194
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO IDOSO: discussões
preliminares1
Gabriela Silveira de Paula2 (Uni-FACEF)
Patrícia Franco Espírito-Santo3 (Uni-FACEF)
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial que tem chamado a
atenção devido à inversão das pirâmides etárias em diversos países do mundo.
Atualmente, é considerado idoso o indivíduo com mais de 65 anos em países
desenvolvidos, e mais de 60 anos em países em desenvolvimento, como é o caso
do Brasil (OMS, 2005).
O censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
no ano de 2000, que pesquisou o perfil dos idosos responsáveis por domicílios no
Brasil, aponta que no referido ano o país tinha uma população idosa superior a 14
milhões de habitantes, expressando um crescimento de 36,4% em relação ao censo
de 1991. Em termos mundiais, o Brasil é o 13º país em número de idosos, e
segundo projeções da OMS, até 2025 ele poderá alcançará a sexta posição mundial
(ARAÚJO, COUTINHO & CARVALHO, 2005; OMS, 2005).
Historicamente, vê-se que na modernidade uma forma de vida em que a
idade cronológica era irrelevante, foi substituída por outra em que a idade se torna
dimensão fundamental na organização social, e o curso da vida foi institucionalizado,
trazendo conseqüências em quase todas as dimensões do mundo familiar e do
trabalho (DEBERT, 2004). Nas palavras de Featherstone:
(...) a partir do desenvolvimento da modernidade, possuímos uma
formação cronológica do curso da vida, embutida de modo muito
forte em nossa percepção. Ou seja, as pessoas sabem a idade que
tem e o que, em determinados momentos da vida, devem fazer (1998
apud LIMA, 2005, p. 49).
A institucionalização do curso da vida produziu muitas conseqüências no
modo de organização social, e dentre elas está a socialização da gestão da velhice,
1
Pesquisa realizada com apoio do PIBIC/CNPq.
Bolsista PIBIC/CNPq
3
Docente do Centro Universitário de Franca
2
195
em que a velhice se torna uma questão de políticas públicas e são definidas e
implementadas uma série de orientações e intervenções específicas, possibilitando,
inclusive, o advento de campos do saber específicos como a geriatria e a
gerontologia. Surge uma nova categoria cultural, os idosos - um conjunto autônomo
e coerente que autoriza que sejam colocadas em prática formas específicas de
gestão (DEBERT, 2004).
A concepção do envelhecimento que embasou a criação da velhice enquanto
categoria social se pauta em uma imagem negativa e estigmatizada, que a toma
como “uma etapa de decadência física e ausência de papéis sociais” (DEBERT,
2004, p.14), como se o avanço da idade fosse um processo contínuo de perdas e
aumento da dependência.
Entretanto, a tendência contemporânea é rever estes estereótipos negativos
da velhice, e percebe-se que as idéias de momento de perdas são substituídas pela
sua consideração como um estágio propício para novas conquistas, ligadas à busca
do prazer e da satisfação pessoal (DEBERT, 2004). Esta visão é corroborada por
uma nova vertente de estudos sobre o desenvolvimento humano, que o concebem
como um processo individual e constante, não relacionado a estágios fixos ou fases,
mas marcado por eventos esperados ou não, os quais são resultado da interação
constante e recíproca entre o sujeito ativo e um contexto sócio-cultural também ativo
(FREIRE & NERI, 2009).
Estas são as novas imagens do envelhecimento, que o representam como
um momento gratificante e de possibilidade de retomada de sonhos e de
produtividade. Estas novas imagens desempenham um papel importante no que
Debert (2003) descreve como o processo de reprivatização do envelhecimento,
sua transformação em um problema de indivíduos negligentes que
não se envolveram no consumo de bens e serviços capazes de
retardar seus problemas. Neste sentido, a velhice poderia novamente
desaparecer do leque de preocupações sociais (DEBERT, 2003,
p.154).
Assim, a velhice toma o caráter de uma escolha mais do que um processo
natural. Envelhecer se torna uma questão de lassitude moral, um problema de
indivíduos incapazes de se cuidar e se engajar em atividades e consumos que
retardem o envelhecimento.
196
Subjacente a estas concepções está a transformação da juventude em um
valor. Ela deixa de ser apenas uma etapa da vida para se tornar um modelo de
imitação social, um “bem a ser conquistado em qualquer idade, através da adoção
de estilos de vida e formas de consumo adequadas” (DEBERT, 2004, p.21). As
qualidades do corpo são tidas como plásticas, mutáveis, em busca de manter-se
sempre jovial. A veiculação midiática da juventude como um bem possível de ser
adquirido em muito contribui para a auto-disciplina e auto-vigilância do corpo e da
saúde, e o sujeito é convencido a assumir a responsabilidade por sua própria
aparência e saúde.
A transformação da juventude em um valor e a reprivatização do
envelhecimento são fenômenos que podem ser entendidos sob um ponto de vista
mais amplo, no contexto da hipermodernidade – termo utilizado por Lipovetsky
(2004) para caracterizar a sociedade contemporânea – e do advento da ideologia da
saúde como pilar que sustenta um novo modo de sociabilidade característico da
contemporaneidade.
