UNESP-UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE MEDICINA DE BOTUCATU “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” CAMPUS DE BOTUCATU Fátima Regina Longo Qualidade do Atendimento aos Pacientes com Hanseníase no Ambulatório de um Hospital Universitário do Estado de São Paulo Botucatu 2007 FÁTIMA REGINA LONGO Qualidade do Atendimento aos Pacientes com Hanseníase no Ambulatório de um Hospital Universitário do Estado de São Paulo Dissertação apresentada à Universidade Estadual Paulista ”Julio de Mesquita Filho”, Faculdade de Medicina, Campus de Botucatu para obtenção do título de Mestre em Saúde Coletiva, Curso de PósGraduação em Saúde Coletiva, Área de Concentração Saúde Pública. Orientador: Prof. Dr. Joel Carlos Lastória BOTUCATU 2007 FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA SEÇÃO TÉC. AQUIS. E TRAT. DA INFORMAÇÃO DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - CAMPUS DE BOTUCATU - UNESP BIBLIOTECÁRIA RESPONSÁVEL: ROSEMEIRE APARECIDA VICENTE Longo, Fátima Regina. Qualidade do atendimento aos pacientes com hanseníase no ambulatório de um hospital universitário do Estado de São Paulo / Fátima Regina Longo. – Botucatu : [s.n.], 2007. Dissertação (mestrado) – Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista, 2007. Orientador: Prof. Dr. Joel Carlos Lastória Assunto CAPES: 40602001 1. Hanseníase. 2. Qualidade de atendimento. 3. Lesões neurológicas. 4. São Paulo (Estado). CDD 614.0981 Palavras chave: Deformidade; Equipe multiprofissional; Hanseníase; Incapacidade física; Lesões neurológicas; Neurite; Processos reacionais; Qualidade de atendimento. AGRADECIMENTO e HOMENAGEM ESPECIAL Augusto (in memorian) & Therezinha (in memorian), Aos meus pais, modelos de conduta e vida sempre presentes na minha vida... Espero ter merecido tudo o que fizeram por mim, me amparando, amando, fortalecendo e estimulando. Saibam que tudo o que sou hoje tem influência de vocês, que se preocuparam em me passar valores que levarei para a vida toda. Agradeço todos os dias a Deus por vocês existirem e me amarem. Hoje, lhes dedico essa vitória, pois foram vocês que plantaram a semente para que isso fosse possível. Muito Obrigado! AGRADECIMENTOS Prof. Dr. Joel Carlos Lastória, pelos seus ensinamentos e por nortear e Ao meu orientador possibilitar o desenvolvimento deste trabalho. Prof. Dr. Carlos Roberto Padovani, pela colaboração direta nesta pesquisa. Ao A todos profissionais do SAME da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP, que não pouparam esforços para a providência dos prontuários solicitados. A todos os funcionários do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, pela atenção à minha pessoa e durante o preparo deste trabalho. Sr. Waldir Magro, pela atenção e auxílio na Ao confecção deste trabalho. A todos os diretores diretos e indiretos da DRS-VI - Bauru que contribuíram para que eu cumprisse o programa da Pós Graduação para conclusão deste. Amigos A todos os meus presentes no meu dia a dia que de alguma forma contribuíram para que eu realizasse este trabalho. Obrigada! “ O bservei o conjunto da obra de Deus e percebi que o homem não consegue descobrir tudo o que acontece debaixo do sol. Por mais que o homem afadigue-se em pesquisar, não chega a compreendêla. E mesmo que o sábio diga que a conhece, nem por isso é capaz de entendêla ” . Eclesiastes 8: 17 RESUMO A hanseníase é uma doença crônica que de um modo geral compromete a parte dermatológica e neurológica de um indivíduo, sendo que as alterações neurológicas, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, podem levar a deformidades, causando incapacidades físicas. Realizou-se estudo retrospectivo utilizando-se de registros médicos de pacientes de hanseníase atendidos no Ambulatório da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP. No total de 150 pacientes com diagnóstico confirmado, 48 (32 %), apresentaram neurites e, dentre estes, 28 (58,33 %) apresentaram reações, 17 (35,42 %) lesões neurológicas e lesões conseqüentes a estas. O objetivo principal foi avaliar a qualidade do atendimento dispensado pela equipe multiprofissional que acompanha estes pacientes, quanto à prevenção de incapacidades físicas entre doentes provenientes de outros serviços e dos diagnosticados no referido Ambulatório. Observou-se que os pacientes provenientes de outros serviços foram os que mais apresentaram seqüelas (94,12 %), mais episódios reacionais (60,71 %) e neurites (66,66 %). Concluiu-se que a prevenção de incapacidades ocorreu de modo mais efetivo em um serviço que conta com equipe multiprofissional especializada. Palavras-Chave: Deformidade; Equipe multiprofissional; Hanseníase; Incapacidade física; Lesões neurológicas; Neurite; Processos reacionais; Qualidade de atendimento. ABSTRACT QUALITY OF THE ATTENDANCE TO THE PATIENTS WITH LEPROSY IN THE CLINIC OF A