Foi então que uma sirene começou a tocar dentro de Tomé.
Uma sirene que lhe dizia “Põe-te a andar! Põe-te a andar!” E Tomé
saiu a correr da padaria.
Nesse dia, aprendeu que os génios bons que concedem
desejos só existem nos contos de fadas e não na padaria da esquina.
Percebeu por que razão os pais lhe diziam para não aceitar
prendas ou guloseimas de desconhecidos.
Sejam elas quais forem.
É que alguns adultos esperam, em segredo, que lhes dês em
Eu,
da cabeça aos pés.
troca algo que vale muito mais do que bombons de três euros.
Querem um pouco de ti.
O que não pode ser!
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand (2)
Paris, Albin Michel, 2005
(Tradução e adaptação)
os mais pequenos:
afectos
corpo
e sexualidade
53
MAS HÁ QUEM NÃO
GOSTE DE MIM!
A menina por detrás da janela
Era uma vez, num país cinzento e frio, um Rei que adorava
uma menina.
A menina era tão bonita que o Rei se apaixonara por ela. Como
a queria sempre junto de si, lançou-lhe um feitiço e transformou-a
em boneca.
Oferecia-lhe colares e travessões em veludo para os cabelos e,
todas as noites, passava longas horas com ela. Deitava-a a seu lado e
acariciava-a com tanta paixão que a boneca quase asfixiava.
Quando o dia despontava, o Rei partia e a boneca ficava
sozinha. A porta do quarto não estava fechada. A boneca podia sair e
fugir mas, como achava que o Rei ficaria desgostoso, não ousava fazê-
Volume 3
lo.
As suas pernas de algodão não a deixavam andar e, como não
tinha boca, tinha medo de perder-se e de não conseguir perguntar o
caminho.
55
Então, quando o Rei se ia embora, ela ficava sentada à janela,
com a cara apoiada contra o vidro frio, a olhar para a rua com
tristeza.
Foi assim que os seus lábios acabaram por desaparecer.
Primeiro tornaram-se transparentes, como o vidro em que se
apoiavam, e depois evaporaram-se, apagando-se completamente.
Os seus dias decorriam intermináveis e tristes.
Certo dia, descobriu um rapazinho que brincava num jardim.
Quem lhe dera ir ter com ele!
Mas como podia ela chamá-lo se não tinha boca?
Com o coração pesado, passou os dias seguintes a espiar o novo
vizinho, escondida por detrás da cortina.
À noite, o Rei, alarmado com a tristeza da boneca, abraçava-a
ainda com mais ternura, esforçando-se por expulsar o desgosto que
lhe petrificava as longas pestanas e ensombrava os olhos.
Às vezes, abraçava-a com tanta força que ela sentia-se
profundamente assustada.
56
Um dia, o rapaz, sentindo-se observado, escalou a varanda e
Índice
chamou pela boneca. No início, a estranha menina por detrás das
cortinas recusou mostrar-se.
Mas o rapaz fez de conta que se ia embora e ela, julgando que o
Abusos sexuais, não! .................................................................... 1
O pequeno urso .......................................................................... 21
Pára! A mim, não! ...................................................................... 29
Laura e o rato Desgosto............................................................ 33
visitante se tinha afastado, abriu a janela, com os olhos cheios de
inquietação. Embora muda, tentou mimar a sua história.
O rapaz não compreendeu tudo, mas adivinhou o seu
sofrimento e compreendeu o seu pedido mais insistente: a boneca
queria uma boca. Como iria ele encontrar tal coisa?
Felizmente que a mãe do rapaz era uma fada. Juntos,
O grande segredo de Clarisse................................................... 37
Nunca acompanhes um desconhecido! ................................... 43
Correr e contar .......................................................................... 47
percorreram os jardins ainda adormecidos pelo Inverno, e
descobriram, no cantinho de um muro, duas violetas ainda mal
entreabertas.
O menino colheu-as com delicadeza e a mãe colocou os dois
A história do senhor demasiado gentil..................................... 51
botões na pele branca da boneca, um por cima do outro. A boneca
A menina por detrás da janela ................................................. 55
abriu logo os lábios azulados e gaguejou, numa vozinha trémula:
Tenho medo daquele homem ................................................... 61
— Por favor, as minhas pernas são de algodão e são tão frágeis
que gostaria de ter umas bem mais fortes para correr!
Não, não vou! .............................................................................. 81
A menina que deixou de sorrir ................................................. 87
O falso tio.................................................................................... 91
Tens um segredo?..................................................................... 103
No meu corpo não se toca! ...................................................... 107
Com um ramo de bétula, mãe e filho fizeram-lhe um par de
pernas novas. Fininhas mas sólidas. A boneca brincou o dia todo
com o amigo.
Quando anoiteceu, este regressou a casa. A boneca não
conseguia decidir se voltava ou não para casa do Rei. A verdade é que
não queria mais lá voltar.
Nesse dia, como de costume, o Rei regressou a casa ao fim da
tarde e procurou a boneca por todo o lado. Enquanto a procurava, a
sua sombra enorme ia deixando, nas cortinas, reflexos de garras
assustadores…
57
Escondida atrás de uma sebe, a boneca tremia. O desespero
roía-lhe o coração, mas o medo impedia-a de empurrar a porta e de
ter de aguentar as mãos do Rei no seu corpo, os seus beijos e as suas
censuras.
Cheia de frio e sem saber para onde ir, aninhou-se contra a
casca mirrada e grosseira de um velho carvalho. Tentou dormir,
semi-coberta por um tapete de folhas mortas. Decerto iria morrer ali.
O vento lançava os seus dedos gélidos sobre ela e entrava-lhe
na pele como se fossem agulhas de neve, que a matariam antes do dia
raiar.
De repente, uma mão acariciou-lhe o rosto.
Alguém a levantou e a boneca sentiu-se voar numa nuvem.
Começou a cair docemente e aterrou num oceano de plumas, numa
cama, debaixo de um edredão maravilhosamente quente, que
cheirava a lírios e a lavanda.
Acordou de manhã, com a mão quente e suave da fada a afagar-lhe os cabelos, e deixou-se ficar em casa dela.
Mal o céu se tingiu de negro e as estrelas começaram a cintilar,
a fada aguardou o regresso do Rei.
58
Quando este chegou a casa, sentou-se num banco do fundo do
jardim, onde permaneceu horas a fio, petrificado e soterrado por um
manto de gelo.
A fada tentou ir ao seu encontro. O Rei, porém, fugiu,
escondendo a cara. Foi então que ela viu que também ele não tinha
boca.
No dia seguinte, quando o Rei se sentou de novo no banco, a
boneca dirigiu-se lentamente para ele. Ouvia o seu coração a bater
com força e a voz da fada que a encorajava.
Com o corpinho a tremer, estendeu ao homem dois botões de
Abusos sexuais, não!
flores: um de hipericão e outro de ipomeia. Depois, cheia de medo,
correu a refugiar-se atrás de um maciço de peónias.
O Rei, surpreendido, deixou que a fada colocasse as pétalas no
Este pequeno guia ensinar-te-á a defenderes-te de certas
lugar da sua boca ausente. Fez-se um grande silêncio e, depois,
pessoas perigosas para as crianças. Fazem-se muito amáveis, mas são
ouviu-se um suspiro de vento como os que anunciam a chuva.
criminosas. E criminoso é não só aquele que rouba, ameaça com uma
O Rei começara a sussurrar e a contar a sua história. Falou
arma ou mata. Criminoso também pode ser um adulto que não se
durante toda a noite.
comporta com as crianças como deve ser. Pode pedir-lhes para fazer
A fada escutou-o, as árvores escutaram-no, os rouxinóis
coisas que as magoem. São actos muito graves. São penalizados por
mantiveram-se em silêncio. E nem as corujas caçaram nessa noite.
lei e quem se comporta assim vai para a cadeia.
Ao nascer do dia, o Rei calou-se.
Uma lágrima deslizou-lhe pela face; a fada recolheu-a com a
Vais conhecer cinco histórias. Contam como cinco meninos,
ponta do dedo e deixou-a cair sobre a boneca adormecida.
Lulu, Tim, Luísa, Félix e Ana, foram importunados e assediados por
rapazes mais velhos e por adultos. São histórias que podem mesmo
Esta transformou-se imediatamente numa menina. Começou a
acontecer! Lê-as com atenção. Em cada página vais encontrar
tocar nos braços rosados e nas pernas, sem acreditar que os tinha de
conselhos para reagires de uma forma conveniente e soluções para te
verdade.
Depois levantou-se e pôs-se a dançar!
defenderes e aprenderes a dizer, simplesmente, NÃO!
1
59
A Lulu tem um vizinho muito estranho
Ufa! Tenho que vender
uma caderneta inteira de
rifas. Bem, vou dar uma
volta pelo
quarteirão.
Bom dia!
O senhor
quer
comprar
uma rifa
para a
minha
escola?
Bela ideia,
pequena! Vou
buscar dinheiro.
Mas entra um
pouco para não
ficares
ao frio.
Sem fazer barulho, o sol limpou as nuvens e enrolou-as num
cantinho do horizonte. Esticou um raio todo emaranhado e fez
cócegas nos narizes dos que ainda dormiam.
O Rei foi castigado. Perdeu o reino e a coroa. Teve de partir
para as paragens desoladas do Grande Norte a fim de conseguir obter
um Perdão.
Muito obrigada, mas
prefiro
ficar cá
fora.
Antes de partir, o Rei, que se tinha transformado num homem
como os outros, beijou uma senhora na soleira da porta de casa.
A menina achou que a senhora era a fada, mas o amiguinho
chamou-a para brincar e ela correu para ele.
Joly Guth
La petite fille derrière la fenêtre
Draguignan, Lo Païs d’Enfance, 2002
(Tradução e adaptação)
60
2
Vamos, não
sejas tímida.
Além do mais,
a minha
mulher fez
um bolo.
São 2
euros
cada rifa e
20 euros a
caderneta.
Fica à vontade.
Olha, aqui
tens
50
euros.
Bem compro-te a caderneta
toda. Fica com o resto para
ti. Come um pouco de
bolo.
Mas
eu
tenho
pressa...
Sou fotógrafo, sabes?
Adoro tirar fotografias a
crianças.
Tenho
Ora vê…
de ir
embora.
Tenho medo daquele homem
Prefácio
Penso que todos sentimos “grandes medos” na nossa infância,
provocados por adultos cujo comportamento era “diferente”. A maioria das
És muito bonita. Tenho de tirar-te
umas fotografias.
Não, deixe-me.
Agora não posso.
vezes, escondíamos esses medos no mais profundo de nós mesmos, sem
Não gostas das minhas
carícias? As meninas
da tua idade
adoram-nas…
Vá lá…
uma fotografia!
sequer ousarmos falar deles, com receio de que troçassem de nós, de que não
nos compreendessem, de que nos dissessem: “Pára de inventar histórias!”
Ainda bem que começámos, finalmente, a falar.
Tenho medo daquele homem é um livro importante para as crianças,
porque mostra que podem confiar nos adultos, que estes compreendem os
seus medos e as apoiam. O intuito desta obra é, pois, ajudar as crianças a
exprimirem os seus medos e as suas angústias, e ensinar os adultos a
responder às questões mais delicadas. Este diálogo entre pais e filhos sobre
assuntos “incómodos” é essencial para a educação e desenvolvimento das
nossas crianças.
Nathalie Baye
Sofia vem sozinha da escola
Sofia tem oito anos. É uma menina muito alegre, que gosta de
se divertir com as amigas e de trocar mimos com os pais. Como todas
3
61
as crianças da sua idade, anda na escola. Este ano, começou a vir
Há várias formas de reagir quando és incomodado
sozinha para casa, às quatro e meia da tarde. Há já algum tempo que
como a Lulu…
queria fazê-lo, mas só agora é que os pais concordaram. Sofia sentese orgulhosa de poder fazer o mesmo que os mais velhos!
Sobretudo porque não corre riscos, já que fez este trajecto pelo
menos umas trezentas vezes: ora com a mãe, ora com o pai, ora com
Está bem, mas só
uma!
a irmã mais velha. Sabe que ruas deve atravessar e que deve andar
1. Ao deixar-se levar para casa
do fotógrafo, Lulu corre um
longe da berma do passeio. Assim, pode ficar a falar com as amigas à
risco grave. Ele pode obrigá-
saída das aulas, antes de ir cada uma para sua casa. Também pode
-la a fazer mais coisas…. A
ajudar pessoas que estejam perdidas.
despir-se, por exemplo. Isso é
muito perigoso.
— Sabes onde há uma farmácia?
— Não, só conheço padarias.
E pode ajudar idosos a transportar sacos pesados.
2. Lulu não se atreve a
— Que menina amorosa!
dizer-lhe expressamente
Quando chega a casa, fica sempre contente por ter algum
que não, com receio de
tempo para si. Conta o que aconteceu ao pai ou à mãe, quando estes
ser mal-educada. Isto
estão em casa, ou fala com a irmã mais velha. Se não estiver
também
é
perigoso.
