Comportamento da ligação varões de Aço-Argamassa de reparação
Resende Nsambu
Universidade Agostinho
Neto e Universidade
Privada de Angola/Angola
[email protected]
Augusto Martins Gomes
Instituto Superior
Técnico/Portugal
[email protected]
Resumo: No presente artigo apresentam-se os resultados duma campanha experimental de
ensaios de aderência efectuados num conjunto de cinco argamassas para reparação de
estruturas de betão, sendo três comerciais e duas fabricadas em laboratório com cimento
Portland do tipo CEM I 42.5 R. Os provetes são constituídos por cilindros normalizados
de argamassa com 0,15 m de diâmetro e 0,30 m de altura, em que foram introduzidos
varões de aço com 10 mm de diâmetro. Foram estudados três comprimentos de
amarração: 100, 200 e 280 mm. No artigo analisa-se a influência do comprimento de
amarração, do tipo de argamassa e da resistência à compressão da argamassa na tensão de
aderência aço-argamassa.
Palavras-chave: Aderência, amarração, armadura, argamassa, reparação.
1. INTRODUÇÃO
A reparação e o reforço de estruturas de betão armado têm assumido uma importância
crescente em todo o mundo em resultado da necessidade de reparar as estruturas
existentes. Quando se recorre à aplicação de argamassas têm sido fundamentalmente
utilizadas argamassas cimentícias que, em geral, são modificadas com polímeros.
Existem trabalhos publicados por vários autores que referem os factores que podem
influenciar o comportamento da ligação entre um varão de aço e o betão corrente. A
utilização de um elevado teor de finos num betão causa uma redução da resistência de
aderência. Uma vibração insuficiente, que não retira todo o ar do interior do betão, ou uma
vibração excessiva, que produz segregação, podem causar um aumento da porosidade na
zona de interface dos varões com o material cimentício que afecta a resistência de
aderência. Uma composição que garante uma elevada coesão entre a pasta de cimento e os
agregados minimiza o espalhamento e a segregação garantindo, deste modo, uma melhor
resistência de aderência. Uma falta de estabilidade da mistura pode enfraquecer a interface
pasta de cimento-agregado aumentando a tendência para o desenvolvimento de micro
fendilhação local que altera as propriedades mecânicas.
Ensaios de arrancamento de varões de aços realizados por Petrov et. al. (2001) num betão
auto-compactável revelaram que a tensão de aderência é directamente afectada pela
qualidade da zona de transição da interface entre a pasta de cimento e as armaduras
embebidas. Os modos de rotura observados em ensaios de arrancamentos realizados num
betão auto-contactável por Schiessl e Zilch (2001), König et. al. (2003) e Wang e Zheng
(2005), citados por Vacuende e Parra (2009), são maioritariamente do tipo
escorregamento, em que o varão se destaca sem ocorrência de fendilhação significativa no
provete, e não do tipo “splitting crack”, em que se forma uma fenda que atravessa todo o
provete, semelhante à que ocorre no ensaio de compressão diametral. Este comportamento
é atribuído ao elevado teor de finos ocorrendo uma rotura “espessa” na superfície de
ligação.
Nos ensaios experimentais realizados no presente trabalho foram obtidos modos de rotura
por escorregamento do varão, por rotura em tracção do aço e por “Splitting crack”. Os
valores do comprimento de amarração foram comentados em face dos comprimentos
definidos na norma Europeia EN 1992-2004, e foram também analisados os modos de
rotura observados.
