ANAIS
VI Simpósio do Programa de Educação Tutorial em Economia Doméstica:
“A ABORDAGEM DO VESTUÁRIO NA ECONOMIA DOMÉSTICA”
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COMISSÃO ORGANIZADORA
Alessandra Vieira de Almeida
Aparecida de Paula Machado
Camila de Fátima Bento Edna Lopes Miranda
Eliziana Roberta dos Santos Lopes
Érika Cristine Silva Glauciane Aparecida Pereira
Joseane Dias da Silva
Leilane Rigoni Bossatto
Marli Irias
Raquel Aparecida de Oliveira Silva
Simone Caldas Tavares Mafra
Vanessa Aparecida Moreira de Barros
COMISSÃO TÉCNICO­CIENTÍFICO
Eliziana Roberta dos Santos Lopes
Glauciane Aparecida Pereira
Raquel Aparecida de Oliveira Silva
COMISSÃO AVALIADORA
Cristiane Natálicio de Souza
Débora Pires Teixeira
Elza Maria Vidigal Guimarães
Maria de Lourdes Mattos Barreto
Rita de Cássia Pereira Farias
Vania Eugenia Silva
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ÍNDICE
Editorial.....................................................................................................................05
ARTIGOS*
AVALIAÇÃO DOS RISCOS FÍSICOS PRESENTES EM LAVANDERIAS DE INDÚSTRIAS DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL: UM ESTUDO DE CASO........................................................................................................................06
ANÁLISE DE MODELOS E DA COMPOSIÇÃO TÊXTIL DE UNIFORMES DE TRABALHADORES DE LAVANDERIAS DE INDÚSTRIA DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL......................................................................................................17
CULTURA POMERANA NO ESPIRITO SANTO: O VESTUÁRIO E O SEU SIGNIFICADO SIMBÓLICO......................................................................................26
RESUMOS EXPANDIDOS*
A ESCOLA NO CAMPO E A IMPORTÂNCIA DE OUVIR CRIANÇAS E FAMÍLIAS RESIDENTES NA ZONA RURAL.............................................................................36
ANÁLISE DO GRAU DE ACEITAÇÃO, CONFIANÇA E CONHECIMENTO DA POPULAÇÃO DE VIÇOSA/MG COM RELAÇÃO AO PROCON..............................40
AS MARCAS DE GÊNERO NA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA......................................................................................44
AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL DE IDOSOS ATENDIDOS EM UM PSF DO MUNICIPIO DE VIÇOSA­MG.............................................................................49
AVALIAÇÃO ERGONÔMICA DO AMBIENTE DE TRABALHO DE UMA LAVANDERIA DE INDÚSTRIA DE PRODUTOS DE
ORIGEM ANIMAL.....................................................................................................52
ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS ORGANIZAÇÕES­ UM RECORTE BIBLIOGRÁFICO......................................................................................................57
ÉTICA: UMA BREVE ABORDAGEM SOBRE A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE ECONOMIA DOMÉSTICA..................................................................................62
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O conteúdo dos artigos é de inteira responsabilidade dos autores.
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EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS SERVIÇOS DE PROTEÇÃO A INFÂNCIA ABANDONADA.........................................................................................................66
GRAVIDEZ PRECOCE, QUALIDADE DE VIDA E REDES SOCIAIS....................................................................................................................71
HUMANIZAÇÃO HOSPITALAR: UMA ESTRATÉGIA DE APOIO ÀS FAMÍLIAS DE CRIANÇAS INTERNADAS...........................................................................................................76
INFÂNCIA COMO OBJETO DE ESTUDO: O LUGAR DA CRIANÇA NA PESQUISA................................................................................................................77
SEGURANÇA ALIMENTAR: REFLETINDO SOBRE AS DEMANDAS DE AÇÕES DE
EXTENSÃO
JUNTO
A
FAMÍLIAS CARENTES...............................................................................................................83
POLÍTICAS PÚBLICAS E AGRICULTURA FAMILIAR: UMA REVISÃO DE LITERATURA DO PROGRAMA DO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR (PNAE), PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR (PAE) E PROGRAMA DE AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS (PAA)............................................86
PALESTRAS
VESTUÁRIO E ARTESANATO: UMA PROPOSTA PARA A ECONOMIA DOMÉSTICA SOB A ÓTICA DAS ECONOMIAS SOLIDÁRIA E CRIATIVA­
Professora Dr. Rita de Cássia Pereira Farias............................................................91
EMPREENDEDORISMO SOCIAL NA MODA – Marcelo Cocco Barçante..............109
Patrocinadores.........................................................................................................110
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O conteúdo dos artigos é de inteira responsabilidade dos autores.
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EDITORIAL
O Programa de Educação Tutorial, PET/Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, promoveu nos dias 05 e 06 de outubro de 2011 o VI Simpósio do Programa de Educação Tutorial de Economia Doméstica, que teve como temática a A Abordagem do Vestuário na Economia Doméstica.
Este evento buscou proporcionar aos participantes uma compreensão sobre a temática, bem como, estabelecer um diálogo entre os envolvidos no evento, buscando melhoria da pesquisa sobre o tema no âmbito acadêmico. Lembramos que o conteúdo dos artigos presente nestes anais é de inteira responsabilidade dos autores.
COMISSÃO COORDENADORA
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AVALIAÇÃO DOS RISCOS FÍSICOS PRESENTES EM LAVANDERIAS DE INDÚSTRIAS DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL: UM ESTUDO DE CASO
SILVA, V. E.; MAFRA, S. C. T.; SOUZA, A. P.; FONSECA, J.
Universidade Federal de Viçosa
1. INTRODUÇÃO
[email protected]
A valorização da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é algo discutido e ganha cada vez mais espaço no cenário atual do mercado de trabalho, onde a adaptação do trabalho ao trabalhador visa maior conforto, contribuindo também para o possível aumento de sua produção.
Nesse contexto, Qualidade de Vida (QV) tem sido objeto constante de estudos e os resultados das pesquisas são utilizados para promover o desenvolvimento de situações de trabalho que buscam oferecer condições que agreguem valor ao trabalho e bem­estar ao indivíduo (FONTES, 2003).
Sendo assim, a busca por um ambiente de trabalho salubre perpassa por vários fatores. As condições físicas como temperatura, ruído, umidade, luminosidade e leiaute do ambiente devem ser planejadas e controladas visando a adequação do trabalho ao trabalhador. A melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores reflete não só nos serviços por eles prestados, mas também na redução dos índices de acidentes de trabalho e no surgimento de doenças ocupacionais, que por sua vez, está diretamente ligado à qualidade de vida do trabalhador, trazendo perdas para empregado e empregador.
O ambiente de trabalho lavanderia apresenta riscos variados aos seus trabalhadores, quais sejam, físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. Os riscos físicos podem influenciar no desenvolvimento das atividades laborais, bem como em sua QVT, uma vez que o aumento da temperatura, ruído, umidade, dentre outras variáveis, acarreta em doenças e diminuição da capacidade para o trabalho.
Assim, o presente estudo teve como objetivo identificar os possíveis riscos físicos presentes em lavanderias de duas indústrias de produtos de origem animal, pretendendo­se compreender o impacto dos mesmos no desenvolvimento das atividades pertinentes ao setor.
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Riscos Físicos
Uma grande fonte de tensão no trabalho são as condições ambientais desfavoráveis, como excesso de calor, ruídos e vibrações. Esses fatores causam 6
desconforto, aumentam o risco de acidentes e podem provocar danos consideráveis à saúde (IIDA, 2005).
A ANVISA (2007) considera que os riscos físicos são agentes de diversas naturezas a que possam estar sujeitos os trabalhadores, tais como ruído, vibrações, radiação ionizante e não­ionizante, temperaturas extremas (frio e calor), pressão atmosférica anormal, dentre outros aspectos encontrados no ambiente da lavanderia.
Com relação ao ruído do ambiente, a definição mais usual é aquela que considera ruído como “um som indesejável”. Esse conceito é um tanto subjetivo, pois um som pode ser desejável para uns, mas indesejável para outros, ou para a mesma pessoa em ocasiões diferentes (IIDA, 2005).
Segundo Couto (1995), o ruído afeta física e psicologicamente, podendo causar lesões irreversíveis. Um local de trabalho com muito ruído aumenta as tensões pelas quais o homem já está naturalmente sujeito. Para os indivíduos normalmente tensos, o ruído pode levar à irritabilidade, agravando os estados de angústia nas pessoas predispostas às depressões.
A vibração é outro variável relacionada aos riscos físicos presentes no ambiente de trabalho em lavanderia. Segundo Iida (2005), vibração é qualquer movimento que o corpo ou parte dele executa em torno de um ponto fixo. Esse movimento pode ser regular, do tipo senoidal ou irregular, quando não segue nenhum padrão determinado.
De acordo com Couto (1995), as vibrações existentes na área de trabalho podem resultar em sérios problemas, não só pelo quanto afetam a própria estrutura do prédio, dando origem ao aparecimento de rachaduras, como interferem no funcionamento e exatidão de equipamentos, ou por suas consequências sobre as pessoas.
A temperatura também se apresenta como um fator de risco físico presente no ambiente de trabalho lavanderia. Uma mesma temperatura poderá causar diferentes sensações em diferentes indivíduos. Da mesma forma o grau de umidade do ambiente e a velocidade de circulação do ar poderão fazer com que determinada temperatura seja mais ou menos suportável. Há, entretanto, limites válidos para qualquer situação, além dos quais surgem desconfortos, como também riscos para o homem (COUTO, 1995).
As atividades em ambiente de lavanderia são consideradas atividades moderadas, por se tratar de um trabalho contínuo, de acordo com a NR 15, se caracteriza como, “de pé, trabalho moderado em máquina ou bancada, com alguma movimentação; em movimento, trabalho moderado de levantar ou empurrar.” Sendo assim, a temperatura recomendada para ambientes onde se realiza atividades moderadas é de até 26,7º C.
A umidade é outro aspecto importante. De acordo com as recomendações, a umidade relativa do ar deve ser de, no mínimo 40%, conforme a NR 17 e no máximo 60%, segundo Castro e Chequer (2001).
A ventilação também deve ser levada em consideração ao se avaliar o ambiente laboral e, segundo Iida (2005), em ambientes muito quentes, é reconfortante sentir uma leve aragem junto à pele. Em ambientes industriais, a 7
ventilação pode ter o objetivo principal de remover o ar contaminado de aerodispersóides. Nesse caso, pode ser benéfico ou prejudicial ao conforto, dependendo da temperatura do ar.
Para Couto (1995), a iluminação é um ponto que não deve ser descuidado, uma má iluminação pode causar danos visuais, menor produtividade e elevada taxa de acidentes, além de negativas influências psicológicas sobre as pessoas.
2.2 Riscos Ergonômicos
A ergonomia, segundo Iida (2005), estuda os vários fatores que influenciam no desempenho do sistema produtivo e procura reduzir as suas consequências nocivas sobre o trabalhador, como a fadiga, estresse, erros e acidentes, proporcionando segurança, satisfação e saúde aos trabalhadores, durante seu relacionamento com o sistema produtivo.
O risco ergonômico pode ser caracterizado pela exposição a agentes ergonômicos, os quais se referem a qualquer fator que possa interferir nas características psicofisiológicas do trabalhador, causando desconforto ou afetando sua saúde (ANVISA, 2007). Para Conceição (2009), os riscos ergonômicos estão relacionados com a organização e gestão do trabalho, através de utilização de equipamentos, máquinas e mobiliários inadequados, favorecendo a adoção de posturas e posições incorretas, locais mal iluminados, ventilação e desconforto para os trabalhadores, monotonia ou ritmo de trabalho excessivo, exigências de produtividade, dentre outros.
Segundo Torres e Lisboa (2001), o Ministério do Trabalho preconiza a colocação de assentos que assegurem posturas corretas ao trabalhador, capazes de evitar posições incômodas, sempre que seja necessário executar a tarefa sentado. 2.3 Riscos Biológicos
De acordo com a NR 32 ­ Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde,considera­se como sendo risco biológico a probabilidade da exposição ocupacional a agentes biológicos. Esta mesma norma regulamentadora considera agentes biológicos os micro­organismos, geneticamente modificados ou não; as culturas de células; os parasitas; as toxinas e os príons (GONÇALVES, 2008).
Os riscos biológicos surgem do contato de micróbios e animais com o homem no ambiente de trabalho, estando sujeitos aos riscos profissionais, aqueles que trabalham com vísceras, órgãos, sangue, entre outros (EL SARRAF, 2004), como é o caso dos trabalhadores de indústrias de abate e processamento de produtos de origem animal.
De acordo com Silva (2007), os riscos biológicos em uma lavanderia de indústria de abate e processamento de produtos de origem animal, possuem um caráter desafiador aos organizadores do trabalho no setor, devido à facilidade de 8
contaminação a que os trabalhadores estão submetidos, pois os micro­organismos presentes nas roupas impregnadas por sangue, secreções, fezes e urina, podem contaminá­los, caso não façam uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
2.4 Riscos de Acidentes
Acidente é por definição, o acontecimento que determina, fortuitamente, dano que poderá ser à coisa, material ou pessoa. Acidente de trabalho, por definição legal, é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal, perturbação funcional ou doença que cause a morte, a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho (AFFONSO JUNIOR, 2000).
Para Conceição (2009), a lavanderia, seja hospitalar, hoteleira ou de indústria de produtos de origem animal, é um ambiente insalubre, que oferece riscos aos seus funcionários, principalmente riscos de acidentes de trabalho. Segundo Torres e Lisboa (2001), condições inseguras presentes no ambiente de trabalho podem causar acidentes que envolvam o trabalhador no ambiente físico, como paredes, teto e piso que não ofereçam segurança; iluminação e temperatura inadequadas; máquinas desprotegidas; acúmulo de pessoas e máquinas no ambiente de trabalho; instalações elétricas em mau estado; pisos escorregadios; dentre outros.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Os locais de estudo foram lavanderias (A e B) de duas indústrias de produtos de origem animal, situadas na Zona da Mata mineira. Os dados foram obtidos por meio de observações do local e medições das variávies temperatura, ruído, ventilação, umidade relativa do ar e iluminação. As medições de ruído, iluminação e temperatura seguiram as recomendações das Normas Regulamentadoras (NR’s 15 e 17) tomadas como referência para a realização deste estudo. O ruído foi medido considerando­se os locais onde havia maior propagação, como por exemplo, próximo à centrífuga. O equipamento utilizado (decibilímetro digital) foi disposto na altura do ouvido do trabalhador. Os resultados foram confrontados com os parâmetros estabelecidos pela NR­15 – Atividades e Operações Insalubres.
Os limites de tolerância para temperatura também foram analisados segundo a NR­15, com medição feita pelo medidor de Índice de Bulbo Úmido ­ Termômetro de Globo – IBUTG. Foi considerado para o cálculo do IBUTG um ambiente interno sem carga solar. A medição referente à umidade relativa do ar foi realizada, também, com o auxílio do medidor de IBUTG, utilizando­se o índice “HUMIDEX”. No caso da variável iluminação, as medições foram realizadas com um luxímetro digital, com valores tomados no campo de trabalho onde se realizava a tarefa visual. Já a ventilação foi medida por um higrômetro. Posteriormente às visitas, os dados colhidos a campo foram tabulados e analisados a partir de recomendações acerca do assunto, chegando­se à conclusão final do estudo.
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4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1 Lavanderia A
4.1.1 Temperatura
A temperatura foi medida através do medidor de IBUTG, em intervalos de 60 segundos, das 11h00min às 21h53min, totalizando 10hs53min de medição. Foram encontrados 27,21°C. Sendo assim, é possível inferir que a temperatura na lavanderia A era elevada, devendo­se acatar o que a NR­15 preconiza, a saber: quando o índice de temperatura ultrapassar o limite de 26,7°C, as pausas passam a ser obrigatórias e com durações variáveis. No caso analisado, a recomendação da referida norma é de 45min de trabalho e 15 mim de descanso.
A partir das observações feitas foi possível notar que a temperatura do ambiente de trabalho aumentou consideravelmente durante o turno da tarde, o que evidencia sobrecarga térmica sobre os trabalhadores durante a execução de suas atividades, necessitando maior atenção e melhorias dos responsáveis acerca desta variável. 4.1.2 Ruído
O ruído encontrado na lavanderia foi coletado durante um turno de trabalho, das 11h00min às 19h20min, totalizando 08h20min, em intervalos de 30 minutos, com o auxílio do decibilímetro. O nível de ruído variou de 60 a 97 dB(A), ultrapassando o limite de tolerância estabelecido pela NR­15, para jornada de trabalho de 8 horas diárias, que é de 85 dB(A). Portanto, é necessário que medidas sejam tomadas, a fim de se controlar o ruído, além do uso regular de protetores auriculares pelos trabalhadores; prática esta observada apenas pelos operadores de máquina. Os altos índices de ruído podem dificultar a comunicação, aumentando o risco da ocorrência de acidentes. Segundo Grandjean (1998), a intensidade e a repetitividade sonora levam a prejuízos de audição, que inicialmente são de natureza passageira, porém, se o nível de ruído persistir pode levar a lesões auditivas definitivas.
4.1.3 Iluminação
Para se obter o nível de iluminação foi utilizado um luxímetro, coletando dados uma vez em cada turno de trabalho, nos horários de 11h30min, 18h50min e 21h00min, nos setores de armazenamento, área limpa e área suja. Para Castro e Chequer (2001), a área suja e limpa, deve ter, no mínimo, 300 lux. Nesses locais foram encontrados uma média de 297,3 lux. Para o setor de distribuição recomenda­
se 150 lux, e foi encontrado de 205 a 260 lux. Assim, pode­se notar que o nível de iluminação total na lavanderia A era suficiente para a realização das atividades desenvolvidas no setor de distribuição. Entretanto, na área suja e limpa, apesar de 10
praticamente o nível médio de iluminação ter atingido o mínimo recomendado, ressalta­se que em alguns momentos, ao longo do turno de trabalho, os níveis de iluminação ficaram bem abaixo (158 lux) do que se recomenda, necessitando de intervenção para que a iluminação se torne uniforme durante toda a jornada de trabalho.
Para Iida (2005, p.470), “um bom sistema de iluminação, com uso adequado de cores e criação dos contrastes, pode produzir um ambiente de fábrica e escritório agradável, onde as pessoas trabalhem confortavelmente, com pouca fadiga, monotonia e acidentes, e produzam com mais eficiência”.
4.1.4 Ventilação
A coleta de dados acerca da ventilação foi feita com o auxílio de um anemômetro, medindo­se a mesma uma vez em cada turno de trabalho: às 10h30min, 18h50min e 21h00min. O ambiente possuía apenas ventilação natural, sendo a porta de entrada a única responsável por tal tarefa, portanto, o aparelho não identificou essa ventilação como significativa, registrando velocidade do ar de 0,0 m/s em todos os setores da lavanderia, contrariando o recomendado por Iida (2005), de no mínimo 0,2m/s. Por ser a porta a única abertura para a troca de ar no ambiente, a ventilação na lavanderia A era prejudicada. Segundo Silva et al. Ouvir(2006), a ventilação se configura como importante fator para o controle térmico do ambiente, assegurando certo grau de conforto do ambiente, de grande importância para a realização das tarefas, proporcionando também a renovação do ar. Assim, faz­se necessária uma intervenção no ambiente para renovação do ar e diminuição da temperatura.
4.1.5 Umidade relativa do ar
A umidade relativa do ar também foi medida com o auxílio do medidor de IBUTG, sendo levado em consideração o índice de Humidex. Os dados foram coletados em intervalos de 60 segundos das 11h00min às 21h53min, totalizando 10h53min de coleta, onde encontrou­se uma média de 37,58% de umidade, variando de 30,2% à 42,9%. A umidade relativa do ar deve ser, segundo a NR­17, de no mínimo 40% e, no máximo, 60% segundo Castro e Chequer (2001). Os valores encontrados não se enquadram nos limites recomendados, apresentando níveis abaixo do mínimo de umidade, o que pode contribuir para que o desconforto dos trabalhadores durante a execução de suas atividades seja aumentado.
Castro e Chequer (2001) afirmam que a umidade é mais elevada nos setores de lavagem e de centrifugação, e para evitar acidentes é necessária a presença de pisos gradeados próximos às máquinas, impedindo o acúmulo de água.
4.2 Lavanderia B
4.2.1 Temperatura
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Para a coleta dos dados acerca da temperatura do ambiente, usou­se o medidor de IBUTG, em intervalos de 60 segundos, das 09h05min às 17h51min, totalizando 08h46min de medição. Foi encontrada uma média de 25,64°C, com variação de 24 à 26,7°C, uma vez que a temperatura do dia variava em torno dos 18°C. Pode­se perceber que a temperatura na lavanderia B não se apresentou elevada, mas isso se justifica devido à temperatura externa do ambiente estar relativamente baixa, contribuindo para que a temperatura se mantivesse amena. De acordo com a NR­15, quando o índice de temperatura ultrapassar o limite de 26,7°C, as pausas passam a ser obrigatórias e com durações variáveis. No caso analisado, a recomendação da referida norma é semelhante a da lavanderia A, qual seja, 45min de trabalho e 15 mim de descanso.
A partir das observações feitas foi possível notar que a temperatura do ambiente de trabalho, durante a coleta de dados, não oferecia sobrecarga térmica aos trabalhadores, sendo observado que alguns deles utilizavam agasalhos devido à baixa temperatura do dia. 4.2.2 Ruído
O ruído detectado na lavanderia estudada advinha das máquinas presentes no ambiente, as quais funcionavam de maneira contínua durante todo o turno de trabalho. Os dados foram obtidos com o auxílio de um decibilímetro, em intervalos de 30 minutos, das 10h00min às 18h00min, totalizando 08h00min de coleta, que abrange o turno de trabalho dos trabalhadores. Os níveis de ruído encontrados variaram de 55,5 a 86,5 dB(A), obtendo como média geral da lavanderia B 68,87 dB(A). Apesar do nível máximo de ruído encontrado na lavanderia B ter excedido o limite estabelecido pela NR­15, para jornada de trabalho de 8 horas diárias, que é de 85 dB(A), a média geral de ruído encontrada se mostrou dentro do limite considerado adequado. Assim, não se vê necessária, a recomendação do uso de protetores auriculares pelos trabalhadores deste ambiente.
Nas observações feitas não foi evidenciado o uso, por parte dos trabalhadores de protetores auriculares, visto que esta foi uma recomendação do setor de segurança do trabalho da empresa, que contratou serviço terceirizado de medição e aferição das variáveis físicas do ambiente, obtendo a mesma conclusão, de nível aceitável de ruído no ambiente.
4.2.3 Umidade Relativa do Ar
Os dados de Umidade Relativa do Ar foram coletados no ambiente a partir do medidor de IBUTG, levando em consideração o índice de Humidex. Os dados foram coletados em intervalos de 60 segundos das 09h05min às 17h51min, totalizando 08h46min. Foi encontrada uma média de 36,94% de umidade, variando de 36% à 37,7%. A umidade relativa do ar deveria ser, segundo a NR­17, no mínimo 40% e, segundo Castro e Chequer (2001), de no máximo 60%. Os valores encontrados não se enquadram nos limites permitidos, apresentando níveis abaixo do mínimo de 12
umidade, o que pode contribuir para o aumento da sensação de desconforto dos trabalhadores durante a execução de suas atividades.
4.2.4 Ventilação
A ventilação foi medida com o auxílio de um anemômetro, fazendo­se uma medição em cada turno de trabalho, às 09h45min, 16h45min e 22h15min. O ambiente possuía apenas ventilação natural, advinda da porta de entrada da lavanderia, das aberturas de entrega e devolução de malotes, bem como das janelas na parte superior das paredes da porta de entrada e na parede oposta à ela. Foi registrada ventilação de 0,3 m/s em dois instantes da coleta de dados: na abertura para devolução de malotes na área masculina, no horário de 16h45min e na entrega de malote masculino, no horário de 22h15min. É importante ressaltar que nestes dois instantes, onde as aberturas de entrega de roupa ficavam abertas, bem como as portas que ficavam frente a cada uma delas, foi percebida uma corrente de ar no local, fato esse registrado pelo aparelho, fazendo com que a sensação térmica fosse mais agradável no local. Em todos os outros locais onde ocorreu aferição de ventilação, como no setor de costura, balcão de entregas, setor de secagem, centrifugação, lavagem, entrega de malote feminino e masculino e ainda no setor de devolução de malote feminino e masculino (exceto os instantes citados acima de presença de ventilação), não foi notada nenhuma ventilação significativa, registrando uma velocidade do ar de 0m/s, contrariando o que recomenda Iida (2005), que a ventilação seja de 0,2m/s. Portanto, necessita­se que mudanças sejam feitas, como por exemplo, a instalação de ventiladores ou exaustores que alcancem todos os setores deste ambiente, a fim de que se tenha ventilação em todos os setores da lavanderia.
4.2.5 Iluminação
Para coletar os dados acerca do nível de iluminação do ambiente em estudo foi utilizado um luxímetro, uma vez a cada turno de trabalho nos seguintes horários, 09h35min, 16h30min e 10h00min, nos setores de costura, entrega de malotes feminino e masculino, devolução de malote feminino e masculino, setores de centrifugação, secagem, lavagem e balcão de entrega de roupas. Para Castro e Chequer (2001), a área suja e limpa, deve ter, no mínimo, 300 lux. Como o ambiente estudado não possuía divisão por áreas, foi feita a junção dos dados dos setores de costura, secagem, centrifugação e lavagem, referente às áreas limpa e suja, obtendo uma média de 318,5 lux, com variação de 180 a 800 lux. Para o setor de distribuição recomenda­se 150 lux, que no caso da lavanderia estudada englobou o setor de entrega e devolução de malotes masculinos e femininos, e foi encontrada média de 169,5 lux, com variação de 10 a 540 lux, sendo que este valor mínimo encontrado foi causado pelo acúmulo de malotes no setor, que acaba impedindo que a luminosidade proveniente das lâmpadas chegue à célula de captação do aparelho utilizado.
De modo geral, percebeu­se que a iluminação no ambiente estava dentro dos 13
níveis recomendados, mas mudanças devem ser feitas para que todos os locais da lavanderia se enquadrem no limite aceitável durante toda a jornada de trabalho, como a desobstrução do setor de devolução de malotes, e a abertura de todas as janelas e entradas de luminosidade do ambiente.
5. CONCLUSÕES
O setor de lavanderia, em diferentes situações, é considerado um setor de apoio, que apenas supre as necessidades de outro setor fundamental da empresa, não sendo, portanto gerador de lucros. Sendo assim, o recebimento de verba e incentivos passa, muitas vezes, despercebido pela administração da empresa, reduzindo seu crescimento e acompanhamento das tecnologias. Apesar da falta de visibilidade da lavanderia em relação a outros setores da instituição como um todo, a lavanderia “A” foi submetida recentemente à reforma em sua estrutura física e equipamentos, o que melhorou o funcionamento e as atividades desenvolvidas, e o que consequentemente reflete na qualidade de vida dos trabalhadores deste ambiente, tornando­o mais favorável às atividades laborais, diminuindo a fadiga mental e física.
Com relação aos riscos presentes nas lavanderias estudadas, foi possível identificar em ambas as realidades, os riscos físicos na lavanderia A: temperatura elevada, ruído excessivo, baixa umidade e inexistência de ventilação significativa e, na lavanderia B destaca­se a deficiência de ventilação e iluminação em todos os setores da lavanderia, além de a temperatura, ruído e umidade se encontrarem no limite aceitável para a execução das atividades. É necessário que os supervisores intervenham adotando medidas para minimizar tais riscos como a implantação de exaustores que reduziriam a temperatura e melhoraria a ventilação e troca de ar; manutenção periódica de todos os equipamentos buscando a redução do ruído; e avaliação das rotinas de trabalho, efetuando rodízio de trabalhadores nos postos onde se detecte carga de trabalho elevada.
Foi possível perceber que a estruturação de uma lavanderia em uma indústria de produtos de origem animal facilita a higienização e a entrega das roupas aos trabalhadores e visitantes que necessitam de paramentação, levando a concluir que o planejamento e a estruturação deste ambiente têm influência direta no trabalho a ser desenvolvido. Com a estruturação de um ambiente que favoreça o trabalho e o trabalhador, as atividades laborais tendem a ser mais proveitosas, contribuindo para o êxito do trabalho proposto. O planejamento das atividades a serem desenvolvidas no ambiente laboral e o objetivo que se procura alcançar no desenvolvimento das atividades de uma lavanderia de indústria de produtos de origem animal são os norteadores do trabalho a ser desenvolvido, guiando a busca por excelência e qualidade. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
14
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CASTRO, R.M.S.; CHEQUER, S.S.I. Serviço de Processamento da Roupa Hospitalar: Gestão e Funcionamento. Viçosa, MG: UFV, 2001. 100p.
CONCEIÇÃO, G. S. Estruturação de um Manual de Orientações e Informações técnicas para lavanderias de indústrias de produtos de origem animal. 2009. Relatório final, referente Projeto aprovado e financiado pelo edital 50/2006 do CNPq.
COUTO, H. A. Ergonomia Aplicada Ao Trabalho: O Manual da Máquina Humana. Belo Horizonte: Ergo Editora, 1995, vol 2, p.383.
EL SARRAF, R. A. Aspectos Ergonômicos em Uniformes de Trabalho. Porto Alegre. 2004. 149f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção), Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2004. Disponível em: http://www.producao.ufrgs.br/arquivos/publicacoes/RobertAssaadElSarraf.pdf, acessado em 16­12­2009.
FIJAN, S.; CENCIE, A.; TURK, S. S. Hygiene monitoring of textiles used in the food industry. Brazilian Journal of Microbiology. P.356­361, julho, 2006.