Pode voltar a encontrar
ninguém em casa, sabe que deve telefonar à mãe.
esse senhor mais tarde e
— Sou eu, já cheguei. O dia correu bem. Vens tarde, mãe?
ver-se obrigada a ir de
— Não te aflijas, chegamos para jantar.
novo a casa dele!
Sofia não se aflige, pelo menos não tanto quanto a mãe, que
quer sempre saber se ela chegou bem. Mas a verdade é que Sofia não
gosta de estar sozinha em casa. Um dia, telefonou mais tarde, porque
tinha ido acompanhar a amiga Maria a casa desta, e toda a família
62
4
Voltarei, prometo!
Pode ser
na próxima
quarta-feira!
ficou preocupada. A mãe telefonou ao pai, que telefonou aos avós, e o
Deixe-me em
paz!
telefone não parava de tocar!
Ei!
Espera!
3. Lulu corre um grande risco ao ir a casa de um desconhecido
sem que os pais saibam onde ela está! Por isso faz bem em
fugir. Apercebe-se a tempo de que o comportamento daquele
— O que aconteceu? Perdeste-te?
homem não é normal. A melhor atitude é ir-se logo embora e
— Não, fui só acompanhar a Maria. Não é grave.
contar tudo!
— É, pois. Estávamos preocupados. As ruas não são seguras!
Sofia não percebeu o porquê da reacção da família. Se estava
Se te encontras na mesma situação de Lulu…
com a Maria, não havia razão para se preocuparem.
Nem todos os adultos são mal intencionados para com as
— A Maria mora a uns minutos daqui. Nem sequer tenho de
crianças, mesmo até quando lhes pedem que façam coisas que não
atravessar ruas. Já sou grande!
são do seu agrado: colocar embrulhos no autocarro ou ceder o lugar a
alguém. Mas, como no caso de Lulu, se encontrares um adulto que te
— De acordo, mas tens de nos avisar.
convida a ir a sua casa para te tirar fotografias, por exemplo, repara
Desde esse episódio que Sofia nunca mais se esquece de
que isso não é normal! Se se tratasse de um verdadeiro fotógrafo,
telefonar logo que chega a casa, para não afligir a família.
pediria primeiro licença aos teus pais.
Conta o que te sucedeu a alguém da tua confiança: aos pais,
Parece que anda por aí um homem estranho
avós, amigos ou à tua professora… Eles podem proteger-te!
Há já alguns dias que Sofia e as amigas ouvem falar de um
incidente estranho. Os alunos mais velhos falam de um homem que
5
63
anda sozinho pela rua e que mostra o “pirilau” a todos os transeuntes.
“É horrível”, comentam. Ninguém da escola o viu, mas sabem que usa
O primo do Tim importuna-o
um grande chapéu e que veste um impermeável cinzento, como nos
filmes policiais.
Olá,
sobrinho!
“E se fosse tudo uma invenção?” pergunta-se Sofia, que sabe
que, às vezes, as pessoas contam coisas que não são verdadeiras, só
Alex!
Olá,
pequenotes!
Que bom voltar
a ver-vos!
Com estás crescido, Tim!
Já tenho
9 anos!
para se sentirem importantes.
No ano anterior, uma menina tinha contado que se cruzara com
um ursinho castanho nas escadas do prédio onde morava, e que o
tinha adoptado. Mas não deixava que ninguém o visse, sob pretexto
de que o animal era muito selvagem. Com efeito, nunca ninguém o
viu e, quando agora lhe falam dele, ela diz que o mandou de volta
para a selva…
Que mão estupenda!
Sofia e as amigas acreditam que o ursinho possa ter existido,
mas acham menos provável que o “homem” exista. Ninguém anda
A que jogam?
À bisca!
Não é
para
bebés!
assim vestido na rua, e muito menos um adulto. Em casa, os pais de
Sofia têm cuidado para não andarem nus diante das filhas. Quando
tomam um duche, fecham sempre a porta da casa de banho. E,
quando se vestem, fazem-no sempre no quarto.
Quando era pequenina, Sofia tomava banho com eles, sem
problemas. Só que agora é diferente: ela própria não gosta que a
vejam nua: tem pudor. Ter pudor é querer guardar as coisas para si,
porque sentimos que os outros podem sentir-se incomodados. Sofia
sabe que pudor é parecido com delicadeza, mas que está relacionado
64
6
Uns dias mais tarde…
Oops! Desculpa, pensava
que a casa de banho estava
l
livre.
Entra, não
incomodas.
Eu saio já.
com assuntos mais sérios. Por isso, compreende que não se mostra o
“pirilau” às pessoas.
Depois de terem falado entre elas sobre o assunto, Sofia e as
amigas decidiram que se tratava de uma invenção. Esta resolução
tranquilizou-as. A verdade é que sentiam medo. Como o Natal estava
à porta, não faltavam tópicos de conversa: ideias sobre presentes, a
Ei!
Estou
nu!
Não te preocupes,
é que
me
esqueci
do meu
pente.
decoração da casa, esperar pelo Pai Natal…
Uau, és um miúdo muito giro.
Eh… Ainda
não acabei
o banho.
Ao querer salvar um gato
Com o decorrer das semanas, Sofia foi-se sentindo mais à
vontade na rua. Às vezes, fazia um desvio pela tabacaria para
comprar cromos ou ia até à loja de bombons. Um dia, quando já
estava escuro, porque em Dezembro os dias são mais curtos, Sofia
sentiu muito medo. Sentiu o coração a bater muito depressa e as
pernas a ficarem sem força. Tinha acabado de deixar as
amigas e tinha apressado o passo, porque estava muito
Olha, conheço umas carícias
que vais
adorar…
Vá, não sejas
tímido!
Mas antes
dá-me a
toalha.
frio.
Mesmo antes de chegar a casa, viu um gatinho
que parecia ferido. É claro que a menina quis
recolhê-lo, para poder tratar dele: todos os
animais eram seus protegidos. Baixou-se e
levantou os olhos, para ver se o gato tinha
65
7
Há várias maneiras de reagir quando alguém te incomodar
caído de alguma varanda. Foi então que viu o homem a mostrar o
como a Tim…
“pirilau”. Sofia não percebeu logo o que estava a passar-se. Começou
a tremer de medo e desatou a correr em direcção a casa.
1. Tim tem vergonha e medo. Como é possível que um primo tão
Felizmente, nesse dia, o pai não tinha ido trabalhar. Estava à
simpático se porte assim? Sente-se tão incomodado que não
espera dela para irem fazer as compras de Natal. Quando o pai abriu
reage. Assim sendo, o primo pode conseguir fazer dele o que
a porta, deu-se logo conta de que algo se passava. Como Sofia não
quiser….
conseguia falar, o pai pegou nela ao colo, para a acalmar. Sossegada
2. No início, Tim não se atreve a falar do caso. Só que, ao guardar
segredo, está a proteger o primo, que pode voltar a importuná-lo noutra ocasião ou fazer o mesmo a outros.
pelos braços e pelo cheiro característico do pai, Sofia desatou a chorar
convulsivamente, durante uns bons minutos, e fechou os olhos para
não ver a imagem do homem.
3. Tim sabe que o seu pai não anda longe. Pede-lhe ajuda e faz
Quando abriu os olhos de novo, pensou logo no gatinho que
muito bem: o papel dos pais é o de proteger os filhos.
ficara lá fora.
— Pai, esqueci-me do gatinho. Ele pode morrer.
Se te encontras na mesma situação de Tim…
— Que gato? Anda, vamos procurá-lo.
Nem todos os adultos têm más intenções quando acariciam
uma criança, sobretudo se forem da sua família. Na maioria das vezes
— Eu não vou.
é um gesto de ternura e de afecto. Um gesto de carinho.
— Então vou eu.
Mas, se um adulto ou um rapaz grande teu conhecido te vem
— Não, não quero ficar sozinha. Tenho medo do homem.
falar do teu corpo de forma incorrecta como sucedeu com o Tim, ou
— Que homem? Conta-me lá. Não estou a perceber.
fazer-te carícias que te incomodam, fala disso com alguém em quem
Sofia tentou explicar ao pai, por palavras suas, o que se
confies. E não hesites!!
passou: as histórias que circulavam na escola, e nas quais não tinha
acreditado, o gatinho ferido, e o homem do “pirilau” à mostra.
O teu corpo pertence-te e tens o direito de dizer:
Enquanto falava, voltou a sentir medo.
“Não, não me toques!”
— Sabes, pai, fui obrigada a vê-lo e agora já não posso fazer de
Mesmo a quem amas e respeitas.
conta que não o vi.
8
66
Palavras difíceis de compreender
Um senhor persegue a Luísa
Bom dia, Senhor Gomes.
Desta vez devolvo-lho no
prazo!
Perfeito, Luísa.
Gostaste do
livro?
Dá-me a tua mochila,
pequena. Eu levo-a.
Não é preciso,
não pesa muito.
A partir daquele dia, a vida de Sofia mudou. Em casa, todos
perceberam que o assunto era sério. Explicaram-lhe que a culpa não
Um pouco mais tarde…
era dela e que o homem era um “exibicionista”. O pai foi à esquadra,
Então, Luísa? Ainda estás aqui?
Levo-te a casa. Tenho aqui o
carro.
contar o que se tinha passado e “apresentar queixa”.
É muito amável,
mas não é
preciso!
Patinas muito bem.
Dá uma volta para eu ver.
— Aquilo não deve voltar a acontecer, nem contigo nem com as
outras crianças.
Oh, ainda sou
desajeitada
a
patinar.
Sofia achava tudo um pouco confuso:
— Diz-me, pai, porque será que aquilo mete tanto medo? Ele
não me fez nada, mas sinto-me como se ele me tivesse feito mal!
É muito complicado para uma menina compreender expressões
como
“agressão
sexual”
e
palavras
como
“traumatismo”
e
“exibicionista”. E também é muito complicado para um adulto explicá-lo através de palavras simples e tranquilizadoras. É claro que Sofia
não está sempre a pensar nisso. Mas já não vem sozinha da escola.
9
67
Tem medo e os pais não querem. Também não quer ficar sozinha
quando escurece e, à noite, dorme com uma luz acesa.
Confessa:
Espera! Tenho no carro
o capacete da minha
filha que já não lhe
serve.
Sabes que é perigoso
patinar sem
capacete?
— Dantes tinha medo de fantasmas e de dragões, embora
soubesse que não existiam. Agora tenho medo de uma coisa que sei
que existe.
Na escola, todos falam do que se passou, embora Sofia não
tenha querido contar nada. O pai e a mãe preveniram a professora e o
Sim, mas o
meu
primo vai
emprestar-me
o dele!
director, que reuniram todos os pais.
— Temos de proteger as crianças e de velar pela sua segurança.
O director decidiu que em todas as turmas se falaria do
assunto.
O
episódio
atingiu
proporções
tais
que
Sofia
se
sente
Anda, vamos ao meu carro que está ali no
parque.
simultaneamente aliviada e incomodada.
Aliviada, porque pensa que já não corre riscos: o homem não
Deixe-me,
tenho de ir
para casa.
deve voltar a aparecer, porque há muita vigilância policial. Sabe que
cometeu um erro e que, se voltar a fazer o mesmo, será punido.
Incomodada, porque queria esquecer o que se passou e que não se
falasse mais daquilo.
Talvez tudo pudesse voltar a ser como dantes e ela pudesse
ocupar-se dos animais, do Pai Natal, e dos ditados que detesta.
Porém, os pais dizem-lhe que é preciso falar do assunto e que
não há que ter vergonha…
68
10
Sê simpática
que eu
levo-te
a casa!
Uma aula diferente das outras
Há várias formas de reagir quando alguém te incomoda
como aconteceu com a Luísa…
No último dia de aulas antes das férias de Natal, Sofia foi para a
escola sem pasta, acompanhada pela mãe. No último dia, a professora
1. Luísa deixou-se convencer a subir para o carro do Sr. Gomes.
costumava mostrar um vídeo, os alunos levavam jogos e organizava-
Isto é muito perigoso, porque assim está à mercê dele... E, além
-se um lanche. Este ano seria diferente. O director propôs que a
disso, ninguém sabe onde ela está.
2. Completamente aturdida, Luísa consegue escapar. Mas, da
próxima vez que for à biblioteca, o Sr. Gomes pode incomodá-
manhã fosse consagrada à partilha de informações sobre “agressões
sexuais”.
— É indispensável que aprendam a defender-se de perigos
-la de novo.
3. E assim Luísa reage muito bem: vai ter com um agente da
polícia. Lembra-se que ele existe para fazer respeitar a lei e
para proteger quem tem problemas.
deste tipo. Para isso, terão de os conhecer — explica ele às crianças,
um pouco desiludidas por não poderem ir logo brincar…
Na turma de Sofia, a professora decidiu falar-lhes do corpo e
inventou uma canção como aquela que os alunos aprendem no
Se te encontras na mesma situação de Luísa…
Canadá, país que a professora conhece bem, porque viveu lá dois
Nem todos os adultos que se oferecem para ajudar uma criança
lhe querem fazer mal. Quase sempre só querem dar um bom
anos. Os alunos adoram as histórias que ela lhes conta sobre o
Canadá. A professora escreveu no quadro:
conselho ou ajudá-la, porque normalmente um adulto sabe mais que
uma criança. Mas se, como aconteceu com a Luísa, um adulto quiser
O meu corpo é meu,
que entres no seu carro e insiste, desconfia disso. Ninguém te deve
Não teu.