Greenhalgh e Wessely (2004) realizaram um interessante estudo, baseado
em escritos de diversos autores, o qual situa as origens históricas, demográficas e
comportamentais que permitiram o surgimento da ideologia da saúde nas
sociedades ocidentais. São elas (a) o crescente avanço das tecnologias na área da
saúde, ocorrido a partir da segunda metade do século XX, que, dentre outras coisas,
reduziu a mortalidade e aumentou a expectativa de vida; (b) novos conceitos de
saúde proclamados por organizações de saúde e profissionais da área, segundo os
quais a saúde deixa de ser apenas a ausência de doença para se tornar um estado
de bem-estar total do indivíduo - físico, social e psicológico; (c) o aumento das
expectativas relativas à longevidade e à saúde (decorrente do novo conceito de
saúde em voga); (d) o declínio das taxas de fertilidade em alguns países ocidentais,
o que possibilitou o advento de uma sub-população com tempo livre e dinheiro
disponível; (e) o aumento do movimento consumista; (f) a tendência geral, existente
nas sociedades ocidentais, da reflexividade e da consciência de si (típico do culto ao
indivíduo existente nas sociedades capitalistas) que acabam por levar a uma alta
sensibilidade a mínimos sintomas ou deformidades corporais; (g) a expansão da
comercialização da saúde e o grande interesse da mídia por assuntos relativos à
saúde, o que leva a um clima de insegurança e alarme acerca de doenças; (h) a
progressiva medicalização de todos os aspectos da vida cotidiana.
197
Neste sentido, a ideologia da saúde surgiu como um fenômeno atrelado às
novas características econômicas, sociais e culturais da hipermodernidade, que se
caracteriza pela fluidez; pelos paradoxos no âmbito individual e social; o reinado da
moda e do efêmero; o hiperconsumo; a obsessão dos sujeitos com o próprio corpo e
a saúde; a medicalização da existência; a valorização do novo e do jovem, e a
desqualificação do velho e do ultrapassado; a desagregação do peso das tradições,
em favor da valorização da independência e autonomia, fazendo aumentar o peso
das escolhas individuais e multiplicar estilos de vida, que passam a ser
comercializados (CHARLES, 2004; LIPOVETSKY, 2004). Pode-se notar que as
origens da ideologia da saúde estão imbricadas com mudanças de ordem social e
econômica
características
da
hipermodernidade,
tornando-os
fenômenos
interdependentes e que se influenciam mutuamente – a ideologia da saúde embasa
discursos e modos de agir frente à saúde e à vida cotidiana, os quais só surgem a
partir de um contexto hipermoderno, porque é nele que fazem sentido para a
sociedade, e onde são sustentados e reproduzidos.
O que caracteriza a ideologia da saúde é que:
a saúde tornou-se não apenas uma preocupação; tornou-se também
um valor absoluto ou padrão para julgar um número crescente de
condutas e fenômenos sociais. Menos um meio para atingir outros
valores fundamentais, a saúde assume a qualidade de um fim em si.
A boa vida é reduzida a um problema de saúde, da mesma maneira
como a saúde se expande para incluir tudo o que é bom na vida
(CRAWFORD, 1980 apud ORTEGA, 2005, p. 154).
E ela envolve uma temporalidade que é típica da hipermodernidade, a qual
inclui no presente cada vez mais a dimensão do futuro, que é indeterminado e
problemático, e está associado “tanto à promessa de um mundo melhor quanto à
ameaça de catástrofes em cadeia” (LIPOVETSKY, 2004, p. 67). Predomina o estado
de alerta, vigilância, incertezas e atenção aos riscos.
E, no tocante à saúde, os excessos da prevenção e gerenciamento dos
riscos trazem uma dimensão persecutória às práticas a ela relacionadas. Segundo
Castiel & Álvares-Dardet (2007), tem-se início o discurso do risco, o qual embasa e
intensifica o estado de alerta e vigilância nos planos coletivo e individual, pois os
indivíduos e grupos passam a se orientar de acordo com a prevenção de doenças e
controle dos riscos, através da adoção de estilos de vida e práticas que medicalizam
a vida cotidiana.
198
Castiel & Álvares-Dardet (ibid.) afirmam que a ideologia da saúde se
sustenta pelas práticas que atribuem a enfermidade a comportamentos não
saudáveis, e busca-se castigar e culpabilizar os sujeitos desviantes. Assim, os
sujeitos periciam seu corpo, suas escolhas e seu modo de vida em termos de como
estes se adéquam ao discurso do risco e à categoria de um sujeito não-desviante,
maneira pela qual ele demonstra autonomia e competência para cuidar de si e
construir sua identidade (CHEEK, 2008; ORTEGA, 2005). Em outras palavras, é um
modelo a ser seguido aquele sujeito que se auto-governa e auto-pericia com vistas a
adquirir saúde e ter uma existência autônoma e independente, o que, em certo
sentido, não deixa de reduzir as pressões sobre o Estado.
Assim, na hipermodernidade aumenta o peso da autonomização e
responsabilização pela própria saúde e também pelo envelhecimento, pois tanto o
velho como o idoso são considerados desviantes e postos à margem da sociedade
(ORTEGA, 2005). É como se envelhecer ou adoecer fosse fruto apenas de ações
responsáveis do indivíduo, sem relação com o nível de responsabilidade de
empresas, governos e órgãos de saúde e atenção ao idoso.
É neste sentido que a responsabilização individual pela saúde é análoga ao
processo de reprivatização do envelhecimento descrito por Debert (2003; 2004), e
torna-se necessário problematizar estes fenômenos na medida em que eles podem
influenciar, por exemplo, a criação de políticas específicas para esta população.
A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (BRASIL, 2006) define a
saúde da pessoa idosa como a interação entre a saúde física, a saúde mental, a
independência financeira, a capacidade funcional e o suporte social. Também afirma
que o conceito de saúde para o indivíduo idoso se define mais pela sua condição de
autonomia e independência do que pela presença ou ausência de doença orgânica.