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15
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MARQUES, M.P.R. Análise e Percepção dp Processo de Higienização de roupas profissionais em indústrias alimentícias_ Viçosa: UFV, 2006. Tese (mestrado em Economia Doméstica) Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2006.
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TORRES, S.; LISBOA, T. C. Limpeza e Higiene Hospitalar. 2ed.São Paulo, CLR Balieiro, 2001.
________. Limpeza e Higiene Hospitalar. 3 ed. São Paulo, CLR Balieiro, 2008. 16
ANÁLISE DE MODELOS E DA COMPOSIÇÃO TÊXTIL DE UNIFORMES DE TRABALHADORES DE LAVANDERIAS DE INDÚSTRIA DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL
SILVA, V. E.; MAFRA, S. C. T.; FONTES, M. B.; FONSECA, J.; MAFRA, C. L.
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
Num mercado globalizado, tão acirrado pela concorrência, e com consumidores cada vez mais exigentes, empresas de alimentos têm se preocupado com a qualidade sanitária dos produtos que oferecem, a qual pode, em casos extremos, refletir­se pelo bloqueio às exportações, perdas de mercado, penalidades e procedimentos sanitários. Entretanto, muitas dessas empresas não têm considerado que, para se obter um produto de qualidade, é necessário o controle de diversos fatores envolvidos no processo de produção de alimentos, como os setores de apoio, por exemplo, a lavanderia, e consequentemente, os uniformes por ela higienizados e utilizados pelos trabalhadores na linha de produção, os quais necessitam ser devidamente desinfetados para não comprometer a qualidade do produto final. O setor de lavanderia, geralmente é menosprezado por não gerar lucros diretos e também por “receber toda a roupa suja da empresa”, ou seja, todas as roupas usadas na indústria, em todos os setores, da administração ao abate de animais. Estas roupas, com os mais diversos tipos de sujidade, se encontram na lavanderia, que quando não possui uma boa organização física e do trabalho acaba permitindo o contato entre as mesmas, favorecendo a ocorrência do fluxo cruzado de roupas sujas e limpas, evidenciando uma incoerência técnica do espaço de trabalho e, consequentemente, do processo de higienização da roupa. Por este motivo, acredita­se que a lavanderia deve ser vista como um dos setores com necessidade de receber atenção por parte dos dirigentes da instituição, quando se objetiva qualidade na produção e oferecimento de produtos de origem animal com sanidade para o consumidor final. Pois, quando ocorre essa mistura de roupas, todo o cuidado despendido na linha de produção para evitar a contaminação do alimento que será produzido e garantir sua qualidade higiênico­
sanitária é perdido, podendo, inclusive, comprometer todo o trabalho dos profissionais responsáveis pela inspeção e controle de qualidade dos produtos, como médicos veterinários, engenheiros de alimentos, entre outros.
Muitos gestores e administradores de indústrias de produtos de origem animal estão pouco preparados para lidar com o setor de lavanderia, visto que a falta de consideração que demonstram para com o setor, uma vez que o mesmo gera altos custos para a instituição, seus benefícios nem sempre são percebidos. Isto é o que as pesquisas têm evidenciado. Esta situação contribui para aumentar a 17
insalubridade inerente a este ambiente de trabalho e os riscos com a qualidade do produto oferecido ao usuário, seja este como demandante do uniforme ou do produto alimentício.
Na busca por maior qualidade e segurança na produção de alimentos pelas indústrias, alguns aspectos têm passado por mudanças, sendo um deles a utilização de vestimentas de trabalho pelos trabalhadores, uma vez que a higiene pessoal pode interferir na qualidade dos alimentos produzidos pelo contato direto existente entre o uniforme do trabalhador e o produto que está sendo processado. Sendo assim, o máximo de cuidado é essencial para evitar qualquer tipo de contaminação do alimento, por meio do uso de uniformes devidamente higienizados até a lavagem correta das mãos dos trabalhadores (MARQUES, 2006). O referido autor enfatiza que os empresários de indústrias alimentícias têm se preocupado com a uniformização de seus trabalhadores devido à exigência da legislação de segurança e higiene que prevê a proteção destes como mecanismo de garantia da qualidade sanitária dos produtos processados.
Para contribuir e referendar pressupostos acerca deste aspecto, o referido estudo objetivou identificar a percepção do trabalhador com relação ao seu uniforme de trabalho e aspectos relevantes na opinião de profissionais ligados a área de lavanderia na questão vestimenta de trabalho, bem como analisar os modelos e a composição têxtil dos uniformes de trabalhadores de lavanderia de indústria de produtos de origem animal.
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Uniformização Em indústrias de produtos de origem animal é necessária a utilização de uniforme, para evitar a contaminação por micro­organismos presentes em carcaças, fezes, coágulos de sangue, dentre outros, tanto para o produto processado, quanto para os trabalhadores (FIJAN et al., 2006).
Porém, para que o uniforme possa ser eficaz como EPI, este deve ser higienizado com frequência e de maneira correta para que não haja contaminação.
Para Fijan et al. (2006), muitos acreditam que, o uniforme que passa pelo processo de higienização na lavanderia e retorna aos trabalhadores da linha de produção está de fato limpo, e consequentemente seguro, porém, muitas vezes, a sujidade pode ter sido removida, mas, a roupa está longe de ser estéril. Experiências comprovam que equipes de controle de infecção devem considerar o processo de higienização da roupa como um aspecto sério, quando da ocorrência de manifestações de surtos de doenças, viroses ou distúrbios que parecem não ter causa aparente (FIJAN et al., 2006). Outro ponto importante a ser tratado sobre a uniformização dos trabalhadores de lavanderia de indústrias de produtos de origem animal são as características estruturais do uniforme. As roupas profissionais devem proporcionar liberdade de movimentos e conforto térmico aos seus usuários. Dessa forma, o 18
uniforme se torna assunto técnico dentro da empresa, que não é mais analisado apenas no que se refere ao preço, mas também no seu custo benefício. 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Os locais de estudo foram duas lavanderias de indústrias de produtos de origem animal, localizadas no Estado de Minas Gerais. Uma pertencia a uma indústria de abate e processamento de aves e a outra a uma indústria de abate e processamento de suínos1. Realizou­se levantamento bibliográfico sobre lavanderias de indústria de produtos de origem animal, com foco em modelos de uniformes e fibras têxteis recomendadas para a confecção dos mesmos, com objetivo de identificar informações, recomendações, estudos, que pudessem subsidiar o estudo em questão, tanto na análise dos dados quanto na discussão dos mesmos.
3.1 Percepção dos trabalhadores em relação ao uniforme de trabalho
Os trabalhadores das lavanderias pesquisadas foram entrevistados a fim de se identificar a percepção e as necessidades dos mesmos em relação ao uniforme de trabalho que utilizavam, uma vez que desconsiderar a opinião do usuário produz uma visão simplista e reducionista, como se o uniforme existisse independentemente dos sujeitos que o usa. Para tanto, foi elaborada uma entrevista semi­estruturada com questões sobre conforto do uniforme, modelo, fibra têxtil e cor. 3.2 Percepção de profissionais ligados à área de lavanderia em relação ao uniforme dos trabalhadores da lavanderia
Esta etapa constou de investigações junto aos profissionais da área, por meio de entrevistas semi­estruturadas com Consultores especializados em lavanderia, Economistas Domésticos, Fiscais do Serviço de Inspeção Federal (SIF) do MAPA, Administradores de indústrias de produtos de origem animal, objetivando identificar quais aspectos estes profissionais consideram relevante no que se refere ao uniforme dos trabalhadores da lavanderia de indústria de produtos de origem animal. 3.3 Análise dos modelos e composição têxtil dos uniformes A análise dos modelos e da composição têxtil dos uniformes dos trabalhadores das lavanderias foi realizada no Laboratório de Têxteis do Departamento de Economia Doméstica, da Universidade Federal de Viçosa. Primeiramente, foi realizado o teste do toque, que consiste em apalpar o pano para 1
As indústrias pesquisadas são de extrema importância para economia da região da zona da mata mineira, gerando cerca de cinco mil empregos diretos e oito mil indiretos.
19
identificar a textura que caracteriza cada fibra considerando as características apresentadas de forma específica, bem como análise da etiqueta de conservação fixada ao uniforme analisado.
Logo após, foi realizado o teste da queima, que consiste em queimar um pedaço do tecido e identificar a fibra, considerando a característica do processo de queima. Neste teste, o tecido é colocado na chama e, em seguida, afastado, observando a característica da cinza, odor e coloração da fumaça desprendida (CÂNDIDO; VIERA, 2003).
Por fim, para a identificação das fibras, foi realizada a análise microscópica das fibras dos tecidos utilizados na confecção dos uniformes dos trabalhadores da lavanderia. Utilizou­se para tanto, um microscópio da marca OLYMPUS, constituído de lentes objetivas com capacidade de resolução 10X e 20X. As fibras observadas foram preparadas utilizando­se lâminas simples e lamínulas. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Percepção dos trabalhadores em relação ao uniforme de trabalho
Para os trabalhadores das lavanderias estudadas, o uniforme que usavam no dia a dia de trabalho era confortável e o modelo facilitava a execução do trabalho, ressaltando que este deveria ser composto por duas a quatro peças, sendo estas: calça, camisa, blusa de moletom.
Em relação à cor que consideravam mais adequada para o tipo de atividade que realizavam, 75% optaram pelo branco, por facilitar a visualização da sujeira, já para 25% dos trabalhadores, a cor mais aconselhável seria azul devido ao fato de alguns trabalhadores da lavanderia possuírem maior contato com as máquinas e produtos químicos que podem manchar as roupas. Com relação às fibras utilizadas para a confecção dos uniformes, 58% acreditavam que o uso de malha fria era o mais adequado, pelo fato de o ambiente de trabalho ser quente, 42% preferiam o algodão, por proporcionar conforto e favorecer a transpiração.
Com relação ao modelo de uniforme mais apropriado para o local de trabalho, 100% dos trabalhadores sugeriram que este seja composto por camisa de malha com manga curta e calça.
4.2 Percepção de profissionais ligados à área de lavanderia em relação ao uniforme dos trabalhadores da lavanderia
Atualmente, se observa uma grande preocupação com a confecção do uniforme de uma indústria, onde os critérios estão evoluindo de um enfoque puramente estético para uma maior preocupação com o funcionalismo, a segurança e o conforto de quem vai usá­lo (EL SARRAF, 2004). Nesta perspectiva, a entrevista com perguntas relacionadas ao uniforme teve como objetivo compreender, na visão dos diversos profissionais, o que é mais relevante para a confecção dos uniformes dos trabalhadores da lavanderia de indústria de produtos de origem animal. 20
Em relação ao modelo de uniforme para os trabalhadores de lavanderia, os Economistas Domésticos indicaram macacão, ou calça comprida e camisa de manga longa ou curta, dependendo do posto de trabalho. A calça deve ser de elástico, com cós mais largo para maior flexibilidade, e a camisa de malha fria, mangas curtas, sem gola e sem botão. Esses profissionais ressaltaram que para se trabalhar na área contaminada, a camisa deve ser de manga longa e, ainda, usar avental impermeável.
Os consultores especializados recomendaram um modelo que evite o contato do trabalhador com a roupa suja, por exemplo, macacão.
Em relação ao uniforme para os trabalhadores da lavanderia, os fiscais do SIF, os técnicos de Segurança do Trabalho e os gerentes administrativos sugeriram calça e camisa de mangas curtas, isentos de bolsos e botões externos. Já os supervisores sugeriram camiseta e calça.
Marques (2006) afirma que o modelo do uniforme deve reunir características indispensáveis ao seu uso, através do conforto, liberdade de movimentos nas atividades exercidas, bem como adequação ao ambiente de trabalho e clima da região.
Quanto à melhor fibra, os Economistas Domésticos indicaram o algodão por ser uma fibra resistente a um maior número de lavagens, e suportar altas temperaturas, proporcionando sensação de frescor, visto que a lavanderia é um local quente. Também citaram a possibilidade da utilização de uma mistura composta por poliéster ou poliamida e algodão com maior porcentagem de algodão.
Os consultores também sugeriram o algodão por ser mais fácil de higienizar e mais durável.
Para os fiscais do SIF e os técnicos de Segurança do Trabalho, a melhor composição têxtil para a confecção dos uniformes seria uma mistura de algodão com poliéster. Já o gerente administrativo não soube opinar em relação à fibra mais indicada para a confecção dos uniformes, por não ter conhecimento do assunto. E os supervisores de lavanderia sugeriram mistura de algodão com poliéster, 50% sintético (mais flexibilidade e menor amarelamento) e 50% algodão (maior conforto).
Algumas características como as que foram citadas pelos profissionais são essenciais para a escolha do melhor tecido para a confecção do uniforme, quais sejam, durabilidade, flexibilidade, vida útil e facilidade de limpeza (WAJNMAN, citado por EL SARRAF, 2004).
Em relação à cor do uniforme, os Economistas Domésticos citaram cores claras como verde, bege e branco por demonstrarem a sujidade e não absorverem calor.
Por outro lado, os consultores especializados sugeriram cores escuras em virtude de esconderem as possíveis manchas que vão se acumulando, por exemplo, a cor verde ou azul.
Já os fiscais do SIF, os técnicos de Segurança do Trabalho e o gerente administrativo, também, enfatizaram a necessidade de se adotar a cor branca para os uniformes dos trabalhadores da lavanderia, uma vez que se trata de indústria de alimentos, onde a legislação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, preconiza o uniforme branco para os manipuladores de alimentos. 21
Entretanto, para a área suja, sugeriram cores escuras para o uniforme. Os supervisores de lavanderia recomendaram branco para área limpa e azul para área suja.
4.3 Modelo e composição têxtil dos uniformes dos trabalhadores das lavanderias estudadas
Nesta etapa foram identificados os modelos dos uniformes utilizados pelos trabalhadores das lavanderias estudadas, bem como a composição têxtil dos mesmos, buscando verificar sua adequação ao tipo de atividade desenvolvida pelos trabalhadores.
Os uniformes adotados pelas lavanderias estudadas eram compostos por calça na cor branca: modelo com bolso chapado na lateral da perna direita e lapela na parte superior, pespontado com costura simples, com elástico embutido na altura da cintura para ajuste do cós e bainha arrematada com costura simples batida à máquina. Em uma das lavanderias, o modelo da calça apresentava, ainda, cadarço para ajuste na cintura.
FIGURA 1 – Modelo de calça usada como uniforme dos trabalhadores das lavanderias em indústria de produtos de origem animal visitadas.
Fonte: Dados da pesquisa, 2009.
Observou­se que o modelo de calça utilizada pelos trabalhadores das lavanderias apresentava detalhes como bolso, que pode ser dispensável por servir de acúmulo de sujeiras dificultando o processo de higienização e interferindo no controle de contaminação das roupas. Assim, é aconselhável que as roupas utilizadas neste ambiente não possuam detalhes, garantindo a higiene pessoal e ambiental.
A camiseta, que compunha o uniforme utilizado pelos trabalhadores do setor, possuía as seguintes características: cor branca, manga curta, decote em V, abertura frontal, gola esporte. Ou então era usada uma camisa de brim, também na cor branca, com decote em V, arrematado com gola esporte, pequena abertura frontal, sem botão e mangas curtas, bainhas do corpo da camisa e das mangas arrematadas com costura simples batida à máquina.
FIGURA 2 – Modelo de camisa usada como uniforme dos trabalhadores das lavanderias em
indústria de produtos de origem animal visitadas.
Fonte: Dados da pesquisa, 2009.
Com relação ao acabamento dos uniformes, pôde­se notar que este possuía 22
costuras internas classe 300 e ponto corrente, caracterizada por serem costuras muito firmes, suportando bem a carga sofrida pela atividade desenvolvida pelo trabalhador. A costura interna era feita com ponto corrente, a bainha possuía costura simples e a gola costura batida simples. Foram verificadas algumas sobras de tecido no seu interior, revelando uma ineficiência no processo de acabamento, situação essa que pode gerar desconforto para o usuário.
Em relação à análise da etiqueta de conservação, constatou­se que o uniforme possuía dois tipos distintos de etiquetas, apresentando divergência com relação às informações presentes, pois trazia restrição em relação à cloração para o uniforme branco, informação essa considerada equivocada dentro dos princípios têxteis, uma vez que o uniforme branco pode ser clorado para que mantenha uma boa aparência e essa seja evidenciada, assim como para auxiliar no processo de higienização.
A composição têxtil da calça e da camisa era 33% de algodão e 67% poliéster; da camiseta era 33% poliéster e 67% de algodão. Pela análise dos modelos e da composição têxtil constatou­se que tanto os modelos quanto a composição têxtil não eram os mais apropriados para o tipo de atividade desenvolvida em lavanderia, pois a composição têxtil evidenciada não proporciona conforto ao usuário e os detalhes existentes nos modelos analisados contribuem para o acúmulo de sujeiras, além de se constituírem como atributos que podem causar acidentes, caso se prenda a algum equipamento utilizado no processo de higienização, ou facilitar que o trabalhador leve para o ambiente de trabalho objetos indevidos como relógios, telefones celulares, dentre outros.
Sendo assim, a partir dos dados obtidos na literatura, entrevista com os trabalhadores e profissionais, e análise da composição têxtil e dos modelos de uniformes, recomendam­se a adoção da camiseta de malha (67% algodão e 33% poliéster), pois esta composição proporciona maior conforto térmico aos trabalhadores. Quanto ao modelo, recomenda­se a retirada da gola esporte, uma vez que esta pode incomodar e atrapalhar o trabalhador no desenvolvimento das atividades; fechamento da abertura frontal, com a mudança do decote em V para decote redondo e, calça de brim, sem bolso e sem cadarço para evitar acidentes e,ou incidentes no ambiente de trabalho, sendo a composição têxtil, também, de 67% algodão e 33% poliéster. FIGURA 3 ­ Modelo de camiseta proposto como uniforme para os trabalhadores de lavanderia em indústria de produtos de origem animal.
Fonte: Dados da pesquisa, 2009.
Quanto ao modelo da calça recomenda­se a retirada do bolso existente, bem como do cadarço, quando presente, para facilitação do processo de higienização dos mesmos. 23
FIGURA 4 ­ Modelo de calça sugerido como uniforme para trabalhadores de lavanderia em indústria de produtos de origem animal.
Fonte: Dados da pesquisa, 2009.
A composição têxtil mais indicada para a confecção de roupas profissionais é 67% de algodão e 33% de poliéster, pois esta composição proporciona conforto, durabilidade, amarrotamento moderado, boa aparência e fácil conservação, além de possuir menor índice de encolhimento quando submetido às sucessivas lavagens durante o processo de higienização (SANTISTA têxtil, 2003, citado por MARQUES, 2006).
Outro ponto importante a ressaltar é a presença da logomarca da empresa que deverá se localizar na parte da frente e costas da camiseta e frente da calça, despertando no trabalhador o sentimento de identificação e pertencimento à empresa, podendo ser caracterizado como um tipo de motivação para os funcionários e afirmando a sua importância para o bom funcionamento de toda a estrutura empresarial.
No que diz respeito ao local de higienização das vestimentas, a Legislação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento recomenda que seja feita em lavanderia industrial, onde deverão ser considerados todos os aspectos para uma higienização eficiente. Entretanto, não especifica quais seriam esses aspectos. Dessa forma, reforça a necessidade de criação de um manual de informações técnicas destinadas a esta modalidade de lavanderia.
5. CONCLUSÃO
As lavanderias analisadas higienizavam uniformes advindos dos mais diferentes setores das indústrias, quais sejam: abate, desossa, produção, graxaria, administração, refeitório, segurança do trabalho, serviço de inspeção federal, dentre outros, os quais eram identificados por cores, facilitando a separação. Este ponto pode ser considerado benéfico e um sistema de controle para o processo no que se refere a reduzir a contaminação, uma vez que as roupas são expostas a diferentes tipos de agentes biológicos contaminantes, nos diferentes setores onde são utilizadas. Porém, os modelos dos uniformes adotados pelas empresas 24
pesquisadas possuíam detalhes como bolsos e lapelas que dificultavam a remoção completa da sujidade, o que vem a comprometer a eficiência da ação no sentido de redução da contaminação dos uniformes dos usuários e do ambiente. Quanto à composição têxtil dos uniformes, verificou­se que esta não favorecia a durabilidade dos mesmos, pois permitiam uma maior incidência de rasgos em um curto período de tempo. Os aspectos mencionados, no que diz respeito à composição têxtil dos tecidos e os modelos utilizados para os uniformes, podem ser considerados como fatores de riscos para o desenvolvimento do trabalho pelo trabalhador, bem como interferir negativamente no processo de higienização das vestimentas. Esta falta de controle dos riscos mencionados pode afetar, consideravelmente, a qualidade de vida dos trabalhadores, sendo ainda mais agravado pela inexistência de informações e,ou, normas específicas para este tipo de lavanderia. Portanto, através deste estudo foi possível comprovar que o ambiente de trabalho, lavanderia de indústria de produtos de origem animal, merece atenção especial, por ser um local de trabalho insalubre e, também, pelo fato do processo de higienização dos uniformes terem consequências para a qualidade higiênico­
sanitária dos produtos alimentícios processados pela indústria, reforçando a necessidade da existência de informações sobre estas lavanderias, considerando as especificidades do processo de higienização do vestuário. Considera­se, portanto, de grande importância, que exista recomendações quanto ao modelo e composição têxtil para os uniformes do referido setor e que essas estejam disponibilizadas em manuais de orientações para o setor analisado.
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TORRES, S.; LISBOA, T. C. Limpeza e Higiene Hospitalar. 2 ed. São Paulo, CLR Balieiro, 2001.
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CULTURA POMERANA NO ESPIRITO SANTO: O VESTUÁRIO E O SEU SIGNIFICADO SIMBÓLICO
SCHMIDT, Adriele
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
O Brasil é um país que recebeu muitos migrantes europeus de diversas regiões em épocas passadas, o que fez possibilitou que a cultura de origem dos imigrantes se espalhasse por todo o país, configurando­se em uma grande diversidade cultural que mescla diversos e distintos modos de vida. Para Laraia (2001), cada cultura tem o seu próprio modo de ver o mundo, tem diferentes comportamentos sociais, apreciações de ordem moral e valorativa e posturas corporais próprias que são produtos de uma herança cultural. A partir disso é possível entender que diferentes culturas podem ser facilmente identificadas pelo modo de agir, comer, viver, além das diferenças linguísticas e modo de vestir facilmente evidenciáveis.
O vestuário é um conjunto de peças que ornamenta o corpo humano, formado por peças que compõem o traje e por acessórios que servem para complementá­lo ou fixá­lo. O uso de vestimentas é uma necessidade básica de todo indivíduo que, além de satisfazer sua necessidade de proteção contra intempéries, possibilita outras múltiplas funções que não podem ser reduzidas unicamente à sua funcionalidade. A vestimenta envolve também um significado simbólico, já que o efeito visual dos ornamentos e do traje favorece a afirmação da condição humana e o reconhecimento social, sendo uma linguagem não­verbal de comunicação (NACIFL, 2007).
O modo de vestir também pode ser uma herança cultural e pode estar dotado de significados simbólicos, que podem ou não remeter a um acontecimento marcante na vida de um indivíduo ou grupo.
Os migrantes pomeranos chegaram ao Brasil no ano de 1847 e desembarcaram no porto de Vitória­ES. Estes imigrantes eram oriundos de uma região da Europa denominada Pomerania, localizada às margens do Mar Báltico e entre as atuais Alemanha e Polônia. A imigração ocorreu devido a uma série de acontecimentos de ordem econômica, social, e religiosa, decorrentes do domínio prussiano sobre a região da Pomerânia no século XVII. Assim, estes fatores dificultaram a sobrevivência de populações menos favorecidas no território Pomerano, levando assim a imigração (JACOB apud LIMA et al, 2007).
Lima (2007) ressalta que estes povos mantiveram suas manifestações culturais originárias da Pomerânia, e estas ainda estão presentes no cotidiano de municípios com números consideráveis de descendentes, sendo estes percebidos 26
nos saberes, na língua, nas tradições, no folclore, nas festas e são transmitidas em forma de gestos ou oralmente, recriadas coletivamente e modificadas ao longo do tempo. Nesse sentido, mesmo que o Espirito Santo não receba mais migrantes europeus desde a década de 1870, essas comunidades mantiveram o uso de seu dialeto, suas festas, seus costumes culturais e maritais, além da continuidade da narrativa da tradição oral camponesa, enfim, o modo de vida camponês.
Trouxeram também consigo vestimentas oriundas da região da Antiga Pomerânia, e junto com seus costumes, os artigos do vestuário sempre desempenharam papel importante na preservação das tradições, principalmente com o seu uso em eventos como confirmação, casamento, festas culturais e outros que ainda permanecem até os dias atuais, apesar de algumas modificações.
Nesse sentido Mccracken apud Davidovitsch et al (2010, p 152) diz que “o vestuário é uma classe de produto reconhecida como rica em conteúdo simbólico, permitindo a observação dos aspectos expressivos da cultura material sob uma de suas formas mais criativas.”
Por causa dessas significações, o vestuário cumpre algumas funções psicossociais como expressão da identidade pessoal, melhoramento do humor e da autoconfiança, símbolo da relação com os outros, referência à história pessoal e participação em um grupo social (COX e DITTMAR apud DAVIDOVITSCH et al, 2010). A classificação em grupos sociais dada pelo vestuário usado, pode ser de acordo com classe social, cultura, hobby, dentre outros, uma vez que o modo de vestir diferencia as pessoas, demonstrando pertencimento a determinado grupo.
Sabendo da importância que o vestuário assume para a construção e reconstrução de valores culturais de grupos, tais como os pomeranos, migrantes europeus, habitantes de municípios do Espirito Santo, este trabalho justifica­se pelo fato do vestuário possibilitar compreender a significação simbólica presente no uso de vestimentas tradicionais da cultura local e como estas interferem na forma em que os descendentes pensam e vivem a sua cultura nos dias atuais.
1.1.
OBJETIVOS
Este trabalho tem como objetivo geral analisar o significado simbólico e cultural do uso das vestimentas tradicionais da região da Pomerânia por seus descendentes, no município de Santa Maria de Jetibá­ ES.
Especificamente pretendeu­se:
­ Caracterizar os elementos chaves da cultura pomerana, que ainda são praticados pelos descendentes e que tornam o modo de vida deste público diferenciada;
­ Identificar as tradições da cultura pomerana, que envolvem o uso de vestimentas tradicionais;
­ Analisar o significado do uso dos trajes e outras vestimentas específicas da cultura para os antepassados e para os descendentes que vivem atualmente em Santa Maria de Jetibá.
­ Apreender os significados do uso dos trajes pomeranos pelos integrantes de grupos folclóricos do município.
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2.
METODOLOGIA
O presente estudo de natureza qualitativa foi desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica sobre a significação simbólica que o vestuário pode trazer a indivíduos e a grupos sociais, bem como sobre a cultura pomerana no Espírito Santo. Segundo Gil (2002), este tipo de pesquisa é realizado com base em material já elaborado, constituído de livros, classificados como de leitura de referência, que tem por objetivo possibilitar a rápida obtenção das informações requeridas. Além disso, foram consultados periódicos científicos, muitas vezes disponibilizados em fontes eletrônicas, sendo o meio mais importante de comunicação científica.
Estas informações foram complementadas com levantamento de dados a partir de conhecimentos prévios da autora que já é familiarizada com as tradições pomeranas, uma vez que é descendente e participa ativamente de eventos e do dia a dia das famílias pomeranas. A fim de buscar mais especificadamente os significados do uso dos trajes pelos integrantes de grupos folclóricos pomeranos, realizou­se, via internet, um levantamento de opiniões dos integrantes dos grupos folclóricos sobre a temática em questão, na qual apenas um grupo participou.
O grupo folclórico participante é do município de Santa Maria de Jetibá no estado do Espirito Santo, localizado na região serrana do estado e concentra grande parte dos pomeranos que vieram ao Brasil em 1847.
O grupo participante foi nomeado Grupo Folclórico Hochlantanz que significa “dança da região alta” em 1992 e pertence a Associação Cultural e Artística de Santa Maria (ACASM), atualmente composto por 13 pares que se dedicam para divulgar, através das apresentações, o seu trabalho de resgate da cultura de seus antepassados (PMSMJ, 2011).
A população santa­mariense reside em grande parte na zona rural, sendo as atividades econômicas voltadas aos produtos hortifrutigranjeiros, destacando­se nesta categoria dentro e fora do Estado. A avicultura, a olericultura, a cafeicultura e o comércio são as principais fontes de renda, embora haja outras desenvolvidas em menor escala, como a fruticultura, avicultura de corte e a bovinocultura.
A população deste município é composta por 90% de descendentes de pomeranos, e é conhecida nacionalmente como “A cidade mais pomerana do Brasil”, justificando a escolha do município para o desenvolvimento desta pesquisa.
A cultura pomerana é muito rica em detalhes, por isso optou­se por selecionar algumas características mais marcantes da cultura como um todo, sendo elas: o uso da língua pomerana, a confirmação2, o casamento, as danças típicas, as comidas tradicionais e a festa pomerana. Destes serão detalhados os eventos que envolvem o uso de trajes e vestuário típico, visando entender a significação que estes têm na vida dos descendentes.
Para a descrição dos resultados, realizou­se uma leitura e síntese das informações bibliográficas coletadas, descrição de experiências vivenciadas pela autora e análise descritiva das respostas obtidas do levantamento de opiniões 2
A confirmação é um marco religioso na vida dos pomeranos, e se dá após o término de um período de estudos sobre a religião luterana, denominado Ensino Confirmatório.
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realizado com os integrantes dos grupos folclóricos.
3.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1.
Marcos importantes da cultura pomerana
3.1.1. A Língua Pomerana
No município estudado, o português é uma língua falada por grande parte da população, porém a língua pomerana também é muito presente. Esta foi preservada e passada adiante de geração para geração, muitas vezes, ensinada às crianças desde pequenas, muito antes do português.
