Porque devemos cantar Campina Grande Linaldo Guedes Quer conhecer a alma de uma cidade? Procure nos versos dos seus poetas. Se os historiadores e pesquisadores se preocupam em detalhar como a cidade foi erguida, suas lutas e conquistas, os poetas vão mais além. Eles constroem aldeias dentro de suas próprias aldeias. Em forma de exaltação, alumbramento ou desencanto, são eles, os poetas, que fazem o cronicário perfeito para quem quer entender a alma de um povo, de uma cidade. É isso que vamos encontrar em “Inventário lírico da Rainha da Borborema: 150 anos de poesia”, obra criteriosamente organizada por Bruno Gaudêncio e José Edmilson Rodrigues que ora chega em suas mãos, caro leitor. Uma obra histórica, para tentar desvendar os segredos de Campina Grande, essa cidade que já se tornou referência pelo espírito trabalhador de seu povo e pela grandiosidade de suas conquistas. Bruno Gaudêncio e José Edmilson Rodrigues dividiram a obra em quatro partes. Em todas elas, um olhar diferente sobre a Rainha da Borborema, diferente para nós, acostumados que estamos à imagem de uma cidade ousada, atrevida e que se inseriu, graças ao seu povo, como uma das referências em cidades importantes localizadas no interior do Brasil. Em todos os capítulos do livro, o tom é de exaltação a Campina Grande. Não poderia ser diferente, claro. Como não cantar Campina Grande tendo passeado em suas ruas, provado sua gastronomia e, entre conversas no calçadão da Cardoso Vieira, sentido aquele clima que torna a cidade diferente da sina de muitas metrópoles nordestinas, sempre tão associadas ao calor e ao sol? O calor aqui, neste livro, é outro. É lírico, poético, é campinense na mais completa acepção poética, mesmo quando são versos da lavra de poetas que não nasceram na Rainha da Borborema. Em seu primeiro capítulo, o livro faz uma “exaltação a cidade” e coloca Campina Grande nas alturas. E começa com José Alves Sobrinho, falando das belezas campinenses e da história da musa e dos seus heróis tropeiros. O grande poeta popular Manoel Monteiro surge apontando os marcos de Campina Grande. As prendas da cidade estão na chuva que “deita na cama das ruas para brincar de namorados” desde quando ainda era a Vila Nova da Rainha. Em poema inédito, Maria de Lourdes Ramalho canta os tropeiros e a Campina da cantoria. Zé da Luz mostra porque a “cidade argudão” é o “orguio da Paraíba”. Pompílio Diniz narra a predestinação de Campina para viver nas alturas. Severino Bezerra de Carvalho traduz seu encanto à “inculta flor de cardo”. Ronaldo Cunha Lima vê a cidade bonita, vestida “de chita em festa junina”. João Dantas faz uma ode para a musa do seu poema. Rui Vieira capricha no acróstico. Bruno Gaudêncio encanta com seu “feitiço de pedra” para traduzir a cidade-centauro, cidade também traduzida na quadra de Lino Gomes da Silva e na ode de Rangel Júnior. A segunda parte da obra tem contemplações e críticas “das fronteiras sensíveis”. Aqui, o tom não é só de exaltação, mas de provocações sobre o legado dessa cidade farta de poetas. Legado tão bem explicitado por Astier Basílio no “Romanceiro da Borborema”, com saudades da Livraria Pedrosa, da memória de El Dourado e um passeio por feiras e paladares campinenses. O legado continua com José Nêumanne Pinto, que em seu “Borborema” não esquece dos loucos, dos poetas e profetas. Anézio Leão lamenta a chegada do progresso. Bráulio Tavares faz um caleidoscópio campinense em “O país de cima da serra” e espia tudo e todos, desde o saxofonista melancólico até os gênios incompreendidos. José Edmilson Rodrigues evoca seu “Mágico chão” nas miragens de ontem. Carlos Almeida mistura punks e pandeiros em sua “Ordem telúrica”. Thiago Lia Fook de Meira Braga desmente ele mesmo ao dizer “que não se tiram poemas de pedra” no instigante “Pedregal”. Raymundo Asfora traduz um amor que singra até na devassidão. E Edmundo Gaudêncio escracha o seu amor de vida e morte “a merda dessa cidade”. A terceira parte da obra vem com canções feitas para louvar Campina Grande. Desta feita, encontraremos raridades, como o “Hino de Campina Grande”, de Fernando Silveira, “Tropeiro das Borborema”, de Raymundo Asfora, “Campina, Cidade Rainha”, de Campiba, o “Adeus a Borborema”, de Geraldo Correia, e “Campina Grande”, de José Orlando. Bela seção, embora tenha sentido falta de “Bodocongó”, imortalizada na voz de Elba Ramalho. Por fim, o livro entra nos lugares da memória, através de poemas que evocam outras Campinas. Assim, surge a rua do emboca e o beco da pororoca na poesia de Rosivaldo Toscano dos Santos, José Laurentino recordando das idas a Campina quando criança e Ed Porto aconselhando: “Se for em Campina/ reze/ umameiota/de ave-maria”. Orlando Tejo constrói uma “Balada do Açude Velho” e Cristino Pimentel destaca a “Rua do Açude Novo”. A “Praça da Bandeira” aparece faceira na lírica de Aroldo Camelo de Melo e os poetas do algodão nos versos de Antônio Moraes. Manoel Monteiro retorna para cantar o Cassino Eldorado e Fidélia Cassandra exalta o cheiro de café torrado, o sabor do primeiro beijo e as vozes dos repentistas. Por fim, Johniere Alves Ribeiro esboça uma “Reeducação pela Pedra”, em seus versos inventivos. Não cabe aqui, neste prefácio, analisar a qualidade literária dos poemas inseridos nesta obra. O tom de exaltação da maioria deles, torna desnecessária tal empreitada. Cabe, sim, destacar a importância desta obra como documento lírico e histórico da alma de Campina Grande. E arriscar-me, também, a cantar versos para esta cidade, como os que seguem abaixo: Campina Grande na primeira vez que esteve em campina grande não conhecia da história do gado e do algodão queria apenas brincar poemas na casa do cantador e cantar os faróis de caminhões que iluminavam a puberdade nas outras vezes que esteve em campina grande já se perdia encantado com o maior são joão dos arredores já se perdia irritado na grandeza de suas avenidas já se perdia e buscava a cumplicidade em teus olhos assustados agora, era a poesia em forma de algodão era o poeta, tangendo poesia em busca de gado metáforas e duelos em torno do açude velho mergulho sem retorno na vila nova da rainha, (João Pessoa, Primavera de 2014. Prefácio do livro “Inventário lírico da Rainha da Borborema: 150 anos de poesia”)