Foi então que uma sirene começou a tocar dentro de Tomé. Uma sirene que lhe dizia “Põe-te a andar! Põe-te a andar!” E Tomé saiu a correr da padaria. Nesse dia, aprendeu que os génios bons que concedem desejos só existem nos contos de fadas e não na padaria da esquina. Percebeu por que razão os pais lhe diziam para não aceitar prendas ou guloseimas de desconhecidos. Sejam elas quais forem. É que alguns adultos esperam, em segredo, que lhes dês em Eu, da cabeça aos pés. troca algo que vale muito mais do que bombons de três euros. Querem um pouco de ti. O que não pode ser! Sophie Carquain Petites histoires pour devenir grand (2) Paris, Albin Michel, 2005 (Tradução e adaptação) os mais pequenos: afectos corpo e sexualidade 53 MAS HÁ QUEM NÃO GOSTE DE MIM! A menina por detrás da janela Era uma vez, num país cinzento e frio, um Rei que adorava uma menina. A menina era tão bonita que o Rei se apaixonara por ela. Como a queria sempre junto de si, lançou-lhe um feitiço e transformou-a em boneca. Oferecia-lhe colares e travessões em veludo para os cabelos e, todas as noites, passava longas horas com ela. Deitava-a a seu lado e acariciava-a com tanta paixão que a boneca quase asfixiava. Quando o dia despontava, o Rei partia e a boneca ficava sozinha. A porta do quarto não estava fechada. A boneca podia sair e fugir mas, como achava que o Rei ficaria desgostoso, não ousava fazê- Volume 3 lo. As suas pernas de algodão não a deixavam andar e, como não tinha boca, tinha medo de perder-se e de não conseguir perguntar o caminho. 55 Então, quando o Rei se ia embora, ela ficava sentada à janela, com a cara apoiada contra o vidro frio, a olhar para a rua com tristeza. Foi assim que os seus lábios acabaram por desaparecer. Primeiro tornaram-se transparentes, como o vidro em que se apoiavam, e depois evaporaram-se, apagando-se completamente. Os seus dias decorriam intermináveis e tristes. Certo dia, descobriu um rapazinho que brincava num jardim. Quem lhe dera ir ter com ele! Mas como podia ela chamá-lo se não tinha boca? Com o coração pesado, passou os dias seguintes a espiar o novo vizinho, escondida por detrás da cortina. À noite, o Rei, alarmado com a tristeza da boneca, abraçava-a ainda com mais ternura, esforçando-se por expulsar o desgosto que lhe petrificava as longas pestanas e ensombrava os olhos. Às vezes, abraçava-a com tanta força que ela sentia-se profundamente assustada. 56 Um dia, o rapaz, sentindo-se observado, escalou a varanda e Índice chamou pela boneca. No início, a estranha menina por detrás das cortinas recusou mostrar-se. Mas o rapaz fez de conta que se ia embora e ela, julgando que o Abusos sexuais, não! .................................................................... 1 O pequeno urso .......................................................................... 21 Pára! A mim, não! ...................................................................... 29 Laura e o rato Desgosto............................................................ 33 visitante se tinha afastado, abriu a janela, com os olhos cheios de inquietação. Embora muda, tentou mimar a sua história. O rapaz não compreendeu tudo, mas adivinhou o seu sofrimento e compreendeu o seu pedido mais insistente: a boneca queria uma boca. Como iria ele encontrar tal coisa? Felizmente que a mãe do rapaz era uma fada. Juntos, O grande segredo de Clarisse................................................... 37 Nunca acompanhes um desconhecido! ................................... 43 Correr e contar .......................................................................... 47 percorreram os jardins ainda adormecidos pelo Inverno, e descobriram, no cantinho de um muro, duas violetas ainda mal entreabertas. O menino colheu-as com delicadeza e a mãe colocou os dois A história do senhor demasiado gentil..................................... 51 botões na pele branca da boneca, um por cima do outro. A boneca A menina por detrás da janela ................................................. 55 abriu logo os lábios azulados e gaguejou, numa vozinha trémula: Tenho medo daquele homem ................................................... 61 — Por favor, as minhas pernas são de algodão e são tão frágeis que gostaria de ter umas bem mais fortes para correr! Não, não vou! .............................................................................. 81 A menina que deixou de sorrir ................................................. 87 O falso tio.................................................................................... 91 Tens um segredo?..................................................................... 103 No meu corpo não se toca! ...................................................... 107 Com um ramo de bétula, mãe e filho fizeram-lhe um par de pernas novas. Fininhas mas sólidas. A boneca brincou o dia todo com o amigo. Quando anoiteceu, este regressou a casa. A boneca não conseguia decidir se voltava ou não para casa do Rei. A verdade é que não queria mais lá voltar. Nesse dia, como de costume, o Rei regressou a casa ao fim da tarde e procurou a boneca por todo o lado. Enquanto a procurava, a sua sombra enorme ia deixando, nas cortinas, reflexos de garras assustadores… 57 Escondida atrás de uma sebe, a boneca tremia. O desespero roía-lhe o coração, mas o medo impedia-a de empurrar a porta e de ter de aguentar as mãos do Rei no seu corpo, os seus beijos e as suas censuras. Cheia de frio e sem saber para onde ir, aninhou-se contra a casca mirrada e grosseira de um velho carvalho. Tentou dormir, semi-coberta por um tapete de folhas mortas. Decerto iria morrer ali. O vento lançava os seus dedos gélidos sobre ela e entrava-lhe na pele como se fossem agulhas de neve, que a matariam antes do dia raiar. De repente, uma mão acariciou-lhe o rosto. Alguém a levantou e a boneca sentiu-se voar numa nuvem. Começou a cair docemente e aterrou num oceano de plumas, numa cama, debaixo de um edredão maravilhosamente quente, que cheirava a lírios e a lavanda. Acordou de manhã, com a mão quente e suave da fada a afagar-lhe os cabelos, e deixou-se ficar em casa dela. Mal o céu se tingiu de negro e as estrelas começaram a cintilar, a fada aguardou o regresso do Rei. 58 Quando este chegou a casa, sentou-se num banco do fundo do jardim, onde permaneceu horas a fio, petrificado e soterrado por um manto de gelo. A fada tentou ir ao seu encontro. O Rei, porém, fugiu, escondendo a cara. Foi então que ela viu que também ele não tinha boca. No dia seguinte, quando o Rei se sentou de novo no banco, a boneca dirigiu-se lentamente para ele. Ouvia o seu coração a bater com força e a voz da fada que a encorajava. Com o corpinho a tremer, estendeu ao homem dois botões de Abusos sexuais, não! flores: um de hipericão e outro de ipomeia. Depois, cheia de medo, correu a refugiar-se atrás de um maciço de peónias. O Rei, surpreendido, deixou que a fada colocasse as pétalas no Este pequeno guia ensinar-te-á a defenderes-te de certas lugar da sua boca ausente. Fez-se um grande silêncio e, depois, pessoas perigosas para as crianças. Fazem-se muito amáveis, mas são ouviu-se um suspiro de vento como os que anunciam a chuva. criminosas. E criminoso é não só aquele que rouba, ameaça com uma O Rei começara a sussurrar e a contar a sua história. Falou arma ou mata. Criminoso também pode ser um adulto que não se durante toda a noite. comporta com as crianças como deve ser. Pode pedir-lhes para fazer A fada escutou-o, as árvores escutaram-no, os rouxinóis coisas que as magoem. São actos muito graves. São penalizados por mantiveram-se em silêncio. E nem as corujas caçaram nessa noite. lei e quem se comporta assim vai para a cadeia. Ao nascer do dia, o Rei calou-se. Uma lágrima deslizou-lhe pela face; a fada recolheu-a com a Vais conhecer cinco histórias. Contam como cinco meninos, ponta do dedo e deixou-a cair sobre a boneca adormecida. Lulu, Tim, Luísa, Félix e Ana, foram importunados e assediados por rapazes mais velhos e por adultos. São histórias que podem mesmo Esta transformou-se imediatamente numa menina. Começou a acontecer! Lê-as com atenção. Em cada página vais encontrar tocar nos braços rosados e nas pernas, sem acreditar que os tinha de conselhos para reagires de uma forma conveniente e soluções para te verdade. Depois levantou-se e pôs-se a dançar! defenderes e aprenderes a dizer, simplesmente, NÃO! 1 59 A Lulu tem um vizinho muito estranho Ufa! Tenho que vender uma caderneta inteira de rifas. Bem, vou dar uma volta pelo quarteirão. Bom dia! O senhor quer comprar uma rifa para a minha escola? Bela ideia, pequena! Vou buscar dinheiro. Mas entra um pouco para não ficares ao frio. Sem fazer barulho, o sol limpou as nuvens e enrolou-as num cantinho do horizonte. Esticou um raio todo emaranhado e fez cócegas nos narizes dos que ainda dormiam. O Rei foi castigado. Perdeu o reino e a coroa. Teve de partir para as paragens desoladas do Grande Norte a fim de conseguir obter um Perdão. Muito obrigada, mas prefiro ficar cá fora. Antes de partir, o Rei, que se tinha transformado num homem como os outros, beijou uma senhora na soleira da porta de casa. A menina achou que a senhora era a fada, mas o amiguinho chamou-a para brincar e ela correu para ele. Joly Guth La petite fille derrière la fenêtre Draguignan, Lo Païs d’Enfance, 2002 (Tradução e adaptação) 60 2 Vamos, não sejas tímida. Além do mais, a minha mulher fez um bolo. São 2 euros cada rifa e 20 euros a caderneta. Fica à vontade. Olha, aqui tens 50 euros. Bem compro-te a caderneta toda. Fica com o resto para ti. Come um pouco de bolo. Mas eu tenho pressa... Sou fotógrafo, sabes? Adoro tirar fotografias a crianças. Tenho Ora vê… de ir embora. Tenho medo daquele homem Prefácio Penso que todos sentimos “grandes medos” na nossa infância, provocados por adultos cujo comportamento era “diferente”. A maioria das És muito bonita. Tenho de tirar-te umas fotografias. Não, deixe-me. Agora não posso. vezes, escondíamos esses medos no mais profundo de nós mesmos, sem Não gostas das minhas carícias? As meninas da tua idade adoram-nas… Vá lá… uma fotografia! sequer ousarmos falar deles, com receio de que troçassem de nós, de que não nos compreendessem, de que nos dissessem: “Pára de inventar histórias!” Ainda bem que começámos, finalmente, a falar. Tenho medo daquele homem é um livro importante para as crianças, porque mostra que podem confiar nos adultos, que estes compreendem os seus medos e as apoiam. O intuito desta obra é, pois, ajudar as crianças a exprimirem os seus medos e as suas angústias, e ensinar os adultos a responder às questões mais delicadas. Este diálogo entre pais e filhos sobre assuntos “incómodos” é essencial para a educação e desenvolvimento das nossas crianças. Nathalie Baye Sofia vem sozinha da escola Sofia tem oito anos. É uma menina muito alegre, que gosta de se divertir com as amigas e de trocar mimos com os pais. Como todas 3 61 as crianças da sua idade, anda na escola. Este ano, começou a vir Há várias formas de reagir quando és incomodado sozinha para casa, às quatro e meia da tarde. Há já algum tempo que como a Lulu… queria fazê-lo, mas só agora é que os pais concordaram. Sofia sentese orgulhosa de poder fazer o mesmo que os mais velhos! Sobretudo porque não corre riscos, já que fez este trajecto pelo menos umas trezentas vezes: ora com a mãe, ora com o pai, ora com Está bem, mas só uma! a irmã mais velha. Sabe que ruas deve atravessar e que deve andar 1. Ao deixar-se levar para casa do fotógrafo, Lulu corre um longe da berma do passeio. Assim, pode ficar a falar com as amigas à risco grave. Ele pode obrigá- saída das aulas, antes de ir cada uma para sua casa. Também pode -la a fazer mais coisas…. A ajudar pessoas que estejam perdidas. despir-se, por exemplo. Isso é muito perigoso. — Sabes onde há uma farmácia? — Não, só conheço padarias. E pode ajudar idosos a transportar sacos pesados. 