Muitas mudanças decorreram com o passar do tempo. Houve épocas em que os descendentes se envergonhavam de falar o pomerano, principalmente nas cidades, pois na visão de muitos o pomerano era “língua de pobre”, de “gente atrasada”, e o português era a língua falada pelos professores e pessoas estudadas, ou seja, por pessoas “superiores” a eles. Por esse motivo, não saber falar português era para muitos, principalmente para os mais velhos motivo de vergonha.
A língua é falada com mais frequencia na zona rural, embora também presente nas cidades, uma vez que é exigência do comércio que os atendentes tenham domínio da língua pomerana, para atender com mais qualidade os clientes. Pessoas com mais idade também tendem a fazer mais uso da língua pomerana, e anos atrás e também hoje, os pais preferem ensinar aos filhos primeiramente o português e depois o pomerano, para que os filhos não tenham dificuldades de acompanhar o professor na escola. Estes e outros fatores levaram a uma decadência no uso da língua pomerana, fato que está sendo revertido com a conscientização da importância da preservação da cultura e da língua, com o ensino do pomerano nas escolas e com a valorização das pessoas que falam o pomerano.
3.1.2. Comidas Típicas
No momento da migração, mudanças alimentares ocorreram, devido a diferenças nos cultivares agrícolas, mas apesar disso, muitas tradições alimentares permaneceram, sendo também adaptadas à realidade brasileira. São exemplos de comidas típicas pomeranas: milhabrot (pão de milho, preparado com batata doce, cará, aipim e fubá de milho branco ou amarelo); spitsbuben (bolo ladrão); kasekuchen (bolo de queijo); streuskuchen (bolo com farofa); strudel (bolo com frutas); Biscoitos caseiros de nata, polvilho ou amanteigado. Algumas comidas salgadas são: lingüiça de carne de boi; queijo tipo puina e schmierkase (qualhada); blutwurst (chouriço feito de sangue e miúdos de porco); batata ensopada; sopas (canja, aipim cozido e socado, batata doce socada, sopa com rosca). Comidas doces também fazem parte do cardápio, tais como: firsichup (sopa de ameixa); arroz doce; banana­nanica assada e geleias de frutas da região (PMSMJ, 2011).
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Um aspecto interessante da cultura pomerana é que não se come feijão aos domingos, sendo o cardápio principal carne de frango; batata, inhame, aipim, batata doce ou taioba ensopada, sopa de macarrão. Às vezes é feito arroz e, na maioria das vezes, o almoço é acompanhado do arroz doce.
3.1.3. Festa Pomerana
É realizada no aniversário da cidade, no mês de maio e visa resgatar a cultura pomerana, com diversas atrações que envolvem aspectos da cultura, eleição de rainhas e princesas pomeranas, desfile histórico e cultural, apresentações de danças folclóricas, alvorada de bandas, bailes, apresentações de bandas de musica pomerana, almoço típico, encenação de casamento pomerano, dentre outras atividades.
Na música, os destaques dos pomeranos são os instrumentos de sopro, como trombone e trompete. A concertina é um dos instrumentos trazidos da região da pomerânia e que é um marco da música pomerana, sendo também conhecida como acordeão diatônico.
No desfile histórico é retratado, através de carros alegóricos, a história e as tradições dos pomeranos, desde a chegada ao Brasil, até os costumes preservados e as tradições que foram sendo modificadas ao passar do tempo, tudo sendo apresentado com muita música. As dificuldades e os modos de vida criados pelos pomeranos em terras capixabas na construção de sua nova vida são temáticas abordadas neste desfile, estando entre estes a demonstração da construção das casas, serraria manual, dentre outros. A religiosidade é demostrada com muitos detalhes, englobando o batismo, confirmação, casamento, e também eventos religiosos, tais como a páscoa e o natal.
Nesse sentido, a festa é uma oportunidade dos descendentes reavivarem ainda mais sua cultura, uma possibilidade de diversão e reencontro de amigos e familiares, e também é um momento oportuno para que turistas visitem a cidade e conheçam o povo pomerano.
3.2. Marcos importantes da cultura pomerana que envolvem uso de vestimentas tradicionais
Os pomeranos antigos deixaram marcas importantes no vestuário que ainda é usado nos municípios colonizados por seus descendentes. Assim, é possível encontrar resquícios dos trajes do passado no vestuário usado nos dias atuais. Grunewald (s/d) aborda alguns aspectos da vestimenta pomerana no momento da imigração, dizendo que:
“Logo na chegada trouxeram de sua Terra Natal seu traje de origem, usado durante a viagem. Para se protegerem do clima frio as mulheres usavam vestidos ou saias compridas, com mangas, meias grossas e sapatos fechados. Juntamente 30
com sua cultura trouxeram sua religiosidade, a qual se apegavam nos momentos difíceis por quais passavam, como também nos momentos de festa, como na confirmação e nos casamentos” (GRUNEWALD, s/d, p.2).
Como pode­se observar, o vestuário se diferencia em momentos de festa, confirmação e casamentos, e a seguir estão algumas características específicas do vestuário usado em cada uma destas ocasiões.
Nas primeiras escolas que foram construídas, os alunos usavam uniformes como forma de identificação do aluno, pela representatividade da escola e trabalho pela igualdade buscando minimizar a exclusão existente (GRUNEWALD, s/d).
3.2.1. A Confirmação
A confirmação é um marco religioso na vida dos pomeranos, e se dá após o término de um período de estudos sobre a religião luterana, denominado Ensino Confirmatório. Segundo Bahia (2001),
“O tempo da confirmação marca a passagem para a vida adulta e para as escolhas que resultarão nas principais estratégias de reprodução deste campesinato. Após a confirmação o(a) menino(a) domina todo o saber técnico para seu trabalho na terra, pode se casar, ou optar pelo estudo, pois conhece toda a lei da vida e seus valores, podendo então a partir desse saber moral e técnico traçar um dos vários caminhos que permita a continuidade do modo de vida camponês” (BAHIA, 2001, p. 10.)
Assim, este momento é marcado por uso específico de vestuário, onde as moças usam vestido branco rodado, até a altura dos joelhos, não podendo ser decotado e que seja bem rico em detalhes, principalmente com enfeites de pérolas. Os sapatos usados pelas moças também eram brancos e elas costumam usar enfeites brancos nos cabelos. Os rapazes vestem calça comprida preta, camisa de manga longa branca, gravata preta e sapatos pretos. Estas características podem ser notadas nas confirmações até os dias de hoje, exceto o grande número de detalhes nos vestidos femininos, que assume ares contemporâneos, mas a cor branca ainda permanece. Estas características mostram que muito dos valores culturais trazidos pelos antepassados ainda são vividos pela geração atual.
Os pomeranos usam o período da confirmação como marca na construção temporal do grupo. Assim, segundo Bahia (2001),quando alguém quer se referir a algum fato que alterou as condições socioeconômicas do grupo ou alguma colheita que não deu certo, ou ainda a uma boa venda que proporcionou a compra de um terreno ou outro bem, as pessoas utilizam a expressão “isso foi no tempo da confirmação de fulano".
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3.2.2. Casamento Pomerano
O casamento tradicional dos pomeranos é certamente umas das manifestações culturais mais bonitas do povo pomerano. A festa durava aproximadamente três dias, tempo este reduzido atualmente, cada dia com suas festividades, sendo destaques o pé­de­galinha e o quebra­louças, que ocorrem na noite anterior à cerimônia religiosa. A denominação pé­de­galinha surge pelo fato de ser um dia em que é servido um jantar aos parentes e amigos mais próximos dos noivos. Antigamente, esta janta era uma sopa, em que estavam presentes miúdos e partes de carne de galinha, tais como costelas e os pés.
O quebra louças é realizado nesta mesma noite junto aos convidados. Nessa ocasião, uma senhora idosa, de laço afetivo forte com os noivos faz um discurso desejando sorte ao casal enquanto arremessa louças ao chão. Ao fim do discurso, os convidados iniciam uma dança e os noivos tentam juntar o maior número de pedaços de louça, em meio a dança. O significado desta manifestação é que quanto maior o número de cacos juntados, mais próspero será o casamento, porém outro significado atribuído é quanto mais cacos forem ajuntados, mais rápido o casal conseguirá juntar seus bens materiais (MUNDURUCA, 2009).
Com relação ao vestuário, antigamente a noiva usava um vestido preto, com uma grinalda de murta e fita verde na cintura e o noivo usava um terno preto com colete, chapéu de feltro, lenço branco no bolso e um ramalhete de alecrim pregado no paletó. Um exemplo pode ser visualizado na fotografia abaixo:
Figura 3. Foto representativa de uma noiva e um noivo pomeranos. Fonte: Tressmann (s/d)
Existem várias versões que explicam tal fato sendo uma delas proposta por Munduruca (2009) que diz que as famílias pomeranas eram patriarcais, assim quando ocorre o casamento, a noiva passa a viver com os familiares do noivo. Nesse sentido, a cor do traje significa luto por a noiva estar deixando para trás sua família. A fita de cetim verde na cintura era usava por se acreditar que atraia boa sorte, e a grinalda e o buquê são feitos de murta, alecrim ou cipreste, para espantar qualquer mal­olhado.
Outra versão colocada por Lima et al (2007), é que o vestido preto é usado 32
como sinal de luto pelo fato de tanto o noivo, quanto a noiva deixar suas famílias para viver em uma outra família, ou simplesmente pelo frio da pomerânia.
Grunewald (s/d) afirma que, além da significação de morte social, descrita acima, onde a noiva se separa se sua família, ele diz que outra versão se refere ao vestido ser um traje de gala, usado pelos pomeranos em ocasiões festivas, como batizados e confirmações.
Além destas, atendentes do Museu de Imigração Pomerana, em informação verbal passada a Lima et al (2007), disseram que “durante o sistema feudal na Pomerânia, a primeira noite de núpcias era do senhor feudal, portanto, o preto era sinal de protesto e uma fita verde na cintura era sinal de esperança para a mudança”
Atualmente, o noivo veste um terno padrão de cor escura, e a noiva vestido branco, sendo estas, modificações sofridas pelas influências da sociedade contemporânea. Grunewald (s/d) diz que os convidados se enfeitavam para ocasiões especiais como o casamento e também a confirmação, usando roupas de festa e arrumando seus cabelos com tranças e coques.
Os casamentos a moda pomerana ocorrem até os dias atuais, apesar de diversas modificações e como exemplo disso, podemos citar um casamento que ocorreu entre descendentes do município de Vila Pavão, também no estado do Espírito Santo em que a noiva usou um vestido preto no “thoupsrijwen” (casamento no civil) como forma de valorizar a sua história e sua tradição. O vestido que a noiva usou foi uma peça que pertenceu a uma das famílias mais tradicionais do município, e tem mais de 80 anos. O uso deste vestido teve grande significado para a noiva pois a avó dela havia se casado com o mesmo vestido na década de 1920. No “trug” (casamento religioso) a noiva usou um vestido branco, que era seu sonho desde pequena e atualmente é sonho da grande maioria das mulheres descendentes (JACOB, 2009).
3.2.3. Grupos de Danças Folclóricas Pomeranas
Os grupos folclóricos são uma das formas mais vivas de reviver a cultura pomerana, muito pelo uso dos trajes típicos e pela música de origem e estilo pomerano. A existência destes grupos é uma forma de resgatar a cultura nativa dos antepassados, de viver a cultura nos dias de hoje e de poder repassar estas tradições às gerações atuais e futuras.
As músicas e as danças originárias da região da Pomerânia foram incorporadas a cultura popular capixaba e a sua apresentação é uma demonstração de pura alegria.
São vários os grupos de danças no município estudado, e a maioria deles é composta por jovens descendentes. Nesse sentido, buscou­se entender se o uso de vestimentas típicas nas apresentações tem algum significado especial para os integrantes dos grupos, bem como identificar sentimentos experimentados durante o uso destes trajes.
O grupo de dança participante foi o Grupo Folclórico Hochlantanz, e o seu traje inicial foi inspirado no estilo dos primeiros imigrantes Pomeranos e, com o 33
passar do tempo, modificou­se três vezes, sendo o atual inspirado em fotos de trajes típicos da região da Pomerânia, mais especificamente na região de Köslin.
Os integrantes do grupo de dança, diante da indagação sobre a existência ou não de algum sentimento diferente ao usar o traje típico, as respostas mostraram que os integrantes sentiam algo diferente, e que eles se sentem “muito bem e felizes” ao usar os trajes típicos em suas apresentações.
Sobre estes sentimentos especiais, os integrantes disseram que se sentem importantes, quando dizem que “somos identificados no meio do público e convidados para tirar fotos”. Assim, nota­se que a identificação e o fato de eles estarem representando a cultura pomerana faz com que eles sintam­se importantes e reconhecidos. Nesse sentido, o vestuário típico pomerano demostra pertencimento a um grupo, que se sente valorizado pela atividade que desenvolve, sendo isso exemplificado quando os integrantes retratam que são convidados para tirar fotos com o público.
O significado simbólico deste vestuário foi retratado pelos participantes, e estes disseram que: O valor simbólico do nosso traje é de suma importância, pois o nosso traje foi inspirado em trajes provenientes da Região de Köslin (Antiga Pomerânia) e assim estou usando um traje que valoriza os costumes de nossos antepassados vindos da Europa divulgando a cultura através das dança.
Diante deste depoimento podemos perceber que usar trajes típicos pomeranos na sociedade atual tem um significado simbólico para os integrantes, e este centra­se na valorização dos costumes e também na divulgação da cultura. A origem dos trajes também se mostrou um fator determinante, pois cria uma identidade do grupo, que o diferencia dos outros grupos existentes.
4. CONCLUSÃO
A cultura pomerana apresenta uma série de costumes específicos, muito diferentes da cultura tradicional brasileira. O vestuário usado diferencia­se principalmente em ocasiões especiais e eventos específicos. A preservação do uso de trajes e vestimentas específicas têm um significado especial e permite a identificação dos descendentes como um grupo social, pertencente a sociedade como um todo.
Usar as roupas típicas está ligado a preservação da cultura repassada pelos antepassados, a qual os descendentes pertencem. O vestuário é assim, um meio de preservar a identidade dos descendentes, de mostrar quem eles são, revelando que eles possuem características próprias, repassadas de geração em geração.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAHIA, Joana. A "lei da vida": confirmação, evasão escolar e reinvenção da 34
identidade entre os pomeranos. In: Educação e Pesquisa. Vol.27 nº.1 São Paulo Jan./June 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S15
17­97022001000100005&script=sci_arttext. Acesso em: 26/08/11
CULTURA POMERANA. Cultura pomerana em Alto Jatibocas. Disponível em: http://itarana.blogspot.com/. Acesso em 02/09/11.
PMSMJ­ Prefeitura Municipal de Santa Maria de Jetibá. Cultura. Disponível em: http://www.pmsmj.es.gov.br/. Acesso: 21/09/2011.
DAVIDOVITSCH, Lia; SILVA, Jorge Ferreira da. Algumas implicações da percepção dos Valores simbólicos das roupas: gênero Masculino em foco. RAM – Revista de Administração Mackenzie, v. 11, n. 1, Jan./Fev. 2010, São Paulo, SP, 2010, p. 150­173.
GRUNEWALD, Arilson. Desfile histórico e cultural na Festa Pomerana. Disponível em: http://www.pomerano.com/artigos/desfile­historico­e­cultural­na­
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GRUNEWALD, Arilson. O Casamento típico Pomerano. Disponível em: http://www.pomerano.com/artigos/casamento­pomerano­arilson­grunewald.html. Acesso em :21/09/2011.
JACOB, Jorge Kuster. Vila Pavão lança filme sobre casamento pomerano. 2009. Disponível em: http://www.luteranos.com.br/articles/12019/1/Vila­Pavao­lanca­filme­
sobre­Casamento­Pomerano/1.html Acesso: 28/08/2011
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14.ed. Rio de Janeiro: Jorge"Zahar Ed., 2001. LIMA, Ana Paula de Abreu; DIAS, Reinaldo. Turismo e Cultura Pomerana em Santa Maria do Jetibá/ES. Reuna ­ Belo Horizonte, v.12, nº2, p.11­20, Belo Horizonte, 2007.
MUNDURUCA, Rafael. Pomeranos Santa­Marienses­ Tradições e Costumes. Revista Observatório Itaú Cultural / OIC ­ n. 8 (abr./jul. 2009). – São Paulo, SP: Itaú Cultural, 2009.
NACIFL, Maria Cristina Volpi. O vestuário como princípio de leitura do mundo. Associação Nacional de História – ANPUH. XXIV Simpósio Nacional de História, p 1­10. 2007.
TRESSMANN, Ismael. A festa de casamento. In: Casamento Pomerano: uma etnografia. Disponível em: http://www.pmsmj.es.gov.br/. Acesso em: 21/09/2011.
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A ESCOLA NO CAMPO E A IMPORTÂNCIA DE OUVIR CRIANÇAS E FAMÍLIAS RESIDENTES NA ZONA RURAL
CRUZ, Elenciria Oliveira; ALMEIDA, Izabela Amaral;BARRETO, Maria de Lourdes Mattos
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas a educação tem ganhado no Brasil destaque nas políticas públicas, nas políticas sociais, nas pesquisas e nas ações afirmativas. Todavia, estas atenções nem sempre ajudam a educação do campo com suas carências e urgências que continuam no esquecimento e no descaso. Pesquisadores e educadores se interessam pouco pelas dificuldades e desafios desta área, o governo não percebe a necessidade da criação de políticas e investimentos específicos no campo. Eis então a necessidade de lançar o nosso olhar sobre a educação do campo e seus atores: famílias de agricultores, crianças que correm e que brincam, seres sociais como os outros, cidadãos, seres humanos de direito que desejam estar incluídos no mundo de informações e conhecimentos. O crescente índice de analfabetismo, o atraso e a evasão escolar, as poucas condições de subsistência dos trabalhadores são alguns dos inúmeros fatores que afetam as famílias rurais e a vida escolar de seus filhos. Diante destas carências questionamos: que impactos teriam as crianças que são deslocadas de suas residências no campo e passam a frequentar as escolas dos núcleos ou na cidade? O que desejam estas crianças?
Partindo destes questionamentos este trabalho justifica­se pela necessidade de ouvirmos as crianças e membros de suas famílias atendidas pelas escolas rurais, para construirmos conhecimentos e contribuirmos para que outros pesquisadores e autoridades reflitam sobre as urgentes necessidades da educação no campo.
2. OBJETIVOS DO ESTUDO
O objetivo deste trabalho foi levantar reflexões sobre a realidade da educação no campo e a necessidade de se ouvir as crianças e famílias, residentes na zona rural, quanto ao que pensam sobre a escola que são atendidas.
3. METODOLOGIA EMPREGADA
Como metodologia foi realizada uma revisão bibliográfica sobre a educação no campo, sobre as especificidades de se pesquisar famílias, e sobre a importância de se ouvir as crianças em pesquisas e como dar­lhes voz.
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4. DESENVOLVIMENTO
A educação do campo tem buscado ganhar voz em debates, em pesquisas e em políticas educacionais. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) em 2007 revelaram as carências na infra­estrutura e nas condições de oferta educacional no meio rural. A estas carências poderíamos somar a precariedade da estrutura física e pedagógica, as dificuldades das turmas multisseriadas, a baixa remuneração, o isolamento, as dificuldades com o transporte, o fechamento de escolas pequenas e o atendimento dos alunos em escolas maiores que funcionam como núcleos. Como uma criança engatinhando, o tema educação do campo ganha força, timidamente, em pesquisas realizadas a partir da década de 1990, sendo que na década de 1980 somente duas pesquisas foram defendidas sobre este assunto. Um dos motivos deste avanço pode ser considerado o das parcerias promovidas entre movimentos sociais, governo e universidades visando à formação de professores para trabalharem na área (Souza, 2008). No entanto, podemos afirmar que há uma ausência de produções sobre as escolas rurais, especificamente.
Vendramini (2007) vem realizando pesquisas com o objetivo de analisar as ações sócio­educativas do Movimento dos Sem­Terra. Ela ressalta a importância da presença da Educação do Campo nas políticas educacionais, bem como a educação além do espaço escolar. A zona rural tem passado por grandes transformações, no que diz respeito ao contexto escolar. Escolas têm sido fechadas, rompendo assim com a estrutura organizacional de pequenas escolas e os alunos vêm sendo atendidos em núcleos, diminuindo, assim, o número de classes multisseriadas. Mas qual é o espaço da escola nestas mudanças e nesse contexto?
Diante da precariedade da vida no campo, a escola surge como resultado da mobilização e luta dos trabalhadores. Vendramini (2007) ressalta também que o termo Educação do Campo, e não mais educação rural, foi inaugurado na primeira Conferência que reuniu várias instituições como a UNICEF e a UNESCO para tratarem sobre este assunto. Outra Conferência realizada foi a de Luziânia, em 2004, que colocou em evidência a necessidade de se efetivar no Brasil uma política específica para a Educação do Campo. Sendo que em 2001 foi aprovado um Parecer contendo as diretrizes para o ensino nas Escolas do Campo (Parecer n.36/2001 e Resolução n.1/2002 do Conselho Nacional de Educação). Este Parecer defende que a Educação do Campo deve ter sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, levando em conta a temporalidade e saberes próprios dos estudantes. Podemos perceber aqui que as especificidades das crianças e de suas famílias residentes no campo devem ser respeitadas como um direito destes cidadãos.
Dentre os desafios de se estudar a família Dessen, Abreu e Neto (2000), ressaltam que, a família é um grupo específico em desenvolvimento inserido num contexto social em desenvolvimento. A diversidade de se viver em família trás desafios a seus estudiosos, o que torna preciso para sua compreensão uma reflexão sobre qual é a sua função, que funções tem lhe sido atribuídas e, principalmente, sobre aquelas, de fato, por ela exercidas. Os cientistas, com seus diferentes modos de representar a “realidade”, necessitam selecionar e criar 37
instrumentos que ajudem representar esta realidade investigada, questionando sempre em que medida estão sendo bem sucedidos ao produzir conhecimento sobre este assunto e o quanto os instrumentos utilizados empregados estão sendo apropriados para medir o que foi proposto. A família deve ser estudada incluindo todos os seus membros, e sempre deve haver reflexão sobre a complexidade do planejamento de pesquisa, aspectos a serem, obrigatoriamente, considerados. Vale ressaltar que precisamos reconhecer que há vários tipos de “famílias”, que os papéis maternos e paternos são multidimensionais e complexos e que pais e mães desempenham papéis diferentes em contextos culturais diferentes. O que envolve estudar a diversidade cultural favorecendo o desenvolvimento de teorias mais claras e a construção de conceitos mais válidos de “família”.
Como cidadãos e como membros em potencial da família as crianças possuem o direito de serem ouvidas e pesquisadas; não só como objeto da pesquisa, mas como participantes ativos que opinem e reivindiquem. Sobre esta relação adulto/criança, pesquisador/pesquisado, Delgado e Muller (2005) evidenciam os estudos com crianças e não sobre a criança, onde o pesquisador negocie com as crianças todos os aspectos e etapas das investigações: a entrada no campo de pesquisa e os objetivos, quais crianças querem realmente participar da pesquisa e contribuir com a coleta de dados. A educação tanto no campo como na cidade é de grande amplitude quando percebemos os diversos espaços em que ela se dá e as formas de aprendizagem além dos muros da escola. As situações e as experiências vividas são mais ricas quando experimentadas pelas crianças e suas famílias em seus próprios contextos, pois a ação é o ponto de partida e de chegada no processo de aprendizagem.
5. RESULTADOS
Partindo das publicações consultadas podemos perceber a grande importância de ouvirmos as crianças quanto a situações e fatos de sua realidade. Elas estão atentas ao cotidiano escolar e necessitam de oportunidade para externarem as representações que fazem de sua realidade. Politicas são elaboradas e implantadas sem que o publico alvo seja ouvido para que expressem suas reais necessidades. E é a partir do momento que nos conscientizamos que a criança pode falar de sua realidade, e de que as famílias residentes na zona rural também tem o que dizerem da escola no campo, que se torna evidente a necessidade de pesquisar para compreender o que pensam sobre todos estes eventos e o que anseiam para que o objetivo da educação se efetive naquele local.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim, podemos considerar que as crianças do campo têm muito que falar sobre seu cotidiano e suas vivências na escola do campo. Fazendo uso dos seus inúmeros saberes, elas possuem condições de discursarem sobre o não­
aprendizado, a repetência e a desistência de frequentar o ambiente escolar. Sobretudo, estas crianças anseiam em falar sobre a escola que desejam e que sonham um dia frequentar.Eis então a necessidade de nós pesquisadores dispormos não somente do nosso gravador, mas principalmente possibilitarmos que 38
reflexões se curvem sobre estas vozes, e que se concretize o papel da ciência e seu compromisso com a qualidade de vida de todos os povos.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELGADO, A. C. C.; MULLER, F. Sociologia da Infância: Pesquisa com Crianças. Educação e Sociedade. Campinas, Vol. 26, nº. 91, p. 351­360. mai/ago,2005.
DESSEN, M. A; ABREU, N; NETO, S. Questões de Família e Desenvolvimento e a Prática de Pesquisa. Editorial. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, Vol 16, nº. 3, Set­Dez,2000. p. 191­192.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Panorama da Educação no campo. – Brasília, 2007. 44p.
SOUZA, M. A. Educação do campo, práticas pedagógicas e produção científica. IN.:Educação Social.Campinas, vol. 29, n. 105, p. 1089­1111, set./ dez. 2008.
VENDRAMINI, C. R. Educação e trabalho: reflexões em torno dos movimentos sociais do campo. IN.: Cad. CEDES vol. 27 Campinas May/ Aug. 2007.
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ANÁLISE DO GRAU DE ACEITAÇÃO, CONFIANÇA E CONHECIMENTO DA POPULAÇÃO DE VIÇOSA/MG COM RELAÇÃO AO PROCON
OLIVEIRA, M. B.; SILVA, N.M.
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
A necessidade de proteção do consumidor exige maior intervenção do Estado para garantir produtos e serviços com padrões aceitáveis de qualidade e de segurança. De acordo com essa necessidade nasceu o PROCON (Órgão de Defesa do Consumidor), uma entidade de serviço público, sem fins lucrativos e com as atividades financiadas por verbas públicas transferidas para sua jurisdição (DUQUE, 1997).
Segundo Filomeno (1999), mesmo o consumidor de hoje sendo mais consciente em relação aos seus direitos, ainda falta informação para que esses direitos sejam respeitados de forma efetiva. A falta de conhecimento em relação à área de atuação do PROCON também faz com que o consumidor seja prejudicado nas relações de consumo.
De acordo com Costa e Sperling (2001), informar e orientar são os eixos principais quando se trata de proteção e defesa do consumidor. Pois, a informação e a formação são partes de um mesmo processo que visa despertar no consumidor consciência crítica e sentimento de cidadania, tornando­o capaz de exigir seus direitos.
Em Viçosa, o PROCON (Programa Municipal de Orientação e Defesa do Consumidor) foi criado pelo Decreto n° 743, de 1990, e suas atividades tiveram início em 1° de junho de 1993, por meio de um convênio realizado entre a Prefeitura Municipal e a Universidade Federal de Viçosa. Desde então, o PROCON vem lutando para defender os direitos da população de Viçosa.
Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo analisar o grau de conhecimento, aceitação, satisfação e confiança da população de Viçosa/MG em relação ao trabalho do PROCON. 2. METODOLOGIA
O presente estudo foi realizado na cidade de Viçosa, Minas Gerais, que possui uma população de 74.607 habitantes (IBGE, 2006). Os dados foram coletados por meio de entrevistas, nas quais foi utilizado um questionário previamente testado. Foram entrevistados 700 moradores de diversos bairros da 40
cidade.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As características socioeconômicas e demográficas analisadas para traçar o perfil dos entrevistados foram: sexo, idade, escolaridade, condições de posse de moradia e ocupação/profissão.
Verificou­se que 60,0% dos entrevistados eram do sexo feminino e 38,0% tinham idade entre 20 e 30 anos de idade. Em se tratando de escolaridade, 36,0% possuíam ensino médio completo. Os entrevistados que estavam cursando ou que já haviam concluído o ensino superior somaram 28,0%. A casa própria predominou entre 73,0% dos entrevistados quando se tratava de moradia.
As ocupações/profissões dos entrevistados também foram bastante variadas. Como exemplo pode­se citar: servente de obra, pedreiro, mecânico, pesquisador, lavrador, decoradora, aposentado, dona de casa, artesão, estudante, professor, auxiliar de enfermagem, balconista, empregada doméstica, massagista, caixa de supermercado, agente de saúde, advogado, camareira, auxiliar de escritório, comerciante, costureira, técnico em metalurgia, técnico em elétrica, alfaiate, dentista, diarista, zelador, açougueiro, taxista, entre outros.
Os entrevistados foram questionados sobre qual órgão público de Viçosa eles mais confiavam. As opções de órgãos públicos foram: PROCON, delegacia e Vigilância Sanitária. Quase metade dos entrevistados (45,0%) confia no trabalho do PROCON. Ao serem questionados sobre os motivos que levaram a essa confiança, os entrevistados afirmaram que consideram o trabalho do PROCON sério e atuante, além de muito importante para a população. Também comentaram sobre a boa receptividade e bom atendimento dos funcionários deste órgão, que na opinião dos entrevistados é imprescindível para ajudar adequadamente os consumidores. Os entrevistados ainda relataram sobre a facilidade de se obter informações claras a respeito de produtos e serviços.
