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DOCUMENTO
~Oi{IA----.-r>EífATE,
RoBERTO AMARAL
A primeira derrota
foi ideológica
Não conseguimos representar asforças populares, nem mostrarque FHCrepresentava as elites.
Ficamos com a imagem de ((atrasados", e eles de reformistas
Unidade das forças conservadoras
"Do meu ponto de vista, trata-se de uma coalizão não
apenas eleitoral, mas também de dimensões políticas
profundas, com todas as chances de promover um
governo como sempre sonharam as elites brasileiras."
Resposta da FBP
à unidade dos conservadores
"Primeiro, as esquerdas não compreenderam o valor da
inflação para a sociedade brasileira. O resultado desta
incompreensão foi a dificuldade de entender e enfrentar o
Real. O segundo erro foi não termos tido competência
para ampliar a frente de apoio ao Lula. O terceiro foi - e
aqui com méritos destacados para o PT - não ter sabido
constituir uma frente política. Fomos apenas um conjunto
de partidos, muitas vezes sem articulação."
Alianças da FBP
"Nessas eleições, nossa frente foi aparentemente um pouco
maior, do ponto de vista partidário. Mas é evidente que a
segunda versão da Frente Brasil Popular tinha muito menos
respaldo popular do que a Frente organizada em 89.
"A questão não era atrair o PSDB. Era demonstrar uma
política mais ampla. Apesar de termos organizado uma
coalizão política com mais partidos do que tínhamos em
89, realizamos uma política muito mais estreita. Quem
desempenhou o papel de aglutinação da sociedade foi a
candidatura da social-democracia. Ficamos restritos aos
nossos partidos. E estes sem integração na campanha."
Programa da Frente e a propaganda na TV
"Nossa grande derrota foi ideológica: ela evidentemente se
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T&D 2 8 • março abril maio 95
deu antes da derrota política e da eleitoral. Não
conseguimos representar as forças populares e não
conseguimos fazer com que Fernando Henrique Cardoso
aparecesse como defensor dos interesses das elites. Como
resultado, fomos identificados para a maior parte da
população como os 'atrasados', os que torciam contra,
enquanto o candidato da conservação e do status quo
conseguiu ser identificado como a renovação. Não
conseguimos explicar para a sociedade que a mudança de
Fernando Henrique Cardoso era a mesma sugerida por
Tancredis em O Leopardo, de Lampedusa: mudar tudo para
que tudo fique como está."
Enfraquecimento dos comícios
"No eixo de rodas as análises, existia uma espécie de
crença religiosa no processo mecanicista, uma convicção
de que 94 repetiria 89. Os fatos, lamentavelmente, a
desmentiram. Ao vencer o debate ideológico, a direita
impôs o ritmo e a retórica da campanha - ou seja, a
inexistência de qualquer emoção. O candidato da socialdemocracia e dos meios de comunicação de massa
conseguiu impor a todos os demais uma campanha sem
emoção, sem paixão e, como ele mesmo diz, racional.
Esse foi um dos grandes obstáculos à nossa mobilização.
"O resultado foi uma surpreendente dificuldade de
mobilização popular e das militâncias de nossos partidos.
Passávamos a campanha inteira dizendo e repetindo - na
esperança de sermos convencidos - que quando a
militância tomasse em suas mãos a campanha seria
possível derrotar o adversário. Isso jamais aconteceu. Dois
outros fatores contribuíram para isso. Um foi a ex!stência
de uma eleição casada. Tivemos grandes dificuldades
quando começaram a influir as questões locais e as
disputas para os governos de estados. Ao contrário do que
planejãvamos, na maioria dos estados for.am armados
projetos cujo sucesso dependia de chuparem prestígio da
candidarum Lula.
·um exemplo disso foi o estado do Rio de Janeiro. Jorge
Binar foi inventado candidato para montar no tão
anunciado sucesso da candidatur.a Lula. Quando houve a
reversão das cxp<.."Clativa~. essa~ candidarurn se
rr.an~fom1aram num contrapeso. Outro fato foi a tentativa de
algumas campanhas C.'>taduai:. de~ de5\incularcm da
campanha p~idencial , como aconteceu no E.'>pírito Santo."
