O CONTADOR DE CAUSOS E
O DOUTOR GETÚLIO
REENCARNADO
Narrativa dramática
de
Calixto de Inhamuns
Atenção: Texto registrado e distribuído em caráter puramente de uso e leitura
PESSOAL. Todos os direitos reservados aos detentores legais dos direitos da
obra. Para a representação e comercialização legal da peça, entrar em contato
com o autor.
Algumas palavras
Este texto foi escrito a pedido
da
Programação do SESC – SANTOS
com objetivo de ser apresentado durante o
evento VARGAS LEMBRANÇAS,
durante o mês de agosto e setembro de
2004.
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CENA 01 : UM CONTADOR DE CAUSOS CONTA OS ÚLTIMOS DIAS DO
MAIOR POLÍTICO BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS.
PALCO EM DOIS PLANOS. NO PLANO DE BAIXO, ESPAÇO VAZIO. NO
PLANO SUPERIOR, UMA PEQUENA PLATAFORMA COM UMA CAMA E
UM CRIADO MUDO. APAGA LUZ DA PLATÉIA. ENTRA MÚSICA E
ACENDE FOCO EM MANÉ, UM CONTADOR DE CAUSOS.
MANÉ:
1954, de 05 a 24 de agosto, os vinte dias que abalaram o
país! Os vinte dias que levaram Getulio, o maior político
brasileiro, ao suicídio. (MUSICA VAI BAIXANDO.) Tudo
começou do dia 05 com um atentado contra Carlos Lacerda, inimigo de Getúlio, que é apenas ferido no pé, mas
morre o major-aviador Rubens Vaz. Como Lacerda era o
inimigo número um de Getúlio Vargas todas as evidências
apontavam para o centro do Poder. Lacerda vociferou:
“Acuso um só homem como responsável por esse crime.
É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá a audácia para atos como o desta noite. Este homem é Getúlio
Vargas”. (ENTRA MÚSICA DE SUSPENSE) Os indícios
apontam para Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente, e os militares se revoltam. Dois dias
depois um motorista de táxi depõe e diz que Climério Euribes, membro da guarda palaciana, subordinado a Gregório, usou seu carro para fugir do local do crime. O nó se
aperta – a aeronáutica, diante das evidencias que ligava o
crime aos corredores do palácio, se subleva. Os deputados da oposição pedem a renúncia do presidente. Através
de Tancredo Neves, ministro da Justiça, o presidente diz
que não deixará o governo. Há vários protestos militares e
o presidente diz, no dia 11, que não aceitará pressões. É
instaurado inquérito e, no dia 13, os militares prendem o
pistoleiro Alcino José do Nascimento suspeito de agir sob
as ordens do filho de Getúlio, Lutero Vargas. Lutero Vargas nega. Dia 15 o pistoleiro confessa o crime e os militares pedem a prisão de Gregório Fortunato. Dia 17 os militares conseguem prender Climério. Lacerda escreve: “O
presidente está deposto moralmente pelo sangue que fez
derramar”. Outros homens ligados a guarda presidencial
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são presos. Dia 21, a Aeronáutica e a Marinha apertam o
cerco e se declaram em prontidão. O vice-presidente Café
Filho, orientado por Lacerda, propõe a renúncia dele e do
presidente. Dia 22 os líderes militares mandam um enviado com um manifesto dirigido ao presidente que o rechaça e diz que só morto sairá do governo. Dia 23, a Última
Hora, mancheteia: “SÓ MORTO SAIREI DO CATETE”. Os
generais do exército juntam-se aos almirantes e brigadeiros e redigem outro manifesto, considerado um ultimato a
Getúlio. O ultimato, exigindo a renúncia, é entregue no palácio as 0h do dia 24. A pressão é total. As 0h30 minutos,
diante dos ministros, Getúlio pega uma folha datilografada, assina e guarda no bolso. Ninguém sabia, mas era a
carta testamento. 1h, ao redor do Catete, forças leais ao
presidente formam barricadas. 3h da manhã, Getúlio reúne o gabinete e os aviões da Aeronáutica dão rasantes
sobre o Catete. 4h, o presidente decide entrar com um
pedido de licença e manda divulgar uma nota à população
explicando a situação. 6h da manhã, aumenta a pressão,
dois oficiais chegam ao Palácio do Catete para prender
Benjamim Vargas, irmão de Getúlio, acusado de ser o
mentor intelectual do atentado contra Lacerda. 7h30,
(ACENDE-SE A LUZ NA PLATAFORMA, GETÚLIO
ESTÁ PENSATIVO E DE PIJAMA), Benjamim vai até o
quarto de Getúlio no terceiro andar. (MANÉ
INTERPRETA BENJAMIM):
BENJAMIM:
Presidente, os militares telefonaram. Eles dizem que a renúncia não é o bastante.
GETÚLIO:
O que eles querem?
BENJAMIM:
Eles exigem o afastamento imediato e definitivo.
GETÚLIO:
E o ministro da Guerra, qual é a opinião dele?
BENJAMIM:
Ele nos abandonou, Presidente, agora está apoiando os
militares.
