Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sul – unijuí vice-reitoria de graduação – vrg coordenadoria de educação a distância – CEaD departamento de ciências administrativas, contábeis, econômicas e da comunicação – dacec Coleção Educação a Distância Série Livro-Texto Ivo Ney Kuhn Amauri Luis Lampert análise financeira Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil 2012 2012, Editora Unijuí Rua do Comércio, 1364 98700-000 - Ijuí - RS - Brasil Fone: (0__55) 3332-0217 Fax: (0__55) 3332-0216 E-mail: [email protected] Http://www.editoraunijui.com.br Editor: Gilmar Antonio Bedin Editor-adjunto: Joel Corso Capa: Elias Ricardo Schüssler Designer Educacional: Jociane Dal Molin Berbaum Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa: Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil) Catalogação na Publicação: Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – Unijuí K961a Kuhn, Ivo Ney. Análise financeira / Ivo Ney Kuhn, Amauri Luis Lampert. – Ijuí: Ed. Unijuí, 2012. – 86 p. – (Coleção educação a distância. Série livrotexto). ISBN 978-85-419-0009-6 1. Análise financeira. 2. Demonstrações financeiras. 3. Estrutura e endividamento. 4. Índices de liquidez. 5. Atividade de rotação. 6. Atividade de retorno. I. Lampert, Amauri Luis. II. Título. II. Série. CDU : 339.13 336.126.561 Sumário CONHECENDO OS PROFESSORES............................................................................................5 UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO À ANÁLISE FINANCEIRA..........................................................9 Seção 1.1 – Amplitude da Análise Financeira.........................................................................10 Seção 1.2 – A Empresa e sua Estrutura de Informações.........................................................12 Seção 1.3 – Análise Financeira e Áreas Afins..........................................................................14 Seção 1.4 – Os Principais Usuários da Análise Financeira.....................................................15 Seção 1.5 – A Relevância da Informação Contábil-Financeira...............................................16 Seção 1.6 – Contexto Legal e Fiscal da Empresa....................................................................17 UNIDADE 2 – ETAPAS DO PROCESSO DE ANÁLISE FINANCEIRA.....................................23 Seção 2.1 – Coleta e Conferência da Documentação..............................................................24 Seção 2.2 – Preparação e Processamento das Demonstrações Financeiras...........................25 Seção 2.3 – Análise e Conclusão..............................................................................................26 UNIDADE 3 – AS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS...........................................................29 Seção 3.1 – Fundamentação Legal...........................................................................................29 Seção 3.2 – Estrutura do Balanço Patrimonial.........................................................................30 3.2.1 – Ativo....................................................................................................................33 3.2.2 – Passivo.................................................................................................................34 Seção 3.3 – Estrutura da Demonstração de Resultados do Exercício.....................................36 3.3.1 – Receita Operacional...........................................................................................36 3.3.2 – Custo dos Produtos, Mercadorias ou Serviços Vendidos..................................37 3.3.3 – Lucro Bruto..........................................................................................................38 3.3.4 – Despesas Operacionais......................................................................................39 3.3.5 – Lucro Líquido do Exercício................................................................................40 UNIDADE 4 – ANÁLISE VERTICAL E HORIZONTAL..............................................................43 Seção 4.1 – Análise Vertical......................................................................................................43 Seção 4.2 – Análise Horizontal.................................................................................................46 UNIDADE 5 – ANÁLISE DA ESTRUTURA E ENDIVIDAMENTO...........................................51 Seção 5.1 – Participação de Capitais de Terceiros (PCT)........................................................51 Seção 5.2 – Composição do Endividamento (CE)...................................................................54 Seção 5.3 – Imobilização do Patrimônio Líquido (IPL)...........................................................55 Seção 5.4 – Endividamento Geral (EG)...................................................................................57 Seção 5.5 – Nível de Desconto de Duplicatas (NDD).............................................................58 UNIDADE 6 – ÍNDICES DE LIQUIDEZ.....................................................................................61 Seção 6.1 – Liquidez Corrente (LC).........................................................................................62 Seção 6.2 – Liquidez Seca (LS)................................................................................................63 Seção 6.3 – Liquidez Geral (LG)...............................................................................................64 UNIDADE 7 – ANÁLISE DA ATIVIDADE DE ROTAÇÃO..........................................................67 Seção 7.1 – Prazo Médio de Estoques (PME)..........................................................................68 Seção 7.2 – Prazo Médio de Recebimentos (PMR).................................................................69 Seção 7.3 – Prazo Médio de Compras (PMC)..........................................................................71 UNIDADE 8 – ANÁLISE DA ATIVIDADE DE RETORNO.........................................................75 Seção 8.1 – Giro do Ativo (GA).................................................................................................76 Seção 8.2 – Margem Líquida Sobre Vendas (MLSV)..............................................................78 Seção 8.3 – Retorno sobre o Ativo (RSA).................................................................................79 Seção 8.4 – Retorno Sobre o Patrimônio Líquido (RSPL)........................................................80 REFERÊNCIAS..............................................................................................................................85 EaD Conhecendo os Professores análise financeira IVO NEY KUHN Sou graduado em três cursos superiores. Minha primeira Graduação concluída foi Tecnólogo em Cooperativismo, cursado entre 1980 e 1982 na Fidene. Após, cursei Administração de Empresas (1986) e Ciências Contábeis (1987), pela Unijuí. Cursei especialização em Economia Agrícola também na Unijuí e Especialização em Administração Rural pela Esalq/USP de Piracicaba (SP). Este período de formação foi muito profícuo para o desenvolvimento da minha carreira profissional e qualificação técnica que possuo. Antes de iniciar o ensino superior, dos 13 aos 17 anos, trabalhava na lavoura, com os meus pais e irmãos mais novos, em uma pequena propriedade rural no interior de Cerro Largo, de onde sou natural. Iniciei minha carreira profissional como assistente de pesquisa na Fidene, em março de 1982, logo após ter concluído o curso de Tecnologia. Certamente aí nasceu o embrião que me conduziu à carreira acadêmica. Entre 1982 e 1988 atuei como técnico em diversos projetos de extensão, voltados à área do cooperativismo, da administração rural, da assessoria aos municípios e dos movimentos sociais. Ingressei na carreira de professor em 1989, ano em que também iniciei o curso de Mestrado em Administração, ofertado pelo CMA/UFPB, em João Pessoa, na Paraíba. A opção por aquela instituição foi porque lá havia uma área de concentração em Finanças, com linha de pesquisa em gestão rural. O Mestrado foi concluído em 1992. Retornando do Mestrado, ingressei como professor assistente no quadro de carreira da Unijuí. A partir de 1994, além das atividades de docência e de extensão junto a cooperativas de assentamentos de reforma agrária, atuei também como coordenador de curso de Administração nos campi de Santa Rosa (1994 a 1996) e de Ijuí (1996 a 1998). Atuei como chefe 5 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert do Departamento de Estudos da Administração entre 1999 e 2001 e atualmente coordeno o colegiado dos cursos de tecnologia EaD da Unijuí. Também acumulo uma boa experiência em consultoria organizacional, tendo coordenado o Programa Extensão Empresarial (convênio Unijuí/Sedai) na Fronteira Noroeste entre 2001 e 2003, e no Noroeste Colonial entre 2004 e 2006, gerenciando equipes de técnicos e estagiários que realizavam consultoria organizacional. Nesse período foram assessorados mais de 1.500 micro e pequenos empreendimentos no Noroeste gaúcho. Desde 2009 até o momento, coordeno o Projeto Extensão Industrial Exportadora, chamado Peiex, que é um convênio entre a Unijuí, a Associação IPD e a Apex/Brasil, por meio do qual já foram assessoradas mais de 400 indústrias do Noroeste gaúcho. Este projeto objetiva incentivar a competitividade empresarial e promover a cultura exportadora nestes empreendimentos e na economia regional. Atuo no ensino nas disciplinas da área de finanças e do gerenciamento econômico e financeiro de empreendimentos. Também tenho uma ampla experiência em empreendedorismo, projetos e planos de negócio. Resido em Ijuí (RS) há mais de 32 anos. 6 EaD análise financeira AMAURI LUIS LAMPERT Sou natural de Augusto Pestana/RS, município no qual resido. Minha formação acadêmica iniciou-se com o curso de Engenharia Civil na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul no ano de 1999. Ainda no segundo semestre daquele ano solicitei transferência para o curso de Administração, concluído em 2004. No período em que cursei Administração tive a oportunidade de atuar como bolsista de iniciação científica no Departamento de Estudos da Administração por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – Fapergs – e pelo Pibic/Unijuí. Em 2007 concluí o Mestrado em Desenvolvimento na linha de pesquisa Gestão de Organizações e do Desenvolvimento no curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Desenvolvimento da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. Em março de 2009 teve início o meu vínculo com a Unijuí, como professor alocado no Departamento de Estudos da Administração. Como experiência profissional atuei no comércio entre 1987 e 1988, como auxiliar de escritório, trabalhei na Cooperativa de Crédito Rural Pestanense Ltda. – Sicredi –, de 1990 a 1994, como escriturário. Também atuei na Indústria Gessy Lever de 1995 a 1998. Além disso, tive passagens pela gestão pública, atuando na prefeitura de Augusto Pestana, entre 1995 e 1996, 1998 e 1999 e de 2002 a 2005. Ao mesmo tempo, desde 2003 exerço a função de administrador da Associação Protetora do Hospital São Francisco, de Augusto Pestana (RS). Conciliar as atividades como administrador hospitalar e professor tem sido um novo desafio, pois isto torna ainda mais relevante a minha formação acadêmica e profissional, a partir do momento em que estou tendo a oportunidade de harmonizar as experiências de executivo e de docente. 7 EaD Unidade 1 análise financeira INTRODUÇÃO À ANÁLISE FINANCEIRA OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender as principais formas de organização jurídica das empresas brasileiras, bem como mostrar um conjunto de informações e conhecimentos básicos necessários para o entendimento das vantagens e limitações da análise financeira, considerando que um dos principais objetivos da análise financeira é o fornecimento de subsídios para a tomada racional de decisão de investimento e de concessão de crédito, a partir de informações de boa qualidade. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 1.1 – Amplitude da Análise Financeira Seção 1.2 – A Empresa e Sua Estrutura de Informações Seção 1.3 – Análise Financeira e Áreas Afins Seção 1.4 – Os Principais Usuários da Análise Financeira Seção 1.5 – A Relevância da Informação Contábil-Financeira Seção 1.6 – Contexto Legal e Fiscal da Empresa O presente texto é fruto de leituras, discussões e contribuições de um grupo de professores, que ao longo dos últimos anos ministraram a disciplina Análise Financeira no curso de Administração da Unijuí. O texto foi trabalhado a partir de dois Demonstrativos Contábeis Básicos – o Balanço Patrimonial (BP) e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Outros demonstrativos contábeis, no entanto, também são importantes para fins gerenciais, constituindo-se em fontes de pesquisa para os alunos. Entre eles podemos citar a Demonstração do Fluxo de Caixa, a Demonstração de Mutações do Patrimônio Líquido, a Demonstração dos Lucros ou Prejuízos Acumulados, as Notas Explicativas às Demonstrações Financeiras, o Relatório da Diretoria e do Conselho de Administração, o Parecer do Conselho Fiscal e dos Auditores. 9 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert A partir dos Demonstrativos Contábeis (BP e DRE) de uma empresa real você, aluno, será desafiado a sistematizar e analisar a situação patrimonial e os resultados de uma organização, detectando tendências quanto à evolução dos ativos, dos passivos, do patrimônio líquido, bem como das receitas, das despesas e dos diversos níveis de resultados, quais sejam, resultado ou lucro bruto, operacional e líquido. Seção 1.1 Amplitude da Análise Financeira A globalização do mercado e a internacionalização das empresas em virtude da concorrência entre os vários países têm trazido, nas últimas décadas, mudanças significativas no mercado empresarial. A evolução tecnológica possibilita a produção de bens a preços cada vez mais competitivos e os meios de transporte e comunicação permitem que os bens e recursos movimentem-se rapidamente por todo o planeta. Observa-se no cenário brasileiro uma alteração na postura das empresas para competir e sobreviver nesse mercado, utilizando-se, para tanto, dos mais diversos artifícios como: a redução de custos, a terceirização de atividades, o remodelamento da estrutura produtiva, enfim, um gerenciamento adequado dos recursos financeiros. É justamente neste ambiente instável e turbulento que a Análise Financeira, também chamada Análise de Balanços, emerge como um dos instrumentos mais importantes no processo de gerenciamento contábil global. Como bem explica Pereira da Silva (2010, p. 6), “a análise financeira de uma empresa consiste num exame minucioso dos dados financeiros disponíveis sobre a mesma, bem como das condições endógenas e exógenas que afetam financeiramente a empresa”. A Análise de Balanços objetiva extrair informações das demonstrações financeiras para as tomadas de decisão. Segundo Matarazzo (2010), as demonstrações financeiras fornecem uma série de dados sobre a empresa, de acordo com as regras contábeis. A Análise de Balanços transforma esses dados em informações e esta será tanto mais eficiente quanto melhores informações produzir. Já para Iudícibus (2010), a Análise de Balanços é a arte de saber extrair relações úteis para o objetivo econômico que tivermos em mente, dos relatórios contábeis tradicionais e de suas extensões e detalhamentos, se for o caso. 10 EaD análise financeira As técnicas de Análise de Balanços são importantes para o conhecimento econômicofinanceiro de outras empresas, notadamente concorrentes e fornecedores. O mais importante do instrumento de Análise de Balanço, porém, é a sua utilização pela própria empresa. A grande utilidade dessa ferramenta é o acompanhamento mensal dos indicadores escolhidos. Por meio desse acompanhamento e da tendência que os mesmos evidenciam, ter-se-á seguramente uma visão real das operações e do patrimônio empresarial e poder-se-á tomar medidas corretivas do rumo dos negócios, se as conclusões do acompanhamento analítico dos indicadores assim o exigirem. A análise financeira constitui-se num processo de meditação sobre as demonstrações contábeis, objetivando uma avaliação da situação da empresa em seus aspectos operacionais, econômicos, patrimoniais e financeiros. Ela serve para avaliar decisões que foram tomadas pela empresa em épocas passadas, bem como fornece subsídios para o planejamento financeiro, visando ao futuro.1 A avaliação econômica e financeira de uma empresa tem por finalidade detectar os pontos fortes e fracos do processo operacional e financeiro da companhia, objetivando propor alternativas de curso futuro a serem tomadas e seguidas pelos gestores. 