CADA
CAMINHO
UMA
VERDADE
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O fotógrafo carioca
Julio Fonyat viajou, por
terra, de San Diego ao Rio
de Janeiro, acompanhado
dos amigos Pedro Scooby e
Felipe Munga. As experiências
ao longo do caminho resultaram
no programa Expedição Américas
exibido pelo canal Off. Aqui você
confere algumas das melhores imagens
registradas e uma seleção dos trechos
mais carregados de emoção do diário de
bordo.
Fotos e texto por Julio Fonyat
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Já dizia um grande sábio centro-americano, na dúvida
peça aconselhamento a uma boa rede. Scooby
ponderando a escolha certa na Guatemala.
O tão esperado dia que começaríamos o The Rio Project. A promessa do melhor dia que eu
já tinha visto em Todos Santos me tirou da cama antes do sol nascer. Scooby havia chegado de
madrugada de Los Angeles, vindo do Rio de Janeiro. Ainda nem o tinha visto... apenas escutara
ele chegar por volta das 2 da madrugada. Scooby estava exausto, tinha dormido apenas duas horas
no voo. Munga já estava acordado arrumando o carro. Antes mesmo de eu estar completamente
desperto, escutava o barulho do Munga carregando as pranchas. As “guns” que seriam usadas
em Todos Santos não cabiam na caçamba, teriam que ser amarradas no teto. O swell era perfeito
para Todos Santos. Teríamos sol, tamanho bom, terral. Todos os elementos apontavam para o
melhor Todos Santos que eu já vira. A ideia era surfar dois dias, e quando o swell baixasse, retornar
para San Diego para deixar as pranchas grandes, que não usaríamos mais até o Brasil.
***
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Sob o céu imensamente estrelado de
Chinandega, na Nicarágua, Scooby, Julio
e Munga agradecem a realização de um
sonho e renovam seus pedidos para
muitos outros.
Dirigimos por duas horas desde Tijuana até a fila para cruzar de volta para os Estados Unidos.
A maior fila que eu já havia visto. Começamos a esperar pacientemente. Um desastre. Mais de três
horas e ainda estávamos no quase lá. Fome, vontade de ir ao banheiro, cansaço. Não víamos a hora
de chegar a nossa vez. Chegou e foram pedidos os nossos documentos, como de costume. Munga
estava com todos os passaportes e deu para o oficial de imigração. O passaporte americano dele,
meu Green Card e o do Igor, e o passaporte brasileiro do Scooby, com o visto de turista. O oficial
colocou nosso nome no computador e perguntou quem era quem, solicitou que aguardássemos,
pediu a chave do carro, fechou a cancela e saiu. Ficamos esperando, conversando sobre as ondas de
Todos Santos. Começamos a perceber que havia algo estranho no ar. Uns 100 metros à nossa frente,
dois policiais tiraram às pressas de um carro uma família que estava na inspeção secundária. Um
policial levava o casal e outro corria com as crianças, segurando as duas pelas mãos. Reparei que o
Munga olhava pelo espelho retrovisor lateral fixamente por alguns segundos. Após um sorriso sar‑
cástico, ele nos informa que atrás do WaveRunner havia um policial em pé, apontando uma pistola
para o carro. Scooby disse para o Munga não fazer esse tipo de piada. Eu olhei rapidamente para trás
e realmente havia um policial em pé, logo atrás do WaveRunner, apontando uma arma para a gente.
Silenciosamente, todos entenderam a razão pela qual evacuavam aquele carro à nossa frente: para
que não fosse pego no fogo cruzado, no caso da polícia abrir fogo contra nós. Alguns segundos de
tensão e passaram a se comunicar com a gente por um megafone. Mandaram o motorista sair do
veículo, com as mãos para cima. Munga gritou, em desespero, que estava com o cinto de segurança.
A voz respondeu que ele deveria tirar o cinto. Munga abriu a porta, fechou e começou a andar para
trás. Ficamos em silêncio, aguardando no carro. Eu achava que estavam perguntando alguma coisa
para o Munga e que ele retornaria para o carro em alguns minutos dizendo que tudo tinha sido um
engano. A voz do megafone mandou o passageiro sair do carro. Até então, eu nem tinha cogitado
essa possibilidade. Sou uma pessoa muito otimista, mas não tinha jeito. Era minha vez. Com a mão
tremendo, abri a porta e saí do carro, olhando para frente e com as mãos erguidas acima da cabeça.
Fui instruído a andar de costas, com a mão pra cima. Tropecei na roda do WaveRunner e quase caí.