Os entrevistados também responderam questões sobre conhecimento com relação ao trabalho desenvolvido pelo PROCON de Viçosa. É importante esclarecer que nesta pergunta o objetivo era saber se o entrevistado conhecia o trabalho do PROCON, ou seja, área de atuação, objetivos e obrigações como órgão público. Neste caso, 53,0% afirmaram não ter conhecimento com relação a essas questões, porém, mesmo assim, sabiam como recorrer a este órgão ou até mesmo já recorreram e obtiveram sucesso.
Os entrevistados também foram questionados sobre o que eles consideravam como função do PROCON, ou seja, para que ele serve. Considerou­
se como correta a resposta que incluísse algum desses itens: defesa dos direitos dos consumidores, educação e orientação para os consumidores. Foram consideradas incorretas as respostas que não incluísse nenhum desses itens citados acima ou que incluíssem funções que não cabem ao PROCON.
De acordo com as respostas obtidas nos questionários, verificou­se que 100,0% dos analfabetos e 52,3% das pessoas que possuíam ensino fundamental incompleto não tinham conhecimento com relação às funções do PROCON. Porém, 41
a grande maioria dos entrevistados com ensino superior incompleto ou completo (80,3% e 86,9%, respectivamente) mostrou conhecimento sobre as funções do PROCON.
Pode­se perceber que o conhecimento sobre as funções do PROCON é inversamente proporcional ao grau de escolaridade, ou seja, quanto maior o grau de escolaridade do entrevistado, maior conhecimento ele tinha com relação às funções do PROCON.
De acordo com essa pesquisa, pode­se observar que 72,3% dos entrevistados nunca procuraram o PROCON para resolver algum problema ou para buscar informações. Porém, do total de entrevistados que não recorreram ao PROCON, ou seja, 506 pessoas, 38,5% delas afirmaram que já precisaram dos serviços do PROCON, mas não o procuraram. Sendo assim, foi perguntado para essas pessoas quais os motivos que as levaram a não recorrer a este órgão de defesa do consumidor.
A grande maioria (65,6%) dos entrevistados não procurou o PROCON para resolver algum problema porque foi possível resolvê­lo com os próprios fornecedores. Em outros casos não houve a procura pelo órgão porque o entrevistado não sabia o que fazer ou mesmo por acomodação, por preguiça ou por achar muito trabalhoso. Isso é um fato negativo, pois o PROCON é um órgão público que está a serviço da população. Para diminuir essa quantidade de pessoas que não procuram o PROCON por não saber o que fazer, é feito um grande trabalho de divulgação do trabalho do órgão, como distribuição de folhetos explicativos e palestras. Com relação às pessoas que não procuram por acomodação, são feito trabalhos de conscientização da população.
Com relação ao êxito do trabalho do PROCON, percebeu­se que em 82,9% dos casos o problema foi resolvido. Porém, nos casos em que o PROCON não resolveu o problema, muitas vezes, ele não o fez porque não era de sua competência. Por exemplo, houve casos onde a pessoa estava recorrendo ao PROCON para ser indenizada por danos morais, porém indenização não é competência do referido órgão. Nesses casos, os funcionários do PROCON fornecem orientação sobre onde e como se deve recorrer.
Em se tratando da satisfação com relação ao trabalho do PROCON, 84,5% dos entrevistados afirmaram estar satisfeitos. Já os que afirmaram não estavam satisfeitos, representam os casos em que o PROCON não conseguiu resolver, pois não era de sua competência, ou que teve uma resolução demorada.
Analisou­se a confiança dos 194 entrevistados que afirmaram ter procurado o PROCON ao menos uma vez para resolver algum problema. Verificou­se que 87,6% confiavam no trabalho do PROCON, confirmando, assim, a competência deste órgão.
4. CONCLUSÃO
Os resultados da pesquisa revelaram que o conhecimento com relação às funções do PROCON está intimamente relacionado ao grau de escolaridade, ou seja, quanto mais tempo de estudo o entrevistado tinha, mais conhecimento ele 42
possuía com relação ao trabalho do PROCON. Porém, pode­se afirmar, baseado nos resultados dessa pesquisa que, não é necessário ter conhecimento das funções e áreas de atuação do PROCON para recorrer a este órgão público. Isso se deve ao fato de que, em alguns casos, os entrevistados relataram que não sabiam qual era a área de atuação do PROCON, mas, afirmaram que mesmo assim já haviam recorrido a este órgão. Os resultados também mostraram uma grande confiança por parte dos entrevistados no trabalho do PROCON. Já a baixa procura da população pelo PROCON para resolver problemas ou para buscar informações é preocupante para o órgão. Por isso, o PROCON se empenha em promover palestras para aumentar o conhecimento da população sobre sua área de atuação e funções. Isso porque em alguns casos a procura é pequena por falta de divulgação do órgão. Em caso de falta de interesse por parte dos entrevistados, espera­se que estes tomem consciência do quão importante é o PROCON na vida dos consumidores.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA, C. O.; SPERLING, V. P. Educação do consumidor como parte da formação do cidadão. In: Congresso Brasileiro de Economia Doméstica, 16.; Encontro Latino­
Americano de Economia Doméstica, 4.; 2001. Viçosa, MG. Anais... Viçosa, MG: ABED, p. 363 – 368.
DUQUE, M. M. M. Análise do Serviço Prestado pelo PROCON – Viçosa na Visão do Usuário. 56f. Dissertação (Mestrado em Economia Doméstica) ­ Universidade Federal de Viçosa/MG, 1997.
FILOMENO, J. G. B. Manual de direito do Consumidor. São Paulo. 3ª edição. Atlas. 1999.
IBGE. Censo Demográfico 2000 ­ Resultados do universo. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 20 julho 2010.
43
AS MARCAS DE GÊNERO NA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
OLIVEIRA, M. B.; SILVA, N.M.
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
Ao analisar alguns estudos, como, Peixoto (2005) e Vitale (2005), pode­se classificar a solidariedade familiar em afetiva e financeira, as quais juntas constituem a base das relações familiares. A afetiva compreende, em geral, atividades do cotidiano como levar e buscar os netos na escola ou levá­los ao médico e ajudar nas tarefas domésticas. A solidariedade financeira compreende pagamento de estudos, quitação de contas domésticas (água, luz e telefone), e empréstimos em dinheiro.
A solidariedade familiar é bilateral, pois assim como existem filhos que necessitam da ajuda de seus pais, existem pais que por motivos financeiros ou de saúde são ajudados por seus filhos (PEIXOTO, 2005). Porém, este trabalho centrou­se nas solidariedades intergeracionais, isto é, naquelas realizadas da geração mais velha para a mais nova.
2. OBJETIVO
O objetivo deste trabalho foi apresentar uma revisão bibliográfica identificando as formas de solidariedade que são oferecidas por pais aposentados aos seus respectivos filhos e a influência do gênero nessa solidariedade.
3. METODOLOGIA
Para atender ao objetivo proposto foi realizada uma busca bibliográfica e posteriormente uma seleção de artigos e livros que tratavam do tema proposto. Assim, pode­se realizar uma avaliação e discussão a cerca da realidade vivida pelos aposentados e seus familiares, como também compreender as estratégias familiares, que buscam melhorias na qualidade de vida.
SOLIDARIEDADE FINANCEIRA
No Brasil, assim como na América Latina em geral, o intercâmbio de ajuda entre pais e filhos tende a acontecer ao longo de todo o ciclo de vida familiar, como se existisse uma espécie de contrato intergeracional estipulando o papel dos diferentes membros da família em cada estágio do ciclo (SAAD, 2004).
Pesquisas qualitativas de Peixoto (2004) mostraram que grande parte dos 44
pais com mais de 60 anos ajudam os filhos adultos tanto através da prestação de pequenos serviços, quanto financeiramente. De acordo com Almeida (1998), os maiores motivos que levam as famílias brasileiras a recorrerem às transferências de recursos entre gerações são o desemprego e os baixos salários.
De acordo com Camarano (apud Agra, 2002), as famílias brasileiras que possuem pessoas idosas em sua composição se encontram em melhores condições econômicas do que as demais. Isso se deve particularmente a participação financeira do idoso na renda familiar.
Saad (2004), afirma em seus estudos que algumas características familiares aparecem frequentemente associadas a diferentes padrões de suporte. A importância do gênero, tanto dos pais quanto dos filhos, fica clara na definição dos fluxos de suporte. Uma pesquisa feita por Adams (1964) sobre os fatores que afetam a ajuda paterna aos filhos casados revelou que tal ajuda está relacionada ao tempo de casamento do filho, ao estrato ocupacional da família de origem e ao sexo do recebedor. Adams sugeriu que, devido às diferenças de gênero quanto ao treinamento para ser independente, as jovens casadas tinham maior probabilidade de aceitar e de receber ajuda de seus pais do que os rapazes casados.
Segundo Peixoto (2004), muitos aposentados continuam a trabalhar mesmo depois da aposentadoria. Os homens trabalham, em geral, como camelôs, carpinteiros, pintores de parede e motoristas de caminhão, enquanto as mulheres exercem, principalmente, atividades domésticas remuneradas como costura, lavagem de roupa, ou fazem bolos e doces para vender, algumas fazem faxinas em domicílios ou vendem produtos de beleza. Um dos motivos é socorrer financeiramente filhos e netos, pois esses aposentados afirmam saber o quanto a família depende dessa ajuda. Vários entrevistados confessaram estar cansados e ter vontade de se aposentar definitivamente, contudo, enquanto a família necessitar, eles continuam trabalhando.
Já Oliveira e Silva (2007) analisaram as transferências financeiras feitas aos parentes por pessoas idosas, por meio de empréstimos tomados de instituições financeiras, chegando a duas conclusões interessantes. Primeiramente, dentre as mulheres pesquisadas, 63,7% tomaram empréstimo para repassar o valor para seus filhos, enquanto apenas 30,7% dos homens usaram essa mesma estratégia. Em segundo lugar, o estudo sugeriu que a percepção dos filhos quanto a dívida assumida junto a seus pais e mães varia: quando a ajuda foi oferecida pelo pai, 26,7% dos filhos lhe devolveram a quantia emprestada; enquanto, quando essa ajuda foi oferecida pela mãe, o percentual de devolução caiu para 14,3%. Assim, na maioria das vezes (85,7%) em que utilizam o crédito consignado para ajudar seus filhos, as mães assumiram uma dívida sem que aqueles se sentissem na obrigação de pagar o empréstimo. Um dos motivos pelos quais o filho não reembolsa a mãe parece ser a idéia de que esta é a pessoa que tem por obrigação cuidar e suprir as necessidades dos filhos, mesmo depois de adultos.
Ainda com relação à solidariedade financeira, pesquisas de Motta (1999) e Camarano (1999) relataram que uma parcela significativa de mulheres que devido à separação ou viuvez, terminaram por assumir um posto tradicionalmente masculino, o de chefes de família. Essas são as avós chefes de família, provedoras de um 45
grupo familiar onde existem poucas pessoas trabalhando. SOLIDARIEDADE AFETIVA
Com relação à solidariedade afetiva, as pesquisas de Peixoto (2005), sobre as relações de avôs/avós, filhos e netos, demonstram que, quando as mães trabalham fora de casa, “ficar” e “cuidar” dos netos são tarefas das avós. Os homens aposentados auxiliam seus filhos duas vezes menos que as aposentadas nas atividades domésticas. E de acordo com os dados dessa pesquisa sobre gênero, família e trabalho, no universo de mulheres de mais de 50 anos, a proporção de mulheres de baixa renda que trabalham fora que têm empregada doméstica é muito pequena: apenas 6,6%. Isso porque são as avós que ajudam as filhas, assumindo a tarefa de prover e educar os netos.
Nessa mesma temática, a pesquisa de Attias­Donfut (1995) confirma que as mulheres aposentadas são as que, em geral, se organizam em redes de ajuda para a realização das atividades domésticas; enquanto que os homens aposentados são duas vezes menos solidários e, essencialmente, para os trabalhos manuais e pequenos reparos.
Numa análise comparativa Rossi (1986) e Shi (1993) declaram que as mulheres, em geral, aparecem muito mais engajadas em fluxos de apoio do que os homens, o que costuma ser atribuído não só às suas maiores necessidades financeiras, mas também ao fato de serem elas mais apegadas emocionalmente aos filhos.
Sendo assim, como afirma Vitale (2005) o fato de as aposentadas serem lembradas como figuras de cabelos brancos, fazendo crochê e cuidando da horta, não corresponde ao perfil das aposentadas atuais, devendo ser também consideradas as mudanças pelas quais as famílias passaram nas últimas décadas.
4. CONCLUSÃO
Como pode ser visto, existe uma diferença entre as formas de solidariedade, tanto afetiva quanto financeira, oferecida pelo pai e pela mãe aos filhos. Outra diferença observada é na freqüência da ajuda, sendo que as mães ajudam duas vezes mais que os pais tanto afetiva quanto financeiramente. Assim, como cuidar dos outros faz parte do papel socialmente construído, designado às mulheres, são elas as responsáveis por auxiliar, ajudar e cuidar de seus filhos e depois de seus netos.
Diante disso, pode­se concluir que as mudanças dos laços familiares e a escassez de recursos que atinge as famílias demandam novos papéis, apresentando novas exigências para as mulheres idosas, que acabam por se tornar personagens de grande importância, tanto como auxiliares nas atividades domésticas e no cuidado com os netos, quanto no sustento dos filhos adultos, mediante contribuições financeiras. Além disso, os apoios familiares parecem ser constitutivos de identidade feminina, mostrando que as mulheres estão no centro das solidariedades, tanto afetivas quanto financeiras.
Os resultados encontrados nesse estudo foram tomados como ponto de partida para outras pesquisas realizadas pelo Departamento de Economia 46
Doméstica da UFV. Uma dessas pesquisas realiza uma análise comparativa dos papeis de homens e mulheres aposentados dentro da economia familiar, procurando compreender as razões pelas quais os filhos não reembolsam as mães com a mesma freqüência que reembolsam os pais.
5.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGRA, F. M. M. R. Aposentados no mercado de trabalho: uma realidade dinâmica na cidade de Viçosa ­ Minas Gerais. 130f. Dissertação (Mestrado em Economia Doméstica) ­ Universidade Federal de Viçosa, MG, 2002.
ATTIAS­DONFUT, C. Les solidarités entre générations; vieillesse, familles, État. Paris: Nathan, 1995.
CAMARANO, A. A. Como vai o idoso brasileiro? Rio de Janeiro: Ipea, 1999.
MOTTA, A. B. Mulheres de mais idade. In: ÁLVARES, M. L. M. e SANTOS E. F. (Org.). Olhares & Diversidades: os estudos sobre gênero no norte e nordeste. Belém: GEPEM/CFCH/UFPA; REDOR – N/NE, 1999, p. 167­178.
OLIVEIRA, M. B.; SILVA, N. M. Empréstimos pessoais como meio de transferir recursos entre gerações: um estudo de caso. In: XVI SIMPÓSIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, 2007, Viçosa. Anais... Viçosa, UFV, 2007, p. 1064­1064.
PEIXOTO, C. E. Aposentadoria: retorno ao trabalho e solidariedade familiar. In: PEIXOTO, C. E. (Org.). Família e envelhecimento. 1ªed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2004, p. 57­84.
______. Solidariedade familiar intergeracional. In: ARAÚJO, C. e SCALON C. (Org.). Gênero, família e trabalho no Brasil. 1ªed. Rio de janeiro: Editora FGV, 2005, p. 225­240.
ROSSI, A. S. Gender, Personal Traits, and the Exchange of Help between Parents and Adult Children. Paper apresentado no 81º Annual Meeting of the American Sociological Association, New York, 1986.
SAAD, P. M. Transferências de Apoio Intergeracional no Brasil e na América Latina. In: CAMARANO, A. A. (Org.). Os Novos Idosos Brasileiros: muito além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004, p. 169­209.
SHI, L. Family Financial and Household Support Exchange between generations: a survey of Chinese rural elderly. The Gerontologist, v. 33, n. 4, 1993, p. 468­480.
VITALE, M. A. F. Avós: velhas e novas figuras da família contemporânea. In: 47
ACOSTA, A. R. e VITALE, M. A. F. Família: redes, laços e políticas públicas. 2ªed. São Paulo: Cortez: Instituto de Estudos Especiais – PUC/SP, 2005, p. 93­105.
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AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL DE IDOSOS ATENDIDOS EM UM PSF DO MUNICIPIO DE VIÇOSA­MG
SILVA, V; SILVA, E. C; SILVA, R. C.
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
No Brasil, o processo de envelhecimento da população deve­se ao rápido declínio das taxas de mortalidade e de fecundidade e aumento da expectativa de vida (CHAIMOWICZ, 1997). De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU, 1982), a classificação/definição difere cronologicamente o ser idoso entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Nos primeiros, são consideradas idosas as pessoas com 65 anos ou mais, enquanto nos países em desenvolvimento; como é o caso do Brasil são idosos aqueles indivíduos com 60 anos ou mais.
O envelhecimento, apesar de ser um processo natural, submete o organismo a diversas alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde e nutrição do idoso (MITCHELL et al. citado por CAMPOS; MONTEIRO ; ORNELAS, 2000), como a situação social, econômica e familiar em que vive, condições físicas e mentais para desempenhar as atividades diárias, presença de doenças e uso de múltiplos medicamentos, aspectos culturais, religiosos e disponibilidade de alimentos, alterações fisiológicas que ocorrem com o avanço da idade, perda de dentes e uso de próteses e intervenção que podem ajudar na aceitação de uma refeição adequada (CAMPOS, 2005).
2. OBJETIVOS
O presente estudo teve como objetivo geral avaliar o estado nutricional da população idosa de um PSF do município de Viçosa, MG. Especificamente, pretendeu­se; conhecer o perfil sócio­econômico dos idosos, avaliar o estado nutricional da população, avaliar o consumo alimentar, avaliar as doenças que mais afetam os idosos.
3. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
Trata­se de uma pesquisa descritiva, de caráter transversal realizada na 49
cidade de Viçosa­MG com idosos do Programa de Saúde da Família do bairro Santo Antônio. A população foi composta por indivíduos de ambos os sexos, com faixa etária superior a 60 anos. A amostra foi de caráter aleatório simples, determinada por um sorteio a partir da lista de idosos cadastrados no PSF estudado.
A amostra foi constituída por 54 idosos. A coleta de dados foi realizada no domicílio do idoso o qual retratava o objetivo da pesquisa e assegurada à preservação da integridade e do anonimato do idoso, bem como garantia de exposição mínima de riscos aos indivíduos participantes.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A amostra foi constituída por 54 idosos, sendo 61,1% dos indivíduos do sexo feminino e 38,9% do sexo masculino. A média de idade foi de 70,11 anos onde 44,4% se encontravam na faixa etária de 60 – 69 anos; 59,1% na faixa de 70 ­79 anos; 1,9% na faixa de 80 – 89 anos; 1,9% se encontram na faixa de 90 anos ou mais.
Com relação às características sócio­demográficas, verificou­se que a maior parte dos idosos era aposentados (74,1%), casados (77,8%), residiam em casa própria (96,2%) e possuíam primário incompleto (66,7%). Apenas 1,9% moravam sozinhos ou dependiam de cuidados.
Na analise do estado nutricional, considerando­se o IMC, observou­se que 51,9% dos participantes estavam com sobrepeso, 38,9% eutróficos e 9,3% abaixo do peso.
Ao analisar a quantidade de energia ingerida, verificou­se que 94,4% dos participantes ingeriam quantidades insuficientes em relação aos micronutrientes. Verificou­se em termos de distribuição percentual, a adequação de carboidratos, proteínas e lipídeos esteve presente em 79,6%, 83,3% e 54,4% da amostra, respectivamente. No entanto, a ingestão de fibras foi abaixo em 87% dos idosos.
Em se tratando das doenças que mais afetam os idosos do PSF, 85,2% dos idosos apresentavam doenças como diabetes (42,6%) e (68,5%) hipertensão. Dentre os medicamente mais consumidos para o tratamento das mesmas, estão os hipoglicemiantes, insulina e anti­hipertensivos.
5. CONCLUSÃO
Com base nos resultados obtidos neste estudo observou­se nos idosos atendidos no PSF de Viçosa MG, uma predominância de indivíduos do sexo feminino e com baixa escolaridade e renda. Com isso, há necessidade de uma intervenção mais específica para essa população, que deve ser feita de forma clara como auxílio de recursos didáticos, atrativos e de fácil compreensão.
Nota­se uma adequação da ingestão de macronutrientes na maioria dos participantes, no entanto, apresentam inadequação na ingestão de micronutrientes. Prevalece entre os participantes o estado nutricional considerando o IMC de 50
sobrepeso, fator esse que está relacionado ao elevado número de participantes apresentarem doenças de risco como hipertensão e diabetes. Estas se não controladas podem aumentar a predisposição dos pacientes à varias outras doenças aumentando os custos para o sistema sanitário e diminuindo os anos de vida para os indivíduos acometidos.
Portanto, cabe uma intervenção via interação interprofissional que favoreça a mudança de hábitos e estilos de vida ligados à alimentação e nutrição e estilo de vida.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHAIMOWICZ, F. A. Saúde dos idosos as vésperas do século XXI:problemas, projeções e alternativas. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v.31.n.2, p.184 a 200.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS.
envelhecimento:resolução 39/123. Viena 1982
Assembléia mundial sobre CAMPOS, M.T.F.S.; MONTEIRO, J.B.R.; ORNELAS, A.N.R.C. Fatores que afetam o consumo alimentar e a nutrição do idoso. Rev. Nutr.,Campinas, v.13,n.3, p.157­165, 2000.
CAMPOS, M. T. F. S.; COELHO, A.I.M. Alimentação saudável na terceira idade: estratégias úteis. 2 ed. Viçosa, 2005
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AVALIAÇÃO ERGONÔMICA DO AMBIENTE DE TRABALHO DE UMA LAVANDERIA DE INDÚSTRIA DE PRODUTOS DE
ORIGEM ANIMAL
CONTARINI, B.B.; MAFRA, S.C.T.; SILVA, V.E.; CRUZ, M.C.
Universidade Federal de Viçosa
bethâ[email protected] 1. INTRODUÇÃO
O setor de lavanderia em indústria de produtos de origem animal é responsável pela higienização das vestimentas de trabalho dos trabalhadores dos demais setores. Este setor, por sua vez, proporciona a eliminação de sujidades que podem ser veículos de contaminação para os trabalhadores e para os alimentos durante o processo de produção. No entanto, para que a lavanderia alcance seus objetivos, é fundamental que se tenha uma boa organização e um bom planejamento das rotinas de trabalho.
A lavanderia é um ambiente insalubre por oferecer diversos riscos para seus trabalhadores. Dentre esses riscos, está o ergonômico, que se refere a fatores que podem interferir no desempenho das atividades dos trabalhadores, causar desconforto ou afetar a saúde, além de influenciar, também, na qualidade do serviço.
1.1 Objetivo Analisar, sob a perspectiva da ergonomia, as atividades desenvolvidas por trabalhadores de uma lavanderia de indústria de produtos de origem animal, a fim de detectar possíveis riscos aos quais estão submetidos.
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A pesquisa foi realizada em uma lavanderia de indústria de produtos de origem animal localizada na Zona da Mata Mineira. A amostra foi formada por cinco trabalhadores da lavanderia; um economista doméstico e um técnico em segurança do trabalho.
Foi estabelecido contato com a indústria, apresentando a proposta de trabalho aos gerentes, os quais permitiram o acesso às respectivas instalações. Em seguida, foram realizadas visitas e entrevistas com o gestor da lavanderia (Economista Doméstico), com o técnico de segurança do trabalho e com os trabalhadores do setor de lavanderia. Foram realizadas observações do ambiente de trabalho, da atividade, bem como do mobiliário e equipamentos utilizados na execução desta, a fim de verificar 52
se havia possíveis fatores de riscos ergonômicos no ambiente laboral.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1 Perfil sócio­cultural dos trabalhadores
Foram realizadas entrevistas com os trabalahdores da lavanderia, com o intuito de traçar o perfil sócio­cultural dos mesmos.
Foram entrevistados cinco trabalhadores, sendo 100% do sexo feminino, o que de acordo com Miguel et. al (2010), parece revelar um atributo de confiança na habilidade de mulheres para desenvolver esse trabalho. segundo os autores, essa atribuição vem de séculos atrás, onde a mulher sempre esteve responsável pelo âmbito doméstico, pelos afazeres da casa e cuidados com os filhos, desta forma, quando resolveu se inserir no mercado de trabalho sem qualificação para outro cargo, só restava a opção de fazer aquilo que sabia, ou seja, lavar, passar, cozinhar, cuidar de crianças. Com relação à faixa etária, apresentavam idade entre 29 e 43 anos. Quanto à escolaridade, Castro e Chequer (2001) mencionam que funcionários de lavanderia devem ser pessoas qualificadas, devem estar cursando ou possuir pelo menos o ensino fundamental completo (pelo menos 8 anos de estudo). Entretanto, dentre as entrevistadas, apenas 40% possuíam ensino fundamental completo, 20% ensino médio incompleto, e 40% possuíam ensino fundamental incompleto, o que não se enquadra na recomendação citada acima, pois segundo o mesmo autor, o funcionário sem o mínimo de instrução terá maior chance em não aceitar mudanças e adotar os conhecimentos obtidos no treinamento. São às vezes menosprezados, possuem auto­estima baixa, comprometendo a qualidade do serviço. Quanto à proveniência, 80% das entrevistadas eram oriundas da zona rural, enquanto 20% da zona urbana. Com relação ao estado civil, 60% eram casadas; 20% solteiras e 20% separadas. As trabalhadoras possuíam de 0 a 3 dependentes, com idades entre 7 e 24 anos de idade. No que diz respeito à renda, 80% recebiam de um a três salários mínimos e 20% recebiam um salário mínimo, com tempo de trabalho variando entre cinco meses a um ano e três meses, todas com carteira assinada. As entrevistadas (60%) trabalhavam nos turnos diurno (manhã e tarde), de 07h00min. às 16h48min., com intervalo de uma hora para almoço; enquanto 40% trabalhavam no turno da tarde e noite, das 12h00min. às 21h48min., também com intervalo de uma hora para jantar; ocupando todas o cargo de auxiliar de lavanderia. 3.2 Espaço Físico
Com relação ao espaço físico, Mezzomo (1992) ressalta que o estudo do espaço físico disponível para a implantação de um sistema harmonioso de trabalho é de primordial importância. Na entrevista com trabalhadoras, 80% consideraram o espaço físico da lavanderia insuficiente para desenvolver o trabalho, relatando ser muito apertado; enquanto 20% consideraram­no suficiente. Todas as entrevistadas 53
destacaram que deveria aumentar o espaço físico para desenvolver melhor o trabalho, principalmente a área para armazenamento das roupas limpas. Com relação à disposição dos equipamentos, as entrevistadas consideraram que a mesma facilitava o trabalho e que o número de equipamentos existentes na lavanderia era suficiente e os mesmos estavam em ótimas condições para o desenvolvimento do trabalho. Em relação aos equipamentos que consideram importantes em uma lavanderia, as trabalhadoras citaram máquina de lavar, centrífuga, secadora, mesas, carrinhos e balança.
3.3. Condições Ergonômicas As trabalhadoras da lavanderia trabalhavam 8 horas por dia, definidos pela empresa no ato da contratação.
Para as entrevistadas as atividades que mais exigiam esforço eram retirar a roupa molhada da lavadora e da centrífuga, e também da secadora quando estavam secas; entregar os malotes de roupas limpas nos vestiários e coletar roupas sujas nos vestiários.
Com relação a acidentes de trabalho, 60% relataram que já haviam sofrido algum tipo de acidente; 80% disseram que sentiam dores no corpo com frequência, sendo dores nos braços, nas costas e dores musculares as mais citadas. Os riscos de acidentes estão relacionados à proteção das máquinas, arranjo físico, ordem e limpeza do ambiente de trabalho, sinalização, rotulagem de produtos e outros que podem levar a acidentes do trabalho (ANVISA, 2007). Para 80% das trabalhadoras, a lavanderia era um local que oferecia riscos de acidentes, ressaltado pelas máquinas que ocasionam acidentes caso não seja operada da forma correta. Além dos equipamentos, o risco de cair em função do piso molhado também foi citado, o restante (20%) não soube responder. Com relação ao trabalho que desenvolviam, 40% consideravam­no repetitivo; 40% cansativo e repetitivo; e outros 20% agradável.
As trabalhadoras relataram que para melhorar o ambiente de trabalho e o conforto era necessário que se ampliasse o espaço físico, contratasse mais funcionários, que houvesse organização dos horários e rodízio dos trabalhadores que trabalhavam aos sábados.
3.4 Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
As trabalhadoras afirmaram que elas possuíam o EPI e que o utilizavam regularmente, reconhecendo que é imprescindível o uso do mesmo na lavanderia, já que este protege contra vários riscos à saúde e acidentes.
