ANÁLISE INSTITUCIONAL DE UM GRUPO DE ORAÇÃO DO MOVIMENTO
CARISMÁTICO CATÓLICO
Edimar Roberto de Lima Sartoro
Marli Lúcia Tonatto Zibetti
Vanessa Aparecida Alves de Lima
Universidade Federal de Rondônia - UNIR
Resumo: Este trabalho apresenta uma análise institucional de um grupo de oração do
Movimento Carismático Católico. A partir dos pressupostos da Psicologia Institucional,
busca-se trazer à tona os meandros religiosos e sociais que atravessam e instituem os modos
de ser e viver do cristão carismático, bem como dar visibilidade ao processo de constituição
das relações grupais. Do ponto de vista teórico, nossa análise fundamenta-se em autores como
Bleger (1984), Guirado (1986) e Ardoino e Lourau (2003). O acesso aos conteúdos latentes e
manifestos do grupo de oração se deu por meio de analisadores como: a constituição do
grupo, a eleição para coordenador e o conflito com as lideranças da comunidade local. Os
resultados apontam que há, no interior do grupo uma constante tensão. Por um lado, o grupo
busca firmar suas bases no ideal cristão defendido pelo Movimento Carismático Católico, por
outro, enfrenta dificuldades para manter sua autonomia, bem como de romper com relações
autoritárias.
Palavras-chave: Psicologia Institucional. Grupo de Oração. Movimentos Católicos.
1. Introdução
Materializar ideias, sentimentos e vivências por meio de palavras, sempre nos
pareceu um exercício complexo. O que escrever? De onde escrever? Que questões pontuar?
Os textos produzidos social e historicamente revelam que não há neutralidade na escrita. A
simples escolha de um tema é atravessada1 por inúmeros conteúdos políticos e ideológicos.
Por isso, escrever nos parece um grande desafio, pois diante de uma dada realidade podemos
ser fiel a ela ou enviesá-la.
1
Atravessado é um conceito fundamental para se explicar como as dinâmicas institucionais estão implicadas por
fenômenos sociais, políticos, econômicos, entre outros (Lourau,1993).
Nosso interesse sobre o tema manifesta um esforço de olharmos para o Movimento
Carismático Católico e, mais especificamente, para o Grupo de Oração2 de um ângulo que nos
permita compreender suas múltiplas configurações, religiosas e sociais.
A Instituição é compreendida aqui como uma instância imaterial que está para além
do locus do estabelecimento, bem como um conjunto de crenças, valores e normas que são
produzidos na e pela ação do ser humano (LOURAU, 1993).
O trabalho está organizado em três partes. Inicialmente fazemos breve retrospectiva
sobre o surgimento da Renovação Carismática Católica (RCC), em seguida discutimos os
principais conceitos teóricos da Análise Institucional e para concluir, à luz dos pressupostos
da Análise Institucional (AI) problematizamos alguns analisadores produzidos no interior do
grupo.
2. Breve histórico da Renovação Carismática Católica
A Renovação Carismática Católica é um movimento que nasceu em contexto norteamericano em meados da década de 1960. Seu surgimento está vinculado, especialmente, pela
reforma no interior da Igreja Católica, desencadeada pelo Concílio Vaticano II e pelo
fenômeno religioso pentecostal das igrejas protestantes estadunidense.
No que se refere ao Vaticano II, esse foi um concílio ecumênico realizado pela Igreja
Católica Apostólica Romana com os bispos de todo o mundo; ocorreu entre 1962 a 1965 em
diversas sessões, na cidade do Vaticano. Para Carranza (1998, p. 15) o objetivo do Concílio
foi:
Enfatizar a renovação litúrgica e bíblica, procurar novas relações entre a Igreja e a
Sociedade Moderna e entre outras religiões, rever a função do leigo no mundo e na
Igreja, o que implicou na reorientação pessoal do fiel para um engajamento nas lutas
sociais em nome do Evangelho e na sua participação dentro da estrutura
institucional.
O Vaticano II buscou modernizar e abrir a Igreja ao mundo moderno. Nesse intento,
o espírito de renovação que permeou todo o concílio foi guiado pela intenção do então Papa
João XXIII de promover um novo Pentecostes, experiência espiritual que conduziria a igreja
uma atualização de missão de evangelizar.