Sentia o forte cheiro do monóxido de carbono, das centenas de carros e caminhões parados, aguar‑
dando para cruzar a fronteira. A voz do megafone ordenou que eu parasse, com um forte “stop!”, e
depois mandou levantar minha camisa e dar uma volta completa, para saber se eu tinha alguma
coisa na cintura. Levantei a minha camisa e comecei a dar a volta. A primeira coisa que vi foi o
Munga algemado, de joelhos. Meu coração disparou e subiu até a garganta. Depois disso, tive o que
apenas posso descrever como uma das sensações mais estranhas que eu já senti em toda a minha
vida. A visão de dezenas de policiais uniformizados da SWAT se confundia com o vermelho intenso
do raio laser das armas. Parecia um filme de Hollywood. Policiais deitados no chão, atrás da porta
de carros, de joelhos, em pé. Olhei para baixo e vi muitos pontos vermelhos em minha barriga e
quatro bem no meio do meu peito, em minha camisa branca. Terminei a minha volta, que demorou
apenas poucos segundos, mas que pareceu durar uma eternidade. Foi quando realmente percebi a
gravidade da situação. Não estava preocupado em saber o que eles achavam que a gente tinha feito,
estava preocupado em não tomar um tiro de algum daqueles agentes da SWAT. Comecei a andar
para trás de novo, como instruído pelo oficial no megafone. Alguém abriu a porta do carona do carro
e um policial gritou com uma voz muito nervosa. Nessa hora, o policial não falava mais no megafone,
apenas gritava, pois estava a poucos metros de mim. De repente o policial me mandou parar, dar
três passos para a esquerda, ajoelhar, e me algemou. Ajoelhei tão rápido, que ralei meus dois joelhos.
Levantei e perguntei ao policial o que havia acontecido. Muito calmo, ele me disse que o nome de
um de nós apareceu em alguma busca, mas que possivelmente era um engano. Percebi então que o
Igor estava sendo retirado do carro e passando pelo mesmo processo que Munga e eu havíamos
passado. Consegui dar uma relaxada, pois agora as armas não estavam mais apontadas para mim.
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Igor não mudava as feições, não parecia assustado ou com medo. As
cancelas da fronteira haviam sido fechadas, com uma grade. As pes‑
soas olhavam de dentro de seus carros e filmavam com seus telefones
celulares. Me lembrei que o Scooby não falava nem uma palavra de
inglês e teria dificuldade de seguir as ordens. Como os ocupantes do
carro estavam olhando para frente, não viam o procedimento que os
outros estavam passando. Avisei para o policial que segurava minha
algema que o próximo a sair do carro não falava uma palavra de inglês,
e que se ele tivesse que seguir aquelas ordens, corria o risco de ser
morto por não entender! O policial federal me assegurou que sabiam
lidar com essa situação, por ser um time posicionado na fronteira.
Fiquei um pouco mais tranquilo. Fomos levados para uma sala e revis‑
tados, um por um. Tiraram nossos anéis, telefones, carteiras, cordões.
Algemado com as mãos para trás, tive que colocar a testa em uma
mesa baixa e abrir as pernas. Uma posição bem incômoda, no mínimo.
Fomos colocados sentados em quatro bancos diferentes. Tiraram fotos
de cada um, com nossas medidas atrás. Depois disso, recolheram
nossas impressões digitais, em uma máquina muito moderna. Esse
processo demorou algumas horas. Estávamos com frio, fome e von‑
tade de ir ao banheiro. A policial no comando era bem brava, baixinha
e gordinha. Não nos deixava conversar, e deixou claro que não iria
aturar desordem naquela sala. Apesar de não sabermos o que estava
acontecendo, como já não havia mais armas apontadas para nós, ro‑
lava uma certa calma. Tentávamos nos comunicar e sempre acabáva‑
mos rindo descontroladamente, ou sendo pegos falando. A policial
ameaçava nos colocar em celas individuais. Munga pediu para ir ao
banheiro e, contra a vontade, a policial deixou. Chamou um agente
homem para levá­‑lo e seguiram para os fundos da sala. Fiquei feliz,
pois também precisava ir ao banheiro. Quando o Munga voltou, per‑
guntaram se mais alguém queria ir ao banheiro, e sem hesitar, levantei
a mão rapidamente. Sem muitas instruções, o policial me levou por
um corredor escuro, até uma cela, com porta de metal, e levantou a
sobrancelha, indicando que o banheiro era ali dentro. Entrei pela
porta, e logo avistei uma privada de metal. O forte barulho da porta da
cela fechando me assustou. Usei o banheiro e fiquei mais relaxado.
Comecei a olhar as pichações e grafites na parede da cela. Logo me
veio à cabeça que aquilo que eu esta vivendo era uma situação única
e uma oportunidade de ver como aquelas coisas realmente aconte‑
ciam na vida real. Havia grafites de gangues de Los Angeles, muita
coisa abstrata, frases destinadas a pessoas amadas. Imaginei a solidão
das pessoas que passavam as noites naquelas celas. Bati na porta com
força, o policial abriu e me levou de volta para meu banco. Scooby e
Igor também usaram o banheiro. Depois de muitas horas, já era meio
da madrugada e ainda estávamos sentados, sem ter ideia da razão pela
qual nos encontrávamos ali. Imaginava que nossas esposas e namora‑
das deveriam estar muito preocupadas. Sem nenhuma explicação,
outro policial, que não havia aparecido até então, chegou segurando
uma cesta com os nossos pertences. Disse que o carro e o WaveRunner
estavam do lado de fora e que podíamos ir embora. Tudo não havia
passado de um engano. Uma mistura de revolta, alívio e confusão
tomou conta da gente. Entramos no carro e todos falavam ao mesmo
tempo. Ligamos para nossas esposas e namoradas, que estavam muito
nervosas. Elas conseguiam ver pelo GPS do telefone que estávamos na
fronteira, mas que não saíamos de lá. Mais tarde, nos disseram que o
carro fora levado para diversos lugares diferentes, provavelmente para
ser revistado de todas as formas possíveis.