2. PROGRAMA EXPERIMENTAL
2.1 Argamassas industriais
Neste estudo foram utilizadas três argamassas de reparação comerciais que se designaram
por AC1, ACP1 e ACP2. As composições destas argamassas são objecto de segredo
industrial não sendo revelada a sua composição. As três argamassas são prontas a utilizar
bastando adicionar água nas argamassas AC1 e ACP1 e no caso da argamassa ACP2
apenas uma emulsão polimérica que é fornecida conjuntamente com a argamassa. Os
detalhes das três argamassas extraídos nos documentos técnicos dos fabricantes são
seguidamente apresentados:
A argamassa AC1 é uma argamassa cimentícia em pó com ligante à base de cimento
portland, agregados seleccionados e aditivos especiais, de elevada resistência mecânica
recomendada para trabalhos de reparação em betão até 4 cm de espessura. A relação
água/produto recomendada pelo fabricante é de 15%. O estudo desta argamassa revelou
que os valores da máxima dimensão dos agregados, do teor em partículas finas, do teor de
ar no estado fresco e do módulo de finura, são, respectivamente de 1,19 m, 31,6%, 2,5% e
1,35.
A argamassa ACP1 é uma argamassa melhorada com resinas sintéticas, recomendada para
reparação em camada grossa, formulada à base de cimento portland, areias seleccionadas,
sílica de fumo, resinas sintéticas e reforçada com fibras de poliamida. A relação
água/produto indicada pelo fabricante é de 14,4%. Esta argamassa apresentou uma
máxima dimensão do agregado de 1,19 mm, um teor em partículas finas de 41,7%,um teor
de ar no estado fresco de 4% eum módulo de finura de 1,71.
A argamassa ACP2 é um material fornecido em dois componentes, L e P. O componente
L é um líquido de cor branca (resina sintética em emulsão, da família dos acrílicos) e o
componente P um pó cinzento melhorado com resinas, fibras sintéticas e cargas especiais.
A mistura dos dois componentes é feita na proporção de 16% do componente L e 84%do
componente P. Os valores obtidos experimentalmente para a máxima dimensão do
agregado, teor em partículas finas, teor de ar no estado fresco e módulo de finura foram de
2,38 mm, 39,4%, 3% e 1,56, respectivamente.
2.2 Argamassas formuladas em laboratório
As argamassas formuladas em laboratório foram designadas por AN1 e AMP. Refira-se
que estas duas argamassas foram utilizadas como argamassas de referência de forma a
permitir estabelecer comparação com as argamassas industriais AC1, ACP1 e ACP2. Nas
argamassas AN1 e AMP, utilizou-se um cimento portland do tipo CEM I de classe de
resistência 42.5 R. Na formulação destas argamassas foram utilizadas duas areias, uma
fina, AF, e uma média, AM, provenientes, respectivamente, de Sesimbra e Vale Milhaços.
Nas análises granulométricas destas areias obtiveram-se valores do teor em partículas
finas, da máxima dimensão e do módulo de finura de, respectivamente, 0,51%, 0,59 mm e
1,39 para a areia fina, AF, e de 1,71%, 2,38 mm e 3,13 para a areia média, AM.
Com o objectivo de garantir uma melhor resistência, trabalhabilidade e homogeneidade,
ambas as argamassas foram formuladas com 1/3 de areia fina, AF, e 2/3 de areia média,
AM, e com uma relação ponderal cimento/areia de 1/3. Na argamassa N, a relação
água/cimento foi de 0,5. Neste estudo foi ainda utilizada uma emulsão polimérica,
designada por EP, de consistência líquida composto por 38,5±1,9% de resíduos sólidos
secos. Produziu-se ainda uma outra argamassa, AMP, que resultou da introdução dessa
emulsão polimérica, EP, na argamassa, AN1, tendo-se como objectivo avaliar a influência
deste polímero no comportamento da argamassa.Nesta argamassa AMP foi utilizada uma
relação polímero/cimento de 0,15 e água/cimento de 0,35 e um traço ponderal
cimento/areia de 1/3. Na tabela 1 são apresentadas as composições das argamassas
produzidas em laboratório, argamassa normal - AN1- e modificada com adjuvante
polimérico-AMP1, e das argamassas industriais. Na mesma tabela apresentam-se ainda os
valores da consistência por espalhamento e do teor de ar no estado fresco.
