Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo & Flávia Florentino Varella (org.). Caderno de resumos & Anais do 2º. Seminário Nacional de História da Historiografia. A dinâmica do historicismo: tradições historiográficas modernas. Ouro Preto: EdUFOP, 2008. (ISBN: 978-85-288-0057-9) O Paraná no Centenário, 1500-1900, de Rocha Pombo: esboço de História Cultural na Primeira República? Ivan Norberto dos Santos* Inúmeras seriam as condições para que um determinado autor tenha obtido uma recepção mais ou menos favorável em sua época. A primeira a ser evocada usualmente seria a que se refere à qualidade intrínseca do seu trabalho. Porém, uma das questões que se poderia contrapor a tal resposta, seria quanto ao estabelecimento dos significados e dispositivos que atribuiriam a um determinado texto, num determinado tempo e lugar, o seu pertencimento ou não aos modelos, eles próprios históricos, de uma boa escrita. Tais critérios de julgamento são, portanto, historicamente constituídos. Não são homogêneos, nem uniformes, e muito menos, docilmente estabelecidos. Resultam muitas vezes de embates intelectuais, mais ou menos explicitados, de discussões conceituais e dos enunciados produzidos pelos indivíduos, grupos e sociedades envolvidos na sua elaboração. E também ainda, encontram-se disseminados nas práticas, nos procedimentos reguladores, e na escrita resultante das operações de produção de significado e sentido. A pesquisa em curso busca investigar tais embates no âmbito da produção historiográfica brasileira na Primeira República, e as marcas que os mesmos produzem na escrita dos historiadores, a partir do trabalho do historiador paranaense José Francisco da Rocha Pombo. A esse autor a crítica intelectual, ao longo de maior parte do século XX, costumou relegar um papel secundário, apesar dos seus livros e manuais de História terem sido reeditados até a década de 19701. É exatamente quanto ao seu trabalho considerado como historiográfico que Rocha Pombo seria classificado na posição de um obreiro, a quem faltariam as qualidades e condições necessárias a um bom historiador, entre elas a de não apresentar aspectos originais em seus livros. Se tais juízos parecem justificados diante da leitura, por exemplo, da História do Brasil, ilustrada, publicada por Rocha Pombo entre 1905 * Mestrando do Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq-Brasil. 1 Para uma análise da trajetória de Rocha Pombo como autor didático de História consultar LUCCHESI, Fernanda. Fernanda. A história como ideal: reflexões sobre a obra de Jose Francisco da Rocha Pombo. São Paulo: USP, 2004, num dos poucos trabalhos acadêmicos dedicados ao paranaense. 1 e 1917, com seus dez vastos volumes2, considerados por alguns, mesmo à época de sua primeira edição, como leitura árida e difícil3, uma análise de outros textos desse historiador não confirma integralmente alguns desses julgamentos. Um desses trabalhos se trata do livro O Paraná no Centenário, 1500-19004, um dos primeiros de História, escrito por Rocha Pombo. Determinadas características apresentadas nessa obra indicam algumas sugestões temáticas e tratamentos pouco usuais na historiografia do seu tempo. O que busco observar é se tais características permitiriam propor esse livro como contendo elementos de uma abordagem que se privilegiaria os aspectos culturais diante dos políticos e econômicos, constituindo assim um esboço de certo tipo de História Cultural, ensaiado no Brasil da Primeira república. O Paraná no Centenário foi escrito por Rocha Pombo com o objetivo de servir como contribuição, da parte dos cidadãos do Paraná, para as comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil. A sua escrita teria sido sugerida em uma reunião de um clube denominado Centro Paranaense, localizado no Rio de Janeiro, em dezembro de 1899. O próprio Centro, a princípio, ficaria responsável por custear a edição do livro, mas o governo do Estado