CAPÍTULO 1
Vamos lá ver o que ela guarda no armário dos medicamentos.
Quer dizer, já que aqui estou…
Mas cuidado. Antes de acender a luz, é preciso fechar a porta
da casa de banho. O resto do apartamento está completamente às
escuras. É melhor continuar assim.
Que temos aqui? Loções, cremes hidratantes, batom para o
cieiro. E os medicamentos? Amoxicilina para uma infeção respiratória, ibuprofeno… Lorazepam para a ansiedade…
A Diana sofre de ansiedade? Que raio de motivo terá ela para
andar ansiosa? É a mulher mais equilibrada que conheço.
E isto, o que é? Cerazette para… contraceção. Pílula? A Diana
toma a pílula? Nunca mo disse. Comigo é que não tem sexo. Pelo
menos, ainda não. Com quem andará ela então a dormir?
É sempre a mesma história, Diana. A cada vez que julgo ter-te
compreendido, lembras-me que és um mistério. «Um mistério
embrulhado numa charada dentro de um enigma» — era uma
deixa do Joe Pesci em JFK, embora Winston Churchill o tenha
dito primeiro em 1939, na rádio, para descrever a Rússia. O presidente Roosevelt, que durante a guerra se tornou muito próximo
de Churchill, escreveu-lhe uma vez: «É divertido partilhar a década consigo.»
É divertido partilhar a década contigo, Diana. Mas agora desculpa-me enquanto vasculho o armário do teu quarto.
A mesma história: entrar, fechar a porta e só depois acender
a luz, para não se ver no resto do apartamento.
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Uau. Cem pares, no mínimo, de sapatos, meticulosamente alinhados. Stuart Weitzman, salto agulha. Botas de pele de crocodilo
Manolo Blahnik, pelo joelho. Sapatos de salto alto Roger Vivier, com
uma rosa de cetim na ponta. Jimmy Choos, vermelhos. Sandálias
de gala Pink Escada. Uns clássicos pretos Chanel, próprios para
uma reunião de conselho de administração ou um restaurante de
cinco estrelas.
O Woodrow Wilson preferia sapatos brancos com os seus fatos
de linho. O maior sapato presidencial era o do Lincoln, que calçava
48, e o mais pequeno era do Rutherford B. Hayes, um 39.
Terão de me desculpar. Às vezes a minha mente vagueia. Tipo
Moisés pelo deserto. Tirando o facto de ele ter um pretexto melhor. E um problema de dicção — coisa que não tenho, a menos
que ser um desbocado conte.
Bem, como essa é uma longa história, voltemos ao nosso programa, metodicamente faseado: o armário de Lady Diana. E o que
é que temos aqui, pendurado por trás de uma fila de vestidos, ao
abrigo de qualquer olhar que não o do mais arguto voyeur? Hum…
Coletes e máscaras de cabedal. Correntes e chicotes. Vibradores
de vários tipos e cores. Um deles roxo e encurvado na ponta (não
me perguntem para quê). A maior parte tem a forma do órgão
masculino, mas por qualquer razão alguns vêm com acrescentos.
Contas pretas num fio… para que servirão? Anéis para os mamilos
— bem, acho que isso consigo perceber. Cremes e loções. Uma
pena amarela comprida…
De repente, consigo ver, ouvir e sentir ao mesmo tempo uma
presença ali ao meu lado — a mover-se pelo tapete, a roçar-me na
perna, a envolver-me…
— Olá, Canela — digo eu, mal se dissipa o terror momentâneo
e o arrepio na espinha. É a gata abissínia da Diana, de três anos.
Abissínio significa etíope, mas julga-se que a raça é de origem
egípcia. Não é estranho? Os abissínios têm orelhas maiores, caudas mais longas do que a maioria dos gatos. Têm o pelo mais claro
na raiz do que na ponta, como só acontece com um punhado de
raças. Eu disse à Diana que lhe devia ter chamado antes Caramelo,
o que descreve de modo mais exato a cor do pelo. Além disso,
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acontece que gosto mais de caramelo do que de canela, sobretudo
aqueles bombons para mastigar.
Vá, são horas de passar ao trabalho. Desligo a luz do armário
antes de abrir a porta — continua tudo às escuras. Sinto-me como
o Paul Newman n’O Ladrão Profissional.
Comecemos pelo quarto. Perto da varanda há uma secretária.
Mesmo ao lado, um par de tomadas. Ligo o transformador à tomada de baixo e puxo o fio por trás da cortina da janela, junto
à secretária. À primeira vista, é igualzinho a qualquer simples
transformador para computador ou outro aparelho. Na realidade,
é uma câmara de vídeo de alta resolução, ativada por sensor de
movimentos, com trinta e duas horas de memória, que há de gravar o quarto inteiro a cores. Pode funcionar em captação contínua,
mas neste caso é mais inteligente optar pelo sensor de movimentos. Gosto do bicho porque dispensa bateria, uma vez que está
ligado à tomada. E não transmite sinal — grava as imagens num
cartão SD que depois pode ser lido num computador —, ou seja,
é à prova de deteção eletrónica.
Movimentando-me com toda a cautela, passo do quarto da Diana
para a zona social da casa, que abrange a kitchenette e um vasto espaço que serve de sala de estar e de jantar. A casa da Diana fica no
último andar de um condomínio em Georgetown, o que significa
que ela paga mais pela localização do que propriamente pela área.
Não quero usar outro transformador. Quem descobrisse um
daria imediatamente com o outro. É preciso diversificar, digo eu.
Mas aqui será mais complicado do que ligar algo à parede, pelo
que preciso dos meus óculos de visão noturna — como o assassino em série d’O Silêncio dos Inocentes, tirando o facto de eu nunca
ter assassinado ninguém, quanto mais esfolado.