2.3 Ligação varões de aço-argamassa
Na figura 1 apresenta-se um esquema dos provetes utilizados que foram produzidos com
recurso a moldes cilíndricos com Ø=0,15×h=0,30m. Os varões de aço são posicionados no
fundo do molde através de uma placa de contraplacado, com 20 mm de espessura e com
um diâmetro ligeiramente inferior ao do cilindro normalizado, que tem um furo no centro
por onde se atravessa o varão de 10 mm de diâmetro. Os comprimentos de amarração são
estabelecidosatravés da introduçãodo varão num tubo de PVC com 11 mm de diâmetro e
com 100 ou 200 mm de comprimento que impede o contacto do varão com a argamassa
de reparação. Para cada comprimento de aderência foram ensaiados dois provetes.
Refira-se que nalguns casos não foi possível obter resultados por terem ocorrido
problemas durante a realização do ensaio. Após a colocação da argamassa nos respectivos
moldes, os provetes foram conservados no ambiente de laboratório até a data de ensaio.
Tabela 1 - Composição das argamassas AN1, AMP e industriais AC1, ACP1 e ACP2.
Materiais
(kg/m3)
Cimento CEM I 42.5R
Areia fina AF
Areia média AM
Total areia
Traço ponderal-cimento:areia
Relação: P/C (%)
Emulsão: EP
Teor de resíduo seco
Relação: A/C
Relação água/produto
Relação água/liquido
Água total
Água adicional
Consistência (%)
Teor de ar
Designação de Argamassa
AN1
AMP
AC1 ACP1
481,7
454,6
448,0
442,8
994,0
941,0
1445,0 1383,8
1:3
1:3
15
177,1
68,2
0,5
0,35
0,15
0,144
240,8
108,9
50,2
90,5
83,2
90,3
116,0
4,8
10,5
2,5
2,5
ACP2
0,16
76,0
4.0
Figura 1 - Esquema do provete do ensaio da ligação varão de aço-argamassa.
2.3.1 Sistema de ensaio
Os ensaios de aderência foram efectuados por arrancamento directo. Utilizou-se uma
máquina Universal de tracção, INSTRON 1343 com a capacidade máxima de 250 kN. O
varão com 300 mm de comprimento livre foi fixado à garra da cabeça inferior da máquina
de ensaios de tracção e o provete foi apoiado directamente na base inferior de máquina
através de uma travessa metálica suportado por cilindros de betão, figura 2.
Figura 2 - Provete e sistema do ensaio.
O comportamento de ligação aço-argamassa foi monitorizado através do diagrama
força-escorregamento do varão (foi medido o deslocamento da extremidade livre do
varão). A aquisição de dados foi realizada através de um dataloger-SPIDER 8 da HBM. A
força foi medida com uma célula de carga, NOVATECH com capacidade de 200 kN.
O escorregamento do varão foi medido na extremidade livre do varão com um transdutor
de deslocamento com 50 mm de curso, figura 2. A velocidade carga utilizada no ensaio
foi de 0,35 kN/s. Devido a problemas no equipamento de ensaio os testes não foram
realizados aos 28 dias de idade, como tinha sido inicialmente previsto, só tendo sido
possível iniciar os ensaios a partir dos 109 dias de idade dos provetes. O valor médio da
tensão de aderência foi determinado através da expressão:
τ máx =
onde
τ máx , Fmáx ,φ , Lb
Fmáx
πφLb
(1)
são, respectivamente, a tensão de aderência na rotura (em MPa), a
força de rotura no varão (em N), o diâmetro do varão (em mm) e o comprimento de
amarração (em mm).