O papel da esquerda
diante do novo governo
"Existem dois faros que não podem ser isolados. De um
lado o crescimento das nossas bancadas e de outro a
existência de um governo com o qual remos divergências
capitais, porque são de essência. Trata-se de um governo
que, ao contrário dos anteriores, sabe o que quer - e o
que deseja é tudo que combatemos.
"Este é o grande desafio da esquerda brasileira: enfrentar
um projeto internacional de administração de governo e de
política, numa fase de emergência e de fortalecimento do
capiralismo internacional. Para as bancadas de esquerda,
há duas questões muito difíceis de serem operadas. Uma é
sua atuação orgânica, que precisa ser menos pessoal,
menos estrelista. Outra, é a necessidade de fazer não
apenas a denúncia do projeto neoliberal, mas
fundamentalmente a apresentação de projeros alternativos.
~ão adianta ficar fazendo críticas puramente retóricas ao
projeto da Previdência Social que o governo já está
anunciado. É preciso estudar a experiência chilena e
antecipar para a sociedade as conseqüências desse
modelo."
Nova tentativa de revisão constitucional
"Um de nossos problemas essenciais é que a direita tem
estabelecido a pauta da política brasileira. A esquerda e as
forças progressistas, além de aceitarem isso, estão
revelando que não têm capacidade de iniciativa. Não basta
ficarmos de braços cruzados, rechaçando a ofensiva dos
conservadores. Precisamos abrir na imprensa brasileira os
problemas reais da sociedade brasileira, como por
exemplo a concentração de renda, o crescente
empobrecimento do orte e do ordesre.•
O futuro da luta socialista
"Acho que temos o grande desafio que é a América Latina.
Em nosso continente, o capitalismo tem se revelado mais
brutal e incompetente para resolver problemas das grandes
massas afastadas da cidadania. Entendo que as esquerdas
brasileiras não souberam entender o significado da queda
do Muro de Berlim. Mai!>
uma vez aí fomos repetidores
do grande discurso da direita
internacional. Foi impossível
distinguir a derrota dos
projeto~ de adm inistraç~lo
estatal com um sistema de
idéias c de governo, que, a
rigor, estamos sabendo que
não havia sido sequer
teMado. ào participo do
raciocínio dos que pensam,
"O PT excluiu
mesmo na esquerda
marginalizou os
brasileir.a, que o socialismo
fracassou. :-.:a minha opinião
partidos aliados.
o que rem fracassado é o
Deixou-nos o papel
capitalismo. A crise do
de
figurantes de luxo,
socialismo não significa que
num palco de
o capitalismo seja uma
alternativa. De outra parte,
poucos atores"
está demonstrado que o
capitalismo no Brasil e no
mundo rem muito mais
condições de sobrevivência do que supúnhamos. Acho
que este é o grande desafio.··
Relações entre a FBP durante a campanha
"O chamado comando da Frente teve dois períodos: o de
reuniões em Brasília e o de reuniões em São Paulo. No
primeiro havia a impressão de que rodos os partidos
participavam do comando. :\o segundo ficou claro que
nenhum partido partícipava da campanha. A partir da
instalação da Frente em São Paulo ficou evidente que rodo
o processo ia ser conduzido pelo PT. O papel dos demais
partidos foi o de figurantes de luxo num palco com
poucos arores.
"Estou dizendo poucos atores porque na continuidade do
processo, passei a ter dúvidas se a condução era do PT ou
de uma coalizão de tendências do PT. Não conseguimos
participar de nenhum processo decisório, ninguém influiu
na condução da campanha. Decidimos participar da mfseen-scene das reuniões semanais para encobrir da imprensa
e da sociedade a falência da Frente Brasil Popular como
qualquer coisa orgânica."
O futuro da FBP
"Logo após a campanha de 89 propusemos a manutenç-Jo
da Frente. Ela foi rechaçada. Agora entendo que a política
de frente é que precisa ser retomada, mas há um
paradoxo: por um lado, é muito difícil
uma política de frente com o PT. Por
RobenoAmanol
Membro d• doroçio
outro, é impossível fazer uma frente
Ntlonal do PSB
sem o PT."
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