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GETÚLIO:
A situação é grave. Desça e traga mais informações.
Qualquer novidade venha me avisar.
MANÉ:
8h15 o barbeiro, como fazia toda manhã, entra no quarto
de Getúlio.
MANÉ, COMO BARBOSA, O BARBEIRO SOBE ATÉ ONDE ESTÁ GETÚLIO.
OS DOIS SE OLHAM. PAUSA.
GETÚLIO:
Hoje não, Barbosa. Por favor, quero ficar sozinho. Vou
tentar dormir um pouco.
MANÉ:
8h30, Getúlio Vargas no seu quarto ainda não dormiu..
(SAI MÚSICA DE SUSPENSE.) O homem que tirou um
Brasil atrasado das mãos das oligarquias e o transformou
mais promissor centro de produção industrial da América
Latina, criando as bases para sua modernização, está sozinho.
AS LUZES VÃO SE APAGANDO LENTAMENTE SOBRE MANÉ. APENAS A
PLATAFORMA FICA ILUMINADA. GETÚLIO VARGAS SENTA NA CAMA,
TIRA O REVOLVER DO BOLSO E COLOCA CONTRA SEU CORAÇÃO.
PAUSA. BLACK-OUT E TIRO. ENTRA MÚSICA LENTAMENTE E ACENDE
FOCO EM MANÉ. ESTE CANTA.
MANÉ:
(CANTA)
Ele disse muito bem
O povo de quem fui escravo
Não será mais escravo de ninguém
Para todo operário do Brasil
Ele disse uma frase que conforta
Quando a fome bater na vossa porta
O meu nome é capaz de vos unir
Meus amigos no certo vão sentir
Que na hora precisa estou presente
Sou o guia eterno dessa gente
Com o meu sangue o direito defender
Ele disse com toda consciência
Com o povo eu deixo a resistência
O meu sangue é rumo a redenção
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A todos que fizeram pregação
Eu desejo um futuro cheio de glória
Minha morte é bandeira da vitória
Deixo a vida pra entrar na história
E ao ódio eu respondo com perdão
Comoção nacional! Multidões saíram às ruas. Enlouquecidas, com ódio, raiva, sem controle, depredam a sede da
Tribuna da Imprensa, o jornal de Carlos Lacerda. Mais de
100 mil pessoas, a maioria em lágrimas, desfilam diante
do caixão de Getulio Vargas. Crises nervosas, malestares, desmaios! O país ficou em choque. Minervino,
um grande cordelista, poetou:
“A vinte e quatro de agosto
Quando o dia amanheceu
Um negro manto cobriu
Ligeiro o sol se escondeu
O mundo em peso chorou
Quando a notícia vagou
Getúlio Vargas morreu”
Outro poeta e cordelista, Rodolfo, também cantou na sua
tristeza:
“No dia em que Getúlio
No Rio se suicidou
Houve silêncio na terra
O mundo todo mudou
O vento ficou parado
O firmamento nublado
Até a chuva estiou.”
E agora, 50 anos depois, eu Manuel Constantino Neves,
mais conhecido por Mané das Histórias, estou aqui pra
contar pra vocês a vida desse homem tão querido, mas
também muito odiado. Abram os ouvidos e arreganhem
os olhos, porque com o meu talento vou contar causos
que farão vocês chorarem e rirem ao mesmo tempo.
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CENA 02 – O CONTADOR DE CAUSOS INVADE A PRIVACIDADE DO MITO
GETULIO VARGAS
MANÉ:
O homem tinha um 1,60 metro... Além de baixinho, era
gordinho... Não era nenhum galã, mas meu amigo, fazia
sucesso entre as mulheres... Dizem, algumas que... que...
tomaram chimarrão com ele, que o homem era bom de
cama. Além do mais, tinha um afrodisíaco poderoso: o
poder. Entre as que... que... tomaram um chimarrão com
ele, a mais famosa foi Virginia Lane. Virgínia Lane era
uma paixão nacional, donas de umas pernas que enlouquecia o país e as quais Getulio chamava de “pernas espirituais”. Pernas espirituais, acho eu, porque eram capazes de levantar até um morto! Faziam morto ressuscitar!
Então meu amigo (FALA COM ALGUÉM DA PLATÉIA.),
não perca a esperança, vá fuçar nas revistas antigas, ache umas fotos da Virgínia Lane e fique olhando, olhando... Quem sabe o morto não ressuscita. E tem mais! Vocês já ouviram falar da Marta Rocha? Foi uma das brasileiras mais bonitas de todos os tempos e perdeu um concurso de Miss Universo porque tinha 2 polegadas a mais
na... na... nos quadris! Também, o concurso foi nos Estados Unidos... Americano, com aquelas mulheres descadeiras, entende de... de... (COM ALGUÉM DA PLATÉIA.)
O senhor sabe do que estou falando, não sabe? (SE O
CARA FALAR QUE NÃO, VAI PRA OUTRO. SE
ALGUÉM FALAR QUE SABE.) Então conta pra nós!
(BRINCAR E DEPOIS.) Então, essa beldade, essa maravilha da natureza, o Getulio: crau!