É possível fazer um assassínio parecer um suicídio e um suicídio parecer um assassínio.
Está farto de se preocupar com incêndios e intrusos? Gostaria de
espiar os seus convidados ao mesmo tempo que os protege da inalação
de fumos indesejados? Apresentamos a funcionalidade dois-em-um
aqui do Benjamin, detetor de fumo e câmara a cores camuflada. Este
dispositivo de fácil utilização prende-se a qualquer teto e encontra-se
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disponível em três belíssimas cores, para combinar com qualquer decoração. Melhor ainda, a sua câmara de micro-orifício e microfone
áudio permitem-lhe ver e ouvir tudo o que se passa numa sala. E não é
tudo: compre já e receba um transformador de 12 volts completamente
grátis!
Acreditem, não sou tão normal quanto pareço.
Muito bem, tudo pronto. A cozinha encontra-se como estava
quando entrei. Guardo o velho detetor de fumo e os óculos de visão
noturna no meu saco de ginástica e durante um minuto certifico-me de que não deixei qualquer tipo de rasto.
Olho para o relógio: 21h57. Tinha recebido instruções para terminar antes das dez. Consegui com três minutos de avanço.
Prestes a poisar a mão na maçaneta, dou-me conta de que come­ti um erro terrível.
O Paul Newman não era o protagonista d’O Ladrão Profissional.
Era o James Caan.
Como fui capaz de confundir o Paul Newman com o James
Caan? Deve ter sido dos nervos.
Tranco a porta e esgueiro-me pelo corredor até às escadas de
incêndio, cuja chave de acesso tenho comigo. Abro a porta e tenho
acesso ao ar da noite, no preciso momento em que se faz ouvir
o tlim de um elevador a chegar.
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CAPÍTULO 2
Desço as escadas de incêndio até ao fim, todos os seis andares,
devagar, firmemente agarrado ao corrimão. Não gosto de alturas.
Os presidentes Washington e Jefferson queriam que Washington
DC fosse uma cidade baixa. Eu não podia estar mais de acordo.
Na última década do século xix, alguém se lembrou de construir o Hotel Cairo, na Q Street, com cinquenta metros de altura,
a erguer-se sobranceiro aos seus vizinhos. Em resposta à ruidosa indignação que se seguiu, o Congresso aprovou uma lei, de
seu nome Ato da Altura dos Edifícios. A lei foi alterada em 1910,
tornando-se ainda mais restritiva. Hoje, a altura de um edifício
da capital está limitada à largura da rua que se lhe defronta mais
seis metros. Poucas ruas em Washington têm mais de trinta e três
metros de largura, pelo que a maior parte dos edifícios não passa
dos trinta e nove metros, o que significa, em regra, treze andares
ou até menos.
E ainda assim são altos demais para o meu gosto. Não suporto
alturas. Não tanto por receio de perder o equilíbrio ou escorregar.
Tenho é medo de saltar.
Ao chegar cá abaixo, atravesso o parque de estacionamento e
subo as escadas até ao passeio pedonal que acompanha o Canal
Chesapeake and Ohio. A Diana mora num pequeno troço de dois
quarteirões da Thirty-third Street, entalado entre o rio Potomac, a
sul, e o canal C&O, a norte. O edifício dela é o último do beco sem
saída antes do canal, pelo que não há ninguém na rua enquanto
eu dou a volta das traseiras até à fachada do prédio.
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Cá fora, calor húmido de agosto. A capital foi erigida em terrenos pantanosos e a humidade que se faz sentir por esta altura do
ano é insuportável. Não admira que o Congresso faça férias.
Do outro lado da rua, à entrada de um loft, vejo dois tipos mais
novos do que eu, a fumar e a galar-me a mota.
— Bela máquina — diz um deles. Pequeno e chungoso, como
o Joaquin Phoenix em Disposta a Tudo — na minha opinião, o papel em que a Nicole Kidman pela primeira vez se destacou a sério,
mostrando ter fibra para pôr um filme de pé sozinha.
— Gostas? — pergunto. Eu também. Uma Triumph America de
2009. Dupla árvore de cames à cabeça, 865 centímetros cúbicos,
bimotor de quatro tempos, tubo duplo em cone invertido, preta
com detalhes cromados. Sim, como a que o Colin Farrell guiava
em Demolidor. Não estou a dizer que foi por isso que a comprei.
Mas também não vos vou contrariar. Lá que é uma beleza de menina, é.
— Costumas trazê-la muitas vezes para a estrada? — pergunta-me o tipo.
O Colin Farrell esteve bem à brava em Cabine Telefónica. Também gostei do policial em que entrou com o Edward Norton, assim como daquele filme futurista, com o Tom Cruise, Relatório
Minoritário. É um ator subestimado. Um dia devia contracenar
com a Nicole Kidman.
— Gosto de a levar a esticar as pernas sempre que posso — res­
pondo. Eu devia dar o menos nas vistas possível, mas eis-me na
converseta sobre motas com dois gajos.
Ergo os olhos para cima, por entre a escuridão, na direção do
apartamento da Diana, para a varanda triangular de tijolo que
se destaca sobre a Thirty-third Street. A varanda serve sobretudo
de jardim — ao longo dos parapeitos, há filas de vasos com plantas e flores, e no chão pequenos arbustos, que ela trata com todos
os cuidados e carinho.
Acende-se uma luz no andar dela, iluminando a janela da
cozi­nha.
— O que é que tens aqui à frente? — pergunta o tipo, indicando
a roda dianteira com o pé.
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— Uns ME880 110/90 — respondo. — Gosto de guiar com
estes à frente e atrás.
A Diana em casa, a esta hora? Que interessante…
— Fixe — diz ele. — O tipo que me fornece os pneus não
vende Metzelers. Tenho usado Avons estes anos todos.