2.3.2 Resultados experimentais
Para cada argamassa estudada foram ensaiados três comprimentos de amarração: 100, 200
e 280 mm. Na tabela 2 apresentam-se os valores da força máxima de arrancamento, a
relação entre a força máxima de arrancamento e a força de rotura do varão, a tensão média
de aderência e o valor médio da tensão de aderência obtido no conjunto dos provetes com
o mesmo comprimento de amarração, o modo de rotura obtido e o escorregamento do
varãona rotura. Refira-se que o valor da força de rotura do varão obtido no ensaio de
tracção foi de 45.5 kN.
Tabela 2-Resultados dos ensaios de arrancamento.
Argamassa/comprimento Força Relação
de aderência
máxima Fmáx/Fu
AN1/100.1
AN1/100.2
AN1/200.1
AN1/200.2
AN1/280.1
AMP/100.1
AMP/100.2
AMP/200.1
AMP/200.2
AMP/280.1
AMP/280.2
AC1/100.1
AC1/100.2
AC1/200.1
AC1/200.2
AC1/280.1
ACP1/100.1
ACP1/100.2
ACP1/200.1
ACP1/200.2
ACP1/280.1
ACP1/280.2
ACP2/100.1
ACP2/100.2
ACP2/200.1
APC2/200.2
APC2/280.1
27,1
25,2
41,6
45,1
44,1
25,4
28,6
45,2
44,6
44,9
46,3
34,2
31,3
44,5
44,5
45.2
40,1
32,0
44,6
44.9
46.3
44.6
32.0
26.4
45.2
44.1
48.1
0.59
0.55
0.91
0.99
0.97
0.56
0.63
0.99
0.98
0,98
1,02
0,75
0,68
0,98
0,98
0,99
0,88
0,71
0,98
0,98
1,02
0,98
0,70
0,58
0,99
0,97
1,06
Tensão
Tensão
de
média de
aderência aderência
(MPa)
(MPa)
8,63
8,26
7,91
6,62
6,90
7,18
5,02
5,02
8,09
8,60
9,11
7,07
7,06
7,04
5,11
5,19
5,27
10,9
10,4
9,97
7,09
7,09
7,09
5,14
5,14
12,8
11,5
10,2
7,10
7,13
7,15
5,27
5,17
5,07
10,2
9,31
8,41
7,19
7,11
7,02
5,47
5,47
Modo Escorregamento
de
após
rotura
rotura
(mm)
Escorr.
21,7
Escorr.
6,80
Escorr.
15,7
Escorr.
0,60
Escorr.
3,12
Escorr.
4,95
Escorr.
13,6
Escorr.
23,5
Escorr.
20,5
Escorr.
6,85
Escorr.
3,98
Escorr.
20,5
Escorr.
14,0
Escorr.
9,47
Escorr.
11,1
Aço
0,46
Escorr.
15,1
Escorr.
16,5
Escorr.
1,35
Escorr.
1,35
Escorr.
0,30
Escorr.
0,45
Escorr.
16,5
Escorr.
19,8
Escorr.
25,8
Escorr.
18,9
Aço
0,007
Nas figuras 3 a 8 apresentam-se os diagramas força-deslocamento obtidos nos ensaios de
arrancamento dos varões para os comprimentos de aderência de 100, 200 e 280 mm, nas
argamassas AN1, AMP1, AC1, ACP1 e ACP2.
30
Força [kN]
20
10
0
0
5
10
15
20
25
Escorregamento [mm]
AN1/100.1
AN1/100.2
Figura 3 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Argamassa Normal.
50
Força [kN]
40
30
20
10
0
0
0,5
1
1,5
2
2,5
3
3,5
Escorregamento [mm]
AN1/280.1
Figura 4 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Argamassa Normal.
50
40
Força [kN]
30
20
10
0
0
1
2
3
4
5
6
7
Escorregamento [mm]
AMP1/280.1
AMP1/280.2
Figura 5 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Argamassa Modificada.
50
Força [kN]
40
30
20
10
0
0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
Escorregamento [mm]
AC1/280.1
Figura 6 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Arg. pré-doseada AC1.