2. Lulu não se atreve a — Que menina amorosa! dizer-lhe expressamente Quando chega a casa, fica sempre contente por ter algum que não, com receio de tempo para si. Conta o que aconteceu ao pai ou à mãe, quando estes ser mal-educada. Isto estão em casa, ou fala com a irmã mais velha. Se não estiver também é perigoso. Pode voltar a encontrar ninguém em casa, sabe que deve telefonar à mãe. esse senhor mais tarde e — Sou eu, já cheguei. O dia correu bem. Vens tarde, mãe? ver-se obrigada a ir de — Não te aflijas, chegamos para jantar. novo a casa dele! Sofia não se aflige, pelo menos não tanto quanto a mãe, que quer sempre saber se ela chegou bem. Mas a verdade é que Sofia não gosta de estar sozinha em casa. Um dia, telefonou mais tarde, porque tinha ido acompanhar a amiga Maria a casa desta, e toda a família 62 4 Voltarei, prometo! Pode ser na próxima quarta-feira! ficou preocupada. A mãe telefonou ao pai, que telefonou aos avós, e o Deixe-me em paz! telefone não parava de tocar! Ei! Espera! 3. Lulu corre um grande risco ao ir a casa de um desconhecido sem que os pais saibam onde ela está! Por isso faz bem em fugir. Apercebe-se a tempo de que o comportamento daquele — O que aconteceu? Perdeste-te? homem não é normal. A melhor atitude é ir-se logo embora e — Não, fui só acompanhar a Maria. Não é grave. contar tudo! — É, pois. Estávamos preocupados. As ruas não são seguras! Sofia não percebeu o porquê da reacção da família. Se estava Se te encontras na mesma situação de Lulu… com a Maria, não havia razão para se preocuparem. Nem todos os adultos são mal intencionados para com as — A Maria mora a uns minutos daqui. Nem sequer tenho de crianças, mesmo até quando lhes pedem que façam coisas que não atravessar ruas. Já sou grande! são do seu agrado: colocar embrulhos no autocarro ou ceder o lugar a alguém. Mas, como no caso de Lulu, se encontrares um adulto que te — De acordo, mas tens de nos avisar. convida a ir a sua casa para te tirar fotografias, por exemplo, repara Desde esse episódio que Sofia nunca mais se esquece de que isso não é normal! Se se tratasse de um verdadeiro fotógrafo, telefonar logo que chega a casa, para não afligir a família. pediria primeiro licença aos teus pais. Conta o que te sucedeu a alguém da tua confiança: aos pais, Parece que anda por aí um homem estranho avós, amigos ou à tua professora… Eles podem proteger-te! Há já alguns dias que Sofia e as amigas ouvem falar de um incidente estranho. Os alunos mais velhos falam de um homem que 5 63 anda sozinho pela rua e que mostra o “pirilau” a todos os transeuntes. “É horrível”, comentam. Ninguém da escola o viu, mas sabem que usa O primo do Tim importuna-o um grande chapéu e que veste um impermeável cinzento, como nos filmes policiais. Olá, sobrinho! “E se fosse tudo uma invenção?” pergunta-se Sofia, que sabe que, às vezes, as pessoas contam coisas que não são verdadeiras, só Alex! Olá, pequenotes! Que bom voltar a ver-vos! Com estás crescido, Tim! Já tenho 9 anos! para se sentirem importantes. No ano anterior, uma menina tinha contado que se cruzara com um ursinho castanho nas escadas do prédio onde morava, e que o tinha adoptado. Mas não deixava que ninguém o visse, sob pretexto de que o animal era muito selvagem. Com efeito, nunca ninguém o viu e, quando agora lhe falam dele, ela diz que o mandou de volta para a selva… Que mão estupenda! Sofia e as amigas acreditam que o ursinho possa ter existido, mas acham menos provável que o “homem” exista. Ninguém anda A que jogam? À bisca! Não é para bebés! assim vestido na rua, e muito menos um adulto. Em casa, os pais de Sofia têm cuidado para não andarem nus diante das filhas. Quando tomam um duche, fecham sempre a porta da casa de banho. E, quando se vestem, fazem-no sempre no quarto. Quando era pequenina, Sofia tomava banho com eles, sem problemas. Só que agora é diferente: ela própria não gosta que a vejam nua: tem pudor. Ter pudor é querer guardar as coisas para si, porque sentimos que os outros podem sentir-se incomodados. Sofia sabe que pudor é parecido com delicadeza, mas que está relacionado 64 6 Uns dias mais tarde… Oops! Desculpa, pensava que a casa de banho estava l livre. Entra, não incomodas. Eu saio já. com assuntos mais sérios. Por isso, compreende que não se mostra o “pirilau” às pessoas. Depois de terem falado entre elas sobre o assunto, Sofia e as amigas decidiram que se tratava de uma invenção. Esta resolução tranquilizou-as. A verdade é que sentiam medo. Como o Natal estava à porta, não faltavam tópicos de conversa: ideias sobre presentes, a Ei! Estou nu! Não te preocupes, é que me esqueci do meu pente. decoração da casa, esperar pelo Pai Natal… Uau, és um miúdo muito giro. Eh… Ainda não acabei o banho. Ao querer salvar um gato Com o decorrer das semanas, Sofia foi-se sentindo mais à vontade na rua. Às vezes, fazia um desvio pela tabacaria para comprar cromos ou ia até à loja de bombons. Um dia, quando já estava escuro, porque em Dezembro os dias são mais curtos, Sofia sentiu muito medo. Sentiu o coração a bater muito depressa e as pernas a ficarem sem força. Tinha acabado de deixar as amigas e tinha apressado o passo, porque estava muito Olha, conheço umas carícias que vais adorar… Vá, não sejas tímido! Mas antes dá-me a toalha. frio. Mesmo antes de chegar a casa, viu um gatinho que parecia ferido. É claro que a menina quis recolhê-lo, para poder tratar dele: todos os animais eram seus protegidos. Baixou-se e levantou os olhos, para ver se o gato tinha 65 7 Há várias maneiras de reagir quando alguém te incomodar caído de alguma varanda. Foi então que viu o homem a mostrar o como a Tim… “pirilau”. Sofia não percebeu logo o que estava a passar-se. Começou a tremer de medo e desatou a correr em direcção a casa. 1. Tim tem vergonha e medo. Como é possível que um primo tão Felizmente, nesse dia, o pai não tinha ido trabalhar. Estava à simpático se porte assim? Sente-se tão incomodado que não espera dela para irem fazer as compras de Natal. Quando o pai abriu reage. Assim sendo, o primo pode conseguir fazer dele o que a porta, deu-se logo conta de que algo se passava. Como Sofia não quiser…. conseguia falar, o pai pegou nela ao colo, para a acalmar. Sossegada 2. No início, Tim não se atreve a falar do caso. Só que, ao guardar segredo, está a proteger o primo, que pode voltar a importuná-lo noutra ocasião ou fazer o mesmo a outros. pelos braços e pelo cheiro característico do pai, Sofia desatou a chorar convulsivamente, durante uns bons minutos, e fechou os olhos para não ver a imagem do homem. 3. Tim sabe que o seu pai não anda longe. Pede-lhe ajuda e faz Quando abriu os olhos de novo, pensou logo no gatinho que muito bem: o papel dos pais é o de proteger os filhos. ficara lá fora. — Pai, esqueci-me do gatinho. Ele pode morrer. Se te encontras na mesma situação de Tim… — Que gato? Anda, vamos procurá-lo. Nem todos os adultos têm más intenções quando acariciam uma criança, sobretudo se forem da sua família. Na maioria das vezes — Eu não vou. é um gesto de ternura e de afecto. Um gesto de carinho. — Então vou eu. Mas, se um adulto ou um rapaz grande teu conhecido te vem — Não, não quero ficar sozinha. Tenho medo do homem. falar do teu corpo de forma incorrecta como sucedeu com o Tim, ou — Que homem? Conta-me lá. Não estou a perceber. fazer-te carícias que te incomodam, fala disso com alguém em quem Sofia tentou explicar ao pai, por palavras suas, o que se confies. E não hesites!! passou: as histórias que circulavam na escola, e nas quais não tinha acreditado, o gatinho ferido, e o homem do “pirilau” à mostra. O teu corpo pertence-te e tens o direito de dizer: Enquanto falava, voltou a sentir medo. “Não, não me toques!” — Sabes, pai, fui obrigada a vê-lo e agora já não posso fazer de Mesmo a quem amas e respeitas. conta que não o vi. 8 66 Palavras difíceis de compreender Um senhor persegue a Luísa Bom dia, Senhor Gomes. Desta vez devolvo-lho no prazo! Perfeito, Luísa. Gostaste do livro? Dá-me a tua mochila, pequena. Eu levo-a. Não é preciso, não pesa muito. A partir daquele dia, a vida de Sofia mudou. Em casa, todos perceberam que o assunto era sério. Explicaram-lhe que a culpa não Um pouco mais tarde… era dela e que o homem era um “exibicionista”. O pai foi à esquadra, Então, Luísa? Ainda estás aqui? Levo-te a casa. Tenho aqui o carro. contar o que se tinha passado e “apresentar queixa”. É muito amável, mas não é preciso! Patinas muito bem. Dá uma volta para eu ver. — Aquilo não deve voltar a acontecer, nem contigo nem com as outras crianças. Oh, ainda sou desajeitada a patinar. Sofia achava tudo um pouco confuso: — Diz-me, pai, porque será que aquilo mete tanto medo? Ele não me fez nada, mas sinto-me como se ele me tivesse feito mal! É muito complicado para uma menina compreender expressões como “agressão sexual” e palavras como “traumatismo” e “exibicionista”. E também é muito complicado para um adulto explicá-lo através de palavras simples e tranquilizadoras. É claro que Sofia não está sempre a pensar nisso. Mas já não vem sozinha da escola. 9 67 Tem medo e os pais não querem. Também não quer ficar sozinha quando escurece e, à noite, dorme com uma luz acesa. Confessa: Espera! Tenho no carro o capacete da minha filha que já não lhe serve. Sabes que é perigoso patinar sem capacete? — Dantes tinha medo de fantasmas e de dragões, embora soubesse que não existiam. Agora tenho medo de uma coisa que sei que existe. Na escola, todos falam do que se passou, embora Sofia não tenha querido contar nada. O pai e a mãe preveniram a professora e o Sim, mas o meu primo vai emprestar-me o dele! director, que reuniram todos os pais. — Temos de proteger as crianças e de velar pela sua segurança. O director decidiu que em todas as turmas se falaria do assunto. O episódio atingiu proporções tais que Sofia se sente Anda, vamos ao meu carro que está ali no parque. simultaneamente aliviada e incomodada. Aliviada, porque pensa que já não corre riscos: o homem não Deixe-me, tenho de ir para casa. deve voltar a aparecer, porque há muita vigilância policial. Sabe que cometeu um erro e que, se voltar a fazer o mesmo, será punido. Incomodada, porque queria esquecer o que se passou e que não se falasse mais daquilo. Talvez tudo pudesse voltar a ser como dantes e ela pudesse ocupar-se dos animais, do Pai Natal, e dos ditados que detesta. Porém, os pais dizem-lhe que é preciso falar do assunto e que não há que ter vergonha… 68 10 Sê simpática que eu levo-te a casa! Uma aula diferente das outras Há várias formas de reagir quando alguém te incomoda como aconteceu com a Luísa… No último dia de aulas antes das férias de Natal, Sofia foi para a escola sem pasta, acompanhada pela mãe. No último dia, a professora 1. Luísa deixou-se convencer a subir para o carro do Sr. Gomes. costumava mostrar um vídeo, os alunos levavam jogos e organizava- Isto é muito perigoso, porque assim está à mercê dele... E, além -se um lanche. Este ano seria diferente. O director propôs que a disso, ninguém sabe onde ela está. 2. Completamente aturdida, Luísa consegue escapar. Mas, da próxima vez que for à biblioteca, o Sr. Gomes pode incomodá- manhã fosse consagrada à partilha de informações sobre “agressões sexuais”. — É