Volto a dirigir-lhe o olhar.
— Têm-se portado bem, até à data.
Pergunta-me como se chama o meu fornecedor. Digo-lhe e ele
anota o nome num papelinho. Salto para a mota e lanço um último olhar para a varanda da Diana. Boa noite, Lady Di…
Mas que…
— Não! — grito.
Da varanda dela, um corpo mergulha de cabeça em queda livre
na distância de seis andares. Fecho os olhos e viro-me de costas,
mas sou incapaz de fechar os ouvidos ao repugnante bum de um
corpo que cai no chão de tijolo, dos ossos a estalarem.
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CAPÍTULO 3
Salto da mota e corro na direção dela. Não. Não pode ser. Não
pode ser ela…
— Viram aquilo?
— Que aconteceu?
Chego logo a seguir a duas mulheres que estavam estacionadas ali ao lado. Saíram do carro e ajoelharam-se junto dela.
Oh, Diana. O seu corpo jaz à beira da estrada, rosto para baixo,
membros abertos estatelados em xis. O cabelo luminoso cobre-lhe o rosto esmagado e descai da borda do passeio. Corre sangue,
que desce até ao alcatrão. Fico de pé, ao lado das duas mulheres,
olhando por sobre os seus ombros para a única mulher que eu
alguma vez…
Porquê, Diana? Porque haverias tu de querer fazer uma coisa
destas?
— Alguém viu o que se passou? — oiço gritar.
— Aquilo era a varanda da Diana! — grita outra pessoa, correndo para o edifício.
Rapidamente se junta uma multidão. Ninguém sabe fazer
mais do que ficar especado a olhar, como para um objeto num
museu. Ela está… não sou capaz de pronunciar a palavra, mas não
respira, tem o corpo esmagado, ela… não está viva.
Deixem-na em paz, digo para mim mesmo, talvez também em
voz alta. Deem-lhe espaço. Alguma dignidade.
Pelo menos está tudo às escuras, uma escuridão que a envolve, graças aos céus, numa aparência de privacidade. É impossível
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ver-lhe o rosto destruído, é impossível ver a dor. Dado o firme
orgulho com que a Diana viveu, é de uma estranha coerência que
também na morte esconda do público o seu rosto derrotado.
Alguém pergunta finalmente pela ambulância e dez pessoas
pegam ao mesmo tempo no telemóvel. Ponho-me de cócoras, sem
saber para onde me virar. Não há nada que possa fazer por ela. Depois vejo, à minha direita, entre os pés de alguns dos mirones, os
cacos de um pote de barro e a terra. Deteto até um cheiro a canela.
Volto a olhar para a varanda, embora deste ângulo não se veja nada
no escuro. Devem ser as malvas-maçãs que no verão ela criava em
vasos, deixando-os à beira da varanda triangular que dá para rua.
Abandono a multidão cada vez maior e retiro-me rumo à Thirty-third Street, subitamente incapaz de participar na sua mórbida
curiosidade.
Voltando-me do passeio para a estrada, vomito. Sem perceber
bem como, encontro-me de gatas no chão.
A mão da Diana no meu rosto. O seu riso quando entornou e
se sujou toda de natas, naquele novo café da M Street. A Diana a
mostrar-me o cabelo há um mês, depois de o ter pintado de castanho, e a pedir-me a minha opinião, que era importante para ela.
O seu olhar quando tinha alguma coisa em mente mas não queria
dizer o quê. Ela a voltar-se na minha direção e, ao ver que era eu, a
sorrir. Aquele sorriso despreocupado… ou talvez não tanto quanto
isso. Ela andava a tomar lorazepam, seu imbecil. Como é que não
deste por isso? Como é que te escaparam os sinais?
Ela precisava da minha ajuda e não pôde contar comigo. Não
fui capaz de me tornar útil. Nunca me passou sequer pela cabeça
que o suicídio fosse para ela uma hipótese.
É possível fazer um assassínio parecer um suicídio e um suicídio
parecer um assassínio.
— Ei, mano…
As malvas-maçãs.
— ’Tá aqui um gajo a passar-se!
Foge, Benjamin, foge.
E de seguida as sirenes, umas luzes intermitentes a cortarem a
escuridão, a sugarem o ar.
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— Aguenta-te firme — digo-me a mim mesmo. — Aguenta-te
firme, Benjamin.
Respiro fundo e levanto-me.
— Pronto. — Salto para a mota e acelero.
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CAPÍTULO 4
Evito a autoestrada e tomo a Independence Avenue para voltar
para casa, já que não estou em condições de conduzir a alta velocidade. Mantenho a mota firme e não tento nenhuma ultrapassagem. Tenho a visão enevoada, os olhos banhados em lágrimas, as
mãos tremem de modo tão febril que mal me consigo controlar.
A Independence é um percurso ligeiramente mais direto — sete
quilómetros e 145 metros de porta a porta, contra sete quilómetros
e 725 metros pela autoestrada —, mas demora um pouco mais,
15 minutos e 48 segundos contra 13 minutos e 12 segundos. A esta
hora da noite, com menos trânsito, a diferença deverá ser mais
pequena. Durante os últimos nove meses, o trajeto pela Independence variou entre 22 minutos e 18 segundos e 11 minutos e 5 segundos. Só não fui capaz de comparar o trajeto em hora de ponta,
altura em que as avenidas Constitution e Independence têm restrições de circulação, tendo eu de escolher outro caminho, e lá se
vai a comparação. É como querer comparar maçãs com laranjas.
Ou laranjas com maçãs.
Malvas-maçãs.
A propósito, a Fiona Apple merecia ser muito mais popular.
Merecia ser uma estrela na linha da Amy Winehouse. Uma faz-me
lembrar a outra, com aquelas vozes cheias de garganta e alma. Mas
parece que a Fiona nunca conseguiu descolar depois de Criminal.