1 Buscando auxiliar o processo de avaliação patrimonial e do desempenho da companhia, o analista vale-se de uma série de cálculos matemáticos, traduzindo os demonstrativos contábeis em indicadores de análise financeira. Esses indicadores buscam também evidenciar as características das principais integrações existentes entre a situação apresentada pelo balanço e a dinâmica operacional da empresa representada pela demonstração de resultados. Todos os cálculos apresentados neste livro-texto são baseados no balanço patrimonial e na demonstração de resultados do exercício. Em razão disso, fica evidente que o mais importante para o analista financeiro não é apenas saber calcular ou interpretar os indicadores, mas possuir um conhecimento profundo dessas duas principais peças contábeis. Nesse sentido, a Análise de Balanço, em teoria, poderia ser exercida sem os indicadores, bastando o conhecimento aprofundado das demonstrações contábeis básicas. Sabe-se, entretanto, que tais indicadores e as técnicas de Análise de Balanço agilizam, sobremaneira, o processo de avaliação da empresa. 1 Disponível em: <http://www.fococonsultancy.com.br/content/cursos-e-treinamentos/financas/analise-dedemonstrativos-economicos-financeiros-das-empresas/>. Acesso em: 12 maio 2012. 11 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 1.2 A Empresa e Sua Estrutura de Informações Com a crescente concorrência global, as empresas terão cada vez mais necessidade de informação, tanto em âmbito de mercado quanto a respeito dos planos e intenções de consumidores e competidores. A informação também propicia à empresa um profundo conhecimento de si mesma e da sua estrutura de negócios, facilitando o planejamento, organização , direção e controle dos processos, enfim, a gerência do negócio. O propósito básico da informação é o de habilitar a empresa a alcançar seus objetivos pelo uso eficiente dos recursos disponíveis, nos quais se inserem pessoas, materiais, equipamentos, tecnologia, dinheiro, além da própria informação. Neste sentido, a Teoria Geral de Sistemas surge como uma ferramenta de apoio para a análise e solução de problemas complexos, pois permite analisar um problema dividindo-o em partes, sem perder a visão do todo e o relacionamento entre as partes. Neste contexto, os sistemas podem ser definidos como um conjunto de partes interagentes e interdependentes que formam um todo com determinado objetivo e função. Esse mecanismo pode ser visualizado na figura a seguir, que apresenta os elementos componentes do sistema: Figura 1 – Elementos Componentes do Sistema Objetivos Processos Entradas →→ →→→ ↑ ↑ ↑ ↑ ← ←←←← ←←←← Transformações Retroalimentação Controle e avaliações Fonte: Oliveira (2011, p. 26). 12 →→→ Saídas ↓ ↓ ↓ ↓ ←←←← ←←← EaD análise financeira Segundo Abreu e Abreu (2002), um Sistema de Informações Gerenciais (SIG) pode ser definido como o processo de transformação de dados em informações2 que são utilizadas na estrutura decisória da empresa e que proporcionam a sustentação administrativa, visando à otimização dos resultados esperados. Um sistema de informações pode também ser tecnicamente definido como um conjunto de procedimentos que coletam (ou recuperam), processam, armazenam e disseminam informações para o suporte nas tomadas de decisão, coordenação, análise, visualização da organização e controle gerencial. Em suma, esses procedimentos devem permitir que a regra básica na gestão da informação nas empresas seja cumprida: a informação deve chegar no tempo certo e na forma certa, para a pessoa certa. A este procedimento se denomina de Just in time. A empresa, conforme as teorias sistêmica e contingencial, é tida como um sistema aberto, ou seja, que se relaciona e sofre pressões do ambiente, cujas dimensões de análise são: mão de obra disponível, tecnologia, governo, mercado, sindicatos, sistema financeiro, fornecedores, concorrentes, consumidores, sociedade em geral, etc., como se pode visualizar na Figura 2: Figura 2 – A Empresa Vista Como um Sistema Meio Ambiente EMPRESA Entradas: materiais Processo de Transformação Saídas: produtos serviços energia, etc. Fonte: Figura Extraída de Abreu e Abreu (2002). Já o sistema contábil é alimentado pelas entradas que constituem as movimentações nos elementos constitutivos do patrimônio da empresa, e podem ser expressas em valores monetários, e ainda constituem fatos que geram lançamentos contábeis, que são as entradas de dados para o sistema de informações contábeis. Esses sistemas podem também fornecer relatórios internos 2 Dado – qualquer elemento identificado em sua forma bruta. Informação – dado constituído de significados que permite ao executivo tomar uma decisão. 13 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert ou externos. Normalmente representam dados históricos que contribuem para a elaboração do orçamento, podendo, ainda, auxiliar na projeção de receitas, custos, despesas, financiamentos ou investimentos, que se constituem em instrumentos de ordem gerencial. O sistema de informações contábeis gera as demonstrações financeiras que normalmente são divulgadas para o conhecimento do público interessado, principalmente analistas, credores e investidores. Os demais instrumentos de caráter essencialmente gerencial destinam-se a subsidiar a alta administração no processo de planejamento, organização, direção e controle. Seção 1.3 Análise Financeira e Áreas Afins Devido a sua amplitude, a análise financeira de empresas relaciona-se a várias outras áreas, com destaque para Contabilidade, Administração Financeira, Economia, Direito e Estatística. A Contabilidade é um dos componentes curriculares mais intimamente relacionado com a análise financeira, uma vez que fornece as demonstrações financeiras que a ela servem de base. Inobstante, a análise financeira, para ser consistente, não pode limitar-se aos dados contábeis, devendo interpretá-los e explicá-los com base em conhecimentos que transcendem o âmbito da Contabilidade. É fundamental que se compare os dados contábeis com informações do ambiente externo à organização. Informações advindas de decisões governamentais, dos concorrentes, dos clientes, enfim, do macroambiente em que a organização está inserida. Desse modo, chamar a análise financeira de Análise de Balanços pode soar inadequado, uma vez que o balanço patrimonial é apenas uma das demonstrações financeiras que a análise financeira estuda e interpreta. Na realidade, a empresa mantém relação com diversos campos da ciência e do conhecimento. Ao mesmo tempo, internamente, a empresa é um todo, e em seu funcionamento a área financeira deve relacionar-se com diversas outras áreas, como marketing, produção e capital humano, por exemplo, cujas ações trazem efeitos financeiros. A área financeira tem como atribuição fornecer informações corretas, precisas e atualizadas às demais áreas, para que estas possam tomar decisões financeiramente corretas e adequadas. 14 EaD análise financeira Seção 1.4 Os Principais Usuários da Análise Financeira Ao se falar em análise financeira, não se pode deixar de mencionar o papel do analista financeiro. Em seu sentido mais genérico, o analista é qualquer profissional que desenvolva a análise financeira de uma empresa. O gerente de um banco, ao apreciar um pedido de crédito de um cliente, é um exemplo de analista financeiro. Ele irá considerar os aspectos econômicofinanceiros como sendo um dos elementos que irão embasar sua decisão entre emprestar ou não emprestar. Como a empresa se relaciona com todo o ambiente empresarial e social, este certamente apresenta muitos interessados em melhor conhecer o desempenho atual e a tendência dos resultados da companhia. Tanto o analista de investimentos quanto o analista de crédito, de instituição financeira ou não, desempenham funções externas às empresas analisadas. Há ainda os analistas internos, que cuidam da análise da própria instituição em que trabalham, quer com o propósito de subsídio ao processo de tomada de decisão, quer com a finalidade de comparar o desempenho da sua empresa com o dos concorrentes. A alta direção da empresa precisa de informações resumidas que possibilitem as tomadas de decisão mais rápidas e eficazes, enquanto as gerências intermediárias necessitarão de informações detalhadas sobre áreas que estão sob sua responsabilidade. Assim, o principal usuário das informações contábeis é, ou pelo menos deveria ser, a própria empresa. Há ainda vários outros usuários externos como os acionistas, investidores, bancos e instituições financeiras, fornecedores e clientes, governo e órgãos governamentais, sindicatos e associações de classe. Os acionistas ou quotistas de uma empresa nem sempre são as pessoas que a administram, pois podem delegar essa função a administradores profissionais. Já os investidores no mercado de capitais necessitam tomar decisões sobre qual ação comprar, quando vender, etc. Eles necessitam de dados técnicos e pareceres sobre as expectativas de risco e retorno das ações, como forma de melhor direcionar a aplicação de recursos. Os bancos e instituições financeiras, como intermediadores de dinheiro e financiadores de aquisição de bens, representam um grupo importante de usuários das demonstrações financeiras das empresas. É imprescindível que o profissional de banco tenha profundo conhecimento da área contábil-financeira, até porque precisa desfrutar de uma postura de total crédito em relação 15 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert à análise financeira. Dentro do contexto de que os bancos necessitam tomar decisões seguras, as informações devem fornecer expectativas confiáveis sobre a capacidade de pagamento do cliente, bem como de sua solidez. Da mesma forma que o banco, para emprestar dinheiro a seus clientes, necessita de informações seguras para decidir, os fornecedores de mercadorias, serviços e/ou matérias-primas ou componentes também necessitam avaliar o risco de crédito de seus compradores. O cliente também pode analisar seu fornecedor para conhecer sua solidez ou avaliar sua condição de suprir a empresa com matéria-prima numa situação de expansão ou ainda de pós-venda, como fornecer assistência técnica. O governo, por sua vez, tem um interesse bem particular, pois grande parte da arrecadação de tributos requer um sistema de apuração que se utiliza das informações contábeis. As demonstrações financeiras, bem como as informações prestadas aos vários órgãos do governo, constituem um importante banco de dados. Além disso, é desejo do Estado que as empresas contribuam para a geração de trabalho, renda e desenvolvimento local e regional. Por fim, as associações de classes e sindicatos também deveriam solicitar de seus associados suas demonstrações financeiras, objetivando desenvolver estudos e estatísticas sobre as características e o desempenho do segmento em que atuam. Do lado dos trabalhadores, as suas entidades de representação certamente se amparam em análises e desempenho do setor para requerer e reivindicar melhores condições de trabalho e renda aos seus filiados e a sua categoria. Seção 1.5 A Relevância da Informação Contábil-Financeira Como visto até agora, a informação contábil-financeira é imprescindível para o gerenciamento dos negócios atuais e planejamento do futuro, visando a subsidiar o processo decisório. Os demonstrativos contábeis e demais informações destinadas aos acionistas e aos diversos grupos de usuários interessados prestam grande contribuição na avaliação dos riscos e das potencialidades de retorno da empresa. As demonstrações financeiras representam um canal de comunicação da empresa com os diversos usuários internos e externos. 16 EaD análise financeira É importante definir o tipo de informação a que cada pessoa da organização pode ter acesso. Por mais completo que possa ser o sistema de informações, sempre haverá algumas que influenciam as decisões e que podem não constar de nenhum registro formal. 3 As informações contábeis, porém, apresentam algumas limitações. Como provêm de uma coleta de dados quantitativos, expressos em valores monetários, fica difícil demonstrar os dados referentes a aspectos não mensuráveis monetariamente, como perfil do quadro diretivo da empresa, potencialidades e ameaças do mercado, nível tecnológico, agressão ao meio ambiente provocada pela empresa e comprometimento desta com a satisfação de seus clientes e empregados.3 Outro problema sério enfrentado pelas empresas é a defasagem da informação. As análises normalmente são feitas com base em demonstrativos de anos anteriores, que podem, principalmente numa economia instável, não traduzir a situação atual da organização. Também a veracidade das informações pode ser questionada em algumas empresas que manipulam suas demonstrações financeiras. As limitações das informações contábeis, entretanto, não são suficientes para eliminar sua utilidade e o analista deve buscar informações complementares, mesmo que sejam indicadores não financeiros. Para os fins deste livro-texto e dos dados de balanço e DRE apresentados, vamos supor que os dados estejam atualizados para uma mesma data focal, e que estejam expressos em ambiente de economia estável. Seção 1.6 Contexto Legal e Fiscal da Empresa As empresas são regulamentadas por um conjunto de leis e normas que, entre outros aspectos, disciplinam a apresentação das demonstrações financeiras. Ao analista financeiro é necessário um conhecimento mínimo sobre o contexto legal e fiscal, em razão de suas implicações nos resultados e nas obrigações das empresas. 3 Disponível em: <http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/e-legal/2011/10/07/sigilo-bancario/>. Acesso em: 12 maio 2012. 17 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Sob o aspecto jurídico, o homem se organiza de formas diferentes para produzir bens e serviços. No quadro a seguir, extraído de Pereira da Silva (2010, p. 44), constam as principais formas de organizações jurídicas conforme a legislação brasileira: Quadro 1 – Formas de Organizações Jurídicas Conforme a Legislação Brasileira Empresário Não Personificada Sociedade Personificada Em comum Em conta de participação Limitada Fechada Anônima Aberta Em nome coletivo Em comandita simples Em comandita por ações Cooperativas Pode ser Empresária Simples Sim Sim Deve ser Não Deve ser Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Deve ser Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 44). Empresário, conforme o Código Civil, é aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada para produção ou circulação de bens ou serviços, sendo obrigatória a sua inscrição no registro público de empresas mercantis. Anteriormente ao novo Código Civil era chamado de empresa individual, que era aquela em que havia um único dono, isto é, o proprietário. Sua responsabilidade é sempre ilimitada, o que significa que ele responde não só com os bens da empresa, mas também com todos os seus bens particulares. As principais vantagens são: todo o lucro fica para o proprietário; a manutenção do sigilo é mais fácil e sua dissolução é simplificada. Como desvantagens, podemos citar: responsabilidade ilimitada do dono; limitação na obtenção de recursos; pouca oportunidade para os empregados; atividades concentradas na mão do proprietário e desaparecimento com a morte deste. Mesmo, contudo, havendo obrigatoriedade de registro na receita federal (CNPJ), a firma individual não é caracterizada como sociedade. Também segundo o Código Civil, temos a sociedade empresária e a sociedade simples. A sociedade empresária é aquela que tem por objeto o exercício da atividade própria de empresário, sujeita à inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis. Por outro lado, a sociedade simples deverá requerer sua inscrição no Registro Civil de Pessoas Jurídicas de sua sede. As sociedades classificam-se ainda como não personificadas e personificadas. O grupo de sociedade não personificada compreende a sociedade em comum e a sociedade em conta de participação. 