indispensável que aprendam a defender-se de perigos -la de novo. 3. E assim Luísa reage muito bem: vai ter com um agente da polícia. Lembra-se que ele existe para fazer respeitar a lei e para proteger quem tem problemas. deste tipo. Para isso, terão de os conhecer — explica ele às crianças, um pouco desiludidas por não poderem ir logo brincar… Na turma de Sofia, a professora decidiu falar-lhes do corpo e inventou uma canção como aquela que os alunos aprendem no Se te encontras na mesma situação de Luísa… Canadá, país que a professora conhece bem, porque viveu lá dois Nem todos os adultos que se oferecem para ajudar uma criança lhe querem fazer mal. Quase sempre só querem dar um bom anos. Os alunos adoram as histórias que ela lhes conta sobre o Canadá. A professora escreveu no quadro: conselho ou ajudá-la, porque normalmente um adulto sabe mais que uma criança. Mas se, como aconteceu com a Luísa, um adulto quiser O meu corpo é meu, que entres no seu carro e insiste, desconfia disso. Ninguém te deve Não teu. Que, dos pés à cabeça, obrigar a ir com ele, mesmo que te peça com um grande sorriso. Respeito te mereça. Cantou Nos lugares frequentados por ti (escola, piscina, parque infantil, sozinha a primeira vez e depois os alunos ginásio, etc.), se vês que alguém tem um comportamento acompanharam-na. A letra era fácil de decorar e a melodia era alegre. estranho, afasta-te dele e di-lo a alguém de confiança! Em seguida, a professora explicou que cada um é dono do seu corpo, que este é precioso e único, que é necessário dar-lhe atenção e 11 69 respeitá-lo. É por isso que devemos lavá-lo, calçar-nos bem quando Félix é molestado pelo seu monitor está frio, não andar com sapatos apertados… Ai! Artur, podes ajudar-me? — Temos de cuidar bem dele, quando é saudável e quando está Com certeza, pequeno! doente. Depois, explica o que significa o respeito por si mesmo e pelo outro. — Vocês estão a respeitar os adultos quando evitam dar-lhes encontrões, pisá-los, insultá-los. Não os enchem de sumo de tomate, mesmo quando estão zangados com eles, pois não? Os adultos também vos devem respeitar. Normalmente, estão atentos às vossas necessidades e certificam-se de que vocês estão em segurança, para que, um dia, vocês sejam adultos respeitadores das crianças. Todos os seres vivos têm direito ao respeito e todos os seres humanos Espera, vou ajustar-te o capacete. devem aprender a dizer não aos maus-tratos e a protegerem-se. Depois de todos os alunos terem compreendido bem a canção e a noção de respeito, a professora fala das agressões sexuais dos adultos sobre as crianças. Quem são os bons e quem são os maus? É obvio que a professora começou por falar do que aconteceu com Sofia, que foi obrigada a ver o sexo do homem que lhe apareceu na rua. 70 12 Já está, fofinho! Mas… porque é que ele me dá tantas voltas? — Este homem agrediu a Sofia, porque lhe impôs um Ei, Félix! És o menino querido do professor! comportamento sexual desrespeitoso. Bem, agora cada um vai escovar o seu pónei! Não troces! Félix, vem cá. Sofia confirmou: — É verdade, eu não queria ver, mas não tive alternativa. ? A professora tranquilizou-a, dizendo-lhe que reagiu bem ao fugir e ao contar tudo aos pais. Prosseguiu, explicando que certos adultos, atingidos por uma doença que não se vê, não têm uma sexualidade normal, ou seja, não se relacionam sexualmente com outros adultos. Disse aos alunos: — Essas pessoas consideram que as crianças são objectos e utilizam-nas. — Mas, se não podemos ver a sua doença, como sabemos que Anda, a box do Trovão é aqui. Tens a certeza? Dá-me um beijinho e deixo-te Não gosto ir de embora. beijos… estão doentes? — perguntou um colega de Sofia. — Esse é que é o problema — respondeu a professora. — Há adultos que são perigosos para as crianças, mas não nos é possível reconhecê-los. — Mas — continuou uma aluna — de qualquer forma, são sempre pessoas que não conhecemos. A minha mãe disse-me para não falar com desconhecidos nem aceitar bombons na rua. — Não é bem assim — contrapôs a professora. — Algumas crianças são vítimas de agressões sexuais físicas e o autor é um homem que elas conhecem, melhor ou pior, e do qual não desconfiam. Pode ser um vizinho, um amigo dos pais. As crianças ficaram muito agitadas. Perguntaram: 13 71 — Então, isso quer dizer que devemos ter medo de toda a Há várias formas de reagir quando alguém te incomoda gente, que todos os adultos podem ser maus? como no caso de Félix … A professora explicou que não se pode viver a desconfiar de toda a gente. Há, contudo, algumas regras que devemos seguir, para 1. Félix, ao encontrar-se com a mãe, não lhe contou nada do que nossa própria segurança. aconteceu. É uma asneira! Como é que a mãe pode adivinhar que o monitor o anda a apalpar? — Quando vos propõem uma saída, seja por cinco minutos seja por uma tarde, ou vocês sentem vontade de dizer que sim ou sentem 2. Félix empurra o monitor, o Artur, com força. É um pouco necessidade de recusar. Se quiserem dizer que sim, perguntem-se arriscado, porque o monitor é mais forte do que ele e pode reagir com violência. Mas é essencial!! duas coisas: “Será que o meu pai ou a minha mãe sabem onde vou?” 3. Félix sai a correr. Vai ter com a mãe, conta-lhe tudo o que se e “Se houver perigo, será que alguém me virá ajudar?” Se passou e vão ambos ter com o director do clube de equitação responderem “não” a uma destas perguntas, devem dizer, sem se expor-lhe o problema. É a melhor maneira de actuar. Isto vai sentirem embaraçados: “Gostava bastante de ir mas, primeiro, tenho fazer com que o Artur não incomode outras crianças! de prevenir o meu pai ou a minha mãe.” Se, apesar de todas estas precauções, não se sentirem seguros, não hesitem em telefonar. Se te encontras na mesma situação de Félix…. Quando a profissão de um adulto é ensinar, deve transmitir-te o saber. Pode dar conselhos e corrigir-te se te enganares. Mas mais João está confuso Naquele dia, Sofia e os amigos aprenderam muitas coisas que os entristeceram, mesmo que a professora tenha tentado tranquilizá- nada. Ora se, como no caso de Félix, um professor ou monitor usa a sua profissão para te atacar e pedir-te coisas que não tem o direito de pedir, isso é muito grave! -los, dizendo-lhes o que fazer em determinadas circunstâncias. Deves falar imediatamente com os teus pais ou com alguém da Felizmente que, dentro de três dias, é Natal, e que a maioria deles se apressa a esquecer tudo e a pensar só nas surpresas que vão tua confiança. Juntos devem ir ter com o director do colégio ou do centro desportivo. encontrar debaixo do pinheiro e nas luzinhas que brilham… E depois podem fazer uma denúncia na polícia. 72 14 Todos esquecem, menos João. Todas as noites, antes de Ana tem um padrasto muito estranho adormecer, pensa em tudo o que ouviu: “Isto tanto diz respeito às raparigas, como aos rapazes, mesmo que o malfeitor seja um Marc, podes levar a Ana à aula de dança? Hoje chego tarde. Sim, sem problemas. O cabelo assim fica-te bem. Achas? homem.” “Podemos ser agredidos por alguém que conhecemos bem e de quem não desconfiamos.” Eu não gosto muito. João costuma sair todos os domingos à tarde com o seu tio És igualzinha à tua mãe, uma verdadeira mulherPorque é zinha que ele me diz isso? À noite… Tiago, porque os pais trabalham ao domingo. O tio não tem filhos e A tua mãe ainda vai demorar, foi aos anos de uma amiga… Bem vou para a cama. Até amanhã. sempre se ocupou de João, que não tem irmãos nem irmãs. Quando João era pequeno, o tio levava-o ao circo e a andar de bicicleta. Agora, vão muitas vezes ao cinema. Uma vez, o tio levou-o ao teatro e João passou uma tarde memorável. Estava em cena uma peça de Molière e os actores vestiam roupas da época. Havia muitas luzes e uma cortina vermelha e enorme. No fim, todos aplaudiram de pé. O tio prometeu voltar a levá-lo, e João espera por esse dia com impaciência. Mas então, porque se sente ele tão inquieto, quando não se colocava nenhumas questões antes da famosa aula sobre o corpo e 15 73 o respeito? João pergunta-se se deve, ou não, desconfiar do tio, que sempre foi muito gentil com ele. Na rua, costuma pôr o braço nos ombros do sobrinho e, às Anda ao meu colo para dar-te um beijinho. vezes, dá-lhe um beijo, sem justificação. Será que isso faz parte das “agressões sexuais” de que falou a professora? Será que o tio tem Já não tenho dois anos. Mas que bicho lhe mordeu? O Marc hoje anda estranhíssimo. ideias estranhas? Será que tem aquela doença que não se vê? João já não consegue compreender nada e, nos domingos seguintes, sente-se mal, mas não ousa dizer nada. Pensa e repensa tudo o que ouviu, mas não consegue obter respostas. Depois do que ouviu, tem a sensação de estar a misturar tudo: o sonho e a realidade, os adultos e as crianças, os bons e os maus, o que faz bem e o que faz mal… Vens um bocadinho até à minha cama? Sozinho tenho Estou frio. a dormir… Ficar doente não é solução A partir de então, João, que não consegue falar do que o aflige, fica sempre doente aos domingos. Sabe que, quando está doente, a mãe fica em casa. No primeiro domingo, tem uma crise de fígado. Todos pensam que comeu chocolates a mais no Natal e que um dia em casa o porá bom. No segundo domingo, tem dores de ouvidos. Chamam o médico, que confirma que João tem uma otite e receita-lhe um antibiótico. O tio Tiago vem vê-lo, muito aborrecido. — Que maçada! Ficas sempre doente aos domingos. 74 16 Rápido! Espero-te para vermos um DVD! — É menos aborrecido do que faltar às aulas — contrapõe a Há várias formas de reagir quando te importunam como à mãe de João. Ana… No terceiro domingo, a otite, que ficara curada durante a semana, reaparece. O médico está surpreendido. 1. Ana tem medo de desobedecer ao padrasto. Mas não se sente bem com o convite de Marc. É perigoso. Marc pode esquecer- — É estranho. A acção dos antibióticos costuma durar mais tempo. -se de que ela é uma criança e julgar que é uma mulher. Decide prevenir João: 2. Ana protege-se fechando-se no seu quarto. Mas isso não basta. — Se voltares a ter dores de ouvidos, teremos de fazer umas Da próxima vez o padrasto pode ser mais insistente. 3. Então Ana ganha coragem e conta à mãe o que acontece. E fala radiografias no hospital, para ver se tens alguma coisa mais grave. João pergunta-se se uma radiografia aos ouvidos mostrará o também com o pai. É a eles que compete defendê-la e protegêque -la. É o que os pais devem fazer. lhe vai na cabeça. “Talvez eles possam ver os meus pensamentos”, aflige-se. João não quer que lhe vejam os pensamentos. Quer guardá-los Se te encontras na mesma situação que a Ana… Normalmente um padrasto não se comporta assim com os filhos da sua mulher. É pouco frequente. Os pais, padrastos e madrastas devem respeitar os seus filhos ou enteados. para si, porque gosta do tio Tiago, apesar de ter ouvido palavras que o incomodaram. No quarto domingo, dói-lhe a barriga, mas não diz nada. Se te encontras na mesma situação da Ana, deves falar imediatamente com o teu pai e a mãe. Se não acreditarem em ti – o que pode acontecer –, vai ter com algum dos teus avós ou a tua professora e conta-lhe tudo. Ou com uma pessoa em quem confies!! Quando o tio chega e diz que vão ao teatro festejar a cura, João tenta mostrar boa cara. — Vais ver que vais gostar — anima-o o tio. — É um espectáculo com música, canções e muitas peripécias. No táxi que os leva ao teatro, João evita sentar-se perto do tio, ao invés do que fazia dantes. Quando um membro da tua família (um padrasto, até um pai/mãe — Mas, o que se passa contigo? Parece que tens medo de mim ou irmão…) quer tocar-te, ficas a saber que tal não deve ser permitido! Chama-se a isso “incesto”, e é penalizado por lei. — comenta Tiago, inquieto por ver o sobrinho triste e preocupado. 