Dentre os EPI considerados necessários pelas trabalhadoras foram citados: avental, luva, máscara, protetor auricular, touca, botas e óculos, reconhecendo a importância do uso destes. Durante o estudo na lavanderia, observou­se que tanto no setor de área suja, quanto no de área limpa, todas as funcionárias utilizavam regularmente os EPI necessários ao desempenho da atividade. 54
3.5 Avaliação ergonômica do ambiente
Pôde­se constatar que o principal risco ergonômico na lavanderia estudada era o relacionado à postura. As trabalhadoras ficavam muito tempo de pé, o que segundo Dul e Weerdmeester (2004), não é recomendado, pois isso provoca fadiga nas costas e pernas. Além disso, faziam vários movimentos que exigiam a flexão da coluna, o que, segundo os autores citados, gera estresse adicional quando o tronco fica inclinado, levando a dores no pescoço e na região lombar, dos braços e inclinação do corpo. O trabalho com os braços para cima, sem apoio, provoca dores nos ombros. O maior esforço realizado pelas trabalhadoras era na retirada da roupa molhada da lavadora, pois o peso se torna maior devido à absorção de água. Após essa retirada, a roupa era colocada na centrífuga, o que acarretava flexões e inclinações do tronco. Após a roupa ser centrifugada, era colocada em um carrinho e novamente, para colocá­la na secadora, adotavam a inclinação das costas. Além do esforço físico, as trabalhadoras estavam submetidas ao cansaço mental, considerando a carga de trabalho mental durante a entrega das roupas nos vestiários masculino e feminino, para os setores de produção, entre outros que utilizam o uniforme higienizado. Esses eram separados em kits compostos por calça, blusa, touca, máscara, luvas e meias. Muitas vezes, os trabalhadores de outros setores reclamavam ou estavam apressados e acabavam exigindo/pressionando as trabalhadoras da lavanderia, que atendem várias pessoas ao mesmo tempo para a atividade de entrega dos uniformes. Outro aspecto gerador de estresse foi o calor que advinha das secadoras e que influenciava de forma negativa no desempenho da atividade, aumentando o risco de acidentes devido à fadiga e a diminuição dos reflexos causados pelo trabalho de várias horas seguidas.
4. CONCLUSÃO
Para a lavanderia estudada, recomenda­se um revezamento de turno para não sobrecarregar as trabalhadoras, exercícios laborais em intervalos de tempo, assentos para descanso dos membros inferiores, uso de EPIs para prevenir acidentes, maior espaço físico e instalação de exaustores para diminuir a sensação térmica desagradável. Essas medidas, sendo adotadas, proporcionará segurança e manutenção do estado de saúde das trabalhadoras do setor de lavanderia, além de garantir maior qualidade do produto final que a empresa oferece ao consumidor. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Processamento de Roupas de Serviços de Saúde: Prevenção e Controle de Riscos. Brasília: Ministério da Saúde, 2009.120p.
55
CASTRO, R. M. S.; CHEQUER, S. S. I. Serviço de Processamento da Roupa hospitalar: Gestão e Funcionamento. Viçosa. MG. Ed UFV, 2001. 100p.
DUL, Jan. WEERDMEESTER, Bernard. Ergonomia Prática. 2 ed. São Paulo: Edgar Blücher, 2004. 137p.
MEZZOMO, A.A. Lavanderia Hospitalar: Organização e Técnica. 5 ed. São Paulo: Cedas, 1992. 344p.
MIGUEL, A. M; MAFRA, S. C. T.; BARRETO, M. L. M.; PINTO, N. M. Análise do trabalho em lavanderia hospitalar a partir das prescrições: Um estudo de caso. In: Lavanderia: do ambiente aos indivíduos. Viçosa. MG: Ed. UFV, 2010. 190p.
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ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS ORGANIZAÇÕES­ UM RECORTE BIBLIOGRÁFICO
MARCOLINO,R.C.; MONTEIRO, S.
Universidade Federal de Viçosa
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1. INTRODUÇÃO
O presente estudo tem como tema a “ética e responsabilidade social nas organizações”. Abordar o tema responsabilidade social nas organizações remete à definição de ética, pois ambas estão intrinsecamente ligadas.
O termo ética, proveniente do vocábulo grego ethos, significa costume, maneira habitual de agir, índole. Sentido semelhante é atribuído à expressão latina mos, moris, da qual deriva a palavra moral (KARKOTLI; ARAGÃO, 2005).
Para Valls (2008), citado por Rocha (2003), um comportamento correto eticamente é um comportamento adequado aos costumes vigentes de uma determinada sociedade. Para o autor, quem se comporta de maneira diferente, saindo dos costumes aceitos e respeitados pela maioria da sociedade, estaria errado. O conceito de responsabilidade social corporativa pressupõe que a organização não seja somente um agente econômico, produtor de riqueza e gerador de lucros, mas também um agente social, com participação e influência sobre seu entorno (KROETZ, 2008).
Ainda de acordo com o autor, o conceito de responsabilidade social empresarial tem sido discutido e pesquisado frequentemente na administração. A responsabilidade social empresarial abordada por vários teóricos da ciência da administração de empresas, ora chamada de responsabilidade social corporativa, atualmente, intitulada de responsabilidade socioambiental, possui uma base teórica comum, mas envolvida em controvertidas aplicações e desdobramentos empíricos. À Grosso modo, todas as definições postas na literatura especializada confluem para o comportamento ético que deve ter uma empresa para além de suas obrigações legais.
A Ética ilumina o ser humano, norteia a conduta individual e social e pode­se dizer que é a base da responsabilidade social, expressa através dos princípios e valores adotados pela organização, na condução dos seus negócios (FRAZÃO et al, 2007).
O debate sobre o comportamento ético das organizações, de acordo com Karkotli e Aragão (2005), vem tomando lugar na prática administrativa como o caminho para sobreviver às mudanças de paradigmas e ao ambiente de alta competição que vivenciam as empresas do mundo ocidental capitalista e de mercados desregulamentados . Antes bastava­lhe ter tão somente como objetivos o 57
aumento da produtividade e a maximização dos lucros, no entanto, atualmente, a nova realidade engloba, além de interesses proprietários, dirigentes e trabalhadores, ações que correspondam às responsabilidades de que está investida, dentre as quais: a qualidade intrínseca de seus produtos e as consequências de sua utilização; padrão dos serviços prestados; proteção e preservação do meio ambiente, bem como os efeitos diretos da sua atividade sobre o bem­estar da comunidade (KARKOTLI; ARAGÃO, 2005).
2. OBJETIVOS
Neste estudo buscou­se analisar como as empresas têm buscado desenvolver atividades ligadas a responsabilidade social em termos éticos.
3. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
Para o desenvolvimento desse estudo, buscou­se informações com bases em pesquisas bibliográficas, além do recorte bibliográfico de um artigo, que trouxesse exemplos práticos de como as empresas instaladas no Brasil, estão buscando desenvolver atividades ligadas à responsabilidade social das organizações em termos éticos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Neste tópico abordou­se os principais aspectos sobre o texto “Responsabilidade social e ética: avaliando exemplos e redefinindo resultados organizacionais” das autoras, Aline Souki Amaral de Paula, Júlia Andrade Ramalho Pinto e Kely César Martins de Paiva
Nesse texto, as autoras expressam a realidade das empresas atuais, as quais têm buscado cada vez mais desenvolver atividades ligadas à responsabilidade social das organizações em termos éticos. Têm procurado dar respostas não apenas aos seus proprietários e clientes, mas também a outros públicos importantes: empregados, concorrentes, fornecedores, meio­ambiente, minorias marginalizadas, em relação a sociedade como um todo. Há uma preocupação crescente das empresas com responsabilidades social fazendo nascer uma nova mentalidade empresarial, que valoriza a cultura de uma boa conduta empresarial para a qual eficiência e lucro podem ser combinados com valores, cidadania, preservação ambiental e ética nos negócios.
Várias que têm buscado atuar em termos de responsabilidade social,foram citadas no referido artigo, quais sejam:
Calçados Azaléia
É a maior fabricante de calçados femininos e esportivos do país. Busca ações que visam à satisfação dos funcionários, consequentemente maior produtividade. Essas ações relacionam­se a saúde, habitação, educação, transporte e segurança. A empresa, por exemplo, atua no apoio familiar aos funcionários, com a criação e manutenção de creche para 650 crianças de idade 58
entre 3 meses e 6 anos. Os projetos sociais da Azaléia têm­se estendido também às comunidades onde ela opera na forma de cursos supletivos e de informática, reforma de hospital (Parobé – RS), seminários sobre uso indevido de drogas e disponibilização de recursos (brigada de incêndio).
Banco do Brasil
O Banco do Brasil atua, sobretudo, nas áreas de educação, cultura e saúde. Ele tem, ainda, a maior rede de operacionalização de projetos sociais do país. Quanto ao público interno, verifica­se que muitos não estão satisfeitos com seus salários, ainda que esteja havendo um melhoramento quanto a determinação da carreira pelo tempo de trabalho e pelas relações de gênero (mulheres em cargos executivos).
Belgo Mineira
A empresa apresenta, em seu balanço social, contribuições em atividades culturais, educacionais, sociais e ambientais. Também investe em projetos de longo prazo, buscando parceiros em toda sua cadeia produtiva e a agrega organizações comunitárias em torno de suas iniciativas. Um programa de saúde física e mental atende cerca de 5.000 adolescentes, filhos de empregados. Programas educativos espalhados por quatro cidades atendem 16 escolas públicas. A recuperação do Rio Piracicaba, que corta a cidade de João Monlevade – MG, foi um dos projetos de preservação da natureza.
McDonald´s
Atividades ligadas à área de saúde, especialmente às instituições de combate ao câncer infantil, são o alvo mais conhecido das ações de responsabilidade social do McDonald´s. O “Mc Dia Feliz”. A empresa busca além de oferecer produtos de boa qualidade, políticas internas de gestão de pessoas (contratação de “pessoas especiais” e minorias) quanto às externas, como o relacionamento com franqueados.
Natura
Criou uma linha de produtos – “Ekos”­ ligada a um projeto sócio­ambietal. Nele, as comunidades locais de reservas florestais dos estados do Amazonas, Pará e Rondônia, são treinadas para extrair e cultivar, de forma sustentável, os insumos usados pela empresa, no mesmo sentido, a maioria de suas embalagens é reciclável.
Serasa
Em suas atividades sociais, incluem a autonomia e o poder de decisão aos empregados, serviço gratuito a consumidores e transferência de métodos de gestão, de qualidade e de produtividade para entidades comunitárias. O voluntariado entre os funcionários é incentivado pela empresa.
5. CONCLUSÃO
Diante da globalização e a competitividade, a defesa dos valores éticos nos ambientes empresariais demarcaram uma nova postura das empresas, nas quais com maior frequência, investem em valores éticos, associados à diversas ferramentas de marketing, buscando agregar valor à marca e, com isso, alcançar 59
resultados satisfatórios.
A responsabilidade social surge a partir dessa postura, da ideia de que os consumidores dão preferência e se tornam fieis às marcas que se preocupam com o bem­estar da população, seja no âmbito sócio­econômico ou ambiental. Porém, em alguns casos, a responsabilidade social é utilizada preponderantemente como estratégia de marketing, a fim de maquiar os impactos negativos que causam à sociedade. A ética da responsabilidade compreende a revisão permanente de meios e fins. Ela necessita da comunicação entre os atores sociais para levantamento e avaliação de alternativas de decisões administrativas.
De uma forma geral, existe uma preocupação por parte das empresas em suprir deficiências do Estado, em ações que se desdobram em benefícios reais e potenciais para as empresas, direta e indiretamente. Tais ações podem ser consideradas como éticas nos dois sentidos, tanto no da responsabilidade, quanto, e principalmente, no da convicção.
Empresas que se norteiam por um código de conduta ética conquistam a confiança de seus profissionais, garantem o compromisso de clientes e parceiros e, principalmente recebem o tão almejado "certificado de reconhecimento" da sociedade em geral .
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS
ALMEIDA, Filipe Jorge Ribeiro de. Ética e desempenho social das organizações: um modelo teórico de análise dos fatores culturais e contextuais. Revista de administração contemporânea. Curitiba, v. 11, n. 3, Set. 2007 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415­
65552007000300006&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 17,set. 2010
FISCHER, Rosa Maria; NOVAES, Elidia Maria. Construindo a cidadania: ações e reflexões sobre empreendedorismo e gestão social. São Paulo, 2005.
FRAZÃO, et al. A dimensão ética da responsabilidade social nas organizações. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 1, n. 2/3, p. 196­210, set. 2006/abr. 2007. Disponível em: http://www.fbb.br/downloads/maieutica_v1_n23_a4.pdf
. Acesso em: 17,set. 2010. FREITAS, Ane Grasiele Gomes de. Comunicação nas organizações: Análise da prática social em jornal externo/interno da vallourec & mannesmann tubes. Monografia, Universidade Federal de Viçosa.Viçosa – MG, Brasil 2007.
KARKOTLI, Gilson; ARAGÃO, Sueli Duarte. Responsabilidade social: uma contribuição à gestão transformadora das organizações. 2 ed. Editora Vozes. Petrópolis, 2005.
KROETZ, Cesar Eduardo Stevens. Ética e responsabilidade social. In 18º 60
congresso brasileiro de contabilidade. 24 a 28 de agosto.2008. Disponível em < http://www.congressocfc.org.br/palestras/26_08_08/Pain%C3%A9is/PAINEL%20N
%C2%BA%208%20%C3%89tica%20e%20responsabilidade%20social/C
%C3%A9sar%20Eduardo%20Stevens%20Kroetz/Cesar%20Kroetz
%20PainelRSCesar.pdf>. Acesso em 03.out.2010.
PAULA, Aline Souki Amaral de; PINTO, Júlia Andrade Ramalho; PAIVA, Kely César Martins de. Responsabilidade social e ética: avaliando exemplos e redefinindo resultados organizacionais. Disponível em:< http://www.ichs.ufop.br/conifes/anais/
OGT/ogt0802.htm> Acesso em: 08,out. 2010.
ROCHA, Edna Franco. A vivência da ética nas organizações públicas: algumas Considerações. Revista Eletrônica do curso de pedagogia. Campus Jataí ­UFG. V.8 n.1jan/jul2010.
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ÉTICA: UMA BREVE ABORDAGEM SOBRE A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE ECONOMIA DOMÉSTICA
GONÇALVES, C.A.; PACHECO, L. A.; GOMES, C. J. G.; SILVA, F.L.
Universidade Federal de Viçosa – UFV
[email protected]
1. INTRODUÇÃO
O presente estudo consiste em analisar a atuação ética do profissional de Economia Doméstica, voltado para área da Economia Familiar, buscando perceber como são as atividades exercidas por esse profissional e identificar os desafios encontrados pelo mesmo. O objetivo geral foi analisar os desafios éticos enfrentados pelo profissional de Economia Doméstica que atua na área da Economia Familiar. E, especificamente, conceituar o curso de Economia Doméstica de acordo com suas áreas de atuação; o conceito de Economia Familiar de acordo com determinados autores; estudar a atuação do profissional de Economia Doméstica na área de economia familiar.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
É de fundamental importância para o economista doméstico trabalhar de forma ética em todas as áreas, principalmente na área da Economia Familiar que se relaciona ao uso dos recursos escassos pelas famílias, para a obtenção de bem­
estar econômico, segurança, padrões de vida adequados, que inclui quantidade de bens e serviços, satisfações, percepções e realidades (SILVA, 1995). Em uma abordagem ecossistêmica, a Economia Familiar, ao tomar suas decisões de alocação de recursos em termos de produção, distribuição e consumo, visando padrões de vida desejados, é influenciada tanto pelo sistema familiar, quanto pelos fatores internos e externos do ambiente (micro e macro), vivenciados pela unidade familiar (BOFF, 1999).
Os hábitos, as crenças e os valores transmitem­se por herança cultural e são suscetíveis de modificação e cada grupo cultural possui um padrão especial ­ um argumento ­ para viver e interatuar uns com os outros. Isto quer dizer que há também um padrão cultural para cuidar de si e do outro, embora a prioridade na vida de cada indivíduo seja o próprio bem­estar e a expansão da percepção para agir. Todas as influências, internas e externas, tendem a afetar as decisões, interferindo na qualidade de vida, tanto para uma pessoa quanto para o grupo como um todo (ANTHONY, 1989).
3. METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada na cidade de Viçosa/MG, pelo fato de as entrevistadas terem­se formado na instituição localizada na referida cidade.Viçosa, localizada no estado de Minas Gerais, possui cerca de 72.244 mil habitantes, 62
possuindo uma área territorial de 299 km, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). A população urbana é constituída por 67. 337 mil habitantes.
Na tentativa de conhecer melhor a postura desse profissional no mercado de trabalho, utilizamos como informação, a coleta de dados através da aplicação de questionários semi­estruturados, onde cinco profissionais da área foram entrevistados. No questionário semi­estruturado foram elaboradas questões para a construção do perfil das profissionais, como sexo, idade, raça, estado civil, grau de escolaridade, assinatura de carteira de trabalho, e renda pessoal. Procurou­se perceber as atividades que esses profissionais desempenham dentro da área, de como é ter ética e ser um profissional ético ao lidar com questões tão importantes e subjetivas como a instituição familiar. Os dados obtidos nos questionários foram tabulados e analisados com base na bibliografia consultada, de forma a atender os objetivos desta pesquisa.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Das cinco profissionais que se formaram em Economia Doméstica na Universidade Federal de Viçosa e que atuam e ou atuaram na área de Economia Familiar, quatro residiam na cidade de Viçosa, MG, e uma em Brasília, DF. Todas eram do sexo feminino, entre elas uma pessoa se enquadrava na faixa etária de 18 a 25 anos; uma pessoa de 26 a 30 anos; duas pessoas de 30 a 40 anos e uma delas se enquadrava na faixa etária de 40 anos ou mais. Em relação à raça todas se consideraram da cor branca. Quanto ao estado civil, duas eram solteiras, uma separada, uma casada, e a uma união consensual.
Com níveis de escolaridade variados, uma possuía superior incompleto, duas com mestrado em Economia Doméstica, duas com doutorado, sendo uma em Engenharia de Produção e outra em Ecologia Humana. No que diz respeito ao registro na carteira de trabalho, duas possuíam carteira assinada, duas estatuário, uma bolsista de apoio técnico CNPq.
Ao que se refere à renda pessoal uma das entrevistadas possuía renda total de 1 a 3 salários mínimos (s.m.), uma, de 5 a 10 s.m., e três, com mais de 10 s.m.
Quando questionadas sobre o fator determinante na escolha de atuação da área de Economia Familiar, tive­se como resposta de três delas a afinidade e identificação com as temáticas abordadas; três asseguraram a experiência e aplicação na prática das disciplinas; uma, mencionou a oportunidade de poder utilizar de vários conhecimentos; e outra, abrangendo as demais áreas desenvolveu atividades de ensino, pesquisa e extensão na área de economia familiar.
A seguir, alguns depoimentos ilustram a percepção das entrevistadas:
“A oportunidade de poder utilizar de vários conhecimentos adquiridos durante o curso, principalmente a relação do consumo, qualidade de vida e meio ambiente” (entrevistada 01).
Em relação à importância e conceito da área de Economia Familiar no curso 63
de Economia Doméstica, três entrevistadas alegaram estar relacionada à administração, alocação dos recursos da família e a organização familiar; três alegaram que a Economia Familiar está relacionada diretamente a qualidade de vida da família; duas consideram essa área a base do curso de Economia Doméstica; uma destaca a inclusão do consumo com o meio ambiente; e outra afirmou que a importância está nas relações dos indivíduos com outros membros de sua família e com o ambiente. “É um conceito chave, a coluna vertebral do curso. O conhecimento dos conceitos trabalhados nesta área é fundamental para o desenvolvimento de todas as demais áreas” (entrevistada 03).
Quando questionadas se o cargo de ocupação que as mesmas exerciam era destinado ao profissional de Economia Doméstica, três responderam que sim, e outras duas responderam que não, dessas uma é gestora ambiental e outra professora universitária.
“Minha formação foi essencial para a ocupação do cargo que é de Gestora Ambiental III” (entrevistada 01).
Quando indagadas sobre o credenciamento no Conselho Regional de Economia Doméstica (CRED), três afirmaram que são credenciadas e duas não. “Não. Era associada à ABED, mas como professora universitária não temos sindicato. Nosso órgão de classe é o ANDES” (entrevistada 02).
No momento, as atividades que são desenvolvidas pelas entrevistadas dentro da área de atuação das mesmas, são respectivamente, duas: Ensino, Pesquisa e Extensão; uma na coordenação de um programa socioambiental; uma no desenvolvimento social, com agricultores; e outra trabalhando em um projeto de agregação de valor ao lixo.
Em relação aos pontos de vista das entrevistadas no se refere à definição de uma postura ética no trabalho, todas enfatizaram o respeito aos colegas; duas, possuir uma postura pró­ativa; duas, serem honestas; e duas, exercer as tarefas de competência das mesmas; duas não prejudicar o colega de trabalho.
As entrevistadas quando interrogadas se consideravam a ética importante para o desenvolvimento do seu trabalho obteve se como unanimidade a resposta afirmativa.
No que mencionou a propósito de ter encontrado algum desafio ético na sua vida profissional, três encontraram desafios éticos na vida profissional e duas, não. “Sim. Seria antiético descrevê­los” (entrevistada 02).
“Sim, em um outro local de trabalho fui 64
desrespeitada enquanto profissional pelo meu colega de trabalho, que na época era gerente do escritório” (entrevistada 04).
5. CONCLUSÃO
Conclui­se que um dos aspectos mais positivos do trabalho do Economista Doméstico com a Economia Familiar é a busca do profissional pela união da família para atingir um objetivo comum a todos: o equilíbrio financeiro e o aumento do conforto familiar, através da aquisição de bens e serviços. Sendo assim, é de fundamental importância para o Economista Doméstico trabalhar de forma ética em todas as áreas, principalmente na área da Economia Familiar que se relacionam ao uso dos recursos escassos pelas famílias, para a obtenção de bem­estar econômico, segurança, padrões de vida adequados, que inclui quantidade de bens e serviços, satisfações, percepções e realidades, mantendo uma postura ética no trabalho, principalmente em relação ao respeito aos colegas, agindo sempre com uma postura pró­ativa, com honestidade e competência.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTHONY, R. As chaves da auto confiança. São Paulo: best seller, 1989.
BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano­compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: VOZES. 1999.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE Censo 2010. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010 /tabelas_ pdf/tota l_populcao_minas _gerais.pdf. Acesso em: 22 jan. 2011. SILVA, V. M. A distribuição dos recursos para os municípios paulistas: uma abordagem de análise multivariada. Estudos Econômicos, SP, V. 25, n. 3, p. 355­
388, 1995. 65
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS SERVIÇOS DE PROTEÇÃO A INFÂNCIA ABANDONADA
ALMEIDA, Izabela Amaral; BARRETO, Maria de Lourdes Mattos; CRUZ, Elenciria Oliveira;
Universidade Federal de Viçosa
[email protected] ; [email protected] ; [email protected]
1. INTRODUÇÃO
O abandono de crianças e adolescentes foi uma prática muito comum nos tempos antigos, mas mesmo sendo hoje punido por Lei, ele ainda é muito praticado. Hoje sabemos que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que é dever do Estado, da Família e da Comunidade a garantia da Proteção Integral, estabelecendo ainda que toda criança e adolescente tem o direito de crescer em família, na comunidade e sem violência, tendo em vista que o ambiente familiar saudável é o melhor lugar para o desenvolvimento da população infanto­juvenil. No entanto, apesar da importância do ambiente familiar para o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes, existem ainda milhares delas vivendo em instituições de acolhimento ou nas ruas por terem sido abandonadas por suas famílias ou por terem sido tiradas das mesmas por meio de medidas judiciais.
Por meio do resgate histórico dos Serviços de Proteção à Infância abandonada serão lançadas algumas reflexões concernentes ao tema. 2. OBJETIVOS
Este trabalho teve como objetivo levantar reflexões acerca da evolução histórica dos Serviços de Acolhimento e Proteção a Infância Abandonada desde seus primeiros registros até se chegar aos atuais Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, bem como as inflexões contidas nesse processo.
3. METODOLOGIA
Para atingir os resultados dessa proposta foi realizado um levantamento bibliográfico na busca de referências que tratam do tema Acolhimento para Crianças e Adolescentes em situação de abandono nas suas mais distintas dimensões. Este levantamento foi feito por meio de periódicos especializados, livros que abordam a questão da infância abandonada, pesquisas na internet e documentos oficiais dos Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes na busca por estudos que abordam o tema proposto.
4. DESENVOLVIMENTO
A história nos mostra que a existência de casos de abandono de crianças é conhecida em praticamente todas as grandes civilizações desde a Antigüidade Grega e Romana (MARCÍLIO 2006). Registros históricos indicam também que a 66
pobreza era uma das principais motivações para a prática do abandono de recém nascidos, e a partir do século V no período de Idade Média, o sentimento de misericórdia começou a fazer parte com maior intensidade do cenário da Igreja. A partir de então, segundo (MARCÍLIO 2006) instalou­se na Itália no século XIII um sistema inspirado nas rodas existentes nos mosteiros medievais, que recebiam crianças para serem criadas servindo a Deus. Segundo Weber (2000, p. 35) “este sistema chamado de Roda dos Expostos ou dos Enjeitados se difundiu amplamente a partir dos séculos XIV e XV e generalizou­se na Europa após o século XVII”. De acordo com (DANNEMANN 2006) no Brasil colonial, também havia a necessidade de abrigos para as crianças que eram deixadas pelas mães dentro de cestinhas na porta das casas de famílias e também para aquelas que perambulavam pelas ruas do país. Essa situação provocou a reação do vice­rei Vasco Fernandes César de Meneses que entregou a Santa Casa de Salvador a tarefa de instalar a Roda dos Expostos para receber os bebês rejeitados pela família. No século XIX, sob a influência do iluminismo, tendo como referência uma Europa liberal, inicia­se uma robusta campanha para a abolição deste sistema no Brasil. No entanto, somente com o início da ação normativa do Estado no século XX, em que este começou a ter um papel mais ativo relativamente à ajuda atribuída a crianças e adolescentes que eram abandonados, que o atendimento a estas passou a sofrer mudanças significativas. De acordo com (RIZZINI, 2004) ao ser inaugurado o Regime Republicano, o Brasil já possuía grande experiência na assistência a infância desvalida. Neste período, o Estado visava o melhor aparelhamento institucional capaz de “salvar” a infância brasileira no século XX. É a partir da consolidação do Código de Menores de 1927 e do primeiro Juízo de menores que a criança passa a ser vista como futuro cidadão, como futuro produto e produtor para o país, então surgem as primeiras leis voltadas para a infância e os estabelecimentos escolares (BERGER 2005). Inicia­se uma fase filantrópica assistencialista que pensa a educação "moralizante" das crianças como meio fundamental de torná­las úteis e de resguardar a própria sociedade. Na verdade, filantropia e caridade se permeiam, adquirindo características mútuas: de um lado as estratégias filantrópicas de prevenção da desordem e de outro, os preceitos religiosos da caridade. Conforme (RIZZINI, 2004), com a instauração do Estado Novo em 1937, percebe­se uma crescente ideologização dos discursos dos representantes do Estado no atendimento a infância e a juventude. Já na ditadura implantada por Getúlio Vargas, intervir junto a essa população tornou­se uma questão de defesa nacional. Assim, a almejada assistência centralizada é implantada pelo governo Vargas em 1941 com a criação do Serviço de Assistência a Menores – SAM. Este órgão do Ministério da Justiça funcionava como um equivalente do sistema Penitenciário para a população menor de idade. Sua orientação era correcional­
repressiva. No ano de 1964 estabeleceu­se pela Lei 4.513 a Política Nacional de Bem Estar do Menor ­ PNBEM ­ com proposta claramente assistencialista, a ser executada pela Fundação Nacional de Bem Estar do Menor – FUNABEM. Com a Constituição Federal de 1988 a Proteção Integral a crianças e adolescentes é contemplada em seus artigos 227 e 228, mas o marco jurídico para 67
consolidação desses direitos somente foi possível com os princípios constitucionais que provocaram a edição do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA criado pela Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Segundo Câmara (2000, p.5):
O mérito do ECA foi criar um sistema de justiça para a infância e a juventude, tendo por suporte a "absoluta prioridade" das ações, mediante a criação dos Conselhos Municipal e Tutelar, das Curadorias da Infância e da Juventude, da redefinição da atuação dos Juízes de Direito, Juízes da Infância e da Juventude, cabendo, ao Conselho Municipal, definir as políticas de atendimentos, ao Conselho Tutelar, a sua execução. Mediante a esse olhar diferenciado sobre as crianças e adolescentes inaugurado pelo ECA, que são criados Os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes. Estes Serviços configuram­se como integrantes da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e medidas excepcionais e provisórias de afastamento do convívio familiar. São medidas de proteção que visam à defesa do direito à convivência familiar e comunitária, permitindo às crianças e adolescentes, a vivência em um ambiente estável, enquanto a família de origem é continuamente trabalhada até que seja possível a reintegração familiar (BRASIL, 2009). Eles podem ser ofertados em diferentes modalidades tais como: Abrigo Institucional, Casas Lares, Repúblicas e Famílias Acolhedoras.
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As famílias brasileiras têm acumulado ao longo dos anos uma série de dificuldades no que diz respeito ao acesso aos diversos recursos, impossibilitando assim, a satisfação de suas necessidades. Isto se torna um fator agravante para o abandono de crianças e adolescentes, haja vista que as principais causas do abandono são: pobreza, desemprego, gravidez na adolescência, falta de planejamento familiar, negligência e maus­tratos. Com o advento das políticas públicas destinadas a proteção à infância desvalida no início do século XX, mudanças significativas começaram ocorrer, em que a criança fora da família, abandonada ou na rua, ganhou destaque no cenário político se tornando preocupação nacional. Essa preocupação do Poder Público e da sociedade com as crianças e adolescentes em situação de abandono foi fundamental para construção de um sistema de justiça para a infância e juventude, que tem atualmente por suporte a "absoluta prioridade" das ações governamentais. Dessa forma, é notória e significativa a evolução ocorrida no Sistema de Proteção à Infância e Juventude, assim como a grande potencialidade das Políticas Públicas a elas destinadas, já que as crianças e adolescentes são pessoas em condições peculiares de desenvolvimento e por isso foram contemplados com a Doutrina da Prioridade Absoluta, o que ampliou a possibilidade de atingirem a plenitude de seus direitos.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Não restam dúvidas de que a população infanto­juvenil somente passou a ser reconhecida com particularidades próprias e como sujeito de direitos muito recentemente. Com um cenário de perversidade e repressão contra as crianças e adolescentes, a virada para década de 1980 foi marcada pelo início da abertura política e democrática do país, e muitos direitos foram conquistados por meio das lutas sociais. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) representa um marco no que concerne à proteção dos direitos da população infanto­juvenil e com todo o olhar diferenciado que o mesmo propõe, o atendimento às crianças e adolescentes abandonados sofreu significativas mudanças. No entanto, é interessante salientar que apesar das inovações introduzidas pelo ECA, na prática ainda persistem muitas contradições.
