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P/1 – Dona Dóris pra começar a senhora poderia falar o seu nome completo, o local e a data de
nascimento?
R – O nome completo é Dóris Alexander, mas o meu nome de não casada é Fleischner.
P/1 – E o local de nascimento da senhora?
R – É Hildeshein, uma pequena cidade... É toda uma história, a cidade chama Hildeshein.
P/1 – E fica onde Hildeshein?
R – Fica peto de Hanover, Hanover é uma grande cidade na Alemanha é a próxima cidade a 35
quilômetros de Hanover, Hanoner é grande é importante.
P/1 – E a data de seu nascimento?
R – A minha data de nascimento é 18 de dezembro de 1923.
P/1 – E a senhora poderia falar o nome dos seus pais?
R – É Gertrude Fleischner... De nascimento? Esquece, Fleischner é de casada, ela nasceu Wolff, esse é o
nascimento é uma família muito conhecida no sul da Alemanha, ela casou com meu pai que era Max
Fleischner.
P/1 – E o que eles faziam? Qual era a atividade deles?
R – Ele era empresário de (Patminissor?) como se diz loja de departamento como o Mappin em cidades
médias da Alemanha. Então ele era... Em 12 cidades ele tinha loja grande, sabe aquelas pequenas cidades
como Campinas, São José dos Campos tem uma loja grande, ele na Alemanha em 12 cidades tinha
aquelas lojas grandes.
P/1 – E a sua mãe?
R – A mãe era pianista, fez a faculdade de música em Munique.
P/1 – E a senhora tem irmãos?
R – Eu tinha uma irmã que faleceu.
P/1 – A senhora era a mais nova ou mais velha?
R – Eu sou a mais velha, eu tive boa escola do Mackenzie em São Paulo de comércio, eu vivi como
secretária chefe de firma grande da Panambra, até que eu casei.
P/1 – E a senhora sabe alguma coisa da origem dessas famílias?
R - Tudo. O que você quer saber exatamente? Da mãe?
P/1 – De onde eles vieram? Como eles foram chegar a Hildeshein?
R – O pai nasceu na Áustria, mas aquela parte ficou da Tchecoslováquia depois da guerra de 18, o lugar
onde ele nasceu chama Mariambat que hoje nós temos casa lá é um lugar de... Como se diz? Recreio e lá
eles tinham casas e viveram lá normal. O meu avô era o pai do meu pai e como aquela cidade era uma
cidade turística, ele tinha um atacado de carne e recebeu carne, eu vi uma vez penduradas aquelas vacas
todas lá e distribuía para lugares, era como... Sei lá, Campos do Jordão, por exemplo, Campos do Jordão
deve ter um chefe para os hotéis que distribuem a carne, né? Então era isso que ele tinha naquela cidade.
P/1 – E a senhora passou a sua infância?
R – Minha infância não, meu pai saiu daquele lugar, ele foi pra Alemanha, porque aquilo tudo... A
Áustria era Boêmia, Tchecoslováquia, aí a gente tem que conhecer um pouquinho a história antes da
guerra, porque de nacionalidade eu sou tcheca. Como eles chegaram lá, sempre viveram lá, como o pai
chegou naquele... Era uma zona da Áustria simples, fazendas, o lugar era um lugar pequeno, uma village.
Lá eles tinham nove irmãos ou dez, dois morreram e os outros viveram e o avô que eu não cheguei a
conhecer, o pai daqueles nove produziam... Como se fala? Não é que ele matou bichos pra vender, ele
comprou e vendeu carne para aquele lugar, para aquele lugar Mariambat que todo mundo conhece perto
de Praga.
P/1 – E a senhora sabe como eles se conheceram? O seu pai e a sua mãe?
R – Se eu conheci?
P/1 – Não, como eles se conheceram?
R – Ah, como eles se conheceram? Isso já é complicado, a mãe era uma filha de pais que na Alemanha
tinha... Como se chama? Patminisor, loja de departamentos e meu pai era um homem muito... Também
desse ramo, eu acho que naquela época a avó pegou um homem rico, bem educado e desde o começo
você casa, mais ou menos foi assim, né? Aí casaram e forma para a pequena cidade da Alemanha onde
meu pai fez exatamente isso, ele tinha uma cadeia de Patminisor e vivemos muito bem até os nazistas
começarem... Nós vivemos muito bem, tínhamos uma enorme casa onde eu nasci, excelentes escolas, eu
fiz quatro anos de escolas israelitas muito bem dirigidas também um pouco religioso. E depois foi num
convento, porque naquela cidade tinham só 60 mil habitantes, dá pra anotar tudo isso mais ou menos?
P/1 – Dá, fica gravado, a senhora não se preocupe.
P/1 – Nesta pequena cidade a gente era alta classe, quer dizer uma pequena alta classe, minha mãe tinha
um quarteto que fazia músicas de câmara, meu pai era um líder em grupos, porque têm muitas cidades
pequenas que todas tiveram uma infraestutura completa, ele era um dos organizadores desses grupos que
tinham esses partminisor, nas pequenas cidades.
P/1 – E da sua infância a senhora se lembra do que a senhora gostava de brincar?
