UM ESTUDO ECONOMÉTRICO-ESPACIAL SOBRE O PROCESSO DE ABRANGÊNCIA GEOGRÁFICA DE CLUSTERS INDUSTRIAIS CATARINENSES POR MEIO DO CONSUMO INDUSTRIAL DE ENERGIA ELÉTRICA NO PERÍODO ENTRE OS ANOS 2000 E 2012 Daniel Augusto de Souza Universidade do Estado de Santa Catarina [email protected] Adriano de Amarante Universidade do Estado de Santa Catarina [email protected] Fernando Pozzobon Universidade do Estado de Santa Catarina [email protected] Ana Paula Menezes Pereira Universidade do Estado de Santa Catarina [email protected] Área Temática: Temas Especiais RESUMO O estado de Santa Catarina apresenta diversos arranjos espaciais das atividades econômicas, em especial as de cunho industrial, onde a especialização em segmentos produtivos é marcantemente regionalizada. Este artigo tem como objetivo principal identificar a localização espacial dos clusters produtivos de Santa Catarina por meio do consumo de energia elétrica industrial (proxy). O estudo partiu da seguinte pergunta de pesquisa: Como se configuram espacialmente os clusters produtivos de Santa Carina utilizando o consumo de energia elétrica como proxy da produção setorial? Nesse estudo pretende-se preencher uma lacuna que é o grau de precisão das localizações espaciais dos clusters produtivos catarinenses, uma vez que já se tem uma estimativa de onde estão localizados. Quanto aos seus objetivos a pesquisa se classifica como descritiva. Para a coleta dos dados foi utilizado o recurso da documentação indireta. Os dados coletados advieram de uma amostra por acessibilidade, ou seja, de acordo com a disponibilidade das informações procuradas. O período de abrangência foi do ano de 2000 a 2012. Para operacionalizar os cálculos e a representação econométrico-espacial foi utilizado o software GeoDA. O resultado principal foi o mapeamento de 29 clusters produtivos, por meio da proxy consumo de energia elétrica industrial. Nesse mapeamento, identificaram-se clusters em expansão, tais como Extração de Petróleo e Serviços, Fabricação de Produtos Têxteis e Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios. Por outro lado, setores como Fabricação de Produtos do Fumo, Edição, Impressão e Reprodução de Gravações, e, Fabricação e Montagem Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias experimentaram uma redução no tamanho e abrangência do cluster. Palavras-chave: Econometria espacial, Clusters, Consumo de energia elétrica industrial. 1 INTRODUÇÃO O estado de Santa Catarina se caracteriza por um peculiar arranjo espacial da atividade industrial, onde a especialização em segmentos produtivos é marcantemente regionalizada. Segundo FIESC (2010, p. 12), A diversificação existente em aspectos climáticos, geográficos, étnicos e culturais reflete-se, de muitas maneiras, na economia de Santa Catarina. Apesar de a diversificação industrial ser muitas vezes encarada como um aspecto positivo, e aqui não se discorda dessa percepção, por outro lado, percebe-se que a riqueza gerada não está distribuída de maneira uniforme. Esta distribuição da atividade industrial, segundo Siebert (2011, p. 17) gera um impacto sobre a geração e concentração de empregos: A espacialização dos dados de empregos por setor econômico na base cartográfica de Santa Catarina revelou maior concentração de empregos, tanto secundários quanto terciários, no arco que interliga Joinville, Blumenau e Florianópolis. Já os empregos industriais estão concentrados no arco que se estende entre Brusque, Blumenau, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul e Joinville. Outro aspecto interessante a se abordar, diz respeito às diversas abordagens que se pode encontrar quanto o tema em pauta é a distribuição espacial da indústria. Siebert (2011) identifica seis diferentes classificações da distribuição espacial da produção catarinense. Nesse artigo pretende-se contribuir com mais uma. Em suma, o problema estudado nesse artigo pode ser visto por diversos vieses. O primeiro pode ser o do investidor, o qual não tem