do Paraná acabou por se encarregar das despesas de publicação. O interesse em escrever uma História da sua região de nascimento havia sido manifesto por Rocha Pombo dezessete anos antes do Paraná no Centenário ser editado, quando da publicação do livro A supremacia do ideal, em 1883. Esse livro fora impresso na cidade paranaense de Castro, pela tipografia responsável pelo periódico Echo dos Campos, pertencente ao próprio Rocha Pombo. No corpo do volume aparece em destaque, antes do prefácio, um pequeno texto onde é anunciada a pretensão do autor de redigir apontamentos e recolher material para a escrita de uma História da província. Tal comunicado tinha a finalidade expressa de conseguir a “proteção de todos os paranaenses”5 para a realização do projeto, tanto através de auxílio financeiro, como através do fornecimento de materiais e informações úteis à sua confecção: “tudo que disser respeito aos nossos primeiros tempos, às nossas riquezas naturais, às nossas indústrias, às nossas letras, aos indígenas da província será 2 POMBO, Rocha. História do Brasil, ilustrada. Rio de Janeiro: J. Fonseca Saraiva Editor (Vol. I-III); Benjamim de Aguila Editor (Vol. IV-X), 1905-1917. 3 Conforme, por exemplo, RIBEIRO, João. Crítica. VI, p. 32, 139 e s. Apud MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. vol. VI. São Paulo: Cultrix, EDUSP, 1978. p. 25. 4 POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário, 1500-1900. Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1900. 5 POMBO, Rocha. A Supremacia do ideal. Cidade de Castro: Typ. de Echo dos campos, 1883. Contracapa. 2 aproveitável”6. Rocha Pombo chegou mesmo a esboçar um plano de redação, também exposto no Supremacia do Ideal: Este trabalho, que será publicado o mais breve possível, deve consistir no colecionamento de todos os dados e informações que possam ser de utilidade para o historiador do futuro. Há de compor-se de dois volumes, de mais de 400 páginas cada um, contendo: o primeiro tudo o que foi relativo à época decorrida desde o conhecimento do país até a separação da província; o segundo, tudo que pertencer ao período contado da separação até hoje7. Tal estrutura, todavia, não é reproduzida na redação do Paraná no Centenário, porém ali é novamente indicado, de maneira mais detalhada, a periodização ideal para se narrar a história da região: Parece que, didaticamente, a divisão mais bem assinalada, a adotar-se no estudo da nossa história, seria a que se segue. Isto é, dos 400 anos decorridos, formaríamos seis épocas, a que denominaríamos, Fases Notáveis da História do Paraná. I - Dos tempos primitivos até a criação da comarca; II - Da criação da comarca até 1853, época em que a comarca foi elevada a província; III - De 1853 até o ano em que se concluiu a construção da estrada da Graciosa – 1873; IV – De 1885 até a proclamação da República, em 1889; V – De 1889 até hoje.8 Todos esses indícios levam a questionar se o Paraná no Centenário poderia ser considerado, afinal, a consolidação possível do projeto de uma História do Paraná, pretendida por Rocha Pombo9. Não há dúvidas de que o autor procura enaltecer as qualidades desse Estado, construindo para o mesmo um lugar de grandeza, vinculado aos destinos maiores da nação brasileira. Todavia, o aspecto principal a ser destacado é a forma como o mesmo acaba por estruturar a sua escrita, como pode ser observado já no índice do livro. As aproximações com um modelo tradicional, o qual, certamente, remete à História Geral do Brasil, escrita por Francisco Adolfo de Varnhagen, são evidentes10: iniciar pela descrição geográfica, pelas grandes navegações, tratar do tema das populações indígenas, para então passar à narração das origens históricas da formação social. No entanto, seja contingente ou premeditada, a sua periodização inverte a centralidade proposta pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de produzir histórias locais para compor, através de uma síntese centralizadora, a História nacional: 6 Idem, ibidem. POMBO, Rocha. A Supremacia do ideal. Contracapa. 