R – Brincar? Eu fui normalmente educada, eu fui excelente educada no jardim de infância, lá nós
brincamos normalmente de tudo, eu nasci numa casa grande com jardim, né? Fizemos esporte, na Europa
no norte tem inverno... O verão era uma coisa e o inverno era outra, então a gente esquiou, a gente nadou
tudo que na Europa... Perto de Hanover e Hanover é bem ao norte da Alemanha e lá nós passamos
tempos muito agradáveis, no começo da minha vida... Eu sou de uma família israelita liberal e fomos
normalmente educados sem grandes problemas, eu fui numa escola judaica quatro anos pra depois entrar
no convento, porque aí começou o nazismo em 33, 34 por aí quando eu fui a escola, era por aí. Aí com
crianças israelitas tinha problemas e o nosso convento foi muito mais liberal aquilo tudo.
P/1 – E dessa primeira escola a senhora se lembra de alguma professora marcante?
R – Primeiro a escola era uma escola como antigamente, um primário como era nos primários
antigamente, um professor que te ensinou de tudo, de alemão muito bem, até álgebra, tudo, quer dizer...
O professor aqui também era assim, ensinou tudo até o quarto ano e no quarto ano eu fui num convento e
lá já era diferente, era um convento.
P/1 – E a senhora era interna no convento?
R – Eu fiquei um tempinho interna, mas muito pouco tempo, em geral, eu fiquei um mês interna só que
foi bem chato, a gente tinha que tomar banho de camisola, a gente não podia andar de maiô era tudo bem
convento. Mas naquela época o nazismo começou naquela época quando eu era menina e a gente viu
coisas... Porque antigamente os alemães viveram muito bem com os judeus, muito bem mesmo e os
judeus tinham uma situação, uma posição cultural na Alemanha muito superior até que começou aquela
coisa que vocês já devem ter ouvido aqui que foi muito séria. Aquilo tudo estragou a vida de muitas
pessoas, milhares, milhões de pessoas se matavam friamente. E como minha mãe era muito viva, muito
inteligente, o meu pai menos móvel, sabe? Ele tinha uma cadeia de 12 Partminisor e crianças pequenas e
uma mulher jovem e largar aquilo tudo era uma decisão que ele não teve. Minha mãe decidiu um belo
dia, disse: “querido marido, eu vou sair da Alemanha ou você vai junto ou você fica aqui.”Aí ele foi
junto.
P/1 – A senhora tinha quantos anos?
R - Eu tinha 12, 11 para 12 e fomos pra... Primeiro me mandaram pra Inglaterra, nós tivemos uma
governanta inglesa e meu pai era tcheco e na Alemanha ele tinha um... Te interessa saber isso?
P/1 – Sim.
R – Porque os judeus e alemães foram muito perseguidos, agora um judeu que não era alemão como meu
pai não era alemão, ele tinha consulado, ele tinha proteção e o consulado um belo dia disse: “vocês vão
ter que sair daqui, porque aqui nós podemos controlar essa situação até certo ponto.” Aí nós crianças
fomos pra Inglaterra e ficamos meio ano numa casa de uma governanta que nós tivemos inglesa e depois
fomos pra Praga e ficamos em Praga com parentes e ninguém sabia que os alemães iam ocupar a
Tchecoslováquia e fazer a mesma coisa que eles fizeram na Alemanha. Então por sorte conosco deu tudo
certo, eu fiquei um ano em Praga, não aprendi tcheco, porque é difícil demais e fomos para uma escola
inglesa porque essas escolas são todas iguais, igual a Gradetet School aqui e até depois foi fuga mesmo.
Aí fomos de Praga pra Holanda onde a minha avó tinha uma irmã e ficamos com essa tia até que os
alemães chegaram à Alemanha também e fizeram a mesma coisa que eles fizeram em todos os países,
quer dizer eu não sou grande defensora dos alemães. E aí ficamos na Holanda muito bem recebidos e não
fizemos escola, daí fomos pra Inglaterra até que a guerra começou e fomos para... A guerra não
começou, mas já tinha ambiente de pré-guerra.
P/1 – E como eram essas viagens, eram viagens de trem?
R – Não, era de avião. Naquela época começaram os aviões e como meus pais eram muito progressistas
me puseram no avião... Eu tinha dez, 11 anos e minha irmã tinha três anos menos berrou o tempo todo,
eu tive que ficar com ela sozinha, nós sempre fomos... Eu vivi... Primeiro eu nasci numa cidade muito
bonitinha que era uma cidade barroca, histórica e lá foi uma cidade de 60 mil, 80 mil habitantes só e de lá
fomos passar um ano em Berlim porque minha cidade o anti-mimetismo em cidades pequenas, uma
pessoa que era dona de propriedades grandes lá, a maior loja que existia de patminisor foram muito
perseguidas. Aí um dia um motorista que nós tivemos jogou paralelepípedo no nosso quarto realmente
pra nos matar. Aí nós fomos pra Berlim e ficamos numa escola inglesa em Berlim uns meses, daí todo
mundo tinha que sair e fomos pra Holanda e ficamos mais uns meses e depois fomos pra Inglaterra e
fomos para o Brasil.
P/1 – Em Berlim eram as duas irmãs sozinhas?
R – Não, com pais, mas eles já liquidaram todos os negócios e a casa grande que nós tivemos só de
passagem mesmo sabendo de Berlim que iam arranjar mais imigração para o Brasil. o problema é que
naquela época todo mundo era pré-guerra e aquele nazismo crescendo tinham milhares de pessoas que
queriam sair da Alemanha e foi muito complicado de conseguir conhecidos que arranjaram vistos,
porque esses países como o Brasil, a Argentina, os Estados Unidos fizeram muitas dificuldades de
receber essas pessoas que tiveram que sair da Alemanha. Apesar de a camada que saiu culturalmente era
uma camada muito bem preparada, eram advogados, médicos, arquitetos todo a alta classe, porque os
coitados, os pobres não tinham jeito de sair, quem tinha jeito e tinha previsão e possibilidades saiu.
