A SOCIOLOGIA NOS CURRÍCULOS DO ENSINO MÉDIOi
A Sociologia só fará sentido em um currículo que busque uma educação científica e
humanista. Só a ciência não será capaz de criar um ethos democrático, tolerante, socialista, ou seja, o
aprendizado calcado nos fundamentos científicos deverá ter também bases filosóficas e sociológicas, que
possibilitem a formação de personalidades capazes de indagar esses próprios fundamentos, quando
relacionados com a realidade social que é sempre dinâmica e mais complexa do que os modelos e teorias
cientificas. Desse modo, o ensino das ciências sociais na disciplina sociologia deverá possibilitar o
desenvolvimento dessa capacidade de distanciamento e envolvimento. Capacidade de distanciamento
significa que todo exercício de compreensão dos jovens sobre o meio social em que vivem, os
conhecimentos aprendidos na escola, os valores de sua religião de origem e os valores do capitalismo será
possível com o estranhamento desses fenômenos tidos como naturais. Esse distanciamento, que é “mais
fácil” nas ciências naturais e exatas e mais complicado nas ciências sociais, poderá ser estimulado através
do ensino dos instrumentos teóricos e de pesquisa elaborados ao longo de mais de cento e cinqüenta anos
nas ciências sociais, especialmente, na antropologia, na ciência política e na sociologia. Tendo já
familiaridade com os saberes da História, da Geografia, das Artes e da Literatura, os jovens do Ensino
Médio poderão entrar em contato com a produção das ciências sociais, mais novas, porém, com
maturidade suficiente para contribuir no processo de formação dos jovens.
A capacidade de envolvimento significa que o exercício de compreensão dos jovens sobre os
fenômenos sociais, possibilitará que elaborem novas formas de explicação e também de envolvimento com
essas realidades. O objetivo do ensino de sociologia é o de modificar os padrões de
envolvimento e distanciamento dos jovens em relação à vida social.
Os olhares dos alunos deverão ser alterados pelos “óculos” das teorias sociais. Seus olhares
deverão se desprender das imagens já construídas sobre a escola, os professores, os pobres, os ricos, as
igrejas, as religiões, a cidade, os bairros, as favelas, a violência, os políticos, a política, os movimentos
sociais, os conflitos, as desigualdades, entre outros.
O que significa alterar os “olhares” dos nossos alunos? Significa doutriná-los em nossas convicções
religiosas e políticas? Significa dizer para eles que tudo o que eles pensam é senso comum, não serve para
o exercício da razão? Significa afirmar-se com um discurso moralista ou revolucionário?
Certamente que não! Mesmo que a neutralidade não exista na elaboração dos programas da
disciplina e das aulas, um certo rigor é necessário. Como dizia Max Weber, sociólogo alemão, o professor
não pode usar a docência para panfletar, para defender suas posições partidárias e religiosas. Como
homem público sim, poderá fazê-lo, mas como professor deve ter um rigor científico que o leve a oferecer
aos alunos o acúmulo de conhecimento da disciplina. Marx também advertia que a caracterização de uma
teoria como representando o ponto de vista de uma classe determinada não significava necessariamente
que essa obra não tinha valor cientifico. Por isso, Marx, em sua obra, estudou e discutiu com o que havia
de mais sofisticado na Filosofia e na Economia dos séculos XVIII e XIX .
(...)
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Levar aos alunos o acúmulo de reflexões ou o estado da arte da disciplina não é uma tarefa fácil,
porque exigirá recortes, escolhas, delimitações de conteúdos, de teorias, e parafraseando Weber, aqui nós
podemos ser parciais. Até porque o tempo das aulas, o número de aulas por semana, por mês e por ano
exige que selecionemos o que consideramos o melhor desse “acúmulo”, ou aquilo que dominamos mais e
nos motiva mais. Bem, uma vez feita a escolha, a seleção e as divisões dos conteúdos, devemos cuidar
para sermos fiéis à ciência, ou como diria Marx, sermos comprometidos com a busca da essência,
superando as visões que temos sobre a aparência da vida social. O fato de estarmos comprometidos com
uma classe social, no caso, a classe trabalhadora, exige ainda mais rigor cientifico. É o contrário do que
propalam algumas versões vulgares de pedagogias liberais, do ensino por competências, do “aprender a
aprender”, em que os pobres deverão ter um ensino mais leve, mais palatável, simplificado e resumido no
imediato das experiências cotidianas, normalmente tratadas de forma sincrônica (sem história).
(...)
