A importância da Sociologia no Contexto da Administração
Paulo Gorish Wilkom (FAFIPAR) [email protected]
Leandro Rodrigo Canto Bonfim (FAFIPAR) [email protected]
Sebastião Cavalcanti Neto (FAFIPAR) [email protected]
Ângela Maria Kletikoski (FAFIPAR) [email protected]
Resumo:
O estudo apresentado busca através de fundamentação teórica dar entorno sobre a
importância da sociologia dentro da administração. Utilizou-se para tal estudo o método da dialética
baseado em dados secundários, abordando a linha que defende a idéia da sociologia puramente
brasileira, dado que a mesma merece um destaque ao serem analisados fenômenos internos apenas
recorrentes no país. A evolução no contexto da sociologia dá uma visão ampliada de sua
importância dentro dos mais variados campo da ciência. Dentro da administração não é diferente,
uma vez que ambas buscam em sentidos horizontais orientar a visão estratégica da organização
relacionando suas metas com as dos funcionários. Entretanto, conclui-se através da presente
analogia literária que ambos, ao cruzarem-se, distorcem a realidade abrangida pelo homem
enquanto ser social.
Palavras-chave: Administração, Sociologia, Guerreiro Ramos.
1. Introdução e Justificativa
O desenvolvimento da sociedade globalizada está abstraindo das pessoas o que
existe de melhor: elas mesmas. Tal afirmação vem do fato de existirem nas organizações
não seres humanos, mas peças de uma máquina maior. Tal sistema, mordaz por natureza,
remete-se à averiguação do que é o homem, qual a sua formação e em que consistem suas
relações. Tais perguntas não serão respondidas neste estudo, no entanto, busca-se através da
averiguação de autores, demonstrar, e não questionar, a importância que a Sociologia tem
dentro da Administração, uma vez que são bases de uma mesma sociedade. Na concepção
de RAMOS (1966), a Sociologia pode ser específica para varias áreas do conhecimento
humano, e Administração inclui-se neste contexto. No entanto, é possível perceber o quão
tímida é a produção sociológica neste campo.
A justificativa para o estudo está focada nas palavras de BERGER & LUCKMAN
(1985), que afirmam ser o homem não só um homem por si só, pois ele é socialmente
construído. Ao analisar tais palavras, parece claro a afirmação de que além de indivíduo o
homem é um ser social, porém tal formação nos permite um estudo que aqui não caberia
devida a sua dialética. No entanto ao abordar a dialética, transferir-se-á sua metodologia
para este estudo, uma vez, que seguindo o pensamento de RICHARDSON (1999), esta é
uma análise da realidade relativa também a tempo e espaço, dizendo-se que as influências
do presente afetam o futuro em ritmo progressivo. Dentro do estudo proposto, propõe-se
demonstrar nas palavras de RAMOS (1966) que a racionalização do homem pode torná-lo
um objeto da sociedade.
Busca-se indicar a importância da Sociologia dentro do contexto da Administração,
buscando apenas focar alguns pontos que saltam aos olhos de administradores e sociólogos,
sem levar em consideração os ideais ou pontos de vistas de ambos os lados, remetendo-se
apenas à cientificidade.
O estudo limita-se a abranger alguns aspectos da Sociologia e da Administração,
uma vez que estes são universalmente complexos e, tendo essa formação, pode-se dar a
noção de realidade ampliada para cada individuo, ou seja, um monge tibetano pode ter uma
noção de realidade e esta provavelmente não será a mesma para um alto executivo
(BERGER & LUCKMAN, 1985).
2. Administração
A Administração é uma atividade há muito tempo desenvolvida, no entanto, seu
estudo sistemático e científico é recente, pois “assume-se que tal atividade tem
características intrínsecas que só foram possíveis de serem estudadas, analisadas e
codificadas nos últimos dois séculos”. (TSOUKAS e CUMMINGS, 1997 apud
VASCONCELOS 2008)
VASCONCELOS (2008) comenta que a princípio julga-se necessário definir que a
Administração é pertinente a todo o tipo de empreendimento humano que reúne, em uma
única organização, pessoas com diferentes saberes e habilidades, sejam vinculados às
instituições com fins lucrativos ou não.