P/1 – E a senhora se lembra como foi que se chegou a conclusão que seria o Brasil o destino?
R – Eu acho que foi minha mãe, os pais que resolveram isso... Não, já tinha uma irmã aqui, uma irmã da
minha mãe já estava aqui. E depois também nós chegamos aqui... A dificuldade naquela época na
Alemanha era um clima muito tenso de conseguir vistos, todo mundo queria sair pra algum lugar porque
eles sistematicamente pegavam os judeus e matavam, né? Se alguém te conta isso de 1500 tudo bem, mas
em 1900 na nossa época e assim as coisas se desenvolveram, quem viveu dentro disso se virou, pra se
virar tinha que ter sorte, cabeça e dinheiro se você não tivesse uma coisa dessas você acabava.
P/1 – E a senhora se lembra do dia dessa viagem pro Brasil?
R – A data?
P/1 – A data não, como foi esse dia?
R – É lógico, eu me lembro de tudo, nós saímos da... Minha irmã e eu fomos sozinhas pra Praga, onde
tinha... Praga era Tchecoslováquia, quer dizer não tinha nada dos alemães naquela época, eu tinha
parentes lá porque meu pai era tcheco. E lá fomos muito bem aceitos, muito mimados porque na
Alemanha naquela época foi um inferno nem comida tinha direito, tinha liberdade, podíamos fazer
qualquer coisa e daí fomos pra Holanda e aí fomos para Londres até que essa papelada de imigração,
para onde ir... Porque o problema pra imigrantes é pra alguém que não consegue viver no próprio país,
tem que encontrar um país onde você tem possibilidade, era todo mundo acadêmico e minha mãe era
pianista, meu pai empresário, nós fizemos ótimas escolas. Bom, aí eu cheguei aqui.
P/1 – Mas a viagem saiu de Londres então pro Brasil?
R – Em Londres a minha mãe transfere cinco libras pra nós duas e diz: “podem passear e vocês voltam
cinco horas da tarde” aí nós saímos e conhecemos bem Londres e aprendemos muito bem o inglês e eu
com uma irmãzinha na mão o tempo todo, porque não tinha possibilidade de... Aprendemos, sabe?
Menina se vira muito bem em Londres, comemos num café, fomos ao cinema tudo pequenininhas e
cinco horas da tarde os pais arranjaram aquela papelada e a mudança. Nós tínhamos uma casa enorme era
um quarteirão com quatro ruas e a casa era enorme e o que deu minha mãe levou, agora levar aquilo
naquela época, sabe? Embalar, mandar não sabia bem onde, ela estava muito ocupada e nós ficamos
muito independentes, porque não podíamos amolar porque não. E assim o tempo passou, até que um belo
dia nós fomos pra Holanda e em Holanda nós tínhamos também parentes que cuidaram de nós tudo sem
dinheiro, porque os alemães não deixaram os judeus tirar dinheiro, só que meu pai primeiro não era
alemão, era tcheco e conseguiu mandar dinheiro clandestinamente, nós não estávamos tão pobres. E um
belo dia depois dessa época na Inglaterra que foi muito boa, nós embarcamos num navio excelente de
primeira classe, alto luxo, porque isso deu pra pagar ainda em outras moedas e chegamos ao Brasil. A
primeira coisa que minha mãe fez, o primeiro dia sem uma palavra de português mesmo, nada mesmo ela
nos enfiou numa escola, uma escola na esquina, ela não entendeu o português, eu tinha o quê? 12 anos,
13 anos, não eu tinha mais 13 anos e aí nós tivemos que aprender o português e pronto, conseguimos. Eu
acabei fazendo o Mackenzie e comecei a trabalhar.
P/1 – Mas a senhora se lembra das primeiras impressões que a senhora teve do Brasil quando chegou?
R – Eu sempre gostei muito, foi ótimo, tudo isso foi um ano de aventuras, entendeu? Então quando você
vive um ano, crianças e adolescentes dá uma certa insegurança na criança. Mas quando chegamos aqui
também éramos muito bem educadas, não fomos educadas para reclamar muito. Aí meu pai logo
comprou uma casa ali na Rua Veneza que nós vivemos 30 anos na Rua Veneza, 72 é quase na esquina
com a Estados Unidos, não sei se vocês conhecem lá eu vivi adolescente. Aí a minha irmã foi pequena
fazer no Mackenzie o ginásio e eu fiz só um curso de secretariado e com 17 anos comecei a trabalhar
numa firma que chama Panambra onde eu fiquei até 22 e aí eu casei.
P/1 – Antes disso, como foi a adaptação com a Língua Portuguesa? Foi fácil?