8 POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. vi. 9 Anos mais tarde foi publicado um compêndio de autoria de Rocha Pombo intitulado História do Paraná, resumo didático, com 144 páginas: POMBO, Rocha. História do Paraná, resumo didático. São Paulo: Melhoramentos, 1919. 10 Ver Anexo abaixo. 7 3 no tratamento da questão, é privilegiada a perspectiva de considerar as regiões não nas suas especificidades - descartando com isso a polêmica do regionalismo - mas na sua intrínseca organicidade ao conjunto nacional. (...) é a partir do IHGB no Rio de janeiro que a leitura dessas histórias regionais 11 será empreendida . Face os desafios trazidos pelas grandes desigualdades regionais e a vastidão territorial do Brasil, para a construção, através de uma escrita da História, de uma idéia de nação unificada, uma tendência centralizadora seria fundamental no projeto historiográfico do Brasil Imperial, herdado depois pela República. Essa idéia de unidade histórica não desaparece em Rocha Pombo, mas o que se dá é a inversão do plano. A História periférica une-se com o conjunto da nação, mas não como ponto de partida e sim como ponto de chegada da grande História, que parte assim do mais geral para estudo das particularidades locais. São essas que devem ser destacadas, para marcar a relevância que se deseja imprimir ao papel, desse estado em particular, no todo nacional. O Paraná no Centenário evidentemente se aproxima de muitas das concepções correntes em sua época acerca do papel da História, mas, ao mesmo tempo, passa ao largo de outras, consagradas. A questão dos documentos, por exemplo, visto que as fontes indicadas nas notas, sem maiores questionamentos, constituem-se muitas vezes de memórias e manuscritos pessoais, que não pertenciam, porém a personagens ilustres, o que seria mais aceitável, em determinado contexto de produção. Tal operação parece aproximar o trabalho de Rocha Pombo de um esforço memorialístico, embora a crônica elaborada não fosse ali, nos momentos em que tais documentos aparecem mobilizados no texto, a dos grandes indivíduos ou dos grandes acontecimentos políticos. Segundo Brasil Pinheiro Machado12, Rocha Pombo acompanharia no Paraná no Centenário, o pensamento do historiador João Francisco Lisboa de tratar a História menos do ponto de vista da formação do Estado do que pela participação popular na formação da nacionalidade brasileira13. Não puderam ser localizados, na presente pesquisa, até o momento, indícios precisos de que o historiador paranaense tivesse tido contato antes da escrita do Paraná no Centenário, com o trabalho de Lisboa, o que é significativo num autor como 11 Conforme: GUIMARÃES, Manoel Luiz Lima Salgado. Nação e Civilização nos trópicos: o IHGB e o projeto de uma história nacional. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, (1):5-27, 1988. p. 23-24. 12 MACHADO, Brasil Pinheiro. Rocha Pombo: dados biobibliográficos. In: POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. 2. ed. Rio de Janeiro: Curitiba: José Olimpio; Secretaria de Cultura e Esporte, 1980. p. xvii-xviii. 13 Ver: LISBOA, João Francisco. Crônica do Brasil Colonial: apontamentos para uma história do Maranhão. Petrópolis: Vozes, 1976. Ver, por exemplo: POMBO, Rocha. O Paraná no centenário. p. 69: “Por fim, as instâncias dos povos foram atendidas, criando-se a comarca [a partir da Capitania de São Paulo] em princípios do século passado, e designando-se a vila de Paranaguá como sede e residência do ouvidor”. 