Que, dos pés à cabeça,
obrigar a ir com ele, mesmo que te peça com um grande sorriso.
Respeito te mereça.
Cantou
Nos lugares frequentados por ti (escola, piscina, parque infantil,
sozinha
a
primeira
vez
e
depois
os
alunos
ginásio, etc.), se vês que alguém tem um comportamento
acompanharam-na. A letra era fácil de decorar e a melodia era alegre.
estranho, afasta-te dele e di-lo a alguém de confiança!
Em seguida, a professora explicou que cada um é dono do seu corpo,
que este é precioso e único, que é necessário dar-lhe atenção e
11
69
respeitá-lo. É por isso que devemos lavá-lo, calçar-nos bem quando
Félix é molestado pelo seu monitor
está frio, não andar com sapatos apertados…
Ai! Artur, podes ajudar-me?
— Temos de cuidar bem dele, quando é saudável e quando está
Com certeza,
pequeno!
doente.
Depois, explica o que significa o respeito por si mesmo e pelo
outro.
— Vocês estão a respeitar os adultos quando evitam dar-lhes
encontrões, pisá-los, insultá-los. Não os enchem de sumo de tomate,
mesmo quando estão zangados com eles, pois não? Os adultos
também vos devem respeitar. Normalmente, estão atentos às vossas
necessidades e certificam-se de que vocês estão em segurança, para
que, um dia, vocês sejam adultos respeitadores das crianças. Todos
os seres vivos têm direito ao respeito e todos os seres humanos
Espera, vou ajustar-te o capacete.
devem aprender a dizer não aos maus-tratos e a protegerem-se.
Depois de todos os alunos terem compreendido bem a canção e
a noção de respeito, a professora fala das agressões sexuais dos
adultos sobre as crianças.
Quem são os bons e quem são os maus?
É obvio que a professora começou por falar do que aconteceu
com Sofia, que foi obrigada a ver o sexo do homem que lhe apareceu
na rua.
70
12
Já está,
fofinho!
Mas… porque é que ele
me dá tantas voltas?
— Este homem agrediu a Sofia, porque lhe impôs um
Ei, Félix! És o menino
querido do professor!
comportamento sexual desrespeitoso.
Bem, agora cada um vai escovar
o seu pónei!
Não troces!
Félix,
vem cá.
Sofia confirmou:
— É verdade, eu não queria ver, mas não tive alternativa.
?
A professora tranquilizou-a, dizendo-lhe que reagiu bem ao
fugir e ao contar tudo aos pais. Prosseguiu, explicando que certos
adultos, atingidos por uma doença que não se vê, não têm uma
sexualidade normal, ou seja, não se relacionam sexualmente com
outros adultos. Disse aos alunos:
— Essas pessoas consideram que as crianças são objectos e
utilizam-nas.
— Mas, se não podemos ver a sua doença, como sabemos que
Anda, a box do Trovão é aqui.
Tens a
certeza?
Dá-me um beijinho e
deixo-te
Não gosto
ir
de
embora.
beijos…
estão doentes? — perguntou um colega de Sofia.
— Esse é que é o problema — respondeu a professora. — Há
adultos que são perigosos para as crianças, mas não nos é possível
reconhecê-los.
— Mas — continuou uma aluna — de qualquer forma, são
sempre pessoas que não conhecemos. A minha mãe disse-me para
não falar com desconhecidos nem aceitar bombons na rua.
— Não é bem assim — contrapôs a professora. — Algumas
crianças são vítimas de agressões sexuais físicas e o autor é um
homem que elas conhecem, melhor ou pior, e do qual não
desconfiam. Pode ser um vizinho, um amigo dos pais.
As crianças ficaram muito agitadas. Perguntaram:
13
71
— Então, isso quer dizer que devemos ter medo de toda a
Há várias formas de reagir quando alguém te incomoda
gente, que todos os adultos podem ser maus?
como no caso de Félix …
A professora explicou que não se pode viver a desconfiar de
toda a gente. Há, contudo, algumas regras que devemos seguir, para
1. Félix, ao encontrar-se com a mãe, não lhe contou nada do que
nossa própria segurança.
aconteceu. É uma asneira! Como é que a mãe pode adivinhar
que o monitor o anda a apalpar?
— Quando vos propõem uma saída, seja por cinco minutos seja
por uma tarde, ou vocês sentem vontade de dizer que sim ou sentem
2. Félix empurra o monitor, o Artur, com força. É um pouco
necessidade de recusar. Se quiserem dizer que sim, perguntem-se
arriscado, porque o monitor é mais forte do que ele e pode
reagir com violência. Mas é essencial!!
duas coisas: “Será que o meu pai ou a minha mãe sabem onde vou?”
3. Félix sai a correr. Vai ter com a mãe, conta-lhe tudo o que se
e “Se houver perigo, será que alguém me virá ajudar?” Se
passou e vão ambos ter com o director do clube de equitação
responderem “não” a uma destas perguntas, devem dizer, sem se
expor-lhe o problema. É a melhor maneira de actuar. Isto vai
sentirem embaraçados: “Gostava bastante de ir mas, primeiro, tenho
fazer com que o Artur não incomode outras crianças!
de prevenir o meu pai ou a minha mãe.” Se, apesar de todas estas
precauções, não se sentirem seguros, não hesitem em telefonar.
Se te encontras na mesma situação de Félix….
Quando a profissão de um adulto é ensinar, deve transmitir-te
o saber. Pode dar conselhos e corrigir-te se te enganares. Mas mais
João está confuso
Naquele dia, Sofia e os amigos aprenderam muitas coisas que
os entristeceram, mesmo que a professora tenha tentado tranquilizá-
nada. Ora se, como no caso de Félix, um professor ou monitor usa a
sua profissão para te atacar e pedir-te coisas que não tem o direito de
pedir, isso é muito grave!
-los, dizendo-lhes o que fazer em determinadas circunstâncias.
Deves falar imediatamente com os teus pais ou com alguém da
Felizmente que, dentro de três dias, é Natal, e que a maioria deles se
apressa a esquecer tudo e a pensar só nas surpresas que vão
tua confiança. Juntos devem ir ter com o director do colégio ou do
centro desportivo.
encontrar debaixo do pinheiro e nas luzinhas que brilham…
E depois podem fazer uma denúncia na polícia.
72
14
Todos esquecem, menos João. Todas as noites, antes de
Ana tem um padrasto muito estranho
adormecer, pensa em tudo o que ouviu: “Isto tanto diz respeito às
raparigas, como aos rapazes, mesmo que o malfeitor seja um
Marc, podes levar a Ana à aula
de dança? Hoje chego tarde.
Sim,
sem problemas.
O cabelo assim
fica-te
bem.
Achas?
homem.” “Podemos ser agredidos por alguém que conhecemos bem e
de quem não desconfiamos.”
Eu não
gosto
muito.
João costuma sair todos os domingos à tarde com o seu tio
És igualzinha à tua mãe,
uma verdadeira
mulherPorque é
zinha
que ele
me diz
isso?
À noite…
Tiago, porque os pais trabalham ao domingo. O tio não tem filhos e
A tua mãe ainda
vai demorar, foi aos anos de uma
amiga…
Bem vou para
a cama.
Até
amanhã.
sempre se ocupou de João, que não tem irmãos nem irmãs. Quando
João era pequeno, o tio levava-o ao circo e a andar de bicicleta.
Agora, vão muitas vezes ao cinema.
Uma vez, o tio levou-o ao teatro e João passou uma tarde
memorável. Estava em cena uma peça de Molière e os actores
vestiam roupas da época. Havia muitas luzes e uma cortina vermelha
e enorme. No fim, todos aplaudiram de pé.
O tio prometeu voltar a levá-lo, e João espera por esse dia com
impaciência. Mas então, porque se sente ele tão inquieto, quando não
se colocava nenhumas questões antes da famosa aula sobre o corpo e
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73
o respeito? João pergunta-se se deve, ou não, desconfiar do tio, que
sempre foi muito gentil com ele.
Na rua, costuma pôr o braço nos ombros do sobrinho e, às
Anda ao meu
colo para dar-te um beijinho.
vezes, dá-lhe um beijo, sem justificação. Será que isso faz parte das
“agressões sexuais” de que falou a professora? Será que o tio tem
Já não tenho dois
anos.
Mas que
bicho lhe
mordeu?
O Marc
hoje anda
estranhíssimo.
ideias estranhas? Será que tem aquela doença que não se vê?
João já não consegue compreender nada e, nos domingos
seguintes, sente-se mal, mas não ousa dizer nada. Pensa e repensa
tudo o que ouviu, mas não consegue obter respostas. Depois do que
ouviu, tem a sensação de estar a misturar tudo: o sonho e a
realidade, os adultos e as crianças, os bons e os maus, o que faz bem
e o que faz mal…
Vens um bocadinho até à
minha cama? Sozinho
tenho
Estou
frio.
a dormir…
Ficar doente não é solução
A partir de então, João, que não consegue falar do que o aflige,
fica sempre doente aos domingos. Sabe que, quando está doente, a
mãe fica em casa. No primeiro domingo, tem uma crise de fígado.
Todos pensam que comeu chocolates a mais no Natal e que um dia
em casa o porá bom. No segundo domingo, tem dores de ouvidos.
Chamam o médico, que confirma que João tem uma otite e receita-lhe
um antibiótico. O tio Tiago vem vê-lo, muito aborrecido.
— Que maçada! Ficas sempre doente aos domingos.
74
16
Rápido! Espero-te
para vermos
um
DVD!
— É menos aborrecido do que faltar às aulas — contrapõe a
Há várias formas de reagir quando te importunam como à
mãe de João.
Ana…
No terceiro domingo, a otite, que ficara curada durante a
semana, reaparece. O médico está surpreendido.
1. Ana tem medo de desobedecer ao padrasto. Mas não se sente
bem com o convite de Marc. É perigoso. Marc pode esquecer-
— É estranho. A acção dos antibióticos costuma durar mais
tempo.
-se de que ela é uma criança e julgar que é uma mulher.
Decide prevenir João:
2. Ana protege-se fechando-se no seu quarto. Mas isso não basta.
— Se voltares a ter dores de ouvidos, teremos de fazer umas
Da próxima vez o padrasto pode ser mais insistente.
3. Então Ana ganha coragem e conta à mãe o que acontece. E fala
radiografias no hospital, para ver se tens alguma coisa mais grave.
João pergunta-se se uma radiografia aos ouvidos mostrará o
também com o pai. É a eles que compete defendê-la e protegêque
-la. É o que os pais devem fazer.
lhe
vai
na
cabeça.
“Talvez
eles
possam
ver
os
meus
pensamentos”, aflige-se.
João não quer que lhe vejam os pensamentos. Quer guardá-los
Se te encontras na mesma situação que a Ana…
Normalmente um padrasto não se comporta assim com os
filhos da sua mulher. É pouco frequente. Os pais, padrastos e
madrastas devem respeitar os seus filhos ou enteados.
para si, porque gosta do tio Tiago, apesar de ter ouvido palavras que
o incomodaram.
No quarto domingo, dói-lhe a barriga, mas não diz nada.
Se te encontras na mesma situação da Ana, deves falar
imediatamente com o teu pai e a mãe. Se não acreditarem em ti – o
que pode acontecer –, vai ter com algum dos teus avós ou a tua
professora e conta-lhe tudo. Ou com uma pessoa em quem confies!!
Quando o tio chega e diz que vão ao teatro festejar a cura, João tenta
mostrar boa cara.
— Vais ver que vais gostar — anima-o o tio. — É um
espectáculo com música, canções e muitas peripécias.
No táxi que os leva ao teatro, João evita sentar-se perto do tio,
ao invés do que fazia dantes.
Quando um membro da tua família (um padrasto, até um pai/mãe
— Mas, o que se passa contigo? Parece que tens medo de mim
ou irmão…) quer tocar-te, ficas a saber que tal não deve ser
permitido! Chama-se a isso “incesto”, e é penalizado por lei.
— comenta Tiago, inquieto por ver o sobrinho triste e preocupado.
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75
Então, João dá-se conta que tem medo da sua própria
imaginação e decide falar com o tio, no qual, no fundo, confia.
Uma conversa ao lanche
Breve Glossário
Assédio: É o facto de molestar frequentemente a mesma pessoa com
palavras ou acções.
Depois da peça de teatro, da qual João gostou muito, vão
lanchar a casa. Como de costume, o tio parou numa padaria para
Agressão: Ataque violento a alguém.
Impulso: Desejo muito profundo que se sente no interior e que nem
escolher dois bolos grandes: um merengue para si e um mil folhas
para o sobrinho. Instalam-se na cozinha e bebem chocolate quente.
sempre se consegue controlar.