acesso à informação precisa do grau de concentração das diversas indústrias do estado. A pergunta que o empresário investidor se faz, é: qual localização industrial traria mais benefício causado pela especialização ali encontrada? O segundo viés, diz respeito ao grau de eficácia de ações governamentais quanto se trata de incentivar determinado setor produtivo. Nesse caso, onde os investimentos governamentais teriam maior efeito multiplicador? O terceiro aspecto a ser considerado diz respeito aos investimentos na formação de mão de obra especializada. Um exemplo de questionamento a ser feito é: em quais regiões um investimento em treinamento para formar pessoas com determinada especialidade teria mais efeito sobre a indústria? Nesse artigo, partiu-se da premissa que um conhecimento mais apurado do arranjo espacial das concentrações industriais permite que se responda mais adequadamente as perguntas elaboradas acima. Sabe-se que os dados do consumo de energia elétrica podem mapear os pontos onde se utiliza tal insumo na produção de bens e serviços. A concessionária de distribuição de energia com maior grau de abrangência do estado é a Celesc. Os bancos de dados da referida empresa são bastante detalhados e contém os registros de consumo por tipo de atividade econômica bem como a sua localização espacial. Tendo em vista o problema descrito, formulou-se a seguinte pergunta de pesquisa: Como se configuram espacialmente os clusters produtivos de Santa Carina utilizando o consumo de energia elétrica como proxy da produção setorial? Hipótese: O consumo de energia elétrica por parte das indústrias catarinenses permite localizar espacialmente a formação de clusters produtivos nas diversas regiões do estado. 1.1 Justificativa: O conhecimento da estrutura espacial produtiva permite ao Estado a formulação de políticas públicas com maior grau de eficácia, se considerarmos que as atividades econômicas não se encontram distribuídas de maneira uniforme pela área de Santa Catarina. Este artigo pretende preencher uma lacuna que é o grau de precisão das localizações espaciais dos clusters produtivos catarinenses, uma vez que já se tem uma estimativa de onde estão localizados. Além do mais, com o aprimoramento da metodologia, será possível no futuro estabelecer a linha temporal de evolução espacial dos clusters. Enfim, espera-se que toda a sociedade catarinense se beneficie desse estudo. Porém, identificam-se os seguintes usuários mais identificados com os resultados desse artigo: a. Governo: por meio de instrumento auxiliar no planejamento de políticas industriais. b. Investidores: futuros empreendimentos podem se beneficiar de um melhor entendimento da dinâmica das relações industriais espaciais. c. Distribuidora de energia (concessionária): atualmente a principal distribuidora de energia de Santa Catarina, a CELESC – Centrais Elétricas de Santa Catarina, pode se valer desse conhecimento para planejar seus investimentos a fim de maximizar o seu resultado financeiro, por meio de investimentos direcionados para consumidores industriais mais dinâmicos. 1.2 Objetivos: 1.2.1 Geral Localizar espacialmente os clusters produtivos de Santa Catarina por meio da proxy consumo industrial de energia elétrica. 1.2.2 Específicos a) Identificar espacialmente o consumo de energia elétrica (proxy da produção industrial) por setor de atividade produtiva em Santa Catarina; b) Calcular a correlação espacial de um conjunto de indústrias de Santa Catarina. c) Segmentar espacialmente os clusters por atividade produtiva. 