Dessa forma, a saúde da pessoa idosa é definida como um fator especialmente
relacionado com a expressão de autonomia e independência.
Debert (2004) afirma que para se tornar um ser humano aceito, confiável e
com plenos direitos de cidadão, são exigidos socialmente três principais tipos de
competência:
1. Habilidades Cognitivas – baseadas no uso da linguagem e na
capacidade de comunicação, vitais para uma pessoa tornar-se
autônoma.
2. Controles do Corpo – a necessidade de controlar os movimentos
do corpo, os movimentos dos nossos membros, rosto e cabeça, o
199
grau de capacidades motoras que envolvem sentar, ficar de pé e
andar, tanto quanto a capacidade de conter e reter os fluidos
corporais.
3. Controles Emocionais – a necessidade de controlar a expressão
das emoções – raiva, ira, inveja, ódio, choro, amor, desejo – de modo
que explosões emocionais e perda de controle somente tomem lugar
em ocasiões e de formas que possam ser socialmente sancionadas e
aceitáveis. (FEATHERSTONE, 1994 apud DEBERT, 2004, p.67)
O declínio destes controles, como afirma a autora, tende a diminuir a
capacidade do sujeito para realizar suas atividades diárias ou relacionar-se
socialmente de forma satisfatória, o que pode ser tido como indicador de falta de
independência e autonomia.
Atualmente, a predominância do paradigma que prima pela produtividade e
autonomia do sujeito contribui para que a perda gradual e natural dos controles
acima referidos, com a conseqüente diminuição da autonomia do sujeito, tenha
conotação negativa no meio social, embasando os estereótipos negativos que
marcam a experiência do envelhecimento como tempo de decrepitude e
dependência. Faz surgir as novas imagens do idoso como possibilidade de fuga
deste estigma, mas ao mesmo tempo que estas novas representações ressignificam
a velhice, também mascaram o abandono a que são relegados os idosos que nelas
não incluem, o que passa a ser visto como conseqüência da falta de envolvimento
em atividades motivadoras, ou devido a adoção de formas de consumo e estilos de
vida inadequados (DEBERT, 2004).
Estas colocações não devem ser traduzidas como uma crítica à
necessidade do idoso ter autonomia e independência para cuidar de si e realizar
suas atividades cotidianas com liberdade. Mas sim procuram atentar para a tênue
linha que separa a valorização da autonomia como uma ferramenta para o idoso
viver de forma independente e com mais liberdade, da valorização da autonomia
como uma forma de responsabilizar o sujeito por sua própria velhice, atenuando a
responsabilidade de governos, empresas e órgãos de atenção ao idoso, e fazendo
com que a velhice tome o caráter de uma escolha, mais do que um processo natural
e socialmente construído.
A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
200
A teoria das Representações Sociais (RS) foi criada por Moscovici em 1961,
e pretendeu ser uma crítica à tendência individualista da psicologia social da época
(OLIVEIRA & WERBA, 2008). Ela se refere a uma modalidade de conhecimento
particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação
entre indivíduos no quadro da vida cotidiana (SÁ, 1996).
Assim, são tidas como uma forma de pensamento social, “teorias” do senso
comum, elaboradas e partilhadas socialmente com a finalidade de construir e
interpretar o real (OLIVEIRA & WERBA, 2008). Definem um grupo em sua
especificidade e são um dos instrumentos graças ao qual o indivíduo ou o grupo
apreende seu ambiente, representando um papel importante na formação das
comunicações e das condutas (SÁ, 1993).
Elas são pensamento constituído e pensamento constituinte (IBAÑEZ, 1994
apud GRAEFF, 2002), e originam-se através de dois processos formadores, a
ancoragem e a objetivação. A ancoragem é a integração cognitiva do objeto
representado (idéias, relações, pessoas, fatos, etc.) a um sistema de pensamento
social já existente. Ela transforma algo desconhecido em um sistema particular de
categorias, fazendo com que o objeto adquira características desta categoria. Por
exemplo, pensando no envelhecimento, termos como “outono da vida”, “terceira
idade”, etc., surgiram a partir da necessidade de integrar o velho em um sistema de
pensamento que faz com que o idoso e o envelhecimento adquiram certas
características e se tornem objeto de convenção na sociedade.
Por outro lado, a objetivação é a materialização da palavra, é dar forma ou
figura específica a um conceito abstrato. Afirma Moscovici (ibid., p.40) que “somos
compelidos a criar equivalentes não verbais para as palavras”. Assim, as palavras
que puderem ser representadas são integradas a um núcleo figurativo, que se define
por um complexo de imagens que reproduz um complexo de idéias, e uma vez que a
sociedade adota este núcleo figurativo, ou paradigma, fica mais fácil falar sobre
qualquer coisa que possa ser a ele associada (SÁ, 1993; MOSCOVICI, 2009). No
caso da velhice, por exemplo, pode-se pensar nas rugas, nos cabelos brancos, e em
outras imagens que dão forma específica à idéia de velhice. Estes dois processos
formadores das RS servem a um princípio básico, que é transformar o não-familiar
em familiar, e, segundo Moscovici (2009), este é o propósito de todas as RS.
Investigar a velhice enquanto objeto de representação social significa
conhecer o modo como as pessoas falam e se comportam em relação a esta fase do
201
desenvolvimento, compreender o conjunto de saberes a ela relacionados que
circulam na sociedade e expressam a identidade e o significado da velhice na vida
cotidiana de determinadas pessoas, circunscritas em um tempo e espaço.