4 Rocha Pombo, que cita e discute com abundância as suas leituras. Mas isto não permite, simplesmente, ignorar as hipóteses de Pinheiro Machado. A narrativa construída aproxima alguns elementos aparentemente contraditórios, imersos em uma abordagem tradicional, mas contendo pequenas emergências de formulações menos freqüentes. Uma dessas seria a possibilidade de considerar temas como a cultura popular como fundamentais para constituir a História de uma nação14. Esse aspecto não era inovador nem exclusivo na produção brasileira, se levado em consideração, por exemplo, o esforço de um Sílvio Romero em recolher peças populares para estudar o caráter da nacionalidade brasileira pelo viés da sua cultura popular e da sua produção literária15. A historiadora Laura de Melo e Souza, ao proceder a um balanço das realizações em História cultural no Brasil, considera o trabalho de Capistrano de Abreu com os seus Capítulos de História Colonial16, como um precursor nessa matéria17. Embora no texto de Rocha Pombo uma semelhante característica apareça mais como uma proposta que como uma realização acabada, há que se considerar que, apesar do prestígio de Capistrano como historiador desde a última década do século XIX, os Capítulos de História Colonial foram publicados em 1907, sete anos depois do Paraná no Centenário, e dois anos depois do primeiro volume da História do Brasil, ilustrada, de Rocha Pombo. É possível alguma interlocução ou diálogo com as idéias de Capistrano, que certamente circulavam no meio intelectual da época, mas dificilmente Rocha Pombo teria se espelhado nesse autor para compor um dos seus primeiros trabalhos de cunho histórico. O elemento central que quero reter aqui do Paraná no Centenário, com relação a sua perspectiva cultural, é a sua aparente facilidade em reunir uma narrativa das grandes navegações, por exemplo, a uma proposta de elaboração de uma História de cunho popular, considerando as diferentes emergências culturais que pudessem caracterizar as especificidades de uma determinada região. A proposição de Rocha Pombo é indicada de maneira clara: “Eis aí uma tarefa – repetimos – que anda à espera de um obreiro: a de recolher nos nossos povoados os produtos mais característicos da nossa musa popular”18. Recolher tais peças seria 14 SOUZA, Laura de Mello. Aspectos da historiografia da cultura sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2005. p.17-38. 15 ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro, J. Olympio; Brasília, INL, 1980; Ver: MOTA, Maria Aparecida Rezende. Sílvio Romero: uma “imagem nervosa” do Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, IFCS, 1992. 16 ABREU, Capistrano. Capítulos de história colonial, 1500-1800. 5. ed. Rio de Janeiro, Livraria Briguet, 1969. 17 SOUZA, Laura de Mello. Aspectos da historiografia da cultura sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2005. p.17-38. p. p. 18-19. 18 POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. 111. 5 um passo inicial para a construção de um estudo sobre a identidade, ou o caráter, como era dito então, de um povo ou lugar. Sob tal perspectiva, temas como o das festividades religiosas, tal qual a festa em homenagem à Virgem do Rocio, em Paranaguá, mereciam tanto destaque para a História quanto o desenvolvimento econômico da antiga província. Festividades e folguedos, como a Folia do Divino, os Terços Religiosos, entre outros, compunham um quadro vivo do que deveria ser guardado pela memória para consolidar o painel das cores locais: Da cidade até a capela se formava uma longa avenida, cheia de ramagens e de flores, e durante os dias de festa, da manhã à tarde, uma contínua multidão enchia essa avenida. Em torno da capela erguiam-se tendas e barracas, onde os assistentes encontravam licores, doces, frutas, café etc.19 As iniciativas de ordem mais populares acabavam por ser contempladas pelo esforço plástico-descritivo de Rocha Pombo: Em Morretes, além da festa da Senhora do Porto e da do Espírito Santo desde 1814, havia também a de S. Benedito. Este, desde tempos antigos, era festejado ali, como aliás em quase todas as outras vilas da marinha. A Irmandade de S. Benedito, criada em 1787, foi a única que existiu em Morretes até 1850. Por esse tempo, o