ST2: Produção Contemporânea do Espaço e Projetos de Urbanismo
Análise da expansão urbana de Feira de Santana através de condomínios fechados
Bethsaide Souza Santos
[email protected]
Rosangela Leal Santos
Resumo
Feira de Santana é uma cidade importante no Estado da Bahia e tem apresentado uma
rápida expansão urbana nos últimos tempos. Seguindo uma tendência global, o
surgimento de condomínios fechados tem sido intensificado na região e como
consequência, houve uma inversão de papéis entre o poder público e a iniciativa privada.
Construtoras e imobiliárias assumiram uma função determinante no direcionamento dos
vetores de expansão urbana. Noutros tempos, tal função era exercida, principalmente
pelos órgãos públicos relacionados ao planejamento urbano. Neste artigo, portanto,
analisa-se a expansão urbana ao longo do tempo e o surgimento e proliferação de
condomínios fechados nas últimas duas décadas. Foi analisada também a tendência de
expansão urbana em direção aos eixos Leste e Norte da cidade e verificou-se que esta
tendência existe desde o século XIX e ainda permanece nos dias atuais.
Palavras-Chave: Expansão urbana, Condomínios Fechados, Feira de Santana.
1. Introdução
Feira de Santana está localizada a aproximadamente 110 km da capital estadual,
Salvador. Trata-se da segunda cidade mais populosa do estado da Bahia, com 556.642
habitantes, numa área de 1338 km², segundo dados do censo demográfico do IBGE em
2010. A Figura 1 mostra a localização da cidade na Bahia e no Brasil.
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Figura 1: Localização de Feira de Santana na Bahia.
Fonte: GOMES, 2011
Feira de Santana é privilegiada por sua localização: é onde ocorre o encontro de
três Rodovias: BRs 101, 116 e 324. Assim, se apresenta como um ponto de passagem
para o tráfego que vem do Sul e do Centro Oeste e se dirige para Salvador e outras
importantes cidades nordestinas. Além de estar relativamente próxima a Salvador, possui
um diversificado setor de comércio e serviços, além de indústrias de transformação.
Outros aspectos influenciadores na urbanização da região serão analisados adiante.
2. Evolução do desenho urbano de Feira de Santana
Segundo Freitas (1998), um dos fatos marcantes na urbanização da cidade foi a
inauguração da Bahia-Feira (hoje, denominada BR-324), em 1926, com 144 quilômetros.
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A ligação com a capital do Estado foi importante para a expansão da zona sul da cidade.
A transferência do Terminal Ferroviário da Praça da Matriz para a área denominada hoje,
Ponto Central promoveu a urbanização da região. A estrada de ferro também influenciou
na formação do bairro Tomba ao Sul.
Após a década de 40, a expansão se dá em todas as direções e no final da década
de 60, evidencia-se o aparecimento de bairros populares mais afastados do centro,
fazendo com que a cidade apresente uma forma estrelada. A instalação do campus da
UEFS às margens da BR-116 norte, evidencia a expansão da zona norte.
Além disto, foi construído pela URBIS, em 1968, o primeiro conjunto habitacional
Feira I, denominado Cidade Nova, com 1.666 unidades habitacionais. No mesmo ano, foi
elaborado o Plano de Desenvolvimento Local Integrado (PDLI), com o objetivo de corrigir
as distorções, ordenar e disciplinar o uso e ocupação do solo urbano. No ano seguinte, foi
aprovada a 1ª Lei de Zoneamento, que dividia a cidade em oito zonas de quatro tipos:
comercial, industrial, residencial e mista. A Lei deixa clara, também, a localização do
Centro Industrial do Subaé (CIS), que foi implantado em 1970, na zona sul da cidade,
como citado por Freitas (1998).
Nas proximidades do Feira I, o Instituto de Orientação às Cooperativas
Habitacionais (INOCOOP) constrói vários conjuntos residenciais , citados na tabela 1.