Esta abertura deu margem aos novos “ventos” teológicos e por toda parte surgiram
manifestações espirituais e pastorais como, por exemplo, a RCC (USA) e a Teologia da
Libertação (América Latina). No entanto, esses não foram os únicos movimentos que
2
Para preservar o anonimato do Grupo analisado apenas o nomearemos como Grupo de Oração (GO).
nasceram inspirados pela reforma da igreja. Conforme o Documento Teologia dos
Movimentos, elaborado pela Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (2001), atualmente
existem vários movimentos que buscam viver de maneira diferente a fé católica, tais como:
Comunhão e Libertação, Focolares, Neocatecumenais e Movimento de Schönstatt3.
É dentro desse contexto de busca de renovação do catolicismo tradicional que surge
o Movimento Carismático Católico.
Segundo Carranza (1998), o evento que marcou o surgimento da RCC ou o
Pentecostalismo Católico, foi um retiro espiritual realizado por universitários e professores da
Universidade de Duquesne em Pittsburgh (USA), em fevereiro de 1967.
Durante o retiro, seus participantes lembrando-se do fenômeno bíblico de pentecostes
e a experiência das primeiras comunidades cristãs onde, bem como motivados pela leitura do
livro A Cruz e o Punhal4 do pastor protestante David Wilkerson, pediam a Deus que algo
novo acontecesse em suas vidas e, por conseguinte, na vida da igreja.
Mansfield uma das participantes daquele retiro, relembrando o fenômeno que
ocorrera faz o seguinte comentário:
Quando estava sozinha na capela, de repente, tive uma sensação incrível, estava
prostrada no chão, parecia flutuar, tive uma paz incrível. Tive a certeza de que
estava na presença do Senhor, não vi nada, nenhuma imagem, apenas senti a
presença Dele. Eu quis dividir essa experiência com outros estudantes, chamei-os à
capela e nós todos sentimos a necessidade de rezar com os braços ao alto, sentimos a
sensação de fogo nas pontas dos dedos, sentimos uma pressão forte na garganta,
vontade de falar com Deus e de rezar, ao mesmo tempo. Naquele momento nós
todos tivemos a certeza de que fomos batizados no Espírito Santo (Carranza, 1998,
p. 23).
Esse final de semana em que ocorreu o retiro ficou conhecido como o “Fim de
Semana de Duquesne” e é considerado por estudiosos como Sofiati (2009), Carranza (1998) e
Valle (2004), o ponto de partida do movimento carismático internacional.
Carranza (1998) assinala que o Movimento Carismático, embora tenha seu
surgimento atribuído ao Vaticano II, teve forte influência do pentecostalismo norte-americano
que havia surgido no final do século XIX entre algumas igrejas protestantes como a Igreja
Batista, por exemplo. De acordo com Valle (2009, p. 02) já: “Na primeira metade do século
XX, o pentecostalismo havia se destacado como sendo o mais eficiente instrumento de
revitalização da fé no protestantismo norte-americano.”
3
Sobre esta temática ver: ORNELAS, C. V. A. Novos Movimentos Eclesiais, Ortodoxia e Emancipação: um
estudo da identidade de jovens conversos. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – PUC/SP. 2006. Disponível
em: < http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp013787.pdf>. Acesso: 03/12/2009.
4
“O livro relata a recuperação de jovens ligados à criminalidade, como um dos textos mais importantes nesse
movimento de transformação espiritual que logo se espalharia pelo mundo” (Castilho, 2004, p. 12).
No que tange a identidade do Movimento Carismático, uma característica que o
marcou desde sua origem foi a irrestrita adesão a doutrina oficial católica. Esta conformação
aos princípios católicos tradicionais permitiu que a RCC tivesse fácil aceitação entre as
autoridades eclesiásticas. Sobre isso afirma Sofiati (2009, p. 05):
O movimento consegue manter toda radicalidade em sua proposta de evangelização
sem romper com os princípios básicos que orientam as dioceses e paróquias em todo
país. As tensões estão presentes em muitos lugares, porém, o que predomina é uma
profunda e intensa comunhão com a doutrina apostólica romana. A devoção à figura
bíblica de Maria e a obediência subserviente ao Papa são elementos que ajudam a
entender essa realidade.
O Movimento Carismático, embora possua singularidade na forma de viver o
catolicismo, não apresenta nenhuma nova doutrina ou dogma, nem tampouco, como vimos
anteriormente, apresenta resistência à doutrina católica: “[...] pelo contrário, tem contribuído
para o fortalecimento do espaço institucional da Igreja Católica”, afirma Mariz (2003, p. 04).