50
40
Força [kN]
30
20
10
0
0
5
10
Escorregamento [mm]
ACP1/100.1
15
20
ACP1/100.2
Figura 7 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Arg. pré-doseadas ACP2.
40
Força [kN]
30
20
10
0
0
5
10
15
20
25
Escorregamento [mm]
ACP2/100.1
ACP2/100.2
Figura 8 - Diagrama força de arrancamento-escorregamento. Arg. pré-doseada ACP2.
Da análise dos gráficos obtidos nos ensaios de arrancamento dos varões, constata-se que o
valor médio da tensão de aderência na ligação diminui com o aumento do comprimento de
amarração. Verifica-se também que a maioria das curvas apresenta uma evolução do
diagrama força-escorregamento semelhante aos resultados observados por Homayoun et
al. (1992), que são referidos por Daoud Lorrain (2002), realizados em betão normal e de
alto desempenho. São disto exemplo as curvas, AN1/100.1 e AN1/100.2, AN1/200.1,
AMP/100.1, AMP/100.2 e AMP/200.2, ACP1/100.1 e ACP1/100.2, ACP2/100.1 e
ACP2/100.2, ACP2/200.1 e ACP2/200.2. Nos modelos com o comprimento de aderência
de 280 mm observaram-se modos de rotura com comportamento dúctil, apresentando um
patamar limitado com escorregamento nulo, tendo ocorrido a rotura no aço. Este
comportamento verificou-se nas seguintes situações: AC1/280.1 e ACP2/280.2.
Nos modelos AMP/280.1 e AMP/280.2, verificou-se um patamar de ductilidade mais ou
menos limitado, seguido do aumento do escorregamento associado a uma diminuição da
força de arrancamento.
Para o comprimento de 100 mm verificou-se um domínio quase linear muito limitado, no
qual o escorregamento aço/argamassa é nulo, seguido de um troço descendente com
escorregamento. O valor de pico representa o valor limite da resistência da ligação. A
relação entre a força máxima obtida no ensaio de ligação e a força de rotura do varão é de
57% para a argamassa AN1, 59% na argamassa AMP, 68% na argamassa AC1, 79% na
argamassa ACP1 e 64% na argamassa ACP2.
A força máxima de arrancamento aumenta com o comprimento de aderência
independentemente do tipo de argamassa. Nos modelos ensaiados com 200 mm de
comprimento de aderência, verificou-se que a relação entre a força máxima e a força de
rotura do varão foi de 95% a 98% para as argamassas AN1 e AMP e de 98% nas
argamassas AC1, ACP1 e ACP2. Para as mesmas argamassas e para 280 mm de
comprimento de aderência, aquela relação foi de 97%, 100%, 99% e 106%.
Por outro lado, observa-se nos modelos AN1/100.1, AN1/100.2, AN1/200.1, AMP/100.1
e AMP/100.2 que, após o pico da força, ocorre um ramo descendente seguido depois de
um patamar mais ou menos horizontal, que traduz o atrito do aço embebido na argamassa
degradada. Este comportamento resulta na rotura do tipo “splitting crack”, observado por
Homayoun et al. (1992).
Nos modelos AN1/280.1, AC1/200.1 e AC1/200.2, ACP1/200.1, ACP1/280.1 e
ACP1/280.2, também se verificou uma perda brusca de força após a ocorrência do
máximo, tendo depois ocorrido um novo patamar. Nos provetes acima referidos esta
descarga foi, respectivamente, da ordem de 68%, 79% e 76%, 71%, 74% e 75%, dos
valores de pico da força de arrancamento.
Na tabela 3 apresentam-se também as expressões obtidas por regressão linear da
resistência à compressão em função da idade, donde se extrapolaram os valores da
resistência à compressão na data de ensaio.
