www.processoc3.com
Edição Censurada
Classificação: Para maiores 18 anos
Sem barba, sem lenço, sem documento
Disponibilidade/Desprendimento/Visibilidade/PúblicoxPrivado
Quais os elementos que nos tornam visíveis? E quando não há elemento
algum? As noções de disponibilidade às vezes apresentam limites que esclarecem que estar disponível nem sempre significa estar totalmente ao dispor
de alguém. O que é público para uns pode ser privado para outros. O fato
de estar despido coloca o individuo em grande visibilidade, situação que tem
significados diferentes. Estar sem roupa em uma revista, em um filme, na
rua, no banheiro ou em fotografias possui o mesmo significado? Quais são
os limites entre o público e o privado?
Despir
Foto: Anderson de Souza
www.processoc3.com
ano 01 - Edição 06 - Agosto/2009
Capa:
Emerson Reche
Foto:
Romeu Bart
Local:
São Paulo/SP/Brasil
Informe C3: Porto Alegre/Canoas/São Leopoldo/RS.
Distribuição: Gratuita e ilimitada pelo território
da internet.
Direção e organização: Wagner Ferraz
Pesquisa e organização: Processo C3
Pesquisadores: Anderson de Souza, Francine
Pressi e Wagner Ferraz
Projeto gráfico e execução: Anderson de
Souza e Wagner Ferraz
Contato:
Wagner Ferraz
55-51-9306-0982
[email protected]
www.processoc3.com
Colaboradores:
- Paulo Duarte - Coimbra/Portugal
- Rodrigo Monteiro - Porto Alegre/RS/Brasil
www.teatropoa.blogspot.com
- T. Angel - Frrrk Guys - São Paulo/Brasil
www.frrrkguys.com
- Luciane Moreau Coccaro - Porto Alegre/Rio
de Janeiro
- Marta Peres - Rio de Janeiro/Brasil
- Mário Gordilho - Espírito Santo/Brasil
Bibliografia
SOUZA, Anderson de; PRESSI, Francine; FERRAZ, Wagner (orgs.). “Informe C3: Sem Barba,
sem lenço, sem documento - disponibilidade/desprendimento/visibilidade/públicoxprivado”.
Canoas, RS: S/E, agosto de 2009.
Obs.:
- S/E - Sem Editora.
- Apenas em formato digital.
Disponível em: http://www.processoc3.com/informe_c3/edicao05/processoc3_edicao06.pdf
Agradecimentos
Agradecemos também a todos que de forma direta
ou indireta colaboraram com o Processo C3 Grupo
de Pesquisa e com o Informe C3.
Terpsí Teatro de Dança
Porto Alegre/RS/Brasil
www.terpsiteatrodedanca.blogspot.com
Apresentação
A apresentação desta edição está despida de palavras.
Ilustração: Anderson de Souza
T. Angel - Frrrk Guys
São Paulo/Brasil
www.frrrkguys.com
Paulo Duarte
Coimbra/Portugal
Rodrigo Monteiro
Porto Alegre/RS/Brasil
www.teatropoa.blogspot.com
Marta Peres
Rio de Janeiro/Brasil
Luciane Moreau Coccaro
Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Didio - Fotógrafo
São Paulo/Brasil
Mário Gordilho
Espírito Santo/Brasil
Emerson Reche
São Paulo/Brasil
Romeu Bart
São Paulo/Brasil
Vinícius Manne
Rio de Janeiro/Brasil
André Lizza
São Paulo/Brasil
Angela Spiazzi
Porto Alegre/RS/Brasil
Ricardo Marinelli
Curitiba/PR/Brasil
Diogo Bezzi
Porto Alegre/RS/Brasil
Janaína Vasconcellos Santos
Viamão/RS/Brasil
Um abraço
Wagner Ferraz
O “Processo C3 Grupo de Pesquisa” busca investigar os processos de construção do Corpo
em diferentes contextos Culturais, relacionando com os discursos e práticas da Contemporaneidade. Tendo as artes, Moda e questões socioculturais como focos para tentar esclarecer e
fortalecer interrogações.
Índice
Ensaio 01 - O corpo disponivel
Wagner Ferraz
Banco de Dados Terpsí: Terpsí despir os vícios
Wagner Ferraz
Didio - Obras e Declarações
Ensaio 05 - “Os opostos se distraem, DISPOSTOS se atraem”
Francine Pressi
16
22
Ensaio 02 - Sobrevoando configurações sócio históricas, arquitetônicas,
conficionais, virtuais ...
Marta Peres
30
Entrevista 01 - Vinicius Manne
34
Ensaio Fotográfico - Emerson Reche - “sem barba, sem lenço, sem documento”
38
Ensaio 03 - O que a pornografia produz em nossa visão e em nossas praticas
sexuais?
Luciane Coccaro
52
Ensaio Fotográfico - Corpo de Boneca
56
84
90
Leituras indicadas
93
Ensaio fotográfico - T. Angel
94
Entrevista 03 - Ricardo Marinelli
104
Ensaio 06: A moda influencia na construção de identidade?
Anderson de Souza
110
Poema - O Belo
Mário Gordilho
113
Entrevista 02 - Heitor Werneck
Quem é quem?
Currículos Processo C3
Crítica Teatral
Rodrigo Monteiro
Quem é quem?
Currículos colaboradores
68
76
118
120
Ensaio 04 - O nu se cobre, a descoberta do nu...
Paulo Duarte
78
Ensaio Fotográfico - André Liza - Coringa
80
Foto: Wagner Ferraz
Despir?
Foto: Anderson de Souza
12 - Informe C3
13 - Informe C3
“Que legal nós dois
Pelados aqui Que nem
Fotos: Didio
20
14 - Informe C3
21 - Informe C3
nem me conheceram
O dia que eu nasci
Ensaio 01
Wagner Ferraz
Este ensaio faz parte de um apesquisa em processo.
O corpo disponível
Cultura, artes e moda
A noção de disponibilidade pode e deve ser compreendida como extremamente relativa, pois tudo vai depender do contexto. Uma pessoa pode estar disponível
para uma reunião, para um encontro, para uma festa,
para o trabalho, para namorar, para assistir um filme, para
transar... Estar disponível é estar à disposição, é ter tempo livre que pode ser preenchido com alguma atividade. É
estar desapegado de algumas coisas para se apegar ou
comprometer com outras.
A disponibilidade está no sujeito que se coloca
a disposição para o olhar, para o toque, ou se permite
o acesso (seja lá qual for esse acesso). Mas pensando
nesse acessível visualmente, é possível entender que o
corpo que foge da regra é um corpo a merce. Pois o corpo
“desregrado” é sinônimo de estranhamento, de curiosidade ou até de desejo. Dessa forma ou outro, o estranho, o
diferente que está no campo visual de um vidente, ou ao
alcance auditivo ou do toque de cego/deficiente visual, se
insere numa circunstância de acesso.
O acesso ao outro se dá pela condição de estar
se vivendo em sociedade. Mas quando se é um outro que
deseja ser visto, esse acesso é até certo ponto liberado,
com limite que só no respectivo contexto pode ser analisado. De acordo com MESQUITA (2004) o aparecer, que
neste texto está diretamente associado com o “ser visto”,
é muito valorizado na sociedade contemporânea.
“Eu aparento, tu aparentas, ele aparenta... Eu apareço, tu
apareces... Aparentar e aparecer são ações extremamente valorizadas na sociedade contemporânea, um tempo
no qual a presença em diferentes veículos da mídia define
bastante o grau de importância de pessoas, profissões,
valores e atividades”. MESQUITA (2004, 67).
16 - Informe C3
Seguindo os indícios apresentados por MESQUITA, o corpo na contemporaneidade se espetaculariza e
leva a pensar na questão que já foi mencionada anteriormente - o limite.
No âmbito artístico o corpo está sempre no foco
do expectador, mesmo quando o corpo não aparece. Uma
obra de arte feita de materiais nada humanos – ferro,
plástico, borracha entre tantos outros – leva a pensar no
corpo. Pois o espectador automaticamente se pergunta:
Quem fez essa obra? Isso leva a pensar no artista, no
corpo que moldou, pintou, retorceu... Ou também é possível pensar na seguinte dúvida vinda do espectador: Como
está obra foi feita? E isto aponta diretamente para a forma
como o artista, o sujeito, o corpo trabalhou para criar sua
obra.
Na dança o corpo é quem faz com que o movimento seja identificado como dança. O corpo torna-se
disponível tanto para o coreografo moldar como para o
publico analizar, observar, criticar, admirar... o corpo torna-se publico. A Cia Terpsí Teatro de Dança apresenta o
corpo como cena ou como construtor da cena na relação
com o outro e com todos os elementos disponíveis para a
interação.
A coreógrafa Lia Rodrigues apresenta em suas
obras um corpo nu, despido de suas roupas tornando
acessível aos olhos do espectador partes do corpo carregadas de questões tabus.
O disponível nem sempre é acessado pelo toque,
mas pode ser acessado pelo olhar, pela audição, pela
gustação e pelo olfato. A comida mesmo distante, muitas
vezes pode ser acessada pelo cheiro, e nem sempre é
ingerida.
17 - Informe C3
Que nem no banho
Seguindo os indícios apresentados por MESQUITA, o corpo na contemporaneidade se espetaculariza e
leva a pensar na questão que já foi mencionada anteriormente - o limite.
No âmbito artístico o corpo está sempre no foco
do expectador, mesmo quando o corpo não aparece. Uma
obra de arte feita de materiais nada humanos – ferro,
plástico, borracha entre tantos outros – leva a pensar no
corpo. Pois o espectador automaticamente se pergunta:
Quem fez essa obra? Isso leva a pensar no artista, no
corpo que moldou, pintou, retorceu... Ou também é possível pensar na seguinte dúvida vinda do espectador: Como
está obra foi feita? E isto aponta diretamente para a forma
como o artista, o sujeito, o corpo trabalhou para criar sua
obra.
Na dança o corpo é quem faz com que o movimento seja identificado como dança. O corpo torna-se
disponível tanto para o coreografo moldar como para o
publico analizar, observar, criticar, admirar... o corpo torna-se publico. A Cia Terpsí Teatro de Dança apresenta o
corpo como cena ou como construtor da cena na relação
com o outro e com todos os elementos disponíveis para a
interação.
A coreógrafa Lia Rodrigues apresenta em suas
obras um corpo nu, despido de suas roupas tornando
acessível aos olhos do espectador partes do corpo carregadas de questões tabus.
O disponível nem sempre é acessado pelo toque,
mas pode ser acessado pelo olhar, pela audição, pela
gustação e pelo olfato. A comida mesmo distante, muitas
vezes pode ser acessada pelo cheiro, e nem sempre é
ingerida.
Com o grande crescimento da população mundial,
os espaços simbólicos, sociais e geográficos se tornaram
mais ocupados pela população resultando em uma cultura do acesso. Onde os costumes e valores dos grupos
sociais estão a cada dia mais voltados para o acesso ao
outro.
Assim vão se estabelecendo as relações. Acessase a vida do outro e o outro acessa a minha. Essa troca
faz com que o ser humano esteja cada vez mais acessível
mesmo fugindo da violência urbana, se trancando dentro
de casa, shoppings ou condomínios fechados a sete chaves.
“A vigilância dos poderes públicos e os instrumentos de
controle coletivo foram decisivos nesse complexo processo de relação entre o mundo interno e a externalidade da
vida social na sociedade contemporânea. Uma vez que
compartilhamos um espaço cada vez mais disputado e
18 - Informe C3
Por baixo da etiqueta
escasso, foi necessário normatizar, regrar e conduzir a
vida coletiva urbana. Institucionalizamos todas as instancias de nossa experiência, legitimando atuações cada vez
mais especializadas e profissionalizadas para cuidar da
vida pública”. KEMP (2005, 88).
Dentro dessas normas legais ou simbólicas, surgiu a internet que em alguns meios facilita com que a vida
do homem se torne pública na sua estrutura privada. A
internet possibilita que o outro seja acessado, visualizado,
e até violado dentro de sua casa há km de distancia. Mas
além deste caso ainda há a disponibilidade de corpos em
sites, blogs e redes de relacionamento na internet que vivem da sua disponibilidade para o outro. Como os vídeos
pornográficos que são disponibilizados em partes, mas
podem ser acessados inteiramente se o internauta solicitar uma “assinatura” para visualizar o conteúdo integralmente. É claro que mediante a realização de pagamento
mensal, anual ou temporário (que depende da negociação
disponibilizada pelos intermediadores).
O astro pornô e performer francês François Sagat
(http://fsagat.blogspot.com) disponibiliza em seu blog particular vídeos e fotos onde ele atua com seu corpo inteiramente nu, ou semi-nu.
Mas o fato é que, ao acessar este blog passa-se
a visualizar o corpo e performances do ator integralmente.
Dessa forma sua considerada intimidade torna-se publica,
porém é uma intimidade muitas vezes forjada. Um espetáculo para o outro, o privado se torna público.
“... o obsceno não pode perder a essência de seu caráter,
que é a revelação do prazer e, por conseqüência, a transgressão do interdito. Exibido na intimidade do lar, no espaço privado, esse caráter pode ser ‘controlado’.” ABREU
(1996, 183)
Esse controle poder compreendido como a escolha em ver e assistir o obsceno, o nu, o pornográfico e ou
o erótico. O filme Shortbus (2006) e Calígula (1979) são
exemplos onde pode se perceber uma exposição completa da intimidade e de algumas ações dessa intimidade. E
visualizar isso pode ser uma escolha.
O nu também se torna público em praias intituladas de “praia de nudismo”, porém nesse caso pode se dar
através dos corpos que estejam vestidos. Em uma praia
de nudismo, o contexto é totalmente voltado para o não
vestir. Nesse caso o corpo vestido não se encaixa em um
contexto onde o homem pode ser visualizado como um
manequim de vitrine.
Disponível em: http://fsagat.blogspot.com
No caso dos budy builder que passam horas malhando para subir em um palco, exibir o resultado de horas, dias, meses e anos de intensos exercícios, o corpo
19 - Informe C3
É sempre tudo igual
é moldado para ser visto, analisado, julgado e premiado
ou desclassificado em competições. SABINO (2002,157)
esclarece que:
“em uma cultura na qual o entretenimento, o consumismo e publicidade se tornam pilares existenciais, a espetacularização passa a constituir o cotidiano dos indivíduos
preocupados com seu marketing pessoal. O corpo, além
de representar a verdade deste individuo, é também sua
vitrine”.
A noção de vitrine também pode se encaixar na
cultura da moda. Onde o corpo que estiver mais de acordo com os padrões estéticos vigentes, ou vestindo a roupa adequada do momento, é o corpo merecedor de atenção e de ser visualizado, desejado e serve de inspiração.
Como os corpos nas passarelas de eventos de moda, de
propaganda na TV e revista. Salvo os casos onde alguns
passam a se destacar em determinados contextos, sendo
alvo da visualidade de muitos e constroem novas noções
de corpo da moda e novas noções de moda conforme
descrito por VILLAÇA (2007, 156)
“a repaginação da periferia será assim, proximamente, um
foco de nossa atenção analisando as negociações midiáticas entre centro e periferia, focando entre muitos outros
casos como o Daslu versus Daspu, bem como a produção
e circuitos de distribuição de filmes como “sou feia, mas
tô na moda”, casos que oferecem dados para se discutir
a questão identitária e ressemantizar a relação centro/periferia. Dessa forma o circuito da mediação fashion abre
progressivamente seu campo performático geográfica e
simbolicamente, pondo em cena agônica o corpo hegemônico e as corporeidades pluriformes da periferia.”
Assim é possível pensar na visibilidade como aliada da acessibilidade. Porem é importante lembrar em alguns casos de pessoas com deficiência, que conseguem
ver, visualizar certos meios mas não podem acessá-los
se estes meios não forem adaptados para suas necessidades. A visibilidade só se encaixa extremamente com a
acessibilidade quando um indivíduo disponibiliza informações sobre si.
Dessa forma o outro pode visualizá-las e acessálas através de diferentes sensações que serão definidas
com base em limites estabelecidos.
Referências:
ABREU, Nuno Cesar. O olhar pornô: A representação do
obseno no cinema e no vídeo. Campinas, SP: Mercado de
Letras, 1996.
CASTILHO, Kathia e MARTINS, Marcelo M. Discursos da
Moda: semiótica, design e corpo. 2. ed. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2005.
KEMP, Kênia. Corpo Modificado: corpo livre?. São Paulo:
Paulus, 2005.
MESQUITA, Cristiane. Moda Contemporânea: quatro ou
cinco conexões possíveis. São Paulo: Editora Anhembi
Morumbi, 2004.
SABINO, Cesar. Anabolizantes: Drogas de Apolo. In:
GOLDENBERG, Mirian (org.). Nu e Vestido. Rio de Janeiro: Record, 2002.
VILLAÇA, Nízia. A edição do corpo: tecnociência, artes e
moda. Barueri, SP: Estação das Letras Editora, 2007.
O curioso e a xerêta
Que gostoso, sem frescura
Didio
22 - Informe C3
fotógrafo
Sem disfarce,
Obras e declarações
23 - Informe C3
sem fantasia
O fotógrafo Didio tem seu trabalho muito respeitado no exterio onde trabalha para algumas
revistas como Geil Mag, PrefMag, Tetu, Men
Evidence...recentemente foi convidado a fazer
um livro por uma editora alemã e uma exposição em Paris.
