III SEMINÁRIO POLÍTICAS SOCIAIS E CIDADANIA AUTOR DO TEXTO: Alessandra Ferreira de Paiva Nem corujas, nem morcegos: trabalho noturno e monótono, no capitalismo globalizado - uma contribuição do Serviço Social RESUMO: A globalização econômica tem como uma de suas conseqüência a crise no mundo do trabalho , levando ao aumento do desemprego e precarização dos vínculos empregatícios . Portanto acontece a expansão do setor de prestação de serviço e profissões exercidas em condições precárias. Neste cenário coexiste a crescente a demanda por trabalhos a serem desenvolvidos no período noturno. O exercício de tal jornada é visto como normal, porém esquecem que os homens não são animais noturnos, logo precisam se adaptar a tal horário. Segundo Fischer (2004) esta organização de trabalho pode ser prejudicial a saúde dos indivíduos, ao alterar o ciclo vigília- sono acarretando desgaste físico e mental. Muitas profissões noturnas já foram pesquisadas, contudo a carência de investigação sobre um trabalho noturno e também monótono, como dos agentes de portaria, os quais exercem vigílias de patrimônios, indicou a necessidade de pesquisar tal realidade. Utilizamos investigação de natureza qualitativa e história tópica oral, a fim de avaliar a percepção que os referidos profissionais tinham de sua profissão. O conteúdo obtido indicou o desgaste presente no processo de trabalho dos agentes de portaria, os determinantes sociais os quais influíram na escolha do cargo, e aqueles que os levam a continuar na profissão. Ficou clara também a centralidade que o ato de trabalhar ocupa em suas vidas, indicando a necessidade de se pensar em políticas que intervenham nos impactos causados por tal processo de trabalho. Palavras chaves: Globalização econômica, trabalho noturno e monótono dos agentes de portaria , desgaste, serviço social Introdução A globalização econômica, traz consigo novas formas de organização e gestão da força de trabalho, no âmbito do modo de produção capitalista, tendo como aliado o modelo de Estado neoliberal. O corte nas políticas sociais e nos direitos referentes ao trabalho, geram desemprego estrutural, redução dos postos de trabalho e a expansão do setor de serviços, com vista a manutenção do processo de acumulação. Com a diminuição da oferta de emprego há o fortalecimento da ideologia do “trabalho a qualquer custo e a qualquer preço”. Desta forma as pessoas minimizam os riscos contidos no exercício do trabalho, em prol da necessidade de sobrevivência. Torna-se comum a existência do trabalho desprotegido, sem a mínima segurança para seu desenvolvimento, como também a escolha de trabalhos que interferem na integridade física e psíquica do ser humano. O trabalho em turno e noturno pode ser considerado como um destes tipos de trabalho por ser diferente do ritmo biológico humano. O ritmo biológico humano evidencia que fomos feitos para ser ativo durante o dia e dormir à noite. Contudo a demanda de trabalho noturno, não respeita tais características, uma vez que o mundo globalizado requer serviços além dos essenciais, como aqueles que visam estimular o consumo, manter a produção, cuidar do patrimônio e segurança dentre outros. Esta realidade é vista de forma natural, poucas são as instituições que possuem programas de prevenção e informação sobre os malefícios desencadeados por atividades neste horário específico, poucas são as políticas existentes para intervir nesta situação. Apenas a constituição de 1988, informa algumas garantias, tais como adicionais noturnos, embora não sejam suficientes para encobrir os prejuízos vitais que pode causar. A falta de discussão, dentro de um nível político crítico sobre tal tema, evidencia, também, a fragilidade da organização sindical, a qual muitas vezes não o coloca como prioridade em suas demandas. Em uma sociedade com grande índice de violência e da necessidade latente de preservação da Segurança Pública cresce a cada dia mais esta atividade, logo a importância de repensar as inflexões deste tipo de trabalho na vida das pessoas. Iamamoto (2001) também chama a atenção para o trabalho noturno, dentro da sociedade brasileira, como uma nova conotação da “desordem no trabalho” termo este usado por Matoso (1995 apud IAMAMOTO, 2001, p.42.). O termo desordem deixa bem claro que este tipo de organização agrega uma natureza de trabalho fora dos parâmetros da normalidade, sendo mais uma das formas de organização de trabalho do capital expandida pela globalização econômica: “Na sociedade brasileira este quadro assume novas conotações particulares e mais graves, visto que ao desemprego, resultante de novas tecnologias, soma-se o persistente desemprego estrutural, as relações de trabalhos presididas pela violência, a luta pela terra, o trabalho noturno, as relações de trabalho clandestinas, o trabalho escravo, que passam a adquirir certa máscara de modernidade