18 EaD análise financeira Sociedade em comum, regida pelos artigos 986 a 990 do Código Civil, é a sociedade que não possui seus atos constitutivos devidamente registrados nos órgãos competentes. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluídos do benefício da ordem. Sociedade em conta de participação, regida pelos artigos 991 a 996 do Código Civil. Ocorre quando duas ou mais pessoas unem-se sem razão social para a realização comum de uma ou mais operações do comércio, findas as quais a sociedade desaparece. Os sócios realizam operações em seus nomes e a sociedade só é conhecida por seus participantes. Seus sócios podem ser ostensivos ou ocultos. Os ostensivos são aqueles que se obrigam perante terceiros. Os ocultos obrigam-se perante os ostensivos. No grupo de sociedade personificada, das quais as mais comuns são as limitadas e as sociedades anônimas, essas tanto podem prestar serviços quanto praticar a venda mercantil ou produzir bens. Seu registro é feito na Junta Comercial. A sociedade limitada é regida pelos artigos 1.052 a 1.087 do Código Civil. De modo genérico, a sociedade limitada tende a ser empresa de porte pequeno ou médio. Nada impede, entretanto, que uma limitada possa ser de grande porte. Muitas empresas brasileiras de maior porte optam por este tipo de sociedade justamente para evitar a obrigação legal de divulgarem suas demonstrações financeiras. Elas possuem seu capital dividido em quotas. Em princípio, cada sócio responde pelas quotas de capital que subscreveu e, no caso de falência, também pela totalidade do capital não integralizado. Como vantagens, comparativamente ao empresário individual, as sociedades por quotas de responsabilidade limitada têm mais facilidade de obtenção de empréstimos e melhores condições para reter bons empregados, comparativamente à sociedade empresária. A sociedade anônima é regida pelos artigos 1.088 e 1.089 do Código Civil e pela Lei Nº 6.404, de 15/12/1976 e suas alterações. É uma sociedade impessoal, não considera as aptidões pessoais de seus acionistas. A sociedade anônima tem seu capital social dividido em ações e a responsabilidade do acionista é limitada ao valor das ações que subscreveu. Seu capital pode ser aberto ou fechado. As sociedades anônimas de capital aberto têm suas ações negociadas em Bolsas de Valores e possuem uma série de obrigações de divulgação de informações destinadas ao mercado de capitais, sendo fiscalizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As sociedades anônimas de capital fechado não têm suas ações negociadas em Bolsa de Valores e, geralmente, têm menos obrigação de divulgar informações. 19 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert De modo geral, as sociedades anônimas têm como vantagens: maior possibilidade de obtenção de fundos por meio da colocação de ações no mercado, maior facilidade de transferência (negociação) das ações, via Bolsa de Valores e, portanto, vida longa da empresa, melhores condições para manter uma administração profissional e maior capacidade de expansão (Pereira da Silva, 2010, p. 46). Como desvantagens, apresentam as seguintes: maiores gastos organizacionais; maior controle por parte do governo, obrigatoriedade de divulgação (por meio da CVM) de informação e de prestação de contas ao mercado, aos analistas e aos acionistas. A Lei Nº 11.638/07 determinou a obrigatoriedade de as empresas de grande porte elaborarem demonstrações contábeis semelhantes às sociedades por ações, ainda que não estejam constituídas como sociedade por ações. Além da sociedade limitada e da sociedade anônima, existem outros tipos de sociedades personificadas, que aparecem em menor escala, como: Sociedade em nome coletivo, regida pelos artigos 1.039 e 1.044 do Código Civil. Somente pessoas físicas podem tomar parte nesse tipo de sociedade. Os sócios têm responsabilidade solidária e ilimitada. Qualquer responsabilidade assumida por qualquer sócio obriga os demais. Os bens particulares dos sócios respondem pelas dívidas da sociedade. A administração da sociedade compete exclusivamente aos sócios. A razão social é composta pelo nome de um, de alguns ou de todos os sócios. Quando dela não constarem os nomes de todos os sócios, deve vir acrescida da expressão “& Companhia”. Sociedade em comandita simples, regida pelos artigos 1.045 a 1.051 do Código Civil. Os sócios comanditados, pessoas físicas, possuem responsabilidade solidária e ilimitada pelas obrigações. Os sócios comanditários possuem responsabilidade limitada à quota do capital que subscreveram. Na razão social pode constar o nome de um, de alguns ou de todos os sócios comanditados. Quando não constar o nome de todos, é seguida da expressão “& Companhia”. Sociedade em comandita por ações, regida pelos artigos 1.090 a 1.092 do Código Civil e pelas normas das sociedades anônimas. Somente o acionista que tem qualidade para administrar a sociedade como diretor responde solidária e ilimitadamente. Os acionistas comanditários possuem responsabilidade limitada à quota do capital que subscreveram. Na razão social, pode constar o nome de um, de alguns ou de todos os sócios comanditados. Quando não constar o nome de todos, é seguida da expressão “& Companhia”. Sociedade cooperativa, regida pelos artigos 1.093 a 1.096 do Código Civil. Entre outras características, tem a intransferibilidade de suas quotas de capital de terceiros, ainda que por herança. A sociedade cooperativa será sempre do tipo simples, independentemente de seu obje20 EaD análise financeira tivo social. Esta sociedade segue também a legislação específica voltada ao cooperativismo. Para maiores detalhes pesquisar em: lei 5.764, de 16/12/1971, que define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas e dá outras providências. Síntese da Unidade 1 Nesta Unidade você teve a oportunidade de entender melhor as premissas básicas da análise financeira, a partir do estudo da empresa e sua estrutura de informações, suas áreas afins, os seus principais usuários, a importância da informação contábil-financeira e ainda o contexto legal e fiscal da empresa. 21 EaD Unidade 2 análise financeira ETAPAS DO PROCESSO DE ANÁLISE FINANCEIRA OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender o trabalho de preparação dos dados para análise financeira com destaque para a revisão dos demonstrativos financeiros da empresa, uma vez que a análise financeira exige uma elaboração preliminar das peças contábeis, a chamada padronização das demonstrações contábeis, considerada uma etapa que antecede a análise propriamente dita. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 2.1 – Coleta e Conferência da Documentação Seção 2.2 – Preparação e Processamento das Demonstrações Financeiras Seção 2.3 – Análise e Conclusão Nesta Unidade, vamos tratar de todas as etapas que envolvem o trabalho de análise, indo desde a obtenção dos dados e informações que a sustentam, até a elaboração de um parecer final e conclusivo sobre a situação econômico-financeira da empresa analisada. A análise das demonstrações financeiras exige uma preparação preliminar das peças contábeis. O processo de análise como um todo obedece a uma sequência, conforme segue: a)Coleta de documentação para análise. b)Conferência da documentação recebida. c)Padronização das demonstrações financeiras: ajustes na estrutura e nos valores. d)Análise propriamente dita: •Cálculo dos indicadores e obtenção de relatórios. •Análise dos indicadores e relatórios. •Conclusão e elaboração de pareceres. 23 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert A análise financeira de uma empresa, no entendimento de Pereira da Silva (2010, p. 6), consiste num minucioso exame dos dados financeiros disponíveis sobre a organização, bem como das condições endógenas e exógenas que a afetam financeiramente. Dados financeiros disponíveis são as demonstrações contábeis, programas de investimentos, projeções de vendas e projeções de fluxo de caixa. Como condições endógenas, podemos citar estrutura organizacional, capacidade gerencial e nível tecnológico da empresa. Como condições exógenas, temos fatores de ordem política e econômica, concorrência e fenômenos naturais, entre outros. As demonstrações contábeis são apenas canais de informação sobre a empresa, tendo como objetivo principal subsidiar a tomada de decisão. A análise financeira de uma empresa envolve basicamente as seguintes atividades: Figura 1 – Etapas Básicas da Análise Financeira Coletar → Conferir → Preparar → Processar → Analisar → Concluir Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 6). Seção 2.1 Coleta e Conferência da Documentação O produto da análise financeira depende diretamente da completude e confiabilidade dos dados e informações coletadas. De nada adianta produzirmos indicadores a partir de valores que não representam a realidade do negócio sob análise. Quando se trata de companhias sob a supervisão da Comissão de Valores Mobiliários – CVM –, o trabalho do analista fica facilitado, uma vez que os demonstrativos contábeis, além de obedecerem a um padrão definido, passam pelo crivo de auditorias externas independentes, trazendo maior confiabilidade às informações. Não podemos esquecer, contudo, daquelas empresas não auditadas ou que nem mesmo apresentam ou elaboram demonstrativos contábeis. Nesses casos, o trabalho do analista tornase mais árduo, uma vez que cabe a ele checar os valores apresentados ou mesmo construir os demonstrativos para análise. Neste momento de coleta e análise da documentação, uma peça muito importante a ser estudada são as Notas Explicativas, obrigatórias para as companhias abertas, e que tem como objetivo clarear e explicar a composição de algumas contas patrimoniais, assim como discorrer 24 EaD análise financeira sobre as práticas e critérios contábeis empregados na elaboração dos demonstrativos. Trata-se de uma leitura prévia obrigatória, que irá facilitar e melhor fundamentar o trabalho e as conclusões do analista. Seção 2.2 Preparação e Processamento das Demonstrações Financeiras A preparação e o processamento das demonstrações financeiras para fins de análise têm por finalidade levar as peças contábeis a uma padronização que atenda às diretrizes técnicas internas da instituição ou do profissional que esteja desenvolvendo a análise, atendendo a determinada finalidade, como subsidiar decisões de investimentos ou de crédito, entre outros objetivos. Há todo um aparato legal e conceitual que orienta os profissionais da área contábil na elaboração das demonstrações financeiras. A legislação comercial, tributária, a Comissão de Valores Mobiliários (CMV), o Conselho Federal de Contabilidade, o Instituto Brasileiro de Contadores (Ibracon), são alguns dos órgãos nacionais que cuidam de normas contábeis. Na esfera internacional o Ifac (Internacional Federation of Accounting), o Iasc (Internacional Accouting Standards Committee) e até a Organização das Nações Unidas são exemplos de instituições que têm preocupação com a qualidade das informações e que emitem normas e orientações de natureza contábil. No momento, o mundo discute a instituição das Normas Internacionais de Contabilidade – International Accounting Standard – também divulgadas pela sigla IFRS – International Financial Reporting Standard – em parte, objeto da Lei 11.638/07. Esta lei aproximou a contabilidade brasileira aos padrões internacionais. Assim, as exigências externas da legislação, dos Princípios Contábeis geralmente aceitos e de outras normas, visando a regulamentar os procedimentos contábeis, têm grande validade, na medida em que possam transmitir segurança ao analista quanto às técnicas adotadas pela empresa na elaboração das demonstrações financeiras. Como já foi mencionado anteriormente, a reclassificação ou padronização das demonstrações financeiras tem como objetivo trazê-las a um padrão de procedimento e de ordenamento na distribuição das contas, visando a diminuir as diferenças nos critérios utilizados pelas empresas 25 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert na apresentação de tais demonstrações. Outro objetivo é fazer com que as demonstrações atendam às necessidades de análise e sejam apresentadas de forma simples de visualizar e fácil de entender. A reclassificação, portanto, tem a finalidade de: trazer todas as demonstrações financeiras a um mesmo critério, permitindo a comparabilidade entre empresas; fornecer o detalhamento necessário às diversas etapas do processo de análise, adequando-se a uma política interna que foi adotada pela empresa ou pelo analista; fornecer índices e indicadores isentos dos efeitos dos diferentes critérios adotados por diferentes empresas na elaboração de suas demonstrações financeiras e aprimorar conceitualmente a classificação de um valor com vistas a uma posição cautelosa, na interpretação do analista. Seção 2.3 Análise e Conclusão A fase da análise consiste do estudo das informações disponíveis, principalmente dos relatórios e indicadores já obtidos, compreendendo a consistência das informações, a observação das tendências apresentadas pelos números e todas as demais conclusões que possam ser extraídas do processo. Esta é uma etapa que exige muito da capacidade de observação, do conhecimento e experiência do analista. Nessa fase, portanto, há dois focos principais: o primeiro diz respeito à análise da empresa e dos diversos fatores relacionados a seu risco; já o segundo refere-se à transação que pretendemos, por exemplo, a compra de ações ou a aprovação de operação ou de limite de crédito. Ainda na etapa de análise vamos estudar os conceitos e a operacionalização tanto da análise vertical e horizontal quanto da chamada análise por índices ou indicadores. O desenvolvimento da análise das demonstrações financeiras tem como objetivo compreender e avaliar os seguintes aspectos, entre outros: a)capacidade de pagamento da empresa mediante a geração de caixa; b)capacidade de remunerar os investidores gerando lucro em níveis compatíveis com suas expectativas; c)nível de endividamento, motivo e qualidade do endividamento; 26 EaD análise financeira d)políticas operacionais e seus impactos na necessidade de capital de giro da empresa; e)impacto das decisões estratégicas relacionadas a investimentos e financiamentos. Sem prejuízo de um parecer final sobre a situação geral da empresa, a ser produzido no final da análise, à medida que formos apresentando cada um dos métodos e produzindo os respectivos indicadores, comentaremos a respeito do seu conceito e interpretação. Ressaltamos que os comentários e colocações deste texto, para aprofundamento dos conhecimentos, devem ser complementados com as leituras indicadas nas referências. É importante ressaltar que a análise financeira não pode ser limitada apenas aos indicadores desta natureza financeira, pois há uma série de fatores que, mesmo não podendo ser chamados de financeiros, causam impacto na saúde financeira da empresa. 1 A etapa que passamos a concluir é uma das fases mais importantes da análise, consistindo em identificar, ordenar, destacar e escrever sobre os principais pontos e recomendações acerca da empresa.1 Precisamos ter presente que não basta ser um bom analista, é preciso saber expor seu parecer em linguagem simples, clara, consistente, de modo que o usuário da análise, pela leitura do relatório, conheça a empresa e possa tomar decisões sobre a mesma. Nesse sentido, vale ressaltar que o conhecimento prévio do objetivo da análise é fundamental para o analista no direcionamento e conclusão de seu trabalho. Síntese da Unidade 2 Nesta Unidade você pôde entender melhor a etapa preparatória que antecede a análise financeira propriamente dita, considerando a coleta e conferência das demonstrações financeiras e a sua devida preparação e processamento para posteriormente iniciar a análise das informações. 