Desse modo, a doutrina seguida pela RCC é a mesma que fundamenta a igreja
Católica, tais como: a existência da Santíssima Trindade (Deus uno e trino); Jesus Cristo,
verdadeiro Deus e Homem; a ressurreição dos mortos; a fé, a caridade (amor) e os
sacramentos como necessidades para a salvação humana; a Bíblia e a Tradição como fontes de
fé; a virgindade de Maria Santíssima; conservação dos sete sacramentos (batismo,
confirmação, penitência, ordem, matrimônio, eucaristia e unção dos enfermos).
De acordo com Carranza (1998) o processo de institucionalização do Movimento
começou em 1973, quando obteve do então Papa Paulo VI o reconhecimento internacional da
RCC, quando o mesmo aprovou os meios e propósitos do Movimento. Posteriormente, o Papa
João Paulo II, em 1979, reunido-se com os membros do conselho mundial da RCC, ratificou a
aprovação dada pelo Papa Paulo VI.
O Movimento Carismático, após receber o reconhecimento institucional do Vaticano,
cresceu rapidamente e espalhou-se por diversos países. Castilho (2004, p. 12) destaca que:
“um ano após sua fundação, houve um Congresso Nacional nos EUA reunindo centenas de
pessoas. O segundo Congresso Internacional, em 1974, teve a participação de cerca de 30 mil
pessoas, de 35 diferentes países, estimativas da época apontavam para a existência de 800 mil
carismáticos no mundo.”
Segundo dados apresentados por Carranza (1998), esta cifra, ao final da década de
1990, era de aproximadamente 40 milhões de seguidores em todo o mundo, distribuídos em
270 mil grupos de oração. Este crescimento foi bem visto pelas autoridades eclesiais, pois
muitos católicos estavam deixando a Igreja e migrando em grande número principalmente
para as igrejas evangélicas. Assim, o dinamismo no anúncio do Evangelho, a valorização das
práticas espirituais e a utilização de meios midiáticos, foram instrumentos importantes para
promover um novo ardor missionário e espiritual no interior do catolicismo.
3. A Renovação Carismática Católica
A RCC possui um sistema de organização que se dá nos âmbitos local, regional,
nacional e internacional. O objetivo é promover, garantir e manter a unidade. Atualmente,
segundo Castillho (2004), o Movimento possui um organismo internacional, o International
Catholic Charismatic Office (ICCRO), sediado em Roma. Sua função é organizar encontros,
conferências e outras atividades, como a publicação de um Boletim Internacional. No âmbito
Latino Americano, possui o Conselho Carismático Católico (CONCCLAT).
Com relação à sua caracterização, a Renovação possui uma identidade fundamentada
sobre o tripé: Batismo no Espírito Santo, exercício dos carismas e vida comunitária. O
Batismo no Espírito é considerado como a essência do Movimento, por meio dele as pessoas
experimentam uma nova vida. “Quem aceita o Batismo no Espírito Santo é plenificado por
Ele e torna-se apto a produzir seus frutos”, afirma Silva (2009, p. 20). No que se refere aos
carismas esses são concebidos como: “dons, graças presentes, dados pelo Espírito Santo”
(Mariotti, Lungnani & Souza, 2009, p. 12). Já a vida comunitária é constituída por grupos de
pessoas que decidiram “deixar tudo” para dedicarem-se inteiramente à Deus, em comunidade
partilhar trabalho e orações, bem como dinheiro e bens materiais.
A relação com o Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, é uma
experiência fundante para todo o Movimento. Em suas orações, pregações e louvores a pessoa
do Espírito Santo é sempre lembrada e invocada. O culto ao Deus Espírito Santo, contudo,
não pertence unicamente a RCC. A Igreja Católica, em sua tradição, sempre invocou sua
presença, porém no interior do Movimento Carismático esse culto ganhou centralidade.
Outras características do movimento como: aceitação incondicional de Jesus como
único e verdadeiro senhor e salvador, amor e devoção a Maria; adoração à Eucaristia,
renúncia dos prazeres “mundanos”, vivência da castidade, busca de santidade, entre outras,
também são encontradas no interior da RCC.
No Movimento tais princípios norteiam a vida do católico carismático. O objetivo é
crescer espiritualmente. Não cumprir os preceitos e doutrinas em sua totalidade significa não
fazer a vontade de Deus. De acordo com Carranza (1998), o ideal religioso pregado pela RCC
é rigoroso e exige do fiel desprendimento e desapego, principalmente, dos desejos e vontades
próprias, considerados, por vezes, impeditivos para uma experiência profunda com o Senhor.
