A INSERÇÃO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL NA MODERNIZAÇÃO DA
AGRICULTURA BRASILEIRA
Jodenir Calixto Teixeira _ CPNA/UFMS
[email protected]
RESUMO
A partir da década de 1960 o país passou por importantes mudanças em sua economia, com o
avanço do processo de industrialização e urbanização. O país passou de rural a urbano, sendo parte
significativa da população do campo forçada a se deslocarem para as cidades em busca de novas
alternativas de vida. As inovações tecnológicas deram um novo direcionamento às atividades
produtivas do país, que passaram a incorporar novas técnicas e equipamentos produtivos. A
industrialização se expandiu rapidamente e passou a exigir uma reestruturação do campo, por ser
fonte de matéria-prima. Era necessário preparar o campo para produzir para a indústria e, ao mesmo
tempo, receber produtos industrializados, tais como agrotóxicos, fertilizantes, sementes melhoradas
e máquinas. Esse processo contínuo de industrialização do campo trouxe mudanças nas relações de
produção na agricultura e, conseqüentemente, redefiniu toda a estrutura socioeconômica e política.
Porém, apesar de iniciada na década de 1960, foi a partir da década de 1970 que essas mudanças
passaram a ser sentidas em âmbito nacional, com a implementação de programas do Governo
visando melhorar e ampliar as áreas de produção. Esse avanço nos meios técnicos-produtivos não
atingiu todos os produtores e propriedades, excluindo os menos favorecidos. Foram beneficiados os
grandes proprietários e determinados segmentos da produção, ou seja, aqueles que eram de interesse
da indústria e aqueles voltados para exportação. Mesmo diante dessa questão, não podemos negar
que o processo de modernização do campo contribuiu grandemente para a expansão e aumento da
produtividade no país, integrando novas regiões a economia nacional, como é o caso do CentroOeste. Nesse contexto o Estado de Mato Grosso do Sul deu um grande salto na produção agrícola a
partir dos investimentos governamentais, redefinindo suas funções na economia nacional.
Palavras-chaves: Mato Grosso do Sul, agricultura, pecuária, modernização, exclusão social.
RESUMEN
Desde la década de 1960 el país experimentó importantes cambios en su economía, con el avance
de la industrialización y la urbanización. El país pasó de rural a urbano, con una proporción
significativa de la población rural obligados a trasladarse a las ciudades en busca de nuevas
alternativas de vida. Las innovaciones tecnológicas han dado una nueva orientación a las
actividades productivas del país, que comenzó a incorporar nuevas técnicas y equipos productivos.
La industrialización se ha expandido rápidamente y comenzó a exigir una reestructuración del
campo como una fuente de materia prima. Era necesario preparar el terreno para producir para la
industria y al mismo tiempo, recibir productos industriales tales como pesticidas, fertilizantes,
semillas mejoradas y maquinaria. Este proceso continuo de la industrialización del campo
provocado cambios en las relaciones de producción en la agricultura y, en consecuencia, redefinir
toda la estructura socioeconómica y política. Sin embargo, aunque se inició en la década de 1960,
era de la década de 1970 que estos cambios empezaron a sentirse en todo el país, con la aplicación
de los programas del gobierno para mejorar y ampliar las áreas de producción. Este avance en la
técnica de producción no se cumplen todos los productores y las propiedades, con exclusión de los
menos afortunados. Beneficiados los grandes terratenientes y algunos sectores de la producción, es
decir, aquellos que eran de interés para la industria y las exportaciones se enfrentan. Incluso antes
de que esta cuestión no se puede negar que el proceso de modernización del campo ha contribuido
enormemente a la expansión y el aumento de la productividad en el país, la integración de nuevas
regiones a la economía nacional, tales como el Medio Oeste. En este contexto, el Estado de Mato
Grosso do Sul tiene un gran salto en la producción agrícola de la inversión pública, la redefinición
de su papel en la economía nacional.
Palabras clave: Mato Grosso do Sul, la agricultura, la ganadería, la modernización, la exclusión
social
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo demonstrar as mudanças ocorridas na produção agropecuária
no Estado de Mato Grosso do Sul nas últimas décadas, diante do processo de modernização desse
setor ocorrido no Brasil. Para a sua elaboração, além da bibliografia consultada, foram utilizados
dados dos censos agropecuários do IBGE.