Que nem seu pai, sua mãe
Seu maravilhoso trabalho está nesta edição
levando a refletir sobre infinitas questões que
podem ser fomentadas pelas palavras de Didio.
http://modelsbydidio.blogspot.com
http://www.didiophoto.com/
1 - Fale um pouco sobre tua escolha em colocar muitas vezes os modelos nus em teus ensaios fotograficos.
“Acho que existe um engano aqui... Não fotografo modelos somente nus. O ato de se despir faz
parte da carreira de modelo, acho um equivoco
absurdo aqui no Brasil os modelos acharem que
o nu não faz parte deste negocio...
Quando penso no homem e quero retratar esta
beleza eu quero vê-lo em toda sua plenitude. No
meu blog você não vê o nu como esta sendo
interpretando aqui, não é erótico, não é vulgar, é
simplesmente sensual”.
24
27- -Informe
InformeC3
C3
Seu avô, sua tia...
Proibido pela censura
2 - Como tu ve o nu masculino em alguns veículos de publicação?
Acho pobre e preconceituoso, homofóbico e
equivocado. Um exemplo, tenho uma grande
mídia la fora interessada no meu trabalho, em
alguns momentos me chamando de o novo Bruce weber...
26 - Informe C3
Aqui no Brasil simplesmente me ignoram porque
fotografo homens, não como eles manipulam,
ou seja, um homem sem muitas qualidades sensuais... Se o trabalho que faço com os homens
fizesse com as mulheres seria muito famoso
aqui...
Ate mesmo as marcas de underwear tem medo
de fazer fotos um pouco mais sensuais, como
fazem a Calvin Klein e Armani... Isto tudo sempre manipulado pelas agencias de publicidade...
Simplesmente não conseguem separar o pessoal e o profissional.
“Acho pobre e preconceituoso, homofóbico
e equivocado”.
27 - Informe C3
O decôro e a moral
Liberado e praticado
3 - O que é o nu para ti?
Um processo natural que não deveria
estar em pleno sec. 21 ainda causando incomodo nas pessoas. Como disse
antes faz parte da vida dos modelos o
ato de se despir. Acho q a maldade esta
nos olhos de quem esta vendo, eu não
penso assim quando estão nus na minha frente.
4 - Como se dá o processo de despir os modelos nos teus trabalhos?
Acho que uma coisa muito importante
nesta área chama-se informação, se
você consegue mostrar possibilidades
aos modelos, eles te acompanham... Eu
tenho um grande problema em aprovar
styling aqui no Brasil, acho tudo muito
pobre, por isso prefiro fazê-los o mais
natural possível, tentando mostrar mais
personalidade deles e minha. Quando se
fala em fotografia de moda, existe toda
uma equipe envolvida, o trabalho nunca
é só somente do fotografo, acho q as vezes é muito mais do stylist e makeup...
Por isso sempre falo que este trabalho
realmente posso assinar e dizer que é
meu. Já tenho um trabalho com bastante prestigio mundo afora e geralmente
não tenho problemas em fazê-los tirar a
roupa.
“Como disse antes
faz parte da vida
dos modelos o ato
de se despir”.
28 - Informe C3
29 - Informe C3
Pelo gosto geral
Pelado todo mundo gosta
Ensaio 02
Marta Peres
Sobrevoando configurações
sócio-históricas, arquitetônicas,
confessionais, virtuais...
Quando foi lançado, em 1995, ‘Carlota Joaquina’,
de Carla Camurati, foi acusado de ter retratado Dom João
VI como um bobo, glutão, avesso ao banho, e Carlota Joaquina como uma grotesca ninfomaníaca. Nos meios de
comunicação, membros da família real brasileira declararam que o filme, uma ‘comédia histórica surrealista’, apresentava esses personagens de forma debochada e inverídica. Porém, talvez porque perderia a graça, parece que
não foi levantada a idéia de que não somente Dom João
evitava o banho, mas praticamente todos os seus contemporâneos, considerando que esse não consistia num hábito diário. Ainda hoje encontraremos uma lista infindável
de lugares no mundo em que isso não seria possível, seja
pela escassez de água, seja por diferenças culturais.
As cenas em que Carlota não disfarça suas ‘aventuras’ com amantes e em que Dom João, conversando
com a filha, no meio do mato, satisfaz as necessidades
fisiológicas – naquele tempo, utilizava-se o verbo ‘obrar’
- assim como passagens de inúmeros outros filmes, romances e peças, em que súditos afobados interrompem
o rei em pleno ato sexual para transmitir uma mensagem
urgente, deveriam ser corriqueiras há cerca de quatro séculos, ou até menos que isso.
Basta uma visita ao Museu Imperial de Petrópolis,
cidade serrana do Estado do Rio de Janeiro, palácio que
funcionava como residência de campo da família real, para
constatarmos a ausência de banheiros e de saneamento
básico – eles faziam uso de tonéis para a higiene pessoal
e de ‘cadeiras para obrar’, cujo buraco no assento possuía abaixo um objeto semelhante às comadres utilizadas
por pessoas acamadas. Além disso, não havia portas que
permitissem maior privacidade no interior dos cômodos.
Na Europa, a realidade não era diferente: na verdade, casas, como as atuais, com cômodos e móveis
especializados, representam uma modificação de mentalidades e sensibilidades posterior ao século XII, que muito lentamente se difundiu pelo restante da sociedade. A
privada ‘seca’, por exemplo, só viria a ser introduzida na
França no século XVIII, com uma aura de novidade inglesa. O Palácio de Versalhes, construído sem se medir
despesas, no século XVII, não possuía banheiros nem,
muito menos, privadas. (Rodrigues,1999:105). Voltando a
Petrópolis, o comentário de uma visitante me instigou à
reflexão:
‘eu não gostaria de ter nascido naquele tempo, não... eles
não tomavam banho direito, isso me dá um nojo... E essas
amas de companhia? O tempo todo ajudando os nobres
a se vestirem e tudo o mais, tomando conta da vida deles...’
Sua fala confirma um conceito básico das ciências sociais: se lhe fosse apresentado um extenso rol de
diferentes culturas e lhe pedissem para escolher uma delas, você certamente preferiria ... a sua! Roque Laraia recorre a Heródoto (484-424 a.C.) para explicar essa idéia:
tomando como referência sua própria sociedade, a grega,
o ‘pai da História’ apontava os costumes do lícios como
diferentes de ‘todas as outras nações do mundo’, ao mesmo tempo em que afirmava e reconhecia sua atitude ‘etnocêntrica’:
‘Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os
costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus seus próprios costumes, tão convencidos
estão de que estes são melhores do que todos os outros’
(Laraia, 1986:11).
A antropologia pode nos ajudar a compreender
que, além do diferente desenvolvimento do sentido do olfato - e o que lhe agrada ou não - de acordo com cada cultura, embora a configuração arquitetônica destes palácios
possa nos incomodar, a privacidade nem sempre foi uma
necessidade, ou mesmo, ainda que desejada, nem sempre da mesma maneira. Pelo contrário, se nos deslocarmos ainda mais no tempo, as casas medievais possuíam,
em geral, somente um cômodo, onde convivia um grande
número de pessoas e animais (!). Esses padrões culturais manifestavam-se em variadas esferas de existência
– na superposição das casas, no apinhamento das ruas,
na utilização, por diversas pessoas, da mesma cama, do
mesmo prato, do mesmo banco.
Convém ressaltar que, até hoje, parte desse ideal
arquitetônico consiste num indicador de privilégio de classe (Rodrigues,1999:105). Não é nem necessário ir muito
longe ou a uma ‘comunidade’ carente. Se você mora num
edifício onde vivem o porteiro e sua família – mulher e
filhos – todos num mesmo cômodo, não se pode esperar
que ele desfrute de privacidade em seus momentos íntimos como numa família de classe média possuidora do
famoso ‘quarto do casal’ com chave para trancar a porta.
das sensibilidades denominado ‘pudor’(Elias, 1994:32-3).
O sociólogo Norbert Elias trouxe uma importante
contribuição ao elucidar a historicidade das relações entre
o público e o privado no mundo ocidental. Ele demonstrou
que, por meio do que chamou de um ‘processo civilizador’, que atos, tais como se assoar, defecar, ter relações
sexuais, antes realizados em público, passaram a refluir
para a ‘privacidade do sigilo’. Elias ressalta que, embora
pareça óbvio e corriqueiro, o tipo de sensibilidade e de
autoconsciência que traz o sentimento de ‘individualidade’
- um ‘interior’, separado do mundo externo como que por
um muro - surgiu numa determinada época e corresponde
a uma estrutura psicológica e a uma conformação histórica peculiares. Concebendo os seres humanos individuais
ligados uns aos outros na pluralidade que é a sociedade,
este sentimento teria se estabelecido ao longo de certos
estágios do processo civilizador (Elias,1994:8-32).
Recorda-se que o advento do indivíduo é quase
que simultâneo ao surgimento das noções de Estado e
de população, as quais exigem novas formas de controle social, por meio de suas tecnologias disciplinadoras.
Ao longo do século XVII, estruturaram-se as sociedades
disciplinares e respectivas instituições baseadas no controle da atividade, distribuição dos indivíduos, hierarquia,
vigilância, sanções e exames, a fim de ‘assegurar a ordenação das multiplicidades humanas’(Foucault,1977:191).
O desenvolvimento do uso do espelho, ao longo
do medievo europeu, ilustra o processo de fortalecimento da noção de indivíduo. É curioso que a palavra alemã para ‘eu’ (ich) tenha somente aparecido quando os
membros da aristocracia, por volta de 1500, tornaram-se
conscientes deles mesmos como ‘indivíduos separados
da comunidade’ (Dale,1997:103).
A história do sistema de denominações reflete
como ‘o sentimento de identidade individual se acentuou
e se difundiu amplamente’ (Corbin,1995:419). Tendo trocado de nome, a fim de escapar de uma sanção penal,
Jean Valjean, protagonista de ‘Os Miseráveis’, de Victor
Hugo, demonstra que era comum falsear a identidade por
circunstâncias diversas. Seu destino não deveria parecer
inverossímel à época: ‘por volta de 1880, o indivíduo astucioso pode mudar de pele a seu bel-prazer’ (Corbin,1995:
430). Ainda não existia o sistema policial de Registro Geral e a ‘carteira de identidade’. Observa-se, desde aquele
tempo, o quanto o anonimato poderia servir como uma
proteção...
Estabelecido o sentimento de individualidade, segundo Elias, ao longo do processo civilizador, as manifestações impróprias do desejo passaram a ser escondidas
nos porões do psiquismo. Foi assim que ‘as maneiras de
comer, de se lavar, de amar e de morar se modificaram de
acordo com as novas fronteiras da intimidade dos corpos
e uma nova autoconsciência’. Todo o ritual burguês de civilidade estaria historicamente inscrito nesse refinamento
Dominando intensamente a esfera do comportamento, ao longo do século XIX, o pudor era associado
à crença de que os sentidos são ‘portas abertas para o
demônio’. O discurso médico ainda reforçava a moral vigente, à medida que preconizava ‘cirurgias’ para curar o
‘flagelo das práticas sexuais solitárias’ (Corbin,1995:454).
Debruçando-se sobre as temáticas da sexualidade, das instituições penais e do adestramento dos corpos,
Foucault denunciou os mecanismos de uma onipresente
tecnologia do poder na modernidade. Segundo ele, o sexual, elemento dotado de grande instrumentalidade nas
relações de poder, serviu como ponto de apoio para um
projeto político maior. O termo ‘sexualidade’ surgiu no século XIX, ‘para designar o conjunto de experiências – atos,
pensamentos, fantasias, desejos, sonhos, prazeres – que
se constitui como objeto de conhecimento científico e, por
conseguinte, como a origem privilegiada dos distúrbios
mentais’ (Bruno,1997:46).
Assiste-se, portanto, na passagem dos séculos XVIII para o XIX, ao enfraquecimento do domínio da
tecnologia da carne do cristianismo clássico. Simultaneamente, a sexualidade passa a se ordenar em torno da
instituição médica, segundo a exigência de normalidade.
Questões da morte e do pecado são substituídas por problemas médicos da vida e da doença.
Sem negar a existência do espaço de recolhimento cristão – o confessionário - o advento da ‘sexualidade’
aponta para o surgimento da necessidade de um novo
tipo de privacidade para este outro ritual da confissão, a
partir de então, pertencente às esferas médica e psicanalítica. Foucault demonstrou o quanto estas novas configurações sociais estão conectadas às respectivas relações
entre o público e o privado. Se, por um lado, constitui-se
e fortalece-se a subjetividade individual, por outro, esta é
confrontada com uma carga de controle social que o localiza dentro de uma ‘população’ da qual se conhece dados
a fim de se prescrever medidas políticas necessárias ao
bem-comum. Simultaneamente, a iminência de se misturar a uma massa amorfa impulsiona o desejo cada vez
mais intenso de ser - ou se sentir - ‘único’.
Todo mundo quer Ah é? É! Pelado todo
Foucault analisou a ‘sociedade disciplinar’, ancorada sobre o capitalismo industrial, formação histórica
que vigorou entre o final do século XIX e meados do século XX. Concomitantemente à sua emergência, ‘a carne
transfere-se para o organismo’ (Foucault, 1985: 111). De
lá para cá, assistimos a um novo contexto, em que certas características do período anterior se intensificam e
se sofisticam e outras se modificam radicalmente. Hoje,
terá o ‘organismo’ se transferido para o ‘mundo virtual eletrônico’? Como se dão as relações entre proteção à privacidade e busca de exposição quando é impositivo estar
‘conectado’?
Na atualidade, acessamos uns aos outros a dados pessoais com a facilidade de um clique do mouse.
Não somente para quem se inscreve nos chamados sites
de relacionamentos como o Orkut e o My Space, mas,
como estudantes, professores, artistas, pesquisadores,
devemos atualizar com freqüência bases de dados como
a Plataforma Lattes, dentre inúmeras outras, sob o risco
de não sermos nem mesmo aptos a concorrer em editais
de projetos, bolsas, eventos.
Sibilia indaga ‘como todas essas mutações influem na criação dos modos de ser’ (Sibilia, 2008: 15),
discorrendo sobre o quanto a rede mundial de computadores tem dado à luz a um amplo leque de práticas ‘confessionais’. Estaria a internet ocupando, na constituição
das subjetividades, uma posição análoga aos mecanismos de controle e confissão mencionados por Foucault?
Ilustração: Anderson de Souza
32 - Informe C3
gos, familiares... senão, aí que fico sem ninguém... o mundo é que tá desse jeito mesmo...’
Confortei-a dizendo que o antigo hábito de visitar
alguém parece não estar mesmo mais na moda e a aconselhei:
‘Conecte-se, passe e-mails, alimente seu blog
com fotos. Encaminhe os links com seus artigos publicados. Você pode não receber visitas ao vivo e a cores,
mas, em tempo real, chegarão comentários, respostas e
beijos (bjs)’.
Referências Bibliográficas
- Corbin, Alain. In Ariès, Philippe. Duby, Georges. História
da Vida Privada. Da revolução Francesa à Segunda Guerra. Cia das Letras: São Paulo.
- Dale, Karen. Identity in a culture of dissection: body, self
and knowledge. In Hetherington & Munro. Ideas of Difference. Social spaces and the labour of division. Oxford:
Blackwell Publishers, 1997Elias, Norbert. A Sociedade
dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
- Elias, Norbert. O Processo Civilizador, 2 vols. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
Assistimos a um conflito entre a busca de privacidade e a ânsia pela exposição. A fama, por si só, é a própria morte da privacidade. O vertiginoso crescimento da
indústria da fofoca, por sua vez, expandiu-se do mundo
dos famosos até os anônimos.
- Foucault, Michel. Historia da Sexualidade v. I. o uso dos
prazeres. Graal: Rio de Janeiro, 1985.
Contudo, tanto o espaço do privado quanto do público compartilham de uma profunda solidão. Retirar-se
do espaço público, num tempo em que as pessoas não
se procuram intencionalmente, mas se ‘encontram’ por aí,
é abrir mão do convívio, ainda que este se revele extremamente superficial. Segundo uma entrevistada (de uma
pesquisa de campo sobre a temática do corpo e intervençoes médicas), submetida recentemente a uma cirurgia,
o maior estranhamento causado pela necessidade de repouso, foi o súbito ‘desaparecimento’ de toda uma extensa rede de dezenas ou mesmo centenas de pessoas com
quem ela está habituada a conviver, em suas atividades
cotidianas. Isso apontou para a necessidade de transitar
nos espaços públicos, nos quais o contato com outras
pessoas é mera conseqüência, mas que, fora do mesmo,
o encontro parece não existir. Ela desabafou assim:
- Laplantine, François. Aprender Antropologia. São Paulo:
Brasiliense, 1997.
‘e o pior é que eu não quero ficar com raiva das pessoas,
sei que não é culpa delas, não quero ficar acusando ami
- Foucault, Michel. Vigiar e Punir. Vozes: Petrópolis,
1986.
- Laraia, Roque. Cultura: um conceito antropológico. Rio
de Janeiro: Zahar, 1986.
- Peres, Marta Simões. Corpos em Obras. Um olhar sobre
as práticas corporais em Brasília. Tese de Doutorado.
- Rodrigues, José Carlos. O Corpo na História. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1999.
- Sibilia, Paula. O show do eu. A intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
link:
- Peres, Marta Simões. A mega-academia enquanto um
não-lugar (filmado)
mundo fica Todo mundo é...