Tabela 3-Resistência à compressão, idade das argamassas, curvas der regressão linear
Argamassa
Curva
fc(t)
AC1
ACP1
ACP2
AMP
AN1
3,392lnt + 44,09
7,586lnt + 25,25
5,204lnt + 30,55
5,743lnt + 28,24
3,633lnt + 25,28
Coeficiente
de correlação
(R2)
0,935
0,917
0,984
0,935
0,886
Idade de ensaio
(dias)
113
120
120
109
130
fcm.j
idade de ensaio
(MPa)
60,1
61,6
55,5
55,2
42,9
Na figura 9 apresentam-se as curvas de correlação entre os valores da relação
entre a tensão média de aderência e a resistência à compressão da argamassa e o
comprimento de aderência dos varões, obtidas nas argamassas pré-doseadas.
-0,5742
ACP2: τ/fcm = 2,4392xLb
0,3
R2 = 0,9281
-0,8044
ACP1: τ/fcm = 7,7469xLb
2
R = 0,9843
média / fcm
0,2
AC1: τ/fcm = 6,6373xLb-0,8034
R2 = 0,8973
0,1
0
100
150
200
250
300
Lb [comprimento de amarração]
AC1
ACP1
ACP2
Figura 9 - Valores da evolução da relação entre a tensão de aderência/ e a
resistência à compressão com o comprimento de aderência dos varões para as
argamassas AC1, ACP1 e ACP2.
2.3.3 Comprimento de amarração
De acordo com o Eurocódigo 2 (2004), o comprimento de amarração de base, Lb,
necessário para transmitir por aderência a força de tracção de um varão de aço para o
betão é determinado, através da seguinte expressão:
Lb =
φ f syd
(2)
4 f bd
em que: φ - diâmetro do varão em mm; fsyd - valor de cálculo da tensão de cedência em
MPa e fbd - tensão de rotura de aderência aos 28 dias de idade em MPa.
Na tabela 4 apresenta-se o cálculo do comprimento de amarração de base de um varão de
aço A500 embebido nas argamassas AC1, ACP1, ACP2, AN1 e AMP, de acordo com a
equação 2. O ensaio de tracção realizado no varão de aço, revelou que este é da classe
A500, cujo valor de cálculo da tensão de cedência é de 435 MPa, a que corresponde a uma
força de cedência Fsyd de 34,1 kN.
O valor característico da resistência à compressão das argamassas, fck,cil, foi obtido a
partir dos resultados do ensaio de compressão de cubos de 4 cm de aresta, tendo-se
determinado fck,4(valor característico da resistência à compressão aos 28 dias) através das
regras estabelecidas na norma NP ENV 206 de 1993.
O valor característico da resistência em cilindros normalizados, fck, foi obtido a partir de
fck,4, utilizando os coeficientes que relacionam os dois tipos de cubos, com 4 e 15 cm de
aresta, de 0.91, 0.88, 1.06 e 1.09, respectivamente para as argamassas AC1, ACP2, AMP e
AN1. O valor obtido foi multiplicado aplicando-se um coeficiente de 0,83 que se
considerou para relacionar a resistência de cubos com a de cilindros. Na conversão de fck,4
para fck,15 da argamassa ACP1 considerou-se o mesmo valor obtido para a argamassa
ACP2, de 0,88.
O valor médio da resistência à tracção simples, fctm, aos 28 dias de idade foi definido
através da seguinte equação definida no Eurocódigo 2 (2004) a partir dos valores de fck,cil:
2
f ctm = 0.3 × ( f ck )3
(3)
em que: fctm - resistência à tracção directa e fck - resistência característica especificada para
o material cimentício.
Ainda de acordo com o Eurocódigo 2, o valor característico da resistência à tracção
simples da argamassa fctk, foi admitido ser 0.7 do valor de fctm, enquanto que o valor de
dimensionamento à tracção, fctd foi obtido minorando o valor de fctk por 1,5. Refira-se que
o valor de cálculo da tensão de aderência, fbd, foi estimado com base no disposto no
Eurocódigo 2 a partir do valor de fctd.