A modernização da agropecuária brasileira, desencadeada a partir da década de 1960, chegou ao
Estado de Mato Grosso do Sul, de maneira efetiva, somente na década de 1970, o que provocou
importantes mudanças na sua produção, apesar de ter beneficiado apenas parte dos produtores. Os
investimentos canalizados para esse Estado possibilitaram o seu desenvolvimento e a sua integração
ao mercado nacional. Atualmente, apesar de ainda se defrontar com o problema da concentração da
terra, já é responsável por uma grande parte da produção de grãos e de gado bovino do país.
Em poucos anos, apresentou um crescimento surpreendente no setor agropecuário apresentando um
crescimento agrícola superior à média nacional. A pecuária bovina, apesar do crescimento da
lavoura, se constitui na principal atividade econômica do Estado, que possui os municípios de maior
produção nacional.
Apesar de ainda apresentar um sistema de criação extensivo, houve consideráveis melhorias nesse
setor, em especial, a partir da década de 1970. Boa parte dos municípios do Mato Grosso do Sul
se firmou, com o passar do tempo, na bovinocultura, tendo em vista que os grandes proprietários
preferiram essa atividade, muitos se baseando na baixa fertilidade dos solos e na facilidade
encontrada para a prática extensiva.
Em relação à produção agrícola, essa foi aparecendo em muitas partes do Estado, porém se
concentrando em áreas que apresentam solos mais férteis, como nos municípios de Dourados,
Chapadão do Sul e São Gabriel do Oeste dentre outros, se tornando cada vez mais forte, destinando
os produtos não só para o abastecimento do mercado interno, mas principalmente para exportação.
O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA NO BRASIL
O processo de modernização da agricultura no Brasil iniciou-se na década de 1950 com as
importações de meios de produção mais avançados. No entanto, é só na década de 1960 que esse
processo vai se dar concretamente, com a implantação no país de um setor industrial voltado para a
produção de equipamentos e insumos para a agricultura.
Com a modernização pretendia-se passar de uma agricultura tradicional para uma agricultura
moderna, adequando o país às exigências internacionais naquele momento histórico, frente à
expansão industrial e a necessidade cada vez maior de produção de matéria-prima.
O novo modelo apoiava-se na oligarquia rural preocupada com as tensões no campo geradas pelos
movimentos sociais e nos setores mais modernos do capital urbano interessado na ampliação do seu
raio de atuação (MARTINE, 1990).
Segundo Gonçalves Neto (1997), esse processo não ocorreu da mesma forma e não se deu com a
mesma intensidade nas regiões brasileiras, sendo mais lento entre os anos de 1965 e 1967, devido à
reorganização sob o regime militar que se instalara no país. Porém, se analisarmos os indicadores
de modernização, verificaremos uma mudança significativa no âmbito da agricultura nacional.
O uso de fertilizantes artificiais, agrotóxicos e tratores se acentuou a partir da década de 1960.
Entre 1965 e 1975 o consumo de fertilizantes cresceu a taxa média de 60% ao ano, enquanto que os
agrotóxicos cresceram numa média anual de 25%. Com o avanço da tecnologia no campo os
produtores buscaram uma maior rentabilidade, ampliando as áreas cultivadas e melhorando a
produção (GRAZIANO NETO, 1985).
Houve uma pressão por parte das indústrias de equipamentos e insumos sobre o campo, para que os
produtores modernizassem suas práticas agrícolas, visando, evidentemente, uma venda cada vez
maior de seus produtos.
As indústrias multinacionais instaladas no país exigiam um setor agrícola cada vez mais produtivo
e subordinado aos recursos por elas produzidos. Assim, afirmavam que o atraso no setor agrícola
seria um entrave ao desenvolvimento econômico do país. O argumento central para essa questão
era que a exportação não aumentava satisfatoriamente, a agricultura não produzia alimentos e
matérias-primas suficientes à demanda urbana – industrial.
A expansão do processo de urbanização, concentrando um maior número de população nas cidades,
também exerceram uma pressão sobre o campo, para que se produzissem mais alimentos. No
entanto, com uma estrutura fundiária onde a terra se concentra nas mãos de uma minoria, não só a
modernização resolveria o problema, pois o grande proprietário estava muito mais interessado em
atender as indústrias ou em exportar seus produtos, garantindo maiores lucros. A reforma agrária,
teria sido uma melhor opção para a produção de alimentos, pois uma melhor distribuição de terras
garantiria a permanência do pequeno produtor no campo e, consequentemente, uma maior
produção de gêneros alimentícios.
