DESAFIOS NO DESENVOLVIMENTO DE PESQUISAS SOBRE A INFÂNCIA NO CONTEXTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS POOLI, João Paulo – ULBRA/UCS – [email protected] COSTA, Márcia Rosa da – UFRGS/ULBRA – [email protected] EIXO: Educação e Infância / 17 O trabalho tem como objetivo analisar, com base na teoria configuracional e processual de Norbert Elias, os problemas encontrados nos estudos sobre os processos culturais e educativos das crianças e suas infâncias, quando utilizam referenciais das ciências sociais, através de um aprofundamento teórico sobre o que trata a sociologia quando pretende constituir a infância como categoria de investigação. As reflexões aqui apresentadas são resultantes das análises desenvolvidas em pesquisas realizadas nos anos de 2005, 2006 e 2007. Nos primeiros anos de desenvolvimento da investigação tivemos como foco central o estudo das concepções de infância e criança nos meios escolares (professores, pais e crianças), mas verificamos a importância de ampliação da temática e a necessidade de aprofundamento e produção de conhecimentos no campo das ciências sociais. No ano de 2007, redimensionamos a pesquisa buscando aprofundar estudos sobre o significado de processos culturais e de socialização, de crianças de periferia urbana, a partir de referenciais teóricos da sociologia, que consideram o caráter processual e configuracional das relações sociais. A pesquisa foi desenvolvida dentro de uma perspectiva qualitativa, de abordagem cultural, em uma escola de educação infantil de periferia urbana. Através de observações, entrevistas e coleta de dados sobre o contexto local, foram realizadas diferentes análises, tendo como categorias centrais a infância, a cultura e os processos de socialização. As pesquisas que recentemente vêm sendo realizadas pelas ciências sociais sobre a infância estão abrindo um campo promissor de investigações acadêmicas, o que tem contribuído significativamente para construir novas concepções sobre as crianças como um grupo social, permitindo um redirecionamento das práticas e atividades no interior de instituições educativas. No entanto, ao mesmo tempo em que o conhecimento científico sobre esse tema vai se alargando, alguns cuidados devem ser considerados ao se utilizar a infância como campo de estudo quando esta for submetida ao arsenal teórico-metodológico da sociologia. Ao serem desenvolvidas investigações sobre a infância considera-se que um trabalho de interpretação e compreensão dos fenômenos sociais deva levar sempre em consideração, tanto os limites da ciência clássica, em explicar todos os fenômenos mediante a utilização e o manejo dos métodos e das teorias existentes, como produzir novas construções teórico-metodológicas, cujo resultado possa configurar renovadas traduções do mundo social. Para tanto, é necessário encontrar e configurar caminhos investigativos que dêem conta principalmente das multiplicidades de interpretações das realidades produzidas pelas intermediações culturais, manufaturadas na produção das práticas sociais objetivas e subjetivas. Por isso, no desenvolvimento do trabalho, são enfatizadas duas preocupações básicas: uma envolvendo as questões relativas aos problemas provocados nas ciências sociais quando a investigação tem como objeto de estudo a infância, e a outra relativa às possibilidades que o campo sociológico apresenta para as análises sobre as crianças e suas infâncias. A infância no contexto das ciências sociais As crianças e suas infâncias, como objeto e categoria de estudo, muito recentemente se configuraram epistemologicamente no campo das ciências sociais. Apesar de encontrarmos trabalhos desenvolvidos por alguns sociólogos e antropólogos relacionados à infância ao longo do século XX 1 , os mesmos não se inscreviam como sociologia da infância. De acordo com Sirota (2001, p.9): A sociologia em geral, particularmente a sociologia da educação, seja ela de língua francesa ou inglesa, permaneceu durante muito tempo implicitamente circunscrita à definição durkheimiana, desenvolvendo, em perspectivas autônomas de pesquisa, diferentes olhares sobre a infância, configurados segundo os modos de apreensão institucional do objeto social. (...) A infância será essencialmente reconstruída como objeto sociológico através dos seus dispositivos institucionais, como a escola, a família, a justiça, por exemplo. É principalmente por oposição a essa concepção da infância, considerada como um simples objeto passivo de uma socialização regida por instituições, que vão surgir e se fixar os primeiros elementos de uma sociologia da infância. É a utilização destes elementos de análise da infância, considerando esta como uma categoria dentro do campo sociológico, que levou vários pesquisadores a instituírem no Congresso Mundial de Sociologia, ocorrido em 1990, a corrente da Sociologia da Infância. Neste encontro foram debatidos vários aspectos concernentes ao 1 Dentre os autores mais conhecidos podemos citar os estudos de Margareth Mead e, no Brasil, o estudo sobre folclore de Florestan Fernandes. 