nestes pais”. (IAMAMOTO, 2001, p.35). Muitas pesquisas têm sido realizadas sobre o trabalho em turno, enfocando os caminhoneiros, profissionais da saúde, policiais, e operários de grandes fábricas, todavia é interessante analisar sobre uma atividade que tem sido muito requisitada pelo mercado e assumida pelo trabalhador a vigília do patrimônio. Mediante a nossa prática profissional, como assistente social, em uma empresa de prestação de serviços públicos a PROGUARU (Progresso e Desenvolvimento de Guarulhos) nos deparamos com a vivencia dos trabalhadores qualificados como Agentes de Portaria, que controlavam o acesso das pessoas às dependências públicas e zelavam pelo patrimônio público. Presenciávamos também as constantes queixas em relação ao processo de trabalho. Observamos, portanto, a carência investigativa de saber como se desenvolve o exercício de um trabalho sem aparente produção e sem claro esforço, que é agravada pelo exercício no período noturno. Logo tentamos investigar fatores que potencializam a escolha desta profissão e o impacto e o significado na cotidianidade de quem a exerce. Portanto, a necessidade da investigação emergiu do desejo, enquanto profissional e pesquisadora de buscar compreender a profissão de agente de portaria em um período que há escassez de empregos, vínculos precários, deterioração da qualidade de vida e hipervalorização do trabalho de carteira assinada. Metodologia utilizada O estudo em questão teve como objetivo investigar o modo de ser e de viver do Agente de Portaria relacionando-os com as mudanças trazidas pelas relações de trabalho no atual estágio do capitalismo. Buscamos enfatizar também a centralidade que esta profissão possui em suas vidas. Partimos do pressuposto de que as condições de vida de um determinado grupo social estão diretamente ligadas ao lugar que ocupa no processo de produção, com acessos diferentes a bens e serviços, daí escolhermos a categoria trabalho como temática eixo desta pesquisa: “O modo pelo qual as pessoas manifestam sua vida reflete muito exatamente o que elas são. Tal modo de ser coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem. O que as pessoas são depende, portanto, das condições materiais de produção” (MARX; ENGELS, 1982, p.15). Após a escolha do objeto de investigação, no caso o trabalho dos agentes de portaria, se fez necessário investigar ou estudar esta realidade além de uma visão quantitativa. Na nossa percepção, o social é considerado qualitativo, uma vez que as condições de vida e de trabalho caracterizam as formas pelas quais as pessoas pensam, sentem e agem. Acreditávamos que a narrativa dos agentes de portaria, através de uma análise qualitativa, nos possibilitaria conhecer, de forma mais concreta, aspectos de seus projetos de vida, de suas necessidades e as estratégias que utilizam para o exercício da atividade, além dos motivos que os levaram a optar por ela. Através deste viés analítico tentaríamos compreender suas condições de existência e como estas se articulavam com as determinações sócio-políticas e econômicas condicionadas pelo atual estágio do capitalismo. A metodologia qualitativa apreende o social como um mundo de significados passível de investigação e a linguagem comum ou fala é a matéria prima desta abordagem, isto é a fonte de análise ao ser contrastada com a prática dos sujeitos sociais (MINAYO, 1992, p. 23) Como técnica de coleta de dados escolhemos o relato oral, em razão da inexistência de informações a cerca do referido tema e em prol da necessidade de entender valores, cultura e crenças de um grupo específico, como dos agentes de portaria. Optamos pela história de vida tópica, como técnica de entrevista. Esta modalidade de entrevista estimula a narrativa livre, porém o pesquisador é quem determina o tema e, conseqüentemente, tenta impor limites, quando necessário, para não fugir ao objetivo. Paralelamente utilizamos observação participante, segundo a qual se estabelece relação direta com o objeto, dentro de seu próprio contexto, extraindo destas características e peculiaridades. Assim Iniciamos nossa pesquisa a partir dos indicadores sociais, de entrevistas de desligamentos feitas no 1Setor Psicossocial e de dados da Medicina e Segurança do Trabalho da Proguaru S.A. Também utilizamos vários acompanhamentos de casos por nós realizados, considerando esta etapa como uma observação participante, ao interagir diretamente com a realidade dos entrevistados. Com base nos indicadores epidemiológicos e sociais e na percepção crítica que construímos, selecionamos 4 pessoas com faixas etárias diferenciadas, com muito ou 1 Em 2008 e 2009 , segundo entrevistas de desligamentos da empresa, o agente de portaria foi o cargo que mais saiu da Proguaru com os percentuais de 34% e 43%, respectivamente. Em 2008 foi o segundo maior percentual de afastamento previdenciário pela