Pelado, pelado
Entrevista 01
Wagner Ferraz
Vinícius Manne
“pelado, pelado, nu com a mão no bolso”.
No ano de 1987 um acontecimento mudou a história do Brasil no que se referia a censura. A abertura da
Novela Brega & Chique criada por Hans Donner e sua
equipe causou polêmica. Ao som de “Pelado”, da banda
Ultraje a Rigor, a abertura mostrava um homem despido
com a “bunda” a mostra, inteiramente descobertas. De
acordo com inforamações no site da Rede Globo: “A censura exigiu que fosse colocada uma folha sobre o corpo
do modelo Vinícius Manne, e, no segundo dia de exibição
da novela, a folha estava lá, escondendo o traseiro do
modelo. Mesmo assim, a Censura não achou suficiente
e exigiu que o tamanho da folha fosse aumentado. Após
negociações, a versão original da abertura acabou sendo
liberada e voltou a ser exibida como no primeiro capítulo,
embalada pelo refrão pelado, pelado, nu com a mão no
bolso”.
A abertura da novela ficou na história e junto com ela Vinícius Manne que se tornou ator, e de lá pra cá participou
de várias novelas, peças de teatro, filmes...
Vinícius fala nesta breve entrevista sobre sua participação
na abertura desta novela e sua visão sobre o nu.
34 - Informe C3
35 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
1 - Fale sobre a abertura da novela Brega & Chique.
A abertura da novela Brega e Chique aconteceu num momento marcante.
Costumo dizer que foi o fim oficial da ditadura, foi a última
obra de comunicação censurada, nesse
pais.
Acho que aquilo foi de alguma forma, um deslize. Abriu
um espaço igualitário para a mulher, enquanto consumidora do homem como objeto.
E também um espaço para o homem, ser consumido daquela forma. Não vislumbro com precisão o alcance daquilo, como peça formadora de tendência - cultura portanto - por que atinge partes do imaginário popular que não
me chamam atenção.
Meu interesse está voltado pra outros momentos do pensamento humano e, confesso, existe uma cultura “sexista”
em nosso país que me cansa.
Acho que emburrece nosso povo.
Acho que, quanto à isso, os sociólogos já falaram o suficiente da sensualidade do “mulato inzoneiro”. Esse pobre
mulato, pra pouco se prestou além de mão de obra barata
na exploração do homem pelo homem.
Me parece um assunto estéril, por isso - sempre que tive
oportunidade de ser ouvido – procurei chamar a atenção
do povo pra necessidade de se informar, de aprender a
discernir o ópio, da realidade.
Discurso um tanto improvável, na boca de um modelo de
22 anos. Realmente, acho uma tolice redizer aquilo a uma
peça de teor erotizante.
Havia um cunho libertário, talvez até político.
Aliás, a cara dos anos oitenta.
36 - Informe C3
Pelado, pelado
2 - Fale sobre a abordagem dada ao corpo como algo público em situações onde a imagem e exposição do corpo
nu ou semi-nu é levada como construção de um padrão
de corporalidade adequada.
4 - Fale o que tu percebeu na visão de algumas pessoas
sobre a abertura da novela Brega e Chique relacionando
com o que tu cita como cunho libertário e talvez até político na abertura dessa Novela.
Entendi que vc está perguntando o que acho dos padrões
estéticos serem “ditados” pelas imagens veiculadas na
mídia. Acho que sempre foi assim, isso é cultural. Desde
a Grécia, um tipo de imagem é “definida” como a que deve
ser exibida. Como é cultura, muda com otempo. No bélle
epoque franês, o padrão era mulheres gordas, e assim
eram as belas.
Acho que hoje háum distorção de valores, onde as pessoas se rendem incondicionalmente a padrões, de forma
irrefletida e até burra.
Tomam drogas pra fazerem parte desse padrão, se tornam bulímicas, e outra tragédias pessais originadas por
esse tipo de vazio interior.
São pessoas que não sabem o que significa beleza interior, vivem mal e não poucas vezes morrem por
isso.
Ficar nú, até então seria necessariamente constrangedor - ser pego com as calças na mão, uma mão na frente e outra atrás - expressões que ilustram isso. Naquela
abertura o homem não ficava constrangido. No começo
se escondia, mas depois se recuperava, e tranquilamente
punha as mãos no bolso. A maioria dos homens se sentiu
“aliviado”, via isso como libertador. Aquela peça não trazia
closes do corpo, não usava a nudez com intuito erótico.
Então mexia com comportamento, com uma mudança de
imagem, uma perda de sisudez. Então se torna cultura,
ato político. Tanto que a censura partiu de um ministro de
estado, que odiou ver a imagem masculina “desmistificada”.
3 - Fale sobre essa cultura “sexista” que de acordo com
tuas palavras emburrece o povo.
Falo de um emburrecimento vertical, que atinge a todos
independente de posição social. Uma excessiva valorização do sexo como ferramenta de vendas, não por acaso
nosso país é um destino turístico sexual.
Acho que vem desde a colonização. Por muito tempo o
português não trazia mulheres, estuprava índias e negras.
Miséria, falta de educação, estupro consentido, isso se
arraigou em nossa cultura.
Sexo só é moeda por que há mercado. Nossa formação
como país ajudou a criar esse mercado.
5 - Fale um pouco sobre a relação nu e arte.
Acho que quando há arte, a nudez pode acontecer mesmo com roupa.
Entenda-se por nudez - exposição, despojamento de
posturas não sinceras. Na arte que faço busco isso,
apresentar a emoção humana, a vivência verdadeira.
Alegria, tristeza, enfim o que todo mundo vive. A arte
imita a vida, quando consegue mostrar isso fielmente, é
show.
37 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
Pelado, pelado
Emerson Reche
Fotos: Romeu Bart
Modelo: Emerson Reche
38 - Informe C3
Sem barba,
sem lenço,
sem documento.
39 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
40 - Informe C3
Nú com a mão
41 - Informe C3
no bolso Nú com a mão no bolso Nú com a
42 - Informe C3
a mão no bolso Nú com a mão no bolso
Sem barba, sem lenço, sem documento... Sem barba, sem
lenço, sem documento... Sem barba,
sem lenço, sem documento... Sem barba, sem lenço, sem
documento...
Sem
barba, sem lenço,
sem
documento...
Sem barba, sem lenço, sem documento... Sem barba, sem
lenço, sem documento... Sem barba,
sem lenço, sem do-
Emerson
Reche
44 - Informe C3
45 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
46 - Informe C3
Nuzinho pelado
Nú com a mão no bolso
48 - Informe C3
Indecente
Emerson Reche - Emerson Reche - Emerson
Reche - Emerson Reche - Emerson Reche Emerson Reche - Emerson Reche - Emerson
Reche - Emerson Reche - Emerson Reche Emerson Reche - Emerson Reche - Emerson
Reche - Emerson Reche - Emerson Reche Emerson Reche - Emerson Reche - Emerson
Reche - Emerson Reche - Emerson Reche Emerson Reche - Emerson Reche - Emerson
Reche - Emerson Re-
É você ter que ficar
50 - Informe C3
Despido de cultura
Dai não tem jeito
Quando a coisa fica dura
Ensaio 03
Luciane Coccaro
O que a pornografia produz em nossa
visão e em nossas práticas sexuais?
Segundo Hanna (1999) os historiadores da arte
Margaret R. Miles (1985), Marina Warner (1985) e Edwin
Mullins (1985) pesquisaram que nossa percepção é informada por imagens nos campos distintivos e opostos do
sagrado e do profano. As imagens foram decisivas para
transmitir informação antes do supremo reino da televisão.
Esse artigo não tem base em investigação de
campo, mas compartilho alguns pontos de vista de alguém que se coloca como observadora – voyeur - de um
universo de programas televisivos com ênfase na pornografia e no sexo explícito.
Nesse estudo importa perceber como a TV e a internet - através de programas de sexo explícito - transmitem conceitos de sexo. Segundo Kohlberg (apud Hanna:
1999) a teoria da modelagem fornece uma explicação:
Pretendo problematizar as imagens pornográficas
que penetram nossa vida diária e privada. No sentido de
trazer a seguinte reflexão: o que essas imagens nos causam? O antropólogo Lévi-Strauss pensou a respeito da
cozinha, para ele alimento bom de comer é alimento bom
de pensar. Da mesma maneira podemos perguntar em
que a pornografia é boa para pensar?
Um indivíduo tende a reproduzir atitudes, atos e emoções
exibidas por um modelo observado (vivo ou filme simbólico ou televisão). Um modelo pode ser cognitivamente
registrado e usado ou permanecer na memória subconsciente até que uma situação relevante o estimule. (Hanna,
1999: 37, 38)
De acordo com Gil (1997) o corpo não fala, ele
faz falar. O que representa essa exposição da nudez, de
partes íntimas do corpo, de variadas maneiras de fazer
sexo, ou até divisão em etapas colocadas em seqüência:
sexo oral, depois sexo com penetração vaginal e no final,
às vezes nem sempre, sexo anal. Isso nos vídeos mais
comuns de orientação heterossexual.
Goffman & Umiker-Sebeok apud Hanna (1999)
explicaram como nossas noções de papel sexual estão
codificadas na metáfora de imagens visuais na propaganda. Por exemplo, num recorte de construção de gênero
masculino, temos o homem de Marlboro proclamando que
qualquer homem pode ter valor de macho com um cigarro
na boca.
Na maior parte das cenas de pornografia, na TV e
na internet, o papel falocêntrico do homem na sociedade
dita heterossexual é reforçado. É comum cenas de duas
mulheres fazendo sexo oral uma com/na outra, mas não
assistimos esse tipo de prática entre dois homens, será
um tabu? Será que essas imagens não estão escondendo
uma homofobia? Por que duas mulheres podem aparecer
transando e dois homens não? Quais os significados dessas práticas e seus arranjos?
O interesse nesse assunto surgiu da constatação
da imagem em torno do sexo nos programas com selo
“adulto” ter virado algo de domínio público. Práticas sexuais e corpos nus-sexualizados jorram das páginas da
internet e na TV. Quais os significados dessa visibilidade
sexual em âmbito público? Fazer sexo é um fenômeno coletivo? Em que medida esses programas atingem nossas
práticas sexuais? Como o sexo caseiro - feito no privado
– se relaciona (ou não) com toda essa exposição? O que
nos causam essas imagens?
52 - Informe C3
Minha hipótese é a de que as práticas sexuais
consumidas por meio da TV e da internet estão nos informando – como uma receita ou guia – como devemos agir
no fazer sexo. Essa informação nos contamina. Segundo
Katz (2001) as informações do mundo nos tocam e nos
penetram num processo chamado contaminação ou contágio, graças à noção da mesma autora, de que teríamos
um corpo mídia, poroso, aberto ao trânsito de informações
e trocas com o meio ambiente.
A sexualidade e suas implicações (ver Weeks,
1985; Vance, 1984) atuam através de metáforas e outros
mecanismos de significação codificadora. Esses modos
condensam ansiedades, desejos e aspirações em torno
do prazer e do perigo, e mobilizam atitudes, energias e
ações. A sexualidade e o papel sexual simbolizados concedem e adquirem valor ou significado através de imagens. Uma troca constante ocorre entre imagens e a realidade (Hanna, 1999).
Imagens disponiveis em vídeo no site: www.xtube.com
Deleuze (1992) argumenta sobre a importância da superfície dos corpos, porque é nas imagens de superfície – na
pele, o local da inscrição dos enunciados - ora expostos,
ora ocultos. Tratar das superfícies é lidar com a profundidade e não com interpretações, é perceber as dobras e
redobras desses corpos em ação.
Rosa Fischer (2001) nos pergunta sobre esse aspecto da superfície se o acúmulo de imagens e informação é da ordem da experiência? Deleuze (1992) nos chama a atenção para a trama que as imagens nos propõem.
Para ele uma imagem nunca está só, mas ela estabelece
relações com outras imagens, mentais, pictóricas, virtuais, televisivas etc.
Estamos falando de imagens e sensações sexuais compartilhadas via mídia - de prazer, de satisfação,
de controle, de impulsos, de desejos. Estamos entrando
no campo das emoções, mas afinal como são percebidas
pela audiência estas emoções?
A emoção é considerada um sentimento, e os ocidentais não fazem a separação entre sensação corporal e
experiência afetiva, onde o próprio corpo é ele em si mesmo um incorporamento(2) estético de categorias específicas culturais e padrões sociais. (Desjarlais apud Leavitt:
1994)
E esta noção de corpo como um incorporamento
de uma cultura estética se aproxima da idéia de Lupton
(1998) para quem tanto o corpo quanto as emoções - que
ela prefere chamar de estados emocionais - servem para
unir a natureza e a cultura. Sendo que uma forma de
entender a natureza sócio-cultural das emoções é através
de um olhar sobre os discursos que estão em torno das
emoções.
Por isto Lupton entrevistou homens e mulheres
australianos sob o foco de como estes sentiam e exteriorizavam as suas emoções, o que possibilitou com que a
autora recolhesse muitos discursos verbais e não retratos
da realidade, que são descrições sobre as emoções vividas.
Para Csordas (1988) o corpo não só faria a ponte entre natureza e cultura, mas seria ele mesmo a base
existencial da cultura, o sujeito da cultura, para que isto
seja possível o autor examina criticamente duas teorias
de incorporação: a de Merleau-Ponty (1962) e de Bourdieu (1977; 1984); e propõe o colapso das dualidades,
que nada mais é do que acabar com a dualidade corpo e
mente.
O paradigma de incorporamento, ou corporalidade, é entendido como emoções sentidas dentro do corpo
e como estas são controladas, porque o que está em jogo
é a relação entre sujeito - corpo e emoções. As maneiras
como as pessoas entendem, experimentam e falam sobre
suas emoções está relacionada com o senso de imagem
corporal:
53 - Informe C3
Sem roupa, sem saúde Sem casa, tudo é tão
Um indivíduo tende a reproduzir atitudes, atos
e emoções exibidas por
um modelo observado
(vivo ou filme simbólico
ou televisão). Um modelo
pode ser cognitivamente registrado e usado ou
permanecer na memória
subconsciente até que
uma situação relevante
o estimule. (Hanna, 1999:
A imagem corporal é um mapa ou representação do grau
de investimento do sujeito no seu corpo e nas suas partes. (GROSZ 1994: 83 apud Lupton)
Rosaldo (apud Lupton 1998) descreveu as emoções como pensamentos encarnados, pensamentos de
alguma forma sentidos em impulsos. E a forma na qual
vão ser exteriorizadas as emoções estará relacionada
com limites da sociedade e padrões de comportamento
culturais.
As emoções são comumente sentidas e descritas
como respostas a estímulos que geralmente ocorrem fora
do corpo e logo criam mudanças nos estados emocionais,
ou sensações dentro do corpo. (Lupton, 1998: 87)
Uma pesquisa das emoções e sensações causadas por imagens de sexo explícito pode ser chave para
entender de que maneira estamos sendo (ou não) tocados por tais imagens. Para tanto precisaríamos investigar
aqueles, como eu – habitués – da audiência desses programas.
Para um estudo específico da pornografia tanto
na internet, como nos canais de TV por assinatura, sugiro
algumas questões:
Qual a diferença, no domínio público, de estar nu
e de estar nu em situação sexual?
Podemos pensar num corpo próprio para pornografia? Que corpos são esses? O que os move? Quais
impulsos, estímulos e emoções estão em jogo?
Nas posições e práticas sexuais variadas o que
é recorrente? Será que podemos falar de uma seqüência
dessas posturas?
A pornografia nesses programas está servindo
para informar, como regra, bula, receita, manual de aprendizado as nossas relações sexuais?
No universo do Swing, essa proposta de troca de
casais estará redefinindo noções de traição, fidelidade e
cumplicidade? Qual o significado de fazer sexo na presença de outros casais e ainda trocando de parceiro?
Quais os significados do sexo ter sido deslocado
do domínio privado para a esfera pública? E as implicações disso em nossas imagens sobre sexo e nas nossas
práticas?
Como pensar a relação do sexo na mídia e no
privado?
Nesse estudo importa perceber como a
TV e a internet - através de programas de
sexo explícito - transmitem conceitos de
sexo. Segundo Kohlberg (apud Hanna: 1999) a teoria da
modelagem fornece
uma explicação:
Essas reflexões embrionárias sobre o tema
mídia e pornografia colocam a questão do modo de
olhar a visão de sexo da mídia. E esse olhar do telespectador é pautado na experiência de se deixar ser
tocado por tais imagens. Mais do que uma imitação, a
teoria da modelagem inclui atuação e escolha pessoal.
O sexo explícito na mídia televisiva oferece
modelos de atitudes e comportamentos, a questão
está em perceber o que essas imagens nos levam
a pensar, imaginar, negar, interagir, criar, esconder,
sentir, viver, fazer, reproduzir, copiar... Enfim, parafraseando Lévi-Strauss e Gil: Por que elas parecem
boas pra pensar?
Notas:
- (1) Antropólogo fundador da Escola Estruturalista
Francesa.
- (2) Ver mais sobre o tema em CSORDAS, Thomas
J. (1988) No texto intitulado: Incorporação como paradigma para a Antropologia.
Obras consultadas
- CSORDAS, Thomas J. Embodiment as a paradigm
for Anthropology. Ethos, 18: 5-47, 1988.
- DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro:
Ed. 34, 1992.