Tabela 1: Conjuntos habitacionais construídos pela INOCOOP, nas décadas de 70 a 90
Nome
Ano
Tipo de
construção
Unidades
Localização
na cidade
Conj. Centenário
Conj. ACM
1972
1977
Casas
Casas
291
178
Norte
Norte
Conj. Milton Gomes
Conj. Morada das
Árvores
Conj. João Paulo II
Cond. Vale dos Rios
1978
Casas
203
Norte
1979
1980
1980
Casas
Casas
Apartamento
270
410
126
Norte
Norte
Norte
Conj. Morada do Sol
Cond. José Falcão
Cond. J. J. Lopes de
1981
1983
1985
Casas
Apartamento
Apartamento
340
126
224
Oeste
Norte
Noroeste
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Brito
Cond. Parque das
Acácias
Cond. Prisco Viana
Cond. Parque Cajueiro
Cond. Lagoa Grande
1988
1989
1991
1991
Apartamento
Apartamento
Apartamento
Apartamento
210
168
360
640
Centro
Norte
Sul
Norte
Fonte: (Lima, 1994, apud, Freitas, 1998)
A URBIS também construiu vários conjuntos habitacionais voltados para a
população de baixa renda:
Tabela 2: Conjuntos habitacionais construídos pela URBIS, nas décadas de 60 a 80.
Nome
Ano
Tipo de
construção
Unidades
Localização
na cidade
Feira I
1968
Casas
291
Norte
Feira II
1970
Casas
178
Norte
Feira III
1977
Casas
203
Sul
Feira IV
1980
Casas
270
Oeste
Feira V
1983
Casas
410
Norte
Feira VI
1984
Casas
126
Norte
Feira X
1985
Casas
340
Sudoeste
Fonte: Lima, 1994, apud Freitas, 1998.
Nas proximidades do CIS, foram construídos pela iniciativa privada, nos anos 90,
os conjuntos Francisco Pinto, Luciano Barreto e Oyama Figueiredo, através de
Financiamento da Caixa Econômica Federal. Foram construídos ainda, os conjuntos Feira
VII e Feira IX.
Na Figura 2, mostram-se os conjuntos habitacionais supracitados, construídos pela
URBIS e pela INOCOOP.
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Figura 2: Conjuntos habitacionais construídos pela URBIS e INOCOOP
(Figura editada pela autora)
Até o final da década de 1980, a expansão urbana em Feira de Santana era
determinada principalmente pelo poder público, através de estratégias de zoneamento,
criação dos conjuntos habitacionais citados. Já a partir da década de 90, começaram a
surgir os condomínios fechados em Feira de Santana, acompanhando assim, a tendência
de várias outras cidades no Brasil e no mundo. A partir daí a iniciativa privada passou a
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exercer uma função determinante no crescimento da cidade. A especulação imobiliária se
tornou o direcionador dos vetores de expansão e o valor da terra aumentou
absurdamente.
As causas desse processo de inversão também tem muito em comum com outros
centros urbanos. Segundo CALDEIRA (2000), a difusão do medo do crime é o principal
motivo que levou pessoas de todas as classes a buscar formas mais seguras de moradia.
Essa nova forma de habitat traz algumas consequências, que se refletem na vida dos
moradores e na sociedade de maneira geral. Segundo MOURA (2004, apud Baumgartner,
1988), surge um código de sociabilidade, baseado na “evitação” de conflito aberto entre
pessoas. Há baixo índice de conflitos, mas, por outro lado há também pouca cooperação
entre amigos ou vizinhos. Essa “evitação” pessoal é apenas um reflexo de um contexto
maior, no qual a separação se dá também numa esfera espacial (através dos muros que
isolam os condomínios do restante da cidade) e numa esfera social (separação entre ricos
e pobres).
TAVARES E COSTA (2010) afirmam que uma das implicações do processo é a
privatização da cidade, através da apropriação privada de espaços que deveriam estar
disponíveis a toda sociedade local, como ruas, praças e áreas de lazer. Os autores ainda
destacam outro aspecto evidenciador da privatização de espaços públicos: a
impermeabilização do tecido urbano. O termo refere-se à impossibilidade de os cidadãos
transitarem livremente pela cidade, devido à existência de barreiras físicas.