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A viagem começou com o nível de
adrenalina bem lá em cima, mais ou menos
da altura de uma onda da série em Todos
Santos. Se o Scooby completou o drop?
Pode ter certeza que sim, Julio enviou a
sequência completa.
Seguíamos a pequena rua de terra que levava à beira do mar,
quando percebemos que o carro perdia força. A areia ficou muito fofa
e começamos a atolar. Não havíamos andado nem dez metros na
areia, pela primeira vez, e Munga já havia nos atolado. A situação
apenas piorou quando ele tentou nos soltar, com o 4x4. Saímos do
carro para ver. Estávamos praticamente enterrados. Os pneus esta‑
vam debaixo da areia que encostava no chão do carro. Faltava uma
hora para o pôr do sol e não sabíamos o que acontecia ali naquela
fazenda suspeita durante a noite. Tiramos tudo do carro para dimi‑
nuir o peso e começamos a cavar com a única pá que tínhamos. Sem
nenhum lugar para prendermos o guincho ficávamos sem opção.
Dois funcionários da fazenda se aproximaram, devagar. O dono havia
ido embora. Os funcionários nos emprestaram mais uma pá e fica‑
ram olhando de perto. A noite caía rapidamente e a preocupação só
aumentava. Enquanto cavávamos, os dois homens, Raul e Alejandro,
tentavam nos convencer a passar a noite na praia por não ser seguro
voltar à noite. Diziam que podíamos dormir em uma pequena casa
que usavam para guardar ferramentas e apontavam para uma cons‑
trução de madeira, perto de onde deixamos o WaveRunner. Víamos
claramente que os homens tinham armas na cintura. Suas camisas
frouxas não escondiam os revólveres na parte de trás de suas calças
jeans. A insistência para passarmos a noite ali nos deixava confusos.
Nos reunimos rapidamente na frente do carro, fora do campo de
visão de Raul e Alejandro. Munga lembrou da pista de avião, estufas
com ventilação, piscinas de camarão vazias. Um rápido silêncio
tomou conta de nossa reunião, e todos chegaram à mesma conclu‑
são, ao mesmo tempo: aquilo era uma fazenda de maconha. Munga
e eu ficamos ainda mais encanados. Scooby era o mais tranquilo. Na
escuridão já não víamos mais nada. Cavávamos compulsivamente,
enquanto os dois homens observavam e puxavam assunto de vez em
quando. A situação era muito tensa. Nosso carro estava atolado em
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Abaixo, acampados em La Bamba, México,
onde Julio encontrou o cenário ideal para
registrar Scooby exercitando suas acrobacias
aéreas, nessa foto. Na foto menor, Munga
toma notas de viagem em seu próprio corpo,
em Playa Hermosa, Costa Rica.
uma fazenda de maconha, no México. O dono sabia que tínhamos visto as es‑
tufas, os aviões, as piscinas vazias, e sabia que tínhamos aparelhos de GPS. Es‑
távamos certos que os empregados nos matariam assim que conseguíssemos
tirar a truck dali, para que não corressem riscos de serem identificados ou loca‑
lizados. Munga teve a ideia de manter a faca por perto. Utilizávamos nossas
poucas lanternas e não conseguíamos ver muitos metros além do carro. Uma
outra pequena lanterna iluminava a casinha que os empregados usavam como
sede. Era uma casa de mais ou menos 4 x 5 metros, feita de madeira. Não con‑
seguíamos encontrar a faca que havíamos fincado na areia. Havia muitas coisas
largadas em volta do carro e ficamos achando que os funcionários da fazenda
poderiam ter pegado. O pânico só aumentava. O tempo ia passando. Já estáva‑
mos tentando desatolar o carro há aproximadamente 4 horas e nem sinal de
sucesso. Enquanto dois cavavam, um olhava em volta. Raul e Alejandro andavam
da casa para o carro, parecendo não ter nada para fazer. Comecei a pensar na
possibilidade de morrer naquela praia, no meio do México, por um motivo
muito bobo. Passou pela minha cabeça que possivelmente nossas famílias
nunca iriam saber o que aconteceu com a gente. Scooby achou a faca. Não
conseguimos mais ficar tranquilos, pois os funcionários desapareciam em dire‑
ção à casa, e não podíamos ver eles se aproximando. Um pensamento veio à
minha cabeça, e eu tive que falar em voz alta. Disse que se fosse para acontecer
o pior, eu preferia ser o primeiro. Assistir aqueles homens matarem o Scooby e
o Munga seria muito sofrimento. Os dois ficaram quietos. O carro estava quase
desenterrado. Havíamos esvaziado os pneus para facilitar a saída do buraco.