Nas palavras de Maffioletti,
(...) a investigação e diferenciação dessa população, ao longo dos
últimos séculos, estabeleceu os sentidos e significados do que é a
velhice para nós. Com isso, essa construção também favoreceu o
estabelecimento de uma norma que parece regular a vida dos sujeitos,
e nela intervir quando submetidos à contingência que denominamos
velhice (2005, p. 338).
A construção social dos significados da velhice, que se processa entremeada
com a construção da própria sociedade no transcorrer dos anos, pauta o modo como
os sujeitos falam, pensam e se comportam frente aos velhos no cotidiano. Por isto
acredita-se que estudar as RS da velhice é uma maneira de contribuir para uma
melhor compreensão deste processo e dos significados que os sujeitos atribuem a
velhice. Por este motivo, o objetivo deste estudo foi compreender, em um grupo de
idosos da cidade de Franca, as representações sociais deste grupo acerca do
envelhecer e das vivências relativas à saúde implicadas neste processo.
METODOLOGIA
Spink (1993) afirma que a pesquisa das representações sociais está
comprometida com situações sociais naturais e complexas, condição necessária
para que sejam acessadas as condições de produção das mesmas. Assim,
caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, a qual está relacionada aos sentidos
e significados que as pessoas atribuem aos fenômenos do mundo social e ao modo
como este mundo é compreendido, dando ao pesquisador instrumentos para que ele
interprete os fenômenos sociais a partir dos significados que lhes são atribuídos
(POPE & MAYS, 2005). Além disso, a pesquisa qualitativa caracteriza-se por estudar
as pessoas em seu ambiente natural, o que pode implicar no uso de diversos
métodos ao mesmo tempo, como observação, entrevistas, grupos focais e
conversas informais, dentre outros (id. Ibid.).
202
Este trabalho utilizou como estratégias de coleta de dados a observação
participante, a aplicação de entrevistas semi-estruturadas, e o uso do diário de
campo.
- Observação participante
É um método em que há contato direto do observador com o fenômeno
observado, com vistas a recolher as ações dos atores sociais em seu contexto
natural e a partir de seu ponto de vista (CHIZZOTTI, 2000). O pesquisador se
incorpora ao grupo de modo a vivenciar o cotidiano dos observados, compreender
seu sistema de referência e ganhar a confiança do grupo (MARCONI & LAKATOS,
2002).
Neste estudo, ela foi utilizada com o objetivo de familiarizar a pesquisadora
com o contexto estudado; adequar sua linguagem a dos sujeitos observados;
conquistar a confiança dos mesmos, facilitando a realização de entrevistas; observar
a maneira como os sujeitos se comportam no grupo, seus discursos, suas
preocupações, suas ações. As informações coletadas ao longo das observações
foram registradas em um diário de campo, após cada visita.
A etapa teve duração de dois meses, totalizando nove visitas ao campo, em
que a pesquisadora participou de encontros semanais do grupo de bordado da
instituição, sendo que cada encontro teve duração de duas horas. Durante esses
encontros as voluntárias bordavam diversos itens, e como o objetivo da
pesquisadora era se incorporar ao grupo, esta se engajou nas atividades e começou
a bordar também, em busca de construir um espaço de igualdade e confiança com
as voluntárias, como se fosse uma “integrante” do grupo.
Após a participação em três encontros, a pesquisadora iniciou as entrevistas
com os idosos que se dispuserem a participar. Assim, a etapa de observação
participante se deu concomitante à realização de entrevistas.
- Entrevista semi-estruturada:
De maneira geral, a entrevista em estudos qualitativos busca “descobrir a
estrutura de sentidos própria do entrevistado” (BRITTEN, 2005, p.22), tarefa na qual
o entrevistador deve evitar impor suas concepções prévias sobre o assunto ou
encaixar os relatos em categorias prévias condizentes com os resultados previstos
no início da pesquisa.
203
A entrevista semi-estruturada, em particular, possui uma estrutura flexível e
questões abertas que definem a área de interesse, a partir da qual pesquisador e
entrevistado podem divergir a fim de dar continuidade a uma idéia colocada ou
buscar maior riqueza de detalhes (id. ibid., p. 22). Empregar entrevistas abertas
conduzidas a partir de um roteiro mínimo é uma maneira de dar voz ao entrevistado,
permitindo “eliciar um rico material, especialmente quando este é referido às práticas
sociais relevantes ao objeto da investigação e às condições de produção das
representações em pauta” (SPINK, 1993, p.100).
O roteiro de entrevista foi dividido em duas partes, uma primeira com
questões objetivas que tinham três focos de investigação: (1) traçar o perfil social,
econômico e familiar do entrevistado; (2) saber se os mesmos praticam atividades
físicas, com que freqüência, e o motivo da procura por estas atividades; e (3) saber
quais tipos de atividade social (voluntariado) eles exercem, com que freqüência, e o
motivo da procura por estas atividades.
Na segunda parte da entrevista os idosos foram interrogados acerca de
suas concepções sobre o envelhecer e a saúde, através de questões amplas como
“para você, o que é envelhecer?” , “o que a palavra ‘idoso’ representa para você?”, e
“para você, o que é saúde?”. Também foi pedido que eles descrevessem um idoso
saudável e um idoso doente.
As entrevistas foram gravadas em áudio com o consentimento dos sujeitos,
e transcritas literalmente, de forma que os dados puderam ser extensamente
analisados. Informações adicionais acerca da entrevista, tais como impressões e
observações da pesquisadora, foram registradas no diário de campo. Todos os
procedimentos utilizados seguiram os critérios estabelecidos pelo Comitê de Ética
em Pesquisa do Centro Universitário de Franca para pesquisas que envolvem seres
humanos.