2 REVISÃO TEÓRICA Este tópico está dividido em duas partes principais. A primeira faz um panorama da economia catarinense e um apanhado de estudos que aborda o tema dos aglomerados produtivos. A segunda parte trata do método da econometria espacial e o arcabouço teórico de base para este trabalho. Panorama da Economia catarinense Nas estatísticas do IBGE, Santa Catarina apresentou um PIB aproximado de R$129,8 Bilhões, e uma renda percapita de R$ 21.2414,53. Segundo Cario et al. (2008, p. 26), “o estado de Santa Catarina possui 95.442 km2 de área, que corresponde, aproximadamente, à superfície de Portugal, [...]” e, segundo o mesmo autor, uma população equivalente à população do Paraguai. A produção se distribui conforme o gráfico 01: PRIMÁRIO 32,8% 59,0% SECUNDÁRIO TERCIÁRIO 8,2% Gráfico 01: Composição do Produto Interno Bruto de Santa Catarina em 2011. Fonte: IBGE-CIDADES (2012) O estado apresenta diversificação produtiva cuja característica marcante é a forte presença de concentração espacial entre os diversos setores, conforme afirma a FIESC em seu anuário Santa Catarina em Dados: A economia industrial de Santa Catarina é caracterizada pela concentração em diversos polos, o que confere ao estado padrões de desenvolvimento equilibrado entre suas regiões: cerâmico, carvão, vestuário e descartáveis plásticos no Sul; alimentar e móveis no Oeste; têxtil, vestuário, naval e cristal no Vale do Itajaí; metalurgia, máquinas e equipamentos, material elétrico, autopeças, plástico, confecções e mobiliário no Norte; madeireiro na região Serrana e tecnológico na Capital. Embora haja essa concentração por região, muitos municípios estão desenvolvendo vocações diferenciadas, fortalecendo vários segmentos de atividade. A indústria de base tecnológica além de estar presente na Grande Florianópolis também se destaca em Blumenau, Chapecó, Criciúma e Joinville. (FIESC, 2012, p. 11) A tabela 01 permite vislumbrar a composição do PIB catarinense: Categoria Valor em R$ Participação % Produto Interno Bruto 129.806 100,00% Impostos, Líquidos de Subsídios, Sobre Produtos 16.474 12,69% Total do Valor Adicionado Bruto 113.332 87,31% Indústria de Transformação 25.285 19,48% Comércio e Serviços de Manutenção e Reparação 18.926 14,58% 12.968 9,99% Atividades Imobiliárias e Aluguéis 9.773 7,53% Agricultura, Silvicultura e Exploração Florestal 6.230 4,80% Administração, Saúde e Educação Públicas e Seguridade Social Construção Civil 5.948 4,58% 5.590 4,31% 5.243 4,04% 5.093 3,92% Serviços Prestados às Empresas 4.143 3,19% Serviços de Informação 3.089 2,38% Pecuária e Pesca 3.012 2,32% Saúde e Educação Mercantis 2.388 1,84% Serviços Prestados às Famílias e Associativas 2.309 1,78% Serviços de Alojamento e Alimentação 1.866 1,44% Serviços Domésticos 1.078 0,83% 391 0,30% Produção e Distribuição de Eletricidade, Gás, Água, Esgoto e Limpeza Urbana Transportes, Armazenagem e Correio Intermediação Financeira, Seguros e Previdência Compl. e Serv. Relacionados Indústria Extrativa Tabela 01: Dados econômicos de Santa Catarina (2009) Fonte: IBGE-CIDADES (2012) Os dados foram segmentados em três grupos o primeiro é o total do PIB catarinense. O segundo grupo decompõe o PIB em tributos (Impostos, Líquidos de Subsídios, Sobre Produtos) e Valor Adicionado Bruto (VAB). O terceiro agrupamento descreve o PIB por setor produtivo, o qual, nada mais é do que a desagregação do VAB. A diversificação das atividades industriais pode ser visualizada na figura 01: Figura 01: Diversidade industrial de Santa Catarina Fonte: adaptada de FIESC, 2012. Alinhado com o mapa da FIESC, o SEBRAE-SC configurou sua percepção da divisão espacial da atividade econômica catarinense conforme a Figura 02. Figura 02: Subdivisão por Mesorregiões Fonte: Relatório Estadual SEBRAE/SC, Santa Catarina em números, 2010, p. 11. Como se percebe as regiões são caracterizadas por potencialidades econômicas diversas, as quais apresentam seis grandes complexos produtivos marcados sobre as regiões: sul, litoral, Vale do Itajaí, Planalto, Nordeste, Norte e oeste. No próximo tópico será abordada a fundamentação da metodologia para a identificação espacial dos clusters catarinenses Econometria espacial A caracterização de clusters tem sido um elemento importante na orientação do desenvolvimento regional. O primeiro trabalho de observação desse fenômeno foi descrito pelo economista Alfred Marshall ao examinar as concentrações industriais na