Incesto: Esta palavra designa as relações sexuais entre membros da
— O que se passa, João? Nem pareces tu. Há já um mês que
mesma família. É proibido por lei.
estás doente e não creio que as otites expliquem tudo.
Lei: É uma norma obrigatória que diz o que temos direito de fazer e
— Como é que sabes? — pergunta João.
o que está proibido. Há muitas leis destinadas a proteger as
— Porque eu próprio, quando tenho algo que me preocupa, fico
crianças. O Estado é quem as promulga. Quem as não respeitar,
cansado e mais vulnerável. E isso faz-me ficar doente com mais
frequência.
corre o risco de ser castigado.
Menor: Tu és um menor, sabias? Um menor é uma criança com
João tenta então dizer ao tio que há adultos que não respeitam
menos de 18 anos. Estás sob a responsabilidade dos teus pais, que
as crianças e que, quando crianças de oito anos percebem isso, tudo
se torna muito complicado.
tomam as decisões importantes da tua vida.
Pedofilia: Chamamos «pedofilia» a qualquer atracção sexual de um
— Vocês, os adultos, nem sequer se dão conta — queixa-se o
adulto por crianças. Os actos de pedofilia são proibidos e
menino. — Ficamos muito inquietos com isso, porque depois achamos
que toda a gente é má e temos muito medo porque somos pequenos.
castigados por lei.
Polícia: É um serviço estatal encarregado de proteger as pessoas e de
— No entanto, com todos os desenhos animados horríveis que
fazer respeitar a lei. Os seus membros, os polícias, protegem as
vocês vêem na televisão, já deviam estar habituados! — contesta o
vítimas e podem prender e meter na cadeia quem se porta mal.
tio.
76
18
Toques: Emprega-se este termo para designar mimos ou carícias nas
partes íntimas do corpo.
— Não é a mesma coisa. Nós sabemos que um filme ou um
desenho
Violar: É obrigar alguém a ter relações sexuais usando a força, a
animado
não
são
verdadeiros.
Por
isso
os
vemos
tranquilamente.
violência ou a sedução e as promessas. A violação é crime e, como
O tio Tiago tenta compreender o que tem o sobrinho.
tal, penalizada pela lei.
— Achas que não te trato bem? Que te quero mal?
— Não, não, claro que és muito gentil comigo. Mas… às vezes…
não sei. A professora contou-nos que mesmo os rapazinhos podem
Delphine Saulière
Abusos sexuales, ¡no!
Madrid, San Pablo, 2005
(Tradução e adaptação)
ser… seguidos por homens que fazem coisas estranhas com o
“pirilau”. E também disse “O meu corpo é meu, não é teu!” —
acrescenta João, corando.
Aos poucos, o enigma vai-se esclarecendo.
João explica ao tio o que aconteceu com Sofia. Fala-lhe da aula
sobre o corpo e o respeito, e fala-lhe dos seus medos.
— Quando me pões a mão no ombro, eu acho que é normal
mas, agora que me disseram aquilo tudo, já não sei bem se é normal.
— Escuta, João. As manifestações de ternura entre um adulto e
uma criança são naturais, na maior parte dos casos. Penso que o
sabes bem. Mas, se algum dia te sentires pouco à vontade com
alguém, um parente ou um amigo, o melhor é falares disso, como
fizeste agora.
João fica muito aliviado por ter tido esta conversa.
19
77
João e Sofia perceberam tudo muito bem
Passaram-se vários meses desde “o episódio do homem”. É
assim que as crianças se referem ao sucedido. Nunca mais voltaram a
ver o homem e a vida retomou o seu curso normal. Os miúdos
dividem-se entre a escola e o parque. Quando está bom tempo,
andam de bicicleta, jogam às escondidas ou à macaca.
João continua a adorar passar os domingos de tarde com o tio e
Sofia vai novamente sozinha para a escola. De vez em quando, ainda
sente um pouco de medo, mas lembra-se da canção da professora e
sente-se logo melhor.
Para ter a certeza de que não esquece o refrão, às vezes
trauteia-o. Quando não lhe apetece tomar banho ou quando quer
muito vestir uma determinada roupa, canta “O meu corpo é meu, não
é teu.” É uma forma de aplicar os conselhos da professora.
Um dia, no fim do ano escolar, um jornalista veio à escola para
entrevistar os alunos. Recentemente, tinha acontecido algo de
semelhante e todos falavam disso: na televisão, na rádio e nos
jornais. Ninguém sabia como o jornalista tinha tido conhecimento do
“episódio do homem”, mas ele parecia estar ao corrente de tudo e foi
logo à sala da turma de Sofia.
— Podes contar-nos a tua aventura e o que aconteceu depois?
— perguntou o jornalista a Sofia.
Esta, muito envergonhada, olhou para a professora, que disse:
78
— Sofia, esta pode ser uma altura para as crianças dizerem não
aos adultos, quando se trata de coisa verdadeiramente importantes.
Encorajada por estas palavras, Sofia respondeu:
— Não, não quero contar.
O jornalista, um pouco desconcertado, insistiu:
— Mas então, ninguém quer falar?
— Eu tenho algo a dizer — lançou João. — É bom que sejamos
informados para nos podermos defender. Mas, aos oito anos, ainda
não somos adultos. Precisamos de sonhar, precisamos de acreditar
que os adultos são gentis e felizes. Se soubermos coisas demais, não
O pequeno urso
vamos querer crescer e isso é triste. Tranquilizem-nos. Tenham
atenção ao que mostram na televisão, ao que nos contam, às palavras
Este é o pequeno Urso. É um ursinho pequeno e querido. Tem pêlo
maravilhoso, fofinho, e umas patas macias de veludo. O pequeno Urso
gosta muito de brincar com os seus brinquedos.
que ouvimos.
Toda a turma aplaudiu João, incluindo a professora e o
jornalista, comovidos com tamanha sinceridade.
E, para que o jornalista não fosse embora de mãos a abanar,
adivinha o que lhe cantaram todos…
Virginie Dumont
J’ai peur du monsieur
Arles, Actes Sud Junior, 1997
(Tradução e adaptação)
21
79
O pequeno Urso também gosta de brincar com o seu amigo, o lobo
grande. O lobo grande gosta muito do Pequeno Urso. Tanto, que até se
agarra a ele. Dá beijinhos ao Pequeno Urso e acaricia-lhe o pêlo macio.
O lobo grande lambe o pequeno Urso. Faz-lhe cócegas e
o pequeno Urso ri-se.
22
O lobo grande deixa o pequeno Urso cavalgar nas suas costas. É muito
divertido e o pequeno Urso acha muita graça.
Não, não vou!
Lia acha que aquela manhã não está a começar nada bem.
Às vezes, o lobo grande quer fazer jogos esquisitos. Quer que o
pequeno Urso lhe dê um beijo no nariz grande e húmido.
Tim, o irmão mais velho, puxa-lhe os cabelos… só na brincadeira.
E Lia não suporta isso.
— Deixa-me! — grita. E ele puxa com mais força. Lia zanga-se e
morde-lhe a mão.
— Mãããe! — grita Tim. Então a mãe zanga-se com Lia!
— Gostas mais do Tim do que de mim! — diz ela a chorar.
No infantário também lhe sai tudo ao contrário. A educadora
preferida de Lia está doente. E Ana, a melhor amiga de Lia, está
muito esquisita. Quando Lia lhe pergunta:
— Vamos saltar à corda? — ela limita-se a abanar a cabeça e
começa a chorar. Mais tarde, fica com muitos pontinhos vermelhos na
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81
pele. Por isso, a mãe vem logo buscá-la e Lia tem de saltar à corda
E, por vezes, o lobo grande torna-se feroz. Rosna e mostra os dentes
afiados. O pequeno Urso sente medo.
sozinha.
Só quando o infantário acaba é que Lia repara que não tem
ninguém com quem ir para casa. De manhã, o pai trá-la a ela e à Ana,
e a mãe de Ana vai à tarde buscar as duas. Às vezes também vai para
casa com Maurício e a irmã mais velha deste, a Sofia.
— Quem é que vem hoje buscar-me? — pergunta Lia a Helena, a
outra educadora. Mas ela tem muito que fazer.
— Já vou tratar disso! — responde.
Lia espera, espera…
Só Maurício, do grupo de Lia, é que ainda lá está. E, por fim,
Sofia vem buscá-lo.
— Sofia, leva a Lia contigo, por favor! — grita Helena. —
O lobo grande deita o pequeno Urso à força no chão e estende-se
por cima dele. O lobo é muito pesado. Ai, faz doer.
O pequeno Urso quase não consegue respirar.
 Pára!  grita o pequeno Urso.  Não quero brincar a isto.
Telefonei à mãe, que disse que a Lia hoje podia ir convosco.
— Por causa dela, vou ter de fazer um desvio! — resmunga
Sofia.
Num cruzamento, Sofia diz a Lia:
— Conheces o caminho para casa daqui em diante, não? É sempre
em frente, já sabes.
Lia acena que sim com a cabeça. Também não deve ser muito
longe. De carro é muito rápido.
“E já tenho quase seis anos”, pensa Lia, depois de Sofia e
Maurício terem dobrado a esquina. “E, se calhar, a mãe vai depois
comigo à piscina. O dia tem estado tão quente…”
De repente, aparecem no céu umas nuvens grossas e escuras. E
depois começa a trovejar. Não muito, mas o suficiente para Lia ficar
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assustada. Detesta trovoadas quase tanto como detesta que lhe
 Chiu!  O lobo grande põe a pata grande na boca do pequeno Urso.
puxem os cabelos!
O caminho é mais longo do que Lia pensava. E a rua estreita por
onde segue parece não ter fim. A única distracção é um carro
metalizado que segue ao lado dela e está sempre a parar. Talvez o
homem esteja à procura do número de alguma porta.
Está a trovejar cada vez mais e começou a chover. Lia não tem
gabardine, por isso pára na entrada de uma casa. “Se a Sofia não me
tivesse deixado sozinha…”, pensa. “Mas será mesmo este o caminho
para casa?”
De repente, Lia deixou de ter a certeza. E, nessa tarde, a rua
também está um pouco sombria. Tão cinzenta e tão vazia! Não há
ninguém.
O pequeno Urso já não acha o lobo grande simpático. O lobo grande
magoa-o. Mete-lhe medo. Já não é nada querido.
O pequeno Urso já não quer que lhe faça festinhas. Já não quer
aconchegar-se ao lobo grande nem brincar com ele.
Mas a quem é que pode contar isto?
Só o homem no carro metalizado. Parou agora quase ao lado da
entrada onde ela está. A porta do condutor abre-se, o homem sai e
vem direito a Lia com um guarda-chuva na mão.
— Queres que te leve? — pergunta amavelmente. — Está a
chover bastante.
Lia diz que não com a cabeça. “Nunca vás com ninguém que não
conheças”, o pai e a mãe estão sempre a dizer-lhe. Mas ela conhece o
homem… De vista. Senta-se muitas vezes no banco do parque infantil.
E, além disso, com os cabelos louros encaracolados, parece-se um
pouco com o tio Floriano, o irmão do pai. Lia gosta muito do tio. Tem
também um sorriso tão agradável como o deste homem.
— Como é que te chamas? — pergunta o homem.
— Lia — responde ela.
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83
— E onde é que moras? — pergunta ele.
 Não podes dizer a ninguém que brincamos os dois  diz o lobo
grande  é o nosso segredo. Percebeste?
E mostra ao pequeno Urso os dentes pontiagudos e afiados.
— Na Rua das Flores — responde Lia.
— Também moro ali ao virar da rua — diz o homem sorrindo para
Lia. — É tolice andares pela rua à chuva.
— Eu não sou tola — diz Lia.
— Por isso mesmo — responde o homem.
Agora está a chover ainda mais e a ficar cada vez mais escuro.
O homem é mesmo simpático. Muito mais simpático do que todos
os que NÃO foram buscá-la.
Lia acena afirmativamente com a cabeça.
— Então vem para debaixo do meu guarda-chuva — diz o homem.
Ao dirigirem-se para o carro, Lia vê, do outro lado da rua, uma
papelaria. Ainda na semana passada a mãe foi lá às compras com ela.
Dali até casa não é mesmo nada longe.
O pequeno Urso está triste. Não quer revelar o segredo porque tem
medo dos dentes afiados. Mas tem ainda mais medo que o lobo grande
queira brincar com ele.
O que pode fazer o pequeno Urso?
Tem que encontrar alguém a quem possa contar o segredo!
Por isso, assim que o homem abre a porta do carro, Lia diz
depressa:
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26
— Obrigada. Por acaso já estou mesmo a chegar a casa.
E segue pelo passeio.
O pequeno Urso conta aos outros ursos o que o lobo grande faz.
Diz que o lobo o magoa.
E que tem brincadeiras com ele que não são nada bonitas.
Será que lhe acontece algo de mau? NÃO!
Acontece uma coisa boa: o grande lobo é castigado.
Já não pode fazer mal ao pequeno Urso.
“Ainda bem que contei tudo”, pensa o pequeno Urso.