2 processo de socialização da criança e à influência exercida sobre esta pelas instituições e agentes sociais, com vistas à sua integração na sociedade contemporânea 2 . A sociologia da infância, como um campo da sociologia, tem buscado se afirmar, através da construção autônoma de teorias e métodos, como uma sociologia particularizada que busca compreender as infâncias e as crianças e, portanto, não pode distanciar-se demasiadamente das tradições de pesquisa da própria sociologia. Nessa perspectiva, é necessário afirmar que construir uma sociologia da infância não significa em absoluto simplesmente observar, analisar ou diagnosticar os processos individuais e coletivos de socialização das crianças, no sentido de prescrever uma “boa socialização” com o objetivo de formar adultos “melhores”. A sociologia da infância não deve se transformar, nesse sentido, numa espécie de pedagogia da socialização que visa ensinar às jovens gerações a melhor maneira de viver em sociedade. Os estudos sociológicos têm por objetivo mais geral conhecer, compreender e muitas vezes interpretar os sentidos que tomam os processos sociais, sem necessariamente buscar uma saída ideal para seus impasses. Isso não exclui a possibilidade de que as investigações sociológicas sobre a infância possam, e talvez devam contribuir com as ciências da educação na construção de renovadas relações educativas nas salas de aula. Nesse sentido, também concordamos com a análise de Parga (2004) sobre a constituição da sociologia da infância, quando diz que: [...] uma sociología da la infancia, para ser realmente sociológica o social de la infancia deberá trascender interpretaciones generales, para considerar las condicionamentos socio-económicos y culturales dentro sociedad. (2004, p.120) uma sociología los análisis e diferencias y de una misma Todavia, o que desejamos ressaltar, a partir dos dados empíricos das pesquisas realizadas com crianças, em instituições de educação infantil, é a necessidade de se refletir sobre o que trata a sociologia quando pretende constituir a infância como categoria de investigação. Esse campo sociológico de investigações tem se utilizado de metodologias e análises particulares e relativamente autônomas em relação a outros campos como a psicologia, a antropologia, a história ou a biologia. Nesse sentido, é possível afirmar que alguns termos como sociedade, tempo, grupos, classes, indivíduos, cultura, entre outros, têm significados completamente distintos conforme o objeto e os 2 Nosso objetivo, neste texto, não é o de apresentar como historicamente se constitui este campo de pesquisa em outros países e no Brasil, sobre isso outros autores já o fizeram. Conferir: Quinteiro (2002a, 3 pressupostos teóricos de análise. Conceitos tradicionais como: jogos das representações, culturas, construção social da realidade, relações de poder, constituição simbólica do mundo social, habitus social, ações sociais, entre outros que atravessam o mundo adulto, podem ter significados diferentes se analisados num outro contexto, como por exemplo, em contextos onde as crianças são os sujeitos centrais da investigação. O que não quer dizer que as relações entre adultos e crianças sejam desvinculadas, mas sim que é necessário levar em consideração as múltiplas especificidades que configuram um ou outro contexto específico. Geralmente, as temáticas de investigação das ciências sociais se referem a questões vinculadas ao mundo adulto, sendo ainda muito recente e pouco explorado o mundo das infâncias. Dessa forma, em algumas circunstâncias utilizar textos de sociólogos como parte do referencial teórico não faz com que a investigação seja propriamente de caráter sociológico. A seguir são analisadas algumas questões que dizem respeito às pesquisas realizadas sobre a infância, com base em referenciais das ciências sociais, que consideramos como problemas quando a categoria infância vai se configurando no cotidiano das investigações com crianças. Problemas encontrados nos estudos sobre as crianças e suas infâncias com base nas ciências sociais A partir dos dados empíricos encontrados no desenvolvimento das pesquisas e da análise de