empresa, prevalecendo como causa problemas de saúde mental ( incluindo uso de álcool e drogas) pouco tempo trabalhado na empresa, algumas se afastaram, outras nunca se afastaram pelo INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), tentando obter uma amostragem diferenciada e qualitativa. Para delimitação do número de entrevistas, foi utilizado “o critério de exaustão ou saturação, segundo o qual o pesquisador efetua entrevistas em número suficiente para garantir certas reincidências de informações, garantindo um máximo de diversificação e abrangência para a reconstituição do objeto no conjunto material verificando assim a formação do todo” (Minayo, 1992, p.33). Portanto selecionamos: 1- Agente de portaria admitido há menos de 1 ano com idade acima de 50 anos; 2 - Agente de portaria admitido há mais de 5 anos com idade acima de 30 anos; 3 - Agente de portaria admitido há mais de 5 anos com idade acima de 30 anos que tenha apresentado algum problema de saúde mental ou sido vítima de acidente; 4 - Agente de portaria feminina admitida recentemente. Posteriormente, colhemos o relato oral destas pessoas entendendo que cada fala é determinada por um contexto histórico, temporal, cultural. Consideramos a linguagem de um indivíduo como representação de um grupo, a qual assume um papel simbólico que simultaneamente é revelador de outros símbolos como valores e condições sociais. O roteiro foi elaborado com base em tópicos. O referido instrumento foi composto de 5 tópicos, o primeiro sobre histórico laboral, o segundo sobre centralidade do trabalho, o terceiro sobre o processo de trabalho, o quarto sobre trabalho noturno\monótono e desgaste e finalmente o último sobre condições de vida. O nosso leme se fixou em sua realidade objetiva de trabalho e de vida, cenário no qual eles objetivam o subjetivo2. Partimos da hipótese que a escolha deste tipo de trabalho é condicionada pelas relações sociais de produção na era globalizada e que se constitui em um trabalho precário, causador de desgaste, ao atingir suas condições de vida e de saúde. Para avaliar os conteúdos das respostas utilizamos além dos referenciais marxistas, conceito de carga e desgaste (Laurell e Noriega 1989). A carga de trabalho, segundo os referidos autores, representa o conjunto de esforços desenvolvidos para atender às exigências das tarefas. Este conceito abrange os esforços físicos, os cognitivos e os psicoafetivos (emocionais). Somado ao conceito de carga, vem também o de desgaste, que se define como o prejuízo da habilidade potencial e efetiva que media o processo de produção. A questão do desgaste e da carga está diretamente ligada à vivência do trabalhador, articulada à organização e à gestão do trabalho. A percepção dos agentes de portaria Conseguimos através da entrevista com os agentes de portaria concluir que a escolha da função não se relaciona ao fato dos entrevistados terem afinidade e desejo de exercê-la. Ela é estimulada, principalmente, pela busca de uma maior segurança nas relações de trabalho, sendo a suposta estabilidade, da Proguaru S.A, empresa pública, de administração indireta, vista como um ponto positivo do trabalho. MARX (1983) identifica que no trabalho capitalista há uma dificuldade do trabalhador se identificar com aquilo que realiza e esta situação atualmente está muito 2 Nunca nos esquecemos de que homens são os produtores de sua consciência. Todavia, consideramos que as circunstâncias sociais em que ela é produzida ultrapassam sua subjetividade. Assim, suas escolhas, seus modos de vida não acontecem sem influência social, que ultrapassam o desejo do indivíduo singular, evidenciando sua generalidade. presente no cotidiano da classe trabalhadora. Acreditamos que a extinção dos postos de trabalho faz com que o trabalhador se identifique ainda menos com suas tarefas laborais, uma vez que as condições objetivas do mercado de trabalho, muitas vezes, o impede de trabalhar naquilo que realmente gosta, causando desprazer no exercício da profissão: “Em primeiro lugar, o trabalho é exterior ao trabalhador, quer dizer não pertence a sua natureza, portanto, ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais” (MARX, 1983, p.25) Outro fato interessante é que nenhum deles possuía vínculo de carteira assinada na época em que a Proguaru S.A. os chamou para posse, evidenciando que estavam fora do mercado formal de trabalho, o que pode inferir a influência de determinantes sociais, tais como as condições sócio-políticas e econômicas em suas escolhas. Os vínculos instáveis, o desemprego estrutural são condições originadas, do processo de globalização econômica, que influencia a vivência dos indivíduos, e deterioram sua qualidade de vida, os estimulando a optar por profissões dentro da área pública. Desta forma optam pelo mercado formal de trabalho, o qual abrange direitos, tais como férias, 13º salário. Estes