- Sujeitos
Foram realizadas 7 entrevistas com idosos entre 60 e 82 anos, sendo que
um é do sexo masculino, e os demais do sexo feminino. Todos eles realizam um ou
mais tipos de trabalho voluntário em uma instituição que atende crianças carentes
em regime de semi-internato e necessita do voluntariado para dar suporte às suas
ações de arrecadação de fundos.
204
RESULTADOS
As características sociais, econômicas e familiares dos entrevistados estão
descritas no Quadro 1.
Quadro 1 - Características sociais, econômicas e familiares dos sujeitos
Sujeito4
Tempo de
Idade
Estado civil
Com quem mora
Ocupação
Ana
63 anos
Casada
Companheiro
Aposentada
10 anos
Celina
60 anos
Casada
Aposentada
1 ano
Laura
66 anos
Casada
Dona de casa
25 anos
João
69 anos
Casado
Aposentado
12 anos
Celeste
61 anos
Casada
Dona de casa
4 anos
Inês
78 anos
Casada
Companheiro
Aposentada
19 anos
Alice
82 anos
Casada
Companheiro
Dona de casa
40 anos
2
Companheiro e
filho
Companheiro e
filho
Companheira e
filho
Companheiro e
filho
voluntariado
Os sujeitos têm em média 68 anos, são casados, todos moram com os
respectivos cônjuges, e quatro deles moram também com um dos filhos. O tempo de
voluntariado é bastante variado, oscilando entre 1 e 40 anos de dedicação a esta
atividade, o que demonstra que em alguns casos a atividade teve início bem antes
da aposentadoria, enquanto em outros o sujeito só se tornou voluntário após
aposentar-se ou alcançar uma idade avançada.
Para a análise dos dados, cada entrevista foi lida separadamente, e após
extensas análises foram organizados quadros de exploração do material, com
trechos transcritos das entrevistas. Assim, foi possível reunir a fala dos sujeitos em
núcleos figurativos referentes a um tema, e assim realizar comentários a partir da
literatura enfocada. Até o presente momento, foram elaborados as seguintes
categorias relacionadas à figura do idoso:
4
Todos os nomes utilizados são fictícios.
205
- “longevo”, que explicita a caracterização do sujeito com muita idade, mas que
continua com uma vida ativa;
- “idoso idoso”, que designa o sujeito que, além de ter uma idade avançada, é
decrépito.
DISCUSSÕES PRELIMINARES
O “idoso idoso” como verbalizado pelos entrevistados é aquele sujeito que “se
entregou”, está doente, fisicamente incapacitado, limitado, e perdeu suas
capacidades cognitivas. Ele muito se aproxima do que foi descrito pelos
entrevistados como sendo o idoso doente, pois que:
ele já tá num ponto que ele muitas vezes sozinho não consegue
fazer aquilo que ele precisa pra sobrevivência. Para mim o “idoso
idoso” é aquele que realmente já ta numa situação que, por si só, ele
não consegue mais se auto-administrar. (Celina, 60 anos)
dá a impressão daquela pessoa imprestável, que já não faz nada,
que não pode fazer nada, sabe? (Celeste, 61 anos)
Eu acho que envelhecer é aquela pessoa que enferruja, que ta
sempre mal humorada, que não sai de casa, que tudo ta ruim, eu
penso que é isso que é envelhecer. (Laura, 67 anos)
O “idoso idoso” é também aquele que perdeu a capacidade de realizar suas
atividades de vida diária, o que o deixa em uma situação de dependência que é
negativamente considerada pelos entrevistados, e parece estar estreitamente ligada
a dificuldade de locomoção e a presença de doenças:
o idoso representa pra mim aquela pessoa que precisa de muito
carinho, que muitas vezes apresenta uma certa dificuldade de...
locomoção (...) ele já ta num ponto que ele muitas vezes sozinho não
consegue fazer aquilo que ele precisa pra sobrevivência. (Celina, 60
anos)
Eu acho que a velhice mesmo é o dia que você não tiver comendo
com sua mão e tomando banho. Eu acho que ai a pessoa se sente
velha (...) tenho muita dó, principalmente daquele que ta dependendo
do outro. (Inês, 78 anos)
O idoso doente não tem capacidade mais de se movimentar (...). O
idoso doente é fisicamente mesmo, quando ele começa a ter uma
incapacidade física, e aí é difícil, né? (...) Depender das pessoas é
complicado (...) então eu acho que a pior parte da vida é essa, o
idoso que fica idoso mesmo e fica dependente dos outros, fica
complicado. (Ana, 63 anos)
206
E ele se encontra nestas situações principalmente porque não se cuidou,
adotou um estilo de vida julgado inadequado:
A gente vê colegas, companheiros nossos da época do trabalho, que
envelheceram mais rapidamente, então... por que? Porque pararam,
eles não... “quando eu aposentar eu não quero fazer nada, mas nada
nada nada nada”. E realmente não fizeram, envelheceram mais
rápido (...). Eles não se preocuparam com o dia de amanhã, de fazer
alguma coisa, de ta mantendo esse corpo, trabalhando. Então uma
vez que você pára com qualquer atividade que você tem, você vai
envelhecer mais rápido. (João, 69 anos)
Como explicitado neste trecho, além do cuidado com o corpo e a saúde, é
imprescindível que o idoso continue trabalhando ou exercendo alguma atividade
produtiva, seja essa remunerada ou não, para que postergue a chegada da velhice.