R – Fácil, simplesmente vivemos num ambiente, eu conheço um monte de gente que está na mesma
situação, não deu nenhum trauma. Quer dizer trauma era pra pais adultos trazer duas meninas de uma
idade terrível, um pai que já tinha trabalhado tudo que tinha que trabalhar, tinha que ver como ele
sustentava essa família que ele sustentou que tudo foi muito admirável, mas isso foi muito pessoal e que
mais? Só. Aí nós... Até meu pai trabalhou, minha mãe deu aula de piano, ela nem deu aula de piano, ela
deu... Pessoas que aqui... Tinha o senhor Crias que era um excelente professor de piano, ela deu aula pras
pessoas que estudaram para as aulas de piano, entendeu? E o tempo passou e a gente fez amigos, nós
crescemos, eu trabalhei na Panambra, eu tive uma excelente escola comercial, eu falava línguas, o nosso
grande charme era que nós falávamos alemão e inglês, português e mal o francês, mas dá pra falar.
P/1 – E a senhora se lembra dos primeiros amigos que a senhora fez no Brasil?
R – Era uma moça russa, a Rute que faleceu dois meses atrás que chegou da Rússia do mesmo jeito e
outros amigos, depois você conhece meninas, conhece logo grupos, gente que foi dançar que foi na
guerra, sabe? A guerra aqui não era dramática pra jovens, era séria, mas não era dramática como era pra
gente na Europa, a gente sofreu fisicamente. Até que depois da guerra a gente soube que toda a nossa
família foi morta pelos nazistas, todos, não sobrou um dos que ficaram na Europa sistematicamente eles
pegaram e mataram em campos de concentração, eram os irmãos do meu pai. A família da minha
sobreviveu e imigrou, os do pai não. E nós aqui a gente se adaptou muito rápido, jovem que não está
tapado todo mundo. Aí eu casei com 22 anos, eu casei com um arquiteto, eu fiz um curso de arquitetura
de interiores.
P/1 – Esse arquiteto que foi o seu marido? Como ele se chama?
R – Henrique Alexander é muito conhecido.
P/1 – E onde vocês se conheceram?
R – Nós nos conhecemos aqui, mas ele estudou na Alemanha também do mesmo jeito, chegou em 38 por
aí e quando eu era adolescente, ele já estava na idade de casar, a gente namorou normalmente e casou.
Tivemos uma ótima vida cultural e um lar muito bem dirigido, eu tive dois meninos, um é engenheiro e o
outro é relações públicas, ele faz aviação, tudo que você vê lá em cima é ele que organiza. Um casou
com a Shantalli que você conhece e a Natacha é minha neta e o outro não casou.
P/1 – Agora voltando um pouquinho pro curso de secretariado, aí a senhora foi trabalhar na Panambra?
R – Panambra é uma firma muito conhecida da época, depois parou porque eram grandes profissionais
europeus que abriram uma firma de exportação e importação aqui e foi super interessante pra nós,
primeiro éramos bem preparados, um grupo de meninas e depois eram as bonitinhas, eram umas loirinhas
de olhos claros, no Brasil no mercado era um sucesso. E todas as firmas européias que se instalaram aqui
ofereceram os melhores... Nós éramos muito bem preparadas, porque estenografia era uma coisa que
nem existe mais, mas também não sabia bem, mas em todo caso eu estudei. E aquela facilidade como
quem viveu na Alemanha e foi pra Inglaterra e viveu na Holanda e veio parar na América do Sul já tem
um pouco mais de facilidade social para se comunicar com... Depois da guerra, o que o Brasil é hoje,
começou depois da guerra que todo mundo veio de fora e as primeiras cabeças comerciais fizeram
ótimos negócios aqui no Brasil.
P/1 – E a senhora começou como secretária na Panambra?
R – Eu comecei como secretária na Panambra e cresci lá, eu também não sabia muita coisa, mas eu tinha
um curso, o curso não é nada, você tem que ter prática e quando você é mais ou menos espertinha e não
só eu, outras também, era uma época que jovens mulheres bem preparadas fizeram grandes carreiras.
P/1 – E dentro da Panambra a senhora ficou quatro anos?
R – Eu fiquei quase cinco anos na Panambra e subi ao máximo que a gente pode subir lá, eu dirigi muita
coisa, era uma firma de importação e exportação, o Brasil exportou praticamente tudo, porque na Europa
não tinha nada. Então essas firmas aproveitaram bastante exportaram e importaram, porque também não
tinha nada depois da guerra, hoje essas firmas daquele jeito não existem mais, mas naquela época era um
grande negócio exportação e importação. E tivemos muita farra, trabalhamos bem, cobraram tudo e o
ambiente era agradável, muito agradável. Até que um belo dia, eu casei, casei com um arquiteto que fez
boa carreira, eu fiz um curso de decoração de interiores e nós tínhamos até pouco tempo atrás uma
excelente firma de arquitetura, quer dizer ele fez a arquitetura e eu fiz o interior.
P/1 – E a senhora se lembra do dia do casamento? Como foi?
R – Lembro foi dia 25 de julho de 1900 e... Em que ano eu casei?
P/1 – Mas como foi? Independente do ano, como foi esse casamento?
R – O meu casamento foi joia, foi tudo em casa em 1946, o casamento... Primeiro meu pai olhou bem pra
meu marido que era um arquiteto que se formou na Alemanha muito legal, muito interessante. Depois
nós trabalhamos a vida toda, ele trabalhou, eu fiz decoração de interiores e trabalhamos juntos e tudo que
nós conseguimos fizemos juntos.
P/1 – E ele também era da colônia judaica?
R – Ele era.
P/1 – E foi um casamento judaico então?
R – O religioso? Em casa, não foi assim muito religioso... Foi, foi veio um rabino e deu a benção e
pronto.