Em todo o país atualmente, é crescente o número de crianças adolescentes que são privados do cuidado familiar e estão vivendo em instituições de abrigo por longos períodos de tempo. Os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes apresentam uma série de avanços no que diz respeito aos antigos orfanatos e internatos por se tratar de Serviços que visam a garantia e promoção do convívio social, mas mesmo com estes avanços, estudos mostram que crianças e adolescentes que foram retiradas ou abandonas por suas famílias e estão sendo acolhidas por famílias acolhedoras ou estão institucionalizadas podem estar sujeitas a inúmeras privações incluindo a privacidade, os vínculos afetivos e a convivência familiar e comunitária.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes. Brasília, DF, junho de 2009.
BERGER, Maria Virgínia Bernardi. Aspectos Históricos e Educacionais dos Abrigos de Crianças e Adolescentes: A Formação do educador e o acompanhamento os abrigados. Revista HISTEDBR On­line, Campinas, n.18, p. 170 ­ 185, jun. 2005. Disponível em:<http://www.histedbr.fae.unicamp.br/art17_18.pdf> Acesso em: 14 de ago. de 2011.
CÂMARA, Leôncio Teixeira. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 10 ANOS – Avanços e Dificuldades. Revista do TRT da 13ª Região, 2000. Disponível em:<http://bdjur.stj.gov.br/xmlui/bitstream/handle/2011/19222/Estatuto_da_Crian
%C3%A7a_e_do_Adolescente.pdf?sequence=4>. Acesso em: 14 de ago. de 2011. DANNEMANN, Fernando. K. 1734 Primeira Roda dos Expostos. Recanto das Letras. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/resenhas/326112. Acesso em: 14 de ago. 2011.
MARCÍLIO, Maria Luiza. O abandono de bebês na antiguidade. In: História Social da Criança Abandonada. 2ª Ed. São Paulo: Hucitec, 2006. p. 22­54.
RIZZINI, Irene. RIZZINI, Irma. A institucionalização de crianças no Brasil: percurso histórico e desafios do presente. Rio de Janeiro: Ed. PUC­Rio; São Paulo: Loyola, 2004.
69
WEBER, Lídia Natália Dobrianskyj. Os filhos de ninguém: abandono e institucionalização de crianças no Brasil. Conjuntura Social. Rio de Janeiro: n. 4, p. 30­36, julho, 2000.
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GRAVIDEZ PRECOCE, QUALIDADE DE VIDA E REDES SOCIAIS
SCHMIDT, A; LORETO, M.D.S Universidade Federal de Viçosa
[email protected]
1. INTRODUÇÃO
A gravidez na adolescência é um fenômeno social crescente, cujas implicações dependem do processo de socialização e da construção social da realidade vivenciada. Dados do Censo Demográfico mostram que, entre os anos de 2004 e 2005, houve um aumento de 16,39% na taxa de fecundidade de adolescentes (IBGE, 2005). Assim, vê­se o exercício da sexualidade começando cada vez mais cedo, impulsionado pela imposição social que leva os adolescentes a ingressarem rapidamente na vida adulta, mesmo não estando preparados psicologicamente (MOREIRA et al, 2011). Diante da gravidez precoce, a vida da adolescente se altera nos processos de desenvolvimento físico, emocional, familiar e social, associados ao papel da mãe (LUZ, 1999). Além das mudanças no subsistema pessoal das adolescentes, a gestação precoce gera alterações no cotidiano da família, que tende a mudar sua dinâmica e alterar papéis pré­estabelecidos, para dar suporte emocional, econômico e social à adolescente (MOTTA et al., 2004).
Diante desta série de mudanças, pressupõe­se que seja maior a probabilidade de que a adolescente e sua família busquem por ajuda, tanto formais quanto informais, por meio da ativação de redes sociais, que pode ser conceituada como um conjunto de pessoas em uma população e suas conexões. Nesse sentido, as funções das redes sociais são: companhia social e apoio emocional, direcionamento cognitivo e conselho, regulação social, ajuda material e de serviços, além de acesso a novos contatos e informações (CASTRO et al., 2003).
Pressupõe­se que a ativação das redes sociais tenha um reflexo na qualidade de vida da adolescente, definida como: as condições necessárias para satisfação das necessidades de “formação humana” e de subsistência, que fazem parte do meio ambiente humano, podendo este ser analisado do ponto de vista tanto subjetivo quanto objetivo, considerando o grau de satisfação dos indivíduos com diversos componentes da vida, com base nas experiências vivenciadas e dos valores culturais (CEBOTAREV, 1994).
Conforme Allardt (1995) apud Herculano (1998), o significado da qualidade de vida pode ser retratado em três verbos considerados básicos à vida humana – ter, amar e ser: Ter, se refere às condições materiais necessárias ao atendimento das necessidades básicas; Ser está associado à necessidade de se relacionar com outras pessoas e formar identidades sociais Amar diz respeito à necessidade de integração com a sociedade e com a natureza, por meio da ativação das redes sociais.
Loreto et al (2009) afirmam que a ativação de redes sociais mobiliza recursos, cria oportunidades e promove solidariedade, contribuindo para melhoria da qualidade de vida das unidades familiares. Dessa forma, a gravidez precoce ao 71
trazer novas demandas para a adolescente e sua família, faz com que a família modifique seus hábitos e sua estrutura, para atender às novas necessidades da casa e, para alcançá­las, recursos humanos, financeiros e informações devem ser compartilhados, o que gera relações que se interligam, por meio das redes sociais. Nesse contexto, objetivou­se analisar as implicações da gravidez precoce sobre a qualidade de vida das adolescentes e de suas famílias. Especificamente, procurou­se examinar, na visão das adolescentes, o nível de importância e de satisfação com diferentes componentes da vida, além de identificar as principais redes de apoio ativadas, visando uma melhor qualidade de vida
2. METODOLOGIA
A presente pesquisa foi desenvolvida no município de Rosário da Limeira, pertencente a Zona da Mata Mineira, que contava, em 2005, com uma população de 3896 habitantes, sendo esta predominantemente rural.
A amostra foi composta por oito adolescentes solteiras, com idade até 19 anos, que tiveram filhos entre os anos de 2007 e 2009. Foi feito uso de questionário com questões subjetivas e objetivas sobre o significado de qualidade de vida, avaliação do nível de satisfação e da importância quanto a diversos componentes ou domínios da vida, conforme exposto por Metzen et al. (1980), sendo eles: alimentação, educação, saúde, família, amizade, serviços comunitários, segurança financeira e pessoal, habitação, transporte, emprego, renda, lazer e estar bem consigo mesma. Após a coleta dos dados, as entrevistas foram transcritas na íntegra e os dados foram analisados por meio de uso de métodos estatísticos descritivos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados referentes à percepção das adolescentes sobre o significado de qualidade de vida mostraram que apenas duas das participantes (25%) tinham conhecimento e definiram a qualidade de vida como:
“Olha, pra mim no caso seria, um bom emprego, dá uma educação pros meus filhos boa, pra eis viver melhor no futuro, por enquanto é só, e a casa né, ter a sua casa, seu cantinho, só.”
“Pra mim qualidade de vida é o que você tem assim. Se você tem muita coisa ou se você não tem”. As definições apresentadas mostram a visão de cada uma das duas adolescentes, uma mais focada para os recursos financeiros e outra mais ampliada. As demais adolescentes (75%) disseram que não sabiam e que não haviam pensado ainda sobre tal termo e seu respectivo significado.
Após tal pergunta, para as que não tinham tal conhecimento, foi feito um breve esclarecimento para ser possível a obtenção das respostas posteriores. Em seguida questionou­se sobre alguma possível alteração na qualidade de vida das adolescentes após a gravidez. Perante tal indagação, 62,5% responderam que, apesar de algumas despesas terem aumentado, a qualidade de vida melhorou por questão de satisfação humana com sua vida. As demais (37,5%) afirmaram não ter ocorrido nenhuma alteração neste quesito.
Para análise da satisfação com a qualidade de vida foi feito uso de uma 72
escala, que variou de 1 a 4. em termos do nível de satisfação (1­ insatisfeito, 2­ pouco satisfeito, 3­ satisfeito e 4­ muito satisfeito), considerando as percepções e avaliações que as adolescentes tinham sobre suas próprias condições de vida. Além disso, foi solicitados às adolescentes que estabelecessem o nível de importância de cada domínio para sua qualidade de vida. Observou­se que os domínios que apresentam maior nível de importância para as adolescentes foram saúde e família, seguidos de alimentação e educação. Nesse sentido, dois destes domínios estão relacionados às necessidades básicas de subsistência (saúde e alimentação), mas focam também as necessidades de relacionamento, citando a família como de fundamental importância, por ter com esta maior interação no dia­
a­dia. E, por fim, as adolescentes apontaram como sendo o domínio de menor importância o transporte, talvez por este não ser utilizado frequentemente, uma vez que ambas residem na cidade e fazem a maior parte dos trajetos a pé e também por haver disponibilidade de coletivos por preços relativamente acessíveis caso necessário.
Quanto ao nível de satisfação das adolescentes com os mesmos domínios da vida, apresentados anteriormente, constatou­se que o índice médio de satisfação (satisfeito e muito satisfeito) das adolescentes com os domínios foi de 67,2 %; e, em termos individuais, os componentes com os quais as adolescentes se sentiam mais satisfeitas foram: família (75,0%) e segurança pessoal (62,5%). Por outro lado, o maior nível de insatisfação foi com o componente emprego (50,0%), o que pode ser resultado da impossibilidade das mesmas saírem para trabalhar pela necessidade de cuidar da criança, ou por não conseguir nenhum emprego melhor, devido sua escolaridade que foi interrompida.
Visando contribuir para melhoria da qualidade de vida das adolescentes, é comum que sejam ativadas redes sociais em busca de apoio e ajuda. Para tanto, foram feitas algumas perguntas, como: se e como os amigos ajudaram, como a família contribuiu, se foram atendidas no PSF, dentre outras. Os resultados mostraram que as principais redes ativadas pelas adolescentes foram as familiares, seguidas das comunitárias (principalmente por meio de amigos e vizinhos), bem como institucionais (PSF, pastoral da criança e igrejas).
As contribuições da família foram: apoio (18,8%), cuidado (18,8%) e acompanhamento, com 18, 8%, seguidos de ajuda financeira, enxoval e outros gastos básicos para manter a adolescente em casa (com 12,5% cada item); e por fim, oferecimento de conselhos (6,3%) para a adolescente; sendo a maioria das ajudas provenientes da mãe da adolescente (45,5%), seguido de contribuições do pai da criança (18,2%), além de irmãos, tios, avó e da família do pai da criança, sendo apontados por 9,1% dos participantes, para cada item mencionado.
Sabendo que o posto de saúde é uma das redes sociais mais ativadas para o cuidado com a saúde, buscou­se saber qual foi o tipo de atendimento recebido e a respectiva avaliação para tal. Todas foram atendidas por tal instituição e os principais serviços oferecidos foram: acompanhamento através do pré­natal, consultas, informações sobre a gravidez e sobre os cuidados com as crianças recém­nascidas (principalmente através de palestras), distribuição de medicamentos, incluindo vitaminas necessárias de serem ingeridas no período da gravidez. As avaliações para o atendimento foram positivas, uma vez que todas mencionaram que o atendimento recebido foi “bom”; embora tenham sido feitas 73
algumas observações negativas sobre tal atendimento. Algumas sugestões apresentadas pelas adolescentes para outras gestantes precoces foram: assistir todas as palestras para gestantes oferecidas nos PSF’s (33,3%), por considerar que o conteúdo é muito importante, e o restante das sugestões constituiu de: buscar pelos serviços do posto pois o atendimento não difere de instituições particulares; optar pelo parto normal; fazer o pré­natal no posto e também buscar por consultas fora da rotina e uma das participantes diz que quanto mais puder utilizar melhor.
4. CONCLUSÃO
A qualidade de vida é um aspecto importante de análise também para a gravidez precoce, pois esta gera uma série de modificações tanto na vida da adolescente quanto das famílias. Nesse sentido, observou­se que a maior parte das adolescentes considera que esta melhorou com a gravidez, apesar de algumas despesas terem aumentado. Ressaltaram como sendo mais importante para sua qualidade de vida os domínios família e saúde, e os maiores níveis de satisfação estavam associados com os domínios famílias e segurança pessoal, sentindo­se mais insatisfeitas com o acesso ao emprego.
As redes sociais também foram ativadas para melhoria da qualidade de vida, sendo as principais as familiares, que contribuíram principalmente com acompanhamento e cuidado para com a adolescente e a criança; além das redes comunitárias, por parte dos amigos e vizinhos e; institucionais, sendo a mais recorrente o posto de saúde do município.
Portanto, pode­se concluir que a situação de gravidez precoce interfere tanto na qualidade de vida das adolescentes quanto de suas famílias, considerando que o “Ter”, “Ser” e “Estar” são influenciados pelas mudanças que a gravidez precoce gera na vida cotidiana. .
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO,H.; GIANNASI,F.; NOVELLO, C. The struggle to ban aspects in the Americas: on issue of public health. Ciência Saúde Pública, v. 8, n.4, p. 903­911, 2003.
CEBOTAREV, E. La Organización del tiempo de mujeres campesinas en Latino America. In: Mujer, familia y desarrolo. Manizales, U. de Caldas, 1994. p.35­82. HERCULANO, S.C. A qualidade de vida e seus indicadores. Ambiente & Sociedade. Ano I, n. 2, p.77­99, 1998. IBGE.
Perfil das Mães. 2005. Disponível <http://www.ibge.com.br/home/presidencia/noticias>. Acesso em: 06/02/2011.
em: LORETO, M. D. S.; RUELA, D.; GOMES, A. L.; VILLELA, J.; BERGER, J. A.; 74
LOPES, I. P. E. ; LOPES, C. I. O papel das redes sociais na provisão das necessidades das famílias em situação de vulnerabilidade social. In: XX Congresso Brasileiro de Economia Doméstica. ABED/UFC, Fortaleza, 2009.
LUZ, A. M. H. Mulher adolescente­ sexualidade, gravidez e maternidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. METZEM, E.; WILLIAMS, F.L.;SHULL, J.; KEEFE, D. R. Quality of life as affected by area of residence. Columbia, University Missouri, Agricultural Experiment Station, 1980. 112p. (Research Bulletin, 1036). MOREIRA, T. M. M.; VIANA, D. S. V.; QUEIROZ, M. V. O.; BESSA JORGE, M. S. Conflitos vivenciados pelas adolescentes na descoberta da gravidez. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php>. Acesso em: 06/02/2011.
MOTTA,M. da G. C.; RIBEIRO,N. R. Ritter; RUBIM PEDRO, E. N.; COELHO, D. F. Vivências da mãe adolescente e sua família. 2004. Disponível em: http://www.periodicos.uem.br. Acesso em: 06/02/2011.
75
HUMANIZAÇÃO HOSPITALAR: UMA ESTRATÉGIA DE APOIO ÀS FAMÍLIAS DE CRIANÇAS INTERNADAS
LUCAS, C. T. J.3; BARRETO, M. L.4; NEVES, V. G.5
Universidade Federal de Viçosa
[email protected]
1. INTRODUÇÃO
Diante do fato da hospitalização ser uma experiência estressante e que envolve uma adaptação da criança e da família às várias mudanças que acontecem no seu dia­a­dia, essa pode ser amenizada pelo fornecimento de certas condições como: a presença de familiares, disponibilidade afetiva dos trabalhadores da saúde, informação, atividades recreacionais, entre outras (LIMA, ROCHA, SCOCHI, 1999).
No intuito de oferecer a possibilidade de ter uma recuperação de melhor qualidade, minimizando os traumas que podem ser provenientes de uma situação de internação às crianças e famílias, o projeto: A FAMÍLIA INSERIDA NO CONTEXTO HOSPITALAR ENQUANTO ACOMPANHANTE DE CRIANÇAS INTERNADAS NA PEDIATRIA DO HOSPITAL SÃO SEBASTIÃO EM VIÇOSA­MG, se faz pertinente para prestar um apoio às famílias das crianças internadas esclarecendo dúvidas, fortalecendo atenção à saúde das mesmas e beneficiando o processo de recuperação.
O objetivo deste trabalho de extensão é propor ações visando contribuir para o aprimoramento da Humanização Hospitalar, fortalecendo a atenção à saúde das crianças por meio do desenvolvimento de um programa de apoio à família das crianças internadas na pediatria do HSS6, realizando ações de intervenção junto às famílias durante e após o período de internação da criança. Especificadamente pretende,
promover oficinas junto às famílias/acompanhantes das crianças internadas na pediatria do HSS a fim de minimizar o estresse e o sofrimento destas durante a internação da criança; delinear o perfil sócio­econômico das famílias das crianças atendidas pelo SUS 7 no hospital e investigarmos sobre os impactos do projeto na recuperação destas em regime de internação; desenvolver as ações do projeto em parceria com o projeto de extensão ­ Brinquedoteca Hospitalar; organizar círculos de discussões com os acompanhantes das crianças internadas no setor da pediatria sobre aspectos de interesse do grupo atendido. 2. METODOLOGIA
3
Graduanda do curso de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa – UFV/MG. Bolsista PIBEX 2011. E­mail: [email protected]
4
Profª Associada do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa – UFV/DED/MG. E­mail: [email protected]
5
Profª Assistente III do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa – UFV/DED/MG. E­mail: [email protected]
6
Hospital São Sebastião
7
Sistema Único de Saúde
76
O presente trabalho está sendo desenvolvido no Hospital São Sebastião em Viçosa­MG, com as famílias das crianças internadas no setor da pediatria atendida pelo SUS. Conta com estagiárias do curso de Economia Doméstica e Educação Infantil, sendo estas voluntárias do projeto da Brinquedoteca, que atuam em parceria com o projeto da família no espaço da Brinquedoteca Hospitalar: Doce Brincar. Para a coleta de dados das famílias e crianças, utilizamos de um questionário ­ ficha de identificação ­ que tem por objetivo a obtenção de dados da criança para se chegar aos da família. Os mesmos possibilitam elaborarmos ações junto às famílias tais como oficinas recreativas, realizarmos discussões referentes à saúde física e mental, à higiene pessoal e dos alimentos, entre outros assuntos que sejam de interesse das famílias, além daqueles que vão surgindo no decorrer do projeto. Caso não sejam possíveis os círculos de discussões o recurso utilizado serão folders, cartilhas, cartazes, etc.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Até o momento os resultados alcançados foram a realização das oficinas com as famílias/acompanhantes através de atividades com jogos, contação de história, oficinas de artes como desenho e pintura, entre outras atividades, já que o espaço possui um acervo variado o qual permite aos adultos também estarem desenvolvendo alguma atividade no período de internação da criança. No período compreendido de fevereiro a agosto de 2011, foram cadastradas 178 famílias, já que cada criança está acompanhada de um membro familiar, através de um questionário que compreende os seguintes dados: nome da criança e do acompanhante, idade dos mesmos, enfermidade da criança, endereço, escolaridade dos pais, renda familiar, se o acompanhante gostaria de realizar alguma atividade no período de internação do seu filho(a), e outras. Deste total 19% das crianças são reincidentes e 70% é a primeira vez que são internadas no HSS e ficaram por um período de 2 a 4 dias e com as seguintes causas de internação: pneumonia (17,4%), bronquite (11%), vômito e diarréia (7%), demais enfermidades (64,6%). Estes dados subsidiam as ações para melhor atender as famílias no caso de reincidência da criança, como tratar aquela doença, cuidados que deve tomar, etc., possibilitando assim um atendimento mais adequado às especificidades de cada criança e família.
Em parceria como o projeto ­ Brinquedoteca Hospitalar foi feito um planejamento onde todos os membros têm a mesma rotina de visitar a pediatria e quartos particulares para obter informações sobre as crianças internadas e a família, para posteriormente estarem indo à brinquedoteca para realização das ações propostas nos objetivos que aqui se apresentam. Com a presença das crianças e famílias na brinquedoteca, vários relatos estão sendo notificados pelas mesmas reconhecendo a importância deste espaço nos hospitais e que estes projetos são de suma importância para diminuir as tensões vivenciadas no ambiente hospitalar. Os círculos de discussões realizados ainda se restringem a conversas informais a respeito da saúde, alimentação, higiene, entre outros temas que são de interesse das famílias, nesse quesito ainda está esperando melhorias, já que precisamos de recursos financeiros para disponibilizar os folders, cartilhas, cartazes, etc.
77
4. CONCLUSÃO
Diante dos resultados pontuados até o momento acreditamos que esse projeto está conseguindo dar um apoio e melhorando as condições de humanização do atendimento hospitalar às famílias que têm suas crianças internadas no SUS da pediatria do HSS em Viçosa­MG.
O contato da equipe dos projetos tanto com a criança quanto com a família faz se necessária para se descobrir quais pontos devem ser trabalhados, quais as necessidades desse público que vive um momento difícil, já que as mesmas deixam de lado toda uma rotina e passam a vivenciar novas experiências causadas pela enfermidade de seu filho (a). É importante lembrar que estudos desta natureza, nos quais notificam um diagnóstico de uma dada realidade assistencial, têm seus benefícios à própria equipe de saúde e a instituição investigada, na medida em que fornece condições para melhor compreender as expectativas e necessidades das famílias, estabelecendo assim ações e metas para a qualificação do atendimento hospitalar e a conseqüente melhoria na qualidade de vida e saúde envolvidas nesse processo. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRETO, Maria de Lourdes Mattos; NEVES, Naíse Valéria Guimarães; LUCAS, Cristiana Terezinha de Jesus; NICOMEDES, Gizele Cristina; SILVA, Érica da Costa; CARDOSO, Camila Maffia. A FAMÍLA INSERIDA NO CONTEXTO HOSPITALAR ENQUANTO ACOMPANHATE DE CRIANÇAS INTERNADAS NA PEDIATRIA DO HOSPITAL SÃO SEBASTIÃO EM VIÇOSA­MG. Projeto de extensão, UFV, Viçosa, 2011.
FAQUIENELLO, Paula; HIGARASSHI, Ieda Harumi; MARCON, Sonia Silva. O atendimento humanizado em uma unidade pediátrica: percepção do acompanhante da criança hospitalizada. Texto contexto ­ enferm. vol.16 no.4 Florianópolis Oct./Dec. 2007.
Disponível
em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104­07072007000400004&script=sci_arttext. Acesso em: 11/08/2011.
LIMA, Regina Aparecida Garcia de; ROCHA, Semiramis Melani Melo; SCOCHI, Carmen Gracindha Silvan. Assistência à criança hospitalizada: reflexões acerca da participação dos pais. Rev. Latino­Am. Enfermagem v.7 n.2 Ribeirão Preto abr. 1999. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0104­11691999000200005&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 11/08/2011.
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INFÂNCIA COMO OBJETO DE ESTUDO: O LUGAR DA CRIANÇA NA PESQUISA
ALMEIDA, Izabela Amaral; BARRETO, Maria de Lourdes Mattos; CRUZ, Elenciria Oliveira;
Universidade Federal de Viçosa
[email protected]; [email protected]
; [email protected]
1. INTRODUÇÃO
A criança já vem fazendo parte de pesquisas científicas a muito tempo, mas o que nos chama a atenção agora são as mudanças que tem ocorrido acerca das concepções de infância e do debate da condição em que ela tem tomado parte da investigação científica.
A visão sobre a infância como um período específico de uma fase de pouca idade pelo qual todos nós passamos, é uma construção recente. Esse conceito ou concepção que se tem da infância foi sendo construído historicamente e a criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, mas sim, como um adulto em miniatura.
Por meio do resgate histórico da infância enquanto objeto de estudo das mais distintas disciplinas, buscaremos lançar algumas reflexões concernentes ao lugar ocupado pelas crianças na pesquisa.
2. OBJETIVOS
Este trabalho teve como objetivo levantar reflexões acerca da evolução histórica dos métodos utilizados para se estudar a criança, bem como da importância de se ouvir a criança enquanto sujeitos e participantes ativos da pesquisa científica.
3. METODOLOGIA
Para atingir os resultados dessa proposta foi realizado um levantamento bibliográfico na busca de referências que tratam do tema Infância como objeto de estudo das mais distintas áreas de conhecimento e o lugar que as crianças ocupam nas pesquisas científicas. Este levantamento foi feito por meio de periódicos especializados e livros que abordam a questão da infância enquanto objeto de estudo na busca por pesquisas que abordam o tema proposto.
4. DESENVOLVIMENTO
Do ponto de vista etimológico, segundo (KOHAN, 2008) a palavra infância é uma palavra latina que nasceu a mais de vinte séculos, e seu nascimento está ligado às normas e ao direito em que um indivíduo de pouca idade é denominado 79
infans, ou seja, está associado a uma falta, a uma ausência, que é inscrita no marco de uma incapacidade. Percebemos então que “a etimologia latina da palavra infância reúne as crenças aos não habilitados, aos incapazes, aos deficientes, ou seja, a toda uma série de categorias que encaixadas na perspectiva do que elas “não tem” são excluídos da ordem social” kohan (2008, p. 41). A partir dessa premissa, é interessante salientar que por diversos períodos históricos questionou­se qual era o tempo da infância e quem era a criança. A constituição de um novo conceito de infância com a separação da criança do mundo do adulto ocorreu devido a interferência dos poderes públicos e com a preocupação da Igreja através do movimento de moralização dos homens, em que a criança começa a ser considerada como um ser puro e inocente e a infância um período de debilidade e fragilidade do ser humano (TEDRUS, 1998).
A partir do exposto partimos para os primórdios das pesquisas realizadas com as crianças, onde segundo (DELVAL 2002) para se estudar a criança e em particular seu pensamento, vários métodos ou procedimentos foram utilizados. Para Delval (2002, p. 34):
O estudo da criança nos permite conhecer não apenas as características dos seres humanos de uma determinada idade, como também todo o processo pelo qual se chega a ser adulto. Por isso, não se ocupa apenas de um conteúdo ou de um tipo de sujeito, mas também procura descobrir como se constitui a mente humana. De acordo com (DELVAL 2002), o estudo da criança começou relativamente tarde, e deveríamos supor que sendo as crianças algo tão importante na vida dos adultos por serem responsáveis pela garantia e sobrevivência do grupo, presume­se que o conhecimento das crianças fosse uma parte importante das práticas de criação, mas esses conhecimentos tinham um caráter muito geral e vinculado às práticas tradicionais.
Os primeiros estudos sobre o desenvolvimento das crianças foram realizados por meio de biografias ou estudos monográficos, feitos de um único sujeito, tomando a observação sistemática ao longo do seu desenvolvimento. Pesquisadores como Dietrich Tiedmann (1748­1803), William Preyer (1841­1897), Ovide Decroly (1871­1932), dentre outros, marcaram os primeiros estudos realizados nessa área. É interessante ressaltar a influência da teoria da evolução das espécies formulada por Darwin em 1859, que contribuiu para dar impulso aos estudos sobre o desenvolvimento das crianças. Iniciou­se assim, uma etapa evolucionista, na qual se tentava estudar a evolução das espécies ao longo da história, bem como do indivíduo durante sua infância (DELVAL 2002). No entanto, para (DELVAL, 2002) esses primeiros trabalhos permitiram recolher uma grande quantidade de materiais úteis, mas que tinham sérias limitações e não penetravam em muitos aspectos do comportamento infantil. Outro pesquisador que deve ser destacado é Jean Piaget (1896­1980) que através da minuciosa observação de seus filhos e de outras crianças, buscava compreender as características dos estágios de desenvolvimento, se tornando importante referência para o entendimento do desenvolvimento e a aprendizagem humana. Desse modo, percebe­se que a partir do fim século XIX a criança começa a 80
firmar­se como objeto de estudo, onde foram construídos um variado arsenal de estratégias para investigar seu mundo subjetivo, avaliar suas habilidades específicas e medir seu desempenho em diversas tarefas. Mas os julgamentos, desejos, receios, preferências etc. dessas crianças tem sido poucas vezes alvo de interesse de estudo e geralmente quando são, a prática mais comum é recorrer a algum adulto para obter essas informações, revelando a desconfiança em relação à competência das crianças para se comunicarem, onde elas não são tomadas como sujeitos (CRUZ, 2008).
Assim, conhecer a apropriações dos saberes pela criança é fundamental, já que para (QUINTEIRO 2002) os saberes constituídos sobre a infância até o momento nos permitem conhecer mais sobre as condições sociais das crianças, sua história e sua condição de criança sem infância e pouco sobre a infância enquanto construção cultural, seus próprios saberes, suas possibilidades de criar e recriar a realidade social na qual se encontram inseridas. De acordo com Cruz (2008, p. 13) “buscar formas de ouvir as crianças, explorando as suas múltiplas linguagens, tem como pressuposto a crença de que elas têm o que dizer e o desejo de conhecer o ponto de vista delas”. Neste caso, é necessário entender que estudos comprovam que mesmo as crianças bem pequenas têm o que dizer.
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Atualmente, diversas disciplinas como sociologia, história, psicologia, antropologia, educação infantil, economia doméstica, dentre outras, tem desenvolvido trabalhos de pesquisas que procuram resgatar a infância, tomando­a como objeto de conhecimento nas suas múltiplas dimensões. Para (SARNENTO 2008), estes estudos tem alargado as fronteiras do campo disciplinar, configurando uma abordagem renovada (nos planos teóricos, epistemológico e metodológico) da infância como categoria social das crianças como membros ativos da sociedade e como sujeitos das instituições modernas em que participam a escola, a família, espaços de lazer, dentre outros.