Não que a Amy se tenha saído muito melhor, no fim de contas.
Lembram-se do que dizia sobre a minha mente vaguear? Quan­do estou em stress é ainda pior. O Dr. Vance descrevia o fenómeno
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com uma expressão toda peralta — refúgio emocional induzido pela
adrenalina —, mas sempre achei que era só um modo de justificar
o dinheirão que o meu pai lhe pagava para me «endireitar». Levei
imenso tempo a perceber que eu sofria era do distúrbio «Pater
Crudelis».
Tomo a Pennsylvania Road a um quarteirão da Casa Branca,
o que me faz lembrar — como tudo o resto, uma canção, uma
árvore, o oxigénio — a Diana. É um tipo tão talentoso, tinha ela dito
do presidente. Percebe, melhor que qualquer outro antes dele, o que
estamos a tentar fazer.
Oh, Diana. Inteligente, cuidadosa, idealista Diana. Terás realmente feito isto a ti mesma? Ou alguém te matou? Nenhuma das
alternativas faz sentido.
Mas vou descobrir. É esse o meu ganha-pão, certo?
Um todo-o-terreno buzina ao passar por mim em sentido contrário na Constitution Avenue. Só dois presidentes assinaram a
Constituição, o Washington e o Madison. O Madison foi também
o mais baixo dos presidentes. E o primeiro a ter sido antes deputado no Congresso dos Estados Uni…
Dou uma guinada para evitar o Mazda RX-7 que me surge à
frente, apertando os travões com toda a força que tenho nas mãos.
Acabo por ficar em posição lateral, perpendicular aos carros na
minha dianteira e traseira. Sinal vermelho significa parar, Ben.
Concentra-te! Tu és capaz.
Benjamin, quanto mais depressa compreenderes as tuas limitações, melhor.
Tu não és como os outros, Benjamin. Nunca foste. Mesmo antes
— bem, mesmo antes do que se passou com a tua mãe.
Vais ter imenso tempo para fazer amigos quando cresceres.
A Diana era minha amiga. E podia ter sido muito mais. Teria
sido, certamente.
Eu aguento, eu sou capaz. Só preciso de alguns comprimidos.
Só preciso de chegar a casa.
O semáforo passa a verde. Endireito a mota e sigo caminho.
Diana Marie Hotchkiss. Marie era o nome da tia; Diana, o da
avó. Nascida a 11 de janeiro de 1978, em Madison, no Wisconsin,
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jogava voleibol e softball e ganhou o prémio de melhor aluna de
Espanhol do Liceu do Sagrado Coração de Edgewood, que concluiu em 1995.
Oiço uma buzina; alguém a protestar por alguma coisa que
terei feito. Mas que raio fiz eu?
— Caluda, deixem-me em paz! — grito, sem esperar uma resposta do carro atrás de mim, ou sequer que me oiçam.
— Encoste o veículo e desligue o motor! — ressoa uma voz num
altifalante.
Olho para o retrovisor e só então reparo nas luzes intermitentes. Não é um motorista zangado.
É a bófia.
Vai ser bonito, isto.
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CAPÍTULO 5
Encosto a mota à berma da avenida e paro o motor.
Remonta a 1792 o relato mais antigo de assassínio de um polícia. Foi em Nova Iorque, na zona que hoje corresponde ao South
Bronx. O autor do crime foi um tipo chamado Ryer, nascido de
uma família distinta de agricultores, que então se envolveu numa
rixa entre bêbedos. Querem saber qual é a parte mais divertida?
— Está a passar bem a noite? — pergunta o bófia, aproximando-se de mim. Fico encadeado na luz do holofote do carro-patrulha,
que ele deixou aceso na minha direção.
A parte divertida é que uma das esquadras do Bronx se situa na
Ryer Avenue, que tem o nome dessa mesma família.
Mostro-lhe a carta e o livrete. É provável que ele já me tenha
investigado a matrícula. Já sabe quem sou.
— Importa-se de tirar o capacete?
Por acaso, até me importo, mas tiro-o na mesma. Ele fita-me
longamente os olhos. Não há de ser uma visão bonita.
— Sabe porque é que lhe pedi para encostar, Sr. Casper?
Porque pode? Porque tem o poder de mandar parar, revistar,
deter, prender quem muito bem lhe apetecer quando lhe der na
real gana? Porque você não passa de um travesti de Napoleão, impotente e frustrado?
— Descontrolei-me um bocadinho, lá atrás — reconheço.
— Por pouco não causou um acidente — responde-me. Tem
bigode de pontas reviradas. Será que o resto dos Village People já
deu pela falta dele?
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Pilosidades faciais não são para mim, mas, mesmo que fossem,
não lhes daria a forma de um guiador. Provavelmente ia para a
barba de dois dias do Don Johnson em Ação em Miami. Isso seria
fixe.
— O senhor transpôs o traço contínuo três vezes num só
quarteirão.
Opto por exercer o direito de não prestar declarações que me
incriminem. E rezo para que não me pergunte o que trago no
saco — tipo, óculos de visão noturna, um detetor de fumo usado,
algumas ferramentas rudimentares. Ou o creme comestível que
trouxe do armário da Diana.
Tenho de chegar a casa. Preciso de tempo para pensar, para
deslindar isto tudo.
— Bebeu alguma coisa esta noite?
A distância entre nós é mínima. Eis um dos riscos de mandar
encostar um motociclista. Eu podia, só pela piada, arrancar-lhe de
repente o cassetete ou as algemas que traz ao cinto, até mesmo
tirar-lhe a pistola do coldre, antes que ele tivesse tempo de dizer
mamã. Talvez não achasse muita graça a isso.
Mas, se se tornar demasiado inquisitivo, posso não estar para
brincadeiras. Talvez já vos tenha dito que às vezes não confio em
mim próprio.