Subjacente a estas descrições do “idoso idoso” está a velhice tida como
sinônimo de adoecimento, algo negativo que pode e deve ser evitado através da
adoção de um estilo de vida, o qual é posto em prática preferivelmente antes de se
chegar a esta faixa etária, ou quando já se é idoso.
Pelo processo que não se cuidaram na sua juventude, na sua época de
juventude foram estragando através de vícios, através de álcool,
através do tabaco, através do próprio trabalho mesmo, pessoas que
“ah não! Isso comigo não vai acontecer!”, mas quando perceberam já
tavam bem mais velho que a gente. Através do que? Através do
desregramento da alimentação, e do trabalho, do tabaco, do álcool,
uma serie de outras coisas. (João, 69 anos)
Hoje eu me preocupo muito é em ter uma velhice que não dê trabalho
para quem estiver ao redor de mim (...). Esses cuidados que eu tenho,
exercícios, alimentação, têm algumas coisas que eu deveria fazer, tipo
assim, ter boas horas de sono, eu não sou exemplo não, porque tem
uma série de coisas que eu deveria fazer diferente. Mas é... cuidar da
socialização, que é muito importante, aumentar cada vez mais sua
possibilidade de criar, participar de grupo, aumentar conhecimentos,
poder produzir alguma coisa em prol dos outros... então é isso que eu
acho que tem que ser feito. (Celina, 60 anos)
Eu me preparo para a velhice desde que eu tenho 30 anos. (Inês, 78
anos)
Vê-se que há por parte destes entrevistados a concepção clara do que deve ser
feito para evitar ter uma velhice que dê trabalho para os outros, e a necessidade de
colocar em prática essas atividades durante a velhice ou mesmo bem antes desta,
como é o caso de Inês. E há inclusive a consciência de coisas que deveriam ser
feitas, mas não o são, como afirma Celina em relação às horas de sono, fato que por
207
vezes pode trazer uma dimensão persecutória destas práticas preventivas, como
explicitado por Ana em relação à atividade física:
ultimamente eu tenho achado que é perda de tempo, as vezes eu
quero fazer outras coisas e isso vai me atrapalhar... então eu vou
empurrando, eu vou deixando pra mais pra frente. Talvez seja um
erro meu, né? (...) porque a gente vê todo mundo falando “Não, você
tem que fazer isso! Você tem que fazer aquilo!” (Ana, 63 anos)
Pensando na possibilidade de um raciocínio comum entre os entrevistados, vêse que se a velhice é sinônimo de adoecimento, ela pode ser evitada - algo que está
atrelado à responsabilidade do sujeito em evitá-la. O indivíduo passa a ter
autonomia, ligada ao esforço e à força de vontade, sobre um processo inevitável e
natural do ser humano, que é o envelhecimento. É como se fosse possível driblar a
facticidade da morte através da adoção de receitas e modos de vida característicos.
E o sujeito que falha em manter-se saudável e ativo durante a velhice é tido como
uma desviante, alguém que não se preocupa em ter uma velhice que não dê
trabalho para quem está ao redor, de tal forma que cuidar da saúde para mais e
melhor viver é um indicativo da dignidade do sujeito, como afirmado por Celeste:
as pessoas deveriam se conscientizar realmente de cuidar melhor da
saúde, procurar os meios de que essa saúde se estenda por mais
tempo. Envelhecer com dignidade, ou então morrer com dignidade.
(Celeste, 61 anos)
E, para tanto, Celeste também adota práticas preventivas e assume a
responsabilidade por sua própria saúde:
a academia mesmo já foi uma atitude de procurar o bem-estar meu,
da minha saúde. E vou sempre ao médico, pelo menos uma vez por
ano, faço lá meu controle de colesterol, triglicérides, aquelas coisas
todas... então to sempre, nesse sentido to sempre cuidando (...). E
não importa se eu vou morrer com 61, ou com 80, ou 90, eu acho
que eu tenho essa... não é obrigação, mas um dever de cuidar da
minha vida (...) eu acho que a responsabilidade da gente é muito
grande perante a nossa vida, a nossa saúde. (Celeste, 61 anos)
Todos estes discursos estão permeados pela ideologia da saúde, e em
consonância com a reprivatização do envelhecimento e a responsabilização
individual pela saúde, pois nota-se uma dimensão persecutória em relação ao futuro,
que se presentifica na velhice feia e indesejada, que deve ser evitada através da
208
adoção de um estilo de vida característico. Fazendo isso, alguns idosos tomam para
si a responsabilidade por sua própria velhice e pelo cuidado de sua saúde.
Vê-se que são representações sociais acerca destes temas que embasam suas
atividades cotidianas e o modo como se posicionam frente à sua velhice e à velhice
dos outros.