Raul descia pela rua, vindo em nossa direção. Dessa vez, ele não acendeu a
lanterna. Me arrependi muito de ter parado naquele cemitério, mais cedo. Será
que havíamos mexido com alguma energia que não devíamos ter mexido?
***
Acordamos às 5h da manhã, com o Munga abrindo o carro. Resolvemos
dar uma olhada em Barra de La Cruz, para ver se o mar havia melhorado um
pouco. Entramos no carro, e deixamos o Scooby dormir mais uns minutos.
Chegando ao pico, apesar de sem vento e com sol, as ondas estavam ainda me‑
nores. Praticamente insurfáveis. Não seria dessa vez que eu veria a famosa onda
de Barra de La Cruz quebrando perfeita. Voltamos para o hotel e no caminho
decidimos seguir viagem. O próximo destino era um lugar que eu estava ani‑
mado para conhecer: La Bamba. Era um point break de direita, a mais ou menos
uma hora de Barra de La Cruz, do qual eu havia escutado muitas histórias e visto
muitas fotos. Empacotamos nossas coisas, nos despedimos dos amigos que ha‑
víamos feito e continuamos a viagem para o sul. A estrada era típica: muito ruim.
Finalmente chegamos à onda. Foi uma das visões mais incríveis que já tive. Uma
pedreira desativada dava um sentimento de abandono e solidão. As ondas pe‑
quenas e perfeitas corriam depois que batiam no mole de pedra, feito pelo
homem para facilitar a saída dos barcos. Na areia, alguns barcos mostravam que
havia pescadores no local. Não víamos nenhuma casa próxima. Atrás da onda,
uma enorme duna de areia que eu só havia visto em filmes, enfeitava o fundo.
Dirigimos sobre uma areia muito branca e muito fofa, e ficamos com medo de
atolar mais uma vez. Dessa vez, passamos rápido, para ver se era a melhor ma‑
neira pra não atolar. Foi tranquilo. Decidimos colocar o WaveRunner na água,
depois de ver as ondinhas perfeitas por alguns minutos. Munga e Scooby foram
dar um rolé para procurar outras ondas e aproveitei a oportunidade para pegar
umas marolas. Peguei várias ondas para a direita, sozinho! As melhores marolas
que eu tinha surfado na viagem, fiquei muito contente. A onda era muito boa
para mim, fácil de dropar, mas rápida no inside, com um pequeno tubo. Peguei
altas ondas! Finalmente, era o que queríamos! WaveRunner na água, só nós três
no pico, carro na areia, água quente. Aquela cena era exatamente o que eu tinha
visualizado esses anos todos planejando a viagem! Estávamos amarradões! Tow
in, tow at, step offs… Muita diversão. Dois no WaveRunner e um remando nas
marolas. Só nós, ninguém mais. Aquilo para mim era o paraíso.
***
Acordamos às 4h30 com o despertador. Havíamos combinado de buscar
Jacson, nosso guia, às 5h30 para que nos levasse para a onda. Tínhamos que sair
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rápido. Ainda deitado, eu escutava o forte vento balançar as árvores. Sem falar nada,
pensava que as ondas só poderiam estar boas se achássemos um lugar em que o
vento soprasse terral. Era um vento muito forte, com rajadas mais fortes ainda.
Buscamos Jacson em sua casa e seguimos em direção à praia. Jacson morava em
uma área bem simples, onde casas eram construídas em cima de outras casas e
havia muitas grades. Seguimos em direção à praia, batendo papo com nosso guia.
Chegamos a um point break muito bonito, com uma duna de areia branca.
O vento bagunçava as ondas, mas conseguíamos ver o potencial. Quando Jacson
disse o nome, me lembrei das fotos que havia visto daquele lugar. Realmente,
aquele pico tinha seus dias de glória, especialmente com mais swell e vento certo.
Só não era naquele dia. Decidimos continuar a busca. Saímos da praia, pegamos o
carro, e seguimos a liderança de Jacson por um caminho paralelo ao mar, mas não
víamos as ondas por causa das casas. Chegamos a um vilarejo onde as pessoas
usavam roupas coloridas à maneira dos ciganos. Paramos o carro e seguimos por
um caminho até a praia. Era um beach break em uma praia muito grande. O vento
soprava forte, dessa vez, terral. Não havia ondas no momento que chegamos.
Poucos segundos depois uma onda perfeita quebrou para a direita e um tubo, no
qual cabia uma pessoa em pé, rodou por alguns segundos. Scooby e Munga come‑
moravam a descoberta. Os dois correram para pegar as pranchas e eu comecei a
fotografar, pois já estava com a câmera na mão. Uma senhora local, com uma roupa
rosa, estava sentada observando as ondas, no lugar perfeito para uma foto do li‑
neup. Durante os cliques, sabia que estava fazendo algumas das melhores fotos da
minha vida. Árvores muito pitorescas davam um toque especial ao cenário. Não
havia ninguém surfando. A onda era buraco, um tubo perfeito. Era só dropar, colo‑
car para dentro, e tentar sair. O vento terral segurava o lip da onda e Scooby e
Munga conseguiam andar bastante dentro dos tubos. Munga perdeu a prancha por
estar sem cordinha. Enquanto ele nadava, o vento terral levou sua prancha para o
outside, como se fosse uma pena. Eu nunca vi uma prancha voar daquela forma.