É cada vez mais evidente a emergência de diferentes espaços de produção do conhecimento da infância, entretanto, a atitude de ouvir a criança nas pesquisas e levar em consideração o seu ponto de vista, somente será possível se for superada por todas as áreas de conhecimento a idéia de criança enquanto ser incapaz de aprender e ensinar até atingir certo nível de desenvolvimento, que desde muito tempo orienta nosso pensar e agir principalmente com relação às crianças bem pequenas.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo dos séculos, a sociedade constituiu vários modos de enxergar a infância e suas especificidades, ou seja, em cada um desses períodos houve a produção de uma maneira peculiar de ver e intervir nesse campo. Não restam dúvidas de que a infância somente passou a ser reconhecida como um período da 81
vida do ser humano com particularidades próprias muito recentemente. Mesmo assim, ainda hoje pouco se sabe sobre as culturas infantis, pois poucas são as vezes que a criança é ouvida, e na maioria das vezes quando isso acontece, sua fala apresenta­se a margem das interpretações e análise dos pesquisadores que ficam presos aos seus próprios referenciais de análise.
Nessa perspectiva, é preciso que o pesquisador encontre um sentido próprio para o que dizem e o que fazem as crianças, sem partir da idéia de que elas pensam como os adultos. Desse modo, fica evidente que investigar a infância requer do pesquisador grande conhecimento da história e da condição social da criança. Fica evidente também a importância de se conhecer qual espaço que a ciência reserva hoje para as crianças e de que maneira essas crianças participam das pesquisas, haja vista que a criança tem o que dizer e tem também o desejo de que se conheça o ponto de vista delas.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CRUZ, S. H. V. (orgs). A Criança Fala: A escuta de crianças em pesquisas. São Paulo, Cortez, 2008. DELVAL, J. Os Primeiros Métodos para os Estudo da Criança. IN: Introdução à Prática do Método Clínico. Descobrindo o pensamento das crianças. Porto Alegre, ArtMed, 2002. p. 33­51.
KOHAN, W. O. Infância e Filosofia. In: Estudos da Infância. Educação e Práticas Sociais. Petrópolis, Vozes, 2008. QUINTEIRO, J. Infância e educação no Brasil: um campo de estudos em construção. IN: FARIA, A. L. G. de; DEMARTINI, Z. de B. F; PRADO, P. D. (orgs); Por uma Cultura da Infância. Metodologias de pesquisa com crianças. Capinas, Autores associados, 2002. p. 19­47.
SARNENTO, M; GOUVEA, M. C. S. (orgs). Estudos da Infância. Educação e Práticas Sociais. Petrópolis, Vozes, 2008. TEDRUS, D. M. DE A. S. O que é ser criança: a Categoria. IN: A relação adulto criança. Campinas, CMU/UNICAMP. 1998. p. 27­54.
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SEGURANÇA ALIMENTAR: REFLETINDO SOBRE AS DEMANDAS DE AÇÕES DE EXTENSÃO JUNTO A FAMÍLIAS CARENTES
SILVA, V; SOUZA, M. M.B; SOUSA, J. M. M.
Universidade Federal de Viçosa
[email protected] 1. INTRODUÇÃO
Segundo Hoffmann (1995), a insegurança alimentar no Brasil, não é evidenciado pelo baixo nível de produção de alimentos, mas sim pela pobreza que atinge grande parte da população. A fome no Brasil permanece não por questão de pouca oferta, mas sim pela desigualdade social que aflige o país.
A alimentação e a nutrição constituem requisitos básicos para a promoção e a proteção da saúde, possibilitando a afirmação plena do potencial de crescimento e desenvolvimento humano, com qualidade de vida e cidadania (BRASIL, 1999).
Segundo Valente apud Maluf (2007), uma alimentação é adequada quando, para além de uma “ração nutricionalmente balanceada”, colabora para construção e deveres e de sua responsabilidade para com o meio ambiente e com a qualidade de vida de seus descendentes.
2. OBJETIVOS
Este artigo que teve por objetivo refletir sobre a realidade das famílias carentes do Bairro Carlos Dias, Viçosa/MG, com relação à segurança alimentar, de modo verificar a viabilidade de ações a serem desenvolvidas em projeto de extensão nesta área. Para tanto, buscou­se identificar o perfil socioeconômico destas famílias, bem como a realidade da segurança alimentar a partir do consumo e hábitos da família no que diz respeito ao preparo de alimentos. Verificou­se ainda a percepção das mulheres quanto ao interesse e predisposição para a participação em projeto de extensão na área de segurança alimentar.
3. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
Para a coleta dos dados, optou­se por uma amostra não probabilística, por acessibilidade, sendo entrevistadas 38 famílias no período de 04 de abril até 06 de maio. O instrumento utilizado foi o questionário, que apresentou questões chave sobre o perfil social e econômico das famílias, sobre os hábitos alimentares e práticas utilizadas na preparação dos alimentos, bem como o interesse e disponibilidade em participar de projetos de extensão para discutir, na teoria e na prática, sobre a segurança alimentar.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
83
Os resultados revelam que, 100% das entrevistadas eram do sexo feminino, tinha média de idade 33,7 anos. Possuíam média de renda mensal de R$ 624,50, com uma média de membros 4,7 por família. Com relação ao número de famílias que recebiam bolsa família 50% destas a recebiam.
Portanto, verifica­se a vulnerabilidade econômica e social em que se encontram estas famílias, com impactos diretos sobre a segurança alimentar. No que se refere à segurança alimentar destas famílias, o consumo alimentar de legumes e verduras como couve, alface, batata, cenoura, almeirão tiveram uma freqüência de consumo de duas a três vezes por semana, contradito o consumo das frutas tais como banana, maçã, laranja e goiaba, foram consumidas raramente, revelando uma alimentação equilibrada nutricionalmente em relação ao consumo de legumes e verduras, já em relação ao consumo de frutas teve­se baixa ingestão na maioria das famílias. De acordo com Santos (2004), a alimentação influência a saúde do homem, por relacionar­se com nutrição, sobrevivência, desempenho, conservação da espécie e vários aspectos do desenvolvimento, além de ser distinguida como um dos fatores mais importantes ligados à longevidade e à qualidade de vida. Uma má alimentação compõe, ainda, um dos principais fatores causadores do aparecimento de doenças crônicas não transmissíveis.
Uma das metas aceitáveis para a promoção da saúde e prevenção de doenças é o aumento da ingestão de frutas e vegetais. Estes alimentos são praticamente livres de gordura, sem colesterol, de baixo valor calórico e ainda rico em antioxidantes, fibras, vitaminas e sais minerais. Foi identificada a diminuição de diversos tipos de câncer pelo consumo destes grupos de alimentos; uma alimentação rica em frutas e vegetal é também recomendada para a prevenção de doenças coronarianas e cardiopulmonares (DUARTE & OLIVEIRA, 2005).
Com relação às práticas de fabricação dos alimentos para consumo, verificou­se que 97% fazem uso das boas praticas de fabricação ao preparar as refeições.
Segundo Durek (2005), as Boas Práticas de Fabricação (BPF) compreendem procedimentos, processos, controles e precauções que garantem a segurança no processamento de alimentos, resultando em um produto garantido, sob o ponto de vista da saúde do consumidor. Boas Práticas de Fabricação também facilitam a produção de alimentos de qualidade uniforme. Além de ser uma importante consideração, a manutenção de segurança do produto permanece como objetivo principal.
5. CONCLUSÃO
A produção de alimentos com segurança exige cuidados especiais, para que se eliminem, quase na sua totalidade, os riscos de contaminação por perigos físicos, químicos e biológicos a que estes alimentos estão sujeitos (BRASIL, 2006).
A segurança e a qualidade dos alimentos são fatores essenciais para a saúde pública, devendo ser um binômio de referência para todas as indústrias alimentícias (DUREK, 2005).
84
A segurança alimentar assim pensada, não envolve apenas o acesso ao alimento, mas ao alimento adequado nos aspectos nutricionais e higiênicos, bem como o seu aproveitamento integral e evitar o desperdício. Este estudo permite concluir que as mulheres pesquisadas apresentam demanda qualificada para a realização de ações de segurança alimentar.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. SEBRAE. Boas Práticas de Fabricação Fundamentais. 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política nacional de alimentação e nutrição. Brasília, 1999.
DUARTE, Gisele Kuhlmann & OLIVEIRA, Maria do Carmo Fontes de. Identificação dos estágios de mudança e barreiras relativos ao consumo de frutas e hortaliças entre adolescentes. Nutrição Brasil, v.4, n.3, p. 151­155, maio/junho. 2005.
DUREK, Carolina Mate. Verificação das boas pratica de fabricação em indústrias de leite e derivados, registrados no serviço de Inspeção federal – SIP. Dissertação de mestrado em Ciências Veterinárias. Curitiba: 2005.
HOFFMAN, Rodolfo. Pobreza, insegurança alimentar e desnutrição no Brasil: Estudos avançados. São Paulo: 1995, v. 9, no 24.
MALUF, Renato Sérgio Jamil. Segurança Alimentar e Nutricional: Conceitos fundamentais. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2007. 20p.
SANTOS, Eni Maria Batista. O Programa de Alimentação em uma Instituição de Educação Infantil e sua integração entre o cuidar e o Educar. Viçosa­MG. 2004. 108p (Dissertação ­ Mestrado em Economia Doméstica ­ Universidade Federal de Viçosa).
DUARTE, Gisele Kuhlmann & OLIVEIRA, Maria do Carmo Fontes de. Identificação dos estágios de mudança e barreiras relativos ao consumo de frutas e hortaliças entre adolescentes. Nutrição Brasil, v.4, n.3, p. 151­155, maio/junho. 2005.
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POLÍTICAS PÚBLICAS E AGRICULTURA FAMILIAR: UMA REVISÃO DE LITERATURA DO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR (PNAE), PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR (PAE) E PROGRAMA DE AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS (PAA)
CRUZ, M.C; LOPES, E.R.S.; LIMA, A.C; GALVÃO, A.L.C.
Universidade Federal de Viçosa
[email protected]
1. INTRODUÇÃO
A política de alimentação e nutrição no Brasil tem suas origens na década de 1930. A realização do primeiro inquérito sobre alimentação, orçamento familiar e condições de vida da população data dessa época. De acordo com PEAE (Programa Estadual de Alimentação Escolar, 1997 apud Costa, 2004): “Confrontando­se as relações entre alimentação e renda foi definida em 1938 a “ração essencial mínima”. Contudo, com a institucionalização do salário mínimo, em 1940, acreditava­se que esse item estivesse coberto”.
A formalização oficial da merenda enquanto políticas sociais só ocorrem na década de 1950. No entanto, Coimbra (apud BEZERRA, 2002) afirma que “as pri­
meiras iniciativas de merenda escolar começaram a acontecer desde o início do sé­
culo XX”. Através de ações Estatais, das caixas escolares, formadas por associa­
ções de auxílio, e, de entidades filantrópicas e assistenciais, algumas atividades pontuais no sentido de distribuição da merenda foram empreendidas (COSTA, 2004).
O apoio à agricultura familiar é consequência de uma política estratégica para garantir segurança alimentar e nutricional, proporcionar a inclusão social de grupos marginalizados e permitir o desenvolvimento sustentado de toda a sociedade mineira. Para tanto, a EMATER­MG desenvolve suas ações em parceria e de forma integrada com o Sistema Operacional da Agricultura de Minas Gerais; os produtores rurais, suas formas associativas e suas entidades de classe; as diversas organizações e empresas do setor privado e público; e, especialmente, com o Poder Público Municipal (EMATER ­ MG, 2011).
Um produtor agrícola familiar é, de acordo com Lamarche (1998), aquele que exerce uma atividade produtiva numa unidade de produção agrícola familiar, isto é, numa unidade de produção na qual a propriedade e o trabalho estão estreitamente ligados à família. Essas unidades de produção agrícolas familiares são fortemente diversificadas por causa dos diferentes modelos de referência elementares, de um contexto socioeconômico variado, das condições naturais e da história de sua evolução.
Diante disto teve­se como objetivo geral, verificar a importância das Políticas Públicas e Programas Governamentais para a Agricultura Familiar. E mais especificadamente, caracterizar o Programa Nacional de Alimentação Escolar 86
(PNAE), o Programa de Alimentação Escolar (PAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) bem como sua relação com os agricultores familiares.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Programa Nacional de Alimentação Escolar
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem como objetivo atender às necessidades nutricionais de estudantes e à formação de hábitos alimentares saudáveis, durante sua permanência no ambiente escolar, contribuindo para o seu crescimento, desenvolvimento, aprendizagem e rendimento escolar (CONSELHO FEDERAL DOS NUTRICIONISTAS, 2011).
O PNAE, implantado em 1955, prevê a transferência de recursos financeiros do Governo Federal, com vistas a garantir, de forma suplementar, a alimentação escolar dos alunos da educação infantil (creches e pré­escola) e do ensino fundamental, inclusive das escolas indígenas, matriculados em escolas públicas e filantrópicas (PORTAL DA TRANSPARÊNCIA, 2011). O Programa é considerado um dos maiores na área de alimentação escolar do mundo é t a m b é m uma política pública que objetiva contribuir para o crescimento, o desenvolvimento, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de práticas alimentares saudáveis de crianças e adolescentes brasileiros, por meio de ações de educação alimentar e nutricionais e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2009).
Para isso, o PNAE poderá contar com a mesma rede de fornecedores da agricultura familiar que acessam o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que permite a compra de alimentos com dispensa de licitação, a distribuição entre a rede sócio assistencial e a formação de estoques públicos e da agricultura familiar (ALIMENTAÇÃO ESCOLAR, 2011). Para promover a conexão entre a agricultura familiar e a alimentação escolar, é preciso observar os princípios e as diretrizes estabelecidos pelo PNAE – gestor dessa política: alimentação saudável e adequada; respeito à cultura, às tradições e aos hábitos alimentares; controle social; segurança alimentar e nutricional; desen­
volvimento sustentável, que significa adquirir gêneros, alimentícios diversificados, produzidos localmente (ALIMENTAÇÃO ESCOLAR, 2011).
Além de fornecer refeições de qualidade, estimula­se que o Programa de Ali­
mentação Escolar (PAE), seja visto como instrumento pedagógico que favorece a abordagem das diversas dimensões da alimentação saudável: nutricional/sanitária, sócio­cultural, ecológica e do direito humano. Deve­se atentar para que a aborda­
gem pedagógica esteja contextualizada no currículo escolar. Neste sentido, os dife­
rentes temas relacionados à alimentação permitem uma abordagem transversal, fa­
vorecendo a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade (EMBRAPA, 2011).
2.2 Programa de Aquisição de Alimentos
87
O Programa de Aquisição de Alimentos – PAA foi instituído pelo Art. 19 da Lei n. 10.696, de 02 de julho de 2003, e regulamentado pelo Decreto n. 6.447, de 07 de maio de 2008. Este tem por objetivo incentivar a agricultura familiar, compreendendo ações vinculadas à distribuição de produtos agropecuários para pessoas em situação de insegurança alimentar e à formação de estoques estratégicos, sendo constituído por instrumentos que permitem a estruturação e o desenvolvimento da agricultura familiar. É acionado após a colheita, no momento da comercialização, quando o esforço do pequeno produtor precisa ser recompensado com a venda da sua produção a preço justo, de forma a remunerar o investimento e o custeio da lavoura, incluindo a mão­de­obra, e lhe permita ter recursos financeiros suficientes para a sobrevivência de sua família com dignidade (CONAB, 2011). O programa é descrito pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário (2011), sendo uma das ações do Fome Zero, e tendo com isso a finalidade o apoio aos agricultores familiares, por meio da aquisição de alimentos de sua produção, com dispensa de licitação. Os alimentos adquiridos diretamente dos agricultores familiares ou de suas associações e cooperativas são destinados à formação de estoques governamentais ou à doação para pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, atendidas por programas sociais locais. Como supracitado, o PAA destina­se à aquisição de produtos agropecuários produzidos por agricultores familiares, mas que se enquadrem no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), ficando dispensada a licitação para essa aquisição, desde que os preços não sejam superiores aos praticados nos mercados regionais (PAA, 2004). Deste modo, a compra da produção familiar, gera maior estabilidade à atividade agrícola e geração de trabalho e renda ao produtor em seu próprio local, com o que se incentiva a permanência e a inclusão social no campo. Com melhores condições de vida, o agricultor e sua família passam a desenvolver a atividade de forma mais ampla e sistemática, explorando com maior racionalidade o espaço rural (CONAB, 2011). 2.3 Programa de Alimentação Escolar
O Programa de Alimentação Escolar (PAE) é um Programa de Suplementa­
ção Alimentar, que se insere nas Políticas de saúde, como medida de atenção pri­
mária. Sua gênese fundamentou­se no discurso de combate à desnutrição, na pre­
servação da saúde física e mental, na promoção da educação alimentar, além do in­
centivo à frequência dos alunos à escola, com o intuito de diminuir o índice de repe­
tência (VIEIRA, 2008).
Atualmente, a legislação determina que o cardápio da alimentação escolar seja elaborado por nutricionista habilitado, que deve assumir a responsabilidade téc­
nica do programa, com o acompanhamento do Conselho de Alimentação Escolar (CAE), e ser programado de modo a oferecer, no mínimo, 30% das necessidades nutricionais diárias dos alunos das creches e escolas indígenas e das situadas em áreas remanescentes de quilombos. Para os alunos matriculados em creches, pré­
escolas e escolas do ensino fundamental, o cardápio deve suprir 15% das necessi­
dades nutricionais diárias, durante as atividades em sala de aula. Além de determi­
88
nar o aporte calórico e protéico, a legislação atual estabelece as quantidades de vi­
taminas lipossolúveis (A, D, E e K) e hidrossolúveis (C, B1, B2, B6, B12, niacina e fo­
lato), assim como as de minerais (cálcio, fósforo, magnésio, ferro, zinco, iodo e selê­
nio) (VIEIRA, 2008).
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este estudo desenvolveu­se na definição do tema, onde optou­se por realizar uma ampla revisão bibliográfica sobre agricultura familiar, políticas públicas, alimentação escolar, PNAE, PAE e PAA. A pesquisa bibliográfica baseou­se na consulta de fontes relativas ao tema escolhido, possibilitando ao final, conhecer as diferentes contribuições científicas oportunizadas sobre o assunto ou fenômeno investigado, qual seja, Agricultura Familiar, Políticas Públicas e Programa Nacional de Alimentação Escolar, Programa de Alimentação Escolar e Programa de Aquisição de Alimentos. Este levantamento bibliográfico abrangeu livros, revistas, jornais, monografias, teses e artigos de internet.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a implantação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa de Alimentação Escolar (PAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) o governo ao adquirir produtos alimentícios de uma determinada localidade passa a valorizar produtos que muitas vezes são tipicamente regionais. Com isto, preserva­se a cultura alimentar local.
Vale ressaltar que o pagamento a preço justo, pela produção agrícola familiar onde antes somente havia níveis mínimos de atividade de subsistência, promove maior geração de renda para os agricultores familiares, contribuindo para diminuir a desigualdade social, e também assegura a circulação de dinheiro na economia da própria região, possibilitando maior atividade da economia, com isso, gera melhores possibilidades de investimentos na região, contribuindo para a promoção econômica e bem ­ estar social. Conclui­se que foi possível verificar a importância dos Programas PNAE, PAE e PAA que promovem a educação e conservação ambiental, agregam valor aos pro­
dutos da agricultura familiar, atuando no combate a fome e à desnutrição. Visando, assim, ações e melhorias planejadas para a sociedade, tendo como foco principal a promoção do desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida de to­
dos. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARTILHA Alimentação Escolar. Programa Nacional de Alimentação Escolar. Disponível em: < www.unicafes.org.br/arquivos/publicacoes/cartilha­alimentacao­
escolar.pdf> Acesso em: 20 abr. 2011.
89
COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Programa de Aquisição de Alimentos.
Disponível
em: <www.conab.gov.br/conabweb/agriculturaFamiliar/paa_o_que_e.html>. Acesso em: 25 abr. 2011.
CONSELHO FEDERAL DOS NUTRICIONISTAS. Programa de Alimentação Escolar. Disponível em: < www.cfn.org.br> Acesso em: 25 abr. 2011.
EMATER.
A Emater de Minas. Disponível em:
< http://www.emater.mg.gov.br/portal.cgi?flagweb=site_tpl_paginas_internas&id=2> Acesso: 02/06/2011. MANUAL PAA. Programa de Aquisição de Alimentos. Disponível em: < http://www.paa.sc.gov.br/manual_2004.pdf> Acesso em: 26 abr. 2011. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Conselho Federal: Currículo Mínimo em Economia
Doméstica,
1992.
Disponível
em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cd003147.pdf>. Acesso em: 16 jun.2011.
PORTAL DA TRANSPARÊNCIA. Programa Nacional de Merenda Escolar. Disponível em: <www.portalda transparencia.gov.br>. Acesso em: 26 abr. 2011.
VIEIRA, M. N.; et al. Gestão de um Programa de Alimentação Escolar em um Município
Paulista.
Disponível
em:
< http://www.unicamp.br/nepa/arquivo_san/3_artigo1416_alimentacao_escolar.pdf >
Acesso em: 19 jun. 2011.
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VESTUÁRIO E ARTESANATO: UMA PROPOSTA PARA A ECONOMIA DOMÉSTICA SOB A ÓTICA DAS ECONOMIAS SOLIDÁRIA E CRIATIVA Rita de Cássia Pereira Farias8
Resumo
Em 2003, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, com a proposta de reduzir a fome e a pobreza mundial e gerar renda, a partir de ações sustentáveis que promovam a cultura e a igualdade racial e de gênero. Dentre esses oito objetivos,9 quatro estão diretamente relacionados ao vestuário e ao artesanato, na perspectiva da Economia Doméstica: Erradicar a fome e a pobreza extrema; Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento; Garantir a sustentabilidade ambiental. Sendo assim, este artigo trata de uma proposta de atuação do economista doméstico em projetos e programas sociais com foco no vestuário e no artesanato, sob a ótica das economias solidária e criativa uma vez que as atividades artesanais reafirmam as identidades étnicas e a história do grupo, além de proporcionar trabalho e renda para diversas famílias e comunidades, inclusive quilombolas e indígenas. Em função de o Economista Doméstico ter sido capacitado para atuar na promoção social de famílias e grupos, este profissional poderá incentivar o desenvolvimento comunitário e favorecer o acesso à cidadania, ao crédito e à renda. Poderá disseminar conhecimentos e qualificar os trabalhadores, motivando o desenvolvimento de competências, da liderança e da autonomia. Poderá ainda desenvolver o potencial comercial de cooperativas e associações, fortalecendo a competitividade, de modo a proporcionar acesso a mercados e investimentos sem atravessadores, além de elaborar estratégias para incorporar nos produtos, a cultura e a história do grupo que os produziu.
1. Introdução
8
Professora do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa. Doutora em Antropologia Social.
9
Os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são: Erradicar a pobreza extrema e a fome; Atingir o ensino básico universal; Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; Reduzir a mortalidade infantil; Melhorar a saúde materna; Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; Garantir a sustentabilidade ambiental; Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.
91
Desde os primórdios de sua profissão, os Economistas Domésticos têm atuado em projetos de extensão rural e urbana, visando o desenvolvimento comunitário, a melhor utilização dos recursos, a geração de renda, a promoção de bem estar social e a melhorias na qualidade de vida de famílias e grupos. Nesse processo, o vestuário tem sido um dos itens abordados, cujos conhecimentos contemplam o estudo das fibras, a adequação de tecidos ao uso, a conservação têxtil, a modelagem e a confecção de artigos do vestuário, além da relação entre vestuário, sustentabilidade e desenvolvimento social.
O curso de Economia Doméstica forma profissionais com visão multidisciplinar e humanista. O estudante é motivado a ter uma percepção crítica acerca dos fenômenos sociais, econômicos, culturais, políticos e ambientais que afetam indivíduos, famílias e grupos. Nesse processo, ele é levado a identificar problemas, levantar potencialidades e interesses, incentivando ações sustentáveis que geram renda e promovam melhorias na qualidade de vida de famílias e grupos sociais.
A elaboração e acompanhamento de projetos de desenvolvimento comunitário, pautados nos princípios da economia solidária e criativa, ganha relevo na atualidade, principalmente, após o lançamento pelas Nações Unidas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, com o intuito de reduzir a fome e a pobreza mundial e gerar renda, a partir de ações sustentáveis que promovam a cultura e reduzam as desigualdades raciais e de gênero.
Como vivemos em um período chamado pós­industrial (Bell, 1974), em que o setor que mais emprega mão de obra é o de serviços, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, favorecem a promoção de políticas públicas e ações governamentais em diversos países, possibilitando um terreno fértil de atuação profissional dos economistas domésticos na implantação e acompanhamento de projetos e programas sociais com foco no vestuário e no artesanato. Portanto, motivar os grupos minoritários a buscar seu desenvolvimento e autonomia ­ calcados na tríade economia, sustentabilidade e sociedade ­ torna­se uma proposta relevante para a atuação dos Economistas Domésticos, que poderão buscar parcerias junto a organizações públicas e privadas, organizações não governamentais e programas de responsabilidade social de empresas.
No entanto, antes de abordar os projetos e programas com foco no vestuário e no artesanato, é necessário verificar a face degradante da moda que compromete a qualidade de vida de indivíduos e grupos e direciona as ações dos Economistas Domésticos com o intuito 92
de reduzir a pobreza e as desigualdades sociais.
3. A face degradante da moda
A moda é um poderoso instrumento que proporciona status e assegura as distinções de classe. Para manter as distinções sociais, a indústria da moda aciona um amplo mercado que movimenta uma significativa parcela da economia mundial. As estratégias de marketing apregoam o desinteresse pelo antigo e a paixão pelos novos produtos. Para a incorporação de fetiche à moda, os desfiles são preparados como mega­shows que despertam para um mundo de sonhos dentro do qual a dor, a tristeza, a miséria e a angústia não existem (ROCHA, 2010). Outdoors, revistas, vitrines e propagandas prometem encantamento, poder, aceitação e integração mediante a compra e a posse de novos produtos, cujo apelo pode ser interpretado como: “Consumo, logo existo”.
Em paralelo a esse mundo de sonhos e fetiches, a moda possui uma outra face de extrema degradação humana. A globalização que tornou possível a produção de roupas a preços cada vez menores, a chamada fast fashion, também leva os consumidores a considerarem as roupa como objetos descartáveis. No entanto, as roupas são produzidas a preços baixos, à custa de muito sacrifício humano, além de sérios prejuizos ambientais.
Um dos pilares da produção barata é o trabalho infantil, desenvolvido clandestinamente em confecções de diversos países em desenvolvimento, como Paquistão, Índia, China, Tailândia, Jordania, Malasia, Camboja, Argentina e Brasil. Apesar dos esforços do Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC), desenvolvidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), diversas indústrias e empresas ainda não assumiram esse compromisso.
No polo de confecções do Agreste Pernambucano do Brasil, por exemplo, por décadas a exploração do trabalho infantil tem comprometido o futuro de muitas crianças. Em 2007, haviam 440 mil crianças e adolescentes que trabalhavam não apenas nas confecções, mas também na agricultura, feiras livres, prostituição, sinais de trânsito e trabalho doméstico.
Para as famílias em situações de extrema pobreza, o trabalho infantil em tais atividades apresenta­se como possibilidade de geração de renda, apesar da baixa remuneração e péssimas condições de trabalho (SOBREIRA; OLIVEIRA, 2001). Também 93
em confecções em Dhaka e Bangladesh, sob ameaça do proprietário, as crianças chegam a trabalhar 10 horas por dia para receber apenas um dólar, além de serem ameaçadas pelos proprietários das confecções (CLAUDIO, 2007).
Soma­se a isso a indústria do algodão. Diversos países como China, Índia, Paquistão, Argentina, Paraguai, Brasil, Azerbaijão, Benin, Burkina Faso, Egito, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Tajiquistão, Turquemenistão, Uzbequistão, Zâmbia e Turquia recorrem ao trabalho infantil nos campos de algodão. Estas crianças renunciam aos estudos, saúde e infância para realizarem um trabalho extremamente exaustivo, permeado de abusos físicos, verbais e sexuais. Para piorar a situação, no processo de cultivo dessa fibra têxtil usa­
se mais inseticidas do que em qualquer outra cultura e muitas crianças pulverizam agrotóxicos sem nenhuma proteção, o que representa sérios riscos à sua saúde.
A competição global acirrada na indústria do vestuário exige cada vez mais redução nos custos de produção, mesmo que isso signifique salários mais baixos e condições degradantes para os trabalhadores. Para garantir sua participação nos mercados globais, confecções de diversos países em desenvolvimento como China, Guatemala, Camboja e Brasil recorrem ao trabalho escravo, sob péssimas condições. Cláudio (2007) menciona que na China, uma das maiores produtoras de jeans do mundo, a fim de atender à demanda diária de produção de 10.000 pares de jeans, alguns operários chegam a trabalhar durante toda a noite na confecção e no lixamento de jeans para que ele tenha aspecto desgastado. Estes trabalhadores recebem de 12 a 18 centavos por hora de trabalho em condições de precariedade, uma vez que a poeira azul do jeans é um forte irritante para os pulmões.