Nesse momento, o homem agarra-lhe o braço com força. Tanta,
que magoa Lia a sério.
— Não, não, não! — grita Lia. — Largue-me!
O homem agora já não parece ser nada simpático e puxa-lhe
tanto pelo braço, que Lia tropeça e bate com a cabeça contra a porta
do carro.
AGORA JÁ NÃO TEM DE SENTIR MEDO!
— Não! — grita Lia o mais alto que pode, e morde-lhe a mão com
quanta força tem.
A porta da papelaria abre-se e sai uma mulher.
— O que é que se passa? — pergunta.
— Não quero ir no carro dele! Ele magoou-me! — diz Lia aos
soluços apontando para o homem, que entretanto se tinha metido no
carro e desaparecera.
— Conhecias o homem? — perguntou a senhora.
Lia abanou a cabeça.
— Nem por isso. Só o vi algumas vezes no parque infantil.
— Ainda bem que gritaste alto — diz a senhora.
— Também lhe mordi — diz Lia. — E até com muita força!
Marie Wabbes
Ich dachte, du bist mein Freund
Kinder vor sexuellem missbrauch schützen
Basel, Giessen, 1999
(Tradução e adaptação)
— Não podias ter feito melhor! — diz a senhora, passando-lhe as
mãos pelos cabelos.
Por sorte, Lia tem o telefone de casa na pasta da escola. A mãe
vem logo buscá-la. Quando sabe da história do homem de carro, fica
branca como a cal.
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85
À noite, Tim oferece a Lia o bonito urso de chocolate que
guardou do aniversário.
Quando Lia está deitada, o pai e a mãe sentam-se à sua beira.
— A minha menina grande — diz a mãe, passando as mãos pelos
cabelos de Lia — que já sabe defender-se tão bem.
— Estou muito orgulhoso de ti! — diz o pai. — E se alguém voltar
a falar contigo e te agarrar, tu foges depressa e gritas por socorro.
Prometido?
— Prometido! — murmura Lia, aconchegando-se com força nos
braços da mãe.
E adormece.
Veronica Ferres
Nein, mit Fremden geh ich nicht!
München, cbj, 2007
(Tradução e adaptação)
86
Pára! A mim, não!
A menina que deixou de sorrir
Hoje vem um polícia ao infantário. Um polícia a sério. As
crianças estão todas entusiasmadas.
ChamoChamo-me Lisa. A minha melhor amiga é a Paulina. Ela sabe
todos os meus segredos. Menos um. Um segredo horrível que não
— E traz uma placa sinalizadora a sério? Uma daquelas com que
se manda parar os carros? — pergunta Filipe.
posso contar a ninguém.
Divido este segredo com um adulto. Ele vê muitas vezes
— E um apito? — pergunta Carolina.
televisão comigo. Quer ser sempre ele a dardar-me banho. CompraCompra-me
— De certeza que é forte — Jonas coloca-se em frente dos
outros e faz-se de grande. Até abre os braços como se quisesse
mandar parar os carros.
bombons, brinquedos, e dádá-me dinheiro para eu ficar calada. Esse
adulto não se cansa de repetir que, se a minha mãe souber do nosso
segredo, vai deixar de gostar de mim e vai dizer que sou
sou uma
De repente, a porta abre-se e entra um homem alto, de calças
de ganga e t-shirt.
mentirosa e que depois eu vou para a cadeia.
Por isso, não digo nada. Já quase não falo. Já não rio, já não
— Chamo-me Soares — diz — e sou polícia.
sorrio (deixei de rir, deixei de sorrir?). A minha mãe perguntapergunta-me
As crianças rodeiam-no imediatamente e empurram-se, porque
muitas vezes:
– Está tudo bem, Lisa?
todas querem ficar à frente.
29
87
Eu não respondo. Tenho medo que o meu horrível segredo saia
da minha boca. Baixo a cabeça e aperto os dentes com força. O
— Onde está o uniforme? — pergunta Carolina. — Os polícias
têm de andar de uniforme!
segredo invade o meu corpo todo. TapaTapa-me os ouvidos, já não oiço
— Hoje não o trouxe, porque vinha visitar-vos aqui ao
música. TurvaTurva-me os olhos, já não leio os meus livros. EncheEnche-me o
infantário. E só uso uniforme quando estou de serviço — diz o Sr.
coração, já não brinco a nada.
Soares.
Todas as noites tenho pesadelos horríveis e acordo a suar.
Tenho vontade de me atirar para o passeio e de me partir como uma
— Mas é mesmo um polícia a sério? — pergunta Filipe
cautelosamente.
boneca de porcelana. SintoSinto-me tão suja por dentro, que passo horas
— Claro que sou um polícia a sério, mesmo sem uniforme —
e horas debaixo do chuveiro. Queria mudar de pele como se muda de
responde. — E como polícia, gostava hoje de treinar uma coisa
roupa. Gostava de me tornar novamente bonita e limpa. Gostava de
convosco.
sorrir como antes… como antes…
Curiosos, todos olham para o polícia.
Os dias e as semanas passam. As minhas notas descem. E,
— Já algum de vocês foi pisado, empurrado, ou levou um soco?
para esquecer, corro. Corro no parque, no passeio, nos corredores da
Todos levantam o braço.
escola… Mas não posso fugir para lado nenhum.
nenhum. O segredo agarraagarra-
— Eu, eu, eu! — gritam as crianças, e todas querem contar
-se a mim.
Na escola, ouço a voz da professora Marta.
qualquer coisa.
O polícia acena com a cabeça e diz:
E não consigo concentrarconcentrar-me. Num pedaço de papel, desenho
uma menina a correr, perseguida por um homem grande. Numa outra
— É sobre isso que vamos tratar hoje. Quando alguém vos faz
folha, rabisco uma menina a gritar, mas não se ouve, não passa
passa de
uma coisa dessas, vos agarra ou se aproxima demasiado, vocês têm
um desenho.
A sineta toca para o recreio. Deixo tudo e fujo lá para fora.
de dizer NÃO! e PÁRA! — explica o Sr. Soares. — E é isso mesmo que
vamos treinar agora.
Coloca-se à frente deles, respira fundo, olha de uma forma
A Paulina joga à bola com alguns colegas.
E eu sentosento-me na areia e garatujo uma menina…
A professora Marta vem sentarsentar-se ao meu lado.
88
decidida, bate com o pé direito no chão, estica o braço como para
fazer parar e diz:
30
— Pára! A mim não!
– A menina do teu desenho está a fazer o quê, Lisa?
As crianças olham-no, admiradas.
– Ela… ela está a fugir…
— Agora vamos treinar todos juntos! — diz o Sr. Soares.
– Sabes a história dessa menina? – pergunta a professora
Todas as crianças se colocam em posição, levantam a mão e
Marta.
– Sim… Ela acorda de noite com o ranger do soalho.
dizem:
Com um pontapé, apago a menina. Com a mão a tremer,
— Pára! A mim não!
— A partir de agora, vamos dizer isso em voz alta de cada vez
desenho um homem grande.
– E quem é este senhor?
senhor?
que alguém nos quiser molestar, agarrar ou rebaixar.
– É o novo namorado da mamã… Ele levantalevanta-se muitas vezes
Ainda o polícia não tinha acabado de falar quando Lucas entra
precipitadamente. Calca Maria, empurra Jonas para o lado e faz
menção de atirar-se a Carolina e a Filipe. Mas, de repente, Jonas vê-se rodeado por todos e, como combinado, dizem em coro:
de noite… AproximaAproxima-se do quarto da menina… o chão estala…
estala… estala… A menina escondeesconde-se no fundo da cama… Mesmo
aproximarem-tapando as orelhas, ela consegue ouvir os passos a aproximarem
-se…
— Pára! A mim, não!
Tenho tanto medo que as palavras recusem sair da minha
O polícia também repete com voz grossa.
boca. Mas a professora Marta pergunta ainda:
Lucas fica tão admirado! Mas rapidamente compreende o que
– E o que acontece depois à menina?
quer dizer a frase “Pára! A mim, não!”, e coloca-se, cabisbaixo, ao
A minha mão desenha uma cama grande.
lado dos outros.
– O senhor aproximaaproxima-se como um ladrão. DeitaDeita-se ao lado da
O polícia volta a repetir:
menina… E todas as vezes ela chora.
chora. Ela tenta pensar noutra coisa:
— Respirar fundo, firmar-se bem no chão, olhar o outro nos
num céu de Verão, num campo de flores… mas tudo fica preto.
olhos com coragem e dizer em voz alta: “Pára! A mim, não!” Assim, vão
mostrar que são fortes.
Falei demasiado. Fujo para a outra ponta do recreio e atiroatiro-me
contra a grade. Queria desaparecer. A professora Marta vem ter
Elisabeth Zöller
Stopp, das will ich nicht!
Hamburg, Ellermann, 2007
(Tradução e adaptação)
31
comigo.
– Lisa, conheces a menina da tua história?
89
RespondoRespondo-lhe com um pequenino “sim” hesitante.
– Estou neste momento a segurarsegurar-lhe a mão?
Não respondo. Desato aos soluços. A professora Marta
debruçadebruça-se sobre mim e apertaaperta-me nos braços. As lágrimas corremcorrem-me pela cara.
– A mamã vai continuar
continuar a gostar de mim? – pergunto entre
duas fungadelas.
– Claro que sim. Vamos explicarexplicar-lhe tudo.
– E vou ser sempre infeliz?
– Não, Lisa. Dentro de ti (no teu coração) há um sol que
ninguém consegue roubar.
– E vou para a cadeia?
– Claro que não. Não tens
tens culpa de nada.
Repito para mim: não tenho culpa de nada… não tenho culpa
de nada… não tenho culpa de nada.
A professora Marta limpalimpa-me as lágrimas. Agora que já
partilhei o meu segredo, dirdir-sese-ia que ele se partiu em dois. Vou
finalmente poder contácontá-lo à mamã. E talvez à Paulina.
Vou falar, vou falar, vou falar, até que se parta em mil
pedacinhos.
Gilles Tibo
La petite fille qui ne souriait plus
Paris, Éditions NordSud, 2006
(Tradução e adaptação)
90
O falso tio
Laura e o rato Desgosto
Não é nada fácil!
A Professora Carolina está a escrever números no quadro.
Como todas as manhãs, Laura abriu o armário para tirar um
vestido. Que horror! Adivinha o que encontrou escondido no fundo…
— Prestem muita atenção! — pede. — Estes exercícios são
difíceis.
Leo irrita-se mas não é por causa dos exercícios. Acha-os
Um grande rato dos esgotos, que ria com todos os dentes!
Laura quis gritar, chamar os pais, mas o grande ratão preveniu-a,
super-fáceis mas, mesmo assim, não consegue estar atento, e a culpa
é de Paulina, que está a mascar uma pastilha elástica. A meio da aula!
apontando-lhe um revólver à testa:
E faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo. A Professora
— Se gritas, mato-te. Se me denuncias, desfaço-te.
Carolina nem sequer ralha. Faz contas e mais contas, e não repara em
Então, Laura fechou a boca a cadeado, assim como o armário e
nada.
— Não podes mascar pastilha elástica nas aulas — sibila Leo.
todos os sentidos do seu corpo.
Ela bem queria pôr um cadeado no armário e esquecer, mas,
Paulina sorri, rebusca no bolso das calças, tira uma caixa e
estende-lha.
todas as manhãs e todas as noites, o rato gordo dos esgotos batia na
— Queres uma? — pergunta.
porta com a cabeça, até ela a abrir.
Ainda por cima!
33
91
— É proibido mascar nas aulas — insiste Leo com veemência.
À noite, todos os dias, ao abrir a porta para se vestir ou despir, lá
— Leo! Nada de conversas! — adverte a Professora Carolina.
estava o rato gordo. Laura despachava-se a tremer, mas não se atrevia
Leo assusta-se. Não gosta quando a professora fala com ele
daquela maneira.
— Mas a Paulina…
Morde depressa os lábios. Não se deve fazer queixa das
a dizer nada. Porquê? Talvez porque o rato grande dos esgotos não
fosse criança e se deva obedecer às pessoas crescidas, mesmo que
sejam dos esgotos, não é verdade? Era o que Laura pensava.
pessoas, costuma dizer o pai.
Uma noite, o rato disse-lhe, com olhos terríveis:
Ufa, não é nada fácil fazer sempre o que é correcto!
— Quero ser o teu ursinho. Dá-me um beijo de boa-noite, se
não, levas uma palmada.
Uma amiga assim, não!
Então Laura chorou, mas deu-lhe um beijo, o que achou horrível.
Felizmente, toca para o intervalo.
Só que ela já não sabia muito bem o que era horrível e o que era
— Vamos jogar? — pergunta Paulina.
agradável, porque, como já disse, ela tinha fechado, trancado e
Nem pensar!
bloqueado tudo dentro dela. O rato estava, evidentemente, todo
De certeza que a mãe não gosta que ele brinque com uma menina
satisfeito, e disse, enquanto fumava o seu charuto:
destas. Já chega ter de estar sentado ao lado dela.