Scooby remou forte e conseguiu alcançar a prancha. Acredito que Munga teria
perdido a prancha se Scooby não tivesse agido com rapidez. Foi uma sessão de fotos
inacreditável. Fiquei muito feliz com o resultado. Quem diria que o dia que havia
começado com tanto vento, e tantas dúvidas, iria se tornar tão produtivo. Munga
saiu do mar e ficamos conversando. Scooby ainda pegava altos tubos. Estávamos
prontos para almoçar. Esperávamos Scooby sair da água para procurar alguma coisa
para comer. Reparamos em uma família na beira da água, mais uma vez, vestindo
roupas coloridas. Eram duas mulheres idosas e algumas crianças. Não entendíamos
direito o que estavam fazendo ali, de costas para o mar. Chegamos perto e repara‑
mos a presença de uma tartaruga marinha na areia, botando seus ovos. Foi então
que percebemos o que estava acontecendo. Aqueles ciganos esperavam a tartaruga
colocar os ovos para pegá­‑los e também capturar a tartaruga. Sabendo que essa
forma de pesca predatória é responsável pelo risco de extinção desse animal fabu‑
loso, ficamos pensando o que poderíamos fazer para salvar aquele animal. Uma
mistura de raiva, indignação e tristeza tomou conta da gente. A boa vibe que eu
sentia por ter feito aquelas fotos deu lugar a um sentimento de decepção. Uma das
senhoras começou a colocar os ovos dentro de um saco que haviam levado. A outra
pisava na nadadeira da tartaruga, para que ela não retornasse para a água. Resolve‑
mos tentar conversar com as senhoras, na esperança de salvar aquela tartaruga.
Conversamos muito explicando as consequências do que elas estavam fazendo.
Não ficou claro para mim se elas estavam entendendo. Conseguimos convencer as
senhoras a deixar a tartaruga ir embora. É possível que elas tenham achado que
daríamos algum dinheiro. Discutimos a possibilidade de comprar aqueles ovos
delas para que pudéssemos deixar eles ali, mas nos demos conta que elas tirariam
os ovos da areia assim que fossemos embora, com ou sem dinheiro. Olhamos a
tartaruga, cansada, chegar à beira do mar e ser levada pelas ondas. Podíamos ver
lágrimas saindo de seus olhos. Tenho certeza que aquela situação era bem estres‑
sante para o animal.
Esperamos a tartaruga sair nadando. Fiz umas fotos das senhoras recolhendo
os ovos e elas não gostaram. Jacson nos disse que aquilo e uma prática muito
comum naquela área, que eles sabem que estão errados, que aquilo é crime, mas
fazem do mesmo jeito. O ser humano é mesmo uma merda!
Nesta foto, Scooby e Munga encontram a verdade maior, em
Salinas Cruz, México. Abaixo, Scooby visita os que já partiram,
num cemitério de beira de estrada, no México. Na foto menor,
Munga prova a culinária local em Chinandegas, Nicarágua.
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Acima, segura peão. Não é nenhum dos três na foto, mas na Costa Rica eles montaram
touros nesta mesma arena: Julio teve que prosseguir o restante da viagem de muletas.
Segura surfista, no alto à direita, Felipe Munga, e abaixo, Scooby, também encararam a força
das rasas bancadas de coral do Caribe costaricense sem medo de cair, no caso, da prancha.
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O locutor então me informa que chegou minha vez.
Estava apavorado e o pânico tomava conta de mim. Coloquei
as esporas, o colete, e até um chapéu que me arrumaram. Era
mais um chapéu de turista do que de cowboy, mas era melhor
do que nada. Assim como fizera com Scooby e Munga, Alan
me chamou. Colocou as duas mãos em meus ombros, e disse
para eu não prestar atenção em mais nada, apenas nele. Eu
olhava dentro de seus olhos, mas tanta coisa passava pela
minha cabeça, que eu entendia muito pouco do que ele dizia.