- FISCHER, Rosa Bueno. Mídia e artes da existência:
para pensar imaginários em excesso. In: Revista da
FUNDARTE, v.1. n.1 Montenegro: Fundação municipal das artes de Montenegro, 2001.
- GIL, José. Metamorfoses do corpo. Lisboa: Relógio
D’Água, 1997.
- HANNA, Judith Lynne. Dança, Sexo e gênero. Rio
de Janeiro, RJ: Rocco, 1999.
- KATZ, Helena & GREINER, Christine. A natureza cultural do corpo. In: Lições de Dança 3. RJ:UniverCidade,
2001.
- LEAVITT, John. American Antropologist, Arlington,V.
96, n. 3, p.758 –759, september 1994.
- LUPTON, Deborah. Going with the flow. Some central discourses in conceptualising and articulating the
embodiment of emotional states. In: Nettleton, Sarah
& Watson, Jonathan. The body in everyday life. New
York, Routledge, 1998.
A barriga pelada É que é a vergonha nacional
Corpo de
boneca!
56 - Informe C3
Vai! Pelado, pelado Nú com a mão no bolso
58 - Informe C3
59 - Informe C3
Pelado, pelado Nú com a mão no bolso
60 - Informe C3
61 - Informe C3
Pelado, pelado Nú com a mão no bolso
62 - Informe C3
63 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
64 - Informe C3
Nú com a mão no
65 - Informe C3
bolso
66 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
67 - Informe C3
Nú com a mão no bolso
Entrevista 02
T. Angel
Nuzinho pelado
Heitor Werneck
Heitor Werneck é um dos maiores
ícones da cultura underground da década
de 90 no Brasil. Sua marca, a Escola de
Divinos, vestiu milhões de pessoas, principalmente os clubbers que surgiam junto
com a coqueluche nacional da música eletrônica. No auge do Mercado Mundo Mix
e da Galeria Ouro Fino, lá estava Heitor
Werneck com a sua marca, sempre trazendo novos conceitos. Teias de aranha
fluorescentes, coroas coloridas, sapos,
lagartos e insetos eram alguns exemplos
das estampas trabalhadas pela marca. Indubitavelmente, a Escola de Divinos promovia uma frenesi na moda dos anos 90.
Sempre atuando multiculturalmente, Heitor Werneck inovou mais uma
vez ao organizar a feira Pulgueiro. Moda,
música, arte, performance art, decoração
preenchiam o gigantesco espaço que sediava o Pulgueiro. Iniciado também na suspensão corporal, algumas de suas suspensões foram realizadas durante as edições
do evento.
Por possuir diversas modificações
corporais, era e ainda é comum vê-lo concedendo entrevistas falando sobre o tema.
O que fez sempre com particular maestria.
Atualmente, Heitor Werneck está
a frente do Projeto Luxuria, uma festa de
fetiche e que inclusive completa três em
agosto.
Talvez, essa pequena introdução
fosse desnecessária pela constante atividade e feitos do nosso entrevistado. Mas
se faz necessário pontuar que é uma honra e grande satisfação entrevistar alguém
cujo valor cultural é imensurável e singular.
Confira a entrevista!
Foto: Thiago Marzano
68 - Informe C3
69 - Informe C3
Nú com a mão no bolso!
Pelado: Ultraje a Rigor
e ainda visto. Aprendi que a porra underground sustenta
a cobertura e os problemas de encanamento ficam nos
andares do meio, então, eu fujo do meio e vivo nos extremos.
5 - T. Angel: Sua marca a “Escola de Divinos”, principalmente nos anos 90, vestiu muita gente. Era corriqueiro
o desfile da marca entre os cybermanos das periferias e
também entre as estrelas globais. Trabalhar com contrastes sociais te influenciou de alguma maneira?
Heitor Werneck: Sabe eu fui punk de rua e ai tive uma
grande aula sobre mendigos e ricos e tal, todos cagam...
Eu sempre acreditei que contraste de cu é rola. Odeio a
classe média e seu pensamento medíocre e, sempre adorei comer ricote ou camenbert, acho mussarela comum!
(risos). Vestia gente que tinha a manha de se destacar
e ainda visto. Aprendi que a porra underground sustenta
a cobertura e os problemas de encanamento ficam nos
andares do meio, então, eu fujo do meio e vivo nos extremos.
1 - T. Angel: Sabemos que você ostenta diversos tipos
de modificações corporais. Conte-nos um pouco sobre o
seu processo de modificação? (Quando começou, inspirações, anseios e etc)
Heitor Werneck: Eu desde criança desejava ser um vampiro ou Jesus Cristo. (risos) Ai pequeno já ficava afiando
os caninos na frente da TV, e a noite botava durex na orelha para deixar elas com pontas. Eu comecei a me tatuar
com onze anos e com agulha e nanquim, morava no interior. Já tive várias modificações corporais, 4 transdermais,
implantes penianos, implantes no peitoral, scar, branding,
cutting e brincos pelo corpo. Hoje só tenho as tattoos e as
scars, branding e cutting, lógico. risos Fiquei meio triste
com a postura dos profissionais aqui do Brasil, de mods
que eu fazia, eles até entendem a técnica, mas não te
dão suporte se algo acontecer errado. Acredito que esta
geração nova seja mais humilde e seja mais solidária.
Infelizmente a postura de estrelismo destes profissionais
aqui no Brasil é lendária e acho uma pena isto, porque no
fundo nós somos os objetos de arte ambulante do trabalho destas pessoas e merecemos atenção. Não só por
escolhermos eles como profissionais para realizar nossos
projetos, mas também como seres humanos querendo
ter alguma assessoria caso algo dê errado no processo.
Foto: Thiago Marzano
4 - T. Angel: Além das modificações corporais, você também pratica a suspensão corporal. O que você busca com
a suspensão?
Heitor Werneck: Estudei teologia e fiz minha pós em Ciências da Religião. Sempre tive, como já falei, fixação em
Cristo e personagens sobrenaturais. Tenho muita curiosidade em religiões antigas e nos métodos de como chegar
a ter experiências místicas. Todas as formas de suspensão que fiz e faço são tiradas de rituais e tento até por
sons. Tenho uma tara por estar próximo de Deus. Busco
sensações corporais e quiçá algum transe místico, só tive
as sensações quando fiz o coma e foi uma experiência
fantástica. A melhor suspensão que fiz foi a flor de lótus
e com dois profissionais do caralho, o Pingüim e o Tosacão.
2 - T. Angel: Quando você diz que morou no interior em
sua infância, nos situe onde exatamente?
Heitor Werneck: Fui criado no interior do Rio, depois no
interior de Minas e depois no interior de SP. Meu pai era
bancário, vivíamos viajando e mudando de cidade.
3 - T. Angel: Quando você cita um desapontamento com
os profissionais brasileiros em relação a falta de suporte,
teve alguma situação específica contigo? (não precisa citar o profissional.)
Heitor Werneck: Tive várias situações desagradáveis
com estes profissionais. Quando eles precisavam de mim
pra estampar notícias ou fotos em bobologs, eram todos
solícitos, quando infeccionava algo, eu tinha que ir em
hospital ou médicos porque eles nem sabiam como lidar.
Eu tive um acidente e bati o transdermal, para conseguir
um profissional que olhasse o estado e fizesse algo foi
dificílimo. A pessoa que fez estava sempre viajando. Tive
que ir num cirurgião plástico para tirar. Não acho isto legal, destes “profissionais”, esta é uma das histórias, tenho
váriaaas. Mas como disse, vejo mais humildade e preparo
nesta geração nova, antes só tínhamos dois pop stars,
hoje vejo mais profissionais e me parecem mais humildes.
Isto é o mais legal, humildade!
70 - Informe C3
Foto: Thiago Marzano
5 - T. Angel: Sua marca a “Escola de Divinos”, principalmente nos anos 90, vestiu muita gente. Era corriqueiro
o desfile da marca entre os cybermanos das periferias e
também entre as estrelas globais. Trabalhar com contrastes sociais te influenciou de alguma maneira?
Heitor Werneck: Sabe eu fui punk de rua e ai tive uma
grande aula sobre mendigos e ricos e tal, todos cagam...
Eu sempre acreditei que contraste de cu é rola. Odeio a
classe média e seu pensamento medíocre e, sempre adorei comer ricote ou camenbert, acho mussarela comum!
(risos). Vestia gente que tinha a manha de se destacar
6 - T. Angel: Em uma de suas entrevistas você fala sobre
sua admiração ao modo de vida dos mendigos. Você continua os admirando?
Heitor Werneck: Eu acredito piamente na anarquia que
os mendigos fazem do mundo. O mundo deles tem regras
e códigos e a estética dos mendigos é linda. Gosto do
sujo, das cores preto, marrom, cinza e gosto das sobreposições, do jeito dos cabelos. Gosto de tudo deles, acho
uma pena morrerem de frio, mas dentro de casa também
morremos...
Eles são únicos, você não vê um morador de rua igual ao
outro, eles tem identidade.
7 - T. Angel: Sei que você não seguia tendência de moda
e em diversas entrevistas renegou o título de estilista,
preferindo ser chamado de costureiro. Qual a sua relação
com a moda num contexto geral?
Heitor Werneck: Acho um mercado de trabalho do caralho e acho que temos super profissionais legais aqui. O
trampo das rendeiras do Nordeste, o bilro, o macramê,
a colcheteria, o patchwork mineiro. Tivemos Zuzu Angel,
Denener e um monte de gente do caralho. Acho um saco
copiarmos tendências gringas, aliás, acho um saco isto
só, a copia e o uso de jeans. Todo mundo com roupa igual
parece uniforme, falta de estética e dizem que estão na
moda? Já imaginou daqui a trocentos anos, quando forem
nos estudar? A geração igual! O que acho divertido da
moda é que é um império e como todo império, pode-se
abala-lo. Eu sou costureiro mesmo, só tô num bairro mais
caro, mas faço o mesmo processo, compro o tecido, tiro
medida, corto o tecido, costuro, vendo, atendo o cliente
com linha na boca e olheira por ter varado a noite, levo
cheque sem fundo e tenho que correr no banco para cobrir conta.
71 - Informe C3
8 - T. Angel: Você não teme que com a busca do diferente
todos acabem se tornando iguais, visualmente falando?
Heitor Werneck: Eu acho que uma busca do diferente
nunca resulta num igual. Todo mundo busca algo diferente
do outro, isto é muito filosófico. O que não dá é pra ver
todo mundo de jeans e se achando com atitude né?
que vão são lindas e produzidas e nada hypes. E pagam,
não existe vip.
9 - T. Angel: Conte-nos sobre o estado atual da Escola
de Divinos?
Heitor Werneck: Vou abrir a loja de novo este ano. Tava
meio ausente porque tive um câncer e tive como escolha
entender o porquê desta doença e não ter mais ela perto
de mim. Então a curei! Vou voltar com a loja, a marca neste meio tempo eu continuei trabalhando nela com roupas
sob medida e figurinos pra show e tal, mas tô abrindo de
novo até setembro. Tá tudo muito parado! (Risos)
15 - T. Angel: O projeto também se tornou um site de relacionamento. Conte-nos um pouco sobre esse salto para
o território digital?
Heitor Werneck: Eu odeio o mundo digital, sou real, mas
tive a necessidade de abrir este site. Primeiro, o Orkut
deleta perfil de BDSM, segundo, fetiche, S&M e a estética
S&M é minha praia. A estética punk é formada nisto, preciso de trocas de informações e de me divertir, tudo o que
faço é pra me divertir.
16 - T. Angel: Fale um pouco sobre o papel do Torture
Garden como referencial para o Luxuria?
Heitor Werneck: Eu sempre frequentei e fiz festas fetichistas, quando fiquei doente fui dar um role e a dona
do Torture Garden é uma amiga minha, que também teve
câncer. Ela falou, vai lá e faz tua festa, se divirta no tratamento e realmente isto me inspirou e não é que tá dando
certo? Antes eu produzia algumas e ajudei em outra festas, mas ai não tinha a ver com o que acredito de festa de
fetiche e sai delas. Eu queria fazer algo igual ao Torture
Garden mesmo, um label, mais um lugar que o visu fosse
o maior critério. Quando vi que nenhum lugar fazia isto e
tive este conselho, fui lá e fiz. Chamei o Nagash, que é
uma pessoa que acredito e que foi meu parceiro no Pulgueiro. Chamei alguns amigos donos de clubs em SP e
que não faziam a festa por grana e sim por acreditarem no
projeto (o Audio que eu sou super grato) e depois tá ai.
Hoje em dia já tem cópia até. No meio BDSM, que tanto
criticou faz igual e fico triste quando vejo que gente que
não deu a cara para bater tá fazendo isto, até o nome
copiam. Acho um saco, já tive roupa, tatuagem, projeto
copiados e agora a festa, um saco!
10 - T. Angel: A volta da Escola de Divinos está sendo
citada pela primeira vez em público, é isso? risos
Heitor Werneck: Sim! É a primeira vez que falo da volta
da loja!
11 - T. Angel: Como foi o processo de assimilação do
diagnóstico câncer?
Heitor Werneck: Eu acho que o câncer veio numa época
foda. Tive uma sequência de relacionamentos ruins, um
péssimo “meu primeiro amor” e um outro pior ainda. Ai
minha decisão foi vou entender a doença e o porquê dela.
Fiz um curso de física quântica, fiz uma escolha de religião e voltei para minha família. Fechei a loja, a fábrica e
tudo. Fiz o Luxuria no final do tratamento pra me divertir
e curei tudo. Agora é só sequela do tratamento.
12 - T. Angel: Dentre seus inúmeros trabalhos, temos
o mercado multicultural Pulgueiro. Não há previsões de
acontecer novamente?
Heitor Werneck: Sim! Com a loja de volta e eu voltando
para SP, fica mais fácil de organizar tudo. Vou fazer o Pulgueiro e agora com apoio né? E apoio verdadeiro!
O Pulgueiro é um outro filhinho que adoro...
Foto: Thiago Marzano
13 - T. Angel: Atualmente você vem trabalhando com o
Projeto Luxuria, que inclusive completa 3 anos agora. Fazendo uma análise retrospectiva, cite-nos um ponto alto e
um baixo durante esses 3 anos?
Heitor Werneck: Ponto alto da festa, as pessoas se vestirem, se produzirem e não usarem drogas pra se soltarem sexualmente. Ponto baixo, neste meio do BDSM há
tanto preconceito como no meio de tattoo e mods e muita
fofoca. Acho estranho como as pessoas que se sentem
excluídas (eu não me sinto, pago o mesmo imposto e aliás queria não paga-los) e reis, dons, rainhas e tal não se
juntam e só se agridem e se detonam mutuamente. Talvez
por se sentirem excluídos. Mas não são todas as pessoas
não, só uma parcela que se destaca e infelizmente aparece mais que o humilde que sustenta arte ou sustenta sua
sexualidade em paz.
14 - T. Angel: O Luxuria retorna com o dresscode, que
era comum nas festas dos anos 90. Há uma resistência
a esse molde?
Heitor Werneck: Nenhuma, a resistência é minha ao mundo atual e ao falso glamour da noite atual. As pessoas
72 - Informe C3
Foto: Thiago Marzano
Fotos do arquivo pessoal
de Heitor Werneck.
73 - Informe C3
17 - T. Angel: A festa brinca com o fetiche sexual, com as
fantasias e similares, todavia, é perceptível um ambiente
que cambia entre o lúdico e o onírico. Era um objetivo
esperado?
Heitor Werneck: Sabe Neil Gaiman? O personagem Delirium, sou uma criatura de Delirium e acho que se invocamos sexualidade, mechemos com inconsciente e todo
mundo dentro do inconsciente acredita num personagem
né? Acho que é porque invoco deuses também, então fica
energia sexual. O tantra é uma forma de magia foda né?
Sexo é lúdico e delicioso.
18 - T. Angel: Agora existe o o Luxuria for men (and all).
Essa iniciativa seria uma necessidade de separar o homo
do hetero, uma possibilidade extra ou o que exatamente?
Heitor Werneck: Os gays que pediram, eu só faço lá na
SoGo porque o lugar e maior e fica um espaço no terceiro
andar para os gays (que na verdade entra quem quer).
Eu não acredito em separação, é principalmente isto. Mas
o lugar é maior para abranger mas pessoas e também ter
um lugar no domingo pra se divertir. Foi porque os gays
pediram (e poucos vão aliás).
Eu odeio a cultura gay dark room, faço tudo nas claras. O
povo da SoGo se mostram ótimos parceiros e também..
estão apostando no projeto.
19 - T. Angel: Existem planos futuros para os próximos
anos de projeto?
Heitor Werneck: Tenho uma teoria assim, não sei se vou
estar vivo amanhã. Faço de tudo pra estar e fazer mais
coisas do que estou fazendo hoje, ou seja, milhões de
projetos e tudo com pressa. Um deles é começar a fazer
filme pornô. Você já viu como nosso pornô é péssimo, de
mau qualidade e mau produzido? Num país que exporta
puta, puto e trans? E que todo mundo dá o cu? Eu fui júri
numa feira de sexo e vi os filmes, fiquei de cara com a
produção feia, vamos melhorar. risos
Foto: T. Angel
Foto: T. Angel
Foto: T. Angel
Foto: T. Angel
Foto: T. Angel
Foto: T. Angel
Fotos do arquivo pessoal de Heitor Werneck
74 - Informe C3
75 - Informe C3
Crítica Teatral
Rodrigo Monteiro
Por baixo da toga ou
dentro da arca
Outro dia olhei a foto de um amigo em sua formatura da pré-escola. Diferente da
minha que era vermelha, a bata dele era azul.
Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim e você
Vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho papão
A hora em que Álvaro Vilaverde retira uma criança
da platéia e faz com que, sentada no meio do palco, todas
as boas energias se convertam para ela é quando nosso
coração infla e nos lembramos de que somos humanos.
Ao nosso lado, desconhecidos ou não, mas humanos
como nós, vivenciamos o teatro, sentindo que é, em instantes como esse, que a arte se torna ritual. Crianças um
dia, crianças ainda, crianças. Juntos, olhos nela como se
pudéssemos olhar todas, adultos dizemos “cuide-se”, ou
“aproveite” ou, quem sabe, “prepare-se”! Juntos na infância vivida, na infância perdida, na infância mantida. Juntos no medo do bicho papão. Juntos na lembrança ou na
percepção ou vivência do “começando a viver”. Criança é
potência. Dela vem o que virá.
“A Arca de Noé”, produção da Laura Leão, da
Lívia Perrone e da Patrícia Machado, fez com que, pela
primeira vez em dez, onze anos, eu lembrasse de “Uma
professorinha muito maluquinha” da Cia. Stravanganza (
infelizmente não há nenhuma foto desse espetáculo no
Google Imagens), que me fazia lembrar de mim mesmo,
na minha pré-escola, antes de vestir a toga vermelhinha.
Volto ao meu passado infantil e, agora, reflito, por que, ao
invés de envelhecer as crianças, são as adultos que se
infantilizam em momentos como esse? Não é doce, nem
colorido ser adulto? Não é leve? Não é mágico e especial
ter trinta, vinte e dois, sessenta anos? Sim, acredito que,
embora não sempre, às vezes é. Mas é na infância que
reside a ingenuidade, que não tem nada a ver com burrice, mas que nos faz pensar sobre a mania de relacionarmos o que já vimos com o que estamos vendo, empregos
antigos com o atual, velhas amizades como as que tenho
agora. A criança não tem passado, ainda não consegue
ver dimensões e não entende sobre o tempo.
76 - Informe C3
“A Arca de Noé” não tem história. Os atores relatam o mito do dilúvio como motivo para as músicas. Daí o
principal diferencial desta produção, de Zé Adão Barbosa,
dá já citada direção de Adriane Mottola. Lá a dramaturgia
era fechada. Aqui é potente. Lá havia potência. Aqui há
dramaturgia, mas entendendo o espetáculo enquanto atualização de um sistema, reconhecemos que cada processo consiste em (re)hierarquizar sub-sistemas de acordo
com o gênero que se escolhe. Aqui é uma coletânea de
músicas infantis compostas e/ou organizadas por Toquinho e por Vinícius de Moraes. Lá era a atualização para
o teatro dos desenhos e textos de Ziraldo. Assim, não é
pela narrativa da história bíblica que o aqui nos prende. É
pela capacidade de produzir (de plantar) em nós nossas
próprias histórias. (Seria “A Arca de Noé” um espetáculo
infantil pós-dramático?)
Os atores Álvaro Vilaverde, Beto Chedid, Lívia
Perrone, Regina Rossi e Simone Rasslan se chamam pelo
nome e usam um figurino (Titi Lopes) nada além de muito
bonito. O cenário, bastante colorido, é de uma simplicidade imensa: não produz ambientes, mas serve unicamente
para colorir o espaço e dar abrigo para elementos que
não devem ser vistos em determinados momentos. Da luz
(Carlos Azevedo) se diz o mesmo. Ou seja, não é através
de elementos técnicos que essa produção nos prende e
nos encanta. É, com certeza, pela capacidade do figurino
de nos fazer lembrar nos personagens que nos fizeram
sonhar; pela força do cenário que nos faz recordar as previsões que tínhamos sobre os lugares que, no futuro, visitaríamos; pela presença da luz que nos (e)leva ao nosso
antigo eu. E, sobretudo, traz de volta um tempo em que
não nos chamávamos por professor, escritor, mestrando,
mas apenas pelo próprio nome.
A experiência “A Arca de Noé” é incomparável.
Podemos dizer que ela se aproxima de outras experiências inesquecíveis e nenhum pouco menores, mas é difícil
falar sobre a forma como as crianças e os adultos reagem
ao que acontece no palco. E aí me lembro do que se vem
estudando sobre a performance, o inusitado, o aqui e agora do palco, da cena, do cotidiano. Consigo, pelo menos,
observar que a incomparabilidade da experiência coletiva
acontece porque é formada de pequenas experiências individuais. A direção musical de Marcelo Delacroix faz-nos
contemplar Simone Rasslan, ela só um espetáculo a par-
te. O exato se vê na docilidade forte da voz de Vilaverde
e na graciosidade dos outros três atores já citados. De
um modo geral, mas não menos individual, de Noé a São
Francisco cada humano chega, nessa assistência, a ficar
próximo de Deus, mas não distante do humano. E o que
vem a ser isso se não a crença em Jesus Cristo, um Deus
que se faz homem?
Eis que olhamos para esse espaço dentro de nós,
esse lugar sagrado que reservamos para momentos em
que queremos nos abrigar para não sermos vistos porque
é hora de não assim sermos. É lá que encontramos os
elementos em potência, o que virá a ser o que for, a volta,
o retorno, o recomeço, a nova chance.
Afinal, seja azul ou vermelhinha, preta , longa e
solene, é o que está dentro que nos faz sermos individualmente plural, protegidos de qualquer dilúvio.
Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei.
FICHA TÉCNICA
Direção: Zé Adão Barbosa
Direção Musical: Marcelo Delacroix
Elenco:
Álvaro Vilaverde
Beto Chedid
Lívia Perrone
Foto: Gustavo Razzera
Regina Rossi
Simone Rasslan
Preparação Vocal: Simone Rasslan
Preparação Corporal: Regina Rossi
Figurino: Titi Lopes
Bonecos: Tânia Farias
Luz: Carlos Azevedo
Produção: Laura Leão, Lívia Perrone e Patrícia Machado
Assessoria de Imprensa: Lauro Ramalho
Foto: Gustavo Razzera
Ensaio 04
Paulo Duarte - Portugal
[email protected]
O nu que se cobre,
a descoberta do nu...
“O homem e a mulher estavam ambos nus, mas não sentiram vergonha. [Mas, depois de comerem o fruto da árvore
proibida] abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo
que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às
outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta
dos rins”(1).
Pensar o nu com uma tónica religiosa remete-me
desde logo para o início, em forma de mito, narração poética, da história da humanidade, segundo a visão judaicocristã. Diz-nos o relato que o homem e a mulher estavam
nus, não havendo vergonha entre eles. O nu era natural, impensável como algo a reflectir ou a averiguar, era o
modo de estar e ser, que se alterou com a vontade humana de ser como Deus.
A árvore proibida era-o na medida em que provocaria o endeusamento de quem dela comesse o fruto.
Porque não haveria o homem e a mulher de o comer? O
relato quer mostrar que o humano não pode, devido à sua
condição intrinsecamente limitada, ser Deus… No entanto, comem e ao fazê-lo tomam consciência da fragilidade
e a nudez torna-se sinal disso mesmo.
Em causa não está a nudez, mas a forma como a
realidade humana é apresentada. Podemos assim, a partir desta apresentação, ver um outro lado da nudez, sob o
ponto de vista mais interior e filosófico.
Estar nu… Encontrar-se em vulnerabilidade ou
em liberdade. Ou até vulneravelmente livre… Tendo como
pano de fundo a relação com a transcendência o humano
quando está nu diante do Outro, do divinamente Outro,
apresenta-se com total liberdade, ou seja, nada tem a esconder e nada a mais necessita, para além do seu ser
pessoa, para ser quem é. Despoja-se interiormente para o
encontro com o divino, já que é através desta relação que
o ser humano poderá participar da própria vida de Deus.
O encontro com a divindade em muitas culturas
é preparado através de rituais de purificação, exteriores
e interiores(2), que colocam a nu quem deseja esse momento de relação, com o intuito de se ser preenchido pela
entidade divina. De facto, como afirma Simone Weil, “a
graça preenche, mas ela não pode entrar senão onde
existe um vazio para a receber(3)(…)” . A ideia de que a
entidade divina tem, por um lado, a vontade explícita de
penetrar nos poros do humano, por outro, o impedimento
78 - Informe C3
de o fazer caso o ser humano não se disponha a que tal
aconteça, é clara com este pensamento de Weil.
O despojamento, o “pôr-se a nu” diante do transcendente, é um caminho a percorrer, partindo de um autoconhecimento, passando pelo abrir de horizontes em relação ao Outro, onde o vazio é o espaço aberto resultante
desses passos dados, a ser preenchido pela graça. Um
artista, por exemplo, no processo de concepção passa
por este vazio. A vontade de conceber que rapidamente começa a ser preenchida pela inspiração que levará
a criar. Criação, que maturada, estruturada, pensada, vai
revelar algo de quem a criou. No fundo, passar-se-á para
o momento em que irá expor a sua obra, expondo-se, em
parte, a si. Perde o sentido a criação artística que ficará
fechada apenas no espaço privado. O acto de publicar, de
a tornar pública, tem consigo a revelação de algo para o
Outro. E aí a obra torna-se, de alguma forma, transcendente, pois sai do tempo e do espaço da sua concepção.
Então aquele que concebe e que expõe, vive a
ligação com o divino, participa da realização da criação
divina, porque está a libertar algo de si, para o Outro. João
Paulo II, na Carta aos Artistas, afirma que “o artista, quando modela uma obra, exprime-se de tal modo a si mesmo
que o resultado constitui um reflexo singular do próprio
ser, daquilo que ele é e de como o é (...). As obras de arte
falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e
revelam o contributo original que eles oferecem à história
da cultura”(4).
Sem desejar fazer uma generalização simplista,
ao pensar neste sentido de exposição todo o ser humano é criador. Criar, no que lhe é possível, os momentos
do seu dia, os encontros, as relações que vive. Expõe-se
quando se dá ao outro, do mais desconhecido, até àquele
com quem vive profunda empatia e intimidade, em que se
destapa e revela a sua fragilidade, numa confiança plena.
Como acontece este criar, do mais quotidiano
ao mais extraordinário? De facto, é um caminho a percorrer, como já afirmei, através do conhecimento pessoal
de si e dos outros. Dá-se neste caminhar o descobrir de
quem se é. Podemos brincar com esta palavra, em que,
no seu sentido literal, fala da des-coberta, neste caso do
tirar o que não se conhece seja de si, seja do (O)outro, e
tirar o que não se conhece seja de si, seja do (O)outro, e
também leva ao desejo de ir mais longe no descobrir, no
procurar, maiores conhecimentos, ligações, novidades,
que afectem a relação com o (O)outro. O ser humano e o
divino têm em si esta carga de mistério, que não é o nãoconhecível, ou o não possível conhecer, mas o ter algo
mais a revelar, a ir ao fundo, através da libertação do que
em cada um está coberto.
Todo este caminho tem uma dimensão afectiva
muito forte, que passa pelo sentir, mais que o saber. O
arrojar em fazer caminho na direcção da profundidade é
um desafio que começa pela vontade, mas que inevitavelmente atingirá a emoção, o afecto. A tal vergonha dos
primeiros homem e mulher é compreensível quando se
pensa em todo este sentido do nu como revelação da própria pessoa como é, pois não sendo impossível, é difícil.
No entanto, à medida que adensa o despojamento, promovido pelas descobertas feitas, a vergonha desanuviase e perde-se o medo de se estar nu diante do Outro, que,
pelos passos dados em conjunto, vive-se a participação
quer da humanidade quer da divindade.
Assim, as folhas de figueira perante a confiança
que se vive em relação ao divinamente Outro deixam de
ter razão de ser e viver-se-á o nu com naturalidade, como
modo de estar e ser, diante do transcendente que se esvazia para criar.
Notas:
1 - Génesis 2, 25; 3, 7.
2 - Por exemplo: as abluções, normalmente com água – já
que pode ser com outros elementos -, um momento de
confissão sacramental, uma caminhada ou peregrinação.
3 - WEIL, Simone – A Gravidade e a Graça. Lisboa: Relógio D’ Água Editores, 2004, p. 18.
4 - João Paulo II – Carta aos Artistas. 1999. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jpii_let_23041999_artists_po.html [Visto em 2009.Jul.31].
Bibliografia
João Paulo II – Carta aos Artistas. 1999. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jpii_let_23041999_artists_po.html [Visto em 2009.Jul.31].
WEIL, Simone – A Gravidade e a Graça. Lisboa: Relógio
D’ Água Editores, 2004.
79 - Informe C3
Coringa
Auto retrato: André Liza
André Liza - São Paulo / Brasil
Formado em Design de Fotografia pela Panamericana Escola de Arte e Design. Estudante do curso de graduação tecnológica de Fotografia na Universidade Anhembi Morumbi. Tem um trabalho constante e parelelo com
séries de auto-retrato. Diploma em vários cursos que abordam interesses na area de maquiagem, iluminação,
tratamento de imagem, direção de modelos. Tem interesse, experiencia/pesquisa assuntos como: Comportamento, expressão corporal, cores no processo de criação de imagens, audiovisual, retratos, auto-retrato.
Portifólio on line no flickr: http://www.flickr.com/photos/keybaba/
80 - Informe C3
81 - Informe C3
82 - Informe C3
83 - Informe C3
Banco de Dados
Terpsí
Wagner Ferraz
Foto: Anderson de Souza
Intérprete: Angela Spiazzi
83 - Informe C3
85 - Informe C3
Terpsí
Despir os
vícios
As obras da Terpsí Teatro de Dança apresentam
possibilidades de criar cenas onde tanto o conjunto como
cada parte, cada movimento, cada momento, cada elemento cênico leva a pensar no despir alguns vícios que
podem ser encontrados facilmente em alguns espetáculos. Talvez a palavra “vício” possa ser substituída por outra, mas aqui ela é usada para designar códigos, imagens,
lembranças e elementos muito comuns e repetitivos que
muitas vezes não surpreendem. Não que toda obra coreográfica deva surpreender, pois um espetáculo ou processo criativo em dança pode falar de alguns clichês ou de
imagens extremamente comuns. Porém a forma como o
coreografo irá apresentar isso é que faz a diferença.
Muitas vezes algumas pessoas repetem o tempo
todo para outras que as amam, para quem ouve pode ser
algo interessante, mas com o tempo também pode se tornar algo tão simples, tão comum que pode passar a ser
visto e compreendido com banalidade e nem faça mais
diferença. Pois o “Eu te amo” é dito tantas vezes e para
tantas pessoas que já não surpreende mais. Mas quando
alguém está doente e precisa simplesmente de alguém do
lado da cama pra segurar a mão, sem nem mesmo falar
nada, talvez considere isso mais importante do que ouvir,
“eu te amo”. Assim pode-se compreender que falar que se
ama alguém pode ser algo simples, comum, corriqueiro
sem surpresas, e tantas outras coisas que leve a refletir
sobre isto. Mas o fato como se diz isso é que faz a diferença. Pode-se dizer através de atitudes de ajuda, através
de atenção, através de respeito, através de um abraço,
através de um presente, como cada um preferir. Mas sem
pronunciar em nenhum momento a frase: “EU TE AMO”.
Ou repetir quantas vezes quiser, é uma questão de escolha.
Na dança também se pode perceber isto. Podese falar de coisas simples, comuns e extremamente cotidianas, mas a forma como vai se falar sobre isto é que faz
uma dita diferença. Algumas cenas na dança viraram tão
comuns em tantos espetáculos que se pode assistir a um
espetáculo de dança contemporânea por ano e falar de
alguns outros sem nem mesmo assisti-los. Mas como foi
dito, pode-se falar de alguns outros, não de todos. Assim,
no caso de trabalhos que fogem do clichê, que surpreendem de forma simples, que prendem o espectador e que
levam a pensar sobre muitos assuntos, estão as obras da
Cia Terpsí Teatro de Dança.
A Terpsí fala da dor sem os interpretes necessitarem fazer uma expressão dolorida no rosto, uma expres-
84 - Informe C3
são cansativa, uma expressão que não se sabe se é pra
falar da dor ou se é pela falta de noção do coreografo, diretor ou interprete que não perceber uma linha tênue entre
o falar sobre algo e lançar as propostas, e falar de algo e
esfregar na “cara” do espectador o que está se querendo
dizer. Às vezes as palavras não são necessárias, às vezes na dança contemporânea pode-se pensar em despir
o intérprete de alguns exageros que podem muitas vezes
prejudicar a obra.
ras tão duras e formatadas que parecem gritos dizendo
quais técnicas construíram aquele corpo para a dança.
Se for se falar de uma técnica especifica, apresente-a e
a assuma. Mas se for falar de algo sem a intenção de se
utilizar fielmente de uma técnica especifica, é importante
que não se tenha medo de se despir dela, de utilizar o
que for necessário, de explorar as intenções e dinâmicas
aprendidas nos anos de aperfeiçoamento técnico, mas
dispa-se...
É importante pensar em estimular o intérprete, “dar asas”
a estes para que tenham coragem de se despir de postu-
Carlota Albuquerque, coreógrafa e diretora da Cia
Terpsí, permite e auxilia que seus intérpretes abram mão
do que se tem, para olhar para isso tudo e decidir o que
se pode ou deve usar, o que se pode ou deve vestir, tudo
de acordo com o contexto proposto na obra. Então é um
constante despir para depois escolher e se vestir.