— Todas as noites vens dar-me o meu beijo, minha linda. Assim
Às vezes, Paulina chega atrasada, está sempre a esquecer-se
das coisas e depois pega nas de Leo. Assim, sem pedir. Ocupa a
quero e assim tem de ser.
carteira toda, dá-lhe cotoveladas e empurra-o. Além disso, tem uma
O grande rato dos esgotos exigia coisas do arco-da-velha.
voz tão estridente! Se alguma coisa não está bem, começa aos
guinchos como uma sirene. Leo até fica com dores de ouvidos. Uma
vez por outra, conta em casa as confusões que Paulina arranja. A mãe
abana a cabeça e pergunta:
— Olha — dizia ele — lava-me estas peúgas fedorentas e põe-nas
a secar. Quero todas as tuas bonecas. Aborreço-me aqui sozinho
dentro do armário.
— Porque é que foste sentar-te ao lado dela?
Um dia, o rato disse-lhe:
Mas não foi Leo. Paulina é que simplesmente se sentou ao lado
— Traz-me um bombom. Traz-me o teu bolo de arroz e as tuas
dele e disse à Professora Carolina:
— O Leo é meu amigo.
batatas fritas.
E Laura lá lhos levou. Deu-lhe também os seus copos de leite, o
É mentira.
Leo não é amigo de ninguém, e muito menos daquela Paulina.
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lanche, o jantar e tudo o que ela comia de manhã, à tarde e à noite.
34
Um outro dia pediu-lhe o sono, depois, os seus lindos sonhos cor-de-rosa. Quando se é rato de esgoto, só se tem sonhos horríveis. Ele
— Então? — insiste Paulina. — Jogamos ou não jogamos?
Leonardo abana a cabeça. Paulina encolhe os ombros e afasta-se.
deu-lhe os pesadelos negros e ela deu-lhe os seus sonhos cor-de-rosa.
Os pais de Laura começaram a ficar preocupados porque a viam
emagrecer e perder o sono, sem saberem que Laura dava tudo ao rato
grande e cinzento dos esgotos. (Laura pusera-lhe o nome de “rato
Desgosto”).
Atrasadinha
As aulas finalmente acabaram. Leo apressa-se a vestir o casaco
e sai a correr.
— Espera por mim! — grita Paulina.
Certo dia, quando estava já muito magra por não comer nada e
entregar tudo ao rato, Laura soube que, se não falasse, algo de grave
lhe podia acontecer. Então disse à mãe:
Nem pensar!
Paulina mora na mesma rua de Leo.
Por vezes ia com ela para casa, mas a mãe ficava muito zangada
porque ele chegava sempre atrasado. E a culpa era de Paulina que é
— Mamã, tenho uma história para te contar. É a história do rato
uma atrasadinha. Equilibra-se em todos os muros de jardim e dá
pontapés a todas as latas velhas. Carrega no botão de todos os
Desgosto.
Contou-lhe toda a história. A mãe ficou horrorizada e chorou
todas as lágrimas que Laura tinha contido desde que decidira pôr a
carapaça e fechar-se. Fez muito bem às duas.
semáforos, embora não queira atravessar, só para obrigar os carros
a parar.
Às vezes, pára no quiosque dos jornais. O vendedor tem um
cachorrinho com o qual ela gosta de brincar. Quando vai embora, leva
Naquela noite, quando abriu a porta do armário, Laura viu que o
rato tinha desaparecido e só lá tinha deixado as peúgas, aquelas que
Laura tinha lavado. Eram tão pequeninas, que Laura franziu o
sempre qualquer coisa: um rebuçado ou um chupa-chupa. E não se
deve pedinchar. A mãe de Leo não gosta nada disso.
Leo olha novamente à sua volta.
Paulina está de joelhos no passeio.
sobrolho.
Encontrou uma pedra e começou a desenhar. Ela gosta de fazer
— Não pode ser! O rato Desgosto tinha uns pés assim tão
desenhos no chão e muitas vezes escreve coisas estúpidas: O Marcu
é palérma.
pequeninos… afinal era minúsculo!
Ela que pensava que ele era tão grande e que nada podia contra
ele! Afinal, bastou falar à mãe para ele desaparecer do armário, sem
35
Palerma é ela, que não sabe escrever direito! Mas o que é que
ele pode fazer?
Hoje, pelo menos, Leo livrou-se dela. Ainda bem!
93
O desconhecido no carro
pedir mais nada. Era mesmo um rato nojento, mas que agora já não
Um carro pára ao lado de Leo. O condutor baixa o vidro e faz-
lhe fazia medo nenhum.
— Vês, Laura — disse-lhe a mãe. — Quando alguém te pedir
-lhe sinal.
— Eh, espera aí!
alguma coisa, tens de te perguntar a ti própria, bem no fundo, se
Leo pára, hesitante. Está com uma sensação esquisita na
queres. Se alguma coisa em ti te diz que estás a ser forçada, ou que
barriga.
— Como é que te chamas? — pergunta o homem.
Leo preferia não responder, mas não pode ser. O homem é
adulto, e a avó está sempre a dizer que não se pode ser indelicado
magoam o teu corpo, não deves obedecer, pelo menos antes de falares
a alguém sobre isso. Mesmo que seja um Marciano, um rato dos
esgotos, um crocodilo… mesmo que seja uma pessoa importante.
com os adultos. De certeza que o desconhecido só quer perguntar o
E ainda lhe disse:
caminho. Por segurança, Leo dá um passo atrás, antes de murmurar:
— Chamo-me Leo.
O homem sai do carro. Leo sente os joelhos moles. Mas porquê?
— Se amanhã vires alguma coisa no armário, por favor, di-lo a
um adulto. A mim, ao pai, à madrinha, à professora… a quem quer
O homem ri amavelmente. Leo é que é um medricas, como o pai
que seja! E, se alguém te ameaçar na rua, pede socorro a um adulto,
costuma dizer. Leo não quer ser nenhum medricas.
entra numa loja ou noutro sítio qualquer. Nenhuma criança deve
— Leo? — volta a perguntar o homem.
submeter-se a um rato do esgoto. Percebeste, minha querida?
Leo faz um sinal afirmativo com a cabeça.
— Sim — prometeu Laura, tranquilizada com esta promessa.
— Óptimo — o homem parece
Nessa noite, Laura recuperou o bolo de arroz, os bombons, o seu
ficar contente.
—
Andava
mesmo
à
tua
procura!
—
ursinho, as batatas fritas. E o seu bom aspecto. Infelizmente durante
algum tempo, ainda continuou a ter os antigos pesadelos negros,
À
minha
procura?
—
admira-se Leo.
— Sim. A tua mãe mandou-me
vir buscar-te à escola e levar-te a
cheios de ratos dos esgotos, de ratinhos e de ameaças. Porque o ratão
Desgosto tinha-lhe roubado alguns dos seus sonhos cor-de-rosa.
Precisava de esperar algum tempo para os recuperar.
Sophie Carquain
casa sem demora.
Petites histoires pour devenir grand
O homem faz com a mão um
Paris, Ed. Albin Michel, 2003
(Tradução e adaptação)
sinal convidativo.
94
36
— Vá, entra, por favor.
Entrar? Nem pensar! Leo não pode ir com pessoas que não
conhece. A mãe proibiu-o. Pelo sim pelo não, dá outro passo atrás.
— Eu não o conheço — murmura.
“Esperemos que não fique ofendido”, pensa Leo. Não, até se ri!
— Sou um parvo! — exclama, batendo com a mão na testa. —
Ainda nem me apresentei. Ora bem, rapaz, eu sou o tio Zé!
O homem dá a volta ao carro e vem estender a mão a Leo. Leo
agarra-a, hesitante. O tio Zé? Leo esforça-se por se lembrar… Nunca
ouviu falar de nenhum tio Zé. O homem olha para ele como quem o
examina. Leo sente-se cada vez mais desconfortável com o seu olhar.
O grande segredo de Clarisse
— Não acredito! — diz o homem admirado. — A tua mãe nunca
falou de mim?
Leo sacode a cabeça.
Era uma vez uma ratinha chamada Clarisse. Clarisse tinha as
faces rosadas e usava um vestido e uns sapatos cor-de-rosa.
— Ah, então vou já dizer-lhe das boas! — diz o homem. — Mas
agora entra para o carro. Bem sabes que ela não gosta de esperar.
Era encantadora, com um pescoço delgado e olhos de gazela. As
É verdade. A mãe detesta esperar E se o homem sabe disso, é
porque deve conhecer a mãe. E, então, de certeza que é o tio Zé,
pessoas costumavam dizer-lhe:
— Como és meiga-linda-simpática! — e ainda: — Um dia vais
não? Sim. Mas, apesar de tudo… Este tio parece a Leo um pouco
suspeito.
ser arrasadora! — e, em frente da mãe, as pessoas diziam, abanando o
indicador:
— Cuidado com a sua Clarisse! Ela ainda vai despedaçar muitos
Acabou-se o teatro!
O tio desconhecido ainda segura a mão de Leo. É uma sensação
corações!
E Clarisse baixava os olhos sem compreender lá muito bem o
que queriam dizer. Despedaçar corações? Ela, a quem chamavam
meiga-linda-simpática? Os adultos tinham ideias estranhas. Às vezes
37
esquisita. Leo quer retirar a mão mas, nisto, o homem agarra-lhe o
braço e aperta-o com força. Aquilo dói!
— Ai! — queixa-se Leo.
Mas o homem continua a apertar.
95
— Vamos lá acabar com o teatro! — diz. De repente, a voz
deixou de soar simpática e ele quer arrastar Leo para o carro.
eram incómodos aqueles olhos brilhantes fixos nela, aqueles beijos no
pescoço, aquelas carícias nos braços, aquelas perguntas indiscretas:
Com o susto, Leo fica hirto. Finca os pés no chão, mas não
— Então, tens algum namorado lá na escola?
adianta. O homem é muito mais forte.
Clarisse rodava na sua saia cor-de-rosa comprida e fazia uma
— Vou dizer à tua mãe que te portaste muito mal! — ameaça.
Leo sente o bater do coração no peito. A mãe não gosta que Leo
careta.
se porte mal. Mas de certeza que gosta ainda menos que alguém lhe
puxe pelo braço. Ainda que esse alguém seja o tio Zé!
— Mais tarde — dizia — vou ser bailarina ou estrela de cinema.
Ou cantora de ópera. Hei-de ser sempre a mais linda do mundo!
Leo quer gritar, mas tem um nó na garganta e não consegue. O
— Tens muito tempo para pensares nisso — respondia a mãe.
homem já abriu a porta do carro. De repente, ouve-se um grito agudo
— Ainda só tens seis anos.
como uma sirene:
E dizia às pessoas:
— Deixem-na viver. Só tem seis anos.
Mas elas não deixaram Clarisse viver a vida.
Um dia, num escuro buraco de ratos, agarraram Clarisse e
cobriram-na de beijos e disseram-lhe:
— És meiga-linda-simpática!
Eram as mesmas palavras, mas não eram os mesmos gestos.
Clarisse sentiu bem a diferença. Viu bem a diferença entre os joelhos
daquele senhor e os joelhos dos outros adultos. Entre as carícias que
— Largue-o!
ele lhe fez nas pernas e por todo o corpo de ratinha cor-de-rosa.
O homem olha em volta.
Paulina chega a correr.
Aquelas festinhas eram estranhas: misturava festinhas que se fazem
— Largue-o! — guincha ela. — Ele é meu amigo!
aos ratinhos pequenos com as que fazem aos ratinhos grandes. As
Não é verdade.
Não
é
nada
palavras eram as mesmas mas não eram ditas da mesma maneira:
verdade
mas,
mesmo
assim,
-se contentíssimo por ela estar ali e por dizer aquilo.
Leo
sente-
murmurava-lhas ao ouvido, como a uma senhora. Era estranha aquela
mistura entre o horror e o prazer que tudo aquilo lhe inspirava. Mas
96
38
ela não disse que não. Não se diz que não a um senhor de gravata. Não
O homem fica furioso. Diz um palavrão e empurra Leo para o
se diz ‘não’ quando se é “meiga-linda-simpática” e quando se corre o
lado. Leo cai, mas o homem não se preocupa. Salta para o carro e
arranca a toda a velocidade com um chiar de pneus.
risco de vir a despedaçar corações.
Quando voltou para casa, Clarisse tinha a cabeça às avessas, e o
corpo também. Fechou-se no seu buraco de ratinha e enrolou-se sobre
si mesma a pensar no que o senhor lhe tinha dito:
Um tio estranho
Paulina estende a mão a Leo e ajuda-o a levantar-se.
— É um segredo só nosso. Se disseres a alguém, a tua mãe
morre. Juro-te.
— Magoaste-te? — quer saber.
Esquisito. Quando empurra alguém no recreio, não fica nada
E foi assim que, naquela noite, no buraquinho de ratos, o
segredo nasceu no fundo do peito. A princípio, era uma bolinha de
nada, que não se podia deixar escapar. Tinha de a esconder, fechar a
cadeado, para que nada pudesse acontecer à mãe.
preocupada.
— Não, está tudo bem — responde Leo.