3.1 Grupo de Oração (GO)
A RCC se organiza em torno de grupos de oração que são a base social da estrutura
do Movimento. A formação e manutenção dos grupos carismáticos geralmente é uma
atividade leiga, sendo formados por um número variado de pessoas, em reuniões que
acontecem semanalmente. Conforme afirma Carranza (1998, p. 37): “A atividade central é a
oração [...]. Nela se inserem todo tipo de emoção e manifestação de experiência pessoal,
leitura da Bíblia e cantos”. Novamente recorremos a Sofiati (2009, p. 03) que nos ajuda a
entender a dinâmica dos grupos de oração.
Os grupos de oração na RCC são espaços religiosos que permitem ao fiel procurar
uma “satisfação espiritual”, desligando-se do mundo material. Seus participantes
procuram e encontram uma resposta religiosa a suas aflições cotidianas,
reelaborando sua maneira de ver e agir na sociedade. No caso do trabalho com os
jovens a RCC realiza atividades específicas como o rebanhão ou retiros preparados
como alternativa ao carnaval, além dos barzinhos de Jesus, Raves Católicas e
Cristotecas (festas freqüentadas pelos jovens praticantes). A banda de música na
RCC é um elemento de coesão e conexão do grupo de jovens que reforça sua
identidade carismática.
O GO, de acordo com o documento GRUPOS DE ORAÇÃO (1999), é um
instrumento privilegiado da Renovação Carismática Católica para realizar a tarefa de
evangelização, de reavivamento e de reconstrução da Igreja. Nesse entendimento, o GO é
visto como célula fundamental do Movimento Carismático que visa, entre outros, conter o
esvaziamento da igreja católica, trazer um novo ardor missionário, oportunizar a vivência de
uma espiritualidade mais íntima com Deus, retomar a leitura da Bíblia e as orações como uma
prática cotidiana do fiel.
O GO, em geral, não possui estabelecimento próprio, necessitam, portanto, que
alguma comunidade os acolha para que possam desenvolver suas atividades. O fato do GO
não ter um lugar próprio decorre do cuidado que o Movimento Carismático tem de não
postular, devido à especificidade de sua identidade, que o movimento seja uma nova
instituição religiosa, distinta da fé católica.
Sobre esta questão, conforme as orientações pastorais da Conferência Nacional dos
Bispos Brasileiros (CNBB 1994), a RCC deve: “Assumir, também, as opções, diretrizes e
orientações da Igreja particular onde se faz presente, evitando qualquer paralelismo.” (1994,
p. 29). Assim, o GO é orientado a alimentar o espírito de comunhão eclesial, buscar o
crescimento na fé e oportunizar aos participantes efetivo compromisso na evangelização,
engajando-se nas comunidades, paróquias e dioceses.
Com relação à dimensão social da fé, a CNBB (1994, p. 08) no documento
“Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica”, recomenda que os membros
dos grupos de oração sejam: “[...] animados a assumir projetos de promoção humana e social,
especialmente dos pobres e marginalizados.”
As recomendações proposta pela CNBB (1994) encorajam, portanto, uma unidade
íntima entre a vida prática dos membros e a própria fé, pois conforme afirma Valle (2004, p.
98), “[...] a RCC é a principal representante de um segmento que tenta levar a Igreja Católica
a assumir um caráter mais intimista e pietista que social.”.
Sobre esta questão evidencia Ferraro (2004, p. 165):
Nota-se, nesta vivência, um Cristo voltado para o coração, visando a intimidade e a
subjetividade. Isso leva um reforço de relacionamento pessoal e, normalmente, a
uma fuga das questões ligadas à luta pela transformação social. Há aí um perigo de
se cair no intimismo e no subjetivismo ao se perder ou não dar valor às questões
ligadas ao coletivo e ao comunitário.
Esta é uma crítica que o Movimento Carismático sofre por parte de teólogos e padres
ligados, principalmente, à Teologia da Libertação, os quais veem o Movimento desvinculado
das relações comunitárias, das causas sociais e políticas.
Antes de nos determos em nosso objetivo, convém tratarmos de alguns termos que
aparecerão durante a análise. Nosso intento não é fazer uma ampla revisão teórica sobre o
assunto, mas apenas esclarecer alguns conceitos característicos da Psicologia Institucional.