— Sóbrio como um padre — respondo. Na verdade, o padre
dos meus tempos de miúdo era um alcoólico assanhado, chamava-se Calvin.
— Está com algum problema esta noite?
Bem, a noite nem arrancou mal, tendo eu começado por instalar com êxito os meus dispositivos de vigilância na casa da mulher
que amo. As coisas pioraram foi a seguir, quando ela caiu da varanda e encontrou a morte. que tal te parece isto, bófia?
— Discussão com a namorada — explico-lhe. — Peço desculpa
pelo modo como conduzi. Estava só um pouco transtornado. Estou
completamente sóbrio e vou conduzir com toda a cautela até casa.
Moro em Capitol Hill, a cinco minutos daqui.
Sei agir conforme as regras da normalidade, quando é preciso. Ele
volta a observar-me com atenção, escruta-me os olhos. Manda-me
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aguardar. Leva-me a carta e o livrete até ao carro-patrulha. Não vai
descobrir nada de interessante. Não tenho cadastro — pelo menos, não do tipo que ele possa encontrar.
Uma vez, mandaram parar o Ulysses S. Grant, a cavalo, por
excesso de velocidade. A multa foi de vinte dólares e ele insistiu
em pagá-la. O Franklin Pierce, por sua vez, foi preso por atropelar
a cavalo uma velha, mas a queixa foi retirada.
— O senhor é jornalista — informa-me o bófia, ao regressar.
— Do Capital Beat. Já li coisas suas. Bem me queria parecer que
o seu nome não me era estranho.
Sou, para ser mais exato, correspondente na Casa Branca e dono
do jornal. São as vantagens de se ter um avô rico. Quererá isso
dizer que não me vai passar uma multa?
Népia. Sou multado por condução imprudente e por pisar o
traço contínuo. A mim parece-me redundante, mas não é altura
para debater a lógica. Só quero que me deixe seguir, o que fará,
embora com as ditas multas. As boas notícias são essas. E não
são as únicas: ainda que de um modo bizarro, o bófia conseguiu
acalmar-me, obrigou-me a reverter a um estado mais próximo da
normalidade.
As más notícias são que assim fui avistado perto do edifício da
Diana, pouco depois da hora da sua morte.
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CAPÍTULO 6
Não consigo dormir, mas sonho à mesma: com uma arma no
chão de uma casa de banho; com uma mulher caída sobre um
passeio; com salpicos de sangue numa cortina de chuveiro; com
uns olhos vazios, sem vida; com um grito que ninguém pode ouvir; com uma gota de sangue em queda livre, ganhando a forma
de uma esfera antes de embater numa superfície, sem som.
— Diana — digo em voz alta. Ergo subitamente a cabeça.
Levanto-me do patamar do segundo andar e desço velozmente
as escadas. Terei ouvido a voz dela?
— Diana?
Procuro na cozinha, na sala, na casa de banho.
Lá fora, as trevas dissolvem-se suavemente. Madrugada. Passa­
ram sete horas que mais pareceram sete décadas, torturantes, atrozes. Tenho o corpo coberto de suor e só agora a pulsação come­ça
a abrandar. Doem-me os membros e respiro como se alguém me
esmagasse o peito.
Corro para a porta de entrada e espreito pela fechadura: uma
furgoneta branca está estacionada mesmo em frente de minha
casa. Coincidência? Duas pessoas fazem o seu jogging em Garfield
Park, do outro lado da rua. O Oscar, o schnauzer gigante do meu
vizinho, urina no meu passadiço. Schnauzers gigantes arrepiam-me. Só devia ser permitido ter os mais pequenos. Que sentido é
que fazem, assim tão altos? Por alguma razão fazem-me lembrar
o Wilford Brimley. Desde os meus tempos de miúdo, o tipo sempre teve sessenta anos.
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O presidente Johnson teve pelo menos três cães, sobretudo
beagles, incluindo dois a quem chamou Ele e Ela. O George
Washington criava foxhounds, mas gostava de todo o tipo de cães.
Durante a Batalha de Germantown, as suas tropas encontraram
um terrier que pertencia ao general britânico Howe, seu inimigo jurado. As tropas quiseram guardá-lo como troféu, mas o
Washington deu-lhe banho, alimentou-o e convocou um cessar-fogo para que um dos seus homens pudesse devolver o cachorro
ao dono, transpondo a linha de combate com uma bandeira branca. O Roosevelt tinha um cão que levava sempre…
Eis que do nada surge um miúdo e arremessa um jornal na
direção da minha porta de entrada.
Baixo-me para me esquivar, o que não faz sentido, e amaldiçoo
em silêncio o puto dos jornais — há de ter a sua paga e será para
breve —, e só então decido que ontem à noite devia ter tomado os
medicamentos. Mas agora não há tempo para isso. Tenho de sair
de casa.
Primeiro, preciso de tomar um duche, já que estou com um
pivete a suor e ao creme de baunilha que trouxe do armário da
Diana. Calculo que deva ser usado apenas quando temos companhia no quarto. O Calvin Coolidge gostava que lhe esfregassem
a cabeça com vaselina enquanto tomava o pequeno-almoço na
cama. Vasoline só fica atrás de Interstate Love Song enquanto melhor canção dos Stone Temple Pilots. Devia mesmo ter tomado
um comprimido ontem à noite, mas não me agradam os efeitos
secundários, que incluem ligeiro enjoo, zumbido nos ouvidos e
— ah, pois — impotência. Não te deixa ir abaixo, mas também não
te deixa vir acima.