Porém, o que vai realmente dar grande impulso na transformação da base técnica da produção
agrícola é o incentivo governamental através do chamado crédito rural, viabilizado principalmente
a partir de meados da década de 1960 (TEIXEIRA, 2005).
A partir da década de 1970 o processo de modernização se expandiu para outras regiões, chegando
ao Centro-Oeste e, em particular, no estado de Mato Grosso do Sul.
Sobre a questão, Gonçalves Neto (1997, p. 78), ressalta que:
A década de 70 assistirá a uma profunda mudança no
conteúdo do debate. Impulsionada por uma política de créditos
facilitados, que se inicia na segunda metade dos anos 60, pelo
desenvolvimento urbano-industrial daquele momento, que se
convencionou chamar de “milagre brasileiro”, a agricultura
brasileira não apenas respondeu às demandas da economia,
como foi profundamente alterada em sua base produtiva. O
maciço crescimento do uso da tecnologia mecânica, de
defensivos e adubos, a presença da assistência técnica, o
monumental êxodo rural, permite dizer que o Brasil mudou e
o campo também.
A década de 1970 foi marcada pela que se chamou de “industrialização da agricultura”, se tornando
cada vez mais subordinada à indústria. Neste contexto, houve pouco espaço para o pequeno
produtor, que não conseguiu se modernizar, devido aos altos custos, e o campo brasileiro
apresentava cada vez mais uma estrutura fundiária pautada na concentração de terras nas mãos de
uma minoria, que produziam muito mais para abastecer a indústria e para exportação.
Aos pequenos proprietários não sobraram muitas alternativas: ou eles se manteriam nas
propriedades produzindo de forma tradicional ou venderiam suas propriedades e iriam para as
cidades, o que provocou intenso êxodo rural.
O impacto dessa modernização foi sentido, principalmente, pelos trabalhadores rurais sem terras,
que eram empregados nas fazendas, pois com a chegada da máquina, foram perdendo seu espaço.
O Estado passou a atuar mais intensamente nesse processo com a intervenção por meio de
planejamentos direcionados para as regiões, aumentando a fiscalização, determinando preços,
estocagem, comercialização etc, procurando instaurar seu projeto modernizador, buscando uma
maior aproximação entre o setor agrário e o processo de desenvolvimento econômico.
A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA NO CENTRO-OESTE
Como já salientei anteriormente, a década de 1970 marcou a expansão do processo de
modernização para outras regiões, mesmo concentrando nas grandes propriedades, excluindo o
pequeno. Neste contexto se enquadra a região Centro-Oeste que começou a receber os incentivos
governamentais e a modernizar parte de sua produção.
Segundo Mesquita (1989), houve um crescimento das áreas dos estabelecimentos agropecuários
entre 1970 e 1980 da ordem de 44,9%, bem como um elevado crescimento no uso de tratores,
chegando a 513,1%, o que indica uma transformação nas bases técnicas produtivas.
Ao longo dessa evolução da agricultura regional, assumiu
especial destaque a expansão das áreas de pastos plantados e
em lavouras temporárias, cujo ritmo foi tão intenso a ponto de
o aumento absoluto das superfícies, com esses usos da terra,
terem constituído respectivamente, 30,9% e 50,5% do
crescimento ocorrido em escala nacional. Outra medida da
magnitude da difusão dos pastos formados e dos cultivos
temporários é representada pelo fato de o crescimento das
áreas ocupadas, com esses dois usos produtivos do solo, ter
correspondido a 61,4% da superfície incorporada aos
estabelecimentos rurais, na década de 70, no Centro-Oeste
(MESQUITA, 1989, p. 149).
Esse avanço da pecuária bovina na região Centro-Oeste já era esperado, pelas particularidades
favoráveis à expansão das pastagens nessa região.
Apesar de não ter beneficiado todos os produtores, tendo um caráter extremamente seletivo, a
modernização contribuiu para o desenvolvimento do setor agrário nesta região. Os incentivos
governamentais tiveram grande importância para a consolidação desse processo. A concessão de
crédito favoreceu o avanço da modernização da base técnica e a expansão das áreas produtivas,
principalmente sobre as áreas de cerrado.