GETULIO QUE CONTINUA MORTO EM SUA CAMA. DÁ UM SALDO DE
REPENTE E GRITA.
GETÚLIO:
Que palhaçada é essa?
MANÉ TOMA O MAIOR SUSTO.
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CENA 03 – GETULIO REENCARNA PRA COLOCAR AS COISAS NO
LUGAR
GETÚLIO:
O senhor não tem vergonha de ficar falando uma mentira
dessas?
MANÉ:
E o senhor não tem vergonha de reencarnar assim, de repente, matando a gente do coração. Você já morreu!
Quando apagou a luz aí acima, você devia ter sumido.
GETÚLIO:
Ainda bem que não fui! O povo era capaz de acreditar
numa infâmia dessas. Eu nunca... nunca... Crau na Marta
Rocha.
MANÉ:
Nunca?
GETÚLIO:
Nunca!
MANÉ:
Pois devia ter crau naquela mulher presidente! Ela era
muito gostosa!
GETÚLIO:
Pare com essa linguagem vulgar! Nós estamos aqui para
contar as lutas e as glórias do Pai dos Pobres, e não...
MANÉ:
(CORTANDO) Nós não!... Virgula, ponto e interrogação...
Eu, Mané, vou contar, entendeu? Você fez essa participação, morreu e morto fica! Isso não é uma peça espírita pra
você ficar reencarnando.
GETÚLIO:
Vou reencarnar quantas vezes forem necessárias para evitar deturpações! A verdade prevalecerá!
MANÉ:
Que verdade, meu amigo? Isso é representação... Teatro!... Não é uma aula de história!... A arte tem que ser....
GETÚLIO:
(CORTANDO.) A arte tem que ser é verdadeira! Quero a
verdade. Quero que o povo saiba a verdade de tudo que
aconteceu desde o ano de 1883, quando nasci, até o ano
de 1954, quando morri. Quero! Exijo!
MANÉ:
(PARA A PLATÉIA.) Não estranhem, não! Esse homem
foi um ditador! Encheu as prisões de presos políticos! Mu8
lheres grávidas foram jogadas em celas imundas! Graciliano Ramos, um dos maiores escritores do país, mofou em
suas prisões! (PÁRA.) Espera, aí! Você é um ator, não é
o Getulio Vargas! E agora a cena é minha! Quer fazer o
favor de cair fora! (GETÚLIO AMEAÇA FALAR.) Calado!
Fora!
GETULIO SAI.
CENA 04 – COMO TUDO COMEÇOU
MANÉ:
Entender esse homem, aviso vocês, vai ser complicado.
Em primeiro lugar, ele não nasceu em 1883, mas em
1882... É!... A data de nascimento foi falsificada... E foi ele
mesmo que falsificou a data! ... Só descobriram no centenário dele. Por que falsificou? Sei lá! Ninguém sabe. O
homem sempre foi uma esfinge: decifra-me ou te devoro!
Mas vamos tentar entender. Ele nasceu em São Borja,
região fronteiriça com a Argentina, zona de conflitos eternos com nossos “hermanos” argentinos. Vocês sabem,
argentino e brasileiro, vivem às turras. Outra característica
de São Borja, é que a política se aprende no fumacear do
churrasco, e Getulio, filho de um herói da Guerra do Paraguai, aprendeu política bem cedo. Estudou direito, exerceu a profissão de jornalista e foi eleito, a partir de 1909,
várias vezes deputado estadual. O que podemos afirmar é
que desde essa época, ele já era doido por mulheres.
Doido, não! Lúcido! Doido, na minha opinião, é quem não
gosta de mulher! (PARA ALGUÉM DA PLATÉIA.) Concorda comigo? (CONTINUA.) O Getúlio gostava tanto de
mulher bonita que pra ficar mais com elas, numa época
que todos casavam cedo, casou com 28 anos. E quando
escolheu uma noiva foi uma bem novinha... Na minha opinião,pra ela durar mais!... Um anjo!... Darcy Sarmanho
mal tinha completado os quinze anos quando casou com
ele. Uma vez ele ia viajar pra Porto Alegre e perguntou
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pra noivinha se ela queria alguma coisa. E ela, toda envergonhada:
DARCY:
Quero... Olha...
GETÚLIO:
Fale o que você quer... Pode pedir.
DARCY:
Quero um...
GETÚLIO:
Fale o que você quer, meu anjo. Eu trago.
DARCY:
Quero um gibi.
MANÉ:
Uma menina! Tiveram cinco filhos. Em 1922, foi eleito
Deputado Federal e, em 1926, por ser o líder da bancada
gaúcha, numa negociação política, assume o Ministério
da Fazenda do Governo Washington Luis. Desta época,
toda vez que falava da ambição humana, contava um
“causo” que ele achava ilustrativo. Nos tempos de ministro
recebia o povo uma vez por semana pra atender pedidos.
Um dia, ele percebeu que um homem, vestido de negro,
mudava sempre de lugar, indo para o fim da fila e deixando todos passarem à sua frente. Getúlio ficou curioso,
com a pulga atrás da orelha. Quando, finalmente, chegou
a vez do homem de preto ele perguntou o que em que
podia ajudar e teve uma surpresa.