4. Conceitos teóricos da Psicologia Institucional
A instituição como aponta Lourau (1993, p. 61): “[...] não é um conceito descritivo;
não designa coisas passíveis de serem vistas, sólidas, concretas”. Nessa perspectiva,
apreendemos a instituição como uma instância que está para além da materialidade da
organização, do estabelecimento e que se manifesta por meio das ações humanas, das relações
grupais, dos comportamentos, dos modos de ser e pensar.
Conforme Guirado (1986), a análise institucional visa revelar o nível oculto da vida e
o funcionamento dos grupos. Nesse sentido, ela busca: “[...] questionar, interpretar e
transformar o lugar imaginário, simbólico, o espaço da hierarquia, [...] de captura da
subjetividade, a relação entre o instituído e o instituinte, ou seja, é liberar a palavra da
instituição, o não-dito” (Pereira & Panzim, 2007, p. 524).
É a partir de tal complexidade que se busca, por meio da AI, desvelar as situações de
crise, os conflitos, as contradições e impasses existentes, que até então permaneciam ocultos.
Tais fenômenos vivenciados pelo grupo assumem o papel de analisadores. Segundo Mourão,
Martins, Vieira Rossim e L’Abbate (2007, p. 186), “dar-se-á o nome de analisador àquilo que
permite revelar a estrutura da instituição, provocá-la, forçá-la a falar.”
O efeito do analisador é sempre trazer à tona o que estava escondido, camuflado, a
fim de provocar uma desestrutura no que está estruturado; causar estranheza naquilo que era
conhecido (Guirado, 1986).
Outros dois conceitos são fundamentais para a análise institucional são eles:
instituído e instituinte. De acordo com Guirado (1986), o instituído refere-se àquilo que está
cristalizado, estabelecido; por sua vez, o instituinte ao movimento de ação, criação. Desse
modo, a instituição não tem um caráter permanente e estático, a dinâmica produzida pela
força do instituinte sob o instituído provoca um movimento dialético de construção e
desconstrução das relações.
Nesta perspectiva, apreendemos o Grupo de Oração analisado como uma instituição.
De acordo com Pereira e Panzim (2007, p. 525): “As instituições da vida religiosa, ainda que
estejam fundadas em princípios evangélicos e de ordem espiritual, obedecem à mesma
dinâmica do tecido social civil e leigo.” Nesta direção, os membros do Movimento
Carismático, relacionam-se, convivem, organizam-se dentro de princípios e dinamismos
institucionais.
Dado esse cenário, passamos a apresentar a Análise Institucional do Grupo de
Oração a partir do processo de constituição histórica. Por questões éticas o nome do GO, bem
como da cidade onde se localiza, serão mantidos em sigilo.
5. Processo de constituição do GO
O Grupo de Oração que ora analisamos foi criado no ano de 1990, por um grupo de
dez pessoas. Inicialmente não tinha lugar fixo e, assim, os encontros eram realizados
semanalmente nas casas dos próprios participantes. Esse arranjo durou pouco mais de um ano
quando se tornou inviável, devido ao crescimento de participantes.
Desse modo, os membros que haviam iniciado o Movimento, intercederam junto às
autoridades eclesiásticas da paróquia local para que lhes permitissem realizar os encontros em
alguma comunidade (igreja).
O pedido foi aceito e o grupo passou a se reunir em uma igreja localizada em bairro
periférico da cidade. A comunidade que os acolheu foi criada no início da década de 1980, e
tinha uma história de luta contra as injustiças sociais, sendo suas lideranças notadamente
ligadas à Teologia da Libertação. Assim, quando o grupo chegou à comunidade houve um
choque de “ideologias”, pois como já comentado anteriormente, há entre os grupos descritos
posicionamentos ideológicos diferenciados.
O recém formado grupo ainda não tinha uma organização sistemática, não havia um
líder ou hierarquia constituída, as decisões eram tomadas coletivamente; essa organização
permitia um relacionamento bastante democrático entre os membros do grupo. Mas isso não
durou muito tempo. Com o crescimento do grupo surgiu a necessidade de se organizar, de
constituir os chamados ministérios, de formar as equipes de trabalho, bem como de eleger um
coordenador.
No processo de consolidação o grupo buscou formar seus membros, para tanto, nos
finais de semana aconteciam estudos sobre a identidade da RCC, estudos bíblicos e retiros
espirituais. O grupo, nesse período, também realizava os chamados Seminários de Vida no
Espírito. Esses seminários eram meio pelo qual o GO procurava levar a experiência que dera
origem ao Movimento a todas as pessoas. Neles os participantes eram conduzidos a fazer uma
experiência pessoal com Deus e a experimentar o Batismo no Espírito Santo. Essa é a história
oral do início do GO, não há nenhum registro escrito que documente o que aconteceu depois
de sua fundação.