UNIVERSITY HOSPITAL OF THE STATE OF SÃO PAULO Leprosy is a chronic illness that in a general way compromises the dermatological and neurological part of an individual, being that the neurological alterations, when not diagnostic and treated adequately, can take the deformities, causing disabilities. Retrospective study using itself of medical registers of taken care of patients of leprosy in the Clinic of the College of Medicine of Botucatu - UNESP was become follow-up. In the total of 150 patients with confirmed diagnosis, 48 (32%), had presented neuritis and, amongst these, 28 (58.33%) had presented reactions, 17 (35.42%) neurological injuries and consequent injuries to these. The main objective was to evaluate the quality of the attendance excused for the multi-professional team that follows these patients, how much to the prevention of disabilities between sick people proceeding from other services and of the diagnostic ones in the related Clinic. It was observed that the patients proceeding from other services had been the ones that had more presented sequels (94.12%), more reactions episodes (60.71%) and neuritis (66.66%). One concluded that the prevention of incapacities occurred in more effective way in a service that specialized multi-professional counts on team. Key words: Deformity; Multiprofessional team; Leprosy; Disability; Neurological injuries; Neuritis; Reactionaries processes; Quality of attendance. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Relação dos pacientes que apresentaram neurites, de acordo com o número de episódios e com a procedência ............................................ 24 Tabela 2 - Ocorrência de episódios reacionais, de acordo com o tipo de reação ... 25 Tabela 3 - Distribuição dos pacientes de acordo com o tipo de alteração ou seqüelas e procedência .......................................................................... 26 SUMÁRIO 1 JUSTIFICATIVA ............................................................................................. 10 2 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 13 3 OBJETIVOS ................................................................................................... 4 MATERIAL E MÉTODOS ............................................................................... 20 4.1 PACIENTES .................................................................................................... 20 4.2 COLETA DE DADOS ...................................................................................... 21 5 RESULTADOS ............................................................................................... 24 6 DISCUSSÃO ................................................................................................... 29 7 CONCLUSÕES ………………………………................................................... 35 REFERÊNCIAS .............................................................................................. 37 APÊNDICES ................................................................................................... 41 18 1 Justificativa Justificativa 10 1 JUSTIFICATIVA A hanseníase, de um modo geral, compromete a parte dermatológica e neurológica de um indivíduo, sendo que as alterações neurológicas, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, podem levar a deformidades causando incapacidades físicas. Os sinais e sintomas neurológicos são decorrentes de lesões nos nervos periféricos causadas por neurites, ou seja, por processos inflamatórios dos nervos periféricos; estes podem ser causadas tanto pela ação do bacilo nos nervos, como pela reação do organismo ao bacilo ou por ambas. A identificação destas alterações é feita pela inspeção dos olhos, nariz, mãos e pés, palpação dos troncos nervosos periféricos, avaliação da força muscular e da sensibilidade. A avaliação neurológica deve ser realizada no momento do diagnóstico, durante e após o tratamento; além disso, se houver ocorrência de reações e neurites decorrentes ou não destas, ou quando houver apenas suspeita das mesmas, durante ou após o tratamento quimioterápico e, também, sempre que houver queixas por parte do paciente. Os profissionais de saúde devem realizar avaliações em relação ao potencial de incapacidade da doença, sendo importante que sejam feitas com freqüência, para que possam ser tomadas medidas adequadas de prevenção e tratamento de incapacidades físicas. O tratamento da hanseníase é um assunto muito complexo, não se restringindo somente às medicações específicas. A doença quando compromete os nervos periféricos, provoca deformações e incapacidades que são responsáveis pela marginalização psicosocial do indivíduo. Além do tratamento específico das neurites, cremos ser de fundamental importância às medidas paralelas de orientação e a atenção dedicada aos pacientes, no intuito de prevenção das