1 Disponível em: <http://www.forex89.com/analise-fundamental/>. Acesso em: 12 maio 2012. 27 EaD Unidade 3 análise financeira AS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender o significado e as relações entre os principais demonstrativos financeiros, considerando a legislação, o ambiente normativo e a obrigatoriedade das demonstrações contábeis, bem como a harmonização dos procedimentos contábeis brasileiros com os padrões internacionais, com destaque para o estudo da estrutura do balanço patrimonial e da demonstração de resultados do exercício. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 3.1 – Fundamentação Legal Seção 3.2 – Estrutura do Balaço Patrimonial Seção 3.3 – Estrutura da Demonstração de Resultados do Exercício Seção 3.1 Fundamentação Legal A obrigatoriedade das demonstrações financeiras, além da exigência do Código Civil já mencionado, está previsto no artigo 176 da Lei nº 6.404, de dezembro de 1976 (com as modificações introduzidas pela Lei nº 11.638, de dezembro de 2007), que estabelece: Ao fim de cada exercício social, a Diretoria fará elaborar, com base na escrituração mercantil da companhia, as seguintes demonstrações financeiras, que deverão expressar com clareza a situação patrimonial da companhia e as mutações no exercício: I – balanço patrimonial; II – demonstração do resultado do exercício; 29 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert III – demonstrações dos lucros ou prejuízos acumulados ou demonstração das mutações do patrimônio líquido; IV – demonstração dos fluxos de caixa e VI – se companhia aberta, demonstração do valor adicionado. O principal objetivo da Lei nº 11.638/07 foi a busca de uma convergência contábil internacional, visando, portanto, ao benefício do acesso das empresas brasileiras a capitais externos a um custo e uma taxa de risco menores. Seção 3.2 Estrutura do Balanço Patrimonial A Contabilidade retrata, por meio do balanço, a situação patrimonial da empresa em determinada data, propiciando aos analistas o conhecimento de seus bens e direitos, de suas obrigações e de sua estrutura patrimonial. Em suma, o balanço retrata a posição patrimonial da organização em determinado momento, composta por bens, direitos e obrigações. É a fotografia da empresa em determinado momento, normalmente por ocasião do encerramento do exercício social. O Balanço Patrimonial, uma das principais peças de análise financeira, no entendimento de Pereira da Silva (2010, p. 74), retrata a posição patrimonial da empresa em determinado momento, composta por bens, direitos e obrigações. 1 O ativo mostra onde a empresa aplicou os recursos, ou seja, os bens e direitos que possui. O passivo e o patrimônio líquido revelam de onde vieram os recursos, isto é, os recursos provenientes de terceiros e os próprios. Os recursos próprios podem ser originários de capital colocado na empresa pelos sócios ou de lucro gerado pela empresa e reinvestido nela. No quadro a seguir podemos verificar esquematicamente como apresentar o balanço.1 1 Disponível em: <http://www.quebarato.com.br/servicos.html?q=Balan%C3%A7o>. Acesso em: 12 maio 2012. 30 EaD análise financeira Quadro 1 – Estrutura Conceitual do Balanço Patrimonial Ativo Passivo + Patrimônio Líquido Indica onde a empresa aplica os recursos de que dispõe. Indicam de onde provêm os recursos utilizados pela empresa, isto é, quais são as fontes que os fornecem. Assim, compreende: Assim, os recursos podem ser provenientes de: • bens e • Terceiros (dívidas): • direitos ** curto prazo ** longo prazo • Próprios ** dos sócios ** dos lucros Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 74). Denomina-se ativo ou patrimônio bruto ao conjunto de bens e direitos possuídos por um agente econômico em determinado momento – o momento da apuração do Balanço Patrimonial. No ativo, as Contas, representativas dos bens e direitos que registram, estão devidamente dispostas e agrupadas em ordem decrescente de grau de liquidez, conforme previsto no artigo 178 da Lei 6.404. Dá-se a denominação de passivo à listagem das obrigações ou exigibilidades da empresa, que financiam as aplicações demonstradas no ativo ou patrimônio bruto, num determinado momento, ou seja, o momento da apuração do Balanço Patrimonial. No passivo, as Contas, representativas das obrigações ou exigibilidades que registram são devidamente dispostas em ordem decrescente de exigibilidade, também ordenadas de acordo com o artigo 178 da Lei 6.404. Denomina-se patrimônio líquido a enumeração e especificação dos recursos próprios da empresa, que se encontram aplicados no ativo ou patrimônio bruto no momento da apuração do Balanço Patrimonial. O Patrimônio Líquido, ou Capital Próprio, ou ainda, Situação Líquida da empresa, vem a ser a diferença entre o ativo e o passivo exigível ou, dito de outra forma, entre bens e direitos e correspondentes obrigações da empresa. A seguir apresentamos a estrutura básica do balanço patrimonial. 31 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Quadro 2 – Estrutura Legal do Balanço Patrimonial Fonte: Adaptado de Pereira da Silva (2010, p. 96). 32 EaD análise financeira 3.2.1 – Ativo As contas do ativo estão dispostas segundo uma suposta ordem de liquidez ou de conversibilidade. Assim, as contas com maior liquidez são as que aparecem na parte superior do ativo e as de mais difícil realização na parte inferior. Por exemplo, o dinheiro (que é o ativo mais líquido) que a empresa possui em caixa na data do balanço é classificado no ativo circulante, enquanto os equipamentos que a empresa usa na produção são classificados no ativo imobilizado. Esse critério é adotado no Brasil e em outros países para classificar os bens e direitos da empresa no ativo 3.2.1.1 – Ativo Circulante O primeiro grupo de ativo, Ativo Circulante, compreende as disponibilidades, os direitos realizáveis no exercício social subsequente e as aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte. As disponibilidades são compostas pelos recursos financeiros possuídos pela empresa que podem ser utilizados imediatamente, sem restrições, tais como: caixa, bancos conta movimento, aplicações de liquidez imediata. Os direitos realizáveis no exercício social subsequente expressam as contas a receber de clientes, a provisão para devedores duvidosos, os estoques, as aplicações de liquidez não imediata, os adiantamentos a fornecedores e outros valores a receber. As despesas do exercício seguinte representam algumas despesas antecipadas e que competem ao exercício social subsequente. 3.2.1.2 – Ativo Não Circulante O ativo não circulante compreende o ativo realizável a longo prazo, investimentos, imobilizado e o intangível. O realizável a longo prazo é composto pelas rubricas que tiverem prazo de realização após o término do exercício seguinte ao do balanço, ou seja, demorarem mais de um ano para serem recebidas. Os investimentos podem ser separados em dois grandes grupos: as participações permanentes em outras sociedades e os direitos não classificados no ativo circulante. O imobilizado compreende os direitos que tenham por objeto bens destinados à manutenção das atividades da empresa, ou exercidos com essa finalidade, inclusive os de propriedade industrial e comercial. É representado por bens tangíveis que sejam utilizados nas atividades da empresa e que não sejam destinados à venda. São exemplos os imóveis e terrenos, máquinas e equipamentos, equipamentos de informática, veículos, móveis e instalações, imobilizações em andamento, entre outros. 33 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert O intangível, como o próprio nome diz, é representado por bens incorpóreos, como o valor da marca, os investimentos em capacitação técnica dos empregados e os sistemas de informatização. 3.2.2 – Passivo O passivo representa as fontes de recursos utilizadas pela empresa, podendo tais recursos ser provenientes de terceiros (dívidas) ou dos sócios por meio de aporte de capital ou de lucro gerado pela própria empresa. 3.2.2.1 – Passivo Circulante O passivo circulante compreende obrigações vencíveis no exercício social seguinte. As contas mais frequentes são: fornecedores, salários e encargos sociais, impostos e taxas, empréstimos de curto prazo junto a instituições financeiras, debêntures a curto prazo, e outros. 3.2.2.2 – Passivo não circulante Estas obrigações, identificadas como de longo prazo, são caracterizadas por terem seus vencimentos após o término do exercício seguinte, isto é, num prazo superior a um ano. As mais frequentes são: financiamentos de longo prazo, debêntures de longo prazo, tributos parcelados, dentre outros. 3.2.2.3 – Patrimônio Líquido Por fim, no passivo consta o Patrimônio Líquido, ou seja, a parte da empresa que pertence a seus proprietários. Ele representa as fontes próprias à disposição da empresa. É subdividido em: Capital Social – no caso das sociedades anônimas, o capital social é representado pelas ações. Quando se trata de uma sociedade limitada, o capital é dividido em quotas. Na subscrição, o acionista, sócio ou quotista assume o compromisso perante a própria empresa de participar de seu capital social, adquirindo determinada quantidade de ações ou de quotas. A integralização do capital ocorre quando o sócio ou acionista efetua o pagamento à empresa pelas ações ou quotas que havia subscrito. Capital a integralizar representa as parcelas de capital que foram subscritas pelos acionistas ou proprietários das empresas e que ainda não foram integralizadas. É uma conta redutora do “capital subscrito”. 34 EaD análise financeira Reservas de capital – constituem-se numa espécie de reforço ao capital social, podendo advir de ágio na emissão de ações, alienação de partes beneficiárias, alienações de bônus de subscrição, prêmio recebido pela emissão de debêntures, doação de bens e subvenções recebidas pelas empresas, entre outros. Reservas de Lucros – são constituídas a partir do lucro da empresa. Ações em tesouraria – são as ações adquiridas pela própria empresa, cujo valor deve ser deduzido do patrimônio líquido. Ajustes de Avaliação Patrimonial – referem-se à contrapartida de reavaliações efetuadas nos bens e obrigações da empresa. Entende-se por reavaliação de bens aqueles ajustes processados em seus valores como decorrência de laudos de avaliações elaborados por especialistas e/ ou auditores independentes. Essas reavaliações visam a trazer ativos e passivos a preços justos ou de mercado. Um aspecto importante do arcabouço contábil das organizações é o seu Plano de Contas, cujos códigos representam o principal elemento de organização, conforme pode ser observado no Balanço Patrimonial da Empresa Alfha: Quadro 3 – Balanço Patrimonial da Empresa Alfha Código 1 1.01 1.01.01 1.01.02 1.01.03 1.01.04 1.02. 1.02.01 1.02.02 1.02.03 1.02.03 2 2.01 2.01.01 2.01.02 2.01.03 2.01.04 2.01.05 2.01.06 2.02 2.02.01 2.02.02 2.02.03 3 3.01 3.02 3.03 Balanço Patrimonial Ativo Total – AT Ativo Circulante – AC Disponibilidades Créditos/Contas a receber/DR Estoques Outros Ativo Não Circulante – ANC Realizável a Longo Prazo – RLP Investimentos Imobilizado Intangível Passivo Total Passivo Circulante – PC Empréstimos e Financiamentos Fornecedores Impostos, Taxas e Contribuições Dividendos a Pagar Provisões Outros Passivo Não circulante – PNC Empréstimos e Financiamentos Provisões Outros Patrimônio Líquido – PL Capital Social Integralizado Reservas Lucros/Prejuízos Acumulados 20X1 3.807 2.206 859 583 587 178 1.601 232 16 1.254 99 3.807 1.187 576 349 50 14 68 130 1.336 1.182 133 22 1.284 901 128 254 20X2 5.071 2.889 1.177 737 675 301 2.182 251 21 1.747 163 5.071 1.355 574 511 50 45 75 100 1.506 1.351 125 70 2.210 1.601 221 388 20X3 6.871 3.957 1.862 844 908 342 2.914 267 141 2.244 262 6.871 2.039 1.104 604 58 1 84 187 1.445 1.275 131 40 3.387 1.948 339 1.101 Fonte: Elaborado pelos autores. 35 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 3.3 Estrutura da Demonstração de Resultados do Exercício A demonstração de resultados mostra o lucro ou o prejuízo obtido pela empresa no período. Expressa o desempenho econômico, por meio das receitas, dos custos e despesas de um período. É uma demonstração dos aumentos e reduções causados no Patrimônio Líquido pelas operações da empresa. As receitas representam normalmente aumento do Ativo, mediante ingresso de novos elementos. As despesas representam redução do Patrimônio Líquido, por meio da redução do ativo, ou do aumento do passivo exigível. Cabe salientar que a DRE retrata apenas o fluxo econômico e não o fluxo monetário (fluxo de dinheiro). Para a DRE não importa se uma receita ou despesa tem reflexos em dinheiro, basta apenas que afete o Patrimônio Líquido, entre duas datas. É apresentada de forma dedutiva (vertical), ou seja, das receitas subtraem-se os custos e as despesas e em seguida indica-se o resultado (lucro ou prejuízo). Veja o quadro a seguir. Quadro 4 – Estrutura legal da Demonstração do Resultado do Exercício D E M O N S T R A Ç Ã O D O R E S U LTA D O D O E X E R C ÍC IO R E C E ITA O P E R A C IO N A L B R U TA ( - ) Ve n d a s c a n c e la d a s ( - ) A b a tim e n to s s o b re v e n d a s ( - ) Im p o s to s s o b re v e n d a s R E C E ITA O P E R A C IO N A L L ÍQ U ID A ( - ) C u s to d o s p ro d u to s , m e rc a d o ria s o u s e rv iç o s v e n d id o s LU C R O B R U TO ( - ) D espesas com vendas ( - ) D e s p e s a s a d m in is tra tiv a s ( - ) D e s p e s a s g e ra is ( -/+ ) O u tra s d e s p e s a s e /o u re c e ita s o p e ra c io n a is R E S U LTA D O D A S AT IV ID A D E S D A E M P R E S A ( + /- ) R e s u lta d o d a e q u iv a lê n c ia p a trim o n ia l R E S U LTA D O A N T E S D A S D E S P E S A S E R E C E ITA S F IN A N C E IR A S ( + /- ) D e s p e s a s e /o u re c e ita s fin a n c e ira s (v a ria ç ã o ) R E S U LTA D O A N T E S D O S T R IB U T O S S O B R E O L U C R O ( - ) D e s p e s a s c o m trib u to s s o b re o s lu c ro s ( - ) P a rtic ip a ç õ e s L U C R O L ÍQ U ID O D O E X E R C ÍC IO L U C R O L ÍQ U ID O P O R A Ç Ã O Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 126). 3.3.1 – Receita Operacional A receita operacional decorre das operações normais e habituais da empresa. Se a empresa é industrial ou comercial, decorre das vendas das mercadorias, se é de prestação de serviços, decorre dos serviços prestados. A Medida Provisória nº 449/08 não segregou os resultados em operacionais e não operacionais, deixando estes de existirem conceitualmente. 36 EaD análise financeira Receita operacional bruta: representa o faturamento bruto da empresa, também denominada de vendas brutas. Estas vendas ocorrem durante o ano e os preços unitários da venda de determinados produtos podem variar ao longo do próprio exercício social. Nas empresas prestadoras de serviços, o faturamento pode ser em função dos serviços prestados ou postos à disposição do cliente, ou mesmo de tarefas concluídas ou de horas trabalhadas. Vendas canceladas: são aquelas decorrentes das devoluções efetuadas pelos clientes, em razão de os produtos não atenderem a suas especificações, apresentarem defeitos, ou por qualquer outro motivo. São aquelas vendas que não se efetivaram de fato, e que, por razões de registro contábil, assim são denominadas. Abatimentos sobre vendas: são decorrentes de descontos especiais concedidos aos clientes em virtude de defeitos apresentados, por exemplo. Impostos incidentes sobre vendas: no caso de impostos incidentes sobre vendas, trata-se de valores que foram transferidos pela empresa para os governos federal (IPI), estadual (ICMS) ou municipal (ISS), por exemplo. A empresa é mera depositária destes recursos, porém eles são registrados na Contabilidade. Receita operacional líquida: é efetivamente a parte da receita que ficará para a empresa cobrir seus custos e despesas e para gerar lucro. Em síntese, a receita operacional bruta é gerada pela dedução das devoluções, abatimentos e impostos incidentes sobre vendas da receita operacional bruta conforme podemos visualizar no quadro a seguir. Quadro 5 – Receita Operacional Bruta RECEITA OPERACIONAL BRUTA ( - ) Vendas canceladas ( - ) Abatimentos sobre vendas ( - ) Impostos sobre vendas RECEITA OPERACIONAL LÍQUIDA Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 129). 