P/1 – E aí vocês se mudaram? E foram morar onde?
R – Eu deixei o meu emprego na Panambra e nós abrimos uma firma de construção e de arquitetura e de
projetos e de decoração de interiores, tínhamos um grande escritório, ainda tenho.
P/1 – Que ficava onde?
R – Na Rua Brigadeiro Luís Antônio perto daquela maternidade, não sei se você conhece, tinha uma
maternidade ao lado. Lá ficamos até meu marido falecer, aí agora eu estou na Rua Nigéria, ainda tenho o
escritório existe ainda, eu estou liquidando as coisas, porque nós temos prédios, inquilinos, condôminos e
eu estou liquidando tudo pra liquidar tudo.
P/1 – Mas nessa época que vocês construíram a empresa de arquitetura a senhora se mudou com ele pra
casa do casal ou não?
R – Como assim?
P/1 – A senhora vivia com seus pais?
R – Não, eu vivi com meus pais e depois nós mudamos pra... O meu marido construiu pro José Mindlin,
os Pais do Mindlin um prédio, ele era muito jovem e no fundo do prédio o José, os pais do José Mindlin
fizeram uma dependência para os empregados do prédio, em cima nós fizemos um lindo apartamento pra
nós onde eu fiquei um ano morando. Depois eu fiquei grávida de um e foi na Rua Juquiá perto da escola
inglesa e lá ficamos 15 anos criamos filhos que frequentaram a Escola Inglesa e depois a gente mudou
para outras casas. Nós construímos casas e chegou alguém e falou com o meu marido que queria uma
casa. Então meu marido disse: “que tipo de casa o senhor quer?” o cliente disse: “ah, como a sua” e lá
meu marido vendeu oito casas desse jeito e eu mudei oito vezes e isso quase custou o casamento. Ele
construiu as casas, eu decorei as casas e chegou alguém que queria a casa, ele vendeu. (troca de fita)
P/1 – A senhora estava contando que era uma parceria essa empresa, né?
R – Ah, a nossa firma era um grande sucesso, nós tivemos muita sorte, porque eu consegui acompanhar a
arquitetura do meu marido, fiz contatos sociais, porque ele tinha dificuldade de fazer, porque arquiteto
nós tínhamos um grupo interessante, um grupo intelectual de arquitetos internacionais. Uma vez por ano
fomos a congressos e viajamos realmente eu tive sorte nesse sentido, eu conheci todos do mundo,
arquiteto, em geral, é uma personalidade interessante nem sempre muito equilibrado, mas interessante.
Assim nós conhecemos o mundo e vivemos a vida muito bem vivida com crises, uma vez melhor outra
vez pior, sempre tivemos boas casas, educamos os filhos, eu peguei mais uns de fora, uns sobrinhos que
não tinham... Priminhas que eu criei junto com os meus e hoje eu tenho uma turma muito simpática que
convive e depois a vida se desenvolve normalmente, né? Você fica mais velha, o mundo não é mais só
teu o mundo é dos outros, a gente viajou bastante, eu conheci pessoas muito interessantes do mundo de
Arquitetura.
P/1 – A senhora se lembra de alguma viagem assim que tenha marcado?
R – A cada dois anos mais ou menos fizemos viagens maravilhosas com ou sem congressos, foram
muitos congressos interessantes, em geral, nós fomos a congressos e viajamos sozinhos, eu conheço o
mundo. Bem, o meu marido era um homem... Ontem quando eu peguei as fotos eu vi em Firenze tem
uma igreja e naquela igreja tem portas da igreja barrocas e uma daquelas portas é um barroco muito
típico, muito especial. E eu tive que ir a Firenze olhar aquela porta e por acaso ontem a noite eu vi no
álbum e realmente é o máximo, mas quem tem que ir para Firenze para ver aquela porta? Tudo isso foi
muito interessante, é uma vida muito rica com bastante... Arquitetos não ganham sempre bem, ganham
mal e de vez em quando tem muita concorrência, mas tem muita coisa interessante porque tem muitos
congressos, com muita competência, tem que ganhar prêmios e tudo isso foi muito legal, eu não posso
me queixar. Infelizmente meu marido pegou câncer na próstata com 70 e poucos anos e morreu com 82 a
quatro anos atrás.
P/1 – E dessa época assim dos projetos e das concorrências, a senhora se lembra de algum projeto que a
senhora tenha gostado muito de trabalhar e que tenha ficado marcado na história dessa empresa?
R – Todas ficaram. Ele era muito conhecido, porque naquela época tinha um grupo de arquitetos da
turma que nós tivemos foi super interessante, tinha o Luciano, tinha o Bruno, eu conheci todos, convivi
com todos esses arquitetos da época que era um grupo muito que se deu muito bem, não tinha aquela
competição, era tudo mundo trabalhando junto, porque o Brasil se construiu justamente depois da guerra,
São Paulo, né? Ele fez indústrias, nós fizemos grandes indústrias, eu fiz interior, tem uma firma a Atlas
Copco muito conhecida e eu fiz ela sozinha. Agora meu marido sempre tinha aquele escritório de
construção ele me ajudou, mas na decoração não, houve épocas que eu tinha prazos fixos, eu dormi na
poltrona na Atlas Copco, por exemplo. E foi muito interessante, eu não tive um dia.. Eu tive minhas
preocupações, eu tive como todo mundo dificuldades, mas eu tive muita recompensa, eu tive uma boa
vida.