A pesquisa feita para a elaboração deste trabalho foi baseada em coleta de dados
históricos a partir de 1995. A Figura 3 mostra a evolução do número de condomínios
fechados em Feira de Santana ao longo dos anos.
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Número de
condomínios
Figura 3: Evolução da Quantidade de Condomínios Fechados em
Feira de Santana-BA (1995 a 2010)
Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Urbano (figura editada pela autora)
Para a análise dos dados, o período compreendido entre 1995 e 2010 foi dividido
em três partes. A primeira delas é correspondente aos anos entre 1995 e 2000. Neste
intervalo de tempo, poucos condomínios foram lançados, com uma média anual
aproximada equivalente a 4. Percebe-se que há um primeiro pico no ano 2000, com a
construção de 12 condomínios, valor este que só voltou a se repetir em 2005. O segundo
período, de 2001 a 2004 corresponde a uma fase intermediária, se configurando como um
período de transição. No último período, de 2005 a 2010, houve um significativo aumento
do número de condomínios construídos em Feira de Santana e a média anual foi de mais
de 16 condomínios. Essa fase se caracteriza também pela tendência de aumento dessa
média. Percebe-se um segundo pico em 2007, no qual foram construídos 23
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condomínios, quase o dobro do ano anterior. Esse aumento é consequência,
principalmente, das políticas habitacionais criadas ao longo desses anos.
3. Análise da expansão
A Fig. 4 mostra a expansão de Feira de Santana no período entre 1787 e 1984.
Observa-se, já nesse período a tendência de expansão em direção aos setores Leste e
Norte da cidade.
Figura 4: Evolução do crescimento urbano de Feira de Santana, origens até 1986.
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Fatores diversos influenciam diretamente na densidade e distribuição ocupacional
construtiva da área urbana de Feira de Santana, das quais podemos destacar a
localização das edificações e seus usos, predominância das atividades desenvolvidas,
ação da iniciativa privada (empreendimentos imobiliários) consonantes com as ações da
administração pública, em seus diversos níveis, e suas relações com a construção
(BITTENCOUT et al, 2008; SANTO et al, 2009).
Quanto aos aspectos de localização, destinação funcional e incidência quantitativa,
pode se dizer que esta ocorre em forma de faixas concêntricas, onde a densidade e a
incidência das áreas de expansão se processam em proporção inversa à sua distância
com relação ao centro ou zona central de negócios do aglomerado urbano, exceção feita
àquelas adjacentes as principais artérias de tráfego, tais como Avenida Getúlio Vargas,
Maria Quitéria, Presidente Dutra, Voluntários da Pátria, Aurivaldo de Carvalho e Araújo
Pinho (GUIMARÃES et al., 1976; BITTENCOUT et al, 2008; SANTO et al, 2009; LIMA
2010).
4. Análise dos resultados
A Fig. 5 mostra a localização dos condomínios fechados construídos entre 1995 e
2010 na cidade. Antes de 2000, os condomínios eram localizados, em sua maioria, dentro
dos limites do anel de contorno. Percebe-se que após esse ano, as ocorrências
extrapolaram os limites do anel de contorno. Além disto, é possível notar nitidamente a
tendência de expansão a Leste.
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Figura 5: Localização dos condomínios construídos em Feira de Santana entre 1995 e 2010
Fonte: SEDUR (Figura editada pela autora)
Foi feita a análise espacial dos dados mostrados na Figura 5. Após várias
simulações com diferentes valores, chegou-se, por tentativa e erro, à conclusão que a
distância ideal seria de 1.500m, por gerar uma distribuição de melhor visualização. Foram
utilizadas quatro classes de intensidade. A Figura 6 mostra o mapa resultante da análise
espacial, feita no SIG SPRING.