Alan disse para eu tomar cuidado com o chifre do touro. De‑
veria sempre manter meus olhos na cabeça do touro e não
perder o chifre de vista. Se eu fosse para frente, quando o
touro estivesse pulando, poderia ter os olhos perfurados. In‑
terrompi Alan, lembrando a ele que o touro que eu havia es‑
colhido não tinha chifre. Ele riu e apontou para o curral. Era
um touro enorme, com um chifre grande. Fui perguntar para
o locutor onde estava o touro que eu havia escolhido, sem
chifre. Ele me disse que, agora, todos os touros tinham chifre,
que não havia jeito. Alan falava a cinco centímetros da minha
cara e eu já não absorvia nada. Pensava em tudo que poderia
acontecer de errado naquele momento. Eu estava pronto, e
meu touro também. Subi na grade, montei em cima do touro,
que estava muito agitado. Eu escutava um monte de vozes
falando um monte de coisas ao mesmo tempo. Era como se eu
estivesse doido de uma droga que eu não conhecia! De re‑
pente, o touro desabou, prensando meu pé, contra a cerca de
madeira. Eu escutei um barulho similar ao de um galho de
árvore quebrando, mas não senti dor. Gritei “puerta”, para
acabar logo com aquilo! Abriram a porteira e o touro saiu
pulando. Eu fiquei menos de dois segundos e caí. Pratica‑
mente quiquei no chão, com medo de ser pisado como o
Scooby. Apesar de saber que meu pé estava seriamente con‑
tundido, corri para fora da arena. O público ia à loucura e eu
começava a sentir dor no pé. Todos vieram falar comigo, me
dar parabéns... Cada vez meu pé doía mais! A adrenalina que
eu sentia era incrível. Nunca havia feito nada que pudesse ser
comparado àquilo. O locutor nos chamou para o centro da
arena. Apesar da dor que sentia, manquei até lá, apoiado no
ombro do Scooby. Fomos aplaudidos de pé pelo público, que
ia ao delírio com nosso feito. Meu pé latejava, e doía toda vez
que encostava no chão. Fui direto para a ambulância da Cruz
Vermelha e, a essa altura, meu pé doía muito. Tinha que
controlar minha respiração para não querer soltar um grito. O
médico disse para colocar gelo e tentar fazer um raio X. Ele
não tinha muito o que fazer ali naquela situação. Meu pé in‑
chava a cada minuto, praticamente perdendo a forma. Em
alguns minutos, parecia um pêssego. Conseguia sentir um
calombo na parte de fora do pé, mais ou menos na metade.
Minha pressão baixava e eu ficava tonto. Scooby e Munga
olhavam os montadores fazer misérias e esperavam a vez de
Alan montar. Eu fiquei dentro da ambulância, com o pé para
cima, colocando gelo. Coloquei minha cabeça para fora da
ambulância e joguei, a água gelada que bebia, na minha nuca.
Melhorei um pouco. Chegou a vez de Alan e me levantei para
ver. Era um touro especialmente arisco e muito grande. Ape‑
sar de grande experiência, Alan foi jogado contra a cerca, com
muita força, perdendo a consciência por alguns segundos.
Algumas pessoas ajudaram a puxá­‑lo para fora da arena, en‑
quanto outras tentavam distrair o touro para que não fosse
para cima de Alan. Fomos ver como ele estava e Alan disse não
ser nada, colocando de volta seu chapéu. Alan estava visivel‑
mente bêbado e com o rosto bem arranhado. Provavelmente
apenas mais uma típica noite de fim de semana para ele.
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O desejo antigo que Felipe Munga tinha de subir
ao ringue para enfrentar um campeão mundial foi
realizado na cidade do Panamá. Aqui ele
aproveita um vacilo do lendário “El Nica”.
Acordamos às 7h para encontrar Ismael, amigo do professor de
tênis, para que Munga pudesse conhecer o ginásio e, quem sabe,
fazer a luta de boxe que havíamos planejado. Havíamos marcado às
9h com Ismael, em frente a um conhecido hotel da cidade do
Panamá. Chegamos um pouco antes e esperamos dentro do carro.
Ismael chegou às 9h em ponto. Junto com ele estavam duas pessoas
que foram logo se apresentando. Maria, uma treinadora de boxe, e
Luis “El Nica”, que havia sido campeão mundial há pouco tempo,
mas perdeu o título. “El Nica” estava treinando para uma luta que,
se ganhasse, lhe daria o título de volta.
Os três entraram no carro e foram dando direções para o
Munga. Íamos por vizinhanças muito pobres, bem parecidas com as
favelas que estávamos acostumados no Rio de Janeiro. O carro mal
passava pelas ruelas. O ginásio era muito simples. Parecia uma coisa
de filme do Rocky Balboa. Um ringue no meio e um espaço aberto
para treinos. As paredes eram rachadas, com marcas de molduras de
quadros que não estavam mais lá. A parte dos pesos era fechada à
chave, para evitar furtos. O banheiro era um mictório gigante. Havia
uns oito atletas, cada um com seu treinador. Nica tinha dois treina‑
dores, um físico, e um de boxe. Ismael era seu treinador físico. Os
treinadores traziam garrafas de água congeladas, para que estivessem
geladas no fim do treino. A temperatura era quase de uma sauna.
Ismael me garantiu que eu poderia fotografar o que quisesse, sem
problemas. Me chamou a atenção para que tomasse cuidado com as
câmeras, pois ele não conhecia bem todos que estavam ali. “El Nica”
era muito simples. Andava de ônibus, tinha equipamento bem an‑
tigo, luvas gastas e um rosto que parecia ser feito de couro velho.
Dava para ver as marcas da vida em sua cara. Definitivamente a
pessoa errada para se arrumar um problema. Apesar de “El Nica” ter
perdido o título recentemente, Ismael sempre se referia a ele como
“Campeón”. O orgulho de Ismael era visível quando falávamos dele.
Seu olho brilhava. Disse que Nica veio da Nicarágua e por isso rece‑
beu esse apelido. Segundo Ismael, Nica tinha um coração de ouro,
mas precisava se controlar nas noitadas. Nica aquecia pulando de um
lado para o outro, dentro de pneus. Ismael mandava beijos para Nica,
que os pegava no ar e os colocava em seu coração. O outro treinador
de Nica colocou suas luvas, protetor bocal, e protetor de cabeça.