outros estudos que vêm se desenvolvendo sobre crianças e infâncias com referenciais das ciências sociais, destacamos dois problemas fundamentais, principalmente, quando os estudos se auto-denominam do campo da sociologia da infância. O primeiro problema diz respeito ao cercamento e definição do objeto e do campo da investigação em que as crianças - atores sociais - estão inscritas, e o segundo, está relacionado à produção metodológica da investigação. • Cercamento e definição do objeto e do campo da investigação em que as crianças estão inscritas Em relação ao objeto de investigação, a primeira questão que consideramos central é a de que a infância não pode ser simplesmente tratada como um a análise do 2002b), Sirota (2001), Montandon (2001). 4 mundo da infância em relação única e direta com o mundo adulto. A afirmação de que as crianças vivem as suas infâncias não pode ser considerada como mera retórica acadêmica, mas sim ser o ponto de referência que sustenta todo processo investigativo. É então possível afirmar que não pode existir uma infância que se explique por si mesma, totalmente desvinculada de outros grupos etários. Sobre essa questão, talvez pudéssemos nos remeter a Rousseau, principalmente no que se refere à maneira dos adultos olharem a infância, pois já há muito tempo ele alertava para o fato de que: Não se conhece a infância; no caminho das falsas idéias que se tem, quanto mais se anda, mais se fica perdido. Os mais sábios prendem-se ao que aos homens importa saber, sem considerar o que as crianças estão em condições de aprender. Procuram sempre o homem na criança, sem pensar no que ela é antes de ser homem. (1999, p. 4) Se essa afirmação de Rousseau parece ser interessante para a configuração desse objeto sociológico, é profundamente equivocado para o investigador procurar a natureza da infância na criança que ele um dia foi, supondo que nela se encontrará uma infância contemporânea. E, pior que isso, projetar as suas lembranças da infância (que um dia experimentou), no conjunto dos valores, representações, simbologias e brincadeiras que hoje as crianças vivenciam. Se o anacronismo é um pecado capital para os historiadores, isso pode ser semelhante para os que investigam a infância como objeto sociológico. A infância é ao mesmo tempo resultado da polifonia das determinações sociais (representações, códigos, regramentos, rituais, religiosidade, gênero, classe social etc.) e da autonomia da produção cultural específica que continuamente vai sendo desenhada pela vida cotidiana (os relacionamentos sociais, as brincadeiras e os brinquedos, os jogos, a utilização do espaço e do tempo, a interpretação do mundo, as relações de poder, etc.). Isso é, a infância como objeto de investigação não pode se reduzir a uma criança, ou a um conjunto de crianças, que se apresentam como atores sociais particularizados pelas suas circunstâncias. Como bem ressaltou Elias (1998), o que dificulta seriamente as investigações nas ciências sociais é a natureza do seu objeto, já que os pesquisadores se vêem envolvidos nas suas observações e participam dos fatos investigados. Muitas vezes os pesquisadores se identificam com situações objetivas e subjetivas, projetando a sua visão de mundo sobre circunstâncias que exigiriam um alto grau de distanciamento. Afinal, quem analisa a infância que já não foi criança? Elias considera que temos uma tendência para reduzir tudo o que muda para algo imutável, pois utilizamos nossos 5 juízos de valor ao fazer essas análises (p.45). Nesse processo, alguns cientistas convivem com grandes possibilidades de serem traídos pelas memórias e emoções que não deixam de registrar as lembranças felizes e desagradáveis, pelo significado das primeiras letras, dos primeiros jogos, dos amigos e colegas de classe, dos professores, dos brinquedos e brincadeiras, dos cantos, assim como todo o estatuto da moral e dos valores. Afinal, como afirma Bourdieu (2004, p. 123), o analista faz parte do mundo que ele procura objetivar. Consideramos que a infância não pode ser analisada somente pela mais pura introspecção - que procura conhecer a infância a partir das lembranças que os adultos têm de quando eram crianças - nem somente pelos registros acumulados sobre o que as crianças fazem no seu cotidiano, e o sentido que elas conferem a esse fazer. Não devemos nos esquecer que a sociologia da infância é, antes de qualquer coisa, sociologia no seu sentido estrito. E, por esse ponto de vista, temos que considerar seriamente o que nos fala Elias (1980) na sua análise sobre a natureza dos objetos sociais, principalmente quando alerta para