incapacidades. Justificativa 11 Cremos que um serviço de atendimento ao doente de hanseníase deva ser o mais completo possível, envolvendo a equipe multiprofissional. Muito se fala em prevenção de incapacidades para o paciente hanseniano mas, no entanto, na literatura, não encontramos trabalhos que avaliem os serviços de atendimento com os resultados do trabalho desenvolvido; esses fatos motivaram o presente estudo. Assim sendo, decidiu-se avaliar as medidas de orientação e atenção aos pacientes em um Ambulatório de Hanseníase, com a finalidade de se observar a ocorrência de incapacidades, fator que julgamos ser de importância na eficiência do mesmo. Além disso, determinar se as medidas profiláticas administradas podem determinar um menor número de pacientes com incapacidades. ± 2 Introdução Introdução 13 2 INTRODUÇÃO A hanseníase é uma doença antiga, já referida em tratados médicos de 2.698 A.C (ARVELO; TROCONIS; GUEDEZ, 1971; BROWME, 1985; MURACI, 1990; SANSARRICQ, 1995; ANDRADE et al., 1998; MENDES, 1999; OPROMOLLA, 2000). Em meados do século XVI, foi trazida para o continente americano pelos imigrantes europeus, principalmente espanhóis, portugueses, franceses e noruegueses, e, mais tarde, também pelos escravos africanos (MENDES, 1999; OPROMOLLA, 2000). No Brasil, acredita-se que a doença tenha sido introduzida pelos colonizadores. Em São Paulo, provavelmente devido às dificuldades de acesso, decorrentes da sua localização geográfica, somente em meados do século XVIII começam aparecer documentos a respeito de portadores de hanseníase nesta região (ANDRADE et al., 1998). É uma doença infecto-contagiosa causada pelo Mycobacterium leprae (M. leprae) ou bacilo de Hansen, que apresenta alta infectividade, porém baixa patogenicidade (LOMBARDI, 1990; BRYCESON et al., 1992; REES; YOUNG, 1994; MENDES, 1999). A hanseníase é de distribuição mundial, constituindo sério problema de saúde pública, sobretudo em países de clima tropical e sub desenvolvidos. Esta distribuição não está ligada ao clima, mas às precárias condições de vida das populações dessas regiões (TALHARI; NEVES, 1997). Até a década de 1980, os dados disponíveis na literatura nacional sobre a prevalência da hanseníase, não representavam a real situação da endemia, porque nem a procura e nem o relato de casos atingiam um nível desejado (SMITH, 1997; TALHARI; NEVES, 1997). Com a introdução da poliquimioterapia (PQT-OMS) a partir de 1981, o efetivo tratamento e cura dos pacientes objetivavam eliminar as condições que favoreciam a transmissão e, com isso, reduziram a prevalência da hanseníase drasticamente em todo o mundo, pois os casos tratados e curados saíam do registro ativo (CARVALHO et al., 1995; BRASIL, 2001). Introdução 14 Em 1991, a Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs a eliminação da hanseníase como problema de saúde pública até o ano de 2000; no entanto, alguns países, entre eles o Brasil, não conseguiram atingir essa meta e, em 1999, foi assumido novo compromisso adiando a eliminação no país para 2005, o que também não foi atingido pelo Brasil (BRASIL, 2001). Segundo Andrade (1998) o aumento na taxa de detecção e do número absoluto dos casos no Brasil, nos últimos anos, deve-se a fatores epidemiológicos, mas também ao treinamento de pessoal, aumento da cobertura do programa de controle, descentralização das ações e divulgação dos sinais e sintomas da doença pelos meios de comunicação. O Estado de São Paulo parece estar em fase de pré-eliminação, não ocorrendo de modo completo, talvez pelo fato do comportamento da hanseníase não apresentar distribuição homogênea, havendo áreas de alta endemicidade. Essas desigualdades observadas no número de casos entre os municípios e esses contrastes na distribuição espacial da endemia revelam a complexidade dos fatores envolvidos na sua determinação (SMITH, 1997; MENCARONI, 2003; NOGUEIRA, 2002). O período de incubação pode ser, em média, de dois a sete anos até a manifestação clínica da doença. Além das condições individuais, outros fatores relacionados aos níveis da endemia e às condições sócio-econômicas desfavoráveis, assim como condições precárias de vida e de saúde, indivíduos com fatores predisponentes e o elevado número de pessoas convivendo em um mesmo ambiente, influem no risco de adoecer (TALHARI, 1984; LOMBARDI, 1990; BRASIL, 1994; MENDES, 1999; OPROMOLLA, 2000). Caracteriza-se por lesões cutâneas e pelo comprometimento dos nervos periféricos, quase sempre ocasionando complicações incapacitantes das mãos, pés, faces e olhos. Estas lesões incapacitantes geram temor e o preconceito, que envolvem o indivíduo acometido (VEGA, 1967; ARVELO; TROCONIS; GUEDEZ, 1971; NERY et al., 1998; OPROMOLLA, 2000). A hanseníase é classificada em dois tipos polares, estáveis, que são o tuberculóide e o virchowiano e dois grupos instáveis, o indeterminado e o dimorfo