O despir na dança nem sempre precisa ser o
despir-se do figurino, nem sempre é entrar em cena sem
roupas, mas tentar ao máximo despir o intérprete de tudo
o que tem, de tudo que o construiu, parece algo difícil,
impossível... Seja o que for a tentativa é um exercício importante, um exercício apresentado e vivenciado sempre
pela Cia Terpsí, e que se pode perceber quando os intér-
87 - Informe C3
pretes estão em cena e não dão indícios ou anúncios do
que vai acontecer, e as coisas acontecem. Ao contrário
de alguns bailarinos que se “armam”, “inflam”, preparam
visualmente um movimento como se fosse um jogador de
futebol se preparando para bater um pênalti. O pênalti é
extremamente importante em uma partida de futebol, mas
a partida não se constitui apenas de pênaltis. E se observarmos os jogadores de futebol, perceberemos que a
ação do outro e o resultado que apresenta através da bola
faz com que escolhas devam ser tomadas de imediato e
automaticamente talvez tendo que se despir de alguns vícios para não perder a chance de chutar a bola no drible.
Dança é dança, futebol é futebol, mas nos dois
casos o que constrói a cena é o movimento, mesmo que
seja só o movimento dos olhos que observa a hora adequada de se “despir” dos vícios. Porém nos dois casos
se não se estiver preparado para se despir, essa roupa
simbólica e fundamental pode vir a atrapalhar.
Nas obras da Cia Terpsí pode se perceber que
o intérprete constrói a cena despindo-se e vestindo-se o
tempo todo. É um jogo onde as estratégias são traçadas
através de escolhas premeditadas em longas horas de
ensaios. Todos os intérpretes exercitam que a cena se
constrói a partir do camarim, e o intérprete entra na cena
onde o público se encontra com objetivos de falar algo,
com objetivos de falar do assunto que já se iniciou fora do
palco. Dessa forma, fogem de algumas situações como
as em que os intérpretes entram em cena como se estivessem dizendo – “estou entrando em cena e vou dançar”
– e em seguida realizam seus movimentos, cumprem com
suas “obrigações” e concluem como se estivessem dizendo – “conclui, estou saindo da cena”.
A Terpsí Teatro de Dança convida de uma forma
tão sutil o espectador a se despir de suas “lentes”. Lentes
essas que apontam muitas vezes para um único formato de dança. Pois muitos espectadores dizem ao fim do
espetáculo que se sentiram dentro da obra. É como se
despir do mundo lá fora e vestir um mundo novo que cria
possibilidades de vestimenta que escorrem sobre cada
sujeito. E ao fim do espetáculo, busca vestir o traje social
construído pelos meios onde cada um transita, e lembrando-se das cenas onde os corpos cobertos se despiam o
tempo do todo de certos vícios, estimulando o espectador,
pelas imagens, a se despir de certos códigos sobre a dança ou sobre os assuntos apresentados.
88 - Informe C3
89 - Informe C3
Ensaio 05
Francine Pressi
“Os opostos se distraem,
DISPOSTOS se atraem”
A frase aqui tomada como título deste ensaio, que
me remete bem a situação dos artistas independentes no
Brasil, tema o qual me proponho a escrever, é uma criação
de Fernando Anitelli, ator, músico e compositor, responsável pelo surgimento de um projeto paulistano chamado “O
Teatro Mágico”, que visa, nas palavras do próprio Anitelli,
romper com o monopólio das gravadoras, com a falta de
democracia na comunicação(1).
O Teatro Mágico é uma grande trupe de músicos,
atores, poetas e artistas circenses que buscam através da
arte independente, mostrar o seu trabalho e ganhar espaço no meio cultural sem ter que pagar por isso. No próprio
site oficial da trupe há uma frase que diz: “virilizar sem
pagá jabá”(2), ou seja, utilizar as novas tecnologias para
difundir a informação de forma gratuita, fazendo uso, por
exemplo, de sites de relacionamentos como YouTube e
Orkut, para explorar a questão do livre compartilhamento
das músicas na internet, defendendo a bandeira da música livre. Nas palavras de Anitelli, cedidas à uma entrevista
à Revista Gloss:
A internet é uma ferramenta poderosa. Eu disponibilizo
tudo de graça mesmo, esse processo de comunicação
novo é sensacional. O nosso objetivo é tocar em Marte, se
for possível e só a internet pra divulgar o nosso trabalho
tão bem. Você lembra que existiam as fitas cassete e todo
mundo gravava música pra todo mundo? Era a mesma
coisa, mas em uma mídia diferente. O You Tube acabou
com a MTV. Nós temos mais de 1700 vídeos publicados
lá, mas só fizemos dois. É muito louco isso. As gravadoras
querem pegar nosso dinheiro e a internet, não... (Fernando Anitelli, GLOSS, s/d)
A arte independente, de uma forma geral, possibilita muitos artistas estarem divulgando seu trabalho de
forma gratuita, livre das imposições colocadas por grandes empresas fonográficas, editoras e outros grupos que
monopolizam o mercado cultural. E uma das maiores batalhas travadas neste sentido, é o fato de o artista acabar perdendo certas peculiaridades de seu trabalho em
função de ter que se adaptar às regras estabelecidas pelo
jogo comercial, pelo marketing. Os artistas independentes
defendem a ideia de que é preciso ter um ideal, e lutar
para mantê-lo, sem ter que modificá-lo ou pagar altos valores apenas para estar na mídia, nos grandes meios de
comunicação.
O departamento de marketing, ao traçar as suas estratégias de promoção, interferia na criação artística, definindo
90 - Informe C3
as características do produto, mediante análises de mercado. Disso resultou um alto grau de padronização, pois
para obter um lucro certo, dentro de um mercado bastante
imprevisível, era preciso investir em fórmulas já testadas
e consagradas. Assim, surgiu o “artista de marketing”, que
contava com mais recursos investidos na promoção e na
divulgação do que na produção musical propriamente dita
e alcançava um alto índice de vendas, mesmo que por um
período de tempo curto. (LOPES, 2005, Pg.3)
Logo, não depender destes grandes veículos de
comunicação para produzir, veicular, divulgar o trabalho,
é uma maneira do artista garantir seu ideal artístico, mantendo suas características próprias, suas peculiaridades.
Em contra partida, necessita percorrer um árduo caminho
para atingir e conquistar um público específico, já que sua
imagem não se faz tão presente na grande mídia como
ocorre com o artista de marketing.
Sobreviver da arte independente no Brasil é uma guerra.
Tem que ter humildade e cabeça fria. No rádio, a gente
não toca porque tem que pagar jabá (dinheiro em troca
da execução das músicas). E, como a gente não é gravadora nem pretende ser, a gente não toca. A gente acaba
tendo divulgação melhor em cidades pequenas e em jornais regionais. Os artistas acham que tocar no rádio e na
televisão são as únicas formas de ganhar dinheiro e fazer
seu trabalho. Mas isso não é verdade. (Fernando Anitelli,
GLOSS, s/d)
Assim, em busca desta formação de público, o artista disponibiliza o seu trabalho à valores extremamente
acessíveis à população, e até de forma gratuita na internet, ganhando visibilidade e disseminando a informação
de forma muito rápida, rompendo fronteiras através da
rede, levando seu trabalho para qualquer parte do mundo.
Ao produzir o seu próprio disco, o músico tem a total liberdade de criação e pode se dedicar a uma música com propostas estéticas diferentes e, algumas vezes, inovadoras,
ocupando uma lacuna deixada pelas grandes gravadoras
que resistiam em lançar novos artistas, ainda desconhecidos, que já não tivessem sido testados. (LOPES, 2005,
Pg.5)
Andréa Lopes, em seu artigo A Música Independente e
a Vanguarda Paulista, traça as origens destas manifestações artísticas em prol de uma música livre do poder
econômico e/ou ideológico.
Em finais da década de 1970 e inícios da década de 1980,
havia uma manifestação artística expressiva que não encontrava espaço de divulgação na mídia e também não
atraía o interesse das grandes gravadoras, as majors, que
não vinham mais investindo em novos nomes que despontavam na cena musical. Visando furar o bloqueio estabelecido pelas gravadoras que dominavam o mercado
de discos no Brasil, muitos artistas assumiram a produção independente de seus discos e várias experiências
de selos independentes surgiram, gerando uma produção
intensa realizada fora dos domínios das majors, que marcou a produção fonográfica do início da década de 1980.
(LOPES, 2005, Pg.1)
Acompanhando o discurso de Anitelli em uma série de vídeos disponibilizados no youtube, e em entrevistas cedidas à algumas mídias da rede, é possível observar
que, assim como na fala de outros artistas independentes,
há um ideal muito forte por trás de toda esta independência, que é, buscar uma cultura mais democrática, rompendo com o monopólio criado, neste caso, pelas grandes
gravadoras. Segundo Anitelli:
Hoje, o que vemos e ouvimos em TV e rádio já está automaticamente contaminado. Tratam a cultura popular como
entretenimento. Quando eu montei o projeto, sempre tive
esse ideal de bater de frente. É importante ter um ideal,
pois, senão todo o projeto seria só colorido, engraçadinho. O povo espera do artista uma contestação. Ninguém
espera isso do padeiro, do cobrador de ônibus. O artista
tem de falar, contestar, bater de frente mesmo. (Re-Vista!,
março, 2008)
A disseminação da arte independente no Brasil e
a visibilidade destes artistas em um plano cultural em que
a área de entretenimento ganha destaque se comparado aos trabalhos genuinamente culturais de cada região
do país, é também uma questão muito presente na fala
destes artistas, que buscam uma identidade própria e que
investem nesse ideal na tentativa de fugir dos padrões
estéticos e do sistema monopolista em que se encontram
os meios de comunicação. Sobreviver de arte indo contra
todo este sistema é possível, mas é também necessário
muita disposição e paciência por parte destes artistas, que
vão buscar uma maior articulação nesse sentido, através
de união com pessoas que busquem o mesmo ideal que
eles, a final, os dispostos se atraem!
Pirataria Funcional
Algo que também, frequentemente ocorre, é a
questão do debate a cerca da pirataria. Na arte independente a pirataria não é vista como crime, mas sim como
algo funcional, como uma maneira de divulgação para
atingir um grande público, ela é vista como uma forma de
disseminação de cultura, já que disponibiliza as obras à
valores extremamente acessíveis à população.
E tem que tomar um pouco de cuidado quando a gente
fala em pirataria, o conceito que se dá à isso, né, que pirataria é do roubo, e a gente na verdade não ta defendendo
o roubo, a gente tá defendendo o livre acesso à música, o
livre acesso à cultura, entendeu? Então o Projeto Vinagrete, as músicas, os vídeos, todas as nossas coisas, estão
Assim, em busca
desta formação
de público, o artista disponibiliza
o seu trabalho à
valores extremamente acessíveis
à população, e
até de forma gratuita na internet,
ganhando visibilidade e disseminando a informação de forma muito
rápida, rompendo
fronteiras através
da rede, levando
seu trabalho para
qualquer parte do
mundo.
91 - Informe C3
disponíveis, são para todos como diria a música do Chico
Buarque. (Lucas Limbertt – Projeto Vinagrete - A Arte Independente – O Sucesso sem Jabá)
Para os artistas independentes crime não é
piratear(3), mas sim vender um cd à R$30,00 e este valor
não ser repassado ao artista, crime é ter que pagar jabá(4)
para colocar sua música nas rádios ou na televisão.
Ser independente é ser um pouco revoltado com este sistema que se instaurou, que a gente é obrigado à acreditar
que é assim que funciona a coisa, mas não, não é assim,
quando a gente fala que nós somos dependentes, nós
somos pessoas expostas à criar uma nova relação, uma
nova postura, uma nova economia. (Fernando Anitelli - A
Arte Independente – O Sucesso sem Jabá)
Questiona-se aqui o seguinte fato, se a maioria
dos artistas possivelmente ganham muito mais dinheiro
em função da realização de shows do que propriamente
com a venda de cd’s e dvd’s, será que estes artistas também não estariam em vantagem ao ter sua obra pirateada, já que assim acabam atingindo também um número
mais expressivo de público em seus shows? Não estariam
eles, ou sua obra, muito mais visíveis (e acessíveis) ao
seu público? Até que ponto a pirataria é positiva para estes artistas e para as grandes gravadoras?
Gostaria de encerrar este ensaio com uma frase
citada por Fernando Anitelli na entrevista cedida à revista
Gloss, onde referindo-se à contratação por grandes gravadoras multinacionais, ele ironicamente retrata a realidade
em que se encontra um artista independente, que como
no caso dele, vem obtendo um relativo sucesso (ainda se
comparado aos ditos artistas de marketing) e que tem seu
projeto artístico sondado por este sistema:
“Eles oferecem uma Ferrari e você só tem uma bicicleta.
Mas, como eu acredito no ET, faço minha bicicleta voar.”
NOTAS:
(1) - Frase retirada de uma entrevista concedida em 2008
para a Re-Vista! no site:
<< http://re-vista.info/2008/03/entrevista-fernando-anitelli/
>>
(2) - Frase retirada do site: www.oteatromagico.mus.br.
Conforme a explicação contida no vídeo A Arte Independente – O Sucesso sem Jabá (http://videolog.uol.com.
br/video.php?id=290324) o termo Jabá é uma gíria para
suborno – dinheiro, presentes ou vantagens em troca de
exposição na mídia.
(3) - O termo piratear está aqui inserido não no sentido de
gravar e vender ilegalmente estes CD’s ou DVD’s, mas
sim no sentido de gravar este material para uso pessoal.
(4) - Compra dos meios de comunicação
92 - Informe C3
A disseminação da arte independente no Brasil e a visibilidade destes artistas em um
plano cultural em que a área
de entretenimento ganha
destaque se comparado aos
trabalhos genuinamente culturais de cada região do país,
é também uma questão muito
presente na fala destes artistas, que buscam uma identidade própria e que investem
nesse ideal na tentativa de
fugir dos padrões estéticos e
do sistema monopolista em
que se encontram os meios
de comunicação.
Leituras
Indicadas
Título: Corpos e Cenários Urbanos: Territórios Urbanos e Políticas Culturais
Autor: Henri Pierre Jeudy e Paola Berenstein Jacques
(orgs.)
Editora: EDUFBA.
Ano: 2006.
Os autores reunidos neste
livro fazem parte do projeto
de cooperação internacional
CAPES-COFECUB “Territórios Urbanos e Políticas
Culturais”, que já promoveu
seminários em Salvador, Rio
de Janeiro, Paris e Bordeaux.
Neste livro, os autores analisam como se transformam
as relações entre urbanismo
e corpo, entre imagem e corpo, e entre o corpo urbano e
o corpo do cidadão.
Referências
- LOPES, Andréa Maria Vizzotto Alcântara - Anais - III Fórum de Pesquisa Científica em Arte - A Música Independente e a Vanguarda Paulista - Escola de Música e Belas
Artes do Paraná. Curitiba, 2005.
- A Arte Independente – O Sucesso sem Jabá - Documentário com Projeto Vinagrete, O Teatro Mágico, Cia. Truks.
Roteiro e Direção de Mariana Cunha, Renatha Nicolau e
Roberta Fernandes. Produção Caio Vieira, Fábio Bauer,
Mariana Cunha, Renatha Nicolau e Roberta Fernandes.
2007. http://videolog.uol.com.br/video.php?id=290324 –
vídeo acessado em agosto de 2009.
- O Teatro Mágico – www.oteatromagico.mus.br – acessado em julho de 2009
- YouTube - http://www.youtube.com/
watch?v=eFWJRBWH698 - vídeo acessado em agosto
de 2009.
- Entrevista com Fernando Anitelli - www.gloss.abril.com.
br – acessado em agosto de 2009.
- Entrevista com Fernando Anitelli - www.re-vista.info/ –
acessado em agosto de 2009.
Título: Identidade e Diferença
Autor: Tomaz Tadeu da Silva (org.)
Editora: Editora Vozes
Ano: 2007
Compreender o que é identidade é fundamental para se
entender o que é diferença.
Leitura fundamental para que
busca abordar estes assuntos.
T. Angel
Fotos: Walter Oikava
94 - Informe C3
95 - Informe C3
96 - Informe C3
95 - Informe C3
98 - Informe C3
99 - Informe C3
100 - Informe C3
101 - Informe C3
102 - Informe C3
Fotos: Grão Imagem - Cavalera - SPFW Primavera/Verão 2009/2010.
103 - Informe C3
Entrevista 03
Ricardo Marinelli
Fotos: Alessandra Haro
1 - Na performance “Eu tenho autorização da polícia
para ficar pelado aqui” você tenta envolver o espectador num espaço público. Seu objetivo é democratizar
a arte ou desmistificar a nudez?
Busco engajar as pessoas na ação fazendo-as se responsabilizar pelo trabalho, porém, sem formas pedantes ou
violentas. A primeira condição é que elas escolham como
querem que aconteça. É uma fricção interessante, na qual
o público não se sente coagido a participar. A segunda
questão é o valor. Que tipo de valor ele quer atribuir ao
trabalho. É preciso agregar valor à arte? Tenho minhas
dúvidas. Mas, ainda assim, e por isso, elas escolhem
quanto vão contribuir para acontecer o espetáculo. Ou se
vale a pena pagar. Essa é uma questão que assombra o
artista e atravessa a história da arte. Eu compartilho essa
questão com as pessoas no momento em que, após elas
fazerem a contribuição monetária para a apresentação,
que tipo de valor tem uma pessoa se movendo em sua
frente. A terceira questão é algo que chamo de quase uma
obsessão, que é ficar nu diante das pessoas.
