“PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS, MEU PAI, NA INTIMIDADE”. Clóvis Frederico da Silva Ramos Meu pai me dizia que eu era um filho civilizado, pois havia nascido em um domingo, o único dia da semana em que não trabalhava. Lembro-me dos almoços, durante a minha infância, aos domingos na casa de meus pais. A sobremesa era invariavelmente manjar branco, um dos doces prediletos de meu pai, feito em uma forma em formato de peixe, que minha mãe, que era carioca, trouxera de sua casa no Rio de Janeiro. Era a única refeição em toda semana que meu pai fazia em família, sentado em nossa mesa. Todos os outros dias almoçava e jantava na rua. Por maior que fosse a travessura, jamais bateu em um de seus filhos, porém a sua “bronca” era difícil de ser ouvida. Às vezes preferia ter apanhado. Naquela época meu pai possuía dois empregos, além de funcionário público, trabalhava na Secretaria do Governo, era jornalista do então mais tradicional jornal de São Paulo, o “Correio Paulistano”. Por volta das 19h00min de domingo, após um lanche leve, ia para o jornal. Voltava entre uma e três horas da madrugada. Era uma vida de muita dedicação para sustentar sua família, composta da mulher, três filhos e a sogra que, como dizia em tom de brincadeira, herdara com o casamento. Bom lorenense que era reunia em sua casa, nas festas familiares, um grupo de conterrâneos, que segundo ele era composta pela nata intelectual de sua terra natal. Frequentavam a sua casa nessas ocasiões, o seu irmão Frederico José da Silva Ramos (“Frico”), figura impar, homem de grande cultura e simpatia, Osmar Muniz Pimentel, crítico literário cuja cultura rivalizava com a de meu pai, e Samir Seraphin, médico e intelectual, todos acompanhados de suas respectivas mulheres. Por vezes o Osmar trazia, também, o seu cunhado, que então era deputado, Derville Allegretti. Além de seus conterrâneos eram seus amigos, entre outros, Israel Dias Novaes, Rômulo Fonseca e Rui Afonso Machado, seus colegas de turma na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Domingos Carvalho da Silva, Geraldo de Camargo Vidigal, Cyro Brisolla, Ciro Pimentel e Oswald de Andrade Filho (“Nonê”). Era também seu amigo o “Seu” Luís Monteiro, motorista que meu pai conhecera na Secretaria da Fazenda. O seu Luís, além de ser motorista particular de meu pai nos fins de semana, era o seu astrólogo. Levava a minha mãe e os seus netos para cima e para baixo. Mais tarde, quando eu já tinha uns 18 anos, nas tardes de sábado o meu pai reunia em sua casa para jogar “Bridge” e “King”, o seu irmão Frico, os seus sobrinhos Cláudio Frederico da Silva Ramos (“Queca”), Álvaro Frederico Ramos Pompéia e Fernando Luiz Ramos Pompéia, além do então namorado de sua sobrinha Maria Heloísa da Silva Ramos (“Maísa”), Luis Eduardo Briquet e de Mrs. Cecily Rocha, uma senhora inglesa que fora casada com um brasileiro e que para sobreviver lecionava inglês. Meu pai e meu Tio Frico contavam as travessuras da infância passada em Lorena. O meu pai ficava roxo de tanto rir. Sua cunhada Maria de Lourdes Figueiredo Bastos da Silva Ramos, também escritora de grande talento, era sua amiga e confidente. Constantemente trocavam indicações de remédios! Meu pai possuía uma bagagem cultural enorme. Escrevia com grande facilidade, uma vez que conhecia o grego clássico e o latim. Talvez por essa razão, tinha tanta facilidade para o francês. Dominava, ainda, o inglês e lia o espanhol, o italiano e o alemão. Segundo o poeta Cassiano Ricardo, foi o único aluno do mestre Alexandre Correia elogiado pelo mesmo como latinista. Não levava para o lado pessoal as discussões literárias, por mais acaloradas que fossem, tanto que, uma semana após publicar na imprensa uma dura crítica a Oswald de Andrade, não somente esteve no velório do mesmo, como foi segurou uma das alças de seu esquife. Sua biblioteca, com cerca de vinte mil volumes lotava a sua casa. Não havia mais onde colocar os livros, para o desespero de minha mãe. Novos livros chegavam todas as semanas, em especial as primeiras edições de poetas brasileiros, como Álvares de Azevedo, que adquiria quase sempre na Livraria Calil. Sua biblioteca não tinha uma identidade temática. Possuía além do Alcorão, a Bíblia escrita em hebraico. Das Mil e Uma Noites aos Sonhos de Uma Noite de Verão. Minha mãe chegou, sem qualquer resultado prático, a proibi-lo de adquirir novos livros. Entrava escondido e deixava os pacotes de livros no estúdio, situado no fundo de sua casa. Posteriormente abria os pacotes e levava os livros um a um para o seu escritório. Não gostava de política, a não ser da acadêmica após ingressar na Academia Paulista de Letras, da qual foi presidente por duas vezes. Na Academia Paulista teve a oportunidade de apoiar e apadrinhar com sucesso a candidatura de vários amigos, entre outros Osmar Muniz Pimentel, que embora não fosse nascido em Lorena, em sua posse na