por sua vez são inexistentes nos vínculos informais. “ minha individualidade se torna estranhada” tal ponto, que esta atividade se torna odiosa, um suplício, e mais que atividade, aparência dela; por conseqüência, é também uma atividade imposta e o único sendo realizada a uma necessidade externa , e não interna (MARX, 1983, p.75) Observamos que o processo de trabalho em questão, por ser realizado no período noturno, o torna ainda mais monótono. Pela própria fragmentação e isolamento que permeiam a atividade mais presente é a relação dos seres humanos com as coisas. A relação no trabalho se dá com um objeto, ora a capacidade pessoal parece desaparecer, uma vez que para muitos zelar pelo patrimônio, à noite, parece algo vazio, sem interação e sem sentido. Nesta atividade as cargas se somam e potencializam. A entrevistada do sexo feminino alega passar 40 sem dormir, mostrando o comprometimento de sua capacidade cognitiva. Laurell e Noriega (1989) classificam a alternância de turnos como carga negativa, por acarretar déficit de sono e possível desgaste com comprometimento físico e psíquico. A perda de concentração e a fadiga gerada pelo déficit de sono evidenciam que esta organização de trabalho é alheia à natureza humana, podendo causar prejuízos a quem a exerce. Na verdade, a dinâmica do processo de trabalho no capitalismo compreende a relação de exploração. Logo o trabalho, em vez de ser uma atividade que gera prazer e satisfação, pode ser uma carga que leva mais ao desgaste do que ao desenvolvimento das capacidades. O processo de trabalho investigado também comporta riscos de segurança, haja vista o acidente ocorrido com o agente de portaria que, ao ser espancado no local de trabalho, ficou incapacitado para exercícios das funções diárias. A hiper valorização ao patrimônio evidencia ser este um tipo de trabalho que valoriza mais as coisas que as pessoas como referenda o velho MARX (1983) “a valorização do mundo das coisas aumenta na mesmo proporção da desvalorização do mundo dos homens”. Todavia o adicional noturno e a jornada de 12x36 são mecanismos que contribuem para opção do trabalho noturno, havendo uma “monetarização dos riscos” por aumentar o rendimento ao possibilitar a realização de outras atividades e paralelamente ser o 3adicional um ganho extra, indicando a necessidade de outras atividades como forma de sobrevivência. Mesmo diante das questões negativas reveladas em suas falas os funcionários, quando indagados se o trabalho possui riscos, afirmam não reconhecer as conseqüências do trabalho noturno para vida e saúde, o que pode sugerir alienação em relação ao processo de trabalho que desenvolvem , conforme cita MARX: “O trabalhador põe a sua vida no objeto, e sua vida, então, não mais lhe pertence, porém, ao objeto. Quanto maior for sua atividade, portanto, tanto menos ele possuirá. O que está incorporado ao produto de seu trabalho não mais é dele mesmo. Quanto maior for o produto de seu trabalho, por conseguinte, tanto mais ele minguará. A alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência externa, mas ainda que existe independentemente, fora dele mesmo, e a ele estranho, e que com ele se defronta como uma força autônoma. A vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil.” (MARX, 1983, p.153) A monotonia, a falta de valorização da profissão e a própria desvalorização do serviço público aparecem como pontos negativos no exercício da profissão, porém observamos que nenhum dos entrevistados apresentavam um discurso que aponte estratégias por melhoria das condições de trabalho e de articulação para mudar tal realidade . Apesar de serem filiados ao sindicato da administração pública, os funcionários desconhecem sua atuação. Pontuamos que esta realidade pode está ligada tanto à fragilização e o do movimento sindical como também a desmobilização dos trabalhadores, que observam suas carências e dificuldades como individuais sem condicioná-las a uma demanda coletiva. O fato de o trabalho ser realizado isoladamente, não tendo contato direto com pessoas da própria profissão, também contribui para que desacreditem no potencial da classe trabalhadora para reivindicar direitos. Os salários e benefícios da empresa são vistos como um valor muito abaixo do necessário para sobreviver, motivos pelos quais muitos possuem outros vínculos como forma de complementação de renda. Acreditamos que muitas das profissões, ligadas ao serviço público, passam pela mesma situação de baixa remuneração e condições de trabalho desfavoráveis, já que não estão ligadas diretamente à reprodução do capital e a geração de mais valia, o que potencializa a desvalorização das referidas ocupações. Ressaltamos que a relação com as chefias se apresenta também ser um ponto positivo para se trabalhar como agente de portaria, visto que não se apresentarem queixas quanto aos mesmos. Considerações