Dentre os principais programas do Governo que beneficiaram o Centro-Oeste estão os inseridos no I
PND, como o PRODOESTE (elaborado no início da década de 1970), o PLADESCO (elaborado
pela Sudeco em meados da década de 1970) e aqueles inseridos no II PND, como o
POLOCENTRO, PRODEGRAN, PRODEPAN, dentre outros elaborados a partir da segunda
metade da década de 1970 (TEIXEIRA e HESPANHOL, 2006).
Assim, verificou-se que o Centro-Oeste incorporou as transformações ocorridas no processo
produtivo em âmbito nacional a partir da década de 1970, apresentando grande melhoria nas formas
produtivas, com maior mecanização e uso de insumos químicos. Porém, não há mudanças no que se
refere à concentração fundiária, permanecendo uma alta concentração de terras em poder de uma
minoria.
Essa modernização agrícola, no entanto, não se deu com a mesma intensidade em toda a região
Centro-Oeste. Houve uma maior concentração no uso de máquinas e insumos modernos nos estados
de Goiás e Mato Grosso do Sul, com maior utilização de máquinas e insumos modernos em
lavouras temporárias e nas culturas de soja e trigo (Mesquita, 1989).
Mesmo com a crise que envolveu o país na década de 1980, a região Centro-Oeste continuou seu
crescimento econômico e populacional, sendo interrompido apenas quando houve a diminuição dos
incentivos governamentais.
Na década de 1980, outros programas de incentivos à agricultura foram elaborados, porém não
alcançaram o mesmo êxito. Dentre eles, o PRODECER (Programa de Desenvolvimento do
Cerrado), em associação com o Governo japonês, o PROFIR (Programa de Financiamento da
Irrigação). Nas décadas de 1980 e 1990, os produtores também foram beneficiados pelo Programa
de Garantia dos Preços Mínimo (TEIXEIRA e HESPANHOL, 2006).
Essa região, em pouco tempo, passou de uma área de produção inexpressiva para grande geradora
de produtos agropecuários exportáveis, integrando à economia nacional e gerando divisas
importantes para o país.
A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA NO MATO GROSSO DO SUL.
O Estado de Mato Grosso do Sul foi palco das principais mudanças ocorridas no Centro-Oeste, que
colocaram essa região numa posição de destaque na economia nacional. Aproveitando suas
potencialidades, o Governo passou a incentivar e investir na produção do Estado, criando condições
para o seu desenvolvimento, o que proporcionou a expansão, principalmente, das lavouras de soja,
que apresentava boas perspectivas no mercado externo (TEIXEIRA e HESPANHOL, 2006).
Apesar de manter o predomínio da pecuária, a expansão das lavouras no Estado deu um novo rumo
à sua produção agrícola, a partir da década de 1970, com uma maior concentração em alguns
municípios.
Até o início dos anos 70, a pecuária extensiva era a atividade
econômica tradicional e de maior expressão no território de
MS, de vez que 75% do território estadual, apresentava-se
coberto de pastagens naturais ou plantadas. Porém, ao findar da
década o fenômeno da mudança já se faz notar. No período
compreendido entre 1970 e 1980, o Estado de MS sofre um
incremento em sua área de lavouras temporárias da ordem de
2,3% e uma redução de áreas de pastagens de
aproximadamente 0,32% (TEIXEIRA, 1989, p. 70)
As políticas governamentais de incentivos agrícolas contribuíram para expansão das áreas
produtivas no estado. Segundo Duarte (1989) os principais programas de incentivos à agropecuária
que atuaram no Mato Grosso do Sul foram: o POLOCENTRO (Programa de Desenvolvimento das
Áreas de Cerrado), o PRODEGRAN (Programa de Desenvolvimento da Região da Grande
Dourados) e o PRODEPAN (Programa de Desenvolvimento da Região do Pantanal).
Na década de 1980 a agropecuária e a indústria receberam novos incentivos através do FCO (Fundo
Constitucional de Financiamento). Criado na Constituição de 1988 tinha como principal objetivo,
priorizar a matéria-prima regional e gerar empregos.