Inglaterra durante o séc. XIX. Marshall observou que a supervalorização de terrenos próximos à região central das cidades realocava as indústrias nascentes nas regiões periféricas, possibilitando a criação de uma rede interativa de indústrias que orientavam a produção tanto para o abastecimento interno, quando externo. Marshall denominou essa formação de “Distrito Industrial”, sendo as consequências desse processo descrita da seguinte forma: [...] acabam por surgir nas proximidades desse local, atividades subsidiárias que fornecem a indústria principal, instrumentos e matérias-primas, organizam seu comércio e por muitos meios lhe proporcionam economia de material. (MARSHALL, 1982, p. 234)1. Marshall (1982, p.229) observou que a eficiência desses distritos era oriunda de “economias internas” e “economias externas”. A primeira, segundo ele, dependia dos recursos próprios das empresas bem como sua organização e eficiência administrativa, portanto a economia interna implicava em uma boa gestão de custos e no incremento de sua produtividade marginal. Já as economias externas, segundo o próprio autor, [...] podem ser conseguidas através da concentração de muitas pequenas empresas similares em determinadas localidades, ou seja, como se diz comumente, pela localização da indústria [...]. (Marshall, 1982, p.229). O fator locacional, segundo o autor, é determinado pelas disponibilidades físicas do local, tal como a natureza do solo, a existência de minas e de pedreiras nas proximidades, ou o fácil acesso por terra ou mar. 1 Foram utilizadas duas edições diferentes desta obra, pois a edição mais antiga apresenta conteúdo adicional em relação a mais nova. O arranjo institucional também foi importante, neste caso, a corte inglesa teve papel decisivo na formação desses distritos, para Marshall (1982, p. 232): O rico contingente lá reunido dá lugar a uma procura para as mercadorias de uma qualidade excepcionalmente alta, e isso atrai operários especializados, vindos de longe, ao mesmo tempo em que educa os trabalhadores locais. De maneira geral, Marshall (1982) argumentava que o aumento da produção, e por consequência, o aumento das economias internas das chamadas empresas representativas, seria capaz de aumentar as economias externas da rede na qual está inserida, alavancando economias de escala do setor industrial. Dos estudos de Marshall (1982) derivou-se o conceito clássico de Cluster, o qual é explicado por Dacol e Cabete (2008, p. 03): [...] os clusters representariam um conceito mais abrangente, envolvendo todo tipo de aglomeração de atividades geograficamente concentradas e setorialmente especializadas – não importando o tamanho das unidades produtivas, nem a natureza da atividade econômica desenvolvida, podendo ser da indústria de transformação, do setor de serviços e até da agricultura. A identificação espacial pode se dar por meio de uma simples localização visual da produção nos mapas disponíveis ou por métodos estatísticos-econométricos. Segundo Carvalho e Albuquerque (2010, p. 07): Nas últimas décadas, um conjunto cada vez maior de ferramentas analíticas para tratamento de dados espaciais tem surgido na literatura especializada. Estas ferramentas têm auxiliado pesquisadores em diferentes campos da ciência a lidar com a crescente disponibilidade de bases de dados georreferenciados. A vantagem dos métodos econométricos se dá pelo estabelecimento de graus de autocorrelação espacial. Nesse caso, a identificação de um cluster se torna mais clara do que a mera observação dos endereços da produção. Adicionalmente, caso os dados sejam coletados com relevante periodicidade e fidedignidade, é possível estabelecer outros diagnósticos interessantes, por exemplo, a identificação de municípios indutores de crescimento regional, bem como o efeito multiplicador que este proporciona. A estatística ou índice de Moran é uma forma de se estabelecer a relação espacial entre os diversos elementos de uma região geográfica. Segundo Martinho (2005, p. 198), índice de Moran é calculado pela fórmula (1) descrita abaixo: (1) Onde, n: Número de municípios da amostra S: Escalar constante dado pela soma de todas as distâncias entre os municípios wi e wj: são os pesos econômicos dos municípios i e j (variável ligada à produção) xi e xj são as taxas de crescimento observadas nas localidades i e j (com média = u). u: média dos pesos A estatística de Moran Local (Ii) – LISA - Local Indicator of Spatial Association, é um recurso que pode ser utilizado para determinar a autocorrelação espacial local. A mesma é calculada pela seguinte equação (2): (2) Onde: wi e wj: são os pesos econômicos dos municípios i e j (variável ligada à produção) xi e xj: são as taxas de crescimento observadas nas localidades i e j (com média = u). A interpretação dos resultados obtidos pelo I de Moran, tanto global quanto local, é explicada por Monasterio e Ávila (2004), segundo os quais, o indicador em questão pode oscilar entre (+1) e (-1). Um I de Moran próximo de (+1) indica que aquela região do mapa é cercada por vizinhos semelhantes (ex.: o município X apresenta produção alta do bem A, e este é vizinho do município Y, o qual também é caracterizado como grande produtor do bem A). O raciocínio quanto à semelhança de produção é inverso quando o I de Moran é negativo. 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Este artigo, quanto aos seus objetivos é classificado como descritivo, o qual, segundo Gil (2010) procura descrever as principais características de uma dada população ou de um fenômeno específico. Carvalho e Albuquerque (2010, p. 08), expressam mais proximamente o perfil descritivo desse artigo: Em geral, os artigos que utilizam a abordagem descritiva se iniciam com uma discussão da teoria econômica, que pode estar ou não embasada em modelos matematicamente fundamentados. A partir de regressões e outros indicadores estatísticos, os autores buscam encontrar evidências nas relações entre as variáveis que possam corroborar uma determinada teoria (possivelmente, em detrimento de teorias alternativas). Em relação ao delineamento da pesquisa realizada no presente estudo, definiu-se que esta se classifica como um levantamento. Segundo Vergara (2009), este tipo de delineamento de pesquisa caracteriza-se pela coleta de informações do objeto de pesquisa para conhecer seu padrão de comportamento. Este objeto pode ser uma pessoa ou um grupamento (organização). No caso do presente artigo o objeto são os clusters produtivos catarinenses. E o que se pretende entender é como eles se localizam espacialmente. Para a coleta dos dados, será utilizado o recurso da documentação indireta, a qual consiste no estudo e apreciação de materiais explicativos elaborados por terceiros, os quais, especificamente para este artigo, se manifestam por meio de planilhas de dados de consumo industrial por setor produzido pela Celesc S.A.. De acordo com (LAKATOS; MARCONI, 2010), a coleta de dados de documentação indireta explicita informações de fontes de caráter primário. Os dados coletados advieram de uma amostra por acessibilidade, ou seja, de acordo com a disponibilidade das informações procuradas. As informações disponíveis até o momento remontam de 2000 até 2012. A análise dos dados se deu em conformidade com a definição elaborada por Pinheiro et al (2009, p.02): Identificar comportamentos médios, comportamentos discrepantes, comparar comportamentos, investigar a interdependência entre variáveis, revelar tendências etc. A partir de uma massa de dados, e com o auxílio dos recursos computacionais, separar o que é essencial (estrutura) do que é eventual (ruído). Resumir, de forma eficiente, a informação contida nos dados e assim permitir que, através desse conhecimento, as decisões sejam tomadas de forma mais consciente. Considerando que a presente proposta de pesquisa tem caráter quantitativo, está em linha com a definição de análise dos dados proposta por Pinheiro (2009) e, que possui perfil descritivo conforme Carvalho e Albuquerque (2010), o tratamento dos dados será econométrico e estatístico. Para operacionalizar os cálculos e a representação econométricoespacial será utilizado o software GeoDA. Uma possível limitação desse estudo diz respeito à desigual distribuição dos investimentos em tecnologia, os quais podem distorcer a interpretação dos dados em relação à hipótese de que o consumo de energia elétrica industrial revela a posição geográfica dos clusters produtivos. 