finais 3 O valor do adicional é 30% da hora de trabalho. Agora pode haver algo diferente conforme a convenção coletiva de trabalho, no caso dos agentes de portaria o valor é de RS 45,00 Como afirma Antunes (2006), há um novo proletariado de serviços, que são estimulados a encontrar alternativas de trabalho em condições muito diferentes daquelas que já exerceram. As abordagens realizadas com os agentes de portaria confirmam a idéia de que a escolha do trabalho possui determinantes sociais que ultrapassam os desejos individuais. Mesmo mediante a todas estas situações pontuadas acreditamos que o mais importante para estas pessoas não é trabalhar como agente de portaria, mas trabalhar. Observamos que o sentido do trabalho, a questão do se sentir útil, do se valorizar enquanto ser humano, da sociabilidade, de conseguir bens para viver com a família, são pontos que contribuem para que permaneçam no cargo. As melhores condições de vida e os projetos pessoais estão diretamente ligados ao trabalho, se mostrando como indissociável da existência humana. Portanto corroboramos a idéia de que o ato de trabalhar é necessário a reprodução do indivíduo não somente como trabalhador, mas como homem que tem necessidade de se sentir útil e se sociabilizar. O trabalho é uma atividade teleológica através da qual se personifica intenções e projetos. Concluímos que o trabalho é um misto entre as obrigações determinadas pelo capital, mas que contraditoriamente faz com que as pessoas se sintam úteis. Na sua ausência elas parecem se tornar infelizes, como observamos o agente de Portaria, vítima do acidente, que afirmou que anteriormente ao fato era feliz no trabalho. Negar esta situação e a complexidade heterodoxa que é o ato de trabalhar, seria para nós fugir da realidade perceptível no discurso dos entrevistados. Em relação ao serviço social vemos a necessidade de uma postura que supere o que é somente demandado pela instituição. Acreditamos que atuar apenas no RH, com benefícios , nos ocasiona uma intervenção restrita e fragmentada, não dando conta da totalidade que abrange as relações de trabalho no mundo do capital. A área de saúde do trabalhador deve ser assumida em articulação um trabalho com equipe interdisciplinar, categorias como trabalho , desgaste e carga podem ser vislumbradas como mediações necessárias para compreender tal realidade. Dentro da saúde do trabalhador, a saúde mental e trabalho é um campo novo para o serviço social, o qual muito pode contribuir através da perspectiva de ampliação de direitos para classe trabalhadora. Não podemos perder de vista o cotidiano dos sujeitos e como coloca Netto (1981) sua heterogeneidade ontológica, manipulando as variáveis a fim de entender a realidade e depois propor mudanças. A demanda ao Serviço Social deve ser analisada dentro das relações sociais, vinculando as questões do cotidiano profissional dentro de uma ótica que assume a totalidade. As queixas e as necessidades de nossos usuários não devem ser pensadas e supridas de forma pragmática, como um pronto atendimento, mas observá-las como influxos da questão social, mais que encaminhamentos e respostas imediatas, precisam ser estudadas e investigadas evitando a mediocridade e a abstração de nossa prática. Finalmente o enfrentamento da questão do trabalho noturno e monótono e o desgaste por este causado deve se dar tanto no nível micro, dentro ambiente de trabalho, como, no nível macro através de políticas que intervenham nesta realidade. Poderíamos neste momento falar sobre a superação da ordem capitalista, visto que tal modo de produção é um dos grandes responsáveis pela implantação deste tipo de trabalho. Porém antes das pessoas lutarem por tal objetivo, precisam ter conhecimentos da precariedade a qual estão submetidas. O caminho para o possível discernimento, deve desmistificar a idéia de que podemos exercer qualquer tipo de trabalho, em quaisquer condições, sem a mínima proteção, sem nenhuma afinidade. Dentro desta premissa pensamos ser necessário programas que orientem os funcionários sobre os malefícios do trabalho noturno, medidas que os estimulem a lutar por melhorias de condições de vida de trabalho para que possam exercer a profissão consciente e os levem a compreender sua relação, de maneira mais clara, com o processo de trabalho. O trabalho interdisciplinar, incluindo a capacitação política das CIPAS (Comissão Interna de Prevenção de Acidemtes ) e sindicatos sobre o assunto, pode ser um caminho possível. Portanto mesmo não sendo corujas, nem morcegos, muitos seres humanos desafiam os próprios limites para exercerem seus trabalhos. Bibliografia ANTUNES, Ricardo . 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O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. São Paulo: Hucitec- Abrasco, 1992. NETTO, José Paulo. Capitalismo e Reificação. São Paulo: Ciências Humanas, 1981.