3.3.2 – Custo dos produtos, mercadorias ou serviços vendidos A expressão “custo das vendas” é bastante genérica, devendo, por essa razão, ser especificada por setor da economia: •Para empresas industriais o custo das vendas é denominado Custo dos Produtos Vendidos (CPV) 37 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert •Para as empresas comerciais o custo das vendas é denominado Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) •Para as empresas prestadoras de serviços o custo das vendas é denominado Custo dos Serviços Prestados (CSP) 3.3.3 – Lucro Bruto É a diferença entre a receita operacional líquida e o custo dos produtos, mercadorias ou serviços vendidos. A chamada margem bruta das vendas é a relação percentual entre o lucro bruto e a receita operacional líquida. Quadro 6 – Lucro Bruto RECEITA OPERACIONAL LÍQUIDA ( - ) Custo dos produtos, mercadorias ou serviços vendidos LUCRO BRUTO Fonte: Pereira da Silva (2010, p. 131). 3.3.4 – Despesas operacionais Despesas operacionais são as necessárias para vender os produtos, administrar a empresa e financiar as operações. Enfim, são todas as despesas que contribuem para a manutenção da atividade operacional da empresa. Seus principais grupos são especificados a seguir: Despesas com vendas: abrangem desde a promoção do produto até sua colocação junto ao consumidor (comercialização e distribuição). São despesas com o pessoal da área de vendas, comissões sobre vendas, salários e encargos do pessoal da área de vendas, aluguéis relativos aos escritórios de vendas, material de escritório, propaganda e publicidade, marketing. Também a provisão para devedores duvidosos é considerada uma despesa operacional com vendas, porém não dedutível para fins de apuração do lucro tributável. Despesas administrativas: são aquelas necessárias para administrar (dirigir) a empresa. De maneira geral, são gastos nos escritórios que visam à direção ou à gestão da empresa. Podem ser citados como exemplo: honorários administrativos, salários e encargos sociais do pessoal administrativo, aluguéis dos escritórios, materiais do escritório, seguro do escritório, depreciação de móveis e utensílios, assinatura de jornais e periódicos, etc. 38 EaD análise financeira Despesas gerais: as despesas com vendas e administração mencionadas nos tópicos anteriores constituem as principais despesas operacionais da empresa. Assim sendo, nos casos excepcionais em que as despesas gerais sejam elevadas, será necessário que o analista busque esclarecimentos sobre a sua natureza. Outras despesas e receitas: com a eliminação das despesas não operacionais, as entidades deverão apresentar as “outras receitas/despesas” no grupo operacional, ao invés de após a linha operacional. Assim, a nova estrutura contábil não adota as despesas e receitas não operacionais, possibilitando seu agrupamento em “outras despesas e receitas”. Para fins de análise financeira, avaliação de empresas e tomada de decisão, as despesas e as receitas devem ser tratadas como operacionais quando forem recorrentes. Resultado de equivalência patrimonial: Conforme o artigo 248 da Lei 6.404, é obrigatório o uso do método da equivalência patrimonial para avaliação dos investimentos relevantes em sociedades coligadas, sob cuja administração tenha influência significativa ou de que participe com 20% ou mais do capital social, e em sociedades controladas. Por este método, a empresa investidora irá reconhecer em sua demonstração de resultado uma parcela do lucro ou prejuízo da empresa na qual tem investimentos, na proporção de sua participação no capital da outra. Resultado antes das receitas e despesas financeiras: este totalizador é sugerido na norma da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que tem por finalidade expressar o resultado antes de computar o resultado financeiro. Despesas e receitas financeiras: as despesas financeiras decorrem dos empréstimos e financiamentos que a empresa tem ou teve no período junto aos credores. As receitas financeiras decorrem fundamentalmente das aplicações financeiras feitas pela empresa no período. Também são contabilizados como receitas financeiras os descontos obtidos por antecipação de pagamentos a fornecedores. Imposto sobre o lucro: representa o imposto de renda do exercício que é uma percentagem do lucro tributável. Cabe destacar que o lucro tributável (chamado pela Receita Federal de lucro real) difere do lucro contábil que aparece na demonstração de resultado. Segundo a legislação fiscal, o lucro real (tributável) é o lucro líquido do exercício, mais as despesas não dedutíveis (consideradas na apuração do lucro líquido), menos os valores autorizados na apuração do lucro líquido, menos as receitas não tributáveis. Considerando que a legislação fiscal é muito dinâmica no Brasil, apresentando mudanças com relativa frequência, é recomendável que o analista procure acompanhá-la com atenção para estar a par das possíveis mudanças. Participações: compreende as participações estatutárias, que representem parcelas dos lucros destinadas a empregados, diretores, debenturistas ou a portadores de partes beneficiárias, por exemplo. 39 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert 3.3.5 – Lucro líquido do exercício O lucro líquido indica o resultado do exercício após computar a totalidade das receitas de vendas, a dedução dos custos dos produtos, mercadorias ou serviços vendidos, a dedução das despesas operacionais, as receitas e despesas financeiras em geral, o resultado de equivalência patrimonial, o imposto de renda, a contribuição social e as participações. O lucro líquido, portanto, é a parcela do resultado do período que sobrou para os acionistas, os sócios ou os quotistas. O lucro líquido terá sua destinação orientada pelo estatuto ou contrato social da empresa, observadas as diretrizes da Lei das S.A., em seus artigos 193 a 203. O lucro líquido é um dos itens mais importantes para os proprietários da empresa, pois representa o retorno sobre o capital por eles investidos. A seguir um exemplo de DRE, em que podem ser observados os códigos do Plano de Contas. Quadro 7 – Demonstração do Resultado do Exercício da Empresa Alfha Código 1 2 3 4 4.01 4.02 4.03 4.04 Demonstração do Resultado do Exercício 4.04.01 4.04.02 4.05 4.06 4.07 5 6 7 8 Receitas Financeiras Receita Líquida de Vendas e/ou Serviços (-) Custo de Bens e/ou Serviços Vendidos (-) Despesas/Receitas Operacionais Com Vendas Administrativas Honorários dos Administradores Financeiras Líquidas Despesas Financeiras - Outras Receitas Operacionais Outras Despesas Operacionais Outros Resultados - Resultado Antes Tributação/Participações Provisão para IR e Contribuição Social Participações/Contribuições Estatutárias Lucro/Prejuízo do Período Fonte: Elaborado pelos autores. 40 - Resultado Bruto - 20X1 5.402 3.870 1.532 1.146 889 60 10 87 12 99 9 18 5 386 63 29 294 - - 20X2 5.670 4.059 1.611 1.327 1.124 76 10 136 62 198 28 8 6 284 28 12 300 - 20X3 6.965 4.998 1.967 1.543 1.343 81 14 111 12 122 35 30 21 424 49 29 347 EaD análise financeira Síntese da Unidade 3 Nesta Unidade você pôde entender melhor a fundamentação legal e a respectiva estrutura e as principais contas (e grupos) relativas ao balanço patrimonial, além de compreender as principais rubricas da demonstração de resultados do exercício, com destaque para a importância da compreensão dos princípios contábeis na atividade de análise financeira. 41 EaD Unidade 4 análise financeira ANÁLISE VERTICAL E HORIZONTAL OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender a finalidade da análise vertical e a sua importância para avaliar a estrutura de composição de itens e sua evolução no tempo, e aprender que a análise horizontal aponta o crescimento dos itens do balanço e da demonstração de resultado através de períodos. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 4.1 – Análise Vertical Seção 4.2 – Análise Horizontal Os métodos de análise vertical e horizontal prestam valiosa contribuição à estrutura e à tendência dos números de uma empresa. De acordo com Pereira da Silva (2010, p. 198), a análise vertical e horizontal podem auxiliar na análise dos índices financeiros e em outros métodos de análise. No entendimento de Matarazzo (2010, p. 170), por intermédio da análise vertical e horizontal é possível conhecer pormenores das demonstrações financeiras que escapam à análise genérica por meio de índices. Seção 4.1 Análise Vertical Segundo Pereira da Silva (2010, p. 199), o primeiro propósito da análise vertical (AV) é mostrar a participação relativa de cada item de uma demonstração contábil em relação a determinado referencial. O percentual de cada conta revela sua real importância no conjunto. No entendimento de Iudícibus (2010, p. 86), este tipo de análise é importante para avaliar a estrutura da composição de itens e sua evolução no tempo. 43 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Para calcularmos os percentuais da coluna da análise vertical (AV), dividimos o valor da rubrica que queremos calcular pelo valor base e multiplicamos o resultado por cem. Para tanto podemos utilizar a seguinte fórmula: AV = Análise Vertical AV = RUBRICA X 100 BASE Rubrica = conta contábil que queremos calcular (ex.: ativo circulante) Base = no BP usamos o ativo total, na DRE usamos as Vendas Operacionais Líquidas. Código Balanço Patrimonial 1 Ativo Total – AT 1.01 Ativo Circulante – AC Exemplo: 20X1 3.807 2.206 Quanto ao cálculo podemos observar que a análise vertical toma o ativo total como base 100%, de modo que o ativo circulante representa 58% do total do ativo. A análise vertical baseia-se em valores percentuais das demonstrações financeiras e para isso se calcula o percentual de cada conta em relação a um valor base. No balanço, por exemplo, é comum determinar quanto por cento representa cada rubrica (e grupo de rubricas) em relação ao ativo total e na demonstração do resultado do exercício calcula-se o percentual de cada conta em relação às vendas líquidas ou receitas operacionais líquidas. Exemplo: Quadro 1 – Análise Vertical do Ativo em 20X1 da empresa Alfha 1.01 1.01.01 1.01.02 1.01.03 1.01.04 1.02. 1.02.01 1.02.02 1.02.03 1.02.03 Ativo Circulante – AC Disponibilidades Créditos Estoques Outros Ativo Não Circulante Realizável a Longo Prazo – RLP Investimentos Imobilizado Intangível 2.207 859 583 587 178 1.600 231 16 1.254 99 2 Passivo Total - PT 3.807 Fonte: Elaborado pelos autores. 44 58,0 22,6 15,4 15,4 4,7 42,0 6,1 0,4 32,9 2,6 100 EaD análise financeira A partir do exemplo podemos identificar que o Ativo Circulante representa 58% do ativo total, com as disponibilidades representando 22,5%, os créditos 15,4%, os estoques também totalizam 15,4% e por fim a rubrica (outros) representa 4,7% do ativo circulante. Podemos verificar ainda que o Ativo Não Circulante representa 42% do ativo total, o RLP representa 6,1%, os investimentos somam 0,4%, o imobilizado totaliza 32,9% e o intangível constitui 2,6% do ativo não circulante. Conforme Matarazzo (2010, p. 176), os objetivos genéricos da análise vertical são os seguintes: mostrar a importância de cada conta em relação à demonstração financeira a que pertence e, por meio da comparação com a sua concorrência principal, ou com padrões do ramo ou ainda com percentuais da própria empresa em anos anteriores, permitir inferir se há itens fora das proporções normais. Em sentido restrito, destaca-se o seguinte objetivo da Análise Vertical: indicar a estrutura do Ativo e Passivo, bem como suas modificações (AV). Para exemplificar vamos verificar como ficou a Análise Vertical do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha: Quadro 2 – Análise Vertical do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha Fonte: Elaborado pelos autores. 45 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Veja que neste quadro, para fins de apresentação facilitada, optou-se por realizar os cálculos sem utilizar casas após a vírgula. Gostaríamos de destacar que sempre é prudente apresentar os resultados com pelo menos uma casa decimal, ou seja, uma casa após a vírgula. Percebe-se que os passivos de longo prazo reduziram-se substancialmente, enquanto o patrimônio líquido cresceu em termos relativos de forma importante, passando de 34% no ano 20X1 para 49% no ano 20X3, melhorando significativamente a relação do capital de terceiros em relação ao capital próprio, no período de três anos. Perceba que os passivos circulantes, ou seja, as dívidas de curto prazo, mantiveram-se constantes em termos percentuais. Para exemplificar a Análise Vertical da DRE vamos verificar como ficou a AV da empresa Alpha. Quadro 3 – Análise Vertical Demonstração de Resultados do Exercício da Empresa Alfha Fonte: Elaborado pelos autores. Seção 4.2 Análise Horizontal Já na análise horizontal (AH), no entendimento de Pereira da Silva (2010, p. 205), o propósito é permitir o exame da evolução histórica de cada uma das contas de uma série que compõe as demonstrações financeiras em relação à demonstração anterior e/ou em relação a uma demonstração financeira básica, geralmente a mais antiga da série. A evolução de cada conta mostra os caminhos trilhados pela empresa e as possíveis tendências. 46 EaD análise financeira Para Iudícibus (2010 p. 83), “a finalidade principal da análise horizontal é apontar o crescimento dos itens dos balanços e das demonstrações de resultados através dos períodos, a fim de caracterizar tendências”. Para calcularmos os percentuais para análise horizontal (AH) dividimos o valor da rubrica em análise em (Xn) pelo valor da mesma rubrica em (X1) e multiplicamos o resultado por cem. Para tanto podemos utilizar a seguinte fórmula: AH = AH = Análise Horizontal RUBRICA EM ANÁLISE EM Xn X 100 RUBRICA EM ANÁLISE EM X1 Xn = Rubrica em 20xn X1 = Rubrica em 20x1 Exemplo: Código Balanço Patrimonial 1 Ativo Total – AT 20X1 3.807 20X2 5.071 Quanto ao cálculo podemos observar que a análise horizontal toma o exercício mais antigo como base 100%, calculando, a partir desse ponto, as evoluções dos valores nos anos seguintes, de modo que o resultado demonstra um crescimento de 20X1 para 20X2 de 33% do total do ativo. Em outras palavras, significa dizer que o ativo total cresceu 33% no período. Exemplo: Código Balanço Patrimonial 20X1 Base % 1 Ativo Total – AT 3.807 100 1.01 Ativo Circulante – AC 2.206 100 1.01.01 Disponibilidades 859 100 Quadro 4 – Análise Horizontal do Ativo da Empresa Alfha 1.01.02 Créditos 583 100 1.01.03 Estoques 587 100 1.01.04 Outros 178 100 1.02. Ativo Não Circulante 1.600 100 1.02.01 Realizável a Longo Prazo – RLP 231 100 1.02.02 Investimentos 16 100 1.02.03 Imobilizado 1.254 100 1.02.03 Intangível 99 100 20X2 AH % 5.071 133 2.889 131 1.177 137 737 126 675 115 301 169 2.181 136 251 108 21 127 1.747 139 163 165 Fonte: Elaborado pelos autores. 47 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert A partir do exemplo de cálculo para fins da análise horizontal, podemos identificar que, enquanto o ativo total apresentou um crescimento de 33% no período, o ativo circulante mostrou um crescimento de 31% de 20X1 para 20X2 e o ativo não circulante experimentou uma elevação de 36% no mesmo período. Conforme Matarazzo (2010, p. 176), os objetivos genéricos da análise horizontal são os seguintes: mostrar a evolução de cada conta das demonstrações financeiras e, pela comparação entre si, permitir tirar conclusões sobre a evolução da empresa. Em sentido específico, destacase o seguinte objetivo da análise horizontal: analisar em detalhes a evolução e o desempenho da empresa numa série de períodos (AH). Para exemplificar vamos verificar como ficou a Análise Horizontal do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha: Quadro 5 – Análise Horizontal do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha Código 1 1.01 1.01.01 1.01.02 1.01.03 1.01.04 1.02. 