P/1 – E como que foi para a profissional a chegada da primeira filha?
R – Eu só tenho homem.
P/1 - O primeiro filho?
R - Muito simples. Bem normal, eu casei, eu fiquei grávida, eu tive um bebê normal todos os dois, eu
criei normalmente gostei de vez em quando e de vez em quando não gostei, são bem educados, hoje um
é... O Stefan é o pai da Natacha.
P/1 – E eles foram criados nessa casa da Rua Juquiá?
R – 15 anos eles foram criados na Rua Juquiá, depois nós vendemos, chegou alguém e queria aquela
casa, ele falou: “ta bom” e vende. Aí fomos pra Rua Panamá tem uma praça na Rua Panamá e fizemos
outra casa, isso foi uma crise no meu casamento, porque o meu marido fez lindas casas e chegou
alguém... Eu fiz um lindo lar e chegou alguém que queria a casa e lá foi a casa, ele nem perguntou o semvergonha e vendeu. E assim foi eu acho que com dez casas, oito, dez casas desse jeito, mas nosso
dinheiro nós ganhamos assim. E foi assim, aí nasceu o Stefan e casou com a Shantalli que é minha nora
que hoje está doente, ainda queria vir aqui também. E as crianças cresceram o Oliver vocês já
conheceram? O Oliver é meu neto irmão da Natacha, a Natacha vocês conheceram, né? E assim nossa
história vai e agora eu sou velhinha, eles devem criar... Continuar o mundo que nós construímos pra eles.
P/1 – E como foi a notícia da doença do senhor Henrique?
R – Isso foi muito sério, ele sempre sofreu da bexiga um pouco até que um dia deu um câncer, aí ele
viveu mais uns quatro, cinco anos sofridos, mas viveu, ele trabalhou até dois ou três meses antes de
falecer. Foi muito triste, ele foi muito conhecido, foi dentro da família também... Nós tivemos um
casamento bem normal assim, bem bom, companheiros, não é que a gente não tinha problemas, todo
mundo tem problemas, mas poucos a base era boa, nós tínhamos a mesma educação, a mesma religião e
tudo isso eu acho importante.
P/1 – E como foi essa transição de passar a viver com essa ausência?
R – Tudo isso é um grande... Uma pedra muito grande, não é fácil, a gente consegue... Eu nunca vivi a
vida do outro há mulheres que vivem a vida do outro, né? Eu vivi sempre a minha vida, mas deixa de ter
charme, sabe? Quando você tem um bom marido, nós vivemos bem, nós convivemos bem, porque
também é muito importante, nós viajamos e nós vimos o mundo, nós tínhamos os mesmos interesses,
sabe? Interesse em arquitetura, em viajar, em pintura, a maneira de viver, a procedência já era igual é
muito importante.
P/1 – E aí o que aconteceu com o escritório de arquitetura?
R – Continuei, acabei o que tinha que fazer ele existe hoje na Rua Nigéria nº 84.
P/1 – A senhora continuou tocando sozinha?
R – Nós acabamos... O que acontece, quando você constrói por conta própria, você tem propriedades,
então tem inquilinos, tem defeitos em obras, a manutenção de obras, agora está acabando isso aos
poucos, mas existir, existe, quer dizer a firma está lá. Mas isso não é normal na minha fase da vida, as
coisas acabam, a gente leva até o fim também um pouco de sorte, tem que ter boa saúde, tem que ter a
cabeça em ordem, tem uma turma que me respeita e eu respeito eles, tudo isso é dento do normal. Eu não
tenho grandes queixas, entendeu? É isso.
P/1 – Mas hoje a senhora ainda trabalha? Ou já encerrou?
R- Eu mantenho aquilo que eu tenho, eu não crio novidades absolutamente, Deus me livre, mas eu tenho
uma secretária de 20 anos, nós administramos aquilo que eu tenho. Eu tenho uma casa, eu tenho a firma,
eu tenho... Normal, nada de muito grande, muito importante, mas para nós deu durante 40 anos, 50 anos
uma boa vida, quer dizer foi muito bem administrado.
P/1 – E o Stefan já teve filhos, a senhora é avó...
R – O Stefan tem filhos, tem o Oliver e a Natacha, o Stefan casou com a Shantalli filha de franceses que
também foi muito bem educada e o Stefan também foi muito bem educado é engenheiro, arquiteto. Ele
fez um tempinho fora do país nos Estados Unidos com o irmão, o irmão fez mestrado, o Mike fez
mestrado em comércio e os dois graças a Deus estão se dando bem, porque são completamente
diferentes. O Stefan casou com a Shantalli e tiveram esses dois filhos, o Mike não casou...
P/1 – O Mike é o mais novo?
R - Não, o Mike é mais velho, ele chama Michael e hoje já tem 62 anos e não casou e não é bom, porque
tem que casar e o outro... É tudo normal, sabe? Nós levamos uma vida burguesa, mas boa, uma vida onde
todo mundo se interessa, eu tenho uma enorme família com primas e primos e todo mundo gruda e cada
um...
P/1 – A senhora disse que ajudou também na criação dessas primas? Como que é isso?