Começaram a treiná­‑lo intensamente. Nica dava, mas também to‑
mava bastante. Nica lutou três rounds muito rápidos, com três luta‑
dores diferentes, sempre descansados. Outros lutadores treinavam
no chão, ao lado do ringue. Seus treinadores gritavam e gesticulavam
muito. Um dos lutadores gritava bastante e, pelo pouco que eu en‑
tendia, falava mal dos venezuelanos. Bem cansado, Nica tirava suas
luvas, mas Ismael o lembrou que tinha mais uma pessoa para ele
treinar: Munga. Enquanto isso, outro treinador aquecia Munga. De‑
pois de alguns minutos, Munga foi para o ringue. Me posicionei bem
no meio do ringue, para não perder nenhum golpe. Estava torcendo
para Nica pegar leve. Visivelmente cansado, Nica esperava com a
guarda alta. Munga tentava dar uns golpe e acertou um legal em
Nica. Trocaram golpes por alguns minutos até Ismael terminar e le‑
vantar o braços dos dois. Munga estava amarradão de ter subido no
ringue com um campeão mundial. Assistimos Ismael treinar Nica
por alguns minutos. Muitos abdominais, flexões. Nos despedimos de
todos, e agradecemos a oportunidade. Entramos no carro e voltamos
para o hotel. Chegando no hotel, olhamos no Google, e vimos que
Nica havia sido campeão mundial da WBO e WBA, duas das maiores
associações mundiais de boxe. Realmente uma lenda viva do esporte.
Muito cansados, comemos no restaurante do hotel, e eu fiquei
olhando as fotos que havia feito.
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Pavones, Costa Rica
Peru
Pavones, Costa Rica
Guatemala
Tequila, Mexico
Pavones, Costa Rica
Cartagena, Colômbia
Todos Santos, México
Pavones, Costa Rica
Chinandega, Nicarágua
Pavones, Costa Rica
Tequila, México
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Algumas das imagens mais bonitas
eternizadas por Julio foram clicadas nos
trechos em que a rota escolhida se
afastava da costa. À esquerda, violeiro
cego no Equador, acima, ossadas
centenárias no Peru, e, à direita, os
floridos Andes chilenos.
Acordamos às 5h30min. e aproveitamos para
tomar o café da manhã do hotel. Bem melhor pegar a
estrada alimentado! Colocamos tudo no carro, mais uma
vez, e saímos em direção ao sul. A estrada era boa e fazí‑
amos uma média alta. Bom para quem estava atrasado!
Andávamos bastante, e rápido. Se todos os dias tivessem
sido assim, já teríamos chegado ao Brasil. De longe,
avistamos um cemitério. Parecia ter apenas construções
feitas de madeira, muito interessante. Resolvemos dar
uma olhada de perto. Paramos no acostamento e cami‑
nhamos em direção ao cemitério. Estávamos no meio do
deserto e não havia nada ao redor por muitos quilôme‑
tros, apenas areia. Entramos e nos demos conta de que
estava abandonado há muitos anos. Alguns túmulos re‑
virados mostravam ossadas que pareciam ter saído de
filmes de terror. As últimas pessoas haviam sido enterra‑
das ali no início dos anos 1900, mas a maioria das datas
já estava apagada. Andamos cuidadosamente, sem mexer
em nada. Tirei umas fotos e seguimos nosso caminho
pois queríamos cruzar os Andes sem perder muito
tempo. O ar ficava rarefeito e sentíamos dificuldade de
respirar. Paramos em um restaurante para comer e não
me fez bem. Me sentia enjoado, com vontade de vomitar.
Uma sensação bem ruim. Paramos no acostamento mais
uma vez, para ver algumas lhamas que ficavam na beira
da estrada. Elas eram pouco curiosas, e não conseguía‑
mos chegar muito perto. São animais muito grandes e
Munga e eu não sabíamos se eram agressivos. Eu, de
muletas, ficava mais longe. Chegamos na fronteira com a
Argentina, finalmente. Era uma fronteira com instalações
novas e vazias, bem diferente das que havíamos passado
durante a viagem. Como a gente nunca sabia o que espe‑
rar, nos deu um sentimento de alívio. Depois daquela, era
só mais uma até o Brasil. Ao cruzar para a Argentina, as
estradas ficaram piores. Muitos buracos e falta de sinali‑
zação numa serra com muitas curvas. Depois pegamos
uma reta e chegamos a uma região salineira. Foi uma
visão surreal. O chão ficou todo branco, por muitos qui‑
lômetros. Parecia que estávamos na neve, ou no gelo, mas
era tudo sal. Paramos o carro, e fomos dar uma volta,
fazer umas fotos. Uma das coisas mais impressionantes
que eu já vi. Começou uma chuva forte, com raios e tro‑
vões. Era hora de continuarmos nossa viagem. Apesar de
estar ficando escuro, continuamos dirigindo para ganhar
alguns quilômetros. Começamos a descer a serra e pega‑
mos muita neblina. Passamos a ficar um pouco preocu‑
pados, não era a primeira vez na viagem, mas sempre
pensávamos que seria a última. Acabamos com o Munga
dirigindo à noite, muito tenso, e não falávamos uma pa‑
lavra. A visibilidade era muito pequena e a estrada muito
esburacada. O WaveRunner caía em buracos e fazia um
barulho de metal batendo. Torcíamos para que o trailer
aguentasse a pressão daqueles buracos e não quebrasse
mais uma vez. Estávamos prontos para encontrar qual‑
quer hotel e ficar por lá mesmo. Pelas minhas contas,
havia sido o dia que tínhamos dirigido mais em toda
viagem. Já estava bom! Achamos um hotel na descida da
serra, e resolvemos parar. Tinha segurança, estaciona‑
mento… Era ali mesmo que ficaríamos na noite.