1.02.01 1.02.02 1.02.03 1.02.03 2 2.01 2.01.01 2.01.02 2.01.03 2.01.04 2.01.05 2.01.06 2.02 2.02.01 2.02.02 2.02.03 3 3.01 3.02 3.03 Balanço Patrimonial Ativo Total – AT Ativo Circulante – AC Disponibilidades Créditos Estoques Outros Ativo Não Circulante Realizável a Longo Prazo – RLP Investimentos Imobilizado Intangível Passivo Total - PT Passivo Circulante – PC Empréstimos e Financiamentos Fornecedores Impostos, Taxas e Contribuições Dividendos a Pagar Provisões Outros Passivo Não Circulante Empréstimos e Financiamentos Provisões Outros Patrimônio Líquido – PL Capital Social Integralizado Reservas Lucros/Prejuízos Acumulados 20X1 AH % 3.807 100 2.206 100 859 100 583 100 587 100 178 100 1.600 100 231 100 16 100 1.254 100 99 100 3.807 100 1.187 100 576 100 349 100 50 100 14 100 68 100 130 100 1.336 100 1.182 100 133 100 22 100 1.284 100 901 100 128 100 254 100 Fonte: Elaborado pelos autores. 48 20X2 AH % 5.071 133 2.889 131 1.177 137 737 126 675 115 301 169 2.181 136 251 108 21 127 1.747 139 163 165 5.071 133 1.355 114 574 100 511 146 50 100 45 316 75 110 100 77 1.506 113 1.351 114 125 94 70 325 2.210 172 1.601 178 221 172 388 152 20X3 AH % 6.871 180 3.957 179 1.862 217 844 145 908 155 342 192 2.914 182 267 115 141 863 2.244 179 262 265 6.871 180 2.039 172 1.104 192 604 173 58 117 1 7 84 123 187 144 1.445 108 1.275 108 131 98 40 182 3.387 264 1.948 216 339 264 1.101 433 EaD análise financeira Pelo quadro anterior percebe-se que o crescimento horizontal variou no lado do ativo circulante, de forma mais significativa na conta disponibilidades e no lado do passivo circulante, a conta empréstimos e financiamentos de curto prazo. Na rubrica patrimônio líquido a conta lucros acumulados alavancou mais o patrimônio da empresa. Para exemplificar a Análise Horizontal da DRE, vamos verificar como ficou a AH da Demonstração de Resultados do Exercício da Empresa Alfha: Quadro 6 – Análise Horizontal da Demonstração de Resultados da Empresa Alfha Código Demonstração do Resultado do Exercício 1 Receita Líquida de Vendas e/ou Serviços 2 (-) Custo de Bens e/ou Serviços Vendidos 3 Resultado Bruto 4 (-) Despesas/Receitas Operacionais 4.01 Com Vendas 4.02 Administrativas 4.03 Honorários dos Administradores 4.04 Financeiras Líquidas 20X1 AH % 20X2 AH % 20X3 AH % 5.402 100 5.670 105 6.965 129 - 3.870 100 - 4.059 105 - 4.998 129 1.532 100 1.611 105 1.967 128 - 1.145 100 - 1.327 116 - 1.543 135 - 888 100 - 1.124 127 - 1.343 151 60 100 76 127 81 135 10 100 10 101 14 142 87 100 - 136 156 - 111 127 4.04.01 Receitas Financeiras 4.04.02 Despesas Financeiras - 4.05 Outras Receitas Operacionais 4.06 Outras Despesas Operacionais 4.07 outros Resultados 5 Resultado Antes Tributação/Participações 6 Provisão para IR e Contribuição Social 7 Participações/Contribuições Estatutárias 8 Lucro/Prejuízo do Período - 12 99 9 18 5 386 63 29 295 100 100 100 100 100 100 100 100 100 - - 62 524 198 201 28 310 8 46 6 139 284 74 28 - 44 12 42 300 102 - 12 122 35 30 21 424 49 29 347 97 124 395 164 446 110 77 98 118 Fonte: Elaborado pelos autores. Síntese da Unidade 4 Nesta Unidade você pôde entender melhor as análises vertical e horizontal e a sua importância na etapa preparatória da análise financeira considerando a sua utilização de forma conjunta. 49 EaD Unidade 5 análise financeira ANÁLISE DA ESTRUTURA E ENDIVIDAMENTO OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender os índices de endividamento da empresa, procurando retratar a posição relativa do capital próprio em relação ao capital de terceiros, permitindo identificar a relação de dependência da empresa em comparação ao capital de terceiros. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 5.1 – Participação de Capitais de Terceiros (PTC) Seção 5.2 – Composição do Endividamento (CE) Seção 5.3 – Imobilização do Patrimônio Líquido (IPL) Seção 5.4 – Endividamento Geral (EG) Seção 5.5 – Nível de Desconto de Duplicatas (NDD) Os índices de estrutura e endividamento decorrem das decisões estratégicas da empresa, relacionadas às decisões financeiras de investimentos, financiamento e distribuição de dividendos. Relacionam as fontes de fundos entre si, procurando retratar a posição do capital próprio (PL) em relação ao capital de terceiros, revelando o grau de endividamento, entre outros aspectos. Seção 5.1 Participação de Capitais de Terceiros (PCT) O índice de participação de capitais de terceiros, também conhecido como relação entre fontes de recursos, de acordo com Pereira da Silva (2010, p. 264), indica o percentual de capital de terceiros em relação ao patrimônio líquido, ou capital próprio, retratando a dependência da empresa em relação aos recursos externos a ela. 51 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert PCT = Participação de Capitais de Terceiros PC = Passivo Circulante PNC = Passivo Não Circulante PL = Patrimônio Líquido A interpretação isolada do índice de participação de capitais de terceiros, cujo objetivo é avaliar o risco da empresa, é no sentido de que “quanto maior, pior”, mantidos constantes os demais fatores. Para a empresa, entretanto, pode ocorrer que o endividamento lhe permita, pelo efeito da alavancagem, melhor ganho por ação, mesmo que associado a um risco maior. A função do analista, porém, não deve se limitar à simples observação da manutenção, subida ou descida do índice, sendo necessário investigar as causas que interferem no comportamento da empresa. É imperioso identificar e mencionar, por exemplo, que a elevação da dependência de capitais de terceiros decorre de investimentos estratégicos realizados pela empresa, a fim de alcançar competitividade no setor em que atua, obviamente se isso condiz com a realidade. Assim como nas Ciências Jurídicas e Sociais, aqui também podemos ter fatores atenuantes e agravantes. Cabe, então, produzir comentários sobre os seguintes aspectos: • prazos de vencimentos das dívidas, considerando que quanto mais longo o prazo melhor é a situação; • a participação das dívidas onerosas no passivo circulante. Alto endividamento, por conta apenas de débitos operacionais (fornecedores, impostos sobre vendas e encargos trabalhistas) não revela, necessariamente, uma má situação; • o tipo e origem dos empréstimos, principalmente no que diz respeito à moeda e encargos remuneratórios. Uma dívida em dólares para quem não possui hedge (proteção), natural em exportações, pode representar um alto risco; • os passivos ou obrigações não registrados, que forem identificados, devem ser acrescidos para fins de análise; • em épocas de inflação, a ausência de correção monetária; • as reavaliações de ativos; • ocorrências de cisão, fusão ou incorporação. 52 EaD análise financeira Assim como fizemos com a análise vertical e horizontal, aqui também utilizaremos os números dos demonstrativos contábeis da Empresa Alfha para elaborar o cálculo dos indicadores, como é o caso do quadro a seguir, que apresenta a relação entre as fontes de recursos da empresa nos anos de 20X1, 20X2 e 20X3. Quadro 1 – Contas do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo do PCT Código 2.01 2.02 3 Balanço Patrimonial Passivo Circulante – PC Passivo Não circulante - PNC Patrimônio Líquido – PL 20X1 1.187 1.336 1.284 20X2 1.355 1.506 2.210 20X3 2.039 1.445 3.387 Fonte: Elaborado pelos autores. Primeiro, precisamos compreender que um índice de 196,50%, observado em 20X1, significa que os capitais de terceiros superam os capitais próprios em 96,5%. Existia, assim, naquele momento, uma grande dependência de capitais de terceiros culminando com um alto nível de endividamento. Em 20X2, no entanto, os capitais de terceiros superam os capitais próprios em 29,46%. Este percentual cai para 2,86% em 20X3, demonstrando que neste último exercício houve um equilíbrio entre os capitais próprios e de terceiros. Neste caso, percebe-se que o comportamento tendencial é de redução da relação capital de terceiros/capital próprio, o que revela a melhora do nível de endividamento medido pela PCT. Trata-se do nosso primeiro índice em análise e, por isso mesmo, é importante registrar que o comentário aqui produzido não representa mais que um exemplo de abordagem. Esse é o momento mágico da análise financeira, exigindo que o analista exercite todo o poder do seu intelecto para, com muita perspicácia, estudo e criatividade, produzir a melhor interpretação possível, condizente com o desempenho atual e perspectivas futuras da empresa. 53 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 5.2 Composição do Endividamento (CE) A composição do endividamento, conforme Pereira da Silva (2010, p. 267), indica quanto da dívida total da empresa deverá ser paga no curto prazo, isto é, as obrigações que vencem durante o próximo exercício, comparadas com todo o conjunto de obrigações da empresa. CE = Composição do Endividamento PC = Passivo Circulante PNC = Passivo Não Circulante A interpretação do índice de composição do endividamento é no sentido de que “quanto maior, pior”, mantidos constantes os demais fatores. Ou seja, se a dívida é elevada, a situação é extremada se esta dívida está concentrada no curto prazo, pois a pressão pela liquidação dos débitos é intensa. A razão é que quanto mais dívidas para pagar no curto prazo, maior será a pressão para a empresa gerar recursos. Este índice mostra as características do endividamento quanto ao vencimento das dívidas. É preciso, portanto, conhecer a estrutura geral da empresa quanto à participação de capitais de terceiros, sua capacidade de geração de recursos e mesmo sua condição de renovar a dívida de curto prazo junto aos credores. Para a aplicação da fórmula, aqui também utilizaremos os números extraídos dos demonstrativos contábeis da Empresa Alfha para elaborar o cálculo dos indicadores, como é o caso do quadro a seguir, que apresenta a relação entre as fontes de recursos da empresa nos anos de 20X1, 20X2 e 20X3. Quadro 2 – Contas do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo da CE Código Balanço Patrimonial 2.01 Passivo Circulante – PC 2.02 Passivo Não circulante - PNC 20X1 1.187 1.336 Fonte: Elaborado pelos autores. 54 20X2 1.355 1.506 20X3 2.039 1.445 EaD análise financeira De acordo com os resultados da composição de endividamento da Empresa Alfha no período de 20X1 e 20X2, menos da metade das dívidas vencem no curto prazo, representando 47% do total e se mantendo constante em ambos os períodos. Este índice, porém, sobe para 58,5% em 20X3, significando que vencem no curto prazo, neste período, mais da metade dos compromissos. Não obstante, o fato de a dívida estar praticamente equilibrada nos três períodos, tendo o indicador piorado em 20X3, concentrando mais dívidas no curto prazo não é, necessariamente, um fator negativo. É preciso conhecer a estrutura geral da empresa, quanto a sua participação de capitais de terceiro, sua capacidade de geração de recursos e mesmo sua condição de renovar a dívida de curto prazo junto aos credores, se necessário. Seção 5.3 Imobilização do Patrimônio Líquido (IPL) O índice de imobilização do patrimônio líquido indica quanto do patrimônio líquido da empresa está aplicado no ativo não circulante. IPL = Imobilização do patrimônio líquido ANC = Ativo não circulante RLP = Realizável a longo prazo PL = Patrimônio Líquido A interpretação do índice de imobilização do patrimônio líquido é no sentido “quanto maior, pior”, mantidos constantes os demais fatores. Cabe destacar que o índice de imobilização envolve importantes decisões estratégicas da empresa, quanto à aquisição, aluguel ou leasing de imóveis, máquinas e equipamentos. São esses investimentos que caracterizam o risco operacional da empresa. 55 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert De acordo com Pereira da Silva (2010, p. 263), os principais pontos a serem observados pelo analista, com relação ao índice de imobilização, são: •como variou o patrimônio líquido no período: lucros, prejuízos, aportes de capital, cisões, fusões e incorporações; •ocorrências de reavaliações de ativos no período: nos casos de reavaliações, há aumento no ativo não circulante e no patrimônio líquido pelo mesmo valor, porém em termos de índice podem gerar variações; •a participação de cada um dos blocos (investimento, imobilizado e intangível) no ativo não circulante; •os investimentos em coligadas e controladas devem ser especificados e as respectivas empresas, analisadas. É sempre bom conhecer a razão estratégica de tais investimentos; •os outros investimentos, como obrigações e incentivos fiscais, se relevantes, devem merecer cuidado; •quanto ao imobilizado, é necessário conhecer a idade dos equipamentos, o grau de modernização, a localização das unidades fabris e o critério de depreciação; •dependendo do tipo de atividade, o analista deve solicitar os detalhes que julgue importante em cada caso, podendo abranger inclusive o nível de utilização da capacidade de produção, contratos de leasing, os terrenos adquiridos para construção de fábricas no futuro o que vai requer novos investimentos de capital). Vejamos a situação da Empresa Alfha, neste quesito: Quadro 3 – Contas do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo do IPL Código 1.02. 1.02.01 3 Balanço Patrimonial Ativo Não Circulante Realizável a Longo Prazo – RLP Patrimônio Líquido – PL 20X1 1.600 231 1.284 Fonte: Elaborado pelos autores. 56 20X2 2.181 251 2.210 20X3 2.914 267 3.387 EaD análise financeira Como se constata, a Empresa Alfha, no exercício 20X1 possuía mais de 100% de seu patrimônio líquido imobilizado. Observa-se, porém, que no período de 20X2 e 20X3, de todo o patrimônio líquido apenas em torno de 80% encontrava-se no imobilizado, ou seja, isso demonstra que houve uma relativa melhora, podendo a empresa utilizar as sobras (20%) para investimento nos demais itens do ativo, fato que revela uma melhora na situação da empresa nos dois últimos períodos sob a ótica da estrutura patrimonial e capacidade financeira. Seção 5.4 Endividamento Geral (EG) Esse indicador reforça as conclusões tiradas a partir do índice Relação Entre as Fontes de Recursos, revelando o percentual do ativo que é financiado por capitais de terceiros. EG = Endividamento geral PC = Passivo Circulante PNC = Passivo Não Circulante AT = Ativo Total O quadro a seguir revela as informações da Empresa Alfha para aplicação da fórmula: Quadro 4 – Contas do Balanço Da Empresa Alfha– Informações para Cálculo do EG Código 2.01 2.02 1 Balanço Patrimonial Passivo Circulante – PC Passivo Não circulante - PNC Ativo Total – AT 20X1 1.187 1.336 3.807 20X2 1.355 1.506 5.071 20X3 2.039 1.445 6.871 Fonte: Elaborado pelos autores. 57 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Os resultados do endividamento geral revelam que os ativos da Alfha eram financiados em 66,27% por capitais de terceiros em 20X1, passando para 56,42% em 20X2, reduzindo para 50,71% em 20X3. Ou seja, que o endividamento da Empresa Alfha diminui e situa-se em patamares plenamente aceitáveis, observando o contexto da atual conjuntura econômica. Considerando que esse indicador encontra-se intimamente vinculado com a “relação entre fontes de recursos”, ambos indicando a proporção de capital próprio e de terceiros que financiam os ativos da empresa, podemos perceber que a Empresa Alfha reduziu significativamente a sua tomada de empréstimos, optando, por sua vez, por aplicar um maior volume de recursos próprios em investimentos realizados no seu ativo imobilizado. Para chegar a essa conclusão basta verificar a evolução das respectivas contas, diretamente nos quadros que apresentam os ativos e passivos da empresa. A estratégia mais utilizada, como já comentado na análise horizontal, foi a retenção e reaplicação de lucros acumulados e não distribuídos. Seção 5.5 Nível de Desconto de Duplicatas (NDD) O nível de desconto de duplicatas indica o percentual de títulos descontados em relação ao total de contas a receber de clientes. NDD = Nível de desconto de duplicatas DD = Duplicatas descontadas DR = Duplicatas a receber No decorrer do ciclo operacional, muitas vezes as empresas vendem seus produtos a prazo e emitem duplicatas a seus clientes. Quando precisam de dinheiro, dirigem-se aos bancos para descontar as referidas duplicatas. Justamente porque as empresas só descontam as duplicatas quando estiverem precisando de dinheiro é que este índice é do tipo “quanto maior, pior”. Pereira da Silva (2010, p. 273-274) emite alguns comentários acerca deste índice: •Normalmente, quanto maior a necessidade de recursos financeiros, maior será o nível de desconto de duplicatas, podendo-se até chegar ao extremo de emitir títulos que não correspondam a uma venda efetuada (duplicata fria). 