R – Na minha família aconteceu que casais se separaram na colônia, por exemplo, me trouxeram uma
menina pra educar, quatro anos e eu eduquei, quer dizer eu criei junto, a Mônica. Depois minha irmã
faleceu e deixou a Maria Volner também e ela está aí, mas ela foi muito bem educada pela mãe. Assim, a
minha casa ficou com... Como eu vou dizer casa aberta pra família e eu cuido muito disso, porque eu
acredito que quem convive bem com a família tem sempre uma segurança, todo mundo gruda junto, mas
um cuida civilizadamente do outro se for necessário. Eu não tolero grandes brigas e pronto é isso aí.
P/1 – Dona Dóris com toda essa trajetória de vida quais assim que a senhora acha que são os maiores
aprendizados da sua vida?
R – Primeiro você tem que ter um bom gênio, depois você tem que conviver bem com outras pessoas,
tem que ser tolerantes compreensivas é só isso. Quer dizer a gente tem que tentar se adaptar ao nível dos
outros, não ser muito diferente e dentro disso conviver bem, agora quem foi educado para saber que é
uma vida boa, quer dizer não viver só pelo dinheiro, só pelo prazer ou só pela comida, tem que viver de
tudo um pouco. Aí você vive uma vida boa de tudo, principalmente a gente tem que saber de cultura, tem
que aprender o que dá pra aprender, porque se você quer me ensinar matemática, pode esquecer porque
não dá. Mas se você quer me ensinar arte, sabedoria de vida é um sucesso, quer dizer tem coisas que
você assimila e coisas que não dá e assim a nossa vida mais ou menos funciona. Eu tenho uns priminhos
que nasceram aqui no Brasil já que são super... Tem sucesso na profissão e todo mundo estuda, nem todo
mundo tem grande sucesso, mas alguns têm e a gente vive numa vida normal.
P/1 – A senhora alguma vez voltou para Hildenshein?
R – Pra Hildenshein também muito.
P/1 – E como foi esse retorno?
R – Esquisito. É uma cidade tão pequena, então eu não conheci mais ninguém, nós tínhamos... Eu saí lá,
eu tinha 12 anos, então não fiz... A época que eu vivi lá não foi uma época muito tranquila, pra nós foi
porque nós crescemos numa casa, num quarteirão de jardim, você está mais ou menos separados, minha
mãe diz: “quer companhia? Chama pra cá” eu não sei muito daquela época, não foi uma boa época. É
totalmente incompreensível que um país como... Você é brasileira? Mãe, pai e tudo? Um país como a
Alemanha passou por uma época como esses alemães passaram é incompreensível, incompreensível é
que esses muitos judeus intelectuais que viveram na Alemanha eram ótimos alemães, eram ótimos como
se diz? Um sujeito que vive num país como é? Aqui no Brasil?
P/1 – Cidadãos.
R – Cidadãos excelentes e foram à guerra e perderam pernas e lutaram pela pátria, portanto que esse
adultos da época, eu não era adulta, até hoje eu não entendo como os alemães que têm uma certa história,
uma certa fama de não sei o que, conseguiam um povo inteiro, todo mundo foi a escola, todo mundo
aprendeu... Sei lá leu a bíblia uma vez ou aprendeu alguma coisa o comportamento que eles tiveram, eu
até hoje não entendo e eu estou no fim da minha vida como é possível? Isso em 1500, 1600 tudo bem,
mas essa época que eu me lembro disso... Alguém vai me explicar isso.
P/1 – A senhora se lembra como chegou a notícia do final da guerra? Como a senhora recebeu essa
notícia?
R – Mal, meu pai deixou... Minha mãe tinha todos os parentes aqui irmã, irmão e etc. meu pai perdeu
todos, todos, não sobrou um, porque eles viveram na Áustria e na Tchecoslováquia, os alemães
invadiram e mandaram os judeus direto para o forno é incompreensível.
P/1 – Mas e depois quando terminou a guerra que os nazistas foram vencidos?
R – Quando terminou a guerra nós não conseguimos nenhuma notícia e quando a gente conseguiu uma
notícia, a gente soube que todo mundo morreu, foi muito chocante, porque a gente conviveu como uma
família unida, não são aquelas famílias que uma não se dá com a outra, todo mundo era junto
convivendo... Meus primos, meus tios, meu pai tinha... Eles eram nove, dois faleceram normalmente, os
outros foram mortos pelos alemães. Outro tio meu lutou na guerra de 18, na primeira guerra mundial e
perderam perna, perderam não sei o quê? E foi mandado para um campo de concentração com uma perna
a menos que já... Eu nunca entendi e não vou entender, eles também não entenderam que ofereceram a
pessoa deles para a pátria foram mutilados e acabaram daquele jeito, né? Isso é uma coisa, uma história,
você fala com um alemão que vai te explicar, eu não posso te explicar isso.
P/1 – Agora e depois quando a guerra realmente terminou, porque a senhora já morava no Brasil, como
foi que chegou...
R – Ah, aí eu fiz a minha vida, eu casei e nós trabalhamos muito, investimos mais ou menos, fomos
super bem educados eu e meu marido, criamos filhos maravilhosamente bem, tivemos nossas
dificuldades normais. Um arquiteto com talento não tem sempre obras pra ter bastante dinheiro, nós
vivemos muito difícil, mas a gente superou aquilo tudo, eu também trabalhei, fiz um monte de decoração
de interiores comerciais, industriais e acabei quando meu marido ficou doente e não conseguiu mais
trabalhar e não conseguiu mais ganhar.
P/1 – Mas a senhora não se lembra como chegou a notícia do fim da guerra?