Mas não é verdade. Dói-lhe a perna e o braço. E o nó na garganta
está agora maior. Apetece-lhe chorar.
— O que é que ele queria? — pergunta Paulina.
Naquele dia, Clarisse deixou de falar. Tinha medo que o segredo
Leo encolhe os ombros.
se escapasse e fosse destroçar o coração da mãe. À noite, passou a
— O homem disse que era o meu tio Zé — explica, inseguro.
exigir que fechassem a porta do seu quartinho cor-de-rosa com duas
— Que tio tão esquisito! — acha Paulina.
voltas na fechadura, não fosse ela falar durante o sonho. Mas também
pediu uma luz de vigia para não ficar sozinha com o seu segredo.
Leo é da mesma opinião. Por isso, desata a chorar. Entre soluços,
conta a história toda a Paulina.
— Ele disse que era teu tio? — exclama Paulina, indignada. —
Ela, que sempre saltitara, alegre e cor-de-rosa, passou a ficar
parada e lívida. “Nunca se sabe” pensava ela. “Se me mexer, o segredo
também se mexe e a bolinha rebenta.” Então, enrolou-se sobre si
mesma, os braços à volta dos joelhos, a cabeça caída sobre o peito,
com o segredo bem protegido.
Nunca na vida! Estava a mentir.
A mentir? Que susto! Leo quase entrara no carro de um
desconhecido.
— Não digas à minha mãe — pede ele. — De certeza que ia
ralhar comigo.
— Não acho! — diz Paulina com convicção. — Temos de contar-
O segredo na garganta continuou a engordar. Invadiu a
garganta até abafar os risos e os suspiros. Nas aulas, não respondia.
39
-lhe tudo!
Pega na mão de Leo e leva-o embora dali.
97
Um telefonema importante
O quiosque dos jornais é logo na esquina. Um cachorrinho vem ao
encontro das crianças a ladrar alegremente.
— Desculpa, Bobby — diz Paulina. — Hoje não tenho tempo para
Deixou de rir no recreio e, um dia, quando a sua amiga Alice contou,
a rir, que tinha visto o papá e a mamã a fazerem festinhas dentro da
cama, ela fugiu para o outro lado do recreio, com as mãos a tapar as
orelhas cor-de-rosa e o coração a bater.
brincar.
Dirige-se ao vendedor e pede-lhe:
— Podemos fazer um telefonema?
Clarisse perdeu o hábito de falar. Só ela sabia de quem era a
culpa: era da grande bola, que não parava de crescer.
— Vá lá — dizia a mãe. — Tens de comer! Tens de falar, se não,
— O quê? — admira-se o vendedor de jornais. — O que há assim
de tão importante?
vais morrer.
Mas estende o seu telefone a Paulina.
— O teu número de telefone! — pede Paulina impaciente.
Atemorizada, Clarisse olhava para ela e pensava: “Mas, se eu
falar, quem morre és tu, mãe. Foi o que me disse aquele senhor!”
Não é nada fácil. Leo baralha os números e só à terceira
Quando o médico veio para a examinar, Clarisse encolheu-se
tentativa é que acerta. Paulina marca. O coração de Leo bate com
força. E se o homem fosse mesmo um tio seu? Deve estar
zangadíssimo!
ainda mais sobre si mesma, a cabeça caída sobre o peito, numa dor
muda.
— É a mãe do Leo? — pergunta Paulina naquele momento. —
— Não, não, não — fez ela com a cabeça. E não disse mais nada.
Estamos a telefonar por causa do tio Zé.
Leo não consegue perceber o que a mãe
diz, mas a voz dela soa muito aflita. Paulina
Os grandes segredos são contagiosos, e a mãe de Clarisse
também deixou de sorrir.
— Vais matar-me de tristeza — dizia ela — por deixares de
ouve e acena com a cabeça.
— Foi o que pensámos. Não, está tudo
falar.
bem com o Leo. Sim, ficamos à espera no
quiosque.
E Clarisse voltava a pensar nas palavras do senhor: “Se falares, a
tua mãe morre.” Então qual dos adultos é que tinha razão?
Paulina devolve o telefone.
Um dia, Clarisse soube que o senhor do buraco escuro tinha ido
— Ela está zangada? — pergunta Leo,
preocupado.
— E de que maneira! — diz Paulina
para a prisão. Para um buraco ainda mais fundo. Naquele dia, o
segredo decidiu sair, e a bola rebentou.
energicamente. — Mas com o falso tio Zé.
98
40
As palavras saíram como puderam, todas ao mesmo tempo,
desordenadas e entre gritos. Foi preciso pô-las por ordem: sujeito,
verbo,
complemento.
“Brincaram
comigo!”
“Faltaram-me
ao
respeito!”, “Tocaram no meu corpo, nas minhas pernas. Fizeram coisas
Um caso de polícia
— Agora conta-me lá o que se passou! — pede o vendedor de
jornais.
Mas Leo ainda está muito agitado. Paulina, não, e conta a
história toda. O vendedor escuta, preocupado. Depois, pega
em mim que eu não queria”, “Ele disse que tu morrias.”
E foi a vez da mãe ficar muda, perante aquela terrível revelação.
— Nunca aceites um segredo que não venha de ti! Nunca deves
novamente no telefone.
— Isto é um caso para a polícia! — explica, e começa a marcar o
número.
acreditar num adulto que mexe no teu corpo. Há pessoas que são más
Polícia? Oh, não! Leo nunca teve nada com a polícia. Esperemos
com as crianças e que as fazem acreditar em coisas incríveis. Se
que não seja difícil. Paulina parece não se preocupar com isso. Já
alguém te fizer festas que te perturbem, deves contar a uma pessoa
está ajoelhada no passeio a desenhar. É tão corajosa! O cãozinho
crescida… imediatamente! A mim, ao pai, à tua madrinha, ou mesmo
a uma amiga, se não, isso começa a crescer e a inchar dentro de ti
como uma bola de tristeza.
lambe a mão de Leo. Este debruça-se, faz-lhe festinhas, e vai
ficando mais calmo.
— Leo!
A mãe chega esbaforida. Leo corre para ela. A mãe pega nele ao
Com o tempo, Clarisse começou a pintar, a brincar, a desenhar,
a comer, a falar direito: sujeito, verbo, complemento. O corpo e o
espírito tinham recuperado a agilidade de uma ginasta. Sentia-se tão
leve, sem aquele horrível segredo! Mais tarde, a ratinha cor-de-rosa
voltou a ter segredos de rapariga.
colo e abraça-o com muita força.
— Estou tão contente por não te ter acontecido nada! — repete
a mãe constantemente, chorando e rindo ao mesmo tempo.
Um carro da polícia pára ao lado do quiosque e dois polícias saem
precipitadamente. Leo tem de contar a história outra vez mas,
aconchegado nos braços da mãe, já não é tão difícil. Os polícias
Os verdadeiros segredos são estes: os que são criados por nós e
querem saber tudo ao pormenor. O que o homem disse, como era, que
carro tinha. O carro! Era ameaçador mas Leo nunca o tinha visto. E é
não impostos à força.
tudo de que se lembra.
Paulina diz então:
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Ed. Albin Michel, 2003
(Tradução e adaptação)
41
— O carro era azul e até tenho a matrícula.
Aponta para o passeio. Tinha escrito a matrícula com a pedra.
— Céus! És esperta! — elogiam os polícias. A mãe também acha.
99
— Nem sei como posso agradecer-te — diz. — Ainda bem que
tomaste conta do Leo.
— Mas tenho mesmo de tomar! — diz Paulina. — O Leo é meu
amigo.
Leo sente um calor na barriga e está muito contente por ser
amigo de Paulina.
Tanta coisa!
A Professora Carolina está a explicar as contas, mas Leo não
consegue prestar atenção.
Nos últimos dias aconteceram muitas coisas e é nisso que está a
pensar.
A polícia conseguiu prender aquele falso tio.
O anotar da matrícula por Paulina ajudou.
O homem era um temido criminoso que a polícia procurava há já
algum tempo.
Agora, encontra-se na prisão, e já não pode fazer nada a Leo
nem a outras crianças.
Ainda bem que Leo não guardou a história para si!
A mãe quis passar a ir buscá-lo sempre à escola.
Felizmente conseguiu convencê-la de que não é preciso, porque
vai sempre para casa com Paulina.
“E se acontecer alguma coisa, venham sempre ter comigo”, disse
o simpático vendedor de jornais.
Isso fazem eles, mesmo não tendo acontecido nada! Comem um
rebuçado ou um chupa-chupa e brincam com o Bobby.
100
Leo desenhou um cãozinho no passeio ao lado do quiosque e
Paulina escreveu por baixo:
O Bobi é crido.
Nunca acompanhes um desconhecido!
Querida é ela, mesmo que ainda não escreva muito bem!
Claro que, agora, Leo chega um pouco mais tarde a casa, mas a
Lisa tem seis anos e já vai à escola. O Pedro é o melhor amigo de
mãe não ralha. Fica contente por ele ter uma amiga tão simpática.
Entretanto, a Professora Carolina acabou a explicação.
Lisa e os dois costumam brincar muitas vezes juntos.
Lisa toma todos os dias o pequeno-almoço
almoço com os pais. Um dia, o
— Leo, começa a trabalhar!
Paulina já está a fazer as contas. Masca uma pastilha elástica e
pai leu no jornal que uma criança tinha sido raptada. Diz
Diz-lhe então:
— Nunca acompanhes alguém que não conheças! Não abras a
porta quando estiveres sozinha! Nunca entres para o carro de um
desconhecido! Nem todos os adultos são bons para as crianças.
faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo!
E ainda bem! Assim, Leo sabe que ela está ao lado dele.
E, satisfeito, debruça-se sobre os exercícios.
Também há pessoas que tentam atrair meninos e meninas com doces
e prendas. Depois agarram-nos, possivelmente
ivelmente tiram
tiram-lhes a roupa e
Frauke Nahrgang
magoam-nos muito.
Nein, ich geh nicht mit, ich kenn dich nicht!
Lisa presta muita atenção.
Um dia, ao regressar da escola, pára um carro ao lado dela. O
Würzburg, Arena Verlag, 2007
(Tradução e adaptação)
condutor, muito simpático, diz-lhe:
43
101
— Olha, tenho uma coisa para ti. Queres vir comigo?
Mas Lisa não entra no carro.
Nunca acompanho nenhum desconhecido.
Uma vez, a mãe de Lisa foi às compras. Lisa prefere ficar a
brincar com o comboio e com o ursinho, por isso fica sozinha em casa.
Pouco depois da mãe sair, tocam de repente à porta. Lisa pensa:
A mamã tem chave.
E não abre a porta.
Não abro a porta quando a minha mãe não está em casa.
Uma vez, Pedro e Lisa estavam a construiu um grande castelo na
caixa de areia.
Um homem vem sentar-se à beira e fica a olhar para eles
durante muito tempo.
As crianças já o tinham visto.
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Ele costuma ajudá-los a fazer coisas na areia e fala-lhes dos
seus coelhos fofinhos.
Tens um segredo?
segredo?
Tens um segredo? Se tens, é um segredo bom, ou um
— Se vierem comigo, dou-vos um!
Pedro prefere o gato que tem em casa mas há muito que Lisa
queria ter um coelhinho…
segredo mau?
Sabias que os segredos bons são coisas que te podem fazer
muito feliz, a ti e às outras pessoas? Sabes algum segredo bom?
E Lisa vai com ele.
Se guardas segredo acerca da prenda que compraste para o
teu melhor amigo, ou para a tua mãe, isso é um segredo bom ou
O homem agarra Lisa com força pela mão.
Ela tem de correr porque o homem caminha a passos largos. Já
não parece ser nada simpático. Passado pouco tempo, chegam a casa
um segredo mau?
É um segredo bom! É divertido guardar este tipo de
segredos porque vai ser bom ver o sorriso da pessoa quando
dele.
— Onde é que tem os coelhinhos? — pergunta Lisa cheia de
receber a sua prenda.
medo.
☺☺☺☺☺
A porta da rua fecha-se atrás deles.
Consegues lembrar-te de mais segredos que seja divertido
Não há coelhinhos nenhuns, ele mentiu.
guardar?
Lisa está com um medo terrível e chora e grita pela mãe.
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Guardar segredo de uma festa-surpresa que preparaste para
Mas ninguém a ouve.
O homem grande aproxima-se cada vez mais de Lisa e agarra-a
a tua irmã ou para o teu irmão pode ser muito divertido. Imagina
a sua cara de espanto quando todos os convidados gritarem
com força.
Entretanto, Pedro continua na caixa de areia mas já não lhe
“Surpresa!”
E o que achas daquela saudação especial que só tu e o teu
melhor amigo conhecem? Seria correcto guardar este segredo?
apetece brincar. Corre a casa dos pais de Lisa e conta-lhes que ela
foi com um homem. O pai chama imediatamente a polícia.
Ao fim de poucos minutos, ouvem o carro da polícia chegar.
Eu acho que sim! Os apertos de mãos entre bons amigos são
segredos divertidos!
