A Oração de Jesus J ÚLIO A NDRADE F ERREIRA A Oração de Jesus 1ª reimpressão Copyright © Luz Para o Caminho 1ª Edição: Julho de 2003 Revisão: Délnia M. C. Bastos Ilustrações: Eunice Ferreira da Silva Capa: Sonia Couto (Sobre foto retirada de World Cultural and Natural Heritage Huangshan Mountains) Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e Classificação da Biblioteca Central da UFV F383o 2003 Ferreira, Júlio Andrade, 1912-2001 A oração de Jesus / Júlio Andrade Ferreira. — Viçosa, MG / Campinas, SP : Editora Ultimato / LPC Comunicações, 2003. 72p. : il. ISBN 85-86539-61-9 1. Pai-nosso — Meditações. 2. Orações — Crítica e interpretação. I. Título. CDD. 19.ed. 242.7 CDD. 20.ed. 242.7 2004 Publicado com autorização e com todos os direitos reservados LPC COMUNICAÇÕES Rua Antonio Zingra, 151 — Jardim IV Centenário 13070-192 Campinas - SP Telefone: 19 3741-3000 E-mail: [email protected] — www.lpc.org.br EDITORA ULTIMATO LTDA Caixa Postal 43 36570-000 Viçosa - MG Telefone: 31 3891-3149 — Fax: 31 3891-1557 E-mail: [email protected] — www.ultimato.com.br Estas páginas são dedicadas à memória do Rev. Haroldo Cook. De origem britânica, passou a maior parte de sua vida centenária no Brasil, visitando todos os nossos Estados e territórios. Testemunha fiel da fé cristã, escritor original, pregador vigoroso e incansável, foi mestre da oração. SUMÁRIO Prólogo: Aprendendo com o vigário 1. Pai nosso, e não apenas meu 2. Pai que estás nos céus, e na terra também 3. Engrandecido seja o teu Ser 4. O nome de suprema grandeza 5. O reino que já veio e está para vir 6. Plena obediência: na terra e no céu 7. O pão nosso, de cada espécie 8. Perdão, por extensão 9. Tentação, pode ser; queda, não! 10. Glorificação que se completa Epílogo: De que outro modo poderia ser? Pai Nosso, uma paráfrase Sobre o autor 9 13 17 23 27 31 37 41 47 51 57 61 67 71 As referências bíblicas foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil. prólogo APRENDENDO COM O VIGÁRIO O ditado popular diz que não devemos “ensinar o Padre Nosso ao vigário”. Mas não diz que não devemos aprender com ele. Seja vigário ou outra pessoa qualquer, caso tenha algo a nos ensinar, estejamos disponíveis ao aprendizado. Que texto é tão repetido como a oração chamada Pai Nosso? No entanto, até que ponto é compreendido? Ao ensinar tal oração, o divino Mestre acabava de dizer: “Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mt 6.8) A nossa lógica diria: “Já que Ele sabe de tudo, não há necessidade de orar”. Mas a lógica de Jesus é outra: “Portanto, vós orareis assim [...]” (Mt 6.9) Para Jesus não haveria nenhuma razão para orar a um Deus que não toma conhecimento de nossas necessidades e aspirações. Devemos orar, sim, a um Deus que sabe, com antecipação, de tudo, e, em tempo hábil, tudo provê. A esse Deus vale a pena orar. Somos seus filhos e Ele se compraz em nos ouvir. Como que está a nos dizer: “Eu te vejo. Que coisa gostosa é te ver.” É uma oração breve, que se contrapõe aos palavreados e repetições dos gentios. É uma oração eloqüente, pois diz tudo o que há a dizer, como se verá do ensino bíblico que a fundamenta. 10 É uma oração completa, sem vãs repetições — mas também sem omissões. Ela cobre toda a gama das necessidades essenciais. É uma oração modelo. 11 capítulo um PAI NOSSO, E NÃO APENAS MEU “Pai nosso...” Bela palavra para se iniciar uma oração: Pai. Em toda situação normal, pai é o amigo, o abrigo, o protetor. A palavra aramaica Aba, familiar ao judeu contemporâneo de Jesus, foi utilizada para designar Deus. Jesus usou-a no Getsêmani: “Aba, Pai, tudo te é possível [...]” (Mc 14.36). Paulo usou-a na Epístola aos Romanos, em contexto profundamente teológico: “recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.” (Rm 8.15) O termo grego pater, seguido do adjetivo nosso, não está longe do aramaico citado, e poderia ser traduzido pelo carinhoso papai. Dizer simplesmente pai, é uma coisa; chamá-lo de meu pai é outra; ainda outra o dizer Pai nosso. Cada adjetivo tem seu peso. Comecemos pelo que Jesus disse de si mesmo: Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Mt 11.27) O Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai. (Jo 10.15) Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti. (Jo 17.1) Vê-se claramente que Jesus experimenta uma filiação específica, além de nossa possibilidade e de nossa imaginação. Por isso mesmo, Jesus foi a base de nossa filiação. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” (Jo 1.14) Daí a declaração fundamental: A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (Jo 1.12, 13) 14 Além da paternidade específica quanto ao homem Jesus, há, pois, uma paternidade em relação ao crente, paternidade essa que não deve ser confundida com o mero poder criador de Deus, que o torna gerador de todo ser humano. Essa é outra expressão de “paternidade”. Diz Paulo, no discurso sobre o Deus Desconhecido: De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, [...] nele vivemos, e nos movemos, e existimos. (At 17.26-28) É certo que há uma família universal e, conseqüentemente, uma paternidade de Deus e a correspondente fraternidade humana, que não devemos ignorar ou negar. Deus, nesse caso, é reconhecido como Criador, como governador. Ele é origem, suporte e alvo de todas as pessoas, como de todas as coisas. “Julgará o mundo com justiça.” (Sl 96.13; 98.9) Mas não é disso que Jesus está falando nesta oração. Nem Pai meu, nem Pai, simplesmente. Fala de Pai nosso. Nem todos os seres humanos oram a “oração que Jesus ensinou”. Em seu egoísmo excluem os demais. Ao dizerem Deus meu, só meu, transformam-no em ídolo. A dependência quanto ao Pai nos leva à solidariedade quanto aos irmãos, solidariedade essa que é muito mais profunda do que a fraternidade universal. Se Deus é Pai nosso, está firmada a comunidade da fé. 15