vigário Padre Agostinho Machado Lima tentou fundar mais duas irmandades, mas não conseguiu20. Que os eventos indicassem uma predominância de iniciativas populares diante dos projetos encaminhados a partir dos membros das instituições tradicionais, isso é menos relevante que a disposição de Rocha Pombo de relatá-los. As manifestações profanas também eram descritas, com um colorido que denuncia o provável concurso de uma memória pessoal. A ligação entre o sagrado e o profano em tais festividades não passava despercebida: As mesmas festas profanas, pelas quais terminavam invariavelmente aquelas outras, vão sendo esquecidas (...). o poeta das Folias, à noite, ia ser o cantor dos batuques. Muitas vezes, de súbito, cessavam os folguedos e os alaridos, fazia-se um grande silêncio de expectativa geral em torno dos violeiros. Estes começavam o desafio ou a porfia. Cantavam horas e horas, improvisando um para o outro, tendo suspenso todo o tumulto da casa.21 A trajetória do destaque às manifestações culturais de cunho popular passava pelas singularidades e individualidades de alguns de seus personagens: Em todos os bairros havia cantadores [grifo do autor] de nome e muitos destes, conhecidos em distritos longínquos. O povo timbrava de decorar os 19 POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. 112. Idem. p. 113. 21 Idem. p. 107. 20 6 versos dos mais famosos e esses versos, pelo menos grande número desses versos ainda hoje poderiam ser apanhados.22 Como se pode observar, Rocha Pombo opera com uma determinada concepção de cultura popular, ainda que essa não seja claramente formulada. As canções, versos, imagens e folguedos, seriam frutos de iniciativas de gênios particulares dentre o povo, e seriam posteriormente apropriadas pela coletividade, que as desenvolveria ou repercutiriam, conferindo-lhes um caráter de manifestação artística comum. Era essa musa popular, individual ou coletivizada, que deveria ser recolhida pelo historiador, para assumir o seu lugar na História de um povo ou nação. O papel conferido, no Paraná no Centenário, aos elementos da cultura popular, permite sugerir que a concepção de cultura de Rocha Pombo, embora não conceitualmente formulada, não se limitava à de uma produção intelectual letrada. Mesmo que tomada, tão somente, como elemento que ajudasse a esboçar o painel da nacionalidade, a sua idéia de cultura parece abranger diversos elementos que ultrapassariam os limites de uma cultura formal. Essa característica pode ter a ver com o mesmo conjunto de circunstâncias que levavam Rocha Pombo a se considerar, do ponto de vista da sua formação, um “autodidata arrojado”23, da mesma forma o seu papel como jornalista e homem de imprensa, particularmente no Paraná, bem como a sua concepção de instrução pública, apresentada em alguns trabalhos como A Supremacia do Ideal. Essas características confeririam a Rocha Pombo sua tonalidade “popular” no tratamento da cultura, e da História, ao menos nesse momento da sua produção. Um sinal extremo desse destaque ao popular, são, por exemplo, as várias páginas que Rocha Pombo dedica a um personagem humilde da cultura paranaense de sua época: Entre os poetas populares, os cantadores de há 20 ou 30 anos, ainda nos recordamos de alguns, cuja fama corria em todo o Paraná, pelos povoados e os sítios. Um dos mais conhecidos, tanto nas paragens do litoral como nas do interior, era um Bento Cego, cuja história desperta algum interesse.24 A semelhante personagem, Rocha Pombo confere uma relevância pouco usual em trabalhos historiográficos do seu tempo, no qual não é menosprezado o testemunho oral dos que presenciaram os relatos a serem transmitidos: 22 Idem, ibidem. O próprio historiador, bem como seus comentadores e biógrafos, sempre indicaram o autodidatismo da sua formação, conforme, LUCCHESI, Fernanda. Op cit. p. 13. 24 POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. 107-108. 