o fato de que os processos sociais não poderiam ser explicados somente pela atuação de pessoas singulares isoladas. O modo como elas agem, sentem, pensam e percepcionam a realidade são o resultado de processos sociais de longo prazo, e as regularidades tendenciais que observamos equivocadamente como “leis”, que regem o comportamento humano, são partes interdependentes das manifestações culturais expressas nas configurações sociais. Nessas circunstâncias, a infância como categoria sociológica deve ser analisada dentro de uma perspectiva sócio-histórica, processualmente construída e reconstruída pelas intermediações culturais. As manifestações sociais e as estratégias de convivência utilizadas pelas crianças, de maneira isolada ou em interconexões, na maioria das vezes, revelam os modos particulares desses agentes construírem redes de sociabilidade específicas, determinadas por circunstâncias especiais, sem contudo estarem desvinculadas das culturas. • Produção metodológica da investigação Mesmo que de maneira sucinta, é necessário abordar algumas premissas que configuram os pressupostos metodológicos das ciências sociais e suas relações com as investigações sociológicas sobre a infância. Temos observado que as pesquisas sobre a infância, pelo seu caráter emergente, muitas vezes obrigam os investigadores a se afastarem em demasia das metodologias que orientam as ciências sociais. Sem nenhuma 6 dúvida, muitas temáticas relativamente recentes na sociologia (movimentos sociais, infância, ecologia, questões de gênero e etnia etc.) vêm contribuindo decisivamente para que possamos compreender cada vez mais as sociedades nos seus constantes processos de (re)configuração, ampliando as fronteiras epistemológicas que demarcam o campo das ciências sociais em geral. No entanto, no meio de tantas possibilidades abertas, também se produziram alguns problemas que, com maior ou menor gravidade, vão passando a fazer parte dos embates acadêmicos e se entranhando no cerne do debate epistemológico atual. É necessário encontrar e configurar caminhos metodológicos que dêem conta principalmente das multiplicidades de interpretações das realidades produzidas pelas intermediações culturais, manufaturadas na produção das práticas sociais objetivas e subjetivas. Isso tudo sem cair num relativismo completo que mistura a efetiva multiplicidade da produção cultural com a sacralização das verdades de cada cultura. Acredita-se que uma das posições mais adequada para as investigações sobre a infância é a que considera que um trabalho de interpretação e compreensão dos fenômenos sociais deva levar sempre em consideração, tanto os limites da ciência clássica em explicar esses fenômenos mediante a utilização e o manejo dos métodos, assim como produzir novas construções metodológicas, cujo resultado possa configurar renovadas traduções do mundo social 3 . Nesse contexto, de forma muito adequada, Norbert Elias retomou algumas questões importantes. Num ensaio criterioso em sua obra Introdução à Sociologia (1980, p. 35-75), ele procurou limpar algumas idéias do pó das manias, excentricidades e perturbações, dando vida a alguns conceitos de Comte, que considerava como novos porque foram parcialmente esquecidos ou mal compreendidos, mas que são importantes para o desenvolvimento das ciências sociais. Dentre esses conceitos Elias destacou que as relações entre a síntese teórica e os pormenores empíricos são muito importantes, pois não se pode conceber o trabalho de investigação social como pura indução da observação de coisas particulares, depreendendo-se teorias amplas como conseqüência de observações particulares. A ciência é produto de uma combinação indivisível de interpretação e observação, de trabalho teórico e empírico. Nesse sentido, são preocupantes algumas pesquisas que utilizam a etnografia como método de investigação 3 Outros autores e textos também apresentam e analisam as diferentes perspectivas que vêm sendo utilizadas em pesquisas sobre as crianças e suas infâncias, destacamos alguns deles: Kramer (1996; 2002), Christensen e James (2005), Rocha (2002; 2004), Faria; Demartini; Prado, (2002). 