2 - Como surgiu essa obsessão pela nudez em público?
Surgiu com um trabalho em 2003, no qual se encenava
um espetáculo no primeiro andar de um espaço cultural
em Curitiba (Casa Hoffmann). A ação era do lado de dentro da casa, mas usávamos como camarim a sacada de
fora, onde ficávamos (eu e outro performer) nus durante
muito tempo. Então você tinha a peça de dois lados. Chegou uma hora que tinha mais gente do lado de fora do
que de dentro. E, mais tarde, apareceu a guarda municipal, que ameaçou parar a performance e o evento. Depois
dessa cena me senti muito interessado em aprofundar minha discussão artística sobre idéias de nudez.
3 - E como estas questões foram processadas em seu
trabalho?
A primeira coisa que fiz foi ir a legislação para tentar entender o que faz com que ficar sem roupa diante de alguém
seja inclusive passível de prisão. Na legislação não há
descrição do que é esse atentado ao pudor, quem decide
é o policial, na própria cena. Então quis saber, com a própria polícia, como fazer para ficar nu sem ser atentado ao
pudor. E me explicaram que, se você é artista e quer ficar
pelado na rua, basta demarcar um espaço e um momento
e pedir autorização. Eu nunca cheguei a conseguir essa
autorização, mas tais acontecimentos acabaram virando
uma ação que leva esse nome (eu tenho autorização da
polícia para ficar pelado aqui), que é um trabalho onde
104 - Informe C3
Ricardo Marinelli nasceu em 1981, em Curitiba, no Paraná. É artista e pesquisador em arte
contemporânea, integrante/fundador do coletivo
Couve-Flor - Mini Comunidade Artística Mundial,
de artistas independentes em Curitiba. Ricardo
fala sobre seus trabalhos e pesquisas em dança
com foco no corpo nu.
A primeira coisa que fiz foi ir a legislação para tentar entender o
que faz com que ficar sem roupa
diante de alguém seja inclusive
passível de prisão.
4 - Você já realizou essa performance em diferentes
países. Há diferença na relação com os público?
Eu só fico pelado caso alguém peça. Em Berlim, as coisas são diferentes. É uma outra organização, pensa-se de
outra maneira. É uma cidade que, por exemplo, o metrô
não tem catracas. Uma vez apresentei durante uma hora
e meia perto de uma espécie de Sesc de lá, freqüentado
por público da Terceira Idade. E fui muito bem recebido.
Pediam para eu trocar de roupa constantemente e, no final, até me chamaram para jantar com eles.
No interior de São Paulo também tive algo parecido, por
incrível que pareça. Em São José do Rio Preto, talvez
pelo próprio festival de Teatro, as pessoas mais se empolgaram do que reprimiram.
Em compensação, Curitiba, que é uma cidade grande mas
que guarda algumas características de província, há uma
postura meio blasé. As pessoas vêem e fingem que não é
nada. Mas, no interior do Paraná, em Irati, houve uma vez
que dancei no meio da praça, em frente à igreja da cidade, onde aconteceriam dois casamentos no dia, além do
encontro do grupo de jovens. Minha performance aconteceu bem no intervalo dos casamentos. No final, acabei
pegando o público saindo de um, entrando em outro, além
do grupo de jovens da igreja chegando. Uma experiência
bastante forte.
No final das contas, tive mais problemas com instituições
do que com o público. É assim, a censura fica mais nas
instituições artísticas e culturais do que nas pessoas. Ainda existe muito pudor das conseqüências.
Não sou favorável à conservação
pela conservação, nem a transgressão pela transgressão, mas à conservação daquilo que precisa ser
conservado e a transgressão do que
precisa ser transgredido.
5 - Mas como você avalia essa censura das instituições?
É algo que está na raiz da instituição social em nossa sociedade. É nela que se mantém o status quo, e abandonar
essa função é como tirar a as instituições de seu lugar.
Sinto que, quando uma instituição aceita transgredir essa
moralidade, ela aceita transformar sua própria função na
sociedade. Mas há um limite de até quando e até onde
está disposta a transgredir.
Não sou favorável à conservação pela conservação, nem
a transgressão pela transgressão, mas à conservação
daquilo que precisa ser conservado e a transgressão do
que precisa ser transgredido. É uma reflexão sobre o que
serve e o que não serve mais para organizar a nossa vida.
Em meu trabalho faço isso com a nudez.
6 - Como se sente nu em público e como lida com a
nudez na sua vida?
Quando comecei, as primeiras coisas que fazia nu ainda
tinham um tom agressivo, um aspecto de provocação ao
público. Com essa postura, vi que as pessoas se sentem
agredidas. Devagar, vi que quanto mais isso fosse corriqueiro, mais elas se familiarizariam. A idéia não é espetacularizar a nudez, e foram alguns anos de trabalho para
perceber isso.
Sinto que a grande questão de corpos nus está relacio-
105 - Informe C3
Também há uma relação com a indústria da beleza, do
jeito que as pessoas se enxergam e que faz com que se
sintam reprimidas. Toda a pressão da propaganda e da
sociedade por um corpo modelo acaba levando as pessoas a se esconderem, se reprimirem.
É algo que precisa ser questionado, já que a mesma instituição que me proíbe de tirar a roupa completamente paga
por um outdoor com uma modelo usando quatro centímetros de pano sobre o corpo, cobrindo apenas mamilo e virilha. A noção de moralidade relacionada com o nu é muito
complexa e merece um pouco mais de atenção. Mais uma
vez afirmo que de certa forma isso é uma das coisas que
procuro fazer através da minha arte.
7 - E atualmente? A quantas anda sua investigação
com a nudez?
Continuo muito interessado em discutir a nudez, mas isso
vai ficando cada vez mais complexo. Não se trata somente de abordar o fato de tirar a roupa, mas de investigar o
que tenho chamado de “estado nu”. Uma obsessão por
trabalhar com o ato de desnudar-se, em diversos e amplos sentidos. Em meu último solo, chamado “Quase nu”,
pude avançar nessa direção.
Há muito me interesso pela empatia que pode se construir
entre obra cênica e público a partir da exposição frágil do
artista. Me parece que o mecanismo que opera na construção dessa espécie de cumplicidade, entre quem vê e
quem faz, tem relação com as formas de estar nu diante de alguém. Trata-se, talvez, de um processo de identificação que se dá sensorialmente e pelo acionamento
de algo relacionado com a memória, como se a atitude
nua de certa forma me desnudasse. Isso tudo, no caso
da organização cênica, é atravessado por uma importante
questão: a cena é artificial, e ao ser artificial, é de certo
modo mentirosa.
Como se desnudar e mentir ao mesmo tempo? Fragilidade, cumplicidade, nudez e mentira parecem palavras
que oferecem articulações interessantes para esse projeto. Tentando esmiuçar melhor essas idéias: O formato
do meu corpo e a forma com que ele se move distingue
e define em mim algum tipo de identidade? Como isso
se revela? Na verdade, será que se revela? Tirar toda a
roupa é um jeito de revelar essas intimidades? Como a
nudez pode existir/existe no corpo em movimento? Tais
perguntas ajudam a circunscrever meu quase obsessivo
interesse por revelar intimidades que residem no corpo
em movimento. A idéia de nudez aparece aqui como limite
a perseguir nas ações organizadas em cena. Resgatar minhas intimidades e encontrar formas de torná-las públicas,
configurando assim uma ação que me desnuda. Perseguir
a nudez é, por conseqüência, perseguir uma organização
cênica que coloca em jogo fragilidades. Não se trata de
um estado unicamente vulnerável, mas de uma presença
106 - Informe C3
Ricardo Marinelli
nada à “fetichização” do corpo na sociedade industrial. O
grande nó que precisa ser desfeito é o do corpo como
imagem de fetiche. A única coisa que transforma o corpo
em atentado ao pudor é relacionar sua nudez imediatamente com o sexo, como se significasse isso.
orquestradamente frágil. O trânsito que estabelece entre
nudez e fragilidade tem como pano de fundo a intenção de
construir entre público e obra uma relação de cumplicidade. Artista e platéia são cúmplices no sentido de compartilharem, em alguma medida, a humanidade que reside no
estado frágil. E todas essas relações se estabelecem num
ambiente artificializado. Não me interessa desconsiderar
que a cena é impreterivelmente um contexto artificial. Ou
seja, mesmo que meu esforço artístico-investigativo seja
por perseguir a nudez, ela será exposta numa situação
controlada, e portanto com boa dose de mentira.
É por aí que estou caminhando.
Ricardo Marinelli (1981) é artista da dança, educador e
pesquisador em dança e arte contemporânea, integrante
do Couve-flor minicomunidade artística mundial, coletivo
de artistas independentes em Curitiba. Foi professor de
Dança e Atividades Rítmicas no Departamento de Educação Física da UFPR, universidade pela qual é Licenciado
em Educação Física e Mestre em Educação. Teve dois de
seus trabalhos selecionados para a programação da terceira edição do Move Berlim, Festival de dança contemporânea na Alemanha, em abril de 2007 e já apresentou
seus trabalhos e ministrou oficinas em diferentes país da
América Latina e Central.
Mais informações sobre os processos de criação de Ricardo:
www.nudezmentiracumplicidade.blogspot.com
www.asobrasdentrodaobra.blogspot.com
www.couve-flor.org
108 - Informe C3
Há muito me interesso
pela empatia que pode
se construir entre obra
cênica e público a partir
da exposição frágil do
artista. Me parece que
o mecanismo que opera na construção dessa
espécie de cumplicidade, entre quem vê e
quem faz, tem relação
com as formas de estar
nu diante de alguém.
109 - Informe C3
Ensaio 06
tão para que todo este ciclo ocorra é necessário que haja
a presença do corpo. Pois antes de haver moda e identidade, primeiramente existe um corpo que possibilitará a
construção destas noções. Pois conforme o discurso de
Ferraz (2009)(2) “é no corpo, através do corpo e pelo corpo que tudo se processa”, e isto pode ser contextualizado
com a moda ao dizer que é no corpo, através do corpo ou
pelo corpo que a moda se expressa.
Anderson de Souza
A moda influencia na
construção de identidade?
A moda pode ser percebida como um fenômeno
social que surge e se manifesta a partir da necessidade
de mudança, a necessidade do indivíduo se diferenciar
do outro. Através da roupa é possível encontrar diferentes possibilidades de cobrir um indivíduo, sendo um dos
elementos que auxilia o homem nesta busca pela diferenciação que automaticamente reflete na construção de
identidades.
Historicamente o conceito de moda nasceu quando os burgueses começaram a imitar o modo de se vestir dos nobres e aristocratas que eram os modelos que
hierarquicamente detinham o poder. E uma das formas
encontradas pelos burgueses para se representar como
nobres era através das roupas. Eles almejavam ser identificados como aristocratas, e os nobres por sua vez, mudavam sua forma de se vestir para não serem confundidos
com os burgueses, para não serem identificados como
burgueses. “a necessidade de diferenciação fez com que
os aristocratas se dedicassem a criar sempre novos trajes
para distinguirem-se na aparência e na hierarquia” KALIL
(2003, p.61) E isto acabou se tornando um ciclo vicioso
de busca por identificação e conseqüentemente diferenciação que permanece presente em muitos grupos sociais
até os dias atuais.
De acordo com Silva (2007) identidade é aquilo
que se é, e diferença é aquilo que o outro é, ou seja, para
haver identidade é necessário que haja a diferença, pois
uma depende da outra para existir, são inseparáveis. A
exemplo do burguês, citado anteriormente, que sabe que
é burguês, pois existem outros diferentes dele como o
nobre ou aristocrata. Essa diferença possibilita perceber
quem se é, e automaticamente auxilia, reflete e muitas
vezes contribui com a construção da identidade.
E o que dizer a respeito dos casos em que pessoas de baixa renda investem todo seu salário do mês na
compra de uma bolsa, ou um par de tênis ou ainda uma
calça, Se valendo deste artefato como um passaporte
para circular em um território elitizado? Não seria a mesma situação que ocorria entre o burguês e o aristocrata?
Silva (2007) complementa que a identidade e diferença são importantes ferramentas que auxiliam na comunicação, que por sua vez acabam sendo ferramentas
da linguagem. Pois o homem como ser social e relacional
necessita que aconteçam as trocas para que esta comunicação se estabeleça. E para que isto aconteça:
110 - Informe C3
Falando-se de Brasil, no início de sua história legitimada, passou a ser construído alguns modelos ideais
de aparência física pelo “homem branco”, no caso com
muitas influências européias. Modelos esses que ainda
estão representados nas “novas” construções de corpo
que estão em constante diálogo com uma moda. O europeu se representando como superior hierarquicamente (e
neste momento, também culturalmente) impôs no Brasil
colônia que a moda local deveria seguir os padrões vigentes na Europa. Sendo a identidade da moda brasileira
construída a partir dos moldes franco-europeus, uma vez
que a França neste momento já era forte referencia na
moda européia.
“a identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um
mundo transcendental, mas do mundo cultural e social.
Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações
culturais e sociais. A identidade e a diferença são criações
sociais e culturais”. SILVA (2007, p.76)
E para que a moda exista é necessário que haja
comunicação, pois sem ela eventos de moda como São
Paulo Fashion Week e Fashion Rio(1), ou mesmo qualquer outro evento onde haja um desfile de moda perderia
a razão de existir. Afinal de contas tratam-se de eventos
que tem por objetivo atrair a atenção da mídia e de seus
consumidores para divulgar, lançar, mostrar as propostas
em artefatos de moda para próxima estação. Eventos que
visam propagar informações de quais serão as novas maneiras de se interferir na aparência física para se estar de
acordo com os novos modelos da moda.
Mas foi devido a fatores como clima, contato com
culturas indígenas, contato com as culturas afro trazidas
pelos escravos negros, entre tantas outras diferenças
existentes no Brasil em relação à Europa, que a aos poucos foi se construindo a moda brasileira. Ou seja, as diferenças promoveram as necessidades de adaptação. Mas
mesmo assim, durante muito tempo a mulher brasileira
para ser considerada elegante, tinha que se vestir aos
moldes europeus. E isso perdurou do período colonial até
os anos 50. Pois a partir deste momento, as referências
na moda passam a ser os modelos americanos.
Estar “na moda”, digo, vestindo os mais recentes
lançamentos disponibilizados pelas indústrias da moda.
Pelo fato de se buscar utilizar de artefatos novos “novos”,
diferentes dos utilizados anteriormente como forma de se
firmar uma determinada identidade, pode ser interpretada
como uma forma de expressar seu poder e busca por visibilidade. Onde dentro do mesmo ponto de vista Sant’Anna
(2006) comenta que este “comportamento das classes
dominantes em estar sempre renovando seus padrões da
moda, com o objetivo de recompor os sinais de hierarquia
social, que logo serão de novo imitados” (p. 03)
E essa noção de construção social pode ser
exemplificada pela citação a seguir onde a autora apresenta uma analogia em que se compara a construção da
aparência corporal com a formação de uma pérola dizendo que:
“o saber e a cultura se memorizam por uma lenta cristalização ao redor de suportes concretos (como o corpo) e
cada aparência traz com ela toda uma história social, uma
história do corpo e da indumentária, visível na superfície
do corpo. Pelo simples fato de ser vista, imitada e incorporada novamente, a perola vira lição e revela ao indivíduo
que lhe fez sua todo o seu saber acumulado” MALYSSE
(p.106)
E se é necessário haver identidade e diferença
para que se estabeleça a troca e a comunicação, para
Malysse (2008), o corpo é um dos principais vetores da
comunicação social. Onde as roupas acabam sendo incorporadas como uma extensão do corpo contribuindo
com a afirmação do ego. Sendo por meio das aparências
corporais que se estabelecem noções de identidade e diferença na moda. A autora complementa que “a aparência
física humana estabelece e codifica relações significativas
entre visual, cultural e o corporal”. (p.106). Sendo estas
relações que possibilitam ao ser humano se representar,
copiando, imitando ou se diferenciando de seu semelhante no meio social onde está inserido.
Se para haver a construção de uma identidade é necessário que haja o outro , de modo que surjam trocas que resultem em uma comunicação afim de que se percebam as
diferenças que irão reforçar as noções de identidade, en-
Se os artefatos do vestuário podem ser tratados
como elementos de comunicação, até que ponto os indivíduos que vivem em meios sociais escolhem uma roupa,
ou uma forma de se ornamentar para si mesmos ou em
detrimento dos outros? Preocupados com o que os outros
vão achar?
Ilustração: Anderson de Souza
A exemplo de uma festa seja de aniversário, formatura ou casamento, é comum haver a preocupação de
indivíduos com o que os outros convidados irão vestir.
Pois neste caso é necessário se diferenciar, buscando
não estar igual aos demais convidados. Entretanto também ocorre em muitos casos a busca pela diferenciação
vir acompanhada da preocupação de não estar totalmen-
111 - Informe C3
te diferente. Para não “destoar” do todo. Preocupação que
pode ser percebida com maior intensidade entre os indivíduos do sexo feminino.
Com base em todos os exemplos citados neste, a
moda de certa forma interfere, contribui, colabora e auxilia
na construção de identidades relativas, com base nas imagens criadas pelo universo da mesma. O homem constrói
a moda para que através dela possa perceber diferenças
e semelhanças fundamentais para se concluir quem se é.