O ensino de sociologia poderia provocar o estranhamento em relação à sociedade não só com os
alunos, os jovens e adultos do ensino médio, mas também com os professores, trabalhadores das escolas
e sociedade em geral.
(...)
(...)
Como a sociologia poderá ajudar aos jovens encontrar sentidos para suas vidas?
Se a sociologia deverá ajudar a escola como um todo a refletir sobre os fenômenos sociais, então
a própria juventude ou as juventudes são categorias a serem repensadas, refletidas pelo conjunto de
professores. Não podemos mais continuar com um discurso de senso comum disseminado nas escolas
sobre o que seria essa juventude atualmente. Alguns estereótipos nos impedem de vê-los como eles
realmente são. Nesse sentido, conhecer os jovens que estão no ensino médio das escolas em que atuamos
é um imperativo na delimitação dos temas e conteúdos a serem desenvolvidos na disciplina de sociologia.
Do ponto de vista da pedagogia histórico-crítica, seria um processo inicial de práticas sociais
imediatas, que partem da vida dos alunos. Os alunos aprenderam muitas coisas nos anos anteriores de
estudo, aprenderam fora da escola e continuam aprendendo em diversos espaços sociais. Na escola ele
confronta esses saberes com os saberes científicos e escolares. Por isso, as suas experiências de
aprendizagem fora da escola servem de ponto de partida para a construção de uma relação com o saber
historicamente elaborado ao longo do tempo. Os alunos poderão se vincular ou não a disciplina sociologia,
dependendo de como construiremos essa mediação entre os alunos e os conhecimentos científicos.
Podemos partir dos problemas mais imediatos dos jovens, suas angústias, seus modos de vidas,
suas formas de lazer e de trabalho. O que fazem os jovens para os quais estaremos ensinando sociologia?
O que assistem na TV? Quais as músicas que escutam? Como é sua família? Qual seu trabalho?
Esses diagnósticos iniciais podem nos orientar sobre como é a relação desses jovens com a escola
e com o saber escolar; quais os problemas sociais mais significativos para eles e o que poderá mobilizá-los
nas aulas de sociologia. Por isso, os programas poderão ser flexíveis, desde que dentro dos princípios que
já mencionei. O que estou propondo é diferente de aulas de sociologia baseadas em temáticas
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fragmentárias, seguindo a pauta da impressa escrita, jornais e revistas, sobre uma variedade de
problemas e fatos sem tratamento cientifico. Estou propondo que diagnosticando sobre as práticas sociais
dos jovens, recortemos temáticas significativas para eles e para a ciência, sociologia. Essas temáticas
deverão, num segundo momento, ser apresentadas nos termos dos grandes pensadores clássicos e
contemporâneos das ciências sociais. Assim, nossos textos didáticos deverão problematizar, no nível mais
sofisticado, mais científico, os problemas significativos dos jovens. Com isso, enfatizo que jornais e revistas
(como a Veja, Isto É, etc) não podem ser materiais didáticos, mas sim recursos e objetos de análise, a
partir da sociologia. Nos últimos anos essa prática de dar aulas de sociologia a partir da Revista Veja, de
programas da TV Globo e da pauta da impressa foi muito expressiva nas escolas, o que não cumpre, de
modo algum, o papel que a sociologia deverá ter no currículo cientifico. Naquele currículo fragmentado,
na pedagogia das competências, talvez essa metodologia de ensino, baseada só em atualidades
jornalísticas, tivesse algum significado e cumprisse o objetivo de não aprofundar nada no Ensino Médio,
mas, apenas informar superficialmente.
Se o Ensino Médio deverá proporcionar a emergência de personalidades que desejem e ajam para
a superação das condições sociais, econômicas e políticas do Brasil, o currículo deverá centrar-se na base
cultural, em que a ciência é um dos elementos propulsores, equipando os jovens com repertórios,
esquemas, instrumentos, códigos, linguagens, que os emancipe como pensadores e realizadores de suas
potencialidades dentro de projetos coletivos.
No conjunto da base cultural e do campo cientifico contemporâneo estão as ciências sociais e a
sociologia, como conhecimentos científicos dos fenômenos culturais. São esses conhecimentos que darão
inúmeras chaves para o Ensino Médio e seus currículos formarem as personalidades capazes de analisarem
e modificarem a sociedade brasileira.
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Fragmentos do texto “O PAPEL DA SOCIOLOGIA NO CURRÍCULO DO ENSINO MÉDIO”, escrito por Ileizi
Luciana Fiorelli Silva - Professora do Depto.de Ciências Sociais da UEL – acessado dia 29/03/2015.
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A Sociologia no Ensino Médio