Introdução 15 (ARVELO; TROCONIS; GUEDEZ, 1971; BELLO, 1978; TALHARI, 1984; OPROMOLLA, 2000). O primeiro, tuberculóide, caracteriza-se pelo comprometimento cutâneo e pela possibilidade do envolvimento de troncos nervosos, podendo levar a distúrbios neurológicos e sensitivos, responsáveis pelas incapacidades (TALHARI, 1984; MURACI, 1990; OPROMOLLA, 2000). A forma virchoviana tem por principal característica ser altamente bacilífera, constituindo os casos contagiantes. As manifestações cutâneas costumam ser mais intensas e numerosas, e o comprometimento neural inicialmente mais discreto, acentuando-se à medida que a doença se agrava (TALHARI, 1984). A forma dimorfa está entre os grupos tuberculóide e virchowiano, sem contudo, preencher os critérios de classificação em um ou em outro (TALHARI, 1984; OPROMOLLA, 2000). O grupo indeterminado é caracterizado por lesões hipocrômicas com alterações de sensibilidade e distúrbios tróficos, apresentando-se, do ponto de vista da presença de bacilos na pele, pela ausência dos mesmos. Não há comprometimento de troncos nervosos, não ocorrendo, por isso, problemas motores que possam originar as incapacidades (TALHARI, 1984; MURACI, 1990; OPROMOLLA, 2000; BRASIL, 2001). A hanseníase tem como característica marcante a cronicidade da evolução, podendo ser esta interrompida por fenômenos imunológicos e inflamatórios agudos, denominados de reações (JOPLING, 1966; LASTÓRIA, 1990; GARBINO; STUMP, 2000; OPROMOLLA, 2000). Todas as formas clínicas, exceto a indeterminada, podem desenvolver as reações denominadas Tipo 1 e Tipo 2, sendo que as primeiras ocorrem em pacientes da formas T (tuberculóide) e D (dimorfa) e os segundos da forma D (dimorfa) e V (virchowiano). Os estados reacionais são a principal causa de comprometimento neurológico, de lesões e de incapacidades na hanseníase (GARBINO; STUMP, 2000; CUNHA, 2001) sobretudo pelos fatores psicosociais ligados à doença, visto que em grande parte dos casos a sua instalação implica na invalidez do indivíduo (JOPLING, 1966; ARVELO; TROCONIS; GUEDEZ, 1971; LASTÓRIA, 1990; OPROMOLLA, 2000; OPROMOLLA; BACCARELI, 2003). Introdução 16 Conforme Vega Nunez (1967), denomina-se invalidez “toda alteração anatômica ou fisiológica que incapacite total ou parcialmente o indivíduo, de modo permanente ou temporário, para uma atividade ou convivência social normais, de acordo com a sua idade, nível cultural e econômico, grau de instrução, etc.”. A instalação de uma incapacidade física não interfere só nas funções anátomo-fisiológicas, mas na reação que tais alterações despertam no meio social. O componente físico da incapacidade se dá pelo ataque ao sistema nervoso periférico, acarretando alterações de intensidade variável nas funções sensitivas, motoras e tróficas. Tais alterações geram problemas sociais, sejam pelos fatores estéticos, ou pela restrição funcional que aflija o indivíduo da vida produtiva normal na sociedade onde vive (ARVELO; TROCONIS; GUEDEZ, 1971; DUERKESEN, 1997). A Investigação da ocorrência das incapacidades físicas nos portadores de hanseníase oferece subsídios para avaliar a qualidade de atendimento aos pacientes, no que se refere ao programa desenvolvido à prevenção e ao seu tratamento, além de permitir o conhecimento da real situação da problemática. Dada à escassez de publicações nesta área, e com base no exposto, é propósito deste trabalho é avaliar a freqüência da ocorrência de lesões associadas à prevenção de incapacidades físicas em doentes com hanseníase, em um ambulatório de referência. ± 17 3 Objetivo Objetivo 18 3 OBJETIVO Avaliar a eficiência da prestação de serviço do Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, quanto à prevenção de lesões decorrentes das alterações neurológicas e das incapacidades físicas nos pacientes portadores de hanseníase; comparando-os com pacientes provenientes de outros serviços. ± 19 4 Pacientes e Métodos Pacientes e Métodos 20 4 PACIENTES E MÉTODOS 4.1 Pacientes Trata-se de um estudo retrospectivo, onde se fez a análise de 225 prontuários de pacientes cadastrados no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, residentes neste município e municípios vizinhos. Estes pacientes tanto foram diagnosticados neste Serviço de Dermatologia UNESP, Botucatu como em outros serviços, e encaminhados para este para acompanhamento. Quando o paciente foi encaminhado e atendido neste Ambulatório, passou a ser considerado como integrante do mesmo. Foram verificados registros médicos referentes ao período de janeiro de 1998 à janeiro de 2005, desde a primeira consulta do paciente, como as consultas subseqüentes ao diagnóstico. Ao final, constituíram uma população de estudo de 150 prontuários de pacientes com diagnóstico confirmado de hanseníase e em tratamento no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP. Considerou-se os que