Não que a impotência seja o meu principal problema neste
momento. Para isso é preciso outra pessoa no quarto, ou pelo menos era assim, da última vez que verifiquei. Tive sexo com oito
mulheres, num total de noventa e nove vezes. O encontro mais
breve, dos preliminares ao clímax, durou três minutos e cerca de
catorze segundos. Digo cerca porque pode dar um bocado nas vistas parar o cronómetro logo a seguir, pelo que procedo sempre a
uma estimativa: cinco segundos para a retirada e cinco a dez para
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A Amante
lhe dirigir um elogio, antes de olhar discretamente para o relógio
de pulso.
O encontro mais longo, caso queiram saber, durou quarenta e
sete minutos e cerca de trinta segundos. Juntando todos os meus
encontros, e arredondando os números, a duração média é de
vinte e um minutos, a mediana de dezoito, e a moda, dezassete.
A minha explicadora de matemática, de seu nome Miss Greenlee,
ficaria orgulhosa. Porque com ela estive sempre acima dos trinta
minutos.
Nunca tive, porém, uma namorada estável. Vá-se lá saber porquê, a maior parte delas não me achava romântico.
Até que chegou a Diana. Houve logo uma ligação entre nós.
Somos todos peças de um puzzle num enorme tabuleiro e ela e
eu… Digamos que as nossas saliências e reentrâncias simplesmente encaixam na perfeição. Mesmo que ela ainda não se tivesse
dado conta.
Abro a torneira do duche, mas logo a minha cabeça recua para
cá da cortina. Que foi aquilo?
Cubro a cintura com uma toalha e corro até à janela do quarto,
que dá para a F Street. A furgoneta branca continua estacionada
mesmo em frente de minha casa. A minha pitoresca ruazinha e
a sua fileira de árvores parecem florescer enquanto a cidade acorda. Correm mais cães em Garfield Park, mas já não o schnauzer
gigante.
Aproximo-me da escadaria e fico quieto, à escuta de qualquer
som nos dois andares lá de baixo.
Nada.
Regresso ao quarto, mais descansado. Rebenta então uma rajada de música, guitarras implacáveis, a batida de um baixo, que
quase me derrubam sobre o tapete. Fine Again, dos Seether. Levo
uns instantes a recuperar do que poderia ter sido uma síncope
cardíaca. Devem ser seis e meia da manhã. Tinha o alarme ligado,
sintonizado na DC101.
Regulo a temperatura da água do duche para lá de quente e
deixo que a água escaldante me fustigue o pescoço. Tenho as pálpebras pesadas e as pernas trementes. Passar a noite em branco
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deixou-me mais fraco, logo agora, que mais preciso de toda a minha concentração.
Porque agora vou voltar a casa da Diana.
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CAPÍTULO 7
Sigo de mota, pelo trajeto de ontem à noite. As ruas estão relativamente calmas, não são sequer sete da manhã e o Congresso
está fechado, pelo que os seus apêndices — funcionários, grupos
de interesses, lobistas e até jornalistas — parecem ter-se evaporado. Continuamos apinhados nesta cidade, como sardinhas em
lata, mas tudo é relativo. Sinto os índices de calor subir enquanto
desço novamente a Constitution Avenue. Vamos ter um dia mais
quente do que ontem.
Neste momento, há tanta coisa que não sei. Não sei o que fazia
a Diana ontem, durante o dia ou durante a noite. Só sei que eu
recebera instruções para abandonar o apartamento dela antes das
dez.
Era por volta das dez que o Calvin Coolidge se costumava deitar. Normalmente, dormia até entre as sete e as nove da manhã
seguinte, e à tarde ainda fazia uma sesta. Dizia, na brincadeira:
«Enquanto durmo, não tomo más decisões.» O presidente Arthur
raramente se deitava antes das duas da manhã. O presidente Polk
tinha por hábito trabalhar até bastante tarde e acordar cedo, mas
também é verdade que morreu de esgotamento três meses depois
de cumprir o primeiro mandato. Mas foi ele quem comprou a
Califórnia, e há quem considere isso um feito positivo.
O que terá acontecido logo depois de eu ter deixado o apartamento, poucos minutos antes das dez? A porta do elevador que
ouvi abrir-se — seria a Diana? Estaria sozinha? Por que razão seria
tão importante que eu me sumisse antes das dez?
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Sinto a pulsação acelerar enquanto percorro a K Street, ao longo
do Georgetown Waterfront Park, e observo uns canoístas no Potomac, perto da Thirty-third Street. O Truman foi o nosso trigésimo
terceiro presidente, mas o trigésimo segundo a exercer mandato,
já que o Grover Cleveland foi eleito para dois mandatos não consecutivos, falhando a reeleição contra o Benjamin Harrison em
1888 — embora tenha ganho o voto popular. A seguir, impediu a
reeleição do Harrison e ganhou o seu segundo mandato, passados
quatro anos do primeiro, quando o Harrison não pôde fazer campanha eleitoral porque tinha a mulher doente.
Talvez devesse ter tomado os medicamentos, eu.
Viro à direita na Thirty-third Street e sigo para norte, rumo ao
canal e a casa da Diana. Estaciono à distância de um quarteirão e
caminho rua acima, suando da humidade — já tão cedo — e provavelmente também dos nervos.
Sinto-me como o Bruce Willis em Pulp Fiction, quando volta a
casa depois de ter matado o seu adversário de boxe e traído um mafioso. Se eu desse com o John Travolta lá dentro, à minha espera,
só lhe perguntava uma coisa: por que raio fez ele Terra — Campo
de Batalha? Se me coubesse organizar um festival de filmes com
o Bruce Willis, teria o Sexto Sentido, o Assalto ao Arranha-Céus,
O Protegido e o Pulp. E provavelmente também o Ocean’s 12, embora aí ele não tenha feito mais do que desempenhar o seu próprio
papel. Ei, se o festival é meu, as regras também são minhas.