No Brasil, entre os anos de 2009 a 2011, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), do Ministério do Trabalho, autuou mais de 30 confecções por utilizarem trabalho escravo. Empresas e grifes como a C&A, Pernambucanas, Marisa, Riachuello, Collins, Leader, Zara, Ecko e Cobra D´Água receberam intervenção. Na capital paulista uma operação que fiscalizou as facções subcontratadas pela grife Zara libertou do trabalho escravo 15 bolivianos, incluindo uma adolescente de 14 anos. Embora exista o Pacto Nacional Pela Erradicação do Trabalho Escravo, coordenado pelo Instituto Ethos, e que muitas confecções não assinaram. Assim, este cenário é marcado por contratações ilegais, condições de trabalho degradantes, falta de equipamentos de proteção, trabalho infantil, jornada de trabalho de até 16h diárias, baixa remuneração (média 94
de R$ 2 por peça), cobrança irregular de dívidas nos salários, além de proibição de deixar o local de trabalho, pois a autorização somente é concedida em casos extremos, como quando se trata de levar o filho ao médico.
Outro problema da indústria do fast fashion está nas questões ambientais. Estudos indicam que mesmo nos países desenvolvidos, apenas uma pequena proporção de resíduos têxteis pós­consumo são reciclados ou reaproveitados. O que não é aproveitado termina em incineradores ou aterros, trazendo problemas para o ambiente e para a saúde humana. Como exemplo, apenas no ano de 2005, no Reino Unido, foram compradas 1,9 toneladas de têxteis e 1,2 toneladas foram descartadas e apenas 0,3 toneladas foram vendidas ou recicladas (MORLEY et al, 2006).
No Brasil, algumas confecções localizadas em São Paulo, produzem diariamente cerca de dez toneladas de retalhos de tecido que são descartadas nas calçadas, próximos às confecções. Quando chove, estes resíduos são espalhados pelas águas e acarretam entupimento de bueiros, causando enchente e alagamento que destroem casas e transmitem doenças. Até mesmo os retalhos e roupas em desuso, que são descartadas em aterros, o processo de decomposição pode contaminar ambientes terrestres, aquáticos e aéreos. A lixiviação, amônia e gás metano produzidos, além de tóxicos, contribuem para o efeito estufa e o aquecimento global.10 Os resíduos têxteis que são incinerados emitem substâncias orgânicas, tais como dioxinas, metais pesados, gases ácidos e partículas de poeira, que são altamente prejudiciais aos humanos e ao ambiente (CAULFIELD, 2009).
Soma­se a esse cenário caótico o fator invisibilidade dos artesãos que frequentemente vendem seus produtos para atravessadores e grandes marcas sem o devido reconhecimento. Ao entrarem na esfera da grande moda, o artesão é destituído da autoria de seu trabalho e a história do grupo que o produziu é apagada como um passe de mágica, pois, na moda fetichizada só aparece a grife ou marca para a qual os artesãos vendem o seu trabalho.
Karl Marx defende que o fetiche da mercadoria apaga as marcas de trabalho e 10
As emissões de dióxido de carbono, principal contribuinte para a mudança do clima global, aumentou de 23.000 milhões de toneladas em 1990 para 29 bilhões de toneladas em 2004, (UNITED NATIONS, 2007). Em função dos impactos econômicos e sociais, diversos países têm buscado alternativas para minimizar os problemas ambientais. Em 2007, por exemplo, a União Europeia promulgou a European Community Regulation (REACH), que exige que importadores e fabricantes de roupas identifiquem, quantifiquem e informem aos consumidores as substâncias químicas potencialmente perigosas utilizadas em seus produtos têxteis, como metais pesados, corantes cancerígenos, tóxicos e outros. Essas regulamentações acrescidas da crescente conscientização dos consumidores sobre produtos menos tóxicos e mais sustentáveis podem motivar a busca de soluções para os problemas gerados pela indústria têxtil e de vestuário.
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expropria o trabalhador da autoria de sua obra. Na mercadoria fetichizada, o trabalhador, as marcas de trabalho e os meios de produção não aparecem para que fique apenas o produto fetichizado que encanta e seduz com promessas de felicidade, poder e conquista.
Antropólogos e sociólogos, como Bourdieu, Marshall Sahlins e Daniel Miller, que estudaram a construção do mundo social por meio dos bens materiais, nos proporciona a compreensão de que o produto não surgiu como um passe de mágica. O processo de fabricação envolve árduo trabalho, muitas vezes permeado por privações e explorações. Daniel Müller (2007) propõe que reflitamos sobre nossas responsabilidades como consumidores, mediante a análise da cadeia de mercadoria capitalista. Que reconheçamos a corporificação do trabalho humano nos produtos que consumimos e as relações trabalhistas que se estabelecem, para que compreendamos os efeitos do capitalismo nos processos sociais e na prática cotidiana.
Considerando que os industriais e publicitários buscam diariamente criar novas “necessidades”, fetiches e desejos, os Economistas Domésticos poderão dar visibilidade às formas como a indústria da moda atinge o indivíduo, as famílias e grupos sociais. Em contrário ao fetichizado mundo de sonhos que a moda promete, o Economista Doméstico poderá atuar em um cenário incerto, marcado por diversos tipos de exploração humana, medos, angústias e ameaças, além da consequente degradação ambiental. Portanto, deverá buscar medidas para transformar tal cenário, em ações sustentáveis que se traduzam em dignidade humana, cidadania, empoderamento, autonomia, qualidade de vida e auto­
realizarão.
3. Políticas sociais que subsidiam a atuação profissional dos Economistas Domésticos
Para uma atuação profícua, é necessário que os Economistas Domésticos estejam inteirados das Políticas públicas que embasam sua atuação profissional, pois estas direcionam financiamentos, projetos e ações. A cada ano, a ONU promove reuniões, conferências e encontros sobre assuntos que tenham impacto global. Além disso, lança diversas publicações e relatórios que subsidiam as políticas públicas dos países. Em 2003, foi lançado os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio; em 2009, o Ano Internacional das Fibras Naturais; em 2010, o Ano Internacional de Afrodescendentes e, em 2012, o Ano 96
Internacional das Cooperativas.
Acerca dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, 11 quatro deles têm relação direta com o vestuário na perspectiva da Economia Doméstica: Erradicar a fome e a pobreza extrema; Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento, e, Garantir a sustentabilidade ambiental.
As preocupações com aspectos ligados à promoção de trabalho e renda devem­se ao elevado índice de desemprego, resultado da crise do Fordismo na sociedade pós­industrial e da incapacidade da indústria e do Estado em proverem emprego (HARVEY, 1992). A adoção de novas tecnologias e substituição do trabalho assalariado pelo temporário (modelo flexível) acarretou uma precarização do trabalho e desemprego que fragilizou o movimento operário, já que o trabalho tem se concentrado no setor de serviços (BELL, 1974).
Visando a estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento, um dos objetivos propostos para o milênio é a redução das desigualdades sociais. Para atingir este objetivo, os países tem buscado construir um sistema comercial e financeiro mais justo, equitativo e abrangente que integre o desenvolvimento sustentável, a segurança e os direitos humanos, por meio da agricultura familiar e segurança alimentar, desenvolvimento sustentável e economia solidária.
As políticas públicas baseadas nos objetivos do milênio propõem não somente reduzir a pobreza a fome e a miséria, mas também promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. Considera­se que milhares de pessoas no mundo passam fome e vivem na pobreza absoluta,12 sendo que os maiores índices de desigualdade social ocorrem na África Subsaariana, América Latina, Caribe e também no leste da Ásia. Além disso, a maioria das economias não conseguiu suprir oportunidades de emprego para a juventude, pois há probabilidades de que haja três jovens desempregados para cada adulto desempregado (UNITED NATIONS, 2007).
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A Cúpula do Milênio foi um evento promovido pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), realizado em sua sede, em setembro de 2000. Nessa ocasião, 191 lideres dos Estados­Membros das Nações Unidas, assinaram a Declaração do Milênio, mediante a qual assumiram o compromisso de eliminar a fome e a pobreza extrema em todo o planeta. A partir desse documento, foi elaborado Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas (ODM), uma proposta para mobilizar os governos e a sociedade a buscarem formas de superar a fome e a pobreza, mediante o estabelecimento de oito objetivos a serem alcançados até 2015.
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A linha de pobreza baseia­se no consumo de bens e serviços. Para comparações internacionais o Banco Mundial estabeleceu esta linha em 1 dólar norte­americano ao dia por pessoa. No Brasil, considera­se a linha de pobreza como renda de 1/2 salário mínimo mensal per capita e pobreza extrema como renda mensal per capita de 1/4 do salário mínimo.
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A busca pela promoção da igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres se justifica em função das construções de gênero, já que a necessidade de conciliar atividades domésticas e trabalho remunerado coloca as mulheres em situação de desigualdade que se manifesta na taxa de desemprego. É importante lembrar que as taxas de desemprego recebem os marcadores de gênero e classe. No Brasil, por exemplo, em 2005, da população desempregada, 6,3% era composta por homens brancos; 8,1% por homens negros; 10,7% por mulheres brancas e 14,1% por mulheres negras.
Para cumprir esse objetivo, os países envolvidos nos Objetivos do Milênio têm implantado políticas específicas para as mulheres, com o intuito de superar a desigualdade social que as atinge. As ações propõem a valorização das mulheres e o respeito à diversidade cultural, étnica e racial, promovendo sua capacitação profissional, favorecendo sua inserção social e econômica, para que possam atuar com dinamismo na economia e na política, além de ampliar seu poder de decisão sobre suas vidas e corpos. Para isso, os governantes têm criado programas que buscam assegurar a equidade de gênero e raça, além de medidas de enfrentamento à violência contra as mulheres.
No que se refere à garantia da sustentabilidade ambiental, os países comprometidos com os Objetivos do Milênio se propõem a cumprir o compromisso firmado em 1992, quando foi construída a Agenda 21 para o Desenvolvimento Sustentável. Nessa ocasião, constatou­se que de 1970 a 1995 perdemos mais de trinta por cento dos recursos naturais que sustentam a vida no planeta. Para minimizar a perda de recursos naturais e integrar os princípios do desenvolvimento sustentável às políticas e aos programas nacionais, os governantes propõem a adoção de tecnologias ambientalmente limpas que se traduzam em respeito ao meio ambiente e reverberem na qualidade de vida de famílias e grupos.
Para alcançar esse objetivo em relação ao setor têxtil e de confecções, em 2009 a ONU lançou o Ano Internacional das Fibras Naturais, com o intuito de motivar estratégias sustentáveis de geração de trabalho e renda, de modo a reduzir a fome e a pobreza. Essa iniciativa se deve ao fato de que a crescente produção das fibras artificiais, a partir da década de 1960, trouxe inúmeras implicações ambientais, por não serem biodegradáveis. Além disso, sua produção exclui o pequeno agricultor ligado à economia familiar. A proposta da ONU é que os países se voltem para a produção e o consumo de fibras naturais como estratégia de combate a fome e a pobreza, além de colaborar para uma sociedade ecologicamente 98
consciente. Afinal, as fibras naturais, além de serem biodegradáveis, podem ser produzidas em pequena escala, inserindo o pequeno agricultor.
Outra ação da ONU, visando reduzir as desigualdades sociais, foi o lançamento do Ano Internacional de Afro­Descendentes, em 2011. Ao eleger esse ano, a ONU considera que o tráfico de escravos constituiu um desrespeito à dignidade humana que ainda gera preconceitos às pessoas de origem africana que estão entre as que mais sofrem com o racismo. Com a eleição do ano, busca­se promover o respeito à diversidade, resgatar a herança cultural africana e integrar os afrodescendentes à sociedade.
No caso brasileiro, devido às forças da globalização e, considerando o grande sincretismo religioso da sociedade, o governo tem buscado formas de financiamento público para projetos e programas de promoção da igualdade racial e divulgação da cultura. O programa Cultura Viva busca dar visibilidade as diversas manifestações culturais presentes na sociedade, apoiando o desenvolvimento do trabalho de grupos quilombolas, como forma de restituir a dignidade que lhes foi confiscada (SANTOS, 2008). Além disso, para assegurar a cidadania e a inclusão social, os governantes tem criado diversos programas voltados para a geração de trabalho, renda e qualificação profissional, bem como para a erradicação do trabalho infantil e escravo.
Em um momento em que o governo e a indústria não têm conseguido proporcionar emprego suficiente para a população, a busca do desenvolvimento social com base associativista e cooperativista torna­se uma estratégia promissora. Assim, a ONU reconhece que a Economia solidária, mediante articulação entre Estado e Sociedade Civil, é uma alternativa promissora para a inclusão social de trabalhadores que ficaram à margem do sistema de produção capitalista e que não possuem recursos financeiros suficientes para um investimento privado, como também para aqueles que “acreditam que seja possível a criação de uma sociedade mais justa e igualitária em que o ideal de solidariedade seja realmente levado a sério.” (ARAÚJO 2007).
O termo economia solidária, pressupõe a organização dos trabalhadores em redes de interação e cooperação, com ajuda mútua e compartilhamento de recursos materiais e experiências, visando ao crescimento mutuo. Centradas na valorização do ser humano, as cooperativas preconizam o trabalho como um meio de libertação, pois possibilitam o exercício da cidadania, o empoderamento e o desenvolvimento econômico, social e cultural 99
dos beneficiários. Nas cooperativas, os trabalhadores­proprietários participam na definição de ações, estratégias e prioridades, além de terem maior incentivo econômico e moral para dedicar o seu tempo e esforço ao trabalho (SANTOS, 2002).
Considerando que as cooperativas de trabalhadores são alternativas para responder com eficiência ao mercado global, pois tendem a ser mais produtivas, já que as associações são voluntárias, a propriedade é comum e a gestão é democrática, a ONU elegeu 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas.
No setor de vestuário e têxteis, existem várias cooperativas voltadas tanto para a produção e comercialização do vestuário e de artesanato, quanto para a reciclagem de artigos têxteis. No Brasil, uma iniciativa que merece destaque é a COOPA­ROCA, Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura que funciona na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. A formação da cooperativa foi uma forma de potencializar o conhecimento e talento das moradoras, além de proporcionar autonomia, empoderamento e renda (MOURA, 2011). Lá as artesãs produzem peças artesanais para o mercado da moda e do design, em parceria com as marcas e grifes Osklen, Lacoste, Ann Taylor, Paul Smith e Christian Lacroix. Os estilistas dessas empresas desenham as peças e as artesão da COOPA­ROCA dão o toque artesanal aos produtos que são exportados para diversos países, como os Estados Unidos, Paris, Londres, Alemanha, Inglaterra e Holanda. Este projeto propicia um olhar positivo sobre a Rocinha, potencializa o desenvolvimento local, eleva a qualidade de vida das artesãs, além de contribuir para que elas sejam vistas como figuras inovadoras e criativas. A experiência positiva das artesãs da Rocinha tem oferecido estímulo para os artesãos de todo o Brasil.
Outra iniciativa promissora relativa à reciclagem de retalhos no Brasil é desenvolvida pela empresa Ecosimple, em parceria com cooperativas. Mediante contrato estabelecido com grandes companhias têxteis, confecções e a comunidade, a Ecosimple coleta sobras de tecidos e as encaminha às pequenas cooperativas, onde são separadas por cor. Quando retornam à Ecosimple, os retalhos de tecidos passam por máquinas esfarrapadeiras onde são desmanchados, voltando à condição de fibras. Em seguida, passam por processos de limpeza, fiação e tecelagem, para serem convertidos em tecidos. Como os retalhos são separados por cor, não é necessária a adição de tinta ou corante. Pela sustentabilidade e diferenciação que proporciona, os tecidos EcoSimple são utilizados por grandes marcas do Brasil e do exterior evitando que milhões de toneladas de sobras de tecidos sejam descartadas mensalmente em 100
lixões e aterros sanitários, além de gerar diversos vários postos de trabalho, já que no Brasil milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza (ECOSIMPLE, 2011).
Outra alternativa que tem sido adotada por diversas cooperativas, ONGs e empresas de diversos países é a reciclagem de garrafas PET (polietileno tereftalato). Devido ao alto consumo de refrigerante no mundo, toneladas de vasilhame seriam depositadas anualmente nos aterros, se não fossem recicladas. Além de evitar acúmulo nos lixões e rios, a reciclagem possibilita renda para os catadores, economia de material nas indústrias, redução nos custos de produção, além de trazer um diferencial para as empresas, ao atrair a simpatia dos consumidores eco­favoráveis. De acordo com essa tendência, diversas grifes e marcas, em parceria com cooperativas, ONGs, prefeituras e grupos de catadores têm se dedicado à produção de jeans reciclado, desenvolvido a partir da mistura de PET reciclado com fibras de algodão também recicladas (ALVES, 2002). Embora diversos estilistas e empresas terem aderido ao projeto que beneficia várias famílias, em 2010, o Brasil reciclava apenas 55,8% da resina de PET produzida, demonstrando que ainda há muito trabalho a ser feito. Já na Finlândia, que está no topo em comparações internacionais, a taxa de retorno de garrafas reutilizáveis é de 98%.
Para atuar nesse cenário que requer conhecimentos e habilidades para reinventar estratégias de produção sustentáveis, é necessário se pautar nos princípios da Economia Criativa, despertada em diversos países do mundo, como Suécia, Finlândia, Espanha, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, Colômbia e Brasil, que motivam o desenvolvimento da criatividade como parte da política cultural e econômica.13
Essa modalidade econômica que envolve setores industriais, prestadores de serviços e expressões culturais, é classificada como a terceira maior do mundo, atrás apenas do petróleo e armamentos, que responde por 7% do PIB mundial. No Brasil ela adquire proporções ainda maiores, pois movimenta cerca de R$ 380 bilhões anuais, ou seja, 16,4% do PIB (RODRIGUES, 2011).
O termo Economia Solidária, resulta da união entre a economia, cultura e tecnologia, que se remete à junção entre o universo simbólico e o mundo concreto, valorizando “à 13
Na Finlândia, por exemplo, em 2006, mais de 102 mil pessoas trabalhavam nas indústrias culturais que representam 4,19 por cento de todo o trabalho empregado nesse país. O apoio ao fortalecimento da economia criativa e do empreendedorismo cultural em áreas rurais se dá mediante financiamento via Programa de Desenvolvimento de Negócios para o Crescimento e Internacionalização das Indústrias Criativas que, por sua vez, se insere no Programa Cultural de Promoção de Exportações, implementado pelo Ministério do Trabalho e da Economia, Ministério dos Negócios Estrangeiros e Ministério da Educação (FINLAND, 2010).
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capacidade não só de criar o novo, mas de reinventar, diluir paradigmas tradicionais, unir pontos aparentemente desconexos e com isso, equacionar soluções para novos e velhos problemas”. A economia criativa atrai e estimula a atuação de novos produtores, criando oportunidade de promover a inserção social e resgatar o cidadão, “através de um ativo que emana de sua própria formação, cultura e raízes”, transmutando a criatividade em um catalisador de valor econômico (REIS, 2008, P.15).
A economia criativa tem produzido importantes transformações na esfera econômica. Rodrigues (2011) menciona que a economia criativa é um caminho promissor para estimular a geração de trabalho e renda a partir da valorização das especificidades regionais e a diversidade cultural em detrimento da produção em massa, de modo a fortalecer a sociedade civil e os pequenos produtores, e ainda favorecer o processo de transformação de comunidades e promover seu desenvolvimento.
4. Possibilidades de atuação do Economista Doméstico em programas governamentais
Em função dos Economistas Domésticos terem sido capacitados para atuar na promoção social de famílias e grupos, de modo a alcançar melhorias na qualidade de vida, os projetos e programas sociais criados por diversos países oferecem plena oportunidade de atuação profissional.
Uma estratégia de atuação refere­se à busca pela manutenção da identidade cultural. Considerando que a perspectiva do capital desestabiliza modos de vida e apaga a cultura, o economista doméstico poderá desenvolver projetos que busquem resgatar o modo de vida dos grupos, para que haja valorização e transmissão das identidades culturais, principalmente via produção de artesanato. Afinal, as atividades artesanais proporcionam trabalho e renda para diversas famílias e comunidades, inclusive quilombolas e indígenas. As técnicas empregadas, além de ecológicas, são passadas de geração a geração, preservando as raízes culturais, reafirmando identidades étnicas e dando visibilidade à história do grupo.
Entretanto, muitos produtores de artesanato não sabem como inovar os seus produtos, além de terem dificuldades em comercializá­los. Muitas vezes, as técnicas são transmitidas entre as gerações sem incorporação de novidades, embora a diferenciação do design seja um fator relevante na competitividade e agregação de valor aos produtos. Assim, no processo de desenvolvimento comunitário, o potencial criativo dos grupos deve ser explorado para que os 102
produtores possam gerar novas idéias e produtos inovadores. Para que os produtos sejam renovados, é interessante incorporar elementos da moda, como cartela de cores, estamparia, mesclando materiais tradicionais com elementos contemporâneos.
Pesquisas comprovam que o potencial criativo humano tende a reduzir ao longo da vida, devido a bloqueios mentais criados. No entanto, o processo criativo pode ser revertido a partir de uso de técnicas que possibilitam que parte das habilidades criativas seja recuperada, minimizando o processo de robotização. Além das diversas técnicas de desbloqueio da criatividade que podem ser empregadas, o contato com outras realidades pode ampliar as fontes de inspiração. Muitas vezes, os grupos ficam isolados e não têm oportunidade de vivenciar outras realidades e conhecer o que outras pessoas fazem. Assim, ao trabalhar com uma comunidade, o economista doméstico poderá colocar os artesãos em contato com feiras, eventos, para que possam ampliar seu repertório cultural e senso criativo, além de expor seus produtos em outros locais, ampliando seu potencial mercadológico.
Para dar visibilidade aos artefatos produzidos, além de motivar o trabalho com produtos e processos ecologicamente corretos, é necessário investir na divulgação dos produtos na Internet, feiras e eventos. Para isso, é interessante elaborar folders, tags e portfólios que identificam os produtos e incorporem a cultura dos artesãos e a história do grupo. Uma ação relevante é elaborar projetos para obter financiamento visando promover o artesanato e as potencialidades locais.
Para potencializar o desenvolvimento comunitário e favorecer o acesso ao mercado de trabalho, a cidadania, ao crédito e a renda, é necessário que o economista doméstico dissemine conhecimentos técnicos e qualifique os trabalhadores para que tenham autonomia para tomar iniciativas, enfrentar problemas e propor alternativas sustentáveis. Para isso, é necessário motivar o desenvolvimento de competências, potencialidades e criatividades, incentivando o exercício da liderança e da multiplicação de saberes, pautados no trabalho participativo e solidário.
No processo de capacitação profissional, é importante levar informações aos artesãos sobre temas como fibras têxteis, sustentabilidade, reciclagem e reaproveitamento, qualidade dos produtos, comercialização, cooperativismo, associativismo, além de assuntos técnicos inerentes a cada modalidade de serviço oferecido.
Um problema que geralmente acompanha os artesãos é a ausência de conhecimentos 103
sobre a maneira como se formam os preços. Muitas vezes, ao precificar uma mercadoria, não se considera insumos como energia elétrica, água ou desgaste dos equipamentos. Assim, o economista doméstico poderá auxiliar os grupos na elaboração de preços justos e competitivos. Além disso, para fortalecer a competitividade e desenvolver o potencial comercial das associações, é necessário proporcionar aos produtores acesso a mercados e investimentos, livre de atravessadores, além de buscar parcerias junto a prefeituras, ONGs, empresas, confecções e designers.
Uma parceria que merece destaque no Brasil é a estabelecida entre o designer Ronaldo Fraga e as mulheres rendeiras paraibanas. Em suas coleções que são lançadas no São Paulo Fashion Week, uma das maiores feiras de moda do mundo, Fraga planeja suas peças juntamente com as mulheres rendeiras e divulga em seus desfiles a história do grupo que as produziu. O estilista tem se destacado pelo projeto social Talentos do Brasil, que beneficiou 400 pessoas em diversos pontos do país.
Outro projeto que merece destaque no Brasil é desenvolvido pelo estilista e artista plástico Cocco Barçante. Seu projeto Sentimentos do Rio tem como principal característica retratar em painéis e objetos artesanais a beleza da cidade do Rio de Janeiro. O reaproveitamento de retalhos de tecidos no processo de criação e o uso de embalagens PET, para acondicionar os produtos, agregam ao trabalho os conceitos de responsabilidade e sustentabilidade. Ao iniciar seu trabalho junto às artesãs e bordadeiras em favelas do Rio de janeiro, essas mulheres tinham autoestima baixa e não acreditavam em seu potencial criativo. Cocco Barçante motivou­as a acreditar em seu potencial e hoje o trabalho dessas mulheres é divulgado em vários eventos de renome, além de serem vendidos na internet.
Outro trabalho de destaque é desenvolvido na China, uma das maiores fabricantes mundial de têxteis, por Jin Yuanshan, artista popular do nordeste da China, em parceria com mulheres idosas. Com seu talento e paciência, essas mulheres transformam retalhos que seriam descartados em roupas, acessórios, enfeites para casa e obras de arte. Em um de seus trabalhos, que levou sete anos para ser concluído, quando apresentado em uma feira em Xangai, a artista recebeu uma oferta de cinco mil dólares de um colecionador italiano.14
Além dos designers e artistas, com os quais os Economistas Domésticos poderão buscar parcerias para o desenvolvimento comunitário, vale mencionar os trabalhos de CHINA. Patch up fabric leftovers into fine arts. 2010. <http://www.china.org.cn/video/2010­10/22/
content_21178115.htm>.
14
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economistas domésticos que conjugam o desenvolvimento comunitário, a sustentabilidade, a criatividade e a geração de renda. Uma dela é Débora Teixeira que, mediada pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), desenvolve atividades junto ao Grupo Retalharte, uma associação de remanescentes de quilombolas de Ponte Nova, Minas Gerais. Utilizando retalhos doados por confecções, as mulheres desenvolvem artesanatos como colchas, pufes, xales de sofás, e capas de almofadas. Em busca de preservar a identidade cultural dos quilombolas, após levantamento da história do grupo pelo próprio grupo e dos quilombos no Brasil, os dados foram conjugados a técnicas de desbloqueio da criatividade proporcionando a construção de diários de inspiração contendo elementos da identidade afro, que foram incorporados aos produtos. Mediante a combinação de cores e desenvolvimento de estampas por processos caseiros, novos produtos foram elaborados, como capas para notebook, capas para agenda, aventais e utensílios decorativos para casa. Além do reaproveitamento de resíduos têxteis, o trabalho envolve a transmissão de heranças culturais, geração de renda, socialização de técnicas artesanais, além de proporcionar sociabilidade às mulheres.
Outro trabalho de destaque é desenvolvido pela Economista Doméstica, Fátima Singulano, funcionária da Emater­MG. Um de seus projetos, desenvolvido na Região Metropolitana de Belo Horizonte com mulheres mobilizadas pelas associações locais, mães filiadas à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e internas de um presídio feminino, envolve a capacitação em modelagem, corte, costura e produção artesanal. As parcerias estabelecidas entre a prefeitura, empresas do setor privado, associações de bairros, igrejas e parlamentares possibilitaram estruturação do projeto com aquisição de máquinas e financiamento para a participação dos produtores em feiras e eventos. A iniciativa que gera recursos para mulheres de baixa renda com o aproveitamento de retalhos de tecidos e materiais doados, tem estimulado a criatividade e as habilidades das participantes, além de incentivar a responsabilidade ambiental.
Como a qualificação não se restringe meramente às técnicas, é preciso sensibilidade para inteirar­se das necessidades dos grupos, para que a intervenção na promoção de melhorias da qualidade de vida de famílias e grupo seja um ato prazeroso e enriquecedor, permeado por grandes aprendizagens.
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5. Considerações finais
No sistema capitalista global, a dissociação entre a propriedade dos bens de capital e o trabalho, bem como a valorização do lucro em detrimento ao ser humano cria uma grande exclusão social. Em um momento em que o governo e as empresas não conseguem suprir a necessidade de emprego e a economia concentra­se no setor de serviços, é necessário buscar alternativas empreendedoras que unam a economia e a cultura, para que haja valorização da criatividade.
Assim, a Economia Solidária e a Economia Criativa, associadas aos princípios da sustentabilidade, é uma alternativa ao sistema capitalista. Como menciona Araújo (2007), ela indica que é possível uma relação de trabalho em que o ser humano seja colocado no centro, diferentemente da acumulação capitalista.
Diante desse cenário, torna­se clara a importância de um profissional qualificado para subsidiar os grupos minoritários na busca de soluções inovadoras. Para uma atuação profícua, é importante que o Economista Doméstico tenha conhecimento sobre as ações que têm sido desenvolvidas no setor do vestuário e têxteis, bem como das políticas públicas que direcionam as ações de desenvolvimento comunitário, buscando alternativas e parcerias que conjuguem os pilares da sustentabilidade: ecologicamente correto, economicamente viável e socialmente justo.
Como profissionais que orientam os consumidores, os Economistas Domésticos poderão informá­los sobre os diversos fatores humanos e materiais envolvidos na produção e comercialização de produtos têxteis, estimulando­os a exigir a responsabilização dos varejistas para garantir que os produtos sejam produzidos de forma ética e sustentável.
Apropriando­se dos conhecimentos adquiridos durante o curso e, renovando sua formação com a participação em cursos, feiras e eventos, o economista doméstico poderá atuar como um facilitador na organização do processo de criação de grupos envolvidos com a produção do vestuário, tais como associações e cooperativas, com foco na geração de renda, manutenção da identidade cultural e preservação ambiental.
Dessa forma, o grande desafio que se coloca na atuação profissional dos Economistas Domésticos é de busquem atuar em projetos e programas sociais, procurando dar visibilidade às identidades e modos de vida dos grupos onde o vestuário e o artesanato são produzidos, de 106
forma que encontrem medidas sustentáveis para gerar renda e reduzir as desigualdades sociais.
Os caminhos indicados estão prontos para serem trilhados. Afinal a escolha do caminho pode fazer a diferença. Como dizia Mahatma Gandhi: “Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.”
6. Referências
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EMPREENDEDORISMO SOCIAL NA MODA Marcelo Cocco Barçante
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CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES­CCH DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DOMÉSTICA
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