apresentaram neurite(s) e seqüelas neurológicas, bem como lesões decorrentes da perda da sensibilidade cutânea. Destes, foram selecionados 48 pacientes com neurites (com um ou mais episódios), decorrentes de processo reacional ou não, de todas as formas clínicas, exceto a Indeterminada. Realizou-se a comparação da freqüência das incapacidades ou seqüelas e de lesões decorrentes da perda da sensibilidade entre os pacientes provenientes de outros serviços, considerando-se o momento do atendimento, ou seja, se já as apresentavam ou não. Pacientes e Métodos 21 A partir desse momento, passaram a fazer parte integrante deste Ambulatório e a serem observadas a ocorrência de novas incapacidades ou seqüelas, sendo, então, considerados estes casos, como decorrentes deste Ambulatório. 4.2 Coleta de dados A coleta de dados foi realizada em quatro fases: 1- Levantamento da listagem de todos os pacientes cadastrados no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de BotucatuUNESP, fornecida pelo SAME (Serviço de Atendimento Médico) do Hospital das Clínicas da UNESP, Botucatu; 2- Levantamento e seleção dos prontuários dos pacientes que constituíram o universo do estudo cadastrados no serviço. O instrumento de coleta de dados utilizado nesta fase foi a planilha de inclusão de pacientes em estudo (Apêndice A); 3- Levantamento, em prontuário, das neurites registradas no momento do diagnóstico ou no decorrer do tratamento e a ocorrência de lesões associadas à prevenção de incapacidades. Foi utilizado nesta fase, o instrumento de coleta de dados da situação de tratamento dos pacientes (Apêndice B); 4- Verificação dos registros da assistência da equipe médica nos prontuários, no decorrer do tratamento, subseqüente ao diagnóstico, dando ênfase à prestação de cuidados e orientações: a- como as ações de orientação sobre a doença; b- curativos nas lesões, decorrentes de acometimento neural por falta de sensibilidade; c- diagnóstico e tratamento das neurites e orientações de imobilização do membro afetado; d- reabilitação de incapacidades físicas. Pacientes e Métodos 22 Foram consideradas alterações referentes às orientações de prevenção de incapacidades: 1- atrofia dos músculos da mão - decorrentes de ações diretamente nos nervos periféricos durante o episódio da neurite; 2- mão em garra - decorrentes de ações diretamente nos nervos periféricos durante o episódio da neurite; 3- Mal perfurante plantar - decorrente da falta de sensibilidade e traumas nos pés; 4- queimadura - decorrente da falta de sensibilidade na extremidade do membro; 5- garra ulnar - decorrente de ações diretamente nos nervos periféricos durante o episódio da neurite; 6- reabsorção óssea - decorrente de processos infecciosos nas áreas traumatizadas pela falta de sensibilidade; 7- pé caído - decorrente de ações diretamente nos nervos periféricos durante a neurite; 8- osteomielite - decorrente de processos infecciosos nas áreas de lesões cutâneas; 9- atrofia motora - decorrente de ações diretamente nos nervos periféricos durante o episódio da neurite. Para esta fase foi utilizado o mesmo instrumento de coleta de dados da fase anterior (Apêndice B). Os dados foram dispostos em tabelas para discussão analítico-descritiva do referido estudo. Os pacientes tratados neste ambulatório receberam todas as orientações ao alcance, bem como acompanhamento para verificação da compreensão e adesão às mesmas. Exemplificando, algumas das orientações: Os pacientes foram devidamente esclarecidos quanto ao teor do presente estudo e assinaram o termo de concordância com o mesmo. ± 23 5 Resultados 24 Resultados 5 RESULTADOS Foram estudados 150 pacientes portadores de hanseníase, de ambos os sexos e de todas as idades, acompanhados no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, no período de janeiro de 1998 à janeiro de 2005. Pacientes que vieram de outros serviços, passaram a fazer parte deste universo, a partir da primeira consulta e as possíveis alterações e seqüelas que ocorreram após isso, passaram a serem consideradas como sendo ocasionadas neste serviço. Exemplificando: pacientes que vieram de outros serviços e chegaram neste Ambulatório apresentando alguma alteração ou complicação na primeira consulta foram considerados como pacientes de fora do mesmo. A partir desta consulta, passaram a fazer parte deste Ambulatório e todas e quaisquer alterações, complicações ou seqüelas que pudessem surgir, foram consideradas como tendo aparecido em pacientes deste Ambulatório. Entre os 150 pacientes com diagnóstico de hanseníase, a relação dos que apresentaram neurites, encontra-se relacionada na Tabela 1. Tabela 1 - Relação dos pacientes que apresentaram neurites, de acordo com o número de episódios e com a procedência NÚMERO DE EPISÓDIOS DE NEURITES Local 1 2 3 4 Total Fora FMB 25 2 4 1 32 FMB 9 6 1 Total 34 8 5 16 1 48 25 Resultados De