17 75 Então, João dá-se conta que tem medo da sua própria imaginação e decide falar com o tio, no qual, no fundo, confia. Uma conversa ao lanche Breve Glossário Assédio: É o facto de molestar frequentemente a mesma pessoa com palavras ou acções. Depois da peça de teatro, da qual João gostou muito, vão lanchar a casa. Como de costume, o tio parou numa padaria para Agressão: Ataque violento a alguém. Impulso: Desejo muito profundo que se sente no interior e que nem escolher dois bolos grandes: um merengue para si e um mil folhas para o sobrinho. Instalam-se na cozinha e bebem chocolate quente. sempre se consegue controlar. Incesto: Esta palavra designa as relações sexuais entre membros da — O que se passa, João? Nem pareces tu. Há já um mês que mesma família. É proibido por lei. estás doente e não creio que as otites expliquem tudo. Lei: É uma norma obrigatória que diz o que temos direito de fazer e — Como é que sabes? — pergunta João. o que está proibido. Há muitas leis destinadas a proteger as — Porque eu próprio, quando tenho algo que me preocupa, fico crianças. O Estado é quem as promulga. Quem as não respeitar, cansado e mais vulnerável. E isso faz-me ficar doente com mais frequência. corre o risco de ser castigado. Menor: Tu és um menor, sabias? Um menor é uma criança com João tenta então dizer ao tio que há adultos que não respeitam menos de 18 anos. Estás sob a responsabilidade dos teus pais, que as crianças e que, quando crianças de oito anos percebem isso, tudo se torna muito complicado. tomam as decisões importantes da tua vida. Pedofilia: Chamamos «pedofilia» a qualquer atracção sexual de um — Vocês, os adultos, nem sequer se dão conta — queixa-se o adulto por crianças. Os actos de pedofilia são proibidos e menino. — Ficamos muito inquietos com isso, porque depois achamos que toda a gente é má e temos muito medo porque somos pequenos. castigados por lei. Polícia: É um serviço estatal encarregado de proteger as pessoas e de — No entanto, com todos os desenhos animados horríveis que fazer respeitar a lei. Os seus membros, os polícias, protegem as vocês vêem na televisão, já deviam estar habituados! — contesta o vítimas e podem prender e meter na cadeia quem se porta mal. tio. 76 18 Toques: Emprega-se este termo para designar mimos ou carícias nas partes íntimas do corpo. — Não é a mesma coisa. Nós sabemos que um filme ou um desenho Violar: É obrigar alguém a ter relações sexuais usando a força, a animado não são verdadeiros. Por isso os vemos tranquilamente. violência ou a sedução e as promessas. A violação é crime e, como O tio Tiago tenta compreender o que tem o sobrinho. tal, penalizada pela lei. — Achas que não te trato bem? Que te quero mal? — Não, não, claro que és muito gentil comigo. Mas… às vezes… não sei. A professora contou-nos que mesmo os rapazinhos podem Delphine Saulière Abusos sexuales, ¡no! Madrid, San Pablo, 2005 (Tradução e adaptação) ser… seguidos por homens que fazem coisas estranhas com o “pirilau”. E também disse “O meu corpo é meu, não é teu!” — acrescenta João, corando. Aos poucos, o enigma vai-se esclarecendo. João explica ao tio o que aconteceu com Sofia. Fala-lhe da aula sobre o corpo e o respeito, e fala-lhe dos seus medos. — Quando me pões a mão no ombro, eu acho que é normal mas, agora que me disseram aquilo tudo, já não sei bem se é normal. — Escuta, João. As manifestações de ternura entre um adulto e uma criança são naturais, na maior parte dos casos. Penso que o sabes bem. Mas, se algum dia te sentires pouco à vontade com alguém, um parente ou um amigo, o melhor é falares disso, como fizeste agora. João fica muito aliviado por ter tido esta conversa. 19 77 João e Sofia perceberam tudo muito bem Passaram-se vários meses desde “o episódio do homem”. É assim que as crianças se referem ao sucedido. Nunca mais voltaram a ver o homem e a vida retomou o seu curso normal. Os miúdos dividem-se entre a escola e o parque. Quando está bom tempo, andam de bicicleta, jogam às escondidas ou à macaca. João continua a adorar passar os domingos de tarde com o tio e Sofia vai novamente sozinha para a escola. De vez em quando, ainda sente um pouco de medo, mas lembra-se da canção da professora e sente-se logo melhor. Para ter a certeza de que não esquece o refrão, às vezes trauteia-o. Quando não lhe apetece tomar banho ou quando quer muito vestir uma determinada roupa, canta “O meu corpo é meu, não é teu.” É uma forma de aplicar os conselhos da professora. Um dia, no fim do ano escolar, um jornalista veio à escola para entrevistar os alunos. Recentemente, tinha acontecido algo de semelhante e todos falavam disso: na televisão, na rádio e nos jornais. Ninguém sabia como o jornalista tinha tido conhecimento do “episódio do homem”, mas ele parecia estar ao corrente de tudo e foi logo à sala da turma de Sofia. — Podes contar-nos a tua aventura e o que aconteceu depois? — perguntou o jornalista a Sofia. Esta, muito envergonhada, olhou para a professora, que disse: 78 — Sofia, esta pode ser uma altura para as crianças dizerem não aos adultos, quando se trata de coisa verdadeiramente importantes. Encorajada por estas palavras, Sofia respondeu: — Não, não quero contar. O jornalista, um pouco desconcertado, insistiu: — Mas então, ninguém quer falar? — Eu tenho algo a dizer — lançou João. — É bom que sejamos informados para nos podermos defender. Mas, aos oito anos, ainda não somos adultos. Precisamos de sonhar, precisamos de acreditar que os adultos são gentis e felizes. Se soubermos coisas demais, não O pequeno urso vamos querer crescer e isso é triste. Tranquilizem-nos. Tenham atenção ao que mostram na televisão, ao que nos contam, às palavras Este é o pequeno Urso. É um ursinho pequeno e querido. Tem pêlo maravilhoso, fofinho, e umas patas macias de veludo. O pequeno Urso gosta muito de brincar com os seus brinquedos. que ouvimos. Toda a turma aplaudiu João, incluindo a professora e o jornalista, comovidos com tamanha sinceridade. E, para que o jornalista não fosse embora de mãos a abanar, adivinha o que lhe cantaram todos… Virginie Dumont J’ai peur du monsieur Arles, Actes Sud Junior, 1997 (Tradução e adaptação) 21 79 O pequeno Urso também gosta de brincar com o seu amigo, o lobo grande. O lobo grande gosta muito do Pequeno Urso. Tanto, que até se agarra a ele. Dá beijinhos ao Pequeno Urso e acaricia-lhe o pêlo macio. O lobo grande lambe o pequeno Urso. Faz-lhe cócegas e o pequeno Urso ri-se. 22 O lobo grande deixa o pequeno Urso cavalgar nas suas costas. É muito divertido e o pequeno Urso acha muita graça. Não, não vou! Lia acha que aquela manhã não está a começar nada bem. Às vezes, o lobo grande quer fazer jogos esquisitos. Quer que o pequeno Urso lhe dê um beijo no nariz grande e húmido. Tim, o irmão mais velho, puxa-lhe os cabelos… só na brincadeira. E Lia não suporta isso. — Deixa-me! — grita. E ele puxa com mais força. Lia zanga-se e morde-lhe a mão. — Mãããe! — grita Tim. Então a mãe zanga-se com Lia! — Gostas mais do Tim do que de mim! — diz ela a chorar. No infantário também lhe sai tudo ao contrário. A educadora preferida de Lia está doente. E Ana, a melhor amiga de Lia, está muito esquisita. Quando Lia lhe pergunta: — Vamos saltar à corda? — ela limita-se a abanar a cabeça e começa a chorar. Mais tarde, fica com muitos pontinhos vermelhos na 23 81 pele. Por isso, a mãe vem logo buscá-la e Lia tem de saltar à corda E, por vezes, o lobo grande torna-se feroz. Rosna e mostra os dentes afiados. O pequeno Urso sente medo. sozinha. Só quando o infantário acaba é que Lia repara que não tem ninguém com quem ir para casa. De manhã, o pai trá-la a ela e à Ana, e a mãe de Ana vai à tarde buscar as duas. Às vezes também vai para casa com Maurício e a irmã mais velha deste, a Sofia. — Quem é que vem hoje buscar-me? — pergunta Lia a Helena, a outra educadora. Mas ela tem muito que fazer. — Já vou tratar disso! — responde. Lia espera, espera… Só Maurício, do grupo de Lia, é que ainda lá está. E, por fim, Sofia vem buscá-lo. — Sofia, leva a Lia contigo, por favor! — grita Helena. — O lobo grande deita o pequeno Urso à força no chão e estende-se por cima dele. O lobo é muito pesado. Ai, faz doer. O pequeno Urso quase não consegue respirar. Pára! grita o pequeno Urso. Não quero brincar a isto. Telefonei à mãe, que disse que a Lia hoje podia ir convosco. — Por causa dela, vou ter de fazer um desvio! — resmunga Sofia. Num cruzamento, Sofia diz a Lia: — Conheces o caminho para casa daqui em diante, não? É sempre em frente, já sabes. Lia acena que sim com a cabeça. Também não deve ser muito longe. De carro é muito rápido. “E já tenho quase seis anos”, pensa Lia, depois de Sofia e Maurício terem dobrado a esquina. “E, se calhar, a mãe vai depois comigo à piscina. O dia tem estado tão quente…” De repente, aparecem no céu umas nuvens grossas e escuras. E depois começa a trovejar. Não muito, mas o suficiente para Lia ficar 82 24 assustada. Detesta trovoadas quase tanto como detesta que lhe Chiu! O lobo grande põe a pata grande na boca do pequeno Urso. puxem os cabelos! O caminho é mais longo do que Lia pensava. E a rua estreita por onde segue parece não ter fim. A única distracção é um carro metalizado que segue ao lado dela e está sempre a parar. Talvez o homem esteja à procura do número de alguma porta. Está a trovejar cada vez mais e começou a chover. Lia não tem gabardine, por isso pára na entrada de uma casa. “Se a Sofia não me tivesse deixado sozinha…”, pensa. “Mas será mesmo este o caminho para casa?” De repente, Lia deixou de ter a certeza. E, nessa tarde, a rua também está um pouco sombria. Tão cinzenta e tão vazia! Não há ninguém. O pequeno Urso já não acha o lobo grande simpático. O lobo grande magoa-o. Mete-lhe medo. Já não é nada querido. O pequeno Urso já não quer que lhe faça festinhas. Já não quer aconchegar-se ao lobo grande nem brincar com ele. Mas a quem é que pode contar isto? Só o homem no carro metalizado. Parou agora quase ao lado da entrada onde ela está. A porta do condutor abre-se, o homem sai e vem direito a Lia com um guarda-chuva na mão. — Queres que te leve? — pergunta amavelmente. — Está a chover bastante. Lia diz que não com a cabeça. “Nunca vás com ninguém que não conheças”, o pai e a mãe estão sempre a dizer-lhe. Mas ela conhece o homem… De vista. Senta-se muitas vezes no banco do parque infantil. E, além disso, com os cabelos louros encaracolados, parece-se um pouco com o tio Floriano, o irmão do pai. Lia gosta muito do tio. Tem também um sorriso tão agradável como o deste homem. — Como é que te chamas? — pergunta o homem. — Lia — responde ela. 25 83 — E onde é que moras? — pergunta ele. Não podes dizer a ninguém que brincamos os dois diz o lobo grande é o nosso segredo. Percebeste? E mostra ao pequeno Urso os dentes pontiagudos e afiados. — Na Rua das Flores — responde Lia. — Também moro ali ao virar da rua — diz o homem sorrindo para Lia. — É tolice andares pela rua à chuva. — Eu não sou tola — diz Lia. — Por isso mesmo — responde o homem. Agora está a chover ainda mais e a ficar cada vez mais escuro. O homem é mesmo simpático. Muito mais simpático do que todos os que NÃO foram buscá-la. Lia acena afirmativamente com a cabeça. — Então vem para debaixo do meu guarda-chuva — diz o homem. Ao dirigirem-se para o carro, Lia vê, do outro lado da rua, uma papelaria. Ainda na