23 7 O que mais nos admira, nos fatos que nos contam, é a sutileza de um homem rústico e envolto na escuridão, tal como encordoar uma viola com toda perfeição, distinguindo pelo tato dos dedos os números escritos nos carretéis de arame!25 O caráter de excepcionalidade está presente, configurando uma notabilidade de grandeza, mas não se pode afirmar que esse herói de Rocha Pombo, devidamente elogiado, pertencesse à elite da sua sociedade, tanto como outros representantes da “musa popular”, que são apresentados, tais como Januário Contenda, José Marinho, Nho Doro, e Ignácio Sagaz, o Coronel26. Além desses temas, os desenvolvimentos da educação, das belas artes, da imprensa e da produção literária, e a formação das sociedades literárias e da intelectualidade, seriam assuntos que ajudariam a compor o quadro das glórias, tanto regionais quanto pátrias27. Para Rocha Pombo, capítulos à parte deveriam compor o painel da constituição do ensino e das atividades literárias como parte da formação e do progresso de um povo, lugar ou nação. Desenvolver, num trabalho historiográfico, temas como os propostos no Paraná no Centenário significaria tornar relevantes aspectos caros a boa parte do ideário republicano no Brasil, considerando as idéias de progresso e do aumento da importância da educação pública, por exemplo. Por outro lado, contradizia a uma historiografia tradicional que via no papel das figuras mais evidenciadas da vida política no sentido da constituição do estado nacional brasileiro, o elemento principal do desenvolvimento da História do Brasil. Certamente O Paraná no Centenário, não pode ser considerado uma versão primitiva ou pioneira de História Cultural, nos modos como esta vertente da pesquisa em História veio a se estabelecer no século XX. Trabalhos como os de Sílvio Romero, para mencionar um só autor, já haviam tratado de temas semelhantes aos sugeridos por Rocha Pombo. O que esse trás como mérito é o de propor a cultura, e em particular a cultura popular, como pertinente ao saber propriamente historiográfico. Mais tarde, essa e outras propostas apresentadas em seus trabalhos iniciais, não foram retomadas por Rocha Pombo, como, por exemplo, na sua História do Brasil, ilustrada. Os títulos dos capítulos do Paraná no Centenário, entre outras questões, permitem para a 25 Idem. p. 109. POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. 108. 27 Ver, por exemplo: POMBO, Rocha. O Paraná no Centenário. p. 124: “Um fenômeno bem característico que, de 1875 em diante, revelou entre os paranaenses uma grande tendência para o alargamento dos horizontes intelectuais da população, foi sem dúvida o afã extraordinário com que em todas as localidades da antiga província se foram organizando clubes e sociedades literárias, cada qual com a sua biblioteca”. O que importa aqui é menos a propriedade ou não do relato, mas a importância com que assunto é tratado no texto de Rocha Pombo. 26 8 seguinte proporção: de vinte e quatro capítulos, seis, ou seja, vinte e cinco por cento, abordam ou propõem algum tipo de História literária ou intelectual, evidentemente nos moldes possíveis à sua época. Tal dimensão não pode ser ignorada. Por outro lado, os títulos das seções dos dez volumes da História do Brasil, ilustrada, publicada cinco anos mais tarde, indicam uma aproximação maior com uma periodização tradicional28. Os amplos movimentos ligados às questões políticas e econômicas se impõem para compor o quadro do surgimento do Brasil como nação, inserido no processo civilizatório. Heróis são estabelecidos ao longo de toda essa trajetória, e apesar de manter em vigência a sua idéia romântica de povo, um personagem anônimo como Bento Cego não fará parte, novamente, do panteão construído por Rocha Pombo, até o final da sua carreira como historiador. 28 Ver Anexo abaixo. 