acordo com a tabela acima, dos 150 pacientes com hanseníase estudados, 48 pacientes (32%) apresentaram neurites; destes 32 (66,66%) vieram de outros serviços de saúde já apresentando sinais e sintomas dessa ocorrência, enquanto que 16 pacientes (33,33%) apresentaram durante o acompanhamento no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP. Observou-se, também, que entre os pacientes provenientes de outros serviços, 25 (78,12%) apresentaram apenas um episódio e sete (21,87%), mais de um. Entre os pacientes acompanhados no Ambulatório da Faculdade de Medicina de Botucatu, nove (56,25%) apresentaram um episódio de neurite e sete (43,75%), mais de um. A ocorrência de neurite foi da ordem de 37% dos pacientes. Os episódios reacionais, de acordo com o tipo de reações, estão relacionados na Tabela 2. Tabela 2 - Ocorrência de episódios reacionais, de acordo com o tipo de reação TIPO DE REAÇÃO LOCAL TOTAL Fora FMB FMB Tipo 1 9 4 13 (46,42%) Tipo 2 8 7 15 (53,57%) Total 17 11 28 (58,33%) Dos 48 pacientes que apresentaram neurite, 28 (58,33%) haviam tido processo reacional, sendo que em 13 (46,42%), a reação foi do Tipo 1 e, em 15 (53,57%), do Tipo 2. A relação dos pacientes que apresentaram algum tipo de alteração ou seqüela, de acordo com a época de aparecimento da mesma, isto é, se já chegaram ao Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina 26 Resultados de Botucatu - UNESP, apresentando-a ou se a desenvolveu após o seu seguimento no referido ambulatório, encontra-se na Tabela 3. Tabela 3 - Distribuição dos pacientes de acordo com o tipo de alteração ou seqüelas e procedência LOCAL ALTERAÇÕES OU SEQÜELAS TOTAL 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Fora FMB 1 2 2 3 2 1 3 1 1 FMB 1 Total 2 16 1 2 2 3 2 1 3 1 1 17 Foram considerados os seguintes tipos de alterações ou seqüelas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1e5 2e4 3e4 5e6 atrofia muscular da mão mão em garra mal perfurante plantar queimadura garra ulnar reabsorção óssea pé caído osteomielite limitação motora atrofia muscular da mão e garra ulnar mão em garra e queimadura mal perfurante plantar e queimadura garra ulnar e reabsorção óssea De acordo com a tabela, entre 150 pacientes com diagnóstico de hanseníase, em 48 (32%) que apresentaram neurite, observou-se a ocorrência das alterações em 17 (35,41%) pacientes, sendo que 16 (94,12%) eram pacientes provenientes de outros serviços de saúde e apenas um (5,88%), do serviço em questão. Alguns pacientes apresentaram mais de um tipo de alteração ou seqüela. Observou-se que as alterações ou seqüelas apresentadas pelos pacientes, conforme a descrição da tabela acima, foram distribuídas de forma que: Resultados ¾ 2: atrofia muscular da mão (1); ¾ 2: mão em garra ( 2); ¾ 2: mal perfurante plantar (3); ¾ 3: queimaduras (4); ¾ 2: garra ulnar (5); ¾ 1: atrofia muscular da mão (6); ¾ 3: pé caído (7); ¾ 1: osteomielite (8); ¾ 1: limitação motora (9). 27 Assim, quatro pacientes apresentaram mais de uma seqüela, isto é, mão em garra e queimadura, atrofia muscular e garra ulnar, mal perfurante plantar e queimadura, garra ulnar e reabsorção óssea, denotando um total de freqüência de 17 casos de alterações ou seqüelas, que foram consideradas separadamente. Em nosso estudo chegamos à conclusão geral que foram determinados 0,61 casos de alterações ou seqüelas por paciente. Nos casos de pacientes que são diagnosticados fora do Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP, esse valor passa para 0,94, ou seja, enquanto que para os pacientes que foram diagnosticados no Ambulatório em estudo o valor é de 0,09 alterações ou seqüelas por paciente. ± 28 6 Discussão Discussão 29 6 DISCUSSÃO Na hanseníase há vários tipos de problemas decorrentes da perda da sensibilidade. As reações são momentos cruciais do comprometimento neurológico na hanseníase por serem as causadoras das neurites; estas, por sua vez, são as grandes responsáveis pelas seqüelas neurológicas (GARBINO; STUMP, 2000). No presente estudo, observou-se, na amostra geral, a ocorrência de neurite em 32% dos casos. Entre estes, 34 (70,83%) pacientes tiveram apenas um episódio de neurite, sendo que 25 (73,52%) já chegaram para tratamento no Ambulatório apresentando sinais e sintomas e, portanto, somente nove (26,47%) faziam o acompanhamento no mesmo. Alguns pacientes apresentaram mais de um episódio, sendo que quando esse número foi de três e quatro, observou-se que esse fato ocorreu nos pacientes que vieram referenciados de outros serviços de saúde, quando comparados aos do ambulatório em questão. Sabe-se das dificuldades em se fazer o diagnóstico das reações e das neurites e, principalmente, das dificuldades terapêuticas destas situações (GARBINO; STUMP, 2000). Além disso, há o problema da disponibilidade de recursos humanos, além da adequada adesão do paciente. Outros pontos a