R – Eu me lembro perfeitamente, acabou a guerra e a gente tinha contatos lá ainda que durante a guerra
não eram acessíveis e a gente entrou em contato com... Aqui tem a Congregação Israelita Paulista, meu
pai era um fundador e esses fundadores dessas instituições tinham contatos na Europa, a primeira coisa
que ele tinha sete, oito irmãos lá, ele se informou, isso passou um mês até que ele não sabia o que
aconteceu.
P/1 – E a senhora soube pelo seu pai então?
R – Por intermédio... Eu já era grande, eu até providenciei, eu fiz o contato, mas internacional, na época
não tinha e-mail e essas coisas, mas tinha telegramas e telefonemas que também não era muito de praxe,
1945, não... A gente... Quando você atualizava na época, você fala no telefone, você manda um
telegrama, você tem e-mail e aquela coisa toda. Depois nós viajamos para a Europa, ele também viajou
pra Europa, eu fui lá na casa onde tinha... Algumas casas, ele tinha casa em Hildenshein que era uma
enorme casa numa cidade pequena e tinha essa casa nas montanhas na Tchecoslováquia que é o lugar
mais lindo do mundo. Hoje quando eu... De vez em quando a gente se lembra, porque você vive a vida
atual, a Floresta da Boêmia tem um cheiro, eu posso te explicar que cheiro? É uma planta, uma árvore
que a floresta cheira de acordo com aquela árvore é a coisa mais gostosa do mundo. Quando eu deito na
cama e penso assim na minha infância, eu penso naquele cheiro que entra no meu nariz é uma coisa
muito gostosa, sabe? É isso não tenho... Tenho boas memórias, boas lembranças e também outras não,
não era tudo só alegria, tem bastante dor de cabeça na vida, mas você tem que lutar e tem que se impor.
P/1 – Dona Dóris, hoje quais seriam os seus sonhos assim pro futuro?
R – Na minha idade se quer boa saúde, quer os filhos que se resolvem bem, a Natacha que encontre um
bom marido e volta de Paris para cá e não viva sozinha no mundo que eu acho que não é uma coisa boa.
Eu acho que a gente tem uma boa família, a gente tem que viver juntinho e por um acaso é uma grande
sorte... Eu tenho muita sorte, ter uma família com 35 pessoas e nem todo mundo tem que ser igual, ela
pensa igual a mim, ela adora estar aqui, mas a gente não está muito junto. Eu quero tudo em ordem, não
quero... No fim da vida a gente quer um fim de vida cheio de harmonia e sem grandes problemas é isso
que é o meu sonho e um dia eu quero deixar essa família bem como eu tentei deixar. Eu tenho um filho
mais velho que é muito simpático, também não casou eu gostaria que ele tivesse família, eu sou uma
grande amiga de uma boa família. Eu acho importante, têm pessoas que odeiam família, eu não, eu gosto.
P/1 – Alguma história dona Dóris que a senhora gostaria de ter contado e que a gente não perguntou ou
não ficou oportunidade?
R – Olha, têm tantas histórias interessantes na minha vida, especial, especial, eu não posso te dizer, mas
assim a minha juventude era aquilo que eu te contei, era movimentada, não era nem pra todo mundo
fácil, mas eu superei bem. A minha adolescência também foi normal, o meu casamento também normal,
não foi sem problemas, mas também não foi grandes problemas deu pra fazer um bom casamento. Os
filhos normais, o Stefan casou bem e teve a Natacha e o Oliver, duas crianças, uma mulher simpática. E a
gente tenta viver dentro de certas tradições que eu faço questão, eu acho que eles não, eu sinto que no dia
que eu não estiver mais aí talvez eles não vão viver essa tradição toda, mas eu acho que isso segura a
família e dá certa segurança da personalidade de cada um deles e dos outros, eu acho importante. Num
feriado quando eu sento lá e vejo 30 pessoas tudo meu, eu gosto, eu me acho mais rica em experiências
humanas, sobretudo as pessoas que conseguem se desfazer de certas coisas, certas obrigações e a gente
tem obrigações na vida e vivem melhor se você cumpre essas obrigações.
P/1 – O que a senhora achou dona Dóris de contar a sua história?
R – Eu gosto, eu já fiz isso, como eu frequentei todos os grupos, eu já fiz isso, eu acho agradável, não
tem nada que... Tem muita coisa chocante se você pega um... Muita coisa agradável, algumas coisas que
não são agradáveis, algumas coisas tristes é tudo muito humano, na minha vida não tem nada, eu não vou
dizer que... Teve problemas, mas problemas humanos, eu tive um marido super inteligente, por exemplo,
foi muito complicado viver com um gênio, gênios sempre têm erros... Ele era ótimo arquiteto e naquela
época tinha um grupo de arquitetos aqui, poucos brasileiros todos muitos simpáticos e nós tivemos uma
sorte... Eu de conviver com toda essa turma de arquitetos internacionais, essa foi a grande riqueza da
minha vida social e curti muito a família, eu conheço todos os arquitetos, viajei o mundo em congressos,
nem tudo podemos fazer, mas muito fizemos, conhecemos uma classe de intelectuais que é difícil
encontrar e nós fizemos parte disso que é bom. E convivi com pessoas de alto nível e tudo isso eu desejo
para os outros, ta certo?
P/1 – Muito obrigada pela sua entrevista.
Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002
tel +55 11 2144.7150 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
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