semana passada a mãe foi lá às compras com ela. Dali até casa não é mesmo nada longe. O pequeno Urso está triste. Não quer revelar o segredo porque tem medo dos dentes afiados. Mas tem ainda mais medo que o lobo grande queira brincar com ele. O que pode fazer o pequeno Urso? Tem que encontrar alguém a quem possa contar o segredo! Por isso, assim que o homem abre a porta do carro, Lia diz depressa: 84 26 — Obrigada. Por acaso já estou mesmo a chegar a casa. E segue pelo passeio. O pequeno Urso conta aos outros ursos o que o lobo grande faz. Diz que o lobo o magoa. E que tem brincadeiras com ele que não são nada bonitas. Será que lhe acontece algo de mau? NÃO! Acontece uma coisa boa: o grande lobo é castigado. Já não pode fazer mal ao pequeno Urso. “Ainda bem que contei tudo”, pensa o pequeno Urso. Nesse momento, o homem agarra-lhe o braço com força. Tanta, que magoa Lia a sério. — Não, não, não! — grita Lia. — Largue-me! O homem agora já não parece ser nada simpático e puxa-lhe tanto pelo braço, que Lia tropeça e bate com a cabeça contra a porta do carro. AGORA JÁ NÃO TEM DE SENTIR MEDO! — Não! — grita Lia o mais alto que pode, e morde-lhe a mão com quanta força tem. A porta da papelaria abre-se e sai uma mulher. — O que é que se passa? — pergunta. — Não quero ir no carro dele! Ele magoou-me! — diz Lia aos soluços apontando para o homem, que entretanto se tinha metido no carro e desaparecera. — Conhecias o homem? — perguntou a senhora. Lia abanou a cabeça. — Nem por isso. Só o vi algumas vezes no parque infantil. — Ainda bem que gritaste alto — diz a senhora. — Também lhe mordi — diz Lia. — E até com muita força! Marie Wabbes Ich dachte, du bist mein Freund Kinder vor sexuellem missbrauch schützen Basel, Giessen, 1999 (Tradução e adaptação) — Não podias ter feito melhor! — diz a senhora, passando-lhe as mãos pelos cabelos. Por sorte, Lia tem o telefone de casa na pasta da escola. A mãe vem logo buscá-la. Quando sabe da história do homem de carro, fica branca como a cal. 27 85 À noite, Tim oferece a Lia o bonito urso de chocolate que guardou do aniversário. Quando Lia está deitada, o pai e a mãe sentam-se à sua beira. — A minha menina grande — diz a mãe, passando as mãos pelos cabelos de Lia — que já sabe defender-se tão bem. — Estou muito orgulhoso de ti! — diz o pai. — E se alguém voltar a falar contigo e te agarrar, tu foges depressa e gritas por socorro. Prometido? — Prometido! — murmura Lia, aconchegando-se com força nos braços da mãe. E adormece. Veronica Ferres Nein, mit Fremden geh ich nicht! München, cbj, 2007 (Tradução e adaptação) 86 Pára! A mim, não! A menina que deixou de sorrir Hoje vem um polícia ao infantário. Um polícia a sério. As crianças estão todas entusiasmadas. ChamoChamo-me Lisa. A minha melhor amiga é a Paulina. Ela sabe todos os meus segredos. Menos um. Um segredo horrível que não — E traz uma placa sinalizadora a sério? Uma daquelas com que se manda parar os carros? — pergunta Filipe. posso contar a ninguém. Divido este segredo com um adulto. Ele vê muitas vezes — E um apito? — pergunta Carolina. televisão comigo. Quer ser sempre ele a dardar-me banho. CompraCompra-me — De certeza que é forte — Jonas coloca-se em frente dos outros e faz-se de grande. Até abre os braços como se quisesse mandar parar os carros. bombons, brinquedos, e dádá-me dinheiro para eu ficar calada. Esse adulto não se cansa de repetir que, se a minha mãe souber do nosso segredo, vai deixar de gostar de mim e vai dizer que sou sou uma De repente, a porta abre-se e entra um homem alto, de calças de ganga e t-shirt. mentirosa e que depois eu vou para a cadeia. Por isso, não digo nada. Já quase não falo. Já não rio, já não — Chamo-me Soares — diz — e sou polícia. sorrio (deixei de rir, deixei de sorrir?). A minha mãe perguntapergunta-me As crianças rodeiam-no imediatamente e empurram-se, porque muitas vezes: – Está tudo bem, Lisa? todas querem ficar à frente. 29 87 Eu não respondo. Tenho medo que o meu horrível segredo saia da minha boca. Baixo a cabeça e aperto os dentes com força. O — Onde está o uniforme? — pergunta Carolina. — Os polícias têm de andar de uniforme! segredo invade o meu corpo todo. TapaTapa-me os ouvidos, já não oiço — Hoje não o trouxe, porque vinha visitar-vos aqui ao música. TurvaTurva-me os olhos, já não leio os meus livros. EncheEnche-me o infantário. E só uso uniforme quando estou de serviço — diz o Sr. coração, já não brinco a nada. Soares. Todas as noites tenho pesadelos horríveis e acordo a suar. Tenho vontade de me atirar para o passeio e de me partir como uma — Mas é mesmo um polícia a sério? — pergunta Filipe cautelosamente. boneca de porcelana. SintoSinto-me tão suja por dentro, que passo horas — Claro que sou um polícia a sério, mesmo sem uniforme — e horas debaixo do chuveiro. Queria mudar de pele como se muda de responde. — E como polícia, gostava hoje de treinar uma coisa roupa. Gostava de me tornar novamente bonita e limpa. Gostava de convosco. sorrir como antes… como antes… Curiosos, todos olham para o polícia. Os dias e as semanas passam. As minhas notas descem. E, — Já algum de vocês foi pisado, empurrado, ou levou um soco? para esquecer, corro. Corro no parque, no passeio, nos corredores da Todos levantam o braço. escola… Mas não posso fugir para lado nenhum. nenhum. O segredo agarraagarra- — Eu, eu, eu! — gritam as crianças, e todas querem contar -se a mim. Na escola, ouço a voz da professora Marta. qualquer coisa. O polícia acena com a cabeça e diz: E não consigo concentrarconcentrar-me. Num pedaço de papel, desenho uma menina a correr, perseguida por um homem grande. Numa outra — É sobre isso que vamos tratar hoje. Quando alguém vos faz folha, rabisco uma menina a gritar, mas não se ouve, não passa passa de uma coisa dessas, vos agarra ou se aproxima demasiado, vocês têm um desenho. A sineta toca para o recreio. Deixo tudo e fujo lá para fora. de dizer NÃO! e PÁRA! — explica o Sr. Soares. — E é isso mesmo que vamos treinar agora. Coloca-se à frente deles, respira fundo, olha de uma forma A Paulina joga à bola com alguns colegas. E eu sentosento-me na areia e garatujo uma menina… A professora Marta vem sentarsentar-se ao meu lado. 88 decidida, bate com o pé direito no chão, estica o braço como para fazer parar e diz: 30 — Pára! A mim não! – A menina do teu desenho está a fazer o quê, Lisa? As crianças olham-no, admiradas. – Ela… ela está a fugir… — Agora vamos treinar todos juntos! — diz o Sr. Soares. – Sabes a história dessa menina? – pergunta a professora Todas as crianças se colocam em posição, levantam a mão e Marta. – Sim… Ela acorda de noite com o ranger do soalho. dizem: Com um pontapé, apago a menina. Com a mão a tremer, — Pára! A mim não! — A partir de agora, vamos dizer isso em voz alta de cada vez desenho um homem grande. – E quem é este senhor? senhor? que alguém nos quiser molestar, agarrar ou rebaixar. – É o novo namorado da mamã… Ele levantalevanta-se muitas vezes Ainda o polícia não tinha acabado de falar quando Lucas entra precipitadamente. Calca Maria, empurra Jonas para o lado e faz menção de atirar-se a Carolina e a Filipe. Mas, de repente, Jonas vê-se rodeado por todos e, como combinado, dizem em coro: de noite… AproximaAproxima-se do quarto da menina… o chão estala… estala… estala… A menina escondeesconde-se no fundo da cama… Mesmo aproximarem-tapando as orelhas, ela consegue ouvir os passos a aproximarem -se… — Pára! A mim, não! Tenho tanto medo que as palavras recusem sair da minha O polícia também repete com voz grossa. boca. Mas a professora Marta pergunta ainda: Lucas fica tão admirado! Mas rapidamente compreende o que – E o que acontece depois à menina? quer dizer a frase “Pára! A mim, não!”, e coloca-se, cabisbaixo, ao A minha mão desenha uma cama grande. lado dos outros. – O senhor aproximaaproxima-se como um ladrão. DeitaDeita-se ao lado da O polícia volta a repetir: menina… E todas as vezes ela chora. chora. Ela tenta pensar noutra coisa: — Respirar fundo, firmar-se bem no chão, olhar o outro nos num céu de Verão, num campo de flores… mas tudo fica preto. olhos com coragem e dizer em voz alta: “Pára! A mim, não!” Assim, vão mostrar que são fortes. Falei demasiado. Fujo para a outra ponta do recreio e atiroatiro-me contra a grade. Queria desaparecer. A professora Marta vem ter Elisabeth Zöller Stopp, das will ich nicht! Hamburg, Ellermann, 2007 (Tradução e adaptação) 31 comigo. – Lisa, conheces a menina da tua história? 89 RespondoRespondo-lhe com um pequenino “sim” hesitante. – Estou neste momento a segurarsegurar-lhe a mão? Não respondo. Desato aos soluços. A professora Marta debruçadebruça-se sobre mim e apertaaperta-me nos braços. As lágrimas corremcorrem-me pela cara. – A mamã vai continuar continuar a gostar de mim? – pergunto entre duas fungadelas. – Claro que sim. Vamos explicarexplicar-lhe tudo. – E vou ser sempre infeliz? – Não, Lisa. Dentro de ti (no teu coração) há um sol que ninguém consegue roubar. – E vou para a cadeia? – Claro que não. Não tens tens culpa de nada. Repito para mim: não tenho culpa de nada… não tenho culpa de nada… não tenho culpa de nada. A professora Marta limpalimpa-me as lágrimas. Agora que já partilhei o meu segredo, dirdir-sese-ia que ele se partiu em dois. Vou finalmente poder contácontá-lo à mamã. E talvez à Paulina. Vou falar, vou falar, vou falar, até que se parta em mil pedacinhos. Gilles Tibo La petite fille qui ne souriait plus Paris, Éditions NordSud, 2006 (Tradução e adaptação) 90 O falso tio Laura e o rato Desgosto Não é nada fácil! A Professora Carolina está a escrever números no quadro. Como todas as manhãs, Laura abriu o armário para tirar um vestido. Que horror! Adivinha o que encontrou escondido no fundo… — Prestem muita atenção! — pede. — Estes exercícios são difíceis. Leo irrita-se mas não é por causa dos exercícios. Acha-os Um grande rato dos esgotos, que ria com todos os dentes! Laura quis gritar, chamar os pais, mas o grande ratão preveniu-a, super-fáceis mas, mesmo assim, não consegue estar atento, e a culpa é de Paulina, que está a mascar uma pastilha elástica. A meio da aula! apontando-lhe um revólver à testa: E faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo. A Professora — Se gritas, mato-te. Se me denuncias, desfaço-te. Carolina nem sequer ralha. Faz contas e mais contas, e não repara em Então, Laura fechou a boca a cadeado, assim como o armário e nada. — Não podes mascar pastilha elástica nas aulas — sibila Leo. todos os sentidos do seu corpo. Ela bem queria pôr um cadeado no armário e esquecer, mas, Paulina sorri, rebusca no bolso das calças, tira uma caixa e estende-lha. todas as manhãs e todas as noites, o rato gordo dos esgotos batia na — Queres uma? — pergunta. porta com a cabeça, até ela a abrir. Ainda por cima! 33 91 — É proibido mascar nas aulas — insiste Leo com veemência. À noite, todos os dias, ao abrir a porta para se vestir ou despir, lá — Leo! Nada de conversas! — adverte a Professora Carolina. estava o rato gordo. Laura despachava-se a tremer, mas não se atrevia Leo assusta-se. Não gosta quando a professora fala com ele daquela maneira. — Mas a Paulina… Morde depressa os lábios. Não se deve fazer queixa das a dizer nada. Porquê? Talvez porque o rato grande dos esgotos não fosse criança e se deva obedecer às pessoas crescidas, mesmo que sejam dos esgotos, não é verdade? Era o que Laura pensava. pessoas, costuma dizer o pai. Uma noite, o rato disse-lhe, com olhos terríveis: Ufa, não é nada fácil fazer sempre o que é correcto! — Quero ser o teu ursinho. Dá-me um beijo de boa-noite, se não, levas uma palmada. Uma amiga assim, não! Então Laura chorou, mas deu-lhe um beijo, o que achou horrível. Felizmente, toca para o intervalo. Só que ela já não sabia muito bem o que era horrível e o que era — Vamos jogar? — pergunta Paulina. agradável, porque, como já disse, ela tinha fechado, trancado e Nem pensar! bloqueado tudo dentro dela. O rato estava, evidentemente, todo De certeza que a mãe não gosta que ele brinque com uma menina satisfeito, e disse, enquanto fumava o seu charuto: destas. Já chega ter de estar sentado ao lado dela. — Todas as noites vens dar-me o meu beijo, minha linda. Assim Às vezes, Paulina chega atrasada, está sempre a esquecer-se das coisas e depois pega nas de Leo. Assim, sem pedir. Ocupa a quero e assim tem de ser. carteira toda, dá-lhe cotoveladas e empurra-o. Além disso, tem uma O grande rato dos esgotos exigia coisas do arco-da-velha. voz tão estridente! Se alguma coisa não está bem, começa aos guinchos como uma sirene. Leo até fica com dores de ouvidos. Uma vez por outra, conta em casa as confusões que Paulina arranja. A mãe abana a cabeça e pergunta: — Olha — dizia ele — lava-me estas peúgas fedorentas e põe-nas a secar. Quero todas as tuas bonecas. Aborreço-me aqui sozinho dentro do armário. — Porque é que foste sentar-te ao lado dela? Um dia, o rato disse-lhe: Mas não foi Leo. Paulina é que simplesmente se sentou ao lado — Traz-me um bombom. Traz-me o teu bolo de arroz e as tuas dele e disse à Professora Carolina: — O Leo é meu amigo. batatas fritas. E Laura lá lhos levou. Deu-lhe também os seus copos de leite, o É mentira. Leo não é amigo de ninguém, e muito menos daquela Paulina. 