A sojeicultura passou a ser o principal destaque na produção agrícola do estado a partir da década
de 1980, mesmo com a recessão vivida pelo país nessa década, a produção da soja apresentou
índices animadores. Nessa década, houve um grande investimento, por parte dos produtores, na
mecanização intensiva do cultivo e na exploração de extensas áreas, fazendo com que as lavouras
de soja se expandissem consideravelmente (OLIVEIRA, 1993).
Com a grande aceitação da soja no mercado mundial, também aumentaram o número de pesquisas
visando melhorar sua qualidade e produtividade. O crescimento da produção de soja no estado,
associado às isenções fiscais, atraíram indústrias de beneficiamento do produto.
Para Rezende e Goldin (1993, p. 92)
É importante ressaltar a conclusão de que a explosão do
Centro-Oeste se deu basicamente na soja. Isso indica que o
conhecimento adquirido quanto ao manejo do cerrado foi
menos importante, para explicar essa explosão, do que a
descoberta de novas variedades de soja apta às condições
climáticas e de solos do Brasil Central. A própria evolução da
produtividade relativa da soja no Centro-Oeste e no Sul do
Brasil - assim como a maior estabilidade aparente dos
rendimentos físicos no Centro-Oeste - sugere que o avanço
relativo do Centro-Oeste se ampara, em boa parte, nesses
resultados de pesquisa sobre a soja, que parecem ter dado ao
Brasil Central uma superioridade tecnológica na produção
dessa leguminosa.
É bom salientar, no entanto, que mesmo com todas as mudanças ocorridas no Mato Grosso do Sul
no período pós-1960, permaneceu a grande concentração de terras, demonstrado na figura 1, o que
dificulta cada vez mais a vida do pequeno proprietário, que não consegue acompanhar o processo de
modernização da agricultura.
Os dados dos Censos Agropecuários do IBGE apontam para uma redução no número de pequenos
estabelecimentos nas últimas décadas. Considerando o primeiro censo agropecuário realizado para o
Estado de Mato Grosso do Sul no ano de 1975, observamos que os estabelecimentos com menos de
10 hectares representavam 38,5% do total, controlando apenas 0,4% da área dos estabelecimentos.
Em 1995, esses estabelecimentos representavam 18,6% do total, detendo apenas 0,1% da área total
dos estabelecimentos. Em contrapartida, houve uma expansão na proporção da área e da quantidade
de estabelecimentos nos grupos de 100 a menos de 10.000 hectares. Observa-se, claramente, que
acentuou a concentração de terras, mantendo o predomínio dos grandes estabelecimentos, apesar de
ter ocorrido uma pequena diminuição dos estabelecimentos com mais de 10.000 hectares.
Figura 1: Proporção da Área em Estabelecimentos por Grupo de Área Total em Mato Grosso
do Sul nos Anos de 1975 e 1995 (%)
Fonte: IBGE – Censos Agropecuários de Mato Grosso do Sul dos Anos de 1975 e de 1995/96
Entre as décadas de 1975 a 1995 houve um aumento no número de estabelecimentos geridos por
proprietários, conforme demonstra a figura 2, elevando de 49% em 1975 para 72,5% em 1995. No
entanto, a proporção das áreas ocupadas aumentou apenas 6,3 pontos percentuais, passando de
50,1% para 56,4%, pelos dados do IBGE. Esse fato se deu em razão da diminuição no número de
estabelecimentos geridos por arrendatários e ocupantes, que caíram, respectivamente, de 23,3%
para 6,2% e de 18,2% para 9,2% entre 1975 e 1995.
Na década de 1970 ocorreu a vinda para o Mato Grosso do Sul de novos produtores do Sul e
Sudeste do Brasil, o que justifica o índice elevado de arrendatário nessa década, arrendando terras
principalmente para o cultivo de grãos e criação de gado bovino.
Figura 2: Condição do Responsável por Estabelecimento em Mato Grosso do Sul nos anos de
1975 e 1995 (%)
Fonte: IBGE – Censos Agropecuários de Mato Grosso do Sul dos anos de1975 e 1995/96
Uma mudança considerável notada pelos dados do IBGE, a partir da década de 1970, foi em relação
ao uso da terra no Estado de Mato Grosso do Sul, conforme se demonstra a figura 3.
Figura 3: Utilização da Terra no Estado de Mato Grosso do Sul nos Anos de 1975, 1980, 1985
e 1995 (%)
Fonte: IBGE – Censos Agropecuários de Mato Grosso do Sul dos anos de1975, 1980, 1985 e 1995/96.