4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os dados utilizados nesse artigo foram categorizados em classes de consumo industrial de energia elétrica das Centrais de Energia Elétrica de Santa Catarina S.A. - Celesc, as quais constam no quadro 01: ATIVIDADE Diagnóstico Extração de Carvão Mineral Extração de Petróleo e Serviços Correlatos Extração de Minerais Metálicos Estável Ampliou Estável Extração de Minerais Não-Metálicos Ampliou Fabricação de Produtos Alimentícios e Bebidas Fabricação de Produtos do Fumo Estável Diminuiu Fabricação de Produtos Têxteis Ampliou Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios Ampliou Preparação de Couros e Art. Couro, Art. Viagem e Calçados Ampliou Fabricação de Produtos de Madeira Fabricação de Celulose, Papel e Produção de Papel Ampliou Estável Edição, Impressão e Reprodução de Gravações Diminuiu Fabricação de Produtos Químicos Estável Fabricação de Artigos de Borracha e Plástico Ampliou Fabricação de Produtos de Minerais Não-Metálicos Estável Metalúrgica Básica Fabricação de Produtos de Metal, Exclusive Máquinas e Equipamentos Fabricação de Máquinas e Equipamentos Estável Estável Estável Fabricação de Máq. Para Escritório e Equipamentos de Informática Estável Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos Fabricação de Material Eletrônico e de Aparelhos e Equipamentos de Comunicação Estável Estável Principal localização no Estado Sul Nordeste Nordeste Nordeste/Vale do Itajaí Oeste Nordeste/Norte Nordeste/Vale do Itajaí Nordeste/Vale do Itajaí Leste/Grande Florianópolis Norte/Planalto Norte/Planalto Nordeste/Vale do Itajaí Nordeste/Sul Nordeste/Vale do Itajaí Planalto/Grande Florianópolis Nordeste/Planalto Nordeste Nordeste Nordeste/Grande Florianópolis Nordeste Grande Florianópolis Fabricação de Equipamentos de Instrumentos Médico Hospitalar, Instrumentos de Precisão e Óticos, Equipamentos para Automação Industrial, Cronômetros e Relógios Fabricação e Montagem Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias Fabricação de Outros Equipamentos de Transporte Estável Nordeste/Vale do Itajaí Diminuiu Estável Nordeste Vale do Itajaí Nordeste/Vale do Fabricação de Móveis e Industrias Diversas Estável Itajaí Planalto/Grande Reciclagem Ampliou Florianópolis Eletricidade, Gás e Água Quente Estável Planalto Captação, Tratamento e Distribuição de Água Estável Todo o Estado Nordeste/Grande Construção Estável Florianópolis Quadro 01: Diagnóstico e identificação dos clusters de consumidores industriais de energia elétrica Fonte: dados primários. A Celesc divide seus clientes em 16 Agências regionais: Florianópolis, Joinville, Lages, Blumenau, Videira, Concordia, Jaraguá do Sul, Joaçaba, Criciúma, São Miguel d’Oeste, Rio do Sul, Tubarão, Mafra, São Bento do Sul, Itajaí, Chapecó. Essas Agências regionais distribuem energia elétrica para todos os municípios de Santa Catarina. Foram registradas 29 categorias de consumo industrial de energia elétrica, todas foram mapeadas por meio da autocorrelação espacial e o resultado geral está exposto no Anexo 01. Ao se analisar os dados, podem ser destacadas as seguintes cidades-polo: Brusque, Blumenau, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul e Joinville. Em diversas atividades industriais tais cidades-polo são as mais frequentes. Os setores que apresentaram aumento do número de municípios pertencentes ao cluster foram: Extração de Petróleo e Serviços Correlatos, Extração de Minerais NãoMetálicos, Fabricação de Produtos