O atual GO é constituído por um grupo de aproximadamente vinte pessoas, os quais
são responsáveis pela realização dos encontros semanais de louvor e oração. Seus membros
são chamados de servos e formam a estrutura principal. Em grande parte, os servos são de
outras comunidades que em função da realização da reunião de oração, ao menos duas vezes
por semana se reúnem para rezar, partilhar experiências e organizar os encontros futuros.
A igreja onde o GO realiza suas reuniões ainda é a mesma de quando começara, no
início da década de 1990. O espaço físico é formado pelo prédio da igreja que possui um salão
que comporta aproximadamente trezentas pessoas, um barracão que é utilizado para as festas
da comunidade, um centro de catequese com sete salas e uma casa onde mora a zeladora da
igreja. Toda a estrutura da comunidade ocupa uma quadra com aproximadamente 7.800
metros quadrados.
5.1 Os momentos do GO
A organização do GO se dá em dois momentos distintos, o núcleo de serviço e a
reunião de oração, sendo este último o principal, pois é em função desse momento que o outro
acontece.
A reunião de oração é um evento aberto a todos, não somente a comunidade local,
mas também às demais comunidades da cidade e é o momento em que acontece a
evangelização. A meta é conduzir os participantes a experimentar uma vida cheia do Espírito
Santo ou conforme sintetiza Mariotti, Lungnani e Souza (2009, p 9) “O objetivo do grupo de
oração é levar os participantes a experimentarem o pentecostes pessoal, a crescer e chegar à
maturidade da vida cristã plena do Espírito.”
A reunião do núcleo é um evento exclusivo dos coordenadores e servos. E, nas
palavras de Silva (2009, p. 12) a finalidade é: “[...] louvar, orar, interceder pelo grupo,
discernir e aplicar a orientação para o grupo. Sua missão é evangelizar e formar os membros
do grupo e levá-los a uma profunda experiência com Deus, de vida no Espírito Santo,
inserindo-os no conjunto da Igreja.”
Nesta perspectiva, nosso desafio é apreender a dinâmica desses dois momentos que,
atravessados por conflitos e contradições, manifestam segundo Bleger (1984) os conteúdos
manifestos e os conteúdos latentes.
O núcleo de serviço é constituído por pessoas que buscam viver uma prática cristã
mais voltada para a oração. Esta equipe assume o grupo como um todo em sua espiritualidade
e organização. Apresentaremos a seguir as finalidades do núcleo de serviço conforme estão
dispostas no documento Grupos de Oração (1999):
•
Avaliar as reuniões de oração;
•
Acompanhar e assistir os fiéis que estão no grupo em suas necessidades pessoais
(doenças, dificuldades de oração, ausência das reuniões etc.);
•
Interceder constantemente pelo Grupo de Oração do qual faz parte;
•
Preparar
as
reuniões
do
Grupo
de
Oração,
distribuindo
os
serviços
e
responsabilidades, escolhendo, preparando a pregação e rezando por aqueles que
desempenharão alguma função.
O núcleo de serviço é, nesta perspectiva, o suporte de todo GO. Nessa reunião os
servos, além de cumprirem as tarefas expostas acima, partilham experiências, leem a bíblia,
cantam e oram.
O GO é, assim, constituído por dois momentos distintos: um voltado para o público
(aberto), e outro voltado para os membros efetivos – os servos – (fechado). Na relação entre
esses dois momentos, constatamos que ocorre sensível separação entre os servos e os não
servos. No primeiro momento, aberto para toda a comunidade, as pessoas que participam do
GO não possuem um vínculo direto com a RCC. Muitos participam apenas como ouvintes,
pois gostam da música, do jeito alegre de louvar, da pregação da palavra, mas apenas isso.
Para os servos o não comprometimento daqueles que buscam o GO é visto como um
problema. Em suas orações e pregações insistem que é preciso uma conversão total. É
necessário “avançar para águas mais profundas”, “experimentar o verdadeiro amor”, “deixar a
vida de pecado”, afirmam. Os servos demonstram-se descontentes com a imparcialidade dos
participantes, assim, ora acreditam que o “povo não quer nada mesmo”, ora acreditam que a
culpa é do próprio grupo que não tem feito direito seu papel de evangelizar.