HOMEM:
“Não quero nada, excelência. Vim apenas agradecer o
trabalho que vocês estão fazendo pelo pais.”
MANÉ:
Getulio ficou surpreso. Era a primeira vez que alguém
chegava até ele e não queria nada, não tinha nenhum pedido... Queria apenas agradecer. Gentilmente, falou:
GETÚLIO:
“Obrigado, pelo reconhecimento. Fico lisonjeado. Posso
saber seu nome?”
HOMEM:
“Não tenho um nome, excelência. Sou um anjo. Um enviado de São Pedro que também pediu pra eu lhe apresentar as suas mais efusivas congratulações.”
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MANÉ:
Era um doido! O único homem que nunca lhe pediu nada
era doido! Mas Getúlio Vargas prosseguiu na sua ascensão política. Em 1927, foi eleito governador do Rio Grande do Sul, sem ter feito campanha no estado, com a proteção do oligarca, o coronel Borges de Medeiros. Na República Velha era assim: você era escolhido pelo coronel
e podia se considerar eleito, nem precisava fazer campanha. O voto não era secreto, mas de cabresto. O Coronel
reunia todo mundo no curral e entregava os votos que deviam ser depositados nas urnas. Na verdade, na verdade
mesmo, o voto naquela época já era secreto – mas secreto apenas para o eleitor que nem sabia em quem votava.
Como vocês estão vendo, o nosso herói tava misturado
com os coronéis, com essas praticas políticas. Tudo era
um arranjo. Na eleição do presidente, caso o ocupante do
posto entrasse num acordo com as oligarquias estaduais
sobre um nome, isso já equivalia uma eleição. O resto
era com os governadores, os oligarcas. O resultado era
manipulado até se enquadrar nos arranjos pré-eleitorais!
Era pressão total. A oposição – é, por incrível que pareça
tinha uma oposição! – não tinha a menor chance. O que
aconteceu na eleição de 30 é que até aquela época vigorava a política do café-com-leite – um mandato dos mineiros, outro mandato dos paulistas, mas o Washington Luís,
paulista, resolve quebrar outro acordo e indicar outro paulista, o Julio Prestes. Foi a gota que faltava! Se todo o
Brasil já era mordido com aquele arranjo paulista e mineiro, agora era Minas Gerais que ficou mordida. O resultado
é que Minas Gerais faz um acordo com os outros estados
descontentes, criam um partido chamado Aliança Liberal,
e escolhem um candidato. E quem é o candidato? Ele
mesmo! O nosso Getulio Vargas. Aí, vem a eleição e a Aliança Liberal perde. Denúncias de fraudes, roubos de urnas, voto de analfabeto, voto de morto! Pra piorar, João
Pessoa, que foi candidato a vice na chapa de Getúlio, é
assassinado na Paraíba. Um movimento político-militar é
deflagrado em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, em
3 de outubro.
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ACENDE LUZ NO PLANO SUPERIOR. GETÚLIO, DE TERNO BRANCO
ESTÁ DISCURSANDO AOS REBELDES GAÚCHOS.
CENA 05 – A REVOLUÇÃO DE 1930
GETÚLIO
“Rio Grande, de pé, pelo Brasil! Não poderás falhar ao
teu destino heróico! O povo está se levantando para readquirir a liberdade, para restaurar a pureza do regime
republicano, para a reconstrução nacional!”
MANÉ:
Era a revolução de 30! Getulio convocava os rebeldes gaúchos a marcharem sobre o Rio de Janeiro. A revolução
era apoiada por políticos da Aliança Liberal e pelos tenentes, jovens militares, que desde 1922 lutavam pela modernização do país. Os tenentes eram revolucionários, tinham uma tendência autoritária, queriam, realmente,
transformar o Brasil. Os políticos da Aliança Liberal eram
mais moderados. Queriam apenas modernizar, democratizar o pais – eleições livres, governo constitucional e plenas liberdades civis. Getulio Vargas continuava sua pregação:
GETÚLIO:
“Nossas tropas serão vitoriosas. Elas avançam do Rio
Grande do Sul, do Norte, com os rebelados da Paraíba, e
do oeste, com os valentes rebeldes mineiros!”
MANÉ:
Washington Luiz contava com as forças armadas. Era
prestigiado pelas forças armadas! À medida, porém, que
as forças inimigas avançavam sobre o Rio de Janeiro ele
ia perdendo forças. Os generais começaram a recuar. Um
matutava:
O ATOR QUE REPRESENTA GETÚLIO VIRA CONTADOR DE CAUSOS.
ATOR:
(REPRESENTA UM GENERAL.) “Tem uma faísca diante
de uma situação altamente inflamável. Muito sangue pode
correr. Washington Luiz é o responsável pelo estado de
inquietação em que vivemos. Ele enveredou por um caminho escabroso que causa grandes males ao Brasil.”
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MANÉ:
Outro General, diante da proximidade das forças rebeldes, ponderava:
ATOR:
(REPRESENTA OUTRO GENERAL) “Ninguém deseja
que seu filho vá morrer na linha de frente por um governo
divorciado dos interesses coletivos!”