7 sobre as crianças, acreditando que somente através da descrição densa se possa compreender como se configuram socialmente as infâncias Um exemplo dessa concepção são as investigações de William Corsaro quando reivindica tanto uma etnografia longitudinal (CORSARO, 2005) como uma reprodução interpretativa (CORSARO, 2003; 2002; 1997), para investigar a infância tendo como objetivo “entrar na cultura das crianças”. Se procede como se as culturas fossem cômodos de uma casa com características funcionais totalmente distintas (banheiro e cozinha), de onde fosse possível entrar e sair sem se “contaminar” com as características específicas desses locais. Ao analisarmos as descrições do autor e o modelo de investigação por ele apresentado consideramos que é um modelo pouco recomendável, já que as afirmações do autor levam ao entendimento de que as crianças desenvolvem uma cultura própria, significando como própria totalmente desvinculada das outras culturas etárias, e que a partir disso basta ao pesquisador descrever o que as crianças falam, fazem, e pensam, entre elas para poder interpretá-las. Em resumo, se procede com as crianças da mesma maneira que os antropólogos ao mergulharem em culturas totalmente desconhecidas para descobrir seus significados. Buscando outras alternativas metodológicas, que não incorram nesse equívoco e que possibilitem um olhar diferenciado, é que temos buscado desenvolver nossas investigações, com base nos pressupostos elisianos, considerando que nos estudos sobre as crianças, com suas culturas e interações sociais, o importante não são só as diferentes formas de ver e interpretar suas infâncias, mas também o desenvolvimento de análises sobre como as crianças aparecem e agem nas teias configuracionais da sociedade. Por isso, temos buscado os dados empíricos através de uma abordagem interpretativa e configuracional 4 , cujos procedimentos de pesquisa tem sido: a) observar as relações sociais estabelecidas por um grupo de crianças, de quatro a seis anos, em um centro educativo infantil, de periferia urbana; b) analisar o contexto cultural em que as crianças estão envolvidas, através dos âmbitos de estruturação das culturas: geração, gênero, classe, etnia, território. A partir dos elementos que têm sido encontrados na investigação empírica podemos afirmar que as crianças expressam uma cultura - produção de significados que 4 Em relação aos tipos e metodologias de pesquisa em ciências sociais, convém enfatizar o posicionamento trazido por Elias (1994b, p.196) de que em uma perspectiva sociológica o qualitativo não é um conceito oposto ao quantitativo, pois a investigação sociológica empírica não quantitativa, ou não exclusivamente quantitativa, se preocupa habitualmente pelo estudo de questões relacionais, tanto estáticas quanto dinâmicas, características dos grupos humanos, por isso propõe como alternativa à 8 configuram visões de mundo específicas, através de seus diferentes modos de expressão e utilização de elementos pertencentes: (1) a uma cultura local (estética, alimentar, de moda, de estilo, de relações de vizinhança, de sexualidade, de intimidade), e (2) a uma cultura midiática (musical, das novelas, dos filmes, dos desenhos, dos programas de televisão), ainda que seja temeroso fazer qualquer vinculação direta entre as mensagens que os programas pretendem emitir e sua recepção pelas crianças. Os processos de socialização das crianças reproduzem, em parte, as culturas vivenciadas em suas casas, em sua escola, na rua, com suas famílias, com seus colegas e com seus amigos. As crianças, inegavelmente, já estão incluídas no mundo social, não sendo somente as culturas de um ou outro espaço, que caracterizarão suas infâncias. A substituição de um conhecimento puramente especulativo preocupado essencialmente com as suas causas primeiras, deve dar lugar ao reconhecimento de que os fatos que configuram a vida social são possíveis de serem compreendidos, pelo menos parcialmente, se eles se expressarem como objetos reconhecidos (com alguma evidência empírica) e que se estruturam através de processos sociais em geral e de desenvolvimento social em particular, como afirma Norbert Elias (1990, p.216). É, pois sempre necessário reafirmar que as ciências sociais não podem simplesmente produzir “verdades” ao seu bel prazer sem que isso tenha alguma correspondência com os fatos. O que Norbert Elias nos lembra é sobre as precauções que devem os investigadores ter nas ciências sociais com (i) as evidências empíricas, com (ii) a generalização das coisas particulares e com (iii) a excessiva utilização do subjetivismo. Em relação às investigações sobre a infância, em particular sobre uma sociologia da infância, essas precauções são ainda mais relevantes pelos motivos que assinalaremos a seguir. A vida das crianças é atropelada por constantes movimentos e transformações que geralmente são compreendidas como algo “natural”, produto de uma realidade que se desenvolve em estágios ou fases sucessivas e necessárias para que o pequeno venha a se tornar grande, um adulto completo, racional e racionalizado por circunstâncias produtivas. Ainda hoje, é bastante difícil compreender as crianças como integrantes ativas de processos sociais, entrelaçadas em teias de inter-relacionamentos históricos, políticos, econômicos e culturais, de construção de modos de vida repletos de alternativas e ambigüidades. A dificuldade consiste em reconhecer e tomar como utilização do termo qualitativo, o termo configuracional. 