Pedro consegue dizer exactamente aos agentes da polícia como
é que o homem é, e que tem uma bicicleta enferrujada com uma
☺☺☺☺☺
buzina. E lembra-se da direcção em que o homem seguiu com Lisa.
Os polícias partem imediatamente com os pais e com Pedro. Já
Queres saber o meu segredo? A sério?
Eu gosto de dormir abraçado ao meu ursinho de peluche,
que se chama Artur. Quando tenho medo, o Artur aquece-me e
faz-me companhia.
está a anoitecer. E juntos palmilham as ruas escuras. Os pais estão
desesperados.
De repente, Pedro descobre a bicicleta velha com a buzina
encostada contra a parede de uma casa. Os polícias entram na casa.
E tu? Tens algum segredo bom?
☺☺☺☺☺
O que é um segredo mau?
Sabias que os segredos maus são coisas que nos fazem
sentir mal, por dentro? A única coisa que podemos fazer para nos
Felizmente não demoram a encontrar Lisa, que está completamente
transtornada.
Só quando a mãe pega nela ao colo é que se acalma. O homem é
levado para o posto da polícia.
Pedro fica muito orgulhoso quando os pais de Lisa o elogiam e
lhe agradecem por ter estado atento.
sentirmos melhor é contar este segredo a um adulto.
Se guardasses o segredo de alguém que te magoou, te
Depois, apressam-se a sair sem demora daquela casa sombria e
levam Pedro a casa.
agarrou ou te deu um pontapé, isso seria um segredo bom, ou um
Nunca mais vou com alguém que não conheço!
segredo mau?
Ursula Kirchberg
Exacto, seria um segredo mau, porque não está certo que
Geh nie mit einem Fremden mit
München, Ellermann, 1985
(Tradução e adaptação)
alguém te maltrate.
104
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☺☺☺☺☺
O que farias se visses uns matulões a roubar o lanche de um
colega teu, no recreio? Achas bem guardar este segredo? Não, isso
estaria errado!
Não está certo que os rapazes mais crescidos se aproveitem
dessa vantagem para ficar com uma coisa que não lhes pertence.
☺☺☺☺☺
Consegues pensar em outro tipo de segredo mau?
O que aconteceria se alguém te tocasse de uma forma que te
incomodasse e te fizesse sentir mal, por dentro?
Correr e contar
Este tipo de segredo é um segredo mau e isso quer dizer
que é preciso a ajuda de um adulto para nos sentirmos melhor.
Aos sábados, quando acabo a aula de dança, apanho o
autocarro para ir para casa. Depois de me sentar, passo o tempo a
olhar pela janela. Entretenho-me a ver as pessoas e os carros que
Achas que está certo guardar um segredo mau, apenas
porque alguém te pede que não contes nada?
Claro que não! Não está certo que alguém que fez algo que
não devia ainda te peça para guardares segredo. É um segredo
passam.
mau, e tens de contá-lo.
Um dia, estava tão distraída que nem dei por um senhor,
igual a tantos outros, que se sentou a meu lado. Faltavam duas ou
três paragens para a minha casa quando, de repente, esse senhor
igual
a
tantos
outros,
começou
a
tocar-me
nas
pernas
☺☺☺☺☺
E quem poderá ser o adulto a quem possas contar o teu
segredo?
Deve ser alguém em quem confies, como a tua mãe ou o teu
pai, a tua tia ou o teu tio, ou mesmo um professor.
disfarçadamente. Fiquei assustadíssima.
Contar um segredo mau é fazer uma coisa boa!
Levantei-me logo que pude e pedi-lhe que me deixasse
☺☺☺☺☺
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Não te esqueças que guardar um segredo pode ser
passar; ao sair do lugar, ainda senti as suas manápulas.
divertido, se for acerca de uma coisa que te dê felicidade a ti ou a
Sentia uma enorme raiva, mas corri até à porta e carreguei
outras pessoas.
Mas se for um segredo que te magoe, te faça sentir triste ou
várias vezes na campainha.
Felizmente que o autocarro parou.
te meta medo, vais sentir-te melhor se o contares a alguém!
Talvez seja muito difícil para ti contar o segredo a um
adulto. Por isso, tens de ser corajoso.
E lembra-te: quando contares o teu segredo a alguém, o teu
problema vai ser resolvido.
Tens algum segredo?
E se tens, é bom ou mau?
Saltei para o passeio e iniciei uma correria louca, em direcção
Jennifer Moore-Mallinos
Tens um segredo?
Lisboa, Livros Horizonte, 2006
(Adaptação)
a casa.
Sentia que aquele senhor me perseguia.
Quando cheguei a casa, a minha mãe estava à porta com o
saco das compras.
Quando me beijou, desatei a chorar com todas as minhas
forças.
— O que se passa, filha? Por favor não chores, fala…
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— Foi horrível, mãe…
No meu corpo não se toca!
— O que é, filha? Conta-me!
— Um senhor, mãe, um senhor…
O teu corpo só a ti pertence.
— Que senhor, filha? O que te fez ele?
Aprende, em cinco lições, como ele deve ser respeitado.
— Tocou-me nas pernas e no rabo.
Lição nº 1: és tu que decides quem pode vê-lo ou tocá-lo
— Cretino!
As pessoas terão de acostumar-se a que feches a porta do quarto
— Saí a correr do autocarro logo que pude.
de banho ou a que não queiras ser abraçada constantemente. Terão de
— Foste muito corajosa, filha.
aceitar que não há nada de estranho na tua atitude, e que apenas pedes
— Enquanto corria, pensava que não iria falar disto a
que respeitem a tua intimidade. Todas as pessoas têm direito à sua
intimidade, incluindo os adultos! À medida que vais crescendo, vais
ninguém… Sentia vergonha.
tendo mais consciência do teu corpo. Sabes que estás a mudar e tornas-te
— Vergonha? Ele é que devia ter vergonha! Foi ele que
cometeu um abuso. Fizeste muito bem em fugir e em contar-me
mais recatada.
Nesta altura, preferes que não vejam o teu corpo. Tens de fazer
um esforço para te habituares à tua nova imagem e dispensas bem os
tudo. Obrigada por confiares em mim!
comentários!
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A minha mãe disse que todas as raparigas e rapazes que
Lição nº 2: estabelece limites com os rapazes
sofrem abusos deveriam ter a coragem de fazer o que eu fiz: ir a
Dantes, gostavas de brincar com eles de forma um pouco
abrutalhada, inclusive de “brincar aos médicos”. Agora é diferente! Fá-
correr pedir ajuda.
-los perceber que alguns gestos que fazem já não te agradam. Como
podes fazê-lo? Dizendo-lhes simplesmente “não”.
Ninguém, nem sequer os meus familiares e amigos, tem o
direito de tocar no meu corpo contra a minha vontade.
É verdade que os rapazes sentem curiosidade ou atracção pelas
NINGUÉM!
mudanças do teu corpo. Mas isso não lhes dá o direito de te levantarem a
saia ou de tentar tocar no teu peito, para “ver como é” ou para se
divertirem.
Achas que eles gostariam que lhes baixasses as calças ou que
tentasses tocar-lhes?
Lição nº 3: escuta os teus sentimentos
Confia em ti. Se o gesto de algum adulto ou de algum rapaz, seja
quem for, te incomodar ou te meter medo, mesmo que sejam amáveis
contigo e que os conheças bem, interrompe-o logo.
Ninguém tem o direito de te tocar ou de te obrigar a fazer coisas
que não queres.
Lição nº 4: aprende a detectar os gestos suspeitos dos outros
Não há problema nenhum num beijo ou numa carícia, se te
agradarem e se te parecem correctos. Mas se um adulto te obrigar a tirar
Gladys Herrera Patiño
a roupa, tentar tocar numa parte íntima do teu corpo, ou te pedir que o
Bilbao, Desclée de Brouwer, 2005
(Tradução e adaptação)
Correr y contar
acaricies, nem pensar!
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Lição nº 5: sê prudente
Não acompanhes desconhecidos ou pessoas que conheces mal.
Diz sempre aos teus pais onde estás e para onde vais. Antes de fazer
alguma coisa, pergunta-te sempre se os teus pais estariam de acordo.
Nunca vás para lugares onde ninguém te possa ajudar, caso
necessites. Nunca guardes um segredo que te faz sentir mal.
FUI VÍTIMA DE MAUS TRATOS!
Se te obrigaram a fazer coisas de carácter sexual, isso é muito
A história do senhor demasiado gentil
grave. Ninguém tem o direito de tratar uma criança assim e muito menos
um adulto o pode fazer. A lei proíbe-o. Não te sintas responsável, de
O padeiro da esquina da rua era muito gentil e gostava muito
de crianças. Sabia ouvi-las como ninguém e ajudava-as nos trabalhos
de casa. Dava-lhes gomas, bombons, chocolates. É fácil gostar de
alguém que nos dá coisas sem pedir nada em troca.
maneira alguma. Não tens culpa. O teu agressor é que tem de dar
explicações. É uma pessoa mentalmente doente que precisa de
tratamento.
Deves falar sempre sobre o que te aconteceu. O silêncio seria um
O senhor gentil enfiava as mãos no pote de vidro e tirava
guloseimas “só para ti”. E sorria, gentil, a ver as crianças a comer,
peso demasiado grande para ti. Não vais conseguir superar sozinha o que
se passou e precisarás de ajuda.
como se fosse o melhor espectáculo do mundo. O senhor parecia o
A única forma de a conseguir é contar o sucedido. Tens de falar
caçador que Tomé vira num filme. O caçador tinha domado um tigre
com alguém em quem confies: os teus pais, os teus irmãos, um amigo, a
bebé, dando-lhe um bombom de mel todos os dias. Quando o tigre
enfermeira da escola, um professor, uma das tuas tias, a mãe de uma
se deu conta, era demasiado tarde. Já estava prisioneiro do caçador.
amiga...
Todos os domingos, Tomé ia ao padeiro comprar pão e
Há muitos adultos que podem ajudar-te. Tens medo de que não
queques de chocolate. O padeiro dava-lhe um saco de gomas de
acreditem em ti? Isso não costuma acontecer, mas, caso aconteça, fala
todas as cores e feitios “só para pessoas especiais, como tu.
com outra pessoa, até encontrares alguém que te escute.
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Rapazinhos bonitos e inteligentes”. E acariciava os cabelos de Tomé,
Mesmo que gostes da pessoa que te fez mal, tens de contar o que
com o mesmo olhar do caçador de tigres.
se passou. Pode ser que não o faças por ter medo das consequências que
Quando chegava a casa, Tomé punha tudo em cima da mesa da
o teu relato teria para a tua família. A tua reacção é perfeitamente
cozinha. Tudo menos o saquinho de gomas. Este, escondia-o em cima
compreensível!
do armário dos brinquedos, como fazia com os segredos que
Contudo, o que está a acontecer contigo é anormal. Tens de
guardava para si.
acabar com a situação. Há coisas proibidas que não devem fazer-se! Se
as contares, hão-de ajudar-te a encontrar soluções para ti e para os que te
rodeiam.
É que para o Tomé aquele saquinho significava que outros
adultos gostavam dele, além dos pais. E todas as crianças ficam
contentes com isso.
Catherine Schor, psicóloga clínica
Tomé não sabia bem era como chamar a esta relação entre
uma criança e um adulto. Ternura? Afecto? Amizade? Um dia, ao
regressar da escola, perguntou à mãe:
— Uma criança pode ser amiga de um adulto? Só amiga?
A mãe franziu as sobrancelhas e respondeu:
Séverine Clochard
¡Vivan las chicas! : ¡la guía de las que pronto serán adolescentes!
[Madrid] : Marenostrum, D.L. 2008
(tradução e adaptação)
— A amizade é uma troca entre duas pessoas. Uma troca entre
iguais. Uma criança não viveu as mesmas coisas que um adulto viveu.
Uma amizade assim não é comum.
Como não se aprisiona uma criança só com batatas fritas,
gomas ou pãezinhos, o padeiro mostrou-lhe um dia o forno e a massa
a levedar.
E acariciou os cabelos do menino com um brilho cruel no olhar,
embora sorrisse gentilmente, como sempre.
Enquanto o homem pegava nele ao colo, o menino pensava
numa história que lera, na qual um tigre queria matar um menino.
— Se fores simpático e não disseres nada a ninguém, dar-te-ei
tudo o que quiseres.
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Foi então que uma sirene começou a tocar dentro de Tomé.
Uma sirene que lhe dizia “Põe-te a andar! Põe-te a andar!” E Tomé
saiu a correr da padaria.
Nesse dia, aprendeu que os génios bons que concedem
desejos só existem nos contos de fadas e não na padaria da esquina.
Percebeu por que razão os pais lhe diziam para não aceitar
prendas ou guloseimas de desconhecidos.
Sejam elas quais forem.
É que alguns adultos esperam, em segredo, que lhes dês em
troca algo que vale muito mais do que bombons de três euros.
Querem um pouco de ti.
O que não pode ser!
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand (2)
Paris, Albin Michel, 2005
(Tradução e adaptação)
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Eu, da cabeça aos pés.