MANÉ:
Viraram de lado e derrubaram Washington Luiz. No meio
do caminho a caravana de Getúlio Vargas que caminhava
para uma guerra, virou a caravana da vitória. Onde passava era aquela festa.
GETÚLIO:
(COM ENTUSIASMO.) “Avante! Vamos amarrar nossos
cavalos no obelisco do poder!”
MANÉ:
Que é isso? Calma!Getulio Vargas sempre foi ponderado.
Durante toda sua vida, nunca teve repentes, nunca deu
um soco na mesa. Agora, diante de uma vitória, não ia
provocar os vencidos.
ATOR:
É o calor da vitória!
MANÉ:
Que calor da vitória? Getulio sabia que a queda de Washington Luiz não resolvia os problemas brasileiros. Na
viagem, depois da queda do presidente, ele já vinha era
administrando os conflitos da coalizão vencedora – a briga entre tenentes e liberais. Tem até um causo que mostra este equilíbrio de Getulio. Eu conto pra vocês. Em cada estação a caravana da vitória era aclamada pelo povo.
No meio desse povo tinha o clássico grupo de estudantes
tendo ao lado a professorinha local. Em Lorena, estado de
São Paulo, às 3 da matina, um aluno morrendo de sono,
termina seu discurso decorado e berra a todos pulmões:
“Viva o presidente Washington Luiz!” Constrangimento geral! Os soldados levantam as armas. O povo fica em pânico. Todos de rabo de olho procuram um banco onde se
esconder quando começar o tiroteio. Silêncio! Até os grilos param de cantar! Ouve-se apenas o choro contido do
moleque e o bater dos joelhos da professorinha. Getulio
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Vargas, o único tranqüilo, vai até o menino, abraça-o e
segura sua mão.
GETÚLIO:
“Não precisa chorar, guri! Eu entendi perfeitamente que
você queria me homenagear. Fico contente e orgulhoso
de você.”
MANÉ:
Suspiros de alívio, os grilos voltam a cantar – cri, cri, cri! -,
o garoto se recompõe, enche os pulmões de ar e grita
meio desafinado: “Viva o presidente Getúlio Vargas.” Todos, apressados e com ardor redobrado: “Viva Getúlio!
Viva!” Depois, o trem do poder se afasta devagar e o todo-poderoso se perde na noite dando adeus aos aflitos da
estação. E tome pescoção no moleque! E tome bofete!
Em cada estação novas festas e novas promessas de esperança! (PARA O ATOR, COM INTENÇÃO) Um Getulio
calmo e ponderado, falou.
GETÚLIO:
(CALMO E PONDERADO) Ao povo será dado o que o
povo tem direito: um Brasil regenerado e modernizado,
uma legislação trabalhista que proteja o operário, a modernização da infra-estrutura do país, eleições livres, governo constitucional e plenas liberdades civis.
MANÉ:
(PARA O PÚBLICO.) Essa plataforma bonita apresentada
por Getúlio Vargas é a soma dos desejos das correntes
que participavam da coalizão revolucionária que o levou
ao poder. Aí, começa aparecer a grande qualidade de Getulio, o equilibrista. Ele, além, da forte disciplina individualista, usava sedução ao pé do ouvido, a discrição. Diante
do conflito, maquiavelicamente, encorajava cada grupo a
apresentar suas exigências. (REPRESENTA UM
TENENTE.)
TENENTE:
Presidente, não concordamos com a publicação do novo
Código Eleitoral.
GETÚLIO:
Não é possível, Tenente. O código eleitoral e uma exigência do povo e contém todas nossas bandeiras: convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, o voto se-
14
creto, o voto feminino e a criação de uma Justiça Eleitoral
para organizar e supervisionar as eleições.
TENENTE:
Não temos nada contra o conteúdo, Presidente... Apenas,
não achamos o momento oportuno para a convocação de
uma Assembléia Nacional Constituinte. É preciso antes
desmontar as estruturas do atraso, aniquilar as oligarquias que dominam o voto do povo desinformado. Eleições
nessas condições é entregar novamente o poder aos coronéis, aos exploradores do povo.
GETÚLIO:
Fiquem tranqüilos. Eu prometo que “o regresso ao regime
constitucional não pode ser, nem será, uma volta ao passado, sob a batuta das carpideiras da situação deposta,
que exigem, hoje, invocando o principio de autonomia, um
registro de nascimento de cada interventor local.” (PARA
O PÚBLICO, COMO O ATOR.) Essa ironia, ele dirigia aos
paulistas que tinham ficado revoltados com a nomeação
de um tenente, João Alberto, de confiança de Getúlio. Eles queriam um interventor do Partido Democrático. Mas
Getúlio, depois de bater no cravo, batia na ferradura.
(VOLTA GETÚLIO.) O que não podemos aceitar é “a prática de violências de quaisquer origens. Todos que fizeram a revolução, revolucionários civis e militares, devem
se unir contra a obra da intriga, do derrotismo. É preciso,
nesse momento difícil, que todos colaborem e não fiquem
sabotando os adversários da véspera.”
TENENTE:
Mas, Presidente....
