massiva, o mainstream e o
underground trajetórias e caminhos da música na cultura midiática. In: Comunicação e
música popular massiva. FILHO, Jorge Cardoso e JÚNIOR, Jeder Janotti. (Orgs.). Salvador:
Edufba, 2006.
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O termo “lenha” corresponde ao sentido de dificuldade ou dureza.
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JANOTTI JR, Jeder. Aumenta que isso ai é Rock and Roll – mídia, gênero musical e
identidade. Rio de Janeiro: E- Papers Serviços Editoriais, 2003.
RUBIM, Antonio Albino Canelas. Comunicação, mídia e cultura na Bahia contemporânea.
Bahia: Análises e Dados, Salvador, v. 9, n. 4, p.74-89, março. 2000.
FONTES:
Imagem 1: Jornal Folha do Norte, Feira de Santana, 29 de Abril de 1999 - Disponível no
acervo do Museu Casa do Sertão, Feira de Santana – BA.
Imagem 2: Acervo Pessoal
Imagem 3: Acervo Pessoal
Imagem 4: Acervo Pessoal
Imagem 5: Acervo Pessoal
FERNANDES, Wendell. Wendell Fernandes: depoimento [44’34”]. Entrevistadora: P.
Almeida. Feira de Santana: UEFS-BA, 2014.
GUIMARÃES, Leonardo. Leonardo Guimarães: depoimento [26’67”]. Entrevistadora: P.
Almeida. Feira de Santana: UEFS-BA, 2014.
MAGNO, Sérgio. Patifes celebram 15 anos de história. Disponível
<https://www.youtube.com/watch?v=_H73rh-acn0> Acesso em: 15 de maio. 2015.
em:
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O CENÁRIO ROQUEIRO EM FEIRA DE SANTANA