Para DRUCKER (2002), a Administração não evolui geneticamente de uma
pequena para uma grande corporação. O autor ainda diz que a palavra “administração” não
pode ser facilmente definida ou explicada. Em primeiro lugar, é genuinamente americana e,
quando traduzida, perde sentindo, fica desfocada, denotando função, mas também
denotando as pessoas que a desempenham; indica uma posição, e é nível social, mas
também é uma disciplina e um campo da Ciência.
VASCONCELOS (2008) comenta que a Administração está profundamente
inserida na cultura porque ela trata da integração das pessoas em um empreendimento
comum. O que os administradores fazem na Alemanha Ocidental, no Reino Unido, nos
EUA, no Japão, ou no Brasil é exatamente o mesmo. Como eles fazem é que pode ser bem
diferente.
O administrador deve também capacitar a empresa e cada um de seus componentes
a crescer e se desenvolver à medida que mudem necessidades e oportunidades. Toda
empresa é uma instituição de aprendizado e de ensino. Treinamento e desenvolvimento
precisam ser instituídos em todos os níveis da sua estrutura – treinamento e
desenvolvimento incessantes. (idem, 2008)
A Administração, para DRUCKER (2002), é considerada como uma “arte liberal”.
É “arte” porque, é prática a aplicação e é “liberal” porque trata dos fundamentos do
conhecimento, auto-conhecimento, sabedoria e liderança. As origens do conhecimento e
das percepções estão nas ciências humanas e sociais, nas ciências físicas e na ética, que
devem estar focados sobre a eficiência e os resultados das organizações.
2.1. A Administração no Brasil
Para RAMOS (1966), o primeiro período em que o Brasil conheceu dois regimes, o
monárquico e o republicano, apesar de abranger largamente mais de cem anos, teve
significado sociológico bastante estável. Nesse período, a Administração, além de suas
funções normais, atendeu em especial a necessidade de absorver o excedente de mão-deobra ao qual o incipiente sistema produtivo do País não podia dar ocupação. O caráter
rudimentar da sociedade se refletiu na administração pública.
3. A Sociologia
A compreensão do MEC (2006) define que a Sociologia não é salvadora ou
solucionadora dos males sociais, ou dos problemas intelectuais das pessoas. Ela nasce como
uma ciência que vai oferecer uma nova perspectiva sobre a sociedade, que não é absoluta,
ou a única a demonstrar a “verdade”. Ela contribui pelo fato de nos dar referenciais de
reflexão sobre as sociedades.
Dentre autores que contribuíram com a ciência sociológica, está DURKHEIN.
Pretendendo estabelecer a Sociologia como disciplina rigorosamente objetiva, ele opôs-se a
todas as orientações que transformavam a investigação social numa dedução de fatos
particulares a partir de leis supostamente universais, como a lei dos três estados de
COMTE. Para DURKHEIN, uma lei desse tipo pode ter alguma utilidade para a filosofia da
história, mas não tem serventia maior para o estudo dos fatos sociais concretos. A
Sociologia deveria utilizar metodologia científica, investigando leis, não generalidades
abstratas e sim expressões precisas de relações descobertas entre os diversos grupos sociais.
(idem, 2006)
Já WEBER, diferenciando-se de DURKHEIN e COMTE, acreditou na possibilidade
de interpretar a sociedade não visualizando o todo, mas sim indivíduos isolados, uma vez
que as formações sociais se devem primeiro a um nível individualizado. (ibidem, 2006).
A propagação da Sociologia surgiu através das idéias de MARX e ENGELS (2000),
e uma gama de estudiosos recorrentes. Teve como marco a publicação do livro Manifest
der Kommunistischen Partei – O Manifesto Comunista (1848). Dentro desta obra os
autores procuraram desenvolver um corpus teórico onde procuravam compatibilizar a
dialética de Hegel com o materialismo de Feuerbach, duas perspectivas tidas como
incompatíveis dentro da filosofia.
3.1. A Sociologia no Brasil
A formação social brasileira é fruto da transplantação - e suas conseqüências – de
uma forma de civilização que, tendo sido criada na Europa, enfrentou as contingências de
estabelecer-se nos trópicos (PRADO apud BARIANI, 2006). As desventuras e desacertos
da colonização portuguesa impuseram-se como história, alicerçaram o mundo, legando
características que se esvaeceram com o tempo; submetidas à dinâmica própria que aqui se
desencadeou. Tal base refez-se, originando novas modalidades de sociabilidade a partir da
preservação/superação daquelas características (HOLANDA, 1995).