É notável a expansão das áreas de pastagens plantadas se compararmos os dados dos censos
agropecuários de 1975, 1980, 1985 e 1995/96 do Estado de Mato Grosso do Sul, que representavam
apenas 8,84% do total em 1975 e chegaram em 50,8% em 1995. Isso se deu concomitante ao
declínio das áreas de pastagens naturais, que deram lugar para as pastagens plantadas,
principalmente com a introdução da brachiária no Estado, viabilizando a expansão da pecuária
bovina.
Quanto às áreas de lavouras, apesar do aumento ocorrido a partir de 1975, percebe-se uma redução
no início da década de 1990. Até mesmo as lavouras de grande importância econômica sofreram
redução de suas áreas no início dessa década, como, por exemplo, a soja que teve seu declínio
devido à mudança ocorrida na política agrícola, com redução de vantagens oferecidas pelo crédito
agrícola.
Algumas lavouras como o milho, a soja, o trigo, a cana-de-açúcar, o algodão, o arroz, o feijão e a
mandioca apresentaram como principais em Mato Grosso do Sul, na década de 1990, com uma
produção oscilante no espaço territorial do estado. A soja, apesar da diminuição ocorrida em sua
área de plantio, não sofreu grandes alterações na quantidade produzida.
Com a modernização das técnicas produtivas em algumas propriedades manteve-se uma média
sempre crescente de produção, mesmo no caso das lavouras que tiveram suas áreas de plantio
reduzidas.
No entanto, segundo dados do IBGE, o padrão tecnológico da agricultura em geral no Estado de
Mato Grosso do Sul ainda é baixo. Segundo o censo agropecuário de 1995/96, apenas 39% do total
dos estabelecimentos agropecuários possuíam tratores, sendo um total de 36.387 unidades. Quanto
ao uso de fertilizantes apenas 31,4% dos estabelecimentos fazem uso dos mesmos. Cerca de 40%
dos estabelecimentos recorreram à assistência técnica, sendo que muitos utilizaram agrotóxicos e
produtos veterinários sem assistência técnica. Menos de 3% usaram técnicas de irrigação, sendo que
a área irrigada compreendeu apenas 5,3% do total da área em lavouras, no ano de 1995.
Em relação à pecuária, em cerca de 97,1% dos estabelecimentos foram feitos os controles de
doenças nos animais, contribuindo para que essa atividade mantivesse um considerável crescimento
nos últimos anos. Entre os censos de 1985 e 1995, o efetivo bovino apresentou um crescimento de
31,5%, o efetivo de suíno registrou um aumento de 27% e o efetivo de galináceos apresentou um
crescimento de 292% (Figura 4). O grande avanço no efetivo de galináceos se deu para atender ao
aumento no consumo que ocorreu a partir do plano real e da implantação de tecnologias modernas
no setor.
Figura 4: Efetivo de Bovinos, Suínos e Galináceos no Estado de Mato Grosso do Sul
Fonte: FIBGE – Censos Agropecuários de Mato Grosso do Sul dos anos de 1985 e 1995/96
Na pecuária bovina do Estado de Mato Grosso do Sul, sobressai a criação para o corte, com 70,8%
dos estabelecimentos e 96,4% do rebanho bovino, segundo o censo agropecuário de 1995/96. Essa
criação, apesar da modernização se efetivar em algumas propriedades, ainda se dá, em maior
proporção, de forma extensiva. Isso também garante uma boa aceitação da carne no exterior, por
julgarem de maior qualidade o gado criado sob esse sistema.
A maior concentração da pecuária bovina se dá nos médios e grandes estabelecimentos
agropecuários. Segundo o censo agropecuário de 1995/96, cerca de 95% dos bovinos do Estado, se
encontram nos estabelecimentos com mais de cem hectares, sendo que cerca de 63% desse rebanho
estão nos estabelecimentos com mais de mil hectares.
Não há dúvida de que o Estado de Mato Grosso do Sul ingressou no processo de modernização da
agricultura nas últimas décadas, diante dos dados apresentados, melhorando e aumentando sua
produção agropecuária. No entanto, novos dados estão surgindo para melhor demonstrarem essa
realidade, que estão sendo analisados e serão apresentados em um próximo trabalho.
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