Isto pode ser arriscado. É preciso evitar que me vejam. Tenho
a chave do apartamento, mas podem reconhecer-me. Quem me
dera agora uma daquelas máscaras realistas que usam nos filmes
da Missão: Impossível, que depois arrancam, do modo mais bombástico, para revelar a verdadeira identidade. Não, aqui só mesmo
o velho e solitário Benjamin. Não sou pessoa que dê muito nas
vistas. Aprendi a diluir-me no pano de fundo. Costumavam achar-me parecido com o meu pai e diziam-no como um elogio, embora eu gostasse tanto da comparação como de levar uma vacina
contra o tétano. A Diana dizia que eu era parecido com o Johnny
Depp. Talvez devesse disfarçar-me de pirata. Ou de John Dillinger.
Ou de Willy Wonka.
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À medida que me aproximo, sinto um aperto no peito, a garganta e a boca secas, os membros pouco firmes. Foi aqui que a
vida da Diana chegou ao fim, ontem. Coisa que ainda não digeri
completamente. Levei um murro, mas a nódoa negra ainda não
se formou. O cérebro tem plena consciência do que aconteceu, o
corpo reage fisicamente, mas, ainda assim, nada disto parece real.
De repente, dá-se o clique. Sinto tudo a cristalizar-se. Vejo nítida
a imagem da sua queda. Só quero pôr o tempo a correr ao con­trá­
rio, como fez o Super-Homem para salvar a Lois Lane, descobrir o
que se passava com a Diana sem que eu soubesse, o que foi que levou alguém a matá-la ou o que a fez pôr termo à própria vida. Diz-me, Diana. Dá-me uma pista que seja. Como posso eu compreender…
Um homem vestido à paisana encontra-se muito perto do ponto onde a Diana caiu, olhando para cima, na direção da varanda.
A menos que se trate de um arquiteto, de um agente imobiliário
ou de um grande fã de varandas, é provavelmente um bófia. Olha
para mim e vejo-lhe um bigode, pelo que não restam dúvidas.
É bófia, sim, e está a investigar a morte da Diana.
Perdido nos meus pensamentos, cometi uma terrível imprudência. Separam-nos três metros de distância e eu fiquei especado
a olhar para ele, no meio do passeio. O que, evidentemente, suscita
a sua curiosidade. Volta-se na minha direção e fita-me. Devolvo-lhe o olhar. Nenhum dos dois diz palavra. A cada segundo que
passa a situação piora. Eis aquilo a que a Uma Thurman chamou,
em Pulp Fiction, um silêncio desconfortável. Conseguirá ele ouvir
o bater violento das minhas pulsações?
É tarde demais para retomar a marcha e passar por ele como se
nada fosse. Outra possibilidade é uma fuga em frente, e, tirando-lhe as medidas, acho que sou capaz de lhe ganhar a corrida. É uma
ideia de último recurso, já que talvez me tenha visto estacionar a
mota — mesmo que me conseguisse escapar, bastar-lhe-ia uma
chamada de rádio para ficar a saber tudo sobre mim, incluindo
o facto de ter sido detetado ontem à noite nas proximidades, com
ar transtornado e a conduzir de modo errático.
Sim, senhor, Ben. Isto está mesmo a correr bem. Bela ideia,
vir aqui.
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Dá um passo na minha direção. Põe uma pastilha elástica na
boca e acena-me.
— Bom dia — diz-me ele, com uma calma estudada. Mas eu
percebo. Este tipo sabe ler-me nos olhos. Muito melhor do que o
polícia de trânsito de ontem à noite, do bigode de pontas reviradas. Tem as antenas ligadas. Ele sabe. Ele sabe.
E agora, espertalhão?
— Mora por estas bandas? — pergunta-me, como por mera
curiosidade, como se a seguir fosse pedir-me indicações para chegar ao Monumento de Washington.
Não respondo. Em vez disso, levo a mão esquerda atrás das
costas. Movo-me com naturalidade, sorrindo, tentando mitigar
qualquer suspeita.
Num só movimento, fluido e experiente, desprende a capa do
coldre que traz à anca e poisa a mão sobre o revólver.
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CAPÍTULO 8
Dá-se o facto de este agente ser canhoto, o que o coldre na anca
esquerda me devia ter dado logo a entender. O presidente Garfield
era canhoto. O Truman também. Nos tempos modernos…
Mostro-lhe a minha carteira de jornalista, acreditada pela polícia, que trazia dobrada no bolso de trás.
— Capital Beat.
O bófia respira fundo e acalma-se, afastando a mão da arma.
— Jesus Cristo — diz-me ele.
— Não. Sou mesmo só um jornalista.
O Garfield, para ser mais exato, era ambidextro. Era capaz de
escrever em simultâneo com uma mão em grego antigo e com a
outra em latim. Lefty — canhoto — é o nome da personagem do
Al Pacino em Donnie Brasco. O seu melhor papel, na minha opinião, cheio de contenção e desespero.
O polícia lê-me rapidamente as credenciais, emitidas anualmente pela polícia metropolitana.
— Benjamin Casper. Bom, não há dúvida de que acaba de me
pregar um susto do caraças, Benjamin Casper.
Fantástico. Pronunciou duas vezes o meu nome, quadruplicando a probabilidade de vir a lembrar-se dele mais tarde.
Para ver bem, o presidente Buchanan tinha de inclinar a cabeça para a esquerda, por sofrer de miopia de um olho e de hipermetropia do outro.
— Essa carteira é para se trazer sempre visível, amigo.
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— Mea culpa. — Aceno em direção ao apartamento da Diana.
— Saltou alguém, ontem à noite?
Olha-me novamente.
— O Gabinete de Informação Pública há de emitir o seu comunicado. Identificação por confirmar.