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No Brasil, a favela lembrando o mar, avança
pelos morros como uma ondulação colorida.
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Acordamos às 5h45min., com o sol nascendo. Mais uma
vez, Munga tinha levado seu colchão para a cozinha, para ficar o
mais perto possível do carro. Chegar até Ubatuba sem ser rou‑
bado, e dar esse mole no último dia, seria realmente um mole
brabo! Antes de sair da cama, fiquei uns minutos pensando. Essa
seria a ultima manhã antes de chegar ao Rio. Tudo que havíamos
vivido, os lugares, as pessoas. A viagem estava chegando ao fim.
Munga entrou no banho e sugeriu que parássemos na padaria no
caminho. Obviamente, aceitei a sugestão, até porque sabia que
ele iria querer dirigir até o Rio sem almoço. Arrumamos as coisas,
engatamos o WaveRunner no carro, e fomos até a padaria. To‑
mamos um café da manhã rápido, compramos uns biscoitos, e
pegamos a estrada, com sentido ao Rio de Janeiro! A estrada para
Angra dos Reis é simplesmente linda! O mar, à direita, impres‑
siona pela beleza. A geografia é muito diferenciada, com inúme‑
ras ilhas e incontáveis praias. A vegetação com um porte bem
maior do que eu lembrava de quando peguei essa estrada muitos
anos atrás. Muitas curvas faziam com que Munga dirigisse bem
devagar. Passamos por um bloqueio policial e mandaram a gente
parar. Mais uma vez, checaram todos os documentos, para ter
certeza de que o carro estava legalizado no Brasil. O policial disse
que nunca tinha visto uma placa dos Estados Unidos. Munga
passou sua pasta de documentos para o policial, que fingia ler e
entender todas as complicadas taxas e documentos que estavam
sendo explicadas. O policial abriu a caçamba e logo viu que não
havia nada comercial. Pranchas de surfe, material de acampa‑
mento... Estávamos liberados para seguir viagem. Chegávamos
perto do Rio. Uma sensação bem estranha tomava conta de mim.
Um sentimento de tristeza, por saber que a viagem estava termi‑
nando. Um sentimento de conquista, por ter conseguido, final‑
mente, fazer essa viagem. Muito trânsito! Andávamos pouco
demais. Santa Cruz estava engarrafado devido a um acidente
envolvendo uma moto. Um carro tenta passar Munga, que sem
opção, acaba encostando nele. Apenas alguns arranhões na roda,
mas a ousadia do motorista nos impressionou bastante. Final‑
mente, chegamos à Barra. A viagem estava marcada para termi‑
nar no condomínio onde o Munga morava. Nossas esposas nos
esperavam, desde cedo, ansiosas para nos ver. Víamos a praia da
Barra e as pequenas ondas quebrando na beira. Muito vento,
muita gente. Seguíamos na Avenida Sernambetiba, até chegar ao
condomínio do Munga. Paramos o carro e o WaveRunner no
canteiro central, e logo Munga reconheceu umas pessoas. Curio‑
sos, todo mundo vinha olhar o carro. As esposas chegaram,
muito animadas. Muitas saudades, tanto tempo na estrada.
Apesar dos privilégios tecnológicos e da constante comunicação,
a saudade era imensa. Almoçamos em um restaurante ali perto,
comida brasileira. Havíamos marcado com amigos uma come‑
moração no bar 399 e estávamos começando a ficar atrasados.
Tomei um banho na casa do Munga e dirigimos o carro, com o
WaveRunner, para o bar. Todos os nossos amigos nos aguarda‑
vam; Gabriel Pastori, Zé Tepedino, e muitos outros, prontos para
escutar as histórias e ver as imagens. Vi também minha mãe e
minha irmã, que estavam muito felizes por saber a importância
que aquilo tinha para mim. Tomamos todas e, pouco a pouco, os
amigos foram indo embora. Mãe e irmã, cansadas, se despediram
mais cedo. Munga me deu um abraço, falou que estava morto, e
fomos embora. Ali acabava a maior aventura da minha vida. No
caminho de volta do bar eu pensava na próxima aventura. Mas
sabia que tinha o resto da minha vida para inventar uma aven‑
tura mais interessante do que essa!
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CADA CAMINHO UMA VERDADE - The Surfers Journal Brasil