9 prioritário considerar que os modos de vida diferenciados das crianças nos são tão invisíveis, que convivemos com elas como se elas fossem uma parte do mundo adulto e submetida ao seu controle e aos seus desejos e anseios. Nessas circunstâncias, são questionáveis os estudos sobre a infância se eles simplesmente se deixam envolver por circunstâncias de caráter micro-social 5 , que propõem uma produção de autonomia do sujeito através de processos internos, independentes da configuração social em que estão imersos. Ou, por outro lado, por uma análise macro-social que delega às estruturas ou ideologias a determinação do homem comum. Como afirma Elias, o homem singular não é um ser que existe por e para si mesmo, e nem é uma adição de muitos seres humanos singulares desprovidos de qualquer estrutura. Os homens são determinados no seu auto-desenvolvimento pelo ponto onde entram no fluxo do processo social. Para ele: Não se compreende uma melodia examinando-se cada uma de suas notas separadamente, sem relação com as demais. Também sua estrutura não é outra coisa senão a das relações entre as diferentes notas. Dá-se algo semelhante com a casa. Aquilo a que chamamos sua estrutura não é a estrutura das pedras isoladas, mas a das relações entre as diferentes pedras com que ela é construída; é o complexo das funções que as pedras têm em relação umas às outras na unidade da casa. Essas funções, bem como a estrutura da casa, não podem ser explicadas considerando-se o formato de cada pedra, independentemente de suas relações mútuas; pelo contrário, o formato das pedras só pode ser explicado em termos de sua função em todo o complexo funcional, a estrutura da casa. Deve-se começar pensando na estrutura do todo para se compreender a forma das partes individuais. Esses e muitos outros fenômenos têm uma coisa em comum, por mais diferentes que sejam em todos os outros aspectos: para compreendêlos, é necessário desistir de pensar em termos de substâncias isoladas únicas e começar a pensar em termos de relações e funções (1994, p.25). Com as crianças não poderia ser diferente. Não é possível isolar a vida das crianças como se ela fosse produzida de maneira totalmente autônoma, isolada e autoexplicada. A relação da criança com os adultos é evidente se pensarmos nos seus modos de falar, comer, vestir, ouvir, brincar, etc. Para Elias (1994, p. 98): Uma trama delicadamente tecida de controles, que abarca de modo bastante uniforme, "não apenas algumas, mas toda as áreas da existência humana, é instilada nos Jovens desta ou daquela forma, e às vezes de formas contrárias, como uma espécie de imunização, através do exemplo, das palavras e atos dos adultos. E o que era, a princípio, um ditame social acaba por se tornar, principalmente por intermédio dos pais e professores, uma segunda natureza do indivíduo, conforme suas experiências particulares. "Não mexa aí", "Fique quieto”, “Não coma com as mãos", "Onde está seu lenço?", "Não vá se sujar", "Pare de bater nele", "Aja como quer que ajam com você", "Você não pode esperar?", "Faça seu dever de matemática", "Você nunca vai chegar a 5 Sobre esse assunto é interessante a leitura do texto de Zaia Brandão: Para além das ortodoxias: a dialética micro/macro na sociologia da educação. (www.anped.org.br/23/textos/te14.PDF) 10 lugar nenhum", "Trabalhe, trabalhe, trabalhe", "Pense antes de agir", "Pense em sua família", "Pense no futuro", "Pense no Partido", "Pense na Igreja", "Pense na Inglaterra", ou '"na Alemanha, na Rússia, na Índia, na América", "Pense em Deus", "Você não tem vergonha?", "Você não tem princípios?", "Você não tem consciência". Como as crianças em teias de relacionamentos experimentam e significam todas essas mensagens culturais é o que remete a uma cultura infantil, o que pode ser investigado pelos adultos. Perspectivas a serem consideradas nas análises circunscritas no campo sociológico sobre as crianças e suas infâncias Para finalizar essa breve análise sobre a infância no contexto das ciências sociais e a infância, iremos propor algumas perspectivas que podem ser exploradas e/ou que necessitariam de um aprofundamento mais significativo por parte dos cientistas sociais desejosos de se ocupar