Observando a tabela 4, os valores do comprimento de base das argamassas AC1, ACP1 e
ACP2, podem ser considerados iguais a 280 mm, enquanto que nas argamassas AN1 e
AMP podem ser considerados de 400 e 350 mm, respectivamente.
Tabela 4-Comprimento de amarração de base (Eurocódigo 2).
Argamassa
AC1
ACP1
ACP2
AMP
AN1
fcm,4 cm
fck,4 cm
55,6
48,6
52,7
47,7
49,3
40,9
47,6
39,3
37,1
31,3
fck,cil
fctm
(MPa) (MPa)
fctk
(MPa)
fctd
(MPa)
fbd = 2,25fctd
(MPa)
Lb de
base (m)
44,3
3,76
2,63
1,75
3,94
0,276
44,9
3,79
2,65
1,77
3,98
0,273
38,6
3,43
2,40
1,60
3,60
0,302
30,8
2,95
2,06
1,37
3,08
0,353
23,8
2,48
1,74
1,16
2,61
0,417
Analisando a tabela 2 verifica-se que nos ensaios de arrancamento de varões a rotura do
varão ocorreu apenas nos ensaios AC1/280.1, ACP1/280.1 e 2 e ACP2/280.1. Não se
tendo realizado ensaios de arrancamento com comprimento de amarração compreendidos
entre os 200 e os 280 mm, e superiores a 280 mm, apenas é possível concluir que nos três
casos acima referidos o comprimento de amarração obtido experimentalmente é coerente
com o especificado no Eurocódigo 2. No caso das argamassas AN1 e AMP com
comprimentos de amarração 280 mm verificou-se o escorregamento dos varões, resultado
também coerente com a exigência regulamentar que define comprimentos de amarração
superiores a 280 mm.
3. CONCLUSÕES
Da análise dos resultados dos ensaios de compressão é possível extrair as seguintes
principais conclusões:
a) Verificou-se a necessidade de se realizarem mais ensaios de aderência
aço-argamassa com outros comprimentos de aderência e outros diâmetros, no
sentido de se determinar o comprimento de amarração dos varões de aço nas
argamassas de reparação;
b) Os valores da tensão média de aderência varão-argamassa indicados na tabela 2
demonstram que as argamassas pré-doseadas AC1, ACP2 e ACP1, assim como a
argamassa AMP, apresentam resultados superiores relativamente à argamassa
normal AN1;
c)
Na ligação varão de aço-argamassa verificou-se em todas as argamassas
ensaiadas a existência de boas relações entre a tensão média de aderência, a
tensão à tracção simples, e o comprimento de aderência. Verificou-se também
que o valor da tensão média de aderência, decresce com o aumento do
comprimento de aderência, associado ao aumento da força de arrancamento e à
redução do escorregamento da ligação.
4 Referências
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concretes. Construction and Buildings Materials 23 (2009): p, 162-170.
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[6] EN1992-1-1: 2004 - Euroódigo 2: Projecto de Estruturas de Betão - Parte 1: Regras
gerais e regras para edifícios, Comité Europeu de Normalisation.
[7] Norma Portuguesa - NP-206 “Betão-comportamento, produção, colocação e critério de
conformidade”, IPQ, Lisboa, 1993.
[8] Homayoun, H.; Abrishami; Mitcheli, D. Simulation of Uniform Bond Stress, ACI
Materials Journal, V.89, No.2, March-April 1992.
[9] Daoud, A.; Lorrain, M.; Elgonnoumi, M. Resistance à l´arrachement d´armatures
ancrées dans le béton auto-plaçant. Materials Structures 2002; 35 (7): p. 395-401.
[10] Nsambu, R. Avaliação do Desempenho de Argamassas de Reparação para Betão
Armado. Tese de Doutoramento, IST, 2007, p. 524.
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