92 lanche, o jantar e tudo o que ela comia de manhã, à tarde e à noite. 34 Um outro dia pediu-lhe o sono, depois, os seus lindos sonhos cor-de-rosa. Quando se é rato de esgoto, só se tem sonhos horríveis. Ele — Então? — insiste Paulina. — Jogamos ou não jogamos? Leonardo abana a cabeça. Paulina encolhe os ombros e afasta-se. deu-lhe os pesadelos negros e ela deu-lhe os seus sonhos cor-de-rosa. Os pais de Laura começaram a ficar preocupados porque a viam emagrecer e perder o sono, sem saberem que Laura dava tudo ao rato grande e cinzento dos esgotos. (Laura pusera-lhe o nome de “rato Desgosto”). Atrasadinha As aulas finalmente acabaram. Leo apressa-se a vestir o casaco e sai a correr. — Espera por mim! — grita Paulina. Certo dia, quando estava já muito magra por não comer nada e entregar tudo ao rato, Laura soube que, se não falasse, algo de grave lhe podia acontecer. Então disse à mãe: Nem pensar! Paulina mora na mesma rua de Leo. Por vezes ia com ela para casa, mas a mãe ficava muito zangada porque ele chegava sempre atrasado. E a culpa era de Paulina que é — Mamã, tenho uma história para te contar. É a história do rato uma atrasadinha. Equilibra-se em todos os muros de jardim e dá pontapés a todas as latas velhas. Carrega no botão de todos os Desgosto. Contou-lhe toda a história. A mãe ficou horrorizada e chorou todas as lágrimas que Laura tinha contido desde que decidira pôr a carapaça e fechar-se. Fez muito bem às duas. semáforos, embora não queira atravessar, só para obrigar os carros a parar. Às vezes, pára no quiosque dos jornais. O vendedor tem um cachorrinho com o qual ela gosta de brincar. Quando vai embora, leva Naquela noite, quando abriu a porta do armário, Laura viu que o rato tinha desaparecido e só lá tinha deixado as peúgas, aquelas que Laura tinha lavado. Eram tão pequeninas, que Laura franziu o sempre qualquer coisa: um rebuçado ou um chupa-chupa. E não se deve pedinchar. A mãe de Leo não gosta nada disso. Leo olha novamente à sua volta. Paulina está de joelhos no passeio. sobrolho. Encontrou uma pedra e começou a desenhar. Ela gosta de fazer — Não pode ser! O rato Desgosto tinha uns pés assim tão desenhos no chão e muitas vezes escreve coisas estúpidas: O Marcu é palérma. pequeninos… afinal era minúsculo! Ela que pensava que ele era tão grande e que nada podia contra ele! Afinal, bastou falar à mãe para ele desaparecer do armário, sem 35 Palerma é ela, que não sabe escrever direito! Mas o que é que ele pode fazer? Hoje, pelo menos, Leo livrou-se dela. Ainda bem! 93 O desconhecido no carro pedir mais nada. Era mesmo um rato nojento, mas que agora já não Um carro pára ao lado de Leo. O condutor baixa o vidro e faz- lhe fazia medo nenhum. — Vês, Laura — disse-lhe a mãe. — Quando alguém te pedir -lhe sinal. — Eh, espera aí! alguma coisa, tens de te perguntar a ti própria, bem no fundo, se Leo pára, hesitante. Está com uma sensação esquisita na queres. Se alguma coisa em ti te diz que estás a ser forçada, ou que barriga. — Como é que te chamas? — pergunta o homem. Leo preferia não responder, mas não pode ser. O homem é adulto, e a avó está sempre a dizer que não se pode ser indelicado magoam o teu corpo, não deves obedecer, pelo menos antes de falares a alguém sobre isso. Mesmo que seja um Marciano, um rato dos esgotos, um crocodilo… mesmo que seja uma pessoa importante. com os adultos. De certeza que o desconhecido só quer perguntar o E ainda lhe disse: caminho. Por segurança, Leo dá um passo atrás, antes de murmurar: — Chamo-me Leo. O homem sai do carro. Leo sente os joelhos moles. Mas porquê? — Se amanhã vires alguma coisa no armário, por favor, di-lo a um adulto. A mim, ao pai, à madrinha, à professora… a quem quer O homem ri amavelmente. Leo é que é um medricas, como o pai que seja! E, se alguém te ameaçar na rua, pede socorro a um adulto, costuma dizer. Leo não quer ser nenhum medricas. entra numa loja ou noutro sítio qualquer. Nenhuma criança deve — Leo? — volta a perguntar o homem. submeter-se a um rato do esgoto. Percebeste, minha querida? Leo faz um sinal afirmativo com a cabeça. — Sim — prometeu Laura, tranquilizada com esta promessa. — Óptimo — o homem parece Nessa noite, Laura recuperou o bolo de arroz, os bombons, o seu ficar contente. — Andava mesmo à tua procura! — ursinho, as batatas fritas. E o seu bom aspecto. Infelizmente durante algum tempo, ainda continuou a ter os antigos pesadelos negros, À minha procura? — admira-se Leo. — Sim. A tua mãe mandou-me vir buscar-te à escola e levar-te a cheios de ratos dos esgotos, de ratinhos e de ameaças. Porque o ratão Desgosto tinha-lhe roubado alguns dos seus sonhos cor-de-rosa. Precisava de esperar algum tempo para os recuperar. Sophie Carquain casa sem demora. Petites histoires pour devenir grand O homem faz com a mão um Paris, Ed. Albin Michel, 2003 (Tradução e adaptação) sinal convidativo. 94 36 — Vá, entra, por favor. Entrar? Nem pensar! Leo não pode ir com pessoas que não conhece. A mãe proibiu-o. Pelo sim pelo não, dá outro passo atrás. — Eu não o conheço — murmura. “Esperemos que não fique ofendido”, pensa Leo. Não, até se ri! — Sou um parvo! — exclama, batendo com a mão na testa. — Ainda nem me apresentei. Ora bem, rapaz, eu sou o tio Zé! O homem dá a volta ao carro e vem estender a mão a Leo. Leo agarra-a, hesitante. O tio Zé? Leo esforça-se por se lembrar… Nunca ouviu falar de nenhum tio Zé. O homem olha para ele como quem o examina. Leo sente-se cada vez mais desconfortável com o seu olhar. O grande segredo de Clarisse — Não acredito! — diz o homem admirado. — A tua mãe nunca falou de mim? Leo sacode a cabeça. Era uma vez uma ratinha chamada Clarisse. Clarisse tinha as faces rosadas e usava um vestido e uns sapatos cor-de-rosa. — Ah, então vou já dizer-lhe das boas! — diz o homem. — Mas agora entra para o carro. Bem sabes que ela não gosta de esperar. Era encantadora, com um pescoço delgado e olhos de gazela. As É verdade. A mãe detesta esperar E se o homem sabe disso, é porque deve conhecer a mãe. E, então, de certeza que é o tio Zé, pessoas costumavam dizer-lhe: — Como és meiga-linda-simpática! — e ainda: — Um dia vais não? Sim. Mas, apesar de tudo… Este tio parece a Leo um pouco suspeito. ser arrasadora! — e, em frente da mãe, as pessoas diziam, abanando o indicador: — Cuidado com a sua Clarisse! Ela ainda vai despedaçar muitos Acabou-se o teatro! O tio desconhecido ainda segura a mão de Leo. É uma sensação corações! E Clarisse baixava os olhos sem compreender lá muito bem o que queriam dizer. Despedaçar corações? Ela, a quem chamavam meiga-linda-simpática? Os adultos tinham ideias estranhas. Às vezes 37 esquisita. Leo quer retirar a mão mas, nisto, o homem agarra-lhe o braço e aperta-o com força. Aquilo dói! — Ai! — queixa-se Leo. Mas o homem continua a apertar. 95 — Vamos lá acabar com o teatro! — diz. De repente, a voz deixou de soar simpática e ele quer arrastar Leo para o carro. eram incómodos aqueles olhos brilhantes fixos nela, aqueles beijos no pescoço, aquelas carícias nos braços, aquelas perguntas indiscretas: Com o susto, Leo fica hirto. Finca os pés no chão, mas não — Então, tens algum namorado lá na escola? adianta. O homem é muito mais forte. Clarisse rodava na sua saia cor-de-rosa comprida e fazia uma — Vou dizer à tua mãe que te portaste muito mal! — ameaça. Leo sente o bater do coração no peito. A mãe não gosta que Leo careta. se porte mal. Mas de certeza que gosta ainda menos que alguém lhe puxe pelo braço. Ainda que esse alguém seja o tio Zé! — Mais tarde — dizia — vou ser bailarina ou estrela de cinema. Ou cantora de ópera. Hei-de ser sempre a mais linda do mundo! Leo quer gritar, mas tem um nó na garganta e não consegue. O — Tens muito tempo para pensares nisso — respondia a mãe. homem já abriu a porta do carro. De repente, ouve-se um grito agudo — Ainda só tens seis anos. como uma sirene: E dizia às pessoas: — Deixem-na viver. Só tem seis anos. Mas elas não deixaram Clarisse viver a vida. Um dia, num escuro buraco de ratos, agarraram Clarisse e cobriram-na de beijos e disseram-lhe: — És meiga-linda-simpática! Eram as mesmas palavras, mas não eram os mesmos gestos. Clarisse sentiu bem a diferença. Viu bem a diferença entre os joelhos daquele senhor e os joelhos dos outros adultos. Entre as carícias que — Largue-o! ele lhe fez nas pernas e por todo o corpo de ratinha cor-de-rosa. O homem olha em volta. Paulina chega a correr. Aquelas festinhas eram estranhas: misturava festinhas que se fazem — Largue-o! — guincha ela. — Ele é meu amigo! aos ratinhos pequenos com as que fazem aos ratinhos grandes. As Não é verdade. Não é nada palavras eram as mesmas mas não eram ditas da mesma maneira: verdade mas, mesmo assim, -se contentíssimo por ela estar ali e por dizer aquilo. Leo sente- murmurava-lhas ao ouvido, como a uma senhora. Era estranha aquela mistura entre o horror e o prazer que tudo aquilo lhe inspirava. Mas 96 38 ela não disse que não. Não se diz que não a um senhor de gravata. Não O homem fica furioso. Diz um palavrão e empurra Leo para o se diz ‘não’ quando se é “meiga-linda-simpática” e quando se corre o lado. Leo cai, mas o homem não se preocupa. Salta para o carro e arranca a toda a velocidade com um chiar de pneus. risco de vir a despedaçar corações. Quando voltou para casa, Clarisse tinha a cabeça às avessas, e o corpo também. Fechou-se no seu buraco de ratinha e enrolou-se sobre si mesma a pensar no que o senhor lhe tinha dito: Um tio estranho Paulina estende a mão a Leo e ajuda-o a levantar-se. — É um segredo só nosso. Se disseres a alguém, a tua mãe morre. Juro-te. — Magoaste-te? — quer saber. Esquisito. Quando empurra alguém no recreio, não fica nada E foi assim que, naquela noite, no buraquinho de ratos, o segredo nasceu no fundo do peito. A princípio, era uma bolinha de nada, que não se podia deixar escapar. Tinha de a esconder, fechar a cadeado, para que nada pudesse acontecer à mãe. preocupada. — Não, está tudo bem — responde Leo. Mas não é verdade. Dói-lhe a perna e o braço. E o nó na garganta está agora maior. Apetece-lhe chorar. — O que é que ele queria? — pergunta Paulina. Naquele dia, Clarisse deixou de falar. Tinha medo que o segredo Leo encolhe os ombros. se escapasse e fosse destroçar o coração da mãe. À noite, passou a — O homem disse que era o meu tio Zé — explica, inseguro. exigir que fechassem a porta do seu quartinho cor-de-rosa com duas — Que tio tão esquisito! — acha Paulina. voltas na fechadura, não fosse ela falar durante o sonho. Mas também pediu uma luz de vigia para não ficar sozinha com o seu segredo. Leo é da mesma opinião. Por isso, desata a chorar. Entre soluços, conta a história toda a Paulina. — Ele disse que era teu tio? — exclama Paulina, indignada. — Ela, que sempre saltitara, alegre e cor-de-rosa, passou a ficar parada e lívida. “Nunca se sabe” pensava ela. “Se me mexer, o segredo também se mexe e a bolinha rebenta.” Então, enrolou-se sobre si mesma, os braços à volta dos joelhos, a cabeça caída sobre o peito, com o segredo bem protegido. Nunca na vida! Estava a mentir. A mentir? Que susto! Leo quase entrara no carro de um desconhecido. — Não digas à minha mãe — pede ele. — De certeza que ia ralhar comigo. — Não acho! — diz Paulina com convicção. — Temos de contar- O segredo na garganta continuou a engordar. Invadiu a garganta até abafar os risos e os suspiros. Nas aulas, não respondia. 