Aí está um clássico da resposta evasiva, coisa que os correspondentes da Casa Branca ouvem todos os dias. A maior parte
dos detetives e agentes passa-te a informação básica antes de o
Gabinete de Informação Pública emitir um comunicado oficial,
sobretudo se lhes prometeres que terão o nome escarrapachado
no artigo. O que significa uma coisa: este caso está a receber outro
tipo de tratamento.
O perímetro da área onde a Diana caiu está protegido com fita
amarela. Ainda lá se encontram cacos de vaso e alguma terra das
malvas-maçãs. E a mancha de sangue, concentrada sobretudo no
passeio, com vestígios a escorrerem para a borda.
Assim que o sangue abandona o corpo, comporta-se como um fluido
e aplicam-se-lhe todas as leis da física, gravidade incluída.
— Dê-me lá uma achega, detetive — digo eu. — Há alguma
pista?
Perdi todo o interesse para ele. Agora que me sabe jornalista,
quer-me por perto tanto como a uma barata flatulenta.
Mas a pergunta chama-lhe a atenção. Volta-se para mim.
— Pistas? Quanto a uma mulher que salta da varanda?
— Seja. Não insisto — respondo-lhe, soando a jornalista amuado.
— Desculpe, Benjamin Casper. Não sabemos muito, por enquanto.
Que treta é esta de estar sempre a repetir o meu nome?
Decido que o melhor é minimizar os danos e partir; danos que,
vendo bem, não são nada pequenos. Não consegui entrar no apartamento e um dos agentes envolvidos na investigação repetiu três
vezes o meu nome, gravando-o assim em brasa na memória, ou
quase. Ao menos, consegui evitar um passo em falso desastroso,
protegendo-me no meu estatuto de jornalista.
Se bem que o passeio não tenha sido totalmente em vão. Voltei
com três coisas que não sabia. Primeiro: a bófia está a tratar a morte
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da Diana como um caso de homicídio. Segundo: por alguma razão, fazem de conta que não.
Terceiro: num Lexus estacionado ao fundo da rua, há dois tipos
de óculos escuros, que parecem terrivelmente interessados em
mim e no bófia.
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CAPÍTULO 9
Ligo o motor da Triumph, ponho os óculos escuros e viro na
dire­ção do Lexus com os dois tipos, só para lhes dar uma vista
de olhos. São ambos brancos de maxilar rijo, bem musculados.
Estão hirtos. Bom, estarem hirtos talvez seja palpite. Não sei qual
é a deles, mas também não é altura para descobrir — já que não
tenho o elemento surpresa a meu favor, já que eles são dois e eu
sou só um, já que estão de automóvel e eu de mota. Além disso, já
levantei suspeitas que cheguem para uma manhã.
Volto para casa devagar, dando-lhes a oportunidade de me
seguirem, o que não fazem. Talvez não estejam interessados na
Diana. Talvez quisessem só um vislumbre do Potomac, daquele
ângulo específico. Talvez estivessem apenas a observar pássaros.
Às vezes a Diana vinha comigo na Triumph. Os melhores momentos que passei de mota foram com ela, com os seus braços a
aconchegarem-me a cintura, o queixo sobre o meu ombro, os dois
à aventura. Ainda não digeri o facto de isso nunca mais voltar a
acontecer.
Íamos acabar juntos. Tenho a certeza. Os melhores casais são
os que começam por ser amigos, como o Billy Cristal e a Meg
Ryan em Um Amor Inevitável. Tirando o facto de ela — há que
reconhecê-lo — ser bonita demais para ele. Seja como for, a maior
parte das vezes as pessoas aproximam-se por atração sexual e só
depois tentam perceber se são compatíveis. O sexo distrai-as e
só depois compreendem que as suas peças não encaixam, quando
já é demasiado tarde. Comigo e com a Diana era outra conversa.
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Éramos amigos. Compinchas. É verdade que eu queria mais do
que isso, mas a resistência dela obrigou-nos a desenvolver outro
tipo de relação. Assim que chegássemos à parte romântica, todas
as outras peças já estariam preenchidas.
Ou talvez fosse só eu a sonhar. Nunca saberei ao certo.
Porque alguém a matou. Disso estou agora seguro. Ela adorava
aquelas malvas-maçãs. Mesmo que quisesse morrer, tê-las-ia evitado ao dar o salto. Não as arrastava consigo, à bruta.
Imagino um detetive a rir-se da minha análise. O Caso das
Malvas-Maçãs Caídas. O suspeito principal deve ser florista!
Era preciso conhecê-la como eu a conheço.
De qualquer modo, os vídeos captados no apartamento dela
hão de contar a história. Só tenho de esperar que a polícia arrede
pé…
Espera. Espera lá. Saberia a Diana que alguém a queria matar?
Terá sido por isso que me pediu para instalar câmaras de vigilância no apartamento? Nunca adiantou uma razão e eu nunca
perguntei. Mas faz todo o sentido.
Porque se daria a Diana ao trabalho de me pedir que instalasse
aparelhos para espiolhar, se nessa mesma noite se ia suicidar?
Por razão nenhuma. O que confirma tudo. Diana Marie
Hotchkiss foi assassinada.
Oh, Diana. Temias pela tua vida? Porquê? Que andavas tu a
fazer? Em que situação te foste enredar? Saberias alguma coisa
que não deverias saber? Fizeste alguma coisa que não deverias ter
feito?
E porque é que não confiaste em mim o bastante para mo
dizeres?
Devia partilhar isto com a polícia. É informação crucial. Ficariam assim a saber que a Diana temia alguém. Além do mais, as
câmaras deverão resolver o crime.
Mas, assim, volto ao problema que criei no momento em que,
naquela noite, virei costas, com ela morta no passeio: estive no
apartamento poucos minutos antes da queda. E fugi de cena.
Se for à polícia, torno-me o principal suspeito do assassínio da
Diana.
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