O Movimento quando surgiu na década de 1960, não tinha como objetivo apenas
fazer as pessoas se sentirem bem, mais felizes. Os jovens universitários queriam provocar um
novo pentecostes na Igreja, para isso era preciso assumir uma radicalidade no modo de ser e
de viver do cristão, a conversão à Cristo era condição para que isso de fato ocorresse.
Por conseguinte, esse pensamento é reproduzido no interior do grupo. Conforme
Carranza (1998), o Movimento nasceu atravessado por inúmeras transformações sociais e
culturais que estavam ocorrendo em todo o mundo. Nesse sentido, os católicos pentecostais
cunharam a ideologia de que para mudar o mundo exterior precisavam, primeiro, mudar o
mundo interior.
Nesta perspectiva, a conversão do coração era o único caminho para construir um
novo mundo ou uma nova igreja. Assim a RCC, criou um modo próprio de vivenciar a fé
católica e, conforme Sofiati isso exige (2009, p. 2): “[...] uma ética individual contestadora da
moral circundante com insistência em uma vida de pureza, santificação e piedade; uma ênfase
na experiência religiosa que por vezes coloca a emoção à frente das reflexões teológicas, uma
atividade devocional intensa; e um espírito de reativação da espiritualidade.”
Nesta direção, entendemos que há uma instituição do modo de vida do cristão
carismático e que se revela como a maneira “perfeita” de vida cristã que deve ser assumida
por todos. Assim parece que o grupo se vê como povo consagrado, isto é, separado, diferente
das demais pessoas porque experimentaram por meio da conversão uma vida nova.
5.2 Conflito com as lideranças da comunidade
As relações entre os membros do GO e as lideranças da igreja inicialmente não eram
conflituosas. Mas com o tempo, surgiram alguns descontentamentos por parte da comunidade.
Questões como: conta de luz, utilização dos equipamentos de som e dos instrumentos
musicais e limpeza da igreja passaram a ser pontos de desentendimento.
Para a comunidade havia consenso de que o Movimento deveria ajudar na
manutenção da igreja, principalmente com os custos da energia elétrica. Assim, em reunião
com o coordenador do grupo carismático as lideranças da igreja propuseram que houvesse a
participação do GO no pagamento da conta de luz.
O grupo concordou com a solicitação. Contudo, nem todos os servos ficaram
satisfeitos com a postura da comunidade, pois, argumentavam que os servos pagavam o
dízimo e faziam ofertas e isso lhes daria o direito de usufruir da igreja sem a oneração de
custos. Desse modo, o GO decidiu internamente que não iria cumprir com o combinado e que
em uma próxima reunião com as lideranças da igreja argumentaria o porquê da decisão.
A postura tomada pelos servos do Movimento, aparentemente foi aceita pela
comunidade, contudo o grupo sofreu punições. Por vezes, quando os servos chegavam para as
reuniões a igreja encontrava-se de portas fechadas. Assim, ficavam todos do lado de fora
esperando que alguém que fosse autorizado pela comunidade viesse abrir a as portas da igreja.
A igreja fica fechada a maior parte do tempo, sendo apenas aberta quando há alguma
atividade.
A igreja de portas fechadas queria dizer algo. O GO percebeu isso, mas não sabia o
que fazer. Voltar atrás poderia desautorizar a palavra do grupo, insistir não parecia ser
adequado.
Percebemos nesse impasse a luta por territorialidade e poder. O GO queria mostrar
autonomia diante da comunidade, pois embora soubesse que necessitava da igreja para
realizar sua missão, não pretendia assumir suas demandas e necessidades. Por outro lado, a
comunidade entendeu que o grupo carismático estava querendo romper com as regras e
normas estabelecidas e decidiu puni-lo, deixando a igreja de portas fechadas.
Desse modo, ficou claro para os membros do GO que sua presença poderia ser aceita
naquele local, conquanto que não subvertesse o poder hierárquico das lideranças da igreja.
5.3 Eleição para novo coordenador do GO
No início do ano de 2009, o grupo estava passando por um momento de tensão. Era
chegada a hora de trocar de coordenação e escolher um sucessor. As eleições acorrem no
grupo a cada dois anos, e qualquer servo pode concorrer ao cargo, desde que mostre interesse.