39 -lhe tudo! Pega na mão de Leo e leva-o embora dali. 97 Um telefonema importante O quiosque dos jornais é logo na esquina. Um cachorrinho vem ao encontro das crianças a ladrar alegremente. — Desculpa, Bobby — diz Paulina. — Hoje não tenho tempo para Deixou de rir no recreio e, um dia, quando a sua amiga Alice contou, a rir, que tinha visto o papá e a mamã a fazerem festinhas dentro da cama, ela fugiu para o outro lado do recreio, com as mãos a tapar as orelhas cor-de-rosa e o coração a bater. brincar. Dirige-se ao vendedor e pede-lhe: — Podemos fazer um telefonema? Clarisse perdeu o hábito de falar. Só ela sabia de quem era a culpa: era da grande bola, que não parava de crescer. — Vá lá — dizia a mãe. — Tens de comer! Tens de falar, se não, — O quê? — admira-se o vendedor de jornais. — O que há assim de tão importante? vais morrer. Mas estende o seu telefone a Paulina. — O teu número de telefone! — pede Paulina impaciente. Atemorizada, Clarisse olhava para ela e pensava: “Mas, se eu falar, quem morre és tu, mãe. Foi o que me disse aquele senhor!” Não é nada fácil. Leo baralha os números e só à terceira Quando o médico veio para a examinar, Clarisse encolheu-se tentativa é que acerta. Paulina marca. O coração de Leo bate com força. E se o homem fosse mesmo um tio seu? Deve estar zangadíssimo! ainda mais sobre si mesma, a cabeça caída sobre o peito, numa dor muda. — É a mãe do Leo? — pergunta Paulina naquele momento. — — Não, não, não — fez ela com a cabeça. E não disse mais nada. Estamos a telefonar por causa do tio Zé. Leo não consegue perceber o que a mãe diz, mas a voz dela soa muito aflita. Paulina Os grandes segredos são contagiosos, e a mãe de Clarisse também deixou de sorrir. — Vais matar-me de tristeza — dizia ela — por deixares de ouve e acena com a cabeça. — Foi o que pensámos. Não, está tudo falar. bem com o Leo. Sim, ficamos à espera no quiosque. E Clarisse voltava a pensar nas palavras do senhor: “Se falares, a tua mãe morre.” Então qual dos adultos é que tinha razão? Paulina devolve o telefone. Um dia, Clarisse soube que o senhor do buraco escuro tinha ido — Ela está zangada? — pergunta Leo, preocupado. — E de que maneira! — diz Paulina para a prisão. Para um buraco ainda mais fundo. Naquele dia, o segredo decidiu sair, e a bola rebentou. energicamente. — Mas com o falso tio Zé. 98 40 As palavras saíram como puderam, todas ao mesmo tempo, desordenadas e entre gritos. Foi preciso pô-las por ordem: sujeito, verbo, complemento. “Brincaram comigo!” “Faltaram-me ao respeito!”, “Tocaram no meu corpo, nas minhas pernas. Fizeram coisas Um caso de polícia — Agora conta-me lá o que se passou! — pede o vendedor de jornais. Mas Leo ainda está muito agitado. Paulina, não, e conta a história toda. O vendedor escuta, preocupado. Depois, pega em mim que eu não queria”, “Ele disse que tu morrias.” E foi a vez da mãe ficar muda, perante aquela terrível revelação. — Nunca aceites um segredo que não venha de ti! Nunca deves novamente no telefone. — Isto é um caso para a polícia! — explica, e começa a marcar o número. acreditar num adulto que mexe no teu corpo. Há pessoas que são más Polícia? Oh, não! Leo nunca teve nada com a polícia. Esperemos com as crianças e que as fazem acreditar em coisas incríveis. Se que não seja difícil. Paulina parece não se preocupar com isso. Já alguém te fizer festas que te perturbem, deves contar a uma pessoa está ajoelhada no passeio a desenhar. É tão corajosa! O cãozinho crescida… imediatamente! A mim, ao pai, à tua madrinha, ou mesmo a uma amiga, se não, isso começa a crescer e a inchar dentro de ti como uma bola de tristeza. lambe a mão de Leo. Este debruça-se, faz-lhe festinhas, e vai ficando mais calmo. — Leo! A mãe chega esbaforida. Leo corre para ela. A mãe pega nele ao Com o tempo, Clarisse começou a pintar, a brincar, a desenhar, a comer, a falar direito: sujeito, verbo, complemento. O corpo e o espírito tinham recuperado a agilidade de uma ginasta. Sentia-se tão leve, sem aquele horrível segredo! Mais tarde, a ratinha cor-de-rosa voltou a ter segredos de rapariga. colo e abraça-o com muita força. — Estou tão contente por não te ter acontecido nada! — repete a mãe constantemente, chorando e rindo ao mesmo tempo. Um carro da polícia pára ao lado do quiosque e dois polícias saem precipitadamente. Leo tem de contar a história outra vez mas, aconchegado nos braços da mãe, já não é tão difícil. Os polícias Os verdadeiros segredos são estes: os que são criados por nós e querem saber tudo ao pormenor. O que o homem disse, como era, que carro tinha. O carro! Era ameaçador mas Leo nunca o tinha visto. E é não impostos à força. tudo de que se lembra. Paulina diz então: Sophie Carquain Petites histoires pour devenir grand Paris, Ed. Albin Michel, 2003 (Tradução e adaptação) 41 — O carro era azul e até tenho a matrícula. Aponta para o passeio. Tinha escrito a matrícula com a pedra. — Céus! És esperta! — elogiam os polícias. A mãe também acha. 99 — Nem sei como posso agradecer-te — diz. — Ainda bem que tomaste conta do Leo. — Mas tenho mesmo de tomar! — diz Paulina. — O Leo é meu amigo. Leo sente um calor na barriga e está muito contente por ser amigo de Paulina. Tanta coisa! A Professora Carolina está a explicar as contas, mas Leo não consegue prestar atenção. Nos últimos dias aconteceram muitas coisas e é nisso que está a pensar. A polícia conseguiu prender aquele falso tio. O anotar da matrícula por Paulina ajudou. O homem era um temido criminoso que a polícia procurava há já algum tempo. Agora, encontra-se na prisão, e já não pode fazer nada a Leo nem a outras crianças. Ainda bem que Leo não guardou a história para si! A mãe quis passar a ir buscá-lo sempre à escola. Felizmente conseguiu convencê-la de que não é preciso, porque vai sempre para casa com Paulina. “E se acontecer alguma coisa, venham sempre ter comigo”, disse o simpático vendedor de jornais. Isso fazem eles, mesmo não tendo acontecido nada! Comem um rebuçado ou um chupa-chupa e brincam com o Bobby. 100 Leo desenhou um cãozinho no passeio ao lado do quiosque e Paulina escreveu por baixo: O Bobi é crido. Nunca acompanhes um desconhecido! Querida é ela, mesmo que ainda não escreva muito bem! Claro que, agora, Leo chega um pouco mais tarde a casa, mas a Lisa tem seis anos e já vai à escola. O Pedro é o melhor amigo de mãe não ralha. Fica contente por ele ter uma amiga tão simpática. Entretanto, a Professora Carolina acabou a explicação. Lisa e os dois costumam brincar muitas vezes juntos. Lisa toma todos os dias o pequeno-almoço almoço com os pais. Um dia, o — Leo, começa a trabalhar! Paulina já está a fazer as contas. Masca uma pastilha elástica e pai leu no jornal que uma criança tinha sido raptada. Diz Diz-lhe então: — Nunca acompanhes alguém que não conheças! Não abras a porta quando estiveres sozinha! Nunca entres para o carro de um desconhecido! Nem todos os adultos são bons para as crianças. faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo! E ainda bem! Assim, Leo sabe que ela está ao lado dele. E, satisfeito, debruça-se sobre os exercícios. Também há pessoas que tentam atrair meninos e meninas com doces e prendas. Depois agarram-nos, possivelmente ivelmente tiram tiram-lhes a roupa e Frauke Nahrgang magoam-nos muito. Nein, ich geh nicht mit, ich kenn dich nicht! Lisa presta muita atenção. Um dia, ao regressar da escola, pára um carro ao lado dela. O Würzburg, Arena Verlag, 2007 (Tradução e adaptação) condutor, muito simpático, diz-lhe: 43 101 — Olha, tenho uma coisa para ti. Queres vir comigo? Mas Lisa não entra no carro. Nunca acompanho nenhum desconhecido. Uma vez, a mãe de Lisa foi às compras. Lisa prefere ficar a brincar com o comboio e com o ursinho, por isso fica sozinha em casa. Pouco depois da mãe sair, tocam de repente à porta. Lisa pensa: A mamã tem chave. E não abre a porta. Não abro a porta quando a minha mãe não está em casa. Uma vez, Pedro e Lisa estavam a construiu um grande castelo na caixa de areia. Um homem vem sentar-se à beira e fica a olhar para eles durante muito tempo. As crianças já o tinham visto. 44 Ele costuma ajudá-los a fazer coisas na areia e fala-lhes dos seus coelhos fofinhos. Tens um segredo? segredo? Tens um segredo? Se tens, é um segredo bom, ou um — Se vierem comigo, dou-vos um! Pedro prefere o gato que tem em casa mas há muito que Lisa queria ter um coelhinho… segredo mau? Sabias que os segredos bons são coisas que te podem fazer muito feliz, a ti e às outras pessoas? Sabes algum segredo bom? E Lisa vai com ele. Se guardas segredo acerca da prenda que compraste para o teu melhor amigo, ou para a tua mãe, isso é um segredo bom ou O homem agarra Lisa com força pela mão. Ela tem de correr porque o homem caminha a passos largos. Já não parece ser nada simpático. Passado pouco tempo, chegam a casa um segredo mau? É um segredo bom! É divertido guardar este tipo de segredos porque vai ser bom ver o sorriso da pessoa quando dele. — Onde é que tem os coelhinhos? — pergunta Lisa cheia de receber a sua prenda. medo. ☺☺☺☺☺ A porta da rua fecha-se atrás deles. Consegues lembrar-te de mais segredos que seja divertido Não há coelhinhos nenhuns, ele mentiu. guardar? Lisa está com um medo terrível e chora e grita pela mãe. 45 103 Guardar segredo de uma festa-surpresa que preparaste para Mas ninguém a ouve. O homem grande aproxima-se cada vez mais de Lisa e agarra-a a tua irmã ou para o teu irmão pode ser muito divertido. Imagina a sua cara de espanto quando todos os convidados gritarem com força. Entretanto, Pedro continua na caixa de areia mas já não lhe “Surpresa!” E o que achas daquela saudação especial que só tu e o teu melhor amigo conhecem? Seria correcto guardar este segredo? apetece brincar. Corre a casa dos pais de Lisa e conta-lhes que ela foi com um homem. O pai chama imediatamente a polícia. Ao fim de poucos minutos, ouvem o carro da polícia chegar. Eu acho que sim! Os apertos de mãos entre bons amigos são segredos divertidos! Pedro consegue dizer exactamente aos agentes da polícia como é que o homem é, e que tem uma bicicleta enferrujada com uma ☺☺☺☺☺ buzina. E lembra-se da direcção em que o homem seguiu com Lisa. Os polícias partem imediatamente com os pais e com Pedro. Já Queres saber o meu segredo? A sério? Eu gosto de dormir abraçado ao meu ursinho de peluche, que se chama Artur. Quando tenho medo, o Artur aquece-me e faz-me companhia. está a anoitecer. E juntos palmilham as ruas escuras. Os pais estão desesperados. De repente, Pedro descobre a bicicleta velha com a buzina encostada contra a parede de uma casa. Os polícias entram na casa. E tu? Tens algum segredo bom? ☺☺☺☺☺ O que é um segredo mau? Sabias que os segredos maus são coisas que nos fazem sentir mal, por dentro? A única coisa que podemos fazer para nos Felizmente não demoram a encontrar Lisa, que está completamente transtornada. Só quando a mãe pega nela ao colo é que se acalma. O homem é levado para o posto da polícia. Pedro fica muito orgulhoso quando os pais de Lisa o elogiam e lhe agradecem por ter estado atento. sentirmos melhor é contar este segredo a um adulto. Se guardasses o segredo de alguém que te magoou, te Depois, apressam-se a sair sem demora daquela casa sombria e levam Pedro a casa. agarrou ou te deu um pontapé, isso seria um segredo bom, ou um Nunca mais vou com alguém que não conheço! segredo mau? Ursula Kirchberg Exacto, seria um segredo mau, porque não está certo que Geh nie mit einem Fremden mit München, Ellermann, 1985 (Tradução e adaptação) alguém te maltrate. 