E se, em última instância, não adoecer é continuar sendo jovem,
independentemente da idade, faz sentido que seis, dos sete entrevistados, não se
considerem idosos. Esta representação foi percebida em relação aos sujeitos ao
longo das entrevistas, quando as concepções que eles têm do idoso em geral são
incompatíveis com as concepções que têm de si, e outros ainda explicitaram
abertamente essa concepção:
Eu não me considero idosa! (Laura, 67 anos)
Se me chamarem de idosa eu não vou gostar. (Celeste, 61 anos)
Eu não me considero um idoso. (João, 69 anos)
Estes discursos sobre eles mesmos fazem sentido uma vez que envelhecer
está sendo tratado como sinônimo de adoecer, e eles estão na contramão deste
processo
por
estarem
saudáveis,
exercendo
uma
atividade
produtiva
(o
voluntariado) e adotando um estilo de vida saudável. Entretanto, tem-se uma
desviante no grupo dos entrevistados: Alice, 82 anos, é a única entrevistada que
representa a velhice como uma etapa natural da vida. Em suas palavras, a velhice é:
Uma coisa normal da vida. Você nasce, cresce, torna-se adulto e
envelhece. É o ritmo da vida (...) uma fase normal da vida. Nem bem,
nem mal, apenas... como eu tive minha mocidade, a minha
maturidade, hoje eu tenho minha velhice. Então são fases. (Alice, 82
anos)
Dessa forma, em seus discursos Alice não se responsabiliza por sua própria
velhice e é a única que se considera uma pessoa idosa:
Agora é o tempo meu da velhice. (Alice, 82 anos)
Em contrapartida, os demais entrevistados, que consideram a velhice por seus
aspectos negativos, ou como uma questão normativa, socialmente imposta para
209
estabelecer direitos e deveres para o sujeito que tem mais de 60 anos (Nas palavras
de Ana: “ele pode ser idoso para seus direitos, seria uma taxação para poder dar
algum benefício... porque esse limite não existe, né?”), parecem dizer que a velhice
não diz respeito a eles. O que lhes concerne é executar ações que os previnam de
um dia chegar a velhice.
Ao que parece, fazendo isso os entrevistados se fecham para as circunstâncias
e vivências desta etapa da vida, que podem ser boas, enriquecedoras, e vividas com
a tranqüilidade de ser “nem bem, nem mal”, apenas uma fase. Mas é vivida com
angústia e necessidade de isolamento:
Eu e minhas amigas, a gente conversa e elas brincam “ai, a gente
podia fazer um chalezinho todo mundo junto, quando a gente ficar
tudo velha. Nós ficaríamos velhas e arrumaríamos umas enfermeiras,
umas empregadas para cuidar, e ai a gente fica tudo junto lá”.
Porque a preocupação é essa, né (...) nós vamos impedir que nossos
filhos tenham outros problemas (...). Então o idoso doente, sei lá,
teria que ter um lugar respeitável para... sentir-se bem. (Ana, 63
anos)
A idéia de isolar-se e contratar profissionais para cuidarem delas quando
atingirem a velhice, ter um lugar respeitável onde podem se sentir bem quando
estiverem velhas/doentes, é mais um modo de se responsabilizar por sua própria
saúde e velhice, e, sobretudo, uma denúncia, pois implicitamente diz que o idoso
não tem um lugar na sociedade no qual pode sentir-se bem. Não há meios de
inserção social quando é inviável qualquer possibilidade de responder ao que pede a
sociedade hipermoderna: agilidade, produtividade, beleza, juventude, força,
memória. Portanto, a saída é isolar-se. Esta discussão será retomada mais adiante,
mas por ora é necessário sintetizar porque todos os trechos até agora apresentados
constituem a categoria denominada “idoso idoso”.
Como pode ser percebido, a visão do “idoso idoso” se sustenta no estereótipo
negativo da velhice, que cria a identidade do idoso em contraposição à identidade do
jovem, que está relacionada a força, beleza, produtividade, etc., enquanto a do idoso
se constitui pela presença das qualidade opostas – justamente aquelas até agora
relacionada ao “idoso idoso”.
Para Mercadante (2005), estas qualidades negativas definem o velho em geral,
mas não o velho em particular (grifo nosso). E por isso grande parte dos idosos não
se sente incluída neste grande estereótipo negativo do idoso, como constatado
210
pelas entrevistas, com exceção de Alice. É por este motivo que velho é o outro, e
para justificar esta afirmativa o individuo lança mão de suas qualidades pessoais
para se contrapor à categoria genérica de velho. Nas palavras da autora:
A existência de uma identidade construída, com base em um modelo
estigmatizador de velho e a verificação da fuga desse modelo pelos
próprios idosos (...) que não se sentem incluídos nele, apontam para
o fundamento próprio da construção de uma identidade social
paradoxal: o velho não sou “eu”, mas é o “outro” (MERCADANTE,
2005, p. 33).
O levantamento das particularidades surge para se contrapor ao estereótipo
negativo da velhice, e neste estudo foi percebido que, ao fazê-lo, os entrevistados
incluíram a si mesmos nas novas imagens do envelhecimento, dando forma à
categoria “longevo”, que descreve um sujeito que embora tenha muita idade, é
saudável, produtivo, ativo, tem liberdade e autonomia para se locomover, fazer o
que gosta, o que tem vontade, retomar projetos adiados:
Envelhecer é atingir uma etapa da vida onde você pode (...) se
dedicar muitas vezes as coisas que você tinha vontade de fazer e
não tinha... sua necessidade de sobrevivência não tinha te
proporcionado. (Celina, 60 anos)
O idoso “longevo” se aproxima do que foi descrito como o idoso saudável, e um
de seus atributos é possuir um pensamento e uma atitude jovem, que possibilita ao
velho não envelhecer.
Velho que tem atitude jovem é aquele que não tem muito
preconceito, que acompanha a evolução de tanta coisa no mundo
(...) que gosta de conhecer, de ta atualizado. Eu acho que esse é o
velho jovem, que cuida do próprio corpo, da mente, que não fica
bitolado nos preconceitos bobos de “to velho, não posso fazer isso
mais, não quero mais, tenho vergonha” (Celeste, 61 anos)
O velho jovem tal como descrito em muito se assemelha à nova imagem do
envelhecimento descrita por Debert (2004), na qual este se torna um estágio
propício para a retomada de sonhos abandonados, o cuidado e a manutenção da
saúde, para novos investimentos, viagens, etc., e são acompanhadas por esta nova
linguagem em que a idade não é mais um marcador de tempo que determina
comportamentos, fazendo surgir “uma parafernália de receitas, envolvendo técnicas
211
de
manutenção
corporal,
medicamentos
e
novas
formas
de
lazer,
(...)
desestabilizando expectativas e imagens tradicionais associadas a homens e
mulheres mais velhos” (DEBERT, 2004, p.18).