Academia se disse “lorenense até a raiz da medula”, Paulo Pereira dos Reis, radicado em Lorena, onde se casou e criou a suas filhas, Luiz Arrobas Martins, Nogueira Moutinho e Israel Dias Novaes. O Israel Dias Novaes talvez tenha sido o amigo mais fiel de meu pai. Na época de pobreza em que eram estudantes em São Paulo um emprestava dinheiro para o outro. Quando muitos anos depois o meu pai resolveu iniciar sua campanha de candidato a Academia Brasileira de Letras, foi o Israel que custeou a sua ida ao Rio de Janeiro para contatar os acadêmicos. Retornando a São Paulo desistiu de sua candidatura, pois achou que era muito trabalhosa, além de ser muito dispendiosa. Após a morte de meu pai o Israel, quando soube que meu irmão estava com uma doença incurável, auxiliou-o no que pode. Foi o idealizador e o primeiro diretor executivo do Conselho Estadual de Cultura. Foi, também, o idealizador e um dos criadores na capital do Estado de São Paulo do Museu de Arte Sacra, do Museu da Casa Brasileira e do Museu da Imagem e do Som (MIS). Meu pai era tímido e introvertido, porém era consciente de sua inteligência e de sua enorme cultura, o que não o impedia de ter amigos em diversas camadas sociais. Tratava a todos com respeito e civilidade. Passou a lecionar, na década de 60 no curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para vencer o seu receio de falar em público, o que não tardou a acontecer e lhe permitiu ingressar na Academia Paulista de Letras, onde fez inúmeros discursos de recepção de novos acadêmicos, e a desempenhar com grande desenvoltura a função de Secretário do Governo, na administração Paulo Egydio Martins. Não reprovava aluno, mas também não abonava falta. Dizia que se o aluno não havia aprendido a escrever, não era na Faculdade que o faria. Após se aposentar como funcionário público continuou a lecionar até a véspera de sua morte no período matutino do curso de jornalismo. Após a aula ia para casa, almoçava, descansava cerca de uma hora, sentado na poltrona de seu quarto e após ia para o seu escritório, onde se dedicava aos seus livros, em especial a sua paixão, que era a tradução dos grandes poetas ingleses. Saia de seu escritório apenas quando era chamado para jantar. Nada o irritava mais do que quando lia ou ouvia alguém dizer que a chamada Geração de 45 era neomodernista ou neoparnasiana. Dizia que parte da chamada intelectualidade brasileira não pesquisava e não tinha idéias próprias. Apenas repetiam o que liam, sem qualquer fundamentação teórica. Atribuía, o que considerava uma ofensa a sua geração, a um crítico literário conservador que, duramente atacado pelos então jovens poetas de 45 resolveu dar o troco, durante uma conferência em São Paulo, chamando-os de neoparnasianos, vez que gostavam de escrever com acerto, sem desmandos gramaticais. Dizia que a linguagem de sua geração era nitidamente modernista e que alguém que ouvira o comentário do crítico, resolveu divulgar o mesmo, muito provavelmente por falta de conhecimento ou por ser avesso às idéias modernistas. Era profundamente emotivo e amava os seus filhos e a sua mulher, a quem tratava com todo carinho. Até a sua morte os dois andavam de mãos dadas. Permaneceu na sala de espera enquanto o seu filho José Eduardo era operado para remoção de um tumor. Quando pode entrar no quarto chorou copiosamente, dizendo que a culpa pela doença do seu filho era sua. O José Eduardo ainda tonto em razão da anestesia teve de acalmá-lo e consolá-lo. Logo após o nascimento de sua filha mais velha, Eliana Maria, foi entrevistado, se não me engano pelo Jornal Folha da Manhã. A entrevista foi publicada juntamente com uma foto de minha irmã, que devia ter na ocasião uns dois anos de idade. O título da entrevista era “O Poeta de Infância Irmã dos Pássaros e o seu mais belo poema”. Até morrer manteve o recorte da entrevista, com a foto de minha irmã, em sua mesa de trabalho. No Natal de 1991 falou para mim que estava pensando muito na morte. No mês de abril seguinte voltou, com os seus olhos marejados de lágrimas, a tocar no tão indesejado assunto. Faleceu aos 72 anos, no dia 14 de maio de 1992, em razão de uma embolia pulmonar resultante de uma pneumonia diagnosticada como simples, tanto que tendo procurado um dos mais conceituados Hospitais da capital paulista foi medicado e mandado para casa. Morreu poucas horas depois, em sua plena capacidade intelectual deixando um vácuo nas letras de nosso país. Seu irmão Frederico José da Silva Ramos encarregou-se de dar o devido destino à biblioteca de meu pai. Parte dos livros foi doada à “Casa de Cultura Péricles Eugênio da Silva Ramos” situada em Lorena, juntamente com as inúmeras comendas nacionais e estrangeiras que recebera em vida e alguns outros pertences de uso pessoal. Clóvis Frederico da Silva Ramos é advogado militante graduado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e filho de Péricles Eugênio.