104 46 ☺☺☺☺☺ O que farias se visses uns matulões a roubar o lanche de um colega teu, no recreio? Achas bem guardar este segredo? Não, isso estaria errado! Não está certo que os rapazes mais crescidos se aproveitem dessa vantagem para ficar com uma coisa que não lhes pertence. ☺☺☺☺☺ Consegues pensar em outro tipo de segredo mau? O que aconteceria se alguém te tocasse de uma forma que te incomodasse e te fizesse sentir mal, por dentro? Correr e contar Este tipo de segredo é um segredo mau e isso quer dizer que é preciso a ajuda de um adulto para nos sentirmos melhor. Aos sábados, quando acabo a aula de dança, apanho o autocarro para ir para casa. Depois de me sentar, passo o tempo a olhar pela janela. Entretenho-me a ver as pessoas e os carros que Achas que está certo guardar um segredo mau, apenas porque alguém te pede que não contes nada? Claro que não! Não está certo que alguém que fez algo que não devia ainda te peça para guardares segredo. É um segredo passam. mau, e tens de contá-lo. Um dia, estava tão distraída que nem dei por um senhor, igual a tantos outros, que se sentou a meu lado. Faltavam duas ou três paragens para a minha casa quando, de repente, esse senhor igual a tantos outros, começou a tocar-me nas pernas ☺☺☺☺☺ E quem poderá ser o adulto a quem possas contar o teu segredo? Deve ser alguém em quem confies, como a tua mãe ou o teu pai, a tua tia ou o teu tio, ou mesmo um professor. disfarçadamente. Fiquei assustadíssima. Contar um segredo mau é fazer uma coisa boa! Levantei-me logo que pude e pedi-lhe que me deixasse ☺☺☺☺☺ 47 105 Não te esqueças que guardar um segredo pode ser passar; ao sair do lugar, ainda senti as suas manápulas. divertido, se for acerca de uma coisa que te dê felicidade a ti ou a Sentia uma enorme raiva, mas corri até à porta e carreguei outras pessoas. Mas se for um segredo que te magoe, te faça sentir triste ou várias vezes na campainha. Felizmente que o autocarro parou. te meta medo, vais sentir-te melhor se o contares a alguém! Talvez seja muito difícil para ti contar o segredo a um adulto. Por isso, tens de ser corajoso. E lembra-te: quando contares o teu segredo a alguém, o teu problema vai ser resolvido. Tens algum segredo? E se tens, é bom ou mau? Saltei para o passeio e iniciei uma correria louca, em direcção Jennifer Moore-Mallinos Tens um segredo? Lisboa, Livros Horizonte, 2006 (Adaptação) a casa. Sentia que aquele senhor me perseguia. Quando cheguei a casa, a minha mãe estava à porta com o saco das compras. Quando me beijou, desatei a chorar com todas as minhas forças. — O que se passa, filha? Por favor não chores, fala… 106 48 — Foi horrível, mãe… No meu corpo não se toca! — O que é, filha? Conta-me! — Um senhor, mãe, um senhor… O teu corpo só a ti pertence. — Que senhor, filha? O que te fez ele? Aprende, em cinco lições, como ele deve ser respeitado. — Tocou-me nas pernas e no rabo. Lição nº 1: és tu que decides quem pode vê-lo ou tocá-lo — Cretino! As pessoas terão de acostumar-se a que feches a porta do quarto — Saí a correr do autocarro logo que pude. de banho ou a que não queiras ser abraçada constantemente. Terão de — Foste muito corajosa, filha. aceitar que não há nada de estranho na tua atitude, e que apenas pedes — Enquanto corria, pensava que não iria falar disto a que respeitem a tua intimidade. Todas as pessoas têm direito à sua intimidade, incluindo os adultos! À medida que vais crescendo, vais ninguém… Sentia vergonha. tendo mais consciência do teu corpo. Sabes que estás a mudar e tornas-te — Vergonha? Ele é que devia ter vergonha! Foi ele que cometeu um abuso. Fizeste muito bem em fugir e em contar-me mais recatada. Nesta altura, preferes que não vejam o teu corpo. Tens de fazer um esforço para te habituares à tua nova imagem e dispensas bem os tudo. Obrigada por confiares em mim! comentários! 49 107 A minha mãe disse que todas as raparigas e rapazes que Lição nº 2: estabelece limites com os rapazes sofrem abusos deveriam ter a coragem de fazer o que eu fiz: ir a Dantes, gostavas de brincar com eles de forma um pouco abrutalhada, inclusive de “brincar aos médicos”. Agora é diferente! Fá- correr pedir ajuda. -los perceber que alguns gestos que fazem já não te agradam. Como podes fazê-lo? Dizendo-lhes simplesmente “não”. Ninguém, nem sequer os meus familiares e amigos, tem o direito de tocar no meu corpo contra a minha vontade. É verdade que os rapazes sentem curiosidade ou atracção pelas NINGUÉM! mudanças do teu corpo. Mas isso não lhes dá o direito de te levantarem a saia ou de tentar tocar no teu peito, para “ver como é” ou para se divertirem. Achas que eles gostariam que lhes baixasses as calças ou que tentasses tocar-lhes? Lição nº 3: escuta os teus sentimentos Confia em ti. Se o gesto de algum adulto ou de algum rapaz, seja quem for, te incomodar ou te meter medo, mesmo que sejam amáveis contigo e que os conheças bem, interrompe-o logo. Ninguém tem o direito de te tocar ou de te obrigar a fazer coisas que não queres. Lição nº 4: aprende a detectar os gestos suspeitos dos outros Não há problema nenhum num beijo ou numa carícia, se te agradarem e se te parecem correctos. Mas se um adulto te obrigar a tirar Gladys Herrera Patiño a roupa, tentar tocar numa parte íntima do teu corpo, ou te pedir que o Bilbao, Desclée de Brouwer, 2005 (Tradução e adaptação) Correr y contar acaricies, nem pensar! 108 50 Lição nº 5: sê prudente Não acompanhes desconhecidos ou pessoas que conheces mal. Diz sempre aos teus pais onde estás e para onde vais. Antes de fazer alguma coisa, pergunta-te sempre se os teus pais estariam de acordo. Nunca vás para lugares onde ninguém te possa ajudar, caso necessites. Nunca guardes um segredo que te faz sentir mal. FUI VÍTIMA DE MAUS TRATOS! Se te obrigaram a fazer coisas de carácter sexual, isso é muito A história do senhor demasiado gentil grave. Ninguém tem o direito de tratar uma criança assim e muito menos um adulto o pode fazer. A lei proíbe-o. Não te sintas responsável, de O padeiro da esquina da rua era muito gentil e gostava muito de crianças. Sabia ouvi-las como ninguém e ajudava-as nos trabalhos de casa. Dava-lhes gomas, bombons, chocolates. É fácil gostar de alguém que nos dá coisas sem pedir nada em troca. maneira alguma. Não tens culpa. O teu agressor é que tem de dar explicações. É uma pessoa mentalmente doente que precisa de tratamento. Deves falar sempre sobre o que te aconteceu. O silêncio seria um O senhor gentil enfiava as mãos no pote de vidro e tirava guloseimas “só para ti”. E sorria, gentil, a ver as crianças a comer, peso demasiado grande para ti. Não vais conseguir superar sozinha o que se passou e precisarás de ajuda. como se fosse o melhor espectáculo do mundo. O senhor parecia o A única forma de a conseguir é contar o sucedido. Tens de falar caçador que Tomé vira num filme. O caçador tinha domado um tigre com alguém em quem confies: os teus pais, os teus irmãos, um amigo, a bebé, dando-lhe um bombom de mel todos os dias. Quando o tigre enfermeira da escola, um professor, uma das tuas tias, a mãe de uma se deu conta, era demasiado tarde. Já estava prisioneiro do caçador. amiga... Todos os domingos, Tomé ia ao padeiro comprar pão e Há muitos adultos que podem ajudar-te. Tens medo de que não queques de chocolate. O padeiro dava-lhe um saco de gomas de acreditem em ti? Isso não costuma acontecer, mas, caso aconteça, fala todas as cores e feitios “só para pessoas especiais, como tu. com outra pessoa, até encontrares alguém que te escute. 51 109 Rapazinhos bonitos e inteligentes”. E acariciava os cabelos de Tomé, Mesmo que gostes da pessoa que te fez mal, tens de contar o que com o mesmo olhar do caçador de tigres. se passou. Pode ser que não o faças por ter medo das consequências que Quando chegava a casa, Tomé punha tudo em cima da mesa da o teu relato teria para a tua família. A tua reacção é perfeitamente cozinha. Tudo menos o saquinho de gomas. Este, escondia-o em cima compreensível! do armário dos brinquedos, como fazia com os segredos que Contudo, o que está a acontecer contigo é anormal. Tens de guardava para si. acabar com a situação. Há coisas proibidas que não devem fazer-se! Se as contares, hão-de ajudar-te a encontrar soluções para ti e para os que te rodeiam. É que para o Tomé aquele saquinho significava que outros adultos gostavam dele, além dos pais. E todas as crianças ficam contentes com isso. Catherine Schor, psicóloga clínica Tomé não sabia bem era como chamar a esta relação entre uma criança e um adulto. Ternura? Afecto? Amizade? Um dia, ao regressar da escola, perguntou à mãe: — Uma criança pode ser amiga de um adulto? Só amiga? A mãe franziu as sobrancelhas e respondeu: Séverine Clochard ¡Vivan las chicas! : ¡la guía de las que pronto serán adolescentes! [Madrid] : Marenostrum, D.L. 2008 (tradução e adaptação) — A amizade é uma troca entre duas pessoas. Uma troca entre iguais. Uma criança não viveu as mesmas coisas que um adulto viveu. Uma amizade assim não é comum. Como não se aprisiona uma criança só com batatas fritas, gomas ou pãezinhos, o padeiro mostrou-lhe um dia o forno e a massa a levedar. E acariciou os cabelos do menino com um brilho cruel no olhar, embora sorrisse gentilmente, como sempre. Enquanto o homem pegava nele ao colo, o menino pensava numa história que lera, na qual um tigre queria matar um menino. — Se fores simpático e não disseres nada a ninguém, dar-te-ei tudo o que quiseres. 110 52 Foi então que uma sirene começou a tocar dentro de Tomé. Uma sirene que lhe dizia “Põe-te a andar! Põe-te a andar!” E Tomé saiu a correr da padaria. Nesse dia, aprendeu que os génios bons que concedem desejos só existem nos contos de fadas e não na padaria da esquina. Percebeu por que razão os pais lhe diziam para não aceitar prendas ou guloseimas de desconhecidos. Sejam elas quais forem. É que alguns adultos esperam, em segredo, que lhes dês em troca algo que vale muito mais do que bombons de três euros. Querem um pouco de ti. O que não pode ser! Sophie Carquain Petites histoires pour devenir grand (2) Paris, Albin Michel, 2005 (Tradução e adaptação) 53