Tornando assim a identidade carregada de informações
apresentadas pela moda.
E em muitas culturas as preocupações com o
vestuário são tomadas dentro dos “Rituais sociais”, para
se estabelecer noções de identidade. Como pode ser percebido em uma cerimônia de casamento cristã, onde na
maioria das vezes, cada envolvido neste ritual possui um
“figurino” que o caracteriza e possibilita sua identificação.
Permitindo uma maior visibilidade dos principais “personagens” envolvidos neste ritual como o caso dos noivos e
do padre que muitas vezes se apresentam vestidos e ornamentados de maneira extremamente diferenciada dos
demais.
Outro exemplo tradicional e que continua se fortalecendo na sociedade contemporânea são as cerimônias
de formatura de graduação universitária onde os formandos, como centro das atenções na cerimônia, muitas vezes utilizam uma indumentária especial para a ocasião.
Notas:
- 1: São Paulo Fashion Week e Fashion Rio: tratam-se
das duas maiores semanas de moda brasileira, sendo a
São Paulo Fashion Week a 5ª maior no mundo.
Falando em construções de identidade, que por
sua vez resultam em uma busca por visibilidade através
de construções de aparências pode-se tomar como exemplo os “cuidados” com os cabelos que como apresenta
Malysse (2008), em muitas culturas acaba sendo uma
das partes do corpo mais visíveis e que sofre inúmeras interferências por influência da moda. Representando, nas
construções de aparência, uma parte significativa dos rituais de preparação da imagem pessoal de cada individuo.
- 2: FERRAZ, Wagner (2009), discurso apresentado no
curso ministrado pelo mesmo – “Moda, Corpo e Cultura” –
no SENAC Canoas/Moda e Beleza no dia 01/07/2009.
- 3: “Hibridismo – No contexto da teoria pós-estruturalista
e da teoria pós-colonialista, tendência dos grupos e das
identidades culturais a se combinarem, resultando em
identidades e grupos renovados. Por sua ambigüidade
e impureza, o hibridismo é celebrado e cultuado como
algo desejável. Está relacionado a termos que, de forma
similar, destacam o caráter fluido, instável e impuro da
formação da identidade cultural, tais como mestiçagem,
sincretismo, tradução e cruzamento de fronteiras”. SILVA
(2000,p.67)
“Existe uma verdadeira ritualização dos cuidados do corpo, tanto se considerarmos os aspectos cerimoniais quanto os valores de signo e símbolo, que significam o lugar e a
função do sujeito no meio do grupo. Isso é especialmente
óbvio no caso dos cabelos que podem ser cortados, rasgados, longos, cacheados, compridos, trançados, presos,
soltos, coloridos, falsos, mas que nunca deixam de ter um
valor de signo social.” MALYSSE (2008, p.111).
Bibliografia:
Mas como o cabelo pode influenciar a construção
de identidade de um indivíduo? Isso pode ser percebido
no caso dos penteados afro. A forma como os cabelos
são penteados, presos e trançados é carregada de informações que convergem para identificação de uma cultura
afro.
E assim como a moda, as identidades estão em
constante mudança, sempre em movimento, transitando
em diferentes territórios. Movimentos que Silva (2007)
considera interessantes, porém podem conspirar, complicar e subverter as identidades mas que são integralmente
parte de sua dinâmica da produção.
Um dos movimentos que o autor comenta é o de
hibridismo(3) que na moda pode ser percebido, por exemplo, quando um estilista do Brasil desenvolve uma coleção
inspirada em culturas muito diferentes da cultura brasileira. Gerando, dessa forma, um produto que é brasileiro,
porém em seu aspecto visual ele possa ser considerado
algo “novo”, onde se percebe traços diferentes da cultura
que o produziu, mas não é possível separá-los.
112 - Informe C3
- KALIL, Mariana. Visto, logo existo. Super Interessante,
São Paulo, n° 192, p. 60 – 65, setembro, 2003.
Ilustração: Anderson de Souza
Outro exemplo que pode ser percebido facilmente
na moda e na construção de identidades reside no fato de
que com o acesso cada dia mais rápido e prático à informação, as relações de tocas entre culturas tem sido cada
vez mais intensas, o que fica ainda mais explicito quando
se percebe que nas construções de identidade e diferença, assim como na moda, existe a influência de relações
de poder. Onde um se sobressai ao outro, onde um se
coloca em posição de superioridade em relação ao outro.
E talvez seja devido a esta noção de poder que os indivíduos, ao buscarem se diferenciar procuram geralmente
imitar ou representar o exemplo tido como superior, como
modelo.
- MALLYSE, Stéphane. A moda incorporada: antropologia
das aparências corporais e megahair in OLIVEIRA, Ana
Claudia de;CASTILHO, Kathia. (org.) Corpo e moda: por
uma compreensão do Contemporâneo. Barueri, São Paulo: Estação das Letras e Cores Editora, 2008.
- SILVA, Tomaz Tadeu da.Teoria cultural e educação: um
vocabulário critico. Belo Horizonte: Autentica, 2000.
O BELO
Por Mário Gordilho
Estar belo por fora
É estar belo por dentro!
A nossa aparência
É puro reflexo
Da nossa transparência
mental e espiritual.
Estar belo
Não é ser belo.
Oscilante a cada instante,
A beleza é fugaz.
Vacila o nosso ego,
Enfraquece o nosso ser.
Sábio é o deleite
Do nosso momento belo,
Quando nos conduz
A fluidos enobrecedores
Do espírito sobre o corpo,
Da mente sobre a estética.
A sina humana
Deve ser direcionada
À constante valorização
Do belo interno, do belo eterno.
Sobrepondo-se, definitivamente,
Ao belo externo, ao belo efêmero.
Ao nos desprendermos
Da estética pré-convencionada,
Em seu desmanche
Lento e gradativo,
Seremos quem realmente somos,
E não, quem aparentamos ser.
- SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção sócia da identidade
e da diferença. In SILVA, Tomaz Tadeu da.(org.)Identidade
e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Rio de
Janeiro, Vozes,2007.
- SANT’ANNA, Hugo Cristo. Moda e Identidade social.
Hugo Cristo v.3.0, 2006.
http://www.hugocristo.com.br/old/papers/HC_Moda.pdf
(19/07/2009)
113 - Informe C3
O que você
acredita que
isto significa?
Falaremos sobre isto na próxima edição.
Criação:
Diogo Bezzi
Janaína Vasconcellos Santos
C3
Processo
Grupo de Pesquisa
Revista Virtual
Informe C3
Corpo - Cultura - Artes - Moda
O “Processo C3 Grupo de Pesquisa” busca investigar os processos de construção
do Corpo em diferentes contextos Culturais, relacionando com os discursos e
práticas da Contemporaneidade. Tendo
as artes, Moda e questões socioculturais
como focos para tentar esclarecer e fortalecer interrogações.
Colabore
Colabora - envie sua opiniã, dúvidas,
questionamentos, idéias... Esteja mais
próximo de nós, mesmo que através de
uma mensagem por email.
[email protected]
Anderson de Souza
Pesquisador
anderson_design4@yahoo.
com.br
(51) 9231 5595
Francine Pressi - Pesquisadora
[email protected]
(51) 8457 3757
Wagner Ferraz - Pesquisador e
Diretor
[email protected]
(51) 9306 0982
www.processoc3.com
www.processoc3.com
117 - Informe C3
Quem é quem?
Currículos
Processo C3
Anderson Luiz de Souza - Brasil/RS/Canoas
Processo C3
Grupo de Pesquisa
O Processo C3 surgiu da união de três jovens* pesquisadores para produzir um trabalho coreográfico de
linguagem contemporânea – “Campanha de prevenção ao câncer de próstata” - para o Cri-Ação Dança (evento realizado pelos estudantes da Graduação em Dança da Universidade Luterana do Brasil, ULBRA-Canoas/RS). Também
ligados por “bolsas” oferecidas pelo CEC Terpsí da Cia Terpsí Teatro de Dança de Porto Alegre, onde participavam de
oficinas de Ballet Clássico, Alongamento, Dança Contemporânea e Processo Criativo, os três estudantes resolveram
“legitimar” a união e formar o presente grupo de pesquisa com a intenção de dividir suas buscas e dúvidas. Dessa
forma surgiu o grupo de pesquisa Processo C3, que apresenta os processos pelos quais os participantes/fundadores
têm passado, na busca por compreender os processos que constroem o CORPO em diferentes CULTURAS relacionando sempre com a CONTEMPORANEIDADE. Hoje o Processo C3 conta com colaboradores no Informe C3 que se
empenham para que este veículo posso existir.
O “Processo C3 Grupo de Pesquisa” busca investigar os processos de construção do Corpo em diferentes
contextos Culturais, relacionando com os discursos e práticas da Contemporaneidade. Tendo as artes, Moda e questões socioculturais como focos para tentar esclarecer e fortalecer interrogações.
*Anderson de Souza, Francine Pressi e Wagner Ferraz
Bacharel em Moda pelo Centro Universitário de Maringá - CESUMAR. É aluno da Especialização em Arte Contemporânea e Ensino da Arte na Universidade Luterana do Brasil - ULBRA.
Atualmente é Docente no SENAC Moda e Beleza / Canoas-RS no Curso Técnico em Moda
e em cursos livres atuando nas áreas de história da moda, desenho e criação, pesquisa em
moda e cultura, técnicas de vitrinismo e produção de moda. Pesquisador do grupo de pesquisa Processo C3, idealizador e responsável pelo site www.ferrazdesouza.com que busca
disponibilizar informações relativas aos estudos sobre o corpo e cultura (dança, moda, artes,
entrevistas, cinema, exposições, eventos...). Como bailarino de dança contemporânea atuou
em vários espetáculos, performances, festivais e mostras de dança. Artista Plástico integrante
do Grupo/Projeto Arquivo Temporário (grupo de artistas que buscam através de suas obras
chamar a atenção para prédios históricos e espaços culturais de pouca visitação). Ministra
palestras sobre : A relação Moda e Figurino, Inspirações e Tendências de Moda, Vitrinismo construindo cenas. Além de trabalhar como assistente de fotografia, estilista, figurinista,
ilustrador de Moda e designer gráfico. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.
br/7662816443281769 .
Francine Cristina Pressi - Brasil/RS/São Leopoldo
Graduada como Tecnóloga em Dança pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA em
2008, foi agraciada por mérito acadêmico ao obter melhor média durante o curso de Tecnologia em Dança. Hoje está cursando Licenciatura em Dança pela ULBRA. É bailarina, professora, coreógrafa e pesquisadora em dança com ênfase em linguagens contemporâneas.
Desenvolve trabalhos artísticos como bailarina desde 2003, participando de várias performances, espetáculos, festivais e mostras de dança, atuando em companhias de dança como
a Cia. Corpo Alma, Cia. Hackers Crew, e colaborando como bailarina/interprete de dois estudos coreográficos orientados por Carlota Albuquerque e dirigidos por Wagner Ferraz (O Jogo)
e Raul Voges (Provisório – Processo I). Hoje atua também na área de pesquisa em dança,
abordando temas como dança, corpo, moda, cultura e contemporaneidade dentro do grupo
de pesquisa Processo C3 dirigido por Wagner Ferraz.. Endereço para acessar este CV: http://
lattes.cnpq.br/8890297538503375.
Wagner Ferraz - Brasil/RS/Canoas
Graduado em Dança pela ULBRA, cursa Especialização em Educação Especial e em Gestão Cultural. Assessor da Coordenação de Cultura - ULBRA/Canoas. Bailarino, coreógrafo,
professor de dança e pesquisador em dança com ênfase em linguagens contemporâneas,
tem como foco investigar a relação corpo e cultura. Já dirigiu coreografou e atuou em vários
espetáculos, performances, festivais e mostras de dança. Integrou o elenco da Cia Terpsí Teatro de Dança (2006/2007). Atualmente também ministra aulas e oficinas de dança, processo
criativo em dança, dança contemporânea e expressão corporal no ensino regular e no ensino
especial com pessoas com deficiência física, mental, auditiva e visual, além de outras síndromes. Diretor e pesquisador do grupo de pesquisa Processo C3, idealizador e responsável
pelo site www.ferrazdesouza.com e Informativo FdeS onde busca disponibilizar informações
relativas aos estudos sobre o corpo e cultura (dança, moda, artes, entrevistas, cinema, exposições, eventos...). Desenvolve trabalhos como assistente de fotografia e webdesigner.
Ministra palestras sobre : Processo Criativo, Expressão Corporal e Adaptações para pessoas
com deficiência, Dança e Adaptações para pessoas com deficiência, Corpo e Território, Modificações Corporais, Construção Social da Beleza e da Feiúra, Construção Socail de Corpo
e Realções entre Corpo e Moda. Atua principalmente nos seguintes temas: dança, criação,
coreografia, performance, corpo, corpo-moda, cultura e pesquisa. Endereço para acessar
este CV: http://lattes.cnpq.br/7662816443281769 .
118 - Informe C3
119 - Informe C3
Colaboradores
Luciane Coccaro - Rio de Janeiro/Porto Alegre/Brasil
Mestre em Antropologia Social/UFRGS; Bacharel em Ciências Sociais/UFRGS; Professora
Assistente do curso de Bacharelado em Dança – Departamento de Arte Corporal – UFRJ;
Foi Professora Adjunta do Curso de Graduação Tecnológica de Dança/ULBRA; Foi Professora Adjunta da Faculdade Decision de Administração de Empresa/FGV; Foi Professora do
Curso de Pós-Graduação em Enfermagem/IAHCS; Bailarina – Prêmio Açorianos 2000; Atriz
– Prêmio Volkswagen 2003; Coreógrafa de dança contemporânea; Diretora da Cia LuCoc
e do Grupo Experimental de Dança da ULBRA – de 2006 até 2008; Diretora e intérprete do
Espetáculo Estados Corpóreos em 2009.
Paulo Duarte - Portugal/ Coimbra
Jesuíta. Licenciado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia de Braga – Universidade Católica Portuguesa. Professor de Religião e bailarino. Tem como interesse de estudos a relação
entre o corpo/dança e a espiritualidade. Já actuou em espectáculos de dança contemporânea e em performances.
Marta Peres - Rio de Janeiro/Brasil
Professora Adjunta do Departamento de Arte Corporal EEFD-UFRJ, Doutora em Sociologia
(UnB) com Pós Douturado em Antropologia, fisioterapeuta e bailarina. Endereço para acessar
este CV: http://lattes.cnpq.br/5570019500701293.
Rodrigo Monteiro - Porto Alegre/RS/Brasil
Licenciado em Letras, atuando profissionalmente como professor de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literatura. Leciona desde 1997, quando concluinte do Curso de Magistério.
É Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual, com especialidade em Direção de Arte e em Roteiro. Foi aprovado em primeiro lugar no processo de seleção 2009 para o Mestrado em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Escreve dramaturgia desde 2000. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.
br/7379695337614127
T. Angel - São Paulo/Brasil
Técnico em moda pelo SENAC e graduando em História pela Universidade FIEO, atualmente
integra o staff do site argentino Piel Magazine e é diretor geral do website Frrrk Guys, que
aborda as temáticas da modificação corporal e da beleza masculina oriunda dessa prática.
Além disso, desde 2005 vem atuando no cenário da performance art. Nos últimos anos, Thiago Ricardo Soares vem colaborando com artigos para diversas revistas nacionais e internacionais. Tem experiência na área de História, atuando principalmente nos seguintes temas:
body art, performance e modificação corporal. Como pesquisador histórico, interessa-se pelos seguintes temas: body art, performance e modificação corporal. Endereço para acessar
este CV: http://lattes.cnpq.br/2319714073115866
Mário Gordilho - Vila Velha/ES/Brasil
Pós-Graduação em Engenharia de Produção (Industrial) – Fundação Ciciliano Abel de Almeida/UFES, Vitória - ES. Graduação em Engenharia Civil - UFBA, Salvador - BA. Auditor Fiscal
da Receita Estadual do ES – Secretaria da Fazenda do ES, Vitória - ES (concursado como
portador de deficiência, e em exercício). Atuante como Engenheiro Civil (cedido pelo DF) no
Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 17ª Região, Vitória – ES. Auditor Fiscal da Receita do
Distrito Federal – Secretaria da Fazenda do Distrito Federal, Brasília – DF (concursado como
portador de deficiência). Atuante como Engenheiro Civil em áreas de projetos, orçamentos,
fiscalização e manutenção de Obras Civis, como Engenheiro da Seção de Projetos e Obras
do Serviço Social da Indústria – Federação das Indústrias do ES (FINDES), Vitória - ES.
Atuante como Engenheiro Civil em áreas de projetos de estruturas metálicas, com cálculos
e desenhos em CAD, como Engenheiro - Enpro Engenharia e Projetos Ltda., Salvador - BA.
1987. Atuante como Auxiliar Técnico em acompanhamento de montagem de estruturas metálicas– Metalúrgica São Carlos Ltda., Salvador - BA. Autor de alguns artigos, textos,e resenhas
publicados no jornal Bahia Hoje, de Salvador-BA, além de jornal virtual da Intranet do TRT
17ª Região; e da gazeta online, ambos em Vitória-ES. Autor dos blogs: http://elencobrasileiro.
blogspot.com e http://elencoestrangeiro.blogspot.com
120 - Informe C3
121 - Informe C3
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