Têxteis, Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios, Preparação de Couros e Art. Couro, Art. Viagem e Calçados, Fabricação de Produtos de Madeira, Fabricação de Artigos de Borracha e Plástico e, Reciclagem. Essas atividades espalharam-se, predominantemente, nas regiões Nordeste e Vale do Itajaí. Apenas três setores sofreram redução de tamanho: Fabricação de Produtos do Fumo, Edição, Impressão e Reprodução de Gravações, e, Fabricação e Montagem Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias. Nos mapas referentes a estes clusters, o que se percebe é a diminuição das relações Alto-Alto (municípios com alta produção que apresentam também alta correlação espacial – LISA com municípios de alta produção) e predominância da relação baixo-baixo (municípios com baixa produção que apresentam também alta correlação espacial – LISA com municípios de baixa produção). Isso indica que o cluster está se “dissolvendo” ao longo do tempo. A maioria dos clusters permaneceram estáveis, tais como: Extração de Carvão Mineral, Extração de Minerais Metálicos, Fabricação de Produtos Alimentícios e Bebidas, Fabricação de Celulose, Papel e Produção de Papel, Fabricação de Produtos Químicos, Fabricação de Produtos de Minerais Não-Metálicos, Metalúrgica Básica, Fabricação de Produtos de Metal, Exclusive Máquinas e Equipamentos, Fabricação de Máquinas e Equipamentos, Fabricação de Máq. Para Escritório e Equipamentos de Informática, Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos, Fabricação de Material Eletrônico e de Aparelhos e Equipamentos de Comunicação, Fabricação de Equipamentos de Instrumentos Médico Hospitalar, Instrumentos de Precisão e Óticos, Equipamentos para Automação Industrial, Cronômetros e Relógios, Fabricação de Outros Equipamentos de Transporte, Fabricação de Móveis e Industrias Diversas, Eletricidade, Gás e Água Quente, Captação, Tratamento e Distribuição de Água e, Construção. Dentre todas as atividades industriais, a extração de carvão mineral e Tratamento e Distribuição de Água foram as que apresentaram as menores mudanças em relação ao mapeamento dos municípios. Em outro extremo, a Fabricação de Produtos de Minerais NãoMetálicos, apesar de estável em número de municípios, percebeu-se maior modificação de cidades produtoras. 5 CONCLUSÕES O principal resultado desse artigo foi o mapeamento da evolução dos clusters de consumo industrial de energia elétrica. O produto final está exposto no Anexo 01. Com base nos dados coletados, por meio de uma série histórica georreferenciada de consumo de energia elétrica para uso industrial, foi possível identificar como evoluíram os clusters, e até mesmo verificar, em alguns casos uma mudança de eixo da produção. Outro resultado foi o cálculo do valor da correlação espacial por tipo de atividade econômica, nesse caso, por meio do LISA, Local Indicator of Spatial Association. Essa correlação espacial dá forma aos mapas elaborados para este artigo. A segmentação espacial dos clusters indicou, em alguns casos, a mobilidade da indústria entre diferentes municípios ou regiões do Estado de Santa Catarina, ao longo do tempo, entre os anos de 2000 e 2012. Ao se visualizar a evolução/mobilidade dos clusters, percebe-se a importância desse estudo. Tanto o poder público quanto os investidores podem utilizar essas informações para decisões governamentais ou de investimentos (tanto o governo quanto os investidores), os quais se beneficiam da proximidade de atividades de apoio ou logísticas específicas de cada indústria, características normalmente encontradas em clusters. Como sugestão para estudos futuros, a metodologia empregada permitirá encontrar a elasticidade-PIB entre o crescimento das regiões com maior dinâmica sobre as regiões mais “dependentes” economicamente. REFERÊNCIAS CARIO, S. A. F. et al. Economia de Santa Catarina: inserção industrial e dinâmica competitiva. Blumenau: Nova Letra, 2008. CARVALHO, A. X. Y; ALBUQUERQUE, P. H. 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