58 EaD análise financeira •Muitas vezes as duplicatas da empresa estão comprometidas como garantia de outras operações e não há duplicatas para descontar. No caso da Empresa Alfha, não identificamos operações de desconto de duplicatas nos finais de período. Síntese da Unidade 5 Nesta Unidade você se familiarizou com os conceitos e exemplos práticos da estrutura de endividamento da empresa, a partir dos índices de participação de capital de terceiros da Empresa Alfha, bem como a composição do endividamento, a imobilização do patrimônio líquido, o endividamento geral e o nível de desconto de duplicatas. 59 EaD Unidade 6 análise financeira ÍNDICES DE LIQUIDEZ OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender os indicadores de capacidade da empresa de pagar suas dívidas nas datas aprazadas, a partir da comparação entre os direitos realizáveis e as exigibilidades, além de aprender que a liquidez decorre da capacidade de a empresa ser lucrativa, cumprindo com seus compromissos financeiros assumidos, e de suas decisões estratégicas de investimento e financiamento. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 6.1 – Liquidez Corrente Seção 6.2 – Liquidez Seca Seção 6.3 – Liquidez Geral Os índices desse grupo evidenciam a base da situação financeira da empresa, isto é, constituem uma apreciação sobre sua capacidade de saldar compromissos a partir da comparação entre os direitos disponíveis e realizáveis com as obrigações da companhia. Uma empresa com índices de liquidez superiores à unidade, em tese, tem condições de pagar suas dívidas. Isso, porém, não significa que ela esteja fazendo tal procedimento. O descasamento de prazos do fluxo de caixa normalmente traz dificuldades. Se a empresa possui R$ 500 mil para receber em 60 dias, no entanto tem uma conta a pagar que vence em 30 dias esta empresa necessariamente deverá buscar suprimento de giro em bancos ou outras fontes de recursos que não os aplicados na rubrica “contas a receber”. Cabe salientar que liquidez não é sinônimo de solvência. Liquidez é a capacidade de liquidar as obrigações em dia, por meio do giro dos negócios. Solvência é a capacidade de liquidar todas as dívidas da empresa, mesmo que para isso tenha de lançar mão até mesmo dos ativos imobilizados. Tecnicamente, uma empresa encontra-se em situação de insolvência quando o seu passivo exigível é superior ao ativo total. Nesse caso, diz-se que apresenta “passivo a descoberto”. 61 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 6.1 Liquidez Corrente (LC) Indica quanto a empresa possui em dinheiro, mais bens e direitos realizáveis no curto prazo (próximo exercício), comparado com suas dívidas a serem pagas no mesmo período. LC = Liquidez corrente AC = Ativo Circulante PC = Passivo Circulante Vejamos a situação da Empresa Alfha, neste quesito: Quadro 1 – Rubricas do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo da LC Código Balanço Patrimonial 1.01 Ativo Circulante – AC 2.01 Passivo Circulante – PC 20X1 2.206 1.187 20X2 2.889 1.355 20X3 3.957 2.039 Fonte: Elaborado pelos autores. A interpretação desse índice é “quanto maior, melhor”, mantidos constantes os demais fatores. Este índice é o mais conhecido justamente porque mede a saúde financeira de curto prazo das empresas. Como medida isolada, porém, não se pode afirmar que a liquidez corrente é boa ou ruim, pois tudo depende do tipo de atividade da empresa e especialmente do seu ciclo financeiro. Para empresas comerciais e industriais, que trabalham com estoques e duplicatas a receber, tem-se como bom um índice de liquidez acima de “1”. No caso de algumas empresas prestadoras de serviços, como transportes coletivos urbanos, que recebem suas vendas à vista, índices inferiores à unidade podem ser perfeitamente aceitáveis, uma vez que as entradas diárias oportunizarão o cumprimento das obrigações financeiras. Como se vê, a interpretação deste, e também dos demais índices que estudaremos, precisa considerar as peculiaridades de cada negócio. 62 EaD análise financeira Como os números anteriores revelam, a liquidez corrente da Empresa Alfha é muito boa, mostrando que para cada real de dívida de curto prazo a empresa detém R$ 1,86 de ativos circulantes em 20X1, aumentando para R$ 2,13 em 20X2, e permanecendo em R$ 1,94 em 20X3. Ou seja, evidencia folga financeira. O conceito de quanto maior melhor também precisa ser considerado com relatividade, uma vez que altos índices de liquidez podem revelar disfunções financeiras, como estoques em excesso, adiantamento a fornecedores e elevada inadimplência de clientes. Seção 6.2 Liquidez Seca (LS) Indica quanto a empresa possui em disponibilidades (dinheiro, depósitos bancários à vista e aplicações financeiras de liquidez imediata), aplicações financeiras de curto prazo e duplicatas a receber, para fazer frente ante ao seu passivo circulante. LS = Liquidez Seca AC = Ativo Circulante Est = Estoques PC = Passivo Circulante A interpretação do índice de liquidez seca segue o mesmo raciocínio dos índices de liquidez geral e corrente, isto é, “quanto maior, melhor”, mantidos constantes os demais fatores. O quadro a seguir revela as informações da Empresa Alfha para aplicação da fórmula: Quadro 2 – Rubricas do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo da LS Código 1.01 1.01.03 2.01 Balanço Patrimonial Ativo Circulante – AC Estoques Passivo Circulante – PC 20X1 2.206 587 1.187 20X2 2.889 675 1.355 20X3 3.957 908 2.039 Fonte: Elaborado pelos autores. 63 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert A liquidez seca da Empresa Alfha revela que a empresa não depende da venda de estoques para solver ou liquidar seus compromissos de curto prazo. Embora o índice tenha caído de 20X2 para 20X3, ainda indica que, para cada real de dívida de curto prazo, a empresa dispõe de R$ 1,50 de circulantes (sem os estoques) para cumprir com os compromissos financeiros de curto prazo. Quando a empresa não trabalha com estoques, cabe observar que tanto a liquidez corrente quanto a seca apresentam o mesmo resultado. Seção 6.3 Liquidez Geral (LG) Indica quanto a empresa possui em dinheiro, bens e direitos realizáveis a curto e longo prazos, para fazer frente as suas dívidas totais (passivo exigível). LG = Liquidez Geral AC = Ativo Circulante RLP = Realizável a Longo Prazo PC = Passivo Circulante PNC = Passivo Não Circulante A interpretação desse índice é no sentido de “quanto maior, melhor”, mantidos constantes os demais fatores. O índice de liquidez geral é um indicador que subentende que, se a empresa fosse cessar suas atividades naquele momento, deveria pagar suas dívidas com seu dinheiro (disponibilidades) mais seus realizáveis. 64 EaD análise financeira As informações da Empresa Alfha para aplicação prática da fórmula podem ser obtidas no quadro a seguir: Quadro 3 – Rubrica do Balanço Patrimonial da Empresa Alfha – Informações para Cálculo da LG 1.01 1.02.01 2.01 2.02 Ativo Circulante – AC Realizável a Longo Prazo – RLP Passivo Circulante – PC Passivo Não circulante 2.206 231 1.187 1.336 2.889 251 1.355 1.506 3.957 267 2.039 1.445 Fonte: Elaborado pelos autores. O cálculo, em verdade, expressa uma situação mais de solvência do que de liquidez, uma vez que inclui no denominador todos os passivos de curto e longo prazos. Normalmente uma empresa apenas liquida todas as obrigações se estiver sendo cogitada sua extinção, o que torna esse índice pouco significativo para situações normais. Também nesse aspecto a Alfha apresenta índices positivos ao longo do período analisado. Demonstra que apresenta plenas condições de pagar todas as suas dívidas, pois possui dinheiro, bens e direitos realizáveis a curto e longo prazos para cumprir com suas dívidas totais. Síntese da Unidade 6 Nesta Unidade você pôde entender melhor os índices de liquidez da Empresa Alfha, a partir do confronto dos ativos realizáveis no curto e longo prazos com as dívidas, procurando medir o quão sólida é a base financeira da empresa. 65 EaD Unidade 7 análise financeira ANÁLISE DA ATIVIDADE DE ROTAÇÃO OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender por meio das demonstrações financeiras, quantos dias em média a empresa está precisando para renovação de seus estoques; como podem ser calculados e quantos dias em média, a empresa terá de esperar para receber suas vendas e quantos dias, a empresa tem para pagar suas compras. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 7.1 – Prazo Médio de Estoques (PME) Seção 7.2 – Prazo Médio de Recebimentos (PMR) Seção 7.3 – Prazo Médio de Compras (PMC) Na consecução de suas atividades operacionais, a empresa persegue sistematicamente a produção de bens ou serviços e, consequentemente, vendas e recebimentos. Busca também um volume de lucros capazes de satisfazer às expectativas de retorno de suas fontes de financiamento. Cada uma das fases operacionais, a saber, estocagem de materiais, produção, estocagem de produtos acabados e recebimento das vendas, possui determinada duração.1 Os prazos de rotação constituem-se em categoria de elevada importância para o analista. O balanço representa sua situação patrimonial em determinado momento, isto é, de forma estática, sem refletir sua mobilidade, seu dinamismo. 1 1 Disponível em: <http://www.mundodastribos.com/cursos-online-gratuitos-sebrae-analise-e-planejamento-financeiro. html>. Acesso em: 12 maio 2012. 67 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 7.1 Prazo Médio de Estoques (PME) O prazo médio de estoques indica quantos dias, em média, os produtos ficam armazenados na empresa antes de serem vendidos. O volume de estoques mantidos por uma empresa decorre fundamentalmente do seu volume de vendas e de sua política de estocagem. Quanto maiores os estoques, mais recursos as empresas estão comprometendo com os mesmos. PME = Prazo médio de estoques ESTm = Estoque médio (aplicar a fórmula: ((ESTi + ESTf)/2), considerando Ei = estoque inicial que é o valor do estoque final do ano anterior e Ef = estoque final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. CPV = Custo dos produtos vendidos DP = Dias do período considerado (360 dias para um ano) Do ponto de vista de análise de risco, prazo médio de estoques é um índice do tipo quanto maior, pior. O conceito de prazos médios está intimamente ligado ao conceito de giro ou rotação, que representa o número de vezes que, no caso, os estoques são repostos durante o ano. Quanto maior o prazo médio, maior a rotação, uma vez que para obter o giro, basta dividir os dias do ano pelo prazo médio observado. Financeiramente, quanto maior a rotação dos estoques, melhor será a situação da empresa, pois estará investindo menos recursos nesse tipo de ativo. Resta ter o cuidado para que níveis baixos de estoque não prejudiquem a produção e as vendas. Vale, aqui, lembrar o conceito do “Just-in-Time”, que, ao prever a organização do processo produtivo como um todo, inclui a minimização dos estoques. A seguir, temos as informações para aplicação da fórmula PME da Empresa Alfha: Quadro 1 – Informações para o Cálculo do Prazo Médio de Estoques Código Balanço Patrimonial 1.01.03 Estoques Código Demonstração do Resultado do Exercício 2 (-) Custo de Bens e/ou Serviços Vendidos 20X1 587 20X1 3.870 Fonte: Elaborado pelos autores. 68 20X2 675 20X2 4.059 20X3 908 20X3 4.998 EaD análise financeira Inicialmente encontraremos o estoque médio: ESTm = Estoque médio ESTi = Estoque inicial (é o valor do estoque final do exercício anterior) ESTf = Estoque final (é o valor do estoque final do exercício atual) Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular o estoque médio de 20X2 e 20X3, uma vez que o estoque de 20X1 será considerado o estoque inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores do estoque médio prosseguimos com a aplicação da fórmula de prazo médio de estoques: Observa-se que a Empresa Alfha vem girando seu estoque no prazo de 56 e 57 dias, respectivamente, para os anos de 20X2 e 20X3. A tendência é de que as empresas procurem girar seus estoques cada vez mais rápido. Vale ressaltar também que é importante observar a composição dos estoques (matéria-prima, produtos em processo e produtos acabados), em virtude do tipo de atividade e dos padrões do segmento de atuação da empresa. Seção 7.2 Prazo Médio de Recebimentos (PMR) O prazo médio de recebimento das vendas indica quantos dias, em média, a empresa leva para receber suas vendas. Por meio dele verifica-se a eficiência da administração na sua política de vendas a prazo. O volume de duplicatas a receber é decorrência de dois fatores básicos: montante de vendas a prazo e prazo concedido aos clientes para pagamento. 69 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert As vendas a prazo devem seguir uma política de crédito adotada pela empresa e que seja adequada ao seu tipo de atividade. PMR = Prazo médio de recebimento das vendas DRm = Duplicatas a receber médio (aplicar a fórmula: ((DRi + DRf)/2), considerando DRi = Duplicatas a receber inicial, que é o valor das duplicatas a receber ao final do ano anterior e DRf = Duplicatas a receber ao final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. Esta conta, no balanço patrimonial, é denominada de “Créditos”. RLV = Receita Líquida de Vendas e/ou serviços. Na DRE chama-se de Receita Operacional Líquida ou ainda Vendas Líquidas. DP = Dias do período considerado (360 dias para um ano comercial). Do ponto de vista de análise de risco, prazo médio de recebimentos de vendas é um índice do tipo “quanto maior, pior”. Por outro lado, convém analisá-lo juntamente com os prazos de rotação de estoques e de pagamentos de compras. Observamos no quadro a seguir as informações para aplicação da fórmula PMR da Empresa Alfha: Quadro 2 – Informações para o Cálculo do Prazo Médio de Recebimento das Vendas Código Balanço Patrimonial 1.01.02 Créditos/Contas a receber/DR Código Demonstração do Resultado do Exercício 1 Receita Líquida de Vendas e/ou Serviços 20X1 583 20X1 5.402 20X2 737 20X2 5.670 20X3 844 20X3 6.965 Fonte: Elaborado pelos autores. Inicialmente encontraremos o valor das duplicatas a receber médio (créditos ou contas a receber). DRm = Duplicatas a receber médio DRi = Duplicatas a receber inicial (é o valor final das duplicatas a receber do exercício anterior) DRf = Duplicatas a receber final (é o valor das duplicatas a receber final do exercício atual) 70 EaD análise financeira Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular o índice Duplicatas a Receber médio de 20X2 e 20X3, uma vez que o duplicatas a receber de 20X1 será considerado o duplicatas a receber inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores do “duplicatas a receber médio” prosseguimos com a aplicação da fórmula de prazo médio de recebimento das vendas: Observa-se que a Empresa Alfha vem recebendo suas vendas no prazo de 42 e 41 dias respectivamente para os anos de 20X2 e 20X3. Os dados da empresa que nos serve de exemplo revelam uma estabilidade no indicador, que, de qualquer forma, reduziu de 42 para 41 dias no período, apresentando uma rotação de nove vezes no ano de 20X3. Seção 7.3 Prazo Médio de Compras (PMC) O prazo médio de pagamento das compras indica quantos dias, em média, a empresa tem para pagar seus fornecedores. A partir do PMC podemos calcular o número de vezes em que são renovadas as dívidas com fornecedores, ou seja, a rotação da conta que expressa as compras a prazo, denominada fornecedores. PMC = Prazo médio de pagamento das compras FORNm = Fornecedores médio (aplicar a fórmula: ((FORNi + FORNf)/2), considerando FORNi = fornecedores inicial, que é o valor dos fornecedores final do ano anterior e FORNf = fornecedores final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. MC = Montante de Compras do período (utilizar fórmula para encontrar MC) DP = Dias do período considerado (360 dias para um ano) 71 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert A seguir temos as informações para aplicação da fórmula PMC da Empresa Alfha: Quadro 3 – Informações para o Cálculo do Prazo Médio de Pagamento das Compras aos Fornecedores Código Balanço Patrimonial 1.01.03 Estoques 2.01.02 Fornecedores Código Demonstração do Resultado do Exercício 2 (-) Custo de Bens e/ou Serviços Vendidos 20X1 587 349 20X1 3.870 20X2 675 511 20X2 4.059 20X3 908 604 20X3 4.998 Fonte: Elaborado pelos autores. Inicialmente encontraremos o valor dos fornecedores médio. FORNm = Fornecedores médio FORNi = Fornecedores inicial (é o valor final dos fornecedores do exercício anterior) FORNf = Fornecedores final (é o valor dos fornecedores final do exercício atual) Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular os fornecedores médio de 20X2 e 20X3, uma vez que os fornecedores de 20X1 serão considerados fornecedores inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores dos fornecedores médio, precisamos ainda encontrar o montante de compras. MC = Montante de compras CPV = Custo dos produtos vendidos ESTi = Estoque inicial (é o valor final dos estoques do exercício anterior) ESTf = Estoque final (é o valor dos estoques final do exercício atual) Trata-se de uma informação indispensável para o cálculo do Prazo Médio de Compras. 