GETÚLIO:
Fique tranqüilo, meu amigo, não esqueça que o Código
Eleitoral prevê a formação de uma bancada classista
composta por representantes de funcionários púbicos, de
empregados e empregadores, eleitos por delegados sindicais. Eles são votos nossos.
MANÉ:
E assim era e agia o nosso herói. Tinha uma atitude calma, mas decidida. O que tem que ser feito deve ser feito,
pelas palavras ou pelas armas. O seu primeiro governo
durou até 1945 enfrentando e controlando várIos conflitos
15
e revoltas. A primeira aconteceu em São Paulo. Foi chamada a Revolução Constitucionalista de 1932.
CENA 06 – A REVOLUÇÃO PAULISTA DE 1932.
MANÉ:
Os paulistas, principalmente as oligarquias, estavam furiosos com a nomeação de um militar e com a política centralizadora de Vargas.
GETÚLIO:
Mentira! A verdade é que as oligarquias paulistas não aceitam abrir mãos de seus interesses. Por trinta anos elas
controlaram o poder em seu benefício.
MANÉ:
O povo não foi às ruas e os jovens não foram à luta para
defender os interesses da oligarquia. Um grito unia o povo
de São Paulo: “Getulio nos traiu!” Eles queriam uma constituição para o Brasil!
GETÚLIO:
Mas junto tinha os separatistas e as elites que nada queriam mudar, queriam apenas o poder.
MANÉ:
É... Isso deixou São Paulo sozinho... Getulio convenceu
Minas Gerais e Rio Grande do Sul que eles não ganhariam nada com essa revolução. Deixou São Paulo falando
sozinho. “Ensarilhae armas, irmãos de São Paulo! Por
uma constituição, por eleições livres, pela liberdade! Abaixo a ditadura!”
ATOR:
“A camarilha dos politiqueiros sem compostura fazem derramar sobre nossa Pátria essa guerra fratricida. Eles desconhecem que os operários são as alavancas do seu progresso. Getúlio fez muito pelos operários! Getúlio fará
mais pelos operários.”
MANÉ:
As tropas paulistas, formadas por estudantes, industriais,
políticos e até mulheres, lutaram, apenas com o apoio de
Mato Grosso. Perderam, mas foi a única revolução do
mundo que até hoje é comemorada pelos perdedores.
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GETÚLIO:
Não podemos vilipendiar sobre o sangue de irmãos! Não
há vencedores e nem vencidos! O que há é uma nação a
ser construída. É a hora da conciliação! Não podemos
deixar às margens das decisões políticas grupos importantes das regiões brasileiras.
MANÉ:
E com isso, com essa conciliação que mais parecia uma
composição, os tenentes foram perdendo terreno. Em 33
a eleições da Assembléia Nacional Constituinte que iriam
conduzir à Constituição de 34. E foi essa constituição que
elegeu, indiretamente, Getulio Vargas o primeiro presidente constitucional da Segunda República.
CENA 07 – A PREPARAÇÃO DO GOLPE
ATOR:
Mas Getulio não teve vida fácil! Ainda em 1932 foi criada
a Ação Integralista Brasileira, movimento inspirado no
fascismo italiano – nacionalista antiliberal e anti-semita.
Seu lema era: “Deus, Pátria e Família!”
MANÉ:
E para fazer frente ao avanço nazi-fascista os tenentes,
os socialistas, comunistas, liberais e católicos progressistas, criam a Aliança Libertadora Nacional. Eles queriam
um governo-popular-nacional-revolucionário.
ATOR:
Agora imaginem vocês essa situação: os tenentes e as
forças que apoiavam o governo de dividem... Getúlio Vargas se sentiu como um pinto no lixo – em casa! Diante da
radicalização dos dois grupos, diante da ameaça dos subversivos, o congresso, a pedido de Vargas, cria a Lei de
Segurança Nacional. E Luis Carlos Prestes, líder da Aliança, se empolga e dá motivo pra Getulio usar pela primeira vez a Lei de Segurança Nacional.
MANÉ REPRESENTA PRESTES.
PRESTES:
“Abaixo o governo odioso de Vargas! Abaixo o fascismo!
Por um governo popular nacional e revolucionário! Todo o
poder à Aliança Nacional Libertadora!”
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GETÚLIO:
“É preciso manter a ordem! A legalidade acima de todos
os interesses. “
MANÉ:
Getulio falava de legalidade e reprimia: a Aliança foi fechada, lideres, acusados de serem financiados pelo exterior, foram presos.
GETÚLIO:
Em fins de 35, os militares revolucionários promoveram
uma quartelada, mas a revolta foi esmagada pelas goras
do governo.
MANÉ:
Vargas fez o que? Estado de Sítio, arrocho na Lei de Segurança Nacional. Criou uma polícia política impiedosa...
E tome repressão! E ao mesmo tempo, tinha eleição presidencial para 1938. Surgem dois candidatos e Vargas fica na dele.
GETÚLIO:
É preciso que o Governo Federal se abstenha, seja um juiz imparcial das lutas políticas.