A Sociologia embrionária no Brasil teve início no final do Século XIX (sob a
influência de COUSIN, COMTE, SPENCER E HAECKEL, SUMMER E WARD E DE
LAMBROSO), com a função de resolver duas problemáticas centrais: a questão da
identidade nacional e a formação de um Estado nacional (LIEDKE, 2005). Entretanto, a
Sociologia Científica no Brasil data de meados dos anos 30, impulsionada pelo crescimento
do capitalismo burguês (idem, 2005).
Para GUERREIRO RAMOS (1966) a formação econômica, política e social
dependente do Brasil foram erigidas sob as hostes do colonialismo cultural, da
subordinação mental da elite nativa em relação à cultura dos países dominantes. A visão
etnocêntrica ancorada na cultura européia e norte-americana teria disseminado entre nós
uma
concepção
alienada
da
“realidade
nacional”,
homogeneizadora e propagadora de um universalismo abstrato que relegava a especificidade
do “fenômeno nacional”.
Essa visão alienadora, segundo ele, tentava solapar as contradições da sociedade
brasileira, desconsiderando a originalidade da estrutura social, tomando-a como simples
reflexo, imitação vil das determinações reinantes nos países de capitalismo central avançado.
Tal modalidade de pensamento intentava uniformizar o diferente, apagar os antagonismos,
isolar o estranho, abafar o ruído, sincronizar os tempos históricos. A vivência nacional,
situada numa outra fase cultural, reclamava fidelidade à sua própria temporalidade, sua
condição de “contemporaneidade do não-coetâneo” instaurava uma existência cultural própria
e requisitava uma dialética específica.
Era necessário - então - fazer uso da razão sociológica, da capacidade da Sociologia de
aplicar (se) seu instrumental, de rever-se, refletir a respeito de si e com relação à estrutura
social à qual estava vinculada, refazendo (se) métodos e objetivos. Ao método crítico capaz
de proceder a uma reflexão dessa natureza, assimilando criticamente as contribuições teóricas
“importadas”, RAMOS (1966) chamou “redução sociológica”.
A redução sociológica é uma “atitude parentética”, não-espontânea: põe entre
parênteses os fenômenos, recusando a afirmação ou aceitação imediata das percepções,
desnaturalizando a apreensão social e impondo filtros ao pensar. A redução tinha como
suposto a “universalidade dos enunciados gerais da ciência”, todavia, propalava o “caráter
subsidiário da produção científica estrangeira”, bem como o comprometimento do sociólogo
com a realidade em questão e no que diz respeito à fase cultural na qual a sociedade se
encontra (RAMOS, 1996, p. 72).
4. Porque a Sociologia na Administração
Todo indivíduo necessariamente trabalha no sentido de fazer com que o rendimento
anual da sociedade seja o maior possível. Na verdade, ele geralmente não tem intenção de
promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir dar sustento mais à
atividade doméstica que à exterior, ele tem em vista apenas sua própria segurança; e, ao
dirigir essa atividade de maneira que sua produção seja de maior valor possível, ele tem em
vista apenas seu próprio lucro, e neste caso, como em muitos outros, ele é guiado por uma
mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção. E o fato de este fim não
fazer parte de sua intenção nem sempre é o pior para a sociedade. Ao buscar seu próprio
interesse, freqüentemente ele promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que
quando realmente tem a intenção de promovê-lo. (SMITH apud VASCONCELOS 2008).
Para FERNANDES (1977) a Sociologia se ocupou de descobrir alternativas para o uso
racional de recursos materiais e humanos da sociedade, visando à consolidação e a defesa da
ordem dominante na sociedade do capital, a burguesia.
RAMOS (1966) já em suas primeiras páginas destaca que a administração tem
especial necessidade de desenvolver um forte senso sociológico, visto que administradores
são as pessoas que estão no comando das organizações. Para o autor, a Administração é algo
relevante na vida moderna, e que exige uma sociologia distinta, e que esta ultima, ainda tem
um longo percurso e um rico campo dentro da Administração para ser explorada.