9 10 ANEXO Quadro comparativo dos títulos de capítulos ou seções História Geral do Brasil (1854), Francisco Adolfo de Varnhagen. O Paraná no Centenário (1900), Rocha Pombo. História do Brasil (1905-1917), Rocha Pombo. I - Descrição geral do Brasil. I - As comemorações. Volume I: II - Dos índios do Brasil em geral. II - A epopéia dos mares. Parte primeira - O descobrimento. III - Línguas, usos, armas e indústria dos Tupis. III - A figura de Portugal na História Moderna. Parte segunda - A terra. (Nesta tabela foram relacionados as Seções dos Tomos I e II, dos cinco da obra completa). IV - Idéias religiosas e organização social dos tupis: sua procedência. (Encontram-se relacionados os títulos das divisões principais de cada volume). IV - Terra de Vera Cruz. Volume II: V - Descobrimento da América e do Brasil. V - Colonização do Brasil. Parte terceira - As raças que se fundiram. VI - Explorações primitivas da costa brasílica. VI - Tempos primitivos do Paraná. VII - Atende-se mais ao Brasil. Pensamento de colonizá-lo em maior escala. VI - Descrição física do Paraná. Volume III: VIII - Panoramas da natureza paranaense. Parte Quarta - Conquista e colonização do litoral. VIII - Resultados da expedição de Martim Afonso. IX - Sucessos imediatos à expedição de Martim Afonso. IX - Tribos indígenas do Paraná. X - Desenvolvimento material: trabalho das minas. Criação. Lavoura. Viabilidade. Volume IV: Parte quinta - Formação do espírito nacional. X - Direitos dos donatários e colonos. Portugal nesta época. XI - Criação da Comarca. Condições de vida. XI - Crônica primitiva das seis capitanias, cuja colonização vingou. XII - Aspecto geral da zona povoada. Primeiras aspirações de autonomia administrativa. Continuação da Parte quinta. XIII - Província do Paraná. Influxo da nova ordem de coisas. Parte sexta - Integração do território e primeiras idéias de independência. XIV - Escravidão de africanos. Perigos ameaçadores. XIV - Viabilidade: Estrada da Graciosa. Estrada de Mato Grosso. Volume VII: XV - Estabelecimento de um governo central na Bahia. XV - Incremento das Indústrias: a ervamate. A lavoura. Madeiras. Parte sétima - O Brasil como sede da monarquia portuguesa. XVI - Criação de um bispado. Conclui o governo de Tomé de Souza. XVI - Necessidade Colonização. Parte oitava - A independência. XVII - Governo de D. Duarte da Costa. Tentativa de Villegaignon. XVII – Progresso intelectual. Criação da imprensa. Volume VIII: XVIII - Mem de Sá. Expulsão dos franceses. Capitania do Rio de Janeiro. XVIII - A nossa Poesia Popular. Festas tradicionais. Parte décima e final: O segundo reinado. XIX - Nova cidade de S. Sebastião. Os índios e os jesuítas. XIX - Progresso econômico. Estrada de ferro. Espírito de associação: companhias, empresas, bancos. XII - Capitanias cuja primitiva colonização se malogrou. XIII - Vida dos primeiros colonos e suas relações com os índios. XX - Prossegue o governo de Mem de Sá. Sua morte. XXI - Redução do Rio Real, Itamaracá e cabo Frio. Malogro na Paraíba. de XX - Instrução popular. Sociedades literárias. população. Volume VI: Parte nona - O período regencial. Volume IX: Continuação da parte final. Belas-artes. Volume X: XXII - Manuel Teles Barreto. A Paraíba. Três ordens religiosas. XXI - Eclosão intelectual. O movimento literário dos nossos dias. XXIII - O Brasil em 1584. Misericórdias. Literatura contemporânea. XXII - Situação econômica e financeira. XXIV - Governos interinos de D. Francisco e de Diogo Botelho. Colonização de Sergipe e Rio Grande. Malogros em Minas e no Ceará. Volume V: vasto Parte suplementar - Documentos para a história do primeiro decênio da República. XXIII - Golpe de vista geral sobre o Paraná dos nossos dias. XXIV – O rumo aberto. XXV - Governo de Menezes. Relação. Ceará. Separação do Sul. XXVI - Colonização do Maranhão-Pará. O Brasil até 1624. XXVII - Perda e recuperação da Bahia. O sul e o Maranhão. XXVIII - Desde a invasão de Pernambuco até chegar Nassau. XXIX - Governo de Nassau até levantar o sítio da Bahia. XXX - Desde o Sítio da Bahia até a partida de Nassau. 10