MANÉ:
Getulio manobra, joga com as forças em luta, contra a
ameaça comunista:
GETÚLIO:
“É preciso deixar de lado a democracia dos partidos que
ameaça a unidade pátria. O congresso é um aparelho inadequado para enfrentar as ameaças de esquerda e direita. É preciso um regime forte, de paz, justiça e trabalho.”
MANÉ:
E veio a ditadura de Getulio Vargas.
CENA O8 – A DITADURA E A QUEDA DE VARGAS
MANÉ:
O pretexto para a ditadura foi uma nova ameaça comunista. Só com o apoio dos militares, sem apoio popular organizado na sociedade brasileira e sem qualquer base ideológica consistente, apenas uma criação altamente pessoal, mas nacionalista.
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GETÚLIO:
“É preciso suspender os pagamentos de juros e amortizações da divida externa. Ela sangra os recursos nacionais.
Por um Brasil nacionalista e justo com seus trabalhadores!
MANÉ:
Getulio encontrou a fórmula ideal para descansar a sua
permanência no poder – apoiar-se sobre nada! Apenas o
poder pessoal e o seu atraente fascínio. E com base
nesse carisma, nessa sedução, veio a ditadura, com suas
mazelas, repressões e ignomínias.
ATOR:
As ignóbeis violências policiais praticadas por causas ideológicas; o aviltamento intelectual; a sufocação das liberdades individuais; a castração do Judiciário e a hibernação do Legislativo
MANÉ:
O eterno cortejo que acompanha todas as ditaduras: demissões, prisões sem culpa, torturas, degredos, exílios...
Dá náusea esta monótona repetição, mas é indispensável
como um cautério na nossa adormecida consciência.
ATOR:
(CORTANDO O CLIMA DE REVOLTA.) Isso é a história
escrita pelos inimigos de Getúlio! Foi com seu poder centralizado que ele conseguiu modernizar o Brasil!
MANÉ:
Pronto! Voltou o Getulista!
ATOR:
O governo forte de Getúlio organizou a administração do
governo brasileiro, criou as leis trabalhistas e elaborou
uma política de industrialização:
GETULIO:
“Com a criação de empresas como usinas de ferro e aço,
fábricas de alumínio e cobre e a exportação de minérios,
nós estamos caldeando os elementos básicos para a
transformar o Brasil num país desenvolvido e industrial”
MANÉ:
E Getúlio se equilibrava agora nas forças internacionais:
de um lado os paises fascistas e autoritários como Itália e
Inglaterra, de outro, as democracias como Inglaterra e Estados Unidos. Para os fascistas alemães, em troca de
tecnologia e armas, entregou Olga Benário, comunista,
19
judia e mulher de Prestes, grávida de sete meses; depois,
para os Estados Unidos, em troca de da construção de
Usina de Volta Redonda, autorizou a construção de bases
militares e entrou na guerra ao lado dos aliados.
ATOR:
Com fim da guerra e a vitória dos paises democráticos,
Getulio não se sustenta e os militares – sempre eles -,
agora influenciados pelos Estados Unidos derrubam Getulio Vargas.
CENA 09 – A VOLTA DE GETULIO VARGAS
MANÉ:
Vargas, deposto, não tem seus direitos políticos cassados
e prova sua grande popularidade. Consegue, nas eleições
de 45 se eleger senador, já que a legislação permitia,
por dois estados; São Paulo e Rio Grande do Sul. Em
1950, novas eleições presidenciais! Adivinhem quem foi
eleito? (ENTRA A MUSICA BOTA O RETRATO DO
VELHO OUTRA VEZ E DISCURSO DE POSSE.) O projeto de governo de Getúlio tinha diante de si duas alternativas principais: a neoliberal e a desenvolvimentistanacionalista. Já ouviram falar?
ATOR:
Getulio queria a nacionalização dos nossos recursos naturais. Criou a Eletrobrás, a Petrobrás e o BNDS. Aumentou
o salário mínimo em 100%. Contra isso se levantaram as
forças reacionárias do país e as forças imperialistas representadas pelos Estados Unidos. Ele queria, também,
criar um mercado no sul das Américas. Junto com o Chile,
a Argentina....
MANÉ:
A Argentina? Brasil e Argentina?
ATOR:
É!
MANÉ:
Não podia dar certo... Nunca se beijaram... Como essa
peça, por causa da intromissão desse getulista, ficou muito sério, vou contar um causo de brasileiros e argentinos,
pra mostrar como eles se gostam. Delegacia de São Bor-
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ja. O delegado está lá e aparece um homem todo preocupado, chateado:
HOMEM:
“Seu delegado, na estrada que vai pro sul, atropelei e matei um homem”.
MANÉ:
O delegado fecha a cara e diz:
DELEGADO:
“Tche, infelizmente, tu tá perdido. Aqui, em Caxias do Sul,
valorizamos a vida humana... E muito!... Tu já vai ficar
preso e dificilmente vai sair.”
MANÉ:
O homem tremeu nas bases, tentou se desculpar:
HOMEM:
“Eu sei que errei, delegado, mas o argentino...”