serem considerados seriam o fato de que as equipes que dão assistência ao doente de hanseníase ou não têm conhecimento e experiência prática na prevenção de incapacidades ou não têm tempo suficiente para se dedicarem adequadamente aos doentes e, assim, só se consegue detectá-las quando já estão instaladas (MANINI, 2007; NOGUEIRA, 20071). Torna-se difícil discutir esses dados, pois não há como se prever a ocorrência de neurite para que esta possa ser maior ou menor em um determinado serviço ou em outro. Assim, os episódios ocorreram em ambos os grupos. No entanto, há nítida diferença nas observações entre as duas situações, ou seja, entre os pacientes que vieram de outros serviços e os do ambulatório em questão, constatando1 Manini M, 2007; Nogueira W, 2007 - informação pessoal. Discussão 30 se que as alterações ocorreram de modo importante no grupo proveniente de outros serviços. Esse fato pode demonstrar que esses pacientes podem ter tido o diagnóstico de neurite de forma correta e em tempo hábil; ao mesmo tempo, o tratamento e as orientações das mesmas foram, também, realizados adequada e precocemente. As reações Tipo 1 e 2 são importantes causas de neurites e estas, por sua vez, de problemas relacionados as seqüelas neurológicas. No Brasil, a prevalência da ocorrência de Reação Tipo1 é variável, de acordo com diferentes autores. Cunha (2001) observou 29% e Nery et al. (1998), 45%. Conforme Nery et al. (1998), a Reação Tipo 2, por sua vez, acomete pacientes multibacilares, V ou DV, numa freqüência de 55%. Nery et al. (1998) acompanharam uma coorte de 162 pacientes recém diagnosticados. Entre os da forma multibacilar, submetidos ao tratamento padrão, poliquimioterapia (PQT) de 24 doses, 46% sofreram reações durante o tratamento e nenhuma das variáveis, tais como, sexo, idade, forma clínica, tempo de doença e tempo de lesões dermatológicas, ou grau de deficiência, mostrou-se associada à ocorrência de reações. Ainda de acordo com este estudo, as Reações Tipo 1 tiveram a freqüência de 45% e as Reações Tipo 2, com uma freqüência significantemente maior, de 55%. No presente estudo, observou-se, conforme os dados da Tabela 3, alto índice de reações (58,33%), de acordo com os dados da literatura. Destes, 13 (46,42%) apresentaram reação Tipo 1 (RT 1) e 15 (55,57%) apresentaram reação Tipo 2 (RT 2), independente das variáveis, como, sexo, idade, forma clínica, tempo de doença, etc. Estes resultados estão de acordo com os intervalos percentuais descritos na literatura (NERY et al., 1998; CUNHA, 2001). A neurite ocorreu, provavelmente, pelo processo reacional, em 58,33%, praticamente não havendo diferença entre os Tipos 1 e 2. Observou-se que a proporção de Reação Tipo 1 e de Reação Tipo 2 foi maior entre os pacientes que chegaram no referido ambulatório para o tratamento da hanseníase, isto é, em 60,71% dos pacientes apresentando neurite com o processo Discussão 31 reacional já instalado, enquanto que a proporção de pacientes que já faziam acompanhamento no Ambulatório foi de 39,28%. Dos pacientes que apresentaram reação Tipo 1, nove (69,23%) já chegaram no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP apresentando esta reação e quatro (30,76%) que estavam em acompanhamento no referido Ambulatório desenvolveram esta reação. Dentre os 15 pacientes que apresentaram reação do Tipo 2 (ENH), oito pacientes (53,33%) foram os que já chegaram ao Ambulatório para tratamento da Hanseníase apresentando neurite com o processo reacional já instalado e sete (46,66%) já faziam acompanhamento da hanseníase no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP. Não há, também, uma prevenção da ocorrência de reação, exceto a do tratamento das mesmas. Nesse sentido, a freqüência dos pacientes que apresentaram reação do Tipo 1 foi menor naqueles pacientes que estavam em acompanhamento (30,76%) da Hanseníase no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, enquanto que 69,23% dos pacientes que já chegaram no Ambulatório apresentaram a mesma reação. Isto pode confirmar que a percepção e ou diagnóstico de reação mais precocemente num serviço especializado, com equipe multiprofissional atuando diretamente com os pacientes em diagnóstico, tratamento e orientações precisos, pode contribuir para que o paciente não seja acometido a complicações severas, chegando a ter alterações ou seqüelas. O doente necessita aprender muitas atitudes, se prevenir contra processos deletérios e, principalmente, aderir ao programa. Algumas lesões são decorrentes de traumas pura e simplesmente pela perda de sensibilidade crônica dos troncos nervosos. As mais comuns são contusões, queimaduras e formação de calosidades; estas, por sua vez, levam a problemas secundários como úlceras, infecções, que de inicialmente localizadas, podem alcançar a musculatura e os ossos, causando osteomielites