72 EaD análise financeira Uma vez encontrados os valores dos fornecedores médio e do montante de compras, prosseguimos com a aplicação da fórmula de prazo médio de pagamento das compras: Observa-se que a Empresa Alfha vem pagando suas compras para seus fornecedores em 37 e 38 dias respectivamente nos anos de 20X2 e 20X3. Os dados da empresa que nos serve de exemplo revelam uma estabilidade no indicador, que, de qualquer forma, aumentou o prazo de pagamento das compras em três dias no período, apresentando uma rotação de nove vezes em 20X3. Neste momento poder-se-ia ainda avaliar o prazo relativo de duplicatas, que indica a relação entre as duplicatas a pagar e as duplicatas a receber. Caso esta relação seja maior que um, poderíamos dizer que os fornecedores financiam os clientes. Caso esta relação seja menor que um, parte dos clientes são financiados por outros capitais de terceiros ou por capital próprio. Síntese da Unidade 7 Nesta Unidade você foi convidado a entender melhor que os prazos de rotação constituem-se em categoria de elevada importância para o analista, considerando que prazo de rotação de estoques, recebimento de vendas e pagamento de compras envolvem as operações da empresa que demandam a aplicação de recursos em itens do ativo circulante, como estoques e duplicatas a receber. A gestão eficaz desses prazos otimiza o ciclo financeiro dos negócios, ou seja, o ciclo da necessidade de capital de giro. 73 EaD Unidade 8 análise financeira ANÁLISE DA ATIVIDADE DE RETORNO OBJETIVO DESTA UNIDADE •Conhecer e entender o uso dos índices de retorno, também conhecidos por índices de lucratividade ou mesmo de rentabilidade, pois indicam qual o retorno que o empreendimento está proporcionando. Busca-se também compreender quais são os principais indicadores e ferramentas de análise da atividade de retorno, mediante análise das demonstrações contábeis, obter os indicadores de retorno sobre o investimento, retorno sobre as vendas e sobre o capital próprio. AS SEÇÕES DESTA UNIDADE Seção 8.1 – Giro do Ativo (GA) Seção 8.2 – Margem Líquida Sobre Vendas (MLSV) Seção 8.3 – Retorno Sobre o Ativo (RSA) Seção 8.4 – Retorno Sobre o Patrimônio Líquido (RSPL) Como se sabe, o lucro é o principal estímulo do empresário e uma das formas de avaliação do êxito de um empreendimento. Maximizar a rentabilidade sobre o capital investido é o principal objetivo econômico de uma gestão financeira eficaz. Este índice, dentre outros, é calculado nesta Unidade. 1 Podemos afirmar então que a avaliação por meio da Atividade de Retorno é uma das tarefas mais importantes do analista financeiro, pois oferece informações para entender a perspectiva de sucesso econômico e financeiro de uma organização. 1 1 Disponível em: <http://blog.scrumhalf.com.br/2011/10/roi-retorno-sobre-investimento/>. Acesso em: 12 maio 2012. 75 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert O volume de atividades da empresa (giro) e o resultado decorrente dessa atividade (margem) irão interferir nos demais indicadores. Os índices de retorno, também conhecidos por índices de lucratividade ou mesmo rentabilidade, indicam qual o retorno que o empreendimento está proporcionando. Entre os indicadores de rentabilidade destacamos o retorno sobre o investimento, o retorno sobre as vendas e o retorno sobre o capital próprio. Seção 8.1 Giro do Ativo (GA) O giro do ativo estabelece a relação entre o volume de vendas do período e os investimentos totais médios efetuados na empresa, representados pelo ativo total médio. GA = Giro do Ativo VL = Vendas Líquidas ATm = Ativo Total médio (aplicar a fórmula: ((ATi + ATf)/2), considerando ATi = ativo total inicial, que é o valor do ativo total final do ano anterior e ATf = ativo total final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. Observamos no quadro a seguir as informações para aplicação da fórmula GA da Empresa Alfha: Quadro 1 – Dados para Cálculo do Giro dos Ativos Código Balanço Patrimonial 1 Ativo Total – AT Código Demonstração do Resultado do Exercício 1 Receita Líquida de Vendas e/ou Serviços 20X1 3.807 20X1 5.402 20X2 5.071 20X2 5.670 Fonte: Elaborado pelos autores. Inicialmente encontraremos o valor do ativo total médio. ATm = Ativo total médio ATi = Ativo total inicial (é o valor final do ativo total do exercício anterior) ATf = Ativo total final (é o valor do ativo total final do exercício atual) 76 20X3 6.871 20X3 6.965 EaD análise financeira Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular o ativo total médio de 20X2 e 20X3, uma vez que o ativo total de 20X1 será considerado ativo total inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores do ativo total médio prosseguimos com a aplicação da fórmula do giro do ativo: Os resultados da Empresa Alfha mostram que diminui seu giro do ativo de 1,28 vezes em 20X2 para 1,17 em 20X3, resultado de um crescimento superior dos ativos em relação ao volume de vendas no período. A interpretação isolada do índice, evidentemente, é no sentido de “quanto maior, melhor”, indicando o nível de eficiência com que são utilizados os recursos aplicados na empresa, com vistas à geração de receitas. Cabem algumas observações, que interferem no cálculo do indicador: •O ativo total poderá estar subavaliado em virtude da inadequação ou inexistência dos índices de atualização monetária do ativo permanente, no caso de existência de inflação. •Eventuais reavaliações de ativos podem interferir na variação do giro do ativo de um ano para outro, bem como na sua comparação com os padrões do ramo de atividade. •Existência de itens representativos no ativo, que não estejam relacionados com produção e vendas, podem sobreavaliar o ativo e prejudicar o significado do indicador. •Empresas em fase de expansão, que adquirem ativos permanentes durante o período, também introduzem imperfeição no índice, uma vez que esses ativos não foram utilizados no processo produtivo durante todo o período. •Caso não tenha havido mudanças expressivas no valor do ativo total, de um ano para outro, podemos utilizar o ativo total no final do ano que está sendo analisado, em vez do ativo total médio. 77 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Seção 8.2 Margem Líquida Sobre Vendas (MLSV) Compara o lucro líquido em relação às vendas líquidas do período, fornecendo o percentual de lucro que a empresa está obtendo em relação ao seu faturamento líquido. Este índice também é conhecido como Lucratividade das Vendas. MLSV = Margem líquida sobre vendas LL = Lucro líquido VL = Vendas líquidas Observamos no quadro a seguir, as informações para aplicação da fórmula de MLSV da Empresa Alfha: Quadro 2 – Dados Para Cálculo da Margem de Lucro Sobre as Vendas (Lucratividade das Vendas) Código Demonstração do Resultado do Exercício 1 8 Receita Líquida de Vendas e/ou Serviços Lucro/Prejuízo do Período 20X1 5.402 20X2 5.670 20X3 6.965 295 300 347 Fonte: Elaborado pelos autores. Prosseguimos com a aplicação da fórmula da margem líquida sobre vendas: Podemos observar que a margem líquida sobre as vendas da Empresa Alfha diminui de 5,46% em 20X1 para 4,98% em 20X3. Este resultado, apesar de expressar uma queda pequena, demanda a necessidade de ajustes por parte da empresa, no seu patamar de receitas ou de custos, ou de ambos, conjuntamente. A exemplo de todos os indicadores de rentabilidade, a interpretação do índice é no sentido de “quanto maior, melhor”. Alguns comentários importantes a respeito da qualidade do indicador: 78 EaD análise financeira •Tanto o lucro líquido do período quanto as vendas líquidas, no caso de uma economia inflacionária, tendem a estar desatualizados, podendo, portanto, conter distorções no cálculo do índice se não houver instrumento de atualização monetária dos valores. •O lucro líquido pode conter valores expressivos relativos a despesas ou receitas não operacionais. •O resultado da equivalência patrimonial deve ser investigado para conhecer sua origem nas controladas ou coligadas. •O critério de avaliação dos estoques e de apropriação dos custos pode interferir no valor do CMV e, portanto, no lucro. Seção 8.3 Retorno Sobre o Ativo (RSA) O índice de retorno sobre o ativo indica o retorno que a empresa propicia em relação aos investimentos totais representados pelo ativo total médio. RSA = Retorno sobre o ativo LL = Lucro líquido ATm = Ativo total médio (aplicar a fórmula: ((ATi + ATf)/2), considerando ATi = ativo total inicial, que é o valor do ativo total final do ano anterior e ATf = ativo total final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. Observamos no quadro a seguir as informações para aplicação da fórmula de RSA da Empresa Alfha: Quadro 3 – Dados para Cálculo do Retorno sobre o Ativo Código Balanço Patrimonial 1 Ativo Total – AT Código Demonstração do Resultado do Exercício 8 20X1 3.807 20X1 20X2 5.071 20X2 20X3 6.871 20X3 295 300 347 Lucro/Prejuízo do Período Fonte: Elaborado pelos autores. 79 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular o ativo total médio de 20X2 e 20X3, uma vez que o ativo total de 20X1 será considerado ativo total inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores do ativo total médio prosseguimos com a aplicação da fórmula do retorno sobre o ativo: A interpretação do retorno sobre o ativo é no sentido de “quanto maior, melhor”. Para a Empresa Alfha, em 20X2, representou 6,76%, ou seja, para cada R$ 100,00 do ativo total médio, a empresa gerou um lucro líquido de R$ 6,76, diminuindo em 20X3 para R$ 5,81. Em síntese, o retorno sobre o ativo é o produto do giro do ativo pelo retorno sobre as venda. Esse retorno nos informa o percentual de remuneração dos ativos. Este índice pode ser comparado com uma aplicação financeira conservadora, a exemplo de aplicações em poupança ou em títulos de renda fixa. Seção 8.4 Retorno Sobre o Patrimônio Líquido (RSPL) O índice de retorno sobre o patrimônio líquido indica quanto de prêmio os acionistas ou proprietários da empresa estão obtendo em relação aos seus investimentos de capital próprio no empreendimento. O lucro líquido é o prêmio do investidor pelo risco do negócio. Evidentemente, quanto maior o retorno, melhor. RSPL = Retorno sobre o patrimônio líquido LL = Lucro líquido PLm = Patrimônio líquido médio (aplicar a fórmula: ((PLi + PLf)/2), considerando PLi = patrimônio líquido inicial, que é o valor do PL final do ano anterior e PLf = patrimônio líquido final do exercício atual, dividindo o resultado da soma por dois. 80 EaD análise financeira Observamos no quadro a seguir as informações para aplicação da fórmula RSPL da Empresa Alfha: Quadro 4 – Dados para Cálculo do Retorno sobre o Patrimônio Líquido Código Balanço Patrimonial 3 Patrimônio Líquido – PL Demonstração do Resultado do Exercício Código 8 20X1 1.284 20X1 20X2 2.210 20X2 20X3 3.387 20X3 295 300 347 Lucro/Prejuízo do Período Fonte: Elaborado pelos autores. Inicialmente encontraremos o valor do patrimônio líquido médio. PLm = Patrimônio líquido médio PLi = Patrimônio líquido inicial (é o valor final PL do exercício anterior) PLf = Patrimônio líquido (é o valor do PL final do exercício atual) Devemos observar que neste exemplo poderemos calcular o patrimônio liquido médio de 20X2 e 20X3, uma vez que o patrimônio líquido de 20X1 será considerado PL inicial para 20X2. Uma vez encontrados os valores do patrimônio líquido médio prosseguimos com a aplicação da fórmula do retorno sobre o ativo: Os índices de retorno em geral, e o RSPL especialmente, indicam a vitalidade da empresa, que muitas vezes se deteriora a partir de sua fraca capacidade de gerar lucro. O retorno obtido pelos proprietários do capital define a atratividade da empresa, determinando a catalisação ou fuga de investidores. A interpretação do retorno sobre o patrimônio líquido é no sentido de “quanto maior, melhor”. Para a Empresa Alfha, em 20X2, representou 17%, ou seja, para cada R$ 100,00 de patrimônio líquido médio investido no período, a empresa gerou um lucro líquido de R$ 17,00, diminuindo em 20X3 para R$ 12,00, representando 12% de retorno do capital próprio nesse período. 81 EaD Ivo Ney Kuhn – Amauri Luis Lampert Os resultados deste índice podem ser comparados com aplicações financeiras de risco médio ou alto, uma vez que expressam apenas o capital próprio investido no empreendimento e não o capital total ou patrimônio bruto, como é o caso do índice de retorno sobre o ativo total. Percebam que os índices de retorno adotam como base os diversos tipos de capital para a análise (Ativo Total e Patrimônio Líquido) e como numerador é utilizado o lucro líquido final do exercício social. Assim, estes indicadores explicitam a remuneração dos diversos tipos de capitais investidos. Síntese da Unidade 8 Nesta Unidade você foi desafiado a entender melhor a atividade de retorno da empresa e as relações entre resultados e investimentos e de que maneira elas se relacionam na formação da taxa de retorno de capital dos acionistas, além de aprender que se trata de uma ferramenta de análise da mais absoluta praticidade, aplicável a quase todas as situações e ramos de atividade. A remuneração sobre o capital investido é um dos objetivos principais da administração financeira. Dessa forma, cabe ao analista fornecer estas informações para o processo de tomadas de decisão, financeiramente correto. Bem, finalizamos os estudos da análise financeira. Esperamos que você aplique todos estes conhecimentos em suas incursões pelo mundo das empresas em que atuará. Bom proveito e muito sucesso. E, para seu maior conforto, criamos um quadro que faz a síntese de todos os conteúdos que tratam dos índices financeiros e que estudamos neste livro 82 EaD análise financeira 83 EaD Referências análise financeira ABREU, Aline França de; ABREU, Pedro Felipe de. Sistemas de informações gerenciais. Uma abordagem orientada à gestão empresarial. Florianópolis: Igti, 2002. BRASIL, Lei das S.A. Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976. São Paulo: Atlas, 1999. CFC. Conselho Federal de Contabilidade. Estruturação de demonstrações contábeis. Brasília, 1993. Caderno. IUDÍCIBUS, Sérgio de. Análise de balanços. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MATARAZZO, Dante C. Análise financeira de balanços: abordagem gerencial. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Planejamento estratégico: conceitos, metodologia e práticas. 29. ed. São Paulo: Atlas, 2011. PEREIRA DA SILVA, José. Análise financeira das empresas. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2010. 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