MANÉ:
O delegado cortando:
DELEGADO:
Um argentino? Tu matou um argentino? Ba!... Não é culpa
tua, esses argentinos ficam atravessando a rua sem olhar,
atravessando a rua sem prestar atenção!”
HOMEM:
“Mas, seu delegado, o argentino tava no acostamento.”
MANÉ:
E o delegado:
DELEGADO:
“No acostamento!? É sinal que ia atravessar, Tche! Se
não fosse tu, seria outro... Isso acontece.”
HOMEM:
“Mas, seu delegado, eu não atendi o coitado, não prestei
socorro!”
DELEGADO:
“Ainda bem!... Se tu levasse o infeliz pro hospital, ia aparecer jornalista, familiares, curiosos... O que podia acontecer? Tumulto, uma infecção hospitalar!... Ia morrer mais
gente!”
HOMEM:
“Não é só isso, seu delegado! Eu enterrei o coitado ao lado da estrada!”
DELEGADO:
“Enterraste um Argentino? Foi um ato cristão! Além da liberdade tu podes ganhar o céu.”
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HOMEM:
“Não, seu delegado! Eu não mereço perdão! Quandotava
enterrando o infeliz ele ficava falando: Estoy vivo! Estoy
vivo!
DELEGADO:
“Era mentira! Os argentinos mentem muito! Foi bom não
acreditares!”
ATOR:
É muito infame! É por isso, por esses preconceitos e má
vontade uns com os outros, que nós, os povos do Sul, ficamos sempre a mercê das nações imperialistas. E essas
forças internacionais se uniram as forças reacionárias internas contra a posição nacionalista de Getulio:
CAI A LUZ E FICA APENAS UM FOCO EM GETÚLIO.
GETÚLIO:
“As dificuldades brasileiras, a miséria do povo brasileiro,
tem suas raízes na má fé e na ganância dos grupos estrangeiros! Todas as economias reservas nacionais são
sangradas pelas remessas de lucros excessivas feitas pelas multinacionais. Elas ainda cometem fraudes nas exportações e acobertam a retirada de lucros ilegais do país!
CAI O FOCO SOBRE GETULIO E SOBE EM MANÉ
CENA 10 – O FIM DE GETÚLIO VARGAS
MANÉ:
Era o começo do fim! Aumentou a crise! (ENTRA
MÚSICA DE SUSPENSE) As forças armadas de dividiram. Getulio tinha minoria na imprensa. O jornal mais furibundo era a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda. Na
câmara, a oposição batia: “A culpa da crise e Getulio no
poder! A corrupção, como os favores para fundação do
Jornal Ultima Hora, um jornal a serviço do poder, envergonham a nação brasileira!” Outro deputado acusava Getulio de estar negociando, secretamente, com Perón, ditador Argentino: “Ele que formar, na nossa nação democrática, um estado sindicalista!” Tentaram o impeachment.
Em primeiro de maio, com agressivo discurso, Getulio ten22
ta reagir e anuncia um aumento do salário-mínimo de
100%! Aumentam os discursos contras, as acusações! A
UDN, principal partido das oposições, consegue a adesão
de vários militares que agiam influenciados pelos norteamericanos. A campanha vingativa e inflamada da oposição, minou o apoio da classe média. O velho caudilho, o
pai dos, para se equilibrar, tinha do outro lado uma classe
trabalhadora politicamente desorganizada. O talento pessoal, a persuasão e o poder de manipulação apagaramse. O velho estava cansado, sem forças. O embaixador
americano apóia os golpistas. Getulio, ainda tentou resistir: “As mentiras e calúnias não me abaterão! Represento
o principio da legalidade constitucional e vou preservá-lo e
defendê-lo!” Acusações de corrupções! O crime da rua
Toneleros! O ultimato militar! Os aviões sobrevoando o
Catete! A solidão do velho caudilho! (SAI MÚSICA DE
SUSPENSE.) Sozinho no seu quarto, na manhã de 24 de
agosto de 1954, cercado por seus inimigos, aparentemente, sem saída, mas capaz ainda de um último golpe.
CAI A LUZ SOBRE MANÉ E SOBE NO QUARTO DE GETÚLIO. ELE ESTÁ
SÓ E FAZ UMA REVISÃO DA CARTA TESTAMENTO.
CENA 11 – O TESTAMENTO
GETÚLIO:
Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam,
e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto.
Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos
econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de
uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e
instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar.
Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha sub-
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terrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos
nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás
e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se
avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o trabalhador seja livre. Tenho lutado
mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio,
tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada
mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves
de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar
sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a
minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo
ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos
filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento
a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos
e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de
meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao
ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me
derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do
povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo
de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu
sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho
lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não
abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos
ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o
primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida
para entrar na História.
GETULIO PEGA O REVOLVER. COLOCA NO PEITO E APERTA O
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GATILHO. BLECAUTE, SOM DE TIRO. ENTRA, ORQUESTRADA, A
MÚSICA AQUARELA DO BRASIL.
FIM
São Paulo, 22 de agosto de 2004
Calixto de Inhamuns
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Telefone: (11) 5083-8877
E-mail: [email protected]
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O CONTADOR DE CAUSOS E GETÚLIO REENCARNADO