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Figura 6: Intensidade de Concentração de Condomínios Fechados em
Feira de Santana (BA) - 1995 a 2010
A análise dos dois mapas (Figuras 4 e 6) permite perceber uma semelhança no
que tange à direção de expansão urbana. Ainda antes da década de 1980, era clara a
tendência de expansão a Leste e Norte, que ainda permanece nos tempos atuais. Isso é
evidenciado com a análise da Figura 6: classes que indicam maior densidade estão
concentradas neste lado da cidade.
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Verifica-se também que há tendências locais de crescimento. Na figura 6, são
identificados dois principais pólos de aglomeração de condomínios: (1) bairros Santa
Mônica e Parque Getúlio Vargas, (2) Conceição. Nestas áreas, constatou-se intensidade
muito alta, que significa dizer que estas são região de maior densidade de condomínios.
Além destes, há também um eixo de expansão: a Avenida Artêmia Pires, que tem
passado por um processo intenso de urbanização. Praticamente toda a Avenida foi
enquadrada na classe média alta. Esta classe também apareceu nos bairros Cidade Nova
e Parque Ipê, ao Norte da cidade e Brasília e Capuchinhos, região próxima ao centro da
cidade. Toda a parte Oeste e Sul da cidade se enquadraram na classe baixa, registrando
valores nulos ou mínimos de intensidade.
5. Conclusão
A expansão de Feira de Santana sempre se caracterizou por uma tendência de
crescimento a Leste. Apesar da influência predominante da iniciativa privada no desenho
urbano de Feira de Santana, fato relativamente recente na cidade, o modelo de expansão
continua o mesmo. Essa informação é importante, pois permite que sejam feitas previsões
sobre a zona urbana para os próximos anos. Com isso, os órgãos responsáveis pelo
planejamento municipal e desenvolvimento urbano podem planejar os instrumentos de
política urbana de forma mais eficiente.
A ocorrência de condomínios fechados na cidade é crescente, acompanhando a
tendência de outras cidades no Brasil e no mundo. Há bairros onde há uma concentração
maior, como Conceição, Santa Monica e Lagoa Salgada. Além destes, foi identificado um
eixo de expansão, ao longo de toda a extensão da Avenida Artêmia Pires.
6. Referências
BITTENCOURT, D. C.; SANTOS, R. L.; SANTO, S. M . Identificação de classes de uso
e cobertura do solo de Feira de Santana (BA). In: V Seminário Latino-Americano e I
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Ibero-Americano de Geografia Física, 2008, Santa Maria. Anais do V Seminário LatinoAmericano e I Ibero-Americano de Geografia Física, 2008.
CALDEIRA, T. P. do R. Cidade de muros. Crime, segregação e cidadania em São
Paulo. São Paulo. Editora 34/ Editora da Universidade de São Paulo, 2000.
FREITAS, N. B. Urbanização em Feira de Santana: Influência da industrialização
1970-1996. UFBA. Salvador, 1998.
GUIMARÃES, A. C. M.; PIRES, R. A.; VALE, J. I. C. de; TORRES, R. J. de S. Feria de
Santana: Território, o Município, a Cidade: Plano de Desenvolvimento Local Integrado PDLI. Feira de Santana: SUDENE, 1976.
http://www.ibge.gov.br (acessado em 29 de setembro de 2011)
MOURA, C. P. Urbanidade e estilos de vida: Gated Communitiese Condomínios
Horizontais. In: I JORNADA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO. Anais. Anápolis.
Universidade Estadual de Goiás, 2005.
SANTO, S. M. O desenvolvimento urbano em Feira de Santana. Sitientibus. Feira de
Santana, n.28, p. 9-20, jan./jun., 2003.
SANTO, S. M.; FERNANDES, R. B.; SANTOS, R. L. O impacto da habitação sobre o
meio ambiente: a questão da água em Feira de Santana - Bahia - Brasil. In: XII
Encuentro de Geografos de América Latina, 2009, Montevideo. Anais do XII Encuentro de
Geografos de América Latina, 2009.
TAVARES, M. A., COSTA, A. A. da. Dinâmica urbana e condomínios horizontais
fechados na cidade de Natal. Natal. UFRN, 2010.
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