Antes de elaborar diversas discussões sobre a sociologia dentro da ciência
Administração, é necessário definir “fato administrativo”. Seguindo a idéia do autor, este diz
que é “um complexo de elementos e de suas relações entre si, resultante e condicionante da
ação de diferentes pessoas, escalonadas em diferentes níveis de decisão, no desempenho de
funções que limitam e orientam atividades humanas associadas, tendo em vista objetivos
sistematicamente estabelecidos” (RAMOS, 1966 : 10).
Aporta-se então na linha do autor de que “fato administrativo” é também um “fato
social”, e dentro deste contexto, DURKHEIN atribui ao fato social existência própria,
independendo da existência individual, no entanto é notável considerar que no NÓS coletivo
está internalizado o EU individual, assim diz-se que “a sociologia não é uma ciência a uma
dimensão, mas uma teoria cientifica das camadas em profundidade dos fenômenos sociais”
(RAMOS, 1966 : 40).
O autor nos remete a um pensamento, que talvez, seja a fonte de discussões sobre a
formação das camadas sociais. WEBER apud RAMOS (1966) define que existem quatro
tipos de ação social: a racional no tocante aos fins, a racional no tocante a valores, a afetiva e
a tradicional. MANNHEIN apud RAMOS (1966) dispô-se a refinar o que pode ser
considerado racional e irracional no tocante a WEBER, e acabou por definir ato racional
aquele que é planejado e articulado, já o irracional esta ligado a emoção do individuo,
MANNHEIN foi mais longe ao adotar os adjetivos “funcional” e “substancial” para a
racionalidade. Sendo assim, um roubo é funcionalmente racional, pois está ligado ou
articulado a outros atos ou elementos e está ligado para atingir um objetivo, o roubo. De outro
lado a racionalidade substancial é focada na preservação da liberdade.
O autor admite, seguindo as palavras de MANNHEIN, que o atual estágio do
desenvolvimento capitalista, esta focando o desenvolvimento da racionalidade funcional, em
contrição a racionalidade substancial, trazendo assim, no decorrer do tempo, seqüelas a
sociedade. (ibidem,1966)
O individuo em função das pressões sociais, acaba por abster-se da auto-valorização,
abrindo mão de “SER HUMANO”, para assumir, o papel de apenas, um individuo do sistema.
Em sociedades taylorizadas, o fazer carreira torna-se o ápice de tal racionalização, uma vez
que o homem – aqui entendido como ambos os sexos – acaba tendo sua vida limitada à
conquista de novas promoções e melhorias, a tendência é, no entanto, que haja um
desequilíbrio entre ambas as racionalidades, pois o homem torna-se mecânico e deixa de
exprimir sua afirmação de racionalidade substancial.
O autor comenta que o ideal dentro das organizações é que existisse o “HOMEM
PARENTÉTICO”, ou seja, aquele capaz de sair de seu contexto social, e auto avaliar-se. Tal
individuo, estaria em uma escala acima do “HOMEM ORGANIZACIONAL”, ou aquele que
é demasiadamente funcional. (RAMOS, 1966)
Em contrição ao que PRESTHUS apud RAMOS (1966) diz em seu livro The
organizational society, onde o autor define três tipos de homem, o homem atual se vê
obrigado a tornar-se parentético, visto que seus limites estão cada vez mais restringidos.
RAMOS (2001) afirma que a participação social esta guiando a mente dos mais jovens, sua
verdadeira conquista é a participação social, não basta apenas inventar novas formas de
vender um produto, suas contribuições tem a pretensão de serem profundas ao que tangem a
sociedade e o “ser social”.
À luz dos ensinamentos do sociólogo e administrador Alberto Guerreiro Ramos, o
presente artigo, não teve, mais que a tímida pretensão de chamar a atenção dos leitores para a
importância da sociologia dentro da administração em todas as suas formas. É um campo
amplo, e que merece atenção, tal timidez é em conseqüência não do fato da existência de
pouco material relacionado à administração, mas à incapacidade de transformá-lo em um
conhecimento sólido. O conhecimento, uma vez semeado não pode ser mais contido, e quem
o semeia não detém sobre este os seus rumos ou o seu nível de abrangência.
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