com essas investigações. Esses apontamentos são resultantes das análises realizadas em decorrência das investigações que estamos levando a cabo, e do estudo de diversas obras 6 que investigam, direta ou indiretamente, a infância, e que, de certa forma, passaram a ser consideradas como referência nesse campo, (CORSARO, 1997; PROUT & ALLISON, 1997; MONTANDON, 1997; QVORTRUP, 2002; SARMENTO, 2002; SIROTA, 2001; VARELA & ALVAREZ-URÍA, s/d; FERNANDES, 1979; KRAMER, 2002; CASTRO, 2001). No entanto, devido à complexidade, essa temática ainda é merecedora de atenção especial, principalmente em relação a questões como: a) a necessidade de re-significar os discursos e as palavras, des-centrando o olhar do investigador, que invariavelmente se encontra contaminado por uma concepção individualizada da criança, através de históricos processos marcados arraigadamente pelos campos da biologia, da psicologia ou da pedagogia, produzindo uma terminologia muitas vezes inadequada para as análises sociológicas; b) a importância da realização de uma nova cartografia dos espaços freqüentados pelas crianças, buscando compreender que tipo de articulações sociais elas estabelecem na 6 É evidente que não podemos deixar de mencionar que a sociologia da infância no Brasil, através de vários pesquisadores tem realizado um trabalho de grande qualidade investigativa, apresentando os seus resultados principalmente em congressos e os publicando nas revistas especializadas em educação. Cabe destacar também a consolidação do Grupo de Trabalho: Sociologia da Infância e Juventude nos Congressos da Associação Latino-Americana de Sociologia, que tem reunido investigadores da América Latina em torno dessa temática. 11 produção das suas infâncias, através de suas convivências cotidianas, seja em casa, em instituições educativas, na rua ou em outros espaços que circulam, mediadas pelo conjunto dos diálogos, representações, jogos de poder, metáforas e subjetividades contextualizadas pelas suas presenças ativas; c) a manutenção de uma constantemente vigilância epistemológica sobre o campo de investigação, buscando atenuar os efeitos da renitente concepção de infância onde as crianças são homogeneizadas por uma vida ingênua, superficial, a-moral, pueril e mitificada, presente em grande parte das investigações sobre a “socialização” das crianças e que, através da simples observação dos comportamentos, acabam por engendrar uma “condição infantil” pura, para além das configurações sociais; d) a exploração teórica e empírica, de maneira mais aprofundada sobre as diferenças, semelhanças, aproximações, distanciamentos, especificidades e universalidades que caracterizam a criança, na sua vida concreta experimentando suas infâncias abstratas. Embora seja praticamente impossível desvincular a criança da sua infância, essa tarefa é sumamente necessária para que se possam superar os obstáculos do reducionismo que tende a construir investigações sociais a partir de uma racionalidade individual; e) a análises das influências da cultura, através dos chamados “artefatos culturais”, quando esses atravessam as experiências cotidianas das crianças, configurando, de certa forma, a sua maneira de ver e viver as suas vidas, bem como na sua contribuição para a formação das identidades. Essas análises de modo geral poderiam abordar o problema enfocando as questões vinculadas com estruturação de limites e valores, violência, sexualidade e corpo, mídias, estrutura familiar, relações inter-pares, drogas, jogos eletrônicos, vídeo-cultura, padrões e modelos estéticos entre outros. Não restam dúvidas sobre a importância das ciências sociais, no sentido de colaborar com outras áreas do conhecimento para compreender a infância nesse momento, principalmente quando assistimos a processos acelerados de hibridização cultural. As condições em que as crianças vivem suas infâncias são resultados de complexos fenômenos de socialização que não se localizam e nem se manifestam exclusivamente na concretude dos indivíduos ou nas abstrações da sociedade. Essas condições são configurações sociais que se movimentam através de processos contíguos dos atores em direção a uma crescente diferenciação e individualização no desenvolvimento das estruturas sociais (Elias, 1995, p.47). É nesse turbilhão social em que as crianças vivem, constroem e significam suas infâncias, que podemos encontrar terreno fértil para produzir investigações sociais, que nos auxiliem a compreender 12 melhor as culturas engendradas nas circunstâncias e nos acontecimentos de suas vidas cotidianas. 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