É esta parafernália de receitas que definem um estilo de vida próprio do
“longevo”, tal como definido pelos entrevistados, que envolve não beber, não fumar,
alimentar-se bem, ter uma vida social ativa e ter um trabalho, seja este remunerado
ou não. No caso dos entrevistados, este trabalho se refere ao voluntariado, que
possui um sentido tanto de manter uma ocupação em um tempo que estaria vago,
como também de possibilidade de socialização, o que se expressa nas respostas à
pergunta “por que você procurou o voluntariado?”:
Para preencher um tempo vago, uma socialização. (Celina, 60 anos)
Essa reunião de pessoas forma amizades (...) eu acho que a hora que
a gente senta ali e borda, ou qualquer outra atividade, são reuniões
benéficas pra gente. Cada um expor seu ponto de vista, é muito
importante. (Alice, 82 anos)
Preencher o tempo. Porque cabeça vazia é ferramenta do diabo. Então
a gente procura ocupar pequenos espaços que ainda tem fazendo
alguma coisa, preenchendo o espaço com trabalho em favor de
alguém. (João, 69 anos)
Lopes (2005) afirma que os idosos que rompem com o estigma negativo da
velhice se envolvem em atividades de enriquecimento pessoal; se engajam em
atividades de convivência ou produtiva; e se engajam em afazeres que lhes façam
sentido, ou que tenham relevância social, sejam estes remunerados ou não. De fato,
estas parecem ser atitudes de todos os entrevistados, com exceção de Alice, os
quais rompem com o estereótipo negativo da velhice e, ao mesmo tempo, se
incluem nas novas imagens do envelhecimento.
A mesma autora afirma que este é um movimento em busca de inclusão social
(LOPES, 2005), e este é um ponto que merece reflexão, e necessita a retomada do
discurso de Ana, quando esta afirma que o isolamento é um modo de viver bem a
velhice.
Quando os entrevistados se envolvem no voluntariado e rompem com a
maneira de ser e pensar do “idoso idoso”, eles acabam por subjugar-se a lógica da
ideologia da saúde e da reprivatização do envelhecimento porque eles criam um
contexto de reivindicação em favor de sua autonomia, liberdade e independência.
212
Todavia, em última instância, o que reivindicam é a autonomia para se auto-controlar
e auto-vigiar, tomando para eles mesmos a responsabilidade por sua própria saúde
e velhice, e reduzindo as pressões sobre o Estado e os órgãos de atenção ao idoso.
Isto se expressa na fala de Ana, que não quer dar trabalho para seus filhos, e,
consequentemente, para as demais pessoas ao seu redor, incluindo os governos e o
sistema de saúde pública. Também pode ser notado quando Celina afirma:
Envelhecer é atingir uma etapa da vida onde você muitas vezes já
trilhou, já construiu muita coisa, e que chega num ponto em que você
tem que dar espaço para o mais jovem. (Celina, 60 anos)
Dados semelhantes foram encontrados em pesquisa realizada por Debert
(1988 apud PEIXOTO, 1998) sobre as representações sociais da velhice por idosos
de camadas sociais médias e superiores, na qual a categoria do idoso foi associada
à decadência, pobreza, dependência e incapacidade, e os entrevistados sugeriram
que o isolamento é a solução ideal de controle dos velhos pobres e também uma
maneira de mascarar a velhice feia, acabada e indesejada.
Tanto os dados obtidos por Debert como as representações sociais do
“longevo” e do “idoso idoso” expressam a complexidade da questão da velhice na
atualidade, pois no caso dos entrevistados, percebe-se que eles rompem com o
estigma da velhice, tomam para si a responsabilidade por sua velhice e adotam
medidas para que esta seja saudável e autônoma, mas ainda assim, permanecem à
margem da sociedade, isolamento este que se sustenta tanto por suas próprias
convicções quanto pela falta de possibilidade de inclusão social do idoso. Assim,
embora o voluntariado seja uma forma de sentir-se produtivo, ele não é um meio de
inclusão, mas de perpetuação da segregação, do isolamento.
Estes resultados preliminares até agora discutidos indicam a sustentação da
literatura que afirma o atual fenômeno da transformação da juventude em um valor,
em um ideal a ser perseguido e que é sinônimo de pertença na sociedade, que
passa a desqualificar e excluir o que é velho, e supervalorizar o novo e o jovem
(LIPOVETSKY, 2004; DEBERT, 2004; KEHL, 1997; ESTEVES & ABRAMOVAY,
2007; CHARLES, 2004).
Também
indica,
como
dito
acima,
a
complexidade
da
questão
do
envelhecimento no cotidiano, principalmente sob o olhar do idoso - que é a um só
tempo o velho estigmatizado e decrépito, que deve ser isolado e mascarado, e
213
também o idoso que presentifica as novas imagens do envelhecimento e clama por
inserção social através da adoção de um novo estilo de vida.
Estas discussões preliminares apontam para a existência de várias outras
questões a serem discutidos, novas categorias deverão emergir das próximas
leituras das entrevistas e continuidade da análise.
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