O grupo naquele momento apresentava sentimentos antagônicos. Por um lado todos queriam
que a eleição acontecesse, pois se acreditava que o novo coordenador poderia trazer um novo
ânimo para o grupo. Por outro, ninguém demonstrava qualquer interesse em se candidatar a
tal posto. A escolha de uma nova liderança, naquele momento, era vista como uma espécie de
“salvação” para o GO.
Nos anos de 2007 e 2008 o Movimento carismático enfrentou muitos conflitos:
servos abandonaram o grupo, o número de participante das reuniões de oração diminuiu
consideravelmente e, sobretudo, havia um sentimento interno de descontentamento com a
gestão do coordenador. As queixas eram frequentes, especialmente sobre as tomadas de
decisões arbitrárias que pouco representavam a vontade coletiva do grupo.
Também havia outros descontentamentos em jogo. Na RCC o coordenador é
considerado como coluna do Movimento. A ele é atribuído o papel de “pastor” que deve dar a
vida por suas “ovelhas”. Sua função, além de coordenar, afirmam Miriotti, Lungnani e Sousa
(2009, p. 10) “[...] é ser pessoa de profunda intimidade com Deus, de intensa vida de oração e
de escuta, para que Jesus seja o Senhor do Grupo de Oração e o Espírito Santo o conduza.”
Um pensamento comum que atravessa o Movimento carismático é que o grupo de
oração é um reflexo da vida (espiritual) do coordenador. A questão é a seguinte: coordenador
“santo”, grupo sem problemas. Desse modo o porquê dos conflitos enfrentados, apontava
unicamente para a pessoa do coordenador.
Diante desses conflitos e da responsabilidade de coordenar o grupo de oração, seus
servos paralisaram. Tinha chegado a hora de o grupo resolver seus impasses. A eleição era a
oportunidade de provocar um movimento de mudança no que havia se instituído no interior
do grupo. Surge nesse contexto um problema: ninguém queria se candidatar ao cargo de
coordenador do grupo. Coordenar GO parecia uma tarefa difícil, pois além das questões
institucionais, havia a questão espiritual que exigia muita dedicação e desprendimento.
O impasse durou por volta de dois meses. Durante esse tempo vários nomes foram
cogitados, mas todos se diziam despreparados e sem tempo para tal missão. Contudo, uma
jovem, vendo a possibilidade de o grupo continuar com a mesma liderança e com os mesmos
problemas, disse que assumiria a coordenação, mas provisoriamente por apenas seis meses. O
objetivo foi ganhar tempo, até quando alguém sentisse o “chamado” e aceitasse
definitivamente o cargo. Porém, com esse arranjo o problema não foi resolvido, mas adiado.
Considerações finais
A partir do exposto, vemos que Grupo de Oração ao chegar à comunidade, buscou
constituir seu espaço. A busca por autonomia foi logo de início anunciada por seus servos,
quando os mesmos se recusaram colaborar com a manutenção financeira da igreja. Esse
posicionamento provocou efeitos colaterais e, frente ao mal-estar causado, os membros do
grupo precisaram reconhecer que, para o exercício de suas reuniões era necessário submeterse à hierarquia da comunidade.
Vimos assim que havia, ainda, hierarquia no interior do grupo. O então coordenador
possuía dificuldades em ouvir os apelos dos servos e, no processo de tomada de decisão, tinha
a última palavra. O GO vivenciava, assim, com a eleição do novo coordenador, a
oportunidade de provocar mudanças nas relações instituídas, contudo o grupo possuía uma
imagem idealizada do futuro coordenador. Esperava-se, pois, que esse fosse uma pessoa
“santa”, de intensa oração, bem como possuidor de espírito democrático e que possuísse,
ainda, disponibilidade de tempo.
No entanto, observa-se que esse ideário tem impedido que novos servos assumam tal
cargo possivelmente não há pessoas que se enquadrem, perfeitamente, ao perfil exigido.
A eleição alimentava esperanças, mas diante das inúmeras exigências o grupo, não
conseguiu sequer um candidato. Guirado (1986) nos ajuda a compreender o que estava
ocorrendo com o grupo. Por um lado, havia em seu interior, um movimento instituinte dos
servos que buscavam provocar mudanças e desestruturar aquilo que estava cristalizado, como
por exemplo, o papel autoritário do coordenador. Por outro, os servos sentiam-se impotentes
frente ao instituído; coordenar nesse contexto seria assumir um fardo. Pode-se concluir que o
modelo idealizado de pessoa que deverá coordenar o GO não tem ajudado o grupo crescer,
pelo contrário, tem enfraquecido sua estrutura.
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