e, conseqüentemente, reabsorções ósseas e mutilações. Outras são causadas por lesões diretas em troncos nervosos de modo agudo, como a “mão em garra” e o “pé caído”. De qualquer forma, crônica ou agudamente, a perda de Discussão 32 sensibilidade é a principal causa de lesões que levam a formação de cicatrizes e mutilações. As seqüelas foram relacionadas com a perda de sensibilidade cutânea, ou seja, por infiltração cutânea, ou decorrentes do comprometimento de troncos nervosos, com as conseqüentes alterações sensitivas motoras ou autonômicas, de acordo com dados da literatura (MENDES, 1999; OPROMOLLA, 2003). De qualquer forma, trata-se de um processo muito freqüente, com percentual alto e que podem levar a profundas conseqüências para o paciente (LOMBARDI, 1999; CARVALHO, 1995). Observou-se no presente estudo, que do total geral dos pacientes, 17 (35,41%) apresentaram algum tipo de seqüela; destes, 16 (94,12%) já as apresentavam antes de serem acompanhados no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP e somente um (5,88%) a desenvolveu durante o acompanhamento de sua doença no referido Ambulatório. As seqüelas que podem ser consideradas como sendo diretamente relacionadas à prevenção de incapacidades, como por exemplo, as citadas como de números três e quatro (mal perfurante plantar e queimadura), não foram observadas em nenhum dos pacientes que estavam sendo acompanhados no Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP. No entanto, os pacientes que apresentaram esse tipo de alteração já a manifestaram antes de seu acompanhamento no referido ambulatório. Embora em termos numéricos fossem apenas em dois pacientes, em termos percentuais (11,76%), pode-se considerar como relativamente alto, principalmente se levarmos em conta que as alterações poderiam ser, até certo modo, evitadas, o que pode ser comprovado pelo número muito menor entre os pacientes do referido serviço. A ocorrência destas alterações pode ser devida à orientação inadequada, especificamente em relação à qualidade no atendimento voltado para a prevenção das mesmas, que estes pacientes não tiveram quando foram diagnosticados. Neste Ambulatório há um atendimento contínuo aos pacientes; o mesmo é constituído por uma equipe multiprofissional, composta por médicos especializados, 33 Discussão médicos residentes na área de dermatologia e profissionais das áreas de enfermagem, assistência social e psicologia. Essas observações demonstram a importância da atuação direta deste acompanhamento por uma equipe multiprofissional especializada, com pessoal capacitado e, ao mesmo tempo, imbuído de realizar não apenas as orientações necessárias e obrigatórias sobre as alterações que possam ser decorrentes das lesões neurológicas provocadas por essa doença, bem como promover seu acompanhamento de modo direto, com a devida atenção, no sentido de fiscalizar e supervisionar o entendimento das orientações e a realização das mesmas por parte dos pacientes. Em relação às seqüelas consideradas como decorrentes de neurites e episódios reacionais, apenas um (5,88%) a apresentou após ter iniciado seu seguimento no referido ambulatório, demonstrando, também, a importância desse tipo de equipe no diagnóstico precoce das reações e das neurites, o que permite tratamento adequado e precoce. Observa-se que os pacientes apresentaram vários episódios de neurites ao longo do acompanhamento da doença, variando de um a quatro. Em nosso estudo chegamos à conclusão geral que foram determinados 0,61 casos de alterações ou seqüelas por paciente. Nos casos de pacientes que são diagnosticados fora do Ambulatório de Hanseníase da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP, esse valor passa para 0,94, ou seja, enquanto que para os que foram diagnosticados no Ambulatório em estudo, o valor é de 0,09 alterações ou seqüelas por paciente. Portanto concluímos que para cada caso de alterações ou seqüelas de pacientes do referido Ambulatório, tem-se aproximadamente 11 casos de alterações ou seqüelas para os pacientes que foram diagnosticados fora deste Ambulatório. ± Discussão 7 Conclusões 34 Conclusões 35 7 CONCLUSÕES O paciente portador de hanseníase está sujeito à ocorrência de alterações ou seqüelas, que podem ser minimizadas quando: 9 o diagnóstico e o tratamento são feitos precocemente; 9 quando as orientações são adequadas; 9 quando se faz o acompanhamento dos pacientes mesmo após a sua alta; 9 quando há uma equipe multiprofissional especializada envolvida. ± 36 Referências Referências 37 REFERÊNCIAS Andrade VL, Moreira T, Tardim R, Castro A, Sousa A. Campanha de eliminação da hanseníase combinada com a vacina antipoliomielite. An Bras Dermatol. 1998; 73: 15965. Arvelo JJ, Troconis T, Guedez M. Aspectos físicos, sociales y psicológicos de la incapacidad en el enfermo de la lepra. 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